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uma viagem entre o céu e o inferno

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Uma Viagem Entre o Céu e o Inferno

Luiz Humberto Leite Lopes
com Mara Ziravello

Uma Viagem Entre o Céu e o Inferno
Os surtos de euforia e depressão no depoimento de um portador de Transtorno Bipolar

Prefácio Dr. Luis Altenfelder

Copyright © Luiz Humberto Leite Lopes, 2007 Preparação: Fabiana Medina Revisão: Margô Negro Diagramação: Renata Milan

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lopes, Luiz Humberto Leite Uma viagem entre o céu e o inferno : os surtos de euforia e depressão no depoimento de um portador de transtorno bipolar / Luiz Humberto Leite Lopes com Mara Ziravello; prefácio Luis Altenfelder. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007. ISBN 978-85-7665-247-2 1. Lopes, Luiz Humberto Leite 2. Pacientes de transtorno bipolar - Biografia 3. Transtorno bipolar I. Ziravello, Mara. II. Altenfelder, Luis . III. Título. 07-1047 CDD-616.8950092 07-1047 NLM-WM 207
Índices para catálogo sistemático: 1. Transtorno bipolar do humor : Portadores : Autobiografia 616.8950092

2007 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Academia de Inteligência vendas@editoraplaneta.com.br

“Ao amor, que não remove montanhas, mas nos transforma em alpinistas.”

Sumário

u
ApresentAção prefácio 9 13 17 77 95 127 149 167 197 213

primeiro ciclo 1990 segundo ciclo Janeiro / 1975 terceiro ciclo Outubro / 2005 QuArto ciclo 1993 Quinto ciclo Novembro / 2005 sexto ciclo 1997 sétimo ciclo Fevereiro / 2006 oitAvo ciclo Julho / 1997

nono ciclo Maio / 2006 décimo ciclo 2000 epílogo

229 247 265

Apresentação

u
Este é um livro-depoimento, profundo, lúcido e até bemhumorado, de um portador de doença psiquiátrica. Luiz Humberto Leite Lopes, mineiro de 39 anos, comerciante do setor de moda, convive há dezesseis anos com o transtorno bipolar, doença antigamente conhecida como psicose maníaco-depressiva (PMD). Sua principal característica é a oscilação do humor entre dois pólos (por isso o nome bipolar): a euforia e a depressão – com períodos de estabilidade entre ambos. Basicamente, ela ocorre de três formas, distintas entre si pelas manifestações: períodos de euforia (hipomania seguida de mania), caracterizados por extremo otimismo e compras desnecessárias, alternados com períodos depressivos (ausência de ânimo, prazer, energia), podendo apresentar surtos psicóticos, com delírios e/ou alucinações; períodos de pequena euforia (hipomania), seguidos de períodos mais longos e duradouros de depressão; extrema irritabilidade, com oscilações bruscas de humor, podendo variar entre os pólos rapidamente (às vezes até no mesmo dia). Hoje, ela é diagnosticada em cerca de 2,5% da população mundial, de acordo com estatísticas apresentadas no Simpósio Internacional de Novas Abordagens Terapêuticas do Transtor-

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no Bipolar do Humor, realizado pelo Programa de Doenças Afetivas (Prodaf), do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em setembro de 2002. Sua comprovação, porém, não é nem tão rápida nem tão clara na maioria dos casos, pois depende de um ciclo que se fecha apenas com o passar do tempo (nos EUA, chega a levar até sete anos para ser diagnosticada corretamente). A bipolaridade do autor deste depoimento é codificada pela Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10 como F 31.2 – Transtorno Afetivo Bipolar, episódio atual maníaco com sintomas psicóticos. Mas, no começo, nem ele nem os médicos sabiam disso. Com uma linguagem acessível aos leigos, Luiz Humberto descreve emoções, pensamentos, delírios, alucinações, temores e certezas que atravessaram sua mente durante os dois surtos psicóticos pelos quais passou e os episódios de depressão profunda, dentre eles uma tentativa meticulosamente planejada de suicídio. No primeiro surto, aos 22 anos, ele acreditava ter de permanecer morto por dez minutos a fim de regressar, mediante um transplante de coração, com a resposta do grande enigma da humanidade: de onde viemos e para onde vamos. Ao despertar numa clínica psiquiátrica, enfrentou as confusões mentais de quem está na linha divisória entre a loucura e a sanidade. Como distinguir realidade e fantasia? Por que acreditar em quem não acredita naquilo que é óbvio para ele? De que maneira expressar seus pensamentos se suas enormes dificuldades motoras, provenientes dos medicamentos, o impediam até mesmo de abrir os olhos? Seu primeiro diagnóstico foi estresse. Aos poucos, a euforia cedeu e deu lugar à angústia. Chegou a vez da depressão. Em

ApresentAção

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seu relato, Luiz Humberto consegue dar conteúdo ao extremo vazio que dói de forma inimaginável. Começam as tentativas de medicação para controlar as oscilações do humor, resultantes do descontrole de substâncias químicas, as quais interferem diretamente nos pensamentos, no comportamento e nas ações. Finalmente, de volta ao trabalho, reconhece que seu tino comercial e seu raciocínio lógico, sempre tão aguçados, permanecem intactos. É quando também começa sua necessidade de entender sua doença. Intercalando sua narrativa com momentos presentes e experiências passadas, o autor fala da importância do apoio de familiares e amigos e dos limites dessa ajuda para evitar que o doente psiquiátrico se torne realmente incapaz, do estigma, da revolta, da reinclusão na sociedade e da necessidade incondicional de aderir aos tratamentos alopático e psicológico. Volta a momentos marcantes de sua infância e explica de que maneira os relatos feitos à sua atual terapeuta ganharam forma de livro. Ao destrinchar a doença psiquiátrica do ponto de vista do doente – e não do psiquiatra –, Luiz Humberto revela a importância de estar atento aos indícios de um eventual surto. Na maioria das vezes, esses sinais passam despercebidos até pelas pessoas mais próximas. A dificuldade em separar o que é da personalidade do indivíduo daquilo que é insanidade desencadeada pelo desequilíbrio de substâncias químicas é a grande armadilha desse tipo de bipolaridade. Ao relembrar seu segundo surto psicótico, o autor vai mostrando, aos poucos, como reentrou num episódio de mania. Aceleração do pensamento, pouca necessidade de sono – e a preocupação crescente com o uso abusivo de água potável! É possível acompanhar, neste

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depoimento, como os pensamentos mágicos se encaixam com os fatos reais tornando tudo lógico e incontestável. Por fim, o autor faz uma pausa antes de contar sua real tentativa de suicídio realizada dentro da própria clínica psiquiátrica, fruto de um plano bem arquitetado e mantido sob o mais absoluto sigilo. Novamente indícios, sinais que passam despercebidos e nem sempre levam a um final feliz. Hoje, Luiz Humberto vive um longo período de estabilidade. Criou um gráfico por meio do qual controla as oscilações de seu humor – e orienta-se com seu psiquiatra a respeito das dosagens necessárias para conservar o equilíbrio. Mantém o acompanhamento psicológico como um compromisso inadiável. Como todos os ditos “normais”, trabalha, produz, cria, chora, ri, sofre e se diverte.

mArA ZirAvello
Psicóloga/Terapeuta

Prefácio

u
Ser portador de um transtorno psiquiátrico é muito diferente de ser um doente mental. O transtorno mental acomete o indivíduo em determinada fase de sua vida e, na maioria das vezes, é transitório, remitindo com tratamento adequado, porém raramente isso ocorre espontaneamente. Já a doença mental traz ao doente uma porção de estigmas inerentes ao imaginário da população: incapaz, descontrolado, bizarro, sem crédito, louco, maluco, pirado etc. A crença é de que não há cura. Portanto, é crônica. Há uma dificuldade em definir o que é doença crônica para a medicina em geral. O termo crônico é aplicado a diversas doenças, cujo denominador comum é a longa duração ou a freqüência de recaídas. Este termo é pouco claro, utilizado sem critério estabelecido e, principalmente, contaminado por fatores não científicos, fundamentalmente pelos prejuízos causados pela doença mental, além de ser estigmatizante. Como o leitor verá no relato de Luiz Humberto, o transtorno vai aparecendo de forma imperceptível. Pequenas modificações acontecem e são sutis, mas a visão de mundo vai se transformando em função de novas percepções e, assim, a nova

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realidade acontece, singular, própria somente desse indivíduo, fato que o difere dos demais e faz com que seja visto com desconfiança e medo. Desse modo, é isolado, pois os circunstantes não conseguem lidar com a diversidade e lançam mão da palavra normal, que é massificante, e por isso oferece segurança, ao contrário do descontrole, que é subversivo e contagioso, louco e, portanto, anormal. A psicose não liberta, mas limita e aprisiona. Em outras palavras, a “loucura” do paciente psicótico, longe de ser um movimento salutar, expressa o sofrimento de quem ficou enredado nas malhas da doença e, dessa forma, perdeu sua liberdade. O tratamento consiste na busca dessa libertação. Utilizam-se recursos da medicina, com medicamentos que tratam disfunções e por isso aliviam e remitem os sintomas. A psicoterapia auxilia no entendimento de vivências que foram importantes para a eclosão do surto psicótico, além de ajudar a refletir sobre o cotidiano na busca de explicações e transformações que irão construir uma maneira de viver mais livre. Contudo, quem passa por uma intempérie, vítima desse “tsunami” que é o transtorno mental, necessita principalmente reconstruir sua vida. Essa reconstrução se faz também via reabilitação psicossocial. Neste livro, o autor nos mostra de forma corajosa seu trajeto – agente de sua própria reabilitação –, abre sua intimidade, compartilha seus pensamentos e relata como é o seu transtorno bipolar. Mostra, assim, muito mais que seu transtorno. Desvenda sua vida e faz com que apareça o Luiz Humberto, e não o doente. Conta seu processo na reconquista de sua liberdade e, certamente, o leitor irá rever seus preconceitos.

prefácio

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Quem é portador de algum transtorno mental será encorajado na busca de tratamento e verá que a vida é muito mais que uma doença.

dr. luis de morAes Altenfelder silvA filho
Psiquiatra do CRHD (Centro de Reabilitação do Hospital Dia) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP)

primeiro ciclo

1990

Estava morto. O lugar, todo branco e espaçoso. Acreditei ser algum tipo de purgatório. Não conseguia ver meu corpo. Não tinha a menor noção de tempo ou espaço. Apenas uma sensação de torpor. Gritar seria inútil. De repente, apareceu um ser em forma humana, com vestes brancas. Escutei um choro, qual um coral de carpideiras. Os fatos eram concretos, inegáveis: estava no meu próprio velório. Minha vida toda passou como um curta-metragem. Realizei um autojulgamento, a fim de me preparar para o que estava por vir.

cApítulo 1

Workaholic
Vivia o auge da minha juventude aos 22 anos. Passeava, namorava, tinha muito o que aproveitar da vida e a administrava de maneira feliz, na maioria do tempo. Trabalhava de doze a quatorze horas por dia, tinha um cargo executivo, gerenciava uma confecção e acumulava as funções de comprador de duas lojas de atacado, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. De forma sutil, comecei a ter o raciocínio mais rápido. Dormir oito horas já não era uma necessidade. Ao contrário, passou a ser perda de tempo. Quando conseguia dormir cerca de quatro horas, despertava várias vezes para anotar as idéias que surgiam em um caderno guardado ao lado da cama justamente para isso. E as idéias eram muitas, todas igualmente importantes. Como sempre fui uma pessoa “elétrica”, acredito que houve uma certa demora até que eu mesmo notasse indícios de que alguma coisa não estava correndo bem. Por conta própria, resolvi tirar uns três dias para descansar. Mas, por mais que tentasse, não conseguia parar de pensar. Ao invés disso, a velocidade do meu raciocínio aumentava cada vez mais. De repente, as coisas começaram a fazer sentido. Comecei a entender amplamente o significado da vida e consegui estabelecer uma lógica. “De onde viemos” e “para onde vamos” não eram mais perguntas sem respostas. Tudo estava muito claro! Fazemos parte de um grande círculo, no qual mineral, vegetal,

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animal e espírito são partes de um todo. E, ao me dar conta de ter decifrado de forma tão simples questões tão enigmáticas, me vi numa posição ímpar: finalmente alguém tinha respostas para o maior questionamento da humanidade. Com a sensibilidade aflorada num misto de satisfação e confusão, senti-me extremamente cansado. Entretanto, continuavam inúteis minhas tentativas de parar de pensar e, a cada momento, a compreensão do que acabara de ter era potencializada.

cApítulo 2

BurAco negro
Com esse saber recém-adquirido, também me dei conta de que a verbalização não era mais necessária. Antes de formular uma pergunta para qualquer pessoa, já conseguia saber a resposta. Comecei, assim, a exercitar esse novo dom, a telepatia. Minha enorme responsabilidade era evidente, pois, além dos poderes telepáticos, eu também me tornara capaz de induzir a atitude dos outros, que passaram a fazer coisas por mim determinadas. Depois de perambular bastante pela rua, retornei à minha casa. Morava na época com minha mãe, uma de minhas três irmãs e meus dois irmãos. Fui direto ao quarto para tentar dormir um pouco, porém isso passou a ser um prazer cada vez

BurAco negro

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mais raro e eu me tornava incapaz de usufruí-lo. Percebendo que eu não estava bem, minha irmã se dispôs a fazer um exercício de relaxamento e meditação. O resultado foi como nitroglicerina pura. Relaxar era um luxo a que eu não tinha mais direito, e a meditação... bem, ela acabou potencializando minha velocidade de raciocínio. Mesmo assim, consegui permanecer calado e de olhos fechados – até minha irmã me deixar sozinho e fechar a porta do quarto. Por trás das pálpebras, eu me vi diante de um buraco negro, onde tudo e nada oscilavam entre a falta e a existência de sentido, e o impossível deixara de existir. Suportei algum tempo, até um grito horripilante escapar de dentro de mim. Talvez por suspeitarem que eu estivesse sob efeito de algum tipo de substância entorpecente, meu irmão mais velho e minha irmã resolveram me levar para arejar. Já era noite e, ao deixar minha casa, tive certeza de que a minha vez de morrer chegara. Para que eu enganasse a morte, seria necessário que um outro indivíduo fosse em meu lugar. Mas não! Não era isso! De repente, percebi que era a hora de minha mãe! Se eu não a substituísse, ela morreria. Ciente desse fato, prontifiquei-me a ir com meus irmãos para o eventual sacrifício. Assim, além de quebrar a roda da morte da minha mãe, teria também algumas outras pessoas que eu poderia redimir. Entramos no carro. Meu irmão na direção, minha irmã no banco do passageiro e eu, no de trás. Percorremos alguns quilômetros sem que a morte desistisse de me perseguir. Decidi, então, colocar uma mão no ombro de cada irmão. Com o coração disparado em taquicardia, comecei a me preparar para deixar esta dimensão, mas pelo menos conseguiria transferir

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minha energia e meus conhecimentos para os que estavam no banco da frente. Paramos em frente à Cidade Universitária de São Paulo, o campus da famosa USP. Como já era tarde, a portaria estava fechada. Meu irmão sugeriu dizer que íamos à ECA (Escola de Comunicação e Artes). Ao chegarmos diante do porteiro que estava na guarita, ele apenas falou: “ECA”. Os portões se abriram, e meu irmão observou que aquilo funcionava como uma espécie de “abre-te, Sésamo!”. Fiquei pasmo e comecei a suar frio. Só pensava na fila da morte. Mas, como tinha sido levado até a USP, onde se concentram muitos mestres, professores e estudiosos, me vi diante de uma nova perspectiva, uma possibilidade de “enganar a morte”. Seria uma experiência na qual eu teria de permanecer morto por dez minutos. Após a constatação da morte e o atestado de óbito ter sido lavrado, teria início o procedimento de ressuscitação. Se algo corresse errado, fariam um transplante de coração. O carro parou defronte a um campo. Ao descer, estava desfalecendo. A equipe já estava avisada e viria de helicóptero. Fiquei aguardando sua chegada, mas parecia que algo não estava correndo de acordo. Seria com a equipe de cardiologistas? A falta de um doador compatível? Não sabia. Talvez alguma mudança repentina de planos. Então voltamos ao veículo. Eu estava desnorteado. Meu irmão dirigia para um endereço desconhecido, na região dos Jardins. Tudo se passava muito rápido. O vento que entrava pelos vidros abertos aumentava o frio do suor que escorria pelo meu rosto. A sensação das luzes embaçadas aumentava com a velocidade do carro. Nem percebi quando paramos na frente de um

BurAco negro

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edifício em uma rua arborizada. Entramos na garagem e lá, já nos aguardando, estava um homem de uns 35 anos, alto, com 1,85m, cabelos loiros, usando óculos e uma expressão tranqüila. Minha irmã me apresentou a ele: “Doutor, este é o irmão de quem lhe falei”. O médico disse para ficarmos tranqüilos. Estava tudo acertado na clínica e poderíamos nos encaminhar para lá. Ele entrou em outro carro e pediu que o seguíssemos. Continuei no banco de trás, naturalmente com as mãos nos ombros de meus irmãos para o caso de não resistir à viagem. Seguimos o carro preto do doutor e já estávamos entrando na rodovia Castello Branco quando perdi a noção de tempo e espaço. Sentia novamente uma forte taquicardia e me preparava para a morte, quando chegamos a um lugar amplo, parecido com um convento, com a placa Clínica Alphaville, bem visível.

cApítulo 3

ludiBriAndo A morte
Já não tinha mais forças. Precisei da ajuda de meus irmãos e do doutor para descer do carro e me encaminhar para a entrada da clínica. Embora estivesse me apoiando em todos, sentia sozinho a responsabilidade de ludibriar a morte das pessoas que dependiam desse meu ato. Logo, deparei-me com uma porta alta, atrás da qual meu destino seria selado. Ela se abriu

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e apareceu uma senhora de branco, que imaginei ser a enfermeira. Fez menção para entrarmos e informou que estava tudo acertado; já estavam me aguardando. Parei de sentir minhas pernas, com o medo de um mártir a ser executado. Todos ajudaram a me carregar e me acomodaram numa maca, em uma espécie de enfermaria. Senti uma picada. Olhei para meu braço esquerdo e vi um líquido amarelado sendo injetado na minha veia. Percebi a substância se misturar ao meu sangue e começar a percorrer o meu corpo. Ao atingir meu cérebro, tudo começou a embaçar e tratei de me preparar para o inevitável: o transplante de coração. Ouvi as migalhas de conversas das pessoas que estavam ao meu redor: “Elee vaai ficaar bemm”, “Agoraaa o queee eleee precisaaaa ééé reeelaxaaar”, “Eleee estáááááá emmm boooaas mãããooos......................”. Tudo ficou branco e comecei a ver uma luz tímida que aos poucos ficava mais forte. Na medida em que ela aumentava, o medo era substituído pela tranqüilidade e pela paz. Morrer não é difícil. O problema é a aceitação. Por mais que se saiba que ao nascer começa um processo degenerativo que obviamente irá resultar em morte, morrer é uma “viagem ao desconhecido”, da qual não existe um ser que tenha retornado e comprovado de modo científico esse mistério. Mas isso estava para mudar! Ao me sujeitar a todo esse complexo processo de ludibriar a morte, esperava retornar e trazer comigo algumas respostas para o enigma maior da humanidade: para onde vamos e de onde viemos.

ecA

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cApítulo 4

ecA
Algo havia dado errado. Estava em estado de letargia, em um quarto branco, e começava a questionar se era o purgatório. Fiquei um tempo olhando fixamente a única porta que havia, atento a qualquer barulho que viesse do outro lado. Percebi que havia alguém ali. Lembrei do fato ocorrido na USP, quando meu irmão havia dito que ECA abria as portas. Como pude ser tão displicente?! Ele tinha dado esta deixa para mim de forma subliminar, como um código, pois não podia dizer explicitamente! Aproximei-me da porta e falei: “ECA”, em voz baixa. Esperei que se abrisse. Como nada acontecia, passei a gritar: “ECA”, “ECA”, “ECA”, cada vez mais alto e forte. Funcionou, a porta se abriu. Novamente, apareceu um ser aparentemente humano, de vestes brancas. Seu rosto era esquisito. Não era feio. Apenas parecia uma mistura de várias faces que eu já tinha visto. Tinha a testa curta e o formato estranho da cabeça me lembrava um pouco um homem das cavernas, só que sem a barba e sem os trajes característicos, como peles de animais. Num rompante, com uma necessidade imensa de sair daquele purgatório e munido de um instinto animal, talvez por estar diante de um troglodita, reuni forças não sei de onde e consegui transpor aquele ser que mais parecia um muro. Ao sair por aquela porta, sem saber o que esperar, entrei numa sala muito ampla, com móveis rústicos. Do lado direi-

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to, algumas portas abertas davam acesso a um belo jardim, onde havia a luz do sol e alguns vultos. Estava com a visão turva. Mesmo assim, foquei, no final da sala, uma porta alta de duas folhas, uma espécie de portal. Quando estava quase chegando, vi o troglodita acompanhado de mais dois seres. Fiquei acuado como um animal prestes a ser capturado. Novamente, o instinto falou – ou melhor, GRITOU – mais alto. Ao perceber um rápido vacilo de meus perseguidores, transpassei o portal que dava em um corredor comprido. No fundo, conseguia enxergar uma espécie de vitral multicolorido que formava uma imagem que não conseguia identificar, talvez por estar com a visão turva ou pela luz que ele refletia. Hipnotizado por aquele vitral arco-íris, parei na frente dele e percebi outro portal, dessa vez do meu lado direito, com vidros transparentes que tornavam possível enxergar o outro lado.

cApítulo 5

mesA redondA
Sentia-me um espectador. Parado diante de um portal, olhava através do vidro admirando uma pintura surrealista, em que tudo era possível. Nessa tela, havia um salão enorme com pé-direito alto. No centro, um jardim-de-inverno, com vários tipos de planta. Ao fundo, uma estante alta e comprida

m esA redondA

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de madeira bruta, com muitos livros. Várias janelas, todas abertas, refletiam a luz do sol que imprimia um brilho especial ao salão. Os móveis rústicos remetiam a uma época feudal, mas o que me chamou a atenção foi uma mesa redonda, em torno da qual era feita uma reunião nos moldes do lendário rei Arthur e seus cavaleiros. Só que os personagens ali reunidos, para meu espanto, não eram pessoas desconhecidas. Eram todos meus familiares! A única pessoa desconhecida estava de costas conversando com eles, obtendo atenção unânime. Distraído com aquela quantidade de informações e surpreso com aquela visão, de repente senti uma mão segurando meu braço. Havia esquecido de meus perseguidores. Dessa vez fiquei mudo. Não conseguia assimilar o que ocorria ou o que tramavam. O que eu fazia era tentar manter um contato telepático com minha irmã, sentada num ponto da mesa de onde era possível me ver, mas ela olhava atentamente como os demais para aquele incógnito orador. Com os olhos semicerrados, concentrei-me ao máximo para enviar uma mensagem simples: “Olhe para mim!”. Quando ela desviou a atenção do interlocutor e nossos olhares se cruzaram, senti uma alegria enorme, talvez por encontrar um olhar fraterno, talvez por ter conseguido me comunicar telepaticamente ou por poder questionar pela primeira vez se estava realmente morto. Minha irmã interrompeu o orador, que se levantou e dirigiu-se para a porta. Demorei alguns instantes para reconhecê-lo. Só vira uma vez o doutor, o mesmo que encontráramos naquela rua arborizada dos Jardins. Ele fez um simples gesto e senti a mão que segurava meu braço se soltar, então ele abriu a porta. Com uma voz calma e serena, disse a todos que estava tudo

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bem e me convidou para fazer parte do que até momentos atrás era uma visão surrealista. Senti como se estivesse entrando num quadro.

cApítulo 6

estresse
Reencontrar meus entes queridos foi uma sensação muito boa, mas alguns pontos não batiam. Aliás, nenhum deles. Apenas uma palavra fez sentido entre as tantas que pronunciavam: estresse. Já ouvira falar, tinha lido a respeito, mas sempre foi algo distante da nossa realidade. No entanto, era uma resposta plausível. Muito trabalho, responsabilidades, o mal do século, o problema da sociedade contemporânea, e lá estava eu vitimizado pelo vilão. Senti um alívio. Na verdade, há três ou quatro anos eu não tirava férias e essa seria uma ótima oportunidade. Mas, infelizmente, não seria possível. O ideal era ficar ali na clínica e ter pouca quantidade de estímulos, submeter-me a exames e algumas medicações e descansar bastante. A expressão e o silêncio de todos em torno da mesa revelavam a aceitação dessa possibilidade. Comecei a sentir o peso de toda aquela aventura, a ter consciência de estar sob uma forte dose de medicamentos. Estava dopado. Comecei a me ouvir e minha voz estava mole como se estivesse de pileque. A única frase que

e stresse

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consegui formular foi: “Então tá”. Não que concordasse com aquela situação, mas era mais fácil não criar caso. Estava sem forças nem disposição para tanto. O doutor me conduziu novamente ao portal e entregoume aos cuidados de uma senhora, a mesma enfermeira que vi quando cheguei. Ele passou alguns procedimentos a ela, mas não os ouvi, talvez por cansaço ou por mero desinteresse. Sei que ela sumiu numa sala e retornou com dois copinhos de plástico. Um deles continha dois comprimidos azuis. O outro, um rosa e outro branco. Entendi que devia tomar aquela medicação. Pensei, e não falei, que não seria necessário – mas vi no olhar da enfermeira que minhas eventuais argumentações não seriam aceitas. Achei mais fácil concordar. Para minha surpresa, ela pediu que abrisse a boca logo depois de ter engolido os quatro comprimidos! Com a boca aberta, entendi: era uma forma de ela se certificar de que eu havia mesmo mandado todos goela abaixo.

cApítulo 7

contenção
Retornei ao meu purgatório acompanhado pela mesma enfermeira que viu minhas amídalas e agora me dizia ser aquele um quarto de contenção. Não sei se estava cansado demais ou se a medicação já começava a fazer efeito, mas a última

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lembrança ao entrar foi ver a cama, me deitar e apagar como num passe de mágica. Despertei, acho, mas não abri os olhos. Pela primeira vez, tive a sensação de estar sonhando. Ou seja, não conseguia ter certeza de estar acordado... era o famoso daydream. Já havia escutado relatos dessa experiência, mas passar por ela é realmente muito estranho. Tentei montar aquele grande quebra-cabeça de sonhos tão reais e, ao mesmo tempo, tão ilógicos. A opção de abrir os olhos me assustava. E se me deparasse com um lugar diferente do meu quarto? Seria a impossibilidade de acordar de um sonho! Fiquei muito tempo tentando organizar as idéias, traçar uma linha lógica para tudo. Sentia, no entanto, uma enorme dificuldade de raciocinar, mais ou menos como a que se sente ao conduzir um veículo com o freio de mão travado. Ser racional, algo que sempre foi muito simples para mim, agora se tornara um desafio e enfrentá-lo parecia impossível. O simples gesto de abrir os olhos gerava um misto de medo e curiosidade, mas seria a única maneira de descobrir o que estava ocorrendo. Com muito esforço para minhas pálpebras obedecerem meu cérebro, consegui que elas fossem lentamente se abrindo. A princípio, não enxerguei nada além de uma claridade que desencadeou uma enorme dor de cabeça. Aos poucos, porém, meus olhos foram se acostumando com a luz e comecei a perceber o ambiente em que me encontrava. Com certeza não era meu quarto. Tinha algumas semelhanças, mas era diferente daquele do sonho – um sonho do qual ainda não tinha absoluta certeza de ter acordado. Era um quarto branco. Tinha a mesma porta e agora também uma janela tipo vitrô na parede do fundo, da qual vinha

contenção

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toda aquela claridade. Também observei a cama na qual estava deitado e uma cadeira. Fui atraído para a janela e dela pude ver um terreno baldio, com um horizonte totalmente vazio. Lembrei de alguns fragmentos, como flashes de um filme em que eu era protagonista e espectador ao mesmo tempo. Voltei a me sentir cansado e considerei que a melhor opção era deitar novamente. Quem sabe, quando acordasse, estaria livre daquele sonho que, pouco a pouco, virava um pesadelo.

cApítulo 8

trovão
Ouvi o barulho da porta se abrir e automaticamente abri os olhos. Estava escuro, mas uma lâmpada se acendeu e me senti violentado com aquela claridade que penetrou em meus olhos como uma agulha. Tive uma cegueira momentânea. Demorei alguns instantes para me adaptar àquela iluminação artificial. Aos poucos comecei a identificar um vulto que se aproximava e o fui reconhecendo como o doutor. Com muito esforço, fiquei em pé. Senti tontura, e o doutor, ao perceber minha dificuldade, ajudou-me a sentar na cama. Puxou a cadeira para mais perto de mim e sentou-se também. Olhei para o fundo do quarto e observei, pelo vitrô, que já era noite – ou, pelo menos, estava escuro lá fora. O doutor falava algo. Fiz um esforço para me concentrar no que ele

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verbalizava. Com muita dificuldade, conseguia escutar e processar as palavras, com a intenção de formar frases. Apesar de ele falar devagar, pausadamente, havia um abismo entre nós. Eu escutava suas palavras como um eco que retorna do fundo de uma caverna. Tentei falar, mas não conseguia emitir nenhum som. Senti que ele percebeu minha dificuldade. Sua compreensão, no entanto, não resolvia meu problema. Ao invés disso, deixava-me mais agoniado. Será que conseguiria me comunicar com ele por telepatia? Tentei em vão. Talvez ele não estivesse sintonizado com esse tipo de comunicação. Como tinha inúmeros questionamentos, comecei a separar aqueles vários pontos de interrogação. Com certeza, seria menos difícil ir por partes. Depois de algum tempo de reflexão, consegui finalmente formular uma questão e verbalizá-la! Para minha surpresa, emiti alguns sons! Fiquei assustado com minha própria voz. Estava diferente, rouca e lenta, nem parecia eu mesmo. Sabia que falava, porque o doutor se aproximou um pouco mais de mim para escutar: “Vai ter um trovão”, consegui dizer. Alguns segundos depois, ouvimos o estrondo de um trovão e, antes que ele pudesse responder, novamente falei num sussurro rouco: “A luz vai acabar agora”, e a luz realmente se apagou, não só a do quarto. Como a porta estava aberta, pude observar que tudo havia mergulhado na escuridão. Passamos alguns instantes no breu, em silêncio, e eu fiquei com medo de pensar qualquer coisa, pois meu pensamento poderia se concretizar. O silêncio e a escuridão foram quebrados pelo som de passos e pela luz tímida de uma vela trazida por uma enfermeira. O doutor continuava sentado ao lado da cama. Com a face serena, como se não tivesse ocorrido nada, assim que a enfer-

t rovão

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meira se aproximou, ele balançou a cabeça, numa menção de agradecimento, e disse alguma coisa que não entendi. A luz da vela iluminava de forma peculiar o ambiente, potencializando a sensação da magia de que eu era capaz. Permanecemos em silêncio, mas eu ainda estava preocupado com meus pensamentos. Exercitava-me para não pensar em nada. Caso contrário, poderia provocar até mesmo um terremoto. Não consigo dimensionar o alívio que senti quando a enfermeira retornou com dois copinhos de plástico, dessa vez contendo três comprimidos azuis em um e dois rosa e dois brancos em outro. T omei todos sem questionar e abri a boca mesmo sem ela pedir. Entendia agora a função dos remédios: eles controlavam os poderes do meu cérebro. Até que eu aprendesse a lidar com eles, estava evidente que eram perigosos. Todos saíram do quarto. Permaneci sentado alguns instantes antes de deitar. Sentia o efeito da medicação e, ao mesmo tempo, uma sensação de poder. Olhei para o teto durante um tempo, com o pensamento focado em um só objetivo: “Volta luz”, “volta luz”, “volta luz”... e então, quando pouco depois a luz se acendeu, fiquei hipnotizado por ela até adormecer.

cApítulo 9

necessidAdes fisiológicAs
Acabara de acordar e ainda tentava digerir os últimos acontecimentos. Embora com mais dificuldade do que antes

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para raciocinar, sentia também uma certa tranqüilidade. Afinal, não conseguia usar o poder do meu cérebro, uma vez que os remédios controlavam meu raciocínio, freando a velocidade e a quantidade de meus pensamentos. Assim, isento de pensamentos, senti minhas necessidades fisiológicas. A sede veio seguida de fome. Só então percebi uma bandeja com refeição e suco na cadeira ao lado da cama. Sem nenhuma noção de espaço ou de tempo, não sabia quando havia me alimentado pela ultima vez. Dias? Semanas? Não sabia. A única sensação era de uma enorme dificuldade motora. O simples fato de usar uma colher e encaminhá-la à boca era um grande desafio. Maior ainda era o de acertar o caminho e abri-la ao mesmo tempo! Demorei a sincronizar esses movimentos. Comi pouco. O suco estava num copo plástico descartável, o que exigia um cuidado especial, pois não conseguia controlar a pressão necessária para segurá-lo. Ou apertava muito ou pouco. Era um grande problema, porque sentia bastante sede. A solução surgiu aos poucos. Curvei meu corpo sobre a cadeira, dirigi minha boca ao copo e, ao abrir a boca, segurei-o com as duas mãos. Tomei apenas um gole, pois esmaguei o plástico e o líquido restante escorreu pelo meu peito. O preço para controlar meus pensamentos começou a ficar caro. Tinha uma grande deficiência motora e não conseguia sequer falar. Apenas grunhir. E foi o que fiz até surgir um homem vestido de branco, que imaginei ser um enfermeiro. Ele perguntou se estava tudo bem. Balancei a cabeça para os lados, fazendo-o entender que não. Ele perguntou o que queria. A ignorância daquele indivíduo, somada à minha impossibilidade de verbalizar qualquer palavra, fez com que eu grunhisse no-

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vamente. Para meu alívio, apareceu uma moça também vestida de branco, que eu ainda não tinha visto. Logo tive a impressão de que seria entendido. Sua primeira providência foi dispensar o rapaz, que concluí ser seu subordinado. Achei a atitude louvável! Depois, sem dizer nada, segurou-me pelo braço de forma que eu pudesse me apoiar nela. Com muita calma e tranqüilidade, nos encaminhamos para fora do quarto. Como se lesse meus pensamentos, levou-me ao banheiro. Ao abrir a porta, me conscientizei das outras necessidades fisiológicas. Ela me acomodou no vaso sanitário. Depois saiu, deixando a porta entreaberta. Permaneceu do lado de fora para escutar quando eu a chamasse. Novamente, pude me apoiar nela. Mas, em vez de voltarmos para o quarto, dirigimo-nos para uma outra ala. Atravessamos um salão, entramos num longo corredor ladeado por várias portas, algumas abertas, outras fechadas, e paramos em frente a uma que ela abriu. Era um quarto mais mobiliado. Além da cama, havia um armário, um criado-mudo e uma poltrona. Também havia outra porta que dava para um banheiro. Ela fez menção para que eu sentasse na poltrona. Estava extremamente exausto. Em seguida, retirou do armário algumas roupas que me eram ligeiramente familiares. Eram minhas, algumas que eu usava com freqüência. Colocou-as sobre a cama, ao lado de uma toalha de banho, sabonete, pasta e escova de dentes. Dei-me conta da higiene pessoal como mais uma das necessidades fisiológicas. Pensei na dificuldade que teria em realizar um procedimento tão natural – e tão complicado devido às minhas condições motoras naquele dia. Ela saiu do quarto, e, enquanto me preparava para o desafio do banho, ela retornou

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acompanhada do tal subordinado que havia dispensado anteriormente. Trocou algumas palavras com ele e cruzou seu olhar com o meu, dando a entender que estava tudo certo e que voltaria depois. Ao sentir a água morna do chuveiro batendo na minha cabeça e descendo pelo meu corpo, percebi o quanto necessitava de um banho. Queria ficar ali para sempre! Sentado numa cadeira plástica, tinha um conforto extra, não corria o risco de cair. Minha boca estava seca como nunca e eu dava grandes goles na água morna que escorria pela minha face! O enfermeiro ou auxiliar, não sei, pegou o sabonete e, com uma bucha, começou a me esfregar. A sensação de impotência agora era substituída pela de ser cuidado. Parcialmente revigorado pelo banho e vestido com uma camiseta e uma calça de moletom, comecei a me achar civilizado. Deixei de apenas conseguir grunhir. Agora já sentia aflorar alguns instintos primitivos. Ao entrar no quarto, a enfermeira esboçou um sorriso. Parecia feliz em me ver composto. Quando olhei para suas mãos, vi uma bandeja com os copinhos de medicação... e uma garrafa de água! Nem prestei atenção nos comprimidos que trazia! Fiquei hipnotizado! Antes que ela enchesse o copo, segurei a garrafa com as duas mãos e tomei no gargalo mesmo. Deixei-a pela metade, e minha boca continuava seca. Mesmo depois de ter tomado os medicamentos, não tinha a menor intenção de devolvê-la! A enfermeira, então, ajudou-me a deitar e, antes de se retirar, colocou a garrafa sobre o criado-mudo.

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