Por Regis Augusto Domingues Primavera de 2011

EXEGESE NO ANTIGO TESTAMENTO ISAIAS 5:1 – 7 Cântico da Vinha: Chamando a Comunidade de Fé à Conversão.
Perícope - Isaías 5:1 – 7 Tradução João Ferreira de Almeida – SBB/Revista e Atualizada
1. Agora, cantarei ao meu amado o cântico do meu amado a respeito da sua vinha. O meu amado teve uma vinha num outeiro fertilíssimo. 2. Sachou-a, limpou-a das pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. 3. Agora, pois, ó moradores de Jerusalém e homens de Judá, julgai, vos peço, entre mim e a minha vinha. 4. Que mais se podia fazer ainda à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? E como, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas? 5. Agora, pois, vos farei saber o que pretendo fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, para que a vinha sirva de pasto; derribarei o seu muro, para que seja pisada; 6. torná-la-ei em deserto. Não será podada, nem sachada, mas crescerão nela espinheiros e abrolhos; às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela. 7. Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor.

Tradução João Ferreira de Almeida – SBB/Nova Tradução na Linguagem de Hoje
1. Vou cantar agora para o meu amigo uma canção a respeito da sua plantação de uvas. O meu amigo fez essa plantação num lugar onde a terra era boa. 2. Ele cavou o chão, tirou as pedras e plantou as melhores mudas de uva. No centro do terreno, ele construiu uma torre para o vigia e fez também um tanque para esmagar as uvas. Esperava que as parreiras dessem uvas boas, mas deram somente uvas azedas. 3. Agora o meu amigo diz: “Moradores de Jerusalém e povo de Judá, digam se a culpa é minha ou da minha plantação de uvas. 4. Fiz por ela tudo o que podia; então, por que produziu uvas azedas em vez das uvas doces que eu esperava? 5. “Agora eu lhes digo o que vou fazer com a minha plantação de uvas: vou tirar a cerca e derrubar os muros que a protegem e vou deixar que os animais invadam a plantação e acabem com as parreiras. 6. A plantação ficará abandonada; as parreiras não serão podadas, e a terra não será cultivada; o mato e os espinheiros tomarão conta dela. Também darei ordem às nuvens para que não deixem cair chuva na minha plantação.” 7. A plantação de uvas do SENHOR Todo-Poderoso, as parreiras de que ele tanto gosta são o povo de Israel e o povo de Judá. Deus esperava que eles obedecessem à sua lei, mas ele os viu cometendo crimes de morte; esperava que fizessem o que é direito, mas só ouviu as suas vítimas gritando por socorro.

Tradução Bíblia de Jerusalém – Paulus
1.Cantarei ao meu amado o cântico do meu amigo para a sua vinha. Meu amado tinha uma vinha numa encosta fértil. 2.Ele cavou-a, removeu a pedra e plantou nela uma vinha de uvas vermelhas. No meio dela construiu uma torre e cavou um lagar. Com isto, esperava que ela produzisse uvas boas, mas só produziu uvas azedas. 3.Agora, moradores de Jerusalém e homens de Judá, sede juízes entre mim e minha vinha. 4.Que restava ainda fazer à minha vinha que não tenha feito? Por que, quando esperava que ela desse uvas boas, deu apenas uvas azedas? 5.Agora vos farei saber o que farei da minha vinha! Arrancarei a cerca para que sirva de pasto, derrubarei o muro para que seja pisada; 6.Reduzi-la-ei a matagal: não será mais podada nem cavada: espinheiros e ervas daninhas nela crescerão. Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela. 7. Pois bem, a vinha de Iahweh dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são sua plantação preciosa. Deles esperava o direito, mas o que produziram foi a transgressão; esperava a justiça, mas o que apareceu foram gritos de desespero.

1. Introdução
O Livro de Isaías é, provavelmente, o mais importante escrito do AT entre os ditos livros proféticos, sendo que sua citação é comum no Novo Testamento, onde encontramos também muito de sua influência teológica. Na descrição de VON RAD (2006, p. 576) “a pregação de Isaías é o mais grandioso fenômeno teológico de todo o Antigo Testamento”. A composição do livro de Isaías é diversa e compreende anúncios proféticos e dois escritos apocalípticos. Segundo os estudos da exegese crítica ou alta crítica do século XIX o livro de Isaías compreende três conjuntos de escritos comumente atribuídos à uma tradição da escola memorial de Isaías. Por outro lado, é necessário comentar que essa afirmação de que houve uma escola do profeta perpetuando-se por mais de dois séculos é atualmente contestada. O mais provável é que ouve uma sequencia de escritos, de épocas posteriores ao profeta, que se serviram de uma inspiração isaiana. Já uma ala conservadora apega-se à tradição de autoria e data (Isaías entre 739 e 681 a.C.) pretendendo preservar a unidade do livro e sua harmonia interna. Aqui optarei pela exegese crítica, sem contudo, deixar de considerar que há uma unidade teológica no livro perpassada por uma tradição isaiana tecida em períodos diferentes por autores anônimos, com exceção de sua primeira composição.

1.1 Autoria e Data – A complexidade de Isaías A primeira composição do livro de Isaías, de onde abstraímos nossa perícope de análise, e abarca os capítulos de 1 a 35 - com exceção de 24 à 27, de conteúdo apocalíptico e atribuído a período bem posterior ao exílio - é formada pela coleção dos oráculos do próprio Isaías que pregou em Jerusalém na segunda metade do século VIII a.C. A composição seguinte (Is 40-55) é atribuída à coleção de escritos do final do período exílico na Babilônia (597 – 538 a.C.) e, portanto, bem posterior ao tempo de Isaías. Essa segunda composiçao é denominada de dêutero-Isaías (segundo Isaías) e contem paralelos com as narrações proféticas encontradas no livro de Reis (2 Rs 36-39). A última composição de Isaías é o trito-Isaías (terceiro Isaías), que englobam os capítulos finais do livro de 56 a 66 e são situados como oráculos proféticos originados na comunidade pós-exílica. A compilação do livro de Isaías não ocorreu por acaso. Os escritos proféticos e os oráculos desse livro foram

justapostos no decorrer do tempo por apresentarem coerência nas ideias teológicas procedentes do próprio profeta Isaías e que foram sendo retomadas e atualizadas pela própria comunidade de fé. Portanto, o livro pode ser entendido como uma obra de orientação profética de inspiração isaiana. Isaías pode ser classificado como parte de uma nova vertente profética que surge no povo de Israel. O novo profetismo do século VIII a.C. abre “uma perspectiva nova sobre o domínio de Deus na história” (VON RAD, 2006, p.605). Essa perspectiva apresenta de forma audaciosa, diferente do profetismo clássico de Elias e Eliseu, um Deus que trata seu povo em certos momentos como filhos e em outros como a uma amada. Sendo assim, nossa perícope, geralmente conhecida como o 'Canto da Vinha', revela um desses eventos. Segundo VON RAD, “revestido de metáforas, o canto da vinha vai muito além […] Aqui Javé se manifesta na qualidade de um amante incansavelmente dedicado, que se entrega ao máximo e com muita ternura para cuidar da sua 'vinha' - a vinha é um sinônimo metafórico da 'bem amada' “ (2006, p. 605). Fazendo parte dessa nova vertente do profetismo a tradição isaiana pretende reacender na comunidade de fé a certeza de que Deus participa da vida de seu povo de forma direta e próxima. O centro da mensagem profética é a que Deus não pretende em momento algum retirar-se do cenário histórico do seu povo. A principal contribuição da mensagem profética é, portanto, contribuir para que a fé se fortaleça na certeza de que Deus continua atuando nas dimensões em que ele sempre se revelou: na dimensão histórica e política de seu povo. O relato do próprio livro de Isaías indica que esse foi filho de um certo Amós, de quem não há indicação em outras fontes. Apesar das escassas indicações é provável que Isaías tenha sido de origem nobre e que tenha recebido instrução correspondente ao de mestre de sabedoria, importante formação intelectual da época. De acordo com a própria narrativa do livro (6:1), Isaías foi chamado ao exercício do ministério profético no ano da morte do rei Ozias (Azarias), por volta de 746 e 740 a.C., sendo profeta durante os reinados de Joatam, Acaz e Ezequias, num período de grande agitação política. Esse período foi caracterizado pelas constantes incursos dos assírios contra os territórios sírios e paletinos, para conquistar e avançar nos territórios até o Egito. Isaías deve ter atuado até o ano de 701 a.C.,

quando, segundo uma tradição apócrifa, teria sofrido martírio sob o reinado de Manassés.

1.2 Contexto Geral
O texto profético não pode de forma alguma ser dissociado de seu contexto histórico, social e geográfico, até porque o ministério profético é inseparável do contexto de onde está inserido. Sendo assim, a mensagem profética não é intemporal, nem abstrata, mas antes é uma mensagem surgida a partir da experiência concreta do profeta. O profeta é um homem de carne e osso, profundamente marcado por sua época. O profeta no Antigo Oriente Próximo (AOP) pode ser associado a uma categoria profissional, que existiu em Israel e no conjunto dos povos da região muito antes de Isaías. A palavra em português é uma transcrição da tradução grega de um termo hebraico. No grego prophétes, que na cultura helénica estava ligado ao sentido de “dizer” ou “anunciar” diante de alguém. Dessa forma “na literatura grega, o termo assumiu com frequência o sentido de anunciar de antemão” (ASURMENDI, 1980, p. 07) uma mensagem da divindade. No hebraico, no entanto, não é esse o sentido original. No hebraico o termo é nabi, derivado de uma raíz semítica que significa “chamado”. O dicionário cultural da Bíblia (1990, p. 213) esclarece que o termo profeta é a tradução grega, como indicado acima, de um termo hebraico (nabi) que tem sua etimologia ainda em discussão, podendo expressar aquele que proclama ou aquele que é chamado. Já o Diccionario de Teología Bíblica (BAUER, 1985, p. 851-854) esclarece que o mesmo termo nabi do hebraico está relacionado com o termo acádico nabu, que expressa o sentido daquele que é chamado. Mas que, por outro lado, pode também, como se verifica em algumas passagens (Jr 7:25; 2Rs 17:13), ser derivada do árabe naba’a e que expressa o sentido do que anuncia um mandato. De qualquer forma há indicações suficientes para arriscarmos a dizer que a função de profeta está relacionada com os dois sentidos. A função de profeta está integrada com a palavra propriamente dita, ele é antes de tudo um predicador, um porta-voz (BAUER, 1985, p. 852) e como nos apresenta o Dicionário Cultural da Bíblia (1990, p. 213) “tentam manter a pureza da fé israelita; censuram ou encorajam seus contemporâneos”. Mesmo se servido de visões em algumas momentos, como podemos observar em trechos de Isaías e de

outros livros proféticos do AT, o profeta não pode ser definido nem como visionário, nem como adivinho, nem como mago e muito menos como astrólogo, personagens esses muito comuns no contexto do AOP. O profeta está enraizado à tradição, é aquele que “lê o passado em função do presente” (ASURMENDI, 1980, p. 09). A ação profética é uma continuidade da ação de Deus, ação essa empreendida por Deus em favor de seu povo e que agora é retomada pelo profeta em favor da fé desse povo. O profeta reinterpreta o passado a partir do presente, observa as ações de Deus e condena os desvios presentes do povo. O profeta apresenta as ações de Deus e seus desígnios, o juízo diante do desvio do povo e aponta o futuro na esperança da restauração. A função profética é, portanto, de romper com as estruturas do presente e inaugurar o futuro. Utilizando uma abordagem sociológica na interpretação do contexto da primeira parte do livro de Isaías, podemos deduzir, pela teoria weberiana em relação à religião, que o profeta é a figura do grande reformador, daquele que inaugura um discurso racionalizado no seio da religião e propaga uma nova ética. Essa é a figura do profeta entre o povo na época de Isaías. A figura daquele que discerne o seu tempo e impulsiona mudanças. Sem entrar nos detalhes da composição de coleções de oráculos do primeiro livro de Isaías, destacamos que a pregação de Isaías reflete as intervenções dos assírios sobre o sistema político dos povos sírios e palestinenses do VIII século e suas tentativas de defesa. Um dos temas mais relevantes do discurso profético do primeiro Isaías é a relação entre fé e política no contexto do seu povo, e o agir de Deus no universo das nações e dos homens. Com isso, o profeta passa a mensagem de que a relação existente entre fé e política deve forçar ao homem para que não persista numa atuação autocrática e nem fique passível diante do agir de Deus. Pelo contexto geral do livro podemos notar que o profeta instrui o povo a perseverar na fé e na ação diante das tensões e incertezas, ao mesmo tempo em que deve confiar no poder soberano e universal de Deus. O que se destaca no discurso de Isaías é o abandono de uma tradição que apregoava uma ligação jurídica de pacto entre Deus e o povo por meio de uma aliança. Isaías inaugura um novo discurso que prega um intercâmbio pessoal e vital entre Deus e o povo, no qual Deus é o amante e o noivo, sentido central em nossa perícope de análise.

2. Forma e Estrutura
A presente perícope (Is 5;1-7) é considerada por muitos biblistas como um texto de difícil enquadramento num gênero literário. De qualquer forma é tratado geralmente como “Cântico da Vinha”. Esse cântico, por sua vez, pode ser encontrado em condição de intertextualidade e de associação interpretativa em analogias de parábolas no NT, especialmente no evangelho de Mateus (21) e de Marcos (12). Uma categoria em que a perícope pode ser classificada, mesmo contendo traços ténues desse gênero, é no gênero literário de cântico de amor, devido aos seus traços de linguagem simbólica de amor ao utilizar a figura da vinha como uma amante, noiva ou esposa, e os termos do trabalho agrícola para descrever as relações afetivas e sexuais, característica comum nesse gênero literário em Israel e no AOP como um todo. Outra categoria em que perícope pode ser enquadrada é a de gênero literário de processo, ou seja, de uma acusação em fórum público que se faz contra uma esposa ou noiva. Nesse caso, como era comum ao contexto da época, é o amigo do esposo ou noivo que se encarrega pela acusação. Sendo o portavoz do esposo ou noivo era o amigo que apresentava a queixa pública contra a quebra de contrato. Dentro do cenário narrativo da perícope observamos um julgamento por infidelidade, onde o esposo ou noivo cumpriu a sua parte na relação matrimonial, enquanto a esposa ou noiva não cumpriu sua parte nas cláusulas contratuais. Assim, apela-se aos juízes por uma decisão. Segundo o Guia Literário da Bíblia (1997, p. 181) é possível essas duas categorias num mesmo poema do livro de Isaías num movimento que se desloca do lírico para o retórico.
“O tom lírico é anunciado no título: ‘Um cântico de minha amada’ e nas modulações da primeira pessoa, cantando as provações dos trabalhos de amor perdidos. Um cântico de amor é disfarçado de cântico de trabalho. Subitamente, no terceiro versículo, deslocando-se em direção ao público, o poema apela para o júri em uma disputa legal de amor: vejam tudo o que ele fez por ela e contudo ela se recuzou à reciprocidade. O artifício retórico cria um efeito irônico: os ouvintes se tornam juízes de sua própria conduta (como Davi ouvindo a parábola de Natã, II Samuel 12)”

Apesar dos detalhes líricos e retóricos, de cântico e de processo, podemos observar que o quadro geral da perícope comporta o gênero literário de uma parábola. Isso fica mais claro no versículo 7 quando o profeta expressa as razões de suas palavras. Sendo assim, a perícope é uma parábola que utiliza recursos líricos e retóricos para construir um cenário irônico que desperte ao ouvinte sua responsabilidade diante do relacionamento íntimo e amoroso dispendido por Deus. Como a parábola pode ser descrita como uma história ou analogia construída a partir de elementos comuns do cotidiano dos ouvintes para dispertar o interesse e transmitir de forma clara e simples uma lição, é possível que essa parábola tenha sido feita por ocasião da festa de outono ou festa da vindima, quando o povo de Israel comemorava os feitos de Deus em seu meio. Com isso, podemos definir que a perícope é uma parábola e não um cântico, apesar de utilizar-se desse gênero como recurso interno à parábola para melhor construir sua estrutura e definir seu objetivo final. Como a parábola não é um gênero literário próprio dos profetas, portanto, sua inserção num discurso profético deve ser considerada com cuidado. Esse gênero nos livros proféticos é bastante escasso, Isaías o utiliza apenas duas vezes, na presente perícope e no capítulo 28:23-29 (parábola do trabalhador). O papel da parábola, nesse caso, é dar força ao discurso exortativo do profeta, levando o verdadeiro acusado a condenar-se a si mesmo. O objetivo é despertar o povo quanto aos seus erros e voltar-se ao relacionamento íntimo e próximo desejado por Deus. A parábola não é uma sentença condenatória, antes é um chamado à conversão. Se considerarmos que a parábola tenha sido declamada na época da festa do outono, ou seja, nos períodos de colheita onde se podiam observar os frutos da plantação e nisso a graça divina, o próprio evento em si trazia ao povo as recordações dos feitos de Deus. Era também a comemoração Yom Teruah1, Dia do toque do Shofar2, que passou a ser associado ao calendário civil judaico a partir da destruição do Templo em 70 d.C., inaugurando os anos talmúdicos, como o Rosh Hashanah, a cabeça do ano, o momento dos novos começos, o ano novo judaico. A data anunciava que em dez dias haveria o dia do Yom Kipur3, dia da expiação, momentos de arrependimento e perdão. Nesse contexto, sem dúvida, o efeito da parábola teria sido bastante significativo e forte.

A parábola termina definindo os papeis dos personagens após a declaração do Amado desejando abandonar a vinha à sua própria sorte. Fica claro que a Casa de Israel e os homens de Judá são a vinha, e esses cometeram atos de injustiça em contradição aos mandamentos de Deus. Com isso há uma suspensão da história. Observamos que o texto termina com a constatação dos frutos maus produzidos pelo povo e com o Amado desejando deixar a vinha destituída de seus cuidados. Não há qualquer sentença de condenação, antes podemos deduzir que há um silêncio, uma trégua após a definição dos papéis. Temos que levar em consideração, ainda, o tempo da proclamação da parábola, vésperas do Yom Kipur. Nesse caso, poderemos inferir que o sentido vital do texto, seu Sitz im Leben, é anunciar que a conversão ainda é possível ao povo de Israel/Judá.

3. Questões Gramaticais e de Vocabulário
Nessa parábola de Isaías podemos destacar a partir dos verbos encontrados os contrastes dos afetos dispendidos na relação entre o Amado (Deus) e sua vinha (Israel). No versículo 2, por exemplo, encontramos verbos que expressão o cuidado e o amor de Deus: a) Cavar – cuidou do solo e o preparou para que ali a vinha se desenvolve, nutrindo-se em bom solo. b) Plantar – depositou no solo previamente prepardo a semente, esperando que a partir dessas sementes houvessem boas uvas. c) Construir – construiu uma torre para dali vigiar a vinha e cuidar para que não fosse destruída por animais ou pessoas. A Bíblia Viva traduz a primeira parte do versículo dessa forma: “Ele afofou a terra, arrancou todas as pedras e plantou na sua vinha as melhores uvas. No meio da vinha, Ele construiu uma torre para o vigia e cavou um tanque para espremer as uvas e fazer vinho”. A mesma tradução termina o versículo dessa forma: “Ele esperava que a vinha desse uvas doces, mas acabou colhendo uvas bravas, amargas”. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) e a Bíblia de Jerusalém traduzem o adjetivo da uva como “azedas”. Apesar da dedicação e cuidado do Amado a vinha

apresentou a produção de frutos inadequados para a fabricação do vinho. A qualidade das uvas foram contrárias as expectativas diante de todo o cuidado despendido. O infeliz contraste fica mais patente quando o profeta se utiliza de uma sentença retórica na primeira parte do verso 4 para acentuar o triste resultado dos frutos da vinha diante do extraordinário amor de Deus:

‫מה־ לעֲש ֹות ע ֹוד לכַרמי וְלֹׂ֥ א עָשיתִ י ב ֹו‬ ִִ֔ ְ ְ ֙ ַ ֹּ֑ ִׂ֖ ִ ֹׂ֥ ַ
“O que mais poderia fazer à minha vinha que não tenha feito?” (tradução livre do original, grifo nosso). Aqui podemos, também, observar outros aspectos quanto ao verbo. O verbo hebraico no tempo do pretérito perfeito expressa uma situação definitiva e inalterável (ASURMENDI, 1980, p. 36), indicando que a ação do Amado (Deus) em relação a vinha (Israel) era definitiva e visava um fim determinado. Assim, minha conclusão é que as sentenças seguintes dos versos 5 e 6, que estão no futuro, expressam mais uma advertência do que uma afirmação propriamente dita. Uma vez que a ação transmitida no tempo perfeito é uma expressão mais forte e permanente. Caso as sentenças seguintes ao tempo pretérito perfeito estivessem no presente, poderíamos considerar que se tratasse de uma sentença condenatória e definitiva. No entanto, utilizar um recurso gramatical tão forte no versículo 4 para expressar uma ação inquestionável como frase retórica, que pretende suscitar no interlocutor uma resposta, parece indicar que o discurso pretende induzir a uma resposta e a uma consequência obvias. Lançar as consequências no tempo futuro a favorece a suposição de que o discurso tem como objetivo principal levar o interlocutor a uma reflexão e a um autojulgamento, abrindo possibilidades para uma mudança de

atitude. Sob o referencial dos aspectos gramaticais podemos reforçar que a intenção do texto é de exortação ao arrependimento e conversão do que de condenação.

4. Contexto Bíblico e Teológico O texto de Isaías 5:1-7 pode ser observado em intertextualidade com o texto do evangelho de Marcos 12:1-12, que por sua vez é utilizado por Mateus 21:33-46.

As parábolas apresentadas nos evangelhos dialogam claramente com o sentido e a teologia do texto isaiano. Ambas as parábolas aplicam o texto original de Isaías e acrescentam outros elementos, mas que por fim exprimem o sentido original impregado por Isaías. Da mesma forma que a parábola em Isaías tem um público definido, o povo de Israel/Judá, e os erros desse diante da ação amorosa de Deus. As parábolas dos evangelhos têm um publico específico, as autoridades judaicas do tempo de Jesus. Assim, como o povo de Israel esquecera das ações de Deus em seu contexto histórico, e foram advertidos pela parábolas (Is 5:7), as principais autoridades judaicas não entenderam a importância de Jesus e de sua mensagem e foram advertidas pela parábola mateana (Mt 21:43-46).

5. Aplicação na Atualidade Com tudo que já foi exposto até o momento poderemos refletir sobre a aplicação dessa perícope para a comunidade de fé hoje. O público a quem a parábola da vinha se dirige hoje é a própria Igreja e sua liderança. Quando observamos os desvios que a Igreja tem percorrido atualmente, assumindo mais uma posição mercadológica do que propriamente de uma propagadora do Reino de Deus. Sendo mais um grande mercado de produtos sacramentais do que uma agente do Reino de Deus. Quando a Igreja e sua liderança tomam o controle autocrático de suas decisões, pautadas mais no peso institucional do que na confiança em Deus e na direção do Espírito Santo. Quando a Igreja prioriza alguns aspectos doutrinários em detrimento da misericórdia, da concórdia e da reconciliação, esquecendo-se das ações de Deus e de sua graça revelada na História Universal da Humanidade em Jesus Cristo. Quando a Igreja se torna mais um clube com verniz de Igreja, uma casa de eventos e espetáculos do que um local de acolhida, onde se percebe o amor de Deus nos atos de cada pessoa. Quando a Igreja se torna apenas mais uma ONG com faixada de Igreja. Quando a Igreja e sua liderança estão mais preocupadas com o poder e o status quo do que com a redenção e com a vida das pessoas, essa Igreja já não é mais a vinha esperada e está produzindo frutos azedos, amargos. É momento da mesma voz profética de Isaías advertir o povo de Deus, a comunidade de fé, ao arrependimento

e à conversão. Abandonando as práticas corruptas e injustas, comuns ao próprio contexto temporal de Isaías, onde aqueles que deveriam cuidar e julgar em favor dos mais necessitados entre povo acabavam se corrompendo ao favorecer os opressores em troca de benefícios pessoais (Is 1:23), cenário não muito diferente do nosso hoje. A voz profética de Isaías ecoa do passado em direção ao nosso contexto enquanto Igreja num mundo corrompido e clama mais uma vez por conversão.

Referências Bibliográficas ALTER, Robert. KERMODE, Frank (orgs). Guia Literário da Bíblia. Trad. Raul Fiker. São Paulo: UNESP, 1997. ASURMENDI, J. M. Isaías 1-39. Trad. Pe. José R. Vidigal. São Paulo: Ed. Paulinas, 1980. BAUER, Johannes B. Diccionario de Teología Bíblica. Barcelona, Espanha: Editora Herder, 1985. Bíblia Hebraica Stuttgartensia. Bíblia Sagrada, Tradução João Ferreira de Almeida, Revista e Atualizada. SBB Bíblia Sagrada, Tradução João Ferreira de Almeida, Nova Tradução na Linguagem de Hoje. SBB Bíblia Viva. Editora Mundo Cristão Dicionário Cultural da Bíblia. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 1998. Dicionário Hebraico-Português, Aramaico-Português. S. Leopoldo, RS: Editora Sinodal, Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 1999. LAMBDIN, Thomas O. Gramática do Hebraico Bíblico. Trad. Walter Eduardo Lisboa. São Paulo: Paulus, 2003. SCHREINER, Josef (org.). Palavra e Mensagem: Introdução teológica e crítica aos problemas do Antigo Testamento. Trad. Benônio Lemos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1978. SELLIN, E. FOHRER, G. Introdução ao Antigo Testamento, v. 2. Trad. Mateus Rocha. São Paulo: Ed. Paulinas, 1977. VON RAD, Gerhard. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: ASTE, 2006.
1

Conforme Levítico 23.23,24 - "Disse o Eterno a Moisés: "Diga também aos israelitas: No primeiro dia do sétimo mês vocês terão um dia de descanso, uma reunião sagrada, celebrada com toques de trombeta”
2

O Shofar é um instrumento de sopro para ofícios sagrados entre o povo Hebreu e é mantido até hoje. O instrumento é confeccionado a partir do um chifre de animal casher, ou seja, considerado puro.ado limpo). Preferencialmente o Shofar é feito de um chifre de carneiro, em memória do carneiro que foi oferecido em lugar de Isaac, que permitiu-se ser atado e colocado sobre o altar como um sacrifício a Deus, conforme o texto de Gênesis capítulo 22.
3

Conforme Levítico 23:27 - "Ora, o décimo dia desse sétimo mês será o dia da expiação; tereis santa convocação, e afligireis as vossas almas; e oferecereis oferta queimada ao Senhor."

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