Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

......................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy.................................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost.......................................................... 237 6 .................................................................................. MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï...... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D............................ 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost.................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï.......................................................................................... Benevides de Barros..........................................................................................................................................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.............................................................................. 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez........................................

reais. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. bem conhecida e divulgada no Brasil. o campo da psicossociologia cresceu. a educação. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. hoje. Junho de 2001 Os organizadores 7 . da organização e do funcionamento social. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. quanto para os que praticam a psicologia. a sociologia. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. dispositivo de consulta e pesquisa. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. prático e metodológico. este livro. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. tornou-se ainda mais importante. por meio da “intervenção psicossociológica”. À metodologia de intervenções/pesquisas. fruto do trabalho de psicólogos. tal como no momento da primeira edição. cada vez mais utilizada. A sua perspectiva clínica ganhou espaço.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. Desde a primeira edição. a economia. o direito. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. a administração e a política. cuja história é nele revista e avaliada. sociólogos e um economista. esclarecedoras dos processos de criação do social. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. a psicanálise. Assim. Por tudo isso.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. empregando para tanto. Em conseqüência. até então desconhecidas. o pesquisador-prático. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. das organizações e das comunidades. organizações e comunidades. se revelassem. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. no quadro da vida cotidiana. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. que condutas. Por meio dessa abordagem. geridos e transformados. com as instâncias de mudança.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. A partir dos anos 50. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. são o objeto de pesquisa. Portanto. isto é. Passaram a se preocupar. em seus grupos. por sua presença. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. freqüentemente através de experimentos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. organizações e comunidades. inicialmente. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. 9 . relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. igualmente. reflexão e análise dessa disciplina. a metodologia de pesquisa-ação. as condutas concretas dos indivíduos. fez aparecerem certos problemas. grupos. em especial. Atuando diretamente na vida dos grupos.

aptos a um “imaginário motor”. 60 e 70. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. mobilizados por ilusões e crenças. e do processo de criação institucional. a mudança social (A. que 10 . pois a teorização é fruto da reflexão que. mesmo que involuntariamente. sujeitos capazes de serem autônomos. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. Ora. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. de onde e como surge a dinâmica social. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. dos desejos de onipotência e dominação. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. da organização e do funcionamento social. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. sujeitos que. adquire um sabor de novidade. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. é formulada uma teoria. Paulatinamente. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. do socius. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. DUBOST). que é também um ato de palavra. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. LÉVY). foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. pouco a pouco tecido. torna visível a presença do sujeito social. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. sempre inacabada. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. hoje ela se renova. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. Porém. nos termos de E. ENRIQUEZ. por um ato de decisão. do trabalho da pulsão de morte. e serem criadores da história. idealizando e buscando destruir seus chefes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. NICOLAÏ). com suas mudanças e rupturas. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. de transformações nos sistemas sociais (A. contra esse pano de fundo.

formadoras das sociedades atuais e futuras. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. Política. está presente em quase todos os textos. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. de suas demandas de amor e proteção. A. a condição de construção da vida social. formuladora de grandes quadros teóricos mas. E. André LÉVY e André NICOLAÏ –. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. são apresentados nesse livro por Marília N. entretanto. são analisadas novas ideologias. o pensamento filosófico de C. relações de poder e autoridade. Assim. como sistemas dinâmicos. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. de ARAÚJO. da MATA-MACHADO. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. TOURAINE que. a respeito das suas representações historicamente constituídas. o desenvolvimento de um processo organizacional. práticas de intervenção mitificadas. T. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. MATA-MACHADO). Sociologia. assim como novos sagrados e certezas. autopoieses. José Newton G. Eugène ENRIQUEZ. auto-organização e complexificação a partir do ruído. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. de suas fantasias de onipotência. Psicologia Clínica (J. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. DUBOST. aqui e ali. é analisada. mas também de outras referências. Sonia ROEDEL. M. J. CASTRO. de BARROS. nestas páginas. ARAÚJO. LÉVY. Os autores – Jean DUBOST. Assim.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. Eliana de Moura CASTRO. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. S. 11 . enfim. ROEDEL). os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. CARRETEIRO. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. BARROS. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. B. CASTORIADIS. estruturas dissipativas. assim como.

cobrindo questões atuais. MATA-MACHADO – Psicologia Social). “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. MATAMACHADO). NICOLAÏ. Paris X (J. no Brasil. especialmente. A. 1990-1. ENRIQUEZ. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. LÉVY (mimeogr. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. ENRIQUEZ. “Rupturas.Em segundo lugar. CARRETEIRO). distribuídos em três partes. E. Além desse território de pesquisa. CASTRO – Psicanálise. T. na empresa. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores).). LÉVY. a Psicossociologia. ARAÚJO. a partir do exame de uma centena de textos. NICOLAÏ). julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. feita em novembro de 1991: . 1991. ENRIQUEZ) e Economia (A. Essa primeira proposta. “A interioridade está acabando? – E. ROEDEL). MATA-MACHADO e S. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . textos recentes. 1989. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. “O fanatismo religioso e político” – E. BARROS. . Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. 1990-1. mutações e complexificação em economia” – A. T. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. Paris XIII: M. a disciplina que os congrega. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. CASTRO. ENRIQUEZ. M.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E.Foram escolhidos. resultando em treze textos. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. LÉVY).). “identificações experimentais e inovações sociais” – A. de um projeto pessoal e familiar. NICOLAÏ) – mas. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. Paris XIII (A. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. DUBOST. ENRIQUEZ). NICOLAÏ (mimeogr. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. 1990. sofreu modificações. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. Inicialmente. ROEDEL. Assim. em função do mencionado convênio. primeiramente. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). ARAÚJO. na França. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A.

mantiveram-se termos como “fantasmático”. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. DUBOST. através da análise etimológica. MATA-MACHADO. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. E. Por exemplo. ENRIQUEZ. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. DUBOST. “forclusão” ou “preclusão”. respectivamente. Por exemplo. Psicanálise do vínculo social. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. Buscou-se uma certa uniformização. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). finalmente. ARAÚJO. Mais de uma dificuldade de tradução. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. na primeira nota de rodapé. de atividades e produções criadoras. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. a última tradução foi preferida. o grupo e a questão da mudança. para designar 13 . em maior ou menor grau. mantendo-se a tradução utilizada por T.Em terceiro lugar. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. LÉVY. 1987). a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. Seus nomes aparecem. editado por Jorge Zahar. contudo. apresenta a intervenção. NASCIUTTI para o livro de E. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. . preferiu-se “fantasia”.Prefácio desejo” (A. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. em cada texto. a apreensão de seu sentido original. 1980. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. algumas aterrorizantes. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. foi objeto de discussão e comparação. As traduções foram revistas por J. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. 1976. à Psicossociologia e à Psicanálise. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. “Intervenção como processo” – A. CASTRO e M. CARRETEIRO e J.

não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. a palavra investigation. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. expressão bastante usada em português. na expressão méthodes d’investigation. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. entretanto. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. a critério do tradutor. essa foi a escolha. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. nosso primeiro leitor. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. para a palavra enquête.“relativo a narciso”. Finalmente.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

como quiseram algumas correntes das ciências humanas. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. visto que todo leitor recebe. No entanto. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. no entanto. à sua maneira. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. no enfoque psicossociológico. aquilo que lhe cai nas mãos. O sujeito que não “morreu” A.2 . desde o início. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. a idéia de um “eu”. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala.1 Pois bem. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. preenche ou interpreta. Mas não poderia ser diferente. Ao apresentar tais artigos. Eles descartam. Cabe. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. LÉVY e E.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social.

e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. convém observar que. já na virada dos anos setenta.. entre outras coisas. Assim. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. antes de tudo. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil.”. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. A esse respeito. vemos que o “indivíduo” é. entre nós. notadamente através da teoria lacaniana. um ponto de passagem. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. a família. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade.6 Isso é claro para os autores.. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. LÉVY. os autores caminham numa direção que. o da Psicanálise. um átomo talvez. mesmo na França. suas relações próximas e regulares. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). nos parece em parte negligenciada.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. No texto de A. não estariam restritas. a chamada “sociologia do cotidiano”. ligada a uma prática clínica. por exemplo. E. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. ela é 18 . nas décadas anteriores. o ofício ou o produto. por exemplo. a empresa-família é anterior ao sujeito. nos artigos aqui apresentados. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. no conjunto das discussões sobre o sujeito.

só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. isto é. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. ENRIQUEZ retoma essa posição. as significações das ações”. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. um papel essencial nas transformações sociais”. Assim sendo.” De outro lado. por exemplo. “no momento em que falamos. daí a ilusão da identidade pessoal. as relações sociais. Ele destaca ainda. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. mas que reenvia. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. narcisismo grupal. sua constituição “plural” ou coletiva. A. Desse modo. pois este. enfim. LÉVY nos lembra. narcisismo social. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. Importante ainda. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. espírito de empresa. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. antes de mais nada. 19 . de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. sempre imprevisível. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. identidade coletiva. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. tenta transformar “o mundo. além de desempenhar. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. O primeiro é aquele que se agarra. num crescente alienar-se. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. “às vezes sem sabê-lo. através de FREUD. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. segundo os autores. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. fanatismo de empresa etc.

que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. árida novidade. como se tinha notícia até pouco tempo. ilusão e crença. científicas etc. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. mas que tentam ainda se expandir.) deve ser eliminada. esportivo. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. Basta lembrar. como a intolerância e o fanatismo.. como um fenômeno “periférico”. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. estamos falando de mecanismos inconscientes).” 20 . objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país.9 composto por militantes islâmicos negros que. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos..8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira... E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. cabem algumas observações. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. em diversos momentos. mas exemplar. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. mas sim os processos de idealização. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. Assim. além da sua. outras idéias. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. algum tempo após as notícias. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. religiosas. tentando eliminar dele os negros. amor (ou cumplicidade?) mútuo. os nordestinos. outras propostas políticas. xenofobia. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. A essa altura. religioso. os judeus e. Assim. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. no início de 1993.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. pois ela se torna uma ameaça. científico ou outro qualquer).

nossa “seita” de comedores vegetarianos. resvala necessariamente para a intolerância. isolada e coletivamente. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. Gostaríamos de lembrar. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. O que se torna problemático. contrapor as noções de sujeito e interioridade. ele desconhece também. no Sul do Brasil. seja num grupo democrático. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. rapidamente. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. Poderíamos. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. seja num grupo intolerante. nosso partido de direita ou de esquerda etc. nosso time de futebol. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. noção de origem literária e filosófica. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. por analogia. E.Análise social e subjetividade Aliás. nosso grupo body-building. já de início. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. em níveis talvez menos contundentes. sejam elas brancas ou negras. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. às vezes. ela deve ser doadora de sentido. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. cada sujeito está perseguindo. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . num clima onde toda crítica está ausente. a ação grupal deve cobrir um vazio. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. infantilizando os “fiéis”. Em outras palavras. Enfim. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. a eterna questão do sentido. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido).

Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. Por outro lado. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. a não ser por arrombamento. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. A interioridade. A interioridade remete. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. A compreensão da interioridade é. Aliás. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. questionamentos. 22 .14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. que não é recente. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. íntima. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. Só o ser existe e ele é cheio. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. pois. por ser da ordem da especialização. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. parece haver uma tendência. em oposição ao vazio: trata-se. segundo o autor. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. ele existe atualmente e está. ameaçado de extinção. Talvez seja. num certo sentido. na esfera psicossocial. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. pois. é ‘uma terra estrangeira’”. Para ele. na Filosofia antiga. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. vítima de ataques. foi discutida em termos do cheio. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. onde ninguém tem o direito de penetrar. alegria. é numa relação espacial que ela se inscreve. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. BERGSON. quase que imediatamente. o que é pura duração. Se esse sentimento nem sempre existiu. interrogações e que. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. A questão do espaço. para ela. em se pensar espacialmente. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. à alternativa interior x exterior.

capta os estímulos exteriores e também os internos. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. Assim. Já a identidade marca a diferença. o que se vê por fora é um reflexo do interior. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. separada. a pele se liga à formação do eu. considerando o 23 . diz FREUD. Um corpo dinâmico (isto é. denotadas pelo termo identidade. unidade e similaridade. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. O ter é ulterior. As idéias de permanência. ela é capaz de dizer: eu tenho. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. foram abaladas pela Psicanálise. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. isto é. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. eu não sou. temos de falar nos órgãos dos sentidos. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. diferenciando o interno do externo. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. Há. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. A percepção do espaço remete à visão. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. Existe. na época atual. porque especular. O culto exagerado do corpo. refletindo a si mesmo).16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. ao que marca a diferença. bonito. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. a identidade própria. Dito de outro modo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. meio de se situar no mundo. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. Limite e superfície privilegiada de estimulações. depois da perda do objeto. saturada de comunicação. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. isto é. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto.

que todo texto é um tecido de espaços em branco. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. isto é. por ser essencialmente espacial. Assim. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. nenhuma leitura é um ato neutro. pela empresa ou pela sociedade. em sua obra Lector in Fabula (trad. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. só podendo. Ele diz. As propostas absolutizantes. oferecer uma resistência passiva. e como bem captou ENRIQUEZ. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. isto é. é certamente desprovida de energia ou. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. já dissemos. Notas 1 Humberto ECO. naquilo em que ele é diferente do outro. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Por isso. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. 2 24 . pois. ao eu e muito menos ao sujeito). Afinal. quer como conceito psicológico. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. Em outras palavras. francesa Grasset. se tornam assim mais claras. O oculto. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. no campo da argumentação psicossociológica. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. E o mais importante. feitas pela religião. do outro que eu sou. Finalmente. de outro lado. é passiva. em outros termos.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. quer como sentimento pessoal. ARAÚJO. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. a interioridade considerada. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. entre outras coisas.

face às estruturas e aos sistemas”. 1970. Paris: Gallimard. 322. senhor de si e do universo e como se. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração.. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. Observação semelhante já fora feita. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. na América Latina e mesmo na Europa. uma editora de propaganda nazista. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. 29-31) afirma que.. nas quais o Sr. de 28/04/93. P. nessa mudança. Para ele. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. G. Paris: Gallimard. por isso mesmo. (Cf: ANSART.Análise social e subjetividade 3 Cf. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. principalmente após as recentes eleições da Rússia. p. líder da extrema-direita francesa. além de serem historicamente contestáveis. na Biblioteca Nacional de Paris. Lembremos. mais perto de nós. Essa mesma revista. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . P. soberano. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. como um instrumento terapêutico. cit. por Jean-Marie LE PEN. D. Conseqüentemente. 1984.. O autor evoca J. vol. 5-12. reportagem da revista Isto É. SELLIER (cf: Le mythe du héros. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. 445-449). A matéria se refere a uma empresa gaúcha. Paris: Bordas. 50-53. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. De outro lado. LXXIV. Cf: ANZIEU. em seu número de 1º/12/93. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. 1983. p. Assim. não passavam de “mero detalhe”. In: Bulletin de Psychologie. n. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. fez reaparecer o sujeito. Cf. “Essai d’identification du quotidien”. P. p. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. 1975-1976. tomo XXIX. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. JIRINOWSKI saiu vitorioso. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. 13). encontrando aí as condições de gratificação narcísica. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. alguns anos atrás. Paris: Dunod. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. o culto à figura de GUEVARA. p. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. em nível individual. p. BALANDIER. em seus níveis mais profundos. Paris.

p. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. semelhante à vivência intra-uterina. Le moi-peau.) 14 Cf: BERGSON. XVIII vol. 1967. p. S. ANZIEU. Paris: Dunod. 68. 1985. H. Entre outras alusões a essa questão. Rio de Janeiro: Imago. Paris: PUF. 15 16 26 . 1977. Além do princípio do prazer (1920). ss. El tiempo y los grupos. (Cf: FONTANA (A) et al. ver: FREUD. Buenos Aires: Editorial Vancu.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. D. 1976. 120 ed. Essai sur les données immédiates de la conscience. 42.

que decidi me manifestar. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. 27 . meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo.2 A razão é simples: como muitos outros autores. De minha parte. um ser falado. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. ALTHUSSER). Com efeito. do sujeito. que nega a interrogação de D. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. É contra essa tendência reducionista. um ser agido. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. Seguindo essas abordagens. em maior ou menor grau. No momento atual. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. só se fala do indivíduo. mesmo sem dizê-lo. em grupos e organizações. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. sua classe ou sua raça. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. O indivíduo torna-se. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. pois. por outro lado. LAGACHE. do aumento do individualismo.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. um determinismo absoluto dos processos sociais. No entanto. ao invés. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. como psique. assim. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. por um lado. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história.

Uma tal sociedade heterônima tem. de antepassados e de Deuses. além disso. Em outras palavras. a anterioridade dos processos sociais. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. BURKE. zonas inexploradas. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. conformados a seus votos e a seus ideais.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. De fato. é preciso pressupor. CASTORIADIS. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. DE MAISTRE –. conduta estruturada social e culturalmente. mas deixassem também. portanto. Nessas condições. quer seja por Deus – BOSSUET. ao mesmo tempo. já que nascemos sempre em um grupo. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. logicamente. Não é necessário. ir muito longe nesse sentido. heterônima. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. no entanto. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). em parte inconscientemente. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. que pode tomar a forma de totens. Nessas condições. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. em uma etnia. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. num lugar-tela. Essa emergência acontece. “a possibilidade de saber que alhures. uma cultura. em uma nação etc. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. ou de um Deus único. em uma classe. portadoras de 28 . isto é. para retomar a terminologia de C. porque toda sociedade comporta falhas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. a cada homem. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. ela própria. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. Freqüentemente. em parte. numa sociedade que é. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. sua conduta. em parte voluntariamente. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. que lhe deu direito à existência. as sociedades nunca são totalmente heterônimas.

concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. portanto. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. como evocava FREUD. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. a trocar sua natureza pela de um térmita. por mais totalitário que seja. Reis continuam a se 29 . outro um novo tear. desde a Revolução Francesa. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. às vezes. como dizem FRITSCH e PASSERON. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. apoiando-se nas funções corporais. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. contra a vontade da massa. sobretudo. Deve-se. fanático. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana.7 Quanto ao indivíduo humano. um discurso dominante. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. Alguém inventa uma máquina a vapor. mesmo sem percebê-lo. não se pode esquecer que o discurso. Embora exista. Notemos que as sociedades modernas. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. Elas se tornaram. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. Mas. sem sabê-lo. em toda sociedade. de maneira invisível. pelo menos de imediato e. em pessoas e grupos sempre diferentes. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. Além disso. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. um papel essencial nas transformações sociais. ele também só é parcialmente heterônimo. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. seja lá por que modo. a médio ou a longo prazo. desde a Renascença e. em certos casos. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. até mesmo se choca. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. não a um contra-discurso organizado mas. se põem a acumular riquezas. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses.8 Enfim.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. às vezes.

E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. Ao contrário. então. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. mas é o homem da performance mensurável. performance sempre a recomeçar. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. a vitória nunca sendo definitiva. No entanto. Assim. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. De fato. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. “matadores frios”. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. Nessa ética. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. O winner sempre pode se tornar o looser. Se cada um deve manifestar sua singularidade. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. os processos sociais. a individualização. em nossa época. é. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). sempre imprevisível. o elemento esportivo predomina. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. apenas um elemento do processo de massificação.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. Ele deve gozar com essa renúncia. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. seu tempo. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. ela pode ser bem efêmera. da sua organização. vencedores que querem ir até o fim.9 Assim. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. Assim. como sublinha CASTORIADIS. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. cada um deve ser criativo à sua maneira. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. mais freqüentemente. objeto de tantas preocupações. do seu serviço. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). se os processos psicogenéticos pressupõem.

12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. mas não se orgulha de si mesmo. naquele tempo.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. nas universidades. o “culto da empresa”. 31 . tende. os que W. Admira o pensamento que ele não concebeu. além disso. em vez de admirar o que ele concebeu. posições de poder. para depositar seu destino nas mãos dos outros. hoje em dia. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. onde seu paroxismo predomina. igualmente. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. na maioria das vezes. Nos Estados Unidos.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. O “zé-ninguém” está sempre. em geral. quando se fala do indivíduo. a se associar a paixões puramente agonísticas. características de um esporte. desvestida de seu sentido ético-religioso. atrás da força e da grandeza de outros homens. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade.10 Assim. assim. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. aqueles a quem chamamos vencedores. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. a busca da riqueza. igualmente. mas que. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. o que lhe confere. designava por “zé-ninguém”. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. financeiras ou de prestígio. ou ainda. o indivíduo renuncia. nos hospitais. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. Ele atinge. a justificá-lo”. REICH. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. um novo ritual. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes.

médios ou pequenos homens. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Em outras palavras. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. é. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. ser um agente ativo desses processos de recalque. Resta-me. o que devemos fazer e como seremos recompensados. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. apresentando-se como objeto maravilhoso. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. para existirem. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. correndo um mínimo possível de riscos. portanto. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. A idealização é. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. às vezes. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. nós próprios nos tornamos admiráveis. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. reprimir suas pulsões. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. apoiado 32 . sempre ameaçador). assim. aderir profundamente às injunções sociais e. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. Além disso. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. o mundo criado não é contestável. agora bem conhecido. de repressão e de adesão. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. depois de descrever esse fenômeno. então. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica.

ao nosso “nós”. um proletário. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. freqüentemente. (Com efeito. como mostrou FREUD. que sentido pode ter ganhar por ganhar. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. estamos divididos e angustiados. portanto. estamos perto de não ser absolutamente nada e. está cheia de perigos. produzir por produzir. que tem como efeito “unir uns aos outros. dificilmente. tem como futuro possível a xenofobia. de simplesmente não ser. de fato. ideais vazios e desprovidos de sentido. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. eles suscitam a aceitação ou a identificação. uma massa maior de homens. G. o narcisismo social. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. Vivemos em sociedades nas quais. contraditórios. sem se dar conta de que. um budista. graças a esse jogo identificatório. 33 .13 Reencontrar a coesão. o fanatismo. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. é se voltar ao grupo de pertinência. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). um capitalista. De fato. consumir por consumir?) Ora. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. através desse processo. A identidade coletiva favorece ainda.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. da sedução ou da obrigação]. graças a identidades coletivas fortes. nas quais. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. é imputar os problemas ao outro. Se somos apenas um espartano.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. o racismo. A identidade coletiva. os ideais são múltiplos. É necessário precisar esse último ponto. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação.

no entanto. nos lugares da vida cotidiana. Para definir criatividade. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. ao menos. que. não pode ser considerado como sujeito humano. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. O indivíduo individualizado (e não individuado. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. criança. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. quanto mais uma cultura se quer unificada. em sua vida de trabalho. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. a respeito de qualquer tipo de problema. em suas relações sociais de todos os dias. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). que visa à transformação da totalidade enquanto tal. Com efeito. quanto mais a identidade coletiva existe. portanto. por mínima que seja. portanto. tem como projeto voluntário. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). Quando digo que o sujeito transforma o mundo. daí.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. reproduzir. as significações das ações. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. a sua conversão. O sujeito é um ser criativo. Quero simplesmente dizer que cada um. Tal indivíduo só sabe repetir. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. bem como da tranqüilização narcísica. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. bem entendido. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. seres a eliminar. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. 34 . na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. as relações sociais. Vê-se. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. Não podemos. o indivíduo singular.

. que sente prazer em respirar. quanto na inspiração do arquiteto que. não na escola!. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. chegarás. do jogo e da vagabundagem. demens (objeto da hybris). que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. não ao charco das alegrias imortais. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). antes que ela se fixe em natureza morta. o nascimento. um ser capaz. levo a sério. o primeiro movimento indistinto da matéria. portanto. voluntariamente. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. a gestação. O sujeito é. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo.. meu amigo. ludens e viator. respirando a plenos pulmões um ar salubre. de repente. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. imobilizada. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado.. E mais se imprime. em compensação. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . ela está presente em quem faz. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. ao mesmo tempo sapiens. Os artistas não se enganaram a esse respeito. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. aqui e agora. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”).O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. em seus Conselhos a um viajante. e que o mundo possa testemunhá-la. é a formação. homem portanto de sabedoria e loucura. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. uma novidade irredutível. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. em lugar de uma imagem da natureza. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista.. é ainda pior.

pela natureza. assegurando-lhe a redenção. Essa desagregação da Europa Central tem ainda.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. cientificamente. a sua própria alteridade). 36 . os manipuladores ocupando uma posição perversa. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. portanto. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. depois da guerra de 1914-1918. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. Assim. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. em particular o grande homem. identificado a seu pai. para lavar o mundo de sua sujeira. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. O megalômano. sente-se eleito por Deus. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. preso na ganga dos ideais. de seus medos. aliás. Com efeito. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. os sedutores ocupando uma posição histérica. para realizar uma missão salvadora. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. um pouco paranóico. Caracterizemos rapidamente esses três tipos.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. atualmente. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. No entanto. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo.17 Porém. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. Michel SERRES. é preciso parar um momento. entre os grandes homens. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. a esse respeito. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história.

ao mesmo tempo.20 do homem que declarava. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. crê falar a linguagem da verdade. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. que toma a si mesmo por ideal). 37 . a um nível mais irrisório. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. basta o de STALIN. ou capacidades manipulatórias. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. como LENIN: ao contrário. o povo judeu. caso bem conhecido e. os tecnocratas. só considera o mundo sob o ângulo econômico. para isso. ele se proíbe de ser excepcional. reduz as relações humanas a relações de objetos. ao contrário. recém-saídos das grandes escolas. obcecado com a força pela força. quis fazer do alemão o povo eleito e. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. que queria dobrar o mundo à sua vontade. inventando complôs. Quanto ao manipulador perverso. segundo FREUD e BULLITT. tem gosto pelo instantâneo. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. LENIN. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. é um bom exemplo desses chefes perversos.21 Assim também HITLER. nem uma força de pensamento e de ação. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. esse está. denega a realidade). como já indiquei anteriormente. que não tinha interesse algum pelos outros. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. que tomou o poder contra os mencheviques.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). O teatro é também para ele um terreno de esportes. só pensa em termos de estratégia. como WILSON ou HITLER. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. por sua vez.

Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. Em todo caso. Em outras palavras.. não tenho dúvidas morais”. não se torna. sem interrogação. como GORBATCHEV. AGNELLI a gente nasce. Se elas tomarem um grande patrão italiano. meus aliados (. um indivíduo sem fantasias. mas uma duração realista. AGNELLI por exemplo.). é possível tornar-se DE BENEDETTI.. os outros escapam a essa denominação. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. ele perdeu alguma coisa. talvez. Em contrapartida. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. Eles se apresentam. M. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. sem dúvida. se tiver tanta coragem quanto eu”. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. O grande patrão italiano C. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. ao contrário. uma demonstração do possível (. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. Mesmo assim. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. nem mesmo na imaginação.. como indivíduos perfeitamente normais. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais.) são as pessoas comuns. Tentarei em outra ocasião. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. com a condição de ser corajoso. a seus olhos. pois ele promete a qualquer um. de uma normalidade esmagadora.. porque sou. Mas.

E. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. de tudo desarrumar. São portadores da pulsão de morte. criar seja lá que novidade for. só sabem repetir. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. por outro. favorecer a tomada de consciência de situações reais. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. pois falta a ambos. fazer advir o sujeito coletivo.23 Em certo sentido. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. Ele não tem projeto. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. o caráter irrevogável de sua escolha e. reproduzir. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. de tudo realizar” (McDOUGALL). “que significa. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. É também um homem que demonstra consistência. mais ainda. Corre pela vida como em uma auto-estrada. tomar caminhos transversais.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. Mas ele conserva o mesmo projeto. 39 . a recusa de compromisso sobre o essencial. por um lado. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. assim. mesmo se nada descobre. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. fazer advir o sujeito individual. ele o faz em sua linha. sem falhas. ao inusitado. Eles têm uma influência social inegável. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. Um ser consistente pode ter dúvidas. insiste sobre essa noção. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. no sentido que dou a esse termo. São desprovidos da aptidão à transgressão. MOSCOVICI. conforme McDOUGALL. S. em MARX. assim. em sua linhagem. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. Se o sujeito evolui. Mas não são verdadeiros criadores de história. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). Teríamos. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. de se lançar no desconhecido. dos outros. FAUCHEUX. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. em FREUD.

é que. a um Estado. não pode jamais estar colado a uma organização. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. MOSCOVICI. finalmente. Para SEGALEN. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. consistência e astúcia. a uma identidade coletiva. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. interdita a tentação da Unidade-Identidade. O que é interessante. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). o que não é nada fácil. um grupo ou um Estado. consistência e astúcia andam juntas. recentemente republicado. segundo a expressão de V. a ocasião. isto é. como também a provocá-los. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. souberam conciliar furor.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. diante da exigência do todo. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. para fazer triunfar suas idéias. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. no entanto. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. Ele é. pessoas vindas de outros países. criar e sustentar um conflito com a maioria. provenientes 40 . o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. Ao mesmo tempo.” O sujeito não é homem de comprometimentos. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). Consistência e furor.24 O “exota”. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. no momento atual. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. em seguida. quando ela se apresenta. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Aqui não se trata de manipulação. portanto. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. SEGALEN. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. uma outra exigência e. à dispersão. igualmente. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. visível e. delimita também. o exilado. porque a dispersão.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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capaz de se adaptar a todas as situações. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. do combatente. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. Para obter tais resultados. desembaraçado de compromissos. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. de sonhos e de interrogações. do vencedor. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. de colocá-los. de considerar os problemas em sua frieza. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . aos que dela participam. dando. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. sobretudo. ele entrará. sobretudo. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. sem o saber (e de consciência tranqüila). em demasia. . seus valores e seu processo de socialização. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. Minha contribuição será. então. o homem capaz de ultrapassar seus limites. com personalidades “as if” (H.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. para fazê-lo. L. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. se só pensa através dela. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. assim. Se o indivíduo se identifica com a organização. no sentido sadiano do termo. de ter modos de “comunicação afirmativa”. sejam quais forem. portanto. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. então. A cultura de empresa ou de organização. SERVAN-SCHREIBER). ao propor. aos outros. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala.

desde DURKHEIM e FREUD. no mundo medieval. mas. pronta a punir os blasfemadores. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. encarnar a “instituição divina”. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. um ideal a realizar. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). Basta ter em mente: a renovação do Islã. segura de estar em seus direitos. exige a idealização. ao contrário. em nome da verdadeira fé. gurus. Sabe-se muito bem. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). de perda e de sofrimento. através de um projeto a concretizar. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. xamãs. uma causa a defender. o renovar de uma igreja dogmática. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. E. mais próximos do integrismo. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. atualmente.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. injustamente martirizado. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. Então. que uma sociedade não pode existir sem religião. 47 . Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns.

“Estar bem em sua pele”. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. a aeróbica. 48 . em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). falado e falante. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. cuja meta é a homogeneização do “interior”. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. “tornar-se saudável”. o jogging. O fanatismo político. as medicinas naturais. o “grito primal”. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. o desenvolvimento do esporte de massa. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. como a expressão da graça que lhe cabe. que aqui apenas menciono. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. a expressão corporal. continuamente desejável. Voltarei adiante aos métodos empregados. afastar a dor. esbelto. Mas as religiões. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. As técnicas de body-building. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. competitivo ou não (por exemplo. as maratonas de Paris ou de Nova York). persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. pelo menos. sofredor. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. submetê-la a ídolos não contestáveis. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. os estágios off limits. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. portanto. todas as religiões. mesmo os mais repreensíveis. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. animado) é o nosso bem mais precioso. as ginásticas suaves.

mas de edificar novos cultos. na medida em que não se trata. nas organizações sociais. processo de ligação com os outros. Por outro lado. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. GREEN. a “qualidade total”. Quer se tenha nascido rico ou pobre. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. O narcisismo mais total está na ordem do dia. de intervenção psicossociológica ou institucional. de criar uma cultura. ao menos. sinais de uma fantasia de domínio total. assim. que o indivíduo. interrogação do ser. únicos responsáveis (se eles fracassam. Basta querer. “a paixão pela excelência”. Elas anunciam. necessariamente. cada qual se mira em seu próprio espelho. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). de autoridade. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. No narcisismo de morte. membro de um conjunto que tem suas coerções. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. 1983). Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . de evolução pessoal ou grupal. A explicação é simples: todos os métodos de formação. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. mudança sempre difícil pois traz. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. de fato. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. na qual fatalmente se perderá. confronto com o sofrimento. Ora. Os próprios indivíduos. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. embora alienados no mais profundo de sua psique. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. na qual ele tem que desempenhar um papel social. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. para se tornar um sujeito falante e atuante. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. grupal e coletiva. a busca do “erro zero”.

do aumento dos métodos mais bizarros. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). Cada “conjunto humano”. para viver e se desenvolver. a implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. uma psique a serviço da organização. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. como a simples lógica o exigiria. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. para a seleção de dirigentes. não do desenvolvimento da racionalidade. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. Assim. na sociedade. mas. como resultado a sua destruição ou. portanto. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . a astrólogos. perfeitamente interiorizadas. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. pelo menos. quer dizer. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. nas organizações e nos indivíduos. a sua submissão. a mobilização total de todos. com os pés amarrados a um elástico. únicos a prometerem resultados tangíveis. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. necessariamente. ao contrário. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. O reconhecimento da psique como força operante tem. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Por isso. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. faz-se apelo a leitores de tarô. em reação. uma psique sem conflitos. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida.

– podendo 51 . constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. em uma palavra. ele é capaz de ser um “Si”. a necessidade de ter uma certa identidade. não creio mais como esse ser que leva meu nome. Cada indivíduo. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. uma unidade. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. de ser um sujeito que tem uma história. Os indivíduos evoluem. Mas. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. GREEN (1985). (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. portanto.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. portanto. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. se examinarmos mais de perto essa noção. de constância: (b) idéia de objeto separado. através dessas diversas experiências. portanto. em uma espécie). acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. isto é.A constância não existe. que se liga a uma tradição. que participa de uma memória coletiva. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. ou vinte anos? BARTHES. ou o status social a que chegaram. escreveu belíssimas páginas. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. quer dizer. Além disso. de referências seguras. em um gênero. permite que se possa situá-lo em uma classe. Cada um sente. classe. não vivo mais. Ora. animado por uma coesão totalizante tendo. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. por minha vez. credo. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. nacionalidade etc. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. Caso se retome a análise de A. ela revela características um pouco suspeitas.

5 Certamente. que processos de clivagem. No entanto. no entanto. ABRAHAM e M. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. admitir. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. então. TOROK. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. Eu é um outro. cairmos na irresponsabilidade. Nunca sabemos de maneira precisa. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. de preclusão e de denegação estão operando em nós. assim. ilusória. além disso. não podemos abandonar essa idéia. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. quem está falando e por que falamos dessa maneira. b. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça.) que visam. já dizia RIMBAUD. em sua pureza. a partir de um estado não integrado. necessita do trabalho do tempo. pois toda construção. a sua própria finalidade. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. por definição. no momento em que falamos. Assim. 1976). Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. sob certos aspectos.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. quando sei tão pouco o que sou. Precisamos. mas que mantém um certo grau de 52 . então. então é possível questionar. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. o eu etc. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. de MIJOLLA. c. a idéia de permanência e de constância. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. que. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. 1982). com WINNICOTT (1966). cada uma. Mas ele insiste.Quanto ao reconhecimento do mesmo. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. Se.

O que nossa sociedade reclama. de um narcisismo a toda prova. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. portanto sedução. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. Porém. a aceitação dos processos de clivagem. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. e tanto mais porque se parecem conosco. o trabalho sobre si. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. da “inquietante estranheza” e. de suas faltas. os diretores participam de um grupo. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. Os outros. trazendo “temor e tremor”. problemáticas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. sobretudo. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. é ouvido um momento. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. de “maioria compacta”. tão apreciada por FREUD. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). assim como as instituições e organizações que a compõem. portanto. o remorso. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. escolhendo as máscaras sociais que precisam. quaisquer que sejam. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. contraditórias. de seus desejos. a interrogação. a dúvida. muito pelo contrário). São. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. para o indivíduo.A interioridade está acabando? coerência. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. como também um amor consciente por si. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . portanto. Um deles explicita suas dúvidas.

que lhe diz. SEGALEN). vinda da boa burguesia. p. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. ENRIQUEZ. 270). seja de novo como nós. ele tem úlceras constantes. Pôde obter o posto desejado. serei obrigado a falar disso a meu pai e. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. seu simbólico. é interrompido por um de seus colegas. em termos mais gerais. em substância: “Não continue. quando os indivíduos estão nessa situação. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. 1984. Além disso. que detestam. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. quer dizer. 54 . comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. até que ponto estão presos na apatia (SADE). aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. até que ponto evitam-se a si mesmos. nem mesmo à sua esposa. naturalmente. Com efeito. se você continua. 36). Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. eles questionam sua identidade. Ele se tornaria o fraco. Nesse momento. Transformam o mundo no qual estão. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. reedição de 1986. O “homem com problemas” aprendeu a lição. tendo uma identidade compacta. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. p. Ora. seu imaginário enganoso. desde então. filho de um grande industrial. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. não quero saber nada de seus problemas porque. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. Apenas. formam uma nova maioria compacta. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. Domine-se. um grupo que tem uma cultura própria. Esse exemplo (que. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. Nessas condições. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. por um processo de contra-investimento. diante dessas revelações.

o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. doentes de AIDS. quer dizer.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. se evitam a si próprios. todas as “minorias ativas”. todos os “exotas”. pelo menos. em seu corpo como em seu espírito. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. Compreende-se. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. no dizer dos racistas. soropositivos e. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. ENRIQUEZ). um piolho a ser eliminado. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. que todos aqueles que buscam articular sentidos. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. assim. o homem dinâmico. sem emoção. possam se tornar objeto de ódio ou. 103-104). p. então. por si próprios. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. “Apagar. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. Quem não se amolda deve ser liquidado. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. De um lado estão os vencedores. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. Como dizia um chefe de empresa. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. os que não se assemelham aos indivíduos que. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. num mundo a priori hostil ou indiferente. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. reedição de 1961. para SADE. do outro. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. “em demasia”. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. 1835. ainda mais. 55 . AULAIGNER... “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. todos os “marginais”. O “matador frio”. pelo menos. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. “fazer correr sangue”. colocar em lugares criados especialmente para eles). como escreve P. guerreiro e sedutor.

ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. a honra e o dinheiro serão seus sem que. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. mas pela vergonha. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. infeliz de quem trapacear. aos outros. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. Ela supõe. em sua aparência. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). Se não for descoberto. além do reconhecimento dessa luta. se sinta culpável. Essa última seria uma cultura da vergonha. Da mesma forma. Tudo está no ato e em sua visibilidade. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. utilizando-se produtos proibidos. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. a luta. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. as práticas que permitem ganhar. pode ser perpetrado. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. seja ele qual for. Ora. No entanto. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. L. ir além de seus limites. sem dúvida.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. a vergonha se abate sobre o autor da ação. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). escalar um paredão com as mãos nuas. 56 . um estudo sobre a sociedade japonesa. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. Essa distinção é. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. fracassar. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. Se ele for conhecido. da agressividade. Mas. em condições normais. Todo ato repreensível. Se um ato corajoso – ou. simplesmente. em O crisântemo e a espada (1946). SERVAN-SCHREIBER. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. mas o toca em seu ser social. Assim. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. portanto. por isso.). Uma civilização da vergonha é completamente diferente. 1988). vemos proliferar. voar em asa delta etc. no interior de si. Basta que não seja descoberto. é preciso que seja conhecido por todos. da inveja e do amor.

necessariamente. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. já começa a ser profundamente criticado. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . pelo jogo de aparências. a lavagem dos narco-dólares. contra o racismo. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. o corpo se encarrega de fazê-lo. necessários à vida humana. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. (c) que os ideais fortes.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. apesar de suas imperfeições – normais. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. com um único passe de mágica. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). postos de lado. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. podem ser criados sem que daí decorra. contra a pobreza etc. quando não é possível falar-se a si mesmo. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. nascem a cada dia sob nossos olhos e. sem culpabilidade. atos dos mais contrários à moral comum. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. que o jogo está feito. privilegiando a aparência. lendo as reflexões precedentes. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. Com efeito. o fanatismo. são suspeitos. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. nas sombras. felizmente -. Porém. as notas frias. Não se deveria pensar. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto.

encontram-se na mesma situação todos os que. aceitando as regras do novo jogo. os animadores socioculturais etc. entretanto. poderão. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. Eles não se dão conta. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. Sendo assim. de afirmação ou de identificação. de crédito. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. pela alegria. deverão se precaver. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos.). não desapareceu e não está 58 . na doença da idealidade. necessariamente. eles ainda as fazem “na exterioridade”. governa seus discursos e seus atos. assim como pela capacidade de sublimação. começam a se fazer perguntas. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. Esses “excluídos”. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. Entretanto. com sua carga enigmática. de indústrias. Nesse momento. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. Na realidade. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. trabalhadores incapazes de se readaptar. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). a droga. evitando o Charybde da exterioridade. os ferroviários. por isso. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. as perguntas.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. pelo sofrimento. ser tratadas “na interioridade”. a delinqüência. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. veladamente. Mais ainda. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. Sem dúvida. busca de identidade. tal como tentei delineá-la. mesmo se a interioridade. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. esses “esquecidos” da sociedade. de espaços. Esses sujeitos. sem dúvida.

é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. o mundo político. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. p. NOVALIS.). na qual o mundo objetivo. por Sonia Roedel. 1962. com a formação. é a inquietação com o cuidado. M. v. Paris: Aubier.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. então. 5 FREUD. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. as autobiografias. E. com suas difusões amplas). DUMONT. sobre KLEIST: E. Quanto a KLEIST. p. GOETHE. ENRIQUEZ. Referências ABRAHAM. seu oposto. com o aprofundamento do eu puro ou. tão diversos quanto GOETHE. Paris: Aubier. do culto do inconsciente e dos instintos. involuntariamente. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. 1987. (N. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. 1985. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. “expressão pela qual Sto. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. espírito racional e humanista por excelência. L’écorce et le noyau. 135. 37. em suas constituições. (N. In: Sur l’individu. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. 89-112. N. 2 Grandes escritores alemães. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Eugène. em termos religiosos. Entre la marionnette et Dieu. Topique. 1976. 38-53. Paris: Seuil. o gosto pelo mórbido. o homem dos Hinos à noite. Segundo o Larousse. Le Verbier de l’homme aux loups. Cf. p. assim. da T. da poetização do universo. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921).). 34. pela emoção. como diz Lutero.Topique. Inácio de Loyola. p. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. o romantismo. 1976. citado por L. S. da salvação e da justificação da vida pura. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. N. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. 163. 1976. 3 Cf. ENRIQUEZ. Individualisme apolitique. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. 61-76. assim. da T. XVIII. ABRAHAM. Considérations d’un apolitique. a Bildung do homem alemão. e TOROK. 1989-2. é uma consciência cultural individualista. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. p. é. é a absorção em si ou introspeção. os “diários de bordo”. Rio de Janeiro: Imago. 59 . deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. 4 Como um cadáver (em latim no original). é sentido como profano e abandonado com indiferença pois.

V. Topique. 1985. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. P. DUMONT. Trad. nova. 60 . 1942. Aux carrefours de la haine. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. Hogarth Press. BARTHES. Psychoanalitic quaterly. R. E. In: Sur l’individu. 1975. “L’Individu dans la cité”. Trad. 1961. J. Paris: Ed. 1987. 1965. ENRIQUEZ. In: Essais de Psychanalyse. 1984. Paris: Payot. 1980. GREEN. 1986. ps. “Individualisme apolitique”. Paris: Seuil. Narcissisme de vie. A. R. “Condamné à investir”. BARTHES. W. franc. A. Paris: Grasset. 1962. L’identité. In: Sur l’Individu. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. R. Topique. E. retomado em Nevroses and character types. 34: 89112. Nouvelle Revue de Psychanalyse. WINNICOT. DEUSTCH. 37. Paris: Les Belles Lettres. Les visiteurs du moi. A. Trad. 1983. Paris: Gallimard. 1987. Picquier. 311-321. 11. 1970. M. 1985. L. J. Paris: Seuil. Paris: Gallimard. n. Barthes par lui-même. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. 1984. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. Paris: Gallimard/Seuil. p. In: LEVI-STRAUSS. R. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. ENRIQUEZ. Paris: Payot. Notes sur l’exotisme (1908). Biblio-Essais. SERVAN-SCHREIBER. M. de. reedição. S. D. P. H. de Minuit. FOUCAULT. 1982. EPI. Paris: Seuil. Tomo I. 309-330.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. 1981. ENRIQUEZ. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. 20-37. 25. GREEN. SEGALEN. Le retour du courage. narcissisme de mort. La chambre claire. 1982. 1946. MIJOLLA. FREUD. BENEDICT. p. VERNANT. C. Le sabre et le chrysanthème. 1987. L.

esse problema é capital. São mais raras. mas não se está à altura de compreender. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. para existir. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . no entanto. O que parece. Vamos um pouco adiante. Um projeto comum significa. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. as análises dos grupos em estado nascente. sem dúvida. de início. no entanto. Todos sabem e reconhecem isso. pois pode-se. então. Tal sistema de valores. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. neste texto. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. à primeira vista. Ora. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. em um imaginário social comum.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos.

tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. ele se apresente sob um aspecto religioso. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. mas afetivamente sentidas. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. Da ilusão à crença. num grau maior ou menor. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. aquilo que queremos vir a ser. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. com uma força particularmente viva. todo trabalho de interrogação sobre si. nos inspirar. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. é necessário que. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. inatacável: assim. a nossos próprios olhos. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. ele pode nos atrair. sagrado. Todo grupo funciona à base da idealização. Para serem operantes. A ilusão deixa igualmente sua marca. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. vigor e “aura” excepcional. da ilusão e da crença. consciente e inconscientemente. trata-se de sentir coletivamente. nela. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. Mas esse sentimento. transforma-se logo em um sistema de crença.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. Não se trata unicamente de querer coletivamente. Ora. motor de nossa conduta. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). correndo esse risco intelectual e social.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. pois ela é o elemento que dá consistência. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. a passagem é rápida.

ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. consequentemente. abusivamente sem dúvida. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. Causa a defender. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. Embora um grupo. Todo membro de um grupo é. Idealização. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. esse não é o problema. sobre a possibilidade de sua impotência. missão a cumprir.O vínculo grupal (deve. pois. que eles exerciam o militantismo psicossociológico).). grandiosa ou pueril. existente há muito tempo. de maneira mais ou menos forte. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. o militante político arrisca. E isso não acontece gratuitamente. suas práticas à da Psicanálise como um todo). o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. em certa medida. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. Todo militante político pensa do mesmo jeito. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. Assim. assimilando. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. idealização. possa perder parte de suas ilusões. FREUD já pensava que a Psicanálise. a revolução etc. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. sua vida). Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. para se desenvolver. bem à vontade. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. verdadeiramente. na formação de todo grupo. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. deveria ser defendida como uma causa. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. 63 . A causa pode ser sublime ou irrisória. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir.

Toda minoria tem. Essas pessoas sabem que. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. Eu serei menos afirmativo. As idéias novas. propagar-se como uma mancha de óleo e. Do contrário. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. para se reforçar. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. caso uma minoria. isso significa que ele se pensa. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. antes de chegar a seus fins. vocação majoritária: mas. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. algumas vezes de uma só3 . triunfar. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). Pouco importa. pois. progressivamente. mais modestamente. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. A maioria não tem jamais um grande propósito. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. mas direi que.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. de uma profissão ou de uma disciplina). o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . queira triunfar. antes de tudo e contra tudo. acreditar que está com a razão. um dia. ela deve. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. membros do grupo. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. isto é. imperativamente. sem exceção. nós o sabemos. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. sua luta não terá alma nem razão de ser. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. A maioria não tem jamais uma causa a defender. geralmente. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. talvez mesmo. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). no caso de sucesso. ela deve primeiro. se tornar a dissidência de muitos. Para isso.

maneiras inovadoras de ser. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. o grupo vai tentar destruir as instituições. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. A contestação. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. visando à repetição. visando não à contestação da ordem existente. mas propõe novas idéias. no passado. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. mas que um novo saber apareceu. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. mas à sua transgressão. A transgressão. explicitando o implícito dos comportamentos. com efeito. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. enfim. ao contrário. A Psicanálise. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. desmistificando-o e desmitificando-o. Assim fazendo. Ela não visa a propor outra coisa. deram certo. sob certos aspectos. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. vista como pulsão agressiva). Como essas representam a ordem paterna. ela é.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). 65 . novas maneiras de ser ou de se conduzir. E na maior parte das vezes ele o é. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. Toda instituição. enquanto elemento da regulação social. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. Para que a vitória seja possível. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. tem por objetivo questionar o sistema vigente. Assim. mas pela luta. por exemplo. pois se funda em instituições sólidas. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. contra um exterior percebido como tão obscuro.

não ser rejeitado. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. violência fundadora de um novo mundo. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. graças a esse imaginário comum e não a outro. não obstante. ao menos. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. Se ele faz parte do grupo. amor mútuo. deve criar um acontecimento irreversível. todo grupo. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. a priori estranhos ou rivais entre si. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. em outras palavras. Sem essa vontade de destruição. amor ao grupo enquanto grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. FREUD. aliás. porém sem sucesso. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Ódio ao exterior. Não há complô verdadeiro. irmãos uns dos outros. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. tornar seus sonhos reais. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. fazer-se aceito em sua 66 . a não ser entre irmãos. isto é. O reconhecimento do desejo Em um grupo.

não devem ser muito diferentes uns dos outros. eles se tornarão semelhantes. para que possam se amar. às quais cada um deverá se submeter. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. diferenciação A MASSA Num tal caso. eles devem se identificar uns aos outros. Aliás. em maior ou menor grau. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. querendo formar uma comunidade. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. O único problema é a mais estrita identificação. se não o desejasse. é o desejo de reconhecimento que predomina. em seu ser insubstituível. quer. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. homogêneos. Essa semelhança buscada. Assim sendo. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. Assim. De todo jeito.O vínculo grupal diferença irredutível. ser reconhecido como um de seus membros. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. O grupo. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. igualmente. em um grupo. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. um corpo social completo. não teria podido fazer parte da conjuração. nesse caso. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes.

tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. de indivíduos os mais emocionais. não parecem defensivas. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. à primeira vista. a degradação da reflexão e da inventividade. abismo. delação. por ser o mais forte e o mais belo. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. portador da “verdade” (!). com efeito. LEFORT). que será particularmente dura de suportar. sem-fundo”. tomam um vigor particular. 68 . angústias de explosão. então. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. sentimento de um meio hostil.A compacidade do corpo formado vai. face a um grupo “sorvedouro. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. Que ele se guarde da desilusão. a partir de MARX.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. sem que se perceba. tomando as características de um corpo todo-poderoso. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). Ao contrário. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. Aliás. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. Assim como. de tipo defensivo: suspeita mútua. O grupo.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. senão os mais perturbados. 4. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação.5 2.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. Estamos. avança cego. desenvolver condutas que. influência. coberto de certezas. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão.A falta de diferenças provoca. igualmente. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. progressivamente. 3. Ocorrerão comportamentos regressivos. mas que. a falta de inovação e. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem.A semelhança pode. no grupo. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível.

a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. então. ao contrário. serão excluídos do grupo. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. A tolerância existe. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. cada qual acreditando deter a verdade. de negociações rigorosas. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. a administração. O grupo se centrará em si mesmo. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. Todo mundo. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. No limite. No entanto. em um centro de jovens inadaptados. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. Os membros do grupo são. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. “níveis insuportáveis” (FREUD). o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. em certos momentos. por acaso. como a cooperação idílica não existe mas. ao contrário. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. de argumentações contraditórias. em seu interior.Se. os educadores. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem.O vínculo grupal 5. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). como frouxos ou traidores. Se não se trata de questionar o projeto comum. tive a surpresa de 69 . Em tal caso. então. (Assim. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho.

tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. Esse. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. Entretanto. 70 . tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. é freqüente. Para não chegar a esse ponto. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. assim transformado. por isso. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). se torna um grupo edipiano. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. eu deveria ter ficado menos surpreso. É raro ouvir professores falarem de estudantes. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. Fenômenos regressivos do tipo submissão. nos países ocidentais. será tentado a achar um bode expiatório. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. “personalização do poder”. ao contrário. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Nesse caso. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. Em qualquer caso. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. uma influência que vem do domínio das idéias. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. mestre do pensamento e da ação). enquanto professor. repetição da palavra do mestre. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência.

só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. tornar-se majoritário. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. isto é. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. 71 . Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. Essas questões não podem ser elucidadas. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. os membros do grupo estão condenados ao amor. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. o grupo corre o risco do fracasso. os grupos não podem se esquivar. Se o grupo é bem sucedido. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. em maior ou menor grau. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. mas também os fracos. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. Assim. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. O amor desemboca no ódio. para afirmar a primazia de sua posição fálica. igualmente. a única digna de ser respeitada. o campo social. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. Ora. como já constatamos. mas quem são os amados e os rejeitados. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. o grupo minoritário que. podem. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. se consegue impor os seus ideais ou transformar. de todo modo. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. inscrever seu sonho na realidade. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. transformado muitas vezes em processo de erotização.O vínculo grupal Mas. se somos suficientemente amados. sendo bem sucedidos ou não. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. pois um grupo minoritário. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. Com efeito. do mesmo modo que estão condenados à crença. para existir. Correlativamente.

O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. isto é. Com efeito. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. psiquiatras. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. os marginais. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. o grupo fracassa. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. em um processo de análise: 1. mas não é um resultado inelutável. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. Com efeito. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. o organizador do grupo. Se. É preciso. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. Ora. é o contrário que seria de espantar. isto é. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. educadores. serão inventados segundo as necessidades e. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. mas outro que está ainda para ser encontrado. além disso. De fato. no entanto. Muitos observadores se espantam. de outro lado. ele vai procurar as causas de seu fracasso. Ela representa uma tentação constante. se ele não provoca impacto social. por exemplo. para dizer que ele ainda subsiste. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. 72 . qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção).

pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. 2. É importante não nos esquecermos. Aí também há muita ilusão. de maneira recorrente. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. às custas do mal que nutrem com gosto. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. De fato. em vez de favorecer o seu esclarecimento. arriscar-se a ser amado. Se. Deveríamos. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. em certos casos. há muito tempo atrás. de crença e de ilusão. em muitas circunstâncias. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. a tomada de consciência se produz. no entanto. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. serão feitas análises superficiais.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. e o disse muito bem. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Ela pode levar à dissolução do grupo. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. assim. Outras vezes. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. 73 . Viver na angústia e na violência é se sentir viver. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. Além disso. FREUD disse isso.

um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. fui o único a me ocupar dela e. por José Newton Garcia de Araújo. ao mesmo tempo. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. no 360.F. 631-637. S. suas relações de poder. Eugène.U. Ma vie et la psychanalyse. B. por dez anos. C. suas angústias e. LEFORT. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Seuil. 1983. MOSCOVICI. seus antagonismos. n. p. Por dez anos. uma solução. “L’illusion mantenue”. Bulletin de Psychologie. CASTORIADIS. J. “Le lien groupal”. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. Gallimard). 4. PONTALIS. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. Tomo XXXVI. Cf. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 2 3 4 5 6 74 . em caso algum. S. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. mas é preciso não querer ir muito longe. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Psychologie des minorités actives.” (FREUD. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. P. Segundo os termos de C. Um homme en trop.

de modo algum. se me detive a explicitar tal proposição. Entretanto. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. Com efeito. Espero. atualmente. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. 1983. 1985). em Grenoble. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). na verdade. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. os acontecimentos que se produzem atualmente. convincente e inquietante. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. 75 . tanto no Leste da Europa. é porque me parece que essa tendência. Devo acrescentar. não deve. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. então.

como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. Pois bem. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. A César o que era de César. sem deuses ou sem Deus único). ela nos religa uns aos outros. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. o papel que lhes estava destinado. seja como ser coletivo). Ao contrário. sob pena de exclusão da comunidade. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. sustentadas por rituais 76 . às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). A referência dura se exprime para mim. elas não colocavam mais problemas particulares. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. um ritual compartilhado que é preciso defender. A religião produz então o “ser-junto”. a Deus o que era de Deus. As crenças. além de nos sentir para sempre em dívida. às vezes com reticência. ou seja. um dogma. isso não a obriga. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. 1989). mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. o fanatismo religioso – isto é. Assim. as grandes religiões monoteístas foram. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). se depurando. pode-se dizer que. No conjunto. com relação a ele. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. sem totens. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. no renascimento do (ou. igualmente ENRIQUEZ.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. necessariamente. no entanto. a crença exacerbada em um mito. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. ao longo do tempo. de maneira privilegiada. sem lhe outorgar. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam.

Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. aspirando assim. do declínio de uma fé sincera e manifesta. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. dos padres operários. O episódio. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. como desejava DURKHEIM. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). mas foram se laicizando. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). o Estado como aparelho separado. Entretanto. ARON. Algumas religiões. J. porque é 77 . Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. passam a se desenvolver. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. ao “desencantamento do mundo”. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. STOETZEL). Todos os homens. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. mas à criação de religiões substitutas. não assistimos. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. na França. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). a longo prazo. a longo prazo. laicas (E. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. ENRIQUEZ). a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. a qualquer preço. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). profanas (MOSCOVICI). um estado psíquico onde o conflito não aparece. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. como medida de todas as coisas.

tal como a ideologia republicana. de votos etc. de serviços. mais ou menos fortemente. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). de ideologias totais (LYPSET. Quando falo de religiões substitutas. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. (mesmo se. não como uma ideologia (quer dizer. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. quer sejam os pais. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar.). ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. na França. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. de fato. então. da ideologia de granito (LEFORT. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. pois. por ENGELS e. É. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. sob a IIIa República. 1976).Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. pois. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. após a morte de MARX. 1963). A ideologia pode. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . conscientemente ou não. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. depois. os mestres. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia.

as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. a converter ou a destruir. que ela assegura sua identidade. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. 79 . É assim que ela pode formar uma cultura. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. substituindo-os por outros que. como as religiões. em maior ou menor grau. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões.O fanatismo religioso e político (colonização). Uma religião. quando as religiões se enfraquecem. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. na época moderna. devem estabelecer com o Sagrado. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. conseguiu se desenvolver. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. antes mesmo que seja colocada. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. Ela então regula essa questão central da alteridade. heréticos ou descrentes. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. pelo ferro e pelo fogo. por sua força de convicção. As ideologias que eu evoco são. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. como uma Igreja com seus templos. Um grupo minoritário. por seu caráter absolutista. vão se impor como lei. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. ideologias “compactas” que. indica que a seita. no cerne mesmo da sociedade. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. 1979). Mas é preciso observar que. projetando-o nos outros. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. que já mencionei. não pode estar na origem de nenhuma religião. reunidos em comunidade. constituindo-se. jacente em todo ser humano. pelo sacrifício de seus mártires. representaram um papel menor na dinâmica social. sozinhos. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). então. que produzem uma cultura própria. a negar. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa.

mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. Em outras palavras. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. de seu lado. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. (Entretanto. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. como heróis (no sentido freudiano do termo). É verdade que os grandes místicos. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. 80 . porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. no “sentimento oceânico” (R. desenvolveu uma política de conversão). a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. é porque os judeus. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). porque a morte santifica e promete o paraíso. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. “poetas”. ao contrário. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. apesar de tudo. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia.

ser totalmente dissociados. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. São sociedades: a. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. na verdade. segundo a terminologia weberiana). quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. que são religiões da revelação. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. Entretanto. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. 2. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). além disso. por conseguinte. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. intensificação da produção não somente de objetos úteis. (Não existe. ideologia sem porta-voz. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. mas somente possível e previsível. é conveniente fazer algumas observações. tudo se vende”. 1971). levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. como a ideologia republicana. de novas características. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. 81 . se certas condições são preenchidas. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. sem emblemas. 1. entretanto. eles não podem. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. PALMADE). segundo o axioma de WALRAS).O fanatismo religioso e político Concluindo. as liberais e as “socialistas”.Elas se enriquecem. o texto de J. Ora. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas.

sociedades que. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. 1967. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). Sociedades sem pais e. no fim das contas. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. LAPLANCHE.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. 1989). enquanto criação e distribuição das riquezas. (Assim. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora.sociedades que. além do furor de não poder satisfazê-los.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. seu valor se corrói. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. concebê-lo como um inimigo ideal. já havia observado isso). ao mesmo tempo. 82 . Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. Assim também. se desembaraçar. c. Nesse momento. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. b. por isso mesmo. da qual é necessário. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. 1967). realizáveis. de imortalidade. d. o trabalho perde seu significado. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. sua legitimidade desaparece. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. assim. para os homens e para as mulheres. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. pensar e querer o apocalipse) e. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. “mãe das cloacas e dos brejos.

tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. da loucura. Eles querem se tornar um “Nós”. se sacrificar. os irmãos e os adversários. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. os “desgarrados”. O que desejam os deserdados. não oferecem mais interesse. Daí se seguem três conseqüências. os excluídos. Mas as religiões. da apatia. de um capitalista. do desaparecimento de referência a toda transcendência. os esquecidos. (FREUD. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. formar uma cultura. da corrupção). aquela que designa claramente os aliados. da miséria. O indivíduo desaparece. A religião reclamada é a religião absolutista. Se não somos nada além de um espartano. Essa citação dispensa comentário. de um proletário. aquela que cria uma identidade coletiva. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. de um budista. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. da exclusão. da ausência de um fundamento. no limite. Contra o mundo perverso. um projeto a sustentar. uma causa a defender. 1930) 83 . só há salvação na paranóia partilhada. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. permanecer na certeza e. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. em particular. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. no Ocidente. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real.

Não esqueçamos. nos diversos países. uma imensa massa de homens. É certo que. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. elas exigem a super-identificação à causa.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. para isso. sua conversão. além disso. ENRIQUEZ. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. anunciador de um mundo novo. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. a criar um mundo novo. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. Quanto mais uma cultura quer se unificar. no entanto. O fanatismo visa. da sedução ou da coerção). o super-investimento no projeto. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. pelo menos. 1984). dos “grandes e dos pequenos Satãs”. o espanhol despreza o português”. o que é um alimento. para ela é uma impureza?”. tais como as descrevi acima. como seres a eliminar. o inglês fala tudo de ruim do escocês. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. livre do mal. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . então. liberado finalmente do mal. ou seja. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. O desenvolvimento do fanatismo.

ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. fundamentalista. sem dúvida. São Estados. mas. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. E nós tocamos. o essencial: a dimensão política. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. Ou seja. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. sozinho. O fanatismo religioso é. para que o fanatismo se fortaleça. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. ainda. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. por sua vez. no máximo. O fanatismo religioso. primeiro e antes de tudo. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. É preciso. o sinal de seu enfraquecimento. resulta. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. É por essa razão que meu texto tem esse título. assim. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. para unificar os corações e os espíritos. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). a se tornar dominantes (por exemplo. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. Retomemos esses dois pontos: 1. Síria). onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. na hora atual. é preciso lembrar que. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. o Irã). que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. um instrumento a serviço do fanatismo político. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. o Azerbadjão.

redourar o brasão das religiões tradicionais. se ela se extingue. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . judia. Irlanda do Norte. interdição de pensar (Polônia. que querem fazer valer sua palavra. cristãs. forçosamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. 2. do qual eles não saberiam o que fazer. das comunidades islâmicas. destruição cultural. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. Communione e Liberazione.A religião não se apresenta. em nossos dias. Alemanha do Leste. Loja P2. ela designará os vencedores e os vencidos. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . lepenistas. muçulmana) na vida cotidiana da França. o convite a alguns líderes protestantes. certos grupos religiosos em Israel). Se a aliança persiste. Nesse caso. na França. b. protestante. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. judias). na retomada das negociações na Nova-Caledônia. nos quais não existe senão um fraco consenso. ela pode ter como papel: a. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. c. na regulação dos Estados modernos.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). Eglise de Scientologie). Países Bálticos.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. sob uma forma fanática. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso.

que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. ao contrário. com a ajuda de seu Deus –. não é o caso de superestimá-la. de reflexão e de reflexividade. o caos e o abismo. laborioso. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. para terminar. finalmente. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. a falta de sentido.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. paralisar a atividade de mentalização. 1. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. Os homens aprenderiam. mas que. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. prontos a afrontar o absurdo. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. desde o início dos tempos modernos. sem recorrer a referências seguras –. Se essas são capazes de inventar novos projetos. nascida desse trabalho árduo. ele tenta. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. ao invés de processos de sublimação. como no exemplo de KHOMEINY). de precisar meu objetivo. antes de tudo. sem fim. De fato. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. Eu gostaria. 87 . fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. suas dúvidas. nesse caso. o religioso. Mas. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. cada vez mais freqüentemente. o Estado leigo faz apelo.

3. Os valores religiosos. na América do Sul). “A última tentação de Cristo”. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. que a religião. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. T. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. Ora. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. do fato ideológico. Araújo. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. tão fácil e prazerosamente.) 2 88 . então a reflexão desaparece. nos seus interlocutores e. Ela lhes é consubstancial. Eu não quis dizer. (N. efetivamente. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. p. em nenhum momento. quando a ideologia dura impede o livre pensar. naturalmente. devem ser levados em consideração. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. Connexions. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. se ele não faz esse trabalho. a perversão ou a paranóia triunfam. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. Ela assume então o papel de desalienação. por Leila de Melo Franco S. Por outro lado. no outro. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. n. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. sob pena de cair.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. em si mesmo. tanto quanto outros tipos de valores. a ideologia. 1990-1. uma vez que elas são. ela lhes permite tomar iniciativas. na armadilha que denuncia. “Le fanatisme religieux et politique”. nos fenômenos sociais. Eugène. quando o religioso se põe a serviço do político. 55. antes de tudo. Se. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. do fato nacional. ideológicos e nacionais. 137-149.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação.

S. 1989. Psychologie des minorités atives. La monnaie vivante. 1971. n. 1963. 1989. In: La NEF. E. 1973. G. FREUD. L’homme et la politique. Un homme en trop. E. 48. E.). PUF. 1979. G. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. ENRIQUEZ.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. ENRIQUEZ. n. Editions de Minuit. MOSCOVICI. LEFORT. 89 . LAPLANCHE. “Notations sur le racisme”. (org. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. ENRIQUEZ. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Connexions. In: Autonomie sociale. CASTORIADIS. J. janeiro. 1985. LYPSET. PUG. P. S. sobre o fanatismo hoje. ENRIQUEZ. 1984. L’autonomie sociale. DEVEREUX. “Malaises dans les identifications”. Présentation de Sacher-Masoch. Y. M. Épi. Seuil. 1987.(1930) Malaise dans la civilisation. Cl. Epi. KLOSSOWSKI. Seuil. Au carrefour de la haine. Connexions. 54. Eres. 1971. . 1967. 1967. 1985. “La défense et l’Interdit”. C. S. 1976. PUF. PUG. DELEUZE.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. de um lado. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. e o conservadorismo social e cultural da região. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. em plena Vendée. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. sobretudo. são exportados para todo o mundo (iates. incessante. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores.2 Tais reflexões mostram. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. NA EMPRESA. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. alimentação. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa.CONJUNÇÃO. que 91 . seus produtos. vividas pelos dirigentes. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. individual e coletivo. já havia sido notado por vários pesquisadores.. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. A escolha da região do Cholet. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. calçados etc. vestuário. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. uns nos outros. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. de outro lado. por exemplo). como elas se desenvolvem. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. como elas podem morrer. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR.

Tendo analisado esses depoimentos. 92 . respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. a partir de sua criação. convidados a falar a respeito. Assim. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. de seus projetos. pudemos pôr em evidência certas constantes. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. evocava neles. ou ainda. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. clivagens. mas a empresa como objeto psicossocial. era. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. seu futuro. Em outras palavras. com efeito. sobre aquilo que a empresa. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. à antigüidade. é. a partir de suas lembranças. ao produto. como objeto no discurso dos dirigentes. que são ao mesmo tempo seu principal tema. sua história. suas dificuldades. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. diferenciações. Não se trata. segundo um método comparativo. para nós. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. isto é. entretanto. num primeiro momento e. caso a caso (empresa a empresa). e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. Uma tal aventura. para si próprios. de suas dúvidas. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. entretanto. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. o qual é vivido como o fundamento da empresa. Ou seja. que tais entrevistas. depois.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. desde sua origem até o momento atual. ainda que solicitadas por nós. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –.

com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança.o ofício ou o produto. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. grão etc. a partir do qual elas podem se desenvolver. quer dizer. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. argila. de maneira mais extensa. Essas três entidades. de um projeto pessoal e familiar. podem ser resumidas da seguinte maneira: . geográficos. a regiões de Mauges. quer dizer. de Bocage.Conjunção. a terra ou a região. nota-se que. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. com o território (nome das cidades. aquilo que é ligado aos locais físicos. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. conceitos verbais. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. Nesse último sentido. locais e regionais.) que se trabalha ou. histórica e sociológica. quer dizer. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto.a família. quer dizer. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. ou ainda. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. na empresa. também. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. . com a região (no caso. . quer se exprima pela relação com o solo. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. embora todas tenham dependido. de maneira mais abstrata. na origem. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. suas tradições e a 93 . da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. sua cultura. De maneira mais geral.a terra ou a região. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. com freqüência até mesmo joint families. A terra Essa referência é onipresente.

assim que ultrapassamos a fronteira. na maior parte dos casos. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). “não ficar falando abobrinhas. em nome de uma certa ética. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. mas também um sentimento de segurança. de empresas familiares. eis nosso jeito fazendeirão”. vira tudo uma máfia”). mas também no metafórico. não se pode fingir”. a empresa é um projeto de família. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. tanto no imaginário quanto no real. o lugar dessa é aí dominante. em caso de dificuldade. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. simultaneamente. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. A “região”. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. Desse ponto de vista. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. 94 . contribuindo para o renome da cidade ou da região. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. no sentido concreto. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. Antes de ser um projeto pessoal. A família Tratando-se. constituem então. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. um conjunto de obrigações e de restrições. bem como uma fonte de riquezas. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. nas relações e atitudes: assim. “a terra”. físicas e morais. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. atividades e lucros organizam-se em torno dela. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social.

As estruturas e as relações de poder são. na sua origem. inclusive para outras aglomerações. fortemente personalizadas. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. então. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. por um lado. ainda. como “a realização de seus antepassados”. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. A presença da família e de seu passado se traduz. geralmente. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. de papéis e de procedimentos formais. no início. na empresa. “sociedade de família”. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). “sociedade familiar” ou. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. então. de um projeto pessoal e familiar. SA.Conjunção. “empresa familiar”. 95 . de fato. Como se pode notar. sendo também imagem das relações de parentesco. onde empregados e patrões podem comer juntos. inclusive com empregados. e o capital e os salários. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. Naturalmente. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. as relações de autoridade. Da mesma maneira. designada como “negócio de família”. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). quer dizer. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. de outro. sendo um dos dois sexos. descartado. é certo. mas também nos fatos reais. num primeiro tempo. seja pelos homens (os filhos). Assim. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). entre os bens e os dividendos pessoais. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). Compreende-se.

lenços da região do Cholet. a maior parte das vezes. Nessas condições.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. com os acontecimentos familiares – mortes. Está diretamente associado às mãos do artesão. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado.. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . –. os sindicatos independentes são mal tolerados. rupturas. transmitidos de geração em geração. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. seus vizinhos. A história da empresa é assim. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. o produto Em função de sua origem artesanal. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. uma fonte de problemas e de conflitos. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. um elemento de coesão e também uma limitação. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. freqüentemente. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. Assim como para a referência à região. da receita ou do jeitinho de fazer. couro etc. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. uma inspiração. casamentos. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. O ofício. Apalpar essa matéria. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força.

eles formam então como um bloco compacto. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente.Conjunção. à terra. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. essas três bases – ou instituições primárias –. profissionais. cujas partes. trata-se de um conjunto extremamente coerente. de um projeto pessoal e familiar. o ofício. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. De fato. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. Juntos. constatou-se. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. para o dirigente. –. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. Esse processo não se realiza sem problemas. na empresa. transmitido de geração em geração. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. em desligar aquilo que estava ligado. encarnada na pessoa do fundador. estão imbricadas umas nas outras. pelo menos em parte. o marketing etc. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. ele supõe a adoção de atos concretos. vêse então que. para garantir as evoluções indispensáveis. Sua história. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. Entretanto. sangue ou mãos). políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. não em negar. com efeito. não são entidades independentes. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . Consiste. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. que asseguram sua identidade e a base da empresa.

PARSONS: do particular ao universal. de estruturas de necessidades e de motivações. consiste em passar de um sistema social a um outro. b. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. do pessoal ao impessoal. da afetividade à separação.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. do herdado (ou do dado) ao adquirido. essencialmente. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. de valores ou modos e redes relacionais. O ponto de chegada de tal processo. c. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. a transferência física da empresa para outros locais. exigindo. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria.a industrialização. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início.o deslocamento. portanto. Nos termos de T. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. elaboração de uma organização e.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. principalmente. com efeito. investimentos em máquinas e em locais especializados. ao longo de toda a história da empresa. de produções. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. seu objetivo. PARSONS. da proximidade ao distanciamento. isto é. Esses três movimentos resumem. 98 . A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. De maneira mais precisa. isto é. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta.

não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. a partir de então. ele não pode assumi-las todas e é. que põe as contas em ordem. Enfim. bem como na composição do Conselho de Administração. adquirir as competências ligadas à gestão –. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. ou ainda: “das famílias na sociedade. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família.. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. na empresa. freqüentemente. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. sua principal razão de ser – ele deve. regidas segundo técnicas e métodos importados. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. bem como uma administração capaz de a gerenciar. então. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. pode-se dizer (. com efeito.. O envolvimento da família é. de um projeto pessoal e familiar. se 99 . máximo.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. em contrapartida. obrigado a repartir o poder com outros.Conjunção. a entrada em cena de um contador. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. de acordo com regras precisas que excluem.

Progressivamente. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. como para qualquer chefe de empresa. com efeito. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. geralmente fora da empresa. mostra-se assim sempre indispensável. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. pela definição de papéis e critérios decisórios. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. É. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. principalmente entre os (jovens) dirigentes. Esses estão. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. o que permite. pois. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. a estrutura de pessoal (mais jovens. pela instauração de regras explícitas e. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. colocados numa situação extremamente conflitiva. freqüentemente. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. por conseguinte. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. ela se baseia em competências que eles adquiriram. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). mas. portanto. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. sócios etc. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. portanto. –. Esse processo não se realiza de uma só vez. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . transformando as relações de poder e os modos de pensar. melhor formados) e a da clientela. Eles são. podendo implicar até em falência.

o solo no qual a empresa se situa. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. bancos etc. Trata-se. Para essa questão. permitindo administrar as contradições. ou mesmo para o estrangeiro. isto é. preservar uma base local. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. Outros se orientam para soluções. no entanto. Se o deslocamento para outra região. para si próprio como para o ambiente é.Conjunção. 101 . como uma espécie de traição. outros modos de relação. além disso. – e o questionamento de vínculos anteriores. E. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. outras aspirações. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. pois. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. Em todos os casos. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. encontramos respostas extremamente diversas. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. renunciando a uma expansão possível. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. na empresa. de um projeto pessoal e familiar. mas permitindo a sobrevivência da empresa. uma tomada de distância em relação à terra natal. portanto. necessariamente. Se. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. a empresa adotar uma estratégia de exportação. manter uma qualidade de vida e de trabalho. nesse caso. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. por exemplo. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. é importante para reduzir. outras exigências. considerado preferível a uma expansão sem significado. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e.

portanto nitidamente diferenciados e interligados. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. margem de lucro. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. entretanto. SEU ofício que dá corpo a ele. no sentido pleno do termo. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. emerge assim uma organização. que supõem prazos e contatos (redes etc. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. criar vínculos de dependência com eles. uns sobre os outros. que manifestam um crescimento sensível. Quanto mais eles se ampliam. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. ao mesmo tempo. é ele. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. admitindo divisões e separações. é pois. é SUA família. As relações diretas. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. face a face. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. uns em relação aos outros. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. indiretas. SUA terra. algumas das quais podendo se situar alhures. no entanto. por exemplo). por exemplo. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. então. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. Seria. no entanto. situadas em regiões economicamente mais propícias. Um tal processo pode ser. assimilado a um trabalho de luto. Como conseqüência de decisões. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. com efeito. ou ainda. taxa de crescimento. mais ou menos importantes. Todas as empresas. mercados. desenvolver uma rede de sub-contratantes. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . evitando. ou ainda. produtividade. as pessoas ou os hábitos de pensar. são substituídas por relações secundárias. e de rupturas que essas provocam com o lugar. mais eles se autonomizam. por regras ou por técnicas. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. a rachar. etc).Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem.).

organisation sociale. de sua unidade. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. A instituição é um processo. André. com o título Inconscient. (N.(mimeogr. Se. ele deve sempre compor com o nível primário. despregar-se. de sua consistência. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. Paris. do clã. Mourão. de negar aquilo que é. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. que é o seu fundamento. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. sua ancoragem biológica. na empresa. ficando na ilusão de sua existência. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. sua fonte energética. uma tensão permanente.T. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. Região situada no oeste da França. constitutivo do sujeito.Conjunção. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. 1990. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. desprender-se inteiramente. 1991. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. no entanto. sob pena de perder o contato com o real biológico. existindo para e por si mesma.). O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. de um projeto pessoal e familiar. por Júlio M. collectif). Toulouse. é impossível.) 2 103 .

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. mais eficazes e mais rápidos. No momento atual. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. com o seu corolário. pois. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. a fim de que as sociedades possam. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). então. um trabalho de tal monta é necessário e. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. LÉVY e A. quais são os problemas realmente essenciais. de forma responsável. o triunfo da racionalidade experimental. Essas transformações devem. grupos religiosos etc. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. as mudanças essenciais 107 . verdadeiramente. etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. Todavia. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. aparentemente. Entretanto. No espaço até então ocupado por ela. finalmente. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. sobretudo. possível. como o evidencia Nicolaï.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. NICOLAÏ). NICOLAÏ. os “intermináveis adolescentes” citados por A. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. LÉVY.

levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. não surgirão de tomadas de decisões formais. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. sujeito). quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. o “retorno do ator”. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). É importante ainda mencionar outra questão. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. No entanto. como o fez Touraine. Seguindo essa via. capazes de contribuir. levantada por A. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. ritualizadas. na prática social. antes de mais nada. Essa disciplina deverá. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. Mas. Será. prováveis de ocorrerem na sociedade. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. igualmente. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. na atual crise pela qual passa o Brasil. como têm sido feitas.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. 108 . LÉVY). conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. dar atenção especial à conversação e ao debate. LÉVY: as verdadeiras mudanças. Ao contrário. Esse processo é longo. pelas interações entre sujeitos. quando anunciaram. interessar-se mais pelos movimentos sociais. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. realizando um genuíno trabalho psíquico. suas instituições e seus diversos grupos sociais. Ela poderá. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. na relação e pela relação. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. com freqüência. desde a sua criação. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. portanto. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. e não a nível global e em regiões centrais. seja para a evolução social. Nesse sentido. também. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. Os sociólogos não se enganaram. seja para a sua involução. para tanto.

posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. nem sempre bem sucedido. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. Se me decidi a escrever esse texto. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. no início dos anos 60. presente em muitos meios. é porque me parece que. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . ainda. e observando-se toda uma série de sinais. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. E isso se traduz em um interesse. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. malgrado as aparências. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. – tudo isso parece indicar. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. seríamos tentados a pensar que. forçosamente. na acepção forte do termo.2 o envelhecimento. no modo de compreender as organizações e as instituições e. com efeito. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações.

a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. Entretanto. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. pode-se citar a análise institucional. enfim. os métodos centrados na expressão corporal. uma após outra. senão a única. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. Essa enumeração. retomando termos de E. desde o início dos anos 70. para os atores engajados na ação. que evidentemente não é exaustiva. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. primeiro. mais recentemente. uma após outra. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. elas têm em comum o fato de terem pretendido. a análise transacional e. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. mas a vontade de inovar.. de viver de outra forma. em um determinado momento.. não apenas a inquietude e a interrogação. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. o que tem como conseqüência que. ENRIQUEZ. para os atores sociais e para muitos práticos. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. Mas importa.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. como todo fenômeno de moda. É certo que a maior parte delas não desapareceu. constituem. de ter prazer. elas tenham podido ser a referência principal. ou. Parece-me igualmente que. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. em função do que lhes parece ser necessário. 110 . Em outras palavras. Embora durante alguns anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. a análise organizacional. por exemplo). em seu conjunto.

intenções que. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”.). O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. efeitos espetaculares em uma instituição.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. então. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. meios que ele controla. LEWIN e C. a outros métodos mais longos. auto-realização. ROGERS (resolução de conflitos sociais. desse ponto de vista. Certamente. na verdade.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas.. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. Em outras palavras. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). por exemplo. eles se comparam. com ambições mais limitadas e incertas.. pelo menos – desses métodos: a. Dessa forma. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. 111 . com vantagens. por não lhe deixar escolha. ao mesmo tempo. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. fazendo assim. É praticamente certo que a análise institucional. incertos e custosos.

mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. aparecendo em utensílios. 112 . Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. “sistemas” (por exemplo. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. condenado a ser rejeitado. concomitantemente. a um “ator” ou a um “agente”. há que se lembrar. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. pelo instrumento e pela instrumentalização – que.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. tudo isso é. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. reduzido.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. Tal fascinação pelo que “funciona”. e que. Nessa perspectiva. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. dominada por relações mercadológicas e seus valores. automaticamente a problemas delimitados. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. então. Embora ocorram desvios. não garante nem assegura nada. Essa tendência já estava presente. mas também nas orientações cognitivas. então. evidentemente. especialmente a necessidade de tempo. “enquadramentos”. se possível. o sistema de ação concreto de M.

Entretanto. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. inscritos em uma história coletiva que. está próxima à noção de encomenda. um objeto. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. No que nos diz respeito. entre a demanda e a encomenda. endereçada a um outro. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a demanda é. retira-lhe. Nesse sentido. que podem. necessariamente. especialmente. assim como uma relação de troca. demanda de encomenda – LOURAU. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. Primeiramente. com efeito. implicando um bem. sem risco. Se. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. combinada então a pressões mais ou menos fortes. Assemelha-se. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. no sentido de ordenar ou encomendar. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). uma 113 . a articulação íntima entre o individual e o coletivo. no limite. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. podem-se percorrer todos os graus. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. toda história singular. ao contrário. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. então. tal distinção não nos parece desejável pois. isto é. mais ou menos explícitas. no registro econômico. O conceito de demanda social Com efeito. A demanda expressa. progressivamente. reciprocamente. Assim. assimilá-la a uma encomenda. a demandas por respostas e soluções. reciprocamente. uma grande parte de sua riqueza. há quem quis diferenciar. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. uma demanda de objeto. nesse caso. por isso mesmo. é eco de acontecimentos sociais.

principalmente. uma certa relação de poder e de dominação. Entretanto. então. 114 . durante um processo de consulta ou de intervenção. de uma falta. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. No limite. Por essa razão. seja em um quadro terapêutico. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. trata-se de uma demanda de amor. no segundo. sua interpretação é sempre problemática. em demanda de outra coisa – conselho. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. seja de reconhecimento ou de amor. objeto material etc. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. seu tratamento – é. na Psicossociologia.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). Ela se torna real por essa e nessa relação. Enquanto é apelo ao outro. explicitada pelo objeto que designa. tudo isso não é específico da Psicossociologia. Se. aí. solução. necessário indagar a respeito de seu significado. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. ajuda. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. o que lhe dá riqueza e complexidade. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. Certamente. disfarçando-se. não é uma demanda de objeto. pois o qualificativo “social” tende. dificilmente é formulada como tal. inversamente. em contrapartida. é que. sua interpretação. a demanda é considerada não como individual. mas como social. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. no primeiro registro. a demanda é facilmente interpretável. mas a expressão de um desejo. marido e mulher etc.. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. É. inclusive e sobretudo por quem a formula. Ele não é evidente. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. a “demanda” só tem sentido e só existe. Nesse caso. na acepção própria do termo. precisamente. freqüentemente ou sempre. pelo menos em um segundo plano. a questão da demanda – sua escuta.

manifestações agressivas ou angustiantes etc. podem ter efeitos nas situações que as originaram. de uma maneira ou de outra. reflexo interpretante. as quais.). o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). por sua vez. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. eventualmente. testemunhado através de seus escritos. que sua prática não é aplicação de uma 115 . de outro. das quais resultam vivências compartilhadas que. Assim. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. transformadas em atos. mobilizadas. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. atos e palavras. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Ao contrário. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. mesmo que seja de maneira difusa. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. quis ou “demandou”. às quais é difícil resistir. mas também de permitir interpretá-las. compreendidas e interpretadas. Em outras palavras. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. nas quais elas podem ser avaliadas.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Como conseqüência. de dependência ou de submissão. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. é necessário que ele tenha se manifestado. a solicitou. meios de resolver um conflito etc. não há nada em comum com a posição de simples espelho. exprimem-se sob formas coletivas (greves. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. Porém. De um lado. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas.

um serviço administrativo. da mesma forma. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. Tal representação exclui. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. DUBOST. confessáveis e tratáveis. consequentemente. não é possível. com a condição.. desde LEWIN.6 como oportunamente evocado por J. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. uma classe de atores etc. interagindo entre eles.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. a noção de sistema é bastante útil. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. mas que traduzem um desejo. principalmente. toda análise em termos de relações bipolares. afirmar que elas são. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . Desse ponto de vista. no espaço desse artigo. uma concepção da sociedade e das relações humanas. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. Evidentemente. Entretanto.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. Esse ponto. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. Assim. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). na falta de outro termo. ao mesmo tempo. Trata-se. parece-nos ser uma ética. independentemente das outras com as quais ela se articula. tudo isso expressa bem o que. um grupo. enigma. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. uma ética. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. ao contrário. uma empresa. mas através de princípios regendo procedimentos. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. uma perspectiva – que. entretanto. individuais e coletivos.

identificar os dados. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. Evidentemente. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. trata-se de tentar definir. 3. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. aplica-se também à Psicanálise. sem o perceber.Por outro lado. então.7 Porém. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. em uma relação de colaboração. por exemplo –. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). LEWIN. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . em especial. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. Em suma.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. instrumental. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. e sendo breve. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. ao mesmo tempo. J. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. antecipadamente. por K. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. é importante que todo ator e. a fortiori. em especial. igualmente. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. Assim. o interventor-pesquisador contra o risco de. Desse ponto de vista. dessa forma. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. desde o início da ação de intervenção. A introdução. 2. Sem dúvida.

“saber como se foi apreendido”. 118 . uma orientação. consideráveis nas últimas décadas. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. FAVRET-SAADA. algumas tendências atuais. reafirmar essa posição e manter-se nela. é impossível. elas expressam antes uma perspectiva. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. então. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. FAVRET-SAADA. Igualmente. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. em seguida. investigar. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. Entretanto. questionar. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. tentando identificar. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. É indispensável. de qualquer jeito. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. então. da sociedade e das ciências do homem. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. parafraseando J. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. Embora seu enunciado seja necessário.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. Da mesma forma.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. brevemente. assim como observar. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. nos termos de J. embora não suficiente. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis.

talvez rapidamente demais. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. não é mais aceitável. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. há alguns anos. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. dominados principalmente. de uma forma diferente. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. a problemas de mudança social. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. com uma perspectiva bem global. Assim. assim. hoje. de análise de grupo. de ordem geral.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. convergências. rogerianas e morenianas. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 .10 Mais recentemente. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. Por outro lado. desde os anos 60. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. no início do texto. dedicaram-se. etnometodologia. cada vez mais evidentes.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. Mostram. análise conversacional. até então. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. Em todo caso. certas correntes de Sociologia Clínica. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. impõe-se: qualquer que seja o domínio. Finalmente. por perspectivas lewinianas.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. é impossível.

42. Intervention et changement dans l’entreprise. Dunod. La voix et le regard. Façons de parler. J. DUBOST.N. 1977. In: Du discours à l’action. E. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. TROGNON. les sorts. Paris X. 1983. Seuil.. PUF. Seuil. GOFFMAN. R. 1972. A. Seuil. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. “Coopération et analyse des conversations”. LÉVY. Recherches sur les petits groupes. Paris: Seuil. 1987. Situations de groupe et relations langagières. 1987. Changements. La parole intermédiaire. LECLERC. 1989. C. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. 1980. 10 120 . RAPOPORT. “L’analyse sociale”. arquitetos etc. In: ARDOINO et al. 43. 1965. Dunod. A. L’intervention psychosociologique. 1979. DUBOST. “Eloge de la psychosociologie”. Paris: Seuil. ATLAN. la mort. A. BION. 53. Le sujet social. paradoxes et psychothérapies. 1979. H. E. L’Harmattan. 1984. Entre le cristal et la fumée. 2:87. 1978. e de representações específicas de objeto. 1987. responsáveis políticos locais. A. Como exemplos: BARUS. La société du vide. 1987. e BAREL. 12 BORZEIX. L’intervention institutionnelle. O problema da mudança individual. J. 6 8 9 FAVRET-SAADA. J. Por exemplo: ANZIEU. 1978. e CAMUS-MALAVERGNE. L. J. André. Les mots. W. 17. 9-18. muitos outros atores apareceram: formadores. Dunod. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. 11 TOURAINE. 7 Cf. G. 3 ENRIQUEZ. PUG. Le groupe et l’inconscient. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. D. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. O. BEAUVOIS. E. e JOULE. trabalhadores sociais. Gallimard. JAQUES. e LÉVY. Em especial. por vezes fundamentais. Minuit. sindicalistas. CHABROL. 1981. 1985. A. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Connexions. FLAHAULT. “Ce que parler peut faire”. 1973. 2 4 5 WATZLAWICK et al. Tese de Doutorado. Connexions. DUBOST. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. 7. Sociologie du Travail. 1990. “Connexions”. Payot. L’observation de l’homme. 1984. R. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. J. Y. Connexions. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. PUF. 1975. J. nos anos 60 e 70. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens.

4 Essas evoluções. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. em contrapartida. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos.3 sobretudo nas Ciências Humanas. tendência.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. no campo que nos interessa. depois de LEWIN.2 Mas. em nenhuma das duas. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. certamente. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. de forma mais ou menos clara. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. Entretanto. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. retorno a uma problemática do indeterminismo. mais do que como fenômeno excepcional. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. o segundo 121 . resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. também. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto.

parece-nos possível. por definição. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. de uma leitura psicológica.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. aquém ou além. do interior e não de um ponto de vista exterior. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. prever. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. hoje. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. porém algumas observações prévias: a. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. 122 . necessariamente. Nesse terreno. isto é.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. definitivamente. compreendê-la como tal. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. ele permite. participando delas diretamente. no grupo (na relação e pela relação. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva.5 Além disso. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. aqui. K. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. necessitando ser aprofundada. Antes. como demonstramos num texto anterior). recristalização). de súbito. deslocamento. para as constatar. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. LEWIN. muito fecundo. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. com efeito. Assim. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. iria reificá-lo. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. dirigir ou combater. mas que ela poderia se realizar. com efeito. por isso. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada.

econômico. assim.. à aventura. não se reduz a esse processo evolutivo. escrevia Paul VALÉRY.. é o espírito que. entretanto. desse ponto de vista. Com efeito. a um processo de mudança.. como ruptura. A teoria dos sistemas distingue. reprodução das instituições. Antes de ser um acontecimento objetivo. A mudança é um trabalho do espírito. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. como observou Paul VALÉRY.8 Com efeito. redirecionamentos. O termo mudança poderia.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (.. que queremos nos centrar aqui.).. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. pois. eles não podem ser previamente enunciados. mutações. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. Como já dissemos.. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. lento e ininterrupto.. é sobre essa segunda significação de mudança. Ele se traduz. designar tudo o que está vivo. ao risco (. seja a de um indivíduo ou de um grupo. físico. porém. (.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. é acontecer. Com efeito. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino.9 a mudança. reprodução das idéias... o desenrolar de uma existência. freqüentemente não isentos de violência. “exceto do corpo que se usa”. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . reorientações bruscas. tal definição é geral demais para ser útil. a mudança é um acontecimento psíquico. que é a morte) – reprodução das espécies. é se abrir a uma história.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. Toda vida é “repetição de ciclos”. nem todo processo discursivo se identifica. tecnológico –. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança.). também.. ela é um acontecimento subjetivo. No entanto. legitimamente.

em todos os níveis. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. Para entender bem essa proposição. então. ao nível de suas significações. os psicossociólogos. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. Por exemplo. isto é. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. antes de tudo. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. o lugar da mudança. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. Ou. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. a liberdade”. se o ato é fundador. por excelência. representações ou intenções e os que estimam. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. ele o é apenas se fizer sentido. ainda. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. ao contrário. das instituições. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. Fazemos. objetivas.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. dos modos de pensamento. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. ao contrário. 124 . por um trabalho do espírito. A decisão: momento. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. um trabalho de pensamento. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. As condições materiais.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. depois de LEWIN.

o “golpe de força” na origem de toda organização social. com o risco de sua própria desagregação”. Por isso. o psicanalista W. um salto para o desconhecido. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. a divisão. “operando uma disjunção violenta. só pode ocultá-lo. em um trabalho anterior. Os processos de decisão analisados por LEWIN.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. a organização social. renunciando. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. Somente a decisão pode fundá-lo”. LEWIN. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. ao mesmo tempo. da ordem do real-concreto-sensível. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. em suas opções e em seus desejos fundamentais. por si. inicialmente. da continuidade sem hiatos. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. necessariamente. então. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). 125 . para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa.12 A decisão seria. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo).13 acentuamos o ato arbitrário. em sua época. para chegar ao processo secundário e criar o real. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. do feminino. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. da duração (bergsoniana). Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. por exemplo). por si própria. uma situação nova e envolve inteiramente. o tempo. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha.

econômicas ou sociais. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. como que por mágica. retomado ou reinterpretado. Toda decisão é. apenas por seu enunciado. um ato de palavra. manifestação da vontade de produzir. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. é o mesmo sujeito da enunciação. isso significa que uma escolha.. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. mas porque é um ato público. pois ele pode sempre ser desmentido. não pode significar uma mudança. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. evidentemente. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. em si mesmo. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. modificações na realidade.” é um ato “ilocucionário explícito”. simplesmente.. ao mesmo tempo. de forma mais importante ainda. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. pois. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. explicitamente designado. as situações institucionais. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. Mas. qualquer que ela seja. assim. tomados como testemunhas. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. quer sejam. não muda nada. que uma decisão necessariamente modifica. Se o sujeito que 126 . só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. Mas. Um ato.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. a decisão é.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. por seu conteúdo informativo e prescritivo. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). Isso não significa. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. simplesmente. O sujeito de tal enunciado. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. assim. nem que a palavra seja onipotente.

igualmente. não se reduzindo. do imaginário. a respeito do herói. os desafia. como diante da morte –. Decisão. o jogo de hipóteses. Então. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. formal e. sob a má fé dos argumentos. vazios de sentido e sem conseqüências. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. interpretação e prática de análise social No entanto. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. entre as possibilidades. talvez mais do que em qualquer outro momento. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. como muitas vezes ocorre. para fundar o real. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. esconde mal. inelutável. conscientes ou inconscientes. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. a uma atividade lúdica ou de encantamento. efetivamente. sem apreender o real? 127 . para um processo de mudança. bem antes do livro sobre Moisés. Aqui. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. eles próprios. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. rituais ou emblemáticos. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. Nesse sentido. e de abandonar o terreno do possível.

Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. certamente. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. Assim. sendo difícil. com efeito. igualmente. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. P. FAYE15 as analisou. para fazer a história. feita pelos psicossociólogos. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. 128 . como observa FAYE. Seria importante. senão impossível. tais como J. ao mesmo tempo. Mas ele pode. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. O trabalho sobre as resistências. possuem as características do relato histórico. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. certamente. Certamente. Esses sistemas. escapar dessa eventualidade. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. termo que. ela é necessariamente parcial e partidária.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. ainda que não tenham conhecimento disso. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. incontestavelmente. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. implica um risco e um custo. como toda decisão. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. mas. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar.

moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. mais ainda. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. em um processo de reificação de enunciados fechados. de uma mesma “realidade”. visto que essas. que preserva o analista social da decisão. então.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. longe de se fundamentarem no “real”. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. que eles constituem visões diferentes. assim. mas sua coerência. mas tende a afastá-las. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. “nascendo. É aqui que uma concepção por demais rígida.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. não podendo ser traduzidos em decisões. muitas vezes. ao contrário. ideológico. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. contentando-se em esclarecê-los e. do risco de uma interpretação verdadeira. subtraído do tempo”. justificando. práticas contestadas ou abordadas. bem claramente. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. sobretudo. uma parte da verdade comum. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . pois. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. atuem diretamente no real. contribui para reforçar seu caráter dogmático. no inconsciente dos sujeitos. essas diferentes visões e o que elas ocultam. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. diz-nos LEGENDRE. cada um. o texto. das condutas às quais elas se referem. mas complementares.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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Nesses períodos. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. os novos conceitos e hipóteses. literalmente. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. autopoieses. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. os atores. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). *** Quais são. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema.Os conceitos de auto-organização. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). Assim. isto é. 2. Eles se referem a sistemas autônomos. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. em 1900. inicialmente. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. cujos elementos. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. as crises econômicas foram. colocam outros problemas. como crises momentâneas de coerência. ou seja. supra) agidos. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. face a “ruídos” provenientes do exterior. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. capazes de se auto-regularem. atores e autores do seu sistema. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. pois. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. em 1950. autocriação. autogeração etc. a partir do século XIX.Inicialmente. químicos ou biológicos. oriundos de outras áreas. não restavam mais que 10 000). por isso. mas abertos ao seu meio ambiente e. o que não é o caso dos elementos físicos. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. então. isto é.Rupturas. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). constituindo-se. são simultaneamente (cf. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura.

a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. entre os economistas. na sociedade ou numa área econômica dada. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. amplia a margem de manobra dos inovadores que. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. No entanto. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. o compromisso fordista empresários-assalariados. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. logo não previsível. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). mas isso deixa de lado os fatores 136 . sob o protecionismo de MÉLINE. Nesse ínterim. Sua presença é vista como consolidada. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. de inovadores potenciais.. sob a égide do Estado.2 por exemplo). e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. por conseguinte. de um lado.P. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. de outro lado. Essas crises-ruptura. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. encontramos poucas reflexões (na França. Mas. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. em especial. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. na França. É certo que essa escolha é aleatória.I. segundo CROZIER) e. nesse momento. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”.

inerente ao sistema. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. 137 . por conseguinte. Há outro problema não estudado. da predestinação do mais forte. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. nessas mutações estruturais. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. tornando possível viver em perspectiva (C. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. em cinqüenta anos. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede.000 sociedades. ao nível dos detalhes. nesse quadro. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Em épocas de crises-ruptura. uma teoria do fracasso. a difusão ou não – de suas inovações. entre a mão invisível e o punho de ferro. assim como aos fatores culturais. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. ele se torna o ordálio. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. CASTORIADIS).I.. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). ou seja. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). da designação.P. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. Mas ainda continua faltando. Mesmo se essas teorizações existissem. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno.Rupturas.

após dessacralização. integrismos. após a solução eventual da ruptura.enfim. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. ENRIQUEZ): nacionalismos. BOYER.outras referências. às vezes. ao mesmo tempo. .fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial).aumento do número dos agentes aí implicados. podemos constatar: . .I. des-sindicalização e mesmo des-identificações. . embora ainda não totalmente.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. por exemplo). despolitização. à extensão do capitalismo (os N. homogeneização da linguagem.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. o lúdico. polimorfismo das intervenções do Estado. 3. que o Centro se desloca. da cultura. .P.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. GROU. Mas. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. devido à extensão atual do mercado e.). diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação.fenômenos de regressão a formas mais simples. 3 . Certamente podemos multiplicar as referências atuais: .fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. . “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). mesmo que saibamos.). poderes oligopolíticos em escala internacional. o sagrado e. 138 . integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. Ela se define (P. desde BRAUDEL. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. por exemplo): concorrência. . a família e a escola).Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade.

regras ou convenções para lhe dar suporte. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). informáticos. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). quando da sua transgressão e. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa.). químicos. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. Essa adesão. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. o leque dos comportamentos não é.Rupturas. para serem fecundas. É preciso. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. devem inicialmente ser especificadas. D. as sociedades animais). uma interiorização das normas e uma culpabilização. E esses. por um lado. por um lado. tão caro aos marxistas de outrora. 139 . para poderem inovar. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. Contrariamente. das conexões) e do “salto qualitativo”. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. por seu lado. 1. introduzir normas. pois. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. para cada grupo de agentes. como afirma o individualismo antropológico. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. completamente fechado. REYNAUD).Nos sistemas sociais. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. biológicos e mesmo etnológicos. Do mesmo modo.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. Ela supõe. por outro. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. por outro lado. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). mecânicos. além das imposições do mercado e dos demais poderes.

muito numerosos e/ ou muito obsoletos. no segundo. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. No total. por exemplo). No primeiro caso. dos fatos de regressão (por exemplo. mais nitidamente. os outsiders e os parvenus substituem. de se expandir e. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. devendo encontrar.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo.5 o pessoal patronal). Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. por isso mesmo. a modificação do tipo de conjuntura. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. 140 . os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. O imaginário da destruição pode. 3. as ocasiões de experimentar. em seguida. inovações. sem esquecermos ainda as marginalizações. enquanto que. então. de sua unicidade histórica. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. em período de crise. seria preciso distinguir. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. acumulação. pelos golpes das OPA. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. da sedentarização ao nomandismo). 2. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. por fim. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). Existe então.Quando há ruptura. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. Por outro lado – apesar de KEYNES –.

141 . mutations et complexification en économie (mimeogr. 55. normas. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra.As estruturas (as relações de complementaridade e. 2. “esgotamento da relação salarial fordista”). A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. n. André. uma mutação estrutural. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. um esquema ideal típico. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). 3.Mas a adaptabilidade do sistema. por Teresa Cristina Carreteiro.T. A continuação do funcionamento implica. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. n.). Revue Économique. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão.). março 1989. portanto. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). então. por conseguinte.T. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. 40. 1990. por conseguinte. Paris: ERES. representações. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. 2. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. Connexions. a aquisição de conhecimentos e de representações. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. então. Cf. Cf. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. por exemplo. para experimentar as inovações. “Malaise dans l’identification”.Rupturas. “L’économie des conventions”. a adesão às normas e. tal como: 1. N.). V. Ruptures.

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na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. por exemplo. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. João Paulo II. TAPIE e outros). No Ocidente. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. por sua vez.Ela mobiliza atores em potencial.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). jogando. MITTERAND. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. 4. precedeu uma crise política. Do mesmo modo. 2. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. “desfusão das pulsões”. 3. não se trata mais de crises (isto é. nos anos 60. no 52) A crise das identificações. condições de “saída da crise”: l. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. precedeu uma crise econômica. MARADONA. Pois essas “perturbações”. e os transforma em autores das mudanças. quando não destroem a sociedade em questão. (Hobbes) Tempo é criança brincando. ROCCARD. BRANDT. Assim. criam. a qual. Atualmente.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. a introdução de novas referências. de criança o reinado. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. (Heráclito. de incertezas). ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. 143 . talvez anuncie o fim delas. E. de algum modo. Fragmentos. então. porém robusta. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W.

a tipos de personalidade diferentes. com todas as posições intermediárias possíveis. ao mesmo tempo. O “mal-estar na identificação” traduz. desses imaginários de projeto. angústias de identidade. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. ao contrário. por um lado.Ela libera. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. a categorias socioprofissionais e. a grupos étnicos. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. diz FREUD. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. de modos diferentes. reativados ou mesmo imaginados). 6. é claro. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. pode-se reciclar também a identidade. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. para todos. de assimilação e de inovação.No final de contas. por outro. tentativas de reconstrução. O resultado é que. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. assimilam e transformam. localizadas e transitórias. levados pela incerteza das situações e do futuro. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. não apenas a realidade parece incerta. assim. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. o individualismo ilusório ou de oportunismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. as “intermináveis adolescências” que. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação.

Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. gorros cristãos etc. a. regionais. solidéus – kipas – hebraicos. é paralela à involução identificatória de seus membros. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. nos dois sentidos do termo. profissionais. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. a regra e as sublimações. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. Fenômeno que ilustra 145 . à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). b. finalmente. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir).O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. em vista da emancipação para o societário e a individuação. A identificação que não se desvencilha do partido.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. Por exemplo. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. e a aparência NAP) pelo simbólico. Assim. religiosas. nacionais. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. da empresa etc. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. as reativações religiosas atuais no Irã. do racismo. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos.3 A família.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. da igreja. é claro. c. organizacionais etc. de classe.

pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que.Do primeiro diremos pouca coisa. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. entre 1983 e 1988. exatamente como Deus. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal).Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. Ela é. é. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. por sua vez. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. sendo aliás esse que permite aquele. ipso facto. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. fortalece as exigências da necessidade econômica. às avessas. especialmente na França. E isso. primeiramente. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular.Mais interessantes. Quer dizer que o narcísico. O retorno pode ir ainda mais longe. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. além disso. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. o narcisismo individual. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . b. com o dinheiro. principalmente.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. justamente porque mais na moda. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. a. isto é. “tem necessidade dos homens”.

a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE.) permite. o festivo. o mercado. se autodestruiria. essa acumulação pecuniária permite. induz não ao 147 . tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. Isso é talvez patológico. Além disso. “Criem sua própria empresa”. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. Entre a binaridade e a injunção contraditória. mais tranqüilizadora. em prêmio de Schadenfreude. Enfim. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). de junho de 68. Na verdade.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. Assim. numa androgeneidade fecunda. o sucesso dos outsiders permite também e. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. se ela for realizada. o prestígio etc. O dinheiro. em substituição ao “Mudar de vida”). é mais simples escolher a binaridade. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. notemos que o modelo do sucesso individual. Por enquanto. simultaneamente. caso se propagasse a todos os agentes. manter ou criar os meios de aumentá-la. talvez. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. A monetarização.

(T. a partir de elementos de vestuário comuns.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. a individualização extrema dos novos modelos. No caso de fraqueza delas. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. Intermináveis adolescências. a programação dos computadores das Bolsas) que.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . daí resulta. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. 1. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. a nítida binaridade do mercado. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. nas três etapas – puberdade. necessariamente. passa-se rapidamente. Acrescentaremos apenas algumas observações. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. logo. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. cada um será. em contrapartida. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. na época atual. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. esse narcisismo manipulador. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. entretanto. ao insolúvel. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. adolescência e pós-adolescência -. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. um cavaleiro solitário.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. pelo menos em muitos jovens. Nesse caso. Assim. inclusive jovens executivos12. entretanto. Além disso. no que tange à história do capitalismo. conjugada com a manutenção dos objetivos. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. pois. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. como. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. Pode-se. uma vez instaladas. pois. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. por historiadores como BRAUDEL ou I. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. É por isso que as revoluções. 154 . fora do controle exercido pelo Centro. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. Com a condição. mesmo que sejam minúsculas. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. não podem ser reorganizadas e reorientadas. antigamente atrasadas. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). “surpresas”. em certas regiões. por exemplo. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. Além disso. produzem-se onde não se espera e constituem. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido.

das coisas. a personalidade arrisca-se a desmoronar). principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. mas existem. E como se sabe. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. podemos contrapor.. cujas identificações seriam. do espaço. as identificações são. aí. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros.) pelas outras. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . dos prazeres. no adulto não é a repetição mas. numa situação de mal-estar. dos valores. logo. em seguida. no início. Assim. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. unicamente confirmadoras da identidade. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos.. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. ao contrário. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). política etc. Paralelamente. idealmente. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. a conformidade e. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado).). Mas. a captação do lúdico (jogo de papéis. jogo de empresas. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. diz WININICOTT). E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores... por sua superação. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. ainda mais. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. Em contrapartida. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. MC DOUGALL). das idéias. GODALIER). constitutivas da personalidade e.

então.tentam-se. Mas. ao mesmo tempo que se escreve. imprecisas e transitórias. entre esses tipos extremos e opostos. em transformar as identificações laterais. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . Desse modo.a dificuldade está. DUPUY. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. com o 156 . .isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. sem dúvida.13 Fundamentalmente. então. em identificações hierárquicas. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). situam-se todos os barrocos das sociedades concretas.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. representadas e transicionais. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. . as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. como vimos. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. . retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. Essa é. .experimentam-se. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. por exemplo). Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. então.

a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. com a eliminação das organizações. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. outsiders ou reciclados. e das intermináveis adolescências. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. às vezes. da maioria dos marxistas.. apesar de tudo. de fetos ou de liberdade de viajar. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. dos indivíduos e da identificações 157 . das coordenações pelos sindicatos etc.. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. em concorrência). de passagem. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Chegando à encruzilhada. que apesar de HEGEL. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. na Colômbia ou alhures. das utopias (“mudar a vida”. como na tectônica as placas entram em fricção. o fim da história só concerne a cada indivíduo).Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. de bandeiras. pois. quanto para aqueles que o desemprego.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. Algumas conseqüências 1. aliás. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. Há. Daí a multiplicidade. por isso. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. Essas apropriações podem. em 1981). (O que prova. tanto para os autores das mudanças. o mal-estar subsiste. no fim de contas. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. podem entrar em conflito. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. 2.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). Enquanto isso.

as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. E a que corresponderia. os espaços. ao mesmo tempo agradável e funcional. O barroco societário atual é. talvez. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. Por isso. as gerações. pedidores de emprego. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. as únicas referências ainda fidedignas. ENRIQUEZ. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. um momento dessa ascensão. das normas e das formas. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. necessariamente. Ora. como alguns dizem. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. principalmente). Os signos (o sol. 158 . para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. os tempos. então. encontramo-nos. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. 3. portanto. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. amanhã. por um momento denegadas (entre os sexos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego.). e a complexidade progressiva do sistema.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. a estrela polar) são. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema.Mas sabe-se também que o vínculo social e. as culturas etc. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. Talvez. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos).

Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. Pléiade. André. Estaria a saída. para outros? Mas. Auteuil. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. 29. É por isso que. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. no mal-estar. então. “Zur Kritik. ao contrário. do econômico ao sagrado. sociedade e personalidades”. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. C. p. 2 de março. 1981. edição de 1963. 40. “L’économie des conventions”. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. 1989. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Passy. Connexions.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. Revue Economique. Petit Larousse. n. Oeuvres: Économie. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). sem dúvida. Hoje ele teria. W. nas diferentes esferas do social.]. Gallimard. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”.” In: M. MARX. simultaneamente. 159 .. 55. 61-78. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. logo. na formação de ninho familiar. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre).. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. O problema: em época de “destruição criativa”. p. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. das coesões) não parece ainda inventada. RUBEL. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 1990-1. a receita das identificações complementares novas (e. no adulto que eles se tornariam. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. As épocas de crise e reconstrução valorizam. 239. Mais dura foi a queda. Tomo 1. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. N. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. naturalmente).T. os atores (Individualismo). por Eliana de Moura Castro. NAP: Neuilly. Temos assim uma alternância de interpretações.

Les révolutions minuscules. ne m’aime pas. 1982. 1960. Le désordre. L’individualisme. DUPUY. P. DE CLOSETS. Paris: Grasset. L’homme et le sacré. ENRIQUEZ.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. Paris: Seuil. 1985. 1983. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. BAREL. 1989. M. D. Paris: Seuil. D. ANREP. CERISY (Actes du Colloque de). 12 13 Bibliografia ANATRELLA. J. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. ARMANDO. VERNANT. n.] uma não-imitação de exemplos paternais”. Les destins du plaisir. M. “Le changement en question”... R. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil. L’auto-organisation. 1988. por outro lado. 1988. ENRIQUEZ. 160 . Interminables adolescences. 1977. Le lien social. BELL. BELL. CHASSEGUET-SMIRGEL. 45. Bulletin de l’AISLF. L’acteur et le système. Paris: Minuit. G. Connexions. The end of ideology. Les deux arbres du jardin. M. Paris: Cerf. P. Toujours plus. J. CROZIER. Cf. Paris: Seuil. J. 1982. Paris: PUF. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. 1989. Cujas. ELKAIM.. Paris: PFNSP. Paris: des Femmes. 1988.. n. Les ruses de l’intelligence: la Métis. n. Paris: Gallimard. oportunismo. DENOYELLE. P. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. Aux carrefours de la haine. 1979. New York: Collier. 1989. FRIEDBERG. Ordres et désordres. De la horde à l’Etat. P. 29. E. 1950. 1976. 1979. 1982. J. 1987. Autrement. T. DETIENNE. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. CAILLOIS. Uma mudança social. Paris: Seuil. 1974. C. 1975. LECA. Paris X. para TARDE. 1981. E.. BIRNBAUM. A. BELL). Les contradictions culturelles du capitalisme. Tese. Winnicott en pratique. 1984. BALANDIER. 51. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. Paris: ESF. J. M. Paris: Flammarion: 1974. Connexions. Grenoble: PUG. La distinction. n. 4. CASTORIADIS. “Les représentations sociales”. AULAGNIER. 1979. 1988. Paris: Fayard. Si tu m’aimes. Paris.-P. Paris: Gallimard. Le paradoxe et le système. 1988. BOURDIEU. Autonomie et systèmes économiques. F. Paris: PUF. Y. Freud et l’éducation. mobilidade. Paris: Epi.

Paris: Gallimard.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. Revue Economique. LÉVI-STRAUSS. S. H. 3. S. E. GOFFMAN. n. MITSCHERLICH. 1973. psychose et perversion. 1974.” L’homme et la société. MENAHEM. M. OLIVIER. 1982. NICOLAÏ. Paris: RFP. Paris: Gallimard. Névrose. A. Paris: PUF. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. 1989. Cl. Paris: CNRS. Le déclin du complice d’Oedipe. FREUD. FREUD. FREUD. W. 18 julho. G. 18 mai/7 jun. Idéaux. 25 de out. LASH. In: Essais. Paris: PUF. nov. “Les Français et l’argent”. S. SEGALEN.. TOURAINE. “Penser le chômage”. 1971. Malaise dans la civilisation. de la vertu et de plaisir. G. “Et le poussent jusqu’au bout. outono. Paris: Plon. TARDE. G. L’autre et le semblable.1974. 1978. Les enfants de Jocaste. Ch. Le retour de l’acteur. 1989. Paris: PUF. SEARLES. B. 51-54. 1984. 1977. Paris: Minuit. “Les mutations de la famille. Paris: Plon. Paris: Gallimard. Playdoyer pour ume certaine anormalité. FINKIELKRAUT. Traverses. 1980. angoisse. 15 nov. SIBONY. S.. LIPOVETSKY.” Connexions. WIDLOCHER. Vers la société sans père. Les rites d’interaction. n. 26 jan. 161 . Paris: Payot. Ressources. “La nation disparaît au profis des tribus”. LE GENDRE. Forum de Delphes. n. Paris: Denoël. n. n.. “La voix écoute”. S. n. D. out. J. 38-39. 1989. Paris: PUF. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. L’empire de l’éphémere. Paris: Maspéro. G.. FREUD. 1989. “Psychologie des foules et analyse du moi”. “Et mourir de plaisir. Paris: Payot.” Peuples méditerranéens.. A. 1934. 1970. F. D. L’effort pour rendre l’autre fou. Paris: Seuil. La pensée sauvage. 1971. Nauplie. S. 1958. NICOLAÏ. A. FREUD. Paris: Gallimard. 1979. Cl. Jeu et réalité. Anthropologie structurale I. junho 1987. 1989. 1980. D. Paris: PUF. 1981. 1988. Paris: Gallimard. Pour décoloniser l’enfant. 2 de março. 1971. Pouvoirs de l’horreur. 10. LÉVI-STRAUSS. D. “La politique en apesanteur”. SIBONY. 27. Le complexe de Narcisse. 1987. Inhibition. Revue française de psychanalyse. A. 1951. Paris: Laffont. 47. Mc DOUGALL. n. et al. FUKUYAMA. MOSCOVICI.. 1989. WINNICOTT. Rationalité et irracionalité en économie. Les lois de l’imitation. “La fin de l’histoire?” Commentaire. GODELIER. 1983. Psychologie des minorités actives.. 1981. J. n. Le Monde. Cl.. 40. Paris: Fayard. 1979. M. MENDEL. 20. Reedição GEX. Le Monde. A. 1980. 1989. “L’économie des conventions”. KRISTEVA. 1980. nov. symptôme. Freud et le problème du changement.. A. 1989. NICOLAÏ. 1966. Le Monde.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

1987). Pelo que eles mesmos nos contam. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. Assim. que essa “crise” também eclode em vários países e que. entretanto. ela tomará formas próprias. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. na maioria das vezes. por exemplo. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. nas décadas de 60/70. em uma espécie de “crise das instituições”. também. mais tarde. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. criando em nós uma vontade de entrar no debate. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. lançar um olhar novo sobre o mundo. essa parece ter sido. pelas Comunidades 165 . a partir da divisão não-saber x saber. Benevides de Barros É. sem dúvida. em fins de 50/início de 60. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. em cada lugar. desembocando. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. contribuir. É bem verdade. 1980. No Brasil. de A. LÉVY (“Intervenção como processo”. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. os textos de J.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. 1980) e de E. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. sem vê-lo como algo já dado. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. Poderíamos dizer. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. instrumentalizada então.

LAPASSADE. G. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. LÉVY. GUATTARI e G. 166 . O mês de maio de 68 francês. quando tomado em seu sentido amplo. de modo generalizado. Por aí. No campo da Psicologia. E. R. político e social. convulsionado pelo golpe militar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. principalmente. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. designa a crítica à naturalização das instituições. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. colocou em cheque. por outro. na interseção dos campos filosófico. então. do conservadorismo universitário. palco de uma produção expressiva. As instituições são analisadas. ENRIQUEZ). DUBOST. LOURAU. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. através do contato com os “institucionalistas” franceses. fica claro que “Movimento Institucionalista”. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. ARDOINO) ou. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. J. da burocracia partidária. inserem-se. No Brasil. questionamento de seus modos de instrumentalização. como à Argentina. A. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. Em meados de 60. Os fins do anos 60/década de 70 serão. crítica das experiências instituídas. de um lado. presenciamos. desde essa época. PAGES. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. analisador histórico do status quo vigente. ainda. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. uma certa psicossociologia se faz intervenção. HESS. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. então. à Socioanálise (R. Ainda que marcados por grandes diferenças. J. Vemos. ao Chile e ao Uruguai. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. DELEUZE). chegar também até nós o eco dessas produções. o país. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados.

(MATA-MACHADO. alguns de Enriquez. mais especialmente.. Junto com René Lourau (. sob a liderança de Garcia.). Lapassade (. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. Ambos haviam participado. A entrada se dá. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (.) Em 1971.. (MATA-MACHADO. Em 1967.. Lévy apresentou-nos.)”. voltado à pesquisa e à prática. MATA-MACHADO. 2) O pensamento institucionalista atravessa. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. p.R...) havia formulado a teoria da Anáse Institucional.. a influência do pensamento institucionalista francês. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. 1992.. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. portanto. É marcante. em 1959..P. via Universidade e. p. cuja prática foi denominada Socioanálise”. a partir de 1968. segundo a autora. 1992. Se no início a orientação era claramente norte-americana. O recente trabalho de M.. 2). a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.(. sobretudo. através do Curso de Psicologia.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.). p. com a qual logo rompemos (.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. de Rouchy e. além de seus próprios escritos. que congregou pesquisadores práticos (. Com PAGES. 167 .. mas há algumas produções importantes que já apontam. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte..). respectivamente. 3-4). 1992.. da formação da A.. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. tivemos entre nós. de forma mais pontual. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.. “(. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA).. como grupo. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972..I. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. segundo M. mantinha. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG.

entre outros). 1992. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação.. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. Hoje. no Brasil. p. psiquiatras e psicólogos. O que se percebe é que. por um certo tempo. p. fez com que. G. G. cujos interlocutores privilegiados são A. enquanto que. LAPASSADE. No Rio de Janeiro. 1987). há alguns projetos em andamento. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. R. pedagogos. entretanto. MENDEL). menos desejosas de mudar o mundo (. 1986). trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. em fins de 70/início de 80. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. assim. 1992. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. construindo-se práticas singulares. LÉVY.. CASTEL. ENRIQUEZ. “parcialmente abandonada. G. 1992). segundo a autora. mais tarde. Na década de 80. LEITÃO e BARROS. o movimento institucionalista inclui sociólogos. Encontramos. na Europa. atentas às características da realidade brasileira. DELEUZE. além dos autores já citados.)” (MATA-MACHADO.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. no Rio de Janeiro. 6). Ao mesmo tempo. FOUCAULT. mas estendendo-se até hoje. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. DUBOST e E. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. J. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. 168 . É também na década de 80. Essa perspectiva é. 4). O pensamento pichoniano. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. F. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. GUATTARI. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. LOURAU. a partir de então. somou-se a influência do pensamento de outros (M. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R.

ROLNIK. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. 327p. à instituição de formação e à de pesquisa. M.). LEITÃO. Gregório F. 1984. GUATTARI e de G.. Análise institucional no Brasil. C. Rio de Janeiro. Suely. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Heliana B. DELEUZE. 1987. e BARROS. Atualmente. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. MATA-MACHADO. (orgs). 169 . bem como na entrada. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. e BARROS. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. Félix e ROLNIK. Especialmente através dos trabalhos de S. 1986. as contribuições da socioanálise. na universidade – PUC/SP –. B. História do Movimento Institucionalista. RODRIGUES. em São Paulo. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Petrópolis: Vozes. e SAIDON. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. 1992. já toma contornos bastante diferenciados. Grupos e instituições em Análise. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. desembocando em algumas traduções e publicações. Rio de Janeiro: Vozes. tendo incluído outras influências teórico-práticas. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. mais tarde. em suas várias vertentes. Intervenção psicossociológica. 1992. Marília N. Heliana B. 1986. em alguns casos. (mimeogr. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. C. sobretudo. GUATTARI. 175p. hoje. Regina D. Osvaldo (orgs). Micropolítica. A década de 60: seus efeitos no pensamento. KAMKHAGI. O inconsciente institucional. Mas.). Regina D.). de obras desses autores. (mimeogr. incluindo. RODRIGUES. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. Belo Horizonte. pesquisas e intervenções. Vida R. 164p. o “pensamento institucionalista”. 22p. (coord. Cartografias do desejo. difundiram-se os pensamentos de F. B. nas intervenções e práticas sociais.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

a natureza do “saber-fazer”. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. a interação entre essas variáveis. a algumas observações. finalmente.a formação.as condições gerais que engendram. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 .as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. principalmente. Por mais banais que sejam. Limitamo-nos entretanto. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. os princípios e as modalidades de sua intervenção. em uma determinada situação. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.I. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados..R. as dificuldades sentidas por um ator social. em primeiro lugar. além dos desejos de terceiros. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. de variáveis como: a. implicando opções e esforços de imaginação e que. o status e a posição social. mais ou menos livremente. c. b. Mas creio. aqui.P.

comportava. Nesse contexto. em períodos diferentes. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. O período imediatamente após-guerra foi dominado. suas aplicações no domínio da economia. Na Sorbonne. nos mesmos organismos3). o funcionalismo etc. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. missões de produtividade.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. de estruturas de direção. do recrutamento de pessoal. do 172 . econômica e social. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. pelo problema da reconstrução. a busca de participação. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. da conjuntura.. então. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. da formação em habilitações. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. de gestão. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução.). esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. estabelecidos na capital. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. inflação. evidentemente. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. ênfase a métodos estatísticos. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. entre 1945 e 1959. o Marxismo. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. simultaneamente. de reeducação. Muitos dentre nós trabalharam. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático.

então. desenvolvendo uma abordagem mais global. André BRETON. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. a partir de 1952. Em relação a esse último ponto. as obras de G. da demografia. da gestão etc. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. especialmente. onde milito durante esse período. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. estudos de mercado –. a partir dos anos 40. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. no plano das práticas. pouco conhecidas na França. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. MORENO e depois ROGERS). levantamentos de dados com amostras – opinião pública. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. se as tentativas de Reich são. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. o movimento que iria ser denominado “institucional”. em 1961. o movimento trotskista. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. a relação crítica e complexa que G. lembremos. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. por exemplo. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. pela Dunod). separam-se em duas tendências. é o momento também no qual G. na França. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. em seguida. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. nessa época.

Igualmente um outro. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. Antes de sua volta aos Estados Unidos. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?).O. CASTORIADIS4 e Cl. sobre a “moral” da empresa. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. LEFORT.E.5 retém. em função do problema da burocracia operária. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. com o restante do relatório. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). durante a ocupação. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS.S. dirigido por C. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. mas elas permanecem muito próximas. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. R. 174 . enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. Entre essas últimas. no qual se encontra B. em 1947-1948. servem. na relação que elas estabelecem com o cliente.G. Entretanto. separa-se da IVa Internacional. WILLIAMS. a C. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. desde sua origem. em 1949. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. um dos colaboradores dessa equipe. Perret.

as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. elas colocam. 175 . são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados.I. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta.W. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). da mesma forma que a direção. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. em última análise. depois eventualmente coletivas –. e eles devem ter acesso aos resultados. passando pelas reformulações européias do T. porém. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. em empresas maiores. se abrem a uma abordagem mais clínica. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. Ao contrário. parece cada vez mais interessante. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. as que são conduzidas por equipes francesas. junto a pessoal assalariado de uma empresa. apoiando-se nos resultados. Da mesma forma. de início. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas.

segurança etc. algumas vezes antigos. as crises. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. Enfim. modos de remuneração.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. ou aos que decidem – Direção Geral. absenteísmo. ele se pergunta se os bloqueios. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. pelos sentimentos coletivos. de pagar o preço por sua solução. sua natureza real. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos.). pirâmide de idade. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. grupos de mais velhos. as disfunções. Em outros termos. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. um objeto de trabalho. higiene. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. para uma orientação mais clínica. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. e tenta inventar. as relações intercategorias e as microculturas da organização. Ajudando todas as pessoas. Direção de Pessoal –. e essa não sendo a conseqüência menos importante. cujos conflitos. Ele faz da relação de consulta um problema em si. turn-over. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. Por outro lado. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. a se expressarem. que fala sobre seu campo e suas intervenções. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. no interior desse quadro de atitudes. feita pelos encarregados da pesquisa.

as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. ele exerce uma pressão que. mais tarde. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. 177 . ajuda as categorias vítimas da repressão. ele próprio contribui. se aceita. mesmo nesse caso. de perceber direções de solução. isto é. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. a idéia de que a intervenção. ele crê que. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. do especialista em uma técnica de produção. de fato. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. de fato. sem dar conselho. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. acaba totalmente reforçada. à medida que esses são identificados. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. Nessa perspectiva. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. sem dúvida. mesmo desejando o contrário. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. Porém. em especial dos inconscientes. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. permitindo a expressão do reprimido. além dos arranjos menores concedidos. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. os processos de preparação e tomada de decisões. gestão ou organização. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. isto é. os sistemas de comunicação na empresa. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário.

que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. Os anos sessenta No momento de criação da A. a 178 . mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas.. em uma empresa nacional. A outra continuava a realizar. O caráter clínico do novo grupo. então.P. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. mais do que acelerar tal processo. Da mesma forma. Tenho a impressão de que. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. os limites das ações de intervenção. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. do psicodrama analítico etc. (1959). das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. nessa época. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução.I. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. das formas de autoridade. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos.R. No momento da criação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. mas também em uma transformação cultural profunda. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto.

se podemos dizê-lo. até 1966 (marcado pela vinda de C. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. A orientação não diretiva. A organização e a condução de seminários representa. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. a continuidade no tempo. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J.7 Paralelamente. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor.). reunindo às vezes toda a equipe.6 No começo dos anos sessenta. ou iria finalmente se tornar. algumas vezes mesmo de introdução à economia. ROUCHY). neles. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. de metodologia psicossocial. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .I. era de um terço.-C. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. grupos abertos de análise etc. outras vezes apenas três psicossociólogos. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. de formação de adultos. do sócio-técnico e mesmo do econômico. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. durante todo esse período. dez anos depois. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. terapeutas ou analistas. a proporção era aproximadamente de nove décimos. uma longa intervenção em uma empresa implanta. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). e ainda agora. de sociologia das organizações. de inspiração rogeriana.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. a metade das atividades da A.R. atuando diretamente no campo. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. a metade já era. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. HERBERT.P. dominou os primeiros anos de funcionamento. nesses.

a tendência que iria colocar a maioria no seio da U.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. é uma intervenção no México. diversos membros da A.F.P.I. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. Mas creio que é necessário evocar também.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. de psiquiatras e de psicoterapeutas. junto a um Centro de Produtividade. de atendentes. movimentos educativos. em Paris. para explicá-lo.). 180 . os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. as condições ideológicas próprias da França. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. junto a organizações com função econômica. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). por exemplo.E. de maneira ainda mais geral. então. a demanda se estende a associações. Ao mesmo tempo. durante vários anos. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. a integração. Entretanto. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. de padres e religiosos. por volta de 1965. na equipe. É sobretudo na França.N. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. Psicossociologia e Política etc. a guerra da Algéria.R. em 1961. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. desenvolvimento organizacional). a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. de trabalhadores sociais.

enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição.V. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).elaboração de projetos de pesquisa-ação. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 .integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.10 . .O.E.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. como muitos outros. centrando-se na evolução das pessoas. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. com os quais a A. nas ações de movimentos como a F. As instituições não se analisam. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. ao considerarem suas relações e vida psicológica.. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. não desembocou no político. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. através do desenvolvimento de ações locais. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. que dava uma direção totalmente imprevista. mesmo que modesta. uma evolução global do sistema educativo. o período que se seguiu a maio mostra. dentro de certo prazo. por parte da instituição. por exemplo. a despeito de sua repercussão no conjunto do país.R. uma direção susceptível de provocar. trabalhava desde 1964. de uma audácia espantosa.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . ao contrário. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global.E.P. antes de 68. Embora alguns dentre nós víssemos. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica.I.N. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). como o fazem os indivíduos ou os grupos. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. simultaneamente política e cultural.

sem dúvida. tal opção. mas também de seu objeto de trabalho. 1967. quando as referências à pedagogia ativa. afastando-se dela em seguida. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. ou melhor. devendo ser afastado ou suspenso. no plano das idéias. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. ou “indutor de mudança”. . e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). progressivamente. até o começo dos anos 60.A partir dos anos 60. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. “agente de mudança”. benefício a mais). o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. a “socioanálise” ilustra. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. no último período. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. parece-me que.Porém. em especial lacaniano. bem problemático.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. mesmo quando. na prática. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. ele deve ser buscado em outro nível. sob a influência do pensamento psicanalítico. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. no campo social. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf.nos anos que se seguem à Liberação e. Como o mostra André LÉVY.11 Estudando (por três vezes: 1963. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. Esse último aspecto leva à questão mais geral. relativo primeiramente à natureza das relações sociais.12 . O modelo do analista pareceu sempre. 182 .

que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. e. porque ocupa. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. é certamente oposta à acepção lewiniana. por exemplo. por exemplo. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. com todos os riscos que isso comporta. no campo. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. na referência ao próprio lugar ocupado. sobretudo. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. Se ele se encontra em uma posição menos central. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. A expressão pesquisa-ação. tendo em vista sua própria história. lugar onde se está. cedendo a pressões de que se é objeto. como pesquisador ou consultor social. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. Simetricamente. presente nele. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. a esse respeito. pertencente ao campo estudado. nunca é independente.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. Toda intervenção psicossociológica. nem a se considerar parte da ação. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. ou que se tenta ocupar. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 .

André. n. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. 1331. 1980. 2. não se pode. A C. Psychosociologies. 1967. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. Paris: Dunod. n. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique).E. Connexions. seu vice-presidente. 1972. Épi. André. n. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. de forma mais livre. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 1971.G. evidentemente. Droz. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. Intervention et changement dans l’entreprise. Paris: Epi. desde sua criação. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”.. 10 Cf. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. 8 Cf.”. mais recentemente. la Mort.F. n. Connexions.. 806..Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. Continuando. “Dire la loi.O. 1978. 4 Cf. de 1955). 1977.T. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. e de A. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. sobre. 857. Le psychosociologue dans la cité. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. 17. Sociologie du Travail. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de).) e dos de Cl. por exemplo o artigo de J. 9 Cf. 1963. com universitários como Georges FRIEDMANN. LACAN. ROUCHY em Connexions. de PERETTI. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. jan. contra. Paris: Payot. a partida de Max PAGES. “Une intervention psychosociologique”. por Marília Novais da Mata Machado. “L’Analyse social”. 1969. 1332 etc. 3. 1304. 29 de Connexions. In: ARDOINO et al. 12 Cf. In: Fondation Royaumont. ou mesmo depois de terminar. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. sobre esse último ponto. 7 Max PAGÈS. 1972. 825. secretário geral da associação. responder a essa questão. les Sorts. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. J. 13 Les Mots. 1980.O. 11 Cf. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. 50-68.-março. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. quatro anos depois. n. LÉVY.). 5 Compagnie Générale d’Organisation. 1303. p. Ecrits (por exemplo. Jean-Claude ROUCHY. L’intervention institutionnelle.P. 2 3 184 . o capítulo “Variantes de la cure-type”. Jean e LÉVY. Gallimard.-C. presidido por Jean STOETZEL e.S.

há muito tempo. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. bem ou mal resolvidos. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. entretanto. Parafraseando HEGEL. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. 185 . uma vez sustentada pelas pulsões de morte. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. sobredeterminado por uma profunda lógica. No que me diz respeito. mesmo que artificial. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. Porém. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. tem qualquer coisa de suspeita. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. porém. Tal afirmação.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. além disso. permitindo esclarecimentos progressivos. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. através das contradições de suas condutas profissionais. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. esses ainda são muito relativos. Porém. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. Esclarecer sua posição em relação às situações. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. à crença em sua positividade fundamental e. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. quando é apenas verbal.

diferentemente das ações de formação e de pesquisa. longe de chegar a um ceticismo. científica. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. cada vez mais claramente. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . dizem respeito. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. As tomadas de consciência. desapaixonada. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. Ela repousa. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. Toda a minha experiência. junto aos grupos envolvidos. fundamentalmente. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. As práticas de intervenção. reciprocamente. leva-me. Durante muito tempo e.6 por esse rótulo. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. ainda hoje. ela desconhece 186 . diferentemente lúcida. a reconhecer. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. em relações diretas. face a face. na França. no mínimo.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. ou mesmo a um nihilismo. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. ela é. com freqüência. sem dúvida. ao contrário. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. diretamente. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. instituindo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. mais lúcida ou.

Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. A reunião desses diferentes objetos na análise. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. implicitamente. Tal metodologia induz. então. que adotava aproximadamente esse modelo. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. de outro lado. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. de uma forma histórica. visto como ligado demais ao responsável comercial. seu amigo. 187 . esclarecimento das funções. caso contrário.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. quase narrativa. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. que. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. De toda forma é surpreendente que. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. em determinado momento. mas. é apenas um simples instrumento ideológico. melhor coordenação administrativa. Porém. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. uma única vez. por sua vez.7 A última intervenção da qual participei. sobretudo. os problemas atuais da empresa. com efeito. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. cuidando. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. de um lado. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. isto é. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. com vistas a decisões e ações. de forma alguma. data de 1972. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. supõe. de quem dependia bastante. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. considerado como um diagnóstico e.

A perda da esperança acarretou. um de cada vez. à medida que cada discurso. organizacional). impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. Em outras palavras. então. mas potencialmente articuláveis entre si. A pesquisa havia fortificado essa esperança. traduzia também. como se esperava de nós. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. e. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. reconstituído graças a nossos cuidados. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). sobretudo. a coexistência desses diferentes discursos. no limite. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. e sobretudo. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. expondo cada um com a mesma objetividade. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. para apreender a “realidade”. em outras palavras.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. e de passar assim. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. sem dificuldade. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. porém situados no mesmo plano. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). de um a outro. complementares. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. inevitavelmente. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. ideológico-afetiva. particularmente por meio de nosso relatório oral.

a partir de diversos “pontos de vista”. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. ações ou decisões (saber para). pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. associa-se necessariamente à busca de um sentido. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. de uma explicação geral. é a função das representações. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. Essa crença conduz. 189 . transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). o “real”. desconectados das condutas e estratégias. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. em discursos que as pessoas expressam. Mas se aceitamos. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. assim. para o recalque: primeiramente. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. reduzidas a enunciados fechados. em seguida. não aceitamos seus pressupostos. perceber o quanto a prática da pesquisa. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. então. assim. a pesquisa contribui. Longe de favorecer um processo de análise. isto é. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. desejaríamos. articulá-las. no mínimo. qualquer que seja a maneira como é conduzida. Essa experiência possibilitou-nos. escutada ou recusada. legitimamente. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. que não se reconhecem como um discurso. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o levantamento de dados. embora imperfeitamente. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. sabemos. em contrapartida. ao contrário. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar.Intervenção como processo (subjetiva demais. constrangidos. excessiva demais) e conservar.

sua posição de exterioridade é apenas relativa. na qual o imediatismo do risco é sensível. se há um resultado do qual estou seguro.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. com efeito. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. então. 190 . independentemente das maneiras como se atualizam. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. reciprocamente. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. Porém. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. Só é possível. Os grupos face a face aparecem. se articulam e se transformam. pode ocorrer. essa só pode. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. na enunciação. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. moral ou corpórea. ser feita em uma experiência de comunicação. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. A não ser que se idealize o processo de análise social. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. na qual uma resposta instantânea. no sentido pleno do termo. sob forma falada ou atuada. mas. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. instituídos. então.

tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. uma vez que. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. mas relações de transferência. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. desde o início. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. ele se insere no mesmo sistema de alianças. essas relações implicariam particularmente. no próprio ato que o institui como analista. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. o respeito à regra de abstinência. grupo do outro. em função de uma “demanda”. no sentido preciso desse termo. do não agir.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. por exemplo). “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. das quais necessariamente é parte. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. pressões. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. 191 . isolados de toda historicidade. isso é apenas uma petição de princípios. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. estratégias. corpo a corpo. Nas situações de intervenção. material ou simbólica. com a participação do analista-interventor. por parte do analista. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico.

no mesmo ato. então. ele elimina. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas.12 e a legitimar sua interpretação. não unificada. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). isto é. por meio de regras explícitas e implícitas. do “aparelho psíquico grupal”. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. seu objeto. por antecipação. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. por exemplo. tendo que tomar decisões e executá-las. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. fragmentada. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). quanto para as relações internas. traduzia o desejo de tirar 192 . feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. fora da situação de análise. O interventor pode.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. assim. Um dos objetos de análise pode ser. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. um serviço).

com efeito. pesquisaação etc. Nessa perspectiva. a presença. quando o interventor. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. o que vale não só para a análise. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. por exemplo. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. merece ao menos uma explicação. as resistências internas na organização tendem. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. especialmente do médico-chefe. a não ser provisoriamente. mas também para o gozo sexual ou estético. como o fazem certos psicanalistas. a composição do grupo pode evoluir. paradoxal. como. Se isso é em parte verdadeiro. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. a desmistificação de certas crenças.). Um dos resultados. que continuaria submetido às regras administrativas. essa modalidade se constituía. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . Certamente. do trabalho de análise. o abandono de tabus. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. que a emergência dos conflitos latentes. É por isso que. à medida em que o trabalho progride. Não se pode escapar disso dizendo. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. de uma terapêutica localizada. observações. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. numa colocação em ato do desejo. ele entra em conluio com as resistências. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. assim. institui tal quadro. e o grupo de suas restrições externas. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital.

uma certeza a mais. um jogo mais livre se torna possível. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. O novo que aparece não é. a da burocracia. isto é. irredutíveis. um novo pleno. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. ao risco. antes de tudo. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. Em um texto anterior. à incerteza. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. um possível onde havia certeza. Com efeito. ao desconhecido. um acontecimento marcado pelo advento.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude.. a da organização científica do trabalho. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator.. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. com noções e representações úteis à ação. as peças começam a circular. uma questão onde havia uma afirmação. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . do menos ao mais. então. do pior ao melhor. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. conseqüentemente. centrada no sistema de regras etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. a mudança representa para nós. centrada nos problemas de produção racional. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. inclusive nas pessoas. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. toda teoria organizacional é relativa. Com efeito. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. em face à eventualidade de uma ruptura. de acordo com eixos orientados. o acesso a uma história. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. uma certeza a menos. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. Não é uma soma. no mínimo. ou como o reconhecimento de clivagens internas. mas uma subtração.

com efeito. permanecem divididos os discursos de representação. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. para os outros e para si próprios. ordenado. tendo sua própria pertinência. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. então. hierarquizado. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. então. tenta explicar. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. mas em apreendêlas como discursos incompletos. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). Assim. enfrentar e ocultar as contradições que vive. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. também ela. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. a análise não alcança objetivamente um real suposto. Nesse sentido.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. Nessa perspectiva. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. o que dá no mesmo. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. as ações e as divisões. desde 195 . eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. temporais. são discursos destinados a legitimar. o processo de análise não pode. Pareceu-nos. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. com a finalidade de construir referências. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. Entretanto. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção.

não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. endereçada agora a mim. com interesse e prazer. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. 196 . ao contrário. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. aceitei. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. em sua maior parte. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. talvez tivesse mesmo o inverso. tanto quanto pude analisála. pareceu-me simpática. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. ela pretendia ser. em especial. Esclarecemos. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. mas a demanda. por sua vez. por diversas vezes. A razão de minha determinação. Depois de uma breve hesitação. como condição para aceitarem sua missão. que deveria ser. isso não apenas não os inquietou mas. reificaria significados. como ocorrera na assembléia anterior. citarei o caso de uma intervenção muito breve. Buscavam essencialmente um “técnico”. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. Igualmente. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. Assim. aliás muito rapidamente. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. era o sentimento de que não poderia. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. destinadas a serem engavetadas. Para ilustrar o que precede. Embora eu tivesse trabalhado no passado. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. com pessoas pertencentes a esses meios.

Ela havia sido decidida no ano precedente. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. era considerado por muitos (ou. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. pelo menos. de um lado. diversas sessões haviam sido previstas. atendendo expressamente à sua demanda. de fato. Para isso. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. que não podia ser perdido. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. à noite. em seguida. cuja forma seria definida? 197 . a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. vencimento dos prazos para decisões importantes). depois dos debates. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. dois encontros no local da Assembléia Geral. pela Comissão) como um ponto de transição. Como cheguei lá. o lugar deles. Como já mostrei. em relação à Comissão e. na história da Comunidade. de outro lado. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. e enfim. uma Assembléia Geral extraordinária. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. Tratava-se então de um momento que.

ao mesmo tempo. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. as relações entre elas. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades.P. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. tendo em vista a Assembléia Geral. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. com amizade e com confiança. 198 . ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. Nessa ocasião. com a ajuda deles. esquivando-se dos conflitos e divergências. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam.). Espantei-me. então. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades.R. como um estranho mas não como um intruso. Eu era calorosamente acolhido.I. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. as regras às quais se submetiam etc. evitando toda aspereza. a fim de levantar suas opiniões. eu próprio me sentia um estranho. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. Parecia-me. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. tomei conhecimento. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. talvez também meu próprio sobrenome judaico. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. os textos definindo seu funcionamento. O fato de que eu estava lá como um profissional. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. de sair de um estilo de relações muito corteses. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. então. sem implicação com o grupo.

Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. então. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. a meu ponto de vista. em última análise. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. mas representavam também. para a escolha dos temas que seriam então tratados. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. que eles deveriam. ao contrário. observei. assim. 2. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. não eram apenas procuradores de votos e opiniões.Intervenção como processo No nível do conteúdo. com relativa facilidade. seu papel de porta-vozes puros. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. em nome de valores democráticos. O papel que tinham era não apenas técnico. Pareceu-me. declarei-lhes: 1. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. periodicamente. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . sem deixar de observar. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. entretanto. pelas vontades expressas pela “base”. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. Eles aderiram. com bastante veemência. demonstrei que. sem dúvida.

Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Caso eu participasse da Assembléia Geral. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. seria necessariamente confundido com a Comissão. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). com alguma hesitação). Com efeito. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. No limite. eventualmente. ao contrário. sem implicar posições táticas e políticas. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . Paradoxalmente. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates.

uns em relação aos outros. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. judeu) tinham para eles. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. mas também de escolha de orientação política.I. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro.R. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. ligado à Comissão. a partir dessas diferenças em status 201 . membro da A.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. formalmente. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. Assim. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. durante o primeiro dia de trabalho. não em trocas prévias.quanto a mim.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. nossa posição profissional e inserção institucional. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura).Intervenção como processo como observador. isto é. sobretudo.P. Deveria representar um tempo de análise coletiva. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. até a eleição do próximo Conselho. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. sem direito à palavra.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. durante um vazio de poder). existente no real. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. mas no calor da discussão. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. Certamente. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. c. b. através de minha inesperada implicação afetiva.. entre nós e os membros da Comissão. ficou claro que: a.

sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. assim. 202 . por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). era “relativa”. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. por exemplo. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. por sua vez. às instituições ou às atividades). não se produz. Nesse sentido. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. da importância atribuída às pessoas. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. Esse efeito de sentido. a partir desses documentos. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. nossa alteridade. em conseqüência. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. o desenvolvimento de um certo trabalho. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. como membros dessas comunidades regionais. a partir desse primeiro dia. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. particularmente. entre a Comissão e o Conselho. entretanto. lutar para tornar o trabalho mais lento. destinados a serem comunicados à Comunidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. e sobre o que pôde ser produzido. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. entre as comunidades regionais. Na sua maior parte. Tudo isso. como terceiro. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. relatórios de reuniões. entre outros escalões – e. Foi preciso.

sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. segundo os quais as definições da Comunidade. em contrapartida. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro.. No curso desse processo. da segurança.). sem dar muita importância.. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens.. seja o conjunto de atividades –. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. ou ainda.”). as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. seja a coabitação em um mesmo lugar. em seguida. sobre palavras fetiches.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo.Intervenção como processo considerando questões particulares. por meio desse trabalho preparatório e. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. 203 . o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). carregadas de subentendidos (por exemplo. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. da idade. a definição da pauta dos diferentes dias. assim. na Assembléia Geral. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. ou mesmo. aparentemente menores. refletindo situações particulares diferentes. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. algumas vezes. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. as questões a serem submetidas a voto etc. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.

permitindo-lhe aumentar sua força. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. reflexivo e crítico. isto é. de um lado. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. melhorar seu funcionamento. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. quando aplicado a um processo de intervenção. Para concluir. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. ela constitui uma terapêutica dessa última. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. criar uma situação nova. a-organizacional? Bem entendido. ao contrário. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. facilitando a escolha de futuras estratégias. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. de comum acordo. de outro. fazer uma sondagem. Nessa perspectiva. de outro. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. de um lado. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. o “serviço concreto do Homem”).

a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. Ora. essas afirmações estão longe de serem verificadas. uma dose de desconhecimento. senão de cegueira. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. mais a ação é eficaz e pertinente”. uma afirmação da identidade desses dois processos. Com efeito. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. ela também não é. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. ela implica. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. “quanto mais houver saber. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. conseqüentemente. Assim. antes. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. ao contrário. uma colocada a serviço da outra. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. tivemos a oportunidade de demonstrar.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. com precisão. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. como alguns às vezes pretenderam. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). necessariamente. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. a ação de outro. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. isto é. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. melhor se fica”. longe de terem um valor geral ou intransitivo. em uma modificação das relações de poder. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. Em um trabalho anterior. 205 . leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática.

mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. em uma organização ou em uma sociedade. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. mas como um processo. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. como experiência. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. os transforma.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. em um processo de escrita. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. O saber. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar.19 Por isso. a mais simbolizável. tratando dos processos de pesquisa. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. implica todo um trabalho sobre si. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. sobre seu passado. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. ao mesmo tempo. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. uma escola). com o mundo. entre o que pode ou não ser escutado. é a parte que permite trocas e manipulações. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. por exemplo. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. Com efeito. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. um sistema de ação. 206 . Assim.

a necessidade de dividir. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). visam a introduzir. por exemplo. para essas representações – esses discursos de representações –. de outro. em uma negação do inconsciente. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. no nível do pensamento. que não exclui nem dúvida nem incerteza. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. ao contrário. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. de uma racionalidade criadora. essa. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. ao mesmo tempo. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. mas. é precisamente a impossibilidade. dito de outra forma. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. De alguma forma. o desejo de tudo controlar. Daí o hiato persistente entre.Intervenção como processo Tal concepção de organização. O processo organizacional funda-se. de limitar. 207 . de realizarem sua meta de dar sentido. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. para perdurar. especialmente do desejo de onipotência. espiritual ou mesmo afetiva. As regras dividem e separam. que. já foi evocada anteriormente. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. que pretenderia circundar o sentido. clivagens e limites. de toda construção material. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de separar. assim. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. contabilizável ou informática. de um lado. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. é a condição de toda vida social. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. Esse golpe de força. o desejo de tudo compreender e. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões.

é importante. 2 208 . ela se choca assim. L’intervention institutionnelle. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. 1980. por Marília Novais da Mata Machado. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. uma palavra continua. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. ou. fazendo isso. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. de ignorar as implicações dessa inversão. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. sobretudo. então. Jean e LÉVY. Dessa forma. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. L’Analyse social. ao menos. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. a se desenvolver. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. p. Connexions. quanto da análise que a torna possível. Porém.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. In: ARDOINO et al. Paris: Payot. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. I/1980. mantendo vivo o passado. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. até então bloqueada ou proibida. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. Respondendo a uma demanda de palavra. 29. André. em seu primeiro esforço. 69-100. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. assim.

Paris: Seuil. op. Connexions. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Gallimard. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Connexions. 49-68. Connexions. LÉVY. I/1980. “Dire la loi. 1978. la Mort. 21. KAES. “L’interprétation de discours”. trabalhando com a própria contratransferência. “Sens et crise du sens dans les organisations”..”. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. André. CROZIER. Cf.. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. “Le changement comme travail”. cf. Esse conceito. pp. S. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. Por exemplo: Max PAGES. Como toda análise de conteúdo. In: ARDOINO et al. “L’Analyse social”. cit. Segundo o Petit Robert. Les Mots.. Seuil. 21. Connexions. Thèse d’Etat.3 4 5 Inspirado em G. inédita. um individual e outro grupal. de P. ENRIQUEZ. Cf. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. introduzido por R. em Topique. LEGENDRE. 1980. “L’acteur et le système”. Nesse exemplo. Connexions. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. Sociologie du Travail. de E. Paris: Payot. L’intervention institutionnelle. “Dire la loi. Connexions.”. também “Le pouvoir et la mort”. 196l. Cf. 29. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. FREUD. Em termos mais sofisticados. Traduzido de: DUBOST. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . postula dois aparelhos psíquicos distintos. 7. les Sorts de J. L’amour du censeur.. Mal-estar na civilização. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. “Sens et crise du sens dans les organisations”. LAPASSADE. FAVRET-SAADA. Jean e LÉVY.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. ainda. Por isso. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. de forma concisa e injusta (mas. de toda atividade de formação. ou. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. o procedimento de exclusão do real e. como a maior parte das indagações a respeito da formação. as práticas de formação.E também o que é o próprio sentido desse movimento. mais precisamente.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. há casas para ela). e mais violentamente. sem dúvida. uma dúvida me invade. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas.O que ocorre de essencial no ato formador. Dizendo o mesmo com outras palavras. e. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. Entretanto. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. nesse breve artigo. 2. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. Esse número de revista testemunha bem o fato. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. isto é.

então. ainda mais. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. de um lado.a dos psicólogos. resistências. de investimento pensado. situando a prática que buscamos promover. O problema é unicamente operatório. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. para desejá-las e provocá-las. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. para um sistema onde. temores do formado e condicionamentos sociais. a fim de poder seguir as mudanças e. cada um à sua maneira. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. 2. de reciclagem e. de tempo. Orienta-se (e não apenas na China. o progresso dos conhecimentos.a dos sociólogos críticos. advindo a necessidade. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. de paciência. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. de outro. sua vontade e sua imaginação. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. a formação permanente torna-se indispensável. então. 212 . onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. mas também têm. toda aprendizagem de técnicas teria. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está.a dos formadores e educadores. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. a todo momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. Certamente. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. todo crescimento no domínio das informações. 3. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. Toda formação. um efeito positivo para o formado. Trata-se. Assim. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l.

os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). que se torna assim excluído). vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. sobre qualquer outro pensamento (o da criança.3 referindo-se ao racional e ao controle. estritamente falando. ao umbigo dos sonhos. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. o do louco. na transformação e ele é. hoje. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. Ora. o real é o que escapa a toda definição.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). sempre a serem melhoradas. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. obtido apenas 213 . O real não está lá. além de anularem toda diferença e toda dispersão. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. é o que excede toda análise. portanto. sem paixão. do cálculo. que as reconstituições são parciais. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. as brechas repentinas. inesgotável. que a libido é turbulenta. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. além de toda interpretação. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. o do primitivo e. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. ele se revela na ação. que o homem está sempre por nascer. da mesma forma. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. da medida. que as causas determinantes não existem. O comportamento adulto é o comportamento refletido. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. os blocos erráticos. mestre das leis e da morte. sem sonho nem loucura”. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. cartesiano. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. através da ordem. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. o do outro.

as conseqüências que acabam de ser enunciadas. então. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. De outro lado. como uma água calma. o confronto com a finitude.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. desenvolvendo-se progressivamente. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. o seu contrário.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. não se trata aqui de uma simples metáfora. as variações de temperatura. falando dos signos da 214 . a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. Aliás. a energia que se desprende. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. Temos de um lado o conhecimento. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. Quando houver apenas Eus fortes. Como viver o desejo do pleno. a cada dia. a humanidade estará.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. 2. as provas de sua impossibilidade. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). Ora. temos a bola de fogo. por isso. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. de hábito. do questionamento do saber obtido. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais.5 Certamente.4 isto é. ao mesmo tempo. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. a alegria da certeza e. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. pois ele não pode sê-lo. imagens protetoras. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. E nunca esse programa foi mantido. do que tranqüiliza. se for atravessado pela ideologia do senhor. a opacidade. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. como diziam os alquimistas. a angústia de se perder no turbilhão de questões.

Quanto ao segundo princípio. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. Os tecnocratas. 2. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. a despeito de suas diferenças. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. Então. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”.6 Ora. Conclusão: o que permanece são as certezas. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais... os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Igualmente. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. mas uma relação angustiada com o saber. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. os psiquiatras aliados do poder. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem.

alienada na sociedade contemporânea. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. é preciso. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. há alguns anos. Horizonte grande e enaltecedor. É talvez por essa razão que. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. além do mais. ao qual muitos poderiam se subscrever. que relações de poder ele pressupõe. Acrescentemos que. mas porque apresenta. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. o cachorro ou com o estrangeiro que. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. esses mesmos estágios. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. algumas vezes. então. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. mas de peso. no momento. impacto social menor (estamos. em um congresso de chefes de empresa. Um importante dirigente internacional não dizia.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. liberação corporal e sexual. ter um outro modo de relação com os outros. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. com seu corpo e com seus desejos. tendo recebido um certo tipo de educação. aliás. não existe. a mulher. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. é que a pessoa. no qual se inscreve toda 216 . grupos de encontro. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. assim como as experiências de bio-energética. o homem. gestalt-terapia. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria.

Não se aprende o amor. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. por que falo dessa maneira. a seu cheiro. durante um tempo determinado. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. em técnicas e em posturas.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. então. Em contrapartida. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. justamente. Como escreve S. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. eles não se explicam. Entretanto. de uma luz na qual me banho. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. Sua beleza desencadeia esse prodígio. Mas. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. testados no mundo. Então. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. como tais. que sofre e que ama. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . num momento de estado de graça. não temos nada a dizer. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. que podem ser atuados. a quem falo. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. por quem e por que sou falado. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. à sua voz. renasço. que desejos elas retomam ou reprimem?. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Trata-se unicamente de relações faladas e. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. que instituições me sustentam. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. que dá a cada parte de seu corpo. LECLAIRE: Quando. alguma coisa explode em mim. mesmo nesse último caso. complementares ou antagônicos. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. feito de uma explosão que me fascina.

pois as palavras trocadas. Mas. mostrando assim sua potência. seu rigor. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. um ato-falho. então. O lento trabalho do negativo. analisando com toda a sua força. não pode ser feito. para fazê-las sair de suas tocas. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. Ficará apenas a lembrança de um momento único. declarará sua paixão por uma estagiária. tomar o lugar do líder. assim. do aumento do grau de irrealidade da situação. essa explosão. ao mesmo tempo. definido como um lugar no qual se deve comunicar. Mas o psicólogo está lá para as acossar. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. certificando-se de que nada lhe escapa. tomar o grupo em seus desejos. os mais narcíseos) podem. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. Uma vez de volta às suas instituições. E talvez. Outro deixará se levar por suas emoções. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. e ele é um bom juiz. as fantasias invasoras. onde tudo era diferente. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). Ei-lo. como os weekends e as maratonas. as proibições. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. irromperá um lapso. as transferências maciças. de tempos em tempos. no medo e tremor. estará pronto a largar mulher e filhos. fazer triunfarem suas fantasias. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. única fonte de mudança. para que entrem em uma relação de transferência. Eles. super-ativo. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. chorará (o próprio ROGERS. não se entregam. o fazer ao dizer. a não ser que queiram ou possam. favorecendo os processos regressivos. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. as manifestações sem seqüências. esse irromper não ocorrerá. vai querer se fazer amar por todos. arriscam tudo e nada arriscam. pelo menos.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. os choros e os gritos de alegria. a fim de viverem sentimentos intensos. seu “saber-fazer”. embora plenas. os tabus. esses discursos. não porá nada em movimento. na maior parte do tempo. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . ou. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. questionará as instituições. o tempo ao momento. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo.

ou atento e vivido como o dos psicólogos. é esse turbilhão do amor e da morte. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. Mas. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. Igualmente. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. Quanto a seu conteúdo. ele é chocante e desesperante. seus métodos. simultaneamente. Além disso. é a capacidade inventiva dos participantes. para expressá-las ou mesmo provocá-las. o que é essencial é o que se passa no campo formador. PONTALIS. mas científico. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. aquele que dita a norma (M. exato e periférico (não tocando no essencial). DELEUZE e GUATTARI). que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. divulgá-la nas massas dominadas e. como muito bem o diz J. A mensagem dada.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . então? Vemos que o que é dito é. Sem dúvida. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. O único senão é que. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. é o veículo privilegiado da dominação social. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante.-B. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. é essa troca de palavra. Toda formação (qualquer que seja seu programa. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. FOUCAULT). assim. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). em muitos aspectos. na formação. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. Afinal. em sua aridez.

mesmo se. a vida.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. que só nos resta. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. tão sistemáticos. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. profissionalmente e socialmente se mexam. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. o que ela esconde em seu próprio movimento. tenha sido possível ler. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. isto é. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. não de uma formação (a rigor. a transformação das relações sociais. explicável por um único tipo de lei. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. de um trabalho de mudança. ao mesmo tempo. de um processo. 220 . de constatação aguda e de desmobilização geral. se ela o fosse. em uma palavra. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. isto é. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. o que não se pode esperar dela. Seus enunciados são tão gerais. justamente.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. os movimentos sociais emergentes. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). em filigrana. homogêneo. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. depois de tê-los escutado. nas Questões propostas. ela não chega a ser totalmente dominante.

Ele está lá vivendo. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. seus entusiasmos. um encadeamento de Questões. mas sua relação com o saber. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. fazem surgir formas da sombra. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. ele deveria se calar?). uma movimentação de energias. na situação. provocando a vontade de respirar. desse lugar desocupado e fugidio. aliás. a criação de negentropia (isto é. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). mas. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. mas uma problemática. as correntes de informação. Por meio dessa ausência-presença. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. por isso mesmo. Ausente. através dessa ausência. suas descobertas e suas resistências. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Ele está lá simplesmente como uma referência. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. resvalando.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. Quando ele intervém. suas falhas. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. ele oferece não um saber. dessa desordem-ordem. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. um jogo de luz sobre certos pontos que. assim. 221 . suas interrogações e também suas paixões. suas idas e vindas. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. políticas. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). ele não é o portador do sucesso da experiência. indicando. em suas diferentes dimensões: culturais. organizacionais. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca.

praticamente nunca era contradito e. tal funcionamento é profundamente mistificador. com relação a esse personagem. 222 . refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. No caso contrário. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. de suas relações afetivas. tomando certos caminhos e não outros. Ora. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. para não falar de sua situação econômica. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. Por isso o trabalho do grupo será centrado. projetos sociais. Como interpretar tal situação. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. vivem em organizações específicas. de seus corpos e. a resistência se deslocou. Um outro participante manifestava. uma atitude de deferência e de sedução.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. a relação com o saber é suspensa no vazio. entre cem. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. formadores etc. Um exemplo. hoje. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). não há muito tempo. Não são pessoas ou seres desencarnados. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. as diferenças são apagadas. o resto do grupo o seguiu em bloco. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. tendo um passado. os conflitos não têm mais espessura social. um dos membros do grupo era particularmente escutado.). usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país.

imaginam soluções. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. menos tal processo pode ocorrer. mais exatamente. ação real e ideologia. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. mas como portadores de suas angústias. a imersão na vida aqui e agora. de seus sucessos. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. é aberto sobre o mundo exterior ou. realizaram. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. Em cada sessão. conduta e gesto. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. lugar de análise. outros atos sociais. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. a 223 . de breve duração. fecundarão novas atitudes. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. outras palavras sociais. construíram ou destruíram em seu meio real. fazem propostas. um ou dois anos). sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. não há mais dicotomia entre ato e palavra. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. intensivo.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. experimentaram. retomadas. aprofundadas. A partir do momento em que o desejo circula. O lugar fechado. confrontadas. os participantes falam do que fizeram. o foco em relações afetivas imediatas. É por isso que somos partidários de estágios longos. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. de suas tentativas. Não estão lá como pura presença. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. imaginário instituinte.

Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões.. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. Resistência vinda de indivíduos em formação. reencontra muitos obstáculos ou. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. mesmo se ela pode se tornar criativa. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. se interrogue sobre si mesmo. Não nos enganemos entretanto. expressão gráfica etc. por enquanto. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. irrupções vulcânicas. direito de atuarem. possa. com o saber) são descentradas. em questão visar à dissolução pela dissolução. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. a loucura e o sonho possam ter. de necessidade de alimento. falar. viva paixões. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam.. Momentos de mutismo e de temor. nesse processo que. Essa experiência da heterogeneidade. uma angústia diante do desconhecido. algumas vezes. Trata-se. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. naturalmente. que o amor inexiste sem a experiência da morte. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. ter efeitos.. com o outro. então. do gozo). um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. mais dinâmicos. talvez. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. a fim de que a energia livre. do fogo e mesmo do caos. depois de terem liquidado 224 . sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. ao contrário. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. momentos de embotamento. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. ser protegidos. do saber alegre. Não está. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. do excesso. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. discursos ideológicos desenfreados. todos juntos. a precluir certos registros (da paixão. ter caminhos balizados. impossibilidades totais. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. de novo. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. a periodicidade desses momentos. períodos de análise refletida. Aqui.

quando retornam às suas organizações. Intervenção psicossociológica. Na intervenção. Naturalmente. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. é necessário que ele seja evocado. seu modo de existência. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. as numerosas escolas. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. provocar mudanças. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. Essa experiência da margem. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. naturalmente. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. senão a violência simbólica da organização. se transformará em um simples prestador de serviços. mas a confusão. então. eles reencontram a inércia das estruturas. sobretudo. entre as sessões. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. seu possível devir Não está em questão aqui. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. tentar experimentar novas condutas. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. Trata-se. mesmo se os participantes podem. Enfim. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. para nós. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. a utopia e a inquietante finitude. a dificuldade intransponível. da intervenção. que deveria transformar o que está no centro. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. deliberadamente. o que ela busca induzir. avançando uma série de proposições. E que. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. o espanto e o desprezo de seus colegas. de trabalhar 225 . o que ela não poderá jamais realizar.

de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. impede de ver e de sentir outra coisa. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. uma situação irreal. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. existissem como executantes da máquina. desperdício. A palavra reprimida. consciente ou inconsciente. absenteísmo. que têm problemas concretos (de decisões. no processo de trabalho. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). mas. recusa a alguns o próprio direito de falar. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. na hierarquia interna. como na formação. numa primeira análise. toda a violência do cotidiano que.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. Não por razões morais. de definições de tarefas etc. O que está presente não é. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . atraso e sabotagem da produção nas fábricas). de melhoria de condições de trabalho. como submissos. desordem nas salas. Essa recusa. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim.) e que desejam resolvê-los. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. uma certa fissura no organograma da organização. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. para se expressar. assim. ao contrário. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. A intervenção. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. então. antes de tudo. mas. mais exatamente. isto é. além do mais. durante muito tempo.

Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico.T. que faz surgir um real além do real percebido. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. a aceitar sua parte de loucura. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. transformador do mundo. Mas. relações de poder e separações instituídas. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. entre si e o outro. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. pai-filho ou ele-outros. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada.F. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. para que o olhar se desloque. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. para que possa interrogar o oculto. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . pelas relações codificadas. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. Não se trata de sonhar por sonhar. O que resulta. progressivamente. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. “ruídos”. então. ou que possa pensar de fora da fábrica. Numa pesquisa efetuada pela C. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos.D. a deixar seus desejos serem expressos. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. pensamento-execução. Colocá-la em causa seria um salto mental.

ele exclui e. pode sair a surpresa. no mínimo. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. Assim. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. a médio prazo. à sua maneira. sua cronologia e suas articulações. fazem da criança também um educador. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. transformada e garantida por cada um. é necessário que os modos de pensamento. então. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. interrogados. outras formas de relação e outros modos de estruturação. ator e analista social. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. o inesperado. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. numa decodificação das relações. ou. numa análise em ato da organização. O que significa. metafórico. ao se deslocarem. dessa maneira. decepção. com seus argumentos e suas demonstrações. ele classifica. é o que permite a troca e a reciprocidade. imaginativo. As posições. é lei retomada. analógico.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. subvertidos ou. a própria idéia 228 . enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. dessa ruidosa confusão. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. pessoal de cozinha e de limpeza. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. os educadores chefes e especialistas. os psicólogos. que o surgimento do imaginário. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. Ele distingue. igualmente. uma nova forma de educação. Aliás. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. além das crianças. cada um se tornando. mas em uma maior fluidez. isto é. onde a lei. os psiquiatras. sem análise. promete apenas. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor.

a verdadeira 229 . se elas querem se definir apenas em relação à realidade. divertida. já não indica que as relações de cumplicidade. de fazer. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. atrás da imagem de falar bem. para ser expressa ou reencontrada. Quando. à língua (a parte social da linguagem) dominante. a língua. Assim. então. a invenção popular.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. um elemento de mascaramento do sistema social. Não se trata apenas do modo de pensamento. de intimidade. do bom estilo. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. da ortografia necessária. submetem-se ao princípio do prazer. isto é. dissimula. sob certos aspectos. é como o dinheiro. nas organizações.11 Queremos dizer que a verdade. as “estórias de comadres”. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. falarão. como ele próprio o diz. antes. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. o homo demens no homo sapiens. Naturalmente. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. na realidade. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. o roubo da língua espontânea. Ora. Buscamos. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. As pessoas se submetem. por sua vez. mas também da linguagem utilizada. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. da criatividade diária dos grupos sociais. Mas aí também sabemos que. pede que cada um pense e viva na contracorrente. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. da Psicanálise uma arte de construção. Mas. na França. A língua. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. colorida. isto é. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. inversamente. pelo contrário. isto é. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. Essa perspectiva não o impedirá. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária.

quando se escutam as palavras que eles utilizam. É por isso que atacar a língua dominante. Se. para obrigá-los. se dá conta disso. experimentar o seu calor. em boa linguagem. Aliás. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. para se protegerem dos outros atores sociais. inventar um falar. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. confusamente. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . Eis que chegou o tempo dos tradutores. antes de mais nada. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. Mas os tradutores traem. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. Veja-se bem a dificuldade. reencontrar sua língua. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. pois o 230 . A mesma coisa ocorre hoje. dessa forma. fazendo-os aprender a falar. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. do mundo adulto (e o atacam). Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. fazê-la viver. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. as frases que inventam. que são os que podem traduzir. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. pode-se constatar que eles se protegem. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. todo mundo. mas o da dominação que ela instaura. de modalidade de comando. precisa e cifrada. de seus mandamentos. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. mais exatamente. Não apenas de autoridade. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. a partir do Século XVII. Há uma língua dominante. a dos tecnocratas. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. Por isso. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). mas de poder: da lei. argumentada. reencontrar a língua perdida.

Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. o interventor ultrapassou o limite. Então. então. mas também quando o poder está em jogo. assim. chocase violentamente com as estruturas. quem quer que seja (dono de empresa. as resistências. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. ao contrário. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. mas sim questionamento infinito. então. colocar-se em questão. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. A intervenção.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. justamente. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . então. quer que ele seja reforçado. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. mas. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. os hábitos. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). quando estão no campo de análise não apenas as relações. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. agradece-se ao interventor. os estilos de autoridade.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). com uma outra linguagem. interminável. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. De qualquer maneira. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. dentro de certos limites. Entretanto. sendo. a intervenção pára. as comunicações interpessoais e intergrupais. nem renunciar a seu poder. sendo inauguração de uma palavra nova. membros do comitê de empresa. Assim. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. sua vontade instituinte e. Mas. a se informarem. ele lhes permitiu. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. se uma demanda lhe foi feita.

não lhe cabe questionar os poderes. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. através de ações. palavras a serem ditas. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). os movimentos sociais. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. então. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). Pois. Também não se pode dizer que ele fracassou. dispersões a se operarem. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. pólo de identificação ou bode expiatório. é que. Ele não transforma as estruturas. é aos atores sociais reais. não os conduz em direção a nenhum resultado. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). se ela se coloca. em contrapartida. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Quanto ao valor e à importância desse movimento. sendo alguém que incomoda. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. mas favorece o desejo de mudança.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. que. O que ele sabe bem. energias começaram a circular. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. procedendo por deslocamentos e rodeios. seu trabalho só pode ser lento. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. 232 . Porém. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. eus a se abalarem. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. Ele não realiza nenhuma mudança. das funções elucidativas. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. que só poderá viver. Ele não analisa sozinho. Não sabe pelos outros.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. colocando-se como um shaman ou um mártir.

professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. sua posição nada tem de confortável. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. ao contrário. Pode. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. mais sua ação será limitada a certos grupos. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. desde o início. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. agricultores tendo interesses em comum.A falta de formação dos interventores. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Suspeito por todos. então. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. traidor em potencial. Entretanto. A prova são as numerosas demandas de formação 233 .Em contraposição. 3. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. mas que ele deve saber. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Anteriormente. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. inclinar-se à rigidez ou. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. 4. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes.

da mulher. que assim buscam empreender atos significativos. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção.Enfim. do desejo da alienação etc. comunicações melhores e. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. que já nem se permitem mais o autoquestionamento.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. em um soberbo isolamento psicótico. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. a demanda acaba. eles desabarão. sobretudo. por seus gestos. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. Um dia. então. 234 . não a desejam com freqüência para si mesmos. Aparentemente. Quem quer conhecer a dúvida. o que nos parece mais importante. Isso é compreensível. ser retomado. 3. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. com outras relações. um maior controle consciente. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. eles se preparam para uma vocação de mártir. efetuado por eus fortes. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. 2. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. em uma sociedade tecnocrática. uma redistribuição mais aceitável da autoridade.

Na primeira meditação. TOURAINE. Les mots et les choses. no 3. ENRIQUEZ. Le Seuil. p. refoulemente et répression dans les organizations”. Connexions. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. 1974). por Marília Novais da Mata Machado. Em Lip. Segundo J. cujos signos. LECLAIRE. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. 17. Pour la Sociologie. descritas. La nature humaine.-M. “Points”. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. cf. FREUD. 1972 (Imaginário social.” Le sauvage et l’ordinateur. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. DOMENACH: “Para não ser destruído. E. Le paradigme perdu. FOUCAULT. essa abertura profunda na superfície das continuidades. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. Cinco lições de Psicanálise. CASTORIADIS-AULAGNIER. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. Gallimard. MORIN. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. E. Points. Piera. “Imaginaire social. repentinamente. 137-159. A. Eugène. 13. Connexions. do sonho e do gênio maligno. enunciadas. On tue un enfant. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. Paz e Terra). caracterizadas. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Rio de Janeiro: Zahar. M.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. 1975 (Mata-se uma criança. 1974. Serge. L’institution imaginaire de la société. não caem nesse erro. C. Epi. CASTORIADIS. Seuil. Le Seuil. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. o Eu tudo destrói. 1976. Topique. Cf. Le Seuil. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. recalcamento e repressão em organizações. n. 1977).

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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a examinar princípios. Ao mesmo tempo. 242 . também. em excesso. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. pode. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. meus conhecimentos e habilitações. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. numa dada situação concreta. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. firmemente. Assim. sua participação no trabalho. abordando concomitantemente o sistema. Caso um apelo seja feito a mim. Ao mesmo tempo. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. isso se dá. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. mas pode. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. além disso. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. que pode ser feito fora de um universo técnico. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. parece importante aos solicitadores. perspectivas. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. a partir de um determinado momento. mas. dimensões ideológicas. algumas vezes. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. porém. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. sobre a maneira como se afastou do previsto. não poder sê-lo. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). justamente. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. os fatores geradores do problema. mas tomo iniciativas e faço propostas. regras. os atores envolvidos. justamente. hipóteses. de preferência. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas.

então. tentar. rapidamente. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. na determinação das técnicas. os recursos da equipe de consultores escolhidos. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. um objeto de trabalho. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. suas orientações teóricas. tolerância à diferenciação. princípios estratégicos. Poderíamos. O modo de estruturação do processo pode se tornar. as propriedades do sistema (grau de centralização. formas de autoridade. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. tornar mais inteligível. em função do campo no qual elas aparecem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. a seguir. É nessa perspectiva que é preciso. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. em si mesmo. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). as funções externas almejadas pelos atores. os fenômenos de moda. para tratá-lo. Cada uma comporta pressupostos. Evocaremos. por exemplo. 243 . compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. constituindo. ecologia etc. no final desse artigo. então. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. tamanho.). os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. os custos etc. a natureza dos objetos. não apenas objeto de trabalho para os participantes. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. Porém. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. tolerando apenas uma gama restrita de variações. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. então. tal vantagem deve ser abandonada. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes.

permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. a observação participante. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. Quanto às estratégias de pesquisa. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. de maneira bem menos acentuada. depois de LEWIN. isso se passa sobretudo porque. combinados ou não a estudos monográficos e históricos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. parece-me. nas de TOURAINE. uma origem técnica importante. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. Em seguida. estão as técnicas de pesquisa de campo que. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. na maneira como J. bem cedo. Entre esses dois pólos. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. em especial. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. B. Algumas vezes. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. de devolução aos participantes e de interação dos atores. COCH e FRENCH). ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. GODIN. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. Entretanto. a propensão dos práticos de intervenção. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. por exemplo. em algumas práticas. 244 . utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. a partir da prática psicanalítica. algumas vezes. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas.

nas próprias operações das fases de estudo). Em todos os casos. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). Em um campo bem diferente. a natureza das resistências. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. atualmente. Entretanto. a atuação dos conflitos. no começo. Pode-se observar que. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. no papel de especialistas. em todos os casos. de fato. a escolher as variáveis de ação. a identificar os problemas. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. o significado das condutas etc. os limites desse modo 245 . pela encomenda de um estudo “Retrato”. é dessa maneira que elas se estruturam. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. quem conduzirá esse trabalho. Igualmente. por exemplo. há muito tempo. a isolar os objetivos. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. as razões dos bloqueios. como em outros lugares. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. que. a origem das disfunções. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. na França. freqüentemente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. ainda hoje. quem escolherá as opções. produzindo dados válidos. quem reterá as soluções etc. é comum. a caracterizar melhor as situações. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. a obra de G. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios.

sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. do exterior. Se muitas intervenções. então. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. O texto de André LÉVY. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. o trabalho de recenseamento. em especial. sobretudo. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. o inventário. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. com a apresentação dos resultados. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. freqüentemente com espanto. 1980). depressão etc. restaurando a coesão. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). por exemplo. ao menos. cólera. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. . denegação. caso se decida reiniciá-lo.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. de fato. conseguindo uma solução de síntese ou. já citado.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. constróem. por exemplo. um retrato eventualmente objetivo e fiel. a não ser esquecê-lo. desenvolve muito claramente esse aspecto. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. escolhe-se. de caráter mágico.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. . um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. apresentaremos rapidamente três observações: . A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. Não se sabe mais o que fazer. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . enterrá-lo. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. são interrompidas.

da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). os critérios de cientificidade: validade. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. chega-se. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. às relações elaboradas e conceituadas demais. e apesar das reservas expressas. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. o que provoca aumento dos temas de estudo. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. durante o trabalho de análise da demanda. parece-me. adiamentos de realizações importantes.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. a uma solução que exige uma equipe e. o debate. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. mas repensar essa lógica (por exemplo. com o trabalho sobre os resultados. algumas vezes. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas.preferir. . em outras palavras. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. eles me parecem.fracionar a investigação (por tema. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. 247 . essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. pertinência.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. correspondentes a atuações mais modestas. . pode-se tentar: . preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. sobretudo. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. assim. por categoria de ator etc.associar todos os parceiros envolvidos. a perlaboração. então. De meu lado. como o próprio relatório.

Passar-se-ia. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. em seguida. com muita freqüência. De uma maneira geral.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. apresentam-se como a aplicação simples. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. de uma perspectiva de formação. porém. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. evoluiriam. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. de 1948. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. assim. TRIST. na qual. nessa segunda categoria de origens técnicas. 1972). de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. é necessário lembrar que. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . traduzido para o no 3 de Connexions. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. a partir de 1964. algumas vezes. em um plano concreto. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. o artigo de E. numa escala pequena. JAQUES. na Glacier Metal Company. em diferentes lugares da sociedade). a uma perspectiva de intervenção. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. de aperfeiçoamento e. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. as práticas de formação. social analysis. sobre a possibilidade de contorná-los. os grupos. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. a fim de que elas mudem”. Logo. adquiririam novas propriedades.

por exemplo. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. jogos de simulação. ANZIEU transpôs. o movimento de democracia industrial. Mas se. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. ao mesmo tempo em que se reforçava. Sociopsychanalyse. na França e em países estrangeiros. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. consistia em transpor. LÉVY e. o que representaria. C. no plano organizacional. no 1 a 10. ROUCHY e E. 1972). a fortiori. sua prática de psicodrama analítico. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. J.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. tecnicamente. ENRIQUEZ consideram. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . na empresa Geigy. no plano teórico. das estruturas de organização. inscrevendo-se. D. de se diversificarem em função da natureza das demandas. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. ao contrário. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. as intervenções que se seguiram. utilização da autóptica. MENDEL e sua equipe. não pararam. Evidentemente. ROUCHY. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. G. nos quais a ARIP interveio. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. em seguida. se quiséssemos ser menos esquemáticos. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. essa evolução. especialmente. para o seio da cúpula. passando pelos estudos de caso. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. em pedagogia do projeto. KAES). Payot). em pedagogia institucional. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. a importância da referência à Psicanálise. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. ao mesmo tempo. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. grupos de análise de prática profissional. A. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. conceberam diretamente. C.

Com efeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. freqüentemente. localmente. mais racional e menos caro. é mais rápido. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. estágios existentes fora dela. Evidentemente. a mudança social desejada. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. em especial. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). no espaço organizacional. o risco. esperando-se que se aumentará assim. durante um tempo que pode ser apreciável. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. irrelevante. Além disso. desde há algum tempo. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. as que se nutrem da formação surgiram. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. é a descentralização. forçosamente. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. De uma maneira geral. é que se engane sobre a causa das dificuldades. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. a palavra de ordem. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. 250 . as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. da regulação (hetero – ou auto –. entre os próprios serviços de uma organização. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. então. na medida em que instituir. da facilitação e. os meios de verificar a validade das hipóteses. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. de acompanhamento ou dinâmica). ao mesmo tempo. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. Enfim. é necessário providenciar a formação do responsável local.

em assegurar “suas tarefas”. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. descobrir. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. do qual se espera a responsabilidade. Um meio técnico (que. manter essa dimensão presente durante todo o processo. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. os consultores.. Paralelamente. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. de um lado e de outro. Tal dispositivo técnico é insuficiente. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. Ainda assim. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. na elaboração dos programas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. aliás. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. evidentemente. ao desempenho eficaz da prática de formador. entre os dirigentes. além disso. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). primeiro. Esse risco pode ser reduzido apenas se. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. então. A competência de um interventor. confrontá-la à dos outros atores. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. de uma maneira progressiva. os solicitadores. tal risco. os voluntários para se associarem na preparação de decisões.

Entretanto.) –. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). Ela compartilha. o desenvolvimento técnico e científico. dois atores ou diversas instâncias em interação. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. a emergir como práticas e como papéis diferenciados.. e não em técnicas de ação formadora de diretores. Por exemplo. de agentes de comando ou de pessoal de execução. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. em problemas de remuneração etc. as estruturas internas das organizações se complexificam. em resposta ou não a um apelo. em data. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. numa crítica aos limites do staff and line. um grupo. a convicção de que as condutas das pessoas.. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. afetando a estrutura e as instituições internas. é interessante observar que. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. um sistema e seu problema. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. Porém. 252 . Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. Sem poder preparar aqui tal reflexão. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho.

inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. os “organizadores de comunidades”. o sociodrama. mas. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. Então. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. em Nova Iorque. por exemplo. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. sistematicamente. Em países como o Canadá. durante os motins do Harlem. L. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. Mais recentemente. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. de defesa ou de negociação. assim. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. vir a substituílas completamente. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. evidentemente. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. no fim dos anos 20. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. enriquecendo-as. retomaram. nos conflitos entre direção e sindicatos. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. ALINSKY. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. progressivamente. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. No campo das empresas de produção. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. freqüentemente. como o sociólogo S. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. existem. a práticas de debate. são chamados. J. TOURAINE recorre também. eventualmente. renovando-as. os psicossociólogos. Mesmo a história da intervenção de E. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. 253 . mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar.

de organizar as ações de inspeção. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. então. Da mesma forma que. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. Embora não ilustre especialmente esse risco. as prescrições) e funcional (no campo técnico. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. Entretanto. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. há uma 254 . da magistratura. e renunciar. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. de fato. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. de estudar as instalações da fábrica. e que. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. em conseqüência. de propaganda. No começo. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. a toda especificidade. os dispositivos de proteção. de formação. para a terceira. de alguma forma. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de sensibilização (por exemplo. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. apenas. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. Parece-nos que. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. difusão das estatísticas de acidentes. tanto no plano material quanto no legal. as oportunidades. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. das lutas militantes etc. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. para a segunda. concurso de segurança) etc. da polícia. social). audiovisual. para a primeira origem. educativo. das relações pastorais.

Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. No caso da intervenção psicossociológica. no começo. propor as medidas. fundamenta-se também. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. de segurança e de condições de trabalho. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. concomitantemente. então. Uma abordagem mais recente. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. por uma intervenção psicossociológica. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. De acordo com os resultados. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. pessoal de execução). Uma vez estabelecida a composição. geralmente. produzir os diagnósticos. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. evidentemente. No fim desses dois dias. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. gerentes. ou por uma intervenção apenas formadora. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. evitase. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. em outros países. Os confrontos entre atores (por exemplo. por exemplo. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. algumas vezes desenvolvendo. contramestres.

Ela permite. a ponto dele renunciar. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. instituídos pela lei Auroux. Porém. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. entre outras coisas. a intensidade emocional mais forte. ligada às diferenças de status e/ou de poder. produz uma frustração muito forte no ator. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. estende-se numa duração que se mede em meses.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. então. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. Como no caso anterior. tal 256 . decisivos. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. Em relação ao processo das intervenções precedentes. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. para nós. de múltiplas forças antagônicas). Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. em especial. A última negociação consiste. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. em teoria. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande.

mas também em encontros do mesmo estrato. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. sem dúvida. por exemplo. elas não dependem apenas da técnica. tal metáfora. uma importância acentuada. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. tecido com fios múltiplos. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. bem cedo. para guiar a análise.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. evidentemente. Por isso. Tais requisitos. aqui. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). Enfim. aliás. mas têm. entretanto. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . evidentemente. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. Em outros termos. e. Está claro também que. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. Escolher. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. ancorar. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. senão à primeira. sempre pluridimensional. em todos os níveis. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. está. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social.

no entanto. Não é fácil. enquanto pesquisador. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. por si só. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. retomando a distinção de PALMADE (1977). ela me leva. depois de dez ou vinte dias de intervenção. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. do gerente ou do político. capazes de contribuir em processos de pesquisa. enquanto dispositivo de inserção. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. Nem ciência nem tecnologia. filtrar com segurança um objeto teórico. do terapeuta. em cada momento. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. Com efeito. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. elas seriam. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. fundamentar tal distinção. a mim. Assim. mas. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. com o tempo. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. permitindo isolar. as escolhas iniciais arriscam. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. antes. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. para o pessoal de um estabelecimento. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). o interventor é um clínico. quer esteja empenhado. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. sem chegar a lhe dar um molde.

por certos setores da sociedade. de maneira mais ou menos difusa. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. analisar e experimentar as vias de democratização etc. importantes sob esse ponto de vista. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. o comércio. adquirir um sentido menos restrito. Entretanto. A inserção na universidade. no começo desse artigo. 259 . analítica. Por outro lado. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. podem-se encontrar. sua identidade social e a natureza de seu projeto.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. seria natural levantar tal hipótese. na literatura especializada. pode-se observar que. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. sem subterfúgios. Enquanto atores sociais. Anunciamos. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. tais acontecimentos podem inspirar outros e. Porém. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. malgrado sua fragilidade no tempo. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. em função do campo social em que aparecem. a administração. e se surgem conjunturas favoráveis. o mesmo se passa. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa.). as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade.. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. assim. os movimentos sociais ou culturais etc. para mim. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. os espaços urbanos. os setores de saúde. a invenção de instituições locais (por exemplo. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. para os atores.

ainda. nesse número. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. o espaço urbano). as conclusões às quais J. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. MARTIN em uma pesquisa recente. os resultados quantitativos estabelecidos por C. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. voluntária ou militante etc. Jean.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). necessariamente.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. sua própria experiência no campo da saúde. com o que se observaria em outros lugares. por Marília Novais da Mata Machado. a estruturação dos papéis recíprocos.). até um determinado ponto. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. 2 260 .o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. autoridade.T. . a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. posição central ou periférica etc. Porém. 7-28. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa.). sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. . evocando. 49. Notas 1 Traduzido de DUBOST. p. 1987-l. ROUCHY chegou. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. .-C. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos.). Por exemplo. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. Connexions. . a divisão do trabalho. de dependência hierárquica. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. não coincidiriam. poder. o grau de nossa capacidade de indentificá-los.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. de colaboração profissional.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. pode-se aplicá-la a outros campos.

1986. A. 1981. J. Théories et pratiques de l’éducation permanente. 261 . G. LÉVY. J. Interdisciplinarité et idéologies. 3. G. 1972. 1977. Les recherches-actions sociales. L’enquête participation en question. In: L’intervention institutionnelle. 1987. L’intervention psychosociologique. Connexions. Paris: PUF. MARTIN. C. La Documentation française. ROUCHY. 1980. Paris: Anthropos. PALMADE. Paris: Payot. Paris: LFEEP.-C. “Une intervention psychosociologique”.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. LE BOTERF.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .autenticaeditora. fax. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.com.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.com. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.

grupos religiosos etc. finalmente.br 0800 2831322 .“Quais são os problemas realmente essenciais. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. os ‘intemináveis adolescentes’. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.autenticaeditora. o triunfo da racionalidade experimental. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. etnias.com. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo.

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