Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

)

PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

Autêntica Editora
Rua Januária, 437 – Floresta 31110-060 – Belo Horizonte – MG PABX: (55 31) 3423 3022 TELEVENDAS: 0800-2831322 www.autenticaeditora.com.br e-mail: autentica@autenticaeditora.com.br

SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

.................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez............................................................................................................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï..................................................................................................................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï........................................................................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost................ 237 6 ..................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS............... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D......................................... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost.... Benevides de Barros............................................................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy.........................................................................................

a psicanálise. a sociologia. tornou-se ainda mais importante. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. cada vez mais utilizada. reais. este livro. prático e metodológico. sociólogos e um economista. Junho de 2001 Os organizadores 7 . pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. hoje. a administração e a política. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. quanto para os que praticam a psicologia. Desde a primeira edição. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. o direito. a educação. fruto do trabalho de psicólogos. tal como no momento da primeira edição. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. Por tudo isso. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. bem conhecida e divulgada no Brasil. a economia. por meio da “intervenção psicossociológica”. o campo da psicossociologia cresceu. À metodologia de intervenções/pesquisas.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. dispositivo de consulta e pesquisa. esclarecedoras dos processos de criação do social. da organização e do funcionamento social. cuja história é nele revista e avaliada. Assim.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. A partir dos anos 50. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. Por meio dessa abordagem. o pesquisador-prático. as condutas concretas dos indivíduos. isto é. fez aparecerem certos problemas. das organizações e das comunidades. Portanto. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. no quadro da vida cotidiana. freqüentemente através de experimentos. empregando para tanto. Atuando diretamente na vida dos grupos. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. até então desconhecidas. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. reflexão e análise dessa disciplina. Passaram a se preocupar. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. são o objeto de pesquisa. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. se revelassem. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. a metodologia de pesquisa-ação.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. organizações e comunidades. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. geridos e transformados. igualmente. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. que condutas. Em conseqüência. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. 9 . por sua presença. com as instâncias de mudança. em especial. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. organizações e comunidades. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. grupos. inicialmente. em seus grupos.

buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. dos desejos de onipotência e dominação. da organização e do funcionamento social. nos termos de E. 60 e 70. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. de transformações nos sistemas sociais (A. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. que é também um ato de palavra. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. DUBOST). do socius. ENRIQUEZ. sujeitos capazes de serem autônomos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. contra esse pano de fundo. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. mesmo que involuntariamente. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. e do processo de criação institucional. e serem criadores da história. Paulatinamente. LÉVY). na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. adquire um sabor de novidade. que 10 . Ora. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. pouco a pouco tecido. mobilizados por ilusões e crenças. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. sujeitos que. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. a mudança social (A. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. sempre inacabada. torna visível a presença do sujeito social. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. idealizando e buscando destruir seus chefes. NICOLAÏ). Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. de onde e como surge a dinâmica social. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. pois a teorização é fruto da reflexão que. é formulada uma teoria. Porém. aptos a um “imaginário motor”. por um ato de decisão. hoje ela se renova. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. do trabalho da pulsão de morte. com suas mudanças e rupturas. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio.

André LÉVY e André NICOLAÏ –. Eliana de Moura CASTRO. a respeito das suas representações historicamente constituídas. é analisada. Eugène ENRIQUEZ. aqui e ali. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. autopoieses. S. de ARAÚJO. são apresentados nesse livro por Marília N. práticas de intervenção mitificadas. Sonia ROEDEL. de BARROS. Assim. E. Sociologia. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. José Newton G. relações de poder e autoridade. DUBOST. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. mas também de outras referências. ROEDEL). da MATA-MACHADO. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. B. CASTORIADIS. são analisadas novas ideologias. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. a condição de construção da vida social. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. nestas páginas. M. como sistemas dinâmicos. CARRETEIRO. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. J. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. A. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. de suas fantasias de onipotência. Política. LÉVY. estruturas dissipativas. entretanto. está presente em quase todos os textos. MATA-MACHADO). ARAÚJO. auto-organização e complexificação a partir do ruído. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. Assim. BARROS. o pensamento filosófico de C. CASTRO. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. TOURAINE que. enfim. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. o desenvolvimento de um processo organizacional. Os autores – Jean DUBOST. formuladora de grandes quadros teóricos mas. assim como. assim como novos sagrados e certezas. T. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. 11 . Psicologia Clínica (J. de suas demandas de amor e proteção. formadoras das sociedades atuais e futuras.

Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. primeiramente. no Brasil. a disciplina que os congrega. “O fanatismo religioso e político” – E.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. NICOLAÏ). CASTRO – Psicanálise. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). sofreu modificações. Paris XIII: M. ENRIQUEZ) e Economia (A. CASTRO. Inicialmente. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. E. NICOLAÏ (mimeogr. ARAÚJO. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). MATA-MACHADO – Psicologia Social). FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. NICOLAÏ) – mas. MATAMACHADO).). Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. na França. LÉVY. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. LÉVY). a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. 1990. ENRIQUEZ. T. cobrindo questões atuais. distribuídos em três partes. Essa primeira proposta. ARAÚJO. 1990-1. 1989. 1990-1. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. Paris XIII (A. MATA-MACHADO e S. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. “A interioridade está acabando? – E. ROEDEL. LÉVY (mimeogr.Em segundo lugar. ROEDEL).Foram escolhidos. CARRETEIRO). 1991. Paris X (J. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. T. resultando em treze textos. ENRIQUEZ). NICOLAÏ. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. Assim. textos recentes.). M. especialmente. A. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. BARROS. em função do mencionado convênio. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. ENRIQUEZ. a partir do exame de uma centena de textos. . ENRIQUEZ. mutações e complexificação em economia” – A. “Rupturas. a Psicossociologia. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . DUBOST. Além desse território de pesquisa. feita em novembro de 1991: . de um projeto pessoal e familiar. na empresa.

à Psicossociologia e à Psicanálise. LÉVY. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. através da análise etimológica. Por exemplo. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. a última tradução foi preferida. Por exemplo. DUBOST. mantendo-se a tradução utilizada por T. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. DUBOST. NASCIUTTI para o livro de E. o grupo e a questão da mudança. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. finalmente. . foi objeto de discussão e comparação. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. E. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. respectivamente. ENRIQUEZ. 1980. a apreensão de seu sentido original. “forclusão” ou “preclusão”. algumas aterrorizantes. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. Psicanálise do vínculo social. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. 1976. 1987). certamente refletindo posturas teóricas diferentes. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. As traduções foram revistas por J. de atividades e produções criadoras. Seus nomes aparecem. “Intervenção como processo” – A. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. MATA-MACHADO. Buscou-se uma certa uniformização. em maior ou menor grau. CARRETEIRO e J. mantiveram-se termos como “fantasmático”.Em terceiro lugar. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. ARAÚJO. apresenta a intervenção. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). na primeira nota de rodapé. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. Mais de uma dificuldade de tradução. preferiu-se “fantasia”. editado por Jorge Zahar. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J.Prefácio desejo” (A. para designar 13 . CASTRO e M. em cada texto. contudo.

entretanto. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. nosso primeiro leitor. na expressão méthodes d’investigation. a critério do tradutor. a palavra investigation. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . Finalmente. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. essa foi a escolha. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. para a palavra enquête.“relativo a narciso”. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. expressão bastante usada em português.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. LÉVY e E. preenche ou interpreta. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. a idéia de um “eu”. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. Ao apresentar tais artigos. no entanto. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. Cabe. no enfoque psicossociológico. O sujeito que não “morreu” A. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. Mas não poderia ser diferente.2 . aquilo que lhe cai nas mãos. No entanto. à sua maneira. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito.1 Pois bem. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. desde o início. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. Eles descartam. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. visto que todo leitor recebe.

nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. vemos que o “indivíduo” é. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas.. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. A esse respeito. não estariam restritas. E. no conjunto das discussões sobre o sujeito. antes de tudo. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. ela é 18 . por exemplo. o ofício ou o produto. Assim. já na virada dos anos setenta.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. ligada a uma prática clínica. um ponto de passagem. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. entre nós. notadamente através da teoria lacaniana. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. nas décadas anteriores. No texto de A. nos parece em parte negligenciada.”.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). por exemplo. a chamada “sociologia do cotidiano”. a empresa-família é anterior ao sujeito.. os autores caminham numa direção que. o da Psicanálise. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. entre outras coisas. um átomo talvez. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. nos artigos aqui apresentados. convém observar que. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. mesmo na França. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra.6 Isso é claro para os autores. LÉVY. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. suas relações próximas e regulares. a família.

espírito de empresa. as significações das ações”. isto é. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. tenta transformar “o mundo. enfim. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. narcisismo grupal. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. Importante ainda. tenta introduzir uma mudança de si mesmo.” De outro lado. Assim sendo. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. Ele destaca ainda. as relações sociais. “no momento em que falamos. ENRIQUEZ retoma essa posição. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. um papel essencial nas transformações sociais”. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. fanatismo de empresa etc. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. LÉVY nos lembra. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. antes de mais nada. A. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. pois este. O primeiro é aquele que se agarra. Desse modo. daí a ilusão da identidade pessoal. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. num crescente alienar-se. sua constituição “plural” ou coletiva. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. através de FREUD. além de desempenhar. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. “às vezes sem sabê-lo. 19 . Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. por exemplo. mas que reenvia. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. identidade coletiva. narcisismo social. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. segundo os autores. sempre imprevisível. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário.

mas sim os processos de idealização. como um fenômeno “periférico”. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal.. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. além da sua. Assim. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. algum tempo após as notícias. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. árida novidade. no início de 1993.) deve ser eliminada. os nordestinos.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. xenofobia. científico ou outro qualquer). que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. mas que tentam ainda se expandir. científicas etc. Assim. ilusão e crença.. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. outras propostas políticas. cabem algumas observações. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado.9 composto por militantes islâmicos negros que. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. tentando eliminar dele os negros. Basta lembrar. esportivo. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. outras idéias. em diversos momentos. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. A essa altura.” 20 . como se tinha notícia até pouco tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. os judeus e. amor (ou cumplicidade?) mútuo. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. religiosas. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos.. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. como a intolerância e o fanatismo. pois ela se torna uma ameaça.. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. religioso. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. estamos falando de mecanismos inconscientes). ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. mas exemplar.

Enfim. Gostaríamos de lembrar. num clima onde toda crítica está ausente. Em outras palavras. contrapor as noções de sujeito e interioridade. às vezes. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. seja num grupo intolerante. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. infantilizando os “fiéis”. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. nossa “seita” de comedores vegetarianos. ela deve ser doadora de sentido. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. rapidamente. O que se torna problemático. nosso grupo body-building. seja num grupo democrático. no Sul do Brasil. resvala necessariamente para a intolerância. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. por analogia. cada sujeito está perseguindo. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. a eterna questão do sentido. nosso partido de direita ou de esquerda etc. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. sejam elas brancas ou negras. ele desconhece também. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). Poderíamos. a ação grupal deve cobrir um vazio. E. isolada e coletivamente. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte.Análise social e subjetividade Aliás. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. nosso time de futebol. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. noção de origem literária e filosófica. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. já de início. em níveis talvez menos contundentes. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 .

o que é pura duração. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. num certo sentido. A interioridade remete. quase que imediatamente. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). ele existe atualmente e está. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. íntima. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. à alternativa interior x exterior. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. interrogações e que. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. ameaçado de extinção. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. A compreensão da interioridade é. parece haver uma tendência. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. vítima de ataques. na esfera psicossocial. Aliás. Só o ser existe e ele é cheio. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. BERGSON. Talvez seja. A interioridade. segundo o autor. que não é recente. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. Por outro lado. onde ninguém tem o direito de penetrar. foi discutida em termos do cheio. a não ser por arrombamento. na Filosofia antiga. é ‘uma terra estrangeira’”. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. questionamentos. em oposição ao vazio: trata-se. em se pensar espacialmente. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. Se esse sentimento nem sempre existiu. A questão do espaço. é numa relação espacial que ela se inscreve. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. pois. pois. Para ele. para ela. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. 22 . por ser da ordem da especialização. alegria.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais.

Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. Há. Já a identidade marca a diferença. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. meio de se situar no mundo. Dito de outro modo. saturada de comunicação. Um corpo dinâmico (isto é. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. eu não sou. capta os estímulos exteriores e também os internos. diferenciando o interno do externo. depois da perda do objeto. Limite e superfície privilegiada de estimulações. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. Existe. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. separada. O culto exagerado do corpo. bonito. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. ao que marca a diferença. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. Assim. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. As idéias de permanência. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. isto é. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. a pele se liga à formação do eu. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. ela é capaz de dizer: eu tenho. diz FREUD. a identidade própria. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. considerando o 23 . A percepção do espaço remete à visão. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. O ter é ulterior. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. o que se vê por fora é um reflexo do interior. porque especular. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. temos de falar nos órgãos dos sentidos. na época atual. denotadas pelo termo identidade. refletindo a si mesmo). que pode ser descrito como um narcisismo de morte. unidade e similaridade. isto é. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. foram abaladas pela Psicanálise.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior.

a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. quer como sentimento pessoal. Ele diz. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. O oculto. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. ARAÚJO. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. oferecer uma resistência passiva. por ser essencialmente espacial. se tornam assim mais claras. e como bem captou ENRIQUEZ. Assim. 2 24 . ao eu e muito menos ao sujeito). é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. Finalmente. E o mais importante. entre outras coisas. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Afinal. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). só podendo. de outro lado. já dissemos. é passiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. quer como conceito psicológico. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. isto é. no campo da argumentação psicossociológica. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. em sua obra Lector in Fabula (trad. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. do outro que eu sou. que todo texto é um tecido de espaços em branco. nenhuma leitura é um ato neutro. é certamente desprovida de energia ou. pois. Por isso. a interioridade considerada. Em outras palavras. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. Notas 1 Humberto ECO. francesa Grasset. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. isto é. em outros termos. As propostas absolutizantes. pela empresa ou pela sociedade. feitas pela religião. naquilo em que ele é diferente do outro.

G. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. em seus níveis mais profundos. Cf: ANZIEU. Cf. 1975-1976. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. nessa mudança. Paris: Bordas. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . 1970. fez reaparecer o sujeito. na América Latina e mesmo na Europa. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. Observação semelhante já fora feita. vol. face às estruturas e aos sistemas”. De outro lado. não passavam de “mero detalhe”. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. JIRINOWSKI saiu vitorioso. Paris. de 28/04/93. líder da extrema-direita francesa. além de serem historicamente contestáveis.. por Jean-Marie LE PEN. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. 445-449). 1984. como um instrumento terapêutico. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. O autor evoca J. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. Para ele. soberano. em nível individual. Conseqüentemente. p. em seu número de 1º/12/93. (Cf: ANSART. tomo XXIX. senhor de si e do universo e como se. nas quais o Sr. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. D. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. uma editora de propaganda nazista. p. P. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo.. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. mais perto de nós. “Essai d’identification du quotidien”. Paris: Gallimard. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). n. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. p. 50-53. BALANDIER. SELLIER (cf: Le mythe du héros. alguns anos atrás. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. cit. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. principalmente após as recentes eleições da Rússia. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. Essa mesma revista. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. Assim. na Biblioteca Nacional de Paris. 322. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. 13). 29-31) afirma que. p. In: Bulletin de Psychologie. P. Lembremos..Análise social e subjetividade 3 Cf. reportagem da revista Isto É. Paris: Gallimard. LXXIV. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. 1983. Paris: Dunod. 5-12. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. p. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. P. por isso mesmo. o culto à figura de GUEVARA.

68. p. S. D. El tiempo y los grupos. XVIII vol. Essai sur les données immédiates de la conscience. 1977. Paris: Dunod. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. 42.) 14 Cf: BERGSON. ver: FREUD. Le moi-peau. 1985. p. semelhante à vivência intra-uterina. 1967. Paris: PUF. Buenos Aires: Editorial Vancu. Entre outras alusões a essa questão. H. 120 ed. ss.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. 15 16 26 . (Cf: FONTANA (A) et al. Além do princípio do prazer (1920). 1976. ANZIEU.

As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. É contra essa tendência reducionista. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). LAGACHE. como psique.2 A razão é simples: como muitos outros autores. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. do sujeito. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. que nega a interrogação de D. que decidi me manifestar. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. um determinismo absoluto dos processos sociais. ALTHUSSER). Com efeito. assim. em maior ou menor grau. O indivíduo torna-se. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. Seguindo essas abordagens. No entanto. só se fala do indivíduo. 27 . como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. sua classe ou sua raça. pois. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. um ser agido. mesmo sem dizê-lo. De minha parte. por um lado. ao invés. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. um ser falado. do aumento do individualismo. por outro lado. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. em grupos e organizações. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. No momento atual. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada.

para retomar a terminologia de C. conformados a seus votos e a seus ideais. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. Uma tal sociedade heterônima tem.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. num lugar-tela. que lhe deu direito à existência. logicamente. conduta estruturada social e culturalmente. em uma nação etc. é preciso pressupor. em uma etnia. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). que pode tomar a forma de totens. em parte. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. em parte inconscientemente. a anterioridade dos processos sociais.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. Essa emergência acontece. ela própria. BURKE. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. De fato. ir muito longe nesse sentido. isto é. ao mesmo tempo. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. Freqüentemente. ou de um Deus único. numa sociedade que é. em parte voluntariamente. em uma classe. Em outras palavras. CASTORIADIS. portanto. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. Não é necessário. heterônima. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. “a possibilidade de saber que alhures. Nessas condições. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. Nessas condições. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. de antepassados e de Deuses. quer seja por Deus – BOSSUET. sua conduta. DE MAISTRE –. a cada homem. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. porque toda sociedade comporta falhas. uma cultura. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. já que nascemos sempre em um grupo. portadoras de 28 . mas deixassem também. no entanto. além disso. zonas inexploradas.

visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. Além disso. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. outro um novo tear. mesmo sem percebê-lo. pelo menos de imediato e. em certos casos. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. Notemos que as sociedades modernas. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. seja lá por que modo. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. às vezes. Elas se tornaram. ignorando soberanamente a ideologia dominante. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. sobretudo. desde a Renascença e. Mas. um discurso dominante. um papel essencial nas transformações sociais. como evocava FREUD. Alguém inventa uma máquina a vapor. a médio ou a longo prazo. Embora exista. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. de maneira invisível. contra a vontade da massa. não a um contra-discurso organizado mas. em toda sociedade. se põem a acumular riquezas. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. uma “parcela de originalidade e de autonomia”.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. como dizem FRITSCH e PASSERON. fanático. apoiando-se nas funções corporais. não se pode esquecer que o discurso. até mesmo se choca. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. portanto. em pessoas e grupos sempre diferentes. Deve-se. a trocar sua natureza pela de um térmita. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. ele também só é parcialmente heterônimo. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. às vezes. Reis continuam a se 29 . ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. desde a Revolução Francesa.7 Quanto ao indivíduo humano.8 Enfim. por mais totalitário que seja. sem sabê-lo.

De fato. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. então. sempre imprevisível. mas é o homem da performance mensurável. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. Nessa ética. Assim. a vitória nunca sendo definitiva. objeto de tantas preocupações. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. em nossa época. vencedores que querem ir até o fim. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. da sua organização. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. ela pode ser bem efêmera. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . a individualização. O winner sempre pode se tornar o looser. os processos sociais. é. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. o elemento esportivo predomina. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. se os processos psicogenéticos pressupõem. Ao contrário. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. Ele deve gozar com essa renúncia. performance sempre a recomeçar. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. mais freqüentemente. “matadores frios”. No entanto. Assim. do seu serviço. apenas um elemento do processo de massificação. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal.9 Assim. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). como sublinha CASTORIADIS. Se cada um deve manifestar sua singularidade. seu tempo. cada um deve ser criativo à sua maneira.

mas não se orgulha de si mesmo. igualmente. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. os que W. o indivíduo renuncia. a busca da riqueza. mas que. financeiras ou de prestígio. nos hospitais. nas universidades. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. hoje em dia. um novo ritual. o que lhe confere. designava por “zé-ninguém”. 31 . quando se fala do indivíduo. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. desvestida de seu sentido ético-religioso. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. a justificá-lo”. em geral. em vez de admirar o que ele concebeu.10 Assim. assim. Ele atinge. atrás da força e da grandeza de outros homens. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. igualmente. o “culto da empresa”. naquele tempo. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. além disso.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. tende. aqueles a quem chamamos vencedores. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. para depositar seu destino nas mãos dos outros. posições de poder. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. ou ainda. REICH. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. a se associar a paixões puramente agonísticas. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. características de um esporte. Nos Estados Unidos. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. O “zé-ninguém” está sempre.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. onde seu paroxismo predomina. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. na maioria das vezes. Admira o pensamento que ele não concebeu.

correndo um mínimo possível de riscos. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. o mundo criado não é contestável. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. médios ou pequenos homens. portanto. agora bem conhecido. apresentando-se como objeto maravilhoso. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. apoiado 32 . idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. Em outras palavras. sempre ameaçador). nós próprios nos tornamos admiráveis. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. reprimir suas pulsões.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. é. aderir profundamente às injunções sociais e. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. às vezes. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. o que devemos fazer e como seremos recompensados. então. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. assim. depois de descrever esse fenômeno. ser um agente ativo desses processos de recalque. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. Resta-me. Além disso. de repressão e de adesão. A idealização é. para existirem. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes.

É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. que sentido pode ter ganhar por ganhar.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). ideais vazios e desprovidos de sentido. da sedução ou da obrigação]. o fanatismo. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. graças a esse jogo identificatório. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. é imputar os problemas ao outro. uma massa maior de homens. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. Vivemos em sociedades nas quais. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. um capitalista.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. contraditórios. consumir por consumir?) Ora. o racismo. nas quais. como mostrou FREUD. o narcisismo social. dificilmente. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). estamos divididos e angustiados. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. através desse processo. De fato. um budista. sem se dar conta de que. G. É necessário precisar esse último ponto. que tem como efeito “unir uns aos outros. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. de fato. é se voltar ao grupo de pertinência. produzir por produzir. freqüentemente. tem como futuro possível a xenofobia. (Com efeito.13 Reencontrar a coesão. Se somos apenas um espartano. ao nosso “nós”. um proletário. graças a identidades coletivas fortes. A identidade coletiva. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. portanto. de simplesmente não ser. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. 33 . os ideais são múltiplos. eles suscitam a aceitação ou a identificação. está cheia de perigos. A identidade coletiva favorece ainda. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. estamos perto de não ser absolutamente nada e.

portanto. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. 34 . o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. Tal indivíduo só sabe repetir. O indivíduo individualizado (e não individuado. reproduzir. bem entendido. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. o indivíduo singular. não pode ser considerado como sujeito humano. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. seres a eliminar. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. quanto mais a identidade coletiva existe. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. que. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. as relações sociais. criança. O sujeito é um ser criativo. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. Vê-se. por mínima que seja. Quero simplesmente dizer que cada um. as significações das ações. bem como da tranqüilização narcísica. ao menos. no entanto. a respeito de qualquer tipo de problema. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. daí. quanto mais uma cultura se quer unificada. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. Para definir criatividade. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. nos lugares da vida cotidiana. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). totalmente pré-formado e definido pela sociedade. tem como projeto voluntário. em suas relações sociais de todos os dias. portanto. Com efeito. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. em sua vida de trabalho. Não podemos. a sua conversão.

ao mesmo tempo sapiens. não ao charco das alegrias imortais. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista.. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. homem portanto de sabedoria e loucura. que sente prazer em respirar. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). a gestação. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. é ainda pior. respirando a plenos pulmões um ar salubre. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. em seus Conselhos a um viajante.. quanto na inspiração do arquiteto que. uma novidade irredutível. o nascimento. um ser capaz.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . não na escola!. O sujeito é. aqui e agora. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. em lugar de uma imagem da natureza. voluntariamente. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. de repente. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. portanto. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. ela está presente em quem faz. chegarás. antes que ela se fixe em natureza morta. levo a sério. é a formação. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. e que o mundo possa testemunhá-la. do jogo e da vagabundagem. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. em compensação.. E mais se imprime. o primeiro movimento indistinto da matéria. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. Os artistas não se enganaram a esse respeito. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. imobilizada. meu amigo.. demens (objeto da hybris). ludens e viator. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos.

pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. para realizar uma missão salvadora. entre os grandes homens.17 Porém. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. é preciso parar um momento. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. de seus medos. assegurando-lhe a redenção. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. Com efeito. em particular o grande homem. depois da guerra de 1914-1918. um pouco paranóico. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. identificado a seu pai. sente-se eleito por Deus. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. preso na ganga dos ideais.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. os sedutores ocupando uma posição histérica. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. 36 . O megalômano. Assim. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. a sua própria alteridade). cientificamente. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). portanto. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. No entanto. a esse respeito. aliás. pela natureza. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. atualmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. Michel SERRES. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. os manipuladores ocupando uma posição perversa. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. para lavar o mundo de sua sujeira.

é um bom exemplo desses chefes perversos. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. denega a realidade). crê falar a linguagem da verdade. basta o de STALIN. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. nem uma força de pensamento e de ação. O teatro é também para ele um terreno de esportes. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. só pensa em termos de estratégia. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. ele se proíbe de ser excepcional.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. o povo judeu. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. inventando complôs.21 Assim também HITLER. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. 37 . como WILSON ou HITLER. só considera o mundo sob o ângulo econômico. obcecado com a força pela força. esse está. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas.20 do homem que declarava. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. ou capacidades manipulatórias. que queria dobrar o mundo à sua vontade. os tecnocratas. segundo FREUD e BULLITT. a um nível mais irrisório. recém-saídos das grandes escolas. que tomou o poder contra os mencheviques. ao mesmo tempo. quis fazer do alemão o povo eleito e. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. que toma a si mesmo por ideal). LENIN. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). Quanto ao manipulador perverso. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. caso bem conhecido e. como LENIN: ao contrário. reduz as relações humanas a relações de objetos. tem gosto pelo instantâneo. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. ao contrário. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. por sua vez. para isso. que não tinha interesse algum pelos outros. como já indiquei anteriormente.

Se elas tomarem um grande patrão italiano. M.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu.. nem mesmo na imaginação. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. O grande patrão italiano C. como indivíduos perfeitamente normais. uma demonstração do possível (. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. talvez. ele perdeu alguma coisa. de uma normalidade esmagadora. Tentarei em outra ocasião. mas uma duração realista. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. porque sou. como GORBATCHEV. Em todo caso. Mas. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. com a condição de ser corajoso. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. se tiver tanta coragem quanto eu”. não se torna. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. pois ele promete a qualquer um.) são as pessoas comuns. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. Eles se apresentam. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. é possível tornar-se DE BENEDETTI. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo.. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. ao contrário. a seus olhos. não tenho dúvidas morais”. um indivíduo sem fantasias. AGNELLI a gente nasce. AGNELLI por exemplo. Em outras palavras. sem interrogação. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo.. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. Em contrapartida. meus aliados (. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”.). sem dúvida.. os outros escapam a essa denominação. Mesmo assim.

S. pois falta a ambos. Ele não tem projeto. São portadores da pulsão de morte. de tudo desarrumar. tomar caminhos transversais. no sentido que dou a esse termo. 39 . na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. dos outros.23 Em certo sentido. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. reproduzir. Mas não são verdadeiros criadores de história. ao inusitado. de tudo realizar” (McDOUGALL). São desprovidos da aptidão à transgressão. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. conforme McDOUGALL. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. em MARX. Eles têm uma influência social inegável. em FREUD. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. Mas ele conserva o mesmo projeto. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Teríamos. a recusa de compromisso sobre o essencial. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. só sabem repetir. sem falhas. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. FAUCHEUX. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. fazer advir o sujeito individual. E.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. por um lado. Se o sujeito evolui. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. assim. assim. É também um homem que demonstra consistência. criar seja lá que novidade for. ele o faz em sua linha. mais ainda. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. fazer advir o sujeito coletivo. o caráter irrevogável de sua escolha e. Um ser consistente pode ter dúvidas. em sua linhagem. por outro. de se lançar no desconhecido. favorecer a tomada de consciência de situações reais. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. insiste sobre essa noção. Corre pela vida como em uma auto-estrada. MOSCOVICI. mesmo se nada descobre. “que significa. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência.

delimita também. pessoas vindas de outros países. criar e sustentar um conflito com a maioria. como também a provocá-los. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. provenientes 40 . diante da exigência do todo. no momento atual. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. Ele é. a uma identidade coletiva. consistência e astúcia. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. Consistência e furor. um grupo ou um Estado. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. isto é. Para SEGALEN. souberam conciliar furor. visível e. o exilado. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. consistência e astúcia andam juntas.” O sujeito não é homem de comprometimentos. à dispersão. recentemente republicado. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. o que não é nada fácil. a um Estado. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. a ocasião. não pode jamais estar colado a uma organização. O que é interessante. Aqui não se trata de manipulação. no entanto. igualmente. finalmente. SEGALEN. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. em seguida. porque a dispersão. quando ela se apresenta. portanto. para fazer triunfar suas idéias. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. Ao mesmo tempo. interdita a tentação da Unidade-Identidade. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. é que. uma outra exigência e.24 O “exota”. MOSCOVICI. segundo a expressão de V.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

41

Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

42

O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
1

Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

2

3 4 5

6 7 8 9

10

43

Psicossociologia – Análise social e intervenção

11 12 13 14 15 16 17 18 19

REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

20 21 22 23 24 25

44

AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

45

sejam quais forem. aos que dela participam. desembaraçado de compromissos. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. então. se só pensa através dela. aos outros. L. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. no sentido sadiano do termo. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. então. A cultura de empresa ou de organização. sobretudo. ele entrará. de considerar os problemas em sua frieza. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. seus valores e seu processo de socialização. em demasia. capaz de se adaptar a todas as situações. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. de ter modos de “comunicação afirmativa”. com personalidades “as if” (H. para fazê-lo. Para obter tais resultados. Se o indivíduo se identifica com a organização. do combatente. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. do vencedor. assim. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. . é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. Minha contribuição será. de sonhos e de interrogações. SERVAN-SCHREIBER). sobretudo. dando. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. o homem capaz de ultrapassar seus limites. sem o saber (e de consciência tranqüila). portanto. ao propor. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . de colocá-los.

mais próximos do integrismo. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. ao contrário. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. segura de estar em seus direitos. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. de perda e de sofrimento. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). injustamente martirizado. o renovar de uma igreja dogmática. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. E. Sabe-se muito bem. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3).A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. um ideal a realizar. atualmente. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. que uma sociedade não pode existir sem religião. 47 . A empresa (ou qualquer outra organização) quer. Basta ter em mente: a renovação do Islã. em nome da verdadeira fé. exige a idealização. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. desde DURKHEIM e FREUD. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. no mundo medieval. através de um projeto a concretizar. Então. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. gurus. pronta a punir os blasfemadores. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. mas. encarnar a “instituição divina”. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. uma causa a defender. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. xamãs.

persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. afastar a dor. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. 48 . desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. competitivo ou não (por exemplo. as maratonas de Paris ou de Nova York). de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. Mas as religiões. animado) é o nosso bem mais precioso. As técnicas de body-building. Voltarei adiante aos métodos empregados. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. o “grito primal”. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. a expressão corporal. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. as medicinas naturais. mesmo os mais repreensíveis. O fanatismo político. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. portanto. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. esbelto. “tornar-se saudável”. todas as religiões. falado e falante. sofredor. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. “Estar bem em sua pele”. continuamente desejável. pelo menos. o jogging. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. a aeróbica.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. como a expressão da graça que lhe cabe. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). as ginásticas suaves. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. os estágios off limits. cuja meta é a homogeneização do “interior”. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. o desenvolvimento do esporte de massa. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. que aqui apenas menciono. submetê-la a ídolos não contestáveis. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível.

Por outro lado. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. membro de um conjunto que tem suas coerções. de evolução pessoal ou grupal. GREEN. de intervenção psicossociológica ou institucional. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. de criar uma cultura.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. 1983). que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. Quer se tenha nascido rico ou pobre. assim. de fato. para se tornar um sujeito falante e atuante. Ora. que o indivíduo. Elas anunciam. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. nas organizações sociais. O narcisismo mais total está na ordem do dia. necessariamente. confronto com o sofrimento. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. embora alienados no mais profundo de sua psique. mudança sempre difícil pois traz. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. únicos responsáveis (se eles fracassam. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. mas de edificar novos cultos. na medida em que não se trata. cada qual se mira em seu próprio espelho. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. No narcisismo de morte. interrogação do ser. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. a “qualidade total”. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). grupal e coletiva. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. sinais de uma fantasia de domínio total. a busca do “erro zero”. na qual fatalmente se perderá. na qual ele tem que desempenhar um papel social. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. A explicação é simples: todos os métodos de formação. de autoridade. Os próprios indivíduos. Basta querer. “a paixão pela excelência”. ao menos. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. processo de ligação com os outros. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 .

nas organizações e nos indivíduos. a implicação. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. Cada “conjunto humano”. Assim. na sociedade. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. com os pés amarrados a um elástico. perfeitamente interiorizadas. faz-se apelo a leitores de tarô. a mobilização total de todos. ao contrário. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. únicos a prometerem resultados tangíveis. para a seleção de dirigentes. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. a astrólogos. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. Por isso. O reconhecimento da psique como força operante tem. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. uma psique sem conflitos. pelo menos.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. do aumento dos métodos mais bizarros. como a simples lógica o exigiria. mas. uma psique a serviço da organização. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. não do desenvolvimento da racionalidade. necessariamente. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). em reação. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. para viver e se desenvolver. portanto. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. a sua submissão. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. como resultado a sua destruição ou. quer dizer.

Cada indivíduo. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. permite que se possa situá-lo em uma classe. Ora. em uma espécie). acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. portanto. portanto. através dessas diversas experiências. a necessidade de ter uma certa identidade. ou vinte anos? BARTHES. em uma palavra. que se liga a uma tradição. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. Mas.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. escreveu belíssimas páginas. que participa de uma memória coletiva. uma unidade. animado por uma coesão totalizante tendo. de ser um sujeito que tem uma história. ou o status social a que chegaram. não vivo mais.A constância não existe. – podendo 51 . de constância: (b) idéia de objeto separado. classe. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. de referências seguras. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. se examinarmos mais de perto essa noção. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. Cada um sente. Caso se retome a análise de A. isto é. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. em um gênero. GREEN (1985). Os indivíduos evoluem. ele é capaz de ser um “Si”. nacionalidade etc. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. Além disso. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. quer dizer. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. não creio mais como esse ser que leva meu nome. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. credo. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. portanto. por minha vez. ela revela características um pouco suspeitas. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas.

no momento em que falamos. Precisamos. a partir de um estado não integrado. de preclusão e de denegação estão operando em nós. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. cairmos na irresponsabilidade. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. admitir. TOROK. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. já dizia RIMBAUD.) que visam. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é.5 Certamente. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. o eu etc. não podemos abandonar essa idéia.Quanto ao reconhecimento do mesmo. Se. que processos de clivagem. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. necessita do trabalho do tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. por definição. quando sei tão pouco o que sou. então é possível questionar. além disso. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. a idéia de permanência e de constância. Eu é um outro. Nunca sabemos de maneira precisa. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. que. ABRAHAM e M. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. mas que mantém um certo grau de 52 . então. ilusória. a sua própria finalidade. quem está falando e por que falamos dessa maneira.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. 1982). no entanto. assim. então. Assim. cada uma. b. em sua pureza. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. de MIJOLLA. 1976). Mas ele insiste. No entanto. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. com WINNICOTT (1966). c. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. sob certos aspectos. pois toda construção. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e.

contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. de suas faltas. de um narcisismo a toda prova. Os outros. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. escolhendo as máscaras sociais que precisam. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . Porém. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. a interrogação. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. problemáticas. os diretores participam de um grupo. a dúvida. Apenas um exemplo: numa grande empresa. sobretudo. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. o remorso. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. para o indivíduo. o trabalho sobre si. a aceitação dos processos de clivagem. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. São. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. contraditórias. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. trazendo “temor e tremor”. como também um amor consciente por si. de seus desejos. quaisquer que sejam.A interioridade está acabando? coerência. e tanto mais porque se parecem conosco. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. muito pelo contrário). é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. portanto. tão apreciada por FREUD. portanto sedução. de “maioria compacta”. O que nossa sociedade reclama. da “inquietante estranheza” e. é ouvido um momento. assim como as instituições e organizações que a compõem. portanto. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. Um deles explicita suas dúvidas.

não quero saber nada de seus problemas porque. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. tendo uma identidade compacta. formam uma nova maioria compacta. é interrompido por um de seus colegas. eles questionam sua identidade. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. Além disso. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. Ele se tornaria o fraco. 54 . como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. até que ponto estão presos na apatia (SADE). 36). Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Nessas condições. Transformam o mundo no qual estão. Com efeito. 1984. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. seu simbólico. quer dizer. Pôde obter o posto desejado. ele tem úlceras constantes. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. vinda da boa burguesia. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. SEGALEN). esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. que lhe diz. Apenas. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. por um processo de contra-investimento. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. p. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. seja de novo como nós. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. se você continua. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. nem mesmo à sua esposa. que detestam. naturalmente. Nesse momento. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. desde então. 270).Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). diante dessas revelações. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Esse exemplo (que. até que ponto evitam-se a si mesmos. Domine-se. filho de um grande industrial. um grupo que tem uma cultura própria. seu imaginário enganoso. ENRIQUEZ. em termos mais gerais. reedição de 1986. serei obrigado a falar disso a meu pai e. p. Ora. O “homem com problemas” aprendeu a lição. em substância: “Não continue. quando os indivíduos estão nessa situação.

o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. Quem não se amolda deve ser liquidado. ainda mais. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. O “matador frio”. por si próprios. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. p. pelo menos. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. todos os “exotas”. Como dizia um chefe de empresa. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. que todos aqueles que buscam articular sentidos. os que não se assemelham aos indivíduos que. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. quer dizer. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. o homem dinâmico. Compreende-se. 55 . no dizer dos racistas. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. De um lado estão os vencedores. todos os “marginais”. em seu corpo como em seu espírito. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. pelo menos. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. sem emoção.. para SADE. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. assim. todas as “minorias ativas”. 103-104). “em demasia”. 1835. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. se evitam a si próprios. “Apagar. guerreiro e sedutor. então. um piolho a ser eliminado. “fazer correr sangue”.. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. AULAIGNER. como escreve P. num mundo a priori hostil ou indiferente. do outro. colocar em lugares criados especialmente para eles). ENRIQUEZ). soropositivos e. doentes de AIDS. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. possam se tornar objeto de ódio ou. reedição de 1961.

aos outros. vemos proliferar. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. 56 . Tudo está no ato e em sua visibilidade. Assim. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. utilizando-se produtos proibidos. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). ir além de seus limites. pode ser perpetrado. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. em sua aparência. escalar um paredão com as mãos nuas. SERVAN-SCHREIBER. Essa última seria uma cultura da vergonha. Essa distinção é. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. a luta. Se não for descoberto. a vergonha se abate sobre o autor da ação. é preciso que seja conhecido por todos. por isso. em condições normais. sem dúvida. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. Basta que não seja descoberto. Da mesma forma. se sinta culpável. No entanto. infeliz de quem trapacear. a honra e o dinheiro serão seus sem que. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. no interior de si. Ela supõe. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. mas o toca em seu ser social. portanto. simplesmente. seja ele qual for. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. fracassar. Se ele for conhecido. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. Mas. voar em asa delta etc. um estudo sobre a sociedade japonesa. mas pela vergonha. da agressividade. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. Ora. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Todo ato repreensível. da inveja e do amor. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. as práticas que permitem ganhar. em O crisântemo e a espada (1946). L. 1988).). Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. além do reconhecimento dessa luta. Se um ato corajoso – ou.

privilegiando a aparência. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. a lavagem dos narco-dólares. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. as notas frias. podem ser criados sem que daí decorra. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. já começa a ser profundamente criticado. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. apesar de suas imperfeições – normais. felizmente -. nascem a cada dia sob nossos olhos e. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. Porém. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . necessariamente. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. contra o racismo. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. que o jogo está feito. pelo jogo de aparências. Com efeito. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. atos dos mais contrários à moral comum. são suspeitos. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). contra a pobreza etc. o fanatismo. necessários à vida humana. nas sombras. o corpo se encarrega de fazê-lo. Não se deveria pensar. sem culpabilidade. postos de lado.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. lendo as reflexões precedentes. quando não é possível falar-se a si mesmo. (c) que os ideais fortes. com um único passe de mágica. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá.

pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. aceitando as regras do novo jogo. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. os animadores socioculturais etc. os ferroviários. veladamente. busca de identidade. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). sem dúvida. mesmo se a interioridade. na doença da idealidade. com sua carga enigmática. pelo sofrimento. a droga. eles ainda as fazem “na exterioridade”. tal como tentei delineá-la. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Esses “excluídos”. deverão se precaver. Mais ainda. Nesse momento. ser tratadas “na interioridade”. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. Eles não se dão conta. encontram-se na mesma situação todos os que. de indústrias. poderão. de crédito. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. evitando o Charybde da exterioridade. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. assim como pela capacidade de sublimação. Sem dúvida. Na realidade. trabalhadores incapazes de se readaptar. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. a delinqüência. pela alegria. por isso. entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. as perguntas. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. começam a se fazer perguntas. de espaços. governa seus discursos e seus atos. Entretanto. Sendo assim. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. não desapareceu e não está 58 .). esses “esquecidos” da sociedade. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. de afirmação ou de identificação. necessariamente. Esses sujeitos. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”.

Paris: Aubier. S. tão diversos quanto GOETHE. 1962. o gosto pelo mórbido. In: Sur l’individu. 135. Inácio de Loyola. L’écorce et le noyau. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. sobre KLEIST: E. é uma consciência cultural individualista. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. por Sonia Roedel. é a inquietação com o cuidado. ABRAHAM. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. é a absorção em si ou introspeção. com suas difusões amplas). espírito racional e humanista por excelência. M. Quanto a KLEIST. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. 1976. 34. p. “expressão pela qual Sto. Cf.Topique. ENRIQUEZ. p. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. v. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. em termos religiosos. 89-112. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. (N. 59 . da T. 1985. Eugène. Considérations d’un apolitique. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. citado por L. Paris: Seuil. os “diários de bordo”. na qual o mundo objetivo. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 61-76. GOETHE. em suas constituições. Le Verbier de l’homme aux loups. XVIII.). 2 Grandes escritores alemães. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. 1987. p. o homem dos Hinos à noite.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. do culto do inconsciente e dos instintos. da poetização do universo. DUMONT. Segundo o Larousse. 3 Cf. Referências ABRAHAM. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. como diz Lutero. com a formação. NOVALIS. ENRIQUEZ. com o aprofundamento do eu puro ou. 1989-2. e TOROK. assim. é. da T. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. então. 37. a Bildung do homem alemão. 38-53. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. da salvação e da justificação da vida pura. pela emoção. E. Individualisme apolitique. seu oposto. (N. involuntariamente. assim. as autobiografias. 4 Como um cadáver (em latim no original). Entre la marionnette et Dieu. Rio de Janeiro: Imago. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. 163. o mundo político.). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. N. o romantismo. 5 FREUD. p. N. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. p. 1976. Topique. Paris: Aubier. 1976.

M. J. “L’Individu dans la cité”. Psychoanalitic quaterly. 1987. Notes sur l’exotisme (1908). R. “Individualisme apolitique”. E. 309-330. 1984. Narcissisme de vie. P. In: LEVI-STRAUSS. 1970. 1980. Trad. BARTHES. FREUD. Picquier. Le retour du courage. Les visiteurs du moi. Paris: Grasset. R. de Minuit. R. 1987. 20-37. D. DUMONT. Le sabre et le chrysanthème. P. VERNANT. S. Paris: Ed. de. GREEN. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. SEGALEN. L’identité. Paris: Gallimard. 11. M. ENRIQUEZ. J. 1981. Paris: Payot. 311-321. 1975. Trad. H. EPI. 37. BENEDICT. V. L. Paris: Les Belles Lettres. BARTHES. A. Hogarth Press. p. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. MIJOLLA. narcissisme de mort. E. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. ENRIQUEZ. Barthes par lui-même. R. 1984. ps. Topique. Paris: Seuil. Aux carrefours de la haine. p. ENRIQUEZ. C. W.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. 1986. La chambre claire. 1961. 34: 89112. franc. Paris: Seuil. FOUCAULT. 60 . “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. GREEN. 1962. Paris: Gallimard/Seuil. WINNICOT. A. Nouvelle Revue de Psychanalyse. SERVAN-SCHREIBER. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. Tomo I. Paris: Seuil. DEUSTCH. “Condamné à investir”. Topique. nova. In: Sur l’individu. 1987. 25. n. 1982. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. 1942. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. In: Sur l’Individu. A. reedição. Trad. L. 1983. 1982. Paris: Payot. In: Essais de Psychanalyse. 1985. 1985. Paris: Gallimard. 1965. Biblio-Essais. 1946. retomado em Nevroses and character types. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”.

sem dúvida. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. pois pode-se. Um projeto comum significa. no entanto. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. no entanto. mas não se está à altura de compreender. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. em um imaginário social comum. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). São mais raras. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . esse problema é capital. à primeira vista. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. Tal sistema de valores. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. as análises dos grupos em estado nascente. Ora. então. O que parece.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. Todos sabem e reconhecem isso. Vamos um pouco adiante. de início. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. neste texto. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. para existir.

A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Todo grupo funciona à base da idealização.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. nos inspirar. mas afetivamente sentidas. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. nela. transforma-se logo em um sistema de crença. correndo esse risco intelectual e social. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. Para serem operantes. é necessário que. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. trata-se de sentir coletivamente. Mas esse sentimento. inatacável: assim. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . ele se apresente sob um aspecto religioso. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. da ilusão e da crença.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. aquilo que queremos vir a ser. Ora. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. consciente e inconscientemente. Da ilusão à crença. motor de nossa conduta. vigor e “aura” excepcional. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. a nossos próprios olhos. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. num grau maior ou menor. todo trabalho de interrogação sobre si. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. com uma força particularmente viva. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. A ilusão deixa igualmente sua marca. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. sagrado. Não se trata unicamente de querer coletivamente. ele pode nos atrair. pois ela é o elemento que dá consistência. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. a passagem é rápida.

todos esses termos têm uma ressonância religiosa. a revolução etc. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação.O vínculo grupal (deve. E isso não acontece gratuitamente. A causa pode ser sublime ou irrisória. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). na formação de todo grupo. suas práticas à da Psicanálise como um todo). pois esse não pode escamotear a questão da verdade. abusivamente sem dúvida. 63 . bem à vontade. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. idealização. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. de maneira mais ou menos forte. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. deveria ser defendida como uma causa.). Todo membro de um grupo é. grandiosa ou pueril. Todo militante político pensa do mesmo jeito. consequentemente. para se desenvolver. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. em certa medida. o militante político arrisca. possa perder parte de suas ilusões. esse não é o problema. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. assimilando. missão a cumprir. Assim. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. Embora um grupo. pois. sobre a possibilidade de sua impotência. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. Idealização. FREUD já pensava que a Psicanálise. verdadeiramente. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. existente há muito tempo. Causa a defender. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. sua vida). pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui.

membros do grupo. queira triunfar. antes de tudo e contra tudo. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. ela deve. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. algumas vezes de uma só3 . ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. mas direi que. Para isso. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. acreditar que está com a razão. Toda minoria tem. Pouco importa. caso uma minoria. no caso de sucesso. propagar-se como uma mancha de óleo e. vocação majoritária: mas. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. mais modestamente. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. progressivamente. para se reforçar. sua luta não terá alma nem razão de ser. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). Essas pessoas sabem que. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. A maioria não tem jamais um grande propósito. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. se tornar a dissidência de muitos. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. A maioria não tem jamais uma causa a defender. antes de chegar a seus fins. geralmente. As idéias novas. isto é. pois. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. de uma profissão ou de uma disciplina). nós o sabemos. sem exceção. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . isso significa que ele se pensa. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. imperativamente. ela deve primeiro. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. um dia. talvez mesmo. Eu serei menos afirmativo. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. triunfar. Do contrário. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. a causa que ela representa já triunfou anteriormente.

Como essas representam a ordem paterna. sob certos aspectos. desmistificando-o e desmitificando-o. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. com efeito. ao contrário. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. vista como pulsão agressiva). não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. enquanto elemento da regulação social. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. contra um exterior percebido como tão obscuro. A contestação. A transgressão. 65 . no passado. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. visando não à contestação da ordem existente. Toda instituição. novas maneiras de ser ou de se conduzir. tem por objetivo questionar o sistema vigente. mas que um novo saber apareceu. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. o grupo vai tentar destruir as instituições. visando à repetição. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. Ela não visa a propor outra coisa. deram certo. enfim. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. mas propõe novas idéias. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. A Psicanálise. Para que a vitória seja possível. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. mas à sua transgressão.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. maneiras inovadoras de ser. por exemplo. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. explicitando o implícito dos comportamentos. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. ela é. Assim. Assim fazendo. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. pois se funda em instituições sólidas. E na maior parte das vezes ele o é. mas pela luta.

violência fundadora de um novo mundo. em outras palavras. FREUD. Não há complô verdadeiro. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. não obstante. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. Ódio ao exterior. todo grupo. amor ao grupo enquanto grupo. ao menos. tornar seus sonhos reais. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. Se ele faz parte do grupo. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. não ser rejeitado. Sem essa vontade de destruição. irmãos uns dos outros. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. porém sem sucesso. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. a priori estranhos ou rivais entre si. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. deve criar um acontecimento irreversível. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. aliás. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. amor mútuo. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança).Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. fazer-se aceito em sua 66 . Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. graças a esse imaginário comum e não a outro. isto é. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. O reconhecimento do desejo Em um grupo. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. a não ser entre irmãos.

Assim. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). eles se tornarão semelhantes. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. homogêneos. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. igualmente. O grupo. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Essa semelhança buscada. quer. O único problema é a mais estrita identificação. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. não teria podido fazer parte da conjuração. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. Assim sendo. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –.O vínculo grupal diferença irredutível. Aliás. não devem ser muito diferentes uns dos outros. para que possam se amar. querendo formar uma comunidade. às quais cada um deverá se submeter. é o desejo de reconhecimento que predomina. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. eles devem se identificar uns aos outros. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. em um grupo. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. nesse caso. um corpo social completo. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. ser reconhecido como um de seus membros. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. se não o desejasse. diferenciação A MASSA Num tal caso. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . em maior ou menor grau. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. em seu ser insubstituível. De todo jeito.

delação. influência. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. à primeira vista. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. avança cego.A falta de diferenças provoca. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. Estamos. face a um grupo “sorvedouro. 4. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. que será particularmente dura de suportar. sem-fundo”. LEFORT). abismo. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. portador da “verdade” (!). 68 . então. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. de indivíduos os mais emocionais. desenvolver condutas que. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. igualmente. angústias de explosão.5 2. no grupo.A semelhança pode. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. sem que se perceba. não parecem defensivas. 3. Que ele se guarde da desilusão. a falta de inovação e. a partir de MARX. O grupo se torna objeto de todos os investimentos.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. por ser o mais forte e o mais belo. Ocorrerão comportamentos regressivos. mas que.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. tomando as características de um corpo todo-poderoso. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. senão os mais perturbados.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. Aliás. a degradação da reflexão e da inventividade. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. O grupo. coberto de certezas. sentimento de um meio hostil. tomam um vigor particular. Assim como. Ao contrário. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo.A compacidade do corpo formado vai. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. de tipo defensivo: suspeita mútua. com efeito. progressivamente.

os educadores.O vínculo grupal 5. Os membros do grupo são. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. No entanto. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. em seu interior. como frouxos ou traidores. então. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização.Se. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. tive a surpresa de 69 . orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. ao contrário. em certos momentos. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). Em tal caso. “níveis insuportáveis” (FREUD). todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. ao contrário. O grupo se centrará em si mesmo. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. Todo mundo. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. (Assim. de negociações rigorosas. A tolerância existe. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. por acaso. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. a administração. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. como a cooperação idílica não existe mas. Se não se trata de questionar o projeto comum. em um centro de jovens inadaptados. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. serão excluídos do grupo. No limite. de argumentações contraditórias. cada qual acreditando deter a verdade. então. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa.

Entretanto. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. eu deveria ter ficado menos surpreso. será tentado a achar um bode expiatório. Esse. se torna um grupo edipiano. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. Para não chegar a esse ponto. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. Fenômenos regressivos do tipo submissão. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. é freqüente. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. nos países ocidentais. assim transformado. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. “personalização do poder”. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. por isso. enquanto professor. É raro ouvir professores falarem de estudantes. mestre do pensamento e da ação). a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. Nesse caso. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. repetição da palavra do mestre. Em qualquer caso. ao contrário. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. 70 . de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. uma influência que vem do domínio das idéias.

sendo bem sucedidos ou não. Essas questões não podem ser elucidadas. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. Correlativamente. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. Assim. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. em maior ou menor grau. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor.O vínculo grupal Mas. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. Com efeito. o campo social. do mesmo modo que estão condenados à crença. para afirmar a primazia de sua posição fálica. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. transformado muitas vezes em processo de erotização. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. como já constatamos. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. pois um grupo minoritário. inscrever seu sonho na realidade. a única digna de ser respeitada. o grupo corre o risco do fracasso. Se o grupo é bem sucedido. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). para existir. tornar-se majoritário. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. se somos suficientemente amados. se consegue impor os seus ideais ou transformar. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. mas quem são os amados e os rejeitados. de todo modo. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. 71 . os grupos não podem se esquivar. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. O amor desemboca no ódio. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. isto é. os membros do grupo estão condenados ao amor. igualmente. mas também os fracos. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. Ora. podem. o grupo minoritário que. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória.

educadores. Ora. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. mas não é um resultado inelutável. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. Muitos observadores se espantam. no entanto. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. se ele não provoca impacto social. isto é. é o contrário que seria de espantar. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. Ela representa uma tentação constante. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. Com efeito. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. os marginais. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. psiquiatras. 72 . é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. por exemplo. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. o organizador do grupo.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. De fato. É preciso. Se. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. isto é. serão inventados segundo as necessidades e. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. de outro lado. Com efeito. para dizer que ele ainda subsiste. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. o grupo fracassa. além disso. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. mas outro que está ainda para ser encontrado. ele vai procurar as causas de seu fracasso. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. em um processo de análise: 1. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior.

Deveríamos.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. Se. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. Outras vezes. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. no entanto. FREUD disse isso. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. arriscar-se a ser amado. em certos casos. Ficar-se-á perplexo ao constatar que.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. 73 . serão feitas análises superficiais. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. De fato. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. a tomada de consciência se produz. de crença e de ilusão. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. às custas do mal que nutrem com gosto. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. Ela pode levar à dissolução do grupo. É importante não nos esquecermos. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. há muito tempo atrás. 2. de maneira recorrente. em vez de favorecer o seu esclarecimento. Além disso. assim. Aí também há muita ilusão. e o disse muito bem. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. em muitas circunstâncias.

Cf. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Gallimard). uma solução. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. Por dez anos. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Bulletin de Psychologie. p. “Le lien groupal”.F.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. Ma vie et la psychanalyse. 631-637. 1983. Segundo os termos de C. mas é preciso não querer ir muito longe. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. n. 4. suas angústias e. ao mesmo tempo. B. LEFORT. CASTORIADIS. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. MOSCOVICI.” (FREUD.U. “L’illusion mantenue”. P. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. Um homme en trop. Tomo XXXVI. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. suas relações de poder. C. em caso algum. seus antagonismos. por José Newton Garcia de Araújo. Nouvelle Revue de Psychanalyse. no 360. fui o único a me ocupar dela e. por dez anos. J. Eugène. S. Psychologie des minorités actives. Seuil. PONTALIS. 2 3 4 5 6 74 . um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. S.

75 . a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. em Grenoble. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. atualmente. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. Espero. os acontecimentos que se produzem atualmente. de modo algum. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. não deve. é porque me parece que essa tendência. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. convincente e inquietante. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). na verdade. Entretanto. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. se me detive a explicitar tal proposição. Com efeito. tanto no Leste da Europa.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. Devo acrescentar. 1985). 1983. então.

Pois bem. ou seja. além de nos sentir para sempre em dívida. elas não colocavam mais problemas particulares. um dogma. sem deuses ou sem Deus único). de maneira privilegiada. necessariamente. se depurando. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. isso não a obriga. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. A César o que era de César. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). sem totens. com relação a ele. 1989). A referência dura se exprime para mim. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. pode-se dizer que. ela nos religa uns aos outros. igualmente ENRIQUEZ. Ao contrário. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. Assim. no renascimento do (ou. a crença exacerbada em um mito. a Deus o que era de Deus. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. sob pena de exclusão da comunidade. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. as grandes religiões monoteístas foram. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. o fanatismo religioso – isto é. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. às vezes com reticência. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. sem lhe outorgar. A religião produz então o “ser-junto”. seja como ser coletivo). sustentadas por rituais 76 . A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). o papel que lhes estava destinado. No conjunto. no entanto. As crenças. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. um ritual compartilhado que é preciso defender. ao longo do tempo. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão.

Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. ao “desencantamento do mundo”. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). a longo prazo. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. profanas (MOSCOVICI). permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. na França. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. dos padres operários. ARON. mas à criação de religiões substitutas. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. ENRIQUEZ). O episódio. Algumas religiões. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). STOETZEL). que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. passam a se desenvolver. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. a qualquer preço. um estado psíquico onde o conflito não aparece. o Estado como aparelho separado. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. Entretanto. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. não assistimos. mas foram se laicizando. J. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). Todos os homens. do declínio de uma fé sincera e manifesta. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. como desejava DURKHEIM. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. como medida de todas as coisas. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. aspirando assim. laicas (E. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. a longo prazo. porque é 77 . baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados.

na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. quer sejam os pais. os mestres. conscientemente ou não. de serviços. de ideologias totais (LYPSET. mais ou menos fortemente. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. 1976). um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. sob a IIIa República. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. então. depois. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. por ENGELS e. após a morte de MARX. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. na França. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. pois. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. pois. Quando falo de religiões substitutas. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. 1963). não como uma ideologia (quer dizer. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. da ideologia de granito (LEFORT. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. de votos etc. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. tal como a ideologia republicana. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. É. de fato.).Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . (mesmo se. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. A ideologia pode.

reunidos em comunidade. que ela assegura sua identidade. jacente em todo ser humano. por sua força de convicção. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. projetando-o nos outros. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. substituindo-os por outros que. conseguiu se desenvolver.O fanatismo religioso e político (colonização). na época moderna. Ela então regula essa questão central da alteridade. por seu caráter absolutista. antes mesmo que seja colocada. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. então. ideologias “compactas” que. constituindo-se. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. vão se impor como lei. heréticos ou descrentes. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. 1979). Um grupo minoritário. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). representaram um papel menor na dinâmica social. É assim que ela pode formar uma cultura. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. pelo ferro e pelo fogo. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. pelo sacrifício de seus mártires. em maior ou menor grau. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. Uma religião. sozinhos. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. Mas é preciso observar que. devem estabelecer com o Sagrado. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. no cerne mesmo da sociedade. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. indica que a seita. As ideologias que eu evoco são. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. que produzem uma cultura própria. que já mencionei. como uma Igreja com seus templos. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. não pode estar na origem de nenhuma religião. a negar. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. 79 . como as religiões. quando as religiões se enfraquecem. a converter ou a destruir.

A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. 80 . É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. no “sentimento oceânico” (R. de seu lado. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. “poetas”. (Entretanto. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). como heróis (no sentido freudiano do termo). enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. porque a morte santifica e promete o paraíso. apesar de tudo. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. É verdade que os grandes místicos. Em outras palavras. desenvolveu uma política de conversão). é porque os judeus. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. ao contrário.

2. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. de novas características. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. sem emblemas.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. Entretanto. segundo o axioma de WALRAS). substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. mas somente possível e previsível. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. entretanto. se certas condições são preenchidas. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. na verdade. ser totalmente dissociados. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. 81 . embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante.Elas se enriquecem. que são religiões da revelação. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. Ora. as liberais e as “socialistas”. tudo se vende”. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. 1971). 1. PALMADE). é conveniente fazer algumas observações. intensificação da produção não somente de objetos úteis. eles não podem. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. ideologia sem porta-voz. como a ideologia republicana. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). nossas sociedades ocidentais contemporâneas. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX.O fanatismo religioso e político Concluindo. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. São sociedades: a. além disso. segundo a terminologia weberiana). Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. por conseguinte. (Não existe. o texto de J.

caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. por isso mesmo. 1967). Assim também. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. realizáveis. 1967. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. assim. para os homens e para as mulheres. c. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. “mãe das cloacas e dos brejos. além do furor de não poder satisfazê-los. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. sua legitimidade desaparece. pensar e querer o apocalipse) e. de imortalidade. no fim das contas. o capitalismo tinha uma certa legitimidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta.sociedades que. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). da qual é necessário. seu valor se corrói. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. concebê-lo como um inimigo ideal. 82 . já havia observado isso). se desembaraçar. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. enquanto criação e distribuição das riquezas. LAPLANCHE. o trabalho perde seu significado. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. (Assim. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. ao mesmo tempo.sociedades que. 1989). Restam apenas algumas fantasias de onipotência. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. d.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. Sociedades sem pais e. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. Nesse momento. b. os valores são intercambiáveis ou desaparecem.

os irmãos e os adversários. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. no limite. da exclusão. de um capitalista. (FREUD. permanecer na certeza e. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. Contra o mundo perverso. Mas as religiões. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. se sacrificar. formar uma cultura.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. A religião reclamada é a religião absolutista. os excluídos. da apatia. da loucura. da miséria. uma causa a defender. Daí se seguem três conseqüências. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. aquela que designa claramente os aliados. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. um projeto a sustentar. 1930) 83 . da corrupção). O que desejam os deserdados. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. Eles querem se tornar um “Nós”. não oferecem mais interesse. Essa citação dispensa comentário. O indivíduo desaparece. do desaparecimento de referência a toda transcendência. Se não somos nada além de um espartano. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. da ausência de um fundamento. os esquecidos. aquela que cria uma identidade coletiva. só há salvação na paranóia partilhada. de um proletário. em particular. de um budista. no Ocidente. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. os “desgarrados”.

a criar um mundo novo. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. tais como as descrevi acima. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. o que é um alimento. além disso. Quanto mais uma cultura quer se unificar. para ela é uma impureza?”. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. o espanhol despreza o português”. da sedução ou da coerção). Não esqueçamos. nos diversos países. livre do mal. O desenvolvimento do fanatismo. uma imensa massa de homens. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. para isso. o inglês fala tudo de ruim do escocês. então. o super-investimento no projeto. como seres a eliminar. O fanatismo visa. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. anunciador de um mundo novo. pelo menos. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. 1984). sua conversão. ou seja. ENRIQUEZ. no entanto. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. É certo que. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. liberado finalmente do mal. elas exigem a super-identificação à causa.

para unificar os corações e os espíritos. É por essa razão que meu texto tem esse título. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. para que o fanatismo se fortaleça. a se tornar dominantes (por exemplo. E nós tocamos. o essencial: a dimensão política. Retomemos esses dois pontos: 1. É preciso. o Azerbadjão. um instrumento a serviço do fanatismo político. o sinal de seu enfraquecimento. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. primeiro e antes de tudo. sem dúvida. assim. sozinho. que essa renovação fanática traga proveito a alguns.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. resulta. São Estados. é preciso lembrar que. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. Ou seja. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. mas. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. na hora atual. por sua vez. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. o Irã). fundamentalista. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). Síria). Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. O fanatismo religioso. no máximo. ainda. O fanatismo religioso é.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação.

judia. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). Loja P2. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. certos grupos religiosos em Israel). nos quais não existe senão um fraco consenso. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. destruição cultural. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. ela pode ter como papel: a.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). forçosamente. o convite a alguns líderes protestantes. 2. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. na França. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. Communione e Liberazione. Eglise de Scientologie). Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . que querem fazer valer sua palavra. na regulação dos Estados modernos. lepenistas. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . Se a aliança persiste. c. interdição de pensar (Polônia. em nossos dias. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. do qual eles não saberiam o que fazer. cristãs. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. judias). das comunidades islâmicas. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. Irlanda do Norte. Alemanha do Leste. muçulmana) na vida cotidiana da França. protestante.redourar o brasão das religiões tradicionais. Países Bálticos. Nesse caso.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo.A religião não se apresenta. ela designará os vencedores e os vencidos.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. sob uma forma fanática. b. se ela se extingue. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder.

tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. antes de tudo. ao contrário. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. ele tenta. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. Os homens aprenderiam. como no exemplo de KHOMEINY). que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. a falta de sentido. Eu gostaria. mas que. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. de reflexão e de reflexividade. sem recorrer a referências seguras –. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. o religioso. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. o Estado leigo faz apelo. desde o início dos tempos modernos. 87 . para terminar. Se essas são capazes de inventar novos projetos. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. cada vez mais freqüentemente. laborioso. o caos e o abismo.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. nascida desse trabalho árduo. finalmente. prontos a afrontar o absurdo. suas dúvidas. ao invés de processos de sublimação. 1. De fato. paralisar a atividade de mentalização. não é o caso de superestimá-la. nesse caso. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. de precisar meu objetivo. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. Mas. sem fim. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. com a ajuda de seu Deus –.

a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. efetivamente. ideológicos e nacionais. antes de tudo. Ela assume então o papel de desalienação. a perversão ou a paranóia triunfam. n. se ele não faz esse trabalho. nos fenômenos sociais. sob pena de cair. na armadilha que denuncia. 55. que a religião.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. tão fácil e prazerosamente. quando o religioso se põe a serviço do político. nos seus interlocutores e. (N. Se. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. 3. na América do Sul).O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. Os valores religiosos. quando a ideologia dura impede o livre pensar. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. naturalmente. Ela lhes é consubstancial. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. devem ser levados em consideração. do fato nacional. 137-149.) 2 88 .No mundo não existe ninguém que seja não-crente. ela lhes permite tomar iniciativas. no outro. Eugène. a ideologia. tanto quanto outros tipos de valores. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Ora. então a reflexão desaparece. por Leila de Melo Franco S. uma vez que elas são. Eu não quis dizer. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. Connexions. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. em nenhum momento. T. “Le fanatisme religieux et politique”. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. em si mesmo. 1990-1. Por outro lado. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. do fato ideológico. “A última tentação de Cristo”. p. Araújo. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação.

ENRIQUEZ. ENRIQUEZ. 1963. CASTORIADIS. DEVEREUX. janeiro. S. 1989.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 1989.(1930) Malaise dans la civilisation. In: La NEF. E. FREUD. Cl. Y. 1967. In: Autonomie sociale. Épi. 48. PUG. 89 . (org. Seuil. G. Au carrefour de la haine. Connexions. 1971. n. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. 1985.). PUF. ENRIQUEZ. n. S. 1967. M. LAPLANCHE. Présentation de Sacher-Masoch. LEFORT. C. 1979. 1973. MOSCOVICI. “La défense et l’Interdit”. Connexions. Psychologie des minorités atives. “Notations sur le racisme”. KLOSSOWSKI. 1971. 1984. E. ENRIQUEZ. PUF. sobre o fanatismo hoje. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. 1987. Eres. S. 1985. PUG. La monnaie vivante. G. E. Editions de Minuit. “Malaises dans les identifications”. Essais d’ethnopsychiatrie générale. L’autonomie sociale. L’homme et la politique. Seuil. Un homme en trop. 54. J. . P. DELEUZE. Epi. 1976. LYPSET.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. sobretudo. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento.CONJUNÇÃO. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. NA EMPRESA. de outro lado.2 Tais reflexões mostram. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. em plena Vendée. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. individual e coletivo. alimentação. calçados etc. que 91 . de um lado. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. como elas se desenvolvem.. são exportados para todo o mundo (iates. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. incessante. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. vestuário. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. por exemplo). como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. vividas pelos dirigentes. A escolha da região do Cholet. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. e o conservadorismo social e cultural da região. uns nos outros. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. como elas podem morrer. já havia sido notado por vários pesquisadores. seus produtos.

para si próprios. evocava neles. à antigüidade. clivagens. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. suas dificuldades. com efeito. sua história. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. isto é. diferenciações. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. para nós. num primeiro momento e. caso a caso (empresa a empresa). Uma tal aventura. ainda que solicitadas por nós. a partir de suas lembranças. ao produto. depois. de seus projetos. de suas dúvidas. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. seu futuro. Tendo analisado esses depoimentos. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. mas a empresa como objeto psicossocial. que tais entrevistas. Não se trata. 92 . é. Assim. como objeto no discurso dos dirigentes. o qual é vivido como o fundamento da empresa. segundo um método comparativo. pudemos pôr em evidência certas constantes. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. sobre aquilo que a empresa. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. a partir de sua criação. entretanto. Ou seja. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. convidados a falar a respeito. entretanto. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. ou ainda. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. que são ao mesmo tempo seu principal tema. Em outras palavras. desde sua origem até o momento atual. era. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões.

de um projeto pessoal e familiar. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes.a família. na origem. quer se exprima pela relação com o solo. a regiões de Mauges. aquilo que é ligado aos locais físicos. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. com a região (no caso. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. quer dizer. Nesse último sentido. a terra ou a região. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. com freqüência até mesmo joint families. ou ainda. quer dizer. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco.o ofício ou o produto. quer dizer. de Bocage. de maneira mais extensa. A terra Essa referência é onipresente. De maneira mais geral. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. quer dizer. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. . locais e regionais. com o território (nome das cidades. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. de maneira mais abstrata. histórica e sociológica. na empresa. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto.a terra ou a região. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. nota-se que. também. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. argila. conceitos verbais.) que se trabalha ou. a partir do qual elas podem se desenvolver. geográficos. Essas três entidades. suas tradições e a 93 . parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais.Conjunção. . no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. embora todas tenham dependido. grão etc. sua cultura. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). podem ser resumidas da seguinte maneira: .

como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. bem como uma fonte de riquezas. A família Tratando-se. tanto no imaginário quanto no real. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. A “região”. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. em nome de uma certa ética. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. na maior parte dos casos. o lugar dessa é aí dominante. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. atividades e lucros organizam-se em torno dela. Antes de ser um projeto pessoal. simultaneamente. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. eis nosso jeito fazendeirão”. “não ficar falando abobrinhas. físicas e morais. não se pode fingir”.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. em caso de dificuldade. de empresas familiares. mas também no metafórico. no sentido concreto. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. assim que ultrapassamos a fronteira. Desse ponto de vista. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). a empresa é um projeto de família. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. constituem então. 94 . um conjunto de obrigações e de restrições. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. mas também um sentimento de segurança. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). contribuindo para o renome da cidade ou da região. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. “a terra”. vira tudo uma máfia”). nas relações e atitudes: assim. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social.

de outro. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). SA. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). sendo um dos dois sexos. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. então. onde empregados e patrões podem comer juntos. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. Compreende-se. inclusive com empregados. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. As estruturas e as relações de poder são. “empresa familiar”. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. A presença da família e de seu passado se traduz. fortemente personalizadas. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. entre os bens e os dividendos pessoais. de um projeto pessoal e familiar. num primeiro tempo. “sociedade familiar” ou. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. seja pelos homens (os filhos). geralmente. no início. Assim. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. quer dizer. ainda. Da mesma maneira. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). inclusive para outras aglomerações. mas também nos fatos reais. as relações de autoridade. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. Naturalmente. 95 . então. de papéis e de procedimentos formais. como “a realização de seus antepassados”. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). na sua origem. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. e o capital e os salários. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. “sociedade de família”. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. designada como “negócio de família”. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). na empresa. é certo. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes.Conjunção. Como se pode notar. por um lado. de fato. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. sendo também imagem das relações de parentesco. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). descartado.

numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. couro etc. –. Está diretamente associado às mãos do artesão. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. Nessas condições. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. freqüentemente. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Apalpar essa matéria. Assim como para a referência à região. seus vizinhos. rupturas. lenços da região do Cholet. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. casamentos. uma fonte de problemas e de conflitos. a maior parte das vezes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. transmitidos de geração em geração. uma inspiração. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. O ofício. com os acontecimentos familiares – mortes. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. A história da empresa é assim.. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. o produto Em função de sua origem artesanal. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. os sindicatos independentes são mal tolerados. um elemento de coesão e também uma limitação. da receita ou do jeitinho de fazer. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos.

como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. de um projeto pessoal e familiar. que asseguram sua identidade e a base da empresa. essas três bases – ou instituições primárias –. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. Entretanto. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. estão imbricadas umas nas outras. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. profissionais. trata-se de um conjunto extremamente coerente. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. à terra. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. em desligar aquilo que estava ligado. com efeito. Sua história. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. Juntos. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. –. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. o marketing etc. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. pelo menos em parte. não em negar. não são entidades independentes.Conjunção. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. Esse processo não se realiza sem problemas. Consiste. eles formam então como um bloco compacto. para o dirigente. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. vêse então que. cujas partes. o ofício. para garantir as evoluções indispensáveis. ele supõe a adoção de atos concretos. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. transmitido de geração em geração. sangue ou mãos). constatou-se. De fato. encarnada na pessoa do fundador. na empresa.

elaboração de uma organização e. seu objetivo. isto é. De maneira mais precisa. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. 98 . c.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. da afetividade à separação.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. da proximidade ao distanciamento. a transferência física da empresa para outros locais. principalmente. com efeito. consiste em passar de um sistema social a um outro. O ponto de chegada de tal processo.a industrialização. PARSONS: do particular ao universal.o deslocamento. essencialmente. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. Nos termos de T. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. de estruturas de necessidades e de motivações. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. de produções. b. exigindo. ao longo de toda a história da empresa. PARSONS. do herdado (ou do dado) ao adquirido. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. portanto. de valores ou modos e redes relacionais. investimentos em máquinas e em locais especializados. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. do pessoal ao impessoal. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. Esses três movimentos resumem. isto é.

tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. freqüentemente. com efeito. bem como na composição do Conselho de Administração. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. Enfim. O envolvimento da família é. a entrada em cena de um contador.Conjunção. bem como uma administração capaz de a gerenciar. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. em contrapartida. obrigado a repartir o poder com outros. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é.. regidas segundo técnicas e métodos importados. então. ou ainda: “das famílias na sociedade. na empresa. a partir de então. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. se 99 . que põe as contas em ordem.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. de um projeto pessoal e familiar. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. sua principal razão de ser – ele deve. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. adquirir as competências ligadas à gestão –.. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. máximo. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. ele não pode assumi-las todas e é. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. de acordo com regras precisas que excluem. pode-se dizer (.

quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). podendo implicar até em falência. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). sócios etc. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. –. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. pela instauração de regras explícitas e. melhor formados) e a da clientela. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. É.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. pela definição de papéis e critérios decisórios. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. mas. Eles são. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . pois. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. com efeito. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. como para qualquer chefe de empresa. ela se baseia em competências que eles adquiriram. a estrutura de pessoal (mais jovens. freqüentemente. principalmente entre os (jovens) dirigentes. geralmente fora da empresa. Esse processo não se realiza de uma só vez. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. Esses estão. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. o que permite. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. Progressivamente. por conseguinte. transformando as relações de poder e os modos de pensar. colocados numa situação extremamente conflitiva. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. portanto. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. portanto. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. mostra-se assim sempre indispensável.

ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. Outros se orientam para soluções. mas permitindo a sobrevivência da empresa. no entanto. bancos etc. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. além disso. encontramos respostas extremamente diversas. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. nesse caso. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. de um projeto pessoal e familiar. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. Se o deslocamento para outra região. o solo no qual a empresa se situa. manter uma qualidade de vida e de trabalho. E. necessariamente. Em todos os casos. é importante para reduzir. outros modos de relação. ou mesmo para o estrangeiro. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. 101 . com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. por exemplo. – e o questionamento de vínculos anteriores. outras exigências.Conjunção. Para essa questão. outras aspirações. Se. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. para si próprio como para o ambiente é. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. isto é. permitindo administrar as contradições. como uma espécie de traição. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. preservar uma base local. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. na empresa. pois. renunciando a uma expansão possível. a empresa adotar uma estratégia de exportação. uma tomada de distância em relação à terra natal. portanto. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. considerado preferível a uma expansão sem significado. Trata-se.

ou ainda. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. Quanto mais eles se ampliam. por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. algumas das quais podendo se situar alhures. com efeito. são substituídas por relações secundárias. SUA terra. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. por regras ou por técnicas. uns sobre os outros. portanto nitidamente diferenciados e interligados. taxa de crescimento. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. Seria. uns em relação aos outros. face a face. é ele. que supõem prazos e contatos (redes etc. entretanto. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. ou ainda. mais eles se autonomizam. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. no entanto. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. no entanto. que manifestam um crescimento sensível. e de rupturas que essas provocam com o lugar. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. etc). evitando. SEU ofício que dá corpo a ele. a rachar. admitindo divisões e separações. produtividade. ao mesmo tempo. Um tal processo pode ser. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. assimilado a um trabalho de luto. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste.). indiretas. Como conseqüência de decisões. por exemplo). então. criar vínculos de dependência com eles. mercados. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. no sentido pleno do termo. Todas as empresas. é pois. margem de lucro. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . mais ou menos importantes. situadas em regiões economicamente mais propícias. as pessoas ou os hábitos de pensar. desenvolver uma rede de sub-contratantes. As relações diretas. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. emerge assim uma organização. é SUA família. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias.

André. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. uma tensão permanente. sua fonte energética. de negar aquilo que é. sob pena de perder o contato com o real biológico. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais.T. ficando na ilusão de sua existência. que é o seu fundamento. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida.). de um projeto pessoal e familiar. despregar-se. Paris. com o título Inconscient. A instituição é um processo. do clã. por Júlio M. organisation sociale. Região situada no oeste da França. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. desprender-se inteiramente. collectif). com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. ele deve sempre compor com o nível primário. sua ancoragem biológica. 1991. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. de sua consistência. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. no entanto. de sua unidade. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. Mourão. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. Se. é impossível. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. (N. constitutivo do sujeito.Conjunção. Toulouse.(mimeogr. na empresa. 1990.) 2 103 . existindo para e por si mesma.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

possível. NICOLAÏ. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). como o evidencia Nicolaï. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. Essas transformações devem. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. Todavia. de forma responsável. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. NICOLAÏ). nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. etnias. finalmente. quais são os problemas realmente essenciais. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. grupos religiosos etc. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. então. as mudanças essenciais 107 . ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. pois. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). um trabalho de tal monta é necessário e. a fim de que as sociedades possam. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. verdadeiramente. sobretudo. LÉVY. com o seu corolário. aparentemente. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. mais eficazes e mais rápidos. os “intermináveis adolescentes” citados por A. Entretanto. No momento atual. No espaço até então ocupado por ela. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. LÉVY e A. o triunfo da racionalidade experimental.

Será. com freqüência. Ao contrário. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. igualmente. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. Essa disciplina deverá. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. realizando um genuíno trabalho psíquico. Seguindo essa via. não surgirão de tomadas de decisões formais. Nesse sentido. ritualizadas. No entanto. como têm sido feitas. sujeito). LÉVY: as verdadeiras mudanças. LÉVY). assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. levantada por A. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. desde a sua criação. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. É importante ainda mencionar outra questão. na prática social. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). na atual crise pela qual passa o Brasil. Os sociólogos não se enganaram. prováveis de ocorrerem na sociedade. também. Ela poderá. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. seja para a evolução social. capazes de contribuir. Esse processo é longo. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. interessar-se mais pelos movimentos sociais. na relação e pela relação. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. Mas. suas instituições e seus diversos grupos sociais. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. portanto. pelas interações entre sujeitos. para tanto. como o fez Touraine. o “retorno do ator”. 108 . dar atenção especial à conversação e ao debate. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. quando anunciaram. seja para a sua involução. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. antes de mais nada. e não a nível global e em regiões centrais.

posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. da socioterapia e da Escola de Palo Alto.2 o envelhecimento. é porque me parece que. presente em muitos meios. no início dos anos 60. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. – tudo isso parece indicar. malgrado as aparências. seríamos tentados a pensar que.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. no modo de compreender as organizações e as instituições e. com efeito. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . na acepção forte do termo. nem sempre bem sucedido. E isso se traduz em um interesse. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. ainda. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. forçosamente. Se me decidi a escrever esse texto. e observando-se toda uma série de sinais. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada.

. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. o que tem como conseqüência que. a análise transacional e. uma após outra. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. enfim. Parece-me igualmente que. elas têm em comum o fato de terem pretendido. primeiro. retomando termos de E. em seu conjunto. de ter prazer. Essa enumeração. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. mas a vontade de inovar. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. de viver de outra forma. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. para os atores sociais e para muitos práticos. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. uma após outra. Entretanto. pode-se citar a análise institucional. elas tenham podido ser a referência principal. que evidentemente não é exaustiva. em função do que lhes parece ser necessário. É certo que a maior parte delas não desapareceu. Embora durante alguns anos. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. ou. desde o início dos anos 70. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. senão a única. a análise organizacional.. mais recentemente. 110 . para os atores engajados na ação. constituem. como todo fenômeno de moda. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. Mas importa. por exemplo).Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. Em outras palavras. em um determinado momento. ENRIQUEZ. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. os métodos centrados na expressão corporal. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. não apenas a inquietude e a interrogação.

Dessa forma.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. 111 ..4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). ROGERS (resolução de conflitos sociais. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. efeitos espetaculares em uma instituição. incertos e custosos. pelo menos – desses métodos: a. eles se comparam. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. É praticamente certo que a análise institucional. a outros métodos mais longos.). LEWIN e C. fazendo assim. então. com ambições mais limitadas e incertas. ao mesmo tempo. Certamente. por exemplo. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. meios que ele controla. desse ponto de vista. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. na verdade. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. auto-realização. Em outras palavras. por não lhe deixar escolha. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos.. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. com vantagens. intenções que. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si.

Psicossociologia – Análise social e intervenção b. automaticamente a problemas delimitados.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. reduzido. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. se possível. não garante nem assegura nada. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. tudo isso é. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. Nessa perspectiva. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). então. concomitantemente. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. condenado a ser rejeitado. Tal fascinação pelo que “funciona”. e que. especialmente a necessidade de tempo. “enquadramentos”.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. a um “ator” ou a um “agente”. Essa tendência já estava presente. “sistemas” (por exemplo. aparecendo em utensílios. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. o sistema de ação concreto de M. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. há que se lembrar. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. mas também nas orientações cognitivas. 112 . instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. evidentemente. Embora ocorram desvios. dominada por relações mercadológicas e seus valores. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. então.

combinada então a pressões mais ou menos fortes. isto é. nesse caso. a demanda é. O conceito de demanda social Com efeito. endereçada a um outro. assim como uma relação de troca. uma demanda de objeto. uma 113 . Nesse sentido. com efeito. mais ou menos explícitas.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. é eco de acontecimentos sociais. demanda de encomenda – LOURAU. Se. está próxima à noção de encomenda. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. reciprocamente. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). no registro econômico. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. há quem quis diferenciar. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. ao contrário. retira-lhe. podem-se percorrer todos os graus. então. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. Primeiramente. assimilá-la a uma encomenda. necessariamente. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. entre a demanda e a encomenda. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. tal distinção não nos parece desejável pois. um objeto. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. A demanda expressa. Entretanto. no sentido de ordenar ou encomendar. uma grande parte de sua riqueza. especialmente. que podem. inscritos em uma história coletiva que. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. toda história singular. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. Assemelha-se. reciprocamente. Assim. progressivamente. sem risco. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. No que nos diz respeito. por isso mesmo. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. a demandas por respostas e soluções. no limite. implicando um bem.

seu tratamento – é. Ele não é evidente. mas como social. Certamente. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. Se. seja em um quadro terapêutico. freqüentemente ou sempre. marido e mulher etc. sua interpretação é sempre problemática. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. então. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. em demanda de outra coisa – conselho. na acepção própria do termo. durante um processo de consulta ou de intervenção. ajuda. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. pelo menos em um segundo plano. mas a expressão de um desejo. sua interpretação. necessário indagar a respeito de seu significado. de uma falta. aí. dificilmente é formulada como tal. não é uma demanda de objeto. É. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. solução. Entretanto. pois o qualificativo “social” tende. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. explicitada pelo objeto que designa. uma certa relação de poder e de dominação. inversamente. seja de reconhecimento ou de amor. 114 . inclusive e sobretudo por quem a formula. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. é que. No limite. a demanda é facilmente interpretável. Ela se torna real por essa e nessa relação. Nesse caso.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica).. objeto material etc. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. em contrapartida. tudo isso não é específico da Psicossociologia. a “demanda” só tem sentido e só existe. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. principalmente. no primeiro registro. o que lhe dá riqueza e complexidade. Por essa razão. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. trata-se de uma demanda de amor. a demanda é considerada não como individual. Enquanto é apelo ao outro. a questão da demanda – sua escuta. disfarçando-se. na Psicossociologia. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. no segundo. precisamente. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado.

É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. Porém. Em outras palavras. podem ter efeitos nas situações que as originaram. reflexo interpretante. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que.). uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. Como conseqüência. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). nas quais elas podem ser avaliadas. de outro. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. compreendidas e interpretadas. às quais é difícil resistir. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. não há nada em comum com a posição de simples espelho. manifestações agressivas ou angustiantes etc. quis ou “demandou”. das quais resultam vivências compartilhadas que. por sua vez. De um lado. mobilizadas. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. a solicitou. eventualmente. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. Ao contrário. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. testemunhado através de seus escritos. de dependência ou de submissão.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. as quais. exprimem-se sob formas coletivas (greves. atos e palavras. Assim. mas também de permitir interpretá-las. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. que sua prática não é aplicação de uma 115 . de uma maneira ou de outra. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. meios de resolver um conflito etc. mesmo que seja de maneira difusa. é necessário que ele tenha se manifestado. transformadas em atos.

interagindo entre eles.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. individuais e coletivos. Tal representação exclui. uma classe de atores etc. Entretanto. Trata-se. Esse ponto. desde LEWIN. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata.6 como oportunamente evocado por J.. um grupo.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. uma ética. uma concepção da sociedade e das relações humanas. afirmar que elas são. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). consequentemente. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. independentemente das outras com as quais ela se articula. uma empresa. parece-nos ser uma ética. entretanto. uma perspectiva – que. enigma. Evidentemente. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. Assim. confessáveis e tratáveis. mas através de princípios regendo procedimentos. da mesma forma. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. com a condição. Desse ponto de vista. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. a noção de sistema é bastante útil. ao contrário. na falta de outro termo. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. no espaço desse artigo. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. um serviço administrativo. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. toda análise em termos de relações bipolares. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. mas que traduzem um desejo. principalmente. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. DUBOST. tudo isso expressa bem o que. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. não é possível. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. ao mesmo tempo. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar.

a fortiori. por exemplo –. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. por K.Por outro lado. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). a intervenção junto a um grupo deve ser vista. Em suma. J. LEWIN. então. identificar os dados. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . em uma relação de colaboração. ao mesmo tempo. em especial.7 Porém. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. antecipadamente. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. sem o perceber. A introdução. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. aplica-se também à Psicanálise. instrumental. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. Desse ponto de vista. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. é importante que todo ator e. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. Assim. o interventor-pesquisador contra o risco de. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. 3. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. Evidentemente. Sem dúvida. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. 2. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. em especial. desde o início da ação de intervenção. e sendo breve. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. dessa forma. igualmente. trata-se de tentar definir.

é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. em seguida. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. Da mesma forma. reafirmar essa posição e manter-se nela. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. investigar. é impossível. Igualmente. 118 . FAVRET-SAADA. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. da sociedade e das ciências do homem. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. então. assim como observar. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. Entretanto. tentando identificar. brevemente. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. questionar. uma orientação. de qualquer jeito. embora não suficiente. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. parafraseando J. então. Embora seu enunciado seja necessário. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. FAVRET-SAADA. É indispensável. elas expressam antes uma perspectiva. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. algumas tendências atuais. consideráveis nas últimas décadas. nos termos de J. “saber como se foi apreendido”. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”.

contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. certas correntes de Sociologia Clínica. impõe-se: qualquer que seja o domínio. assim. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. cada vez mais evidentes. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. desde os anos 60. de uma forma diferente. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. talvez rapidamente demais. rogerianas e morenianas. análise conversacional.10 Mais recentemente. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . hoje. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. de ordem geral. Em todo caso. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. de análise de grupo.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. no início do texto. com uma perspectiva bem global. é impossível. Assim. até então. por perspectivas lewinianas. Por outro lado. dominados principalmente. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. Mostram. convergências. a problemas de mudança social. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. há alguns anos. não é mais aceitável. Finalmente. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. dedicaram-se.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. etnometodologia.

11 TOURAINE. Y. In: Du discours à l’action. Le groupe et l’inconscient. Situations de groupe et relations langagières. CHABROL. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. L’intervention psychosociologique. Paris: Seuil. LÉVY. Paris: Seuil. Les mots. “Coopération et analyse des conversations”. A. E. p. BEAUVOIS. PUF. TROGNON.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. PUF. In: ARDOINO et al. 1990.. Por exemplo: ANZIEU. André. DUBOST. A. Gallimard. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. Paris X. Seuil. Changements. “Eloge de la psychosociologie”. L’Harmattan. 7 Cf. A. Seuil. Le sujet social. G. RAPOPORT. 17. Em especial. FLAHAULT. GOFFMAN. 43. J. O. E. 1987. Dunod. sindicalistas. 1975. 1989. E. Recherches sur les petits groupes. 3 ENRIQUEZ. R. e CAMUS-MALAVERGNE. J. arquitetos etc. H. 12 BORZEIX. 1977. 7. R. A. 1978. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. 1983. “Ce que parler peut faire”. 1979. Connexions. Dunod. J. e JOULE. J. e LÉVY. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. BION. paradoxes et psychothérapies.N. “L’analyse sociale”. 1987. 9-18. 53. Payot. e BAREL. Tese de Doutorado. La société du vide. 1985. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. PUG. 1980. JAQUES. 42. J. J. L. Sociologie du Travail. nos anos 60 e 70. DUBOST. por vezes fundamentais. 1981. La voix et le regard. Como exemplos: BARUS. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. 1984. Connexions. Seuil. L’observation de l’homme. trabalhadores sociais. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. 10 120 . responsáveis políticos locais. ATLAN. 1973. 2:87. La parole intermédiaire. C. O problema da mudança individual. 1984. Façons de parler. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. A. 1987. 1987. Intervention et changement dans l’entreprise. Minuit. 6 8 9 FAVRET-SAADA. L’intervention institutionnelle. Dunod. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. DUBOST. D. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. Entre le cristal et la fumée. 1978. W. “Connexions”. 2 4 5 WATZLAWICK et al. e de representações específicas de objeto. muitos outros atores apareceram: formadores. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. les sorts. la mort. 1979. Connexions. LECLERC. 1965. 1972.

Entretanto. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. no campo que nos interessa. depois de LEWIN. mais do que como fenômeno excepcional. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. também. em contrapartida. em nenhuma das duas.2 Mas. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. certamente. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. de forma mais ou menos clara. o segundo 121 . retorno a uma problemática do indeterminismo. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos.3 sobretudo nas Ciências Humanas. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança.4 Essas evoluções. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. tendência. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e.

Antes. mas que ela poderia se realizar. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. por isso. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. LEWIN. porém algumas observações prévias: a. aqui. necessariamente. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. iria reificá-lo. parece-nos possível. deslocamento. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. prever.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. necessitando ser aprofundada. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. Assim. K. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. para as constatar. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. com efeito. compreendê-la como tal. por definição. muito fecundo. ele permite. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. 122 . designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. de súbito. aquém ou além. de uma leitura psicológica. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. no grupo (na relação e pela relação. hoje. com efeito. do interior e não de um ponto de vista exterior. participando delas diretamente. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização.5 Além disso. isto é. definitivamente. recristalização). como demonstramos num texto anterior). Nesse terreno. dirigir ou combater.

entretanto..) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. que queremos nos centrar aqui. designar tudo o que está vivo.. também. porém. tal definição é geral demais para ser útil.). a mudança é um acontecimento psíquico. pois. é se abrir a uma história. No entanto.. ao risco (. à aventura.. (. o desenrolar de uma existência. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. ela é um acontecimento subjetivo. O termo mudança poderia. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. Antes de ser um acontecimento objetivo.. freqüentemente não isentos de violência. Como já dissemos. Ele se traduz.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. lento e ininterrupto. a um processo de mudança. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.. Com efeito. desse ponto de vista. A mudança é um trabalho do espírito. legitimamente.). reprodução das idéias. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.8 Com efeito. nem todo processo discursivo se identifica. reprodução das instituições. A teoria dos sistemas distingue. econômico. Com efeito. seja a de um indivíduo ou de um grupo. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. é o espírito que. Toda vida é “repetição de ciclos”. escrevia Paul VALÉRY.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança.. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. “exceto do corpo que se usa”. como ruptura. tecnológico –. reorientações bruscas. mutações. não se reduz a esse processo evolutivo. eles não podem ser previamente enunciados. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . assim. que é a morte) – reprodução das espécies. como observou Paul VALÉRY... Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. é acontecer.9 a mudança. é sobre essa segunda significação de mudança. redirecionamentos. físico..) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos.

ao contrário. Por exemplo. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. A decisão: momento. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. então. representações ou intenções e os que estimam. se o ato é fundador. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. isto é. em todos os níveis. ainda. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. Ou. ao contrário. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. 124 . lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. Para entender bem essa proposição. o lugar da mudança. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. por excelência. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. das instituições. os psicossociólogos. um trabalho de pensamento. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. depois de LEWIN. ele o é apenas se fizer sentido. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. ao nível de suas significações. a liberdade”. objetivas. por um trabalho do espírito. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. As condições materiais. Fazemos. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. dos modos de pensamento. antes de tudo. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam.

em um trabalho anterior. inicialmente. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. ao mesmo tempo. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. da duração (bergsoniana).11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. em suas opções e em seus desejos fundamentais. para chegar ao processo secundário e criar o real. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. por exemplo). o psicanalista W. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. com o risco de sua própria desagregação”. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). só pode ocultá-lo. LEWIN. da ordem do real-concreto-sensível. em sua época. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. a organização social.12 A decisão seria. “operando uma disjunção violenta. da continuidade sem hiatos. a divisão. uma situação nova e envolve inteiramente. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. por si. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). então. o tempo. 125 . Os processos de decisão analisados por LEWIN. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. Somente a decisão pode fundá-lo”. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades.13 acentuamos o ato arbitrário. necessariamente. por si própria. Por isso. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. renunciando. o “golpe de força” na origem de toda organização social. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. do feminino. um salto para o desconhecido.

nem que a palavra seja onipotente. assim. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar.” é um ato “ilocucionário explícito”. modificações na realidade. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. apenas por seu enunciado. pois. econômicas ou sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. quer sejam. um ato de palavra. ao mesmo tempo. isso significa que uma escolha. simplesmente. a decisão é. é o mesmo sujeito da enunciação. Mas. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. assim. Mas. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. qualquer que ela seja. Um ato. tomados como testemunhas. retomado ou reinterpretado. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. não pode significar uma mudança. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. simplesmente. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. Toda decisão é. Isso não significa.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. explicitamente designado. O sujeito de tal enunciado. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. de forma mais importante ainda. como que por mágica. manifestação da vontade de produzir. Se o sujeito que 126 . por seu conteúdo informativo e prescritivo. em si mesmo. mas porque é um ato público. pois ele pode sempre ser desmentido. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. não muda nada.. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. evidentemente. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. que uma decisão necessariamente modifica. as situações institucionais.. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e.

não se reduzindo. igualmente. para um processo de mudança. formal e. talvez mais do que em qualquer outro momento. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. Nesse sentido. sob a má fé dos argumentos. a respeito do herói. e de abandonar o terreno do possível. para fundar o real. Aqui. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. interpretação e prática de análise social No entanto. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. inelutável.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. como muitas vezes ocorre. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. Então. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. os desafia. Decisão. eles próprios. esconde mal. a uma atividade lúdica ou de encantamento. entre as possibilidades. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. vazios de sentido e sem conseqüências. bem antes do livro sobre Moisés. efetivamente. rituais ou emblemáticos. sem apreender o real? 127 . em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. o jogo de hipóteses. como diante da morte –. do imaginário. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. conscientes ou inconscientes. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir.

P. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. Seria importante. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). ao mesmo tempo. sendo difícil. mas. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. termo que. como toda decisão. feita pelos psicossociólogos. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. certamente. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. Certamente. com efeito. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. implica um risco e um custo. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. tais como J. O trabalho sobre as resistências.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. possuem as características do relato histórico. Esses sistemas. FAYE15 as analisou. escapar dessa eventualidade. incontestavelmente. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. ela é necessariamente parcial e partidária. ainda que não tenham conhecimento disso. 128 . eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. senão impossível. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. igualmente. Mas ele pode. certamente. como observa FAYE. para fazer a história. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. Assim. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode.

o texto. que eles constituem visões diferentes. de uma mesma “realidade”. então. visto que essas. essas diferentes visões e o que elas ocultam. pois. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . cada um. atuem diretamente no real.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. que preserva o analista social da decisão. subtraído do tempo”. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. mas tende a afastá-las. mais ainda. sobretudo. ao contrário. assim. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. uma parte da verdade comum. do risco de uma interpretação verdadeira. contentando-se em esclarecê-los e. práticas contestadas ou abordadas.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. diz-nos LEGENDRE. ideológico. não podendo ser traduzidos em decisões. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. mas complementares. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. “nascendo. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. contribui para reforçar seu caráter dogmático. em um processo de reificação de enunciados fechados. no inconsciente dos sujeitos. mas sua coerência. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. longe de se fundamentarem no “real”. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. das condutas às quais elas se referem. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. justificando. É aqui que uma concepção por demais rígida. muitas vezes. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. bem claramente.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

130

A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
1

131

Psicossociologia – Análise social e intervenção

132

RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

133

Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
134

por isso. autogeração etc. ou seja. isto é. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. em 1950. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. Nesses períodos. em 1900. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. as crises econômicas foram. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). pois. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes.Inicialmente. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . o que não é o caso dos elementos físicos. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. *** Quais são. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. supra) agidos. mutações e complexificação em economia tais quais formulados.Os conceitos de auto-organização. inicialmente. são simultaneamente (cf. Eles se referem a sistemas autônomos. isto é. autopoieses. não restavam mais que 10 000). existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. face a “ruídos” provenientes do exterior. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). os atores. autocriação. 2. químicos ou biológicos.Rupturas. oriundos de outras áreas. os novos conceitos e hipóteses. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. capazes de se auto-regularem. literalmente. colocam outros problemas. cujos elementos. atores e autores do seu sistema. a partir do século XIX. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. mas abertos ao seu meio ambiente e. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. como crises momentâneas de coerência. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. então. constituindo-se. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. Assim.

de um lado. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. na França. segundo CROZIER) e.P. Sua presença é vista como consolidada. entre os economistas. por conseguinte. No entanto. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. logo não previsível. encontramos poucas reflexões (na França. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). de inovadores potenciais. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). nesse momento. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. o compromisso fordista empresários-assalariados.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e.2 por exemplo). costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. na sociedade ou numa área econômica dada. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). sob o protecionismo de MÉLINE. Mas. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. mas isso deixa de lado os fatores 136 . Nesse ínterim. de outro lado. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. sob a égide do Estado. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. amplia a margem de manobra dos inovadores que. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise.. É certo que essa escolha é aleatória.I. Essas crises-ruptura. em especial.

ou seja. tornando possível viver em perspectiva (C. inerente ao sistema. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. a difusão ou não – de suas inovações. nesse quadro. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras.000 sociedades. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. da predestinação do mais forte. em cinqüenta anos.I. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Mas ainda continua faltando. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. uma teoria do fracasso. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. 137 . Mesmo se essas teorizações existissem. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. Em épocas de crises-ruptura. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. Há outro problema não estudado. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. por conseguinte. CASTORIADIS). entre a mão invisível e o punho de ferro.Rupturas. ao nível dos detalhes. nessas mutações estruturais. da designação. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis.. assim como aos fatores culturais.P. ele se torna o ordálio. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER.

à extensão do capitalismo (os N. por exemplo): concorrência. devido à extensão atual do mercado e.I. poderes oligopolíticos em escala internacional. Mas. desde BRAUDEL. às vezes. . ao mesmo tempo. após a solução eventual da ruptura.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. da cultura. . despolitização. . homogeneização da linguagem. 3. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. 3 . a família e a escola). 138 .conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. . des-sindicalização e mesmo des-identificações. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. após dessacralização. polimorfismo das intervenções do Estado. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). que o Centro se desloca.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). podemos constatar: . GROU.P. ENRIQUEZ): nacionalismos. BOYER. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. por exemplo). Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade.enfim. integrismos.fenômenos de regressão a formas mais simples.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. . mesmo que saibamos. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura.). o lúdico. o sagrado e.). antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem).outras referências. .aumento do número dos agentes aí implicados.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. embora ainda não totalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. Ela se define (P.

4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. Contrariamente. por outro lado. quando da sua transgressão e. as sociedades animais). informáticos. pois. Ela supõe. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. além das imposições do mercado e dos demais poderes. como afirma o individualismo antropológico. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. o leque dos comportamentos não é. D. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. uma interiorização das normas e uma culpabilização. por outro. REYNAUD). para cada grupo de agentes. introduzir normas. biológicos e mesmo etnológicos. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. por seu lado. Do mesmo modo. Essa adesão. E esses. 139 . por um lado. regras ou convenções para lhe dar suporte. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. devem inicialmente ser especificadas. das conexões) e do “salto qualitativo”. para serem fecundas.). Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. químicos. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo.Rupturas. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. completamente fechado.Nos sistemas sociais. É preciso. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. tão caro aos marxistas de outrora. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. para poderem inovar. 1. mecânicos. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. por um lado.

inovações. em período de crise. por fim.5 o pessoal patronal). Existe então. mais nitidamente. os outsiders e os parvenus substituem.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. no segundo. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. a modificação do tipo de conjuntura. seria preciso distinguir. 3. acumulação. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. por exemplo). então. 2. Por outro lado – apesar de KEYNES –. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano.Quando há ruptura. No total. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. de se expandir e. O imaginário da destruição pode. por isso mesmo. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. devendo encontrar. dos fatos de regressão (por exemplo. de sua unicidade histórica. da sedentarização ao nomandismo). as ocasiões de experimentar. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. em seguida. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. No primeiro caso. enquanto que. pelos golpes das OPA. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. sem esquecermos ainda as marginalizações. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. 140 .

As estruturas (as relações de complementaridade e.T. 2. 3. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. Connexions. tal como: 1. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. Cf. então. por conseguinte. representações. normas. Revue Économique. portanto. Ruptures. “L’économie des conventions”.Mas a adaptabilidade do sistema. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. por Teresa Cristina Carreteiro. “Malaise dans l’identification”. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. então. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. V. Paris: ERES. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. um esquema ideal típico.T. por conseguinte. n. mutations et complexification en économie (mimeogr.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). A continuação do funcionamento implica. a aquisição de conhecimentos e de representações. por exemplo. Cf. março 1989. 55. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.). para experimentar as inovações. a adesão às normas e. “esgotamento da relação salarial fordista”). 1990. 40.). uma mutação estrutural. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. 141 .).Rupturas. 2. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. n. André. N.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. por exemplo. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. talvez anuncie o fim delas. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. Fragmentos. jogando. precedeu uma crise política.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). 3. 2. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. 143 . na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. e os transforma em autores das mudanças. (Hobbes) Tempo é criança brincando. Atualmente. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. então. de algum modo.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. de incertezas). 4. não se trata mais de crises (isto é.Ela mobiliza atores em potencial. (Heráclito. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. E. por sua vez. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. quando não destroem a sociedade em questão. no 52) A crise das identificações. porém robusta. de criança o reinado. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. ROCCARD. nos anos 60. criam. a introdução de novas referências. Pois essas “perturbações”. “desfusão das pulsões”. João Paulo II. precedeu uma crise econômica. No Ocidente. MARADONA. TAPIE e outros). o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. Do mesmo modo. a qual. MITTERAND. condições de “saída da crise”: l. BRANDT. Assim.

a tipos de personalidade diferentes. as “intermináveis adolescências” que. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. levados pela incerteza das situações e do futuro. desses imaginários de projeto.Ela libera. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. a grupos étnicos. 6. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. por outro. angústias de identidade. assim. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. diz FREUD. localizadas e transitórias. por um lado. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. O resultado é que. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. de modos diferentes. tentativas de reconstrução. pode-se reciclar também a identidade. a categorias socioprofissionais e. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste.No final de contas. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. ao mesmo tempo. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. com todas as posições intermediárias possíveis. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. não apenas a realidade parece incerta. de assimilação e de inovação. é claro. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. assimilam e transformam. para todos. O “mal-estar na identificação” traduz. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. reativados ou mesmo imaginados). o individualismo ilusório ou de oportunismo. ao contrário.

torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. b. as reativações religiosas atuais no Irã. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. A identificação que não se desvencilha do partido. gorros cristãos etc. a regra e as sublimações. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. do racismo. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. Por exemplo.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. religiosas. da igreja. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. finalmente. profissionais. da empresa etc.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. Fenômeno que ilustra 145 . à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). solidéus – kipas – hebraicos. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. c. é paralela à involução identificatória de seus membros. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. e a aparência NAP) pelo simbólico. em vista da emancipação para o societário e a individuação. de classe.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. nos dois sentidos do termo. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. Assim. regionais.3 A família. organizacionais etc. é claro. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. nacionais. a. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir).

b. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. Quer dizer que o narcísico. isto é. sendo aliás esse que permite aquele. E isso. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. justamente porque mais na moda. entre 1983 e 1988. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. às avessas. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. primeiramente. Ela é.Mais interessantes. por sua vez. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. principalmente. a. o narcisismo individual. com o dinheiro. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. é. além disso. fortalece as exigências da necessidade econômica. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. especialmente na França. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. exatamente como Deus. “tem necessidade dos homens”.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . O retorno pode ir ainda mais longe. ipso facto.Do primeiro diremos pouca coisa.

acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. o prestígio etc. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. se ela for realizada. manter ou criar os meios de aumentá-la. notemos que o modelo do sucesso individual. é mais simples escolher a binaridade. caso se propagasse a todos os agentes. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. em substituição ao “Mudar de vida”). A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. o festivo. talvez. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). de junho de 68. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias.) permite. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. Assim. se autodestruiria. induz não ao 147 . em prêmio de Schadenfreude. Por enquanto. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. “Criem sua própria empresa”.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. mais tranqüilizadora. Entre a binaridade e a injunção contraditória. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. numa androgeneidade fecunda. Além disso. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. o mercado. Enfim. Na verdade. O dinheiro. essa acumulação pecuniária permite. o sucesso dos outsiders permite também e. Isso é talvez patológico. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. A monetarização. simultaneamente. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES).

ao insolúvel. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. nas três etapas – puberdade. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. a partir de elementos de vestuário comuns. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. logo. a individualização extrema dos novos modelos. entretanto. cada um será. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. em contrapartida. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . na época atual. um cavaleiro solitário. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. a nítida binaridade do mercado. passa-se rapidamente. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. Intermináveis adolescências. (T. Acrescentaremos apenas algumas observações.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. esse narcisismo manipulador. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. No caso de fraqueza delas. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. a programação dos computadores das Bolsas) que. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. adolescência e pós-adolescência -. 1. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. daí resulta. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. necessariamente.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

149

Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
150

Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
151

Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

152

Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
153

154 . por exemplo. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. É por isso que as revoluções. mesmo que sejam minúsculas. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. antigamente atrasadas. pois. Nesse caso. Pode-se. Assim. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. fora do controle exercido pelo Centro. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. produzem-se onde não se espera e constituem. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. “surpresas”. uma vez instaladas. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. como. por historiadores como BRAUDEL ou I. não podem ser reorganizadas e reorientadas. no que tange à história do capitalismo. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. em certas regiões. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. conjugada com a manutenção dos objetivos. inclusive jovens executivos12. Além disso. Com a condição. entretanto. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. Além disso. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. pois. pelo menos em muitos jovens.

Mas. mas existem.).. dos valores.. a captação do lúdico (jogo de papéis. diz WININICOTT). a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. em seguida. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. do espaço. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). no início. unicamente confirmadoras da identidade. dos prazeres. numa situação de mal-estar. Paralelamente. das coisas. aí.) pelas outras. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . podemos contrapor. idealmente. ao contrário. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. Em contrapartida. Assim. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. a conformidade e. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. política etc. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. as identificações são. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente.. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias.. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. ainda mais. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. das idéias. jogo de empresas. constitutivas da personalidade e. MC DOUGALL). cujas identificações seriam. logo. E como se sabe. a personalidade arrisca-se a desmoronar). por sua superação. GODALIER). desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). no adulto não é a repetição mas. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos.

situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. . . por exemplo). A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. sem dúvida. ao mesmo tempo que se escreve. entre esses tipos extremos e opostos. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. . é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza.tentam-se. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. DUPUY. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora.experimentam-se. como vimos.13 Fundamentalmente. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. Desse modo.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). Mas. Essa é. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. representadas e transicionais. . imprecisas e transitórias.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. em transformar as identificações laterais. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. então. em identificações hierárquicas. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. então.a dificuldade está. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. então. com o 156 .

permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação.. de fetos ou de liberdade de viajar. que apesar de HEGEL. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. em concorrência). de bandeiras. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus.. outsiders ou reciclados. apesar de tudo. Daí a multiplicidade. (O que prova. e das intermináveis adolescências. o fim da história só concerne a cada indivíduo). na Colômbia ou alhures. em 1981). das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. como na tectônica as placas entram em fricção. das utopias (“mudar a vida”. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. dos indivíduos e da identificações 157 . Enquanto isso. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). aliás. no fim de contas. às vezes. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. quanto para aqueles que o desemprego. de passagem. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. Chegando à encruzilhada. o mal-estar subsiste. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. Essas apropriações podem. tanto para os autores das mudanças. da maioria dos marxistas.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. pois.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. podem entrar em conflito. Algumas conseqüências 1. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. das coordenações pelos sindicatos etc. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. 2. por isso. Há. com a eliminação das organizações.

um momento dessa ascensão. por um momento denegadas (entre os sexos. talvez. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. Ora. então. 158 . pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. E a que corresponderia. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. Por isso. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. necessariamente. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. as únicas referências ainda fidedignas. portanto. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. ENRIQUEZ. os espaços.). de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional.Mas sabe-se também que o vínculo social e. os tempos. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. principalmente). O barroco societário atual é.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. as gerações. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. amanhã. encontramo-nos. Os signos (o sol. ao mesmo tempo agradável e funcional. Talvez. das normas e das formas. e a complexidade progressiva do sistema. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. como alguns dizem. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. 3. pedidores de emprego. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. as culturas etc. a estrela polar) são. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras.

O problema: em época de “destruição criativa”. Passy. Tomo 1. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Pléiade. MARX. para outros? Mas. então. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. Mais dura foi a queda. 29. 61-78.” In: M. naturalmente). “Identifications expérimentales et innovations sociales”. N. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. Gallimard. Connexions. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. p. os atores (Individualismo). Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). 55. Petit Larousse. Revue Economique. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. logo. simultaneamente. no adulto que eles se tornariam. do econômico ao sagrado. 40. na formação de ninho familiar. André.. Temos assim uma alternância de interpretações. p. por Eliana de Moura Castro. a receita das identificações complementares novas (e. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. NAP: Neuilly. As épocas de crise e reconstrução valorizam. nas diferentes esferas do social. 1990-1.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. 1989. n. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. Auteuil. RUBEL.. Hoje ele teria. edição de 1963. 1981. das coesões) não parece ainda inventada. sociedade e personalidades”. 2 de março.T. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. “L’économie des conventions”. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). Estaria a saída. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. sem dúvida. É por isso que. W. no mal-estar. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente.]. 159 . “Zur Kritik. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. 239. C. ao contrário. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. Oeuvres: Économie. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão.

Paris: Gallimard. CASTORIADIS. Cf. DUPUY. Paris: PUF. 1988. n. ENRIQUEZ. DENOYELLE. 1989. L’acteur et le système. G. Autrement. 1982. Bulletin de l’AISLF. BIRNBAUM. por outro lado. 1988. Le lien social. Freud et l’éducation. Interminables adolescences. BOURDIEU. Toujours plus. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. M. Paris: Seuil. Paris: Minuit. Paris: Fayard. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. DETIENNE. Uma mudança social. J. R. J.] uma não-imitação de exemplos paternais”. LECA. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Paris: Seuil.. L’auto-organisation. Paris: PFNSP. Paris: Gallimard. “Le changement en question”. CHASSEGUET-SMIRGEL.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. Le paradoxe et le système. 51. Winnicott en pratique. ANREP. D. Paris: Flammarion: 1974. E. CAILLOIS. ne m’aime pas. Connexions. De la horde à l’Etat.. 1985. 1975. Grenoble: PUG. CROZIER. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. “Les représentations sociales”. 1983. Tese. 1976. Paris: ESF. D. C. Les deux arbres du jardin. 1979. AULAGNIER. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Si tu m’aimes. DE CLOSETS. Autonomie et systèmes économiques. Connexions. FRIEDBERG. 1981. ENRIQUEZ. M. Paris: Seuil. 1982. 1977. J. Paris: Seuil. Y. L’homme et le sacré. BELL). n.. P. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. P. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. 1987. 1989. para TARDE. T. A. n. 1950. 29. 160 . Paris X. J.. E. J. CERISY (Actes du Colloque de). Paris. oportunismo. 1988. ELKAIM. BALANDIER. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Paris: Grasset. mobilidade. n. Ordres et désordres. 1988. The end of ideology. F. P. 1988. 1984. Paris: PUF. L’individualisme. Paris: Seuil. P. BELL. BELL. 1960.-P. Paris: Epi. 45. Les contradictions culturelles du capitalisme. Cujas. Aux carrefours de la haine. VERNANT. M.. Paris: Cerf. Le désordre. L’institution imaginaire de la société. M. Paris: des Femmes. 1989. Les révolutions minuscules. 1974. 4. 1979. 1979. BAREL. New York: Collier. La distinction. ARMANDO. 1982. Les destins du plaisir.

LE GENDRE. D. WINNICOTT. 38-39. Paris: Seuil. Ressources. n. TARDE. D. 26 jan. LASH. 27. MITSCHERLICH. FUKUYAMA. 20. Paris: RFP. 1966. n. 25 de out. Malaise dans la civilisation. 1981. FREUD. Mc DOUGALL. 1974. 1977. Inhibition. 1988. Paris: Gallimard. LÉVI-STRAUSS.. 1934. FREUD. La pensée sauvage. S. FINKIELKRAUT. SIBONY. 1973. n. Anthropologie structurale I. Cl. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. Paris: Laffont. Reedição GEX. NICOLAÏ. 40. “Psychologie des foules et analyse du moi”. Paris: PUF. Paris: Fayard. n. junho 1987. E. “La nation disparaît au profis des tribus”. Paris: Denoël. Pour décoloniser l’enfant. L’autre et le semblable. NICOLAÏ. 1980. 1980. 18 julho. et al. A. S. 1983. Psychologie des minorités actives. 1978. A. 161 . 51-54. Le Monde. MENDEL. 1979. Traverses. Rationalité et irracionalité en économie. LÉVI-STRAUSS. GOFFMAN. Freud et le problème du changement. 3. J. S. S. 1971. Les enfants de Jocaste. G. Idéaux.. NICOLAÏ. GODELIER. LIPOVETSKY. MENAHEM. Paris: Plon. Paris: Gallimard. 15 nov. 1981. “La voix écoute”. outono. psychose et perversion. H. “La politique en apesanteur”. 1984. out. Pouvoirs de l’horreur. B. Ch.1974. 1989. “L’économie des conventions”. “Et le poussent jusqu’au bout. Paris: PUF. “La fin de l’histoire?” Commentaire. 2 de março. SEGALEN. G. Le retour de l’acteur. “Et mourir de plaisir. FREUD. 1989. G. Cl. Les rites d’interaction. Revue française de psychanalyse. OLIVIER. 1958. FREUD. “Penser le chômage”. 1971. D... Jeu et réalité. Paris: Gallimard. J.. Paris: Payot. 1989. Forum de Delphes. S.. n. 1989. Revue Economique. L’effort pour rendre l’autre fou. 1979. n. M. In: Essais. angoisse. 1982..” L’homme et la société. de la vertu et de plaisir. Les lois de l’imitation. Paris: PUF.. symptôme.” Peuples méditerranéens. nov. G. L’empire de l’éphémere. Paris: CNRS. Paris: Minuit. A. n. W. F. 10. Paris: PUF. 1989. SEARLES. Paris: Payot. KRISTEVA. S. nov. A. n. Cl. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. TOURAINE. Paris: Gallimard. “Les mutations de la famille.” Connexions.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. MOSCOVICI. A. 1989. 1970. “Les Français et l’argent”. FREUD. A. 1987. 1980. 1989. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 18 mai/7 jun. Paris: Plon. WIDLOCHER. Vers la société sans père. Paris: Maspéro. 1971. Paris: Gallimard. D. Paris: PUF. Le Monde. Névrose. Nauplie. SIBONY. Le complexe de Narcisse. Le Monde.. 47. 1951. Le déclin du complice d’Oedipe. 1980. M. 1989.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. Poderíamos dizer. que essa “crise” também eclode em vários países e que. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. essa parece ter sido. em uma espécie de “crise das instituições”. a partir da divisão não-saber x saber. Assim. 1987). os textos de J. 1980.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. sem vê-lo como algo já dado. No Brasil. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. lançar um olhar novo sobre o mundo. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. sem dúvida. desembocando. instrumentalizada então. em cada lugar. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. contribuir. Pelo que eles mesmos nos contam. LÉVY (“Intervenção como processo”. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. Benevides de Barros É. É bem verdade. na maioria das vezes. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. por exemplo. também. de A. mais tarde. criando em nós uma vontade de entrar no debate. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. ela tomará formas próprias. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. entretanto. nas décadas de 60/70. 1980) e de E. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. pelas Comunidades 165 . em fins de 50/início de 60.

G. ENRIQUEZ). PAGES. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. de um lado. como à Argentina. designa a crítica à naturalização das instituições. No Brasil. através do contato com os “institucionalistas” franceses. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. J. o país. R. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. inserem-se. Vemos. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. 166 . E. ARDOINO) ou. político e social. DELEUZE). presenciamos. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. na interseção dos campos filosófico. LÉVY. analisador histórico do status quo vigente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. GUATTARI e G. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. questionamento de seus modos de instrumentalização. fica claro que “Movimento Institucionalista”. No campo da Psicologia. DUBOST. uma certa psicossociologia se faz intervenção. crítica das experiências instituídas. à Socioanálise (R. LOURAU. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. Os fins do anos 60/década de 70 serão. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. então. chegar também até nós o eco dessas produções. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. HESS. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. de modo generalizado. da burocracia partidária. Por aí. As instituições são analisadas. O mês de maio de 68 francês. Em meados de 60. principalmente. J. palco de uma produção expressiva. colocou em cheque. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. ao Chile e ao Uruguai. do conservadorismo universitário. desde essa época. por outro. A. ainda. Ainda que marcados por grandes diferenças. convulsionado pelo golpe militar. LAPASSADE. quando tomado em seu sentido amplo. então. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F.

o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (... iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social.. fomos lançados numa perspectiva rogeriana..) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. Ambos haviam participado.R. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.. Se no início a orientação era claramente norte-americana. Junto com René Lourau (. como grupo.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. p. 167 ..). para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram... via Universidade e. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972.. segundo a autora. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). p. de forma mais pontual. MATA-MACHADO. (MATA-MACHADO. da formação da A. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. tivemos entre nós. 1992. através do Curso de Psicologia.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. Em 1967... Com PAGES.. O recente trabalho de M. segundo M. a partir de 1968. (MATA-MACHADO. com a qual logo rompemos (.). MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. 3-4). voltado à pesquisa e à prática.). que congregou pesquisadores práticos (. os professores Max PAGÈS e André LÉVY.I.)”. 1992. É marcante. a influência do pensamento institucionalista francês.(. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. portanto. cuja prática foi denominada Socioanálise”... além de seus próprios escritos. 1992. Lévy apresentou-nos. respectivamente. sob a liderança de Garcia.) Em 1971. 2).) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. sobretudo. mantinha. Lapassade (. de Rouchy e. 2) O pensamento institucionalista atravessa.. alguns de Enriquez. “(. p.. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. mas há algumas produções importantes que já apontam. mais especialmente. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). em 1959.P. A entrada se dá.

são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas.. G. O pensamento pichoniano. cujos interlocutores privilegiados são A. na Europa. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. 1992. no Rio de Janeiro. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. LAPASSADE. atentas às características da realidade brasileira. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. No Rio de Janeiro. somou-se a influência do pensamento de outros (M. Essa perspectiva é. O que se percebe é que. 1992. 4). além dos autores já citados. entretanto. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. pedagogos. fez com que. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. psiquiatras e psicólogos. mas estendendo-se até hoje. DELEUZE. 1987).. Hoje. MENDEL). no Brasil. Na década de 80. por um certo tempo. LÉVY. GUATTARI. ENRIQUEZ. R. G. CASTEL. p. FOUCAULT. “parcialmente abandonada. há alguns projetos em andamento. LEITÃO e BARROS. em fins de 70/início de 80. enquanto que. 1992). aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. construindo-se práticas singulares. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. LOURAU. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. 1986). 168 .)” (MATA-MACHADO. entre outros). assim. 6). Encontramos. a partir de então. p. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. DUBOST e E. J. G. menos desejosas de mudar o mundo (. mais tarde. Ao mesmo tempo. F. É também na década de 80. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. segundo a autora. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. o movimento institucionalista inclui sociólogos.

Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. GUATTARI. Mas. RODRIGUES. (coord. Intervenção psicossociológica. bem como na entrada.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. difundiram-se os pensamentos de F. LEITÃO. Rio de Janeiro. (mimeogr. O inconsciente institucional. incluindo. 1986. e SAIDON. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. (mimeogr. Regina D. DELEUZE. C. (orgs). História do Movimento Institucionalista. Especialmente através dos trabalhos de S. M. sobretudo. Gregório F. em São Paulo. de obras desses autores. Regina D. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Cartografias do desejo. 1986. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. tendo incluído outras influências teórico-práticas.). Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. Belo Horizonte. 1992. C. Micropolítica. B. 175p. Osvaldo (orgs). Grupos e instituições em Análise. MATA-MACHADO. nas intervenções e práticas sociais.. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. Heliana B. Referências bibliográficas BAREMBLITT. A década de 60: seus efeitos no pensamento. o “pensamento institucionalista”. Atualmente.). o Núcleo de Estudos da Subjetividade. ROLNIK. RODRIGUES. e BARROS. Félix e ROLNIK. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. em alguns casos. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. Rio de Janeiro: Vozes. já toma contornos bastante diferenciados. 1987. à instituição de formação e à de pesquisa. 164p.). na universidade – PUC/SP –. mais tarde. as contribuições da socioanálise. KAMKHAGI. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. Vida R. desembocando em algumas traduções e publicações. Suely. e BARROS. Análise institucional no Brasil. Petrópolis: Vozes. 1984. pesquisas e intervenções. B. Heliana B. GUATTARI e de G. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. 1992. Marília N. 169 . hoje. 22p. 327p. em suas várias vertentes.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

Limitamo-nos entretanto. mais ou menos livremente. de variáveis como: a.R. em primeiro lugar. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. Mas creio. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. o status e a posição social. além dos desejos de terceiros. Por mais banais que sejam. as dificuldades sentidas por um ator social. a interação entre essas variáveis. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam.as condições gerais que engendram.P. a natureza do “saber-fazer”. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. implicando opções e esforços de imaginação e que. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos.a formação.. aqui. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica.I. b. em uma determinada situação. c. finalmente.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. a algumas observações. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. principalmente. os princípios e as modalidades de sua intervenção. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 .as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro.

formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. nos mesmos organismos3). tanto contribuições no plano de métodos contábeis. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. O período imediatamente após-guerra foi dominado. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. em períodos diferentes. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. do 172 . A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. Muitos dentre nós trabalharam. a busca de participação. evidentemente. o Marxismo. pelo problema da reconstrução. comportava. da conjuntura. de estruturas de direção. suas aplicações no domínio da economia. entre 1945 e 1959. missões de produtividade. Na Sorbonne. econômica e social. ênfase a métodos estatísticos. da formação em habilitações. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. de reeducação. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. o funcionalismo etc. do recrutamento de pessoal.. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. Nesse contexto. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. inflação. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. estabelecidos na capital. então.). comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. de gestão. simultaneamente. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL.

POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. da gestão etc. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. se as tentativas de Reich são. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. então. lembremos. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. desenvolvendo uma abordagem mais global. o movimento que iria ser denominado “institucional”. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. separam-se em duas tendências. a partir de 1952. Em relação a esse último ponto. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. André BRETON. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. é o momento também no qual G. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. por exemplo. onde milito durante esse período. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. nessa época. pela Dunod). na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. pouco conhecidas na França. especialmente. a partir dos anos 40. na França. no plano das práticas. o movimento trotskista. estudos de mercado –. MORENO e depois ROGERS). guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. a relação crítica e complexa que G. em 1961. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. as obras de G. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. em seguida. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. da demografia.

o grupo “Socialismo ou Barbárie”. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. desde sua origem. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. um dos colaboradores dessa equipe.G. na relação que elas estabelecem com o cliente. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). Antes de sua volta aos Estados Unidos. 174 . enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. com o restante do relatório. Perret. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). separa-se da IVa Internacional. R. CASTORIADIS4 e Cl. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. mas elas permanecem muito próximas. no qual se encontra B. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. Entretanto.5 retém. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. dirigido por C. servem. em função do problema da burocracia operária.E. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. a C. durante a ocupação. WILLIAMS. Igualmente um outro. LEFORT. em 1949. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. em 1947-1948. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado.O. Entre essas últimas. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. sobre a “moral” da empresa.S.

facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. passando pelas reformulações européias do T. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. 175 . da mesma forma que a direção. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. parece cada vez mais interessante.W. apoiando-se nos resultados. depois eventualmente coletivas –. Da mesma forma. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa.I. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. Ao contrário.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). de início. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. e eles devem ter acesso aos resultados. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. se abrem a uma abordagem mais clínica. em empresas maiores. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. elas colocam. em última análise. as que são conduzidas por equipes francesas. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. junto a pessoal assalariado de uma empresa. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. porém.

Em outros termos. no interior desse quadro de atitudes. sua natureza real. absenteísmo. e tenta inventar. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 .Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. grupos de mais velhos. as disfunções. as crises. Enfim. um objeto de trabalho. modos de remuneração. e essa não sendo a conseqüência menos importante. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. ele se pergunta se os bloqueios. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. pelos sentimentos coletivos. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. para uma orientação mais clínica. Por outro lado. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. ou aos que decidem – Direção Geral. segurança etc. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. as relações intercategorias e as microculturas da organização.). De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. feita pelos encarregados da pesquisa. Ajudando todas as pessoas. pirâmide de idade. Direção de Pessoal –. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. higiene. de pagar o preço por sua solução. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. a se expressarem. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. que fala sobre seu campo e suas intervenções. algumas vezes antigos. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. cujos conflitos. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. turn-over. Ele faz da relação de consulta um problema em si. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –.

que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. a idéia de que a intervenção. os processos de preparação e tomada de decisões. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. além dos arranjos menores concedidos. Nessa perspectiva. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. isto é. de perceber direções de solução. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. permitindo a expressão do reprimido. os sistemas de comunicação na empresa. ele crê que. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. 177 . se aceita. mesmo nesse caso. gestão ou organização. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. Porém. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. sem dar conselho. em especial dos inconscientes. ele exerce uma pressão que. de fato. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. mesmo desejando o contrário. de fato. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. isto é. à medida que esses são identificados. do especialista em uma técnica de produção. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. sem dúvida. mais tarde. acaba totalmente reforçada. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. ele próprio contribui. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. ajuda as categorias vítimas da repressão.

Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. No momento da criação. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. mais do que acelerar tal processo. Os anos sessenta No momento de criação da A.I. O caráter clínico do novo grupo. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. então. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. Da mesma forma. mas também em uma transformação cultural profunda. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. (1959).P.. os limites das ações de intervenção. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. A outra continuava a realizar. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. Tenho a impressão de que. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. do psicodrama analítico etc. nessa época. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. em uma empresa nacional. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. a 178 . utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver.R. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. das formas de autoridade.

trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. a metade já era. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. de formação de adultos. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. terapeutas ou analistas. HERBERT. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado.6 No começo dos anos sessenta. ROUCHY). reunindo às vezes toda a equipe.I. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). e ainda agora. nesses. algumas vezes mesmo de introdução à economia. uma longa intervenção em uma empresa implanta. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. de sociologia das organizações. ou iria finalmente se tornar. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . de inspiração rogeriana. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração).R. a continuidade no tempo. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade.P.7 Paralelamente. dez anos depois. se podemos dizê-lo. durante todo esse período. neles. A organização e a condução de seminários representa.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. era de um terço. do sócio-técnico e mesmo do econômico. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. a proporção era aproximadamente de nove décimos. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo.-C.). grupos abertos de análise etc. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. até 1966 (marcado pela vinda de C. dominou os primeiros anos de funcionamento. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. atuando diretamente no campo. a metade das atividades da A. outras vezes apenas três psicossociólogos. de metodologia psicossocial. A orientação não diretiva.

a demanda se estende a associações.).R. Psicossociologia e Política etc. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. de maneira ainda mais geral. a integração. junto a organizações com função econômica. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. de atendentes. na equipe. de padres e religiosos. Entretanto. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. desenvolvimento organizacional).P. por volta de 1965. diversos membros da A. é uma intervenção no México. a guerra da Algéria. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. É sobretudo na França. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. em Paris. de psiquiatras e de psicoterapeutas. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. Mas creio que é necessário evocar também.N. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. as condições ideológicas próprias da França. de trabalhadores sociais. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. por exemplo. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). a tendência que iria colocar a maioria no seio da U.F. junto a um Centro de Produtividade.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. Ao mesmo tempo. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. durante vários anos. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. em 1961. então. movimentos educativos. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. 180 . para explicá-lo. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça.E. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica.I.

que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança.E. de uma audácia espantosa.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. centrando-se na evolução das pessoas.V. por parte da instituição. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. como muitos outros.10 . As instituições não se analisam. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. uma evolução global do sistema educativo. através do desenvolvimento de ações locais.O.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE).I. . enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. mesmo que modesta. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. simultaneamente política e cultural. dentro de certo prazo. com os quais a A.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. Embora alguns dentre nós víssemos. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. ao considerarem suas relações e vida psicológica. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. ao contrário. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. por exemplo. que dava uma direção totalmente imprevista.N.elaboração de projetos de pesquisa-ação.E. nas ações de movimentos como a F. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). não desembocou no político. antes de 68. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. o período que se seguiu a maio mostra.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. como o fazem os indivíduos ou os grupos. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. uma direção susceptível de provocar.R. trabalhava desde 1964.. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção.P.

11 Estudando (por três vezes: 1963. no plano das idéias. sob a influência do pensamento psicanalítico. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . sem dúvida. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. ele deve ser buscado em outro nível. na prática. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. 182 . no campo social.12 . Como o mostra André LÉVY. 1967.Porém. . relativo primeiramente à natureza das relações sociais. “agente de mudança”. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. até o começo dos anos 60. bem problemático. no último período. quando as referências à pedagogia ativa. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. benefício a mais). mas também de seu objeto de trabalho. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. ou melhor. em especial lacaniano. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. parece-me que. a “socioanálise” ilustra. tende a se ver como um analista com funções de elucidação.A partir dos anos 60. tal opção. progressivamente. devendo ser afastado ou suspenso. ou “indutor de mudança”. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). Esse último aspecto leva à questão mais geral. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador.nos anos que se seguem à Liberação e. O modelo do analista pareceu sempre. afastando-se dela em seguida. mesmo quando.

no campo. lugar onde se está. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. A expressão pesquisa-ação. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. cedendo a pressões de que se é objeto. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. a esse respeito. por exemplo. pertencente ao campo estudado. porque ocupa. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. Se ele se encontra em uma posição menos central. ou que se tenta ocupar. é certamente oposta à acepção lewiniana. na referência ao próprio lugar ocupado. como pesquisador ou consultor social. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. presente nele. nem a se considerar parte da ação. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. Toda intervenção psicossociológica.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. sobretudo. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. tendo em vista sua própria história. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 .Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. por exemplo. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. com todos os riscos que isso comporta. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. Simetricamente. e. nunca é independente. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção.

com universitários como Georges FRIEDMANN. 4 Cf. n. Paris: Epi. In: Fondation Royaumont. Droz. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. 10 Cf. LÉVY.G. de forma mais livre. de PERETTI. p. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. n. 2 3 184 .E. n. “Dire la loi. Connexions. desde sua criação. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. Intervention et changement dans l’entreprise. contra. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. 5 Compagnie Générale d’Organisation. presidido por Jean STOETZEL e. n.. o capítulo “Variantes de la cure-type”.). “L’Analyse social”. seu vice-presidente. jan. responder a essa questão. Épi. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. 17.O. meu texto de introdução em Elliott JAQUES.-C. 1980. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751.”. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). A C.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder.S. 3. 9 Cf. 1332 etc. Paris: Payot. 1303. Jean-Claude ROUCHY. Psychosociologies. Jean e LÉVY. 1978. 1304. mais recentemente. 857. les Sorts. André. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. 29 de Connexions. 11 Cf. 1969. ROUCHY em Connexions. Le psychosociologue dans la cité. 806. a partida de Max PAGES. 1977.T. n. Continuando. 8 Cf.. J. 13 Les Mots.P.. 7 Max PAGÈS. sobre esse último ponto. por exemplo o artigo de J. Sociologie du Travail. não se pode. Connexions. 1972. quatro anos depois. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. 1331. Gallimard. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. 1980.-março. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 825. “Une intervention psychosociologique”. ou mesmo depois de terminar. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX.O. evidentemente. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. L’intervention institutionnelle. 12 Cf. e de A. LACAN. sobre. 50-68. 1967. 2.) e dos de Cl. de 1955). por Marília Novais da Mata Machado. 1971. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. André. secretário geral da associação. 1972. In: ARDOINO et al. 1963. Paris: Dunod. Ecrits (por exemplo.F. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. la Mort.

descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. 185 . mesmo que artificial. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. Porém. Parafraseando HEGEL. Porém. tem qualquer coisa de suspeita. há muito tempo. Tal afirmação. através das contradições de suas condutas profissionais. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. No que me diz respeito. entretanto. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. além disso. permitindo esclarecimentos progressivos. à crença em sua positividade fundamental e. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. quando é apenas verbal. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. esses ainda são muito relativos. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. bem ou mal resolvidos. porém. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. Esclarecer sua posição em relação às situações.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. sobredeterminado por uma profunda lógica.

cada vez mais claramente. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. Toda a minha experiência. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. leva-me. Ela repousa. dizem respeito. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. com freqüência. mais lúcida ou. diretamente. desapaixonada. longe de chegar a um ceticismo. As tomadas de consciência. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. diferentemente lúcida.6 por esse rótulo. fundamentalmente. face a face. ela desconhece 186 . As práticas de intervenção. em relações diretas. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. na França. ainda hoje. junto aos grupos envolvidos. ou mesmo a um nihilismo. instituindo. no mínimo. reciprocamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. a reconhecer. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . ela é. sem dúvida. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. científica.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. Durante muito tempo e. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. ao contrário. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto.

visto como ligado demais ao responsável comercial. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. que. 187 . por sua vez. então. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. com efeito. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. De toda forma é surpreendente que. implicitamente. é apenas um simples instrumento ideológico. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. de uma forma histórica. quase narrativa. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. caso contrário. supõe. que adotava aproximadamente esse modelo. melhor coordenação administrativa. de quem dependia bastante. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. isto é. de um lado. com vistas a decisões e ações. Tal metodologia induz. sobretudo. data de 1972. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. uma única vez. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. seu amigo. considerado como um diagnóstico e. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. Porém. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. cuidando. em determinado momento. de forma alguma. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. mas. A reunião desses diferentes objetos na análise. os problemas atuais da empresa. esclarecimento das funções.7 A última intervenção da qual participei. de outro lado.

organizacional). teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. inevitavelmente. expondo cada um com a mesma objetividade. traduzia também. como se esperava de nós. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. complementares. porém situados no mesmo plano. Em outras palavras. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). mas potencialmente articuláveis entre si. para apreender a “realidade”. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. particularmente por meio de nosso relatório oral. de um a outro. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. então. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . e sobretudo. reconstituído graças a nossos cuidados. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. a coexistência desses diferentes discursos. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. à medida que cada discurso. A perda da esperança acarretou. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. sem dificuldade. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. ideológico-afetiva. A pesquisa havia fortificado essa esperança. e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. em outras palavras. um de cada vez. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. e de passar assim. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. sobretudo. no limite. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace.

embora imperfeitamente. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. escutada ou recusada. legitimamente. isto é. assim. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. que não se reconhecem como um discurso. reduzidas a enunciados fechados. desconectados das condutas e estratégias. sabemos. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. perceber o quanto a prática da pesquisa. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. em contrapartida. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. ações ou decisões (saber para). Essa experiência possibilitou-nos. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. Essa crença conduz. então. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. Mas se aceitamos. constrangidos. não aceitamos seus pressupostos. de uma explicação geral. para o recalque: primeiramente. ao contrário. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. 189 . assim. desejaríamos.Intervenção como processo (subjetiva demais. articulá-las. a pesquisa contribui. associa-se necessariamente à busca de um sentido. é a função das representações. a partir de diversos “pontos de vista”. em discursos que as pessoas expressam. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o “real”. excessiva demais) e conservar. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. qualquer que seja a maneira como é conduzida. no mínimo. Longe de favorecer um processo de análise. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. o levantamento de dados. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. em seguida. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que.

sua posição de exterioridade é apenas relativa. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. se articulam e se transformam. na enunciação. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. na qual uma resposta instantânea. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. Os grupos face a face aparecem. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. mas. independentemente das maneiras como se atualizam. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. A não ser que se idealize o processo de análise social. reciprocamente. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. então. instituídos. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. no sentido pleno do termo. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. ser feita em uma experiência de comunicação. então. sob forma falada ou atuada. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. se há um resultado do qual estou seguro. essa só pode. com efeito. pode ocorrer. na qual o imediatismo do risco é sensível. Só é possível. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. Porém. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. 190 . a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. moral ou corpórea.

material ou simbólica. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. grupo do outro. do não agir. corpo a corpo. por exemplo). mas relações de transferência. com a participação do analista-interventor. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. essas relações implicariam particularmente. pressões. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar).Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. estratégias. no próprio ato que o institui como analista. isolados de toda historicidade. ele se insere no mesmo sistema de alianças. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. Nas situações de intervenção. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. por parte do analista. das quais necessariamente é parte. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. uma vez que. desde o início. em função de uma “demanda”. 191 . o respeito à regra de abstinência. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. no sentido preciso desse termo. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. isso é apenas uma petição de princípios. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa.

sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. então. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. não unificada. fragmentada. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. seu objeto. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. isto é.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. traduzia o desejo de tirar 192 . de termos como o “grupo” ou a “demanda”). fora da situação de análise.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. um serviço). quanto para as relações internas.12 e a legitimar sua interpretação. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. Um dos objetos de análise pode ser. por exemplo. assim. tendo que tomar decisões e executá-las. por antecipação. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. ele elimina. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. por meio de regras explícitas e implícitas. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. do “aparelho psíquico grupal”. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. no mesmo ato. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. O interventor pode. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). Reconstruindo de forma fictícia tal situação.

Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. as resistências internas na organização tendem. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. assim. com efeito. do trabalho de análise. observações. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. e o grupo de suas restrições externas. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. essa modalidade se constituía. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. especialmente do médico-chefe. por exemplo. Se isso é em parte verdadeiro. Um dos resultados. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. ele entra em conluio com as resistências. quando o interventor. merece ao menos uma explicação. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. mas também para o gozo sexual ou estético. pesquisaação etc.). Não se pode escapar disso dizendo. à medida em que o trabalho progride. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. como. que a emergência dos conflitos latentes. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. a composição do grupo pode evoluir. numa colocação em ato do desejo. Nessa perspectiva. a desmistificação de certas crenças. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. o que vale não só para a análise. como o fazem certos psicanalistas. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. paradoxal. institui tal quadro. Certamente. o abandono de tabus. que continuaria submetido às regras administrativas. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . de uma terapêutica localizada. É por isso que. a presença. a não ser provisoriamente.

centrada no sistema de regras etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. no mínimo. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. uma certeza a mais. ao risco. uma questão onde havia uma afirmação. Com efeito. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. mas uma subtração. de acordo com eixos orientados. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá.. do menos ao mais. isto é. à incerteza. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. em face à eventualidade de uma ruptura. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. então. as peças começam a circular.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. a da organização científica do trabalho. com noções e representações úteis à ação. Com efeito. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. conseqüentemente. toda teoria organizacional é relativa. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. antes de tudo. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. ao desconhecido. inclusive nas pessoas. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . irredutíveis. um acontecimento marcado pelo advento. O novo que aparece não é. uma certeza a menos. Em um texto anterior. do pior ao melhor. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. o acesso a uma história. um jogo mais livre se torna possível. centrada nos problemas de produção racional. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. a mudança representa para nós. ou como o reconhecimento de clivagens internas. a da burocracia. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. um novo pleno. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. Não é uma soma.. um possível onde havia certeza. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou.

são discursos destinados a legitimar. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. então.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. então. Nessa perspectiva. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). mas em apreendêlas como discursos incompletos. Entretanto. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. hierarquizado. com a finalidade de construir referências. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. desde 195 . temporais. também ela. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. tenta explicar. o que dá no mesmo. com efeito. permanecem divididos os discursos de representação. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. Assim. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. tendo sua própria pertinência. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. Nesse sentido. Pareceu-nos. para os outros e para si próprios. enfrentar e ocultar as contradições que vive. as ações e as divisões. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. a análise não alcança objetivamente um real suposto. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. ordenado. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. o processo de análise não pode.

ao contrário. talvez tivesse mesmo o inverso. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. 196 . endereçada agora a mim. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. isso não apenas não os inquietou mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. Esclarecemos. mas a demanda. em especial. tanto quanto pude analisála. destinadas a serem engavetadas. reificaria significados. em sua maior parte. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Assim. que deveria ser. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. como condição para aceitarem sua missão. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. como ocorrera na assembléia anterior. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. Embora eu tivesse trabalhado no passado. com pessoas pertencentes a esses meios. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. por sua vez. citarei o caso de uma intervenção muito breve. Depois de uma breve hesitação. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. era o sentimento de que não poderia. ela pretendia ser. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. Igualmente. por diversas vezes. A razão de minha determinação. Para ilustrar o que precede. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. aceitei. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. pareceu-me simpática. Buscavam essencialmente um “técnico”. com interesse e prazer. aliás muito rapidamente.

Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. era considerado por muitos (ou. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. em relação à Comissão e. uma Assembléia Geral extraordinária. pela Comissão) como um ponto de transição. Para isso. o lugar deles. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. de outro lado. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. Ela havia sido decidida no ano precedente. de fato. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. pelo menos. Como cheguei lá. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. Tratava-se então de um momento que. de um lado. Como já mostrei. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. vencimento dos prazos para decisões importantes). depois dos debates. diversas sessões haviam sido previstas. atendendo expressamente à sua demanda. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. dois encontros no local da Assembléia Geral. à noite. na história da Comunidade. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. e enfim. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. cuja forma seria definida? 197 . em seguida. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. que não podia ser perdido. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral.

tendo em vista a Assembléia Geral. de sair de um estilo de relações muito corteses. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. O fato de que eu estava lá como um profissional. sem implicação com o grupo. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles.R. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. Eu era calorosamente acolhido. 198 . da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. talvez também meu próprio sobrenome judaico. esquivando-se dos conflitos e divergências. Nessa ocasião. Parecia-me. como um estranho mas não como um intruso. eu próprio me sentia um estranho. tomei conhecimento. as relações entre elas. Espantei-me.P. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. a fim de levantar suas opiniões. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. evitando toda aspereza.). Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. então.I. ao mesmo tempo. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. com amizade e com confiança. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. então. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. as regras às quais se submetiam etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. os textos definindo seu funcionamento. com a ajuda deles.

com bastante veemência. demonstrei que. para a escolha dos temas que seriam então tratados.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. Pareceu-me. sem deixar de observar. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. com relativa facilidade. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. O papel que tinham era não apenas técnico. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. entretanto.Intervenção como processo No nível do conteúdo. periodicamente. em nome de valores democráticos. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. ao contrário. seu papel de porta-vozes puros.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. assim. Eles aderiram. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . a meu ponto de vista. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. pelas vontades expressas pela “base”. 2. então. que eles deveriam. em última análise. mas representavam também. observei. sem dúvida. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. declarei-lhes: 1.

O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). No limite. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. sem implicar posições táticas e políticas. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. eventualmente. seria necessariamente confundido com a Comissão. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. com alguma hesitação). Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). ao contrário. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). Com efeito. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. Paradoxalmente. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. Caso eu participasse da Assembléia Geral. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão.

até a eleição do próximo Conselho. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e.quanto a mim. sobretudo. existente no real.R. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido.. durante um vazio de poder). isto é. sem direito à palavra. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. judeu) tinham para eles. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. não em trocas prévias. através de minha inesperada implicação afetiva.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. a partir dessas diferenças em status 201 . ficou claro que: a. nossa posição profissional e inserção institucional.I. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. durante o primeiro dia de trabalho.Intervenção como processo como observador. uns em relação aos outros. mas no calor da discussão. Certamente. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. membro da A. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. Assim. c. b.P. formalmente. Deveria representar um tempo de análise coletiva. entre nós e os membros da Comissão. ligado à Comissão. mas também de escolha de orientação política.

como membros dessas comunidades regionais. por exemplo. lutar para tornar o trabalho mais lento. destinados a serem comunicados à Comunidade. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. entre a Comissão e o Conselho.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. a partir desses documentos. não se produz. por sua vez. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. e sobre o que pôde ser produzido. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. às instituições ou às atividades). que não visávamos nenhum interesse – ideológico. 202 . de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. era “relativa”. a partir desse primeiro dia. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. entre as comunidades regionais. entre outros escalões – e. como terceiro. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. em conseqüência. particularmente. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. assim. Foi preciso. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. relatórios de reuniões. entretanto. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. Nesse sentido. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. nossa alteridade. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. Tudo isso. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. da importância atribuída às pessoas. o desenvolvimento de um certo trabalho. Na sua maior parte. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. Esse efeito de sentido.

sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. 203 . implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens.. seja o conjunto de atividades –. em contrapartida. segundo os quais as definições da Comunidade. da idade. ou mesmo. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. da segurança. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. a definição da pauta dos diferentes dias.”). Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. por meio desse trabalho preparatório e. carregadas de subentendidos (por exemplo.). diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. na Assembléia Geral.. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral.Intervenção como processo considerando questões particulares. sem dar muita importância. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. No curso desse processo. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. refletindo situações particulares diferentes. seja a coabitação em um mesmo lugar. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”).. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. as questões a serem submetidas a voto etc. em seguida. assim. aparentemente menores. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. sobre palavras fetiches. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. ou ainda. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. algumas vezes. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica.

de outro. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. ao contrário. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. isto é. de um lado. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. de outro. quando aplicado a um processo de intervenção. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. melhorar seu funcionamento. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. facilitando a escolha de futuras estratégias. a-organizacional? Bem entendido. de comum acordo. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. fazer uma sondagem. criar uma situação nova. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. Nessa perspectiva. permitindo-lhe aumentar sua força. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. Para concluir. ela constitui uma terapêutica dessa última. reflexivo e crítico. o “serviço concreto do Homem”). de um lado.

sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. a ação de outro. Assim. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. “quanto mais houver saber. longe de terem um valor geral ou intransitivo. como alguns às vezes pretenderam. 205 . a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. ela implica. necessariamente. senão de cegueira. mais a ação é eficaz e pertinente”. Ora. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). tivemos a oportunidade de demonstrar. uma dose de desconhecimento. essas afirmações estão longe de serem verificadas. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. ela também não é. ao contrário. Com efeito. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. uma afirmação da identidade desses dois processos.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. em uma modificação das relações de poder. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. antes. Em um trabalho anterior. conseqüentemente. isto é. com precisão. uma colocada a serviço da outra. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. melhor se fica”.

ao mesmo tempo. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. O saber. mas como um processo. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. entre o que pode ou não ser escutado. 206 . pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. um sistema de ação. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. por exemplo. sobre seu passado. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas.19 Por isso. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. Assim. a mais simbolizável. implica todo um trabalho sobre si. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. uma escola). entre os lugares de palavra e os de não-palavra. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. com o mundo. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. os transforma. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. é a parte que permite trocas e manipulações. tratando dos processos de pesquisa. Com efeito. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. em uma organização ou em uma sociedade. como experiência.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. em um processo de escrita. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado.

é precisamente a impossibilidade. ao mesmo tempo. de limitar. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). de realizarem sua meta de dar sentido. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. por exemplo. ao contrário. O processo organizacional funda-se. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. Esse golpe de força. de outro. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. no nível do pensamento. o desejo de tudo compreender e. Não se trata então de uma racionalidade mecânica.Intervenção como processo Tal concepção de organização. assim. 207 . que não exclui nem dúvida nem incerteza. que pretenderia circundar o sentido. Daí o hiato persistente entre. já foi evocada anteriormente. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. As regras dividem e separam. de um lado. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. é a condição de toda vida social. mas. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. a necessidade de dividir. de uma racionalidade criadora. para essas representações – esses discursos de representações –. espiritual ou mesmo afetiva. De alguma forma. de separar. visam a introduzir. especialmente do desejo de onipotência. para perdurar. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. dito de outra forma. o desejo de tudo controlar. contabilizável ou informática. que. clivagens e limites. em uma negação do inconsciente. essa. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. de toda construção material. Se a existência de regras e proibições funda uma organização.

as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. Respondendo a uma demanda de palavra. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. a se desenvolver. então. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. Connexions. quanto da análise que a torna possível. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. 69-100. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. em seu primeiro esforço. fazendo isso. Porém. até então bloqueada ou proibida. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. de ignorar as implicações dessa inversão. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. sobretudo. mantendo vivo o passado. L’intervention institutionnelle. ou. 29. é importante. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. André. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. Paris: Payot. L’Analyse social. ao menos. uma palavra continua.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. por Marília Novais da Mata Machado. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. I/1980. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. p. In: ARDOINO et al. 1980. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. Jean e LÉVY. Dessa forma. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. 2 208 . ela se choca assim. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. assim.

postula dois aparelhos psíquicos distintos. la Mort. LÉVY. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. FREUD. 49-68. op. inédita. Connexions. introduzido por R. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . LEGENDRE. de E. L’intervention institutionnelle. les Sorts de J. “L’acteur et le système”.. Seuil. Por exemplo: Max PAGES. “L’interprétation de discours”. KAES. 196l. Nesse exemplo. Esse conceito. Paris: Seuil. também “Le pouvoir et la mort”. I/1980. Mal-estar na civilização. pp. S. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. trabalhando com a própria contratransferência. Connexions. em Topique. CROZIER. Paris: Payot. Connexions.. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”.”. “Dire la loi. cit. Traduzido de: DUBOST. In: ARDOINO et al. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Connexions. Jean e LÉVY. L’amour du censeur. 29. de P. Cf. Em termos mais sofisticados. Connexions. Cf. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. cf. Les Mots. “Le changement comme travail”. 1978. Segundo o Petit Robert. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. esse é o sentido corrente do termo “relativo”.. Sociologie du Travail. Connexions. um individual e outro grupal. LAPASSADE. Gallimard.”. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Thèse d’Etat. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Como toda análise de conteúdo. 21. “L’Analyse social”. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica.3 4 5 Inspirado em G. 7. Cf. ENRIQUEZ. André. FAVRET-SAADA. “Dire la loi. 21.. 1980.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. sem dúvida. ou. de toda atividade de formação. nesse breve artigo. as práticas de formação. Entretanto. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos.O que ocorre de essencial no ato formador. mais precisamente. uma dúvida me invade. Dizendo o mesmo com outras palavras. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. isto é. e. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. ainda. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. o procedimento de exclusão do real e. possibilidade e multiplicidade das comunicações. de forma concisa e injusta (mas. 2.E também o que é o próprio sentido desse movimento. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . Por isso. como a maior parte das indagações a respeito da formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. Esse número de revista testemunha bem o fato. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. há casas para ela). e mais violentamente.

a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. para um sistema onde.a dos formadores e educadores. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. então. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir.a dos sociólogos críticos. toda aprendizagem de técnicas teria. um efeito positivo para o formado. todo crescimento no domínio das informações. 212 . resistências. O problema é unicamente operatório. de reciclagem e. a fim de poder seguir as mudanças e. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. temores do formado e condicionamentos sociais. 2. situando a prática que buscamos promover. de paciência. para desejá-las e provocá-las. de um lado. advindo a necessidade. de investimento pensado. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. ainda mais. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. Certamente. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. a formação permanente torna-se indispensável. então. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. mas também têm. Trata-se. Orienta-se (e não apenas na China. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo.a dos psicólogos. Assim. Toda formação. a todo momento. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. de outro. cada um à sua maneira. 3. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. de tempo. sua vontade e sua imaginação. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. o progresso dos conhecimentos.

que as causas determinantes não existem. que a libido é turbulenta. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. ao umbigo dos sonhos. além de anularem toda diferença e toda dispersão. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. os blocos erráticos. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. obtido apenas 213 . estritamente falando. através da ordem. o do primitivo e. sem sonho nem loucura”. inesgotável. da medida. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). ele se revela na ação. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. do cálculo. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente.3 referindo-se ao racional e ao controle. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. O real não está lá. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. na transformação e ele é. o do louco.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder).2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. é o que excede toda análise. cartesiano. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. além de toda interpretação. que o homem está sempre por nascer. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. da mesma forma. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. O comportamento adulto é o comportamento refletido. hoje. mestre das leis e da morte. que as reconstituições são parciais. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. que se torna assim excluído). o do outro. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. sem paixão. portanto. sempre a serem melhoradas. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. as brechas repentinas. Ora. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. o real é o que escapa a toda definição. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada.

a humanidade estará.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. temos a bola de fogo.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. como diziam os alquimistas. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a cada dia. Ora. Aliás. falando dos signos da 214 . Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. imagens protetoras. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. Quando houver apenas Eus fortes. Como viver o desejo do pleno. do que tranqüiliza.4 isto é. não se trata aqui de uma simples metáfora. por isso. como uma água calma. o seu contrário. as provas de sua impossibilidade. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. pois ele não pode sê-lo. desenvolvendo-se progressivamente.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). ao mesmo tempo. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. do questionamento do saber obtido. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. então. as variações de temperatura. a opacidade. 2. a angústia de se perder no turbilhão de questões. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. a alegria da certeza e. Temos de um lado o conhecimento. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. a energia que se desprende. E nunca esse programa foi mantido. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. de hábito. se for atravessado pela ideologia do senhor.5 Certamente. o confronto com a finitude. De outro lado. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais.

se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. mas uma relação angustiada com o saber. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. Então. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. a despeito de suas diferenças. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico.6 Ora. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Igualmente. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. os psiquiatras aliados do poder. 2. Os tecnocratas.Quanto ao segundo princípio.. Conclusão: o que permanece são as certezas. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo.. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo.

algumas vezes. em um congresso de chefes de empresa. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. Acrescentemos que. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). Um importante dirigente internacional não dizia. tendo recebido um certo tipo de educação. É talvez por essa razão que. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. com seu corpo e com seus desejos. há alguns anos. é preciso. no momento. então. ao qual muitos poderiam se subscrever. impacto social menor (estamos. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. é que a pessoa. a mulher. aliás. Horizonte grande e enaltecedor. ter um outro modo de relação com os outros. o cachorro ou com o estrangeiro que. alienada na sociedade contemporânea. mas porque apresenta. grupos de encontro. não existe. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. mas de peso. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. liberação corporal e sexual. gestalt-terapia. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. no qual se inscreve toda 216 . O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem).Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. que relações de poder ele pressupõe. além do mais. esses mesmos estágios. o homem. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. assim como as experiências de bio-energética. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente.

de uma luz na qual me banho. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Em contrapartida. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Então.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. durante um tempo determinado. Como escreve S. não temos nada a dizer. que instituições me sustentam. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. renasço. então. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. feito de uma explosão que me fascina. que desejos elas retomam ou reprimem?. que podem ser atuados. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . como tais. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. num momento de estado de graça. testados no mundo. Não se aprende o amor. a seu cheiro. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. por que falo dessa maneira. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. LECLAIRE: Quando. por quem e por que sou falado. à sua voz. Mas. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. alguma coisa explode em mim. Trata-se unicamente de relações faladas e. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. em técnicas e em posturas. que sofre e que ama. que dá a cada parte de seu corpo. complementares ou antagônicos. Entretanto. justamente. a quem falo. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. Sua beleza desencadeia esse prodígio. eles não se explicam. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. mesmo nesse último caso. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes.

no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). no medo e tremor. os choros e os gritos de alegria. assim. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. não pode ser feito. Eles. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. tomar o grupo em seus desejos. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. E talvez. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. essa explosão. e ele é um bom juiz. pelo menos. declarará sua paixão por uma estagiária. o tempo ao momento. definido como um lugar no qual se deve comunicar. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. Uma vez de volta às suas instituições. Mas. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . arriscam tudo e nada arriscam. os tabus. favorecendo os processos regressivos. de tempos em tempos. Mas o psicólogo está lá para as acossar. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. O lento trabalho do negativo. esses discursos. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. a fim de viverem sentimentos intensos. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). na maior parte do tempo. chorará (o próprio ROGERS. não se entregam. para que entrem em uma relação de transferência. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. os mais narcíseos) podem. Ei-lo. mostrando assim sua potência. para fazê-las sair de suas tocas. um ato-falho. seu “saber-fazer”. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. seu rigor. vai querer se fazer amar por todos. a não ser que queiram ou possam. tomar o lugar do líder. embora plenas. do aumento do grau de irrealidade da situação. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. única fonte de mudança. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). como os weekends e as maratonas. esse irromper não ocorrerá. ou. ao mesmo tempo. Ficará apenas a lembrança de um momento único. Outro deixará se levar por suas emoções. super-ativo. estará pronto a largar mulher e filhos. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. pois as palavras trocadas. as fantasias invasoras. fazer triunfarem suas fantasias. irromperá um lapso. onde tudo era diferente. analisando com toda a sua força. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). as proibições. não porá nada em movimento. as manifestações sem seqüências. as transferências maciças. o fazer ao dizer. questionará as instituições. certificando-se de que nada lhe escapa.

Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. como muito bem o diz J. é a capacidade inventiva dos participantes. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. Além disso. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. ou atento e vivido como o dos psicólogos. Igualmente. em sua aridez. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. em muitos aspectos. para expressá-las ou mesmo provocá-las. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. é esse turbilhão do amor e da morte. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. Quanto a seu conteúdo.-B. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. Sem dúvida. seus métodos. mas científico. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. DELEUZE e GUATTARI). é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. o que é essencial é o que se passa no campo formador. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. PONTALIS. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. exato e periférico (não tocando no essencial). que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. FOUCAULT). Afinal. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. aquele que dita a norma (M. divulgá-la nas massas dominadas e. A mensagem dada. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. ele é chocante e desesperante. é o veículo privilegiado da dominação social.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). simultaneamente. é essa troca de palavra. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. O único senão é que. assim. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. na formação. Mas. Toda formação (qualquer que seja seu programa. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. então? Vemos que o que é dito é.

Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). a transformação das relações sociais. os movimentos sociais emergentes. ela não chega a ser totalmente dominante. que só nos resta. de constatação aguda e de desmobilização geral. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. homogêneo. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. depois de tê-los escutado. a vida.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. não de uma formação (a rigor. de um processo. Seus enunciados são tão gerais. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. nas Questões propostas. isto é. profissionalmente e socialmente se mexam.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. mesmo se. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. em uma palavra. se ela o fosse. 220 . o que ela esconde em seu próprio movimento. tenha sido possível ler. isto é. explicável por um único tipo de lei. o que não se pode esperar dela. ao mesmo tempo. tão sistemáticos. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. justamente. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. em filigrana. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. de um trabalho de mudança.

As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). através dessa ausência. um jogo de luz sobre certos pontos que. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. ele oferece não um saber. em suas diferentes dimensões: culturais. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. ele deveria se calar?). o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. Ausente. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. suas descobertas e suas resistências. Quando ele intervém. na situação. Ele está lá simplesmente como uma referência. dessa desordem-ordem. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. por isso mesmo. mas uma problemática. políticas. suas idas e vindas. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. suas interrogações e também suas paixões. um encadeamento de Questões. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. resvalando. uma movimentação de energias. indicando. Ele está lá vivendo. ele não é o portador do sucesso da experiência.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. assim. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. a criação de negentropia (isto é. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. Por meio dessa ausência-presença. desse lugar desocupado e fugidio. suas falhas. organizacionais. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. as correntes de informação. mas. 221 . provocando a vontade de respirar. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. seus entusiasmos. fazem surgir formas da sombra. aliás. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. mas sua relação com o saber. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver.

caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. Por isso o trabalho do grupo será centrado. entre cem. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. de seus corpos e. a relação com o saber é suspensa no vazio. Um outro participante manifestava. o resto do grupo o seguiu em bloco. para não falar de sua situação econômica. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). vivem em organizações específicas. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. Não são pessoas ou seres desencarnados. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. projetos sociais. Um exemplo. tendo um passado. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. 222 . de suas relações afetivas. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. não há muito tempo. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. hoje. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. a resistência se deslocou. as diferenças são apagadas. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. formadores etc. Como interpretar tal situação. com relação a esse personagem. tal funcionamento é profundamente mistificador. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. praticamente nunca era contradito e. uma atitude de deferência e de sedução. tomando certos caminhos e não outros.). os conflitos não têm mais espessura social. No caso contrário. Ora. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. um dos membros do grupo era particularmente escutado.

O lugar fechado. Não estão lá como pura presença. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. aprofundadas. ação real e ideologia. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. outras palavras sociais. imaginário instituinte. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. o foco em relações afetivas imediatas.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. conduta e gesto. experimentaram. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. um ou dois anos). nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. intensivo. fazem propostas. de suas tentativas. de seus sucessos. mais exatamente. é aberto sobre o mundo exterior ou. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. de breve duração. a imersão na vida aqui e agora. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. retomadas. construíram ou destruíram em seu meio real. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. Em cada sessão. lugar de análise. outros atos sociais. fecundarão novas atitudes. É por isso que somos partidários de estágios longos. os participantes falam do que fizeram. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. imaginam soluções. menos tal processo pode ocorrer. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. não há mais dicotomia entre ato e palavra. confrontadas. A partir do momento em que o desejo circula. realizaram. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. mas como portadores de suas angústias. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. a 223 . o imaginário que aí está torna-se imaginário motor.

Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. do gozo). a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”.. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. mais dinâmicos. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. Momentos de mutismo e de temor. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. que o amor inexiste sem a experiência da morte. Aqui. impossibilidades totais. com o saber) são descentradas. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. do excesso. a periodicidade desses momentos. algumas vezes.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. possa. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. Não está. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. discursos ideológicos desenfreados. em questão visar à dissolução pela dissolução. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. do saber alegre. talvez. falar. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. a precluir certos registros (da paixão. a fim de que a energia livre. expressão gráfica etc. mesmo se ela pode se tornar criativa. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. com o outro. a loucura e o sonho possam ter. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. nesse processo que. momentos de embotamento. do fogo e mesmo do caos. de novo.. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. todos juntos. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo.. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. de necessidade de alimento. depois de terem liquidado 224 . Trata-se. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. períodos de análise refletida. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. ao contrário. por enquanto. ter caminhos balizados. naturalmente. então. uma angústia diante do desconhecido. Não nos enganemos entretanto. se interrogue sobre si mesmo. Resistência vinda de indivíduos em formação. direito de atuarem. ser protegidos. reencontra muitos obstáculos ou. viva paixões. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. ter efeitos. Essa experiência da heterogeneidade. irrupções vulcânicas.

as numerosas escolas. E que. provocar mudanças. Intervenção psicossociológica. avançando uma série de proposições. o que ela busca induzir. é necessário que ele seja evocado. sobretudo. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. tentar experimentar novas condutas. seu possível devir Não está em questão aqui. para nós. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. senão a violência simbólica da organização. da intervenção. então. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. a utopia e a inquietante finitude. quando retornam às suas organizações. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. naturalmente. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. se transformará em um simples prestador de serviços. que deveria transformar o que está no centro. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. Essa experiência da margem. de trabalhar 225 . mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. deliberadamente. eles reencontram a inércia das estruturas. Trata-se. Enfim. mesmo se os participantes podem. o que ela não poderá jamais realizar. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. entre as sessões. Na intervenção. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. o espanto e o desprezo de seus colegas. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. a dificuldade intransponível. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. Naturalmente. mas a confusão. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. seu modo de existência.

mais exatamente. uma certa fissura no organograma da organização. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). impede de ver e de sentir outra coisa. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). O que está presente não é. antes de tudo. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. assim. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. para se expressar. como submissos. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . numa primeira análise. ao contrário. recusa a alguns o próprio direito de falar. desperdício. então.) e que desejam resolvê-los. que têm problemas concretos (de decisões. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. além do mais. como na formação. durante muito tempo. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. mas. Não por razões morais. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. A intervenção. uma situação irreal. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). no processo de trabalho. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. na hierarquia interna. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. consciente ou inconsciente. de melhoria de condições de trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. existissem como executantes da máquina. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. mas. Essa recusa. toda a violência do cotidiano que. desordem nas salas. de definições de tarefas etc. isto é. absenteísmo. A palavra reprimida. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas.

um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito.D. O que resulta. para que o olhar se desloque. pelas relações codificadas. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito.F.T. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. a deixar seus desejos serem expressos. então. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. entre si e o outro. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Mas. Numa pesquisa efetuada pela C. que faz surgir um real além do real percebido. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. a aceitar sua parte de loucura. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. progressivamente. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. relações de poder e separações instituídas. para que possa interrogar o oculto. transformador do mundo. Colocá-la em causa seria um salto mental. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. Não se trata de sonhar por sonhar. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). pensamento-execução. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. “ruídos”. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. ou que possa pensar de fora da fábrica. pai-filho ou ele-outros.

uma nova forma de educação. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. promete apenas. pode sair a surpresa. Assim. ele exclui e. dessa maneira. é lei retomada. metafórico. ator e analista social. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. fazem da criança também um educador. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. onde a lei. interrogados. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. transformada e garantida por cada um. Ele distingue. à sua maneira. subvertidos ou. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. ou. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. no mínimo. é necessário que os modos de pensamento. As posições. com seus argumentos e suas demonstrações. então. numa análise em ato da organização. mas em uma maior fluidez. sem análise. os educadores chefes e especialistas. cada um se tornando. imaginativo. os psiquiatras. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. dessa ruidosa confusão. outras formas de relação e outros modos de estruturação. o inesperado. ao se deslocarem. pessoal de cozinha e de limpeza. a médio prazo. Aliás. além das crianças. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. analógico. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. O que significa. numa decodificação das relações. os psicólogos. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. isto é. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. a própria idéia 228 . Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. igualmente. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. ele classifica. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. que o surgimento do imaginário. decepção. sua cronologia e suas articulações. é o que permite a troca e a reciprocidade.

um elemento de mascaramento do sistema social. Assim. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. isto é. Não se trata apenas do modo de pensamento. da Psicanálise uma arte de construção. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. Essa perspectiva não o impedirá. colorida. é como o dinheiro. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. pelo contrário. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. o homo demens no homo sapiens. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. isto é. Buscamos. de fazer. antes. para ser expressa ou reencontrada. Mas. o roubo da língua espontânea. como ele próprio o diz. a verdadeira 229 . na realidade. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. por sua vez. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. A língua. já não indica que as relações de cumplicidade. As pessoas se submetem. dissimula. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. da ortografia necessária. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. mas também da linguagem utilizada. da criatividade diária dos grupos sociais.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. sob certos aspectos. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. as “estórias de comadres”. inversamente. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria.11 Queremos dizer que a verdade. atrás da imagem de falar bem. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. então. isto é. à língua (a parte social da linguagem) dominante. a invenção popular. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. de intimidade. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. pede que cada um pense e viva na contracorrente. nas organizações. falarão. Naturalmente. Quando. Mas aí também sabemos que. Ora. submetem-se ao princípio do prazer. do bom estilo. a língua. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. na França. divertida.

fazendo-os aprender a falar. Eis que chegou o tempo dos tradutores. Se. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). mas o da dominação que ela instaura. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. então. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. É por isso que atacar a língua dominante. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. quando se escutam as palavras que eles utilizam. em boa linguagem. dessa forma. confusamente. Por isso. argumentada. a dos tecnocratas. de seus mandamentos. precisa e cifrada. para obrigá-los. Veja-se bem a dificuldade. Aliás. as frases que inventam. Mas os tradutores traem. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. a partir do Século XVII. para se protegerem dos outros atores sociais. mas de poder: da lei. A mesma coisa ocorre hoje. reencontrar a língua perdida. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. de modalidade de comando. se dá conta disso. experimentar o seu calor.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. antes de mais nada. pode-se constatar que eles se protegem. fazê-la viver. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. mais exatamente. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. reencontrar sua língua. pois o 230 . que são os que podem traduzir. inventar um falar. do mundo adulto (e o atacam). os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. Não apenas de autoridade. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. todo mundo. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . Há uma língua dominante. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou.

Entretanto. quer que ele seja reforçado. assim. se uma demanda lhe foi feita. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. mas também quando o poder está em jogo. justamente. ao contrário. sendo. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. sendo inauguração de uma palavra nova. o interventor ultrapassou o limite. então. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. os hábitos. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). membros do comitê de empresa. a intervenção pára. mas sim questionamento infinito. Então. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. De qualquer maneira. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. com uma outra linguagem. nunca é resposta a um problema (responder é controlar.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. mas. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. dentro de certos limites. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. agradece-se ao interventor. sua vontade instituinte e. então. colocar-se em questão. A intervenção. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. quem quer que seja (dono de empresa. ele lhes permitiu. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). nem renunciar a seu poder. quando estão no campo de análise não apenas as relações. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. as comunicações interpessoais e intergrupais. as resistências. interminável. os estilos de autoridade. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. a se informarem. chocase violentamente com as estruturas. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. Mas. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. então. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. Assim. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado.

energias começaram a circular. dispersões a se operarem. mas favorece o desejo de mudança. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). palavras a serem ditas. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. é aos atores sociais reais. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. através de ações. Ele não realiza nenhuma mudança. então. Não sabe pelos outros. Porém. seu trabalho só pode ser lento. Quanto ao valor e à importância desse movimento. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. que só poderá viver. os movimentos sociais. Ele não analisa sozinho. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. O que ele sabe bem. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). se ela se coloca. Ele não transforma as estruturas. das funções elucidativas.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. em contrapartida. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. colocando-se como um shaman ou um mártir. não os conduz em direção a nenhum resultado.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. pólo de identificação ou bode expiatório. 232 . daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). se houver uma germinação ao invés de um fechamento. que. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. sendo alguém que incomoda. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. Também não se pode dizer que ele fracassou. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Pois. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. procedendo por deslocamentos e rodeios. eus a se abalarem. é que. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. não lhe cabe questionar os poderes. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento.

Em contraposição. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. então. mas que ele deve saber. 3. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. Suspeito por todos. Anteriormente. agricultores tendo interesses em comum. Pode.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. desde o início. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. mais sua ação será limitada a certos grupos. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional.A falta de formação dos interventores. ao contrário. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . sua posição nada tem de confortável. traidor em potencial. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Entretanto. 4. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. inclinar-se à rigidez ou. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações.

Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. Aparentemente. sobretudo. da mulher. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. o que nos parece mais importante. em um soberbo isolamento psicótico. 234 . mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. eles se preparam para uma vocação de mártir.Enfim. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. 3. do desejo da alienação etc. com outras relações. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. por seus gestos. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. um maior controle consciente. ser retomado. que assim buscam empreender atos significativos. eles desabarão. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. Isso é compreensível. 2. não a desejam com freqüência para si mesmos. efetuado por eus fortes.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. Quem quer conhecer a dúvida. então. Um dia. a demanda acaba. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. em uma sociedade tecnocrática. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. comunicações melhores e. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade.

não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Epi. Pour la Sociologie. Eugène. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. Cf. por Marília Novais da Mata Machado. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”.-M. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. enunciadas. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. FOUCAULT. Serge. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. do sonho e do gênio maligno. 1974. Rio de Janeiro: Zahar. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Piera. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. no 3. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. CASTORIADIS. cujos signos. 17. cf. Connexions. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. recalcamento e repressão em organizações. Cinco lições de Psicanálise. não caem nesse erro. MORIN. 1972 (Imaginário social. ENRIQUEZ. Le paradigme perdu. refoulemente et répression dans les organizations”. Le Seuil. repentinamente. Les mots et les choses. On tue un enfant. 1977). M. 137-159. essa abertura profunda na superfície das continuidades. L’institution imaginaire de la société. Gallimard. 1974). FREUD.” Le sauvage et l’ordinateur. CASTORIADIS-AULAGNIER. A. Le Seuil. “Imaginaire social. Points. descritas. La nature humaine. Em Lip. 1975 (Mata-se uma criança. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. “Points”. p. Paz e Terra). n. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. E. Segundo J. o Eu tudo destrói. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Na primeira meditação. DOMENACH: “Para não ser destruído. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Topique. C. Connexions. 13. E. LECLAIRE. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. 1976. TOURAINE. caracterizadas. Le Seuil. Seuil. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

237

Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

238

As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

239

Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

240

As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

241

o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). perspectivas. mas. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. pode. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. parece importante aos solicitadores. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. mas pode. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. 242 . tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. sobre a maneira como se afastou do previsto. isso se dá. porém. dimensões ideológicas. numa dada situação concreta. justamente. Assim. também. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. firmemente. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. regras. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. que pode ser feito fora de um universo técnico. justamente. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. mas tomo iniciativas e faço propostas. os fatores geradores do problema. sua participação no trabalho. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. além disso. em excesso. Caso um apelo seja feito a mim. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. hipóteses. os atores envolvidos. de preferência. algumas vezes.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. a examinar princípios. Ao mesmo tempo. a partir de um determinado momento. abordando concomitantemente o sistema. não poder sê-lo. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. Ao mesmo tempo. meus conhecimentos e habilitações. porque se atribuem a mim competências em um domínio que.

tornar mais inteligível. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. ecologia etc. para tratá-lo. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa.). não apenas objeto de trabalho para os participantes. as funções externas almejadas pelos atores. O modo de estruturação do processo pode se tornar. então. Porém. no final desse artigo. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. formas de autoridade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. na determinação das técnicas. tamanho. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. tentar. 243 . suas orientações teóricas. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. então. por exemplo. um objeto de trabalho. as propriedades do sistema (grau de centralização. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. em função do campo no qual elas aparecem. os custos etc. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. tolerância à diferenciação. a seguir. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. tal vantagem deve ser abandonada. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. então. Poderíamos. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. rapidamente. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. os fenômenos de moda. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. tolerando apenas uma gama restrita de variações. os recursos da equipe de consultores escolhidos. a natureza dos objetos. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. Evocaremos. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. constituindo. princípios estratégicos. É nessa perspectiva que é preciso. em si mesmo. Cada uma comporta pressupostos.

uma origem técnica importante. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. de devolução aos participantes e de interação dos atores. isso se passa sobretudo porque. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. a partir da prática psicanalítica. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. depois de LEWIN. em algumas práticas. 244 . combinados ou não a estudos monográficos e históricos. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. GODIN. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. Entretanto. B. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. bem cedo. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. por exemplo. parece-me. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. estão as técnicas de pesquisa de campo que. COCH e FRENCH).Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. Entre esses dois pólos. em especial. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. nas de TOURAINE. a observação participante. Quanto às estratégias de pesquisa. Algumas vezes. Em seguida. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. na maneira como J. de maneira bem menos acentuada. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. a propensão dos práticos de intervenção. algumas vezes.

as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. produzindo dados válidos. pela encomenda de um estudo “Retrato”. as razões dos bloqueios. quem escolherá as opções. que. no começo. ainda hoje. em todos os casos. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. a natureza das resistências. de fato.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. atualmente. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. a isolar os objetivos. Pode-se observar que. na França. é dessa maneira que elas se estruturam. Em todos os casos. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. como em outros lugares. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. a obra de G. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. por exemplo. a origem das disfunções. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. freqüentemente. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. há muito tempo. nas próprias operações das fases de estudo). a caracterizar melhor as situações. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. o significado das condutas etc. Igualmente. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). Entretanto. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. quem reterá as soluções etc. a atuação dos conflitos. Em um campo bem diferente. os limites desse modo 245 . a identificar os problemas. a escolher as variáveis de ação. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. é comum. no papel de especialistas. quem conduzirá esse trabalho. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior.

. apresentaremos rapidamente três observações: . a não ser esquecê-lo. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. já citado. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . ao menos. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. sobretudo. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. escolhe-se. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. em especial. Se muitas intervenções. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. .O trabalho é conduzido por uma equipe externa. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. cólera. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. Não se sabe mais o que fazer. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. restaurando a coesão. com a apresentação dos resultados. caso se decida reiniciá-lo. O texto de André LÉVY. freqüentemente com espanto. conseguindo uma solução de síntese ou. 1980). muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. constróem. são interrompidas. desenvolve muito claramente esse aspecto. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. então. denegação. depressão etc. um retrato eventualmente objetivo e fiel. enterrá-lo. o inventário. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. por exemplo. por exemplo. de fato. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). do exterior. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. o trabalho de recenseamento. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. de caráter mágico. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial.

da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). adiamentos de realizações importantes. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. por categoria de ator etc. às relações elaboradas e conceituadas demais. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. mas repensar essa lógica (por exemplo. assim. algumas vezes.associar todos os parceiros envolvidos. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. sobretudo. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. chega-se. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. o debate. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. os critérios de cientificidade: validade. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. pertinência. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas.preferir. a perlaboração. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. . durante o trabalho de análise da demanda. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. eles me parecem. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. pode-se tentar: . ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. correspondentes a atuações mais modestas. então. . o que provoca aumento dos temas de estudo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. a uma solução que exige uma equipe e. De meu lado.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. e apesar das reservas expressas. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –.fracionar a investigação (por tema. 247 . em outras palavras. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. como o próprio relatório. parece-me. com o trabalho sobre os resultados.

em diferentes lugares da sociedade). social analysis. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. em um plano concreto. assim. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. na Glacier Metal Company.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. em seguida. adquiririam novas propriedades. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. o artigo de E. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. porém. 1972). algumas vezes. a uma perspectiva de intervenção. TRIST. traduzido para o no 3 de Connexions. com muita freqüência. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. evoluiriam. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. Passar-se-ia. os grupos. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. De uma maneira geral. numa escala pequena. JAQUES. nessa segunda categoria de origens técnicas. a partir de 1964. Logo. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. na qual. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. de uma perspectiva de formação. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. as práticas de formação. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. de 1948. de aperfeiçoamento e. é necessário lembrar que. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. a fim de que elas mudem”. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. apresentam-se como a aplicação simples. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. sobre a possibilidade de contorná-los.

ao mesmo tempo em que se reforçava. conceberam diretamente. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. grupos de análise de prática profissional. nos quais a ARIP interveio. em seguida. para o seio da cúpula. Sociopsychanalyse. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. LÉVY e. passando pelos estudos de caso. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. especialmente. tecnicamente. utilização da autóptica. a importância da referência à Psicanálise. por exemplo. ENRIQUEZ consideram. em pedagogia institucional. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. das estruturas de organização. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. em pedagogia do projeto. ROUCHY. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. no plano organizacional. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. de se diversificarem em função da natureza das demandas. essa evolução. ao contrário. Payot). tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. a fortiori. D. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . consistia em transpor. C. G. inscrevendo-se. MENDEL e sua equipe. KAES). na França e em países estrangeiros. as intervenções que se seguiram. se quiséssemos ser menos esquemáticos. 1972). o movimento de democracia industrial. C. jogos de simulação. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. ANZIEU transpôs. J. sua prática de psicodrama analítico. o que representaria. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. A. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. Mas se. Evidentemente. não pararam. no 1 a 10. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. na empresa Geigy. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. ao mesmo tempo. ROUCHY e E. no plano teórico. de reforço ou de treinamento em métodos ativos.

PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. é mais rápido. de acompanhamento ou dinâmica). o risco. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. é que se engane sobre a causa das dificuldades. na medida em que instituir. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. entre os próprios serviços de uma organização. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. Além disso. Com efeito. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. desde há algum tempo. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. localmente. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. é necessário providenciar a formação do responsável local. durante um tempo que pode ser apreciável. esperando-se que se aumentará assim. então. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. os meios de verificar a validade das hipóteses. a mudança social desejada. freqüentemente. Evidentemente. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. Enfim. é a descentralização. a palavra de ordem. as que se nutrem da formação surgiram. De uma maneira geral. 250 . mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. forçosamente. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. ao mesmo tempo. da regulação (hetero – ou auto –. estágios existentes fora dela. no espaço organizacional. mais racional e menos caro. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. da facilitação e. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). em especial. irrelevante.

os voluntários para se associarem na preparação de decisões. confrontá-la à dos outros atores. os solicitadores. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). manter essa dimensão presente durante todo o processo. descobrir. primeiro. Paralelamente. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. Ainda assim. entre os dirigentes. evidentemente. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. tal risco. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. então. A competência de um interventor. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. do qual se espera a responsabilidade. os consultores. aliás. na elaboração dos programas. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. em assegurar “suas tarefas”. além disso. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. de uma maneira progressiva. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. Tal dispositivo técnico é insuficiente. Esse risco pode ser reduzido apenas se.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. Um meio técnico (que.. de um lado e de outro. ao desempenho eficaz da prática de formador. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação.

em data. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. Sem poder preparar aqui tal reflexão. em problemas de remuneração etc. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. numa crítica aos limites do staff and line. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura.) –. de agentes de comando ou de pessoal de execução. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. e não em técnicas de ação formadora de diretores. um grupo. um sistema e seu problema. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. 252 .Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –.. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). Entretanto. as estruturas internas das organizações se complexificam. Porém. Por exemplo. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. em resposta ou não a um apelo. é interessante observar que.. a convicção de que as condutas das pessoas. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. o desenvolvimento técnico e científico. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. dois atores ou diversas instâncias em interação. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. afetando a estrutura e as instituições internas. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. Ela compartilha. a emergir como práticas e como papéis diferenciados.

mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. mas. evidentemente. Então. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. L. enriquecendo-as. Mesmo a história da intervenção de E. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. nos conflitos entre direção e sindicatos. freqüentemente. existem. por exemplo. durante os motins do Harlem. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. os psicossociólogos. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. no fim dos anos 20. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. são chamados. renovando-as. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. TOURAINE recorre também. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. Mais recentemente. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. No campo das empresas de produção. em Nova Iorque. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. como o sociólogo S. os “organizadores de comunidades”. progressivamente. o sociodrama. eventualmente. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. Em países como o Canadá. ALINSKY. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. a práticas de debate. sistematicamente. J. retomaram. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. 253 . JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. vir a substituílas completamente. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. de defesa ou de negociação. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. assim.

para a segunda. para a terceira. da polícia. No começo. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. e que. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. difusão das estatísticas de acidentes. de formação. as oportunidades. as prescrições) e funcional (no campo técnico. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. das relações pastorais. de alguma forma. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. para a primeira origem. Entretanto. de estudar as instalações da fábrica. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. de sensibilização (por exemplo. das lutas militantes etc. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. de organizar as ações de inspeção. social). o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. em conseqüência. e renunciar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. de fato. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. os dispositivos de proteção. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. a toda especificidade. Embora não ilustre especialmente esse risco. audiovisual. Da mesma forma que. há uma 254 . poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. de propaganda. concurso de segurança) etc. educativo. apenas. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. tanto no plano material quanto no legal. da magistratura. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. como por exemplo no campo da imprensa escrita. Parece-nos que. então. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções.

De acordo com os resultados. no começo. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. pessoal de execução). Uma abordagem mais recente. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. No caso da intervenção psicossociológica. geralmente. concomitantemente. contramestres. evitase. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. propor as medidas. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. de segurança e de condições de trabalho. evidentemente. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. gerentes. por uma intervenção psicossociológica. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. Uma vez estabelecida a composição. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. em outros países. ou por uma intervenção apenas formadora.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. produzir os diagnósticos. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. No fim desses dois dias. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. por exemplo. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. algumas vezes desenvolvendo. Os confrontos entre atores (por exemplo. então. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. fundamenta-se também. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto.

tal 256 . então. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. em teoria. em especial. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. entre outras coisas. ligada às diferenças de status e/ou de poder. para nós. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. a ponto dele renunciar. a intensidade emocional mais forte. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. Em relação ao processo das intervenções precedentes. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. Ela permite. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. Como no caso anterior. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. produz uma frustração muito forte no ator. Porém. de múltiplas forças antagônicas). os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. instituídos pela lei Auroux. A última negociação consiste. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. estende-se numa duração que se mede em meses. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. decisivos. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais.

a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. sem dúvida. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. Escolher. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. Está claro também que. está. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). Por isso. evidentemente. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. mas têm. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. senão à primeira. sempre pluridimensional. em todos os níveis. mas também em encontros do mesmo estrato. aqui. Em outros termos. Enfim. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. tecido com fios múltiplos. evidentemente. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . e. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. uma importância acentuada. Tais requisitos. ancorar. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. por exemplo. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. entretanto. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). elas não dependem apenas da técnica. tal metáfora. para guiar a análise. aliás. bem cedo.

a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. por si só. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. Nem ciência nem tecnologia. do gerente ou do político. enquanto dispositivo de inserção. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). Não é fácil. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. permitindo isolar. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. para o pessoal de um estabelecimento. sem chegar a lhe dar um molde.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . Com efeito. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. o interventor é um clínico. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. a mim. retomando a distinção de PALMADE (1977). privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. antes. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. do terapeuta. depois de dez ou vinte dias de intervenção. em cada momento. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. Assim. com o tempo. as escolhas iniciais arriscam. elas seriam. ela me leva. quer esteja empenhado. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. mas. fundamentar tal distinção. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. enquanto pesquisador. capazes de contribuir em processos de pesquisa. filtrar com segurança um objeto teórico. no entanto. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta.

e se surgem conjunturas favoráveis. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. importantes sob esse ponto de vista. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. a invenção de instituições locais (por exemplo. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. Anunciamos. adquirir um sentido menos restrito. Por outro lado.). para mim. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. pode-se observar que. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. Porém. os setores de saúde. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. analisar e experimentar as vias de democratização etc. Enquanto atores sociais. na literatura especializada. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. assim. os movimentos sociais ou culturais etc. tais acontecimentos podem inspirar outros e. 259 . seria natural levantar tal hipótese. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. Entretanto. para os atores. no começo desse artigo. de maneira mais ou menos difusa. malgrado sua fragilidade no tempo. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. sem subterfúgios. os espaços urbanos. podem-se encontrar. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. A inserção na universidade. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. o comércio. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. a administração. analítica. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. sua identidade social e a natureza de seu projeto. o mesmo se passa. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória.. por certos setores da sociedade. em função do campo social em que aparecem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade.

os resultados quantitativos estabelecidos por C.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. poder.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. de colaboração profissional. ROUCHY chegou. sua própria experiência no campo da saúde. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso.). 1987-l. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. . .T. pode-se aplicá-la a outros campos. de dependência hierárquica.). conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. evocando. nesse número. autoridade. voluntária ou militante etc. . 49. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças.-C. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. 7-28. Porém. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. com o que se observaria em outros lugares. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. ainda. Connexions. Jean. MARTIN em uma pesquisa recente. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. as conclusões às quais J. Por exemplo. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. 2 260 . não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. a divisão do trabalho. a estruturação dos papéis recíprocos. . o espaço urbano). por Marília Novais da Mata Machado.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. até um determinado ponto.). Notas 1 Traduzido de DUBOST. p. DO – Desenvolvimento Organizacional (N.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). posição central ou periférica etc. necessariamente. não coincidiriam. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .

G. Paris: PUF. PALMADE. La Documentation française.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. Paris: LFEEP. 1980. J. Interdisciplinarité et idéologies. 1981. L’intervention psychosociologique. L’enquête participation en question. “Une intervention psychosociologique”. ROUCHY. Paris: Payot. Les recherches-actions sociales. In: L’intervention institutionnelle. 3. 1977. MARTIN. Paris: Anthropos. C. Théories et pratiques de l’éducation permanente. LÉVY. A. 1986. Connexions. G.-C. 1972. LE BOTERF. J. 1987. 261 .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.com.autenticaeditora.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 . fax.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.com. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.

autenticaeditora. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. os ‘intemináveis adolescentes’. finalmente. etnias. grupos religiosos etc. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.br 0800 2831322 . mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações.com. o triunfo da racionalidade experimental.“Quais são os problemas realmente essenciais.

Master your semester with Scribd & The New York Times

Special offer for students: Only $4.99/month.

Master your semester with Scribd & The New York Times

Cancel anytime.