51288139 Psicossociologia Analise Social e Intervencao

Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

................................................................................................ 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez.............................................................................. 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D................................................................................................................................ Benevides de Barros....................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost..................................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy................................................................ 237 6 .......................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï......... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï..................................................................................................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS........... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost...............

bem conhecida e divulgada no Brasil. o campo da psicossociologia cresceu. cuja história é nele revista e avaliada. tal como no momento da primeira edição. esclarecedoras dos processos de criação do social.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. por meio da “intervenção psicossociológica”. reais. tornou-se ainda mais importante. Por tudo isso. da organização e do funcionamento social. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. quanto para os que praticam a psicologia. a administração e a política. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. fruto do trabalho de psicólogos. À metodologia de intervenções/pesquisas. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. dispositivo de consulta e pesquisa. sociólogos e um economista. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. a sociologia. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. Desde a primeira edição. a educação. hoje. Junho de 2001 Os organizadores 7 . A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. a economia. Assim. prático e metodológico. cada vez mais utilizada. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. este livro. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. o direito. a psicanálise.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

Em conseqüência. Portanto. que condutas.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. reflexão e análise dessa disciplina. a metodologia de pesquisa-ação. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. empregando para tanto. freqüentemente através de experimentos. são o objeto de pesquisa. isto é. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. organizações e comunidades. em especial. organizações e comunidades. com as instâncias de mudança. fez aparecerem certos problemas. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. igualmente. por sua presença. grupos. no quadro da vida cotidiana. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. o pesquisador-prático. 9 . dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. inicialmente. geridos e transformados. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. das organizações e das comunidades. Passaram a se preocupar. A partir dos anos 50. as condutas concretas dos indivíduos. Atuando diretamente na vida dos grupos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. em seus grupos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. até então desconhecidas. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. se revelassem. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. Por meio dessa abordagem.

dos desejos de onipotência e dominação. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. do socius. Porém. 60 e 70. sujeitos que. de transformações nos sistemas sociais (A. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. idealizando e buscando destruir seus chefes. com suas mudanças e rupturas. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. sempre inacabada. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. da organização e do funcionamento social. que 10 . torna visível a presença do sujeito social. de onde e como surge a dinâmica social. Ora. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. mesmo que involuntariamente. LÉVY). ENRIQUEZ. pouco a pouco tecido. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. sujeitos capazes de serem autônomos. DUBOST). a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. por um ato de decisão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. e serem criadores da história. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. adquire um sabor de novidade. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. Paulatinamente. é formulada uma teoria. aptos a um “imaginário motor”. mobilizados por ilusões e crenças. NICOLAÏ). contra esse pano de fundo. a mudança social (A. e do processo de criação institucional. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. pois a teorização é fruto da reflexão que. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. hoje ela se renova. nos termos de E. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. que é também um ato de palavra. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). do trabalho da pulsão de morte.

formuladora de grandes quadros teóricos mas. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. Eliana de Moura CASTRO. de BARROS. de ARAÚJO. mas também de outras referências. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. Política. TOURAINE que. CASTRO. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. auto-organização e complexificação a partir do ruído. da MATA-MACHADO. Assim. é analisada. autopoieses. ROEDEL). S. são analisadas novas ideologias. BARROS. A. DUBOST. entretanto. enfim. B. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. o pensamento filosófico de C. 11 . formadoras das sociedades atuais e futuras. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. Assim. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. Os autores – Jean DUBOST. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. LÉVY. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. José Newton G. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. André LÉVY e André NICOLAÏ –. práticas de intervenção mitificadas. relações de poder e autoridade. J. de suas fantasias de onipotência. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. Sonia ROEDEL. o desenvolvimento de um processo organizacional. de suas demandas de amor e proteção. Sociologia. M. Psicologia Clínica (J. assim como novos sagrados e certezas. T. ARAÚJO. a respeito das suas representações historicamente constituídas. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. aqui e ali. são apresentados nesse livro por Marília N. CASTORIADIS. nestas páginas. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. como sistemas dinâmicos. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. CARRETEIRO. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. assim como.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. E. MATA-MACHADO). Eugène ENRIQUEZ. estruturas dissipativas. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. está presente em quase todos os textos. a condição de construção da vida social.

NICOLAÏ (mimeogr. Paris X (J. E. Assim. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. LÉVY. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. . sofreu modificações. mutações e complexificação em economia” – A. de um projeto pessoal e familiar. CASTRO – Psicanálise. 1989. ENRIQUEZ. na empresa. distribuídos em três partes.). ARAÚJO. MATA-MACHADO – Psicologia Social). M. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. cobrindo questões atuais. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. ENRIQUEZ).Foram escolhidos. a Psicossociologia. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). NICOLAÏ) – mas. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. feita em novembro de 1991: . muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. T. ENRIQUEZ. Inicialmente. 1990-1. LÉVY). a partir do exame de uma centena de textos. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . LÉVY (mimeogr. na França. “O fanatismo religioso e político” – E. MATA-MACHADO e S. textos recentes. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. ENRIQUEZ. primeiramente. a disciplina que os congrega. “A interioridade está acabando? – E. ROEDEL. “identificações experimentais e inovações sociais” – A.). 1990. ARAÚJO. ROEDEL). Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. Paris XIII: M. MATAMACHADO). ENRIQUEZ) e Economia (A. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). 1991. CASTRO. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. Essa primeira proposta. no Brasil. NICOLAÏ). FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. T. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. BARROS. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. NICOLAÏ. CARRETEIRO). a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. resultando em treze textos. em função do mencionado convênio. Paris XIII (A.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. Além desse território de pesquisa. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. A.Em segundo lugar. “Rupturas. 1990-1. DUBOST. especialmente.

mantendo-se a tradução utilizada por T. finalmente. CASTRO e M. ENRIQUEZ. CARRETEIRO e J. para designar 13 . algumas aterrorizantes. o grupo e a questão da mudança. foi objeto de discussão e comparação. MATA-MACHADO. 1987). 1980. editado por Jorge Zahar. Seus nomes aparecem. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. Psicanálise do vínculo social. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. ARAÚJO. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. apresenta a intervenção. 1976. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). em maior ou menor grau. E. Por exemplo. respectivamente. As traduções foram revistas por J. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. em cada texto. “forclusão” ou “preclusão”. na primeira nota de rodapé. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. contudo. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário.Em terceiro lugar. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. Por exemplo. a apreensão de seu sentido original. NASCIUTTI para o livro de E. DUBOST. . Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. Buscou-se uma certa uniformização. à Psicossociologia e à Psicanálise. preferiu-se “fantasia”. de atividades e produções criadoras. DUBOST. “Intervenção como processo” – A. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. através da análise etimológica. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. mantiveram-se termos como “fantasmático”. LÉVY. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a última tradução foi preferida. Mais de uma dificuldade de tradução.Prefácio desejo” (A. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber.

para a palavra enquête. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. Finalmente. essa foi a escolha. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”.“relativo a narciso”. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. a palavra investigation. a critério do tradutor. entretanto. nosso primeiro leitor. expressão bastante usada em português. na expressão méthodes d’investigation.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

à sua maneira. LÉVY e E.1 Pois bem. Mas não poderia ser diferente. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. desde o início. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. visto que todo leitor recebe.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. O sujeito que não “morreu” A. a idéia de um “eu”. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. aquilo que lhe cai nas mãos. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. preenche ou interpreta. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. Cabe. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. Ao apresentar tais artigos. No entanto. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. no entanto. como quiseram algumas correntes das ciências humanas.2 . marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. Eles descartam. no enfoque psicossociológico.

nas décadas anteriores. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. antes de tudo. entre outras coisas. vemos que o “indivíduo” é. já na virada dos anos setenta. por exemplo. notadamente através da teoria lacaniana. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. o da Psicanálise. não estariam restritas. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo.6 Isso é claro para os autores. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. Assim. o ofício ou o produto. nos artigos aqui apresentados. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. suas relações próximas e regulares. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. entre nós. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. ligada a uma prática clínica. convém observar que. E.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. a empresa-família é anterior ao sujeito.. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. No texto de A. nos parece em parte negligenciada. A esse respeito. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo.. ela é 18 . no conjunto das discussões sobre o sujeito. a chamada “sociologia do cotidiano”. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. por exemplo. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”.”. a família. um ponto de passagem. os autores caminham numa direção que. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). LÉVY. um átomo talvez. mesmo na França.

enfim. sempre imprevisível. O primeiro é aquele que se agarra. isto é. segundo os autores. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. daí a ilusão da identidade pessoal. Desse modo. Ele destaca ainda. antes de mais nada. as significações das ações”. espírito de empresa. narcisismo social. “às vezes sem sabê-lo. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. Assim sendo. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. além de desempenhar. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. pois este. Importante ainda. “no momento em que falamos. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. por exemplo.” De outro lado. identidade coletiva. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. num crescente alienar-se. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. através de FREUD. ENRIQUEZ retoma essa posição. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. narcisismo grupal. mas que reenvia. 19 . fanatismo de empresa etc. as relações sociais. um papel essencial nas transformações sociais”. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. sua constituição “plural” ou coletiva.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. A. LÉVY nos lembra. tenta transformar “o mundo. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”.

religiosas. ilusão e crença. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. cabem algumas observações. como um fenômeno “periférico”. estamos falando de mecanismos inconscientes). religioso.9 composto por militantes islâmicos negros que.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. esportivo. científico ou outro qualquer). Assim. O grupo não suporta nenhuma outra verdade.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. algum tempo após as notícias. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso.. no início de 1993. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. mas sim os processos de idealização. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram.. os judeus e. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância.. pois ela se torna uma ameaça. mas exemplar.) deve ser eliminada.. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. em diversos momentos. mas que tentam ainda se expandir. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários.” 20 . outras propostas políticas. árida novidade. A essa altura. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. xenofobia. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. tentando eliminar dele os negros. os nordestinos. amor (ou cumplicidade?) mútuo. Assim. além da sua. Basta lembrar. como se tinha notícia até pouco tempo. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. como a intolerância e o fanatismo. científicas etc. outras idéias. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã.

Gostaríamos de lembrar. no Sul do Brasil. num clima onde toda crítica está ausente. cada sujeito está perseguindo. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. isolada e coletivamente. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. nosso grupo body-building. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. contrapor as noções de sujeito e interioridade. resvala necessariamente para a intolerância. Enfim. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. às vezes. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. nosso time de futebol. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. O que se torna problemático. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. a eterna questão do sentido. E. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. noção de origem literária e filosófica.Análise social e subjetividade Aliás. por analogia. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. seja num grupo democrático. em níveis talvez menos contundentes. ele desconhece também. rapidamente. Poderíamos. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. Em outras palavras. seja num grupo intolerante. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. a ação grupal deve cobrir um vazio. já de início. nosso partido de direita ou de esquerda etc. ela deve ser doadora de sentido. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. infantilizando os “fiéis”. nossa “seita” de comedores vegetarianos. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. sejam elas brancas ou negras.

num certo sentido. foi discutida em termos do cheio. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. na Filosofia antiga. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. segundo o autor. que não é recente. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). ele existe atualmente e está.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. Por outro lado. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. onde ninguém tem o direito de penetrar. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. vítima de ataques. é ‘uma terra estrangeira’”. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. Só o ser existe e ele é cheio. Talvez seja. Aliás. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. o que é pura duração. por ser da ordem da especialização. para ela. em oposição ao vazio: trata-se. A interioridade. íntima. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. alegria. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. na esfera psicossocial. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. BERGSON. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. A interioridade remete.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. é numa relação espacial que ela se inscreve. parece haver uma tendência. pois. Se esse sentimento nem sempre existiu. questionamentos. em se pensar espacialmente. interrogações e que. pois. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. A questão do espaço. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. a não ser por arrombamento. 22 . de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. quase que imediatamente. à alternativa interior x exterior. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. A compreensão da interioridade é. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. Para ele. ameaçado de extinção. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior.

segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. na época atual. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. bonito. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. ao que marca a diferença. Há. capta os estímulos exteriores e também os internos. foram abaladas pela Psicanálise. As idéias de permanência. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. a pele se liga à formação do eu. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. temos de falar nos órgãos dos sentidos. meio de se situar no mundo. Existe. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. o que se vê por fora é um reflexo do interior. Dito de outro modo.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. separada. isto é. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. eu não sou. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. refletindo a si mesmo). Um corpo dinâmico (isto é. Já a identidade marca a diferença. depois da perda do objeto. diz FREUD. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. O culto exagerado do corpo. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. diferenciando o interno do externo. considerando o 23 . O ter é ulterior. denotadas pelo termo identidade. porque especular. A percepção do espaço remete à visão. unidade e similaridade.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. saturada de comunicação. ela é capaz de dizer: eu tenho. a identidade própria. Assim. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. Limite e superfície privilegiada de estimulações. isto é. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo.

é passiva. Notas 1 Humberto ECO. isto é. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. feitas pela religião. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. em outros termos. Ele diz. Em outras palavras. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. já dissemos. O oculto. E o mais importante. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. quer como conceito psicológico.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. naquilo em que ele é diferente do outro. ARAÚJO. por ser essencialmente espacial. só podendo. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. em sua obra Lector in Fabula (trad. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). isto é. pois. francesa Grasset. quer como sentimento pessoal. oferecer uma resistência passiva. Por isso. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. Finalmente. entre outras coisas. a interioridade considerada. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. nenhuma leitura é um ato neutro. no campo da argumentação psicossociológica. é certamente desprovida de energia ou. ao eu e muito menos ao sujeito). o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. Assim. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. e como bem captou ENRIQUEZ. do outro que eu sou. Afinal. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. As propostas absolutizantes. se tornam assim mais claras. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. que todo texto é um tecido de espaços em branco. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. de outro lado. 2 24 . Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. pela empresa ou pela sociedade.

Para ele. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. cit. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. uma editora de propaganda nazista. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Lembremos. na Biblioteca Nacional de Paris. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. principalmente após as recentes eleições da Rússia. o culto à figura de GUEVARA. Paris: Dunod. senhor de si e do universo e como se. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. face às estruturas e aos sistemas”. 322. p. mais perto de nós. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. G. como um instrumento terapêutico. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. em seu número de 1º/12/93. n. p. por Jean-Marie LE PEN. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. nessa mudança. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. vol. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . reportagem da revista Isto É. Observação semelhante já fora feita.Análise social e subjetividade 3 Cf. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. Paris: Gallimard. Paris: Gallimard. 1984. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. “Essai d’identification du quotidien”. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. SELLIER (cf: Le mythe du héros. 1970. De outro lado. Cf: ANZIEU. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. Paris. em nível individual. tomo XXIX. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. P. LXXIV. por isso mesmo. P. BALANDIER. P. nas quais o Sr. 29-31) afirma que. Essa mesma revista. (Cf: ANSART. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. Conseqüentemente. In: Bulletin de Psychologie. 50-53. de 28/04/93. 445-449). alguns anos atrás. líder da extrema-direita francesa. fez reaparecer o sujeito. não passavam de “mero detalhe”. Assim. O autor evoca J. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. soberano. 13). 1975-1976. p. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. Paris: Bordas. JIRINOWSKI saiu vitorioso. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. Cf. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. em seus níveis mais profundos. na América Latina e mesmo na Europa.. p. 1983. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”).. p. além de serem historicamente contestáveis. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. 5-12.. D.

Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. 1977. Entre outras alusões a essa questão.) 14 Cf: BERGSON. 42. p. 1985. 68. D. Essai sur les données immédiates de la conscience. 15 16 26 . El tiempo y los grupos. 1976. S. ss. ver: FREUD. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago. Le moi-peau. Paris: PUF. p. Além do princípio do prazer (1920). (Cf: FONTANA (A) et al. Paris: Dunod. semelhante à vivência intra-uterina. Buenos Aires: Editorial Vancu. 120 ed. ANZIEU. H. 1967. XVIII vol.

assim. De minha parte. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. ALTHUSSER). que nega a interrogação de D. do sujeito. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem.2 A razão é simples: como muitos outros autores. do aumento do individualismo. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. um ser falado. em grupos e organizações.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. sua classe ou sua raça. No entanto. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. Com efeito. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. ao invés. LAGACHE. em maior ou menor grau. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. um ser agido. por um lado. É contra essa tendência reducionista. No momento atual. 27 . a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. Seguindo essas abordagens. um determinismo absoluto dos processos sociais. que decidi me manifestar. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. como psique. mesmo sem dizê-lo. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. O indivíduo torna-se. só se fala do indivíduo. por outro lado. pois.

em uma nação etc. isto é. Essa emergência acontece. numa sociedade que é. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. De fato. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. Nessas condições. que pode tomar a forma de totens. mas deixassem também. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. Nessas condições. uma cultura. ao mesmo tempo. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). a cada homem. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. quer seja por Deus – BOSSUET. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. em uma classe. Em outras palavras. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. para retomar a terminologia de C. além disso. é preciso pressupor. Freqüentemente. ir muito longe nesse sentido. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. que lhe deu direito à existência. conduta estruturada social e culturalmente. em parte inconscientemente. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. portadoras de 28 . no entanto.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. já que nascemos sempre em um grupo. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. em parte voluntariamente. ou de um Deus único. Uma tal sociedade heterônima tem. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. BURKE. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. porque toda sociedade comporta falhas. heterônima. ela própria. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. CASTORIADIS. conformados a seus votos e a seus ideais. em uma etnia. DE MAISTRE –. logicamente. zonas inexploradas. num lugar-tela. portanto. “a possibilidade de saber que alhures. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. a anterioridade dos processos sociais. Não é necessário. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. de antepassados e de Deuses. em parte. sua conduta.

Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. mesmo sem percebê-lo. por mais totalitário que seja. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. ele também só é parcialmente heterônimo. Embora exista. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. a trocar sua natureza pela de um térmita. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. às vezes. como dizem FRITSCH e PASSERON. a médio ou a longo prazo. pelo menos de imediato e. em pessoas e grupos sempre diferentes. seja lá por que modo.8 Enfim. Alguém inventa uma máquina a vapor. até mesmo se choca. portanto. sem sabê-lo. apoiando-se nas funções corporais. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. não se pode esquecer que o discurso. de maneira invisível. como evocava FREUD. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. Além disso. Mas. Elas se tornaram. um discurso dominante. Deve-se. desde a Revolução Francesa. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. desde a Renascença e. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. Notemos que as sociedades modernas. outro um novo tear. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. não a um contra-discurso organizado mas. em certos casos.7 Quanto ao indivíduo humano. às vezes. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. em toda sociedade. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. fanático. se põem a acumular riquezas.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. contra a vontade da massa. sobretudo. um papel essencial nas transformações sociais. Reis continuam a se 29 . ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e.

Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. Ao contrário. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Assim. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. o elemento esportivo predomina. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. O winner sempre pode se tornar o looser. em nossa época. Se cada um deve manifestar sua singularidade. sempre imprevisível. No entanto. ela pode ser bem efêmera. como sublinha CASTORIADIS. seu tempo. do seu serviço. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. a individualização.9 Assim. performance sempre a recomeçar. apenas um elemento do processo de massificação. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. “matadores frios”. Ele deve gozar com essa renúncia. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . da sua organização. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. De fato. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. os processos sociais. Nessa ética. então. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. cada um deve ser criativo à sua maneira. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. vencedores que querem ir até o fim. mais freqüentemente. objeto de tantas preocupações. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. mas é o homem da performance mensurável. Assim. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. é. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. a vitória nunca sendo definitiva. se os processos psicogenéticos pressupõem. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso.

igualmente. a busca da riqueza.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. em vez de admirar o que ele concebeu. desvestida de seu sentido ético-religioso. o que lhe confere. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. onde seu paroxismo predomina. para depositar seu destino nas mãos dos outros.10 Assim. a se associar a paixões puramente agonísticas. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. nos hospitais. quando se fala do indivíduo.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. posições de poder. Ele atinge. ou ainda. aqueles a quem chamamos vencedores. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. financeiras ou de prestígio. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. tende. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. igualmente. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. mas não se orgulha de si mesmo. características de um esporte.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. os que W. O “zé-ninguém” está sempre. hoje em dia. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. a justificá-lo”. nas universidades. naquele tempo. o “culto da empresa”. em geral. atrás da força e da grandeza de outros homens. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. um novo ritual. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. designava por “zé-ninguém”. além disso. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. REICH. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. assim. na maioria das vezes. Admira o pensamento que ele não concebeu. Nos Estados Unidos. mas que. o indivíduo renuncia. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. 31 .

A idealização é.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. aderir profundamente às injunções sociais e. às vezes. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. então. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. é. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. apresentando-se como objeto maravilhoso. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. depois de descrever esse fenômeno. nós próprios nos tornamos admiráveis. apoiado 32 . Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. agora bem conhecido. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. médios ou pequenos homens. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. o mundo criado não é contestável. ser um agente ativo desses processos de recalque. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. reprimir suas pulsões. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. portanto. Resta-me. assim. de repressão e de adesão. Em outras palavras. Além disso. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. correndo um mínimo possível de riscos. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. sempre ameaçador). Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. para existirem. o que devemos fazer e como seremos recompensados. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica.

a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. que tem como efeito “unir uns aos outros. 33 . sem se dar conta de que. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. A identidade coletiva favorece ainda.13 Reencontrar a coesão. os ideais são múltiplos. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. tem como futuro possível a xenofobia. é se voltar ao grupo de pertinência. De fato. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. estamos perto de não ser absolutamente nada e. graças a esse jogo identificatório. (Com efeito. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. É necessário precisar esse último ponto.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). está cheia de perigos. dificilmente. G. freqüentemente.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. nas quais. é imputar os problemas ao outro. um budista. da sedução ou da obrigação]. o narcisismo social. como mostrou FREUD. estamos divididos e angustiados. o fanatismo. de simplesmente não ser. através desse processo. de fato. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. eles suscitam a aceitação ou a identificação. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. Vivemos em sociedades nas quais. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). portanto. o racismo. Se somos apenas um espartano. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. consumir por consumir?) Ora. que sentido pode ter ganhar por ganhar. um proletário. graças a identidades coletivas fortes. ao nosso “nós”. ideais vazios e desprovidos de sentido. produzir por produzir. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. um capitalista. A identidade coletiva. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. uma massa maior de homens. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. contraditórios.

quanto mais uma cultura se quer unificada. Tal indivíduo só sabe repetir. Vê-se. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. seres a eliminar. o indivíduo singular.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Quero simplesmente dizer que cada um. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. não pode ser considerado como sujeito humano. em suas relações sociais de todos os dias. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. nos lugares da vida cotidiana. Com efeito. a respeito de qualquer tipo de problema. as significações das ações. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. O sujeito é um ser criativo. as relações sociais. Para definir criatividade. criança. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. por mínima que seja. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). totalmente pré-formado e definido pela sociedade. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. que. em sua vida de trabalho. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. ao menos. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. reproduzir. a sua conversão. daí. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. O indivíduo individualizado (e não individuado. bem como da tranqüilização narcísica. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. tem como projeto voluntário. no entanto. portanto. Não podemos. 34 . portanto. quanto mais a identidade coletiva existe. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. bem entendido. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). Quando digo que o sujeito transforma o mundo. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. aceitando as determinações que o fizeram tal como é.

O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. demens (objeto da hybris). não ao charco das alegrias imortais. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. a gestação. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. levo a sério. Os artistas não se enganaram a esse respeito. é a formação. o primeiro movimento indistinto da matéria. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. meu amigo. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 .. um ser capaz. do jogo e da vagabundagem. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. não na escola!. o nascimento. aqui e agora. respirando a plenos pulmões um ar salubre.. voluntariamente. chegarás. em seus Conselhos a um viajante. em lugar de uma imagem da natureza. é ainda pior. portanto. homem portanto de sabedoria e loucura. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. e que o mundo possa testemunhá-la. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. E mais se imprime.. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. que sente prazer em respirar. em compensação. de repente. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. ludens e viator. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. uma novidade irredutível.. ao mesmo tempo sapiens. ela está presente em quem faz. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. O sujeito é. imobilizada. antes que ela se fixe em natureza morta. quanto na inspiração do arquiteto que. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar.

para lavar o mundo de sua sujeira. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. Com efeito. um pouco paranóico.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. para realizar uma missão salvadora. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. aliás. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. os sedutores ocupando uma posição histérica. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. de seus medos. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. 36 . Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. portanto. cientificamente. preso na ganga dos ideais. é preciso parar um momento. Assim. a sua própria alteridade). freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. os manipuladores ocupando uma posição perversa. Michel SERRES. assegurando-lhe a redenção. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. No entanto. em particular o grande homem. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. a esse respeito.17 Porém. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. O megalômano. pela natureza. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. sente-se eleito por Deus. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. atualmente. entre os grandes homens. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. identificado a seu pai. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. depois da guerra de 1914-1918. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica.

basta o de STALIN. O teatro é também para ele um terreno de esportes. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. para isso. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. ou capacidades manipulatórias. 37 . obcecado com a força pela força. tem gosto pelo instantâneo. só considera o mundo sob o ângulo econômico. que não tinha interesse algum pelos outros. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais.21 Assim também HITLER. é um bom exemplo desses chefes perversos. como WILSON ou HITLER. o povo judeu. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. LENIN. reduz as relações humanas a relações de objetos. segundo FREUD e BULLITT. esse está. nem uma força de pensamento e de ação. que tomou o poder contra os mencheviques. denega a realidade). que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. que queria dobrar o mundo à sua vontade. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. crê falar a linguagem da verdade. que toma a si mesmo por ideal). caso bem conhecido e. inventando complôs. como já indiquei anteriormente. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). como LENIN: ao contrário. ao mesmo tempo. a um nível mais irrisório. quis fazer do alemão o povo eleito e. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. ao contrário.20 do homem que declarava. por sua vez. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. os tecnocratas. só pensa em termos de estratégia. Quanto ao manipulador perverso. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. ele se proíbe de ser excepcional. recém-saídos das grandes escolas. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico.

CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. Eles se apresentam. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. um indivíduo sem fantasias. Em outras palavras. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. Tentarei em outra ocasião. Em contrapartida. é possível tornar-se DE BENEDETTI.. nem mesmo na imaginação. como GORBATCHEV. Em todo caso. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). M. sem interrogação. não tenho dúvidas morais”. Se elas tomarem um grande patrão italiano. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos..). talvez. uma demonstração do possível (. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. de uma normalidade esmagadora.. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . sem dúvida. AGNELLI por exemplo. meus aliados (. com a condição de ser corajoso. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. pois ele promete a qualquer um. não se torna. porque sou. Mesmo assim. se tiver tanta coragem quanto eu”. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. mas uma duração realista. ele perdeu alguma coisa.. ao contrário. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. os outros escapam a essa denominação. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. como indivíduos perfeitamente normais. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. a seus olhos.) são as pessoas comuns. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. Mas. AGNELLI a gente nasce.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. O grande patrão italiano C.

insiste sobre essa noção. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. pois falta a ambos. a recusa de compromisso sobre o essencial. Um ser consistente pode ter dúvidas. Mas não são verdadeiros criadores de história. em MARX. conforme McDOUGALL. Mas ele conserva o mesmo projeto. assim. Ele não tem projeto. sem falhas. fazer advir o sujeito individual. Corre pela vida como em uma auto-estrada.23 Em certo sentido. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. de se lançar no desconhecido. E. mais ainda. só sabem repetir. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. ele o faz em sua linha. É também um homem que demonstra consistência. São portadores da pulsão de morte. o caráter irrevogável de sua escolha e.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. mesmo se nada descobre. de tudo desarrumar. no sentido que dou a esse termo. ao inusitado. reproduzir. fazer advir o sujeito coletivo. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). por outro. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. tomar caminhos transversais. S. 39 . tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. favorecer a tomada de consciência de situações reais. FAUCHEUX. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. em sua linhagem. por um lado. em FREUD. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. Teríamos. assim. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. de tudo realizar” (McDOUGALL). dos outros. Se o sujeito evolui. São desprovidos da aptidão à transgressão. MOSCOVICI. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. criar seja lá que novidade for. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. Eles têm uma influência social inegável. “que significa.

porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). segundo a expressão de V. provenientes 40 . acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. Ao mesmo tempo. como também a provocá-los. uma outra exigência e. igualmente. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. consistência e astúcia. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. O que é interessante. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. o que não é nada fácil. à dispersão. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. Aqui não se trata de manipulação. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. recentemente republicado. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. interdita a tentação da Unidade-Identidade. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. para fazer triunfar suas idéias. quando ela se apresenta. finalmente. não pode jamais estar colado a uma organização. MOSCOVICI. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. é que. Consistência e furor. porque a dispersão. Para SEGALEN. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. souberam conciliar furor. SEGALEN. no momento atual. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. pessoas vindas de outros países. consistência e astúcia andam juntas. a uma identidade coletiva. no entanto. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. visível e. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). Ele é. o exilado. a ocasião. criar e sustentar um conflito com a maioria. em seguida. diante da exigência do todo. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. delimita também. isto é.” O sujeito não é homem de comprometimentos. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. a um Estado.24 O “exota”. um grupo ou um Estado.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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ele entrará.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. capaz de se adaptar a todas as situações. portanto. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. . de considerar os problemas em sua frieza. ao propor. então. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. do combatente. A cultura de empresa ou de organização. assim. Minha contribuição será. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. com personalidades “as if” (H. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. sobretudo. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. o homem capaz de ultrapassar seus limites. Se o indivíduo se identifica com a organização. sem o saber (e de consciência tranqüila). tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. em demasia. para fazê-lo. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. no sentido sadiano do termo. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. sobretudo. dando. de colocá-los. de ter modos de “comunicação afirmativa”. desembaraçado de compromissos. aos outros. se só pensa através dela. aos que dela participam. do vencedor. de sonhos e de interrogações. L. SERVAN-SCHREIBER). Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. seus valores e seu processo de socialização. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. Para obter tais resultados. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. sejam quais forem. então.

gurus. de perda e de sofrimento. desde DURKHEIM e FREUD. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. Então. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. através de um projeto a concretizar. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. Sabe-se muito bem. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). mais próximos do integrismo. 47 . Basta ter em mente: a renovação do Islã.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. ao contrário. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. mas. segura de estar em seus direitos. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. exige a idealização. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. encarnar a “instituição divina”. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. pronta a punir os blasfemadores. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. xamãs. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. em nome da verdadeira fé. um ideal a realizar. o renovar de uma igreja dogmática. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. atualmente. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. uma causa a defender. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. que uma sociedade não pode existir sem religião. injustamente martirizado. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. E. no mundo medieval.

provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. esbelto. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). “tornar-se saudável”. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. as medicinas naturais. que aqui apenas menciono. submetê-la a ídolos não contestáveis. As técnicas de body-building. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. pelo menos. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. Mas as religiões. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. o jogging. sofredor. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. o desenvolvimento do esporte de massa. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. mesmo os mais repreensíveis. como a expressão da graça que lhe cabe. continuamente desejável. competitivo ou não (por exemplo. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. os estágios off limits. “Estar bem em sua pele”. afastar a dor. 48 . persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. cuja meta é a homogeneização do “interior”. falado e falante. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. todas as religiões. a expressão corporal. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. as maratonas de Paris ou de Nova York). “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. animado) é o nosso bem mais precioso. a aeróbica. as ginásticas suaves. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. O fanatismo político. Voltarei adiante aos métodos empregados. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. o “grito primal”.

É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. na qual fatalmente se perderá. na qual ele tem que desempenhar um papel social. processo de ligação com os outros. de autoridade. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. de evolução pessoal ou grupal. necessariamente. na medida em que não se trata. sinais de uma fantasia de domínio total. Quer se tenha nascido rico ou pobre. grupal e coletiva. embora alienados no mais profundo de sua psique. de criar uma cultura. “a paixão pela excelência”. a busca do “erro zero”. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. Basta querer. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. confronto com o sofrimento. que o indivíduo. Elas anunciam. de intervenção psicossociológica ou institucional. GREEN. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. Por outro lado. A explicação é simples: todos os métodos de formação. 1983). assim. membro de um conjunto que tem suas coerções. Ora. No narcisismo de morte. mas de edificar novos cultos. de fato. mudança sempre difícil pois traz. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). Os próprios indivíduos. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. únicos responsáveis (se eles fracassam. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. O narcisismo mais total está na ordem do dia. ao menos. nas organizações sociais. a “qualidade total”. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. cada qual se mira em seu próprio espelho. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . para se tornar um sujeito falante e atuante. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. interrogação do ser.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um.

Por isso. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. com os pés amarrados a um elástico. para viver e se desenvolver. O reconhecimento da psique como força operante tem. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. Cada “conjunto humano”. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. únicos a prometerem resultados tangíveis. em reação. uma psique sem conflitos. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . a fim de desenvolverem sua autoconfiança. a astrólogos. como a simples lógica o exigiria.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. a mobilização total de todos. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. pelo menos. do aumento dos métodos mais bizarros. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. perfeitamente interiorizadas. a sua submissão. como resultado a sua destruição ou. uma psique a serviço da organização. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. quer dizer. para a seleção de dirigentes. portanto. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. Assim. não do desenvolvimento da racionalidade. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). mas. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. a implicação. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. ao contrário. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. faz-se apelo a leitores de tarô. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. necessariamente. nas organizações e nos indivíduos. na sociedade. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa.

A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. Os indivíduos evoluem. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. que se liga a uma tradição. – podendo 51 . tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. permite que se possa situá-lo em uma classe. Cada um sente. em uma palavra. ele é capaz de ser um “Si”. ou o status social a que chegaram. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. classe. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. não creio mais como esse ser que leva meu nome. ela revela características um pouco suspeitas. se examinarmos mais de perto essa noção. credo. Caso se retome a análise de A. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. escreveu belíssimas páginas. em um gênero. Mas. portanto. nacionalidade etc. uma unidade.A constância não existe. GREEN (1985). eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). portanto. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. que participa de uma memória coletiva. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. através dessas diversas experiências. animado por uma coesão totalizante tendo. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. de ser um sujeito que tem uma história. ou vinte anos? BARTHES. portanto. Além disso. isto é. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. a necessidade de ter uma certa identidade. não vivo mais. Ora. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. de constância: (b) idéia de objeto separado. por minha vez. quer dizer. de referências seguras. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. em uma espécie). Cada indivíduo. evocando o decorrer do tempo: não penso mais.

5 Certamente. então é possível questionar. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. no momento em que falamos. com WINNICOTT (1966). por definição. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. de MIJOLLA. quando sei tão pouco o que sou. a sua própria finalidade. no entanto. 1976). No entanto. que processos de clivagem. sob certos aspectos. cada uma. admitir. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. mas que mantém um certo grau de 52 . TOROK. Mas ele insiste. cairmos na irresponsabilidade. ilusória. pois toda construção. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. Precisamos. c. além disso. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. Assim. então. então. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. em sua pureza. Se. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. o eu etc. já dizia RIMBAUD. Eu é um outro.Quanto ao reconhecimento do mesmo.) que visam. Nunca sabemos de maneira precisa. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. não podemos abandonar essa idéia. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. a partir de um estado não integrado. a idéia de permanência e de constância. ABRAHAM e M. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. assim. de preclusão e de denegação estão operando em nós. 1982). “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. b. quem está falando e por que falamos dessa maneira. que.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. necessita do trabalho do tempo.

o remorso. portanto sedução. Os outros. os diretores participam de um grupo. de suas faltas. o trabalho sobre si. é ouvido um momento. trazendo “temor e tremor”. sobretudo. para o indivíduo. Porém. problemáticas. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. a interrogação. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). O que nossa sociedade reclama. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. portanto. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. de um narcisismo a toda prova. e tanto mais porque se parecem conosco. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . Um deles explicita suas dúvidas.A interioridade está acabando? coerência. a aceitação dos processos de clivagem. como também um amor consciente por si. de “maioria compacta”. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. da “inquietante estranheza” e. a dúvida. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. Apenas um exemplo: numa grande empresa. portanto. quaisquer que sejam. contraditórias. assim como as instituições e organizações que a compõem. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. tão apreciada por FREUD. escolhendo as máscaras sociais que precisam. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. muito pelo contrário). São. de seus desejos. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros.

aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. reedição de 1986. quer dizer. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. tendo uma identidade compacta. até que ponto evitam-se a si mesmos. Domine-se. serei obrigado a falar disso a meu pai e. que detestam. que lhe diz. se você continua. seu imaginário enganoso. Com efeito. ele tem úlceras constantes. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. Transformam o mundo no qual estão. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. Ora. seja de novo como nós. 270). o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. nem mesmo à sua esposa. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. é interrompido por um de seus colegas. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. diante dessas revelações. um grupo que tem uma cultura própria. seu simbólico. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. SEGALEN). naturalmente. desde então. até que ponto estão presos na apatia (SADE). Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Ele se tornaria o fraco. Nesse momento. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. p.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. não quero saber nada de seus problemas porque. 54 . Esse exemplo (que. por um processo de contra-investimento. ENRIQUEZ. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. vinda da boa burguesia. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. formam uma nova maioria compacta. O “homem com problemas” aprendeu a lição. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. Apenas. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. 1984. 36). Nessas condições. Pôde obter o posto desejado. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). em substância: “Não continue. eles questionam sua identidade. filho de um grande industrial. p. quando os indivíduos estão nessa situação. em termos mais gerais. Além disso.

Compreende-se. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. quer dizer. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. possam se tornar objeto de ódio ou. reedição de 1961. em seu corpo como em seu espírito. doentes de AIDS. “Apagar. Quem não se amolda deve ser liquidado. por si próprios. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. todas as “minorias ativas”. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. num mundo a priori hostil ou indiferente. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. assim. todos os “marginais”. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. pelo menos. 1835. “fazer correr sangue”. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. 103-104). guerreiro e sedutor. um piolho a ser eliminado. que todos aqueles que buscam articular sentidos. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. soropositivos e. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. para SADE. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. sem emoção. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. todos os “exotas”. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. então. como escreve P.. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. De um lado estão os vencedores. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. do outro. pelo menos. colocar em lugares criados especialmente para eles).A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. 55 . o homem dinâmico. se evitam a si próprios. AULAIGNER. O “matador frio”. os que não se assemelham aos indivíduos que. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE.. Como dizia um chefe de empresa. ainda mais. no dizer dos racistas. p. “em demasia”. ENRIQUEZ).

um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. utilizando-se produtos proibidos. voar em asa delta etc. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. 1988). Essa distinção é. a honra e o dinheiro serão seus sem que. SERVAN-SCHREIBER. infeliz de quem trapacear. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. vemos proliferar. Assim. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. as práticas que permitem ganhar. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. se sinta culpável. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. em condições normais. L. é preciso que seja conhecido por todos. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. Tudo está no ato e em sua visibilidade.). Se um ato corajoso – ou. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. da agressividade. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. Da mesma forma. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. Se não for descoberto. a vergonha se abate sobre o autor da ação. em O crisântemo e a espada (1946). a luta. sem dúvida. além do reconhecimento dessa luta. Ela supõe. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. Se ele for conhecido. Mas. por isso. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. seja ele qual for. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. pode ser perpetrado. em sua aparência. simplesmente. um estudo sobre a sociedade japonesa. Todo ato repreensível. Essa última seria uma cultura da vergonha. Basta que não seja descoberto. 56 . Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. fracassar. mas pela vergonha. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Ora. mas o toca em seu ser social. aos outros. ir além de seus limites. escalar um paredão com as mãos nuas. No entanto. no interior de si. da inveja e do amor. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele.

semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). nascem a cada dia sob nossos olhos e. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. privilegiando a aparência. Não se deveria pensar. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. contra o racismo. já começa a ser profundamente criticado. as notas frias. o fanatismo. com um único passe de mágica. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). podem ser criados sem que daí decorra. são suspeitos. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . sem culpabilidade. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. que o jogo está feito. o corpo se encarrega de fazê-lo. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. necessários à vida humana. felizmente -. nas sombras. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. necessariamente. atos dos mais contrários à moral comum. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. pelo jogo de aparências. Porém. apesar de suas imperfeições – normais. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. lendo as reflexões precedentes. a lavagem dos narco-dólares. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. (c) que os ideais fortes. Com efeito. contra a pobreza etc. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. postos de lado. quando não é possível falar-se a si mesmo. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social.

em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. a droga. os ferroviários. tal como tentei delineá-la. de indústrias. Eles não se dão conta. por isso. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. na doença da idealidade. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. Mais ainda. Esses sujeitos. Na realidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. de crédito. não desapareceu e não está 58 . jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. de afirmação ou de identificação. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). trabalhadores incapazes de se readaptar. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. a delinqüência. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. mesmo se a interioridade. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. os animadores socioculturais etc. pelo sofrimento. encontram-se na mesma situação todos os que. governa seus discursos e seus atos. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. com sua carga enigmática. as perguntas. eles ainda as fazem “na exterioridade”.). esses “esquecidos” da sociedade. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. poderão. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. aceitando as regras do novo jogo. busca de identidade. Entretanto. Esses “excluídos”. necessariamente. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. começam a se fazer perguntas. ser tratadas “na interioridade”. veladamente. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. Sem dúvida. evitando o Charybde da exterioridade. sem dúvida. deverão se precaver. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. de espaços. pela alegria. entretanto. Sendo assim. Nesse momento. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. assim como pela capacidade de sublimação.

Paris: Aubier. da poetização do universo. é a inquietação com o cuidado. Considérations d’un apolitique. N. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. 4 Como um cadáver (em latim no original). Cf. p. o romantismo. o gosto pelo mórbido. com a formação. em suas constituições. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. L’écorce et le noyau. 61-76. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). por Sonia Roedel. XVIII. pela emoção. 1976. p. 1985. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. Topique. é a absorção em si ou introspeção. Paris: Seuil. ENRIQUEZ. os “diários de bordo”. em termos religiosos. 89-112. da T. 1989-2. tão diversos quanto GOETHE. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. 38-53. ENRIQUEZ. involuntariamente. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão.). 37. Referências ABRAHAM. do culto do inconsciente e dos instintos. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. seu oposto. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. S. 2 Grandes escritores alemães. as autobiografias. In: Sur l’individu. E. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Eugène. 163. é. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. DUMONT. 5 FREUD. “expressão pela qual Sto. o mundo político. Entre la marionnette et Dieu. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. é uma consciência cultural individualista. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. citado por L. 1987. Paris: Aubier. 3 Cf. e TOROK. como diz Lutero. espírito racional e humanista por excelência. a Bildung do homem alemão. (N.). Inácio de Loyola. com o aprofundamento do eu puro ou. Quanto a KLEIST. 59 . da salvação e da justificação da vida pura. 34. Le Verbier de l’homme aux loups. da T. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. 1962. GOETHE. p. M. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. Rio de Janeiro: Imago. 1976. Segundo o Larousse. NOVALIS. assim. na qual o mundo objetivo. o homem dos Hinos à noite. então. 1976. assim. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. (N. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. sobre KLEIST: E. p. Individualisme apolitique. com suas difusões amplas). 135. v.Topique. N. p. ABRAHAM.

1962. 1975. Barthes par lui-même. de. La chambre claire. L’identité. 1987. 34: 89112. 309-330. 1984. A. Picquier. Paris: Seuil. In: Essais de Psychanalyse. Aux carrefours de la haine. narcissisme de mort. de Minuit. 20-37. R. Tomo I. Trad. “Condamné à investir”. BENEDICT. 11. 1984. DUMONT. C. A. MIJOLLA. 1961. BARTHES. 311-321. ps.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. DEUSTCH. GREEN. p. 1987. P. EPI. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. Trad. 37. In: Sur l’Individu. BARTHES. 1986. SERVAN-SCHREIBER. FREUD. 1985. J. 1982. M. Paris: Grasset. “Individualisme apolitique”. p. 1942. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. WINNICOT. 1965. Le retour du courage. 1982. M. W. Paris: Seuil. ENRIQUEZ. 1946. franc. 1981. Trad. Paris: Les Belles Lettres. n. Topique. J. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. 1980. Paris: Payot. E. Narcissisme de vie. GREEN. 1987. In: Sur l’individu. A. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 1985. In: LEVI-STRAUSS. 1970. Les visiteurs du moi. V. ENRIQUEZ. Paris: Gallimard. D. retomado em Nevroses and character types. ENRIQUEZ. Notes sur l’exotisme (1908). Biblio-Essais. Paris: Gallimard. 25. Le sabre et le chrysanthème. reedição. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. H. FOUCAULT. 1983. Hogarth Press. nova. R. R. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. Paris: Payot. E. L. VERNANT. Nouvelle Revue de Psychanalyse. P. Psychoanalitic quaterly. SEGALEN. Paris: Seuil. S. 60 . R. Paris: Gallimard/Seuil. Topique. Paris: Ed. “L’Individu dans la cité”. L.

de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). Todos sabem e reconhecem isso. O que parece. esse problema é capital. Tal sistema de valores. sem dúvida. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . neste texto. Vamos um pouco adiante. as análises dos grupos em estado nascente. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. Ora. mas não se está à altura de compreender. então. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. no entanto. em um imaginário social comum. de início. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. no entanto. pois pode-se. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. Um projeto comum significa. à primeira vista. para existir. São mais raras.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum.

Ora.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. é necessário que. todo trabalho de interrogação sobre si. trata-se de sentir coletivamente. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. inatacável: assim. a nossos próprios olhos. aquilo que queremos vir a ser. sagrado. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Todo grupo funciona à base da idealização. vigor e “aura” excepcional. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. da ilusão e da crença. ele se apresente sob um aspecto religioso. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. A ilusão deixa igualmente sua marca. motor de nossa conduta. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. ele pode nos atrair. Não se trata unicamente de querer coletivamente. pois ela é o elemento que dá consistência. Da ilusão à crença. transforma-se logo em um sistema de crença. nos inspirar. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. com uma força particularmente viva. consciente e inconscientemente. Mas esse sentimento. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. nela. mas afetivamente sentidas. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. a passagem é rápida. correndo esse risco intelectual e social. Para serem operantes. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. num grau maior ou menor.

ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. deveria ser defendida como uma causa. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. E isso não acontece gratuitamente. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). idealização. Assim. Embora um grupo. em certa medida. bem à vontade. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. consequentemente. para se desenvolver. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. grandiosa ou pueril.O vínculo grupal (deve. existente há muito tempo. abusivamente sem dúvida. A causa pode ser sublime ou irrisória. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. sobre a possibilidade de sua impotência. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. Idealização. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. missão a cumprir. na formação de todo grupo. pois. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade.). Todo membro de um grupo é. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. suas práticas à da Psicanálise como um todo). de maneira mais ou menos forte. o militante político arrisca. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. esse não é o problema. verdadeiramente. FREUD já pensava que a Psicanálise. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. assimilando. sua vida). Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. 63 . a revolução etc. Causa a defender. Todo militante político pensa do mesmo jeito. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. possa perder parte de suas ilusões.

Essas pessoas sabem que. membros do grupo. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. propagar-se como uma mancha de óleo e. A maioria não tem jamais uma causa a defender. vocação majoritária: mas. sem exceção. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. isto é. antes de chegar a seus fins. pois. triunfar. talvez mesmo. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . As idéias novas. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. ela deve primeiro. Pouco importa. A maioria não tem jamais um grande propósito. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. para se reforçar. no caso de sucesso. mais modestamente. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. ela deve. isso significa que ele se pensa. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. Para isso. um dia. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). geralmente. nós o sabemos. imperativamente. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). mas direi que. de uma profissão ou de uma disciplina).Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. acreditar que está com a razão. progressivamente. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Eu serei menos afirmativo. se tornar a dissidência de muitos. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. algumas vezes de uma só3 . Do contrário. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. sua luta não terá alma nem razão de ser. caso uma minoria. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. Toda minoria tem. antes de tudo e contra tudo. queira triunfar.

Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. A Psicanálise. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. enquanto elemento da regulação social. deram certo. maneiras inovadoras de ser. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. Para que a vitória seja possível. mas à sua transgressão. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. o grupo vai tentar destruir as instituições. ela é. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. ao contrário. Assim fazendo. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. E na maior parte das vezes ele o é. sob certos aspectos. explicitando o implícito dos comportamentos. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. mas que um novo saber apareceu. com efeito. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. visando à repetição. mas propõe novas idéias. novas maneiras de ser ou de se conduzir. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. A transgressão. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. desmistificando-o e desmitificando-o. enfim. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. por exemplo. vista como pulsão agressiva).O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). Toda instituição. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. Assim. pois se funda em instituições sólidas. no passado. Como essas representam a ordem paterna. 65 . Ela não visa a propor outra coisa. tem por objetivo questionar o sistema vigente. visando não à contestação da ordem existente. contra um exterior percebido como tão obscuro. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. mas pela luta. A contestação. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado.

entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. Não há complô verdadeiro. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. Se ele faz parte do grupo. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. não ser rejeitado. Sem essa vontade de destruição. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. violência fundadora de um novo mundo. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. não obstante. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. fazer-se aceito em sua 66 . sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. FREUD. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. amor ao grupo enquanto grupo. a priori estranhos ou rivais entre si. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. Ódio ao exterior. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. porém sem sucesso. tornar seus sonhos reais. isto é. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. graças a esse imaginário comum e não a outro. deve criar um acontecimento irreversível. irmãos uns dos outros. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. O reconhecimento do desejo Em um grupo. aliás. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. amor mútuo. todo grupo. a não ser entre irmãos. ao menos. em outras palavras.

às quais cada um deverá se submeter. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. nesse caso. se não o desejasse. quer. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. eles se tornarão semelhantes. O único problema é a mais estrita identificação. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . em maior ou menor grau. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. em um grupo. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. não teria podido fazer parte da conjuração. em seu ser insubstituível. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. não devem ser muito diferentes uns dos outros. O grupo. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. diferenciação A MASSA Num tal caso. Essa semelhança buscada. um corpo social completo. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. ser reconhecido como um de seus membros. para que possam se amar. querendo formar uma comunidade. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. eles devem se identificar uns aos outros. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. Aliás. Assim. De todo jeito. é o desejo de reconhecimento que predomina. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. igualmente.O vínculo grupal diferença irredutível. homogêneos. Assim sendo.

tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. portador da “verdade” (!). desenvolver condutas que. por ser o mais forte e o mais belo. O grupo se torna objeto de todos os investimentos.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. tomam um vigor particular.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. a partir de MARX. no grupo. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. Aliás. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. a falta de inovação e.A compacidade do corpo formado vai. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. Estamos. avança cego. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. progressivamente. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. à primeira vista. igualmente. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. não parecem defensivas. 3. tomando as características de um corpo todo-poderoso. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. O grupo.5 2. face a um grupo “sorvedouro. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. influência. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. de indivíduos os mais emocionais. sem que se perceba. sentimento de um meio hostil. sem-fundo”. Que ele se guarde da desilusão. então. angústias de explosão. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). LEFORT). foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. com efeito. mas que. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores.A semelhança pode. 68 . abismo. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. Ocorrerão comportamentos regressivos.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. de tipo defensivo: suspeita mútua. 4. que será particularmente dura de suportar. delação. Assim como. coberto de certezas. senão os mais perturbados. a degradação da reflexão e da inventividade.A falta de diferenças provoca. Ao contrário. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes.

A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. No limite. A tolerância existe. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante.O vínculo grupal 5. Se não se trata de questionar o projeto comum. de argumentações contraditórias. em seu interior. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. então. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. então. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). Em tal caso. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. a administração. No entanto. ao contrário. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. Todo mundo. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. (Assim.Se. Os membros do grupo são. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. de negociações rigorosas. como frouxos ou traidores. “níveis insuportáveis” (FREUD). tive a surpresa de 69 . como a cooperação idílica não existe mas. cada qual acreditando deter a verdade. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. os educadores. O grupo se centrará em si mesmo. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. serão excluídos do grupo. por acaso. em um centro de jovens inadaptados. ao contrário. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. em certos momentos. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico.

Em qualquer caso. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. Nesse caso. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. repetição da palavra do mestre.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. mestre do pensamento e da ação). Esse. eu deveria ter ficado menos surpreso. assim transformado. Fenômenos regressivos do tipo submissão. será tentado a achar um bode expiatório. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. nos países ocidentais. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. 70 . Para não chegar a esse ponto. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. Entretanto. se torna um grupo edipiano. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. “personalização do poder”. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. por isso. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. ao contrário. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. é freqüente. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. uma influência que vem do domínio das idéias. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. É raro ouvir professores falarem de estudantes. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. enquanto professor.

tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. como já constatamos. Se o grupo é bem sucedido. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. podem. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. transformado muitas vezes em processo de erotização. os grupos não podem se esquivar. sendo bem sucedidos ou não. Assim. se somos suficientemente amados. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. mas também os fracos. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. mas quem são os amados e os rejeitados. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. o grupo corre o risco do fracasso. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. a única digna de ser respeitada. o grupo minoritário que. Com efeito. em maior ou menor grau. Essas questões não podem ser elucidadas. inscrever seu sonho na realidade. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. 71 . em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. pois um grupo minoritário. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. tornar-se majoritário. O amor desemboca no ódio. para afirmar a primazia de sua posição fálica. igualmente. para existir. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). Correlativamente. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo.O vínculo grupal Mas. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. isto é. os membros do grupo estão condenados ao amor. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. de todo modo. se consegue impor os seus ideais ou transformar. o campo social. do mesmo modo que estão condenados à crença. Ora.

o grupo fracassa. se ele não provoca impacto social. Com efeito. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. psiquiatras. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. ele vai procurar as causas de seu fracasso. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. Muitos observadores se espantam. por exemplo. em um processo de análise: 1. 72 . Ora. no entanto. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). além disso. educadores. mas não é um resultado inelutável. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. de outro lado. o elemento em torno do qual o grupo se constitui.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. os marginais. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. para dizer que ele ainda subsiste. Ela representa uma tentação constante. Se. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. É preciso. é o contrário que seria de espantar. isto é. isto é. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. o organizador do grupo. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. serão inventados segundo as necessidades e. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. Com efeito. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. mas outro que está ainda para ser encontrado. De fato.

A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Se. De fato. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. arriscar-se a ser amado. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. e o disse muito bem. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. em muitas circunstâncias. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. Outras vezes. serão feitas análises superficiais. Além disso. de maneira recorrente. É importante não nos esquecermos. de crença e de ilusão. em vez de favorecer o seu esclarecimento. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. às custas do mal que nutrem com gosto. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. Deveríamos. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. assim. FREUD disse isso. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. Aí também há muita ilusão. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). o grupo levantará as mesmas questões durante anos. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. há muito tempo atrás. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. 2. Ela pode levar à dissolução do grupo. no entanto. em certos casos. 73 . a tomada de consciência se produz.

ao mesmo tempo. PONTALIS. Gallimard). “L’illusion mantenue”. LEFORT. Seuil. suas relações de poder. Eugène. 2 3 4 5 6 74 . Segundo os termos de C. Bulletin de Psychologie.F. 4. mas é preciso não querer ir muito longe.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. por dez anos. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. C. P. suas angústias e. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. em caso algum. Por dez anos. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ.U. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. seus antagonismos. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Tomo XXXVI. Um homme en trop. fui o único a me ocupar dela e. MOSCOVICI. n. Cf. B. S. Ma vie et la psychanalyse. S. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. p. CASTORIADIS.” (FREUD. por José Newton Garcia de Araújo. se dar conta de que tal tarefa é limitada. uma solução. no 360. J. 631-637. Psychologie des minorités actives. 1983. “Le lien groupal”. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação.

OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. de modo algum. na verdade. atualmente. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. 75 . em Grenoble. 1983. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. 1985). mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. convincente e inquietante. se me detive a explicitar tal proposição. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. tanto no Leste da Europa. Devo acrescentar. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. Com efeito. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). não deve. é porque me parece que essa tendência. os acontecimentos que se produzem atualmente. Entretanto. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. Espero. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. então.

Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. sem deuses ou sem Deus único). de maneira privilegiada. A religião produz então o “ser-junto”. ela nos religa uns aos outros. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. a Deus o que era de Deus. sustentadas por rituais 76 . Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. se depurando. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. às vezes com reticência. o papel que lhes estava destinado. além de nos sentir para sempre em dívida. ou seja. elas não colocavam mais problemas particulares. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. pode-se dizer que. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. um ritual compartilhado que é preciso defender. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). com relação a ele. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). as grandes religiões monoteístas foram. um dogma. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. igualmente ENRIQUEZ. Assim. no entanto. Ao contrário. o fanatismo religioso – isto é. necessariamente. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. Pois bem. A referência dura se exprime para mim. seja como ser coletivo). no renascimento do (ou. As crenças. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. a crença exacerbada em um mito. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. isso não a obriga. No conjunto. sem lhe outorgar. sob pena de exclusão da comunidade. sem totens. ao longo do tempo. 1989). A César o que era de César. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf.

é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. mas à criação de religiões substitutas. J. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. Entretanto. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). como desejava DURKHEIM. não assistimos. porque é 77 . o Estado como aparelho separado. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. Algumas religiões. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. aspirando assim. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS).O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. mas foram se laicizando. O episódio. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. a longo prazo. como medida de todas as coisas. passam a se desenvolver. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. um estado psíquico onde o conflito não aparece. dos padres operários. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. a qualquer preço. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. na França. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). do declínio de uma fé sincera e manifesta. ARON. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. a longo prazo. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. laicas (E. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. ENRIQUEZ). STOETZEL). transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). profanas (MOSCOVICI). baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. Todos os homens. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. ao “desencantamento do mundo”. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando.

Quando falo de religiões substitutas. mais ou menos fortemente. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. pois. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. de serviços. então. por ENGELS e. os chefes de guerra ou os chefes de Estado.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. de fato. A ideologia pode. da ideologia de granito (LEFORT. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). os mestres. (mesmo se. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). sob a IIIa República. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. 1976). permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. 1963). depois. na França. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. não como uma ideologia (quer dizer. de ideologias totais (LYPSET. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. após a morte de MARX. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. É. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. conscientemente ou não. pois. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia.). tal como a ideologia republicana. de votos etc. quer sejam os pais.

Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. a negar. na época moderna. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. reunidos em comunidade. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. pelo ferro e pelo fogo. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. indica que a seita. projetando-o nos outros. vão se impor como lei. representaram um papel menor na dinâmica social. quando as religiões se enfraquecem. 79 . por sua força de convicção. É assim que ela pode formar uma cultura. heréticos ou descrentes. ideologias “compactas” que. como as religiões. que produzem uma cultura própria. Ela então regula essa questão central da alteridade. por seu caráter absolutista. conseguiu se desenvolver. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. que já mencionei. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. sozinhos. pelo sacrifício de seus mártires. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. devem estabelecer com o Sagrado. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. que ela assegura sua identidade. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro.O fanatismo religioso e político (colonização). constituindo-se. Mas é preciso observar que. como uma Igreja com seus templos. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. Uma religião. no cerne mesmo da sociedade. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. 1979). Um grupo minoritário. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). substituindo-os por outros que. antes mesmo que seja colocada. As ideologias que eu evoco são. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. jacente em todo ser humano. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. não pode estar na origem de nenhuma religião. em maior ou menor grau. então. a converter ou a destruir.

Em outras palavras. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. como heróis (no sentido freudiano do termo). enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. 80 . assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. (Entretanto. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. é porque os judeus. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. ao contrário. no “sentimento oceânico” (R. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. desenvolveu uma política de conversão). “poetas”. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. apesar de tudo. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. porque a morte santifica e promete o paraíso. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. É verdade que os grandes místicos. de seu lado. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações.

por conseguinte. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. que são religiões da revelação.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. segundo a terminologia weberiana). viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). Ora. 2.Elas se enriquecem. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. tudo se vende”. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. o texto de J. São sociedades: a. na verdade. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). eles não podem. 1971). mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. (Não existe. sem emblemas. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. como a ideologia republicana. Entretanto. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. além disso. 81 . (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. intensificação da produção não somente de objetos úteis. segundo o axioma de WALRAS). mas somente possível e previsível. entretanto. 1. se certas condições são preenchidas. de novas características. as liberais e as “socialistas”. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. ser totalmente dissociados.O fanatismo religioso e político Concluindo. é conveniente fazer algumas observações. ideologia sem porta-voz. PALMADE).

quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. seu valor se corrói. b. realizáveis. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. já havia observado isso).sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. ao mesmo tempo. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. Assim também. sua legitimidade desaparece. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. para os homens e para as mulheres. no fim das contas. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. além do furor de não poder satisfazê-los. concebê-lo como um inimigo ideal.sociedades que. enquanto criação e distribuição das riquezas. “mãe das cloacas e dos brejos. 82 . da qual é necessário.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. por isso mesmo. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. LAPLANCHE.sociedades que. se desembaraçar. Nesse momento. Sociedades sem pais e. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. de imortalidade. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. 1989). pensar e querer o apocalipse) e. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). os valores são intercambiáveis ou desaparecem. 1967). 1967. (Assim. d. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. c. o trabalho perde seu significado. assim.

permanecer na certeza e. de um proletário. A religião reclamada é a religião absolutista. da loucura. no Ocidente. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. os “desgarrados”. da ausência de um fundamento. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. os excluídos. Eles querem se tornar um “Nós”. O que desejam os deserdados. Se não somos nada além de um espartano. (FREUD. Daí se seguem três conseqüências. um projeto a sustentar. no limite. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. aquela que designa claramente os aliados. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. Contra o mundo perverso. só há salvação na paranóia partilhada. da apatia. de um capitalista. se sacrificar. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. do desaparecimento de referência a toda transcendência. Mas as religiões. da exclusão. aquela que cria uma identidade coletiva. da miséria. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. O indivíduo desaparece. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. da corrupção). os esquecidos. os irmãos e os adversários. 1930) 83 . construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. Essa citação dispensa comentário. de um budista. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. em particular. não oferecem mais interesse. formar uma cultura. uma causa a defender.

para ela é uma impureza?”. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. o espanhol despreza o português”. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. Não esqueçamos. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. uma imensa massa de homens. além disso. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. a criar um mundo novo. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. ENRIQUEZ. sua conversão. Quanto mais uma cultura quer se unificar. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. pelo menos. O fanatismo visa. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. no entanto. para isso. O desenvolvimento do fanatismo. como seres a eliminar. tais como as descrevi acima. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. livre do mal. É certo que. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. liberado finalmente do mal. ou seja. o inglês fala tudo de ruim do escocês. elas exigem a super-identificação à causa. 1984). da sedução ou da coerção). o que é um alimento. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. o super-investimento no projeto. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. nos diversos países. anunciador de um mundo novo.

simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. por sua vez. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. um instrumento a serviço do fanatismo político. assim. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. fundamentalista. na hora atual. primeiro e antes de tudo. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. o Irã).Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. E nós tocamos. para que o fanatismo se fortaleça. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. sem dúvida. é preciso lembrar que. sozinho. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. É preciso. O fanatismo religioso. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. para unificar os corações e os espíritos. o essencial: a dimensão política. Ou seja. Retomemos esses dois pontos: 1. o sinal de seu enfraquecimento. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. resulta. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. o Azerbadjão. O fanatismo religioso é. São Estados. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. É por essa razão que meu texto tem esse título. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. Síria). a se tornar dominantes (por exemplo. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). no máximo. ainda. mas.

a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 .Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. b. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. certos grupos religiosos em Israel). Alemanha do Leste.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). judias). o convite a alguns líderes protestantes. cristãs. Communione e Liberazione. judia. do qual eles não saberiam o que fazer. interdição de pensar (Polônia. Países Bálticos.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. Se a aliança persiste. sob uma forma fanática. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. c. muçulmana) na vida cotidiana da França. forçosamente. na França. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. nos quais não existe senão um fraco consenso. das comunidades islâmicas. 2. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. na regulação dos Estados modernos. destruição cultural. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . ela pode ter como papel: a. Nesse caso. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. protestante.A religião não se apresenta. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. em nossos dias. Loja P2. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. ela designará os vencedores e os vencidos. lepenistas.redourar o brasão das religiões tradicionais. Eglise de Scientologie). se ela se extingue. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Irlanda do Norte. que querem fazer valer sua palavra.

às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. o caos e o abismo. antes de tudo. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. suas dúvidas. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. cada vez mais freqüentemente. finalmente. não é o caso de superestimá-la. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. ao contrário. a falta de sentido. ao invés de processos de sublimação. 87 . Os homens aprenderiam. paralisar a atividade de mentalização. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. sem fim. 1. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. laborioso. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. De fato. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. o Estado leigo faz apelo. de reflexão e de reflexividade. ele tenta. sem recorrer a referências seguras –. para terminar. como no exemplo de KHOMEINY). nesse caso. prontos a afrontar o absurdo. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. de precisar meu objetivo. Mas. mas que. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. o religioso. desde o início dos tempos modernos. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. nascida desse trabalho árduo. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. Eu gostaria. com a ajuda de seu Deus –. Se essas são capazes de inventar novos projetos.

então a reflexão desaparece. 3. Connexions. Ora. 1990-1. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. do fato ideológico. na armadilha que denuncia. nos fenômenos sociais. Os valores religiosos. devem ser levados em consideração. “A última tentação de Cristo”. quando a ideologia dura impede o livre pensar. uma vez que elas são. a perversão ou a paranóia triunfam. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. Araújo. a ideologia. p. antes de tudo. 137-149. n. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. Eu não quis dizer. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. Eugène. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. T. quando o religioso se põe a serviço do político. efetivamente. tão fácil e prazerosamente. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. no outro. Se. Ela assume então o papel de desalienação. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. ela lhes permite tomar iniciativas. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. na América do Sul). Por outro lado. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. em nenhum momento. ideológicos e nacionais. do fato nacional. Ela lhes é consubstancial.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ.) 2 88 . “Le fanatisme religieux et politique”. em si mesmo. nos seus interlocutores e. naturalmente. se ele não faz esse trabalho. por Leila de Melo Franco S. 55. (N. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. sob pena de cair. tanto quanto outros tipos de valores. que a religião.

Seuil. S. Connexions. 1985. Présentation de Sacher-Masoch. La monnaie vivante. 1984. janeiro. Editions de Minuit. 1971. MOSCOVICI. “Notations sur le racisme”. S. 48. Connexions. LEFORT. n. 1967. E. L’autonomie sociale. sobre o fanatismo hoje. Psychologie des minorités atives.(1930) Malaise dans la civilisation. ENRIQUEZ. ENRIQUEZ. DELEUZE. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. “Malaises dans les identifications”. 1987. 1979. PUG. E. Épi. “La défense et l’Interdit”. 1985. C. In: Autonomie sociale. (org. CASTORIADIS. 89 . P. E. ENRIQUEZ. In: La NEF. ENRIQUEZ. 1963. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. LAPLANCHE. 54. PUF. DEVEREUX. Cl. 1973. FREUD. 1989. 1967. L’homme et la politique. J. M. Un homme en trop. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Eres. Epi. G.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. . Y. PUF. PUG. Au carrefour de la haine. 1989. Seuil. G. 1976. LYPSET. KLOSSOWSKI. n. S.). 1971.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

2 Tais reflexões mostram. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. em plena Vendée. vestuário. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. de um lado. como elas podem morrer. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. como elas se desenvolvem.CONJUNÇÃO. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. seus produtos. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. NA EMPRESA. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. que 91 . de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. já havia sido notado por vários pesquisadores. por exemplo). se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. calçados etc. uns nos outros. individual e coletivo. alimentação. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. A escolha da região do Cholet. incessante. são exportados para todo o mundo (iates. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. e o conservadorismo social e cultural da região.. de outro lado. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. sobretudo. vividas pelos dirigentes.

evocava neles. que são ao mesmo tempo seu principal tema. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. Ou seja. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. Não se trata. entretanto. de suas dúvidas. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. ainda que solicitadas por nós. de seus projetos. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. que tais entrevistas. para nós. Em outras palavras. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. caso a caso (empresa a empresa). sobre aquilo que a empresa. como objeto no discurso dos dirigentes. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. pudemos pôr em evidência certas constantes. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. suas dificuldades. diferenciações. ao produto. à antigüidade. 92 . Uma tal aventura. Tendo analisado esses depoimentos. isto é. mas a empresa como objeto psicossocial. convidados a falar a respeito. Assim. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. clivagens. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. segundo um método comparativo. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. com efeito. o qual é vivido como o fundamento da empresa. a partir de sua criação. a partir de suas lembranças. ou ainda. num primeiro momento e. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. sua história. para si próprios. desde sua origem até o momento atual. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. seu futuro. entretanto. é. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. depois. era.

quer dizer. nota-se que.o ofício ou o produto. quer se exprima pela relação com o solo. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. argila. aquilo que é ligado aos locais físicos. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. locais e regionais. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. geográficos. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. também. embora todas tenham dependido. conceitos verbais.) que se trabalha ou. Essas três entidades. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. a regiões de Mauges. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. de maneira mais abstrata. com o território (nome das cidades. sua cultura. de maneira mais extensa. de Bocage. a terra ou a região. a partir do qual elas podem se desenvolver. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. quer dizer.Conjunção. com a região (no caso. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. . sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e.a terra ou a região. podem ser resumidas da seguinte maneira: . histórica e sociológica. De maneira mais geral. suas tradições e a 93 . quer dizer. Nesse último sentido. . quer dizer. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. grão etc. ou ainda. na origem.a família. A terra Essa referência é onipresente. de um projeto pessoal e familiar. com freqüência até mesmo joint families. na empresa.

a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. constituem então. simultaneamente. Antes de ser um projeto pessoal. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. nas relações e atitudes: assim. atividades e lucros organizam-se em torno dela. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. físicas e morais. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). a empresa é um projeto de família. na maior parte dos casos. o lugar dessa é aí dominante. um conjunto de obrigações e de restrições. em caso de dificuldade. no sentido concreto. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. contribuindo para o renome da cidade ou da região. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. 94 . eis nosso jeito fazendeirão”. A “região”. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. A família Tratando-se. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. “não ficar falando abobrinhas. tanto no imaginário quanto no real. Desse ponto de vista. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. bem como uma fonte de riquezas. mas também no metafórico. de empresas familiares. “a terra”. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. não se pode fingir”. assim que ultrapassamos a fronteira. vira tudo uma máfia”). em nome de uma certa ética. mas também um sentimento de segurança.

na empresa. mas também nos fatos reais. “empresa familiar”. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. onde empregados e patrões podem comer juntos. quer dizer. Como se pode notar. e o capital e os salários. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. de outro. inclusive com empregados. num primeiro tempo. fortemente personalizadas. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. descartado. inclusive para outras aglomerações. Compreende-se. ainda que apenas para atender a exigências do fisco.Conjunção. sendo também imagem das relações de parentesco. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. Naturalmente. então. seja pelos homens (os filhos). de fato. Assim. ainda. sendo um dos dois sexos. então. no início. geralmente. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. de um projeto pessoal e familiar. 95 . é certo. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. entre os bens e os dividendos pessoais. por um lado. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. SA. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. Da mesma maneira. de papéis e de procedimentos formais. A presença da família e de seu passado se traduz. designada como “negócio de família”. “sociedade familiar” ou. as relações de autoridade. na sua origem. As estruturas e as relações de poder são. “sociedade de família”. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). como “a realização de seus antepassados”.

Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. A história da empresa é assim. uma fonte de problemas e de conflitos. a maior parte das vezes. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. Nessas condições. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso.. freqüentemente. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. Está diretamente associado às mãos do artesão. –. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. um elemento de coesão e também uma limitação. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. rupturas. o produto Em função de sua origem artesanal. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. Apalpar essa matéria. casamentos. com os acontecimentos familiares – mortes. os sindicatos independentes são mal tolerados. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. Assim como para a referência à região. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. O ofício. lenços da região do Cholet. da receita ou do jeitinho de fazer. transmitidos de geração em geração. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . couro etc. uma inspiração. seus vizinhos.

não em negar. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. que asseguram sua identidade e a base da empresa. Entretanto. essas três bases – ou instituições primárias –. com efeito. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. o ofício. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. Juntos.Conjunção. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. de um projeto pessoal e familiar. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. na empresa. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . estão imbricadas umas nas outras. em desligar aquilo que estava ligado. à terra. cujas partes. pelo menos em parte. Sua história. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. não são entidades independentes. Consiste. encarnada na pessoa do fundador. transmitido de geração em geração. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. o marketing etc. vêse então que. constatou-se. sangue ou mãos). trata-se de um conjunto extremamente coerente. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. eles formam então como um bloco compacto. De fato. Esse processo não se realiza sem problemas. para garantir as evoluções indispensáveis. ele supõe a adoção de atos concretos. para o dirigente. –. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. profissionais.

b. portanto. de valores ou modos e redes relacionais. da afetividade à separação. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. c.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. exigindo. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. essencialmente. seu objetivo. O ponto de chegada de tal processo. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. do pessoal ao impessoal. De maneira mais precisa. do herdado (ou do dado) ao adquirido. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. de estruturas de necessidades e de motivações. 98 . Nos termos de T. a transferência física da empresa para outros locais.a industrialização. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. de produções. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. PARSONS. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. principalmente. isto é. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. Esses três movimentos resumem. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. elaboração de uma organização e. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. consiste em passar de um sistema social a um outro. da proximidade ao distanciamento. com efeito. isto é. ao longo de toda a história da empresa. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. PARSONS: do particular ao universal. investimentos em máquinas e em locais especializados.o deslocamento.

pode-se dizer (. obrigado a repartir o poder com outros. de acordo com regras precisas que excluem. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. ou ainda: “das famílias na sociedade.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. freqüentemente. na empresa. a entrada em cena de um contador. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência.. que põe as contas em ordem. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas.Conjunção. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. adquirir as competências ligadas à gestão –.. com efeito. então. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. de um projeto pessoal e familiar. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. bem como uma administração capaz de a gerenciar. em contrapartida. máximo. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. O envolvimento da família é. se 99 . além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. bem como na composição do Conselho de Administração. a partir de então. sua principal razão de ser – ele deve. regidas segundo técnicas e métodos importados. Enfim. ele não pode assumi-las todas e é. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura.

sócios etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. principalmente entre os (jovens) dirigentes. ela se baseia em competências que eles adquiriram. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. Esse processo não se realiza de uma só vez. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. Esses estão. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). É. mas. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. transformando as relações de poder e os modos de pensar. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. podendo implicar até em falência. colocados numa situação extremamente conflitiva. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. mostra-se assim sempre indispensável. melhor formados) e a da clientela. –. pela definição de papéis e critérios decisórios. portanto. Progressivamente. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. pela instauração de regras explícitas e. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). a estrutura de pessoal (mais jovens. Eles são. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. por conseguinte. o que permite. portanto. freqüentemente. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. geralmente fora da empresa. como para qualquer chefe de empresa. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. com efeito. pois.

Conjunção. uma tomada de distância em relação à terra natal. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. é importante para reduzir. renunciando a uma expansão possível. encontramos respostas extremamente diversas. permitindo administrar as contradições. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. bancos etc. no entanto. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. Trata-se. manter uma qualidade de vida e de trabalho. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. outras aspirações. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. pois. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. mas permitindo a sobrevivência da empresa. além disso. outras exigências. Em todos os casos. Outros se orientam para soluções. ou mesmo para o estrangeiro. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. a empresa adotar uma estratégia de exportação. para si próprio como para o ambiente é. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. Para essa questão. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. 101 . isto é. o solo no qual a empresa se situa. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. E. Se. preservar uma base local. – e o questionamento de vínculos anteriores. portanto. Se o deslocamento para outra região. considerado preferível a uma expansão sem significado. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. por exemplo. como uma espécie de traição. de um projeto pessoal e familiar. necessariamente. nesse caso. na empresa. outros modos de relação. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais.

mercados. mais ou menos importantes. entretanto. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. etc). e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. Quanto mais eles se ampliam. evitando.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. por exemplo. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. que supõem prazos e contatos (redes etc. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. margem de lucro. taxa de crescimento. As relações diretas. Todas as empresas. Como conseqüência de decisões. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. mais eles se autonomizam. situadas em regiões economicamente mais propícias. desenvolver uma rede de sub-contratantes. no entanto. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . e de rupturas que essas provocam com o lugar. ou ainda. ao mesmo tempo. emerge assim uma organização. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. Seria. SUA terra. ou ainda. a rachar. no sentido pleno do termo. assimilado a um trabalho de luto. uns sobre os outros. face a face. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. SEU ofício que dá corpo a ele. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. admitindo divisões e separações. com efeito. são substituídas por relações secundárias. criar vínculos de dependência com eles. por regras ou por técnicas. indiretas. Um tal processo pode ser. que manifestam um crescimento sensível. é pois. por exemplo).). São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. portanto nitidamente diferenciados e interligados. então. as pessoas ou os hábitos de pensar. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. algumas das quais podendo se situar alhures. produtividade. uns em relação aos outros. é SUA família. no entanto. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. é ele.

de sua unidade. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. é impossível. sua ancoragem biológica. 1990. A instituição é um processo. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. ficando na ilusão de sua existência. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. na empresa. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. de negar aquilo que é. Paris.Conjunção. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. desprender-se inteiramente. ele deve sempre compor com o nível primário. sob pena de perder o contato com o real biológico. por Júlio M.). além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. despregar-se.) 2 103 . Notas 1 Traduzido de: LÉVY. que é o seu fundamento. organisation sociale. collectif). constitutivo do sujeito. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. uma tensão permanente. (N. no entanto. sua fonte energética. existindo para e por si mesma. Região situada no oeste da França. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. André. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. Se. do clã. com o título Inconscient. de um projeto pessoal e familiar. 1991. de sua consistência.(mimeogr. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. Mourão. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real.T. Toulouse. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

possível. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. pois. quais são os problemas realmente essenciais. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. grupos religiosos etc. com o seu corolário. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. Essas transformações devem. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. Entretanto. NICOLAÏ. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. Todavia. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. de forma responsável. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. um trabalho de tal monta é necessário e. então. aparentemente. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD).PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. No espaço até então ocupado por ela. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. como o evidencia Nicolaï. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. a fim de que as sociedades possam. verdadeiramente. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. No momento atual. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. os “intermináveis adolescentes” citados por A. finalmente. o triunfo da racionalidade experimental. LÉVY. as mudanças essenciais 107 . etnias. sobretudo. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. LÉVY e A. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. mais eficazes e mais rápidos. NICOLAÏ).

capazes de contribuir. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. e não a nível global e em regiões centrais. No entanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. não surgirão de tomadas de decisões formais. na relação e pela relação. como o fez Touraine. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. seja para a evolução social. prováveis de ocorrerem na sociedade. antes de mais nada. 108 . também. quando anunciaram. É importante ainda mencionar outra questão. Ao contrário. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. na prática social. LÉVY: as verdadeiras mudanças. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. sujeito). os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. Seguindo essa via. ritualizadas. igualmente. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. desde a sua criação. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. Essa disciplina deverá. portanto. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. Será. Os sociólogos não se enganaram. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. levantada por A. suas instituições e seus diversos grupos sociais. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. LÉVY). Mas. seja para a sua involução. como têm sido feitas. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. realizando um genuíno trabalho psíquico. dar atenção especial à conversação e ao debate. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. interessar-se mais pelos movimentos sociais. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. para tanto. na atual crise pela qual passa o Brasil. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. Ela poderá. Esse processo é longo. com freqüência. o “retorno do ator”. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Nesse sentido. pelas interações entre sujeitos.

da socioterapia e da Escola de Palo Alto. – tudo isso parece indicar. ainda. nem sempre bem sucedido. é porque me parece que. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações.2 o envelhecimento. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. com efeito. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. e observando-se toda uma série de sinais. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. malgrado as aparências. no início dos anos 60.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. seríamos tentados a pensar que. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. no modo de compreender as organizações e as instituições e. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. forçosamente. E isso se traduz em um interesse. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . na acepção forte do termo. Se me decidi a escrever esse texto. presente em muitos meios. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva.

primeiro. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. ou. Em outras palavras. uma após outra. desde o início dos anos 70. em função do que lhes parece ser necessário. Essa enumeração. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. uma após outra. a análise organizacional. constituem. Mas importa. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. Parece-me igualmente que. elas tenham podido ser a referência principal. não apenas a inquietude e a interrogação. enfim. retomando termos de E. elas têm em comum o fato de terem pretendido. É certo que a maior parte delas não desapareceu. como todo fenômeno de moda. mas a vontade de inovar. ENRIQUEZ. de ter prazer.. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. por exemplo). pode-se citar a análise institucional. Entretanto. senão a única. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. mais recentemente. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço.. em seu conjunto. para os atores engajados na ação. de viver de outra forma. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. em um determinado momento. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. o que tem como conseqüência que. para os atores sociais e para muitos práticos. Embora durante alguns anos. 110 . que evidentemente não é exaustiva. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. os métodos centrados na expressão corporal. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. a análise transacional e.

A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). meios que ele controla. na verdade. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar.. efeitos espetaculares em uma instituição. por não lhe deixar escolha. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. incertos e custosos. com vantagens. por exemplo. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. ao mesmo tempo. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. É praticamente certo que a análise institucional.). com ambições mais limitadas e incertas. auto-realização. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. 111 . então. desse ponto de vista. intenções que. pelo menos – desses métodos: a. ROGERS (resolução de conflitos sociais. LEWIN e C.. Certamente.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. a outros métodos mais longos. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. fazendo assim. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. Dessa forma.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. Em outras palavras. eles se comparam. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K.

Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. mas também nas orientações cognitivas. aparecendo em utensílios. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. evidentemente. e que. automaticamente a problemas delimitados. dominada por relações mercadológicas e seus valores. há que se lembrar. se possível. “enquadramentos”.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. o sistema de ação concreto de M. então. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). 112 . Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. “sistemas” (por exemplo. Tal fascinação pelo que “funciona”. concomitantemente. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. Nessa perspectiva. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. condenado a ser rejeitado. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. Embora ocorram desvios. Essa tendência já estava presente. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. tudo isso é. especialmente a necessidade de tempo. não garante nem assegura nada. a um “ator” ou a um “agente”. reduzido.

sem risco. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. Assemelha-se. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). progressivamente. retira-lhe. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. isto é. necessariamente. no limite. ao contrário. demanda de encomenda – LOURAU. mais ou menos explícitas. No que nos diz respeito. A demanda expressa. assimilá-la a uma encomenda. combinada então a pressões mais ou menos fortes. por isso mesmo. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. O conceito de demanda social Com efeito. Assim. Se. reciprocamente. podem-se percorrer todos os graus. uma grande parte de sua riqueza. implicando um bem. entre a demanda e a encomenda. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. está próxima à noção de encomenda. Primeiramente. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. tal distinção não nos parece desejável pois. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. no sentido de ordenar ou encomendar. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. endereçada a um outro. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. inscritos em uma história coletiva que. é eco de acontecimentos sociais. que podem. no registro econômico. há quem quis diferenciar. toda história singular. a demanda é. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. então. reciprocamente. a demandas por respostas e soluções. uma 113 . especialmente. uma demanda de objeto. a articulação íntima entre o individual e o coletivo.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. Nesse sentido. Entretanto. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. assim como uma relação de troca. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. um objeto. com efeito. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. nesse caso.

no primeiro registro. mas como social. Por essa razão. solução. de uma falta. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. a “demanda” só tem sentido e só existe. pelo menos em um segundo plano. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. em contrapartida. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. freqüentemente ou sempre. precisamente.. dificilmente é formulada como tal. a demanda é facilmente interpretável. principalmente. aí. explicitada pelo objeto que designa. 114 . sua interpretação. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. Nesse caso. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. No limite. em demanda de outra coisa – conselho. marido e mulher etc. Entretanto. objeto material etc. ajuda. trata-se de uma demanda de amor. Se. mas a expressão de um desejo.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). necessário indagar a respeito de seu significado. tudo isso não é específico da Psicossociologia. é que. É. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. a questão da demanda – sua escuta. o que lhe dá riqueza e complexidade. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. Ele não é evidente. então. uma certa relação de poder e de dominação. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. durante um processo de consulta ou de intervenção. na acepção própria do termo. seja em um quadro terapêutico. pois o qualificativo “social” tende. inclusive e sobretudo por quem a formula. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. disfarçando-se. no segundo. a demanda é considerada não como individual. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. seja de reconhecimento ou de amor. Enquanto é apelo ao outro. inversamente. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. seu tratamento – é. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. sua interpretação é sempre problemática. Certamente. não é uma demanda de objeto. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. Ela se torna real por essa e nessa relação. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. na Psicossociologia.

o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. Porém. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. mas também de permitir interpretá-las. Ao contrário. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. testemunhado através de seus escritos. mobilizadas. reflexo interpretante.). às quais é difícil resistir. Em outras palavras. podem ter efeitos nas situações que as originaram. de dependência ou de submissão. transformadas em atos. manifestações agressivas ou angustiantes etc. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. atos e palavras. não há nada em comum com a posição de simples espelho. eventualmente. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. das quais resultam vivências compartilhadas que. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. é necessário que ele tenha se manifestado. de outro. nas quais elas podem ser avaliadas. exprimem-se sob formas coletivas (greves. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. a solicitou. Como conseqüência. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Assim. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando).A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. de uma maneira ou de outra. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. quis ou “demandou”. compreendidas e interpretadas. que sua prática não é aplicação de uma 115 . por sua vez. De um lado. meios de resolver um conflito etc. mesmo que seja de maneira difusa. as quais.

uma perspectiva – que. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. DUBOST. uma concepção da sociedade e das relações humanas. Assim. tudo isso expressa bem o que. entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. individuais e coletivos. uma ética. uma empresa. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . Esse ponto. confessáveis e tratáveis.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. mas que traduzem um desejo. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. um serviço administrativo. enigma. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. desde LEWIN. afirmar que elas são. mas através de princípios regendo procedimentos. a noção de sistema é bastante útil. ao mesmo tempo. da mesma forma. principalmente. uma classe de atores etc. interagindo entre eles. Entretanto. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. um grupo. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. na falta de outro termo. independentemente das outras com as quais ela se articula. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. Trata-se. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. ao contrário. no espaço desse artigo.6 como oportunamente evocado por J. Desse ponto de vista. Evidentemente. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. não é possível. toda análise em termos de relações bipolares. parece-nos ser uma ética. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. Tal representação exclui. com a condição.. consequentemente. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação.

J. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. desde o início da ação de intervenção. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. LEWIN. Evidentemente. por K. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. sem o perceber. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. em uma relação de colaboração. dessa forma. aplica-se também à Psicanálise. o interventor-pesquisador contra o risco de. e sendo breve. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. por exemplo –. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. instrumental. em especial. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. trata-se de tentar definir. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . antecipadamente. 3. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. identificar os dados. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). igualmente. ao mesmo tempo. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. a fortiori.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. em especial.Por outro lado.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. é importante que todo ator e. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. Assim. Sem dúvida. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. Em suma. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”.7 Porém. então. A introdução. Desse ponto de vista. 2.

então. em seguida. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. consideráveis nas últimas décadas. nos termos de J. parafraseando J. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. “saber como se foi apreendido”. 118 . de “re-apreensão” teórica das situações observadas. FAVRET-SAADA. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. brevemente. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. é impossível. elas expressam antes uma perspectiva. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. Entretanto. de qualquer jeito. tentando identificar. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. assim como observar. algumas tendências atuais. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. É indispensável. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. Da mesma forma. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. investigar. uma orientação.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. Embora seu enunciado seja necessário. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. embora não suficiente. da sociedade e das ciências do homem.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. então. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. reafirmar essa posição e manter-se nela. Igualmente. FAVRET-SAADA. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. questionar.

por perspectivas lewinianas. a problemas de mudança social. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. Por outro lado. de análise de grupo.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. dominados principalmente. certas correntes de Sociologia Clínica. dedicaram-se. de ordem geral. Em todo caso. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. há alguns anos. assim. de uma forma diferente. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. talvez rapidamente demais. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. até então. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . no início do texto. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. Assim. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas.10 Mais recentemente. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. convergências. impõe-se: qualquer que seja o domínio. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. não é mais aceitável. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. rogerianas e morenianas. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. Mostram. análise conversacional. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. Finalmente. cada vez mais evidentes. com uma perspectiva bem global. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. é impossível. etnometodologia. desde os anos 60.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. hoje.

W. BION. Situations de groupe et relations langagières. O. e de representações específicas de objeto. 1980. 11 TOURAINE. J. E. J. 1978. La parole intermédiaire. e CAMUS-MALAVERGNE. 1989. e LÉVY. PUG. Les mots. 17. Le groupe et l’inconscient. D. Connexions. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática.. 2:87. Intervention et changement dans l’entreprise. 2 4 5 WATZLAWICK et al. A. les sorts. JAQUES. 1987. DUBOST. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Payot. J. responsáveis políticos locais. GOFFMAN. J. 1987. 1978. Paris: Seuil. FLAHAULT. 1979. 1973. e BAREL. 1977. 1979. PUF. 1972. A. In: ARDOINO et al. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. RAPOPORT. Connexions. 1985. A. La voix et le regard. DUBOST. A. 1965. 53. A. Dunod. R. Changements. 1984. J. Como exemplos: BARUS. arquitetos etc. Seuil. paradoxes et psychothérapies. Paris: Seuil. e JOULE. L’intervention institutionnelle. André. Por exemplo: ANZIEU. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. Seuil. J. TROGNON. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. 7 Cf. “Ce que parler peut faire”. 1984. Le sujet social. 42. 1987. L’observation de l’homme. “Connexions”. 1987. Façons de parler. “L’analyse sociale”. p. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. G. Paris X. “Eloge de la psychosociologie”. Recherches sur les petits groupes. 3 ENRIQUEZ. Dunod. 1975.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. Seuil. 12 BORZEIX. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. La société du vide. LECLERC. por vezes fundamentais. LÉVY. la mort. H. Gallimard. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. DUBOST. R. sindicalistas. L’intervention psychosociologique. “Coopération et analyse des conversations”. CHABROL. Sociologie du Travail. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. 1981. Entre le cristal et la fumée. trabalhadores sociais. C. Tese de Doutorado. nos anos 60 e 70. E. In: Du discours à l’action. E. O problema da mudança individual. 1990. BEAUVOIS. Dunod. 7. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. 43. PUF.N. ATLAN. 9-18. L’Harmattan. Minuit. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. muitos outros atores apareceram: formadores. 1983. Em especial. Y. 10 120 . L. Connexions.

o segundo 121 . em contrapartida. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. tendência. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações.3 sobretudo nas Ciências Humanas. depois de LEWIN. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. Entretanto. também. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. retorno a uma problemática do indeterminismo. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. em nenhuma das duas. certamente. no campo que nos interessa. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. de forma mais ou menos clara. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade.4 Essas evoluções.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social.2 Mas. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. mais do que como fenômeno excepcional.

muito fecundo. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. necessariamente. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. por definição. com efeito. aqui. definitivamente. Nesse terreno. do interior e não de um ponto de vista exterior. K. recristalização). O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. compreendê-la como tal. isto é. Antes. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. necessitando ser aprofundada.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. dirigir ou combater. para as constatar. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. de súbito.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. por isso. como demonstramos num texto anterior). teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. aquém ou além. participando delas diretamente.5 Além disso. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. LEWIN. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. de uma leitura psicológica. iria reificá-lo. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. prever. parece-nos possível. mas que ela poderia se realizar. no grupo (na relação e pela relação. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. porém algumas observações prévias: a. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. ele permite. hoje. com efeito. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. deslocamento. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. 122 . Assim.

. assim. escrevia Paul VALÉRY. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. eles não podem ser previamente enunciados. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. é se abrir a uma história. é sobre essa segunda significação de mudança.. a um processo de mudança. tal definição é geral demais para ser útil. o desenrolar de uma existência.). Antes de ser um acontecimento objetivo. No entanto.. que queremos nos centrar aqui. entretanto. porém. é o espírito que. como observou Paul VALÉRY. Com efeito. “exceto do corpo que se usa”. A teoria dos sistemas distingue. nem todo processo discursivo se identifica. legitimamente.. (.. desse ponto de vista.8 Com efeito. O termo mudança poderia. é acontecer. reprodução das instituições.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. reorientações bruscas. pois. tecnológico –. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . que é a morte) – reprodução das espécies.. econômico.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. Como já dissemos. Com efeito.9 a mudança. físico. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. Ele se traduz.).A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. Toda vida é “repetição de ciclos”. designar tudo o que está vivo. seja a de um indivíduo ou de um grupo.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. lento e ininterrupto. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico.. à aventura. ao risco (.. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. redirecionamentos. a mudança é um acontecimento psíquico. não se reduz a esse processo evolutivo. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. freqüentemente não isentos de violência. como ruptura. também.. A mudança é um trabalho do espírito. ela é um acontecimento subjetivo.. reprodução das idéias. mutações.

que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. se o ato é fundador. Por exemplo. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. representações ou intenções e os que estimam. ele o é apenas se fizer sentido. os psicossociólogos. então. ao contrário. objetivas. Ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. um trabalho de pensamento. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. A decisão: momento. por um trabalho do espírito. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. isto é. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. o lugar da mudança. ao contrário. por excelência. em todos os níveis. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. Para entender bem essa proposição. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. a liberdade”. Fazemos. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. depois de LEWIN. 124 . tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. antes de tudo. dos modos de pensamento. ao nível de suas significações. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. das instituições. ainda. As condições materiais.

Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. da ordem do real-concreto-sensível.13 acentuamos o ato arbitrário. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. LEWIN. uma situação nova e envolve inteiramente. Por isso. “operando uma disjunção violenta. por si. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias).11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). o “golpe de força” na origem de toda organização social. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. renunciando. necessariamente. por si própria. o tempo. com o risco de sua própria desagregação”. ao mesmo tempo. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. Os processos de decisão analisados por LEWIN. só pode ocultá-lo. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. a organização social. da duração (bergsoniana).12 A decisão seria. em sua época. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. inicialmente. o psicanalista W. em um trabalho anterior. para chegar ao processo secundário e criar o real. Somente a decisão pode fundá-lo”. 125 . por exemplo). A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. do feminino. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. da continuidade sem hiatos.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. então. em suas opções e em seus desejos fundamentais. a divisão. um salto para o desconhecido.

não muda nada. quer sejam. de forma mais importante ainda. modificações na realidade. Se o sujeito que 126 . não pode significar uma mudança. nem que a palavra seja onipotente. tomados como testemunhas. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). ao mesmo tempo. retomado ou reinterpretado. qualquer que ela seja. é o mesmo sujeito da enunciação. mas porque é um ato público. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. por seu conteúdo informativo e prescritivo. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. Mas. assim. um ato de palavra. Um ato. assim. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. pois ele pode sempre ser desmentido. isso significa que uma escolha. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. Isso não significa. explicitamente designado. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. O sujeito de tal enunciado. apenas por seu enunciado. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. Mas. manifestação da vontade de produzir. a decisão é. econômicas ou sociais.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. como que por mágica. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. as situações institucionais.” é um ato “ilocucionário explícito”. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. em si mesmo. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo.. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. simplesmente. pois. Toda decisão é. simplesmente. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada.. evidentemente. que uma decisão necessariamente modifica.

vazios de sentido e sem conseqüências. para um processo de mudança. não se reduzindo. Então. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. para fundar o real. efetivamente. eles próprios. sob a má fé dos argumentos. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. a uma atividade lúdica ou de encantamento. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. entre as possibilidades. do imaginário. Nesse sentido. como diante da morte –. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. inelutável. conscientes ou inconscientes. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. bem antes do livro sobre Moisés. o jogo de hipóteses. sem apreender o real? 127 . compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. a respeito do herói. como muitas vezes ocorre. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. formal e. esconde mal. e de abandonar o terreno do possível. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. igualmente. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. rituais ou emblemáticos. talvez mais do que em qualquer outro momento. Aqui. interpretação e prática de análise social No entanto. Decisão. os desafia.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD.

ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. Mas ele pode. escapar dessa eventualidade. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. ao mesmo tempo. incontestavelmente. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. feita pelos psicossociólogos. como toda decisão. Seria importante. certamente. certamente. para fazer a história. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. possuem as características do relato histórico. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. ainda que não tenham conhecimento disso. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. implica um risco e um custo. tais como J. mas. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. sendo difícil. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. como observa FAYE. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. Esses sistemas. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. Certamente. O trabalho sobre as resistências. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). com efeito. senão impossível. Assim. ela é necessariamente parcial e partidária. P. igualmente. FAYE15 as analisou. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. termo que. 128 .

que eles constituem visões diferentes.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. mas complementares. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. uma parte da verdade comum. mas tende a afastá-las. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. sobretudo. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. essas diferentes visões e o que elas ocultam. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. subtraído do tempo”. É aqui que uma concepção por demais rígida. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. no inconsciente dos sujeitos. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. contribui para reforçar seu caráter dogmático. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. práticas contestadas ou abordadas. mais ainda. longe de se fundamentarem no “real”. mas sua coerência. atuem diretamente no real. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. não podendo ser traduzidos em decisões. cada um. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. então. em um processo de reificação de enunciados fechados. visto que essas. do risco de uma interpretação verdadeira. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . bem claramente. justificando. ao contrário. ideológico. das condutas às quais elas se referem. assim. pois. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. que preserva o analista social da decisão. muitas vezes. o texto. “nascendo. de uma mesma “realidade”. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. contentando-se em esclarecê-los e. diz-nos LEGENDRE. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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inicialmente. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. face a “ruídos” provenientes do exterior. autopoieses. em 1900.Rupturas. autocriação. são simultaneamente (cf.Os conceitos de auto-organização. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. Assim. mas abertos ao seu meio ambiente e. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). ou seja. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). a partir do século XIX. *** Quais são. não restavam mais que 10 000). como crises momentâneas de coerência. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. atores e autores do seu sistema. colocam outros problemas. por isso. químicos ou biológicos. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. Nesses períodos. oriundos de outras áreas. supra) agidos. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. constituindo-se. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. 2. os novos conceitos e hipóteses. então. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. literalmente. as crises econômicas foram. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. os atores. isto é. cujos elementos. pois. capazes de se auto-regularem. isto é. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. autogeração etc. o que não é o caso dos elementos físicos. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. em 1950. Eles se referem a sistemas autônomos.Inicialmente.

apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. logo não previsível. o compromisso fordista empresários-assalariados. por conseguinte. de inovadores potenciais. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. Nesse ínterim. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. na sociedade ou numa área econômica dada. Mas.P. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. segundo CROZIER) e. É certo que essa escolha é aleatória.I. amplia a margem de manobra dos inovadores que. mas isso deixa de lado os fatores 136 .Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. nesse momento. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. sob o protecionismo de MÉLINE. em especial. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar.2 por exemplo). Sua presença é vista como consolidada. No entanto. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. Essas crises-ruptura. de um lado. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. sob a égide do Estado. na França. encontramos poucas reflexões (na França.. de outro lado. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. entre os economistas. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria.

em cinqüenta anos. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER.I. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. a difusão ou não – de suas inovações. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. inerente ao sistema. assim como aos fatores culturais. da predestinação do mais forte. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis.. uma teoria do fracasso. entre a mão invisível e o punho de ferro. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. nessas mutações estruturais. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). ele se torna o ordálio.Rupturas. CASTORIADIS). pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Mesmo se essas teorizações existissem.P. por conseguinte. Há outro problema não estudado. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. Mas ainda continua faltando. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração.000 sociedades. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). da designação. 137 . ou seja. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. ao nível dos detalhes. nesse quadro. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. Em épocas de crises-ruptura. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. tornando possível viver em perspectiva (C.

conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. após a solução eventual da ruptura. por exemplo).outras referências. ao mesmo tempo. o lúdico.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). podemos constatar: . .fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. Mas.). fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. . mesmo que saibamos. desde BRAUDEL. 3.P.fenômenos de regressão a formas mais simples. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. des-sindicalização e mesmo des-identificações.aumento do número dos agentes aí implicados. após dessacralização. GROU. BOYER. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. às vezes. . o sagrado e. 138 . integrismos. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. despolitização. da cultura. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.enfim. ENRIQUEZ): nacionalismos. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . devido à extensão atual do mercado e. que o Centro se desloca.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. à extensão do capitalismo (os N. polimorfismo das intervenções do Estado. a família e a escola). embora ainda não totalmente. homogeneização da linguagem.). . . sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).I. por exemplo): concorrência. Ela se define (P. 3 .fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. poderes oligopolíticos em escala internacional. .

químicos. por seu lado.Nos sistemas sociais. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. das conexões) e do “salto qualitativo”. como afirma o individualismo antropológico. além das imposições do mercado e dos demais poderes. para serem fecundas.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. por um lado. mecânicos. o leque dos comportamentos não é. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. para cada grupo de agentes. introduzir normas. informáticos. completamente fechado. pois. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). Contrariamente. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores).Rupturas.). por outro. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. 1. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. quando da sua transgressão e. Essa adesão. É preciso. Do mesmo modo. tão caro aos marxistas de outrora. as sociedades animais). para poderem inovar. E esses. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. Ela supõe. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. 139 . D. uma interiorização das normas e uma culpabilização. biológicos e mesmo etnológicos. devem inicialmente ser especificadas. REYNAUD). a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. por um lado. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. por outro lado. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. regras ou convenções para lhe dar suporte.

os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. no segundo. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. sem esquecermos ainda as marginalizações. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. as ocasiões de experimentar. por isso mesmo. em seguida. O imaginário da destruição pode. dos fatos de regressão (por exemplo. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. a modificação do tipo de conjuntura. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). No total. 140 . então. No primeiro caso.5 o pessoal patronal).Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”.Quando há ruptura. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. enquanto que. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. de sua unicidade histórica. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. Por outro lado – apesar de KEYNES –. inovações. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. pelos golpes das OPA. devendo encontrar. em período de crise. da sedentarização ao nomandismo). por exemplo). um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. os outsiders e os parvenus substituem. por fim. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. acumulação. de se expandir e. mais nitidamente. 2. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. Existe então. 3. seria preciso distinguir. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas.

tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. 141 . Paris: ERES.Mas a adaptabilidade do sistema. por conseguinte. André. então. por Teresa Cristina Carreteiro. “esgotamento da relação salarial fordista”). Ruptures. para experimentar as inovações. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes.). Cf. A continuação do funcionamento implica. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. portanto.T. tal como: 1. a adesão às normas e. n. normas. “L’économie des conventions”. mutations et complexification en économie (mimeogr. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. então.T. 40. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. 2. “Malaise dans l’identification”. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. Revue Économique. V. março 1989.). por conseguinte. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão.Rupturas. por exemplo. 3. Connexions. Cf. 1990. uma mutação estrutural.As estruturas (as relações de complementaridade e. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. 2. a aquisição de conhecimentos e de representações. N. um esquema ideal típico. 55. representações. n.). em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

Ela mobiliza atores em potencial. a introdução de novas referências. talvez anuncie o fim delas. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. então. nos anos 60. por exemplo. quando não destroem a sociedade em questão.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). não se trata mais de crises (isto é.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. E. e os transforma em autores das mudanças. TAPIE e outros). na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. Do mesmo modo. jogando. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. (Heráclito. de criança o reinado. João Paulo II. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. ROCCARD. por sua vez. No Ocidente. precedeu uma crise econômica. de incertezas). Fragmentos. Pois essas “perturbações”. “desfusão das pulsões”. 4. 2. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. MARADONA. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. 3. (Hobbes) Tempo é criança brincando. de algum modo. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. a qual. Atualmente.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. condições de “saída da crise”: l. Assim. no 52) A crise das identificações. porém robusta. MITTERAND. 143 . precedeu uma crise política. BRANDT. criam. reorganização das personalidades e reciclagem da ação.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite.

Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. desses imaginários de projeto. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. as “intermináveis adolescências” que. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. levados pela incerteza das situações e do futuro. ao contrário. por outro. a tipos de personalidade diferentes. a grupos étnicos. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. angústias de identidade. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. assim. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. reativados ou mesmo imaginados).No final de contas. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. ao mesmo tempo. O resultado é que. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. localizadas e transitórias. pode-se reciclar também a identidade. a categorias socioprofissionais e. de modos diferentes. assimilam e transformam. diz FREUD. de assimilação e de inovação. é claro. por um lado. tentativas de reconstrução. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. com todas as posições intermediárias possíveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5.Ela libera. o individualismo ilusório ou de oportunismo. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. não apenas a realidade parece incerta. para todos. O “mal-estar na identificação” traduz. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. 6.

do racismo. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. e a aparência NAP) pelo simbólico. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. A identificação que não se desvencilha do partido. as reativações religiosas atuais no Irã. da empresa etc. solidéus – kipas – hebraicos.3 A família.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. c. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. em vista da emancipação para o societário e a individuação. a regra e as sublimações. religiosas. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. da igreja. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). é claro. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. profissionais. a. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. finalmente. b. organizacionais etc. regionais. Fenômeno que ilustra 145 . é paralela à involução identificatória de seus membros. de classe. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. nacionais.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. gorros cristãos etc. nos dois sentidos do termo. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. Assim. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. Por exemplo.

b.Do primeiro diremos pouca coisa. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. é. fortalece as exigências da necessidade econômica. O retorno pode ir ainda mais longe. exatamente como Deus. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. a. “tem necessidade dos homens”. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. principalmente. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. entre 1983 e 1988. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. por sua vez. ipso facto. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. sendo aliás esse que permite aquele. às avessas. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . justamente porque mais na moda.Mais interessantes. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. especialmente na França.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. além disso. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. E isso. Quer dizer que o narcísico. o narcisismo individual. Ela é. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. primeiramente. com o dinheiro. isto é. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal).

A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. em prêmio de Schadenfreude. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. manter ou criar os meios de aumentá-la. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. simultaneamente. o prestígio etc. mais tranqüilizadora. se autodestruiria. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. é mais simples escolher a binaridade. numa androgeneidade fecunda. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. o mercado. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. O dinheiro. “Criem sua própria empresa”. talvez. Isso é talvez patológico. induz não ao 147 . a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. o festivo. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. se ela for realizada. notemos que o modelo do sucesso individual. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. essa acumulação pecuniária permite. Entre a binaridade e a injunção contraditória. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular.) permite. de junho de 68. o sucesso dos outsiders permite também e. Por enquanto.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). A monetarização. Além disso. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. caso se propagasse a todos os agentes. Enfim. Assim. em substituição ao “Mudar de vida”). Na verdade.

necessariamente. a individualização extrema dos novos modelos. Intermináveis adolescências. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. passa-se rapidamente. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. cada um será. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. na época atual. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. entretanto. nas três etapas – puberdade. adolescência e pós-adolescência -. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. a partir de elementos de vestuário comuns. Acrescentaremos apenas algumas observações. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . 1. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. No caso de fraqueza delas. a nítida binaridade do mercado. em contrapartida.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. esse narcisismo manipulador. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. (T. logo. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. um cavaleiro solitário. ao insolúvel. a programação dos computadores das Bolsas) que. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. daí resulta.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. no que tange à história do capitalismo. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. Com a condição. pois. Assim. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. fora do controle exercido pelo Centro. Nesse caso. uma vez instaladas. por historiadores como BRAUDEL ou I. produzem-se onde não se espera e constituem. Além disso. “surpresas”. 154 . Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. inclusive jovens executivos12. Além disso. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. pois. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. conjugada com a manutenção dos objetivos. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. antigamente atrasadas. pelo menos em muitos jovens. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. não podem ser reorganizadas e reorientadas. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. Pode-se. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. mesmo que sejam minúsculas. É por isso que as revoluções. por exemplo. entretanto. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. em certas regiões. como.

) pelas outras. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. mas existem. unicamente confirmadoras da identidade. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. Assim. Paralelamente. das idéias. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros.. aí. podemos contrapor. MC DOUGALL). GODALIER). cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. ao contrário. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . numa situação de mal-estar. das coisas. jogo de empresas. dos valores. dos prazeres.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. no início. cujas identificações seriam.. política etc. E como se sabe. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). a captação do lúdico (jogo de papéis. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). logo. constitutivas da personalidade e. no adulto não é a repetição mas. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações.. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas.. Mas. as identificações são. a conformidade e. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. idealmente. Em contrapartida. a personalidade arrisca-se a desmoronar). É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. diz WININICOTT). Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. ainda mais. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. em seguida.). do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. do espaço. por sua superação.

então.a dificuldade está. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. . mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. Mas. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. então. representadas e transicionais. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. por exemplo). com o 156 .os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . . Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. imprecisas e transitórias. como vimos. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza.13 Fundamentalmente.experimentam-se. . . Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. em transformar as identificações laterais. entre esses tipos extremos e opostos.tentam-se. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. sem dúvida. então.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. DUPUY. Essa é. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. em identificações hierárquicas. ao mesmo tempo que se escreve. Desse modo.

2.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. da maioria dos marxistas.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. e das intermináveis adolescências. Algumas conseqüências 1. Chegando à encruzilhada. apesar de tudo. aliás. quanto para aqueles que o desemprego. Enquanto isso. (O que prova. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. como na tectônica as placas entram em fricção. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas).. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. em concorrência). tanto para os autores das mudanças. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. Daí a multiplicidade. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. de bandeiras. das utopias (“mudar a vida”. o fim da história só concerne a cada indivíduo). a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. o mal-estar subsiste. dos indivíduos e da identificações 157 . das coordenações pelos sindicatos etc. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. em 1981). Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. Há. com a eliminação das organizações. no fim de contas. às vezes. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. de passagem. pois. na Colômbia ou alhures. outsiders ou reciclados. podem entrar em conflito. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. por isso. Essas apropriações podem.. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. que apesar de HEGEL. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. de fetos ou de liberdade de viajar.

as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. a estrela polar) são. os tempos. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional.). ENRIQUEZ. um momento dessa ascensão. as culturas etc. E a que corresponderia. então. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. como alguns dizem. as únicas referências ainda fidedignas. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. necessariamente. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. amanhã. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. ao mesmo tempo agradável e funcional. talvez. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. 3. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. encontramo-nos. Ora. principalmente). mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. pedidores de emprego. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. 158 . as gerações. Os signos (o sol. O barroco societário atual é. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. e a complexidade progressiva do sistema.Mas sabe-se também que o vínculo social e. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. Talvez. das normas e das formas. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. os espaços. por um momento denegadas (entre os sexos. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos).Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. portanto. Por isso.

1990-1. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. As épocas de crise e reconstrução valorizam. a receita das identificações complementares novas (e. n. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. Petit Larousse.T. no mal-estar. 1981. Oeuvres: Économie. Tomo 1. 1989. p. para outros? Mas. Auteuil. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. sem dúvida.. sociedade e personalidades”. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. “L’économie des conventions”. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes).” In: M. Revue Economique. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. N. do econômico ao sagrado. W. 29. NAP: Neuilly. É por isso que. 55.. 40. Hoje ele teria. na formação de ninho familiar. Temos assim uma alternância de interpretações. Pléiade. Gallimard. por Eliana de Moura Castro. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. simultaneamente. então. MARX. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). logo. no adulto que eles se tornariam.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. O problema: em época de “destruição criativa”. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. ao contrário. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Passy. das coesões) não parece ainda inventada.]. Estaria a saída. Connexions. nas diferentes esferas do social. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. Mais dura foi a queda. os atores (Individualismo). da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. 159 . Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. C. 239. 61-78. RUBEL. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. naturalmente). edição de 1963. “Zur Kritik. André. p. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. 2 de março.

Paris: Seuil. 1975. 1983. R. P. ENRIQUEZ. BELL. Cujas. Paris: ESF. mobilidade. CROZIER. 4. 45. AULAGNIER. Paris X. J. ne m’aime pas. Winnicott en pratique. P. 1981. 1976. Paris. FRIEDBERG. ARMANDO. 1950. Paris: Flammarion: 1974. Interminables adolescences. Paris: PUF. DENOYELLE. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. E. Les contradictions culturelles du capitalisme. Autrement. M. Autonomie et systèmes économiques. Paris: Fayard. J. Grenoble: PUG.. DETIENNE. BAREL. 1982. LECA. P. 1960. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. para TARDE. C. Aux carrefours de la haine. A. Connexions. CHASSEGUET-SMIRGEL.] uma não-imitação de exemplos paternais”. BALANDIER. Paris: Seuil. L’institution imaginaire de la société. 1979. M. P. n. 1989. ELKAIM... Si tu m’aimes.-P. F. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. Uma mudança social. BELL). De la horde à l’Etat. M. 1979. Paris: Seuil. 1988. New York: Collier. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. “Le changement en question”. La distinction. por outro lado. E. n. Le désordre. Paris: Grasset. J. VERNANT. ENRIQUEZ. Cf. Y. L’homme et le sacré. 1982. Les deux arbres du jardin. Freud et l’éducation. 1974. 1989. CASTORIADIS. Paris: PUF. Paris: des Femmes. Paris: Epi.. Paris: Gallimard. 160 .Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. 51. L’individualisme. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. oportunismo. Toujours plus. L’auto-organisation. Paris: Minuit. J. Les révolutions minuscules. “Les représentations sociales”. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. 1989. Paris: Gallimard. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. 1979. Paris: Seuil. n. L’acteur et le système. Paris: Seuil. J. 1982. Ordres et désordres. BOURDIEU. 1988. 1977. D. Connexions. 1988. 1988.. CAILLOIS. ANREP. Paris: Cerf. Tese. DUPUY. Le lien social. CERISY (Actes du Colloque de). Les destins du plaisir. G. The end of ideology. Paris: PFNSP. T. 1984. Le paradoxe et le système. 1988. D. Bulletin de l’AISLF. n. 1985. DE CLOSETS. BIRNBAUM. 29. M. 1987. BELL.

Paris: Gallimard. n. MOSCOVICI. Paris: Gallimard. 1977. WIDLOCHER. A. LASH. psychose et perversion. FREUD. “La voix écoute”. L’autre et le semblable.. 1989. OLIVIER. n.. MENDEL. FREUD. Le retour de l’acteur. GODELIER. Paris: PUF. 161 . angoisse. 25 de out. G. Freud et le problème du changement. G. 26 jan.. Ch. FREUD. “L’économie des conventions”. 1974. “Penser le chômage”. Revue française de psychanalyse. et al. Vers la société sans père. 10. MENAHEM. Paris: Plon. D. G. M. Psychologie des minorités actives. S. WINNICOTT. 1981. NICOLAÏ. Paris: PUF. 1989. Le Monde. A. 1980. Rationalité et irracionalité en économie. Les enfants de Jocaste. 1971. 1973. de la vertu et de plaisir. 1981. Paris: Payot. Pour décoloniser l’enfant. 1971.. n. Anthropologie structurale I. 1989. Inhibition.” Connexions. Nauplie. Mc DOUGALL. LÉVI-STRAUSS. SEGALEN. NICOLAÏ. 1980. G. FREUD. “La nation disparaît au profis des tribus”. n. n. Ressources. A. n. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 15 nov. 1989. S. D.1974. “Et mourir de plaisir. Reedição GEX. Paris: Laffont. Paris: Denoël. Paris: Payot. W. Pouvoirs de l’horreur. 1989. 1984. S. A. GOFFMAN. 1958. J. 1983. A.. Les lois de l’imitation. FUKUYAMA. Paris: Gallimard. Le Monde. L’empire de l’éphémere. Paris: Fayard. 1951. S. TARDE. junho 1987. 1989. Paris: Minuit. S. 38-39. 1966. E. Le complexe de Narcisse. FREUD. outono. 1988. symptôme. 1980. 1989. KRISTEVA. 40. 47. FINKIELKRAUT. 27.. 2 de março. MITSCHERLICH. Paris: Gallimard. 1982. nov. D. “La politique en apesanteur”. Le Monde. 18 julho. TOURAINE. H. Névrose. 18 mai/7 jun. LE GENDRE. Paris: PUF. A. Malaise dans la civilisation. LIPOVETSKY. SIBONY. 1989. “Et le poussent jusqu’au bout. NICOLAÏ. Idéaux. Paris: CNRS. 3. Paris: Gallimard. Les rites d’interaction. 20. Revue Economique. Cl. Cl.. 1970. M. S. 1979. L’effort pour rendre l’autre fou. n. Cl. 51-54. “Les mutations de la famille. 1978. Traverses. B. Jeu et réalité. Paris: PUF. Paris: Seuil. n. “La fin de l’histoire?” Commentaire. 1934. J. Paris: Maspéro. 1979. “Les Français et l’argent”. Forum de Delphes. 1980. out. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion.. In: Essais. Paris: RFP. 1971. Paris: PUF. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. “Psychologie des foules et analyse du moi”. SEARLES.” Peuples méditerranéens.” L’homme et la société. La pensée sauvage. Le déclin du complice d’Oedipe. SIBONY. D. Paris: Plon. LÉVI-STRAUSS. 1987. F.. nov.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

sem vê-lo como algo já dado. nas décadas de 60/70. Poderíamos dizer. que essa “crise” também eclode em vários países e que. ela tomará formas próprias. entretanto. Benevides de Barros É. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. 1987). LÉVY (“Intervenção como processo”. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. instrumentalizada então. desembocando. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. a partir da divisão não-saber x saber. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. contribuir. 1980. na maioria das vezes. também. Pelo que eles mesmos nos contam. sem dúvida. de A. em fins de 50/início de 60. lançar um olhar novo sobre o mundo. 1980) e de E. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. por exemplo. Assim. pelas Comunidades 165 . É bem verdade.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. mais tarde. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. criando em nós uma vontade de entrar no debate. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. os textos de J. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. em uma espécie de “crise das instituições”. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. No Brasil. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. essa parece ter sido. em cada lugar.

Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. HESS. fica claro que “Movimento Institucionalista”. de modo generalizado. então. R. analisador histórico do status quo vigente. chegar também até nós o eco dessas produções. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. na interseção dos campos filosófico. LOURAU. da burocracia partidária. desde essa época. então. uma certa psicossociologia se faz intervenção. Os fins do anos 60/década de 70 serão. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. o país. inserem-se. como à Argentina. A. ENRIQUEZ). J. à Socioanálise (R. presenciamos. palco de uma produção expressiva. LAPASSADE. por outro. No Brasil. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. J. principalmente. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. E. convulsionado pelo golpe militar. Por aí. ainda. designa a crítica à naturalização das instituições. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. ao Chile e ao Uruguai. No campo da Psicologia. G. político e social. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. crítica das experiências instituídas. através do contato com os “institucionalistas” franceses. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. do conservadorismo universitário. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. GUATTARI e G. PAGES. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. de um lado. 166 . DUBOST. Em meados de 60. O mês de maio de 68 francês. Vemos. DELEUZE). LÉVY. As instituições são analisadas. Ainda que marcados por grandes diferenças. quando tomado em seu sentido amplo. colocou em cheque. ARDOINO) ou. questionamento de seus modos de instrumentalização. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas.

Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. através do Curso de Psicologia.. O recente trabalho de M.R. segundo a autora.(.P. 3-4). participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. em 1959. 1992. via Universidade e. p. que congregou pesquisadores práticos (. Ambos haviam participado.. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. da formação da A. sobretudo... alguns de Enriquez.) Em 1971. segundo M. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. Com PAGES. de Rouchy e. A entrada se dá. portanto. tivemos entre nós.. 1992.. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.. respectivamente. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). mantinha. a influência do pensamento institucionalista francês. Se no início a orientação era claramente norte-americana. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA).. (MATA-MACHADO. p. p. Junto com René Lourau (. MATA-MACHADO. É marcante. Lévy apresentou-nos. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. 2) O pensamento institucionalista atravessa.. sob a liderança de Garcia. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972.)”.). a partir de 1968. mas há algumas produções importantes que já apontam. 167 . para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. 2). de forma mais pontual.. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. “(. Lapassade (.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE.. (MATA-MACHADO.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. mais especialmente.. cuja prática foi denominada Socioanálise”..) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. além de seus próprios escritos. com a qual logo rompemos (. voltado à pesquisa e à prática. Em 1967.).I.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional.. como grupo.).. 1992. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.

)” (MATA-MACHADO. LOURAU. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. LÉVY. Essa perspectiva é. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. por um certo tempo. MENDEL). F. GUATTARI. pedagogos. Hoje.. O pensamento pichoniano. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. 1992. menos desejosas de mudar o mundo (. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. além dos autores já citados. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. fez com que.. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. mas estendendo-se até hoje. DELEUZE. no Brasil. cujos interlocutores privilegiados são A. 168 . No Rio de Janeiro. G. 4). atentas às características da realidade brasileira. 1992). p.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. psiquiatras e psicólogos. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. LAPASSADE. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. R. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. somou-se a influência do pensamento de outros (M. p. enquanto que. Na década de 80. entretanto. há alguns projetos em andamento. G. o movimento institucionalista inclui sociólogos. É também na década de 80. CASTEL. Ao mesmo tempo. 6). em fins de 70/início de 80. 1986). J. entre outros). assim. LEITÃO e BARROS. O que se percebe é que. FOUCAULT. 1987). construindo-se práticas singulares. 1992. DUBOST e E. ENRIQUEZ. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. mais tarde. Encontramos. na Europa. G. segundo a autora. no Rio de Janeiro. “parcialmente abandonada. a partir de então. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. Digo isso porque chama a atenção o fato de que.

Atualmente. (coord. B. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. GUATTARI e de G. O inconsciente institucional. nas intervenções e práticas sociais. 1986. RODRIGUES. ROLNIK. DELEUZE. 169 . Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Rio de Janeiro.. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. 164p. difundiram-se os pensamentos de F. (mimeogr. Regina D. em suas várias vertentes. Gregório F. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. Cartografias do desejo. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. C.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. 1984. RODRIGUES. Suely. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. MATA-MACHADO. GUATTARI. Mas. tendo incluído outras influências teórico-práticas. de obras desses autores. desembocando em algumas traduções e publicações. Petrópolis: Vozes. 1992. as contribuições da socioanálise. 22p. Félix e ROLNIK. já toma contornos bastante diferenciados. o “pensamento institucionalista”. sobretudo. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. C. Heliana B. Rio de Janeiro: Vozes.). pesquisas e intervenções. Osvaldo (orgs). B. KAMKHAGI. na universidade – PUC/SP –. Regina D. 175p. em São Paulo. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. Vida R. M. e SAIDON. Belo Horizonte. mais tarde. Heliana B. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. História do Movimento Institucionalista. (mimeogr. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. incluindo. e BARROS. Grupos e instituições em Análise. Marília N. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. Análise institucional no Brasil. 327p. à instituição de formação e à de pesquisa. LEITÃO.). bem como na entrada. (orgs). 1992. Intervenção psicossociológica.). A década de 60: seus efeitos no pensamento. Especialmente através dos trabalhos de S. hoje. Micropolítica. em alguns casos. e BARROS. 1986. 1987.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. os princípios e as modalidades de sua intervenção. principalmente. Limitamo-nos entretanto.P. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 .2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos.as condições gerais que engendram. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. a natureza do “saber-fazer”. mais ou menos livremente.a formação. b. aqui.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. Por mais banais que sejam. a algumas observações. além dos desejos de terceiros.. c. a interação entre essas variáveis. o status e a posição social. Mas creio. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. finalmente. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. as dificuldades sentidas por um ator social.I. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. de variáveis como: a. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. implicando opções e esforços de imaginação e que. em primeiro lugar.R. em uma determinada situação.

da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios.).Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. estabelecidos na capital. Nesse contexto. em períodos diferentes. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. comportava. do recrutamento de pessoal. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. a busca de participação. Muitos dentre nós trabalharam. nos mesmos organismos3). de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. de reeducação. da formação em habilitações. Na Sorbonne. o funcionalismo etc. suas aplicações no domínio da economia. entre 1945 e 1959. simultaneamente. evidentemente. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. então. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise.. pelo problema da reconstrução. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. da conjuntura. inflação. de gestão. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. ênfase a métodos estatísticos. O período imediatamente após-guerra foi dominado. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. do 172 . formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. missões de produtividade. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. econômica e social. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. de estruturas de direção. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. o Marxismo.

na França. a partir de 1952. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. André BRETON. onde milito durante esse período. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. as obras de G. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. nessa época. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. da gestão etc. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. separam-se em duas tendências. da demografia. estudos de mercado –. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. por exemplo. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. pela Dunod). o movimento que iria ser denominado “institucional”. então. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. a relação crítica e complexa que G. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. o movimento trotskista. pouco conhecidas na França. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . no plano das práticas. a partir dos anos 40. lembremos. MORENO e depois ROGERS). o movimento surrealista se encarrega logo (cf. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. se as tentativas de Reich são. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. em 1961. em seguida. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. especialmente. desenvolvendo uma abordagem mais global. é o momento também no qual G. Em relação a esse último ponto.

Entre essas últimas. um dos colaboradores dessa equipe. 174 . sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. em 1947-1948.G. R. durante a ocupação.E. Perret. Igualmente um outro. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). servem. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. mas elas permanecem muito próximas. sobre a “moral” da empresa. no qual se encontra B. Antes de sua volta aos Estados Unidos. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?.S. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. WILLIAMS. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. com o restante do relatório. em função do problema da burocracia operária. Entretanto.O. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. CASTORIADIS4 e Cl. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. separa-se da IVa Internacional.5 retém. a C. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. em 1949. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. dirigido por C. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. LEFORT. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). desde sua origem. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. na relação que elas estabelecem com o cliente. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção.

ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. da mesma forma que a direção. junto a pessoal assalariado de uma empresa. apoiando-se nos resultados. passando pelas reformulações européias do T. porém. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. Da mesma forma. em empresas maiores. elas colocam. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. 175 . como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa.W. se abrem a uma abordagem mais clínica. Ao contrário. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. parece cada vez mais interessante. e eles devem ter acesso aos resultados. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). em última análise. de início. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. depois eventualmente coletivas –. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. as que são conduzidas por equipes francesas. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem.I. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta.

o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. sua natureza real. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. ou aos que decidem – Direção Geral. absenteísmo. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. que fala sobre seu campo e suas intervenções. Ajudando todas as pessoas. segurança etc. grupos de mais velhos. pelos sentimentos coletivos. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . as disfunções. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. modos de remuneração. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. no interior desse quadro de atitudes. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. e essa não sendo a conseqüência menos importante. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. ele se pergunta se os bloqueios. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. as relações intercategorias e as microculturas da organização. pirâmide de idade. higiene. Direção de Pessoal –. Por outro lado. a se expressarem. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. Enfim. as crises. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. para uma orientação mais clínica. Ele faz da relação de consulta um problema em si. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. algumas vezes antigos. turn-over. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. feita pelos encarregados da pesquisa. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos.). pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. um objeto de trabalho. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. Em outros termos. de pagar o preço por sua solução. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. cujos conflitos. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. e tenta inventar.

à medida que esses são identificados. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. 177 . isto é. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. sem dúvida. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. permitindo a expressão do reprimido. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. além dos arranjos menores concedidos. mesmo nesse caso. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. ele crê que. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. ele próprio contribui. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. mais tarde. ele exerce uma pressão que. ajuda as categorias vítimas da repressão. de fato. Porém. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. mesmo desejando o contrário. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. Nessa perspectiva. isto é. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. os sistemas de comunicação na empresa. sem dar conselho. em especial dos inconscientes. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. do especialista em uma técnica de produção. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. de perceber direções de solução. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. acaba totalmente reforçada. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. se aceita. gestão ou organização.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. de fato. os processos de preparação e tomada de decisões. a idéia de que a intervenção.

que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. nessa época. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. os limites das ações de intervenção. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. mais do que acelerar tal processo. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto.. No momento da criação. mas também em uma transformação cultural profunda. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. (1959).Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. em uma empresa nacional. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. Tenho a impressão de que. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. a 178 . Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. O caráter clínico do novo grupo. Os anos sessenta No momento de criação da A. A outra continuava a realizar. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução.P. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. Da mesma forma. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos.I.R. do psicodrama analítico etc. das formas de autoridade. então.

a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos.7 Paralelamente. a metade já era. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. uma longa intervenção em uma empresa implanta. de inspiração rogeriana. dominou os primeiros anos de funcionamento. atuando diretamente no campo. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. neles. até 1966 (marcado pela vinda de C. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. nesses. ou iria finalmente se tornar.I. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. a continuidade no tempo. e ainda agora. de metodologia psicossocial.). durante todo esse período. A orientação não diretiva.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. de formação de adultos. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático).P. de sociologia das organizações. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. reunindo às vezes toda a equipe. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. se podemos dizê-lo.6 No começo dos anos sessenta. a metade das atividades da A. dez anos depois. era de um terço. HERBERT. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. A organização e a condução de seminários representa.-C. grupos abertos de análise etc. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . terapeutas ou analistas. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. algumas vezes mesmo de introdução à economia. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. do sócio-técnico e mesmo do econômico.R. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. outras vezes apenas três psicossociólogos. ROUCHY). em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. a proporção era aproximadamente de nove décimos.

F. junto a organizações com função econômica. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. por volta de 1965.E.R. de padres e religiosos. 180 . em Paris. Psicossociologia e Política etc. em 1961. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. junto a um Centro de Produtividade. a guerra da Algéria. então. de maneira ainda mais geral. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente).). a demanda se estende a associações. de atendentes. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. desenvolvimento organizacional). as condições ideológicas próprias da França.I. na equipe. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. por exemplo. movimentos educativos. de trabalhadores sociais. de psiquiatras e de psicoterapeutas.P. diversos membros da A.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U.N. É sobretudo na França. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. Ao mesmo tempo. é uma intervenção no México. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. Entretanto. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. a integração. para explicá-lo. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. durante vários anos. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. Mas creio que é necessário evocar também. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão.

V. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE).Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros.N. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. que dava uma direção totalmente imprevista. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. simultaneamente política e cultural.E. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. centrando-se na evolução das pessoas. com os quais a A. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. o período que se seguiu a maio mostra. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . dentro de certo prazo. através do desenvolvimento de ações locais. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural.10 . As instituições não se analisam. Embora alguns dentre nós víssemos. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e.O. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. por exemplo. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. de uma audácia espantosa. uma evolução global do sistema educativo.R.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . . ao considerarem suas relações e vida psicológica.I.P. mesmo que modesta. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. não desembocou no político. uma direção susceptível de provocar. nas ações de movimentos como a F. como muitos outros. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. antes de 68. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal.E. como o fazem os indivíduos ou os grupos. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção.. por parte da instituição. trabalhava desde 1964. ao contrário.elaboração de projetos de pesquisa-ação.

tende a se ver como um analista com funções de elucidação. a “socioanálise” ilustra. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. “agente de mudança”.Porém. na prática. bem problemático. . se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. no plano das idéias. no último período. ele deve ser buscado em outro nível. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . tal opção. mesmo quando. benefício a mais).11 Estudando (por três vezes: 1963. afastando-se dela em seguida. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu.nos anos que se seguem à Liberação e.A partir dos anos 60. ou melhor. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. devendo ser afastado ou suspenso. no campo social. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. 1967. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. sem dúvida. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. Como o mostra André LÉVY. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. progressivamente. até o começo dos anos 60. em especial lacaniano. ou “indutor de mudança”. sob a influência do pensamento psicanalítico. mas também de seu objeto de trabalho. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. O modelo do analista pareceu sempre. Esse último aspecto leva à questão mais geral. quando as referências à pedagogia ativa. 182 .Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. parece-me que.12 . parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional.

é certamente oposta à acepção lewiniana. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. na referência ao próprio lugar ocupado. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. nem a se considerar parte da ação. com todos os riscos que isso comporta.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. A expressão pesquisa-ação. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. no campo. nunca é independente. como pesquisador ou consultor social. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. por exemplo. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. presente nele. ou que se tenta ocupar. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. a esse respeito. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. e.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. pertencente ao campo estudado. Toda intervenção psicossociológica. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. sobretudo. cedendo a pressões de que se é objeto. Simetricamente. tendo em vista sua própria história. lugar onde se está. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. Se ele se encontra em uma posição menos central. por exemplo. porque ocupa.

a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. 1332 etc. não se pode. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. In: ARDOINO et al. 1972. 12 Cf. Le psychosociologue dans la cité. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. 1980. ou mesmo depois de terminar. 13 Les Mots. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início.O. de forma mais livre. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. 1977. Droz.”. presidido por Jean STOETZEL e. 3. “Une intervention psychosociologique”. 29 de Connexions. 8 Cf. 1971. 4 Cf. les Sorts. la Mort.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. 1304. 1980. contra. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. 1303. jan.T. 1972. 2 3 184 . 1331. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). In: Fondation Royaumont. 11 Cf. quatro anos depois. Paris: Epi. n. Continuando. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. ROUCHY em Connexions. desde sua criação. 825. com universitários como Georges FRIEDMANN. Sociologie du Travail.-C. 9 Cf. de 1955). sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. 50-68. André. “Dire la loi. 17. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. por Marília Novais da Mata Machado. Jean-Claude ROUCHY.. A C. 5 Compagnie Générale d’Organisation. 1969. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX.S. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. por exemplo o artigo de J. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. 10 Cf. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. n. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie.-março. mais recentemente. sobre. Paris: Payot.) e dos de Cl. secretário geral da associação. seu vice-presidente. 7 Max PAGÈS. J. Intervention et changement dans l’entreprise.P. Paris: Dunod. 2. L’intervention institutionnelle. e de A. Psychosociologies. p. André. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. Épi. responder a essa questão. Connexions. de PERETTI. o capítulo “Variantes de la cure-type”. Jean e LÉVY. LÉVY. evidentemente.. LACAN. n.G. Ecrits (por exemplo. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. n.). n. Connexions. “L’Analyse social”. sobre esse último ponto.E. 1963.. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 1967. 806. 1978.F. a partida de Max PAGES. Gallimard.O. 857.

Porém. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. à crença em sua positividade fundamental e. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. mesmo que artificial. há muito tempo. sobredeterminado por uma profunda lógica. Tal afirmação. Porém. quando é apenas verbal. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. esses ainda são muito relativos. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. Parafraseando HEGEL. através das contradições de suas condutas profissionais. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. entretanto. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. 185 . como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. bem ou mal resolvidos. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. permitindo esclarecimentos progressivos. porém. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. além disso. No que me diz respeito.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. Esclarecer sua posição em relação às situações. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. tem qualquer coisa de suspeita.

cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. no mínimo. cada vez mais claramente. ainda hoje. desapaixonada. dizem respeito. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. instituindo.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . Durante muito tempo e. diferentemente lúcida. a reconhecer. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva.6 por esse rótulo. diretamente. ao contrário. reciprocamente. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. ou mesmo a um nihilismo. Toda a minha experiência. As tomadas de consciência. As práticas de intervenção. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. longe de chegar a um ceticismo. fundamentalmente. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. em relações diretas. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. leva-me. face a face. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. ela desconhece 186 . Ela repousa. junto aos grupos envolvidos. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. mais lúcida ou. na França. científica. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. ela é. sem dúvida. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. com freqüência.

de uma forma histórica. De toda forma é surpreendente que. que. com vistas a decisões e ações. de um lado. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. mas. de forma alguma.7 A última intervenção da qual participei. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. A reunião desses diferentes objetos na análise. isto é. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. 187 . pois a direção da empresa fazia disso uma condição. melhor coordenação administrativa.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. de outro lado. por sua vez. é apenas um simples instrumento ideológico. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. com efeito. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. implicitamente.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. Porém. data de 1972. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. cuidando. seu amigo. uma única vez. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. que adotava aproximadamente esse modelo. supõe. em determinado momento. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. visto como ligado demais ao responsável comercial. considerado como um diagnóstico e. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. esclarecimento das funções. quase narrativa. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. então. Tal metodologia induz. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. caso contrário. de quem dependia bastante. os problemas atuais da empresa. sobretudo.

algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). ideológico-afetiva. mas potencialmente articuláveis entre si. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. em outras palavras. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. reconstituído graças a nossos cuidados. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. para apreender a “realidade”. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. A perda da esperança acarretou. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . organizacional). porém situados no mesmo plano. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. sem dificuldade. e de passar assim. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. no limite. complementares. a coexistência desses diferentes discursos. traduzia também. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. então. expondo cada um com a mesma objetividade. de um a outro. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. e. particularmente por meio de nosso relatório oral. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. à medida que cada discurso. Em outras palavras. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. como se esperava de nós. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. inevitavelmente. A pesquisa havia fortificado essa esperança. e sobretudo. sobretudo. um de cada vez. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo.

desconectados das condutas e estratégias. a partir de diversos “pontos de vista”. é a função das representações. escutada ou recusada. não aceitamos seus pressupostos.Intervenção como processo (subjetiva demais. o levantamento de dados. assim. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. para o recalque: primeiramente. sabemos. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. assim. associa-se necessariamente à busca de um sentido. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. constrangidos. em seguida. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. ações ou decisões (saber para). Mas se aceitamos. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. então. ao contrário. que não se reconhecem como um discurso. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. de uma explicação geral. desejaríamos. o “real”. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. a pesquisa contribui. articulá-las. legitimamente. Essa crença conduz. isto é. Essa experiência possibilitou-nos. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. em contrapartida. 189 . em discursos que as pessoas expressam. reduzidas a enunciados fechados. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. Longe de favorecer um processo de análise. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. qualquer que seja a maneira como é conduzida. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. no mínimo. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. embora imperfeitamente. perceber o quanto a prática da pesquisa. excessiva demais) e conservar. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente.

A não ser que se idealize o processo de análise social. no sentido pleno do termo. ser feita em uma experiência de comunicação. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. então. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. sob forma falada ou atuada. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. na qual o imediatismo do risco é sensível. reciprocamente. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. pode ocorrer. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. então. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. instituídos. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. moral ou corpórea. na qual uma resposta instantânea. Só é possível. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. Porém. na enunciação. sua posição de exterioridade é apenas relativa. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. mas. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. se há um resultado do qual estou seguro. com efeito. Os grupos face a face aparecem. independentemente das maneiras como se atualizam. essa só pode. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. se articulam e se transformam. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. 190 .

191 . tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. no sentido preciso desse termo. o respeito à regra de abstinência. das quais necessariamente é parte. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. isso é apenas uma petição de princípios. no próprio ato que o institui como analista. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. com a participação do analista-interventor. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. essas relações implicariam particularmente. do não agir. material ou simbólica. por parte do analista. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. uma vez que. em função de uma “demanda”. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. pressões. por exemplo). isolados de toda historicidade. ele se insere no mesmo sistema de alianças. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. Nas situações de intervenção. estratégias. mas relações de transferência. desde o início. grupo do outro. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. corpo a corpo. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar).

de termos como o “grupo” ou a “demanda”). Reconstruindo de forma fictícia tal situação. um serviço). o grupo ou equipe como unidade diferenciada.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. no mesmo ato. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. traduzia o desejo de tirar 192 . por meio de regras explícitas e implícitas. isto é. quanto para as relações internas. do “aparelho psíquico grupal”. fora da situação de análise. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. seu objeto. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. ele elimina.12 e a legitimar sua interpretação. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. O interventor pode. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. então. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). tendo que tomar decisões e executá-las. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. por exemplo. não unificada. Um dos objetos de análise pode ser. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. por antecipação. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. fragmentada. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. assim.

Não se pode escapar disso dizendo. pesquisaação etc. Um dos resultados. como. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. paradoxal. o abandono de tabus. especialmente do médico-chefe. assim. Certamente. ele entra em conluio com as resistências. institui tal quadro. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . que continuaria submetido às regras administrativas. o que vale não só para a análise. a não ser provisoriamente. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição.). numa colocação em ato do desejo.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. merece ao menos uma explicação. Nessa perspectiva. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. do trabalho de análise. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. de uma terapêutica localizada. à medida em que o trabalho progride. e o grupo de suas restrições externas. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. essa modalidade se constituía. que a emergência dos conflitos latentes. É por isso que. quando o interventor. a presença. mas também para o gozo sexual ou estético. a composição do grupo pode evoluir. com efeito. por exemplo. Se isso é em parte verdadeiro. a desmistificação de certas crenças. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. como o fazem certos psicanalistas. observações. as resistências internas na organização tendem. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis.

um novo pleno. as peças começam a circular. a da burocracia. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. Com efeito. a da organização científica do trabalho. do menos ao mais. um acontecimento marcado pelo advento. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. ao desconhecido. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . isto é. Com efeito. inclusive nas pessoas. a mudança representa para nós. Em um texto anterior. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. o acesso a uma história. um jogo mais livre se torna possível. então. em face à eventualidade de uma ruptura. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. O novo que aparece não é. antes de tudo. uma certeza a menos. uma certeza a mais. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. do pior ao melhor. ao risco. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. Não é uma soma.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. centrada no sistema de regras etc. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. centrada nos problemas de produção racional. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. um possível onde havia certeza. uma questão onde havia uma afirmação. mas uma subtração. ou como o reconhecimento de clivagens internas. toda teoria organizacional é relativa. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. com noções e representações úteis à ação.. à incerteza. de acordo com eixos orientados. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. no mínimo.. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. irredutíveis. conseqüentemente. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas.

para os outros e para si próprios. Nesse sentido. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. hierarquizado. mas em apreendêlas como discursos incompletos.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. tenta explicar. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. também ela. Nessa perspectiva. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. Assim. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. a análise não alcança objetivamente um real suposto. com efeito. Pareceu-nos. então. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. o processo de análise não pode. as ações e as divisões. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). temporais. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. enfrentar e ocultar as contradições que vive. ordenado. Entretanto. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. com a finalidade de construir referências. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. o que dá no mesmo. então. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. tendo sua própria pertinência. são discursos destinados a legitimar. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. desde 195 . mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. permanecem divididos os discursos de representação. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos.

com interesse e prazer. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Igualmente. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Assim. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. por diversas vezes. 196 . talvez tivesse mesmo o inverso. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. Embora eu tivesse trabalhado no passado. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. A razão de minha determinação. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. Buscavam essencialmente um “técnico”. Depois de uma breve hesitação. citarei o caso de uma intervenção muito breve. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. isso não apenas não os inquietou mas. em especial. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. reificaria significados. aliás muito rapidamente. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. ao contrário. aceitei. com pessoas pertencentes a esses meios. destinadas a serem engavetadas. tanto quanto pude analisála. por sua vez. Esclarecemos. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. em sua maior parte. que deveria ser. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. pareceu-me simpática. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. Para ilustrar o que precede. ela pretendia ser. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. como ocorrera na assembléia anterior. era o sentimento de que não poderia. mas a demanda. como condição para aceitarem sua missão. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. endereçada agora a mim.

de fato. o lugar deles. uma Assembléia Geral extraordinária. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. depois dos debates. que não podia ser perdido. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. Como já mostrei. diversas sessões haviam sido previstas. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. era considerado por muitos (ou. dois encontros no local da Assembléia Geral. vencimento dos prazos para decisões importantes). pelo menos. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. na história da Comunidade. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. em relação à Comissão e. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. em seguida. atendendo expressamente à sua demanda. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. Como cheguei lá. de um lado. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. cuja forma seria definida? 197 . oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. pela Comissão) como um ponto de transição. Ela havia sido decidida no ano precedente.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. Para isso. Tratava-se então de um momento que. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. à noite. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. e enfim. de outro lado.

intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. tomei conhecimento. talvez também meu próprio sobrenome judaico. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. esquivando-se dos conflitos e divergências. Parecia-me. Espantei-me. com a ajuda deles. sem implicação com o grupo. eu próprio me sentia um estranho. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. de sair de um estilo de relações muito corteses. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento.). pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. então. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. então. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis.P. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –.R. 198 . Eu era calorosamente acolhido.I. as regras às quais se submetiam etc. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. O fato de que eu estava lá como um profissional. com amizade e com confiança. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. a fim de levantar suas opiniões. ao mesmo tempo. tendo em vista a Assembléia Geral. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. Nessa ocasião. as relações entre elas. os textos definindo seu funcionamento. como um estranho mas não como um intruso. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. evitando toda aspereza.

mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 .Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. então. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. entretanto. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. a meu ponto de vista. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. com bastante veemência. em nome de valores democráticos. periodicamente. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. declarei-lhes: 1.Intervenção como processo No nível do conteúdo. pelas vontades expressas pela “base”. mas representavam também. 2. com relativa facilidade.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. sem dúvida. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. ao contrário. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. Pareceu-me. sem deixar de observar. para a escolha dos temas que seriam então tratados. assim. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. Eles aderiram. seu papel de porta-vozes puros. demonstrei que. em última análise. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. O papel que tinham era não apenas técnico. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. observei. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. que eles deveriam.

isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. No limite. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). com alguma hesitação). esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. eventualmente. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. sem implicar posições táticas e políticas. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). Com efeito. seria necessariamente confundido com a Comissão. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. ao contrário. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. Caso eu participasse da Assembléia Geral. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. Paradoxalmente.

por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior.Intervenção como processo como observador. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. durante um vazio de poder).quanto a mim. sobretudo. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. através de minha inesperada implicação afetiva. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer.R. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. mas no calor da discussão. ficou claro que: a. ligado à Comissão.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. b. uns em relação aos outros. sem direito à palavra. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. Deveria representar um tempo de análise coletiva.I.. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. c. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. entre nós e os membros da Comissão. judeu) tinham para eles. Assim. não em trocas prévias. formalmente. existente no real. mas também de escolha de orientação política. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. membro da A. durante o primeiro dia de trabalho. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). Certamente. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. isto é. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente.P. até a eleição do próximo Conselho. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. nossa posição profissional e inserção institucional. a partir dessas diferenças em status 201 .a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade.

destinados a serem comunicados à Comunidade. entre a Comissão e o Conselho. particularmente. Nesse sentido. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. em conseqüência. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. era “relativa”. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. e sobre o que pôde ser produzido. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. a partir desse primeiro dia. a partir desses documentos. entre as comunidades regionais. 202 . que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. lutar para tornar o trabalho mais lento. Na sua maior parte. Tudo isso. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. Foi preciso. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. entre outros escalões – e. às instituições ou às atividades). sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. entretanto. relatórios de reuniões. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. como membros dessas comunidades regionais. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. nossa alteridade. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). não se produz. Esse efeito de sentido. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. assim. como terceiro. da importância atribuída às pessoas. por exemplo. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. por sua vez. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. o desenvolvimento de um certo trabalho.

carregadas de subentendidos (por exemplo. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). em contrapartida. No curso desse processo. 203 . sem dar muita importância. na Assembléia Geral. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. sobre palavras fetiches. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. aparentemente menores. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. refletindo situações particulares diferentes. segundo os quais as definições da Comunidade.). não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. as questões a serem submetidas a voto etc. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens.Intervenção como processo considerando questões particulares. assim... encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. seja o conjunto de atividades –.. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. o que significava não considerá-los? O que se elaborava.. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. em seguida. da segurança. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. seja a coabitação em um mesmo lugar.”). da idade. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. por meio desse trabalho preparatório e.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. algumas vezes. ou mesmo. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. a definição da pauta dos diferentes dias. ou ainda.

mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. criar uma situação nova. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. de comum acordo. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. a-organizacional? Bem entendido. Para concluir. Nessa perspectiva. facilitando a escolha de futuras estratégias. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. quando aplicado a um processo de intervenção. permitindo-lhe aumentar sua força. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. o “serviço concreto do Homem”). melhorar seu funcionamento. de outro. de um lado. de um lado. de outro. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. fazer uma sondagem. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. ela constitui uma terapêutica dessa última. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. ao contrário. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. isto é. reflexivo e crítico. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 .

“quanto mais houver saber. longe de terem um valor geral ou intransitivo. essas afirmações estão longe de serem verificadas. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. uma afirmação da identidade desses dois processos. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. 205 . à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. senão de cegueira. em uma modificação das relações de poder. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. Com efeito. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. melhor se fica”. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. Em um trabalho anterior. ao contrário. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. com precisão. mais a ação é eficaz e pertinente”. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. uma colocada a serviço da outra. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. tivemos a oportunidade de demonstrar. antes. necessariamente. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. ela também não é. uma dose de desconhecimento. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. isto é. ela implica. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. a ação de outro. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. como alguns às vezes pretenderam. Assim. Ora. conseqüentemente.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso.

os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. um sistema de ação. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. a mais simbolizável. uma escola). mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. sobre seu passado. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. entre o que pode ou não ser escutado. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. como experiência. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. em uma organização ou em uma sociedade. 206 . entre os lugares de palavra e os de não-palavra. é a parte que permite trocas e manipulações. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. ao mesmo tempo.19 Por isso. com o mundo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. Assim. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. mas como um processo. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. em um processo de escrita. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. implica todo um trabalho sobre si. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. os transforma. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. O saber. tratando dos processos de pesquisa. Com efeito. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. por exemplo. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável.

dito de outra forma. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. por exemplo. para perdurar. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). é precisamente a impossibilidade. contabilizável ou informática. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. essa. em uma negação do inconsciente. visam a introduzir. já foi evocada anteriormente. Esse golpe de força. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de outro. De alguma forma. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. que. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. de um lado. de limitar. 207 . Se a existência de regras e proibições funda uma organização.Intervenção como processo Tal concepção de organização. para essas representações – esses discursos de representações –. ao mesmo tempo. especialmente do desejo de onipotência. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. o desejo de tudo controlar. é a condição de toda vida social. de uma racionalidade criadora. Daí o hiato persistente entre. assim. O processo organizacional funda-se. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. de realizarem sua meta de dar sentido. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. de toda construção material. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. a necessidade de dividir. espiritual ou mesmo afetiva. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. o desejo de tudo compreender e. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. que pretenderia circundar o sentido. As regras dividem e separam. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. no nível do pensamento. que não exclui nem dúvida nem incerteza. de separar. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. mas. clivagens e limites. ao contrário. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história.

já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. fazendo isso. então. Connexions.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. L’Analyse social. em seu primeiro esforço. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. Jean e LÉVY. ela se choca assim. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. I/1980. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. ao menos. sobretudo. mantendo vivo o passado. é importante. 2 208 . André. L’intervention institutionnelle. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. In: ARDOINO et al. quanto da análise que a torna possível. 69-100. 29. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. ou. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. Porém. 1980. até então bloqueada ou proibida. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. de ignorar as implicações dessa inversão. Dessa forma. por Marília Novais da Mata Machado. Paris: Payot. a se desenvolver. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. p. Respondendo a uma demanda de palavra. assim. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. uma palavra continua. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas.

de E. Paris: Seuil. pp. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica.. Como toda análise de conteúdo. de P. Gallimard. “Le changement comme travail”. 1978.”. L’amour du censeur. Thèse d’Etat. 1980. Connexions. Seuil. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . 21. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Em termos mais sofisticados. Les Mots. introduzido por R. Segundo o Petit Robert. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. Por exemplo: Max PAGES. 196l. em Topique. KAES. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. “Dire la loi. “L’interprétation de discours”. la Mort. trabalhando com a própria contratransferência. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Connexions. Mal-estar na civilização. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Paris: Payot. Cf. cit. “Sens et crise du sens dans les organisations”. também “Le pouvoir et la mort”. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. “L’acteur et le système”.. 29. Cf. op. Cf. 7.3 4 5 Inspirado em G. postula dois aparelhos psíquicos distintos. 49-68. FAVRET-SAADA.. CROZIER. Traduzido de: DUBOST. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. LAPASSADE. inédita. LEGENDRE. André. “Dire la loi. In: ARDOINO et al.”. I/1980. Connexions. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. les Sorts de J. cf. Connexions. ENRIQUEZ. FREUD. Sociologie du Travail. LÉVY. “L’Analyse social”. Nesse exemplo. 21. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações.. Jean e LÉVY. um individual e outro grupal. S. Esse conceito. Connexions. L’intervention institutionnelle.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

o procedimento de exclusão do real e. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. 2. ou. Entretanto. ainda. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. de forma concisa e injusta (mas. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. as práticas de formação. Por isso. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. Dizendo o mesmo com outras palavras. e mais violentamente. há casas para ela). de toda atividade de formação. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. isto é. uma dúvida me invade. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado.E também o que é o próprio sentido desse movimento. sem dúvida. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 .O que ocorre de essencial no ato formador. como a maior parte das indagações a respeito da formação. mais precisamente. Esse número de revista testemunha bem o fato.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. nesse breve artigo. possibilidade e multiplicidade das comunicações. e. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes.

de tempo. de um lado.a dos sociólogos críticos. Orienta-se (e não apenas na China. 2. cada um à sua maneira. O problema é unicamente operatório. ainda mais. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. de investimento pensado. temores do formado e condicionamentos sociais. Certamente. todo crescimento no domínio das informações. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. toda aprendizagem de técnicas teria.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. advindo a necessidade. a formação permanente torna-se indispensável. 212 . o progresso dos conhecimentos. a todo momento. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. sua vontade e sua imaginação. de outro. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações.a dos formadores e educadores. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. Toda formação. resistências. situando a prática que buscamos promover. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. para um sistema onde. Assim. mas também têm. então. de reciclagem e. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. de paciência. um efeito positivo para o formado. Trata-se. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. a fim de poder seguir as mudanças e. 3. para desejá-las e provocá-las. então.a dos psicólogos.

Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. estritamente falando. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. sempre a serem melhoradas. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. sem sonho nem loucura”.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). através da ordem. que o homem está sempre por nascer. além de toda interpretação. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. as brechas repentinas. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. que se torna assim excluído). ele se revela na ação. que a libido é turbulenta. na transformação e ele é. hoje. os blocos erráticos. cartesiano. o do louco. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. sem paixão. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. portanto. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. que as reconstituições são parciais. o do primitivo e. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. ao umbigo dos sonhos. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. da mesma forma. O comportamento adulto é o comportamento refletido. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. o do outro. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. mestre das leis e da morte. O real não está lá. do cálculo. que as causas determinantes não existem. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). o real é o que escapa a toda definição. Ora. obtido apenas 213 . como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. é o que excede toda análise. da medida. além de anularem toda diferença e toda dispersão.3 referindo-se ao racional e ao controle.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. inesgotável. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário.

o confronto com a finitude. 2. ao mesmo tempo. não se trata aqui de uma simples metáfora.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. Como viver o desejo do pleno. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. do que tranqüiliza. então. Temos de um lado o conhecimento. a alegria da certeza e. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. do questionamento do saber obtido. a opacidade. se for atravessado pela ideologia do senhor. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. Aliás. as provas de sua impossibilidade. imagens protetoras. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. a cada dia.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. De outro lado. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. falando dos signos da 214 . mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. Ora. a humanidade estará. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). Quando houver apenas Eus fortes.4 isto é. como uma água calma. como diziam os alquimistas. o seu contrário. pois ele não pode sê-lo. por isso. as variações de temperatura.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. E nunca esse programa foi mantido. a angústia de se perder no turbilhão de questões. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. desenvolvendo-se progressivamente. a energia que se desprende. temos a bola de fogo.5 Certamente. de hábito.

Conclusão: o que permanece são as certezas.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. Então. Os tecnocratas. Igualmente. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. 2.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem.. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. a despeito de suas diferenças. os psiquiatras aliados do poder. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”.. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais.6 Ora. mas uma relação angustiada com o saber. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo.Quanto ao segundo princípio. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros.

a mulher. Horizonte grande e enaltecedor. além do mais. grupos de encontro. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. alienada na sociedade contemporânea. Acrescentemos que. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. no qual se inscreve toda 216 . no momento. impacto social menor (estamos. é que a pessoa. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. É talvez por essa razão que. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. ao qual muitos poderiam se subscrever. há alguns anos. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). não existe. com seu corpo e com seus desejos. assim como as experiências de bio-energética. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. algumas vezes. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. o homem. esses mesmos estágios. gestalt-terapia. ter um outro modo de relação com os outros. tendo recebido um certo tipo de educação. então. é preciso. mas de peso. em um congresso de chefes de empresa. o cachorro ou com o estrangeiro que. que relações de poder ele pressupõe. aliás. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. Um importante dirigente internacional não dizia.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. liberação corporal e sexual. mas porque apresenta.

Trata-se unicamente de relações faladas e. Sua beleza desencadeia esse prodígio. por que falo dessa maneira. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. testados no mundo. Não se aprende o amor. não temos nada a dizer. Então. eles não se explicam. alguma coisa explode em mim.8 Pode-se apenas descrever tal estado. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. Mas. durante um tempo determinado. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. feito de uma explosão que me fascina. mesmo nesse último caso. como tais. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. justamente. renasço. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. Entretanto. num momento de estado de graça. Em contrapartida. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. por quem e por que sou falado. em técnicas e em posturas.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. a seu cheiro. que instituições me sustentam. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. então. LECLAIRE: Quando. que sofre e que ama. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. a quem falo. que podem ser atuados. à sua voz. que desejos elas retomam ou reprimem?. que dá a cada parte de seu corpo. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. complementares ou antagônicos. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. Como escreve S. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. de uma luz na qual me banho. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 .

as proibições. mostrando assim sua potência. Eles. essa explosão. pois as palavras trocadas. onde tudo era diferente. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. única fonte de mudança. na maior parte do tempo. assim. tomar o grupo em seus desejos. E talvez. chorará (o próprio ROGERS. como os weekends e as maratonas. os mais narcíseos) podem. Ficará apenas a lembrança de um momento único. favorecendo os processos regressivos. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). vai querer se fazer amar por todos. os tabus. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. as fantasias invasoras. Mas. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. não porá nada em movimento. Ei-lo. as manifestações sem seqüências. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. tomar o lugar do líder. embora plenas. Outro deixará se levar por suas emoções. questionará as instituições. estará pronto a largar mulher e filhos. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. seu rigor. as transferências maciças. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. o fazer ao dizer. e ele é um bom juiz. arriscam tudo e nada arriscam. do aumento do grau de irrealidade da situação. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. fazer triunfarem suas fantasias. analisando com toda a sua força. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). declarará sua paixão por uma estagiária. então. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). Uma vez de volta às suas instituições. certificando-se de que nada lhe escapa. esse irromper não ocorrerá. definido como um lugar no qual se deve comunicar. esses discursos. a não ser que queiram ou possam. pelo menos. Mas o psicólogo está lá para as acossar. a fim de viverem sentimentos intensos. não se entregam. um ato-falho. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. irromperá um lapso. super-ativo. não pode ser feito. seu “saber-fazer”.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. para que entrem em uma relação de transferência. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . os choros e os gritos de alegria. ou. O lento trabalho do negativo. de tempos em tempos. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. o tempo ao momento. para fazê-las sair de suas tocas. ao mesmo tempo. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. no medo e tremor.

o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. simultaneamente. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. assim. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. O único senão é que. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica.-B. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. o que é essencial é o que se passa no campo formador. Afinal. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. mas científico. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. em sua aridez. como muito bem o diz J. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. FOUCAULT). Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. Sem dúvida. aquele que dita a norma (M. seus métodos. ele é chocante e desesperante. Toda formação (qualquer que seja seu programa. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. é esse turbilhão do amor e da morte. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. em muitos aspectos. é a capacidade inventiva dos participantes. Além disso. Quanto a seu conteúdo. é o veículo privilegiado da dominação social. para expressá-las ou mesmo provocá-las. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. na formação. exato e periférico (não tocando no essencial). então? Vemos que o que é dito é. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. é essa troca de palavra.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. divulgá-la nas massas dominadas e. ou atento e vivido como o dos psicólogos. DELEUZE e GUATTARI). PONTALIS. Mas. A mensagem dada. Igualmente. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 .

ela não chega a ser totalmente dominante. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. depois de tê-los escutado. em uma palavra. profissionalmente e socialmente se mexam. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. explicável por um único tipo de lei.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. o que não se pode esperar dela. homogêneo. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. nas Questões propostas. o que ela esconde em seu próprio movimento. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. os movimentos sociais emergentes. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. não de uma formação (a rigor. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). Seus enunciados são tão gerais. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. se ela o fosse. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. de um processo. de constatação aguda e de desmobilização geral. 220 . cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. isto é. a transformação das relações sociais. tão sistemáticos. justamente. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. isto é. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. tenha sido possível ler. em filigrana. de um trabalho de mudança. a vida. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. mesmo se. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. que só nos resta.

políticas. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). ele não é o portador do sucesso da experiência. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. um jogo de luz sobre certos pontos que. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. em suas diferentes dimensões: culturais. ele deveria se calar?). seus entusiasmos. suas descobertas e suas resistências. resvalando. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). as correntes de informação. na situação. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. suas idas e vindas. fazem surgir formas da sombra. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. um encadeamento de Questões. provocando a vontade de respirar. mas sua relação com o saber. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. mas uma problemática. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. 221 . ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. suas interrogações e também suas paixões. uma movimentação de energias. Ele está lá vivendo. indicando. dessa desordem-ordem. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. Ausente. a criação de negentropia (isto é. Ele está lá simplesmente como uma referência. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. Quando ele intervém. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). aliás. suas falhas. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. desse lugar desocupado e fugidio. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. por isso mesmo. mas. organizacionais. Por meio dessa ausência-presença. assim.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. através dessa ausência. ele oferece não um saber. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro.

de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. os conflitos não têm mais espessura social. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. Como interpretar tal situação. uma atitude de deferência e de sedução. não há muito tempo. a relação com o saber é suspensa no vazio. tomando certos caminhos e não outros. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. de suas relações afetivas. a resistência se deslocou. um dos membros do grupo era particularmente escutado.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. praticamente nunca era contradito e. entre cem. tal funcionamento é profundamente mistificador. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. de seus corpos e. o resto do grupo o seguiu em bloco. formadores etc. 222 . quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. vivem em organizações específicas. para não falar de sua situação econômica. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. as diferenças são apagadas. Ora. Um exemplo. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. Não são pessoas ou seres desencarnados. No caso contrário. Por isso o trabalho do grupo será centrado. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência).). não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. tendo um passado. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. projetos sociais. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. Um outro participante manifestava. com relação a esse personagem. hoje.

outros atos sociais. a 223 . Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. confrontadas. realizaram. imaginário instituinte. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. é aberto sobre o mundo exterior ou. O lugar fechado. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. fazem propostas. Em cada sessão. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. A partir do momento em que o desejo circula. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. ação real e ideologia. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. a imersão na vida aqui e agora.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. um ou dois anos). o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. intensivo. aprofundadas. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. conduta e gesto. lugar de análise. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. não há mais dicotomia entre ato e palavra. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. É por isso que somos partidários de estágios longos. experimentaram. mais exatamente. fecundarão novas atitudes. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. outras palavras sociais. mas como portadores de suas angústias. construíram ou destruíram em seu meio real. os participantes falam do que fizeram. menos tal processo pode ocorrer. o foco em relações afetivas imediatas. de suas tentativas. imaginam soluções. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. de seus sucessos. de breve duração. Não estão lá como pura presença. retomadas.

em questão visar à dissolução pela dissolução. nesse processo que. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. Resistência vinda de indivíduos em formação. do excesso. a loucura e o sonho possam ter. talvez. com o saber) são descentradas. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. a fim de que a energia livre. todos juntos. direito de atuarem. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. de novo. períodos de análise refletida. Não está. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. Aqui. Momentos de mutismo e de temor. irrupções vulcânicas. Essa experiência da heterogeneidade. ser protegidos. do gozo). mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. depois de terem liquidado 224 .. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. a periodicidade desses momentos.. mais dinâmicos. do fogo e mesmo do caos. naturalmente. ter efeitos. algumas vezes. a precluir certos registros (da paixão. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. de necessidade de alimento. com o outro. do saber alegre. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. reencontra muitos obstáculos ou.. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. por enquanto. então. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. expressão gráfica etc. mesmo se ela pode se tornar criativa. ao contrário. discursos ideológicos desenfreados. possa. que o amor inexiste sem a experiência da morte. Trata-se. Não nos enganemos entretanto. falar. impossibilidades totais. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. uma angústia diante do desconhecido. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. ter caminhos balizados. momentos de embotamento. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. se interrogue sobre si mesmo.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. viva paixões. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas.

um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. deliberadamente. Intervenção psicossociológica. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. mesmo se os participantes podem. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. a utopia e a inquietante finitude. de trabalhar 225 . vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. eles reencontram a inércia das estruturas. seu possível devir Não está em questão aqui. da intervenção. o que ela não poderá jamais realizar. a dificuldade intransponível. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. provocar mudanças. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. tentar experimentar novas condutas. Enfim. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. sobretudo. entre as sessões. Trata-se. avançando uma série de proposições. naturalmente. E que. Essa experiência da margem. seu modo de existência. quando retornam às suas organizações. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. Naturalmente. se transformará em um simples prestador de serviços. é necessário que ele seja evocado. as numerosas escolas. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. Na intervenção. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. para nós. senão a violência simbólica da organização.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. então. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. mas a confusão. o espanto e o desprezo de seus colegas. que deveria transformar o que está no centro. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. o que ela busca induzir.

É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão.) e que desejam resolvê-los. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). antes de tudo. no processo de trabalho. como na formação. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. para se expressar. O que está presente não é. ao contrário.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. A palavra reprimida. consciente ou inconsciente. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. Essa recusa. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). A intervenção. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. além do mais. absenteísmo. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. Não por razões morais. mais exatamente. na hierarquia interna. mas. desperdício. impede de ver e de sentir outra coisa. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. como submissos. de melhoria de condições de trabalho. assim. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . que têm problemas concretos (de decisões. existissem como executantes da máquina. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. toda a violência do cotidiano que. uma situação irreal. então. isto é. numa primeira análise. recusa a alguns o próprio direito de falar. mas. desordem nas salas. de definições de tarefas etc. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. durante muito tempo. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. uma certa fissura no organograma da organização. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização).

Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. então. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores.T. Mas.D. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . a aceitar sua parte de loucura. pai-filho ou ele-outros. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. ou que possa pensar de fora da fábrica. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Não se trata de sonhar por sonhar. Colocá-la em causa seria um salto mental. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. transformador do mundo. para que o olhar se desloque. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo.F. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). Numa pesquisa efetuada pela C. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. O que resulta. para que possa interrogar o oculto. “ruídos”. pelas relações codificadas. a deixar seus desejos serem expressos. pensamento-execução. entre si e o outro. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. que faz surgir um real além do real percebido. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. relações de poder e separações instituídas. progressivamente.

Ele distingue. onde a lei. uma nova forma de educação. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. pessoal de cozinha e de limpeza. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. ou. metafórico. subvertidos ou. dessa maneira. ele classifica. a própria idéia 228 . os psicólogos. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. os psiquiatras. analógico. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. no mínimo. cada um se tornando.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. é o que permite a troca e a reciprocidade. o inesperado. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. é necessário que os modos de pensamento. ele exclui e. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. dessa ruidosa confusão. ator e analista social. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. além das crianças. igualmente. mas em uma maior fluidez. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. então. numa decodificação das relações. sua cronologia e suas articulações. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. com seus argumentos e suas demonstrações. imaginativo. ao se deslocarem. numa análise em ato da organização. decepção. pode sair a surpresa. isto é. O que significa. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. os educadores chefes e especialistas. que o surgimento do imaginário. a médio prazo. interrogados. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. promete apenas. Assim. é lei retomada. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. à sua maneira. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. sem análise. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. Aliás. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. fazem da criança também um educador. outras formas de relação e outros modos de estruturação. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. transformada e garantida por cada um. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. As posições.

Não se trata apenas do modo de pensamento. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. Assim. inversamente. por sua vez. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico.11 Queremos dizer que a verdade. na realidade. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. Mas aí também sabemos que. as “estórias de comadres”. a língua. Ora. Mas. da criatividade diária dos grupos sociais. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. falarão. As pessoas se submetem. isto é. então. atrás da imagem de falar bem. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. pelo contrário. à língua (a parte social da linguagem) dominante. para ser expressa ou reencontrada. o roubo da língua espontânea. colorida. já não indica que as relações de cumplicidade.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. de fazer. Buscamos. Quando. é como o dinheiro. submetem-se ao princípio do prazer. a invenção popular. divertida. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. nas organizações. da ortografia necessária. sob certos aspectos. na França. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. mas também da linguagem utilizada. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. de intimidade. o homo demens no homo sapiens. A língua. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. a verdadeira 229 . FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. dissimula. isto é. antes. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. da Psicanálise uma arte de construção. Naturalmente. um elemento de mascaramento do sistema social. Essa perspectiva não o impedirá. como ele próprio o diz. do bom estilo. isto é. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. pede que cada um pense e viva na contracorrente.

antes de mais nada. pode-se constatar que eles se protegem. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. Veja-se bem a dificuldade. inventar um falar. a partir do Século XVII. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . que são os que podem traduzir. mais exatamente. quando se escutam as palavras que eles utilizam. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. Se. Há uma língua dominante. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. Eis que chegou o tempo dos tradutores. em boa linguagem. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. mas o da dominação que ela instaura. reencontrar a língua perdida. pois o 230 . para obrigá-los. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. as frases que inventam. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. argumentada. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. reencontrar sua língua. Aliás. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. A mesma coisa ocorre hoje. Por isso. experimentar o seu calor. então. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. para se protegerem dos outros atores sociais. É por isso que atacar a língua dominante. Não apenas de autoridade. de seus mandamentos. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. dessa forma. se dá conta disso. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. confusamente. todo mundo. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. fazendo-os aprender a falar. de modalidade de comando. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. mas de poder: da lei. fazê-la viver. precisa e cifrada. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. Mas os tradutores traem. do mundo adulto (e o atacam). a dos tecnocratas.

introduzindo uma falha nos poderes constituídos. os estilos de autoridade. quem quer que seja (dono de empresa. justamente. ao contrário. Entretanto. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). a intervenção pára. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. sendo inauguração de uma palavra nova. colocar-se em questão. as comunicações interpessoais e intergrupais. quando estão no campo de análise não apenas as relações. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. com uma outra linguagem. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. nem renunciar a seu poder. a se informarem. De qualquer maneira. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. quer que ele seja reforçado. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. então. ele lhes permitiu. então. então. dentro de certos limites. interminável. Então. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. os hábitos. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. sua vontade instituinte e. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. sendo. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. mas também quando o poder está em jogo. chocase violentamente com as estruturas. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. as resistências. se uma demanda lhe foi feita. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. mas sim questionamento infinito. A intervenção. o interventor ultrapassou o limite. agradece-se ao interventor.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). mas. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. membros do comitê de empresa.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. Mas. assim. Assim.

colocando-se como um shaman ou um mártir. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. Porém.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. então. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. em contrapartida. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. 232 . procedendo por deslocamentos e rodeios. Ele não realiza nenhuma mudança. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. eus a se abalarem.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). que. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. Não sabe pelos outros. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). seu trabalho só pode ser lento. não lhe cabe questionar os poderes. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. mas favorece o desejo de mudança. se ela se coloca. através de ações. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. Ele não transforma as estruturas. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). das funções elucidativas. energias começaram a circular. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. Ele não analisa sozinho. os movimentos sociais. é que. não os conduz em direção a nenhum resultado. palavras a serem ditas. é aos atores sociais reais. Quanto ao valor e à importância desse movimento. Pois. O que ele sabe bem. dispersões a se operarem. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. sendo alguém que incomoda. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. que só poderá viver. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. Também não se pode dizer que ele fracassou. pólo de identificação ou bode expiatório. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais.

Em contraposição. então. Entretanto. mas que ele deve saber. agricultores tendo interesses em comum.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . sua posição nada tem de confortável. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. traidor em potencial. inclinar-se à rigidez ou. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. Suspeito por todos. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. Pode. 4. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. desde o início. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar.A falta de formação dos interventores. mais sua ação será limitada a certos grupos. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. ao contrário. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. Anteriormente. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. 3. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas.

A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. do desejo da alienação etc. um maior controle consciente.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. comunicações melhores e. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. que assim buscam empreender atos significativos. com outras relações. eles se preparam para uma vocação de mártir. 2. da mulher. em um soberbo isolamento psicótico. Um dia. 234 . não a desejam com freqüência para si mesmos. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. eles desabarão.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. Como escutar ainda uma palavra que cochicha.Enfim. Isso é compreensível. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. Aparentemente. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. a demanda acaba. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. então. 3. por seus gestos. o que nos parece mais importante.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. sobretudo. Quem quer conhecer a dúvida. ser retomado. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. em uma sociedade tecnocrática. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. efetuado por eus fortes. que já nem se permitem mais o autoquestionamento.

Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. FOUCAULT. n. não caem nesse erro. Em Lip. 137-159. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. E. Le paradigme perdu. A. por Marília Novais da Mata Machado. DOMENACH: “Para não ser destruído. FREUD. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. Pour la Sociologie. Seuil. C. “Imaginaire social. 1977). “Points”. Le Seuil. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Gallimard. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. descritas. o Eu tudo destrói. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. recalcamento e repressão em organizações. refoulemente et répression dans les organizations”. L’institution imaginaire de la société. Topique. Les mots et les choses.” Le sauvage et l’ordinateur. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. 1974. Connexions. enunciadas. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . On tue un enfant. Epi. 1972 (Imaginário social. E.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. caracterizadas. TOURAINE. Serge. 17. CASTORIADIS-AULAGNIER. Rio de Janeiro: Zahar. MORIN. Cinco lições de Psicanálise. no 3. 13. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. Segundo J. do sonho e do gênio maligno. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Le Seuil.-M. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Le Seuil. Cf. 1974). não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. Piera. Na primeira meditação. CASTORIADIS. LECLAIRE. p. eles disseram: “mas era apenas isso!”. 1975 (Mata-se uma criança. Eugène. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. repentinamente. Points. Connexions. M. essa abertura profunda na superfície das continuidades. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Paz e Terra). cf. La nature humaine. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. cujos signos. ENRIQUEZ. 1976.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. a examinar princípios. mas pode. mas tomo iniciativas e faço propostas. perspectivas. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. sobre a maneira como se afastou do previsto. justamente. sua participação no trabalho. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. não poder sê-lo. firmemente. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. porém. em excesso. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. 242 . de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. Caso um apelo seja feito a mim. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. parece importante aos solicitadores. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. hipóteses. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. os fatores geradores do problema.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. regras. a partir de um determinado momento. algumas vezes. Ao mesmo tempo. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. os atores envolvidos. justamente. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. de preferência. Ao mesmo tempo. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. Assim. que pode ser feito fora de um universo técnico. numa dada situação concreta. além disso. dimensões ideológicas. isso se dá. também. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. meus conhecimentos e habilitações. abordando concomitantemente o sistema. mas. pode. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração.

constituindo. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. os recursos da equipe de consultores escolhidos. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. Cada uma comporta pressupostos. a seguir. tolerando apenas uma gama restrita de variações. na determinação das técnicas. ecologia etc. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. rapidamente. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. não apenas objeto de trabalho para os participantes. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. Evocaremos. no final desse artigo. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. para tratá-lo. tal vantagem deve ser abandonada. os fenômenos de moda. suas orientações teóricas. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários.). 243 . O modo de estruturação do processo pode se tornar. então. Porém. por exemplo. princípios estratégicos. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. tentar. então. formas de autoridade. tolerância à diferenciação. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. em si mesmo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. os custos etc. Poderíamos. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. as propriedades do sistema (grau de centralização. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). É nessa perspectiva que é preciso. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. um objeto de trabalho. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. a natureza dos objetos. tornar mais inteligível. tamanho. as funções externas almejadas pelos atores. então. em função do campo no qual elas aparecem. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico.

a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. de maneira bem menos acentuada. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. estão as técnicas de pesquisa de campo que. depois de LEWIN. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. Entretanto. GODIN. Em seguida. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. COCH e FRENCH). Quanto às estratégias de pesquisa. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. uma origem técnica importante. Algumas vezes. em algumas práticas. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. B. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. 244 . Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. algumas vezes. isso se passa sobretudo porque. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. em especial. na maneira como J. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. bem cedo. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. por exemplo. de devolução aos participantes e de interação dos atores. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. a propensão dos práticos de intervenção. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. a observação participante.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. parece-me. nas de TOURAINE. a partir da prática psicanalítica. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. Entre esses dois pólos.

a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. há muito tempo. quem conduzirá esse trabalho. produzindo dados válidos. os limites desse modo 245 . ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. a identificar os problemas. que. por exemplo. como em outros lugares. no começo. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. a escolher as variáveis de ação. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. a caracterizar melhor as situações. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. a natureza das resistências. a isolar os objetivos. freqüentemente. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. as razões dos bloqueios.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. no papel de especialistas. é comum. Pode-se observar que. atualmente. Em todos os casos. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. a origem das disfunções. quem reterá as soluções etc. a obra de G. em todos os casos. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. pela encomenda de um estudo “Retrato”. na França. ainda hoje. Igualmente. Em um campo bem diferente. quem escolherá as opções. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. a atuação dos conflitos. é dessa maneira que elas se estruturam. o significado das condutas etc. de fato. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. nas próprias operações das fases de estudo). Entretanto.

conseguindo uma solução de síntese ou. o inventário. 1980). muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. Não se sabe mais o que fazer. já citado. constróem. um retrato eventualmente objetivo e fiel. sobretudo. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. com a apresentação dos resultados. do exterior. enterrá-lo. de caráter mágico. por exemplo. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. . a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. por exemplo.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. apresentaremos rapidamente três observações: . A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. Se muitas intervenções. depressão etc. ao menos. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente).O trabalho é conduzido por uma equipe externa. . sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. escolhe-se. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. são interrompidas. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. o trabalho de recenseamento. de fato. O texto de André LÉVY. então. caso se decida reiniciá-lo. cólera. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. restaurando a coesão. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. freqüentemente com espanto. denegação. a não ser esquecê-lo. desenvolve muito claramente esse aspecto. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. em especial. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação.

preferir. chega-se. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. De meu lado. eles me parecem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. o que provoca aumento dos temas de estudo. algumas vezes. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. assim. .fracionar a investigação (por tema. então. os critérios de cientificidade: validade.associar todos os parceiros envolvidos. pode-se tentar: . adiamentos de realizações importantes. com o trabalho sobre os resultados. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. o debate. 247 . por categoria de ator etc. durante o trabalho de análise da demanda.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. em outras palavras. . a perlaboração. sobretudo. e apesar das reservas expressas. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. pertinência. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. correspondentes a atuações mais modestas. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. como o próprio relatório. a uma solução que exige uma equipe e. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. mas repensar essa lógica (por exemplo. parece-me. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. às relações elaboradas e conceituadas demais. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas.

em diferentes lugares da sociedade). BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . de aperfeiçoamento e. algumas vezes. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. sobre a possibilidade de contorná-los. a partir de 1964. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. nessa segunda categoria de origens técnicas. a uma perspectiva de intervenção. porém. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. 1972). as práticas de formação. De uma maneira geral. na qual. numa escala pequena. os grupos. social analysis. Logo. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. JAQUES. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. apresentam-se como a aplicação simples. traduzido para o no 3 de Connexions. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. em um plano concreto. é necessário lembrar que. adquiririam novas propriedades. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. com muita freqüência. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. de uma perspectiva de formação. em seguida. evoluiriam. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. assim. Passar-se-ia. TRIST. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. a fim de que elas mudem”.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. o artigo de E. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. na Glacier Metal Company. de 1948.

ENRIQUEZ consideram. MENDEL e sua equipe. conceberam diretamente. jogos de simulação. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. ao contrário. ANZIEU transpôs. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. no plano teórico. passando pelos estudos de caso. em pedagogia institucional. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. especialmente. A. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. C. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. D. utilização da autóptica. nos quais a ARIP interveio. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. consistia em transpor. em pedagogia do projeto. sua prática de psicodrama analítico. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. J. na França e em países estrangeiros. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. inscrevendo-se. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. as intervenções que se seguiram. ao mesmo tempo em que se reforçava. a fortiori. não pararam. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. grupos de análise de prática profissional. KAES). no plano organizacional. ao mesmo tempo. em seguida. para o seio da cúpula. Payot). essa evolução. C. o que representaria. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. Sociopsychanalyse. a importância da referência à Psicanálise. ROUCHY. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. na empresa Geigy. LÉVY e. se quiséssemos ser menos esquemáticos. ROUCHY e E. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. Evidentemente. por exemplo. G. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. Mas se. no 1 a 10. das estruturas de organização.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. 1972). de se diversificarem em função da natureza das demandas. o movimento de democracia industrial. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. tecnicamente. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação.

de acompanhamento ou dinâmica). da regulação (hetero – ou auto –. os meios de verificar a validade das hipóteses. De uma maneira geral. freqüentemente. a mudança social desejada. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. desde há algum tempo. durante um tempo que pode ser apreciável. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. é a descentralização. estágios existentes fora dela. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. na medida em que instituir. irrelevante. da facilitação e. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. forçosamente. esperando-se que se aumentará assim. 250 . Evidentemente. a palavra de ordem. é mais rápido. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. então. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. em especial. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). localmente. é necessário providenciar a formação do responsável local. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. é que se engane sobre a causa das dificuldades. no espaço organizacional. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. o risco. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. mais racional e menos caro.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. Além disso. Com efeito. Enfim. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. ao mesmo tempo. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. as que se nutrem da formação surgiram. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. entre os próprios serviços de uma organização.

Esse risco pode ser reduzido apenas se. A competência de um interventor. do qual se espera a responsabilidade. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. em assegurar “suas tarefas”. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. confrontá-la à dos outros atores. além disso. Ainda assim. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. aliás. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. de um lado e de outro. os consultores. tal risco. entre os dirigentes. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. Paralelamente. na elaboração dos programas. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras.. descobrir. Um meio técnico (que. então. manter essa dimensão presente durante todo o processo. ao desempenho eficaz da prática de formador. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). de uma maneira progressiva. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. primeiro. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . os solicitadores. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. Tal dispositivo técnico é insuficiente. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. evidentemente. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda.

e não em técnicas de ação formadora de diretores. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. em problemas de remuneração etc. um sistema e seu problema.) –. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização.. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. as estruturas internas das organizações se complexificam. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. afetando a estrutura e as instituições internas. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. 252 . Entretanto. em data. Sem poder preparar aqui tal reflexão. dois atores ou diversas instâncias em interação. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. Ela compartilha.. numa crítica aos limites do staff and line. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. um grupo. é interessante observar que. Porém. de agentes de comando ou de pessoal de execução. o desenvolvimento técnico e científico. em resposta ou não a um apelo. a convicção de que as condutas das pessoas. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. Por exemplo.

a metodologia de intervenção desenvolvida por A. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. TOURAINE recorre também. Então. sistematicamente. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. no fim dos anos 20. 253 . seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. durante os motins do Harlem. mas. em Nova Iorque. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. No campo das empresas de produção. os psicossociólogos. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. progressivamente. a práticas de debate. como o sociólogo S. o sociodrama. são chamados. ALINSKY. os “organizadores de comunidades”. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. Mesmo a história da intervenção de E. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. por exemplo. de defesa ou de negociação.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. enriquecendo-as. renovando-as. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. evidentemente. retomaram. Em países como o Canadá. Mais recentemente. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. assim. L. existem. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. vir a substituílas completamente. nos conflitos entre direção e sindicatos. freqüentemente. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. J. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. eventualmente. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens.

das relações pastorais. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. difusão das estatísticas de acidentes. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. em conseqüência. os dispositivos de proteção. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. Da mesma forma que. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. concurso de segurança) etc. e que. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. educativo. social). Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. a toda especificidade. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. de formação. as oportunidades. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. da magistratura. de alguma forma. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. Parece-nos que. então. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. de sensibilização (por exemplo. apenas. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. para a segunda. audiovisual. tanto no plano material quanto no legal. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. e renunciar. de estudar as instalações da fábrica. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. de organizar as ações de inspeção. de propaganda. Embora não ilustre especialmente esse risco. de fato. Entretanto. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. as prescrições) e funcional (no campo técnico. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. há uma 254 . ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. para a primeira origem.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. das lutas militantes etc. da polícia. No começo. como por exemplo no campo da imprensa escrita. para a terceira. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho.

a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. evidentemente. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. concomitantemente. De acordo com os resultados. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. ou por uma intervenção apenas formadora. no começo. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. evitase. pessoal de execução). geralmente. No caso da intervenção psicossociológica. com a colaboração de consultores externos à sua unidade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. contramestres. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. Os confrontos entre atores (por exemplo. No fim desses dois dias. então. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. fundamenta-se também. por uma intervenção psicossociológica. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. por exemplo. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. algumas vezes desenvolvendo. Uma abordagem mais recente. produzir os diagnósticos. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. Uma vez estabelecida a composição. em outros países. de segurança e de condições de trabalho. propor as medidas. gerentes.

aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. A última negociação consiste. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. de múltiplas forças antagônicas). então. Como no caso anterior. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. produz uma frustração muito forte no ator. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. entre outras coisas. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. Ela permite. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. em teoria. decisivos. tal 256 . Em relação ao processo das intervenções precedentes. em especial. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. a intensidade emocional mais forte. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. instituídos pela lei Auroux. para nós. Porém. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. ligada às diferenças de status e/ou de poder. a ponto dele renunciar. estende-se numa duração que se mede em meses.

mas têm.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. ancorar. para guiar a análise. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. Está claro também que. evidentemente. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. aliás. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. em todos os níveis. bem cedo. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . elas não dependem apenas da técnica. Enfim. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. Tais requisitos. Escolher. entretanto. Por isso. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. tecido com fios múltiplos. senão à primeira. uma importância acentuada. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. por exemplo. sempre pluridimensional. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. aqui. mas também em encontros do mesmo estrato. sem dúvida. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. está. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. Em outros termos. e. tal metáfora. evidentemente.

o interventor é um clínico. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. Nem ciência nem tecnologia. sem chegar a lhe dar um molde. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. para o pessoal de um estabelecimento. do gerente ou do político. antes. retomando a distinção de PALMADE (1977). estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. no entanto. depois de dez ou vinte dias de intervenção. enquanto pesquisador. elas seriam. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). ela me leva. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. mas. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. fundamentar tal distinção. Assim. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. com o tempo. as escolhas iniciais arriscam. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. Com efeito. permitindo isolar. capazes de contribuir em processos de pesquisa. em cada momento. por si só. do terapeuta. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. enquanto dispositivo de inserção.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). a mim. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. quer esteja empenhado. filtrar com segurança um objeto teórico. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. Não é fácil. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir.

podem-se encontrar. Anunciamos. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. de maneira mais ou menos difusa. adquirir um sentido menos restrito. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. por certos setores da sociedade. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. sem subterfúgios. Por outro lado. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. para mim.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. a administração. na literatura especializada. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. analisar e experimentar as vias de democratização etc. A inserção na universidade. o mesmo se passa. Porém. pode-se observar que.. analítica. Entretanto. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. 259 . os setores de saúde. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. para os atores. os movimentos sociais ou culturais etc. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade.). a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. seria natural levantar tal hipótese. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. importantes sob esse ponto de vista. a invenção de instituições locais (por exemplo. os espaços urbanos. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. malgrado sua fragilidade no tempo. Enquanto atores sociais. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. em função do campo social em que aparecem. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. e se surgem conjunturas favoráveis. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. assim. o comércio. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. tais acontecimentos podem inspirar outros e. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. no começo desse artigo. sua identidade social e a natureza de seu projeto.

poder. 1987-l. o espaço urbano). Porém.). 7-28. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. 49. Notas 1 Traduzido de DUBOST. nesse número. 2 260 . pode-se aplicá-la a outros campos. ainda. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . . o grau de nossa capacidade de indentificá-los.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). DO – Desenvolvimento Organizacional (N. a divisão do trabalho.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. não coincidiriam. .T.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. a estruturação dos papéis recíprocos. com o que se observaria em outros lugares. Connexions. de dependência hierárquica. ROUCHY chegou. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. os resultados quantitativos estabelecidos por C. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. p.-C.). “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. por Marília Novais da Mata Machado. necessariamente. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. posição central ou periférica etc. Por exemplo. MARTIN em uma pesquisa recente. as conclusões às quais J. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. de colaboração profissional. autoridade.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. Jean. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. evocando. .o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.). . sua própria experiência no campo da saúde. até um determinado ponto. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. voluntária ou militante etc. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece.

LÉVY. 1977. Les recherches-actions sociales. LE BOTERF. 1980. 1986. J. 3. Théories et pratiques de l’éducation permanente. Connexions. Paris: Anthropos. “Une intervention psychosociologique”. Paris: LFEEP. G.-C. Paris: Payot. MARTIN. 261 . PALMADE. 1981. A. Paris: PUF. Interdisciplinarité et idéologies. In: L’intervention institutionnelle. 1972. C. 1987. G. J. L’enquête participation en question.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. L’intervention psychosociologique. La Documentation française. ROUCHY.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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autenticaeditora.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 . 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.com. fax.com.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.

etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. grupos religiosos etc. o triunfo da racionalidade experimental. finalmente. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações.br 0800 2831322 .autenticaeditora. os ‘intemináveis adolescentes’. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo.com. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www.“Quais são os problemas realmente essenciais. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global.

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