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51288139 Psicossociologia Analise Social e Intervencao

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Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

Autêntica Editora
Rua Januária, 437 – Floresta 31110-060 – Belo Horizonte – MG PABX: (55 31) 3423 3022 TELEVENDAS: 0800-2831322 www.autenticaeditora.com.br e-mail: autentica@autenticaeditora.com.br

SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

............................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost................................................................. 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost. 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D............................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï....Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS........... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy................................................................................................................................. 237 6 ........................... Benevides de Barros..................................................................................................................................................................................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez........................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï..............................................................................................

da organização e do funcionamento social. o direito. o campo da psicossociologia cresceu. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. por meio da “intervenção psicossociológica”. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. a economia. Desde a primeira edição. cuja história é nele revista e avaliada. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. Junho de 2001 Os organizadores 7 . a administração e a política. tal como no momento da primeira edição. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. este livro. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. prático e metodológico. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. cada vez mais utilizada. a psicanálise. tornou-se ainda mais importante. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. fruto do trabalho de psicólogos. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. hoje. dispositivo de consulta e pesquisa. À metodologia de intervenções/pesquisas. bem conhecida e divulgada no Brasil. Assim. a educação. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. a sociologia. sociólogos e um economista. quanto para os que praticam a psicologia. Por tudo isso. reais. esclarecedoras dos processos de criação do social. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

por sua presença. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. 9 . inicialmente. Em conseqüência. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. geridos e transformados. o pesquisador-prático. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. fez aparecerem certos problemas. organizações e comunidades. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. Atuando diretamente na vida dos grupos. que condutas. das organizações e das comunidades. Passaram a se preocupar. as condutas concretas dos indivíduos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. A partir dos anos 50. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. igualmente. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. são o objeto de pesquisa. no quadro da vida cotidiana. em especial. em seus grupos.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. grupos. a metodologia de pesquisa-ação. empregando para tanto. Por meio dessa abordagem. com as instâncias de mudança. isto é. organizações e comunidades. reflexão e análise dessa disciplina. até então desconhecidas. freqüentemente através de experimentos. Portanto. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. se revelassem. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado.

no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). aptos a um “imaginário motor”. do socius. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. LÉVY). fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. mobilizados por ilusões e crenças. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. adquire um sabor de novidade. sujeitos que. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. Ora. que 10 . hoje ela se renova. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. e do processo de criação institucional. com suas mudanças e rupturas. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. pois a teorização é fruto da reflexão que. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. que é também um ato de palavra. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. nos termos de E. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. mesmo que involuntariamente. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. contra esse pano de fundo. DUBOST). se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. a mudança social (A. Paulatinamente. de onde e como surge a dinâmica social. da organização e do funcionamento social. dos desejos de onipotência e dominação. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. torna visível a presença do sujeito social. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. Porém. sempre inacabada. 60 e 70. de transformações nos sistemas sociais (A. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. é formulada uma teoria. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. por um ato de decisão. e serem criadores da história. pouco a pouco tecido. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. sujeitos capazes de serem autônomos. ENRIQUEZ. idealizando e buscando destruir seus chefes. do trabalho da pulsão de morte. NICOLAÏ).

são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. formadoras das sociedades atuais e futuras. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. autopoieses. estruturas dissipativas. assim como. entretanto. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. CARRETEIRO. a condição de construção da vida social. o desenvolvimento de um processo organizacional. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. de ARAÚJO. Assim. T. é analisada. Política. são apresentados nesse livro por Marília N. aqui e ali. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. J. S. práticas de intervenção mitificadas. DUBOST. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. LÉVY. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. Sonia ROEDEL. relações de poder e autoridade. de suas demandas de amor e proteção. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. B. de BARROS. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. de suas fantasias de onipotência. está presente em quase todos os textos. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. como sistemas dinâmicos. E. Eliana de Moura CASTRO. Os autores – Jean DUBOST. A. Psicologia Clínica (J. auto-organização e complexificação a partir do ruído. 11 . ROEDEL). a respeito das suas representações historicamente constituídas. André LÉVY e André NICOLAÏ –. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. Sociologia. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. CASTORIADIS. são analisadas novas ideologias. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. formuladora de grandes quadros teóricos mas. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. José Newton G. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. M. BARROS. Eugène ENRIQUEZ. TOURAINE que. CASTRO. o pensamento filosófico de C.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. da MATA-MACHADO. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. nestas páginas. Assim. mas também de outras referências. MATA-MACHADO). assim como novos sagrados e certezas. enfim. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. ARAÚJO.

muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. 1991. textos recentes. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. BARROS. NICOLAÏ (mimeogr. na França. “A interioridade está acabando? – E. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. Paris X (J. em função do mencionado convênio. Paris XIII (A. CASTRO – Psicanálise. . com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. ENRIQUEZ. ROEDEL. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . T. Essa primeira proposta. M. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. ENRIQUEZ). ARAÚJO. na empresa. mutações e complexificação em economia” – A. sofreu modificações. “O fanatismo religioso e político” – E. E. no Brasil. MATA-MACHADO – Psicologia Social). Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção.Foram escolhidos. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. T. de um projeto pessoal e familiar. Paris XIII: M. ENRIQUEZ. distribuídos em três partes. ROEDEL). FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. “Rupturas. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). especialmente. Assim. primeiramente. NICOLAÏ).Em segundo lugar. ENRIQUEZ. 1990. NICOLAÏ. Inicialmente. 1990-1. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. NICOLAÏ) – mas. 1990-1. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. Além desse território de pesquisa. ARAÚJO. LÉVY (mimeogr.). “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. DUBOST. resultando em treze textos. feita em novembro de 1991: .). 1989. MATAMACHADO). estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. CASTRO. a disciplina que os congrega. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. cobrindo questões atuais. LÉVY). a partir do exame de uma centena de textos. A. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. ENRIQUEZ) e Economia (A. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. CARRETEIRO). MATA-MACHADO e S. LÉVY. a Psicossociologia.

algumas aterrorizantes. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. Mais de uma dificuldade de tradução.Prefácio desejo” (A. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. à Psicossociologia e à Psicanálise. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. contudo. mantiveram-se termos como “fantasmático”. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. E. respectivamente. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. Seus nomes aparecem. apresenta a intervenção. na primeira nota de rodapé. . o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. “Intervenção como processo” – A. Por exemplo. 1987). em cada texto. para designar 13 . optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. de atividades e produções criadoras. As traduções foram revistas por J. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. finalmente. foi objeto de discussão e comparação. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. CARRETEIRO e J.Em terceiro lugar. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. DUBOST. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. Por exemplo. a apreensão de seu sentido original. Buscou-se uma certa uniformização. 1980. em maior ou menor grau. 1976. NASCIUTTI para o livro de E. MATA-MACHADO. LÉVY. Psicanálise do vínculo social. o grupo e a questão da mudança. ARAÚJO. CASTRO e M. “forclusão” ou “preclusão”. através da análise etimológica. ENRIQUEZ. mantendo-se a tradução utilizada por T. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. preferiu-se “fantasia”. DUBOST. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. editado por Jorge Zahar. a última tradução foi preferida.

seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. nosso primeiro leitor. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. Finalmente. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. a critério do tradutor. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. na expressão méthodes d’investigation. a palavra investigation. entretanto. essa foi a escolha. para a palavra enquête. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . que procedeu a uma cuidadosa revisão final.“relativo a narciso”. expressão bastante usada em português.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. no entanto. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão.1 Pois bem. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. preenche ou interpreta. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. aquilo que lhe cai nas mãos.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. no enfoque psicossociológico. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. desde o início. Ao apresentar tais artigos. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. à sua maneira. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários.2 . O sujeito que não “morreu” A. Cabe. visto que todo leitor recebe. LÉVY e E. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. Mas não poderia ser diferente. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. Eles descartam. a idéia de um “eu”. No entanto.

em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. no conjunto das discussões sobre o sujeito. entre outras coisas. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). ligada a uma prática clínica.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. nas décadas anteriores. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. E.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. antes de tudo. nos parece em parte negligenciada. por exemplo. vemos que o “indivíduo” é. Assim.. já na virada dos anos setenta. A esse respeito. convém observar que. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. um ponto de passagem. mesmo na França. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. os autores caminham numa direção que.”. ela é 18 . dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. a chamada “sociologia do cotidiano”. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. nos artigos aqui apresentados. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. entre nós. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. notadamente através da teoria lacaniana. suas relações próximas e regulares. LÉVY. o ofício ou o produto. não estariam restritas.. por exemplo. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. No texto de A. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. um átomo talvez.6 Isso é claro para os autores. a família. o da Psicanálise. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. a empresa-família é anterior ao sujeito.

19 . daí a ilusão da identidade pessoal. mas que reenvia. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. Ele destaca ainda. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. tenta transformar “o mundo. segundo os autores. Assim sendo.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. A. Importante ainda. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. um papel essencial nas transformações sociais”. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. por exemplo. sempre imprevisível. antes de mais nada. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. espírito de empresa. além de desempenhar. identidade coletiva. fanatismo de empresa etc. Desse modo. num crescente alienar-se. LÉVY nos lembra. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. através de FREUD. as relações sociais. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. isto é. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. sua constituição “plural” ou coletiva. O primeiro é aquele que se agarra. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado.” De outro lado. narcisismo social. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. ENRIQUEZ retoma essa posição. enfim. pois este. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. “às vezes sem sabê-lo. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. “no momento em que falamos. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. as significações das ações”. narcisismo grupal. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual.

como a intolerância e o fanatismo. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas.. Assim. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. no início de 1993. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. mas que tentam ainda se expandir.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. cabem algumas observações. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. esportivo. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. como se tinha notícia até pouco tempo. científicas etc.. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. outras propostas políticas. árida novidade. em diversos momentos. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior.. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. religioso. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. Assim. além da sua. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. como um fenômeno “periférico”. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. amor (ou cumplicidade?) mútuo. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. mas sim os processos de idealização.” 20 . A essa altura. pois ela se torna uma ameaça. ilusão e crença. mas exemplar. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. Basta lembrar. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. outras idéias.9 composto por militantes islâmicos negros que.) deve ser eliminada. xenofobia. religiosas. científico ou outro qualquer). algum tempo após as notícias. tentando eliminar dele os negros.. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. estamos falando de mecanismos inconscientes). os judeus e. os nordestinos.

é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. Enfim. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. no Sul do Brasil. noção de origem literária e filosófica. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). a eterna questão do sentido. nosso time de futebol. nossa “seita” de comedores vegetarianos. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. sejam elas brancas ou negras. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. infantilizando os “fiéis”. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. seja num grupo intolerante. nosso grupo body-building. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. Poderíamos. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. O que se torna problemático. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. já de início. ele desconhece também. E. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. Gostaríamos de lembrar. a ação grupal deve cobrir um vazio. às vezes. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . por analogia. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. Em outras palavras. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. em níveis talvez menos contundentes. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. nosso partido de direita ou de esquerda etc. rapidamente. contrapor as noções de sujeito e interioridade. ela deve ser doadora de sentido. seja num grupo democrático. resvala necessariamente para a intolerância. cada sujeito está perseguindo. num clima onde toda crítica está ausente. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. isolada e coletivamente.Análise social e subjetividade Aliás.

parece haver uma tendência. na esfera psicossocial. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. questionamentos. à alternativa interior x exterior. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. quase que imediatamente. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. pois. é numa relação espacial que ela se inscreve. ele existe atualmente e está. na Filosofia antiga. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. A interioridade remete. Talvez seja. foi discutida em termos do cheio. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. Aliás. Se esse sentimento nem sempre existiu.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. em oposição ao vazio: trata-se. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. alegria. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. por ser da ordem da especialização. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. para ela. Por outro lado. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. a não ser por arrombamento. vítima de ataques. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. o que é pura duração. BERGSON. interrogações e que. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. que não é recente. Para ele. A questão do espaço.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. ameaçado de extinção. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. segundo o autor. em se pensar espacialmente. A interioridade. num certo sentido. 22 . pois. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. íntima. é ‘uma terra estrangeira’”. onde ninguém tem o direito de penetrar. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. A compreensão da interioridade é. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. Só o ser existe e ele é cheio.

capta os estímulos exteriores e também os internos. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. Há. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. isto é. eu não sou. separada. Assim. temos de falar nos órgãos dos sentidos. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. Limite e superfície privilegiada de estimulações. a pele se liga à formação do eu. O ter é ulterior. denotadas pelo termo identidade. diferenciando o interno do externo.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. ao que marca a diferença. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. bonito. na época atual. refletindo a si mesmo). ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. Existe. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. O culto exagerado do corpo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. meio de se situar no mundo. diz FREUD. a identidade própria. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. unidade e similaridade. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. A percepção do espaço remete à visão. foram abaladas pela Psicanálise. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. Dito de outro modo. isto é. As idéias de permanência. o que se vê por fora é um reflexo do interior. ela é capaz de dizer: eu tenho. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. porque especular. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. Um corpo dinâmico (isto é. depois da perda do objeto.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. Já a identidade marca a diferença. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. considerando o 23 . sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. saturada de comunicação. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora.

Finalmente. se tornam assim mais claras. Ele diz. naquilo em que ele é diferente do outro. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. Afinal. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. é passiva. Em outras palavras. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. isto é. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. quer como sentimento pessoal. E o mais importante. oferecer uma resistência passiva. em sua obra Lector in Fabula (trad. francesa Grasset. As propostas absolutizantes. a interioridade considerada. já dissemos. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. O oculto. feitas pela religião. e como bem captou ENRIQUEZ. do outro que eu sou. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. 2 24 . a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). nenhuma leitura é um ato neutro. Notas 1 Humberto ECO. por ser essencialmente espacial. ao eu e muito menos ao sujeito). é certamente desprovida de energia ou. no campo da argumentação psicossociológica. pela empresa ou pela sociedade. de outro lado. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. Por isso. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. em outros termos. pois. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. entre outras coisas. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. isto é. que todo texto é um tecido de espaços em branco. só podendo. quer como conceito psicológico. ARAÚJO. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático.

Conseqüentemente. como um instrumento terapêutico. Cf: ANZIEU. vol. (Cf: ANSART. na América Latina e mesmo na Europa. tomo XXIX. JIRINOWSKI saiu vitorioso. 1975-1976. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. G. 50-53. na Biblioteca Nacional de Paris. p. de 28/04/93. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro.. fez reaparecer o sujeito. 5-12. De outro lado. Paris: Gallimard. mais perto de nós. 29-31) afirma que. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. nas quais o Sr.. P. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. soberano. alguns anos atrás. P. p. 1983. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. o culto à figura de GUEVARA. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. em seus níveis mais profundos. p. cit. 1970. In: Bulletin de Psychologie. 1984. principalmente após as recentes eleições da Rússia. 13). Esse autor comenta que os termos nó e círculo. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. em nível individual. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. Paris: Gallimard. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. O autor evoca J. Assim. por Jean-Marie LE PEN. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 .. Lembremos. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. além de serem historicamente contestáveis. nessa mudança. SELLIER (cf: Le mythe du héros. BALANDIER. Para ele. senhor de si e do universo e como se. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. p. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. 445-449). “Essai d’identification du quotidien”. P. líder da extrema-direita francesa. LXXIV. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. n. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Paris: Dunod. Observação semelhante já fora feita. por isso mesmo. Cf. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo.Análise social e subjetividade 3 Cf. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Paris: Bordas. D. uma editora de propaganda nazista. não passavam de “mero detalhe”. p. em seu número de 1º/12/93. reportagem da revista Isto É. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. Essa mesma revista. Paris. 322. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. face às estruturas e aos sistemas”.

1985. ss. H. Paris: Dunod. S. 15 16 26 . Essai sur les données immédiates de la conscience. Paris: PUF. (Cf: FONTANA (A) et al. 1977. semelhante à vivência intra-uterina. 68. 120 ed. Além do princípio do prazer (1920).) 14 Cf: BERGSON. 1967. p. Rio de Janeiro: Imago.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. 1976. ver: FREUD. XVIII vol. 42. El tiempo y los grupos. p. Le moi-peau. D. ANZIEU. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Buenos Aires: Editorial Vancu. Entre outras alusões a essa questão.

em maior ou menor grau. do sujeito. No momento atual. ALTHUSSER). em grupos e organizações. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. O indivíduo torna-se. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. só se fala do indivíduo. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. De minha parte. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. No entanto. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. 27 . sua classe ou sua raça. um determinismo absoluto dos processos sociais. É contra essa tendência reducionista. pois.2 A razão é simples: como muitos outros autores. que decidi me manifestar. ao invés. do aumento do individualismo. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. um ser falado. assim. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. como psique. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). Com efeito. por um lado. mesmo sem dizê-lo. Seguindo essas abordagens. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. por outro lado. que nega a interrogação de D. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. LAGACHE. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. um ser agido.

ou de um Deus único. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. porque toda sociedade comporta falhas. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. portadoras de 28 . DE MAISTRE –. a anterioridade dos processos sociais. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. de antepassados e de Deuses. Uma tal sociedade heterônima tem. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. em parte voluntariamente. Nessas condições. é preciso pressupor.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. além disso. De fato. já que nascemos sempre em um grupo. em uma classe. “a possibilidade de saber que alhures. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. no entanto. heterônima. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. CASTORIADIS. Freqüentemente. ao mesmo tempo. uma cultura. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. conduta estruturada social e culturalmente. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). numa sociedade que é. em uma etnia.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. Não é necessário. Em outras palavras. portanto. para retomar a terminologia de C. em parte inconscientemente. em uma nação etc. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. conformados a seus votos e a seus ideais. isto é. logicamente. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. Essa emergência acontece. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. zonas inexploradas. BURKE. ir muito longe nesse sentido. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. sua conduta. a cada homem. que pode tomar a forma de totens. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. Nessas condições. que lhe deu direito à existência. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. quer seja por Deus – BOSSUET. ela própria. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. em parte. mas deixassem também. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. num lugar-tela.

Alguém inventa uma máquina a vapor. a trocar sua natureza pela de um térmita. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. Deve-se. ele também só é parcialmente heterônimo. como evocava FREUD. contra a vontade da massa. Reis continuam a se 29 . não a um contra-discurso organizado mas. até mesmo se choca.8 Enfim. às vezes. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. às vezes. se põem a acumular riquezas. em toda sociedade. por mais totalitário que seja. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. apoiando-se nas funções corporais. não se pode esquecer que o discurso. desde a Renascença e. Mas. a médio ou a longo prazo. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses.7 Quanto ao indivíduo humano. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. outro um novo tear. Notemos que as sociedades modernas. sobretudo. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. Elas se tornaram. Embora exista. como dizem FRITSCH e PASSERON. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. de maneira invisível. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. um papel essencial nas transformações sociais. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. um discurso dominante. pelo menos de imediato e. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. em certos casos. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. em pessoas e grupos sempre diferentes. fanático. Além disso. portanto. seja lá por que modo. sem sabê-lo. mesmo sem percebê-lo. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. desde a Revolução Francesa.

Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Assim. a individualização. Ao contrário. da sua organização. como sublinha CASTORIADIS. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. mas é o homem da performance mensurável. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. objeto de tantas preocupações. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável.9 Assim. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. se os processos psicogenéticos pressupõem. em nossa época.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. “matadores frios”. o elemento esportivo predomina. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. Se cada um deve manifestar sua singularidade. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. De fato. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. a vitória nunca sendo definitiva. ela pode ser bem efêmera. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. vencedores que querem ir até o fim. mais freqüentemente. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. é. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. cada um deve ser criativo à sua maneira. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Assim. do seu serviço. No entanto. os processos sociais. performance sempre a recomeçar. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. seu tempo. Ele deve gozar com essa renúncia. O winner sempre pode se tornar o looser. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. sempre imprevisível. então. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. Nessa ética. apenas um elemento do processo de massificação.

desvestida de seu sentido ético-religioso. a busca da riqueza. um novo ritual. Nos Estados Unidos.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. o “culto da empresa”. atrás da força e da grandeza de outros homens. a se associar a paixões puramente agonísticas.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional.10 Assim. o indivíduo renuncia. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. em geral. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. além disso. aqueles a quem chamamos vencedores. para depositar seu destino nas mãos dos outros. igualmente. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. onde seu paroxismo predomina. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. ou ainda. hoje em dia. os que W. REICH. mas que. posições de poder. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. a justificá-lo”. mas não se orgulha de si mesmo. O “zé-ninguém” está sempre. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. nos hospitais. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. naquele tempo. financeiras ou de prestígio. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. Ele atinge. quando se fala do indivíduo. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. designava por “zé-ninguém”. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. o que lhe confere. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. tende. características de um esporte. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. nas universidades. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. em vez de admirar o que ele concebeu. assim. na maioria das vezes. Admira o pensamento que ele não concebeu. 31 . igualmente.

Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. para existirem. o mundo criado não é contestável. nós próprios nos tornamos admiráveis. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. Em outras palavras. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. depois de descrever esse fenômeno.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Resta-me. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. ser um agente ativo desses processos de recalque. portanto. sempre ameaçador). A idealização é. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. assim. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. apresentando-se como objeto maravilhoso. o que devemos fazer e como seremos recompensados. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. às vezes. então. Além disso. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. aderir profundamente às injunções sociais e. apoiado 32 . Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. médios ou pequenos homens. correndo um mínimo possível de riscos. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. agora bem conhecido. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. de repressão e de adesão. reprimir suas pulsões. é. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes.

um proletário. como mostrou FREUD. da sedução ou da obrigação]. De fato. G. portanto. tem como futuro possível a xenofobia. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. de fato. um capitalista. é se voltar ao grupo de pertinência. produzir por produzir. o fanatismo. de simplesmente não ser.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). eles suscitam a aceitação ou a identificação. estamos divididos e angustiados. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. Vivemos em sociedades nas quais. o narcisismo social. um budista. A identidade coletiva favorece ainda. 33 . É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. os ideais são múltiplos. nas quais. Se somos apenas um espartano. estamos perto de não ser absolutamente nada e.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). freqüentemente. graças a esse jogo identificatório. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. o racismo. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. ideais vazios e desprovidos de sentido. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. consumir por consumir?) Ora. ao nosso “nós”. é imputar os problemas ao outro. A identidade coletiva. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. (Com efeito. contraditórios. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. está cheia de perigos. que sentido pode ter ganhar por ganhar. É necessário precisar esse último ponto. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. que tem como efeito “unir uns aos outros. através desse processo. dificilmente. sem se dar conta de que.13 Reencontrar a coesão. graças a identidades coletivas fortes. uma massa maior de homens.

ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. quanto mais a identidade coletiva existe. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). Para definir criatividade. O sujeito é um ser criativo. não pode ser considerado como sujeito humano. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. em sua vida de trabalho. as significações das ações. o indivíduo singular. nos lugares da vida cotidiana. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. quanto mais uma cultura se quer unificada. a sua conversão. ao menos. daí. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. Com efeito. a respeito de qualquer tipo de problema. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. bem entendido. no entanto. seres a eliminar. criança. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. Vê-se. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. em suas relações sociais de todos os dias. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. 34 . a individuação estando do lado da constituição do sujeito). Tal indivíduo só sabe repetir. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. reproduzir. por mínima que seja. tem como projeto voluntário. O indivíduo individualizado (e não individuado. as relações sociais. portanto. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. que.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Não podemos. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. bem como da tranqüilização narcísica. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. Quero simplesmente dizer que cada um. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. portanto.

e que o mundo possa testemunhá-la. de repente. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). portanto. em lugar de uma imagem da natureza.. ludens e viator. a gestação. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. aqui e agora. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . que sente prazer em respirar. do jogo e da vagabundagem.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. um ser capaz. não ao charco das alegrias imortais. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. quanto na inspiração do arquiteto que. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. é ainda pior. o primeiro movimento indistinto da matéria. levo a sério. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. imobilizada. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. homem portanto de sabedoria e loucura. O sujeito é. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. voluntariamente. Os artistas não se enganaram a esse respeito. não na escola!. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. é a formação. antes que ela se fixe em natureza morta. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. meu amigo. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). ela está presente em quem faz. respirando a plenos pulmões um ar salubre. em compensação. em seus Conselhos a um viajante. chegarás. uma novidade irredutível. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas.. ao mesmo tempo sapiens. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN.. demens (objeto da hybris). a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. E mais se imprime.. o nascimento.

WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. é preciso parar um momento.17 Porém. preso na ganga dos ideais. a esse respeito.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. No entanto. para lavar o mundo de sua sujeira. 36 . atualmente. aliás. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. de seus medos. identificado a seu pai. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. um pouco paranóico. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. para realizar uma missão salvadora. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. a sua própria alteridade). há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. assegurando-lhe a redenção. Com efeito. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. portanto. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. O megalômano. depois da guerra de 1914-1918. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. pela natureza. Michel SERRES. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. Assim. os manipuladores ocupando uma posição perversa. cientificamente. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. os sedutores ocupando uma posição histérica. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. sente-se eleito por Deus. entre os grandes homens. em particular o grande homem. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra.

como WILSON ou HITLER. que toma a si mesmo por ideal). LENIN. para isso. basta o de STALIN. ou capacidades manipulatórias. Quanto ao manipulador perverso. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). inventando complôs. ao contrário. reduz as relações humanas a relações de objetos. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. ao mesmo tempo. tem gosto pelo instantâneo. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). é um bom exemplo desses chefes perversos. crê falar a linguagem da verdade. esse está. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. complexo demais para ser evocado em poucas linhas.21 Assim também HITLER. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. por sua vez. quis fazer do alemão o povo eleito e. caso bem conhecido e. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. nem uma força de pensamento e de ação. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. recém-saídos das grandes escolas. só pensa em termos de estratégia.20 do homem que declarava. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. como LENIN: ao contrário. 37 . obcecado com a força pela força. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. só considera o mundo sob o ângulo econômico. a um nível mais irrisório. que tomou o poder contra os mencheviques. segundo FREUD e BULLITT. que queria dobrar o mundo à sua vontade. os tecnocratas. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. denega a realidade). O teatro é também para ele um terreno de esportes. como já indiquei anteriormente. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. que não tinha interesse algum pelos outros. ele se proíbe de ser excepcional. o povo judeu.

Mesmo assim. não tenho dúvidas morais”. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. talvez. como indivíduos perfeitamente normais. com a condição de ser corajoso. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais.. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. Em outras palavras.. Em todo caso. como GORBATCHEV. AGNELLI a gente nasce.. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). porque sou. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. Mas. nem mesmo na imaginação. um indivíduo sem fantasias. de uma normalidade esmagadora. ele perdeu alguma coisa. Eles se apresentam. Se elas tomarem um grande patrão italiano. Em contrapartida. não se torna. é possível tornar-se DE BENEDETTI. não podem sonhar em se tornar AGNELLI.). se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. O grande patrão italiano C. sem interrogação. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . sem dúvida. mas uma duração realista. Tentarei em outra ocasião. M. meus aliados (. pois ele promete a qualquer um. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. AGNELLI por exemplo.) são as pessoas comuns. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido.. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. a seus olhos. os outros escapam a essa denominação. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. ao contrário. se tiver tanta coragem quanto eu”.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. uma demonstração do possível (. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo.

São portadores da pulsão de morte. ao inusitado. Mas ele conserva o mesmo projeto. de tudo desarrumar. fazer advir o sujeito individual. de se lançar no desconhecido. em sua linhagem. 39 . mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. por um lado. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. a recusa de compromisso sobre o essencial. mais ainda. o caráter irrevogável de sua escolha e. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. no sentido que dou a esse termo. Teríamos. reproduzir. assim. Eles têm uma influência social inegável. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. sem falhas. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. só sabem repetir. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. S. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência.23 Em certo sentido. Um ser consistente pode ter dúvidas. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. FAUCHEUX. em MARX. favorecer a tomada de consciência de situações reais. Se o sujeito evolui. Ele não tem projeto. É também um homem que demonstra consistência. tomar caminhos transversais. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. E. conforme McDOUGALL. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Mas não são verdadeiros criadores de história. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. mesmo se nada descobre.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. assim. por outro. pois falta a ambos. criar seja lá que novidade for. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. Corre pela vida como em uma auto-estrada. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. insiste sobre essa noção. fazer advir o sujeito coletivo. dos outros. MOSCOVICI. São desprovidos da aptidão à transgressão. de tudo realizar” (McDOUGALL). em FREUD. ele o faz em sua linha. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. “que significa. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”.

a um Estado. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. a ocasião. SEGALEN. Para SEGALEN.24 O “exota”. visível e. consistência e astúcia andam juntas. uma outra exigência e. a uma identidade coletiva. o exilado.” O sujeito não é homem de comprometimentos. isto é. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. diante da exigência do todo. Ele é. finalmente. pessoas vindas de outros países. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). no momento atual. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. Consistência e furor.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. delimita também. o que não é nada fácil. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. souberam conciliar furor. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. igualmente. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. em seguida. interdita a tentação da Unidade-Identidade. portanto. recentemente republicado. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. não pode jamais estar colado a uma organização. para fazer triunfar suas idéias. porque a dispersão. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. Ao mesmo tempo. um grupo ou um Estado. quando ela se apresenta. segundo a expressão de V. O que é interessante. criar e sustentar um conflito com a maioria. à dispersão. Aqui não se trata de manipulação. provenientes 40 . consistência e astúcia. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. no entanto. é que. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. como também a provocá-los. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. MOSCOVICI. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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A cultura de empresa ou de organização. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. aos que dela participam. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. ele entrará. . Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. no sentido sadiano do termo. se só pensa através dela. do combatente. Minha contribuição será. assim. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. sobretudo. dando. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. de colocá-los. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. seus valores e seu processo de socialização. sobretudo. para fazê-lo. Para obter tais resultados. aos outros. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. sem o saber (e de consciência tranqüila). de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. de ter modos de “comunicação afirmativa”. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . de sonhos e de interrogações. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. de considerar os problemas em sua frieza. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. desembaraçado de compromissos. em demasia. então. Se o indivíduo se identifica com a organização. portanto. o homem capaz de ultrapassar seus limites. com personalidades “as if” (H. ao propor. do vencedor. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. capaz de se adaptar a todas as situações. sejam quais forem. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. SERVAN-SCHREIBER). L. então. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. escrita num estilo lapidar que poderá chocar.

a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. através de um projeto a concretizar. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. ao contrário. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. em nome da verdadeira fé. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. gurus. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. um ideal a realizar. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). pronta a punir os blasfemadores. Sabe-se muito bem. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. desde DURKHEIM e FREUD. xamãs. no mundo medieval. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. exige a idealização. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. atualmente. uma causa a defender. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. mais próximos do integrismo. injustamente martirizado. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). segura de estar em seus direitos. de perda e de sofrimento. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. mas. Então. E. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). quando as igrejas não são suficientemente atraentes.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. 47 . o renovar de uma igreja dogmática. encarnar a “instituição divina”. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. Basta ter em mente: a renovação do Islã. que uma sociedade não pode existir sem religião. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente.

48 . proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. o desenvolvimento do esporte de massa. animado) é o nosso bem mais precioso. falado e falante. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. continuamente desejável. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. a expressão corporal. a aeróbica. cuja meta é a homogeneização do “interior”. submetê-la a ídolos não contestáveis. Voltarei adiante aos métodos empregados. as ginásticas suaves. mesmo os mais repreensíveis. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. “tornar-se saudável”. O fanatismo político. o “grito primal”. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. afastar a dor. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. as medicinas naturais. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. o jogging. sofredor. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. como a expressão da graça que lhe cabe. todas as religiões. “Estar bem em sua pele”. As técnicas de body-building. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. pelo menos. Mas as religiões. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). os estágios off limits. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. as maratonas de Paris ou de Nova York). competitivo ou não (por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. portanto. que aqui apenas menciono. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. esbelto. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos.

cada qual se mira em seu próprio espelho. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. a busca do “erro zero”. a “qualidade total”. A explicação é simples: todos os métodos de formação. Basta querer. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. na qual ele tem que desempenhar um papel social. mas de edificar novos cultos. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. Quer se tenha nascido rico ou pobre. membro de um conjunto que tem suas coerções. 1983). ao menos. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. sinais de uma fantasia de domínio total. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. nas organizações sociais. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. No narcisismo de morte. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. únicos responsáveis (se eles fracassam. processo de ligação com os outros. de criar uma cultura. embora alienados no mais profundo de sua psique. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. que o indivíduo. O narcisismo mais total está na ordem do dia. na medida em que não se trata. necessariamente. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. “a paixão pela excelência”. de fato.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. assim. Os próprios indivíduos. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. GREEN. de autoridade. Ora. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. confronto com o sofrimento. para se tornar um sujeito falante e atuante. grupal e coletiva. interrogação do ser. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . Por outro lado. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. de intervenção psicossociológica ou institucional. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. mudança sempre difícil pois traz. na qual fatalmente se perderá. de evolução pessoal ou grupal. Elas anunciam.

Assim. a sua submissão. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. a implicação. em reação. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. nas organizações e nos indivíduos.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . únicos a prometerem resultados tangíveis. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. ao contrário. a astrólogos. do aumento dos métodos mais bizarros. O reconhecimento da psique como força operante tem. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. pelo menos. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. mas. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. quer dizer. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. para viver e se desenvolver. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. como a simples lógica o exigiria. na sociedade. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. faz-se apelo a leitores de tarô. perfeitamente interiorizadas. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. para a seleção de dirigentes. não do desenvolvimento da racionalidade. uma psique sem conflitos. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. portanto. Por isso. Cada “conjunto humano”. com os pés amarrados a um elástico. como resultado a sua destruição ou. uma psique a serviço da organização. necessariamente. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. a mobilização total de todos. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas).

de referências seguras. se examinarmos mais de perto essa noção. em uma espécie). FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. – podendo 51 . permite que se possa situá-lo em uma classe. credo. de ser um sujeito que tem uma história. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. não vivo mais. ela revela características um pouco suspeitas. que se liga a uma tradição. ou vinte anos? BARTHES. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. portanto. Cada um sente. Mas. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. GREEN (1985). escreveu belíssimas páginas. a necessidade de ter uma certa identidade. isto é. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. ou o status social a que chegaram. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. em uma palavra. Além disso. não creio mais como esse ser que leva meu nome. de constância: (b) idéia de objeto separado. Caso se retome a análise de A. através dessas diversas experiências. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. portanto. nacionalidade etc. animado por uma coesão totalizante tendo. quer dizer. portanto. ele é capaz de ser um “Si”. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. Ora. Cada indivíduo. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). que participa de uma memória coletiva. por minha vez. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. Os indivíduos evoluem.A constância não existe. classe. em um gênero. uma unidade.

pois toda construção. sob certos aspectos. No entanto. o eu etc. quando sei tão pouco o que sou. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. Se. c. cada uma. 1976). de preclusão e de denegação estão operando em nós. a partir de um estado não integrado.5 Certamente. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. então. necessita do trabalho do tempo. de MIJOLLA. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. 1982). a idéia de permanência e de constância. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Nunca sabemos de maneira precisa. então. por definição. cairmos na irresponsabilidade. ABRAHAM e M. assim. que. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. b. não podemos abandonar essa idéia. Assim. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. TOROK.) que visam. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. no momento em que falamos. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. Mas ele insiste. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. que processos de clivagem. além disso. no entanto. já dizia RIMBAUD.Quanto ao reconhecimento do mesmo. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. Eu é um outro.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. com WINNICOTT (1966).Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. mas que mantém um certo grau de 52 . então é possível questionar. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. admitir. quem está falando e por que falamos dessa maneira. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. em sua pureza. a sua própria finalidade. ilusória. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. Precisamos.

os diretores participam de um grupo.A interioridade está acabando? coerência. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. o trabalho sobre si. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. de suas faltas. Porém. São. contraditórias. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. Os outros. Um deles explicita suas dúvidas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. sobretudo. portanto sedução. é ouvido um momento. de seus desejos. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. para o indivíduo. a dúvida. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. da “inquietante estranheza” e. O que nossa sociedade reclama. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . muito pelo contrário). a interrogação. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. portanto. problemáticas. e tanto mais porque se parecem conosco. quaisquer que sejam. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. de um narcisismo a toda prova. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. assim como as instituições e organizações que a compõem. escolhendo as máscaras sociais que precisam. como também um amor consciente por si. tão apreciada por FREUD. a aceitação dos processos de clivagem. trazendo “temor e tremor”. de “maioria compacta”. o remorso. portanto. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica.

experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. em termos mais gerais. Ele se tornaria o fraco. em substância: “Não continue. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. serei obrigado a falar disso a meu pai e. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). O “homem com problemas” aprendeu a lição. 36). quer dizer. ele tem úlceras constantes. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. Esse exemplo (que. até que ponto evitam-se a si mesmos. Além disso. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. seu imaginário enganoso. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. Transformam o mundo no qual estão. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. Pôde obter o posto desejado. naturalmente. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. por um processo de contra-investimento. se você continua. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. filho de um grande industrial. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. 270). Domine-se. p. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. SEGALEN). diante dessas revelações. Nessas condições. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. ENRIQUEZ. 1984. p. que detestam. reedição de 1986. quando os indivíduos estão nessa situação. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. Apenas. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. até que ponto estão presos na apatia (SADE). vinda da boa burguesia. seja de novo como nós. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. eles questionam sua identidade. Ora. formam uma nova maioria compacta. um grupo que tem uma cultura própria. nem mesmo à sua esposa. seu simbólico. desde então. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. é interrompido por um de seus colegas. não quero saber nada de seus problemas porque. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. que lhe diz. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). tendo uma identidade compacta. Com efeito. Nesse momento. 54 .

Como dizia um chefe de empresa. O “matador frio”. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. todas as “minorias ativas”. reedição de 1961. se evitam a si próprios. num mundo a priori hostil ou indiferente. para SADE. “Apagar. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. como escreve P. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. 1835. todos os “exotas”. Quem não se amolda deve ser liquidado. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. ainda mais. pelo menos. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. “em demasia”. que todos aqueles que buscam articular sentidos. soropositivos e. no dizer dos racistas.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. os que não se assemelham aos indivíduos que. colocar em lugares criados especialmente para eles). por si próprios. um piolho a ser eliminado. sem emoção. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. quer dizer. doentes de AIDS.. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. possam se tornar objeto de ódio ou. AULAIGNER. 55 . do outro. todos os “marginais”. De um lado estão os vencedores. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. guerreiro e sedutor. p. pelo menos. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. 103-104). então. “fazer correr sangue”. em seu corpo como em seu espírito. Compreende-se.. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. assim. ENRIQUEZ). para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. o homem dinâmico.

utilizando-se produtos proibidos. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. além do reconhecimento dessa luta. L. infeliz de quem trapacear. no interior de si. Essa última seria uma cultura da vergonha. Da mesma forma. No entanto. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. SERVAN-SCHREIBER. é preciso que seja conhecido por todos. a luta. em condições normais. a honra e o dinheiro serão seus sem que. mas pela vergonha. mas o toca em seu ser social. simplesmente. seja ele qual for. se sinta culpável. em sua aparência. Essa distinção é. voar em asa delta etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). Todo ato repreensível. escalar um paredão com as mãos nuas. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. as práticas que permitem ganhar. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Se ele for conhecido. Tudo está no ato e em sua visibilidade. Se não for descoberto. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. ir além de seus limites. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). Mas. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. em O crisântemo e a espada (1946). vemos proliferar. Assim. Ora. sem dúvida. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado.). pode ser perpetrado. aos outros. Basta que não seja descoberto. da inveja e do amor. um estudo sobre a sociedade japonesa. 1988). Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. fracassar. da agressividade. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. 56 . portanto. Se um ato corajoso – ou. a vergonha se abate sobre o autor da ação. Ela supõe. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. por isso.

enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. Com efeito. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. nas sombras. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. as notas frias. privilegiando a aparência. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. pelo jogo de aparências. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. sem culpabilidade. já começa a ser profundamente criticado. (c) que os ideais fortes. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. são suspeitos. apesar de suas imperfeições – normais. podem ser criados sem que daí decorra. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. que o jogo está feito. atos dos mais contrários à moral comum. necessários à vida humana. nascem a cada dia sob nossos olhos e. contra a pobreza etc. a lavagem dos narco-dólares. lendo as reflexões precedentes. com um único passe de mágica. Porém. Não se deveria pensar. postos de lado. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). quando não é possível falar-se a si mesmo. contra o racismo. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . o fanatismo. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. felizmente -. o corpo se encarrega de fazê-lo. necessariamente. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua.

além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). Sem dúvida. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. tal como tentei delineá-la. eles ainda as fazem “na exterioridade”. encontram-se na mesma situação todos os que. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. mesmo se a interioridade. veladamente. por isso. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. trabalhadores incapazes de se readaptar. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. Eles não se dão conta. os animadores socioculturais etc. esses “esquecidos” da sociedade. ser tratadas “na interioridade”. evitando o Charybde da exterioridade. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. Esses “excluídos”. pelo sofrimento. começam a se fazer perguntas.). para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. a delinqüência. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. poderão. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. de crédito. deverão se precaver. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. com sua carga enigmática. a droga. na doença da idealidade. Esses sujeitos. Entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. aceitando as regras do novo jogo. as perguntas. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Sendo assim. de afirmação ou de identificação. governa seus discursos e seus atos. Mais ainda. necessariamente. busca de identidade. Na realidade. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. pela alegria. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. assim como pela capacidade de sublimação. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. sem dúvida. de espaços. de indústrias. Nesse momento. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. entretanto. não desapareceu e não está 58 . os ferroviários.

59 . da T. da poetização do universo. 135. Segundo o Larousse. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. Cf. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. é. 34. é uma consciência cultural individualista. 38-53. Entre la marionnette et Dieu. com a formação. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. da T.). NOVALIS. como diz Lutero. espírito racional e humanista por excelência. o gosto pelo mórbido. 3 Cf. E. sobre KLEIST: E. ABRAHAM. v. 4 Como um cadáver (em latim no original). “expressão pela qual Sto. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. a Bildung do homem alemão. p. assim. In: Sur l’individu. 89-112. p. por Sonia Roedel. da salvação e da justificação da vida pura. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. tão diversos quanto GOETHE. (N. GOETHE. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. Inácio de Loyola. 5 FREUD. Individualisme apolitique. o romantismo. p. o homem dos Hinos à noite. citado por L. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. 1985. com o aprofundamento do eu puro ou. (N. pela emoção. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. ENRIQUEZ. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. involuntariamente. Considérations d’un apolitique. Paris: Aubier. do culto do inconsciente e dos instintos. N. seu oposto. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. Referências ABRAHAM.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. Le Verbier de l’homme aux loups. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. L’écorce et le noyau. assim. 1976. e TOROK. na qual o mundo objetivo. p. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Rio de Janeiro: Imago. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. as autobiografias. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. Eugène. S. é a absorção em si ou introspeção. DUMONT. N. Paris: Seuil. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. p. 1989-2. ENRIQUEZ. em termos religiosos. Paris: Aubier. 61-76.). 163. XVIII. 37. o mundo político.Topique. Quanto a KLEIST. é a inquietação com o cuidado. com suas difusões amplas). 1976. então. 1976. 1962. em suas constituições. Topique. M. os “diários de bordo”. 1987. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. 2 Grandes escritores alemães.

ps. In: Essais de Psychanalyse. L. MIJOLLA. Paris: Seuil. EPI. “Individualisme apolitique”. Paris: Payot. 1984. Paris: Les Belles Lettres. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. n. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. In: Sur l’individu. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. Paris: Payot. D. 37. 1980. Les visiteurs du moi. 1987. 1985. Topique. 1965. FREUD. “L’Individu dans la cité”. In: Sur l’Individu. BARTHES. M. p. Barthes par lui-même. 1942. 311-321. Trad. A. ENRIQUEZ. C. Picquier. Paris: Ed. narcissisme de mort. Trad. 34: 89112. Paris: Seuil. VERNANT. 60 . H. 1985. DUMONT. M. Paris: Gallimard. R. La chambre claire. franc. BENEDICT. Le retour du courage. W. V. A. 1987. “Condamné à investir”. J. Psychoanalitic quaterly. Le sabre et le chrysanthème. L. L’identité. 1986. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 1970. WINNICOT. GREEN. GREEN. 1982. 1982. A. In: LEVI-STRAUSS. R.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. 1981. Tomo I. BARTHES. ENRIQUEZ. Trad. J. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. Paris: Gallimard. E. 1961. Hogarth Press. DEUSTCH. Paris: Grasset. retomado em Nevroses and character types. E. P. 20-37. Biblio-Essais. S. 1983. 309-330. R. Aux carrefours de la haine. 1987. 1946. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. nova. R. de. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Topique. de Minuit. P. p. 11. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 1975. ENRIQUEZ. Paris: Gallimard/Seuil. Paris: Seuil. Narcissisme de vie. Notes sur l’exotisme (1908). Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. 1962. 25. SERVAN-SCHREIBER. FOUCAULT. SEGALEN. reedição. 1984.

São mais raras. à primeira vista. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. O que parece. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). Um projeto comum significa. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. mas não se está à altura de compreender. Vamos um pouco adiante. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. então. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. no entanto. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. as análises dos grupos em estado nascente. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. em um imaginário social comum.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. neste texto. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. esse problema é capital. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . Todos sabem e reconhecem isso. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. de início. para existir. no entanto. pois pode-se. Tal sistema de valores. sem dúvida. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. Ora.

tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. todo trabalho de interrogação sobre si. correndo esse risco intelectual e social. mas afetivamente sentidas. Não se trata unicamente de querer coletivamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. da ilusão e da crença. Todo grupo funciona à base da idealização. A ilusão deixa igualmente sua marca. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. vigor e “aura” excepcional. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. trata-se de sentir coletivamente. Da ilusão à crença. nela. é necessário que. sagrado. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu).2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. a passagem é rápida. ele pode nos atrair. Ora. Para serem operantes. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. consciente e inconscientemente. motor de nossa conduta. a nossos próprios olhos. nos inspirar. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. num grau maior ou menor. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. inatacável: assim. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. com uma força particularmente viva. pois ela é o elemento que dá consistência. Mas esse sentimento. transforma-se logo em um sistema de crença. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. ele se apresente sob um aspecto religioso. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. aquilo que queremos vir a ser.

para se desenvolver. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. Embora um grupo. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir.). missão a cumprir. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. assimilando. grandiosa ou pueril. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. a revolução etc. sobre a possibilidade de sua impotência. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. Idealização. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). na formação de todo grupo. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. consequentemente. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. A causa pode ser sublime ou irrisória. suas práticas à da Psicanálise como um todo). A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. Assim. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. Todo membro de um grupo é. 63 . sua vida). Todo militante político pensa do mesmo jeito. abusivamente sem dúvida.O vínculo grupal (deve. o militante político arrisca. Causa a defender. de maneira mais ou menos forte. deveria ser defendida como uma causa. idealização. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. pois. em certa medida. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. existente há muito tempo. FREUD já pensava que a Psicanálise. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. bem à vontade. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. esse não é o problema. verdadeiramente. possa perder parte de suas ilusões. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. E isso não acontece gratuitamente. pois esse não pode escamotear a questão da verdade.

um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Toda minoria tem. isso significa que ele se pensa. acreditar que está com a razão. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. Do contrário. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. de uma profissão ou de uma disciplina). ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . Para isso. As idéias novas. mas direi que. progressivamente. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. pois. membros do grupo. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. no caso de sucesso. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). talvez mesmo. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. Pouco importa. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. ela deve. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). se representa e quer se definir como uma minoria atuante. A maioria não tem jamais um grande propósito. triunfar. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. algumas vezes de uma só3 . Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. Essas pessoas sabem que. ela deve primeiro. vocação majoritária: mas. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. nós o sabemos. queira triunfar. propagar-se como uma mancha de óleo e. caso uma minoria.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. antes de chegar a seus fins. A maioria não tem jamais uma causa a defender. para se reforçar. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. imperativamente. isto é. geralmente. Eu serei menos afirmativo. sem exceção. sua luta não terá alma nem razão de ser. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. um dia. mais modestamente. se tornar a dissidência de muitos. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. antes de tudo e contra tudo. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação.

Como essas representam a ordem paterna. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. pois se funda em instituições sólidas. ao contrário. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. com efeito. explicitando o implícito dos comportamentos. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. E na maior parte das vezes ele o é. vista como pulsão agressiva). Assim fazendo. maneiras inovadoras de ser. Toda instituição. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. visando à repetição. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. Assim. tem por objetivo questionar o sistema vigente. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. A Psicanálise. A transgressão. deram certo. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. 65 . mas à sua transgressão. contra um exterior percebido como tão obscuro. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. mas propõe novas idéias. visando não à contestação da ordem existente. mas pela luta. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. sob certos aspectos. no passado. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. Ela não visa a propor outra coisa. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. Para que a vitória seja possível. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. o grupo vai tentar destruir as instituições. A contestação. desmistificando-o e desmitificando-o. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. mas que um novo saber apareceu. enfim.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. por exemplo. ela é. enquanto elemento da regulação social. novas maneiras de ser ou de se conduzir. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária.

permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. irmãos uns dos outros. tornar seus sonhos reais. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. em outras palavras. porém sem sucesso. amor mútuo. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. fazer-se aceito em sua 66 . sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. Sem essa vontade de destruição. isto é. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. FREUD. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. Não há complô verdadeiro. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. todo grupo. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. aliás. ao menos. deve criar um acontecimento irreversível. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. não obstante. graças a esse imaginário comum e não a outro. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. violência fundadora de um novo mundo. amor ao grupo enquanto grupo. Ódio ao exterior.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. não ser rejeitado. a não ser entre irmãos. a priori estranhos ou rivais entre si. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. O reconhecimento do desejo Em um grupo. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. Se ele faz parte do grupo. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade.

O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. em maior ou menor grau. eles se tornarão semelhantes. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. se não o desejasse. não devem ser muito diferentes uns dos outros. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. eles devem se identificar uns aos outros. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. Assim sendo. um corpo social completo. nesse caso. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Assim. em um grupo. ser reconhecido como um de seus membros. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. não teria podido fazer parte da conjuração. Essa semelhança buscada. às quais cada um deverá se submeter. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). quer. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. De todo jeito. diferenciação A MASSA Num tal caso. Aliás. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. para que possam se amar. homogêneos. igualmente. O grupo. querendo formar uma comunidade. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica.O vínculo grupal diferença irredutível. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. em seu ser insubstituível. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. O único problema é a mais estrita identificação. é o desejo de reconhecimento que predomina.

que será particularmente dura de suportar. a degradação da reflexão e da inventividade.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. então. sem-fundo”. progressivamente. a falta de inovação e. delação. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. avança cego. influência. não parecem defensivas. por ser o mais forte e o mais belo. 4. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. face a um grupo “sorvedouro.A compacidade do corpo formado vai. angústias de explosão. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. no grupo. coberto de certezas. tomando as características de um corpo todo-poderoso. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. senão os mais perturbados. sentimento de um meio hostil. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas).A semelhança pode. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. de tipo defensivo: suspeita mútua. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. com efeito. de indivíduos os mais emocionais.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo.A falta de diferenças provoca. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. Assim como. mas que. sem que se perceba. portador da “verdade” (!). pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. O grupo. 3. Ao contrário. Ocorrerão comportamentos regressivos. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. à primeira vista. tomam um vigor particular. 68 . crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. Aliás. desenvolver condutas que. igualmente.5 2.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. LEFORT). Que ele se guarde da desilusão. a partir de MARX. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. abismo. Estamos.

o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. os educadores. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. tive a surpresa de 69 . a administração. então.Se. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. em certos momentos. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. Se não se trata de questionar o projeto comum. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. de argumentações contraditórias. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. em seu interior. ao contrário. O grupo se centrará em si mesmo. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. então. Em tal caso. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. por acaso. No limite. como a cooperação idílica não existe mas. Os membros do grupo são. em um centro de jovens inadaptados. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. serão excluídos do grupo. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. A tolerância existe. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. como frouxos ou traidores. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir.O vínculo grupal 5. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. ao contrário. “níveis insuportáveis” (FREUD). Todo mundo. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. de negociações rigorosas. (Assim. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. No entanto. cada qual acreditando deter a verdade. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos.

O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. Fenômenos regressivos do tipo submissão. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. se torna um grupo edipiano. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. será tentado a achar um bode expiatório. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. eu deveria ter ficado menos surpreso. Para não chegar a esse ponto. nos países ocidentais. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. 70 . pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. Nesse caso. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. Esse. “personalização do poder”. uma influência que vem do domínio das idéias. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. repetição da palavra do mestre. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. enquanto professor. é freqüente. É raro ouvir professores falarem de estudantes. assim transformado. Em qualquer caso. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. Entretanto. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. ao contrário. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. mestre do pensamento e da ação). tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. por isso. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central.

se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. isto é. para afirmar a primazia de sua posição fálica. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. Se o grupo é bem sucedido. pois um grupo minoritário. se consegue impor os seus ideais ou transformar. Essas questões não podem ser elucidadas. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. sendo bem sucedidos ou não. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. Correlativamente. Assim. transformado muitas vezes em processo de erotização. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. para existir. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. os membros do grupo estão condenados ao amor. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. os grupos não podem se esquivar. do mesmo modo que estão condenados à crença. o grupo minoritário que. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. o campo social. inscrever seu sonho na realidade. o grupo corre o risco do fracasso. O amor desemboca no ódio. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. a única digna de ser respeitada. 71 . é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. de todo modo.O vínculo grupal Mas. como já constatamos. Com efeito. mas também os fracos. podem. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. tornar-se majoritário. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. igualmente. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. mas quem são os amados e os rejeitados. se somos suficientemente amados. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. Ora. em maior ou menor grau.

ele vai procurar as causas de seu fracasso. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. por exemplo. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. educadores. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. em um processo de análise: 1. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. De fato. Ela representa uma tentação constante. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. mas outro que está ainda para ser encontrado. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. se ele não provoca impacto social. serão inventados segundo as necessidades e. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. Muitos observadores se espantam. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. é o contrário que seria de espantar. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. Com efeito. É preciso. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. isto é. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. psiquiatras. mas não é um resultado inelutável. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. 72 . isto é. de outro lado. o grupo fracassa. o organizador do grupo. Com efeito. além disso. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. Se.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. para dizer que ele ainda subsiste. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. Ora. os marginais. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. no entanto. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho.

no entanto. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. Aí também há muita ilusão. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. Deveríamos. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. serão feitas análises superficiais. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. em certos casos. assim. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. de crença e de ilusão. 2. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. Outras vezes. e o disse muito bem. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. em muitas circunstâncias. às custas do mal que nutrem com gosto. De fato. a tomada de consciência se produz. arriscar-se a ser amado. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. Além disso. Se. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado).O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. em vez de favorecer o seu esclarecimento. 73 . a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. de maneira recorrente. FREUD disse isso. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. há muito tempo atrás. É importante não nos esquecermos. Ela pode levar à dissolução do grupo.

foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. n. por dez anos.F. 2 3 4 5 6 74 . por José Newton Garcia de Araújo. no 360. Nouvelle Revue de Psychanalyse. em caso algum. S. p. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. fui o único a me ocupar dela e. Seuil. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. “L’illusion mantenue”. 1983. Um homme en trop. Bulletin de Psychologie. 4. uma solução. “Le lien groupal”. Gallimard). J. suas angústias e. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. Segundo os termos de C. P. Por dez anos. suas relações de poder. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. Psychologie des minorités actives. seus antagonismos. se dar conta de que tal tarefa é limitada.U. Eugène. 631-637. Ma vie et la psychanalyse. Cf. Tomo XXXVI. S. CASTORIADIS. C. LEFORT. mas é preciso não querer ir muito longe.” (FREUD. ao mesmo tempo. PONTALIS.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. B. MOSCOVICI.

1985). passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. de modo algum. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). Espero. na verdade. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. convincente e inquietante. Devo acrescentar. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. então. se me detive a explicitar tal proposição. em Grenoble. é porque me parece que essa tendência. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. Com efeito. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. 1983. não deve. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. Entretanto. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. atualmente. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. tanto no Leste da Europa.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. 75 . os acontecimentos que se produzem atualmente. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente.

A religião produz então o “ser-junto”. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. sem deuses ou sem Deus único). o fanatismo religioso – isto é. Assim. de maneira privilegiada. isso não a obriga. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. sustentadas por rituais 76 . no entanto. seja como ser coletivo). Pois bem. Ao contrário. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. ao longo do tempo. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. ela nos religa uns aos outros. 1989). as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. a Deus o que era de Deus. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. além de nos sentir para sempre em dívida. sem totens. igualmente ENRIQUEZ. se depurando. necessariamente. sob pena de exclusão da comunidade. elas não colocavam mais problemas particulares. pode-se dizer que. A referência dura se exprime para mim. um dogma. As crenças. ou seja. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. sem lhe outorgar. no renascimento do (ou. com relação a ele. o papel que lhes estava destinado. a crença exacerbada em um mito. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. as grandes religiões monoteístas foram. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. No conjunto. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). às vezes com reticência. um ritual compartilhado que é preciso defender. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. A César o que era de César. como o pensavam DURKHEIM e FREUD.

passam a se desenvolver. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. a longo prazo. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. Algumas religiões. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. um estado psíquico onde o conflito não aparece. aspirando assim. mas foram se laicizando. porque é 77 . permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. profanas (MOSCOVICI). É necessário precisar o significado que dou a esse termo. o Estado como aparelho separado. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. a qualquer preço. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. na França. mas à criação de religiões substitutas. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. J. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. do declínio de uma fé sincera e manifesta. laicas (E.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. STOETZEL). a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. como desejava DURKHEIM. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. ARON. como medida de todas as coisas. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. Entretanto. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. ao “desencantamento do mundo”. não assistimos. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. O episódio. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). dos padres operários. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). Todos os homens. a longo prazo. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. ENRIQUEZ).

de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. conscientemente ou não. Quando falo de religiões substitutas. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. 1976). para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. quer sejam os pais. por ENGELS e. sob a IIIa República. na França. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). os mestres.). tal como a ideologia republicana.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. É. pois. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. da ideologia de granito (LEFORT. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. de serviços. mais ou menos fortemente. depois. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). então. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. (mesmo se. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. de ideologias totais (LYPSET. A ideologia pode. de fato. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. não como uma ideologia (quer dizer. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. 1963). após a morte de MARX. de votos etc. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . pois. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia.

conseguiu se desenvolver. como as religiões. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. As ideologias que eu evoco são. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. ideologias “compactas” que. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. quando as religiões se enfraquecem. Ela então regula essa questão central da alteridade. por seu caráter absolutista. que ela assegura sua identidade. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. projetando-o nos outros. jacente em todo ser humano. na época moderna. em maior ou menor grau. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). É assim que ela pode formar uma cultura. a converter ou a destruir. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. então. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. reunidos em comunidade. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. constituindo-se. pelo ferro e pelo fogo. heréticos ou descrentes. no cerne mesmo da sociedade. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. indica que a seita. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. como uma Igreja com seus templos. que já mencionei. substituindo-os por outros que. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. sozinhos. que produzem uma cultura própria. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. Um grupo minoritário. por sua força de convicção. 79 .O fanatismo religioso e político (colonização). Uma religião. vão se impor como lei. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. Mas é preciso observar que. antes mesmo que seja colocada. 1979). não pode estar na origem de nenhuma religião. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. representaram um papel menor na dinâmica social. devem estabelecer com o Sagrado. pelo sacrifício de seus mártires. a negar.

não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). de seu lado. “poetas”. Em outras palavras. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. ao contrário. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). como heróis (no sentido freudiano do termo). Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. desenvolveu uma política de conversão). 80 . apesar de tudo. (Entretanto. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. no “sentimento oceânico” (R. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. é porque os judeus. É verdade que os grandes místicos. porque a morte santifica e promete o paraíso. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles.

viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). segundo o axioma de WALRAS).As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. Entretanto. que são religiões da revelação. segundo a terminologia weberiana). na verdade. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. por conseguinte. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. 1. as liberais e as “socialistas”. como a ideologia republicana. eles não podem. 1971). intensificação da produção não somente de objetos úteis. tudo se vende”. Ora. ideologia sem porta-voz. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. se certas condições são preenchidas. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis).que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. 2. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas.Elas se enriquecem. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja.O fanatismo religioso e político Concluindo. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. mas somente possível e previsível. São sociedades: a. de novas características. é conveniente fazer algumas observações. 81 . PALMADE). quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. ser totalmente dissociados. o texto de J. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. (Não existe. sem emblemas. além disso. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. entretanto.

O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. c. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. d. b. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. no fim das contas. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. (Assim. Assim também. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. assim. ao mesmo tempo. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. de imortalidade. se desembaraçar. 1967. pensar e querer o apocalipse) e. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). enquanto criação e distribuição das riquezas. Sociedades sem pais e. 82 . o trabalho perde seu significado. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. por isso mesmo. Nesse momento.sociedades que. já havia observado isso). concebê-lo como um inimigo ideal. 1967). Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. 1989). além do furor de não poder satisfazê-los. realizáveis. “mãe das cloacas e dos brejos. seu valor se corrói. sua legitimidade desaparece. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos.sociedades que. LAPLANCHE. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. para os homens e para as mulheres. da qual é necessário.

permanecer na certeza e. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. da apatia. (FREUD. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. se sacrificar.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. os “desgarrados”. da miséria. não oferecem mais interesse. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. os excluídos. Essa citação dispensa comentário. um projeto a sustentar. de um capitalista. aquela que cria uma identidade coletiva. da loucura. Daí se seguem três conseqüências. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. os irmãos e os adversários. uma causa a defender. da corrupção). Contra o mundo perverso. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. Mas as religiões. da ausência de um fundamento. em particular. A religião reclamada é a religião absolutista. formar uma cultura. do desaparecimento de referência a toda transcendência. só há salvação na paranóia partilhada. 1930) 83 . nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. no Ocidente. aquela que designa claramente os aliados. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. de um budista. da exclusão. O indivíduo desaparece. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. os esquecidos. O que desejam os deserdados. no limite. Se não somos nada além de um espartano. Eles querem se tornar um “Nós”. de um proletário. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum.

1984). Não esqueçamos. além disso. o inglês fala tudo de ruim do escocês. O fanatismo visa. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. É certo que. liberado finalmente do mal. elas exigem a super-identificação à causa. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. o que é um alimento. pelo menos. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. ENRIQUEZ. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. para isso. no entanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. da sedução ou da coerção). tais como as descrevi acima. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. para ela é uma impureza?”. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. uma imensa massa de homens. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. ou seja. anunciador de um mundo novo. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. Quanto mais uma cultura quer se unificar. sua conversão. livre do mal. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. nos diversos países. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. o super-investimento no projeto. então. o espanhol despreza o português”. a criar um mundo novo. O desenvolvimento do fanatismo. como seres a eliminar. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”.

São Estados. E nós tocamos. Retomemos esses dois pontos: 1. assim. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. um instrumento a serviço do fanatismo político. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. para unificar os corações e os espíritos. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. sozinho. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. na hora atual. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . É preciso. o essencial: a dimensão política. Ou seja. O fanatismo religioso. primeiro e antes de tudo. sem dúvida. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. O fanatismo religioso é. o sinal de seu enfraquecimento. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). grupos sociais minoritários e outrora desprezados. por sua vez. É por essa razão que meu texto tem esse título.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. o Azerbadjão. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. é preciso lembrar que. Síria). para que o fanatismo se fortaleça. ainda. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. no máximo. fundamentalista. mas. resulta. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. o Irã). regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. a se tornar dominantes (por exemplo.

antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Eglise de Scientologie).redourar o brasão das religiões tradicionais. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. Loja P2. judia. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. Alemanha do Leste. na regulação dos Estados modernos. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. lepenistas. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. na França. do qual eles não saberiam o que fazer. destruição cultural. Nesse caso. Países Bálticos. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. c. 2.A religião não se apresenta. se ela se extingue.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. em nossos dias. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. o convite a alguns líderes protestantes. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). das comunidades islâmicas. ela pode ter como papel: a. ela designará os vencedores e os vencidos. cristãs. que querem fazer valer sua palavra. muçulmana) na vida cotidiana da França. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. protestante. nos quais não existe senão um fraco consenso. certos grupos religiosos em Israel). coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. judias). Communione e Liberazione. sob uma forma fanática. forçosamente. b. Irlanda do Norte.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Se a aliança persiste. interdição de pensar (Polônia. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 .

fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. 87 . nesse caso. De fato. ao invés de processos de sublimação. sem fim. como no exemplo de KHOMEINY). paralisar a atividade de mentalização. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. de precisar meu objetivo. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. o caos e o abismo. ao contrário. Mas. de reflexão e de reflexividade. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. não é o caso de superestimá-la. ele tenta. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. Se essas são capazes de inventar novos projetos. Os homens aprenderiam. antes de tudo. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. o religioso. prontos a afrontar o absurdo. o Estado leigo faz apelo. com a ajuda de seu Deus –. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. cada vez mais freqüentemente. laborioso. sem recorrer a referências seguras –. suas dúvidas. mas que. para terminar. nascida desse trabalho árduo. 1. Eu gostaria. desde o início dos tempos modernos. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. finalmente. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. a falta de sentido.

a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Ela lhes é consubstancial. Os valores religiosos. “A última tentação de Cristo”. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. efetivamente. 55. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. no outro. em si mesmo. quando o religioso se põe a serviço do político. do fato nacional. a ideologia. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. p. na armadilha que denuncia.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. Ora. devem ser levados em consideração. T. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. (N. nos fenômenos sociais. que a religião. tão fácil e prazerosamente. a perversão ou a paranóia triunfam. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. 1990-1.) 2 88 . do fato ideológico. ideológicos e nacionais. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. quando a ideologia dura impede o livre pensar.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. Araújo. nos seus interlocutores e. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. naturalmente. se ele não faz esse trabalho. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. antes de tudo. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. Eu não quis dizer. uma vez que elas são. “Le fanatisme religieux et politique”. na América do Sul). ela lhes permite tomar iniciativas. 137-149. n. em nenhum momento. Eugène. tanto quanto outros tipos de valores. sob pena de cair. 3. Ela assume então o papel de desalienação. Se. Por outro lado. por Leila de Melo Franco S. Connexions. então a reflexão desaparece.

1985. L’homme et la politique. 1971. E. janeiro. G. DELEUZE.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL.). “Malaises dans les identifications”. Essais d’ethnopsychiatrie générale. KLOSSOWSKI. 48. 54. 1971. (org. ENRIQUEZ. S. n. S. G. CASTORIADIS. 1985. Un homme en trop. S. 1963. 1973. 1976. sobre o fanatismo hoje. L’autonomie sociale. DEVEREUX. n. FREUD. 1987. Cl.(1930) Malaise dans la civilisation. ENRIQUEZ. Epi. C. Connexions. Y. Editions de Minuit. J. “Notations sur le racisme”. “La défense et l’Interdit”. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. Seuil. 89 . PUG. PUG. E. Psychologie des minorités atives. 1984. Seuil. In: La NEF. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. M. 1989. La monnaie vivante. 1989. In: Autonomie sociale. PUF. MOSCOVICI. LEFORT. . 1979. 1967. LAPLANCHE. ENRIQUEZ. Connexions. 1967. ENRIQUEZ. Épi. Au carrefour de la haine. Présentation de Sacher-Masoch. Eres. LYPSET. PUF. E. P.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

em plena Vendée.CONJUNÇÃO. A escolha da região do Cholet. calçados etc. vividas pelos dirigentes. uns nos outros. incessante.2 Tais reflexões mostram. vestuário. de outro lado. de um lado.. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. e o conservadorismo social e cultural da região. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. sobretudo. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. NA EMPRESA. já havia sido notado por vários pesquisadores. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. por exemplo). são exportados para todo o mundo (iates. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. como elas podem morrer. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. alimentação. individual e coletivo. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. seus produtos. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. que 91 . COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. como elas se desenvolvem.

é. num primeiro momento e.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. depois. convidados a falar a respeito. a partir de sua criação. evocava neles. desde sua origem até o momento atual. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. de suas dúvidas. segundo um método comparativo. para nós. à antigüidade. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. caso a caso (empresa a empresa). ou ainda. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. sua história. diferenciações. Não se trata. pudemos pôr em evidência certas constantes. era. Em outras palavras. que são ao mesmo tempo seu principal tema. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. como objeto no discurso dos dirigentes. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. ainda que solicitadas por nós. mas a empresa como objeto psicossocial. Uma tal aventura. para si próprios. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. isto é. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. 92 . ao produto. de seus projetos. Assim. sobre aquilo que a empresa. a partir de suas lembranças. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. suas dificuldades. seu futuro. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. o qual é vivido como o fundamento da empresa. que tais entrevistas. clivagens. Tendo analisado esses depoimentos. entretanto. Ou seja. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. entretanto. com efeito.

que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. De maneira mais geral. histórica e sociológica. a regiões de Mauges.o ofício ou o produto. quer se exprima pela relação com o solo. Essas três entidades. grão etc. de maneira mais extensa. a terra ou a região.a terra ou a região. com a região (no caso. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. suas tradições e a 93 . podem ser resumidas da seguinte maneira: . aquilo que é ligado aos locais físicos. quer dizer. Nesse último sentido. quer dizer. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. quer dizer. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. . de Bocage.) que se trabalha ou. . nota-se que. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. de maneira mais abstrata. argila. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. na origem. com freqüência até mesmo joint families.Conjunção. na empresa. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. também. A terra Essa referência é onipresente. locais e regionais. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. sua cultura. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. a partir do qual elas podem se desenvolver. geográficos. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras.a família. com o território (nome das cidades. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. de um projeto pessoal e familiar. embora todas tenham dependido. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. ou ainda. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. conceitos verbais. quer dizer. cuja combinação constitui o sistema de sustentação.

vira tudo uma máfia”). nas relações e atitudes: assim. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). Antes de ser um projeto pessoal. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. A família Tratando-se. eis nosso jeito fazendeirão”. físicas e morais. não se pode fingir”. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. 94 . assim que ultrapassamos a fronteira. contribuindo para o renome da cidade ou da região. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. um conjunto de obrigações e de restrições. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. o lugar dessa é aí dominante. “não ficar falando abobrinhas. tanto no imaginário quanto no real. atividades e lucros organizam-se em torno dela. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. na maior parte dos casos. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). no sentido concreto. mas também no metafórico. a empresa é um projeto de família.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. constituem então. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. em nome de uma certa ética. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. Desse ponto de vista. simultaneamente. mas também um sentimento de segurança. A “região”. bem como uma fonte de riquezas. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. de empresas familiares. em caso de dificuldade. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). “a terra”.

entre os bens e os dividendos pessoais. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. sendo um dos dois sexos. como “a realização de seus antepassados”. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). Compreende-se. sendo também imagem das relações de parentesco. “empresa familiar”. num primeiro tempo. na sua origem. então. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. de outro. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. quer dizer. Naturalmente. SA. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. “sociedade familiar” ou. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. no início. descartado. ainda. “sociedade de família”. de fato. as relações de autoridade. fortemente personalizadas. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. inclusive para outras aglomerações. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). por um lado. 95 . até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. mas também nos fatos reais. então. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. Como se pode notar. e o capital e os salários. As estruturas e as relações de poder são. na empresa. Da mesma maneira. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). designada como “negócio de família”. seja pelos homens (os filhos). Assim.Conjunção. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). de um projeto pessoal e familiar. onde empregados e patrões podem comer juntos. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). A presença da família e de seu passado se traduz. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. inclusive com empregados. geralmente. de papéis e de procedimentos formais. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. é certo. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”.

frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. casamentos. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. A história da empresa é assim. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. da receita ou do jeitinho de fazer.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. com os acontecimentos familiares – mortes. couro etc. um elemento de coesão e também uma limitação. lenços da região do Cholet. Apalpar essa matéria. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. a maior parte das vezes. freqüentemente. Está diretamente associado às mãos do artesão. O ofício. uma inspiração. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. rupturas. –. o produto Em função de sua origem artesanal. uma fonte de problemas e de conflitos. os sindicatos independentes são mal tolerados. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. seus vizinhos.. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. Nessas condições. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. transmitidos de geração em geração. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . – e de lhe imprimir uma marca pessoal. Assim como para a referência à região. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder.

como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. estão imbricadas umas nas outras. eles formam então como um bloco compacto. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. Sua história. Esse processo não se realiza sem problemas. ele supõe a adoção de atos concretos. essas três bases – ou instituições primárias –. para o dirigente. que asseguram sua identidade e a base da empresa. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. De fato. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. constatou-se. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. encarnada na pessoa do fundador. o ofício. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. para garantir as evoluções indispensáveis. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. na empresa. de um projeto pessoal e familiar. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. sangue ou mãos). no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. Consiste. –. com efeito. o marketing etc. transmitido de geração em geração. cujas partes.Conjunção. trata-se de um conjunto extremamente coerente. à terra. Juntos. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . em desligar aquilo que estava ligado. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. pelo menos em parte. Entretanto. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. profissionais. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. vêse então que. não em negar. não são entidades independentes. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro.

da afetividade à separação. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. de valores ou modos e redes relacionais.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. De maneira mais precisa. do herdado (ou do dado) ao adquirido. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. essencialmente. ao longo de toda a história da empresa. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. 98 . PARSONS: do particular ao universal. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. Nos termos de T. b. seu objetivo. a transferência física da empresa para outros locais. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a.o deslocamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. isto é. c. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. elaboração de uma organização e. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. de produções. com efeito. da proximidade ao distanciamento. isto é. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. Esses três movimentos resumem. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. investimentos em máquinas e em locais especializados. principalmente. consiste em passar de um sistema social a um outro. de estruturas de necessidades e de motivações. exigindo. O ponto de chegada de tal processo. portanto.a industrialização. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. do pessoal ao impessoal. PARSONS.

em contrapartida. sua principal razão de ser – ele deve. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. na empresa. adquirir as competências ligadas à gestão –. bem como uma administração capaz de a gerenciar.Conjunção. ele não pode assumi-las todas e é. freqüentemente. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. de acordo com regras precisas que excluem. se 99 .. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. Enfim. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. pode-se dizer (. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. regidas segundo técnicas e métodos importados. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. de um projeto pessoal e familiar. ou ainda: “das famílias na sociedade. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. então. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. O envolvimento da família é. a partir de então. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. obrigado a repartir o poder com outros. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. com efeito. bem como na composição do Conselho de Administração.. que põe as contas em ordem. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. a entrada em cena de um contador. máximo. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente.

mostra-se assim sempre indispensável. transformando as relações de poder e os modos de pensar. Eles são. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. como para qualquer chefe de empresa. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. colocados numa situação extremamente conflitiva. a estrutura de pessoal (mais jovens. É. por conseguinte. mas. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. melhor formados) e a da clientela. Esse processo não se realiza de uma só vez. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. portanto. podendo implicar até em falência. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . sócios etc. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. pela definição de papéis e critérios decisórios. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. ela se baseia em competências que eles adquiriram. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. portanto. Esses estão. pois. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. com efeito. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. Progressivamente. –. o que permite. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. pela instauração de regras explícitas e.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. geralmente fora da empresa. principalmente entre os (jovens) dirigentes. freqüentemente.

renunciando a uma expansão possível. além disso. de um projeto pessoal e familiar. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. outras aspirações. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. Trata-se. manter uma qualidade de vida e de trabalho. no entanto. Outros se orientam para soluções. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. uma tomada de distância em relação à terra natal. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. encontramos respostas extremamente diversas. outras exigências. necessariamente. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. E. a empresa adotar uma estratégia de exportação. ou mesmo para o estrangeiro. Para essa questão. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. isto é. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. o solo no qual a empresa se situa. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. Se. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. preservar uma base local. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. Em todos os casos.Conjunção. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. Se o deslocamento para outra região. como uma espécie de traição. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. 101 . para si próprio como para o ambiente é. portanto. nesse caso. é importante para reduzir. outros modos de relação. – e o questionamento de vínculos anteriores. permitindo administrar as contradições. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. considerado preferível a uma expansão sem significado. bancos etc. mas permitindo a sobrevivência da empresa. na empresa. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. pois. por exemplo.

é ele. mais eles se autonomizam. são substituídas por relações secundárias. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. mais ou menos importantes. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. portanto nitidamente diferenciados e interligados. uns em relação aos outros. no entanto. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . Todas as empresas. evitando. algumas das quais podendo se situar alhures. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. no entanto. assimilado a um trabalho de luto. Quanto mais eles se ampliam. produtividade. a rachar. Um tal processo pode ser. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. taxa de crescimento. uns sobre os outros. situadas em regiões economicamente mais propícias. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. que supõem prazos e contatos (redes etc. SUA terra. As relações diretas. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. indiretas. e de rupturas que essas provocam com o lugar.). face a face. margem de lucro. Seria. criar vínculos de dependência com eles. por exemplo). entretanto. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. etc). ou ainda. as pessoas ou os hábitos de pensar. então. com efeito. emerge assim uma organização. desenvolver uma rede de sub-contratantes. é SUA família. que manifestam um crescimento sensível. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. por regras ou por técnicas. Como conseqüência de decisões. admitindo divisões e separações. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. ao mesmo tempo. SEU ofício que dá corpo a ele. por exemplo. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. ou ainda. no sentido pleno do termo. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. mercados. é pois.

com o título Inconscient. sua ancoragem biológica. ele deve sempre compor com o nível primário. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. constitutivo do sujeito. Paris.) 2 103 . de sua unidade. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. sua fonte energética. do clã. que é o seu fundamento. uma tensão permanente. 1991. Região situada no oeste da França.T. organisation sociale.(mimeogr. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. é impossível. collectif). para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. Toulouse. Se. despregar-se.Conjunção. por Júlio M. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. desprender-se inteiramente. (N. A instituição é um processo. de negar aquilo que é. de um projeto pessoal e familiar. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. de sua consistência. 1990. existindo para e por si mesma. na empresa. no entanto. ficando na ilusão de sua existência. sob pena de perder o contato com o real biológico. André. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. Mourão.). Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

a fim de que as sociedades possam. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. NICOLAÏ). de forma responsável. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. um trabalho de tal monta é necessário e. então. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. Essas transformações devem. possível. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. NICOLAÏ. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). sobretudo. mais eficazes e mais rápidos. LÉVY e A. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. etnias. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. verdadeiramente. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. aparentemente. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. finalmente. Entretanto. pois. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. as mudanças essenciais 107 . LÉVY. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. quais são os problemas realmente essenciais. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. o triunfo da racionalidade experimental. com o seu corolário. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. No momento atual. os “intermináveis adolescentes” citados por A. No espaço até então ocupado por ela. grupos religiosos etc. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. Todavia. como o evidencia Nicolaï. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A.

na prática social. desde a sua criação. com freqüência. pelas interações entre sujeitos. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. ritualizadas. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. na relação e pela relação. Ela poderá. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. antes de mais nada. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Nesse sentido. na atual crise pela qual passa o Brasil. 108 . LÉVY: as verdadeiras mudanças. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. dar atenção especial à conversação e ao debate. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. seja para a evolução social. capazes de contribuir. igualmente. Será. seja para a sua involução. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. interessar-se mais pelos movimentos sociais. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. também. É importante ainda mencionar outra questão. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. Ao contrário. Os sociólogos não se enganaram. para tanto. Esse processo é longo. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. LÉVY). não surgirão de tomadas de decisões formais. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. e não a nível global e em regiões centrais. como têm sido feitas. o “retorno do ator”. prováveis de ocorrerem na sociedade. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. portanto. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. levantada por A. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. sujeito). Essa disciplina deverá. Seguindo essa via. suas instituições e seus diversos grupos sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. quando anunciaram. como o fez Touraine. No entanto. Mas. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. realizando um genuíno trabalho psíquico. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras.

E isso se traduz em um interesse. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano.2 o envelhecimento. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. na acepção forte do termo. Se me decidi a escrever esse texto.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. forçosamente. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. é porque me parece que. malgrado as aparências. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. – tudo isso parece indicar. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. com efeito. nem sempre bem sucedido. no início dos anos 60. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. seríamos tentados a pensar que. e observando-se toda uma série de sinais. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. presente em muitos meios. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . ainda. no modo de compreender as organizações e as instituições e.

uma após outra. retomando termos de E. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. que evidentemente não é exaustiva. a análise transacional e. elas tenham podido ser a referência principal. como todo fenômeno de moda. para os atores engajados na ação. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. Parece-me igualmente que. É certo que a maior parte delas não desapareceu.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. mas a vontade de inovar. o que tem como conseqüência que. desde o início dos anos 70. de viver de outra forma. constituem. Essa enumeração. de ter prazer. Mas importa. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. Entretanto. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. 110 . as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. mais recentemente. Em outras palavras. em seu conjunto. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. elas têm em comum o fato de terem pretendido. ou. por exemplo). pode-se citar a análise institucional. ENRIQUEZ.. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. os métodos centrados na expressão corporal. senão a única. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. em um determinado momento. primeiro. para os atores sociais e para muitos práticos. não apenas a inquietude e a interrogação. uma após outra. enfim. a análise organizacional.. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. Embora durante alguns anos. em função do que lhes parece ser necessário.

meios que ele controla. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. Em outras palavras. desse ponto de vista. por exemplo. a outros métodos mais longos. 111 . com ambições mais limitadas e incertas. por não lhe deixar escolha. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. auto-realização. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. na verdade. Dessa forma. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. fazendo assim. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. incertos e custosos. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. efeitos espetaculares em uma instituição. pelo menos – desses métodos: a. LEWIN e C. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. com vantagens. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. É praticamente certo que a análise institucional.). ao mesmo tempo.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). então. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). Certamente.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual.. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade.. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. eles se comparam. intenções que. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. ROGERS (resolução de conflitos sociais. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”.

“sistemas” (por exemplo. condenado a ser rejeitado. se possível. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. reduzido. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. não garante nem assegura nada. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. especialmente a necessidade de tempo. o sistema de ação concreto de M. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. concomitantemente. Embora ocorram desvios. aparecendo em utensílios. mas também nas orientações cognitivas. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. automaticamente a problemas delimitados. Tal fascinação pelo que “funciona”. então. e que. tudo isso é.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. dominada por relações mercadológicas e seus valores.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. então. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. Nessa perspectiva. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. “enquadramentos”. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). 112 . Essa tendência já estava presente. a um “ator” ou a um “agente”. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. há que se lembrar. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. evidentemente.

uma grande parte de sua riqueza. então. assimilá-la a uma encomenda. implicando um bem. toda história singular. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. assim como uma relação de troca. especialmente. Nesse sentido. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. isto é. Se. no sentido de ordenar ou encomendar. a demandas por respostas e soluções. que podem. Entretanto. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). Assim. é eco de acontecimentos sociais. sem risco. nesse caso. tal distinção não nos parece desejável pois. no limite. a demanda é. uma 113 . demanda de encomenda – LOURAU. retira-lhe. com efeito. está próxima à noção de encomenda. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. no registro econômico. endereçada a um outro. Primeiramente. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. entre a demanda e a encomenda. por isso mesmo. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. progressivamente. Assemelha-se.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. uma demanda de objeto. No que nos diz respeito. podem-se percorrer todos os graus. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. reciprocamente. um objeto. inscritos em uma história coletiva que. há quem quis diferenciar. ao contrário. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. reciprocamente. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. necessariamente. A demanda expressa. mais ou menos explícitas. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. combinada então a pressões mais ou menos fortes. O conceito de demanda social Com efeito.

Ele não é evidente. uma certa relação de poder e de dominação. Entretanto. em demanda de outra coisa – conselho. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. inclusive e sobretudo por quem a formula. de uma falta.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. durante um processo de consulta ou de intervenção. solução. sua interpretação é sempre problemática. na acepção própria do termo. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. marido e mulher etc. Ela se torna real por essa e nessa relação. a “demanda” só tem sentido e só existe. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. Se. sua interpretação. aí. É. Nesse caso. ajuda. tudo isso não é específico da Psicossociologia. principalmente. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. disfarçando-se. precisamente. explicitada pelo objeto que designa. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. mas como social. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. mas a expressão de um desejo. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. no primeiro registro. não é uma demanda de objeto. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. na Psicossociologia. dificilmente é formulada como tal. No limite. Por essa razão. em contrapartida. no segundo. a demanda é considerada não como individual. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. necessário indagar a respeito de seu significado. pois o qualificativo “social” tende. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. inversamente. seu tratamento – é. é que. 114 . uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. trata-se de uma demanda de amor. Enquanto é apelo ao outro. Certamente. seja de reconhecimento ou de amor. o que lhe dá riqueza e complexidade. a demanda é facilmente interpretável. a questão da demanda – sua escuta. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico.. pelo menos em um segundo plano. objeto material etc. freqüentemente ou sempre. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. seja em um quadro terapêutico. então.

nas quais elas podem ser avaliadas. mas também de permitir interpretá-las. quis ou “demandou”. testemunhado através de seus escritos. não há nada em comum com a posição de simples espelho. Como conseqüência. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. meios de resolver um conflito etc. podem ter efeitos nas situações que as originaram. de uma maneira ou de outra. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). das quais resultam vivências compartilhadas que. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. De um lado. é necessário que ele tenha se manifestado. manifestações agressivas ou angustiantes etc. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. de outro. de dependência ou de submissão.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. compreendidas e interpretadas. mesmo que seja de maneira difusa. eventualmente.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. as quais. Ao contrário. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. Assim. Em outras palavras. mobilizadas. atos e palavras. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. às quais é difícil resistir. que sua prática não é aplicação de uma 115 . especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. reflexo interpretante. exprimem-se sob formas coletivas (greves. Porém. a solicitou. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. transformadas em atos.). por sua vez. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam.

um serviço administrativo. Entretanto. DUBOST. uma empresa. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. afirmar que elas são.. toda análise em termos de relações bipolares. na falta de outro termo. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. Assim. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). ao mesmo tempo. individuais e coletivos. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. desde LEWIN.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. enigma. tudo isso expressa bem o que. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. Tal representação exclui. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima.6 como oportunamente evocado por J. mas que traduzem um desejo. uma perspectiva – que. consequentemente. Desse ponto de vista. da mesma forma. interagindo entre eles. não é possível. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. entretanto. com a condição. no espaço desse artigo. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. a noção de sistema é bastante útil. Esse ponto. parece-nos ser uma ética. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. independentemente das outras com as quais ela se articula. confessáveis e tratáveis. ao contrário. uma ética. uma classe de atores etc. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. um grupo. Trata-se. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. Evidentemente. mas através de princípios regendo procedimentos. principalmente. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. uma concepção da sociedade e das relações humanas.

instrumental. A introdução. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. sem o perceber. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. Em suma. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. 3. por exemplo –. Desse ponto de vista. 2. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. aplica-se também à Psicanálise. o interventor-pesquisador contra o risco de. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. igualmente.7 Porém. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. em uma relação de colaboração. em especial. então. antecipadamente. é importante que todo ator e. desde o início da ação de intervenção. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. e sendo breve. Sem dúvida. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. por K. LEWIN.Por outro lado. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. em especial. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. identificar os dados. a fortiori.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. trata-se de tentar definir.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . J. Evidentemente. dessa forma. ao mesmo tempo. Assim.

assim como observar. investigar. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. questionar. brevemente. consideráveis nas últimas décadas. “saber como se foi apreendido”. 118 . Entretanto. é impossível. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. uma orientação. elas expressam antes uma perspectiva. então. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. tentando identificar. parafraseando J. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. embora não suficiente.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. nos termos de J. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. FAVRET-SAADA. reafirmar essa posição e manter-se nela. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. É indispensável. Da mesma forma. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. em seguida. então. da sociedade e das ciências do homem. FAVRET-SAADA. Embora seu enunciado seja necessário. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. algumas tendências atuais. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. Igualmente. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. de qualquer jeito. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles.

é impossível. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. Por outro lado. talvez rapidamente demais. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. dedicaram-se. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 .12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. Assim. no início do texto. há alguns anos. impõe-se: qualquer que seja o domínio. Em todo caso. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. rogerianas e morenianas. até então. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. certas correntes de Sociologia Clínica. de ordem geral. de uma forma diferente. análise conversacional. desde os anos 60. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. assim. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. cada vez mais evidentes. Mostram. com uma perspectiva bem global. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. etnometodologia. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos.10 Mais recentemente. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. não é mais aceitável. Finalmente. convergências. a problemas de mudança social. de análise de grupo. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. hoje.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. dominados principalmente. por perspectivas lewinianas. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica.

7. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. JAQUES. 1981. A. Por exemplo: ANZIEU. L’Harmattan. 1972. J. 1978. J. H. 17. E. 1977. “Ce que parler peut faire”. 1987. D. Tese de Doutorado. PUG. R. 43. A. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. responsáveis políticos locais. Minuit. 1979. 1980. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Seuil. 1989. e CAMUS-MALAVERGNE. e LÉVY. 12 BORZEIX. Connexions. 2 4 5 WATZLAWICK et al. les sorts. C. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. A. TROGNON. 1978. BION. 7 Cf. La société du vide. RAPOPORT. 42. La voix et le regard.N. André. J. Paris: Seuil. 1984. L’observation de l’homme. Connexions. Gallimard. G. Dunod. Sociologie du Travail. sindicalistas. A. J. 11 TOURAINE. 1965.. Intervention et changement dans l’entreprise. GOFFMAN. L’intervention psychosociologique. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. J. trabalhadores sociais. “L’analyse sociale”. In: ARDOINO et al. 1987. 1985. Em especial. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. 9-18. 1975.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. arquitetos etc. O. Le sujet social. 2:87. CHABROL. “Coopération et analyse des conversations”. LECLERC. O problema da mudança individual. por vezes fundamentais. E. p. L. Paris: Seuil. 1979. Les mots. DUBOST. In: Du discours à l’action. 10 120 . FLAHAULT. e de representações específicas de objeto. La parole intermédiaire. 3 ENRIQUEZ. Le groupe et l’inconscient. Connexions. 1987. Payot. BEAUVOIS. Y. e BAREL. Situations de groupe et relations langagières. Dunod. 1990. “Eloge de la psychosociologie”. Façons de parler. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. J. Changements. DUBOST. DUBOST. Paris X. A. LÉVY. L’intervention institutionnelle. ATLAN. 1973. PUF. e JOULE. 1983. 1984. Seuil. W. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. R. la mort. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. nos anos 60 e 70. 53. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. E. Dunod. 1987. Como exemplos: BARUS. PUF. muitos outros atores apareceram: formadores. paradoxes et psychothérapies. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. “Connexions”. Recherches sur les petits groupes. Seuil. Entre le cristal et la fumée.

tendência. mais do que como fenômeno excepcional. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. retorno a uma problemática do indeterminismo. em contrapartida. no campo que nos interessa. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança.3 sobretudo nas Ciências Humanas. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade.2 Mas.4 Essas evoluções. o segundo 121 . do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. de forma mais ou menos clara. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. certamente. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. também. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. em nenhuma das duas. depois de LEWIN. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. Entretanto.

definitivamente. hoje. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. LEWIN. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. deslocamento. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. aquém ou além.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. Antes. com efeito. compreendê-la como tal. participando delas diretamente. isto é. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. mas que ela poderia se realizar. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. ele permite. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. como demonstramos num texto anterior). com efeito. para as constatar. K. por definição. muito fecundo. Assim. necessariamente. de súbito. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. porém algumas observações prévias: a. no grupo (na relação e pela relação. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. aqui.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. por isso. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. parece-nos possível. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. Nesse terreno. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. prever. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –.5 Além disso. dirigir ou combater. de uma leitura psicológica. do interior e não de um ponto de vista exterior. 122 . iria reificá-lo. necessitando ser aprofundada. recristalização).

a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.. (. designar tudo o que está vivo. legitimamente. Antes de ser um acontecimento objetivo. como ruptura. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . freqüentemente não isentos de violência. reprodução das idéias. também. tecnológico –. econômico.. Toda vida é “repetição de ciclos”. reorientações bruscas.. A mudança é um trabalho do espírito.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. seja a de um indivíduo ou de um grupo. como observou Paul VALÉRY. desse ponto de vista. pois. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.. Com efeito. Como já dissemos. a mudança é um acontecimento psíquico.8 Com efeito. porém. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. é o espírito que.. Ele se traduz. o desenrolar de uma existência. à aventura. redirecionamentos.). O termo mudança poderia. ela é um acontecimento subjetivo. No entanto. a um processo de mudança. é acontecer. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. físico. que queremos nos centrar aqui.9 a mudança. A teoria dos sistemas distingue.. “exceto do corpo que se usa”.. reprodução das instituições. entretanto. é sobre essa segunda significação de mudança.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b..). nem todo processo discursivo se identifica.. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. ao risco (. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. mutações. não se reduz a esse processo evolutivo. assim. eles não podem ser previamente enunciados. Com efeito. tal definição é geral demais para ser útil.. que é a morte) – reprodução das espécies.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. lento e ininterrupto. escrevia Paul VALÉRY. é se abrir a uma história.

das instituições. então. Ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. os psicossociólogos. ao contrário. um trabalho de pensamento. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. o lugar da mudança. A decisão: momento. em todos os níveis. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. por excelência. Por exemplo. Fazemos. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. por um trabalho do espírito. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. depois de LEWIN. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. antes de tudo. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. 124 . pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. dos modos de pensamento. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. ainda. representações ou intenções e os que estimam.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. a liberdade”. objetivas. ao contrário. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. Para entender bem essa proposição. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. ao nível de suas significações. As condições materiais. ele o é apenas se fizer sentido. isto é. se o ato é fundador.

Os processos de decisão analisados por LEWIN. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. da continuidade sem hiatos. Por isso. a organização social. em um trabalho anterior. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. ao mesmo tempo. um salto para o desconhecido. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. só pode ocultá-lo. renunciando. do feminino. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. Somente a decisão pode fundá-lo”. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. inicialmente. LEWIN. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. da ordem do real-concreto-sensível. “operando uma disjunção violenta.13 acentuamos o ato arbitrário. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. então. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. o “golpe de força” na origem de toda organização social. em suas opções e em seus desejos fundamentais.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. por si. o psicanalista W. 125 . necessariamente. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. por si própria. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem.12 A decisão seria. a divisão. com o risco de sua própria desagregação”. para chegar ao processo secundário e criar o real. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. da duração (bergsoniana). o tempo. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). em sua época. por exemplo). uma situação nova e envolve inteiramente. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre.

O sujeito de tal enunciado. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. retomado ou reinterpretado. um ato de palavra. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada.. mas porque é um ato público. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). Toda decisão é. ao mesmo tempo. as situações institucionais. assim. nem que a palavra seja onipotente. em si mesmo. econômicas ou sociais. simplesmente. Mas. manifestação da vontade de produzir. tomados como testemunhas. a decisão é. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. que uma decisão necessariamente modifica. pois.” é um ato “ilocucionário explícito”. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. não pode significar uma mudança. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. Mas.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. como que por mágica. qualquer que ela seja. por seu conteúdo informativo e prescritivo. isso significa que uma escolha. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. de forma mais importante ainda. evidentemente. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. é o mesmo sujeito da enunciação. pois ele pode sempre ser desmentido. assim. explicitamente designado. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. Isso não significa. quer sejam. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. simplesmente. não muda nada. Um ato. modificações na realidade. Se o sujeito que 126 .. apenas por seu enunciado.

em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. como muitas vezes ocorre. do imaginário. efetivamente. a respeito do herói. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. sem apreender o real? 127 . vazios de sentido e sem conseqüências. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. como diante da morte –. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. para fundar o real. Aqui. e de abandonar o terreno do possível. Nesse sentido. não se reduzindo. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. o jogo de hipóteses. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. os desafia. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. sob a má fé dos argumentos. eles próprios. para um processo de mudança. rituais ou emblemáticos. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. Decisão. interpretação e prática de análise social No entanto. Então. igualmente. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. conscientes ou inconscientes. esconde mal. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. talvez mais do que em qualquer outro momento. a uma atividade lúdica ou de encantamento. bem antes do livro sobre Moisés. inelutável. entre as possibilidades. formal e. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas.

Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. Certamente. implica um risco e um custo. mas. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. escapar dessa eventualidade. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). possuem as características do relato histórico. como observa FAYE. ainda que não tenham conhecimento disso. sendo difícil. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. feita pelos psicossociólogos. para fazer a história. certamente. Mas ele pode. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. com efeito. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. tais como J. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. FAYE15 as analisou. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. Esses sistemas. certamente. como toda decisão. ao mesmo tempo. 128 . ela é necessariamente parcial e partidária. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. Seria importante. incontestavelmente. igualmente. P. termo que. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. senão impossível. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. Assim. O trabalho sobre as resistências. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir.

Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. não podendo ser traduzidos em decisões. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. contribui para reforçar seu caráter dogmático.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. o texto. sobretudo. mas sua coerência. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. uma parte da verdade comum. atuem diretamente no real. mas complementares. visto que essas. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. de uma mesma “realidade”. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. ideológico. longe de se fundamentarem no “real”. então. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. práticas contestadas ou abordadas. assim. diz-nos LEGENDRE. no inconsciente dos sujeitos. bem claramente. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. É aqui que uma concepção por demais rígida. das condutas às quais elas se referem. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. muitas vezes.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. do risco de uma interpretação verdadeira. justificando. subtraído do tempo”. que preserva o analista social da decisão. que eles constituem visões diferentes. em um processo de reificação de enunciados fechados. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. essas diferentes visões e o que elas ocultam. ao contrário. pois. mais ainda. mas tende a afastá-las. cada um. contentando-se em esclarecê-los e. “nascendo.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. químicos ou biológicos. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. cujos elementos. as crises econômicas foram. mas abertos ao seu meio ambiente e. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema.Os conceitos de auto-organização. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. face a “ruídos” provenientes do exterior. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. Eles se referem a sistemas autônomos. isto é. então. oriundos de outras áreas. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . colocam outros problemas. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. como crises momentâneas de coerência. são simultaneamente (cf. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. por isso. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. constituindo-se. atores e autores do seu sistema. em 1900. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. pois. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. inicialmente. capazes de se auto-regularem.Rupturas. autogeração etc. os atores. Nesses períodos. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. supra) agidos. autopoieses. o que não é o caso dos elementos físicos. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. ou seja. literalmente. os novos conceitos e hipóteses. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. em 1950.Inicialmente. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). isto é. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. autocriação. *** Quais são. Assim. a partir do século XIX. não restavam mais que 10 000). mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. 2.

Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. sob o protecionismo de MÉLINE. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. entre os economistas. segundo CROZIER) e. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. Essas crises-ruptura.. No entanto. Nesse ínterim. mas isso deixa de lado os fatores 136 . logo não previsível. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise.P. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. É certo que essa escolha é aleatória. sob a égide do Estado.I. o compromisso fordista empresários-assalariados. por conseguinte. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). na sociedade ou numa área econômica dada. Sua presença é vista como consolidada. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. de outro lado. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. amplia a margem de manobra dos inovadores que. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). Mas. encontramos poucas reflexões (na França.2 por exemplo). de inovadores potenciais. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. de um lado. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. na França. nesse momento. em especial.

aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. nesse quadro. Há outro problema não estudado. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. Mesmo se essas teorizações existissem. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). inerente ao sistema. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. assim como aos fatores culturais. uma teoria do fracasso. em cinqüenta anos. da designação. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento.000 sociedades. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”.I. tornando possível viver em perspectiva (C. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. da predestinação do mais forte. nessas mutações estruturais. entre a mão invisível e o punho de ferro. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede.P. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. Mas ainda continua faltando. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. ao nível dos detalhes. por conseguinte. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes.Rupturas. Em épocas de crises-ruptura. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. CASTORIADIS). julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. ou seja. 137 . ele se torna o ordálio. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. a difusão ou não – de suas inovações. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações.. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão.

o lúdico. 138 . o sagrado e.I. ao mesmo tempo. polimorfismo das intervenções do Estado. às vezes. . mesmo que saibamos. integrismos. BOYER. podemos constatar: . após dessacralização. despolitização. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . GROU. por exemplo): concorrência. a família e a escola). .aumento do número dos agentes aí implicados. embora ainda não totalmente.P. des-sindicalização e mesmo des-identificações.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação.enfim. à extensão do capitalismo (os N. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. . . 3. Ela se define (P.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem).). sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. ENRIQUEZ): nacionalismos. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. desde BRAUDEL. após a solução eventual da ruptura. da cultura.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial).). . que o Centro se desloca. homogeneização da linguagem. 3 .aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados.fenômenos de regressão a formas mais simples. devido à extensão atual do mercado e. .outras referências. poderes oligopolíticos em escala internacional. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca. por exemplo). Mas.

a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. quando da sua transgressão e. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. o leque dos comportamentos não é.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. devem inicialmente ser especificadas. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. regras ou convenções para lhe dar suporte. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). Essa adesão. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. uma interiorização das normas e uma culpabilização. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. químicos. 139 . por outro lado. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos.Rupturas. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). por seu lado. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. por um lado. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. completamente fechado. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. por outro. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. das conexões) e do “salto qualitativo”. além das imposições do mercado e dos demais poderes. Do mesmo modo. D. as sociedades animais). mecânicos. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. para cada grupo de agentes. para poderem inovar. REYNAUD). por um lado. tão caro aos marxistas de outrora. Contrariamente. introduzir normas. biológicos e mesmo etnológicos. E esses. para serem fecundas. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. como afirma o individualismo antropológico. É preciso. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. informáticos. Ela supõe. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. 1.).Nos sistemas sociais. pois.

no segundo. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. muito numerosos e/ ou muito obsoletos.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. de se expandir e. acumulação.5 o pessoal patronal). as ocasiões de experimentar. No total. No primeiro caso. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. os outsiders e os parvenus substituem. Por outro lado – apesar de KEYNES –. inovações. O imaginário da destruição pode. então.Quando há ruptura. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. Existe então. enquanto que. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. por isso mesmo. por exemplo). sem esquecermos ainda as marginalizações. dos fatos de regressão (por exemplo. devendo encontrar. pelos golpes das OPA. 140 . em período de crise. 2. mais nitidamente. da sedentarização ao nomandismo). é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. por fim. 3. seria preciso distinguir.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. de sua unicidade histórica. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. a modificação do tipo de conjuntura. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. em seguida.

por conseguinte. André. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. Ruptures. representações. Connexions. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. por Teresa Cristina Carreteiro.Rupturas. Cf. 2. 1990. 141 . mutations et complexification en économie (mimeogr. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. a aquisição de conhecimentos e de representações. A continuação do funcionamento implica. portanto. “esgotamento da relação salarial fordista”).As estruturas (as relações de complementaridade e. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema.T.Mas a adaptabilidade do sistema. normas. por exemplo. 3. 2. um esquema ideal típico. “Malaise dans l’identification”. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. uma mutação estrutural. n. N.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. por conseguinte.).T. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. março 1989. Paris: ERES. “L’économie des conventions”. Revue Économique. então. Cf. 55. n. V. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social.). então. a adesão às normas e. 40. tal como: 1.). para experimentar as inovações. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. precedeu uma crise econômica. Pois essas “perturbações”. MARADONA. jogando. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. nos anos 60. a introdução de novas referências. porém robusta. talvez anuncie o fim delas. de incertezas). só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. Fragmentos. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. por sua vez. E.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. a qual. ROCCARD.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. precedeu uma crise política. No Ocidente. e os transforma em autores das mudanças. João Paulo II. 4. de criança o reinado. então. (Heráclito. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). “desfusão das pulsões”. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. Atualmente. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste.Ela mobiliza atores em potencial. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. MITTERAND. (Hobbes) Tempo é criança brincando. de algum modo. 143 . 3. não se trata mais de crises (isto é. por exemplo. condições de “saída da crise”: l. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. criam. Assim. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. no 52) A crise das identificações. TAPIE e outros). 2.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. quando não destroem a sociedade em questão. BRANDT. Do mesmo modo.

pode-se reciclar também a identidade. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. diz FREUD. não apenas a realidade parece incerta. 6. localizadas e transitórias. a tipos de personalidade diferentes. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. de modos diferentes. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. ao contrário. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. tentativas de reconstrução. assimilam e transformam. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. é claro. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns.No final de contas. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. assim. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. por outro. por um lado. levados pela incerteza das situações e do futuro. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . as “intermináveis adolescências” que. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. com todas as posições intermediárias possíveis. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação.Ela libera. angústias de identidade. O “mal-estar na identificação” traduz. O resultado é que. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. para todos. a categorias socioprofissionais e. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. ao mesmo tempo. desses imaginários de projeto.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. o individualismo ilusório ou de oportunismo. a grupos étnicos. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. de assimilação e de inovação. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. reativados ou mesmo imaginados).

que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. gorros cristãos etc. solidéus – kipas – hebraicos. religiosas. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. a regra e as sublimações. c.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. as reativações religiosas atuais no Irã. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). da empresa etc. em vista da emancipação para o societário e a individuação. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. é claro. é paralela à involução identificatória de seus membros. A identificação que não se desvencilha do partido. b. Por exemplo. profissionais.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. finalmente. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. do racismo. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. nacionais.3 A família. Assim. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. organizacionais etc. de classe. regionais. a.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. nos dois sentidos do termo. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. e a aparência NAP) pelo simbólico. da igreja. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). Fenômeno que ilustra 145 .

primeiramente. com o dinheiro. “tem necessidade dos homens”. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. às avessas. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. justamente porque mais na moda. além disso.Mais interessantes. principalmente. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. entre 1983 e 1988. sendo aliás esse que permite aquele. exatamente como Deus. isto é. o narcisismo individual. especialmente na França. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal).5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. fortalece as exigências da necessidade econômica. é. Ela é. O retorno pode ir ainda mais longe. a. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. b. E isso. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. ipso facto. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. por sua vez. Quer dizer que o narcísico.Do primeiro diremos pouca coisa.

a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. Enfim. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. caso se propagasse a todos os agentes. o festivo. notemos que o modelo do sucesso individual. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. O dinheiro. se ela for realizada. o mercado. Entre a binaridade e a injunção contraditória. numa androgeneidade fecunda. induz não ao 147 . assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. essa acumulação pecuniária permite. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. de junho de 68. Assim. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT.) permite. mais tranqüilizadora. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. se autodestruiria. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. Por enquanto. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. Na verdade. em substituição ao “Mudar de vida”). manter ou criar os meios de aumentá-la. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. o sucesso dos outsiders permite também e. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. “Criem sua própria empresa”. talvez. Isso é talvez patológico. simultaneamente.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. A monetarização. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). Além disso. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. em prêmio de Schadenfreude. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). é mais simples escolher a binaridade. o prestígio etc.

servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. 1. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. nas três etapas – puberdade. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. a partir de elementos de vestuário comuns. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. entretanto. (T. cada um será. adolescência e pós-adolescência -. logo. na época atual.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. Intermináveis adolescências. Acrescentaremos apenas algumas observações. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. No caso de fraqueza delas.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. necessariamente. esse narcisismo manipulador. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. a programação dos computadores das Bolsas) que. daí resulta. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. um cavaleiro solitário. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. a nítida binaridade do mercado. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. passa-se rapidamente. a individualização extrema dos novos modelos. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. em contrapartida. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. ao insolúvel. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. Com a condição. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). por exemplo. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. não podem ser reorganizadas e reorientadas. no que tange à história do capitalismo. produzem-se onde não se espera e constituem. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. pois. pois. Além disso. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. inclusive jovens executivos12. como. Nesse caso. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. entretanto. fora do controle exercido pelo Centro. uma vez instaladas. em certas regiões. mesmo que sejam minúsculas. Além disso. É por isso que as revoluções. “surpresas”. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. por historiadores como BRAUDEL ou I. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. antigamente atrasadas. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. pelo menos em muitos jovens. Pode-se. conjugada com a manutenção dos objetivos. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. 154 . Assim. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local.

em seguida. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. dos valores. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. diz WININICOTT). a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. MC DOUGALL). Em contrapartida. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros.) pelas outras. no adulto não é a repetição mas. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. por sua superação.. idealmente. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J.). Paralelamente. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). ainda mais. mas existem. numa situação de mal-estar. ao contrário.. a captação do lúdico (jogo de papéis. Assim. constitutivas da personalidade e. das coisas.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. GODALIER). das idéias. aí. logo. a conformidade e. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações... cujas identificações seriam. unicamente confirmadoras da identidade. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. dos prazeres. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). do espaço. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. E como se sabe. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. podemos contrapor. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. no início. jogo de empresas. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. política etc. a personalidade arrisca-se a desmoronar). Mas. as identificações são.

. entre esses tipos extremos e opostos. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. com o 156 . sem dúvida. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. como vimos. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. então.13 Fundamentalmente. ao mesmo tempo que se escreve. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. . é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. representadas e transicionais.experimentam-se.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. em transformar as identificações laterais. então. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. em identificações hierárquicas. Mas. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. . então. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. por exemplo). Essa é. DUPUY. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . imprecisas e transitórias. .a dificuldade está. Desse modo. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos.tentam-se.

Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical.. em concorrência). aliás. que apesar de HEGEL. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. Há. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. pois. no fim de contas. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. Chegando à encruzilhada. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. como na tectônica as placas entram em fricção. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. de passagem. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. o mal-estar subsiste. de fetos ou de liberdade de viajar. de bandeiras. dos indivíduos e da identificações 157 . 2.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. das utopias (“mudar a vida”. outsiders ou reciclados.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. apesar de tudo. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). em 1981). da maioria dos marxistas. às vezes. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. na Colômbia ou alhures. tanto para os autores das mudanças. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. podem entrar em conflito. das coordenações pelos sindicatos etc. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. (O que prova. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Enquanto isso. por isso.. e das intermináveis adolescências. Algumas conseqüências 1. o fim da história só concerne a cada indivíduo). quanto para aqueles que o desemprego. com a eliminação das organizações. Daí a multiplicidade. Essas apropriações podem. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa.

um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. um momento dessa ascensão. Os signos (o sol. 3. Ora. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. necessariamente. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. das normas e das formas. portanto. as culturas etc. encontramo-nos. então. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. por um momento denegadas (entre os sexos. E a que corresponderia.). pedidores de emprego. como alguns dizem. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. as gerações. as únicas referências ainda fidedignas. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. a estrela polar) são. principalmente).Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. os tempos. ao mesmo tempo agradável e funcional. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. Por isso. os espaços. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. ENRIQUEZ. O barroco societário atual é. e a complexidade progressiva do sistema. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. talvez.Mas sabe-se também que o vínculo social e. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. 158 . de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. amanhã. Talvez.

da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. logo. no adulto que eles se tornariam. André. NAP: Neuilly... Passy. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). Pléiade. a receita das identificações complementares novas (e. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). sem dúvida. C. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. 2 de março. “L’économie des conventions”. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. por Eliana de Moura Castro. RUBEL. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. n. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. Tomo 1. 1990-1. p. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. sociedade e personalidades”. 239. Mais dura foi a queda. simultaneamente. das coesões) não parece ainda inventada. W. É por isso que. Temos assim uma alternância de interpretações. então. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. do econômico ao sagrado. para outros? Mas. 61-78. edição de 1963. naturalmente). 1981. “Zur Kritik. Hoje ele teria. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. os atores (Individualismo). Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. Connexions.T. 1989. 40. Estaria a saída. O problema: em época de “destruição criativa”. Oeuvres: Économie. na formação de ninho familiar.” In: M. N.]. Gallimard. nas diferentes esferas do social. 29. Auteuil. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. Petit Larousse. MARX. As épocas de crise e reconstrução valorizam. 55. no mal-estar. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. 159 . p. ao contrário. Revue Economique.

por outro lado. Paris: Seuil. Les contradictions culturelles du capitalisme. E. LECA. CROZIER. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. R. ENRIQUEZ. AULAGNIER. ARMANDO. J.. DUPUY. 1983. M. Autrement. Les révolutions minuscules. n. Freud et l’éducation. 1988. Uma mudança social. L’auto-organisation. Les destins du plaisir. Autonomie et systèmes économiques. Paris: Seuil. “Les représentations sociales”. 1975.. CAILLOIS. DE CLOSETS. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. BELL). Cujas. Tese. 45. Paris: Gallimard. 1982. CHASSEGUET-SMIRGEL. F. Paris: PUF. Paris: Gallimard.. DENOYELLE. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. Paris: Fayard. VERNANT. n.. P..-P. J. BALANDIER. oportunismo. L’homme et le sacré. 1989. 1979. 1977. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. ne m’aime pas. Paris: PUF. para TARDE. 1982. P. DETIENNE. J. Connexions. M. L’acteur et le système. Y. J. 1988. Paris: Seuil. Connexions. Paris X. 1979. Paris: Flammarion: 1974. Bulletin de l’AISLF. Interminables adolescences. De la horde à l’Etat.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. T. 160 . Paris: PFNSP. Le paradoxe et le système. M. The end of ideology. 1976. Le lien social. 1974. J. 51.] uma não-imitação de exemplos paternais”. M. FRIEDBERG. Si tu m’aimes. 1950. D. BAREL. 1989. E. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. mobilidade. Paris: Seuil. Paris: ESF. BELL. Winnicott en pratique. 1960. 1985. 1989. Les ruses de l’intelligence: la Métis. 1987. Toujours plus. 1981. Paris: Cerf. BIRNBAUM. 1984. P. Paris: des Femmes. Paris: Epi. Cf. Le désordre. “Le changement en question”. G. Paris: Minuit. 1988. P. Paris. CASTORIADIS. n. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. BOURDIEU. La distinction. CERISY (Actes du Colloque de). ANREP. BELL. 1988. 29. 1988. n. Les deux arbres du jardin. L’individualisme. L’institution imaginaire de la société. Ordres et désordres. A. Aux carrefours de la haine. Paris: Seuil. D. 1979. New York: Collier. C. Grenoble: PUG. ELKAIM. ENRIQUEZ. Paris: Grasset. 4. 1982.

WIDLOCHER.. “Et mourir de plaisir. S. NICOLAÏ. 1989. S. NICOLAÏ. 1981. Paris: Plon. Paris: PUF. de la vertu et de plaisir. 1989. 1988. Paris: RFP.” L’homme et la société. Paris: Gallimard. In: Essais. FREUD.” Connexions. SIBONY. 1958. 1989.. 25 de out. psychose et perversion. Jeu et réalité. Paris: Payot. SIBONY. A. Psychologie des minorités actives. Rationalité et irracionalité en économie. Le retour de l’acteur. 1971. 1989. Paris: Gallimard. 18 mai/7 jun. 1984. S. 1989. D.. n. Le complexe de Narcisse. “Les mutations de la famille.. J. Paris: Maspéro.. E. TARDE.. Le Monde. Paris: PUF. Cl. H. 1989. Idéaux. LE GENDRE. n. B. A. TOURAINE.. 40. Pour décoloniser l’enfant. D. n. Reedição GEX. MENAHEM. 1989. MOSCOVICI. 18 julho. MITSCHERLICH. Ch. nov. 1980. 20. SEARLES. S. Paris: Gallimard. FREUD. J. Paris: Denoël. Mc DOUGALL. G. 1977. n. Le déclin du complice d’Oedipe. Les lois de l’imitation. 1987. S. La pensée sauvage. n. Cl. W. Paris: Seuil. SEGALEN. 1966. Pouvoirs de l’horreur. n. Vers la société sans père. F. “Les Français et l’argent”. outono. Paris: Gallimard. Le Monde. G. GOFFMAN. 26 jan. 1979. 1971. 1971. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. 1979.. 1980. 47. 1934. “L’économie des conventions”. 1981. FINKIELKRAUT. junho 1987. “La fin de l’histoire?” Commentaire. Paris: CNRS. S. Paris: PUF. MENDEL. M. Paris: PUF. Le Monde. et al. 1982. out. 1974.1974. LASH. Névrose. WINNICOTT. 1951. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 1973. L’empire de l’éphémere. LIPOVETSKY. A. 1983. FUKUYAMA. Cl. A. FREUD.” Peuples méditerranéens. Inhibition. Revue Economique. 38-39. Malaise dans la civilisation. Paris: Payot. 51-54.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. G. 2 de março. 1980. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. angoisse. 1989. D. “Psychologie des foules et analyse du moi”. 161 . Revue française de psychanalyse. 1978. Les enfants de Jocaste. Forum de Delphes. Traverses. 15 nov. KRISTEVA. 1970.. n. Paris: Laffont. M. FREUD. Paris: Plon. A. LÉVI-STRAUSS. Freud et le problème du changement. “La voix écoute”. nov. Les rites d’interaction. “La politique en apesanteur”. FREUD. Nauplie. “Penser le chômage”. 10. D. NICOLAÏ. Paris: PUF. L’autre et le semblable. GODELIER. 1980. Paris: Fayard. “Et le poussent jusqu’au bout. A. G. Paris: Minuit. symptôme. L’effort pour rendre l’autre fou. n. Paris: Gallimard. 27. OLIVIER. Ressources. “La nation disparaît au profis des tribus”. 3. Anthropologie structurale I. LÉVI-STRAUSS.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. mais tarde. instrumentalizada então. pelas Comunidades 165 . As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. nas décadas de 60/70. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. Benevides de Barros É. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. em uma espécie de “crise das instituições”. a partir da divisão não-saber x saber. ela tomará formas próprias. Assim. sem vê-lo como algo já dado. Poderíamos dizer. LÉVY (“Intervenção como processo”. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. É bem verdade. também. Pelo que eles mesmos nos contam. 1980) e de E. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. No Brasil. que essa “crise” também eclode em vários países e que. desembocando. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. por exemplo. 1987). em fins de 50/início de 60. lançar um olhar novo sobre o mundo. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. criando em nós uma vontade de entrar no debate. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. 1980. em cada lugar. os textos de J. de A. essa parece ter sido. na maioria das vezes. entretanto. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. sem dúvida.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. contribuir.

J. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. LOURAU. O mês de maio de 68 francês. ao Chile e ao Uruguai. LAPASSADE. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. na interseção dos campos filosófico. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. ENRIQUEZ). convulsionado pelo golpe militar. ainda.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. LÉVY. através do contato com os “institucionalistas” franceses. então. Vemos. chegar também até nós o eco dessas produções. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. DUBOST. do conservadorismo universitário. Por aí. HESS. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. uma certa psicossociologia se faz intervenção. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. por outro. Em meados de 60. de modo generalizado. No campo da Psicologia. PAGES. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. então. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. palco de uma produção expressiva. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. designa a crítica à naturalização das instituições. GUATTARI e G. J. questionamento de seus modos de instrumentalização. de um lado. colocou em cheque. DELEUZE). Rio de Janeiro e Belo Horizonte. quando tomado em seu sentido amplo. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. da burocracia partidária. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. como à Argentina. à Socioanálise (R. principalmente. No Brasil. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. o país. G. político e social. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. A. R. presenciamos. Os fins do anos 60/década de 70 serão. inserem-se. fica claro que “Movimento Institucionalista”. 166 . fossem mais ligados à Psicossociologia (M. As instituições são analisadas. desde essa época. E. Ainda que marcados por grandes diferenças. ARDOINO) ou. analisador histórico do status quo vigente. crítica das experiências instituídas.

O recente trabalho de M. Com PAGES.(.. Lévy apresentou-nos.. que congregou pesquisadores práticos (.. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. através do Curso de Psicologia. 2) O pensamento institucionalista atravessa. alguns de Enriquez... via Universidade e.).. voltado à pesquisa e à prática. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte.)”. a influência do pensamento institucionalista francês. Junto com René Lourau (. 1992. mantinha. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972.. A entrada se dá. segundo M.. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG.). 3-4). com a qual logo rompemos (. respectivamente. além de seus próprios escritos.P. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. da formação da A. p. de Rouchy e. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França.) Em 1971. 1992. p. 1992. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques).Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita.. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA).R. sobretudo... de forma mais pontual. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. Se no início a orientação era claramente norte-americana. (MATA-MACHADO. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. segundo a autora. 2)... “(.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. tivemos entre nós. mais especialmente. Lapassade (. mas há algumas produções importantes que já apontam.. como grupo. Ambos haviam participado. a partir de 1968.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. cuja prática foi denominada Socioanálise”. sob a liderança de Garcia. portanto. em 1959. 167 . p.). MATA-MACHADO. (MATA-MACHADO.I. Em 1967. É marcante.

o movimento institucionalista inclui sociólogos. fez com que. por um certo tempo. Encontramos. LAPASSADE. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. segundo a autora. LEITÃO e BARROS. além dos autores já citados. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. DUBOST e E. Ao mesmo tempo. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. menos desejosas de mudar o mundo (. F. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. “parcialmente abandonada. CASTEL. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. 1992). são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. assim. MENDEL). em fins de 70/início de 80. há alguns projetos em andamento. enquanto que. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. mais tarde. J. Na década de 80. psiquiatras e psicólogos. no Rio de Janeiro. 1986). É também na década de 80. O que se percebe é que. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. entre outros). DELEUZE. somou-se a influência do pensamento de outros (M. FOUCAULT. 168 . 4). Hoje. 1987). atentas às características da realidade brasileira.. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. LÉVY. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. na Europa. LOURAU. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. ENRIQUEZ. construindo-se práticas singulares. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. 6). passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. 1992. no Brasil.)” (MATA-MACHADO. a partir de então. mas estendendo-se até hoje. O pensamento pichoniano.. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. cujos interlocutores privilegiados são A. entretanto. GUATTARI. G. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. p. G. Essa perspectiva é. p. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. pedagogos. No Rio de Janeiro. 1992. R. G.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G.

Gregório F. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Regina D. Análise institucional no Brasil. e BARROS. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. LEITÃO. (coord. o “pensamento institucionalista”. tendo incluído outras influências teórico-práticas. A década de 60: seus efeitos no pensamento. Marília N. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. 22p. (mimeogr. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Mas. Cartografias do desejo. B. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. 1984. Rio de Janeiro. Suely. à instituição de formação e à de pesquisa. nas intervenções e práticas sociais. difundiram-se os pensamentos de F. ROLNIK. C. as contribuições da socioanálise. C. MATA-MACHADO. na universidade – PUC/SP –. KAMKHAGI. História do Movimento Institucionalista. Félix e ROLNIK. 164p. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. desembocando em algumas traduções e publicações. RODRIGUES. GUATTARI. em alguns casos.. DELEUZE. (orgs). Petrópolis: Vozes.). Especialmente através dos trabalhos de S. e SAIDON. Intervenção psicossociológica. (mimeogr. Regina D. Heliana B. Osvaldo (orgs). sobretudo. O inconsciente institucional. incluindo. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. Rio de Janeiro: Vozes. em suas várias vertentes. RODRIGUES. GUATTARI e de G. Atualmente.). e BARROS.). 1992.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Heliana B. Grupos e instituições em Análise. 327p. 1986. mais tarde. 1992. Belo Horizonte. Micropolítica. em São Paulo. 175p. Vida R. já toma contornos bastante diferenciados. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. 1986. M. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. B. de obras desses autores. hoje. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. bem como na entrada. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. pesquisas e intervenções. 169 . 1987.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. em uma determinada situação. a algumas observações. principalmente. Limitamo-nos entretanto. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . o status e a posição social.P.I. a natureza do “saber-fazer”. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. aqui. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. Por mais banais que sejam.R. as dificuldades sentidas por um ator social. finalmente.a formação.as condições gerais que engendram. de variáveis como: a. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A..2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. os princípios e as modalidades de sua intervenção. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. a interação entre essas variáveis. além dos desejos de terceiros.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. Mas creio. mais ou menos livremente. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. implicando opções e esforços de imaginação e que. c. em primeiro lugar. b.

comportava. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.). de reeducação. evidentemente. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. simultaneamente. ênfase a métodos estatísticos. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. então. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. econômica e social. do recrutamento de pessoal. Na Sorbonne.. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. suas aplicações no domínio da economia. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. Nesse contexto. da conjuntura. o Marxismo. a busca de participação. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. inflação. nos mesmos organismos3). o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. pelo problema da reconstrução. O período imediatamente após-guerra foi dominado. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. Muitos dentre nós trabalharam. entre 1945 e 1959. estabelecidos na capital. em períodos diferentes. da formação em habilitações. do 172 . a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. o funcionalismo etc. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. missões de produtividade. de gestão. de estruturas de direção.

é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. estudos de mercado –. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. o movimento trotskista. André BRETON. em seguida. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. é o momento também no qual G. a relação crítica e complexa que G. o movimento que iria ser denominado “institucional”. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. Em relação a esse último ponto. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. separam-se em duas tendências. pela Dunod). lembremos. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. por exemplo. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. nessa época. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. da demografia. a partir dos anos 40. desenvolvendo uma abordagem mais global. se as tentativas de Reich são.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. onde milito durante esse período. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. especialmente. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. então. as obras de G. pouco conhecidas na França. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. da gestão etc. no plano das práticas. MORENO e depois ROGERS). em 1961. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. a partir de 1952. na França.

esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. Entretanto. sobre a “moral” da empresa. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. Perret.S.O. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. um dos colaboradores dessa equipe. em 1949. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. a C. R. mas elas permanecem muito próximas. no qual se encontra B. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. servem. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. 174 . Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. em função do problema da burocracia operária. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. com o restante do relatório. CASTORIADIS4 e Cl. na relação que elas estabelecem com o cliente. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). em 1947-1948. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. desde sua origem. durante a ocupação. Antes de sua volta aos Estados Unidos. separa-se da IVa Internacional. Entre essas últimas. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. dirigido por C. WILLIAMS.5 retém. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. Igualmente um outro. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. LEFORT.G. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas.E.

são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. de início. Ao contrário. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. depois eventualmente coletivas –. em empresas maiores. elas colocam. da mesma forma que a direção. parece cada vez mais interessante.W. as que são conduzidas por equipes francesas. em última análise. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. e eles devem ter acesso aos resultados. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. junto a pessoal assalariado de uma empresa. Da mesma forma. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes.I. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. passando pelas reformulações européias do T. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. se abrem a uma abordagem mais clínica. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. porém. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. 175 . apoiando-se nos resultados. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada.

turn-over. cujos conflitos. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. Por outro lado. que fala sobre seu campo e suas intervenções. feita pelos encarregados da pesquisa. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. um objeto de trabalho. Em outros termos. as crises. a se expressarem. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. Ajudando todas as pessoas. as relações intercategorias e as microculturas da organização. algumas vezes antigos. Enfim. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. Ele faz da relação de consulta um problema em si. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. de pagar o preço por sua solução. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. para uma orientação mais clínica. pirâmide de idade. ele se pergunta se os bloqueios. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . sua natureza real. e tenta inventar. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. segurança etc.). e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. pelos sentimentos coletivos. e essa não sendo a conseqüência menos importante. as disfunções. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. no interior desse quadro de atitudes. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. higiene. grupos de mais velhos. Direção de Pessoal –. modos de remuneração. ou aos que decidem – Direção Geral. absenteísmo. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões.

a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. se aceita. mesmo desejando o contrário. isto é. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. além dos arranjos menores concedidos. ele próprio contribui. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. mais tarde. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. Nessa perspectiva. Porém. 177 . de fato. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. à medida que esses são identificados. gestão ou organização. em especial dos inconscientes. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. de perceber direções de solução. sem dúvida. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. ele exerce uma pressão que. os processos de preparação e tomada de decisões. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. ele crê que. permitindo a expressão do reprimido. sem dar conselho. isto é. ajuda as categorias vítimas da repressão. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. mesmo nesse caso. a idéia de que a intervenção. do especialista em uma técnica de produção. acaba totalmente reforçada. de fato. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. os sistemas de comunicação na empresa.

como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. nessa época. então. a 178 . os limites das ações de intervenção. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. Da mesma forma. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. em uma empresa nacional. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver.I. No momento da criação. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso..R. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. A outra continuava a realizar. (1959). as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. O caráter clínico do novo grupo. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. Tenho a impressão de que. das formas de autoridade. mais do que acelerar tal processo. mas também em uma transformação cultural profunda. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. Os anos sessenta No momento de criação da A. do psicodrama analítico etc. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito.P.

Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. algumas vezes mesmo de introdução à economia.P. ROUCHY).R. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. a proporção era aproximadamente de nove décimos.6 No começo dos anos sessenta. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .I. era de um terço. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. a continuidade no tempo. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. reunindo às vezes toda a equipe. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. nesses. e ainda agora. a metade já era. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. de metodologia psicossocial. dez anos depois. a metade das atividades da A. outras vezes apenas três psicossociólogos. de formação de adultos. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. A organização e a condução de seminários representa. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. de sociologia das organizações. dominou os primeiros anos de funcionamento. ou iria finalmente se tornar. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. se podemos dizê-lo. A orientação não diretiva. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. atuando diretamente no campo. até 1966 (marcado pela vinda de C. neles. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). HERBERT. de inspiração rogeriana. grupos abertos de análise etc. do sócio-técnico e mesmo do econômico. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. durante todo esse período. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo.). terapeutas ou analistas.7 Paralelamente.-C. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. uma longa intervenção em uma empresa implanta.

movimentos educativos. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. de maneira ainda mais geral.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça.R. durante vários anos. de psiquiatras e de psicoterapeutas.F. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. em 1961. Psicossociologia e Política etc. a guerra da Algéria. a demanda se estende a associações.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. na equipe. 180 . mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável.P. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. então. de padres e religiosos. as condições ideológicas próprias da França. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. diversos membros da A. para explicá-lo. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão.E. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. É sobretudo na França. de atendentes. a integração. junto a um Centro de Produtividade. Entretanto. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf.N. em Paris. é uma intervenção no México. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. de trabalhadores sociais. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. por volta de 1965. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. Ao mesmo tempo. Mas creio que é necessário evocar também. junto a organizações com função econômica. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. por exemplo.).I. desenvolvimento organizacional).

10 . como muitos outros.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. que dava uma direção totalmente imprevista. .O.E. ao contrário. através do desenvolvimento de ações locais. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. o período que se seguiu a maio mostra. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. por exemplo. antes de 68. por parte da instituição. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica.I.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: .P. como o fazem os indivíduos ou os grupos. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. de uma audácia espantosa. não desembocou no político.N.V. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula.R.E. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . trabalhava desde 1964. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. uma direção susceptível de provocar. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. simultaneamente política e cultural. uma evolução global do sistema educativo.elaboração de projetos de pesquisa-ação. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. mesmo que modesta. com os quais a A.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. As instituições não se analisam. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. centrando-se na evolução das pessoas. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. dentro de certo prazo.. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. nas ações de movimentos como a F. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. ao considerarem suas relações e vida psicológica. Embora alguns dentre nós víssemos.

sem dúvida.12 . sob a influência do pensamento psicanalítico. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. 182 .Porém.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. mas também de seu objeto de trabalho. ou melhor. 1967. Como o mostra André LÉVY. . parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. Esse último aspecto leva à questão mais geral. no campo social. no último período. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. O modelo do analista pareceu sempre. tal opção. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. na prática. ou “indutor de mudança”. parece-me que. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. quando as referências à pedagogia ativa. no plano das idéias. até o começo dos anos 60. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. benefício a mais). afastando-se dela em seguida. ele deve ser buscado em outro nível. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. devendo ser afastado ou suspenso. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: .11 Estudando (por três vezes: 1963. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. progressivamente. “agente de mudança”. mesmo quando. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra.nos anos que se seguem à Liberação e. bem problemático. em especial lacaniano. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. a “socioanálise” ilustra. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional.A partir dos anos 60. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal.

a esse respeito. e. tendo em vista sua própria história. presente nele. por exemplo. na referência ao próprio lugar ocupado. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. por exemplo. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. A expressão pesquisa-ação. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. Simetricamente. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. é certamente oposta à acepção lewiniana. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. lugar onde se está. ou que se tenta ocupar. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. Se ele se encontra em uma posição menos central. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. sobretudo. pertencente ao campo estudado. cedendo a pressões de que se é objeto. no campo. nunca é independente. nem a se considerar parte da ação. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. ou satisfazendo o próprio exibicionismo.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. com todos os riscos que isso comporta. como pesquisador ou consultor social. Toda intervenção psicossociológica. porque ocupa. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba.

Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. seu vice-presidente.”. Psychosociologies. evidentemente. 12 Cf. Connexions. contra. responder a essa questão. J. desde sua criação. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 7 Max PAGÈS. o capítulo “Variantes de la cure-type”. 1969. “L’Analyse social”. mais recentemente. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. por exemplo o artigo de J.G. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. ROUCHY em Connexions. 1978. de forma mais livre. Ecrits (por exemplo. Paris: Dunod. de 1955). 17. 2. In: ARDOINO et al. ou mesmo depois de terminar. 1967. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 825. 1972. 1331. n. 4 Cf. 11 Cf. presidido por Jean STOETZEL e. Paris: Epi.P. 50-68. 8 Cf. LACAN.-C. les Sorts. de PERETTI. Droz.. sobre esse último ponto. 3. 13 Les Mots. secretário geral da associação. A C. não se pode. Épi. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. 1977. p. 5 Compagnie Générale d’Organisation. Jean e LÉVY. Le psychosociologue dans la cité.).-março. quatro anos depois. Sociologie du Travail.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. Connexions. 806. André. Paris: Payot. “Une intervention psychosociologique”.) e dos de Cl. LÉVY. 1304.E. 29 de Connexions. la Mort. André.. Continuando.T. 857. 10 Cf. n. 9 Cf. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. Jean-Claude ROUCHY. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. n. sobre.S. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. jan. Gallimard. n. In: Fondation Royaumont. 1963. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. n. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique).F. “Dire la loi. 1972. Intervention et changement dans l’entreprise. esse organismo tinha então relações estreitas com o I.O. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. com universitários como Georges FRIEDMANN. L’intervention institutionnelle.O. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. a partida de Max PAGES. 1971. 1303. 1332 etc. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”.. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. 1980. 2 3 184 . a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. e de A. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. 1980. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. por Marília Novais da Mata Machado.

há muito tempo.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. quando é apenas verbal. porém. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. Tal afirmação. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. tem qualquer coisa de suspeita. entretanto. Porém. bem ou mal resolvidos. à crença em sua positividade fundamental e. esses ainda são muito relativos. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. sobredeterminado por uma profunda lógica. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. 185 . através das contradições de suas condutas profissionais. mesmo que artificial. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. permitindo esclarecimentos progressivos. Porém. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. No que me diz respeito. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. Parafraseando HEGEL. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. Esclarecer sua posição em relação às situações. além disso.

Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. fundamentalmente.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. diferentemente lúcida. longe de chegar a um ceticismo. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. reciprocamente. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. diretamente. Durante muito tempo e. sem dúvida. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. no mínimo.6 por esse rótulo. a reconhecer. As práticas de intervenção. ou mesmo a um nihilismo. junto aos grupos envolvidos. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. face a face. ela desconhece 186 . ela é. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. ao contrário. As tomadas de consciência. cada vez mais claramente. na França. dizem respeito. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. desapaixonada. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . mais lúcida ou. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. Toda a minha experiência. leva-me. ainda hoje. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. científica. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. em relações diretas. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. com freqüência. instituindo. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. Ela repousa.

supõe. mas. em determinado momento. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. é apenas um simples instrumento ideológico. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. os problemas atuais da empresa. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. com vistas a decisões e ações. A reunião desses diferentes objetos na análise. por sua vez.7 A última intervenção da qual participei. de outro lado. Porém. de forma alguma. data de 1972. isto é. de uma forma histórica. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. considerado como um diagnóstico e. esclarecimento das funções. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. que adotava aproximadamente esse modelo. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. O fato de escutar cada pessoa isoladamente.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. De toda forma é surpreendente que. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. Tal metodologia induz. visto como ligado demais ao responsável comercial. sobretudo. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. 187 . seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. uma única vez. quase narrativa. de quem dependia bastante. melhor coordenação administrativa. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. com efeito. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. caso contrário. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. seu amigo. implicitamente. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. que. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. cuidando. então. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. de um lado.

que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. e. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. sem dificuldade. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. no limite. particularmente por meio de nosso relatório oral. e de passar assim. mas potencialmente articuláveis entre si. inevitavelmente. em outras palavras. para apreender a “realidade”. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). traduzia também. reconstituído graças a nossos cuidados. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. e sobretudo. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. como se esperava de nós. porém situados no mesmo plano. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. então. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. sobretudo. organizacional). ideológico-afetiva. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. A perda da esperança acarretou. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. expondo cada um com a mesma objetividade. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. a coexistência desses diferentes discursos. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . à medida que cada discurso. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. A pesquisa havia fortificado essa esperança. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. Em outras palavras. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos).Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. complementares. de um a outro. um de cada vez.

desejaríamos. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. assim. assim. ações ou decisões (saber para). perceber o quanto a prática da pesquisa. Mas se aceitamos. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. isto é. para o recalque: primeiramente. em contrapartida. ao contrário. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. constrangidos. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. qualquer que seja a maneira como é conduzida. em seguida. legitimamente. articulá-las. embora imperfeitamente. de uma explicação geral. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. em discursos que as pessoas expressam. Longe de favorecer um processo de análise. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. desconectados das condutas e estratégias. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. então. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. é a função das representações. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido.Intervenção como processo (subjetiva demais. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. que não se reconhecem como um discurso. o “real”. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. a partir de diversos “pontos de vista”. Essa experiência possibilitou-nos. sabemos. no mínimo. escutada ou recusada. reduzidas a enunciados fechados. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. associa-se necessariamente à busca de um sentido. excessiva demais) e conservar. Essa crença conduz. 189 . o levantamento de dados. a pesquisa contribui. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. não aceitamos seus pressupostos.

pode ocorrer. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. com efeito. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. Porém. mas. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. A não ser que se idealize o processo de análise social. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. 190 . moral ou corpórea. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. Os grupos face a face aparecem. essa só pode. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. ser feita em uma experiência de comunicação. sua posição de exterioridade é apenas relativa. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. instituídos. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. sob forma falada ou atuada.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. se há um resultado do qual estou seguro. então. na qual uma resposta instantânea. então. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. independentemente das maneiras como se atualizam. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. no sentido pleno do termo. na enunciação. se articulam e se transformam. na qual o imediatismo do risco é sensível. Só é possível. reciprocamente. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico.

pressões. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. grupo do outro. 191 . material ou simbólica. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. o respeito à regra de abstinência. no sentido preciso desse termo. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. com a participação do analista-interventor. Nas situações de intervenção. corpo a corpo. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. das quais necessariamente é parte. ele se insere no mesmo sistema de alianças. uma vez que. isso é apenas uma petição de princípios. desde o início. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. no próprio ato que o institui como analista. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. do não agir. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). estratégias. em função de uma “demanda”. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. por parte do analista. isolados de toda historicidade. mas relações de transferência. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. por exemplo). e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. essas relações implicariam particularmente.

tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. seu objeto. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. do “aparelho psíquico grupal”. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. traduzia o desejo de tirar 192 . Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. assim. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. Um dos objetos de análise pode ser. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. por exemplo. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. quanto para as relações internas. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. então.12 e a legitimar sua interpretação. no mesmo ato. isto é. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. não unificada. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. ele elimina. fora da situação de análise. fragmentada. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. por meio de regras explícitas e implícitas. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). um serviço). o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. por antecipação. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. O interventor pode. tendo que tomar decisões e executá-las.

mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. e o grupo de suas restrições externas. a composição do grupo pode evoluir. Nessa perspectiva. pesquisaação etc. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. o abandono de tabus. o que vale não só para a análise. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. com efeito. especialmente do médico-chefe.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. a desmistificação de certas crenças. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. como. É por isso que. paradoxal. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. por exemplo. à medida em que o trabalho progride. Certamente. mas também para o gozo sexual ou estético. que continuaria submetido às regras administrativas. que a emergência dos conflitos latentes.). a presença. as resistências internas na organização tendem. institui tal quadro. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. observações. do trabalho de análise. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. Um dos resultados. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. merece ao menos uma explicação. numa colocação em ato do desejo. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. Não se pode escapar disso dizendo. a não ser provisoriamente. de uma terapêutica localizada. essa modalidade se constituía. ele entra em conluio com as resistências. Se isso é em parte verdadeiro. assim. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. como o fazem certos psicanalistas. quando o interventor.

Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. as peças começam a circular. centrada nos problemas de produção racional.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. um acontecimento marcado pelo advento. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. do menos ao mais. ao risco. centrada no sistema de regras etc. Em um texto anterior.. inclusive nas pessoas. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim.. o acesso a uma história. então. antes de tudo. conseqüentemente. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. do pior ao melhor. em face à eventualidade de uma ruptura. uma certeza a mais. no mínimo. a mudança representa para nós. de acordo com eixos orientados. ou como o reconhecimento de clivagens internas. uma questão onde havia uma afirmação. ao desconhecido. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. isto é. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. O novo que aparece não é. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. um possível onde havia certeza. a da organização científica do trabalho. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. irredutíveis. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . com noções e representações úteis à ação. a da burocracia. Não é uma soma. Com efeito. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. um novo pleno. toda teoria organizacional é relativa. à incerteza. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. mas uma subtração. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. um jogo mais livre se torna possível. uma certeza a menos. Com efeito.

temporais. desde 195 . eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. o que dá no mesmo. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. tenta explicar. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). Entretanto. Assim. enfrentar e ocultar as contradições que vive. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. são discursos destinados a legitimar. Nesse sentido. Nessa perspectiva. para os outros e para si próprios. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). ordenado. permanecem divididos os discursos de representação.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. então. com a finalidade de construir referências. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. o processo de análise não pode. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. mas em apreendêlas como discursos incompletos. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. as ações e as divisões. Pareceu-nos. também ela. com efeito. tendo sua própria pertinência. a análise não alcança objetivamente um real suposto. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. então. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. hierarquizado.

como condição para aceitarem sua missão. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. Buscavam essencialmente um “técnico”. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. ela pretendia ser. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. Embora eu tivesse trabalhado no passado. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. reificaria significados. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. Depois de uma breve hesitação. Para ilustrar o que precede. 196 . Assim. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. em sua maior parte. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. que deveria ser. talvez tivesse mesmo o inverso. mas a demanda. destinadas a serem engavetadas. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. tanto quanto pude analisála. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. como ocorrera na assembléia anterior. por diversas vezes. ao contrário.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Igualmente. Esclarecemos. aceitei. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. endereçada agora a mim. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. em especial. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. era o sentimento de que não poderia. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. com pessoas pertencentes a esses meios. por sua vez. citarei o caso de uma intervenção muito breve. pareceu-me simpática. A razão de minha determinação. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. isso não apenas não os inquietou mas. com interesse e prazer. aliás muito rapidamente.

A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. pelo menos. que não podia ser perdido. vencimento dos prazos para decisões importantes). decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. Como cheguei lá.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. pela Comissão) como um ponto de transição. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. em relação à Comissão e. cuja forma seria definida? 197 . A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. em seguida. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. Tratava-se então de um momento que. na história da Comunidade. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. Para isso. uma Assembléia Geral extraordinária. e enfim. dois encontros no local da Assembléia Geral. diversas sessões haviam sido previstas. depois dos debates. era considerado por muitos (ou. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. Ela havia sido decidida no ano precedente. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. Como já mostrei. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. de outro lado. atendendo expressamente à sua demanda. de um lado. de fato. à noite. o lugar deles.

o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. Parecia-me. O fato de que eu estava lá como um profissional. Eu era calorosamente acolhido.I. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. com amizade e com confiança.). como um estranho mas não como um intruso. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. de sair de um estilo de relações muito corteses. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. então. tomei conhecimento. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis.P.R. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. os textos definindo seu funcionamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. tendo em vista a Assembléia Geral. 198 . Espantei-me. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. Nessa ocasião. sem implicação com o grupo. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. as relações entre elas. talvez também meu próprio sobrenome judaico. a fim de levantar suas opiniões. eu próprio me sentia um estranho. as regras às quais se submetiam etc. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. com a ajuda deles. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. evitando toda aspereza. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. então. esquivando-se dos conflitos e divergências. ao mesmo tempo. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais.

Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. em nome de valores democráticos. entretanto. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. a meu ponto de vista. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. 2. declarei-lhes: 1. demonstrei que. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . então. pelas vontades expressas pela “base”.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo.Intervenção como processo No nível do conteúdo. com bastante veemência. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. observei. O papel que tinham era não apenas técnico. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. mas representavam também. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. para a escolha dos temas que seriam então tratados. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. seu papel de porta-vozes puros. assim. ao contrário. Pareceu-me.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. sem dúvida. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. periodicamente. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. em última análise. sem deixar de observar. Eles aderiram. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. com relativa facilidade. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. que eles deveriam. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam.

tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. eventualmente. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. com alguma hesitação). O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. seria necessariamente confundido com a Comissão. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). Paradoxalmente. Com efeito. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. ao contrário. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). Caso eu participasse da Assembléia Geral.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. sem implicar posições táticas e políticas. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. No limite. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e.

existente no real. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente.. a partir dessas diferenças em status 201 . ficou claro que: a. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). uns em relação aos outros. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. sobretudo.P.I. ligado à Comissão. entre nós e os membros da Comissão. isto é. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e.quanto a mim. judeu) tinham para eles. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. formalmente. Assim. através de minha inesperada implicação afetiva. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente.R.Intervenção como processo como observador. sem direito à palavra.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. Deveria representar um tempo de análise coletiva. Certamente. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. b. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. não em trocas prévias. nossa posição profissional e inserção institucional. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. c. mas no calor da discussão. durante o primeiro dia de trabalho. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. membro da A.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. durante um vazio de poder). mas também de escolha de orientação política. até a eleição do próximo Conselho.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo.

Foi preciso. lutar para tornar o trabalho mais lento. por sua vez. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. como membros dessas comunidades regionais. por exemplo. entretanto. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. em conseqüência. Nesse sentido. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. nossa alteridade. Esse efeito de sentido. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. Tudo isso. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. assim. 202 . sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. entre outros escalões – e. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. era “relativa”. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. o desenvolvimento de um certo trabalho. da importância atribuída às pessoas. destinados a serem comunicados à Comunidade. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. relatórios de reuniões. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. particularmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. a partir desse primeiro dia. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. a partir desses documentos. não se produz. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. e sobre o que pôde ser produzido. entre as comunidades regionais. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). entre a Comissão e o Conselho. às instituições ou às atividades). como terceiro. Na sua maior parte. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo.

No curso desse processo. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. da idade.. aparentemente menores. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. carregadas de subentendidos (por exemplo. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. as questões a serem submetidas a voto etc. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. a definição da pauta dos diferentes dias. refletindo situações particulares diferentes.”). seja a coabitação em um mesmo lugar. 203 . sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas.Intervenção como processo considerando questões particulares. em seguida. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). sobre palavras fetiches.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. em contrapartida. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais.. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral.. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. por meio desse trabalho preparatório e. seja o conjunto de atividades –. ou ainda. segundo os quais as definições da Comunidade.). era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. algumas vezes. assim. ou mesmo. sem dar muita importância. da segurança. na Assembléia Geral.

Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. criar uma situação nova. o “serviço concreto do Homem”). além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. reflexivo e crítico. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. de outro.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. Para concluir. ao contrário. isto é. permitindo-lhe aumentar sua força. melhorar seu funcionamento. Nessa perspectiva. de um lado. de comum acordo. facilitando a escolha de futuras estratégias. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. quando aplicado a um processo de intervenção. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. de outro. fazer uma sondagem. a-organizacional? Bem entendido. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. ela constitui uma terapêutica dessa última. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. de um lado.

A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. mais a ação é eficaz e pertinente”. antes. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. isto é. uma colocada a serviço da outra. melhor se fica”. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. ao contrário. como alguns às vezes pretenderam. ela também não é. uma dose de desconhecimento. essas afirmações estão longe de serem verificadas. Assim. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. “quanto mais houver saber. conseqüentemente. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. senão de cegueira. ela implica. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. Ora. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. Com efeito.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. com precisão. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. longe de terem um valor geral ou intransitivo. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. a ação de outro. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. uma afirmação da identidade desses dois processos. tivemos a oportunidade de demonstrar. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. necessariamente. Em um trabalho anterior. em uma modificação das relações de poder. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. 205 .

Assim. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. ao mesmo tempo. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. 206 . pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. em uma organização ou em uma sociedade. como experiência. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. mas como um processo. Com efeito. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. entre o que pode ou não ser escutado. a mais simbolizável. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. em um processo de escrita. sobre seu passado. é a parte que permite trocas e manipulações. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. com o mundo. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. implica todo um trabalho sobre si.19 Por isso. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. os transforma. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. uma escola). sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. O saber. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. um sistema de ação. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. tratando dos processos de pesquisa. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são.

De alguma forma. especialmente do desejo de onipotência. clivagens e limites. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. dito de outra forma. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. Daí o hiato persistente entre. ao contrário. é precisamente a impossibilidade. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. que pretenderia circundar o sentido. de separar. de limitar. 207 . tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. para perdurar. o desejo de tudo controlar. para essas representações – esses discursos de representações –. o desejo de tudo compreender e. As regras dividem e separam. em uma negação do inconsciente. contabilizável ou informática. visam a introduzir. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). mas. ao mesmo tempo. de outro. a necessidade de dividir. que não exclui nem dúvida nem incerteza. que. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. de realizarem sua meta de dar sentido. espiritual ou mesmo afetiva. de um lado. de uma racionalidade criadora. Esse golpe de força. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. é a condição de toda vida social. de toda construção material. por exemplo. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. já foi evocada anteriormente. no nível do pensamento. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. assim. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos.Intervenção como processo Tal concepção de organização. O processo organizacional funda-se. essa. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões.

fazendo isso. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. Connexions. Respondendo a uma demanda de palavra. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. L’intervention institutionnelle. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. sobretudo. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. em seu primeiro esforço. L’Analyse social. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. 2 208 . por Marília Novais da Mata Machado. Jean e LÉVY. até então bloqueada ou proibida. mantendo vivo o passado. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. ela se choca assim. é importante. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. ou. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. ao menos. 29. quanto da análise que a torna possível. 69-100. a se desenvolver. Paris: Payot. Porém. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. In: ARDOINO et al. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. André. p. assim. I/1980. então. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. de ignorar as implicações dessa inversão. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. uma palavra continua. 1980. Dessa forma.

a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Esse conceito. inédita. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. 1978. Como toda análise de conteúdo. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. LAPASSADE. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. 29. Gallimard. em Topique. Thèse d’Etat. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. les Sorts de J. Les Mots. Connexions. 21. trabalhando com a própria contratransferência. Nesse exemplo. de E.”. “L’acteur et le système”. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. Connexions. In: ARDOINO et al. LÉVY. “Sens et crise du sens dans les organisations”..”. Connexions. Jean e LÉVY. Traduzido de: DUBOST. LEGENDRE. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Paris: Payot. la Mort. Cf. I/1980. KAES. Em termos mais sofisticados. 196l. Connexions. 7. pp. Cf.. postula dois aparelhos psíquicos distintos. “Dire la loi. “L’Analyse social”.. de P. L’intervention institutionnelle.. Paris: Seuil. Mal-estar na civilização. ENRIQUEZ. também “Le pouvoir et la mort”. um individual e outro grupal. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. cit. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. L’amour du censeur. Seuil. op. FAVRET-SAADA. Connexions. Segundo o Petit Robert.3 4 5 Inspirado em G. CROZIER. Sociologie du Travail. André. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . Connexions. Por exemplo: Max PAGES. S. FREUD. “Dire la loi. “Le changement comme travail”. introduzido por R. Cf. 21. cf. “L’interprétation de discours”. 1980. 49-68. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. Dizendo o mesmo com outras palavras.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. Por isso. ainda. isto é. como a maior parte das indagações a respeito da formação. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. Entretanto. as práticas de formação. ou. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. nesse breve artigo. e mais violentamente. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. mais precisamente. uma dúvida me invade. o procedimento de exclusão do real e. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. possibilidade e multiplicidade das comunicações. de toda atividade de formação. há casas para ela). a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. sem dúvida. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. de forma concisa e injusta (mas. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. 2. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. Esse número de revista testemunha bem o fato. e. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar.E também o que é o próprio sentido desse movimento.O que ocorre de essencial no ato formador.

de um lado. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. para um sistema onde. temores do formado e condicionamentos sociais. Trata-se. de tempo. toda aprendizagem de técnicas teria. o progresso dos conhecimentos. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. a formação permanente torna-se indispensável. 3.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. advindo a necessidade. Certamente. Toda formação. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. de investimento pensado. sua vontade e sua imaginação. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. um efeito positivo para o formado. cada um à sua maneira. todo crescimento no domínio das informações. Assim. O problema é unicamente operatório. a fim de poder seguir as mudanças e.a dos formadores e educadores. de outro. Orienta-se (e não apenas na China. 2. então. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. mas também têm.a dos sociólogos críticos. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. para desejá-las e provocá-las. 212 . o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está.a dos psicólogos. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. resistências. situando a prática que buscamos promover. ainda mais. a todo momento. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. de paciência. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. de reciclagem e. então.

como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. é o que excede toda análise.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). estritamente falando. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. que as causas determinantes não existem. cartesiano. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. hoje. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. sem sonho nem loucura”. mestre das leis e da morte. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. do cálculo. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. O real não está lá. obtido apenas 213 . Ora. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. ao umbigo dos sonhos. que se torna assim excluído). o do outro. O comportamento adulto é o comportamento refletido. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. o do primitivo e. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. inesgotável. na transformação e ele é. o real é o que escapa a toda definição. além de toda interpretação. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. através da ordem. da medida. sem paixão. além de anularem toda diferença e toda dispersão. que o homem está sempre por nascer. sempre a serem melhoradas. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. as brechas repentinas. portanto.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. que as reconstituições são parciais.3 referindo-se ao racional e ao controle. ele se revela na ação. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. que a libido é turbulenta. o do louco. os blocos erráticos. da mesma forma.

temos a bola de fogo. Quando houver apenas Eus fortes.5 Certamente. a cada dia.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. E nunca esse programa foi mantido. do questionamento do saber obtido. desenvolvendo-se progressivamente. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. como uma água calma. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. Temos de um lado o conhecimento. não se trata aqui de uma simples metáfora. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. imagens protetoras. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos.4 isto é. como diziam os alquimistas. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. por isso. cuja única saída é o aniquilamento mútuo.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. ao mesmo tempo. do que tranqüiliza. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. então. De outro lado. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. as variações de temperatura. a alegria da certeza e. falando dos signos da 214 . de hábito. Aliás. Como viver o desejo do pleno. se for atravessado pela ideologia do senhor. a angústia de se perder no turbilhão de questões. o seu contrário. Ora. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a energia que se desprende. 2. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. a opacidade. pois ele não pode sê-lo. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. as provas de sua impossibilidade. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. o confronto com a finitude. a humanidade estará. as conseqüências que acabam de ser enunciadas.

sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”.6 Ora. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. mas uma relação angustiada com o saber. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. Conclusão: o que permanece são as certezas. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram.Quanto ao segundo princípio. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão.. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. a despeito de suas diferenças. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza.. Então.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Os tecnocratas. os psiquiatras aliados do poder. 2. Igualmente. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico.

Acrescentemos que. mas porque apresenta. no momento. então. gestalt-terapia. ao qual muitos poderiam se subscrever. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada).Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. Um importante dirigente internacional não dizia. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. em um congresso de chefes de empresa. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. Horizonte grande e enaltecedor. grupos de encontro. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. a mulher. assim como as experiências de bio-energética. esses mesmos estágios. não existe. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. mas de peso. com seu corpo e com seus desejos. aliás. o cachorro ou com o estrangeiro que. além do mais. tendo recebido um certo tipo de educação. É talvez por essa razão que. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. o homem. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. é que a pessoa. há alguns anos. impacto social menor (estamos. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. é preciso. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. que relações de poder ele pressupõe. liberação corporal e sexual. no qual se inscreve toda 216 . estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. algumas vezes. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. ter um outro modo de relação com os outros. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). alienada na sociedade contemporânea.

Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. Em contrapartida. em técnicas e em posturas. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. que desejos elas retomam ou reprimem?. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . que podem ser atuados. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. então. Como escreve S. mesmo nesse último caso. feito de uma explosão que me fascina. a seu cheiro. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. por quem e por que sou falado. complementares ou antagônicos. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. que instituições me sustentam. Trata-se unicamente de relações faladas e. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. num momento de estado de graça. testados no mundo. eles não se explicam. não temos nada a dizer. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. que dá a cada parte de seu corpo. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. Sua beleza desencadeia esse prodígio. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. à sua voz. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. Não se aprende o amor. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. Mas. LECLAIRE: Quando. Entretanto. como tais. alguma coisa explode em mim.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Então. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. justamente. renasço. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. de uma luz na qual me banho. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. por que falo dessa maneira. a quem falo. que sofre e que ama. durante um tempo determinado. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro.

tomar o grupo em seus desejos. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . ao mesmo tempo. do aumento do grau de irrealidade da situação. super-ativo. Outro deixará se levar por suas emoções. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. um ato-falho. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. vai querer se fazer amar por todos. Ei-lo. o fazer ao dizer. os mais narcíseos) podem. o tempo ao momento. os tabus. esses discursos. embora plenas. essa explosão. Mas. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. de tempos em tempos. Uma vez de volta às suas instituições. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. chorará (o próprio ROGERS. as manifestações sem seqüências. os choros e os gritos de alegria. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. então. seu rigor. na maior parte do tempo. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. para fazê-las sair de suas tocas. analisando com toda a sua força. assim. pois as palavras trocadas. seu “saber-fazer”. única fonte de mudança. tomar o lugar do líder. E talvez. ou. questionará as instituições. arriscam tudo e nada arriscam. fazer triunfarem suas fantasias. como os weekends e as maratonas. declarará sua paixão por uma estagiária.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). Ficará apenas a lembrança de um momento único. as transferências maciças. pelo menos. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. favorecendo os processos regressivos. a não ser que queiram ou possam. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. mostrando assim sua potência. e ele é um bom juiz. não pode ser feito. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. O lento trabalho do negativo. esse irromper não ocorrerá. estará pronto a largar mulher e filhos. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. não se entregam. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. não porá nada em movimento. as fantasias invasoras. onde tudo era diferente. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. para que entrem em uma relação de transferência. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. Mas o psicólogo está lá para as acossar. no medo e tremor. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). Eles. as proibições. definido como um lugar no qual se deve comunicar. certificando-se de que nada lhe escapa. a fim de viverem sentimentos intensos. irromperá um lapso.

exato e periférico (não tocando no essencial). Quanto a seu conteúdo. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. Toda formação (qualquer que seja seu programa. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. Mas. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. divulgá-la nas massas dominadas e. Além disso. ou atento e vivido como o dos psicólogos. como muito bem o diz J. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. para expressá-las ou mesmo provocá-las. na formação. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. é esse turbilhão do amor e da morte. A mensagem dada. aquele que dita a norma (M. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. PONTALIS. então? Vemos que o que é dito é. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. simultaneamente. DELEUZE e GUATTARI). é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. O único senão é que. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. é a capacidade inventiva dos participantes. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. ele é chocante e desesperante. FOUCAULT). mas científico. em sua aridez. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. é essa troca de palavra. Sem dúvida. é o veículo privilegiado da dominação social. Igualmente. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 .-B. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. seus métodos. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. Afinal. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. assim. o que é essencial é o que se passa no campo formador. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. em muitos aspectos.

homogêneo. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. em uma palavra. o que ela esconde em seu próprio movimento. ao mesmo tempo. o que não se pode esperar dela. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. de constatação aguda e de desmobilização geral. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. ela não chega a ser totalmente dominante. em filigrana. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. tão sistemáticos. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. mesmo se. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). quais eram os princípios que guiavam nossa ação. Seus enunciados são tão gerais. que só nos resta. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. nas Questões propostas. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. profissionalmente e socialmente se mexam. depois de tê-los escutado. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. isto é.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. justamente. isto é. 220 . explicável por um único tipo de lei. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. não de uma formação (a rigor. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. se ela o fosse.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. de um processo. a transformação das relações sociais. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. os movimentos sociais emergentes. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. tenha sido possível ler. a vida. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. de um trabalho de mudança.

221 . um encadeamento de Questões. seus entusiasmos. políticas. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. ele deveria se calar?). resvalando. mas. suas idas e vindas. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). fazem surgir formas da sombra. Quando ele intervém. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. mas sua relação com o saber. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. suas falhas. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. uma movimentação de energias. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. assim. por isso mesmo. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. em suas diferentes dimensões: culturais. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. suas descobertas e suas resistências. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. Ele está lá simplesmente como uma referência. um jogo de luz sobre certos pontos que. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). Por meio dessa ausência-presença. através dessa ausência. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). indicando. organizacionais. na situação. suas interrogações e também suas paixões. Ele está lá vivendo. as correntes de informação. Ausente. ele oferece não um saber. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. dessa desordem-ordem.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. ele não é o portador do sucesso da experiência. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. aliás. mas uma problemática. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. provocando a vontade de respirar. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. desse lugar desocupado e fugidio. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. a criação de negentropia (isto é. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver.

caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. vivem em organizações específicas. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. hoje. de seus corpos e. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. um dos membros do grupo era particularmente escutado. uma atitude de deferência e de sedução. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). tal funcionamento é profundamente mistificador. tomando certos caminhos e não outros. não há muito tempo. as diferenças são apagadas. Por isso o trabalho do grupo será centrado. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. Como interpretar tal situação. No caso contrário. entre cem. o resto do grupo o seguiu em bloco. 222 . de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. com relação a esse personagem.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. projetos sociais. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. tendo um passado. a resistência se deslocou. Não são pessoas ou seres desencarnados. Um exemplo. os conflitos não têm mais espessura social. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. Ora. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. Um outro participante manifestava. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. formadores etc. de suas relações afetivas. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. praticamente nunca era contradito e. a relação com o saber é suspensa no vazio. para não falar de sua situação econômica.). não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro.

a 223 . sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. ação real e ideologia. de breve duração. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. fecundarão novas atitudes. conduta e gesto. imaginário instituinte. é aberto sobre o mundo exterior ou. experimentaram. fazem propostas. A partir do momento em que o desejo circula. de suas tentativas. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. outros atos sociais. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. um ou dois anos). de seus sucessos. aprofundadas. O lugar fechado. menos tal processo pode ocorrer. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. mas como portadores de suas angústias. outras palavras sociais. É por isso que somos partidários de estágios longos. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. mais exatamente. retomadas. a imersão na vida aqui e agora. confrontadas. imaginam soluções. os participantes falam do que fizeram. Em cada sessão. o foco em relações afetivas imediatas. não há mais dicotomia entre ato e palavra. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. Não estão lá como pura presença. lugar de análise. realizaram. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. construíram ou destruíram em seu meio real. intensivo.

Essa experiência da heterogeneidade. momentos de embotamento. Momentos de mutismo e de temor. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. do fogo e mesmo do caos. ter efeitos. Aqui. possa. por enquanto. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução.. ao contrário. em questão visar à dissolução pela dissolução. Não está. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. a precluir certos registros (da paixão. a fim de que a energia livre. nesse processo que. uma angústia diante do desconhecido. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. depois de terem liquidado 224 . a periodicidade desses momentos. reencontra muitos obstáculos ou. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor.. Resistência vinda de indivíduos em formação. com o outro. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. ter caminhos balizados. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. Trata-se. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. mais dinâmicos. que o amor inexiste sem a experiência da morte. de novo. irrupções vulcânicas. viva paixões. mesmo se ela pode se tornar criativa. períodos de análise refletida. ser protegidos. se interrogue sobre si mesmo. talvez. a loucura e o sonho possam ter. todos juntos. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar.. falar. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. do excesso. Não nos enganemos entretanto. do gozo). o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. naturalmente. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. expressão gráfica etc. do saber alegre. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. impossibilidades totais. discursos ideológicos desenfreados. direito de atuarem. algumas vezes. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. com o saber) são descentradas. de necessidade de alimento.

senão a violência simbólica da organização. avançando uma série de proposições. deliberadamente. então. que deveria transformar o que está no centro. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. da intervenção. as numerosas escolas. mas a confusão. naturalmente. Trata-se. o espanto e o desprezo de seus colegas. seu modo de existência. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. Essa experiência da margem. a dificuldade intransponível. o que ela não poderá jamais realizar. eles reencontram a inércia das estruturas. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. sobretudo. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. se transformará em um simples prestador de serviços. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. tentar experimentar novas condutas. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. Intervenção psicossociológica. Naturalmente. a utopia e a inquietante finitude. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. provocar mudanças. de trabalhar 225 . Na intervenção. mesmo se os participantes podem. quando retornam às suas organizações. é necessário que ele seja evocado. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. E que. o que ela busca induzir. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. Enfim. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. seu possível devir Não está em questão aqui. entre as sessões. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. para nós. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando.

A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. O que está presente não é. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. então. mas. no processo de trabalho. existissem como executantes da máquina. toda a violência do cotidiano que. numa primeira análise. A intervenção. antes de tudo. mas. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). consciente ou inconsciente. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. Não por razões morais. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). isto é. uma situação irreal. assim. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . desperdício.) e que desejam resolvê-los. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. ao contrário. uma certa fissura no organograma da organização. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. mais exatamente. Essa recusa. que têm problemas concretos (de decisões. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. A palavra reprimida. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. de definições de tarefas etc. como submissos. impede de ver e de sentir outra coisa. para se expressar. de melhoria de condições de trabalho. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. além do mais. absenteísmo. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. como na formação. desordem nas salas. durante muito tempo. na hierarquia interna. recusa a alguns o próprio direito de falar.

relações de poder e separações instituídas. para que o olhar se desloque. a aceitar sua parte de loucura. então.F.D. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. Não se trata de sonhar por sonhar. pensamento-execução. pelas relações codificadas. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. progressivamente. entre si e o outro. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. transformador do mundo. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. para que possa interrogar o oculto. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. a deixar seus desejos serem expressos. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. Colocá-la em causa seria um salto mental. ou que possa pensar de fora da fábrica. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. Numa pesquisa efetuada pela C. de falar sobre aquilo que não se deve dizer.T. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. Mas. que faz surgir um real além do real percebido. O que resulta. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. pai-filho ou ele-outros. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. “ruídos”. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito.

pessoal de cozinha e de limpeza. ao se deslocarem. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. ou. os educadores chefes e especialistas. isto é. os psiquiatras. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. cada um se tornando. dessa ruidosa confusão. numa análise em ato da organização. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. promete apenas. além das crianças. Aliás. à sua maneira. dessa maneira. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. Assim. sem análise. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. fazem da criança também um educador. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. ele classifica. com seus argumentos e suas demonstrações. As posições. interrogados. então. subvertidos ou. Ele distingue. O que significa. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. numa decodificação das relações. pode sair a surpresa. a médio prazo. onde a lei. igualmente. outras formas de relação e outros modos de estruturação. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. metafórico. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. é o que permite a troca e a reciprocidade. sua cronologia e suas articulações. transformada e garantida por cada um. no mínimo. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. decepção. que o surgimento do imaginário. a própria idéia 228 . uma nova forma de educação. analógico. é necessário que os modos de pensamento. imaginativo. os psicólogos. ator e analista social. é lei retomada. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. mas em uma maior fluidez. o inesperado.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. ele exclui e.

colorida. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. falarão. à língua (a parte social da linguagem) dominante.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. a verdadeira 229 . Quando. é como o dinheiro. submetem-se ao princípio do prazer. nas organizações. pede que cada um pense e viva na contracorrente. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. como ele próprio o diz. então. atrás da imagem de falar bem. mas também da linguagem utilizada. inversamente. da criatividade diária dos grupos sociais. da Psicanálise uma arte de construção. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. sob certos aspectos. isto é. por sua vez. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. da ortografia necessária. de fazer. pelo contrário. Assim. Mas. o roubo da língua espontânea.11 Queremos dizer que a verdade. Mas aí também sabemos que. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. Naturalmente. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. antes. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. divertida. isto é. na realidade. a língua. do bom estilo. dissimula. isto é. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. Ora. Essa perspectiva não o impedirá. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. um elemento de mascaramento do sistema social. de intimidade. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. As pessoas se submetem. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. Não se trata apenas do modo de pensamento. na França. o homo demens no homo sapiens. A língua. as “estórias de comadres”. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. para ser expressa ou reencontrada. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. a invenção popular. Buscamos. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. já não indica que as relações de cumplicidade. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico.

É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . que são os que podem traduzir. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. argumentada. as frases que inventam. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. mais exatamente. reencontrar a língua perdida. Não apenas de autoridade. fazendo-os aprender a falar. a dos tecnocratas. do mundo adulto (e o atacam). todo mundo. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. Mas os tradutores traem. se dá conta disso. de seus mandamentos. pois o 230 . não tendo mais nenhum elo com as esperanças. mas o da dominação que ela instaura. pode-se constatar que eles se protegem. em boa linguagem. É por isso que atacar a língua dominante. quando se escutam as palavras que eles utilizam. Há uma língua dominante. precisa e cifrada. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. de modalidade de comando. inventar um falar. Veja-se bem a dificuldade. Aliás. confusamente. experimentar o seu calor. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. fazê-la viver. a partir do Século XVII. A mesma coisa ocorre hoje. Eis que chegou o tempo dos tradutores. para obrigá-los. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. antes de mais nada. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. Se. para se protegerem dos outros atores sociais. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. Por isso. reencontrar sua língua. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. mas de poder: da lei. dessa forma. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática).

então. os hábitos. Entretanto. chocase violentamente com as estruturas.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. o interventor ultrapassou o limite. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. assim. De qualquer maneira. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. as comunicações interpessoais e intergrupais. quando estão no campo de análise não apenas as relações. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. quer que ele seja reforçado. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. mas também quando o poder está em jogo. sua vontade instituinte e. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. a intervenção pára. membros do comitê de empresa. interminável. sendo inauguração de uma palavra nova. quem quer que seja (dono de empresa. então. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. a se informarem. ele lhes permitiu. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. colocar-se em questão. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. A intervenção. mas. dentro de certos limites. ao contrário. as resistências. Assim. sendo. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. Mas. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. Então. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. agradece-se ao interventor. nem renunciar a seu poder. então. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). mas sim questionamento infinito. com uma outra linguagem. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. justamente. os estilos de autoridade. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). se uma demanda lhe foi feita. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente.

eus a se abalarem. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). dispersões a se operarem. se ela se coloca. palavras a serem ditas. Porém. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. Quanto ao valor e à importância desse movimento. Ele não analisa sozinho. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. seu trabalho só pode ser lento. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. não os conduz em direção a nenhum resultado. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. procedendo por deslocamentos e rodeios. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. então. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. 232 .Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). Ele não transforma as estruturas. Pois. Também não se pode dizer que ele fracassou. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. é aos atores sociais reais. que. em contrapartida. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. O que ele sabe bem. Ele não realiza nenhuma mudança. energias começaram a circular. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). mas favorece o desejo de mudança. que só poderá viver. Não sabe pelos outros. sendo alguém que incomoda. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. os movimentos sociais. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. através de ações. não lhe cabe questionar os poderes. é que. pólo de identificação ou bode expiatório. das funções elucidativas. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. colocando-se como um shaman ou um mártir. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir.

provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder.A falta de formação dos interventores.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. agricultores tendo interesses em comum. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. mais sua ação será limitada a certos grupos. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. então. ao contrário. 4. 3.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. traidor em potencial.Em contraposição. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. Suspeito por todos. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. Anteriormente. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. inclinar-se à rigidez ou. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. desde o início. mas que ele deve saber. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. sua posição nada tem de confortável. Entretanto. Pode.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. mais nos aproximamos de um processo cumulativo.

quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. Isso é compreensível. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). Um dia. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. Aparentemente. que assim buscam empreender atos significativos. 2. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. Quem quer conhecer a dúvida. a demanda acaba. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. sobretudo. com outras relações. um maior controle consciente. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. em um soberbo isolamento psicótico. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. eles se preparam para uma vocação de mártir. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. então. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. 3. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. o que nos parece mais importante. 234 . eles desabarão. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem.Enfim. em uma sociedade tecnocrática. do desejo da alienação etc. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. por seus gestos. não a desejam com freqüência para si mesmos. comunicações melhores e. ser retomado. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. da mulher. efetuado por eus fortes.

Points. caracterizadas. Paz e Terra). Eugène. FREUD. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. essa abertura profunda na superfície das continuidades. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. Em Lip. Le paradigme perdu. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Gallimard. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. 1974. Epi.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. descritas.” Le sauvage et l’ordinateur. E. 1977). 17. Rio de Janeiro: Zahar. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Connexions. Piera. ENRIQUEZ. Les mots et les choses. 1976. cujos signos. p. Le Seuil. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . não caem nesse erro. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. Cf. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Le Seuil. FOUCAULT. CASTORIADIS. refoulemente et répression dans les organizations”. Connexions.-M. Na primeira meditação. Pour la Sociologie. do sonho e do gênio maligno. On tue un enfant. no 3. CASTORIADIS-AULAGNIER. A. 137-159. 1972 (Imaginário social. Seuil. o Eu tudo destrói. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. Cinco lições de Psicanálise. enunciadas. “Points”. La nature humaine. recalcamento e repressão em organizações. n. 13. Topique. E. LECLAIRE. M. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. C. por Marília Novais da Mata Machado. Serge. MORIN. repentinamente. 1975 (Mata-se uma criança. TOURAINE. “Imaginaire social. L’institution imaginaire de la société. cf. Segundo J. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. Le Seuil. DOMENACH: “Para não ser destruído. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. 1974).

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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Ao mesmo tempo. Caso um apelo seja feito a mim. sua participação no trabalho. perspectivas. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. de preferência. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. 242 . justamente. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. sobre a maneira como se afastou do previsto. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. parece importante aos solicitadores. abordando concomitantemente o sistema. hipóteses. dimensões ideológicas. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. mas pode. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. meus conhecimentos e habilitações. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. que pode ser feito fora de um universo técnico. pode. mas tomo iniciativas e faço propostas. os fatores geradores do problema. numa dada situação concreta. algumas vezes. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. a examinar princípios. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. isso se dá.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. Assim. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. regras. além disso. Ao mesmo tempo. em excesso. também. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. a partir de um determinado momento. justamente. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. firmemente. os atores envolvidos. não poder sê-lo. porém. mas. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar.

As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. as propriedades do sistema (grau de centralização. na determinação das técnicas. a seguir. suas orientações teóricas. rapidamente. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. Evocaremos. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. em si mesmo. É nessa perspectiva que é preciso. princípios estratégicos. tornar mais inteligível. Porém. tal vantagem deve ser abandonada. a natureza dos objetos. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. tentar. então. tolerando apenas uma gama restrita de variações. em função do campo no qual elas aparecem. no final desse artigo. O modo de estruturação do processo pode se tornar. ecologia etc. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). Poderíamos. um objeto de trabalho. formas de autoridade. os recursos da equipe de consultores escolhidos. constituindo. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. 243 . por exemplo. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. Cada uma comporta pressupostos. os custos etc. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. tolerância à diferenciação. as funções externas almejadas pelos atores. os fenômenos de moda. para tratá-lo. tamanho. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. então.). mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. então. não apenas objeto de trabalho para os participantes. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados.

a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. algumas vezes. GODIN. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. a observação participante. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. de maneira bem menos acentuada. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. Entretanto. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. na maneira como J. nas de TOURAINE. parece-me. Quanto às estratégias de pesquisa. Entre esses dois pólos. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. em especial. estão as técnicas de pesquisa de campo que. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. bem cedo. de devolução aos participantes e de interação dos atores. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. isso se passa sobretudo porque. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. uma origem técnica importante. Algumas vezes. B. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. por exemplo. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. a propensão dos práticos de intervenção. em algumas práticas. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. 244 . COCH e FRENCH). eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. a partir da prática psicanalítica. Em seguida. depois de LEWIN.

As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. a origem das disfunções. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. em todos os casos. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. Entretanto. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. atualmente. freqüentemente. na França. quem reterá as soluções etc. quem escolherá as opções. a atuação dos conflitos. no papel de especialistas. a obra de G. de fato. há muito tempo. que. pela encomenda de um estudo “Retrato”. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. a escolher as variáveis de ação. o significado das condutas etc. é dessa maneira que elas se estruturam. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. quem conduzirá esse trabalho. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. Em todos os casos. ainda hoje. a isolar os objetivos. Igualmente. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. a caracterizar melhor as situações. a natureza das resistências. no começo. por exemplo. os limites desse modo 245 . quem participará do trabalho de exploração dos resultados. as razões dos bloqueios. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. Em um campo bem diferente. é comum. a identificar os problemas. nas próprias operações das fases de estudo). produzindo dados válidos. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. Pode-se observar que. como em outros lugares. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los.

do exterior. Não se sabe mais o que fazer. de caráter mágico. por exemplo. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. constróem. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. . com a apresentação dos resultados. são interrompidas. conseguindo uma solução de síntese ou. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). depressão etc.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. ao menos. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. em especial. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. escolhe-se. um retrato eventualmente objetivo e fiel.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. já citado. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. por exemplo. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. desenvolve muito claramente esse aspecto. Se muitas intervenções. cólera. o trabalho de recenseamento. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. então. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. caso se decida reiniciá-lo. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. de fato. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. apresentaremos rapidamente três observações: . depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. . nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. freqüentemente com espanto. a não ser esquecê-lo. restaurando a coesão. o inventário. denegação. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. enterrá-lo. O texto de André LÉVY. sobretudo. 1980). muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 .

preferir. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. assim. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. De meu lado. como o próprio relatório. parece-me.associar todos os parceiros envolvidos. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. pode-se tentar: . não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. o que provoca aumento dos temas de estudo. chega-se. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. então. com o trabalho sobre os resultados. durante o trabalho de análise da demanda. por categoria de ator etc. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. o debate. a perlaboração. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. algumas vezes. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. eles me parecem.fracionar a investigação (por tema. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. os critérios de cientificidade: validade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. às relações elaboradas e conceituadas demais. e apesar das reservas expressas. em outras palavras. mas repensar essa lógica (por exemplo. a uma solução que exige uma equipe e. correspondentes a atuações mais modestas. 247 . se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). pertinência. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. . inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. adiamentos de realizações importantes. sobretudo. .) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas.

social analysis. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. o artigo de E. em um plano concreto. De uma maneira geral. numa escala pequena. Logo. a partir de 1964. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. assim. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. adquiririam novas propriedades. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. evoluiriam. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. na qual. na Glacier Metal Company. em diferentes lugares da sociedade). Passar-se-ia. JAQUES. apresentam-se como a aplicação simples. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. sobre a possibilidade de contorná-los. de aperfeiçoamento e.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. 1972). com muita freqüência. de 1948. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. é necessário lembrar que. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. TRIST. os grupos. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . traduzido para o no 3 de Connexions. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. a uma perspectiva de intervenção. porém. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. nessa segunda categoria de origens técnicas. a fim de que elas mudem”. algumas vezes. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. as práticas de formação. de uma perspectiva de formação. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. em seguida.

para o seio da cúpula. ao mesmo tempo. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. em pedagogia institucional. Sociopsychanalyse. a fortiori. no plano teórico. na empresa Geigy. A. LÉVY e. se quiséssemos ser menos esquemáticos. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. essa evolução. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. na França e em países estrangeiros. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. jogos de simulação. Evidentemente. Mas se. as intervenções que se seguiram. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. ao contrário. ENRIQUEZ consideram. nos quais a ARIP interveio. o que representaria. consistia em transpor. MENDEL e sua equipe. J. tecnicamente. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. a importância da referência à Psicanálise. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. em pedagogia do projeto. utilização da autóptica. conceberam diretamente. especialmente. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. G. C. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. sua prática de psicodrama analítico. Payot). D. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. por exemplo. inscrevendo-se. passando pelos estudos de caso. o movimento de democracia industrial. no 1 a 10. ao mesmo tempo em que se reforçava. no plano organizacional. 1972). tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. ANZIEU transpôs. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. das estruturas de organização. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. em seguida. ROUCHY e E. KAES). o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. ROUCHY. de se diversificarem em função da natureza das demandas. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. C. não pararam. grupos de análise de prática profissional.

pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. freqüentemente. ao mesmo tempo. Enfim. a mudança social desejada. durante um tempo que pode ser apreciável. da facilitação e. Evidentemente. desde há algum tempo. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. na medida em que instituir. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. mais racional e menos caro. no espaço organizacional. é que se engane sobre a causa das dificuldades. da regulação (hetero – ou auto –. as que se nutrem da formação surgiram. forçosamente. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. De uma maneira geral. localmente. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. entre os próprios serviços de uma organização. de acompanhamento ou dinâmica). 250 . em especial. os meios de verificar a validade das hipóteses. é necessário providenciar a formação do responsável local. o risco. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. a palavra de ordem. então. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. Com efeito. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. irrelevante. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. é a descentralização. estágios existentes fora dela. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. esperando-se que se aumentará assim. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. Além disso. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). para os quais já se inscreveram individualmente N agentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. é mais rápido. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais.

na elaboração dos programas. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. os consultores. tal risco. além disso. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. então. manter essa dimensão presente durante todo o processo. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz.. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. primeiro. Tal dispositivo técnico é insuficiente. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. de um lado e de outro. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. entre os dirigentes. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. do qual se espera a responsabilidade. Ainda assim. Paralelamente. ao desempenho eficaz da prática de formador. Esse risco pode ser reduzido apenas se. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. os solicitadores. A competência de um interventor. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . descobrir. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. confrontá-la à dos outros atores. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. evidentemente. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. Um meio técnico (que. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. em assegurar “suas tarefas”. de uma maneira progressiva. aliás.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais.

dois atores ou diversas instâncias em interação. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. em resposta ou não a um apelo. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. Entretanto. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. a emergir como práticas e como papéis diferenciados.) –. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. de agentes de comando ou de pessoal de execução. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. em data. as estruturas internas das organizações se complexificam. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. um grupo. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. Porém. numa crítica aos limites do staff and line. a convicção de que as condutas das pessoas... o desenvolvimento técnico e científico. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. é interessante observar que. e não em técnicas de ação formadora de diretores. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. Ela compartilha. Por exemplo. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. afetando a estrutura e as instituições internas. 252 . Sem poder preparar aqui tal reflexão. em problemas de remuneração etc. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. um sistema e seu problema. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico).Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –.

os psicossociólogos. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. progressivamente. nos conflitos entre direção e sindicatos. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. L. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. vir a substituílas completamente. os “organizadores de comunidades”. sistematicamente. o sociodrama. em Nova Iorque. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. 253 . TOURAINE recorre também. Em países como o Canadá. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. mas. enriquecendo-as. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. Mais recentemente. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. assim. são chamados. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. No campo das empresas de produção. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. a práticas de debate. de defesa ou de negociação. Mesmo a história da intervenção de E. existem. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. renovando-as. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. durante os motins do Harlem. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. J. por exemplo. retomaram. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. ALINSKY. Então. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. no fim dos anos 20. evidentemente. freqüentemente. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. eventualmente. como o sociólogo S.

pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. as oportunidades. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. da magistratura. tanto no plano material quanto no legal. difusão das estatísticas de acidentes. para a primeira origem. há uma 254 . de fato. de organizar as ações de inspeção. Da mesma forma que. das lutas militantes etc. apenas. e que. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. Entretanto. as prescrições) e funcional (no campo técnico. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. em conseqüência. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. educativo. como por exemplo no campo da imprensa escrita. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. de sensibilização (por exemplo. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. concurso de segurança) etc. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. No começo. os dispositivos de proteção. de propaganda. da polícia. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. social). talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. Embora não ilustre especialmente esse risco. Parece-nos que. de formação. de alguma forma. de estudar as instalações da fábrica. para a segunda. então. a toda especificidade. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. das relações pastorais. para a terceira. audiovisual. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. e renunciar.

geralmente. Os confrontos entre atores (por exemplo. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. no começo. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. ou por uma intervenção apenas formadora. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. então. evidentemente. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. Uma vez estabelecida a composição. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. em outros países. De acordo com os resultados. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. pessoal de execução). Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. Uma abordagem mais recente. gerentes. concomitantemente. contramestres. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. por exemplo. produzir os diagnósticos. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. propor as medidas. algumas vezes desenvolvendo. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. fundamenta-se também. por uma intervenção psicossociológica. evitase. No fim desses dois dias. de segurança e de condições de trabalho. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. No caso da intervenção psicossociológica.

ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. então. a intensidade emocional mais forte. Como no caso anterior. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. estende-se numa duração que se mede em meses. produz uma frustração muito forte no ator. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. em teoria. A última negociação consiste. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. Em relação ao processo das intervenções precedentes. de múltiplas forças antagônicas). decisivos. ligada às diferenças de status e/ou de poder. Porém.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. Ela permite. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. a ponto dele renunciar. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. instituídos pela lei Auroux. tal 256 . O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. entre outras coisas. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. para nós. em especial.

aqui. uma importância acentuada. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. Tais requisitos. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. está. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. Escolher. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. aliás. Enfim. sempre pluridimensional. mas também em encontros do mesmo estrato. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. Em outros termos. entretanto. por exemplo. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). tecido com fios múltiplos. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. Por isso. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. elas não dependem apenas da técnica. tal metáfora. evidentemente. senão à primeira. ancorar. em todos os níveis. evidentemente. sem dúvida. para guiar a análise. e. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. Está claro também que. mas têm. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. bem cedo.

malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. com o tempo. o interventor é um clínico. em cada momento. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. Com efeito. por si só. Assim. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. quer esteja empenhado. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. enquanto dispositivo de inserção. Nem ciência nem tecnologia. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. capazes de contribuir em processos de pesquisa. fundamentar tal distinção. permitindo isolar. antes. Não é fácil. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. enquanto pesquisador. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. as escolhas iniciais arriscam. do terapeuta. no entanto. sem chegar a lhe dar um molde. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. para o pessoal de um estabelecimento. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). elas seriam. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . a mim. retomando a distinção de PALMADE (1977). em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. do gerente ou do político. depois de dez ou vinte dias de intervenção. filtrar com segurança um objeto teórico. ela me leva. mas. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento.

um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. importantes sob esse ponto de vista. Entretanto. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. e se surgem conjunturas favoráveis.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. tais acontecimentos podem inspirar outros e. A inserção na universidade. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. a administração. Por outro lado. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. a invenção de instituições locais (por exemplo. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. para os atores. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. o mesmo se passa. em função do campo social em que aparecem. Porém. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. analítica. pode-se observar que. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. os setores de saúde. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. 259 . adquirir um sentido menos restrito. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. seria natural levantar tal hipótese. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. sua identidade social e a natureza de seu projeto.). tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. na literatura especializada. assim. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. no começo desse artigo. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. o comércio. Enquanto atores sociais. sem subterfúgios. podem-se encontrar. de maneira mais ou menos difusa. Anunciamos. os espaços urbanos.. analisar e experimentar as vias de democratização etc. os movimentos sociais ou culturais etc. por certos setores da sociedade. malgrado sua fragilidade no tempo. para mim.

Por exemplo. posição central ou periférica etc. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social.T. Jean. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. . sua própria experiência no campo da saúde. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. MARTIN em uma pesquisa recente. a estruturação dos papéis recíprocos. a divisão do trabalho. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. 2 260 . DO – Desenvolvimento Organizacional (N. pode-se aplicá-la a outros campos.). . as conclusões às quais J. evocando.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. Connexions. até um determinado ponto. Porém. 1987-l. p. poder. não coincidiriam. . o grau de nossa capacidade de indentificá-los. nesse número. ainda. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente.). autoridade. o espaço urbano).Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. com o que se observaria em outros lugares. ROUCHY chegou.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). 49. de colaboração profissional. 7-28. de dependência hierárquica. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e.-C. necessariamente. . “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. Notas 1 Traduzido de DUBOST. os resultados quantitativos estabelecidos por C. voluntária ou militante etc. por Marília Novais da Mata Machado.). não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros.

G. In: L’intervention institutionnelle. La Documentation française. LÉVY. 1987. 1972. ROUCHY. “Une intervention psychosociologique”.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST.-C. Les recherches-actions sociales. 1977. Théories et pratiques de l’éducation permanente. Paris: PUF. 3. Paris: LFEEP. LE BOTERF. J. Interdisciplinarité et idéologies. L’intervention psychosociologique. 1980. 1981. 261 . J. Paris: Payot. A. 1986. G. C. PALMADE. Paris: Anthropos. Connexions. L’enquête participation en question. MARTIN.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.com.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. fax.com. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.autenticaeditora.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .

os ‘intemináveis adolescentes’. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. etnias. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www.br 0800 2831322 . finalmente.autenticaeditora. grupos religiosos etc.“Quais são os problemas realmente essenciais.com. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. o triunfo da racionalidade experimental. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.

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