Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

.......................................................................................................................................................................................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï..... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï.................................................................................... Benevides de Barros................................................................................................................................................................. 237 6 .......Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS..................................................................................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez. 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D.................... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost............................................................................. 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy....................

tal como no momento da primeira edição. a administração e a política. quanto para os que praticam a psicologia. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. Por tudo isso. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. prático e metodológico. cada vez mais utilizada. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. o direito. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. Assim. dispositivo de consulta e pesquisa. fruto do trabalho de psicólogos. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. a psicanálise. esclarecedoras dos processos de criação do social. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. por meio da “intervenção psicossociológica”. À metodologia de intervenções/pesquisas. tornou-se ainda mais importante. reais. a educação. Junho de 2001 Os organizadores 7 . hoje. bem conhecida e divulgada no Brasil. sociólogos e um economista. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. cuja história é nele revista e avaliada. Desde a primeira edição. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. a economia. o campo da psicossociologia cresceu. a sociologia. da organização e do funcionamento social. este livro.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. grupos. igualmente. empregando para tanto. freqüentemente através de experimentos. organizações e comunidades. se revelassem. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. A partir dos anos 50. por sua presença. Em conseqüência. geridos e transformados. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. Passaram a se preocupar. organizações e comunidades. até então desconhecidas. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. Portanto. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. a metodologia de pesquisa-ação. são o objeto de pesquisa. isto é. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. o pesquisador-prático. no quadro da vida cotidiana. que condutas. em especial. as condutas concretas dos indivíduos. das organizações e das comunidades. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. Por meio dessa abordagem. em seus grupos. 9 . inicialmente. reflexão e análise dessa disciplina. fez aparecerem certos problemas. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. Atuando diretamente na vida dos grupos. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. com as instâncias de mudança.

pouco a pouco tecido. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. adquire um sabor de novidade. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. 60 e 70. de onde e como surge a dinâmica social. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. sempre inacabada. sujeitos capazes de serem autônomos. dos desejos de onipotência e dominação. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. de transformações nos sistemas sociais (A. LÉVY). chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. pois a teorização é fruto da reflexão que. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. ENRIQUEZ. por um ato de decisão. e do processo de criação institucional. hoje ela se renova. do trabalho da pulsão de morte. que 10 . aptos a um “imaginário motor”. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. com suas mudanças e rupturas. mesmo que involuntariamente. e serem criadores da história. é formulada uma teoria. que é também um ato de palavra. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. mobilizados por ilusões e crenças. idealizando e buscando destruir seus chefes. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. torna visível a presença do sujeito social. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. DUBOST). a mudança social (A. sujeitos que são verdadeiros autores e atores.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. Ora. contra esse pano de fundo. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. Porém. Paulatinamente. do socius. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. NICOLAÏ). sujeitos que. da organização e do funcionamento social. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. nos termos de E. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica.

são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. está presente em quase todos os textos. CARRETEIRO. ARAÚJO. autopoieses. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. ROEDEL). Assim. mas também de outras referências. práticas de intervenção mitificadas. relações de poder e autoridade. André LÉVY e André NICOLAÏ –. entretanto. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. assim como. M. aqui e ali. de suas demandas de amor e proteção. a respeito das suas representações historicamente constituídas. o desenvolvimento de um processo organizacional. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. formadoras das sociedades atuais e futuras. 11 . são apresentados nesse livro por Marília N. CASTRO. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. S. A. Sonia ROEDEL. enfim. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. a condição de construção da vida social. Os autores – Jean DUBOST. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. estruturas dissipativas. formuladora de grandes quadros teóricos mas. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. DUBOST. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. E. TOURAINE que. LÉVY. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. assim como novos sagrados e certezas. Psicologia Clínica (J. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. Eliana de Moura CASTRO. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. BARROS. B. é analisada. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. de ARAÚJO. o pensamento filosófico de C. de BARROS. de suas fantasias de onipotência. são analisadas novas ideologias. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. Eugène ENRIQUEZ. Assim. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. T. auto-organização e complexificação a partir do ruído. nestas páginas. José Newton G. CASTORIADIS. Sociologia.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. J. Política. MATA-MACHADO). distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. da MATA-MACHADO. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. como sistemas dinâmicos.

NICOLAÏ). Paris X (J. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). LÉVY. ENRIQUEZ. ENRIQUEZ) e Economia (A. resultando em treze textos. ROEDEL. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. Paris XIII (A. Paris XIII: M. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. A. primeiramente. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. LÉVY (mimeogr. MATA-MACHADO e S. ARAÚJO. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. CARRETEIRO). UFF – Universidade Federal Fluminense (R. Assim. “Rupturas. 1990. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. T. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. especialmente. cobrindo questões atuais. sofreu modificações. BARROS. MATAMACHADO). NICOLAÏ) – mas. CASTRO – Psicanálise. textos recentes. Inicialmente. 1990-1.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. T. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. NICOLAÏ. M.). ENRIQUEZ). “O fanatismo religioso e político” – E. ENRIQUEZ. mutações e complexificação em economia” – A.). a Psicossociologia. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. ARAÚJO. Além desse território de pesquisa. “A interioridade está acabando? – E. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. CASTRO. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . DUBOST. a disciplina que os congrega. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. no Brasil. ENRIQUEZ. E. de um projeto pessoal e familiar.Foram escolhidos. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. distribuídos em três partes. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. feita em novembro de 1991: . LÉVY). 1990-1. Essa primeira proposta. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. em função do mencionado convênio. . MATA-MACHADO – Psicologia Social). com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. ROEDEL). Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. NICOLAÏ (mimeogr. 1989. na empresa. 1991. a partir do exame de uma centena de textos. na França. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J.Em segundo lugar.

em maior ou menor grau. E. à Psicossociologia e à Psicanálise. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. o grupo e a questão da mudança. “forclusão” ou “preclusão”. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. algumas aterrorizantes. contudo.Em terceiro lugar. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. CASTRO e M. Psicanálise do vínculo social. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. . DUBOST. Seus nomes aparecem. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. As traduções foram revistas por J. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. NASCIUTTI para o livro de E. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. 1987). foi objeto de discussão e comparação. ARAÚJO. finalmente. DUBOST. Por exemplo. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. MATA-MACHADO. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. “Intervenção como processo” – A. Mais de uma dificuldade de tradução. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. LÉVY. apresenta a intervenção. ENRIQUEZ. mantiveram-se termos como “fantasmático”. em cada texto. através da análise etimológica. preferiu-se “fantasia”. 1976. respectivamente. de atividades e produções criadoras. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. Buscou-se uma certa uniformização. editado por Jorge Zahar. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. 1980. Por exemplo. CARRETEIRO e J. na primeira nota de rodapé. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. para designar 13 .Prefácio desejo” (A. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a apreensão de seu sentido original. mantendo-se a tradução utilizada por T. a última tradução foi preferida. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”.

Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . Finalmente. a palavra investigation. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. na expressão méthodes d’investigation. essa foi a escolha. entretanto.“relativo a narciso”. nosso primeiro leitor. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. a critério do tradutor. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. para a palavra enquête. expressão bastante usada em português.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala.1 Pois bem. LÉVY e E. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. Cabe. desde o início.2 . O sujeito que não “morreu” A.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. aquilo que lhe cai nas mãos. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. Ao apresentar tais artigos. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. Mas não poderia ser diferente. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. visto que todo leitor recebe. no enfoque psicossociológico. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. Eles descartam. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. preenche ou interpreta. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . a idéia de um “eu”. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. no entanto. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. à sua maneira. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. No entanto.

no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. mesmo na França. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. entre nós. não estariam restritas. no conjunto das discussões sobre o sujeito. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. No texto de A. nas décadas anteriores. ligada a uma prática clínica.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”.. a família. os autores caminham numa direção que. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual.6 Isso é claro para os autores. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. por exemplo. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. antes de tudo. o da Psicanálise. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. o ofício ou o produto. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. entre outras coisas. ela é 18 .Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. vemos que o “indivíduo” é. um ponto de passagem.”. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. notadamente através da teoria lacaniana. nos parece em parte negligenciada.. convém observar que. Assim. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. a chamada “sociologia do cotidiano”. nos artigos aqui apresentados. um átomo talvez. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. E. A esse respeito. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. a empresa-família é anterior ao sujeito. LÉVY. suas relações próximas e regulares.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. já na virada dos anos setenta. por exemplo.

Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. fanatismo de empresa etc. num crescente alienar-se. por exemplo. segundo os autores. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. narcisismo social. mas que reenvia. sempre imprevisível. Assim sendo. as significações das ações”. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. identidade coletiva. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. 19 . daí a ilusão da identidade pessoal. as relações sociais.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados.” De outro lado. um papel essencial nas transformações sociais”. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. LÉVY nos lembra. espírito de empresa. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. A. “às vezes sem sabê-lo. enfim. ENRIQUEZ retoma essa posição. Importante ainda. Ele destaca ainda. pois este. antes de mais nada. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. tenta transformar “o mundo. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. sua constituição “plural” ou coletiva. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. além de desempenhar. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. Desse modo. através de FREUD. “no momento em que falamos. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. isto é. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. O primeiro é aquele que se agarra. narcisismo grupal.

científicas etc.. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. além da sua. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. tentando eliminar dele os negros. no início de 1993. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. Basta lembrar. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. algum tempo após as notícias.” 20 . ilusão e crença.. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. religiosas. os judeus e. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. como a intolerância e o fanatismo. mas sim os processos de idealização. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. cabem algumas observações. outras idéias. os nordestinos. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. amor (ou cumplicidade?) mútuo. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. Assim. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. religioso.9 composto por militantes islâmicos negros que. científico ou outro qualquer). Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. outras propostas políticas. mas que tentam ainda se expandir.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. pois ela se torna uma ameaça. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas.. mas exemplar. A essa altura. esportivo. árida novidade. em diversos momentos. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. como se tinha notícia até pouco tempo.) deve ser eliminada. estamos falando de mecanismos inconscientes).. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. xenofobia. como um fenômeno “periférico”. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. Assim.

noção de origem literária e filosófica. E. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. cada sujeito está perseguindo. resvala necessariamente para a intolerância. ela deve ser doadora de sentido. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. num clima onde toda crítica está ausente. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. ele desconhece também. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. contrapor as noções de sujeito e interioridade. Gostaríamos de lembrar. Poderíamos. Em outras palavras. por analogia. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. O que se torna problemático. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. a ação grupal deve cobrir um vazio. seja num grupo intolerante. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. no Sul do Brasil. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido).Análise social e subjetividade Aliás. Enfim. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. nosso partido de direita ou de esquerda etc. sejam elas brancas ou negras. infantilizando os “fiéis”. às vezes. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. isolada e coletivamente. a eterna questão do sentido. nosso time de futebol. nosso grupo body-building. nossa “seita” de comedores vegetarianos. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. já de início. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. seja num grupo democrático. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. em níveis talvez menos contundentes. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. rapidamente.

o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. Aliás. Talvez seja. íntima. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. Para ele. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. vítima de ataques. é numa relação espacial que ela se inscreve. interrogações e que. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. foi discutida em termos do cheio. Só o ser existe e ele é cheio. 22 . pois. alegria. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. é ‘uma terra estrangeira’”. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. o que é pura duração. por ser da ordem da especialização. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. para ela. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. na Filosofia antiga. questionamentos. segundo o autor. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. A interioridade. BERGSON. que não é recente. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. ele existe atualmente e está. à alternativa interior x exterior. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. em oposição ao vazio: trata-se. pois. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. A questão do espaço. parece haver uma tendência. A interioridade remete. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. onde ninguém tem o direito de penetrar. Se esse sentimento nem sempre existiu. quase que imediatamente. na esfera psicossocial. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. A compreensão da interioridade é. em se pensar espacialmente. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. num certo sentido. Por outro lado. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. ameaçado de extinção. a não ser por arrombamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última.

segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. porque especular. capta os estímulos exteriores e também os internos. As idéias de permanência. depois da perda do objeto. isto é. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. a identidade própria. Há. considerando o 23 . pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. eu não sou. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. refletindo a si mesmo). quase que uma obsessão em relação ao próprio território. diferenciando o interno do externo. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. bonito. Limite e superfície privilegiada de estimulações. isto é. saturada de comunicação. ao que marca a diferença. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. foram abaladas pela Psicanálise. Existe. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. na época atual. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. a pele se liga à formação do eu. O ter é ulterior. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. A percepção do espaço remete à visão. Já a identidade marca a diferença. temos de falar nos órgãos dos sentidos. meio de se situar no mundo. O culto exagerado do corpo.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. separada. Um corpo dinâmico (isto é. unidade e similaridade. denotadas pelo termo identidade.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. diz FREUD. Dito de outro modo. Assim. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. o que se vê por fora é um reflexo do interior. ela é capaz de dizer: eu tenho. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna.

e como bem captou ENRIQUEZ. que todo texto é um tecido de espaços em branco. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. quer como conceito psicológico. E o mais importante. nenhuma leitura é um ato neutro. oferecer uma resistência passiva. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. do outro que eu sou.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. Ele diz. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Em outras palavras. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. se tornam assim mais claras. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. por ser essencialmente espacial. Assim. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. a interioridade considerada. em outros termos. Notas 1 Humberto ECO. Finalmente. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. pela empresa ou pela sociedade. feitas pela religião. quer como sentimento pessoal. no campo da argumentação psicossociológica. isto é. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. 2 24 . de outro lado. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. As propostas absolutizantes. Afinal. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). naquilo em que ele é diferente do outro. é certamente desprovida de energia ou. O oculto. entre outras coisas. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. ao eu e muito menos ao sujeito). isto é. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. ARAÚJO. francesa Grasset. só podendo. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. é passiva. Por isso. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. em sua obra Lector in Fabula (trad. pois. já dissemos. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade.

mais perto de nós. “Essai d’identification du quotidien”. alguns anos atrás. 29-31) afirma que. Paris. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. cit. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. G. p. SELLIER (cf: Le mythe du héros. 445-449). Conseqüentemente. p. 50-53. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. 5-12. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. Observação semelhante já fora feita. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). Paris: Dunod. em seus níveis mais profundos.Análise social e subjetividade 3 Cf. 1970. 1984. 1975-1976. vol. Lembremos. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. em nível individual. nessa mudança. não passavam de “mero detalhe”. p. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. P. 322. P. tomo XXIX. além de serem historicamente contestáveis. senhor de si e do universo e como se. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Essa mesma revista. p. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. BALANDIER. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. De outro lado. 13). 1983. como um instrumento terapêutico. por Jean-Marie LE PEN. In: Bulletin de Psychologie. em seu número de 1º/12/93. n. Assim. na América Latina e mesmo na Europa. Paris: Gallimard. Para ele.. P. Cf. soberano. face às estruturas e aos sistemas”. (Cf: ANSART. nas quais o Sr. JIRINOWSKI saiu vitorioso. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. O autor evoca J. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. fez reaparecer o sujeito.. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. Paris: Gallimard. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. uma editora de propaganda nazista. por isso mesmo. Cf: ANZIEU. reportagem da revista Isto É. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. LXXIV. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. p. Paris: Bordas.. principalmente após as recentes eleições da Rússia. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. D. na Biblioteca Nacional de Paris. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. o culto à figura de GUEVARA. de 28/04/93. líder da extrema-direita francesa.

p. semelhante à vivência intra-uterina.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. ss. p. 15 16 26 . Le moi-peau. Buenos Aires: Editorial Vancu. D. Além do princípio do prazer (1920). 1967. 1985. Paris: Dunod. ver: FREUD. 1977. Paris: PUF. Entre outras alusões a essa questão. El tiempo y los grupos. 42. 1976. 68. H. Rio de Janeiro: Imago. 120 ed. Essai sur les données immédiates de la conscience. ANZIEU. S. XVIII vol. (Cf: FONTANA (A) et al.) 14 Cf: BERGSON. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud.

como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. um determinismo absoluto dos processos sociais. como psique. É contra essa tendência reducionista. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). sua classe ou sua raça. que decidi me manifestar. Seguindo essas abordagens. do sujeito. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. em grupos e organizações. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. só se fala do indivíduo. que nega a interrogação de D. No momento atual. Com efeito. assim. LAGACHE. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. por um lado. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. pois. De minha parte. O indivíduo torna-se. ao invés. em maior ou menor grau. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. um ser falado. No entanto. 27 . ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. ALTHUSSER).2 A razão é simples: como muitos outros autores. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. mesmo sem dizê-lo. por outro lado. um ser agido. do aumento do individualismo. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens.

é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. ela própria. ir muito longe nesse sentido. Não é necessário. Freqüentemente. zonas inexploradas. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). que lhe deu direito à existência. CASTORIADIS. “a possibilidade de saber que alhures. quer seja por Deus – BOSSUET. é preciso pressupor. mas deixassem também. no entanto. em uma etnia. conformados a seus votos e a seus ideais. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. DE MAISTRE –. ao mesmo tempo. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. porque toda sociedade comporta falhas. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. em uma nação etc. Nessas condições. em parte. BURKE. Essa emergência acontece. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. Nessas condições. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. a cada homem. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. num lugar-tela. portadoras de 28 .5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. numa sociedade que é. De fato. para retomar a terminologia de C. heterônima. logicamente. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. de antepassados e de Deuses. sua conduta. conduta estruturada social e culturalmente. a anterioridade dos processos sociais. que pode tomar a forma de totens. portanto. em parte inconscientemente. em uma classe. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. além disso. Em outras palavras. ou de um Deus único. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. isto é. uma cultura. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. já que nascemos sempre em um grupo. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. Uma tal sociedade heterônima tem.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. em parte voluntariamente.

apoiando-se nas funções corporais. Notemos que as sociedades modernas. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. Deve-se. Embora exista. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. ele também só é parcialmente heterônimo.7 Quanto ao indivíduo humano. de maneira invisível. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. como evocava FREUD. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. um papel essencial nas transformações sociais. em certos casos. não se pode esquecer que o discurso. outro um novo tear. como dizem FRITSCH e PASSERON. sobretudo. Além disso. fanático. em toda sociedade. Mas. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. até mesmo se choca. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. Elas se tornaram. em pessoas e grupos sempre diferentes. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. mesmo sem percebê-lo. portanto.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. sem sabê-lo. às vezes. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. a médio ou a longo prazo. contra a vontade da massa. desde a Revolução Francesa. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. pelo menos de imediato e. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. a trocar sua natureza pela de um térmita. desde a Renascença e. Reis continuam a se 29 . Alguém inventa uma máquina a vapor. se põem a acumular riquezas. seja lá por que modo.8 Enfim. por mais totalitário que seja. às vezes. não a um contra-discurso organizado mas. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. um discurso dominante.

de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe.9 Assim. da sua organização. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. os processos sociais. Ele deve gozar com essa renúncia. do seu serviço. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. seu tempo. Se cada um deve manifestar sua singularidade. se os processos psicogenéticos pressupõem. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). apenas um elemento do processo de massificação. cada um deve ser criativo à sua maneira. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. performance sempre a recomeçar. Nessa ética. sempre imprevisível. a individualização. Assim. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. é. em nossa época. mas é o homem da performance mensurável. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. “matadores frios”. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. como sublinha CASTORIADIS. a vitória nunca sendo definitiva. vencedores que querem ir até o fim. De fato. Ao contrário. No entanto. ela pode ser bem efêmera. Assim. O winner sempre pode se tornar o looser. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. o elemento esportivo predomina. mais freqüentemente. objeto de tantas preocupações.

hoje em dia. O “zé-ninguém” está sempre. em vez de admirar o que ele concebeu. além disso. a justificá-lo”.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados.10 Assim. atrás da força e da grandeza de outros homens. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. nos hospitais. financeiras ou de prestígio. a se associar a paixões puramente agonísticas. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. a busca da riqueza. posições de poder. igualmente. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. assim. onde seu paroxismo predomina. o indivíduo renuncia. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. REICH. na maioria das vezes. o que lhe confere. aqueles a quem chamamos vencedores. tende. quando se fala do indivíduo. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. designava por “zé-ninguém”. o “culto da empresa”. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. mas não se orgulha de si mesmo. ou ainda. para depositar seu destino nas mãos dos outros.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. Ele atinge. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. um novo ritual. Nos Estados Unidos. Admira o pensamento que ele não concebeu. características de um esporte. igualmente. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. 31 . que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. os que W. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. naquele tempo. em geral. nas universidades. desvestida de seu sentido ético-religioso. mas que.

agora bem conhecido. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. ser um agente ativo desses processos de recalque. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. médios ou pequenos homens. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. aderir profundamente às injunções sociais e. apoiado 32 . reprimir suas pulsões. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. assim. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. é. apresentando-se como objeto maravilhoso. portanto. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. A idealização é. às vezes. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. de repressão e de adesão. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. Em outras palavras. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. Além disso. para existirem. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. sempre ameaçador). Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. o mundo criado não é contestável. Resta-me. então. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. o que devemos fazer e como seremos recompensados. depois de descrever esse fenômeno. nós próprios nos tornamos admiráveis. correndo um mínimo possível de riscos.

É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. (Com efeito. que tem como efeito “unir uns aos outros. tem como futuro possível a xenofobia. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. uma massa maior de homens. estamos divididos e angustiados. De fato.13 Reencontrar a coesão. de simplesmente não ser. graças a esse jogo identificatório. é se voltar ao grupo de pertinência. eles suscitam a aceitação ou a identificação. o racismo. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). graças a identidades coletivas fortes. através desse processo. ao nosso “nós”. sem se dar conta de que. A identidade coletiva. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. ideais vazios e desprovidos de sentido. consumir por consumir?) Ora. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). freqüentemente. o fanatismo. como mostrou FREUD. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. A identidade coletiva favorece ainda. um budista. os ideais são múltiplos. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. estamos perto de não ser absolutamente nada e. Se somos apenas um espartano. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. está cheia de perigos. o narcisismo social. 33 . um proletário. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. É necessário precisar esse último ponto. produzir por produzir. nas quais. contraditórios. da sedução ou da obrigação]. dificilmente. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. um capitalista. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. Vivemos em sociedades nas quais. G. é imputar os problemas ao outro. de fato. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. que sentido pode ter ganhar por ganhar. portanto. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos.

totalmente pré-formado e definido pela sociedade. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. as relações sociais. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. no entanto. portanto. quanto mais uma cultura se quer unificada. daí. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. não pode ser considerado como sujeito humano. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. nos lugares da vida cotidiana. em sua vida de trabalho. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. em suas relações sociais de todos os dias. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. bem entendido. ao menos. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. o indivíduo singular. tem como projeto voluntário. a sua conversão. a respeito de qualquer tipo de problema. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. que. criança. Não podemos. 34 . O sujeito é um ser criativo. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. Com efeito. as significações das ações. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. Tal indivíduo só sabe repetir. O indivíduo individualizado (e não individuado. Para definir criatividade. por mínima que seja. Vê-se. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. reproduzir. quanto mais a identidade coletiva existe. seres a eliminar. portanto. bem como da tranqüilização narcísica. Quero simplesmente dizer que cada um. que visa à transformação da totalidade enquanto tal.

ela está presente em quem faz. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . aqui e agora. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade.. não ao charco das alegrias imortais. antes que ela se fixe em natureza morta. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. a gestação. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. de repente. uma novidade irredutível. um ser capaz. meu amigo. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. do jogo e da vagabundagem. e que o mundo possa testemunhá-la. em compensação.. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). respirando a plenos pulmões um ar salubre. o primeiro movimento indistinto da matéria. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. chegarás. portanto. imobilizada. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. em seus Conselhos a um viajante. o nascimento. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. ao mesmo tempo sapiens. que sente prazer em respirar. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). ludens e viator. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada.. homem portanto de sabedoria e loucura. levo a sério. voluntariamente. O sujeito é. E mais se imprime. demens (objeto da hybris). Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. é ainda pior. não na escola!. em lugar de uma imagem da natureza. quanto na inspiração do arquiteto que. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. é a formação.. Os artistas não se enganaram a esse respeito.

para lavar o mundo de sua sujeira.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). é preciso parar um momento. em particular o grande homem. pela natureza. identificado a seu pai. aliás. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. No entanto. assegurando-lhe a redenção.17 Porém. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. depois da guerra de 1914-1918. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. 36 . Caracterizemos rapidamente esses três tipos. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. a sua própria alteridade). porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. portanto. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. entre os grandes homens. a esse respeito. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. sente-se eleito por Deus. os manipuladores ocupando uma posição perversa. cientificamente. Assim. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. atualmente. os sedutores ocupando uma posição histérica. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. para realizar uma missão salvadora. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. Michel SERRES. de seus medos. um pouco paranóico. Com efeito. O megalômano. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. preso na ganga dos ideais. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra.

37 . só pensa em termos de estratégia. ele se proíbe de ser excepcional. ao contrário. que não tinha interesse algum pelos outros.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. tem gosto pelo instantâneo. esse está. O teatro é também para ele um terreno de esportes. Quanto ao manipulador perverso. denega a realidade). que toma a si mesmo por ideal). O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. o povo judeu. só considera o mundo sob o ângulo econômico. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. nem uma força de pensamento e de ação. por sua vez. crê falar a linguagem da verdade.20 do homem que declarava. ao mesmo tempo. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. LENIN. quis fazer do alemão o povo eleito e. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. os tecnocratas. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. inventando complôs. basta o de STALIN. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. como WILSON ou HITLER. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. que tomou o poder contra os mencheviques. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. caso bem conhecido e.21 Assim também HITLER. é um bom exemplo desses chefes perversos. reduz as relações humanas a relações de objetos. que queria dobrar o mundo à sua vontade. a um nível mais irrisório. como LENIN: ao contrário. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. segundo FREUD e BULLITT. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. recém-saídos das grandes escolas. obcecado com a força pela força. como já indiquei anteriormente. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. para isso. ou capacidades manipulatórias. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins.

Se elas tomarem um grande patrão italiano. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. meus aliados (. um indivíduo sem fantasias. mas uma duração realista. sem interrogação.. a seus olhos. Tentarei em outra ocasião. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. não tenho dúvidas morais”. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). não se torna. nem mesmo na imaginação. Mesmo assim. pois ele promete a qualquer um. M. talvez. Em contrapartida. Eles se apresentam.. Em outras palavras. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa.). uma demonstração do possível (. como GORBATCHEV. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos.) são as pessoas comuns. porque sou. os outros escapam a essa denominação. de uma normalidade esmagadora. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. ao contrário... com a condição de ser corajoso. é possível tornar-se DE BENEDETTI. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. AGNELLI a gente nasce. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. sem dúvida. como indivíduos perfeitamente normais. se tiver tanta coragem quanto eu”. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. Em todo caso. AGNELLI por exemplo. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. ele perdeu alguma coisa. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. Mas. O grande patrão italiano C.

pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. ele o faz em sua linha. fazer advir o sujeito coletivo. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. dos outros. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. Corre pela vida como em uma auto-estrada. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. em FREUD. fazer advir o sujeito individual. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. de tudo realizar” (McDOUGALL).O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. FAUCHEUX. Se o sujeito evolui. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. Mas ele conserva o mesmo projeto. criar seja lá que novidade for. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). tomar caminhos transversais. só sabem repetir. MOSCOVICI. de se lançar no desconhecido. Eles têm uma influência social inegável. mesmo se nada descobre. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. em MARX. por outro. a recusa de compromisso sobre o essencial. Ele não tem projeto. no sentido que dou a esse termo. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. conforme McDOUGALL. São portadores da pulsão de morte. 39 . São desprovidos da aptidão à transgressão. E. ao inusitado. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Mas não são verdadeiros criadores de história. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. É também um homem que demonstra consistência. assim. pois falta a ambos.23 Em certo sentido. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. o caráter irrevogável de sua escolha e. assim. S. favorecer a tomada de consciência de situações reais. sem falhas. insiste sobre essa noção. em sua linhagem. “que significa. por um lado. de tudo desarrumar. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. reproduzir. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Um ser consistente pode ter dúvidas. Teríamos. mais ainda.

da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. visível e. delimita também.24 O “exota”. diante da exigência do todo. como também a provocá-los. a um Estado. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). o exilado. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. MOSCOVICI. provenientes 40 . sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. portanto. recentemente republicado. no entanto. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Aqui não se trata de manipulação. finalmente. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. Ele é. Para SEGALEN. SEGALEN.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. segundo a expressão de V. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. quando ela se apresenta. Ao mesmo tempo. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. a uma identidade coletiva. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas.” O sujeito não é homem de comprometimentos. criar e sustentar um conflito com a maioria. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). à dispersão. souberam conciliar furor. o que não é nada fácil. a ocasião. O que é interessante. é que. pessoas vindas de outros países. Consistência e furor. um grupo ou um Estado. isto é. em seguida. consistência e astúcia. consistência e astúcia andam juntas. interdita a tentação da Unidade-Identidade. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). porque a dispersão. no momento atual. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. uma outra exigência e. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. não pode jamais estar colado a uma organização. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. igualmente. para fazer triunfar suas idéias.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. em demasia. então. se só pensa através dela. com personalidades “as if” (H. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. aos outros. portanto. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. de sonhos e de interrogações. sobretudo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. então. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. do combatente. assim. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. de colocá-los. Se o indivíduo se identifica com a organização. ele entrará. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. SERVAN-SCHREIBER). sem o saber (e de consciência tranqüila). no sentido sadiano do termo. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. de ter modos de “comunicação afirmativa”. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. de considerar os problemas em sua frieza. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. A cultura de empresa ou de organização. aos que dela participam. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. capaz de se adaptar a todas as situações. Minha contribuição será. . sejam quais forem. L. dando. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . para fazê-lo. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. ao propor. seus valores e seu processo de socialização. do vencedor. Para obter tais resultados. desembaraçado de compromissos. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. sobretudo. o homem capaz de ultrapassar seus limites.

Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). segura de estar em seus direitos. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. ao contrário. Então. de perda e de sofrimento. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. o renovar de uma igreja dogmática. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. gurus. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. uma causa a defender. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. pronta a punir os blasfemadores. no mundo medieval. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. E. em nome da verdadeira fé. mas. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). xamãs. mais próximos do integrismo.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. injustamente martirizado. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). quando as igrejas não são suficientemente atraentes. através de um projeto a concretizar. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. um ideal a realizar. atualmente. Sabe-se muito bem. que uma sociedade não pode existir sem religião. desde DURKHEIM e FREUD. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. 47 . Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. Basta ter em mente: a renovação do Islã. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. exige a idealização. encarnar a “instituição divina”.

submetê-la a ídolos não contestáveis. 48 . os estágios off limits. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. a aeróbica. as ginásticas suaves. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. continuamente desejável. afastar a dor. a expressão corporal. O fanatismo político. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. “Estar bem em sua pele”. As técnicas de body-building. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. “tornar-se saudável”. como a expressão da graça que lhe cabe. o “grito primal”. que aqui apenas menciono. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. competitivo ou não (por exemplo. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. pelo menos. Mas as religiões. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. portanto. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. sofredor. as medicinas naturais. cuja meta é a homogeneização do “interior”. o jogging. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). Voltarei adiante aos métodos empregados. todas as religiões. animado) é o nosso bem mais precioso. as maratonas de Paris ou de Nova York). desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. mesmo os mais repreensíveis. falado e falante. o desenvolvimento do esporte de massa. esbelto. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos.

GREEN. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. No narcisismo de morte. necessariamente. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. processo de ligação com os outros. Ora. membro de um conjunto que tem suas coerções. ao menos. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. na qual ele tem que desempenhar um papel social. grupal e coletiva. 1983). cada qual se mira em seu próprio espelho. que o indivíduo. sinais de uma fantasia de domínio total. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. a busca do “erro zero”. nas organizações sociais. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. Basta querer. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. Elas anunciam. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. para se tornar um sujeito falante e atuante. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. Por outro lado.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. na qual fatalmente se perderá. embora alienados no mais profundo de sua psique. de criar uma cultura. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . de fato. interrogação do ser. mudança sempre difícil pois traz. “a paixão pela excelência”. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). de evolução pessoal ou grupal. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. de intervenção psicossociológica ou institucional. na medida em que não se trata. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. de autoridade. O narcisismo mais total está na ordem do dia. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. Os próprios indivíduos. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. A explicação é simples: todos os métodos de formação. únicos responsáveis (se eles fracassam. mas de edificar novos cultos. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. a “qualidade total”. Quer se tenha nascido rico ou pobre. confronto com o sofrimento. assim. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou.

necessariamente. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. mas. como a simples lógica o exigiria. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. O reconhecimento da psique como força operante tem. a implicação. com os pés amarrados a um elástico. a mobilização total de todos. para a seleção de dirigentes. a sua submissão. quer dizer. Cada “conjunto humano”. como resultado a sua destruição ou. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. na sociedade.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. nas organizações e nos indivíduos. Assim. em reação. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). a fim de desenvolverem sua autoconfiança. perfeitamente interiorizadas. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. uma psique sem conflitos. Por isso. portanto. faz-se apelo a leitores de tarô. únicos a prometerem resultados tangíveis. pelo menos. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. do aumento dos métodos mais bizarros. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. não do desenvolvimento da racionalidade. para viver e se desenvolver. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. a astrólogos. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. ao contrário. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. uma psique a serviço da organização. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida.

Ora. portanto. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. Os indivíduos evoluem. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. de constância: (b) idéia de objeto separado. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. em um gênero. ela revela características um pouco suspeitas. Cada indivíduo. ou vinte anos? BARTHES. que se liga a uma tradição. ele é capaz de ser um “Si”. escreveu belíssimas páginas. em uma palavra. não creio mais como esse ser que leva meu nome. que participa de uma memória coletiva. permite que se possa situá-lo em uma classe. credo. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). isto é. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. de referências seguras. uma unidade. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. portanto. através dessas diversas experiências. de ser um sujeito que tem uma história.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. portanto. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. Cada um sente. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. a necessidade de ter uma certa identidade. Mas. Além disso. nacionalidade etc. por minha vez. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. animado por uma coesão totalizante tendo. em uma espécie). Caso se retome a análise de A. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. classe. não vivo mais. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. se examinarmos mais de perto essa noção. quer dizer. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça.A constância não existe. GREEN (1985). ou o status social a que chegaram. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. – podendo 51 . caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas.

1982). cairmos na irresponsabilidade. quem está falando e por que falamos dessa maneira. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. não podemos abandonar essa idéia.) que visam. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. além disso. que. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. Assim. b. que processos de clivagem. a sua própria finalidade. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. então é possível questionar. Nunca sabemos de maneira precisa.Quanto ao reconhecimento do mesmo. de preclusão e de denegação estão operando em nós. Mas ele insiste. No entanto. no momento em que falamos. já dizia RIMBAUD. ABRAHAM e M. mas que mantém um certo grau de 52 . tentamos continuamente criar um “si” que evolui. Eu é um outro. assim.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. então. então. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. o eu etc. em sua pureza.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. ilusória. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. de MIJOLLA. Se.5 Certamente. quando sei tão pouco o que sou. TOROK. necessita do trabalho do tempo. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. por definição. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. 1976). admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. a idéia de permanência e de constância. no entanto. cada uma. com WINNICOTT (1966). pois toda construção. Precisamos. a partir de um estado não integrado. sob certos aspectos. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. c. admitir.

Um deles explicita suas dúvidas. o trabalho sobre si. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. de “maioria compacta”. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. como também um amor consciente por si. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. os diretores participam de um grupo. trazendo “temor e tremor”. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. portanto. escolhendo as máscaras sociais que precisam. para o indivíduo. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. é ouvido um momento. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. assim como as instituições e organizações que a compõem. o remorso. São. sobretudo. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. da “inquietante estranheza” e. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. portanto. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. contraditórias. Porém. a interrogação. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). a dúvida. quaisquer que sejam. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. problemáticas.A interioridade está acabando? coerência. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. e tanto mais porque se parecem conosco. de suas faltas. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . portanto sedução. tão apreciada por FREUD. muito pelo contrário). Apenas um exemplo: numa grande empresa. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. Os outros. de um narcisismo a toda prova. a aceitação dos processos de clivagem. O que nossa sociedade reclama. de seus desejos.

Além disso. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. não quero saber nada de seus problemas porque. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). p. quer dizer. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. até que ponto evitam-se a si mesmos. em termos mais gerais. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. Transformam o mundo no qual estão. SEGALEN). ele tem úlceras constantes. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. é interrompido por um de seus colegas. seja de novo como nós. Pôde obter o posto desejado. um grupo que tem uma cultura própria. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. até que ponto estão presos na apatia (SADE). que detestam. quando os indivíduos estão nessa situação. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. seu simbólico. Domine-se. Esse exemplo (que. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. filho de um grande industrial.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. p. Ele se tornaria o fraco. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. se você continua. por um processo de contra-investimento. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). naturalmente. O “homem com problemas” aprendeu a lição. Ora. 54 . esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. Com efeito. 1984. reedição de 1986. tendo uma identidade compacta. formam uma nova maioria compacta. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. Apenas. vinda da boa burguesia. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. que lhe diz. diante dessas revelações. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. 270). Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. ENRIQUEZ. Nessas condições. seu imaginário enganoso. Nesse momento. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. em substância: “Não continue. serei obrigado a falar disso a meu pai e. nem mesmo à sua esposa. eles questionam sua identidade. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. 36). desde então.

do outro. quer dizer. colocar em lugares criados especialmente para eles). Quem não se amolda deve ser liquidado. pelo menos. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. sem emoção. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. no dizer dos racistas. “Apagar. num mundo a priori hostil ou indiferente. assim.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. todos os “exotas”. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. todas as “minorias ativas”. soropositivos e. por si próprios. O “matador frio”. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra.. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. pelo menos. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. “em demasia”. que todos aqueles que buscam articular sentidos. 103-104). tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. então. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. doentes de AIDS. em seu corpo como em seu espírito. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. o homem dinâmico. um piolho a ser eliminado. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. 1835. os que não se assemelham aos indivíduos que. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos.. para SADE. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. possam se tornar objeto de ódio ou. guerreiro e sedutor. Compreende-se. De um lado estão os vencedores. p. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. se evitam a si próprios. 55 . “fazer correr sangue”. AULAIGNER. todos os “marginais”. ENRIQUEZ). Como dizia um chefe de empresa. reedição de 1961. ainda mais. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. como escreve P.

Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. 1988). aos outros. se sinta culpável. ir além de seus limites. mas pela vergonha. Da mesma forma. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. sem dúvida. Mas. L. pode ser perpetrado. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. a luta. vemos proliferar. seja ele qual for. um estudo sobre a sociedade japonesa. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. simplesmente. Essa distinção é. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). da inveja e do amor. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Tudo está no ato e em sua visibilidade. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. Assim. Se um ato corajoso – ou. a honra e o dinheiro serão seus sem que. da agressividade. No entanto. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. portanto. Ora. fracassar. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. voar em asa delta etc. no interior de si. por isso. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. Ela supõe. Essa última seria uma cultura da vergonha. em condições normais. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. mas o toca em seu ser social. 56 . Uma civilização da vergonha é completamente diferente. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. as práticas que permitem ganhar. em O crisântemo e a espada (1946). Todo ato repreensível. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. em sua aparência. a vergonha se abate sobre o autor da ação. é preciso que seja conhecido por todos. Se não for descoberto. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). SERVAN-SCHREIBER.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. utilizando-se produtos proibidos. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”.). Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. Se ele for conhecido. escalar um paredão com as mãos nuas. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. além do reconhecimento dessa luta. Basta que não seja descoberto. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. infeliz de quem trapacear.

que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . nas sombras. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. necessariamente. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. atos dos mais contrários à moral comum.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. necessários à vida humana. que o jogo está feito. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. privilegiando a aparência. podem ser criados sem que daí decorra. contra a pobreza etc. sem culpabilidade. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. (c) que os ideais fortes. as notas frias. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. Com efeito. Porém. Não se deveria pensar. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. a lavagem dos narco-dólares. lendo as reflexões precedentes. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. quando não é possível falar-se a si mesmo. contra o racismo. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. o fanatismo. com um único passe de mágica. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). apesar de suas imperfeições – normais. postos de lado. o corpo se encarrega de fazê-lo. já começa a ser profundamente criticado. pelo jogo de aparências. são suspeitos. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. felizmente -. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. nascem a cada dia sob nossos olhos e. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz.

assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. tal como tentei delineá-la. começam a se fazer perguntas. Eles não se dão conta. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. aceitando as regras do novo jogo. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. de indústrias. poderão. Entretanto. não desapareceu e não está 58 . por isso. sem dúvida. a droga. veladamente. necessariamente. de espaços. Esses sujeitos. Sem dúvida. Sendo assim. pela alegria. a delinqüência. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. Mais ainda. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. ser tratadas “na interioridade”. assim como pela capacidade de sublimação.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes.). mesmo se a interioridade. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. governa seus discursos e seus atos. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. Na realidade. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. as perguntas. Esses “excluídos”. os ferroviários. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. encontram-se na mesma situação todos os que. de crédito. na doença da idealidade. deverão se precaver. eles ainda as fazem “na exterioridade”. pelo sofrimento. de afirmação ou de identificação. esses “esquecidos” da sociedade. entretanto. com sua carga enigmática. trabalhadores incapazes de se readaptar. Nesse momento. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. evitando o Charybde da exterioridade. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. os animadores socioculturais etc. busca de identidade.

involuntariamente. p. Paris: Seuil. da T. é uma consciência cultural individualista. 38-53. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. 1987. GOETHE. 1976. p. as autobiografias. da salvação e da justificação da vida pura. assim. Segundo o Larousse. é. Paris: Aubier. 89-112. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. Individualisme apolitique. com a formação. 4 Como um cadáver (em latim no original).). 59 . 34. Quanto a KLEIST. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. o gosto pelo mórbido. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. e TOROK. L’écorce et le noyau. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. então. do culto do inconsciente e dos instintos. 135. 163.). é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. Inácio de Loyola. 5 FREUD. N. o mundo político. XVIII. 61-76. 3 Cf. assim. Le Verbier de l’homme aux loups. Entre la marionnette et Dieu. na qual o mundo objetivo. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. tão diversos quanto GOETHE. NOVALIS. é a absorção em si ou introspeção. p. p. p. (N. N. v. com o aprofundamento do eu puro ou. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. a Bildung do homem alemão. em termos religiosos. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. M. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. 2 Grandes escritores alemães. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. espírito racional e humanista por excelência. Eugène. pela emoção. E. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. “expressão pela qual Sto. em suas constituições. Considérations d’un apolitique. (N. ABRAHAM. da poetização do universo. por Sonia Roedel. 1989-2. Cf. ENRIQUEZ. o homem dos Hinos à noite. 1976. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. seu oposto. 1976. é a inquietação com o cuidado. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade.Topique. ENRIQUEZ. In: Sur l’individu. S. o romantismo. Referências ABRAHAM. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). citado por L. como diz Lutero. os “diários de bordo”. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. com suas difusões amplas). 1962. 37. Paris: Aubier. Topique. sobre KLEIST: E. DUMONT.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. 1985. da T. Rio de Janeiro: Imago. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX.

“Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. In: Sur l’Individu. R. Topique. L’identité. Les visiteurs du moi. 60 . 1987. J. FREUD. 1985. Paris: Seuil. Trad. ENRIQUEZ. WINNICOT. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Paris: Gallimard/Seuil. Paris: Ed. W. 1985. L. GREEN. C. p. Paris: Gallimard. A. A. BENEDICT. Paris: Payot. Paris: Payot. 1984. P. Barthes par lui-même. ps. narcissisme de mort. 1986. Paris: Les Belles Lettres. franc. Le sabre et le chrysanthème. R. Trad. M. 1961. 34: 89112. retomado em Nevroses and character types. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. 1982.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. “L’Individu dans la cité”. R. VERNANT. reedição. Narcissisme de vie. “Individualisme apolitique”. S. de. FOUCAULT. BARTHES. Paris: Seuil. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. Le retour du courage. 1946. 311-321. 1983. P. Picquier. Aux carrefours de la haine. 1982. E. Hogarth Press. Biblio-Essais. SEGALEN. 11. MIJOLLA. Paris: Grasset. Psychoanalitic quaterly. 1987. 1987. Tomo I. L. In: LEVI-STRAUSS. BARTHES. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. M. GREEN. 1942. 1984. 25. EPI. Topique. ENRIQUEZ. DEUSTCH. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. 1980. SERVAN-SCHREIBER. D. 309-330. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. 1962. nova. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. Paris: Seuil. p. In: Sur l’individu. DUMONT. 1981. 1965. Notes sur l’exotisme (1908). Paris: Gallimard. “Condamné à investir”. E. de Minuit. Trad. n. ENRIQUEZ. H. 1970. 1975. R. A. In: Essais de Psychanalyse. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. La chambre claire. J. V. 20-37. 37.

sem dúvida. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. O que parece. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. neste texto. mas não se está à altura de compreender. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). pois pode-se. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. então. Vamos um pouco adiante. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. Todos sabem e reconhecem isso. em um imaginário social comum. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. São mais raras. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . no entanto. Tal sistema de valores. Ora. Um projeto comum significa. de início. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. no entanto. esse problema é capital. para existir. à primeira vista. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. as análises dos grupos em estado nascente.

A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. Ora. ele se apresente sob um aspecto religioso. Da ilusão à crença. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. mas afetivamente sentidas. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). Para serem operantes. motor de nossa conduta.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . Não se trata unicamente de querer coletivamente. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. transforma-se logo em um sistema de crença. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. correndo esse risco intelectual e social. Todo grupo funciona à base da idealização. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. a nossos próprios olhos. sagrado. da ilusão e da crença.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. A ilusão deixa igualmente sua marca. num grau maior ou menor. consciente e inconscientemente. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. ele pode nos atrair. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. nos inspirar. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. é necessário que. inatacável: assim. Mas esse sentimento. com uma força particularmente viva. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. pois ela é o elemento que dá consistência. trata-se de sentir coletivamente. todo trabalho de interrogação sobre si. nela. vigor e “aura” excepcional. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. a passagem é rápida. aquilo que queremos vir a ser.

em certa medida. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça.O vínculo grupal (deve. E isso não acontece gratuitamente. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. A causa pode ser sublime ou irrisória. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. assimilando. Idealização. idealização. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. a revolução etc. Assim. grandiosa ou pueril.). é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. de maneira mais ou menos forte. Todo militante político pensa do mesmo jeito. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. pois. possa perder parte de suas ilusões. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. verdadeiramente. FREUD já pensava que a Psicanálise. suas práticas à da Psicanálise como um todo). Embora um grupo. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. abusivamente sem dúvida. para se desenvolver. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). 63 . Causa a defender. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. missão a cumprir. Todo membro de um grupo é. deveria ser defendida como uma causa. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. sobre a possibilidade de sua impotência. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. consequentemente. existente há muito tempo. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. o militante político arrisca. sua vida). esse não é o problema. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). bem à vontade. na formação de todo grupo.

para se reforçar. propagar-se como uma mancha de óleo e. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. Toda minoria tem. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. sem exceção. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. geralmente. mas direi que. mais modestamente. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). isto é. membros do grupo. sua luta não terá alma nem razão de ser. imperativamente. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. Para isso. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. um dia. nós o sabemos. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. pois. isso significa que ele se pensa. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. progressivamente. A maioria não tem jamais um grande propósito. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. Pouco importa. Do contrário. se tornar a dissidência de muitos. caso uma minoria.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. As idéias novas. acreditar que está com a razão. Eu serei menos afirmativo. queira triunfar. A maioria não tem jamais uma causa a defender. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. talvez mesmo. vocação majoritária: mas. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. de uma profissão ou de uma disciplina). têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. antes de tudo e contra tudo. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). Essas pessoas sabem que. triunfar. ela deve. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. algumas vezes de uma só3 . ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. ela deve primeiro. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. no caso de sucesso. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. antes de chegar a seus fins.

vista como pulsão agressiva). Assim fazendo. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. mas que um novo saber apareceu. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. maneiras inovadoras de ser. A Psicanálise. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. explicitando o implícito dos comportamentos. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. deram certo. A transgressão. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. novas maneiras de ser ou de se conduzir. Assim. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. visando à repetição. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. Toda instituição. pois se funda em instituições sólidas. desmistificando-o e desmitificando-o. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. tem por objetivo questionar o sistema vigente. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. A contestação. contra um exterior percebido como tão obscuro. por exemplo. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. 65 . que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. o grupo vai tentar destruir as instituições. ela é. Para que a vitória seja possível. visando não à contestação da ordem existente. mas pela luta. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. enquanto elemento da regulação social. ao contrário. no passado. mas à sua transgressão. com efeito. mas propõe novas idéias. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. Como essas representam a ordem paterna.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. Ela não visa a propor outra coisa. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. enfim. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. sob certos aspectos. E na maior parte das vezes ele o é.

mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. graças a esse imaginário comum e não a outro. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). amor ao grupo enquanto grupo. em outras palavras. Ódio ao exterior. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. tornar seus sonhos reais. ao menos. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. Se ele faz parte do grupo. a priori estranhos ou rivais entre si. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. aliás. FREUD. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. deve criar um acontecimento irreversível. Não há complô verdadeiro. todo grupo. porém sem sucesso. amor mútuo. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. não obstante. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. fazer-se aceito em sua 66 . Sem essa vontade de destruição. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. O reconhecimento do desejo Em um grupo. violência fundadora de um novo mundo.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. isto é. a não ser entre irmãos. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. irmãos uns dos outros. não ser rejeitado.

Assim. Aliás. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. não devem ser muito diferentes uns dos outros. nesse caso. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. Essa semelhança buscada. em maior ou menor grau. O único problema é a mais estrita identificação. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. eles devem se identificar uns aos outros. se não o desejasse. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –.O vínculo grupal diferença irredutível. quer. homogêneos. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. querendo formar uma comunidade. um corpo social completo. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). é o desejo de reconhecimento que predomina. Assim sendo. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. diferenciação A MASSA Num tal caso. em um grupo. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. eles se tornarão semelhantes. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. não teria podido fazer parte da conjuração. ser reconhecido como um de seus membros. em seu ser insubstituível. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. para que possam se amar. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. De todo jeito. igualmente. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . às quais cada um deverá se submeter. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. O grupo.

LEFORT). portador da “verdade” (!). despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. Que ele se guarde da desilusão. senão os mais perturbados. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão.A falta de diferenças provoca. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. à primeira vista. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. O grupo. igualmente. sem que se perceba. progressivamente.A semelhança pode. Assim como. Aliás. mas que. sentimento de um meio hostil. 4. de indivíduos os mais emocionais.5 2. coberto de certezas. 3. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). que será particularmente dura de suportar. a falta de inovação e. Ao contrário. influência. Estamos. por ser o mais forte e o mais belo. a partir de MARX. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. sem-fundo”. tomando as características de um corpo todo-poderoso. delação. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. com efeito.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. tomam um vigor particular. a degradação da reflexão e da inventividade. face a um grupo “sorvedouro.A compacidade do corpo formado vai. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. Ocorrerão comportamentos regressivos. abismo. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. de tipo defensivo: suspeita mútua. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. então. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. angústias de explosão. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. desenvolver condutas que. 68 . no grupo. não parecem defensivas. avança cego.

O vínculo grupal 5. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. ao contrário. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. Os membros do grupo são. tive a surpresa de 69 . A tolerância existe. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. de negociações rigorosas. (Assim. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. ao contrário. por acaso.Se. em seu interior. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. No limite. como frouxos ou traidores. O grupo se centrará em si mesmo. então. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. em um centro de jovens inadaptados. a administração. “níveis insuportáveis” (FREUD). em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. os educadores. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. de argumentações contraditórias. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. Se não se trata de questionar o projeto comum. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. então. No entanto. cada qual acreditando deter a verdade. Em tal caso. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. serão excluídos do grupo. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. como a cooperação idílica não existe mas. Todo mundo. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. em certos momentos. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir.

tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. enquanto professor. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. será tentado a achar um bode expiatório. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. mestre do pensamento e da ação). investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. “personalização do poder”. se torna um grupo edipiano. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. uma influência que vem do domínio das idéias. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. é freqüente. Em qualquer caso. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. nos países ocidentais. assim transformado. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. Nesse caso. Para não chegar a esse ponto. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. 70 . eu deveria ter ficado menos surpreso. ao contrário. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. repetição da palavra do mestre. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. É raro ouvir professores falarem de estudantes. Esse. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. por isso. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. Entretanto. Fenômenos regressivos do tipo submissão. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam.

querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. do mesmo modo que estão condenados à crença. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. O amor desemboca no ódio. a única digna de ser respeitada. o grupo minoritário que. transformado muitas vezes em processo de erotização. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. de todo modo. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. igualmente. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. os membros do grupo estão condenados ao amor. os grupos não podem se esquivar. Essas questões não podem ser elucidadas. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. 71 . Correlativamente. para afirmar a primazia de sua posição fálica. Ora. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. o grupo corre o risco do fracasso. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. o campo social. Se o grupo é bem sucedido. mas também os fracos. em maior ou menor grau. mas quem são os amados e os rejeitados. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. isto é. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. podem. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. inscrever seu sonho na realidade. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. tornar-se majoritário. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. pois um grupo minoritário. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional.O vínculo grupal Mas. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). se somos suficientemente amados. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. Com efeito. se consegue impor os seus ideais ou transformar. para existir. sendo bem sucedidos ou não. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. como já constatamos. Assim. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos.

particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. Se. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. 72 . psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. Muitos observadores se espantam. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. os marginais. isto é. É preciso. Ora. serão inventados segundo as necessidades e. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. além disso. no entanto. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. é o contrário que seria de espantar. De fato. por exemplo. o grupo fracassa. Com efeito. ele vai procurar as causas de seu fracasso. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. se ele não provoca impacto social. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. de outro lado. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. Ela representa uma tentação constante. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. para dizer que ele ainda subsiste. o organizador do grupo. em um processo de análise: 1. educadores. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. Com efeito. mas não é um resultado inelutável. isto é. mas outro que está ainda para ser encontrado. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. psiquiatras. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns.

A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. Aí também há muita ilusão. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. De fato. em certos casos. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. em muitas circunstâncias. e o disse muito bem. Ela pode levar à dissolução do grupo. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. de maneira recorrente. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. de crença e de ilusão. serão feitas análises superficiais. arriscar-se a ser amado. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. 2. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. FREUD disse isso. Outras vezes. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. às custas do mal que nutrem com gosto. Deveríamos. a tomada de consciência se produz. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. Além disso. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. em vez de favorecer o seu esclarecimento. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. É importante não nos esquecermos. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. assim.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. no entanto. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. há muito tempo atrás. Se. 73 . Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. o grupo levantará as mesmas questões durante anos.

n. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. em caso algum. C. uma solução. Cf. p. se dar conta de que tal tarefa é limitada. mas é preciso não querer ir muito longe. Segundo os termos de C. CASTORIADIS. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. 4. Um homme en trop.F. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. 631-637. Psychologie des minorités actives. Seuil. B. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. seus antagonismos. “Le lien groupal”. LEFORT. Tomo XXXVI. P. S. S. MOSCOVICI.U. por José Newton Garcia de Araújo. ao mesmo tempo. fui o único a me ocupar dela e.” (FREUD. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. 2 3 4 5 6 74 . por dez anos. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. J. Bulletin de Psychologie. Ma vie et la psychanalyse. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. Gallimard). Eugène. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Por dez anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. suas angústias e. “L’illusion mantenue”. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. no 360. PONTALIS. 1983. suas relações de poder.

mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. na verdade. tanto no Leste da Europa. se me detive a explicitar tal proposição. os acontecimentos que se produzem atualmente. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. de modo algum. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. Espero. Com efeito. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. Devo acrescentar. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. 75 .OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. 1983. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. 1985). mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. é porque me parece que essa tendência. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. em Grenoble. Entretanto. então. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. não deve. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. atualmente. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). convincente e inquietante.

sem totens. no renascimento do (ou. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). Pois bem. o papel que lhes estava destinado. No conjunto. se depurando. além de nos sentir para sempre em dívida. com relação a ele. às vezes com reticência. de maneira privilegiada. igualmente ENRIQUEZ. A César o que era de César. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. sem deuses ou sem Deus único). ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. A religião produz então o “ser-junto”. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. ela nos religa uns aos outros. o fanatismo religioso – isto é. sem lhe outorgar. pode-se dizer que.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. as grandes religiões monoteístas foram. a crença exacerbada em um mito. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. sustentadas por rituais 76 . no entanto. 1989). às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. necessariamente. elas não colocavam mais problemas particulares. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). sob pena de exclusão da comunidade. ou seja. seja como ser coletivo). a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. um ritual compartilhado que é preciso defender. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. isso não a obriga. a Deus o que era de Deus. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. A referência dura se exprime para mim. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. um dogma. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. Assim. Ao contrário. As crenças. ao longo do tempo.

do declínio de uma fé sincera e manifesta. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. ao “desencantamento do mundo”. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. profanas (MOSCOVICI). ENRIQUEZ). J. ARON. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). Todos os homens. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. laicas (E. passam a se desenvolver. a longo prazo. O episódio. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). não assistimos. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. aspirando assim. porque é 77 . além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). como desejava DURKHEIM. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. como medida de todas as coisas. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. STOETZEL). Algumas religiões. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. um estado psíquico onde o conflito não aparece. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. Entretanto. mas à criação de religiões substitutas. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. mas foram se laicizando. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. dos padres operários. na França. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. a qualquer preço. o Estado como aparelho separado. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). a longo prazo. É necessário precisar o significado que dou a esse termo.

na França. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. É. conscientemente ou não. após a morte de MARX. sob a IIIa República. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 .Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. então. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. depois. mais ou menos fortemente. não como uma ideologia (quer dizer. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. de ideologias totais (LYPSET. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. Quando falo de religiões substitutas. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). tal como a ideologia republicana. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. (mesmo se. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. 1963). um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. da ideologia de granito (LEFORT. de votos etc. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. de serviços. pois. de fato. os mestres. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). quer sejam os pais. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. por ENGELS e. A ideologia pode. 1976). isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. pois. a boa forma da obediência aos que detêm o saber.). apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada.

em maior ou menor grau. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. Uma religião. Mas é preciso observar que. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. vão se impor como lei. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. heréticos ou descrentes. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. como as religiões. conseguiu se desenvolver. a negar. jacente em todo ser humano. por seu caráter absolutista. 1979). provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. As ideologias que eu evoco são. que ela assegura sua identidade. por sua força de convicção. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. quando as religiões se enfraquecem. ideologias “compactas” que. indica que a seita. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. Ela então regula essa questão central da alteridade. que produzem uma cultura própria. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. Um grupo minoritário. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. constituindo-se. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. substituindo-os por outros que. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. que já mencionei. reunidos em comunidade. devem estabelecer com o Sagrado.O fanatismo religioso e político (colonização). estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). no cerne mesmo da sociedade. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. então. não pode estar na origem de nenhuma religião. É assim que ela pode formar uma cultura. na época moderna. a converter ou a destruir. sozinhos. projetando-o nos outros. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. representaram um papel menor na dinâmica social. pelo ferro e pelo fogo. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. como uma Igreja com seus templos. pelo sacrifício de seus mártires. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. antes mesmo que seja colocada. 79 .

já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. É verdade que os grandes místicos. apesar de tudo. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. “poetas”. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). ao contrário. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. como heróis (no sentido freudiano do termo). ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. desenvolveu uma política de conversão). Em outras palavras. 80 . enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. porque a morte santifica e promete o paraíso.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. de seu lado. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. (Entretanto. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. é porque os judeus. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. no “sentimento oceânico” (R. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito.

de novas características. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. tudo se vende”. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. 2. mas somente possível e previsível.O fanatismo religioso e político Concluindo. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. além disso. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. Entretanto. (Não existe. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. intensificação da produção não somente de objetos úteis. segundo o axioma de WALRAS). sem emblemas. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. PALMADE). Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. é conveniente fazer algumas observações. entretanto. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. São sociedades: a. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). 81 . a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. 1. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição.Elas se enriquecem. ser totalmente dissociados. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. Ora. as liberais e as “socialistas”. por conseguinte. na verdade. se certas condições são preenchidas. que são religiões da revelação. eles não podem. segundo a terminologia weberiana). Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. 1971). como a ideologia republicana. nossas sociedades ocidentais contemporâneas. o texto de J. ideologia sem porta-voz.

já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). realizáveis. de imortalidade. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. 1967). Restam apenas algumas fantasias de onipotência. LAPLANCHE. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. b. concebê-lo como um inimigo ideal. o trabalho perde seu significado. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. “mãe das cloacas e dos brejos. assim. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. sua legitimidade desaparece. 82 . O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. pensar e querer o apocalipse) e. 1967. c. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. Nesse momento. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. já havia observado isso). os valores são intercambiáveis ou desaparecem. para os homens e para as mulheres. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos.sociedades que. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. Sociedades sem pais e. se desembaraçar. (Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. enquanto criação e distribuição das riquezas. no fim das contas.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. da qual é necessário. por isso mesmo. seu valor se corrói.sociedades que. d. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. ao mesmo tempo. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. além do furor de não poder satisfazê-los. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. 1989). a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. Assim também.

do desaparecimento de referência a toda transcendência. da exclusão. de um proletário. da corrupção). em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. se sacrificar. só há salvação na paranóia partilhada. O que desejam os deserdados. no Ocidente. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. em particular. não oferecem mais interesse. da loucura. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. A religião reclamada é a religião absolutista. Daí se seguem três conseqüências. de um budista. (FREUD. da ausência de um fundamento. no limite. Mas as religiões. os irmãos e os adversários. os excluídos. Essa citação dispensa comentário. aquela que cria uma identidade coletiva. um projeto a sustentar. permanecer na certeza e. Eles querem se tornar um “Nós”. de um capitalista. uma causa a defender. os “desgarrados”. os esquecidos. formar uma cultura. Contra o mundo perverso. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. Se não somos nada além de um espartano. aquela que designa claramente os aliados. O indivíduo desaparece. da apatia. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. 1930) 83 . Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. da miséria. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica.

a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. pelo menos. o que é um alimento. liberado finalmente do mal. no entanto. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. o espanhol despreza o português”. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. ou seja. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. O desenvolvimento do fanatismo. além disso. para ela é uma impureza?”. 1984). as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. elas exigem a super-identificação à causa. anunciador de um mundo novo. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. ENRIQUEZ. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. da sedução ou da coerção). Não esqueçamos. livre do mal. para isso. a criar um mundo novo. o inglês fala tudo de ruim do escocês. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. É certo que. nos diversos países. O fanatismo visa. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. sua conversão. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. então. como seres a eliminar. uma imensa massa de homens.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. Quanto mais uma cultura quer se unificar. tais como as descrevi acima. o super-investimento no projeto. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte.

simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. O fanatismo religioso. Ou seja. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. no máximo. São Estados. o Irã). assim.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. resulta. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). é preciso lembrar que. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. por sua vez. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. sozinho. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. o sinal de seu enfraquecimento. um instrumento a serviço do fanatismo político. sem dúvida. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. É por essa razão que meu texto tem esse título. ainda. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. o Azerbadjão. para unificar os corações e os espíritos. a se tornar dominantes (por exemplo. É preciso. primeiro e antes de tudo. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. o essencial: a dimensão política. mas. E nós tocamos. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. na hora atual. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. Síria). para que o fanatismo se fortaleça. O fanatismo religioso é. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. Retomemos esses dois pontos: 1. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. fundamentalista. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência.

a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. forçosamente.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. do qual eles não saberiam o que fazer. 2. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. certos grupos religiosos em Israel). na retomada das negociações na Nova-Caledônia. destruição cultural. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 .A religião não se apresenta. ela pode ter como papel: a. judia. Nesse caso. se ela se extingue. Loja P2. protestante. Países Bálticos. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. lepenistas. ela designará os vencedores e os vencidos. na regulação dos Estados modernos. Eglise de Scientologie). Se a aliança persiste. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). b. interdição de pensar (Polônia. que querem fazer valer sua palavra. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. na França. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. cristãs. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. Alemanha do Leste. Irlanda do Norte. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. c. Communione e Liberazione. muçulmana) na vida cotidiana da França. sob uma forma fanática. o convite a alguns líderes protestantes. das comunidades islâmicas. judias). em nossos dias. nos quais não existe senão um fraco consenso.redourar o brasão das religiões tradicionais.

Se essas são capazes de inventar novos projetos. de reflexão e de reflexividade. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. o Estado leigo faz apelo. desde o início dos tempos modernos. de precisar meu objetivo. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. nesse caso. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. para terminar. ao invés de processos de sublimação. a falta de sentido. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. laborioso. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. sem recorrer a referências seguras –.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. o caos e o abismo. Os homens aprenderiam. ao contrário. 87 .O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. cada vez mais freqüentemente. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. De fato. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. finalmente. mas que. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. 1. prontos a afrontar o absurdo. o religioso. com a ajuda de seu Deus –. ele tenta. nascida desse trabalho árduo. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. antes de tudo. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. Mas. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. não é o caso de superestimá-la. sem fim. Eu gostaria. suas dúvidas. paralisar a atividade de mentalização. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. como no exemplo de KHOMEINY).

ela lhes permite tomar iniciativas. do fato ideológico. no outro.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. na armadilha que denuncia. Os valores religiosos. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. efetivamente. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. Connexions. 3. n. 1990-1. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. Eu não quis dizer.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. 137-149. Por outro lado. T. antes de tudo. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. em nenhum momento. nos seus interlocutores e. Ora. a perversão ou a paranóia triunfam. Se. nos fenômenos sociais. (N. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. p. quando o religioso se põe a serviço do político. uma vez que elas são. se ele não faz esse trabalho. “Le fanatisme religieux et politique”. em si mesmo. 55. ideológicos e nacionais. Ela lhes é consubstancial. por Leila de Melo Franco S. do fato nacional. então a reflexão desaparece. quando a ideologia dura impede o livre pensar. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Eugène. Araújo. devem ser levados em consideração. tão fácil e prazerosamente. “A última tentação de Cristo”. Ela assume então o papel de desalienação. a ideologia. que a religião. tanto quanto outros tipos de valores. sob pena de cair. naturalmente.) 2 88 . na América do Sul).

MOSCOVICI. Y. CASTORIADIS. 1987. 1985. 1976. E.). LEFORT. 1973. DELEUZE. M. “Notations sur le racisme”. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Un homme en trop. S. S. PUF. . 1979. PUG. 1985. E. (org. LAPLANCHE.(1930) Malaise dans la civilisation. L’homme et la politique. “La défense et l’Interdit”.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 1984. P. G. janeiro. G. sobre o fanatismo hoje. ENRIQUEZ. n. Connexions. 89 . L’autonomie sociale. Editions de Minuit. KLOSSOWSKI. 54. 1971. ENRIQUEZ. C. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. “Malaises dans les identifications”. Psychologie des minorités atives. E. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. LYPSET. 48. J. FREUD. Eres. Connexions. In: Autonomie sociale. La monnaie vivante. 1989. In: La NEF. Epi. PUF. Seuil. n. Cl. 1967. Seuil. 1971. 1989. 1967. PUG. DEVEREUX. S. ENRIQUEZ. Au carrefour de la haine. ENRIQUEZ. Présentation de Sacher-Masoch. Épi. 1963.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR.2 Tais reflexões mostram. vividas pelos dirigentes. são exportados para todo o mundo (iates. como elas podem morrer.. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. como elas se desenvolvem. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. seus produtos. sobretudo. A escolha da região do Cholet. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. de outro lado. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet.CONJUNÇÃO. e o conservadorismo social e cultural da região. incessante. que 91 . COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. vestuário. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. individual e coletivo. em plena Vendée. alimentação. de um lado. por exemplo). assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. calçados etc. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. já havia sido notado por vários pesquisadores. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. uns nos outros. NA EMPRESA.

mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. convidados a falar a respeito. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. ainda que solicitadas por nós. Em outras palavras. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. Assim. a partir de suas lembranças. entretanto. o qual é vivido como o fundamento da empresa. a partir de sua criação. para si próprios.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. que tais entrevistas. num primeiro momento e. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. seu futuro. é. mas a empresa como objeto psicossocial. entretanto. de seus projetos. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. desde sua origem até o momento atual. com efeito. de suas dúvidas. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. Uma tal aventura. caso a caso (empresa a empresa). em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. segundo um método comparativo. diferenciações. à antigüidade. ao produto. pudemos pôr em evidência certas constantes. suas dificuldades. que são ao mesmo tempo seu principal tema. sobre aquilo que a empresa. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. Ou seja. era. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. isto é. Tendo analisado esses depoimentos. sua história. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. para nós. depois. como objeto no discurso dos dirigentes. 92 . evocava neles. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. ou ainda. clivagens. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. Não se trata.

podem ser resumidas da seguinte maneira: . a terra ou a região. com o território (nome das cidades. de um projeto pessoal e familiar. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. embora todas tenham dependido. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. locais e regionais. nota-se que. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. histórica e sociológica. aquilo que é ligado aos locais físicos. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. A terra Essa referência é onipresente. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável.Conjunção. de Bocage. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. argila. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e.o ofício ou o produto. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes.a família. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. conceitos verbais. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. na empresa. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. grão etc. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). sua cultura. de maneira mais abstrata. na origem. quer dizer.) que se trabalha ou. com a região (no caso. suas tradições e a 93 . Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. a regiões de Mauges. quer dizer. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. . de maneira mais extensa. . quer se exprima pela relação com o solo. também. geográficos. De maneira mais geral. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. Essas três entidades. com freqüência até mesmo joint families. Nesse último sentido. quer dizer. a partir do qual elas podem se desenvolver.a terra ou a região. quer dizer. ou ainda.

em caso de dificuldade. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). de empresas familiares. Desse ponto de vista. atividades e lucros organizam-se em torno dela. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). bem como uma fonte de riquezas. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. constituem então. “a terra”. tanto no imaginário quanto no real. Antes de ser um projeto pessoal. a empresa é um projeto de família. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. A família Tratando-se. não se pode fingir”. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. eis nosso jeito fazendeirão”. o lugar dessa é aí dominante. físicas e morais. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. um conjunto de obrigações e de restrições. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. simultaneamente. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. “não ficar falando abobrinhas. contribuindo para o renome da cidade ou da região. A “região”. vira tudo uma máfia”). as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. assim que ultrapassamos a fronteira. mas também no metafórico. nas relações e atitudes: assim. em nome de uma certa ética. 94 . mas também um sentimento de segurança. na maior parte dos casos. no sentido concreto.

seja pelos homens (os filhos). designada como “negócio de família”. então. Assim. na empresa. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. no início. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). quer dizer. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. por um lado. inclusive com empregados. A presença da família e de seu passado se traduz. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). e o capital e os salários. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. Compreende-se. onde empregados e patrões podem comer juntos. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. “sociedade de família”. é certo. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. de fato. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). 95 . como “a realização de seus antepassados”. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. de outro. de um projeto pessoal e familiar. “sociedade familiar” ou. SA. as relações de autoridade. de papéis e de procedimentos formais. num primeiro tempo. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. sendo também imagem das relações de parentesco. geralmente. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). Da mesma maneira. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. As estruturas e as relações de poder são. sendo um dos dois sexos. descartado.Conjunção. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). inclusive para outras aglomerações. entre os bens e os dividendos pessoais. fortemente personalizadas. mas também nos fatos reais. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. “empresa familiar”. Naturalmente. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. então. ainda. Como se pode notar. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. na sua origem.

transmitidos de geração em geração. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Apalpar essa matéria. casamentos. a maior parte das vezes. uma inspiração. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 .. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. com os acontecimentos familiares – mortes. seus vizinhos. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. freqüentemente. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. Nessas condições. os sindicatos independentes são mal tolerados. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. rupturas. A história da empresa é assim. Assim como para a referência à região. couro etc. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. um elemento de coesão e também uma limitação. O ofício. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. Está diretamente associado às mãos do artesão. o produto Em função de sua origem artesanal. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. –. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. uma fonte de problemas e de conflitos. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. da receita ou do jeitinho de fazer. lenços da região do Cholet.

constatou-se. encarnada na pessoa do fundador. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. não em negar. –. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. não são entidades independentes. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. para garantir as evoluções indispensáveis. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. ele supõe a adoção de atos concretos. transmitido de geração em geração. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. Esse processo não se realiza sem problemas. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. De fato. em desligar aquilo que estava ligado. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. profissionais. essas três bases – ou instituições primárias –. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. o ofício. trata-se de um conjunto extremamente coerente. Entretanto. na empresa. cujas partes. à terra. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. o marketing etc. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. que asseguram sua identidade e a base da empresa. para o dirigente. eles formam então como um bloco compacto. com efeito. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. de um projeto pessoal e familiar. estão imbricadas umas nas outras. vêse então que. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. sangue ou mãos). em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . Sua história. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. pelo menos em parte. Juntos. Consiste.Conjunção. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna.

quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. c. de estruturas de necessidades e de motivações. b. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. de produções.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. do herdado (ou do dado) ao adquirido. seu objetivo. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. consiste em passar de um sistema social a um outro. Esses três movimentos resumem. da proximidade ao distanciamento. O ponto de chegada de tal processo. isto é.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. PARSONS: do particular ao universal. 98 . isto é. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. Nos termos de T. da afetividade à separação. essencialmente. De maneira mais precisa. exigindo.a industrialização. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. ao longo de toda a história da empresa. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. principalmente. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. PARSONS. do pessoal ao impessoal. a transferência física da empresa para outros locais. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas.o deslocamento. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. de valores ou modos e redes relacionais. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. elaboração de uma organização e. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. investimentos em máquinas e em locais especializados. portanto. com efeito.

bem como uma administração capaz de a gerenciar. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. a partir de então. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. de acordo com regras precisas que excluem. de um projeto pessoal e familiar. sua principal razão de ser – ele deve. na empresa. freqüentemente.Conjunção. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. a entrada em cena de um contador. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las.. com efeito. bem como na composição do Conselho de Administração. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. ele não pode assumi-las todas e é. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. O envolvimento da família é. máximo. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. se 99 . regidas segundo técnicas e métodos importados. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. adquirir as competências ligadas à gestão –.. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. pode-se dizer (. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. ou ainda: “das famílias na sociedade. Enfim. obrigado a repartir o poder com outros. então. em contrapartida. que põe as contas em ordem.

Esses estão. freqüentemente. o que permite. –. a estrutura de pessoal (mais jovens. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. transformando as relações de poder e os modos de pensar. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. sócios etc. portanto. melhor formados) e a da clientela. mas. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. É. principalmente entre os (jovens) dirigentes. pela definição de papéis e critérios decisórios. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. mostra-se assim sempre indispensável. Esse processo não se realiza de uma só vez. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. ela se baseia em competências que eles adquiriram. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . podem se traduzir em dificuldades muito grandes. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. colocados numa situação extremamente conflitiva. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. podendo implicar até em falência. Eles são. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. pois. Progressivamente. com efeito. por conseguinte. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. como para qualquer chefe de empresa. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). pela instauração de regras explícitas e. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). geralmente fora da empresa. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração.

É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. E. ou mesmo para o estrangeiro. para si próprio como para o ambiente é. por exemplo. encontramos respostas extremamente diversas. Em todos os casos. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. outros modos de relação. Trata-se. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. mas permitindo a sobrevivência da empresa. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. preservar uma base local. além disso. bancos etc. como uma espécie de traição. Para essa questão. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. necessariamente. o solo no qual a empresa se situa. outras exigências. na empresa. isto é. manter uma qualidade de vida e de trabalho. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. outras aspirações. Se o deslocamento para outra região. é importante para reduzir.Conjunção. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. renunciando a uma expansão possível. portanto. permitindo administrar as contradições. Outros se orientam para soluções. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. 101 . considerado preferível a uma expansão sem significado. – e o questionamento de vínculos anteriores. Se. nesse caso. a empresa adotar uma estratégia de exportação. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. pois. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. uma tomada de distância em relação à terra natal. no entanto. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. de um projeto pessoal e familiar.

produtividade. uns sobre os outros. por exemplo). algumas das quais podendo se situar alhures. Quanto mais eles se ampliam. a rachar. evitando. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. SUA terra. são substituídas por relações secundárias. que supõem prazos e contatos (redes etc. As relações diretas. indiretas. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. face a face. as pessoas ou os hábitos de pensar. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . e de rupturas que essas provocam com o lugar. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. uns em relação aos outros. no entanto. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. mercados. ou ainda. mais eles se autonomizam. no entanto. Como conseqüência de decisões. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. ao mesmo tempo. Seria. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. portanto nitidamente diferenciados e interligados. que manifestam um crescimento sensível. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. mais ou menos importantes. por exemplo. admitindo divisões e separações. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. etc). é ele. SEU ofício que dá corpo a ele. Um tal processo pode ser.). margem de lucro. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. criar vínculos de dependência com eles. então. é pois. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. é SUA família. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. desenvolver uma rede de sub-contratantes. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. entretanto. com efeito. taxa de crescimento. situadas em regiões economicamente mais propícias. no sentido pleno do termo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. ou ainda. por regras ou por técnicas. Todas as empresas. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. emerge assim uma organização. assimilado a um trabalho de luto.

despregar-se. organisation sociale. André. ele deve sempre compor com o nível primário.Conjunção. de um projeto pessoal e familiar. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. collectif). uma tensão permanente.T. constitutivo do sujeito. que é o seu fundamento.(mimeogr. (N. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. de sua consistência. existindo para e por si mesma. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. no entanto. é impossível. 1991. por Júlio M. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. Se.). ficando na ilusão de sua existência. sua ancoragem biológica. de sua unidade. sua fonte energética. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. do clã. Região situada no oeste da França. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. Mourão. desprender-se inteiramente. 1990. Paris. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. na empresa. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. com o título Inconscient. Notas 1 Traduzido de: LÉVY.) 2 103 . Toulouse. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. de negar aquilo que é. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. sob pena de perder o contato com o real biológico. A instituição é um processo.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). sobretudo. pois. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. etnias. o triunfo da racionalidade experimental. mais eficazes e mais rápidos. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. de forma responsável. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. LÉVY. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). então. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. como o evidencia Nicolaï. grupos religiosos etc. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. Entretanto. um trabalho de tal monta é necessário e. No espaço até então ocupado por ela. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. os “intermináveis adolescentes” citados por A. a fim de que as sociedades possam. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. finalmente. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. Essas transformações devem. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. NICOLAÏ). as mudanças essenciais 107 . LÉVY e A. possível. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. aparentemente. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. NICOLAÏ. com o seu corolário. quais são os problemas realmente essenciais. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. verdadeiramente. Todavia. No momento atual. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.

realizando um genuíno trabalho psíquico. prováveis de ocorrerem na sociedade. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. dar atenção especial à conversação e ao debate. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Seguindo essa via. É importante ainda mencionar outra questão. Ela poderá. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. também. desde a sua criação. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. como têm sido feitas. na prática social. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). LÉVY: as verdadeiras mudanças. Ao contrário. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. No entanto. Esse processo é longo. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. interessar-se mais pelos movimentos sociais. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. LÉVY). não surgirão de tomadas de decisões formais. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. e não a nível global e em regiões centrais. o “retorno do ator”. portanto. Essa disciplina deverá. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. como o fez Touraine. ritualizadas. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. antes de mais nada. na relação e pela relação. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. suas instituições e seus diversos grupos sociais. Nesse sentido. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. com freqüência. pelas interações entre sujeitos. sujeito). igualmente. Será. na atual crise pela qual passa o Brasil. quando anunciaram. seja para a evolução social. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. Os sociólogos não se enganaram. 108 . capazes de contribuir. para tanto. levantada por A. seja para a sua involução. Mas.

em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . presente em muitos meios. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. ainda. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. e observando-se toda uma série de sinais. Se me decidi a escrever esse texto. nem sempre bem sucedido. com efeito. no modo de compreender as organizações e as instituições e. E isso se traduz em um interesse. malgrado as aparências. – tudo isso parece indicar. é porque me parece que. seríamos tentados a pensar que. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer.2 o envelhecimento. na acepção forte do termo. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. no início dos anos 60. forçosamente. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. da socioterapia e da Escola de Palo Alto.

elas tenham podido ser a referência principal. de viver de outra forma. Em outras palavras. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. que evidentemente não é exaustiva. Parece-me igualmente que. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. não apenas a inquietude e a interrogação. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. a análise organizacional.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. de ter prazer. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. 110 . ou. constituem. senão a única. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. elas têm em comum o fato de terem pretendido. Embora durante alguns anos. em um determinado momento. como todo fenômeno de moda. Entretanto. a análise transacional e. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. É certo que a maior parte delas não desapareceu. uma após outra. ENRIQUEZ. em seu conjunto. mas a vontade de inovar. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. enfim. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. o que tem como conseqüência que. em função do que lhes parece ser necessário. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. os métodos centrados na expressão corporal. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. primeiro. pode-se citar a análise institucional. por exemplo). desde o início dos anos 70. Mas importa. mais recentemente. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. para os atores engajados na ação.. Essa enumeração. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. uma após outra. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. retomando termos de E. para os atores sociais e para muitos práticos.. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis.

intenções que. ao mesmo tempo. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. 111 .).. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial.. Certamente. Em outras palavras. ROGERS (resolução de conflitos sociais. por não lhe deixar escolha. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. Dessa forma. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. auto-realização. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. na verdade. então.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. por exemplo. eles se comparam. É praticamente certo que a análise institucional. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. desse ponto de vista. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. pelo menos – desses métodos: a. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. efeitos espetaculares em uma instituição. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. LEWIN e C.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). incertos e custosos. fazendo assim. com vantagens. meios que ele controla. a outros métodos mais longos. com ambições mais limitadas e incertas. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade.

“enquadramentos”. Tal fascinação pelo que “funciona”. não garante nem assegura nada. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. então. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. condenado a ser rejeitado. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. Embora ocorram desvios. especialmente a necessidade de tempo. tudo isso é. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. 112 .5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. “sistemas” (por exemplo. o sistema de ação concreto de M. reduzido. mas também nas orientações cognitivas. Nessa perspectiva. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. e que.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. se possível.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. evidentemente. a um “ator” ou a um “agente”. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. então. aparecendo em utensílios. concomitantemente. dominada por relações mercadológicas e seus valores. há que se lembrar. automaticamente a problemas delimitados. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. Essa tendência já estava presente. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável.

Entretanto. O conceito de demanda social Com efeito. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. no registro econômico. então.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. toda história singular. nesse caso. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. ao contrário. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. está próxima à noção de encomenda. podem-se percorrer todos os graus. por isso mesmo. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. No que nos diz respeito. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). é eco de acontecimentos sociais. entre a demanda e a encomenda. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. no limite. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. uma grande parte de sua riqueza. mais ou menos explícitas. implicando um bem. reciprocamente. isto é. Assemelha-se. no sentido de ordenar ou encomendar. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. inscritos em uma história coletiva que. sem risco. Assim. assim como uma relação de troca. combinada então a pressões mais ou menos fortes. progressivamente. uma 113 . com efeito. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. assimilá-la a uma encomenda. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. tal distinção não nos parece desejável pois. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. Nesse sentido. uma demanda de objeto. a demanda é. endereçada a um outro. retira-lhe. especialmente. que podem. A demanda expressa. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. reciprocamente. um objeto. Se. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. Primeiramente. há quem quis diferenciar. a demandas por respostas e soluções. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. demanda de encomenda – LOURAU. necessariamente.

a demanda é facilmente interpretável. inclusive e sobretudo por quem a formula. é que. Se. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. seja em um quadro terapêutico. inversamente. a “demanda” só tem sentido e só existe. explicitada pelo objeto que designa. a questão da demanda – sua escuta. No limite. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos.. Ela se torna real por essa e nessa relação. na acepção própria do termo. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. na Psicossociologia. sua interpretação é sempre problemática. seja de reconhecimento ou de amor. uma certa relação de poder e de dominação. Por essa razão. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. Certamente. em demanda de outra coisa – conselho. objeto material etc. não é uma demanda de objeto. necessário indagar a respeito de seu significado. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. marido e mulher etc. solução. freqüentemente ou sempre. Entretanto. então. Nesse caso. trata-se de uma demanda de amor. no primeiro registro. Ele não é evidente. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. durante um processo de consulta ou de intervenção. em contrapartida. tudo isso não é específico da Psicossociologia. aí. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. mas a expressão de um desejo. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. É. de uma falta. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. pois o qualificativo “social” tende. o que lhe dá riqueza e complexidade. disfarçando-se. principalmente. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. a demanda é considerada não como individual. 114 . precisamente. pelo menos em um segundo plano. mas como social. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. dificilmente é formulada como tal. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. seu tratamento – é. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. no segundo. Enquanto é apelo ao outro. ajuda. sua interpretação.

Porém. testemunhado através de seus escritos. às quais é difícil resistir. que sua prática não é aplicação de uma 115 . Como conseqüência. por sua vez. reflexo interpretante.). compreendidas e interpretadas. nas quais elas podem ser avaliadas.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). é necessário que ele tenha se manifestado. não há nada em comum com a posição de simples espelho. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. atos e palavras. De um lado. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. mas também de permitir interpretá-las. podem ter efeitos nas situações que as originaram. mesmo que seja de maneira difusa. Assim. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. de outro. quis ou “demandou”.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. das quais resultam vivências compartilhadas que. a solicitou. de dependência ou de submissão. meios de resolver um conflito etc. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. Em outras palavras. as quais. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. eventualmente. manifestações agressivas ou angustiantes etc. mobilizadas. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. transformadas em atos. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. de uma maneira ou de outra. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. Ao contrário. exprimem-se sob formas coletivas (greves.

Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. afirmar que elas são. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. a noção de sistema é bastante útil. Tal representação exclui. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. Assim. uma concepção da sociedade e das relações humanas. individuais e coletivos. confessáveis e tratáveis. uma perspectiva – que. Esse ponto. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. principalmente. uma empresa. ao mesmo tempo. toda análise em termos de relações bipolares. não é possível. mas através de princípios regendo procedimentos. mas que traduzem um desejo. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. tudo isso expressa bem o que. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. DUBOST. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. entretanto. consequentemente.. um grupo. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro.6 como oportunamente evocado por J. desde LEWIN. uma classe de atores etc. da mesma forma. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. no espaço desse artigo. interagindo entre eles. parece-nos ser uma ética. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . enigma. com a condição. ao contrário. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. na falta de outro termo. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. uma ética. Trata-se. independentemente das outras com as quais ela se articula. Desse ponto de vista. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. Evidentemente. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa).Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. um serviço administrativo. Entretanto.

conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. igualmente.7 Porém. Em suma. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). A introdução. trata-se de tentar definir. o interventor-pesquisador contra o risco de.Por outro lado.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. por K. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. então. em uma relação de colaboração. em especial. J. antecipadamente. desde o início da ação de intervenção. LEWIN. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. dessa forma. identificar os dados. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. instrumental. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. Desse ponto de vista. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. por exemplo –. 3. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. Sem dúvida. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. em especial. Evidentemente. 2. é importante que todo ator e. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. a fortiori. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. ao mesmo tempo. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. sem o perceber. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. aplica-se também à Psicanálise. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. Assim. e sendo breve.

essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. então. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. reafirmar essa posição e manter-se nela. é impossível. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. É indispensável. Igualmente. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. embora não suficiente. assim como observar. algumas tendências atuais. “saber como se foi apreendido”. de qualquer jeito. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. em seguida. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. questionar. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. FAVRET-SAADA. brevemente. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. 118 . mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. tentando identificar. consideráveis nas últimas décadas. então. parafraseando J. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. da sociedade e das ciências do homem. FAVRET-SAADA. elas expressam antes uma perspectiva. Embora seu enunciado seja necessário. nos termos de J. Da mesma forma. uma orientação. investigar. Entretanto.

Mostram. hoje. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. etnometodologia. há alguns anos. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. a problemas de mudança social.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. cada vez mais evidentes. de análise de grupo. dominados principalmente.10 Mais recentemente. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. análise conversacional. de ordem geral. Assim. não é mais aceitável. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. no início do texto. Finalmente. Por outro lado. desde os anos 60. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. certas correntes de Sociologia Clínica. por perspectivas lewinianas. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. até então. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. convergências. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. com uma perspectiva bem global.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. rogerianas e morenianas. é impossível. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. dedicaram-se. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. assim. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. de uma forma diferente. impõe-se: qualquer que seja o domínio. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. Em todo caso. talvez rapidamente demais.

Paris: Seuil. Minuit. Entre le cristal et la fumée. 43. Tese de Doutorado. 1987. 1973. DUBOST. L’Harmattan. Changements. L’intervention institutionnelle. e BAREL. DUBOST. In: ARDOINO et al. sindicalistas. 1979. nos anos 60 e 70. C. Em especial. 1983. J. 1980. G. O problema da mudança individual. 42. 53. les sorts. 11 TOURAINE. Dunod. 2 4 5 WATZLAWICK et al. e CAMUS-MALAVERGNE. 1987. E. 1984. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. A.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. 1972. J. R. Dunod. PUG. Connexions. 1989. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. 7 Cf.. JAQUES. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. 1978. Payot. e de representações específicas de objeto. Seuil. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. 10 120 . Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. 3 ENRIQUEZ. 1965. 1985. 1975. DUBOST. Paris: Seuil. por vezes fundamentais. 1979. PUF. L’intervention psychosociologique. 9-18. La société du vide. J.N. PUF. Connexions. “Connexions”. GOFFMAN. TROGNON. H. CHABROL. 7. In: Du discours à l’action. Seuil. Como exemplos: BARUS. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. L’observation de l’homme. 2:87. R. 12 BORZEIX. Connexions. Intervention et changement dans l’entreprise. L. trabalhadores sociais. Façons de parler. “Eloge de la psychosociologie”. Le sujet social. muitos outros atores apareceram: formadores. Dunod. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Les mots. ATLAN. e LÉVY. Gallimard. BEAUVOIS. J. p. 17. D. E. arquitetos etc. LÉVY. La parole intermédiaire. Le groupe et l’inconscient. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. A. “L’analyse sociale”. J. Recherches sur les petits groupes. BION. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. “Coopération et analyse des conversations”. paradoxes et psychothérapies. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. W. Por exemplo: ANZIEU. Y. 1987. 1990. 1981. O. André. RAPOPORT. Paris X. A. 1984. La voix et le regard. Sociologie du Travail. 1977. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. responsáveis políticos locais. e JOULE. Situations de groupe et relations langagières. A. J. FLAHAULT. E. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. “Ce que parler peut faire”. A. la mort. LECLERC. 1987. 1978. Seuil.

mais do que como fenômeno excepcional. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. Entretanto. em contrapartida.4 Essas evoluções. tendência. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. o segundo 121 . da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. depois de LEWIN. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. certamente.3 sobretudo nas Ciências Humanas.2 Mas. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. de forma mais ou menos clara. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. no campo que nos interessa. retorno a uma problemática do indeterminismo. em nenhuma das duas. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. também. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje.

mas que ela poderia se realizar. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. parece-nos possível. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. compreendê-la como tal. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. ele permite. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. com efeito. como demonstramos num texto anterior). participando delas diretamente. isto é. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. com efeito. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. necessitando ser aprofundada. do interior e não de um ponto de vista exterior. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. Nesse terreno. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. K. prever. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. iria reificá-lo.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. necessariamente. Antes. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. 122 . por definição. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. aqui. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. hoje. de súbito. recristalização). dirigir ou combater. definitivamente. para as constatar. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. muito fecundo. por isso. LEWIN. no grupo (na relação e pela relação.5 Além disso. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. aquém ou além. de uma leitura psicológica.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. porém algumas observações prévias: a. deslocamento. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente.

Com efeito. Com efeito.). freqüentemente não isentos de violência. ela é um acontecimento subjetivo. A mudança é um trabalho do espírito.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança.. como ruptura. o desenrolar de uma existência. “exceto do corpo que se usa”.8 Com efeito. é o espírito que. Como já dissemos.. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. O termo mudança poderia. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. que queremos nos centrar aqui. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. Toda vida é “repetição de ciclos”.9 a mudança. não se reduz a esse processo evolutivo. a mudança é um acontecimento psíquico. tecnológico –. que é a morte) – reprodução das espécies.. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. redirecionamentos. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. reorientações bruscas.)..) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (... escrevia Paul VALÉRY. é sobre essa segunda significação de mudança. nem todo processo discursivo se identifica. lento e ininterrupto. (. designar tudo o que está vivo. econômico. como observou Paul VALÉRY. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. tal definição é geral demais para ser útil.. à aventura. é acontecer. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . desse ponto de vista. No entanto. pois. reprodução das instituições. físico.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. é se abrir a uma história. Ele se traduz. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.. ao risco (. assim. A teoria dos sistemas distingue. legitimamente. mutações. reprodução das idéias. também.. seja a de um indivíduo ou de um grupo. a um processo de mudança. porém. entretanto. eles não podem ser previamente enunciados.. Antes de ser um acontecimento objetivo. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.

Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. ao contrário. ao contrário. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. depois de LEWIN. As condições materiais. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. Ou. por um trabalho do espírito. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. das instituições. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. ele o é apenas se fizer sentido. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. dos modos de pensamento. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. A decisão: momento. Fazemos. ao nível de suas significações. um trabalho de pensamento. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. representações ou intenções e os que estimam. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. isto é. em todos os níveis. se o ato é fundador. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. Por exemplo. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. por excelência. a liberdade”. antes de tudo. ainda. 124 . é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. Para entender bem essa proposição. objetivas. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. então. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. o lugar da mudança. os psicossociólogos. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente.

o tempo. do feminino. em um trabalho anterior. Por isso. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. da ordem do real-concreto-sensível. a divisão. LEWIN. em suas opções e em seus desejos fundamentais.12 A decisão seria. em sua época.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. da duração (bergsoniana). o “golpe de força” na origem de toda organização social. necessariamente. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. 125 . esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. só pode ocultá-lo. renunciando. por si. “operando uma disjunção violenta. Os processos de decisão analisados por LEWIN. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. por exemplo). a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. da continuidade sem hiatos. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. Somente a decisão pode fundá-lo”. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. então. por si própria. uma situação nova e envolve inteiramente. para chegar ao processo secundário e criar o real. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. inicialmente. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. um salto para o desconhecido. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades.13 acentuamos o ato arbitrário. o psicanalista W. a organização social. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). ao mesmo tempo. com o risco de sua própria desagregação”.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias).

econômicas ou sociais. ao mesmo tempo. Se o sujeito que 126 . um ato de palavra. nem que a palavra seja onipotente. retomado ou reinterpretado. a decisão é. quer sejam. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. simplesmente. pois. não muda nada. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. modificações na realidade. Mas.” é um ato “ilocucionário explícito”. assim. Mas. por seu conteúdo informativo e prescritivo. O sujeito de tal enunciado. em si mesmo. não pode significar uma mudança. Um ato. evidentemente. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. é o mesmo sujeito da enunciação. explicitamente designado. pois ele pode sempre ser desmentido.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. Toda decisão é. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. como que por mágica. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. apenas por seu enunciado. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. qualquer que ela seja.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo.. que uma decisão necessariamente modifica. mas porque é um ato público. assim. isso significa que uma escolha. manifestação da vontade de produzir. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. de forma mais importante ainda. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. simplesmente.. Isso não significa. tomados como testemunhas. as situações institucionais.

Nesse sentido. inelutável. não se reduzindo. vazios de sentido e sem conseqüências. talvez mais do que em qualquer outro momento. Aqui. interpretação e prática de análise social No entanto. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. a respeito do herói. do imaginário. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. rituais ou emblemáticos. para fundar o real. conscientes ou inconscientes. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. o jogo de hipóteses. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. eles próprios. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. Decisão. os desafia.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. efetivamente. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. como muitas vezes ocorre. como diante da morte –. sob a má fé dos argumentos. para um processo de mudança. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. e de abandonar o terreno do possível. igualmente. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. sem apreender o real? 127 . esconde mal. formal e. Então. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. a uma atividade lúdica ou de encantamento. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. entre as possibilidades. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. bem antes do livro sobre Moisés. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível.

Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. ela é necessariamente parcial e partidária. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. FAYE15 as analisou. certamente. Mas ele pode. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. certamente. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. para fazer a história. Assim. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. como toda decisão. feita pelos psicossociólogos. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. possuem as características do relato histórico. igualmente. incontestavelmente. P. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. ainda que não tenham conhecimento disso. O trabalho sobre as resistências. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. escapar dessa eventualidade. Esses sistemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. mas. tais como J. com efeito. como observa FAYE. Seria importante. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. Certamente. termo que. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. senão impossível. implica um risco e um custo. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. sendo difícil. 128 . ao mesmo tempo. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through).

pois. contribui para reforçar seu caráter dogmático. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. em um processo de reificação de enunciados fechados. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. “nascendo. que eles constituem visões diferentes. não podendo ser traduzidos em decisões. visto que essas. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. ao contrário.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. práticas contestadas ou abordadas. longe de se fundamentarem no “real”. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. atuem diretamente no real. essas diferentes visões e o que elas ocultam. no inconsciente dos sujeitos. das condutas às quais elas se referem. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. que preserva o analista social da decisão. bem claramente. assim. mas sua coerência. muitas vezes. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. do risco de uma interpretação verdadeira.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. cada um. uma parte da verdade comum. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. ideológico. mas complementares. então. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . subtraído do tempo”.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. mais ainda. diz-nos LEGENDRE. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. contentando-se em esclarecê-los e. de uma mesma “realidade”. sobretudo. o texto. É aqui que uma concepção por demais rígida. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. mas tende a afastá-las. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. justificando.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). o que não é o caso dos elementos físicos. autogeração etc. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções.Inicialmente. são simultaneamente (cf. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. a partir do século XIX. isto é. isto é. autopoieses. mas abertos ao seu meio ambiente e. como crises momentâneas de coerência. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . Eles se referem a sistemas autônomos. então. face a “ruídos” provenientes do exterior. os novos conceitos e hipóteses. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). colocam outros problemas. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. cujos elementos. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. químicos ou biológicos. oriundos de outras áreas. Nesses períodos. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). Assim. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. as crises econômicas foram. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo.Rupturas. ou seja.Os conceitos de auto-organização. inicialmente. por isso. constituindo-se. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. os atores. pois. autocriação. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. capazes de se auto-regularem. em 1950. literalmente. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. supra) agidos. 2. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. atores e autores do seu sistema. não restavam mais que 10 000). mutações e complexificação em economia tais quais formulados. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. em 1900. *** Quais são.

amplia a margem de manobra dos inovadores que. segundo CROZIER) e. encontramos poucas reflexões (na França. mas isso deixa de lado os fatores 136 . costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. sob o protecionismo de MÉLINE. o compromisso fordista empresários-assalariados. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. na França. por conseguinte. em especial. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos).. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. Sua presença é vista como consolidada.2 por exemplo). É certo que essa escolha é aleatória. sob a égide do Estado. No entanto. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. logo não previsível. de inovadores potenciais. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”.P. Nesse ínterim. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. entre os economistas. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). de um lado. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. nesse momento. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. na sociedade ou numa área econômica dada. Mas. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. Essas crises-ruptura.I. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. de outro lado. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e.

a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. Há outro problema não estudado. Em épocas de crises-ruptura. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina.000 sociedades. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Mesmo se essas teorizações existissem. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. CASTORIADIS). tornando possível viver em perspectiva (C. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes.I. ao nível dos detalhes. a difusão ou não – de suas inovações. nesse quadro. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. Mas ainda continua faltando. assim como aos fatores culturais. da predestinação do mais forte. 137 . mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. entre a mão invisível e o punho de ferro. ou seja. por conseguinte. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. nessas mutações estruturais.Rupturas.. em cinqüenta anos.P. da designação. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. inerente ao sistema. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. ele se torna o ordálio. uma teoria do fracasso. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e.

antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura.). que o Centro se desloca. homogeneização da linguagem. a família e a escola). . integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. GROU. após a solução eventual da ruptura. podemos constatar: . Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . poderes oligopolíticos em escala internacional. BOYER. por exemplo): concorrência. ao mesmo tempo. 138 . mesmo que saibamos. devido à extensão atual do mercado e.I. à extensão do capitalismo (os N. ENRIQUEZ): nacionalismos. desde BRAUDEL. polimorfismo das intervenções do Estado.enfim.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. o lúdico. Ela se define (P. . Mas. às vezes. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.aumento do número dos agentes aí implicados.outras referências.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. .fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). integrismos. da cultura.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E.). por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. embora ainda não totalmente. 3. o sagrado e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim.P. . por exemplo). despolitização.fenômenos de regressão a formas mais simples. após dessacralização. des-sindicalização e mesmo des-identificações. . 3 . diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. .

a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. mecânicos. Do mesmo modo. das conexões) e do “salto qualitativo”.Rupturas. 139 . D. devem inicialmente ser especificadas. para cada grupo de agentes. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. quando da sua transgressão e. por outro. pois. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). regras ou convenções para lhe dar suporte. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc.). mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. além das imposições do mercado e dos demais poderes. as sociedades animais). *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. introduzir normas. Contrariamente. químicos. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. REYNAUD). por um lado. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores).Nos sistemas sociais. para poderem inovar. por outro lado. Ela supõe. E esses. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. o leque dos comportamentos não é. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. informáticos. como afirma o individualismo antropológico. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. completamente fechado. É preciso. por seu lado. Essa adesão. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. por um lado. 1. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. biológicos e mesmo etnológicos. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). uma interiorização das normas e uma culpabilização. para serem fecundas. tão caro aos marxistas de outrora.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J.

140 . da sedentarização ao nomandismo). 3. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. a modificação do tipo de conjuntura. em seguida. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. então. pelos golpes das OPA. de se expandir e. acumulação. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. dos fatos de regressão (por exemplo. mais nitidamente. os outsiders e os parvenus substituem. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. por fim.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. por exemplo). cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses.5 o pessoal patronal). Existe então. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores.Quando há ruptura. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. No total. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. seria preciso distinguir. de sua unicidade histórica. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. no segundo. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. enquanto que. 2. em período de crise. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. sem esquecermos ainda as marginalizações. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. O imaginário da destruição pode. No primeiro caso. inovações. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. Por outro lado – apesar de KEYNES –. por isso mesmo. devendo encontrar. as ocasiões de experimentar.

portanto. n. normas. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 3. Cf. por conseguinte. a aquisição de conhecimentos e de representações. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. 2.T. por exemplo. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). 55. 1990. a adesão às normas e.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). representações. 141 . n. uma mutação estrutural.). “Malaise dans l’identification”. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. tal como: 1. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. A continuação do funcionamento implica. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. Paris: ERES.Rupturas. Revue Économique. março 1989.Mas a adaptabilidade do sistema. “esgotamento da relação salarial fordista”). V. por Teresa Cristina Carreteiro. Connexions. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. 2. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. mutations et complexification en économie (mimeogr. André.T. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social.As estruturas (as relações de complementaridade e. Ruptures. por conseguinte.). um esquema ideal típico. Cf.). “L’économie des conventions”. 40. N. para experimentar as inovações. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. então. então.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

precedeu uma crise econômica. não se trata mais de crises (isto é. porém robusta.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. BRANDT. jogando.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). No Ocidente. de algum modo. por exemplo. talvez anuncie o fim delas. de incertezas). a introdução de novas referências. Assim. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. E. por sua vez. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. MITTERAND. reorganização das personalidades e reciclagem da ação.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. e os transforma em autores das mudanças. 2.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. (Hobbes) Tempo é criança brincando. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. Atualmente. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. 143 . precedeu uma crise política. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. “desfusão das pulsões”. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. Do mesmo modo. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. no 52) A crise das identificações. a qual. de criança o reinado. criam. MARADONA. Fragmentos. (Heráclito. ROCCARD. Pois essas “perturbações”. 3. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. então. condições de “saída da crise”: l. TAPIE e outros). João Paulo II. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. quando não destroem a sociedade em questão. 4.Ela mobiliza atores em potencial. nos anos 60. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há.

tentativas de reconstrução. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. de assimilação e de inovação. a tipos de personalidade diferentes. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. a grupos étnicos. por outro. reativados ou mesmo imaginados). assimilam e transformam. O “mal-estar na identificação” traduz. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. localizadas e transitórias. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade.No final de contas. desses imaginários de projeto.Ela libera. diz FREUD. O resultado é que. as “intermináveis adolescências” que. de modos diferentes. ao mesmo tempo. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. com todas as posições intermediárias possíveis. por um lado. levados pela incerteza das situações e do futuro. para todos. a categorias socioprofissionais e. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. angústias de identidade. não apenas a realidade parece incerta. ao contrário. o individualismo ilusório ou de oportunismo. assim. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . pode-se reciclar também a identidade. é claro. 6.

Assim.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. é paralela à involução identificatória de seus membros. a. organizacionais etc. em vista da emancipação para o societário e a individuação. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. nos dois sentidos do termo. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. finalmente. nacionais. da igreja. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. as reativações religiosas atuais no Irã. c.3 A família. b. regionais.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. Fenômeno que ilustra 145 . do racismo. de classe. A identificação que não se desvencilha do partido. solidéus – kipas – hebraicos. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. é claro. religiosas.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. da empresa etc.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. gorros cristãos etc. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. a regra e as sublimações. Por exemplo. e a aparência NAP) pelo simbólico. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. profissionais. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir).

especialmente na França. ipso facto. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. fortalece as exigências da necessidade econômica. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. E isso. justamente porque mais na moda.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal).Mais interessantes. além disso. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. o narcisismo individual. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. Ela é. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. com o dinheiro.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. entre 1983 e 1988. às avessas. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. b. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. exatamente como Deus. primeiramente. a. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. “tem necessidade dos homens”. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais.Do primeiro diremos pouca coisa. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. é. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. sendo aliás esse que permite aquele. principalmente. O retorno pode ir ainda mais longe. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. Quer dizer que o narcísico. por sua vez. isto é.

Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. notemos que o modelo do sucesso individual. de junho de 68. Isso é talvez patológico. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. se ela for realizada.) permite. A monetarização. talvez. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. é mais simples escolher a binaridade. em substituição ao “Mudar de vida”). Além disso. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. “Criem sua própria empresa”. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. Assim. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. o prestígio etc. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. Enfim. essa acumulação pecuniária permite. simultaneamente. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. o mercado. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. caso se propagasse a todos os agentes. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. numa androgeneidade fecunda. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. mais tranqüilizadora. O dinheiro. Por enquanto. manter ou criar os meios de aumentá-la. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). se autodestruiria.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. Na verdade. induz não ao 147 . as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. em prêmio de Schadenfreude. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. o sucesso dos outsiders permite também e. o festivo. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. Entre a binaridade e a injunção contraditória. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder.

a nítida binaridade do mercado. Intermináveis adolescências.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. na época atual. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. No caso de fraqueza delas. necessariamente. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. passa-se rapidamente. em contrapartida. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. cada um será. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. entretanto. ao insolúvel. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. um cavaleiro solitário. a partir de elementos de vestuário comuns. adolescência e pós-adolescência -. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. logo. Acrescentaremos apenas algumas observações. (T. a programação dos computadores das Bolsas) que.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. esse narcisismo manipulador. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. daí resulta. a individualização extrema dos novos modelos. 1. nas três etapas – puberdade.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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“surpresas”. Assim. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. Além disso. entretanto. pois. mesmo que sejam minúsculas. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. Pode-se. por exemplo. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. produzem-se onde não se espera e constituem. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. pois. Nesse caso. Com a condição. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. uma vez instaladas. inclusive jovens executivos12. antigamente atrasadas. pelo menos em muitos jovens. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. não podem ser reorganizadas e reorientadas. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. em certas regiões. por historiadores como BRAUDEL ou I. como. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. no que tange à história do capitalismo. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. conjugada com a manutenção dos objetivos. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. fora do controle exercido pelo Centro. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. Além disso. 154 . É por isso que as revoluções.

Assim.. ainda mais. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. podemos contrapor.. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros.. dos prazeres. diz WININICOTT). substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. numa situação de mal-estar. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. dos valores. MC DOUGALL).Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. Mas. do espaço. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente.). ao contrário. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. no início. Paralelamente.) pelas outras. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . por sua superação. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. idealmente. mas existem. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). Em contrapartida. das coisas. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. logo. GODALIER). constitutivas da personalidade e. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. E como se sabe. em seguida. aí. no adulto não é a repetição mas. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. a captação do lúdico (jogo de papéis. das idéias. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). a conformidade e. as identificações são. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. jogo de empresas. unicamente confirmadoras da identidade. cujas identificações seriam.. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. política etc. a personalidade arrisca-se a desmoronar).

tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. com o 156 . como vimos. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. . retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. Desse modo. Essa é. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. entre esses tipos extremos e opostos. . por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. então.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. ao mesmo tempo que se escreve. sem dúvida.tentam-se.13 Fundamentalmente. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. .a dificuldade está. DUPUY. então.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes.experimentam-se. representadas e transicionais. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. . então. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . por exemplo). em transformar as identificações laterais. imprecisas e transitórias. em identificações hierárquicas. Mas. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA.

Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. às vezes. como na tectônica as placas entram em fricção. Daí a multiplicidade.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. aliás. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa.. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. das utopias (“mudar a vida”. de passagem. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. em 1981). apesar de tudo. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. outsiders ou reciclados. em concorrência). o mal-estar subsiste. que apesar de HEGEL. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. na Colômbia ou alhures. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. o fim da história só concerne a cada indivíduo). quanto para aqueles que o desemprego. no fim de contas. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. com a eliminação das organizações. da maioria dos marxistas. das coordenações pelos sindicatos etc. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Essas apropriações podem. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. (O que prova. Enquanto isso. podem entrar em conflito. dos indivíduos e da identificações 157 . pois. por isso. Chegando à encruzilhada.. Há. Algumas conseqüências 1. de bandeiras. e das intermináveis adolescências. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. tanto para os autores das mudanças. 2. de fetos ou de liberdade de viajar. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente.

Ora. necessariamente. e a complexidade progressiva do sistema.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. 158 . de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. Talvez. os tempos. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. então. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. a estrela polar) são. pedidores de emprego. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. por um momento denegadas (entre os sexos. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. as culturas etc. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). O barroco societário atual é. talvez. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso.). Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. um momento dessa ascensão. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. amanhã. Os signos (o sol. Por isso.Mas sabe-se também que o vínculo social e. principalmente). mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. 3. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. ENRIQUEZ. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. das normas e das formas. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. como alguns dizem. E a que corresponderia. as únicas referências ainda fidedignas. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. ao mesmo tempo agradável e funcional. portanto. os espaços. as gerações. encontramo-nos.

MARX. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. nas diferentes esferas do social. por Eliana de Moura Castro. Tomo 1. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. p. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. Estaria a saída. Hoje ele teria. Pléiade. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. ao contrário. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. C.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. 55. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. 40. 2 de março. 1981. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). “L’économie des conventions”. NAP: Neuilly. Petit Larousse. naturalmente). n. Gallimard. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. então. Connexions. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente.” In: M. André.T. RUBEL. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. N. “Zur Kritik. 61-78. a receita das identificações complementares novas (e. Oeuvres: Économie.]. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. As épocas de crise e reconstrução valorizam. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. 159 . no mal-estar. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. edição de 1963. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. logo. 239. Temos assim uma alternância de interpretações. O problema: em época de “destruição criativa”. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. simultaneamente. das coesões) não parece ainda inventada. p. do econômico ao sagrado. sem dúvida. 1990-1. Revue Economique. Mais dura foi a queda. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”.. 29. Auteuil.. para outros? Mas. Passy. É por isso que. sociedade e personalidades”. W. no adulto que eles se tornariam. os atores (Individualismo). 1989. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). na formação de ninho familiar.

4. “Le changement en question”. ENRIQUEZ. Paris: Seuil. Paris: Seuil. Paris: des Femmes. 1981. J. Y. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Freud et l’éducation. P. L’homme et le sacré. AULAGNIER. 1988. Le lien social. CROZIER. 1982. ELKAIM. Le désordre.. L’individualisme. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. M. 29. 1974. BELL. Uma mudança social. CHASSEGUET-SMIRGEL. L’institution imaginaire de la société. 1979. M. 1979. Les destins du plaisir. L’acteur et le système. LECA. ARMANDO. Paris: Flammarion: 1974. n. 1989. De la horde à l’Etat. n. 1985. oportunismo. BALANDIER. BOURDIEU. Paris: Cerf.. 1988. D. Winnicott en pratique. Autrement. Paris: Gallimard. L’auto-organisation. Cujas. Connexions. Autonomie et systèmes économiques. La distinction.. J. 1987. Connexions. Aux carrefours de la haine. ANREP. 1950. “Les représentations sociales”. DETIENNE. DENOYELLE. P. G. DUPUY. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. CAILLOIS. Paris: Minuit. J. New York: Collier. CERISY (Actes du Colloque de). The end of ideology. 1989. FRIEDBERG. BELL). C. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Paris: ESF. M.] uma não-imitação de exemplos paternais”. por outro lado. Les deux arbres du jardin. Grenoble: PUG. 1979. BAREL. Les contradictions culturelles du capitalisme. Paris: Seuil. Paris: Gallimard. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Paris: PFNSP. 1988. n. CASTORIADIS. Si tu m’aimes. Cf. Paris: Fayard. Bulletin de l’AISLF. Paris: PUF. 1988. Tese. 1982. 1982. 1976. D. Le paradoxe et le système. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. 51.. ENRIQUEZ. 1984. E. J. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. Paris. DE CLOSETS. R. Paris X. Paris: Grasset. 1988. Ordres et désordres. Les révolutions minuscules. A. 1975. Paris: Epi. 1960. Paris: PUF. Paris: Seuil. 1989. E. 1977. F. ne m’aime pas. P. BELL. n. 160 . Interminables adolescences. BIRNBAUM.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. P. M. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. mobilidade.-P. Toujours plus. J.. T. Paris: Seuil. 1983. 45. VERNANT. para TARDE.

1984. LÉVI-STRAUSS. OLIVIER. MOSCOVICI. 1974. D. 1987. GOFFMAN. 1988. Paris: Gallimard. LASH. 1971. Revue Economique. 1981. “Les mutations de la famille. FREUD. SIBONY. symptôme. 1977. Paris: Payot. “Et le poussent jusqu’au bout. 1989. 10. S. Paris: Gallimard. SIBONY. “La nation disparaît au profis des tribus”. “La politique en apesanteur”. Le Monde. G.. 25 de out. Paris: Gallimard. La pensée sauvage. n. Le déclin du complice d’Oedipe. 1989. 1978. 3. Ch.. “Penser le chômage”. S. Paris: Laffont. L’effort pour rendre l’autre fou. Les rites d’interaction. Paris: PUF. 1966. Névrose. 1934..1974. “La fin de l’histoire?” Commentaire. GODELIER. Paris: Plon. Vers la société sans père. Le retour de l’acteur. nov. MENAHEM. “La voix écoute”. FREUD. Reedição GEX. Idéaux. TARDE. In: Essais. Pouvoirs de l’horreur. 1980. 2 de março. “Psychologie des foules et analyse du moi”. et al. M. 1989. 1989. “Les Français et l’argent”. A. TOURAINE. 1980. Revue française de psychanalyse.” Peuples méditerranéens. Paris: PUF. 1971. Jeu et réalité. F. 38-39. 1951. L’empire de l’éphémere. Traverses. LIPOVETSKY. Paris: Gallimard. 1982. FREUD. Paris: Gallimard. FUKUYAMA. 1989. 1989.. Rationalité et irracionalité en économie. NICOLAÏ. n. Freud et le problème du changement. 1979.. Paris: RFP. MITSCHERLICH. Paris: Fayard.. Ressources. “Et mourir de plaisir. Pour décoloniser l’enfant. Malaise dans la civilisation. 40. n. Paris: Denoël. Inhibition. de la vertu et de plaisir. 161 . Paris: PUF. W. SEARLES. M. G. E. S.. A. Les enfants de Jocaste. SEGALEN. nov.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. Paris: CNRS. Les lois de l’imitation. 1983. angoisse. KRISTEVA.” Connexions. 18 julho. FREUD. WIDLOCHER.. A. Anthropologie structurale I. Paris: Plon. 1989. 47. S.” L’homme et la société. psychose et perversion. 1980. 1981. Nauplie. n. H. WINNICOTT. 1973. Le Monde. Cl. Paris: Maspéro. LÉVI-STRAUSS. junho 1987. S. L’autre et le semblable. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. Le complexe de Narcisse. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 15 nov. NICOLAÏ. LE GENDRE. 1989. G. A. 1970. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. J. Paris: Seuil. 1971. B. J. n. Le Monde. 1980. FINKIELKRAUT. 26 jan. Cl. out. MENDEL. A. “L’économie des conventions”. D. 18 mai/7 jun. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF.. 20. 1979. FREUD. 27. D. n. n. Paris: Minuit. 1958. Paris: PUF. NICOLAÏ. 51-54. Cl. Paris: Payot. Forum de Delphes. outono. S. n. D. Mc DOUGALL. A. G.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

os textos de J. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. 1980. mais tarde. LÉVY (“Intervenção como processo”. instrumentalizada então. Poderíamos dizer. em cada lugar. essa parece ter sido. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. 1980) e de E. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. na maioria das vezes. Assim. sem dúvida. desembocando. Benevides de Barros É. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. a partir da divisão não-saber x saber. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. em uma espécie de “crise das instituições”. por exemplo. nas décadas de 60/70. 1987). lançar um olhar novo sobre o mundo. ela tomará formas próprias. em fins de 50/início de 60. sem vê-lo como algo já dado.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. de A. pelas Comunidades 165 . No Brasil. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. entretanto. Pelo que eles mesmos nos contam. contribuir. criando em nós uma vontade de entrar no debate. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. que essa “crise” também eclode em vários países e que. também. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. É bem verdade.

As instituições são analisadas. na interseção dos campos filosófico. do conservadorismo universitário. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. como à Argentina. fica claro que “Movimento Institucionalista”. questionamento de seus modos de instrumentalização. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. PAGES. HESS. Os fins do anos 60/década de 70 serão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. DUBOST. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. colocou em cheque. R. LAPASSADE. E. Por aí. ainda. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. J. ARDOINO) ou. uma certa psicossociologia se faz intervenção. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. desde essa época. então. Em meados de 60. quando tomado em seu sentido amplo. político e social. J. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. à Socioanálise (R. No campo da Psicologia. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. A. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. Ainda que marcados por grandes diferenças. de modo generalizado. LOURAU. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. de um lado. palco de uma produção expressiva. presenciamos. designa a crítica à naturalização das instituições. convulsionado pelo golpe militar. chegar também até nós o eco dessas produções. inserem-se. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. então. No Brasil. LÉVY. da burocracia partidária. O mês de maio de 68 francês. Vemos. ENRIQUEZ). GUATTARI e G. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. ao Chile e ao Uruguai. através do contato com os “institucionalistas” franceses. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. crítica das experiências instituídas. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. por outro. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. DELEUZE). 166 . o país. analisador histórico do status quo vigente. principalmente. G.

portanto.. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969.. 1992... 1992. mais especialmente. (MATA-MACHADO..R. respectivamente.P. p. em 1959..) havia formulado a teoria da Anáse Institucional.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.) Em 1971.(. Com PAGES. mas há algumas produções importantes que já apontam. É marcante.. cuja prática foi denominada Socioanálise”. Em 1967. além de seus próprios escritos. Junto com René Lourau (... alguns de Enriquez. O recente trabalho de M. MATA-MACHADO.. voltado à pesquisa e à prática. de Rouchy e. 2). 3-4). Ambos haviam participado.).. A entrada se dá. de forma mais pontual. com a qual logo rompemos (. da formação da A. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. p..). via Universidade e. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. tivemos entre nós. “(. através do Curso de Psicologia. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. como grupo.).. segundo M.I. 1992.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. p. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. a partir de 1968. Lapassade (. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. Lévy apresentou-nos.. 2) O pensamento institucionalista atravessa. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. mantinha. sobretudo.)”. Se no início a orientação era claramente norte-americana.. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). (MATA-MACHADO. segundo a autora. a influência do pensamento institucionalista francês. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.. sob a liderança de Garcia. 167 . que congregou pesquisadores práticos (.

J. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. o movimento institucionalista inclui sociólogos. Ao mesmo tempo. mais tarde. LAPASSADE. há alguns projetos em andamento. construindo-se práticas singulares. G. FOUCAULT.)” (MATA-MACHADO. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. 168 . segundo a autora. p. G. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. entretanto. No Rio de Janeiro. 1992. 1986). enquanto que. atentas às características da realidade brasileira. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. fez com que. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. a partir de então. no Rio de Janeiro. menos desejosas de mudar o mundo (. 1987). G. Essa perspectiva é. psiquiatras e psicólogos. 4). DELEUZE. somou-se a influência do pensamento de outros (M. R. MENDEL). o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. É também na década de 80. CASTEL. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. Encontramos. p. 1992). F. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. por um certo tempo. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. O pensamento pichoniano. 1992. pedagogos. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. LEITÃO e BARROS. no Brasil.. mas estendendo-se até hoje. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. LÉVY. ENRIQUEZ. Hoje. 6). Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. “parcialmente abandonada. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e..Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. Na década de 80. O que se percebe é que. DUBOST e E. em fins de 70/início de 80. além dos autores já citados. cujos interlocutores privilegiados são A. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. LOURAU. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. assim. na Europa. entre outros). GUATTARI. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES.

Félix e ROLNIK. Cartografias do desejo. desembocando em algumas traduções e publicações. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. e SAIDON. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. de obras desses autores. Especialmente através dos trabalhos de S. (mimeogr. ROLNIK.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. RODRIGUES. o “pensamento institucionalista”. GUATTARI. as contribuições da socioanálise. B. 164p. tendo incluído outras influências teórico-práticas. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. A década de 60: seus efeitos no pensamento. LEITÃO. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. M. Atualmente. História do Movimento Institucionalista. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. à instituição de formação e à de pesquisa. 175p. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. 169 . difundiram-se os pensamentos de F. pesquisas e intervenções. (coord. 1992. Osvaldo (orgs). incluindo. 327p. mais tarde. (orgs). Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. 1992. Mas. B. Análise institucional no Brasil. 22p. KAMKHAGI. em São Paulo.). Regina D.). 1984. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. já toma contornos bastante diferenciados. Marília N. e BARROS. O inconsciente institucional. Regina D.). sobretudo. (mimeogr.. Rio de Janeiro. Gregório F. na universidade – PUC/SP –. nas intervenções e práticas sociais. e BARROS. RODRIGUES. Petrópolis: Vozes. DELEUZE. Rio de Janeiro: Vozes. Micropolítica. GUATTARI e de G. Suely. em suas várias vertentes. em alguns casos. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. MATA-MACHADO. Belo Horizonte. Referências bibliográficas BAREMBLITT. 1987. 1986. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. 1986. Grupos e instituições em Análise. bem como na entrada. Vida R. C. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. Intervenção psicossociológica. Heliana B. C. Heliana B. hoje.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

finalmente. Mas creio. b. Limitamo-nos entretanto. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. em uma determinada situação. aqui. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. de variáveis como: a. implicando opções e esforços de imaginação e que. principalmente. o status e a posição social. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . Por mais banais que sejam. além dos desejos de terceiros.a formação. a interação entre essas variáveis..NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. mais ou menos livremente. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam.I. c. a natureza do “saber-fazer”.as condições gerais que engendram. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. as dificuldades sentidas por um ator social.R.P. os princípios e as modalidades de sua intervenção. em primeiro lugar. a algumas observações. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados.

. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação.). movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. em períodos diferentes. suas aplicações no domínio da economia. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. da formação em habilitações. de gestão. Nesse contexto. de reeducação. ênfase a métodos estatísticos.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. inflação. simultaneamente. do 172 . o Marxismo. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. missões de produtividade. Muitos dentre nós trabalharam. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. o funcionalismo etc. comportava. a busca de participação. nos mesmos organismos3). estabelecidos na capital. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. evidentemente. de estruturas de direção. entre 1945 e 1959. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. O período imediatamente após-guerra foi dominado. econômica e social. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. pelo problema da reconstrução. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. do recrutamento de pessoal. Na Sorbonne. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. então. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. da conjuntura.

Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. desenvolvendo uma abordagem mais global. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. estudos de mercado –. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. separam-se em duas tendências. onde milito durante esse período. pela Dunod). a relação crítica e complexa que G. da demografia. André BRETON. o movimento trotskista. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. lembremos. da gestão etc. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. se as tentativas de Reich são. a partir de 1952. em seguida. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. no plano das práticas. então. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. MORENO e depois ROGERS). a partir dos anos 40. é o momento também no qual G. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. em 1961. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. o movimento que iria ser denominado “institucional”. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . nessa época. as obras de G. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. especialmente. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. pouco conhecidas na França. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. na França. por exemplo. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. Em relação a esse último ponto.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas.

esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Antes de sua volta aos Estados Unidos. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. CASTORIADIS4 e Cl. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. Perret. mas elas permanecem muito próximas. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. LEFORT.G.5 retém. 174 . durante a ocupação. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. Entre essas últimas. Entretanto.O. R. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?).Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. um dos colaboradores dessa equipe. no qual se encontra B. servem.E. desde sua origem. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. Igualmente um outro. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. com o restante do relatório. em função do problema da burocracia operária. WILLIAMS. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. em 1949. dirigido por C. na relação que elas estabelecem com o cliente. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. em 1947-1948. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem.S. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. separa-se da IVa Internacional. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. sobre a “moral” da empresa. a C.

como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. parece cada vez mais interessante. Ao contrário. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. elas colocam. apoiando-se nos resultados. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. passando pelas reformulações européias do T. de início. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. em última análise. Da mesma forma. porém. depois eventualmente coletivas –. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo.W. as que são conduzidas por equipes francesas.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. em empresas maiores. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. 175 . As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. e eles devem ter acesso aos resultados. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. se abrem a uma abordagem mais clínica.I. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. da mesma forma que a direção. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. junto a pessoal assalariado de uma empresa. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados.

o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . Em outros termos. um objeto de trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. e tenta inventar. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. Ajudando todas as pessoas.). absenteísmo. segurança etc. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. cujos conflitos. modos de remuneração. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. sua natureza real. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. pirâmide de idade. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. ou aos que decidem – Direção Geral. pelos sentimentos coletivos. para uma orientação mais clínica. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. Direção de Pessoal –. as crises. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. as disfunções. ele se pergunta se os bloqueios. Ele faz da relação de consulta um problema em si. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. no interior desse quadro de atitudes. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. Enfim. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. grupos de mais velhos. algumas vezes antigos. de pagar o preço por sua solução. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. turn-over. feita pelos encarregados da pesquisa. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. a se expressarem. higiene. as relações intercategorias e as microculturas da organização. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. que fala sobre seu campo e suas intervenções. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. e essa não sendo a conseqüência menos importante. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. Por outro lado.

ele crê que. os sistemas de comunicação na empresa. em especial dos inconscientes. ele exerce uma pressão que. além dos arranjos menores concedidos. os processos de preparação e tomada de decisões. 177 . mais tarde. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. Nessa perspectiva. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. de fato. se aceita. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. acaba totalmente reforçada. isto é. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. à medida que esses são identificados. mesmo desejando o contrário. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. sem dúvida. gestão ou organização. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. isto é. ajuda as categorias vítimas da repressão. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. ele próprio contribui. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. mesmo nesse caso. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. do especialista em uma técnica de produção. de fato. de perceber direções de solução. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. permitindo a expressão do reprimido. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. Porém. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. sem dar conselho. a idéia de que a intervenção.

que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. Os anos sessenta No momento de criação da A. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. (1959). como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. do psicodrama analítico etc. Tenho a impressão de que. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. Da mesma forma. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. mas também em uma transformação cultural profunda. nessa época. então. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso.P. A outra continuava a realizar. em uma empresa nacional.I. No momento da criação. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas.R.. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. os limites das ações de intervenção. mais do que acelerar tal processo. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. a 178 . O caráter clínico do novo grupo. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. das formas de autoridade.

de formação de adultos. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. HERBERT.P.R. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. era de um terço. grupos abertos de análise etc. a metade já era.6 No começo dos anos sessenta. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. ou iria finalmente se tornar. até 1966 (marcado pela vinda de C. atuando diretamente no campo. dez anos depois.I. A organização e a condução de seminários representa. a metade das atividades da A. nesses. algumas vezes mesmo de introdução à economia. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. dominou os primeiros anos de funcionamento. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. se podemos dizê-lo. outras vezes apenas três psicossociólogos. uma longa intervenção em uma empresa implanta. de inspiração rogeriana.). neles. a proporção era aproximadamente de nove décimos. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. reunindo às vezes toda a equipe. terapeutas ou analistas.-C. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. do sócio-técnico e mesmo do econômico. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). durante todo esse período. de sociologia das organizações. a continuidade no tempo. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo.7 Paralelamente. ROUCHY). A orientação não diretiva. e ainda agora. de metodologia psicossocial.

É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. Ao mesmo tempo. de atendentes. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa.I. durante vários anos.E. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. junto a organizações com função econômica.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. Entretanto. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. as condições ideológicas próprias da França. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. então.P. diversos membros da A. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. a guerra da Algéria. por volta de 1965. Mas creio que é necessário evocar também. em 1961. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. a integração. desenvolvimento organizacional).R. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. em Paris. a demanda se estende a associações. de maneira ainda mais geral. de psiquiatras e de psicoterapeutas. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. na equipe. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue.N. movimentos educativos. de trabalhadores sociais. para explicá-lo.). de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. Psicossociologia e Política etc. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). é uma intervenção no México. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. 180 . de padres e religiosos. por exemplo. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. junto a um Centro de Produtividade. É sobretudo na França.F. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.

as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. não desembocou no político.V. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. que dava uma direção totalmente imprevista.. uma evolução global do sistema educativo. trabalhava desde 1964. como o fazem os indivíduos ou os grupos. antes de 68. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. através do desenvolvimento de ações locais. dentro de certo prazo.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção.I. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. simultaneamente política e cultural. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. o período que se seguiu a maio mostra. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. As instituições não se analisam.R. a despeito de sua repercussão no conjunto do país.N.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.O.10 . Embora alguns dentre nós víssemos. por parte da instituição. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho.P. mesmo que modesta. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. centrando-se na evolução das pessoas. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. nas ações de movimentos como a F. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e.E. de uma audácia espantosa.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação.elaboração de projetos de pesquisa-ação. por exemplo. com os quais a A.E. ao contrário. . ao considerarem suas relações e vida psicológica. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. como muitos outros. uma direção susceptível de provocar.

no plano das idéias. na prática. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador.Porém. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. ou “indutor de mudança”.12 . relativo primeiramente à natureza das relações sociais. no campo social. parece-me que. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . . 182 . quando as referências à pedagogia ativa. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. ou melhor. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). tal opção. no último período. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. mesmo quando. Como o mostra André LÉVY. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. bem problemático. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. O modelo do analista pareceu sempre.nos anos que se seguem à Liberação e. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. ele deve ser buscado em outro nível.11 Estudando (por três vezes: 1963. mas também de seu objeto de trabalho. tende a se ver como um analista com funções de elucidação.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. devendo ser afastado ou suspenso. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. progressivamente. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. sem dúvida. benefício a mais). o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. “agente de mudança”. afastando-se dela em seguida. até o começo dos anos 60. 1967. a “socioanálise” ilustra.A partir dos anos 60. Esse último aspecto leva à questão mais geral. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. sob a influência do pensamento psicanalítico. em especial lacaniano.

nem a se considerar parte da ação. por exemplo. Simetricamente. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. no campo. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. e. por exemplo. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. como pesquisador ou consultor social. com todos os riscos que isso comporta. Toda intervenção psicossociológica. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. presente nele. é certamente oposta à acepção lewiniana. tendo em vista sua própria história. na referência ao próprio lugar ocupado. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. Se ele se encontra em uma posição menos central. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. nunca é independente. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. pertencente ao campo estudado. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. cedendo a pressões de que se é objeto. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. lugar onde se está. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. ou que se tenta ocupar. a esse respeito. A expressão pesquisa-ação. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. sobretudo. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . porque ocupa. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio.

6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. 1972. 50-68.”. Sociologie du Travail. In: Fondation Royaumont. ou mesmo depois de terminar. jan.) e dos de Cl. 1969. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. 1331. 11 Cf. ROUCHY em Connexions. 825. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação.P. com universitários como Georges FRIEDMANN. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo.F.-março. LACAN. 1332 etc. o capítulo “Variantes de la cure-type”. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. p. contra. 1972. n. secretário geral da associação. quatro anos depois. n. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). Épi. 857. 1980. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. In: ARDOINO et al.T. 1303. A C. Connexions. 1978. “Dire la loi. 1980. por exemplo o artigo de J. 1971.. 10 Cf. Droz. 2. Ecrits (por exemplo.S. la Mort. Gallimard.E. LÉVY. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 13 Les Mots. evidentemente. Connexions.. e de A. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 12 Cf. por Marília Novais da Mata Machado. 7 Max PAGÈS. 29 de Connexions. 5 Compagnie Générale d’Organisation. “L’Analyse social”. n. Paris: Epi. 1963. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. não se pode. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. presidido por Jean STOETZEL e. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. Intervention et changement dans l’entreprise. 17. “Une intervention psychosociologique”. Le psychosociologue dans la cité. 1977. les Sorts. Jean-Claude ROUCHY. Paris: Payot. desde sua criação. de PERETTI. a partida de Max PAGES.G.. Continuando.O. seu vice-presidente. Psychosociologies. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação.-C.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. 1304. 8 Cf. sobre esse último ponto. de 1955). 3.O.). Paris: Dunod. J. Jean e LÉVY. mais recentemente. responder a essa questão. 2 3 184 . 9 Cf. sobre. n. André. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. L’intervention institutionnelle. 806. 4 Cf. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. n. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. de forma mais livre. 1967. André.

como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. bem ou mal resolvidos. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. Esclarecer sua posição em relação às situações. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. permitindo esclarecimentos progressivos. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. mesmo que artificial. 185 . uma vez sustentada pelas pulsões de morte. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. No que me diz respeito. tem qualquer coisa de suspeita. Tal afirmação. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. esses ainda são muito relativos. sobredeterminado por uma profunda lógica. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. há muito tempo. à crença em sua positividade fundamental e. Porém. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. Porém. porém. entretanto. quando é apenas verbal. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. através das contradições de suas condutas profissionais. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. além disso. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. Parafraseando HEGEL.

científica. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. cada vez mais claramente.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. Ela repousa. dizem respeito. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. com freqüência. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. As práticas de intervenção. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. em relações diretas. desapaixonada. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. Toda a minha experiência. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. mais lúcida ou. no mínimo. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. ao contrário. junto aos grupos envolvidos. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. ela é. reciprocamente.6 por esse rótulo. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. ainda hoje. ela desconhece 186 . longe de chegar a um ceticismo. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. face a face. instituindo. ou mesmo a um nihilismo. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. sem dúvida. Durante muito tempo e. fundamentalmente. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. diretamente. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. a reconhecer. diferentemente lúcida. leva-me. As tomadas de consciência. na França.

uma única vez. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. quase narrativa. que adotava aproximadamente esse modelo. De toda forma é surpreendente que. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. que. de outro lado. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. data de 1972. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. Porém. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. visto como ligado demais ao responsável comercial. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. melhor coordenação administrativa. os problemas atuais da empresa. supõe. isto é. A reunião desses diferentes objetos na análise. por sua vez. esclarecimento das funções. mas. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. cuidando. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. considerado como um diagnóstico e. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. implicitamente. é apenas um simples instrumento ideológico. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas.7 A última intervenção da qual participei. 187 . reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. Tal metodologia induz. então. de forma alguma. com efeito. com vistas a decisões e ações. caso contrário. seu amigo. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. de quem dependia bastante. de uma forma histórica. de um lado. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. sobretudo. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. em determinado momento. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista.

negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. traduzia também. à medida que cada discurso. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. de um a outro. a coexistência desses diferentes discursos. então. organizacional). um de cada vez. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. para apreender a “realidade”. ideológico-afetiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. mas potencialmente articuláveis entre si. e de passar assim. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. Em outras palavras. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . A pesquisa havia fortificado essa esperança. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. inevitavelmente. no limite. particularmente por meio de nosso relatório oral. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. reconstituído graças a nossos cuidados. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. e sobretudo. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). sem dificuldade. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). complementares. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. A perda da esperança acarretou. em outras palavras. expondo cada um com a mesma objetividade. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. como se esperava de nós. sobretudo. e. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. porém situados no mesmo plano.

ações ou decisões (saber para). articulá-las. associa-se necessariamente à busca de um sentido. reduzidas a enunciados fechados. em discursos que as pessoas expressam. qualquer que seja a maneira como é conduzida. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. 189 . como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. sabemos. embora imperfeitamente. o “real”. de uma explicação geral. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. não aceitamos seus pressupostos. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. o levantamento de dados. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. em contrapartida. para o recalque: primeiramente. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). então. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. isto é. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. em seguida. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. Longe de favorecer um processo de análise. a partir de diversos “pontos de vista”. assim. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes.Intervenção como processo (subjetiva demais. excessiva demais) e conservar. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. a pesquisa contribui. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. constrangidos. Mas se aceitamos. escutada ou recusada. é a função das representações. legitimamente. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. desejaríamos. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. Essa experiência possibilitou-nos. Essa crença conduz. assim. que não se reconhecem como um discurso. ao contrário. perceber o quanto a prática da pesquisa. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. desconectados das condutas e estratégias. no mínimo. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente.

colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. moral ou corpórea. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. A não ser que se idealize o processo de análise social. Porém. Só é possível. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. então. mas. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. independentemente das maneiras como se atualizam. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. na qual uma resposta instantânea. Os grupos face a face aparecem. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. com efeito. instituídos. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. sua posição de exterioridade é apenas relativa. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. ser feita em uma experiência de comunicação. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. sob forma falada ou atuada. na qual o imediatismo do risco é sensível. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. reciprocamente. na enunciação. essa só pode. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. se há um resultado do qual estou seguro. 190 . como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. se articulam e se transformam. no sentido pleno do termo. pode ocorrer.

grupo do outro. o respeito à regra de abstinência. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. isolados de toda historicidade. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. Nas situações de intervenção. ele se insere no mesmo sistema de alianças. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. essas relações implicariam particularmente. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. desde o início. 191 . das quais necessariamente é parte. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. com a participação do analista-interventor. isso é apenas uma petição de princípios. do não agir. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. por exemplo). no sentido preciso desse termo. corpo a corpo. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. no próprio ato que o institui como analista.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. pressões. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. mas relações de transferência. estratégias. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. material ou simbólica. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. em função de uma “demanda”. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. uma vez que. por parte do analista. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado.

não unificada. fragmentada. traduzia o desejo de tirar 192 .13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. um serviço).12 e a legitimar sua interpretação. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. seu objeto. ele elimina. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. isto é. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). por exemplo. por meio de regras explícitas e implícitas. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. O interventor pode. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. tendo que tomar decisões e executá-las. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. então. Um dos objetos de análise pode ser. por antecipação. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. assim. quanto para as relações internas. no mesmo ato. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. do “aparelho psíquico grupal”. fora da situação de análise. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização.

ele entra em conluio com as resistências. como. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. merece ao menos uma explicação. as resistências internas na organização tendem.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. do trabalho de análise. e o grupo de suas restrições externas. assim. de uma terapêutica localizada. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. o abandono de tabus. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. especialmente do médico-chefe. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. Certamente. com efeito. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. institui tal quadro. o que vale não só para a análise. paradoxal. como o fazem certos psicanalistas. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. essa modalidade se constituía. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. que continuaria submetido às regras administrativas. por exemplo. Não se pode escapar disso dizendo.). por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. a presença. quando o interventor. numa colocação em ato do desejo. observações. à medida em que o trabalho progride. Nessa perspectiva. pesquisaação etc. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . a composição do grupo pode evoluir. que a emergência dos conflitos latentes. mas também para o gozo sexual ou estético. a não ser provisoriamente. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. É por isso que. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. Um dos resultados. Se isso é em parte verdadeiro. a desmistificação de certas crenças.

Com efeito. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. a da burocracia. na vida de um sujeito ou de uma comunidade.. antes de tudo. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. o acesso a uma história. do pior ao melhor. de acordo com eixos orientados. uma questão onde havia uma afirmação. à incerteza. conseqüentemente. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. então. Com efeito. O novo que aparece não é. centrada no sistema de regras etc. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. mas uma subtração. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 .. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. em face à eventualidade de uma ruptura. um acontecimento marcado pelo advento. um possível onde havia certeza. ou como o reconhecimento de clivagens internas. ao desconhecido. a da organização científica do trabalho. toda teoria organizacional é relativa. um novo pleno. Não é uma soma. irredutíveis. um jogo mais livre se torna possível. do menos ao mais. Em um texto anterior.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. as peças começam a circular. ao risco. uma certeza a menos. isto é. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. no mínimo. com noções e representações úteis à ação. uma certeza a mais. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. centrada nos problemas de produção racional. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. a mudança representa para nós. inclusive nas pessoas.

dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. ordenado. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. Assim. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. permanecem divididos os discursos de representação. o processo de análise não pode. as ações e as divisões. a análise não alcança objetivamente um real suposto. tendo sua própria pertinência. Nessa perspectiva. então. temporais. enfrentar e ocultar as contradições que vive. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. desde 195 . que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. tenta explicar. são discursos destinados a legitimar. mas em apreendêlas como discursos incompletos. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. para os outros e para si próprios. Nesse sentido.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. então. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. Pareceu-nos. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. também ela. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). Entretanto. com a finalidade de construir referências. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. o que dá no mesmo. com efeito. hierarquizado.

a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. Assim. 196 . apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. Embora eu tivesse trabalhado no passado. em especial. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. por sua vez. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. isso não apenas não os inquietou mas. pareceu-me simpática. citarei o caso de uma intervenção muito breve. Esclarecemos. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. em sua maior parte. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. Igualmente. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. destinadas a serem engavetadas. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. Buscavam essencialmente um “técnico”. reificaria significados. era o sentimento de que não poderia. aceitei. endereçada agora a mim. aliás muito rapidamente. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. com interesse e prazer.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Depois de uma breve hesitação. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. com pessoas pertencentes a esses meios. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. por diversas vezes. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. que deveria ser. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. A razão de minha determinação. talvez tivesse mesmo o inverso. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. como condição para aceitarem sua missão. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. ela pretendia ser. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. Para ilustrar o que precede. ao contrário. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. como ocorrera na assembléia anterior. mas a demanda. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. tanto quanto pude analisála.

isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. atendendo expressamente à sua demanda. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. e enfim. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. cuja forma seria definida? 197 . que não podia ser perdido. em seguida. Como cheguei lá. uma Assembléia Geral extraordinária. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. Tratava-se então de um momento que. Para isso. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. Como já mostrei. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. o lugar deles. era considerado por muitos (ou.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. de fato. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. em relação à Comissão e. diversas sessões haviam sido previstas. pela Comissão) como um ponto de transição. na história da Comunidade. pelo menos. à noite. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. dois encontros no local da Assembléia Geral. depois dos debates. vencimento dos prazos para decisões importantes). Ela havia sido decidida no ano precedente. de um lado. de outro lado.

tomei conhecimento. de sair de um estilo de relações muito corteses. ao mesmo tempo.R. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. esquivando-se dos conflitos e divergências. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. Espantei-me. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. Nessa ocasião.I. Parecia-me. evitando toda aspereza. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. O fato de que eu estava lá como um profissional. talvez também meu próprio sobrenome judaico. sem implicação com o grupo. os textos definindo seu funcionamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. as relações entre elas. as regras às quais se submetiam etc. tendo em vista a Assembléia Geral. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. então. a fim de levantar suas opiniões. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. Eu era calorosamente acolhido. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. então. como um estranho mas não como um intruso. com a ajuda deles. com amizade e com confiança. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -.P. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. eu próprio me sentia um estranho.). 198 .

com relativa facilidade. ao contrário. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. demonstrei que. para a escolha dos temas que seriam então tratados.Intervenção como processo No nível do conteúdo. então. seu papel de porta-vozes puros. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. periodicamente. sem dúvida. com bastante veemência. em última análise. Pareceu-me. em nome de valores democráticos. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. a meu ponto de vista. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. pelas vontades expressas pela “base”. Eles aderiram. O papel que tinham era não apenas técnico. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. 2. mas representavam também. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. assim. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. que eles deveriam. observei. entretanto. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. sem deixar de observar. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. declarei-lhes: 1.

análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. sem implicar posições táticas e políticas. eventualmente. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . com o conhecimento e o acordo da Comunidade). Com efeito. ao contrário. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. Caso eu participasse da Assembléia Geral. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. com alguma hesitação). isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. seria necessariamente confundido com a Comissão. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. No limite. Paradoxalmente.

uns em relação aos outros. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. formalmente. até a eleição do próximo Conselho. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. a partir dessas diferenças em status 201 . mas no calor da discussão. ficou claro que: a. b. existente no real. isto é. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. c. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. entre nós e os membros da Comissão. sem direito à palavra. durante um vazio de poder).quanto a mim.Intervenção como processo como observador. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. Deveria representar um tempo de análise coletiva. judeu) tinham para eles. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. durante o primeiro dia de trabalho. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro.I. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. nossa posição profissional e inserção institucional.P. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais.. não em trocas prévias. Assim. sobretudo. Certamente.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. ligado à Comissão. através de minha inesperada implicação afetiva. membro da A. mas também de escolha de orientação política. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo.R. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido.

assim. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. entretanto. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. por sua vez. a partir desses documentos. e sobre o que pôde ser produzido. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. às instituições ou às atividades). nossa alteridade. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. em conseqüência. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. 202 . sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). da importância atribuída às pessoas. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. era “relativa”. entre outros escalões – e. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. Na sua maior parte. como membros dessas comunidades regionais. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. o desenvolvimento de um certo trabalho. relatórios de reuniões. lutar para tornar o trabalho mais lento. Esse efeito de sentido. a partir desse primeiro dia. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. Tudo isso. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. como terceiro. por exemplo. entre a Comissão e o Conselho. particularmente. entre as comunidades regionais. Nesse sentido. destinados a serem comunicados à Comunidade. não se produz. Foi preciso.

ou mesmo. No curso desse processo. aparentemente menores. carregadas de subentendidos (por exemplo. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. sobre palavras fetiches. assim.Intervenção como processo considerando questões particulares. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas.. da segurança. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). as questões a serem submetidas a voto etc. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva.”). talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. ou ainda. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. em seguida. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. da idade. refletindo situações particulares diferentes. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. seja a coabitação em um mesmo lugar. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos.. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. sem dar muita importância. a definição da pauta dos diferentes dias. seja o conjunto de atividades –. 203 . segundo os quais as definições da Comunidade.). a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. algumas vezes. em contrapartida. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. por meio desse trabalho preparatório e. o que significava não considerá-los? O que se elaborava.. na Assembléia Geral.

ao contrário. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. de um lado. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. o “serviço concreto do Homem”). reflexivo e crítico. Nessa perspectiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. isto é. Para concluir. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. a-organizacional? Bem entendido. de um lado. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. de outro. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. melhorar seu funcionamento. facilitando a escolha de futuras estratégias. quando aplicado a um processo de intervenção. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. permitindo-lhe aumentar sua força. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. de outro. de comum acordo. fazer uma sondagem. criar uma situação nova. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. ela constitui uma terapêutica dessa última. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre.

o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. senão de cegueira. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. isto é. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. “quanto mais houver saber. uma colocada a serviço da outra. antes. com precisão. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. tivemos a oportunidade de demonstrar. Ora. longe de terem um valor geral ou intransitivo. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. em uma modificação das relações de poder. a ação de outro. essas afirmações estão longe de serem verificadas. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. uma dose de desconhecimento. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. necessariamente.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. melhor se fica”. ao contrário. como alguns às vezes pretenderam. 205 . assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. Com efeito. ela implica. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. Em um trabalho anterior. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. ela também não é. uma afirmação da identidade desses dois processos. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. conseqüentemente. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. Assim. mais a ação é eficaz e pertinente”.

ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. Com efeito. mas como um processo. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. em uma organização ou em uma sociedade. em um processo de escrita. tratando dos processos de pesquisa. os transforma. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas.19 Por isso. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. um sistema de ação. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. sobre seu passado. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. implica todo um trabalho sobre si. é a parte que permite trocas e manipulações. uma escola). discursos produzidos paralelamente ao levantamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. ao mesmo tempo. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. com o mundo. como experiência. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. entre o que pode ou não ser escutado. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. por exemplo. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. Assim. O saber. a mais simbolizável. 206 . entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros.

dito de outra forma. a necessidade de dividir. no nível do pensamento. 207 . enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. de uma racionalidade criadora. de limitar. de outro. é precisamente a impossibilidade. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. visam a introduzir. o desejo de tudo controlar. assim. é a condição de toda vida social. de separar. espiritual ou mesmo afetiva. ao mesmo tempo. Esse golpe de força. que. mas. o desejo de tudo compreender e. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. para essas representações – esses discursos de representações –.Intervenção como processo Tal concepção de organização. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. especialmente do desejo de onipotência. de realizarem sua meta de dar sentido. O processo organizacional funda-se. por exemplo. de toda construção material. Daí o hiato persistente entre. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. para perdurar. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). que não exclui nem dúvida nem incerteza. De alguma forma. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. essa. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. em uma negação do inconsciente. ao contrário. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. As regras dividem e separam. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. de um lado. contabilizável ou informática. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. clivagens e limites. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. que pretenderia circundar o sentido. já foi evocada anteriormente. Não se trata então de uma racionalidade mecânica.

ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. então. Dessa forma. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. 1980. 29. uma palavra continua. ela se choca assim. L’Analyse social. Respondendo a uma demanda de palavra. quanto da análise que a torna possível. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. In: ARDOINO et al. Porém. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. fazendo isso. sobretudo. assim. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. por Marília Novais da Mata Machado. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. ao menos. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. p. Jean e LÉVY. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. de ignorar as implicações dessa inversão. L’intervention institutionnelle. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. 2 208 . que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. 69-100. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. André. em seu primeiro esforço. I/1980. Connexions. é importante. a se desenvolver. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. mantendo vivo o passado. até então bloqueada ou proibida. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. ou. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. Paris: Payot.

Cf. 7. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. pp. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Connexions.. postula dois aparelhos psíquicos distintos. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . In: ARDOINO et al. um individual e outro grupal. “Dire la loi. Cf. L’amour du censeur. “Dire la loi. “L’Analyse social”. de P. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. 1978.. CROZIER. Cf. 1980. FAVRET-SAADA. Segundo o Petit Robert. “L’acteur et le système”. André. “Le changement comme travail”. Thèse d’Etat. ENRIQUEZ. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. em Topique. cf. de E. inédita. Esse conceito. introduzido por R. também “Le pouvoir et la mort”.. Como toda análise de conteúdo. L’intervention institutionnelle. Por exemplo: Max PAGES. Connexions. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa.”. cit.”. Les Mots. 21. S. LEGENDRE. Mal-estar na civilização. 29. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. LÉVY. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. les Sorts de J. Nesse exemplo. Jean e LÉVY. Gallimard. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Paris: Seuil. trabalhando com a própria contratransferência. “L’interprétation de discours”. Traduzido de: DUBOST. Connexions. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. Sociologie du Travail. LAPASSADE.. KAES. FREUD. Connexions. 196l.3 4 5 Inspirado em G. Seuil. 49-68. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Em termos mais sofisticados. I/1980. la Mort. op. Connexions. 21. Paris: Payot.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. de forma concisa e injusta (mas. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente.O que ocorre de essencial no ato formador. como a maior parte das indagações a respeito da formação. Dizendo o mesmo com outras palavras. e mais violentamente. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. sem dúvida. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. ou. e. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. há casas para ela). as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. Por isso. Entretanto. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. 2. de toda atividade de formação. ainda. possibilidade e multiplicidade das comunicações. o procedimento de exclusão do real e. Esse número de revista testemunha bem o fato. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . nesse breve artigo. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. isto é. uma dúvida me invade. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas.E também o que é o próprio sentido desse movimento. mais precisamente. as práticas de formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar.

cada um à sua maneira. então. ainda mais.a dos sociólogos críticos. de outro. situando a prática que buscamos promover. resistências. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. um efeito positivo para o formado. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. todo crescimento no domínio das informações. Orienta-se (e não apenas na China. de paciência. temores do formado e condicionamentos sociais. a fim de poder seguir as mudanças e. a formação permanente torna-se indispensável. mas também têm. o progresso dos conhecimentos. 2. 3. de um lado. Toda formação.a dos psicólogos. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. Certamente. de tempo. para um sistema onde. Trata-se. 212 . quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. a todo momento. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. então. para desejá-las e provocá-las.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. sua vontade e sua imaginação. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. de reciclagem e. de investimento pensado. advindo a necessidade. Assim. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. toda aprendizagem de técnicas teria.a dos formadores e educadores. O problema é unicamente operatório.

2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força.3 referindo-se ao racional e ao controle. que as causas determinantes não existem. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. ele se revela na ação. O comportamento adulto é o comportamento refletido. que as reconstituições são parciais. o do outro. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. cartesiano. O real não está lá. ao umbigo dos sonhos. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. sem paixão. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. hoje. Ora. é o que excede toda análise. que se torna assim excluído). ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. além de toda interpretação. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. o do primitivo e. além de anularem toda diferença e toda dispersão. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. o real é o que escapa a toda definição. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. do cálculo. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. mestre das leis e da morte. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. inesgotável. o do louco. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. na transformação e ele é. portanto. que a libido é turbulenta. da mesma forma. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). os blocos erráticos. estritamente falando. que o homem está sempre por nascer. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). sem sonho nem loucura”. da medida. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. obtido apenas 213 . as brechas repentinas. através da ordem. sempre a serem melhoradas.

2. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. as provas de sua impossibilidade. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. falando dos signos da 214 . a cada dia. Ora. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. Quando houver apenas Eus fortes. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. não se trata aqui de uma simples metáfora. a energia que se desprende. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. por isso. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. o confronto com a finitude. como diziam os alquimistas. se for atravessado pela ideologia do senhor. como uma água calma. a opacidade. a alegria da certeza e. de hábito.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. imagens protetoras.4 isto é. a angústia de se perder no turbilhão de questões. o seu contrário.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. a humanidade estará. ao mesmo tempo. desenvolvendo-se progressivamente. então.5 Certamente. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). “Que se exploda de carne humana e perfumada”. Aliás. do que tranqüiliza. Temos de um lado o conhecimento. De outro lado. temos a bola de fogo. pois ele não pode sê-lo. Como viver o desejo do pleno. E nunca esse programa foi mantido. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. as variações de temperatura.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. do questionamento do saber obtido. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo.

os psiquiatras aliados do poder. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. Conclusão: o que permanece são as certezas. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. mas uma relação angustiada com o saber. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”..6 Ora. 2. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas.Quanto ao segundo princípio. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 ..Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. Igualmente. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Então. Os tecnocratas. a despeito de suas diferenças.

esses mesmos estágios. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). além do mais. ao qual muitos poderiam se subscrever. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. grupos de encontro. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. É talvez por essa razão que. aliás. tendo recebido um certo tipo de educação. Acrescentemos que. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. algumas vezes. é que a pessoa. mas de peso. não existe. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. com seu corpo e com seus desejos. mas porque apresenta. é preciso. o homem. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. que relações de poder ele pressupõe. no qual se inscreve toda 216 . impacto social menor (estamos. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. gestalt-terapia. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. Um importante dirigente internacional não dizia. ter um outro modo de relação com os outros. há alguns anos. liberação corporal e sexual. então. assim como as experiências de bio-energética. a mulher. em um congresso de chefes de empresa. o cachorro ou com o estrangeiro que.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. alienada na sociedade contemporânea. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. no momento. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. Horizonte grande e enaltecedor.

que sofre e que ama. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. Não se aprende o amor. em técnicas e em posturas. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. Mas. complementares ou antagônicos. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. num momento de estado de graça. eles não se explicam. que desejos elas retomam ou reprimem?. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. a quem falo. como tais. alguma coisa explode em mim. Em contrapartida. durante um tempo determinado. LECLAIRE: Quando. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. por que falo dessa maneira. que dá a cada parte de seu corpo. feito de uma explosão que me fascina. mesmo nesse último caso. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. testados no mundo. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. que podem ser atuados. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. Então. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. justamente. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. renasço. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . Entretanto. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. Como escreve S. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. que instituições me sustentam. por quem e por que sou falado. à sua voz.8 Pode-se apenas descrever tal estado. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. de uma luz na qual me banho. a seu cheiro. não temos nada a dizer. então. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. Sua beleza desencadeia esse prodígio. Trata-se unicamente de relações faladas e.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história.

para fazê-las sair de suas tocas. as transferências maciças. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. Uma vez de volta às suas instituições. vai querer se fazer amar por todos. Mas. Ficará apenas a lembrança de um momento único. O lento trabalho do negativo. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). arriscam tudo e nada arriscam. o fazer ao dizer. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. tomar o lugar do líder. São palavras (ou gestos) em um lugar específico.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. Mas o psicólogo está lá para as acossar. seu rigor. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. super-ativo. de tempos em tempos. a fim de viverem sentimentos intensos. definido como um lugar no qual se deve comunicar. Outro deixará se levar por suas emoções. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. os mais narcíseos) podem. a não ser que queiram ou possam. esses discursos. as manifestações sem seqüências. analisando com toda a sua força. mostrando assim sua potência. ou. chorará (o próprio ROGERS. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). um ato-falho. assim. irromperá um lapso. o tempo ao momento. E talvez. fazer triunfarem suas fantasias. as fantasias invasoras. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. seu “saber-fazer”. única fonte de mudança. tomar o grupo em seus desejos. questionará as instituições. embora plenas. as proibições. na maior parte do tempo. estará pronto a largar mulher e filhos. Ei-lo. do aumento do grau de irrealidade da situação. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . declarará sua paixão por uma estagiária. então. não porá nada em movimento. os tabus. não pode ser feito. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. não se entregam. para que entrem em uma relação de transferência. ao mesmo tempo. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. pelo menos. os choros e os gritos de alegria. esse irromper não ocorrerá. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. essa explosão. onde tudo era diferente. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). e ele é um bom juiz. certificando-se de que nada lhe escapa. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. pois as palavras trocadas. Eles. como os weekends e as maratonas. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. favorecendo os processos regressivos. no medo e tremor. entrará em jogo um sentimento “autêntico”.

Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. ele é chocante e desesperante. em muitos aspectos. seus métodos. DELEUZE e GUATTARI). divulgá-la nas massas dominadas e. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. A mensagem dada. então? Vemos que o que é dito é. na formação. Quanto a seu conteúdo. é o veículo privilegiado da dominação social. simultaneamente. mas científico. O único senão é que. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. em sua aridez. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. como muito bem o diz J. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. Sem dúvida.-B. é esse turbilhão do amor e da morte. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. Mas. aquele que dita a norma (M. ou atento e vivido como o dos psicólogos. FOUCAULT). é a capacidade inventiva dos participantes. exato e periférico (não tocando no essencial). PONTALIS. para expressá-las ou mesmo provocá-las. Igualmente. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. o que é essencial é o que se passa no campo formador. Além disso. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. Toda formação (qualquer que seja seu programa. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. é essa troca de palavra. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . assim. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. Afinal. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão.

a transformação das relações sociais. ao mesmo tempo. não de uma formação (a rigor. homogêneo. isto é. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. a vida. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. que só nos resta. os movimentos sociais emergentes. de um processo. profissionalmente e socialmente se mexam. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. em uma palavra. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. tão sistemáticos. 220 .9 as palavras inovadoras e as ações sociais. tenha sido possível ler. de constatação aguda e de desmobilização geral. nas Questões propostas. justamente. explicável por um único tipo de lei.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. isto é. o que não se pode esperar dela. se ela o fosse. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. depois de tê-los escutado. o que ela esconde em seu próprio movimento. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. Seus enunciados são tão gerais. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. mesmo se. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. de um trabalho de mudança. ela não chega a ser totalmente dominante. em filigrana.

as correntes de informação. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). mas sua relação com o saber. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). Ele está lá vivendo. ele não é o portador do sucesso da experiência. políticas. assim. 221 . Por meio dessa ausência-presença. em suas diferentes dimensões: culturais. mas uma problemática. suas descobertas e suas resistências. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. Quando ele intervém. desse lugar desocupado e fugidio. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. através dessa ausência. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). suas idas e vindas. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. mas. indicando. seus entusiasmos. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. dessa desordem-ordem. uma movimentação de energias. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. suas interrogações e também suas paixões. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. por isso mesmo. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. um encadeamento de Questões. organizacionais. na situação. fazem surgir formas da sombra. suas falhas. Ele está lá simplesmente como uma referência. a criação de negentropia (isto é. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. aliás. Ausente. um jogo de luz sobre certos pontos que. ele deveria se calar?). ele oferece não um saber. provocando a vontade de respirar. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. resvalando.

além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. de seus corpos e. não há muito tempo. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. hoje. para não falar de sua situação econômica. tomando certos caminhos e não outros. com relação a esse personagem. a resistência se deslocou. entre cem. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. projetos sociais. os conflitos não têm mais espessura social. Não são pessoas ou seres desencarnados. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. Um outro participante manifestava. vivem em organizações específicas. No caso contrário. tendo um passado. praticamente nunca era contradito e. tal funcionamento é profundamente mistificador. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. a relação com o saber é suspensa no vazio. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. o resto do grupo o seguiu em bloco. uma atitude de deferência e de sedução. de suas relações afetivas. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. Por isso o trabalho do grupo será centrado. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. as diferenças são apagadas. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. um dos membros do grupo era particularmente escutado. Um exemplo. formadores etc. Ora.). por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. Como interpretar tal situação. 222 .

Em cada sessão. de suas tentativas. O lugar fechado. imaginário instituinte. o foco em relações afetivas imediatas. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. a imersão na vida aqui e agora. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. outros atos sociais. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. de seus sucessos. de breve duração. intensivo. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. fazem propostas. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. construíram ou destruíram em seu meio real. Não estão lá como pura presença. confrontadas. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. ação real e ideologia. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. lugar de análise. conduta e gesto. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. mas como portadores de suas angústias. mais exatamente. realizaram. experimentaram. não há mais dicotomia entre ato e palavra. imaginam soluções. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. retomadas. é aberto sobre o mundo exterior ou. A partir do momento em que o desejo circula. os participantes falam do que fizeram. É por isso que somos partidários de estágios longos. aprofundadas. menos tal processo pode ocorrer. fecundarão novas atitudes.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. um ou dois anos). a 223 . outras palavras sociais. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais.

Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. Essa experiência da heterogeneidade.. nesse processo que. por enquanto. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. a loucura e o sonho possam ter. Resistência vinda de indivíduos em formação. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. períodos de análise refletida. algumas vezes. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. uma angústia diante do desconhecido. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. expressão gráfica etc. que o amor inexiste sem a experiência da morte. a fim de que a energia livre. Aqui. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. possa. discursos ideológicos desenfreados. talvez. Não nos enganemos entretanto. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. reencontra muitos obstáculos ou. a precluir certos registros (da paixão. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. Trata-se. ser protegidos. de necessidade de alimento.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. naturalmente. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. de novo. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. a periodicidade desses momentos. Momentos de mutismo e de temor. em questão visar à dissolução pela dissolução. com o outro. do saber alegre. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. irrupções vulcânicas. se interrogue sobre si mesmo. falar. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. mais dinâmicos. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. do gozo). do excesso. impossibilidades totais. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. ao contrário. ter efeitos.. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. Não está. direito de atuarem. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. com o saber) são descentradas.. mesmo se ela pode se tornar criativa. do fogo e mesmo do caos. viva paixões. então. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. ter caminhos balizados. todos juntos. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. depois de terem liquidado 224 . momentos de embotamento.

suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. entre as sessões. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. Trata-se. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. o espanto e o desprezo de seus colegas. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. o que ela busca induzir. avançando uma série de proposições. Na intervenção.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. então. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. quando retornam às suas organizações. Intervenção psicossociológica. tentar experimentar novas condutas. Enfim. mas a confusão. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. E que. que deveria transformar o que está no centro. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. mesmo se os participantes podem. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. Naturalmente. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. Essa experiência da margem. senão a violência simbólica da organização. da intervenção. a dificuldade intransponível. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. é necessário que ele seja evocado. o que ela não poderá jamais realizar. seu possível devir Não está em questão aqui. sobretudo. provocar mudanças. se transformará em um simples prestador de serviços. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. as numerosas escolas. a utopia e a inquietante finitude. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. seu modo de existência. deliberadamente. naturalmente. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. para nós. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. eles reencontram a inércia das estruturas. de trabalhar 225 . Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas.

absenteísmo. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). desordem nas salas.) e que desejam resolvê-los. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. como na formação. de definições de tarefas etc. de melhoria de condições de trabalho. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). uma certa fissura no organograma da organização. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. recusa a alguns o próprio direito de falar. mas. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. desperdício. além do mais. impede de ver e de sentir outra coisa. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. Essa recusa. Não por razões morais. mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. mais exatamente. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. ao contrário. isto é. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. que têm problemas concretos (de decisões. no processo de trabalho. A intervenção. existissem como executantes da máquina. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. durante muito tempo. toda a violência do cotidiano que. A palavra reprimida. uma situação irreal. numa primeira análise. para se expressar. consciente ou inconsciente. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . O que está presente não é. antes de tudo. então. como submissos. na hierarquia interna. assim. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar.

progressivamente. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. para que possa interrogar o oculto. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. relações de poder e separações instituídas. para que o olhar se desloque. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. ou que possa pensar de fora da fábrica. então. Mas. transformador do mundo. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. Colocá-la em causa seria um salto mental.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. pai-filho ou ele-outros. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico.F. O que resulta.T. Não se trata de sonhar por sonhar. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). pelas relações codificadas. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. que faz surgir um real além do real percebido. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. entre si e o outro. “ruídos”. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. Numa pesquisa efetuada pela C. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. pensamento-execução. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. a deixar seus desejos serem expressos. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado.D. a aceitar sua parte de loucura.

transformada e garantida por cada um. ou. As posições. decepção. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. os psiquiatras. cada um se tornando. ao se deslocarem. que o surgimento do imaginário. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. uma nova forma de educação. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. é o que permite a troca e a reciprocidade. imaginativo. Ele distingue. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. pessoal de cozinha e de limpeza. subvertidos ou. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. ator e analista social. dessa ruidosa confusão. isto é. mas em uma maior fluidez. analógico. a médio prazo. onde a lei. dessa maneira. sem análise. à sua maneira. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. sua cronologia e suas articulações. os psicólogos. no mínimo. é necessário que os modos de pensamento. é lei retomada. promete apenas. fazem da criança também um educador. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. os educadores chefes e especialistas. o inesperado. Assim. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. pode sair a surpresa. além das crianças. Aliás. então. com seus argumentos e suas demonstrações. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. interrogados. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. ele exclui e. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. ele classifica. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. a própria idéia 228 . outras formas de relação e outros modos de estruturação. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. numa análise em ato da organização. numa decodificação das relações. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. igualmente. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. O que significa. metafórico.

dissimula. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. como ele próprio o diz. pelo contrário. pede que cada um pense e viva na contracorrente. divertida. de intimidade. o homo demens no homo sapiens. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. a verdadeira 229 . reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. atrás da imagem de falar bem. submetem-se ao princípio do prazer. então. As pessoas se submetem. isto é. por sua vez. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. da criatividade diária dos grupos sociais. nas organizações. isto é. do bom estilo. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. na realidade. A língua. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. mas também da linguagem utilizada. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. isto é. Quando. Mas. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. na França. colorida. o roubo da língua espontânea. a invenção popular. as “estórias de comadres”. a língua. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. Mas aí também sabemos que. Buscamos. um elemento de mascaramento do sistema social. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. é como o dinheiro. de fazer.11 Queremos dizer que a verdade. à língua (a parte social da linguagem) dominante. Não se trata apenas do modo de pensamento.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. Essa perspectiva não o impedirá. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. Naturalmente. falarão. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. sob certos aspectos. Assim. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. antes. Ora. já não indica que as relações de cumplicidade. da ortografia necessária. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. para ser expressa ou reencontrada. inversamente. da Psicanálise uma arte de construção. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho.

mas o da dominação que ela instaura. A mesma coisa ocorre hoje. mais exatamente. Mas os tradutores traem. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. precisa e cifrada. confusamente. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. para se protegerem dos outros atores sociais. Se. experimentar o seu calor. fazê-la viver. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. Eis que chegou o tempo dos tradutores. a partir do Século XVII. que são os que podem traduzir. inventar um falar. É por isso que atacar a língua dominante. reencontrar sua língua. então. se dá conta disso. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. em boa linguagem. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. argumentada. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. de seus mandamentos. Por isso. quando se escutam as palavras que eles utilizam.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. a dos tecnocratas. as frases que inventam. Não apenas de autoridade. reencontrar a língua perdida. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). Há uma língua dominante. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. para obrigá-los. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. fazendo-os aprender a falar. dessa forma. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. de modalidade de comando. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. do mundo adulto (e o atacam). mas de poder: da lei. Veja-se bem a dificuldade. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. Aliás. pois o 230 . Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. todo mundo. antes de mais nada. pode-se constatar que eles se protegem.

foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. nem renunciar a seu poder. ele lhes permitiu. mas também quando o poder está em jogo. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem).” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. a se informarem. assim. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. o interventor ultrapassou o limite. A intervenção. a intervenção pára. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. então. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. sua vontade instituinte e. quando estão no campo de análise não apenas as relações. as comunicações interpessoais e intergrupais. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. agradece-se ao interventor.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. interminável. ao contrário. dentro de certos limites. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. sendo. então. quer que ele seja reforçado. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Assim. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. quem quer que seja (dono de empresa. colocar-se em questão. com uma outra linguagem. as resistências. membros do comitê de empresa. Entretanto. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. então. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. Então. os hábitos. mas sim questionamento infinito. mas. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). sendo inauguração de uma palavra nova. justamente. se uma demanda lhe foi feita. De qualquer maneira. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. os estilos de autoridade. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. Mas. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. chocase violentamente com as estruturas. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem.

Ele não realiza nenhuma mudança. procedendo por deslocamentos e rodeios. 232 . eus a se abalarem. sendo alguém que incomoda. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. é que. das funções elucidativas. não os conduz em direção a nenhum resultado. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). colocando-se como um shaman ou um mártir. Pois. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. pólo de identificação ou bode expiatório. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). se ela se coloca. O que ele sabe bem. Ele não transforma as estruturas. dispersões a se operarem. em contrapartida. Ele não analisa sozinho. palavras a serem ditas. energias começaram a circular. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. mas favorece o desejo de mudança. Porém. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. que só poderá viver. Também não se pode dizer que ele fracassou. Não sabe pelos outros. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). Quanto ao valor e à importância desse movimento.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. que. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. é aos atores sociais reais. através de ações. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. então. não lhe cabe questionar os poderes. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. seu trabalho só pode ser lento. os movimentos sociais.

havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . 4.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. 3.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. Entretanto. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. inclinar-se à rigidez ou. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. desde o início. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. sua posição nada tem de confortável. traidor em potencial. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. Suspeito por todos. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Anteriormente. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. agricultores tendo interesses em comum. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. mais nos aproximamos de um processo cumulativo.Em contraposição. Pode. mas que ele deve saber. ao contrário. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes.A falta de formação dos interventores. então. mais sua ação será limitada a certos grupos. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização.

mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. com outras relações. do desejo da alienação etc. da mulher. 2.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. eles desabarão. Isso é compreensível. eles se preparam para uma vocação de mártir. 234 . mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. 3. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. por seus gestos. em um soberbo isolamento psicótico. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. Quem quer conhecer a dúvida. Aparentemente. sobretudo. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. que assim buscam empreender atos significativos. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. um maior controle consciente. então. não a desejam com freqüência para si mesmos. comunicações melhores e. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. efetuado por eus fortes. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. a demanda acaba. em uma sociedade tecnocrática. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. ser retomado. o que nos parece mais importante. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. Um dia.Enfim.

Le paradigme perdu. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Le Seuil. Serge. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. Cf. Cinco lições de Psicanálise. Connexions. 1974. Le Seuil. FREUD. Seuil. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. TOURAINE. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. Points. 13. C. caracterizadas. Na primeira meditação. E. enunciadas. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. o Eu tudo destrói. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . descritas. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Le Seuil. cf. do sonho e do gênio maligno.-M. Connexions. LECLAIRE. 1974). p. repentinamente. Em Lip. eles disseram: “mas era apenas isso!”. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. “Points”. Segundo J. FOUCAULT. recalcamento e repressão em organizações. E. La nature humaine. refoulemente et répression dans les organizations”. CASTORIADIS. Pour la Sociologie. 1975 (Mata-se uma criança.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. ENRIQUEZ. M. 1972 (Imaginário social. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. 137-159. Gallimard. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. n. 1977). MORIN. Topique. 1976. Piera. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. cujos signos. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. On tue un enfant. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Eugène. no 3. 17. L’institution imaginaire de la société. Epi. “Imaginaire social. por Marília Novais da Mata Machado. CASTORIADIS-AULAGNIER. não caem nesse erro.” Le sauvage et l’ordinateur. Les mots et les choses. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. Paz e Terra). DOMENACH: “Para não ser destruído. Rio de Janeiro: Zahar. essa abertura profunda na superfície das continuidades. A. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. meus conhecimentos e habilitações. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. justamente. justamente. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. 242 . Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. abordando concomitantemente o sistema. parece importante aos solicitadores. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). dimensões ideológicas. também. firmemente. algumas vezes. não poder sê-lo. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. os fatores geradores do problema. sobre a maneira como se afastou do previsto.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. os atores envolvidos. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. Ao mesmo tempo. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. mas tomo iniciativas e faço propostas. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. mas pode. hipóteses. de preferência. que pode ser feito fora de um universo técnico. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. a examinar princípios. Caso um apelo seja feito a mim. além disso. Ao mesmo tempo. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. Assim. em excesso. isso se dá. sua participação no trabalho. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. a partir de um determinado momento. numa dada situação concreta. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. perspectivas. pode. regras. mas. porém.

para tratá-lo. tal vantagem deve ser abandonada. no final desse artigo. os custos etc. então. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. formas de autoridade. um objeto de trabalho. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. tamanho. O modo de estruturação do processo pode se tornar. a seguir. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. em função do campo no qual elas aparecem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. os fenômenos de moda. em si mesmo. rapidamente. então. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. tornar mais inteligível. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. a natureza dos objetos. tolerância à diferenciação. não apenas objeto de trabalho para os participantes. tentar. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. constituindo. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. princípios estratégicos. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. ecologia etc. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. por exemplo. tolerando apenas uma gama restrita de variações. Cada uma comporta pressupostos. na determinação das técnicas. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. Poderíamos. É nessa perspectiva que é preciso. então. 243 . Evocaremos. as funções externas almejadas pelos atores. suas orientações teóricas. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura.). a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). os recursos da equipe de consultores escolhidos. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. Porém. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. as propriedades do sistema (grau de centralização. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais.

por exemplo. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. B. em especial. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. em algumas práticas. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. isso se passa sobretudo porque. COCH e FRENCH). MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. nas de TOURAINE. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. depois de LEWIN. Quanto às estratégias de pesquisa. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. uma origem técnica importante. Entretanto. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. Em seguida. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. de maneira bem menos acentuada. estão as técnicas de pesquisa de campo que. a partir da prática psicanalítica. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. Entre esses dois pólos. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. parece-me. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. na maneira como J. de devolução aos participantes e de interação dos atores. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. GODIN. Algumas vezes. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. 244 . a propensão dos práticos de intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. a observação participante. algumas vezes. bem cedo.

como em outros lugares. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. há muito tempo. o significado das condutas etc. a natureza das resistências. a escolher as variáveis de ação. nas próprias operações das fases de estudo). Igualmente. a atuação dos conflitos. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. em todos os casos. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. a caracterizar melhor as situações. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. Pode-se observar que. produzindo dados válidos. quem reterá as soluções etc. freqüentemente. de fato. que. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. pela encomenda de um estudo “Retrato”. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. quem escolherá as opções. Em todos os casos. ainda hoje. a isolar os objetivos. as razões dos bloqueios. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. é comum. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. é dessa maneira que elas se estruturam. por exemplo. atualmente. no começo. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. quem conduzirá esse trabalho. a identificar os problemas. a origem das disfunções. na França. Em um campo bem diferente. a obra de G. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. os limites desse modo 245 . Entretanto. no papel de especialistas. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”.

Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. . Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. 1980). conseguindo uma solução de síntese ou. de fato. com a apresentação dos resultados. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. por exemplo. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). enterrá-lo. depressão etc. Se muitas intervenções. constróem. a não ser esquecê-lo. ao menos. sobretudo.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. do exterior. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. de caráter mágico. então. O texto de André LÉVY.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. desenvolve muito claramente esse aspecto. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. o inventário. cólera. denegação. . já citado. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. Não se sabe mais o que fazer. um retrato eventualmente objetivo e fiel. escolhe-se. apresentaremos rapidamente três observações: . em especial. por exemplo. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. restaurando a coesão. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. são interrompidas. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. caso se decida reiniciá-lo. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. freqüentemente com espanto. o trabalho de recenseamento.

As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. em outras palavras. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. sobretudo. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. assim. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. como o próprio relatório. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. . da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas.associar todos os parceiros envolvidos. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. pode-se tentar: . e apesar das reservas expressas. correspondentes a atuações mais modestas. parece-me. o debate. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração.preferir. o que provoca aumento dos temas de estudo. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. por categoria de ator etc. adiamentos de realizações importantes. mas repensar essa lógica (por exemplo. . às relações elaboradas e conceituadas demais. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. a perlaboração. chega-se. os critérios de cientificidade: validade. 247 . então.fracionar a investigação (por tema. De meu lado. pertinência. durante o trabalho de análise da demanda. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. algumas vezes. com o trabalho sobre os resultados. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. a uma solução que exige uma equipe e. eles me parecem.

cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. em seguida. na qual. em diferentes lugares da sociedade). todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. em um plano concreto. na Glacier Metal Company. numa escala pequena. a uma perspectiva de intervenção. com muita freqüência. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. nessa segunda categoria de origens técnicas. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. De uma maneira geral. porém. evoluiriam. traduzido para o no 3 de Connexions. as práticas de formação. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. apresentam-se como a aplicação simples. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. o artigo de E. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. JAQUES. Passar-se-ia. sobre a possibilidade de contorná-los. é necessário lembrar que. TRIST. social analysis. 1972). Logo. de uma perspectiva de formação. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. os grupos. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. de 1948. a partir de 1964. algumas vezes. assim. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. adquiririam novas propriedades. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. de aperfeiçoamento e. a fim de que elas mudem”. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar.

de reforço ou de treinamento em métodos ativos. MENDEL e sua equipe.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. especialmente. em seguida. nos quais a ARIP interveio. essa evolução. jogos de simulação. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. em pedagogia institucional. inscrevendo-se. de se diversificarem em função da natureza das demandas. consistia em transpor. LÉVY e. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. C. ROUCHY e E. grupos de análise de prática profissional. ao mesmo tempo. o movimento de democracia industrial. KAES). Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. conceberam diretamente. ANZIEU transpôs. Evidentemente. G. ao contrário. a importância da referência à Psicanálise. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. em pedagogia do projeto. não pararam. na França e em países estrangeiros. 1972). Mas se. tecnicamente. no 1 a 10. passando pelos estudos de caso. o que representaria. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. Payot). ENRIQUEZ consideram. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. C. por exemplo. ROUCHY. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. J. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. utilização da autóptica. no plano teórico. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. no plano organizacional. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. na empresa Geigy. sua prática de psicodrama analítico. as intervenções que se seguiram. para o seio da cúpula. D. a fortiori. ao mesmo tempo em que se reforçava. se quiséssemos ser menos esquemáticos. das estruturas de organização. Sociopsychanalyse. A. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e.

mais racional e menos caro. então. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. ao mesmo tempo. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. De uma maneira geral. no espaço organizacional. Além disso. é a descentralização. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. na medida em que instituir. a palavra de ordem. os meios de verificar a validade das hipóteses. as que se nutrem da formação surgiram. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. freqüentemente. da facilitação e. o risco. Evidentemente. entre os próprios serviços de uma organização. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. é necessário providenciar a formação do responsável local.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. estágios existentes fora dela. durante um tempo que pode ser apreciável. em especial. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. desde há algum tempo. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. esperando-se que se aumentará assim. irrelevante. 250 . localmente. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. de acompanhamento ou dinâmica). é mais rápido. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. da regulação (hetero – ou auto –. a mudança social desejada. é que se engane sobre a causa das dificuldades. Com efeito. forçosamente. Enfim. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente.

de um lado e de outro. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados.. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. os solicitadores. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. confrontá-la à dos outros atores. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. Ainda assim. os consultores. além disso. A competência de um interventor. Um meio técnico (que. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. Paralelamente. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. de uma maneira progressiva. então. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. primeiro. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. Esse risco pode ser reduzido apenas se. ao desempenho eficaz da prática de formador. do qual se espera a responsabilidade. Tal dispositivo técnico é insuficiente. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. evidentemente. manter essa dimensão presente durante todo o processo. entre os dirigentes. tal risco. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. em assegurar “suas tarefas”. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. descobrir. na elaboração dos programas. aliás.

em resposta ou não a um apelo. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. em data. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. um sistema e seu problema. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. numa crítica aos limites do staff and line.. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. Sem poder preparar aqui tal reflexão. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. 252 . é incapaz de obter uma verdadeira evolução. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. Por exemplo. de agentes de comando ou de pessoal de execução. dois atores ou diversas instâncias em interação. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. um grupo.. o desenvolvimento técnico e científico. em problemas de remuneração etc. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. as estruturas internas das organizações se complexificam. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. Porém. Ela compartilha. e não em técnicas de ação formadora de diretores. Entretanto.) –. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. afetando a estrutura e as instituições internas. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. a convicção de que as condutas das pessoas. é interessante observar que. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças.

Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. mas. Então. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. no fim dos anos 20. de defesa ou de negociação. nos conflitos entre direção e sindicatos.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. Em países como o Canadá. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. existem. renovando-as. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. em Nova Iorque. enriquecendo-as. L. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. 253 . evidentemente. ALINSKY. eventualmente. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. os “organizadores de comunidades”. sistematicamente. No campo das empresas de produção. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. vir a substituílas completamente. assim. durante os motins do Harlem. freqüentemente. progressivamente. Mesmo a história da intervenção de E. o sociodrama. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. são chamados. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. TOURAINE recorre também. retomaram. os psicossociólogos. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. a práticas de debate. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. por exemplo. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. como o sociólogo S. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. J. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. Mais recentemente.

como por exemplo no campo da imprensa escrita. Embora não ilustre especialmente esse risco. de alguma forma. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. concurso de segurança) etc. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. social). das lutas militantes etc. da polícia. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. difusão das estatísticas de acidentes. as prescrições) e funcional (no campo técnico. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. tanto no plano material quanto no legal. os dispositivos de proteção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. em conseqüência. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. então. de propaganda. educativo. Da mesma forma que. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. de formação. de estudar as instalações da fábrica. de organizar as ações de inspeção. No começo. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. Parece-nos que. para a primeira origem. da magistratura. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. apenas. para a terceira. de sensibilização (por exemplo. há uma 254 . das relações pastorais. para a segunda. e que. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. a toda especificidade. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. de fato. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. as oportunidades. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. Entretanto. e renunciar. audiovisual.

no começo. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. concomitantemente. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. por uma intervenção psicossociológica. No fim desses dois dias. propor as medidas. produzir os diagnósticos. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. No caso da intervenção psicossociológica. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. pessoal de execução). Uma vez estabelecida a composição. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. fundamenta-se também. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. de segurança e de condições de trabalho. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. ou por uma intervenção apenas formadora. evidentemente. por exemplo. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. gerentes. geralmente. então. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. evitase. Os confrontos entre atores (por exemplo. contramestres. em outros países. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. De acordo com os resultados. Uma abordagem mais recente. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. algumas vezes desenvolvendo.

todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. Como no caso anterior. em teoria. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. então. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. Ela permite. em especial. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. de múltiplas forças antagônicas).Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. instituídos pela lei Auroux. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. Em relação ao processo das intervenções precedentes. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. decisivos. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. tal 256 . produz uma frustração muito forte no ator. entre outras coisas. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. ligada às diferenças de status e/ou de poder. estende-se numa duração que se mede em meses. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. a intensidade emocional mais forte. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. A última negociação consiste. a ponto dele renunciar. Porém. para nós. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais.

entretanto. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). para guiar a análise. Em outros termos. mas também em encontros do mesmo estrato. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. Tais requisitos. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. Por isso. sempre pluridimensional. evidentemente. uma importância acentuada. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. aliás. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. Escolher. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . tecido com fios múltiplos. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. ancorar. sem dúvida. elas não dependem apenas da técnica. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. e. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. tal metáfora. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. mas têm. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. Enfim. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. bem cedo. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. senão à primeira. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). aqui. evidentemente. está. em todos os níveis. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. por exemplo. Está claro também que.

Nem ciência nem tecnologia. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. com o tempo. filtrar com segurança um objeto teórico. a mim. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. por si só. retomando a distinção de PALMADE (1977). enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. Com efeito. sem chegar a lhe dar um molde. antes. permitindo isolar. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. elas seriam. do terapeuta. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. as escolhas iniciais arriscam. capazes de contribuir em processos de pesquisa. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. ela me leva. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. o interventor é um clínico. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). depois de dez ou vinte dias de intervenção. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. para o pessoal de um estabelecimento. enquanto pesquisador. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. fundamentar tal distinção. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. Assim. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. mas. do gerente ou do político. em cada momento. Não é fácil. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). enquanto dispositivo de inserção. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. quer esteja empenhado. no entanto.

o comércio. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. Entretanto. os movimentos sociais ou culturais etc. tais acontecimentos podem inspirar outros e. a administração. sem subterfúgios. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. na literatura especializada.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado.. adquirir um sentido menos restrito. para mim. no começo desse artigo. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. o mesmo se passa. A inserção na universidade. sua identidade social e a natureza de seu projeto. em função do campo social em que aparecem. por certos setores da sociedade. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. os espaços urbanos. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. assim. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. Por outro lado.). malgrado sua fragilidade no tempo. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. para os atores. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. seria natural levantar tal hipótese. os setores de saúde. a invenção de instituições locais (por exemplo. de maneira mais ou menos difusa. Porém. pode-se observar que. e se surgem conjunturas favoráveis. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. analítica. importantes sob esse ponto de vista. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. 259 . por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. Anunciamos. analisar e experimentar as vias de democratização etc. Enquanto atores sociais. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. podem-se encontrar.

pode-se aplicá-la a outros campos.). de dependência hierárquica. a estruturação dos papéis recíprocos. até um determinado ponto.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. 1987-l. não coincidiriam. com o que se observaria em outros lugares. ainda. os resultados quantitativos estabelecidos por C. o espaço urbano). .Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. p. Notas 1 Traduzido de DUBOST. necessariamente. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. Porém. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. . 2 260 . de colaboração profissional. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. poder. a divisão do trabalho. ROUCHY chegou. voluntária ou militante etc. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. as conclusões às quais J. MARTIN em uma pesquisa recente.T.-C. 7-28. nesse número. sua própria experiência no campo da saúde. autoridade. Connexions. por Marília Novais da Mata Machado. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. posição central ou periférica etc.).as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. Por exemplo. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. evocando. Jean. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. . 49. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos.). DO – Desenvolvimento Organizacional (N. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. .

A. 1987. 1977. L’enquête participation en question. 1986. PALMADE.-C. 1980. Paris: Anthropos. Interdisciplinarité et idéologies. J. G. In: L’intervention institutionnelle. Paris: PUF.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. 1981. 1972. “Une intervention psychosociologique”. G. ROUCHY. Paris: Payot. 3. 261 . LE BOTERF. C. J. L’intervention psychosociologique. Paris: LFEEP. La Documentation française. Connexions. Les recherches-actions sociales. LÉVY. Théories et pratiques de l’éducation permanente. MARTIN.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .com. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.com.autenticaeditora. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. fax.

o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. finalmente. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo.autenticaeditora. os ‘intemináveis adolescentes’. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. grupos religiosos etc. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. etnias.br 0800 2831322 . o triunfo da racionalidade experimental.com.“Quais são os problemas realmente essenciais.

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