Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

............................................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez................................................... 237 6 ................................................... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost................................................................ 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost....................................................................................................................................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy....Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS.............................................................................................. MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï............ 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D.......... Benevides de Barros............................................................................................................................. 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï........................................

juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. Por tudo isso. a economia. por meio da “intervenção psicossociológica”. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. tal como no momento da primeira edição. da organização e do funcionamento social. cada vez mais utilizada. quanto para os que praticam a psicologia. Desde a primeira edição. reais. sociólogos e um economista. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. a psicanálise. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. o campo da psicossociologia cresceu. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. o direito. fruto do trabalho de psicólogos. bem conhecida e divulgada no Brasil. prático e metodológico. dispositivo de consulta e pesquisa. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. esclarecedoras dos processos de criação do social. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. Junho de 2001 Os organizadores 7 . tornou-se ainda mais importante. À metodologia de intervenções/pesquisas. a sociologia. a educação. cuja história é nele revista e avaliada. este livro. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. a administração e a política. Assim. hoje. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. organizações e comunidades.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. A partir dos anos 50. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. o pesquisador-prático. isto é. se revelassem. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. Em conseqüência. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. são o objeto de pesquisa. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. Atuando diretamente na vida dos grupos. até então desconhecidas. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. igualmente. das organizações e das comunidades. grupos. 9 . os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. a metodologia de pesquisa-ação. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. em especial. que condutas. por sua presença. Portanto. empregando para tanto. com as instâncias de mudança. em seus grupos. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. no quadro da vida cotidiana. inicialmente. organizações e comunidades. geridos e transformados. as condutas concretas dos indivíduos. Passaram a se preocupar. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. freqüentemente através de experimentos. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. fez aparecerem certos problemas. Por meio dessa abordagem. reflexão e análise dessa disciplina.

contra esse pano de fundo. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. mobilizados por ilusões e crenças. da organização e do funcionamento social. Porém. hoje ela se renova. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. dos desejos de onipotência e dominação. ENRIQUEZ. a mudança social (A. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. com suas mudanças e rupturas. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. mesmo que involuntariamente. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. torna visível a presença do sujeito social. pouco a pouco tecido. Ora. nos termos de E. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. de onde e como surge a dinâmica social. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. que é também um ato de palavra. pois a teorização é fruto da reflexão que. é formulada uma teoria. por um ato de decisão. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. do trabalho da pulsão de morte. e serem criadores da história. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. sujeitos capazes de serem autônomos. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. aptos a um “imaginário motor”. e do processo de criação institucional. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. 60 e 70. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). DUBOST). no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. LÉVY). a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. que 10 . são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. Paulatinamente. adquire um sabor de novidade. NICOLAÏ). do socius. idealizando e buscando destruir seus chefes. sempre inacabada. de transformações nos sistemas sociais (A. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. sujeitos que.

de suas fantasias de onipotência.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. Assim. J. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. é analisada. são analisadas novas ideologias. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. está presente em quase todos os textos. formuladora de grandes quadros teóricos mas. LÉVY. DUBOST. de suas demandas de amor e proteção. André LÉVY e André NICOLAÏ –. assim como novos sagrados e certezas. Eliana de Moura CASTRO. ARAÚJO. assim como. ROEDEL). CARRETEIRO. enfim. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. MATA-MACHADO). os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. entretanto. a respeito das suas representações historicamente constituídas. E. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. Política. BARROS. o pensamento filosófico de C. Os autores – Jean DUBOST. Eugène ENRIQUEZ. práticas de intervenção mitificadas. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. de ARAÚJO. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. o desenvolvimento de um processo organizacional. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. CASTRO. Assim. autopoieses. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. TOURAINE que. 11 . auto-organização e complexificação a partir do ruído. estruturas dissipativas. A. mas também de outras referências. da MATA-MACHADO. nestas páginas. B. aqui e ali. formadoras das sociedades atuais e futuras. de BARROS. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. T. M. a condição de construção da vida social. são apresentados nesse livro por Marília N. S. Sonia ROEDEL. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. relações de poder e autoridade. Sociologia. CASTORIADIS. José Newton G. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. Psicologia Clínica (J. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. como sistemas dinâmicos.

LÉVY. . com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. distribuídos em três partes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. BARROS. cobrindo questões atuais. sofreu modificações. de um projeto pessoal e familiar. CASTRO. CARRETEIRO). ARAÚJO. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. ARAÚJO. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. NICOLAÏ (mimeogr. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. MATA-MACHADO e S. a disciplina que os congrega. ENRIQUEZ). NICOLAÏ) – mas. Paris XIII (A. ENRIQUEZ. 1990-1. ENRIQUEZ. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. a Psicossociologia. Paris X (J. Paris XIII: M. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). ROEDEL). E. LÉVY). estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). LÉVY (mimeogr. Inicialmente. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. MATA-MACHADO – Psicologia Social). ENRIQUEZ) e Economia (A. 1991. primeiramente. ENRIQUEZ. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção.). no Brasil.Em segundo lugar. na França. 1990. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. mutações e complexificação em economia” – A. T. MATAMACHADO). a partir do exame de uma centena de textos. Além desse território de pesquisa. NICOLAÏ. especialmente. resultando em treze textos. CASTRO – Psicanálise. NICOLAÏ). CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. textos recentes. “A interioridade está acabando? – E. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. “O fanatismo religioso e político” – E. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J.Foram escolhidos. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. Essa primeira proposta.). mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. ROEDEL. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. Assim. T. feita em novembro de 1991: . 1989. DUBOST. M. “Rupturas. na empresa. 1990-1. A. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. em função do mencionado convênio. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção.

1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. apresenta a intervenção. algumas aterrorizantes. a última tradução foi preferida. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. através da análise etimológica. Por exemplo. E. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. de atividades e produções criadoras. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. NASCIUTTI para o livro de E. DUBOST. o grupo e a questão da mudança. Seus nomes aparecem. em cada texto. MATA-MACHADO. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. 1976. Mais de uma dificuldade de tradução. 1980. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. preferiu-se “fantasia”. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. à Psicossociologia e à Psicanálise. certamente refletindo posturas teóricas diferentes.Em terceiro lugar. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. “forclusão” ou “preclusão”. DUBOST. mantendo-se a tradução utilizada por T. As traduções foram revistas por J. 1987). Psicanálise do vínculo social. a apreensão de seu sentido original. ARAÚJO. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. Por exemplo. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. respectivamente. finalmente. “Intervenção como processo” – A. mantiveram-se termos como “fantasmático”. CASTRO e M. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. contudo. editado por Jorge Zahar. ENRIQUEZ. LÉVY. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS).Prefácio desejo” (A. CARRETEIRO e J. para designar 13 . optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. . em maior ou menor grau. Buscou-se uma certa uniformização. foi objeto de discussão e comparação. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. na primeira nota de rodapé.

a critério do tradutor. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. a palavra investigation. essa foi a escolha.“relativo a narciso”. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. nosso primeiro leitor. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. expressão bastante usada em português. para a palavra enquête. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. Finalmente. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. na expressão méthodes d’investigation. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . foi igualmente traduzida por “pesquisa”. entretanto.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. aquilo que lhe cai nas mãos. Cabe. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. O sujeito que não “morreu” A. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. desde o início. Ao apresentar tais artigos. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. Mas não poderia ser diferente. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. visto que todo leitor recebe. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 .ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade.1 Pois bem. a idéia de um “eu”. no entanto. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. LÉVY e E. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito.2 . No entanto. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. à sua maneira. preenche ou interpreta. Eles descartam. no enfoque psicossociológico.

”. suas relações próximas e regulares. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. vemos que o “indivíduo” é. já na virada dos anos setenta. No texto de A. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. antes de tudo. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. notadamente através da teoria lacaniana.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. mesmo na França. nas décadas anteriores. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. por exemplo. LÉVY. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. não estariam restritas. um átomo talvez.6 Isso é claro para os autores. entre nós. a empresa-família é anterior ao sujeito. convém observar que. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. nos artigos aqui apresentados. Assim. por exemplo. a família. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. entre outras coisas.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. a chamada “sociologia do cotidiano”. E. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. o da Psicanálise. nos parece em parte negligenciada. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. A esse respeito.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. ela é 18 . Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. o ofício ou o produto. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva.. um ponto de passagem. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra.. no conjunto das discussões sobre o sujeito. os autores caminham numa direção que. ligada a uma prática clínica.

a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. O primeiro é aquele que se agarra. sua constituição “plural” ou coletiva. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. Ele destaca ainda. fanatismo de empresa etc. narcisismo social. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. enfim. isto é. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. ENRIQUEZ retoma essa posição. LÉVY nos lembra. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. narcisismo grupal. as relações sociais. além de desempenhar. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. daí a ilusão da identidade pessoal. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. um papel essencial nas transformações sociais”. por exemplo. segundo os autores. Assim sendo. espírito de empresa. as significações das ações”. Importante ainda. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. tenta transformar “o mundo. Desse modo. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. mas que reenvia. sempre imprevisível. identidade coletiva. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. 19 . num crescente alienar-se. através de FREUD. antes de mais nada. A.” De outro lado. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. “no momento em que falamos. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. “às vezes sem sabê-lo. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. pois este. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. quem está falando e por que falamos dessa maneira”.

sentimento de “sermos portadores” da verdade etc.9 composto por militantes islâmicos negros que..Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. no início de 1993. religiosas. como a intolerância e o fanatismo. os judeus e. algum tempo após as notícias. cabem algumas observações. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. árida novidade. outras idéias. estamos falando de mecanismos inconscientes). Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. Assim. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. científicas etc.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. os nordestinos.” 20 .) deve ser eliminada. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã.. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. outras propostas políticas.. científico ou outro qualquer). E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. A essa altura. religioso. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. mas que tentam ainda se expandir. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. tentando eliminar dele os negros. Assim. mas exemplar. em diversos momentos. mas sim os processos de idealização. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. como se tinha notícia até pouco tempo. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. pois ela se torna uma ameaça. esportivo. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. amor (ou cumplicidade?) mútuo. como um fenômeno “periférico”. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. ilusão e crença. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central.. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. além da sua. xenofobia. Basta lembrar.

Gostaríamos de lembrar. ele desconhece também. seja num grupo democrático. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. contrapor as noções de sujeito e interioridade. em níveis talvez menos contundentes. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. resvala necessariamente para a intolerância. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. a eterna questão do sentido. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido).Análise social e subjetividade Aliás. às vezes. noção de origem literária e filosófica. num clima onde toda crítica está ausente. cada sujeito está perseguindo. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . isolada e coletivamente. no Sul do Brasil. nosso time de futebol. Poderíamos. seja num grupo intolerante. infantilizando os “fiéis”. por analogia. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. E. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. O que se torna problemático. Em outras palavras. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. rapidamente. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. a ação grupal deve cobrir um vazio. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. já de início. nossa “seita” de comedores vegetarianos. sejam elas brancas ou negras. nosso partido de direita ou de esquerda etc. Enfim. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. ela deve ser doadora de sentido. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. nosso grupo body-building. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma.

o que é pura duração. por ser da ordem da especialização. pois. questionamentos. íntima. A questão do espaço. quase que imediatamente. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. A compreensão da interioridade é. em oposição ao vazio: trata-se. que não é recente. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. parece haver uma tendência. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. interrogações e que. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). é ‘uma terra estrangeira’”. Aliás. A interioridade. BERGSON. segundo o autor. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. para ela. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. na Filosofia antiga. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. A interioridade remete. Se esse sentimento nem sempre existiu. é numa relação espacial que ela se inscreve. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. vítima de ataques. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. onde ninguém tem o direito de penetrar. Talvez seja. Por outro lado. em se pensar espacialmente. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. 22 . sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. pois.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. Só o ser existe e ele é cheio. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. ameaçado de extinção. alegria. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. na esfera psicossocial. Para ele. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. à alternativa interior x exterior. num certo sentido. foi discutida em termos do cheio. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. a não ser por arrombamento. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. ele existe atualmente e está. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão.

Há. a identidade própria. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. temos de falar nos órgãos dos sentidos. diferenciando o interno do externo. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. diz FREUD. O ter é ulterior. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. meio de se situar no mundo. unidade e similaridade. foram abaladas pela Psicanálise. Limite e superfície privilegiada de estimulações. Assim. ao que marca a diferença. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. refletindo a si mesmo). eu não sou. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. Existe. isto é. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. Dito de outro modo. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. As idéias de permanência. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. na época atual. a pele se liga à formação do eu. depois da perda do objeto. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. isto é. Já a identidade marca a diferença. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. Um corpo dinâmico (isto é. o que se vê por fora é um reflexo do interior. considerando o 23 . O culto exagerado do corpo. bonito. porque especular. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. capta os estímulos exteriores e também os internos.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. separada. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. saturada de comunicação. denotadas pelo termo identidade. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. A percepção do espaço remete à visão. ela é capaz de dizer: eu tenho. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo.

enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. e como bem captou ENRIQUEZ. Em outras palavras. oferecer uma resistência passiva. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. isto é. só podendo. já dissemos. 2 24 . de outro lado. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. é passiva. em outros termos.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. do outro que eu sou. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. E o mais importante. pois. quer como conceito psicológico. Ele diz. Por isso. Afinal. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. naquilo em que ele é diferente do outro. Assim. que todo texto é um tecido de espaços em branco. Notas 1 Humberto ECO. a interioridade considerada. por ser essencialmente espacial. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. feitas pela religião. quer como sentimento pessoal. isto é. Finalmente. ao eu e muito menos ao sujeito). As propostas absolutizantes. O oculto. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. ARAÚJO. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. é certamente desprovida de energia ou. em sua obra Lector in Fabula (trad. se tornam assim mais claras. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. nenhuma leitura é um ato neutro. no campo da argumentação psicossociológica. entre outras coisas. pela empresa ou pela sociedade. francesa Grasset.

além de serem historicamente contestáveis. vol. não passavam de “mero detalhe”. face às estruturas e aos sistemas”. p. p. In: Bulletin de Psychologie. fez reaparecer o sujeito. 1983. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. reportagem da revista Isto É. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. SELLIER (cf: Le mythe du héros. P. P. p. G. senhor de si e do universo e como se. por isso mesmo. Cf. tomo XXIX. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. uma editora de propaganda nazista. nas quais o Sr. soberano. na Biblioteca Nacional de Paris. De outro lado. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. em seus níveis mais profundos. Paris: Gallimard. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Paris: Bordas. mais perto de nós. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. O autor evoca J. em seu número de 1º/12/93. em nível individual. como um instrumento terapêutico. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. 5-12. Paris. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. Cf: ANZIEU. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . p. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. 29-31) afirma que. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). Paris: Gallimard. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. Paris: Dunod. de 28/04/93. P. (Cf: ANSART. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. cit. 1975-1976. “Essai d’identification du quotidien”. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. Observação semelhante já fora feita.. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op.Análise social e subjetividade 3 Cf. n. 445-449). D. 1970. LXXIV. Essa mesma revista. 13). não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. Assim. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. Lembremos. principalmente após as recentes eleições da Rússia. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. Conseqüentemente. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. nessa mudança. o culto à figura de GUEVARA... na América Latina e mesmo na Europa. p. 50-53. JIRINOWSKI saiu vitorioso. líder da extrema-direita francesa. Para ele. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. 1984. por Jean-Marie LE PEN. 322. alguns anos atrás. BALANDIER.

1976. 42. (Cf: FONTANA (A) et al. Paris: Dunod. S. ver: FREUD. Buenos Aires: Editorial Vancu. ss.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. Paris: PUF. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Le moi-peau.) 14 Cf: BERGSON. semelhante à vivência intra-uterina. 68. 1985. p. 15 16 26 . Além do princípio do prazer (1920). ANZIEU. 1967. XVIII vol. Essai sur les données immédiates de la conscience. 1977. 120 ed. p. Rio de Janeiro: Imago. El tiempo y los grupos. Entre outras alusões a essa questão. H. D.

como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. No momento atual. 27 . ao invés. De minha parte. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. LAGACHE. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. em maior ou menor grau. do sujeito. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. só se fala do indivíduo. assim. que decidi me manifestar. mesmo sem dizê-lo. ALTHUSSER). pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. Com efeito.2 A razão é simples: como muitos outros autores. pois. por outro lado. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. um determinismo absoluto dos processos sociais. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. No entanto. O indivíduo torna-se. um ser agido. como psique. sua classe ou sua raça. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. do aumento do individualismo. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. que nega a interrogação de D. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. É contra essa tendência reducionista. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. Seguindo essas abordagens. um ser falado. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. em grupos e organizações. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. por um lado.

ao mesmo tempo. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. porque toda sociedade comporta falhas. a anterioridade dos processos sociais. sua conduta. Nessas condições. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. ou de um Deus único. Em outras palavras.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. em parte inconscientemente. em parte. portanto. num lugar-tela. conduta estruturada social e culturalmente. CASTORIADIS. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. em uma etnia. conformados a seus votos e a seus ideais. logicamente. que pode tomar a forma de totens. zonas inexploradas. quer seja por Deus – BOSSUET. Freqüentemente. ir muito longe nesse sentido. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. BURKE. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. é preciso pressupor. já que nascemos sempre em um grupo. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. em parte voluntariamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. a cada homem. isto é. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. DE MAISTRE –. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. uma cultura. mas deixassem também. Não é necessário. que lhe deu direito à existência. para retomar a terminologia de C. tendência a só produzir indivíduos heterônimos.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. em uma nação etc. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. Uma tal sociedade heterônima tem. em uma classe. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. ela própria. de antepassados e de Deuses. numa sociedade que é. além disso. Nessas condições. no entanto. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. “a possibilidade de saber que alhures. portadoras de 28 . De fato. heterônima. Essa emergência acontece.

Mas. contra a vontade da massa. outro um novo tear. a trocar sua natureza pela de um térmita. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. às vezes. se põem a acumular riquezas. desde a Revolução Francesa. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. fanático. um papel essencial nas transformações sociais. um discurso dominante. por mais totalitário que seja. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas.7 Quanto ao indivíduo humano. Além disso. ignorando soberanamente a ideologia dominante. pelo menos de imediato e. apoiando-se nas funções corporais. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. às vezes. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. ele também só é parcialmente heterônimo. não se pode esquecer que o discurso. Reis continuam a se 29 . Deve-se. a médio ou a longo prazo. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. em pessoas e grupos sempre diferentes. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. Notemos que as sociedades modernas. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. desde a Renascença e. como evocava FREUD. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. até mesmo se choca. Elas se tornaram. como dizem FRITSCH e PASSERON. sobretudo. sem sabê-lo. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. em certos casos. não a um contra-discurso organizado mas. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. Embora exista. portanto.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. mesmo sem percebê-lo. em toda sociedade. Alguém inventa uma máquina a vapor. de maneira invisível. seja lá por que modo.8 Enfim.

Assim. os processos sociais. seu tempo. vencedores que querem ir até o fim. se os processos psicogenéticos pressupõem. a vitória nunca sendo definitiva. o elemento esportivo predomina. é. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). mas é o homem da performance mensurável. Assim. performance sempre a recomeçar. objeto de tantas preocupações. cada um deve ser criativo à sua maneira. a individualização. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. da sua organização. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Se cada um deve manifestar sua singularidade. “matadores frios”. O winner sempre pode se tornar o looser. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. mais freqüentemente. Ele deve gozar com essa renúncia.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. Ao contrário. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. então. em nossa época. sempre imprevisível. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. como sublinha CASTORIADIS. ela pode ser bem efêmera. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. De fato. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). do seu serviço. Nessa ética. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. No entanto. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. apenas um elemento do processo de massificação.9 Assim.

na maioria das vezes. financeiras ou de prestígio. a justificá-lo”. características de um esporte.10 Assim. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. o “culto da empresa”. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. Admira o pensamento que ele não concebeu. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. em vez de admirar o que ele concebeu. a se associar a paixões puramente agonísticas. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. os que W. atrás da força e da grandeza de outros homens. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. Nos Estados Unidos. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. Ele atinge. quando se fala do indivíduo. onde seu paroxismo predomina. um novo ritual. ou ainda. posições de poder.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. O “zé-ninguém” está sempre. nas universidades. hoje em dia. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. 31 . igualmente.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. mas que. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. REICH. a busca da riqueza. naquele tempo. aqueles a quem chamamos vencedores. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. nos hospitais. para depositar seu destino nas mãos dos outros. em geral. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. tende. o indivíduo renuncia. mas não se orgulha de si mesmo. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. o que lhe confere. assim. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. designava por “zé-ninguém”. igualmente. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. além disso. desvestida de seu sentido ético-religioso.

eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. nós próprios nos tornamos admiráveis. médios ou pequenos homens. Em outras palavras. sempre ameaçador). é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. agora bem conhecido. assim. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. apresentando-se como objeto maravilhoso. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. Resta-me. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. às vezes. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. aderir profundamente às injunções sociais e. o que devemos fazer e como seremos recompensados. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. é. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. Além disso. correndo um mínimo possível de riscos. A idealização é.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. de repressão e de adesão. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. apoiado 32 . Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. depois de descrever esse fenômeno. então. portanto. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. o mundo criado não é contestável. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. ser um agente ativo desses processos de recalque. para existirem. reprimir suas pulsões.

um proletário. um budista. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. está cheia de perigos. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). de fato. ideais vazios e desprovidos de sentido. que sentido pode ter ganhar por ganhar. De fato. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. A identidade coletiva favorece ainda. G. o narcisismo social. como mostrou FREUD. contraditórios. uma massa maior de homens. produzir por produzir. que tem como efeito “unir uns aos outros. é imputar os problemas ao outro. graças a esse jogo identificatório. dificilmente. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. ao nosso “nós”. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. 33 . a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. (Com efeito. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. freqüentemente.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). Se somos apenas um espartano. eles suscitam a aceitação ou a identificação. tem como futuro possível a xenofobia. da sedução ou da obrigação]. através desse processo.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. A identidade coletiva. é se voltar ao grupo de pertinência. um capitalista. estamos divididos e angustiados. graças a identidades coletivas fortes. o fanatismo. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. estamos perto de não ser absolutamente nada e.13 Reencontrar a coesão. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. É necessário precisar esse último ponto. os ideais são múltiplos. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. nas quais. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. sem se dar conta de que. o racismo. consumir por consumir?) Ora. Vivemos em sociedades nas quais. de simplesmente não ser. portanto. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos.

na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. por mínima que seja. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Vê-se. O indivíduo individualizado (e não individuado. nos lugares da vida cotidiana. tem como projeto voluntário. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. reproduzir. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. não pode ser considerado como sujeito humano. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. quanto mais a identidade coletiva existe. Para definir criatividade. 34 . a individuação estando do lado da constituição do sujeito). Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. bem como da tranqüilização narcísica. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. a sua conversão. as relações sociais. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. O sujeito é um ser criativo. em suas relações sociais de todos os dias. as significações das ações. seres a eliminar. Não podemos. que. em sua vida de trabalho. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. Quero simplesmente dizer que cada um. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. quanto mais uma cultura se quer unificada. a respeito de qualquer tipo de problema. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). portanto. ao menos. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. Tal indivíduo só sabe repetir. bem entendido. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. criança. o indivíduo singular. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. Com efeito. no entanto. daí. portanto.

aquela única que conta – a criação enquanto gênese. um ser capaz. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). ela está presente em quem faz. ludens e viator. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. voluntariamente. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. ao mesmo tempo sapiens. de repente. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. Os artistas não se enganaram a esse respeito. que sente prazer em respirar. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos.. uma novidade irredutível. não ao charco das alegrias imortais. antes que ela se fixe em natureza morta. homem portanto de sabedoria e loucura. levo a sério. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. aqui e agora.. o nascimento. demens (objeto da hybris). é ainda pior. é a formação. chegarás. o primeiro movimento indistinto da matéria.. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. em compensação. imobilizada. e que o mundo possa testemunhá-la. respirando a plenos pulmões um ar salubre. não na escola!. em seus Conselhos a um viajante. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. portanto. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. quanto na inspiração do arquiteto que. do jogo e da vagabundagem. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. E mais se imprime. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. a gestação. em lugar de uma imagem da natureza. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. O sujeito é. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê..O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. meu amigo.

36 . os manipuladores ocupando uma posição perversa. sente-se eleito por Deus. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. um pouco paranóico. portanto. de seus medos. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. assegurando-lhe a redenção. os sedutores ocupando uma posição histérica. pela natureza. para lavar o mundo de sua sujeira. No entanto. Assim. entre os grandes homens. cientificamente. identificado a seu pai. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. O megalômano. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. aliás. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. Michel SERRES. preso na ganga dos ideais. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. em particular o grande homem. depois da guerra de 1914-1918. Com efeito. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. é preciso parar um momento.17 Porém. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. a sua própria alteridade). freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. a esse respeito. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. para realizar uma missão salvadora. atualmente.

que não tinha interesse algum pelos outros. LENIN. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). complexo demais para ser evocado em poucas linhas. que queria dobrar o mundo à sua vontade. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. esse está. crê falar a linguagem da verdade. o povo judeu. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. nem uma força de pensamento e de ação. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. ele se proíbe de ser excepcional. denega a realidade). O teatro é também para ele um terreno de esportes. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. ao mesmo tempo. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. inventando complôs. que toma a si mesmo por ideal). os tecnocratas. como WILSON ou HITLER.21 Assim também HITLER. tem gosto pelo instantâneo. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. Quanto ao manipulador perverso. para isso. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. basta o de STALIN. segundo FREUD e BULLITT. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. 37 . reduz as relações humanas a relações de objetos. a um nível mais irrisório. quis fazer do alemão o povo eleito e. só considera o mundo sob o ângulo econômico. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. como LENIN: ao contrário. recém-saídos das grandes escolas. só pensa em termos de estratégia. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. ao contrário. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga.20 do homem que declarava. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. ou capacidades manipulatórias. por sua vez. que tomou o poder contra os mencheviques.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). é um bom exemplo desses chefes perversos. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. como já indiquei anteriormente. obcecado com a força pela força. caso bem conhecido e.

. Mas.. meus aliados (. um indivíduo sem fantasias. os outros escapam a essa denominação. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. talvez. pois ele promete a qualquer um. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. não tenho dúvidas morais”.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu.).. Mesmo assim. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. como indivíduos perfeitamente normais. como GORBATCHEV. não se torna. nem mesmo na imaginação. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. sem dúvida. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . uma demonstração do possível (. AGNELLI a gente nasce. é possível tornar-se DE BENEDETTI. sem interrogação. Se elas tomarem um grande patrão italiano. Tentarei em outra ocasião.. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. O grande patrão italiano C. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. porque sou. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. de uma normalidade esmagadora. a seus olhos. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. com a condição de ser corajoso. se tiver tanta coragem quanto eu”. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. Em contrapartida. Em outras palavras. AGNELLI por exemplo. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. ele perdeu alguma coisa. ao contrário. Eles se apresentam. Em todo caso.) são as pessoas comuns. mas uma duração realista. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. M.

ele o faz em sua linha. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. fazer advir o sujeito individual.23 Em certo sentido. assim. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. só sabem repetir. São portadores da pulsão de morte. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Eles têm uma influência social inegável. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. no sentido que dou a esse termo. o caráter irrevogável de sua escolha e. pois falta a ambos. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Um ser consistente pode ter dúvidas. FAUCHEUX. ao inusitado. de tudo realizar” (McDOUGALL). insiste sobre essa noção. Se o sujeito evolui. São desprovidos da aptidão à transgressão. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. a recusa de compromisso sobre o essencial. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. mais ainda. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. dos outros. Corre pela vida como em uma auto-estrada. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. favorecer a tomada de consciência de situações reais. Ele não tem projeto. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. em FREUD. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. MOSCOVICI. de tudo desarrumar. assim. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. em sua linhagem. conforme McDOUGALL. É também um homem que demonstra consistência. S. Teríamos. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. reproduzir. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. por outro. mesmo se nada descobre. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. sem falhas. fazer advir o sujeito coletivo. em MARX. Mas ele conserva o mesmo projeto. de se lançar no desconhecido. “que significa. tomar caminhos transversais. E. 39 . por um lado. Mas não são verdadeiros criadores de história. criar seja lá que novidade for. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais.

diante da exigência do todo. como também a provocá-los. delimita também. uma outra exigência e. um grupo ou um Estado. isto é. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. igualmente. criar e sustentar um conflito com a maioria. MOSCOVICI. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. SEGALEN. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). finalmente. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. é que. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. consistência e astúcia andam juntas. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. o exilado. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. a uma identidade coletiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. Para SEGALEN. porque a dispersão. em seguida. portanto. pessoas vindas de outros países. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. Ele é. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. a um Estado. Consistência e furor. quando ela se apresenta. visível e. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. O que é interessante.” O sujeito não é homem de comprometimentos. a ocasião. não pode jamais estar colado a uma organização. provenientes 40 . da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. no momento atual. segundo a expressão de V. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. no entanto. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). para fazer triunfar suas idéias. Aqui não se trata de manipulação. Ao mesmo tempo. souberam conciliar furor.24 O “exota”. consistência e astúcia. interdita a tentação da Unidade-Identidade. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. recentemente republicado. o que não é nada fácil. à dispersão.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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. o homem capaz de ultrapassar seus limites. L. então. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. sobretudo. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. no sentido sadiano do termo. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. sem o saber (e de consciência tranqüila). do vencedor. com personalidades “as if” (H. aos outros. então. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. de considerar os problemas em sua frieza. para fazê-lo. aos que dela participam. ele entrará. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. do combatente. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . Minha contribuição será. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. Se o indivíduo se identifica com a organização. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. A cultura de empresa ou de organização. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. sobretudo. SERVAN-SCHREIBER). escrita num estilo lapidar que poderá chocar. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. de colocá-los. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. de ter modos de “comunicação afirmativa”. capaz de se adaptar a todas as situações. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. desembaraçado de compromissos. em demasia. assim. Para obter tais resultados. seus valores e seu processo de socialização. de sonhos e de interrogações. dando. portanto. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. sejam quais forem. se só pensa através dela. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. ao propor.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente.

o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. desde DURKHEIM e FREUD. através de um projeto a concretizar. em nome da verdadeira fé. atualmente. Então. encarnar a “instituição divina”. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. E. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. o renovar de uma igreja dogmática. que uma sociedade não pode existir sem religião. uma causa a defender.A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. gurus. 47 . A empresa (ou qualquer outra organização) quer. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. de perda e de sofrimento. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. mais próximos do integrismo. ao contrário. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. xamãs. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. Basta ter em mente: a renovação do Islã. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). mas. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Sabe-se muito bem. injustamente martirizado. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. no mundo medieval. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. segura de estar em seus direitos. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. um ideal a realizar. exige a idealização. pronta a punir os blasfemadores.

Mas as religiões. 48 . as ginásticas suaves. que aqui apenas menciono. os estágios off limits. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. o “grito primal”. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. “tornar-se saudável”. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. todas as religiões. falado e falante. mesmo os mais repreensíveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. as medicinas naturais. portanto. continuamente desejável. a expressão corporal. o desenvolvimento do esporte de massa. a aeróbica. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. O fanatismo político. pelo menos. cuja meta é a homogeneização do “interior”. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. o jogging. sofredor. como a expressão da graça que lhe cabe. competitivo ou não (por exemplo. as maratonas de Paris ou de Nova York). as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. animado) é o nosso bem mais precioso. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. As técnicas de body-building. afastar a dor. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. esbelto. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. “Estar bem em sua pele”. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. Voltarei adiante aos métodos empregados. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. submetê-la a ídolos não contestáveis.

que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. na qual fatalmente se perderá. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. de criar uma cultura. processo de ligação com os outros. de autoridade. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. a busca do “erro zero”. que o indivíduo. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. de evolução pessoal ou grupal. GREEN. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. “a paixão pela excelência”. grupal e coletiva. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. Os próprios indivíduos. necessariamente. sinais de uma fantasia de domínio total. a “qualidade total”. Por outro lado. de intervenção psicossociológica ou institucional. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. para se tornar um sujeito falante e atuante. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. membro de um conjunto que tem suas coerções. A explicação é simples: todos os métodos de formação. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . mudança sempre difícil pois traz. confronto com o sofrimento. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. de fato. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. nas organizações sociais.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Ora. na qual ele tem que desempenhar um papel social. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. No narcisismo de morte. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. únicos responsáveis (se eles fracassam. assim. Elas anunciam. 1983). ao menos. O narcisismo mais total está na ordem do dia. na medida em que não se trata. Basta querer. interrogação do ser. cada qual se mira em seu próprio espelho. embora alienados no mais profundo de sua psique. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. Quer se tenha nascido rico ou pobre. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). mas de edificar novos cultos.

Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. a mobilização total de todos. portanto. Por isso. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. necessariamente. nas organizações e nos indivíduos. quer dizer. a sua submissão. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. únicos a prometerem resultados tangíveis. uma psique a serviço da organização. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. ao contrário. uma psique sem conflitos. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. mas. perfeitamente interiorizadas. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. como a simples lógica o exigiria. Assim. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. O reconhecimento da psique como força operante tem. para a seleção de dirigentes. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. do aumento dos métodos mais bizarros. para viver e se desenvolver. a implicação. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. a astrólogos. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. Cada “conjunto humano”. em reação. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). pelo menos. como resultado a sua destruição ou. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. não do desenvolvimento da racionalidade. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. faz-se apelo a leitores de tarô. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. com os pés amarrados a um elástico. na sociedade. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia.

portanto. de referências seguras. permite que se possa situá-lo em uma classe. Os indivíduos evoluem. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. a necessidade de ter uma certa identidade. animado por uma coesão totalizante tendo. portanto. credo. não creio mais como esse ser que leva meu nome. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. de constância: (b) idéia de objeto separado. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. Cada indivíduo.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. Mas. por minha vez. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. – podendo 51 . que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. ou o status social a que chegaram. não vivo mais. de ser um sujeito que tem uma história. em uma palavra. se examinarmos mais de perto essa noção. que participa de uma memória coletiva. escreveu belíssimas páginas. Caso se retome a análise de A. nacionalidade etc. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. em uma espécie). eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. Cada um sente. portanto. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980).A constância não existe. classe. GREEN (1985). Ora. ou vinte anos? BARTHES. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. isto é. em um gênero. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. quer dizer. ele é capaz de ser um “Si”. Além disso. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. através dessas diversas experiências. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. que se liga a uma tradição. ela revela características um pouco suspeitas. uma unidade. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo.

que processos de clivagem. de preclusão e de denegação estão operando em nós. No entanto. de MIJOLLA. Precisamos. assim. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. a sua própria finalidade. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. ABRAHAM e M. o eu etc. Se. já dizia RIMBAUD.) que visam. Assim. b. TOROK. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. no momento em que falamos. a idéia de permanência e de constância. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. em sua pureza. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. por definição. cairmos na irresponsabilidade. 1976). Eu é um outro. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. admitir. c. necessita do trabalho do tempo. então. quem está falando e por que falamos dessa maneira. não podemos abandonar essa idéia.5 Certamente. sob certos aspectos. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. pois toda construção. cada uma. a partir de um estado não integrado. que. além disso. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. ilusória. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. então é possível questionar. Nunca sabemos de maneira precisa. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. Mas ele insiste. mas que mantém um certo grau de 52 .A idéia de unidade parece ainda menos sólida.Quanto ao reconhecimento do mesmo. quando sei tão pouco o que sou.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. 1982). tentamos continuamente criar um “si” que evolui. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. com WINNICOTT (1966). em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. então. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. no entanto.

podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. e tanto mais porque se parecem conosco. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. O que nossa sociedade reclama. quaisquer que sejam. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. Os outros. trazendo “temor e tremor”. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. da “inquietante estranheza” e. a dúvida. Um deles explicita suas dúvidas. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. a interrogação. portanto sedução. tão apreciada por FREUD. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor).A interioridade está acabando? coerência. o remorso. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. é ouvido um momento. muito pelo contrário). contraditórias. de “maioria compacta”. de um narcisismo a toda prova. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. problemáticas. assim como as instituições e organizações que a compõem. Apenas um exemplo: numa grande empresa. de suas faltas. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. escolhendo as máscaras sociais que precisam. o trabalho sobre si. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. portanto. para o indivíduo. a aceitação dos processos de clivagem. sobretudo. portanto. de seus desejos. Porém. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. como também um amor consciente por si. São. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. os diretores participam de um grupo. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros.

em substância: “Não continue. em termos mais gerais. eles questionam sua identidade. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. seu imaginário enganoso. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. é interrompido por um de seus colegas. Pôde obter o posto desejado. filho de um grande industrial. não quero saber nada de seus problemas porque. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. Apenas. Transformam o mundo no qual estão. nem mesmo à sua esposa. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. serei obrigado a falar disso a meu pai e. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. seja de novo como nós. 1984.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. O “homem com problemas” aprendeu a lição. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. diante dessas revelações. naturalmente. um grupo que tem uma cultura própria. ele tem úlceras constantes. 36). Além disso. Esse exemplo (que. seu simbólico. tendo uma identidade compacta. formam uma nova maioria compacta. se você continua. até que ponto estão presos na apatia (SADE). ENRIQUEZ. Nessas condições. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. 54 . Com efeito. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. SEGALEN). até que ponto evitam-se a si mesmos. 270). Domine-se. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. que detestam. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). que lhe diz. por um processo de contra-investimento. p. Nesse momento. desde então. Ele se tornaria o fraco. reedição de 1986. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. Ora. quando os indivíduos estão nessa situação. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. vinda da boa burguesia. quer dizer. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. p. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”).

A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. todos os “marginais”. guerreiro e sedutor. num mundo a priori hostil ou indiferente. O “matador frio”. ENRIQUEZ). em seu corpo como em seu espírito. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. como escreve P. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. para SADE. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. se evitam a si próprios. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. soropositivos e. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. quer dizer. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. “Apagar. “fazer correr sangue”. doentes de AIDS. assim. então. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. colocar em lugares criados especialmente para eles). p.. ainda mais. “em demasia”. Quem não se amolda deve ser liquidado. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. 1835. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. o homem dinâmico.. pelo menos. todas as “minorias ativas”. pelo menos. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. todos os “exotas”. De um lado estão os vencedores. possam se tornar objeto de ódio ou. no dizer dos racistas. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. Compreende-se. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. 103-104). do outro. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. reedição de 1961. por si próprios. um piolho a ser eliminado. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. sem emoção. AULAIGNER. que todos aqueles que buscam articular sentidos. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. 55 . Como dizia um chefe de empresa. os que não se assemelham aos indivíduos que. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”.

aos outros. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. em sua aparência. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. em O crisântemo e a espada (1946). em condições normais. a vergonha se abate sobre o autor da ação. Se um ato corajoso – ou. simplesmente. a luta. mas pela vergonha. Basta que não seja descoberto.). Essa distinção é. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. Mas. seja ele qual for. ir além de seus limites. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. escalar um paredão com as mãos nuas. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. da inveja e do amor. L. é preciso que seja conhecido por todos. da agressividade. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. vemos proliferar. pode ser perpetrado. a honra e o dinheiro serão seus sem que. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. Todo ato repreensível. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). além do reconhecimento dessa luta. mas o toca em seu ser social. Se ele for conhecido.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. Da mesma forma. infeliz de quem trapacear. voar em asa delta etc. Assim. um estudo sobre a sociedade japonesa. utilizando-se produtos proibidos. por isso. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. 1988). portanto. Ora. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. no interior de si. sem dúvida. Ela supõe. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. 56 . ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. No entanto. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. Se não for descoberto. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. Tudo está no ato e em sua visibilidade. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). se sinta culpável. fracassar. Essa última seria uma cultura da vergonha. as práticas que permitem ganhar. SERVAN-SCHREIBER. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo.

felizmente -. lendo as reflexões precedentes. pelo jogo de aparências. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). privilegiando a aparência. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. sem culpabilidade. as notas frias. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). postos de lado. Não se deveria pensar. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. nascem a cada dia sob nossos olhos e. (c) que os ideais fortes. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. necessários à vida humana. apesar de suas imperfeições – normais. o corpo se encarrega de fazê-lo. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. Porém. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . atos dos mais contrários à moral comum. com um único passe de mágica. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. a lavagem dos narco-dólares. são suspeitos. Com efeito. quando não é possível falar-se a si mesmo. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. já começa a ser profundamente criticado. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. nas sombras. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. podem ser criados sem que daí decorra. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. necessariamente. contra o racismo. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. contra a pobreza etc. que o jogo está feito.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. o fanatismo. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época.

da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. encontram-se na mesma situação todos os que. Mais ainda. governa seus discursos e seus atos. a droga. Nesse momento. necessariamente. na doença da idealidade. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras.). Sendo assim. entretanto. os animadores socioculturais etc. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. trabalhadores incapazes de se readaptar. a delinqüência. ser tratadas “na interioridade”. Sem dúvida. não desapareceu e não está 58 . poderão. veladamente. de espaços. as perguntas. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. deverão se precaver. aceitando as regras do novo jogo. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. evitando o Charybde da exterioridade. esses “esquecidos” da sociedade. começam a se fazer perguntas. Esses “excluídos”. de indústrias. Esses sujeitos. eles ainda as fazem “na exterioridade”. busca de identidade. Eles não se dão conta. assim como pela capacidade de sublimação. pelo sofrimento. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. sem dúvida. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. tal como tentei delineá-la. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. pela alegria. de crédito. de afirmação ou de identificação. com sua carga enigmática. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. mesmo se a interioridade. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. por isso. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. Na realidade. os ferroviários. Entretanto.

o romantismo. Inácio de Loyola. assim. na qual o mundo objetivo. com o aprofundamento do eu puro ou. pela emoção.). 61-76. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. em suas constituições. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. ENRIQUEZ. como diz Lutero. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. Le Verbier de l’homme aux loups. Quanto a KLEIST. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. o mundo político. é uma consciência cultural individualista. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. Paris: Aubier. 4 Como um cadáver (em latim no original). da T. involuntariamente. do culto do inconsciente e dos instintos. os “diários de bordo”. por Sonia Roedel. as autobiografias. p. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. Referências ABRAHAM. 1985. “expressão pela qual Sto. S. E. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. 1989-2. In: Sur l’individu. o gosto pelo mórbido. ENRIQUEZ. 1962. sobre KLEIST: E. 1976. 89-112. Individualisme apolitique. (N. NOVALIS.). 1976. p. em termos religiosos. ABRAHAM. N. 5 FREUD. XVIII. 1987. Segundo o Larousse. p.Topique. 163. p. Eugène. Rio de Janeiro: Imago. 135. L’écorce et le noyau. 34. 2 Grandes escritores alemães. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. Paris: Seuil. citado por L. 59 .A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. é a absorção em si ou introspeção. 1976. o homem dos Hinos à noite. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. p. da poetização do universo. (N. 38-53. N. Cf. 37. com a formação. tão diversos quanto GOETHE. GOETHE. assim. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. com suas difusões amplas). Considérations d’un apolitique. é a inquietação com o cuidado. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. Entre la marionnette et Dieu. 3 Cf. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. Paris: Aubier. a Bildung do homem alemão. M. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. seu oposto. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. da T. é. DUMONT. v. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. então. espírito racional e humanista por excelência. e TOROK. da salvação e da justificação da vida pura. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. Topique.

“Individualisme apolitique”. Narcissisme de vie. Paris: Ed. p. Trad. n. retomado em Nevroses and character types. In: Essais de Psychanalyse. ENRIQUEZ. H. Paris: Gallimard. R. Biblio-Essais. 1982. W. DEUSTCH. Trad. 311-321. E. In: Sur l’individu. R. Trad. 1985. P. ps. de. L. DUMONT. L. 1987. MIJOLLA. M. Psychoanalitic quaterly. 1946. Paris: Seuil. nova. Topique. 1975. Paris: Seuil. EPI. “L’Individu dans la cité”. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Picquier. L’identité. Hogarth Press. WINNICOT. R. 11. BARTHES.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. La chambre claire. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. A. Le sabre et le chrysanthème. In: LEVI-STRAUSS. “Condamné à investir”. SEGALEN. 1987. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. franc. FOUCAULT. BENEDICT. 1984. 25. Topique. Barthes par lui-même. 60 . de Minuit. Tomo I. 1980. Les visiteurs du moi. Paris: Gallimard. Paris: Payot. 1961. S. 20-37. 34: 89112. Le retour du courage. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. P. Paris: Gallimard/Seuil. V. 1986. p. 1985. VERNANT. Paris: Payot. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. narcissisme de mort. Notes sur l’exotisme (1908). R. Paris: Seuil. 1965. 309-330. 1982. E. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. M. A. D. reedição. FREUD. J. BARTHES. In: Sur l’Individu. 1942. GREEN. A. 1987. 1962. SERVAN-SCHREIBER. 1970. GREEN. 1984. Paris: Les Belles Lettres. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. C. 1981. ENRIQUEZ. ENRIQUEZ. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. J. 37. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. Paris: Grasset. Aux carrefours de la haine. 1983.

à primeira vista. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). enquanto não for possível responder às questões que se seguem. para existir. São mais raras. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. pois pode-se. então. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. no entanto. em um imaginário social comum. Um projeto comum significa. esse problema é capital. Todos sabem e reconhecem isso. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. O que parece. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. neste texto. Vamos um pouco adiante. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. no entanto.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. sem dúvida. Ora. mas não se está à altura de compreender. Tal sistema de valores. as análises dos grupos em estado nascente. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. de início. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar.

com uma força particularmente viva. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. nos inspirar. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. da ilusão e da crença. consciente e inconscientemente. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. inatacável: assim. ele se apresente sob um aspecto religioso. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . nela. Da ilusão à crença. todo trabalho de interrogação sobre si. Todo grupo funciona à base da idealização. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. ele pode nos atrair. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. é necessário que. trata-se de sentir coletivamente. Ora. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. Mas esse sentimento. a nossos próprios olhos. Não se trata unicamente de querer coletivamente. num grau maior ou menor. Para serem operantes. correndo esse risco intelectual e social. sagrado. aquilo que queremos vir a ser. A ilusão deixa igualmente sua marca. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu).Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. pois ela é o elemento que dá consistência. motor de nossa conduta. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. transforma-se logo em um sistema de crença. vigor e “aura” excepcional. mas afetivamente sentidas. a passagem é rápida.

Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. idealização. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). Assim. 63 . o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. verdadeiramente. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. pois. E isso não acontece gratuitamente. grandiosa ou pueril. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. existente há muito tempo. missão a cumprir. Embora um grupo. sobre a possibilidade de sua impotência. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. Idealização. assimilando. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. em certa medida. Todo membro de um grupo é. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. A causa pode ser sublime ou irrisória. esse não é o problema. bem à vontade. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. abusivamente sem dúvida. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça.O vínculo grupal (deve.). suas práticas à da Psicanálise como um todo). É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. consequentemente. sua vida). Causa a defender. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. o militante político arrisca. Todo militante político pensa do mesmo jeito. FREUD já pensava que a Psicanálise. de maneira mais ou menos forte. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. a revolução etc. para se desenvolver. na formação de todo grupo. deveria ser defendida como uma causa. possa perder parte de suas ilusões. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação.

de uma profissão ou de uma disciplina). um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. ela deve primeiro. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. sua luta não terá alma nem razão de ser. sem exceção. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. membros do grupo. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. isso significa que ele se pensa. isto é. queira triunfar. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. para se reforçar. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. mas direi que. Essas pessoas sabem que. Pouco importa. pois. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. no caso de sucesso. Para isso. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. caso uma minoria. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). vocação majoritária: mas. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. Do contrário. mais modestamente. acreditar que está com a razão. A maioria não tem jamais uma causa a defender. um dia. se tornar a dissidência de muitos. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. propagar-se como uma mancha de óleo e. triunfar. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. A maioria não tem jamais um grande propósito. algumas vezes de uma só3 . Eu serei menos afirmativo. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. geralmente. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. talvez mesmo. antes de tudo e contra tudo. nós o sabemos. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. antes de chegar a seus fins. progressivamente. Toda minoria tem. As idéias novas. ela deve. imperativamente. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover.

o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. Toda instituição. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. vista como pulsão agressiva). A contestação. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. 65 . A transgressão. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. Para que a vitória seja possível. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. deram certo. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. explicitando o implícito dos comportamentos. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. mas que um novo saber apareceu. ela é. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. visando à repetição. desmistificando-o e desmitificando-o. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. sob certos aspectos. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. novas maneiras de ser ou de se conduzir. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. o grupo vai tentar destruir as instituições. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. enquanto elemento da regulação social. A Psicanálise. ao contrário. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. maneiras inovadoras de ser. com efeito. pois se funda em instituições sólidas. no passado. por exemplo. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. contra um exterior percebido como tão obscuro. Assim. tem por objetivo questionar o sistema vigente. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. Assim fazendo. E na maior parte das vezes ele o é. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. mas à sua transgressão. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. mas pela luta. Como essas representam a ordem paterna.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). enfim. visando não à contestação da ordem existente. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. Ela não visa a propor outra coisa. mas propõe novas idéias.

Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. Ódio ao exterior. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. O reconhecimento do desejo Em um grupo. amor mútuo. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. isto é. Não há complô verdadeiro. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. Sem essa vontade de destruição. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. deve criar um acontecimento irreversível. tornar seus sonhos reais. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. porém sem sucesso. a não ser entre irmãos. irmãos uns dos outros. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. fazer-se aceito em sua 66 . É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. não obstante. graças a esse imaginário comum e não a outro. não ser rejeitado. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. FREUD. ao menos. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. todo grupo. aliás. em outras palavras. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. violência fundadora de um novo mundo. a priori estranhos ou rivais entre si. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. amor ao grupo enquanto grupo. Se ele faz parte do grupo.

essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. nesse caso. eles se tornarão semelhantes. um corpo social completo. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. diferenciação A MASSA Num tal caso. Essa semelhança buscada. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. O grupo. querendo formar uma comunidade.O vínculo grupal diferença irredutível. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. não teria podido fazer parte da conjuração. De todo jeito. não devem ser muito diferentes uns dos outros. Assim sendo. homogêneos. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. igualmente. para que possam se amar. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. Aliás. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. Assim. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. às quais cada um deverá se submeter. quer. eles devem se identificar uns aos outros. ser reconhecido como um de seus membros. é o desejo de reconhecimento que predomina. em seu ser insubstituível. em um grupo. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. se não o desejasse. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. O único problema é a mais estrita identificação. em maior ou menor grau. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas.

A falta de diferenças provoca. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. Que ele se guarde da desilusão. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. desenvolver condutas que. delação. não parecem defensivas. a partir de MARX. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. senão os mais perturbados. de indivíduos os mais emocionais. sentimento de um meio hostil.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. Aliás. igualmente. mas que. coberto de certezas. Estamos. sem-fundo”.A compacidade do corpo formado vai. Ocorrerão comportamentos regressivos. tomam um vigor particular. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. face a um grupo “sorvedouro.5 2. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. Ao contrário. por ser o mais forte e o mais belo. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. sem que se perceba. LEFORT). Assim como. a degradação da reflexão e da inventividade. 68 . em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). abismo. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. tomando as características de um corpo todo-poderoso. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. influência. à primeira vista. a falta de inovação e. no grupo. que será particularmente dura de suportar. de tipo defensivo: suspeita mútua. com efeito.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. O grupo. então. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. 4. progressivamente. portador da “verdade” (!). angústias de explosão. 3. avança cego.A semelhança pode.

acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. serão excluídos do grupo. em certos momentos. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. cada qual acreditando deter a verdade. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. (Assim. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. ao contrário.Se. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. então.O vínculo grupal 5. como frouxos ou traidores. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. A tolerância existe. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. Os membros do grupo são. No limite. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. então. como a cooperação idílica não existe mas. em um centro de jovens inadaptados. Se não se trata de questionar o projeto comum. de argumentações contraditórias. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. os educadores. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. tive a surpresa de 69 . de negociações rigorosas. Todo mundo. “níveis insuportáveis” (FREUD). cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. No entanto. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. Em tal caso. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. O grupo se centrará em si mesmo. a administração. ao contrário. por acaso. em seu interior. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir.

as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. ao contrário. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). Para não chegar a esse ponto. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. É raro ouvir professores falarem de estudantes. assim transformado. enquanto professor. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. mestre do pensamento e da ação). Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. “personalização do poder”. uma influência que vem do domínio das idéias. é freqüente. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. 70 . no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. Fenômenos regressivos do tipo submissão. Nesse caso. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. será tentado a achar um bode expiatório. Esse. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. Em qualquer caso. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. repetição da palavra do mestre. eu deveria ter ficado menos surpreso. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. por isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. Entretanto. nos países ocidentais. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. se torna um grupo edipiano.

Essas questões não podem ser elucidadas. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. podem. tornar-se majoritário. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. igualmente. se consegue impor os seus ideais ou transformar. de todo modo. os grupos não podem se esquivar. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. para existir. pois um grupo minoritário. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. o grupo minoritário que. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos.O vínculo grupal Mas. O amor desemboca no ódio. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. o campo social. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. o grupo corre o risco do fracasso. do mesmo modo que estão condenados à crença. Assim. a única digna de ser respeitada. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. inscrever seu sonho na realidade. transformado muitas vezes em processo de erotização. em maior ou menor grau. Com efeito. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. para afirmar a primazia de sua posição fálica. como já constatamos. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). os membros do grupo estão condenados ao amor. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. 71 . sendo bem sucedidos ou não. mas também os fracos. Correlativamente. mas quem são os amados e os rejeitados. isto é. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. Se o grupo é bem sucedido. Ora. se somos suficientemente amados. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor.

é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. além disso. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. os marginais. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. É preciso.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. Com efeito. de outro lado. De fato.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. serão inventados segundo as necessidades e. se ele não provoca impacto social. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). ele vai procurar as causas de seu fracasso. mas não é um resultado inelutável. para dizer que ele ainda subsiste. Com efeito. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. o organizador do grupo. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. isto é. é o contrário que seria de espantar. Ora. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. no entanto. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. 72 . em um processo de análise: 1. Muitos observadores se espantam. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. educadores. Se. o grupo fracassa. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. isto é. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. mas outro que está ainda para ser encontrado. Ela representa uma tentação constante. psiquiatras. por exemplo.

Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. De fato. Aí também há muita ilusão. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. a tomada de consciência se produz.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. em muitas circunstâncias. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. em vez de favorecer o seu esclarecimento. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. assim. serão feitas análises superficiais. Outras vezes. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. Deveríamos. arriscar-se a ser amado. 2. em certos casos. às custas do mal que nutrem com gosto. Além disso. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. sem jamais chegar ao menor esboço de solução.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. de maneira recorrente. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. 73 . e o disse muito bem. no entanto. Ela pode levar à dissolução do grupo. FREUD disse isso. Se. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. É importante não nos esquecermos. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. de crença e de ilusão. há muito tempo atrás. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado).

se dar conta de que tal tarefa é limitada. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. “Le lien groupal”. C. J. Segundo os termos de C.” (FREUD.F. S. 4. Gallimard). suas relações de poder. fui o único a me ocupar dela e. 2 3 4 5 6 74 . um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. 1983. “L’illusion mantenue”. suas angústias e. Por dez anos. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. Ma vie et la psychanalyse. no 360. S. MOSCOVICI. mas é preciso não querer ir muito longe. P. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. Eugène. PONTALIS. n. Psychologie des minorités actives. Tomo XXXVI. em caso algum. Bulletin de Psychologie. LEFORT. 631-637. B. ao mesmo tempo. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. p. Seuil. seus antagonismos. por dez anos. Nouvelle Revue de Psychanalyse. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. por José Newton Garcia de Araújo. uma solução. CASTORIADIS. Um homme en trop. Cf.U. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ.

de modo algum. 1985). quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. então. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. se me detive a explicitar tal proposição. Com efeito. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. em Grenoble. Entretanto. é porque me parece que essa tendência. tanto no Leste da Europa. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. na verdade.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. 1983. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. convincente e inquietante. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. 75 . atualmente. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. Devo acrescentar. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. os acontecimentos que se produzem atualmente. Espero. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. não deve.

ao longo do tempo. ou seja. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. o fanatismo religioso – isto é. as grandes religiões monoteístas foram. elas não colocavam mais problemas particulares. igualmente ENRIQUEZ. o papel que lhes estava destinado. 1989). apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). com relação a ele.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. pode-se dizer que. um ritual compartilhado que é preciso defender. isso não a obriga. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. no entanto. a Deus o que era de Deus. Assim. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. sem deuses ou sem Deus único). a se apresentar sob a máscara do fanatismo. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. sustentadas por rituais 76 . de maneira privilegiada. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. A referência dura se exprime para mim. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. às vezes com reticência. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. sem lhe outorgar. um dogma. se depurando. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. seja como ser coletivo). às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. ela nos religa uns aos outros. a crença exacerbada em um mito. Ao contrário. necessariamente. A César o que era de César. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. sob pena de exclusão da comunidade. No conjunto. além de nos sentir para sempre em dívida. Pois bem. sem totens. As crenças. A religião produz então o “ser-junto”. no renascimento do (ou. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime.

como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. J. Entretanto. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. o Estado como aparelho separado. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. ao “desencantamento do mundo”. Algumas religiões. a qualquer preço. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). dos padres operários. laicas (E. porque é 77 . além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. mas foram se laicizando. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. como medida de todas as coisas. mas à criação de religiões substitutas. passam a se desenvolver. a longo prazo. aspirando assim. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. como desejava DURKHEIM. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). na França. Todos os homens. O episódio. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. um estado psíquico onde o conflito não aparece. a longo prazo. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. profanas (MOSCOVICI). baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). do declínio de uma fé sincera e manifesta. STOETZEL). não assistimos. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). ENRIQUEZ). sem se dar conta disso na maior parte do tempo. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. ARON. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure.

por ENGELS e. tal como a ideologia republicana. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. da ideologia de granito (LEFORT. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. não como uma ideologia (quer dizer. de ideologias totais (LYPSET. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. os mestres. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. pois. 1963). apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. conscientemente ou não. 1976). isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. então. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. de fato. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. (mesmo se. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. pois. mais ou menos fortemente.). de votos etc. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. depois. sob a IIIa República. na França. quer sejam os pais. de serviços. É. A ideologia pode. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. Quando falo de religiões substitutas. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . após a morte de MARX. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica.

constituindo-se. 79 . as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. pelo sacrifício de seus mártires. 1979). por sua força de convicção. representaram um papel menor na dinâmica social. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. como uma Igreja com seus templos. reunidos em comunidade. que já mencionei. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. devem estabelecer com o Sagrado. As ideologias que eu evoco são. pelo ferro e pelo fogo.O fanatismo religioso e político (colonização). Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. heréticos ou descrentes. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. sozinhos. conseguiu se desenvolver. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. a converter ou a destruir. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. no cerne mesmo da sociedade. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Um grupo minoritário. em maior ou menor grau. Uma religião. na época moderna. vão se impor como lei. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). não pode estar na origem de nenhuma religião. Ela então regula essa questão central da alteridade. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. por seu caráter absolutista. jacente em todo ser humano. substituindo-os por outros que. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. que produzem uma cultura própria. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. indica que a seita. antes mesmo que seja colocada. É assim que ela pode formar uma cultura. a negar. que ela assegura sua identidade. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. Mas é preciso observar que. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. então. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. projetando-o nos outros. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. como as religiões. quando as religiões se enfraquecem. ideologias “compactas” que.

Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. desenvolveu uma política de conversão). além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. ao contrário. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. 80 . em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. de seu lado. apesar de tudo. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. no “sentimento oceânico” (R. é porque os judeus. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. É verdade que os grandes místicos. porque a morte santifica e promete o paraíso. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. “poetas”. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. (Entretanto. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. como heróis (no sentido freudiano do termo). Eles não vivem sua crença como uma ilusão.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. Em outras palavras. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição).

tudo se vende”. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. por conseguinte. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. Ora. na verdade. que são religiões da revelação. além disso. ser totalmente dissociados. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. segundo o axioma de WALRAS). PALMADE). nossas sociedades ocidentais contemporâneas. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. intensificação da produção não somente de objetos úteis. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. de novas características. Entretanto. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis).Elas se enriquecem.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. 81 . é conveniente fazer algumas observações. 1. eles não podem. as liberais e as “socialistas”.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. mas somente possível e previsível. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. 2. 1971). São sociedades: a. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. se certas condições são preenchidas.O fanatismo religioso e político Concluindo. ideologia sem porta-voz. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. o texto de J. como a ideologia republicana. segundo a terminologia weberiana). Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. entretanto. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. (Não existe. sem emblemas.

realizáveis. por isso mesmo. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. pensar e querer o apocalipse) e. ao mesmo tempo. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. além do furor de não poder satisfazê-los. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). no fim das contas. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. o trabalho perde seu significado. da qual é necessário. 1967. 82 .sociedades que. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. 1967). ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. 1989). assim. sua legitimidade desaparece. Sociedades sem pais e.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta.sociedades que. se desembaraçar. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. “mãe das cloacas e dos brejos. já havia observado isso). para os homens e para as mulheres.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. Assim também. LAPLANCHE. seu valor se corrói. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. enquanto criação e distribuição das riquezas. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. c. de imortalidade. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. d. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. (Assim. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. Nesse momento. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. b. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. concebê-lo como um inimigo ideal.

no limite. Mas as religiões. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. da ausência de um fundamento. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. Eles querem se tornar um “Nós”. da apatia. de um capitalista. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. os excluídos. de um proletário. A religião reclamada é a religião absolutista. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. 1930) 83 . Daí se seguem três conseqüências. do desaparecimento de referência a toda transcendência. os esquecidos. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. em particular. se sacrificar. Se não somos nada além de um espartano. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. da exclusão. não oferecem mais interesse. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. O indivíduo desaparece. da loucura. permanecer na certeza e. só há salvação na paranóia partilhada. da corrupção). O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. Contra o mundo perverso. (FREUD. de um budista. da miséria. os irmãos e os adversários. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. aquela que designa claramente os aliados. Essa citação dispensa comentário. uma causa a defender. no Ocidente. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. formar uma cultura. O que desejam os deserdados. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. aquela que cria uma identidade coletiva. um projeto a sustentar. os “desgarrados”.

a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. da sedução ou da coerção). Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. O fanatismo visa. anunciador de um mundo novo. pelo menos. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. É certo que. O desenvolvimento do fanatismo. uma imensa massa de homens. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. o espanhol despreza o português”. Não esqueçamos. o super-investimento no projeto. o inglês fala tudo de ruim do escocês. o que é um alimento. para isso. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. livre do mal. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. a criar um mundo novo. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. então. ENRIQUEZ. sua conversão. liberado finalmente do mal. tais como as descrevi acima. no entanto. 1984). para ela é uma impureza?”. como seres a eliminar. elas exigem a super-identificação à causa. nos diversos países. além disso. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. ou seja. Quanto mais uma cultura quer se unificar.

para que o fanatismo se fortaleça. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. é preciso lembrar que. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . a se tornar dominantes (por exemplo. resulta. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. É preciso. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. o Azerbadjão. O fanatismo religioso. sozinho. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. na hora atual. no máximo. assim. que essa renovação fanática traga proveito a alguns.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. E nós tocamos. um instrumento a serviço do fanatismo político. fundamentalista. É por essa razão que meu texto tem esse título. por sua vez. ainda. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. Síria). São Estados. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. Retomemos esses dois pontos: 1. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. O fanatismo religioso é. Ou seja. mas. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. primeiro e antes de tudo. sem dúvida. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. para unificar os corações e os espíritos. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). o essencial: a dimensão política. o Irã).Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. o sinal de seu enfraquecimento.

ela pode ter como papel: a. cristãs. destruição cultural. Loja P2. Nesse caso. c. judias).manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. o convite a alguns líderes protestantes. Communione e Liberazione. do qual eles não saberiam o que fazer. Se a aliança persiste. forçosamente. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. na regulação dos Estados modernos. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. certos grupos religiosos em Israel). lepenistas. sob uma forma fanática.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. muçulmana) na vida cotidiana da França. se ela se extingue. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Eglise de Scientologie). interdição de pensar (Polônia. b. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. que querem fazer valer sua palavra. das comunidades islâmicas. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . em nossos dias.redourar o brasão das religiões tradicionais. na França. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder.A religião não se apresenta. nos quais não existe senão um fraco consenso. Países Bálticos. Irlanda do Norte. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . Alemanha do Leste. ela designará os vencedores e os vencidos. 2. judia. protestante.

desde o início dos tempos modernos. de reflexão e de reflexividade. ele tenta. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. sem recorrer a referências seguras –. de precisar meu objetivo. paralisar a atividade de mentalização. como no exemplo de KHOMEINY). nascida desse trabalho árduo. De fato. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. não é o caso de superestimá-la. antes de tudo. para terminar. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. ao invés de processos de sublimação. sem fim. mas que. Eu gostaria. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. o caos e o abismo. 87 . tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. suas dúvidas. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. o Estado leigo faz apelo. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. ao contrário. nesse caso.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. prontos a afrontar o absurdo. a falta de sentido. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. 1. finalmente. Mas. cada vez mais freqüentemente. com a ajuda de seu Deus –. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. laborioso. o religioso. Os homens aprenderiam. Se essas são capazes de inventar novos projetos.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França.

nos seus interlocutores e. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. a perversão ou a paranóia triunfam. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. tanto quanto outros tipos de valores.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. então a reflexão desaparece. “A última tentação de Cristo”. Eu não quis dizer. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. T. (N. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. Ora. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Eugène. n. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Connexions.) 2 88 . antes de tudo. naturalmente. a ideologia. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. no outro. Ela lhes é consubstancial. em nenhum momento. efetivamente. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. quando o religioso se põe a serviço do político. tão fácil e prazerosamente. ela lhes permite tomar iniciativas. na armadilha que denuncia. nos fenômenos sociais. ideológicos e nacionais.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. 3. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. Araújo. quando a ideologia dura impede o livre pensar.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. Se. na América do Sul). 55. Os valores religiosos. se ele não faz esse trabalho. do fato nacional. devem ser levados em consideração. uma vez que elas são. “Le fanatisme religieux et politique”. do fato ideológico. 137-149. Ela assume então o papel de desalienação. 1990-1. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. p. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. por Leila de Melo Franco S. que a religião. Por outro lado. sob pena de cair. em si mesmo.

M. L’homme et la politique. DELEUZE. FREUD. In: La NEF. 1963. 1967. S. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. 89 . Connexions. Eres. 1967. La monnaie vivante. 1989. L’autonomie sociale. 1971. “Malaises dans les identifications”. 48. sobre o fanatismo hoje. LEFORT. “Notations sur le racisme”. J. LYPSET. ENRIQUEZ. CASTORIADIS. . S. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. E. Connexions. 1979. 1971. PUG. MOSCOVICI. G. 1976. P. PUF. PUF. Essais d’ethnopsychiatrie générale. 1985. 1984. Présentation de Sacher-Masoch. C.(1930) Malaise dans la civilisation. KLOSSOWSKI. Editions de Minuit. 1989. Épi. “La défense et l’Interdit”. E. janeiro. G. Un homme en trop. Cl. 54. E.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. Psychologie des minorités atives. LAPLANCHE. Au carrefour de la haine. n. ENRIQUEZ. Seuil. 1987. (org. S. Seuil. Y. 1973. PUG. 1985. Epi. DEVEREUX. ENRIQUEZ.). n. ENRIQUEZ. In: Autonomie sociale.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. e o conservadorismo social e cultural da região. uns nos outros. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. de outro lado. alimentação. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. como elas se desenvolvem. sobretudo. A escolha da região do Cholet. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. em plena Vendée. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. vestuário. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. individual e coletivo. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. de um lado. incessante. NA EMPRESA. por exemplo). de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada..2 Tais reflexões mostram. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. calçados etc. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. vividas pelos dirigentes.CONJUNÇÃO. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. já havia sido notado por vários pesquisadores. seus produtos. são exportados para todo o mundo (iates. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. que 91 . revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. como elas podem morrer.

a partir de sua criação. Ou seja. suas dificuldades. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. ou ainda. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. diferenciações. que são ao mesmo tempo seu principal tema. como objeto no discurso dos dirigentes. depois. Não se trata. 92 . pudemos pôr em evidência certas constantes. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. entretanto. sobre aquilo que a empresa. num primeiro momento e. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. que tais entrevistas. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. para si próprios. ainda que solicitadas por nós. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. evocava neles. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. sua história. clivagens. de suas dúvidas. para nós. seu futuro. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. convidados a falar a respeito. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. era. entretanto. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. com efeito. é. ao produto. desde sua origem até o momento atual. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. segundo um método comparativo. à antigüidade. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. Tendo analisado esses depoimentos. a partir de suas lembranças. o qual é vivido como o fundamento da empresa. de seus projetos. Em outras palavras. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. isto é. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. caso a caso (empresa a empresa). Uma tal aventura. mas a empresa como objeto psicossocial.

A terra Essa referência é onipresente. de maneira mais extensa. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. . quer se exprima pela relação com o solo.) que se trabalha ou.Conjunção. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). quer dizer. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. suas tradições e a 93 . Essas três entidades. a terra ou a região. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e.a terra ou a região. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. nota-se que. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. quer dizer. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. . que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. também. com o território (nome das cidades. na origem. quer dizer.o ofício ou o produto. na empresa. conceitos verbais. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. com a região (no caso. de um projeto pessoal e familiar. locais e regionais. aquilo que é ligado aos locais físicos.a família. a regiões de Mauges. histórica e sociológica. De maneira mais geral. de maneira mais abstrata. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. geográficos. Nesse último sentido. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. ou ainda. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. argila. podem ser resumidas da seguinte maneira: . a partir do qual elas podem se desenvolver. com freqüência até mesmo joint families. quer dizer. sua cultura. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. de Bocage. embora todas tenham dependido. grão etc.

eis nosso jeito fazendeirão”. a empresa é um projeto de família. o lugar dessa é aí dominante. tanto no imaginário quanto no real. não se pode fingir”. nas relações e atitudes: assim. mas também no metafórico. em nome de uma certa ética. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). 94 . de empresas familiares. físicas e morais. A “região”.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. Desse ponto de vista. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. em caso de dificuldade. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. atividades e lucros organizam-se em torno dela. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. “não ficar falando abobrinhas. simultaneamente. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). Antes de ser um projeto pessoal. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. assim que ultrapassamos a fronteira. na maior parte dos casos. mas também um sentimento de segurança. bem como uma fonte de riquezas. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. no sentido concreto. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. contribuindo para o renome da cidade ou da região. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). A família Tratando-se. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. um conjunto de obrigações e de restrições. vira tudo uma máfia”). constituem então. “a terra”. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações.

os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. 95 . o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). sendo um dos dois sexos. no início. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. então. por um lado. sendo também imagem das relações de parentesco. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. Naturalmente. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. de um projeto pessoal e familiar. ainda. Assim. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. quer dizer. num primeiro tempo. “sociedade familiar” ou. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. Compreende-se. as relações de autoridade. inclusive com empregados. de fato. mas também nos fatos reais. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. As estruturas e as relações de poder são. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. “empresa familiar”. Como se pode notar. SA. onde empregados e patrões podem comer juntos. designada como “negócio de família”. entre os bens e os dividendos pessoais. A presença da família e de seu passado se traduz. fortemente personalizadas. de papéis e de procedimentos formais. na empresa. “sociedade de família”. inclusive para outras aglomerações. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). e o capital e os salários. é certo. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). seja pelos homens (os filhos). então. descartado. geralmente.Conjunção. Da mesma maneira. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). de outro. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. como “a realização de seus antepassados”. na sua origem.

no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. da receita ou do jeitinho de fazer. seus vizinhos. a maior parte das vezes. com os acontecimentos familiares – mortes. couro etc. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . freqüentemente. casamentos. Assim como para a referência à região. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. lenços da região do Cholet. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. uma fonte de problemas e de conflitos. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. o produto Em função de sua origem artesanal. rupturas. transmitidos de geração em geração. um elemento de coesão e também uma limitação. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. uma inspiração. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. A história da empresa é assim. –. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. os sindicatos independentes são mal tolerados. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. Nessas condições. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Está diretamente associado às mãos do artesão. Apalpar essa matéria. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. O ofício.. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. – e de lhe imprimir uma marca pessoal.

eles formam então como um bloco compacto. Entretanto. o ofício. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. para o dirigente. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. –. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. ele supõe a adoção de atos concretos. de um projeto pessoal e familiar. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. à terra. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. Esse processo não se realiza sem problemas. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. Sua história. com efeito. encarnada na pessoa do fundador. profissionais. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. De fato. pelo menos em parte. sangue ou mãos). elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. Consiste. trata-se de um conjunto extremamente coerente. Juntos. que asseguram sua identidade e a base da empresa. em desligar aquilo que estava ligado. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. estão imbricadas umas nas outras. essas três bases – ou instituições primárias –. para garantir as evoluções indispensáveis. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. transmitido de geração em geração. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. o marketing etc. vêse então que. não são entidades independentes. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. não em negar. constatou-se.Conjunção. na empresa. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. cujas partes.

de valores ou modos e redes relacionais. Nos termos de T. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. investimentos em máquinas e em locais especializados. b. portanto. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. da afetividade à separação.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira.o deslocamento. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. ao longo de toda a história da empresa. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. elaboração de uma organização e. da proximidade ao distanciamento. a transferência física da empresa para outros locais. 98 . O ponto de chegada de tal processo. PARSONS: do particular ao universal. com efeito. de produções. do pessoal ao impessoal. PARSONS. c. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. isto é. consiste em passar de um sistema social a um outro. exigindo. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação.a industrialização. isto é. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. do herdado (ou do dado) ao adquirido. De maneira mais precisa. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. essencialmente. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. seu objetivo. de estruturas de necessidades e de motivações. Esses três movimentos resumem. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. principalmente. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas.

mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. na empresa. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. ele não pode assumi-las todas e é. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. de acordo com regras precisas que excluem. em contrapartida. máximo. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. regidas segundo técnicas e métodos importados. se 99 . adquirir as competências ligadas à gestão –. que põe as contas em ordem. bem como uma administração capaz de a gerenciar. a entrada em cena de um contador. obrigado a repartir o poder com outros. bem como na composição do Conselho de Administração. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las.. freqüentemente. O envolvimento da família é. com efeito. ou ainda: “das famílias na sociedade.Conjunção. então. sua principal razão de ser – ele deve. a partir de então.. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. pode-se dizer (. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. Enfim. de um projeto pessoal e familiar. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita.

segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. o que permite. melhor formados) e a da clientela. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. –. pela definição de papéis e critérios decisórios. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. Progressivamente. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. Esses estão. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. sócios etc. É. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. podendo implicar até em falência. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. a estrutura de pessoal (mais jovens. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. Esse processo não se realiza de uma só vez. como para qualquer chefe de empresa. Eles são. portanto. por conseguinte. pois. freqüentemente. com efeito. transformando as relações de poder e os modos de pensar. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. principalmente entre os (jovens) dirigentes. portanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. mas. geralmente fora da empresa. ela se baseia em competências que eles adquiriram. pela instauração de regras explícitas e. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. mostra-se assim sempre indispensável. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. colocados numa situação extremamente conflitiva. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families).

Trata-se. como uma espécie de traição. de um projeto pessoal e familiar. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. ou mesmo para o estrangeiro. por exemplo. pois.Conjunção. para si próprio como para o ambiente é. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. Para essa questão. mas permitindo a sobrevivência da empresa. portanto. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. a empresa adotar uma estratégia de exportação. outros modos de relação. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. E. uma tomada de distância em relação à terra natal. Outros se orientam para soluções. Se. considerado preferível a uma expansão sem significado. além disso. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. renunciando a uma expansão possível. bancos etc. outras exigências. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. 101 . Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. Se o deslocamento para outra região. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. manter uma qualidade de vida e de trabalho. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. nesse caso. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. no entanto. é importante para reduzir. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. o solo no qual a empresa se situa. encontramos respostas extremamente diversas. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. na empresa. Em todos os casos. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. – e o questionamento de vínculos anteriores. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. isto é. preservar uma base local. permitindo administrar as contradições. necessariamente. outras aspirações.

algumas das quais podendo se situar alhures. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. ou ainda. entretanto. a rachar. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. mercados. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. desenvolver uma rede de sub-contratantes. portanto nitidamente diferenciados e interligados.). Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. Um tal processo pode ser. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. criar vínculos de dependência com eles. no entanto. uns em relação aos outros. uns sobre os outros. por exemplo). mais eles se autonomizam. as pessoas ou os hábitos de pensar. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. situadas em regiões economicamente mais propícias. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. margem de lucro.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. As relações diretas. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. no sentido pleno do termo. que supõem prazos e contatos (redes etc. ao mesmo tempo. por exemplo. SEU ofício que dá corpo a ele. Todas as empresas. face a face. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. é ele. etc). produtividade. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. admitindo divisões e separações. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. então. emerge assim uma organização. Como conseqüência de decisões. Seria. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. que manifestam um crescimento sensível. Quanto mais eles se ampliam. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. indiretas. são substituídas por relações secundárias. e de rupturas que essas provocam com o lugar. SUA terra. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. mais ou menos importantes. assimilado a um trabalho de luto. é pois. taxa de crescimento. por regras ou por técnicas. ou ainda. com efeito. no entanto. evitando. é SUA família.

“Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. sua fonte energética. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. Se. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. no entanto. na empresa. é impossível. de negar aquilo que é.). A instituição é um processo. por Júlio M. (N. ele deve sempre compor com o nível primário. de sua consistência. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. Paris.Conjunção. do clã. collectif). sua ancoragem biológica.) 2 103 . sob pena de perder o contato com o real biológico. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. uma tensão permanente. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. organisation sociale.(mimeogr.T. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. Toulouse. desprender-se inteiramente. que é o seu fundamento. Mourão. despregar-se. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. ficando na ilusão de sua existência. 1990. existindo para e por si mesma. 1991. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. Região situada no oeste da França. constitutivo do sujeito. André. de um projeto pessoal e familiar. de sua unidade. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. com o título Inconscient.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

o triunfo da racionalidade experimental. No espaço até então ocupado por ela. Essas transformações devem. grupos religiosos etc.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. No momento atual. com o seu corolário. sobretudo. de forma responsável. as mudanças essenciais 107 . a fim de que as sociedades possam. como o evidencia Nicolaï. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. LÉVY. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). então. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. um trabalho de tal monta é necessário e. quais são os problemas realmente essenciais. finalmente. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. mais eficazes e mais rápidos. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. Todavia. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. NICOLAÏ). os “intermináveis adolescentes” citados por A. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. aparentemente. verdadeiramente. Entretanto. possível. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. etnias. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. NICOLAÏ. pois. LÉVY e A. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações.

portanto. prováveis de ocorrerem na sociedade. e não a nível global e em regiões centrais. Essa disciplina deverá. com freqüência. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). Será. ritualizadas. LÉVY: as verdadeiras mudanças. levantada por A. Ela poderá. para tanto. também. suas instituições e seus diversos grupos sociais. Seguindo essa via. realizando um genuíno trabalho psíquico. não surgirão de tomadas de decisões formais. na prática social. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. LÉVY). quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. Esse processo é longo. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. sujeito). conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. 108 . pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. como têm sido feitas. antes de mais nada. dar atenção especial à conversação e ao debate. Ao contrário. No entanto. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. Nesse sentido. Os sociólogos não se enganaram. capazes de contribuir. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. interessar-se mais pelos movimentos sociais. quando anunciaram. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. como o fez Touraine. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. Mas. pelas interações entre sujeitos. seja para a evolução social. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. o “retorno do ator”. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. desde a sua criação. na atual crise pela qual passa o Brasil.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. É importante ainda mencionar outra questão. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. seja para a sua involução. igualmente. na relação e pela relação.

na acepção forte do termo. Se me decidi a escrever esse texto. forçosamente. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. malgrado as aparências. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela.2 o envelhecimento.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. E isso se traduz em um interesse. é porque me parece que. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. seríamos tentados a pensar que. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . no modo de compreender as organizações e as instituições e. e observando-se toda uma série de sinais. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. ainda. com efeito. nem sempre bem sucedido. presente em muitos meios. no início dos anos 60. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. – tudo isso parece indicar. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações.

em função do que lhes parece ser necessário. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. em seu conjunto. de viver de outra forma. não apenas a inquietude e a interrogação.. primeiro. mas a vontade de inovar. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. como todo fenômeno de moda. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. em um determinado momento. que evidentemente não é exaustiva. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. Parece-me igualmente que. enfim. ENRIQUEZ. uma após outra. pode-se citar a análise institucional. Entretanto. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. para os atores sociais e para muitos práticos. Essa enumeração. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. senão a única. constituem. É certo que a maior parte delas não desapareceu. 110 . retomando termos de E. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. mais recentemente. Em outras palavras. a análise organizacional. elas tenham podido ser a referência principal.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. o que tem como conseqüência que. os métodos centrados na expressão corporal. elas têm em comum o fato de terem pretendido. desde o início dos anos 70. Mas importa. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. a análise transacional e. uma após outra. por exemplo). para os atores engajados na ação. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. de ter prazer. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento.. ou. Embora durante alguns anos. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas.

com vantagens. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. com ambições mais limitadas e incertas. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. por exemplo. Certamente. desse ponto de vista. efeitos espetaculares em uma instituição. pelo menos – desses métodos: a. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. meios que ele controla. auto-realização. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. a outros métodos mais longos. 111 . podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. então. eles se comparam. Em outras palavras.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e..A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. ROGERS (resolução de conflitos sociais. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. É praticamente certo que a análise institucional. por não lhe deixar escolha. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. fazendo assim. Dessa forma.. intenções que. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. LEWIN e C. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto.). dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). na verdade. ao mesmo tempo.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. incertos e custosos.

tudo isso é. dominada por relações mercadológicas e seus valores. Tal fascinação pelo que “funciona”. Embora ocorram desvios. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. automaticamente a problemas delimitados. aparecendo em utensílios. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. 112 . então. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. condenado a ser rejeitado. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. e que. Nessa perspectiva. não garante nem assegura nada. reduzido. a um “ator” ou a um “agente”. Essa tendência já estava presente. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. evidentemente.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. “enquadramentos”. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. mas também nas orientações cognitivas. então. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. concomitantemente. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. se possível. há que se lembrar. o sistema de ação concreto de M. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. especialmente a necessidade de tempo. “sistemas” (por exemplo.

Assim. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. implicando um bem. Primeiramente. O conceito de demanda social Com efeito. entre a demanda e a encomenda. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. uma 113 . é eco de acontecimentos sociais. Nesse sentido. com efeito. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. Entretanto. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. reciprocamente. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. combinada então a pressões mais ou menos fortes. no sentido de ordenar ou encomendar. por isso mesmo. uma demanda de objeto. há quem quis diferenciar. isto é. reciprocamente. No que nos diz respeito. mais ou menos explícitas. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. que podem. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). progressivamente. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a demanda é. retira-lhe. nesse caso. necessariamente. podem-se percorrer todos os graus. Assemelha-se. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. a demandas por respostas e soluções. está próxima à noção de encomenda. um objeto. inscritos em uma história coletiva que. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. ao contrário. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. uma grande parte de sua riqueza. endereçada a um outro. assim como uma relação de troca. sem risco. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. assimilá-la a uma encomenda.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. no registro econômico. especialmente. então. demanda de encomenda – LOURAU. A demanda expressa. tal distinção não nos parece desejável pois. no limite. Se. toda história singular.

dificilmente é formulada como tal. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. em demanda de outra coisa – conselho. seu tratamento – é. freqüentemente ou sempre. Ela se torna real por essa e nessa relação. seja em um quadro terapêutico. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. precisamente. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. em contrapartida. no segundo. Enquanto é apelo ao outro. necessário indagar a respeito de seu significado. é que. pois o qualificativo “social” tende.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. durante um processo de consulta ou de intervenção. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. É. 114 . como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. inversamente. Ele não é evidente. pelo menos em um segundo plano. aí. a demanda é considerada não como individual. mas a expressão de um desejo. trata-se de uma demanda de amor. marido e mulher etc. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. seja de reconhecimento ou de amor. tudo isso não é específico da Psicossociologia. Por essa razão.. principalmente. solução. objeto material etc. a demanda é facilmente interpretável. inclusive e sobretudo por quem a formula. Nesse caso. na Psicossociologia. disfarçando-se. então. de uma falta. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. na acepção própria do termo. Se. o que lhe dá riqueza e complexidade. no primeiro registro. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. não é uma demanda de objeto. explicitada pelo objeto que designa. mas como social. uma certa relação de poder e de dominação. ajuda. a questão da demanda – sua escuta. sua interpretação é sempre problemática. a “demanda” só tem sentido e só existe. Certamente. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. sua interpretação. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. Entretanto. No limite. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio.

especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). de outro. testemunhado através de seus escritos. que sua prática não é aplicação de uma 115 . meios de resolver um conflito etc. Porém. Ao contrário. eventualmente. atos e palavras. mas também de permitir interpretá-las. reflexo interpretante. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. mobilizadas. das quais resultam vivências compartilhadas que.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. podem ter efeitos nas situações que as originaram. por sua vez. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. não há nada em comum com a posição de simples espelho. Como conseqüência. Assim. Em outras palavras. manifestações agressivas ou angustiantes etc.). Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. de uma maneira ou de outra. compreendidas e interpretadas. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. quis ou “demandou”. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. às quais é difícil resistir. mesmo que seja de maneira difusa. transformadas em atos. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. De um lado. a solicitou. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. exprimem-se sob formas coletivas (greves. de dependência ou de submissão. é necessário que ele tenha se manifestado. as quais. nas quais elas podem ser avaliadas.

a noção de sistema é bastante útil. individuais e coletivos. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. ao mesmo tempo. mas que traduzem um desejo. da mesma forma.. mas através de princípios regendo procedimentos. com a condição. um grupo. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. na falta de outro termo. ao contrário. entretanto. uma perspectiva – que. confessáveis e tratáveis. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. uma ética. DUBOST. uma empresa. Evidentemente. não é possível. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 .Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. tudo isso expressa bem o que. Trata-se. consequentemente. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. Desse ponto de vista. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. enigma. Esse ponto. principalmente. afirmar que elas são. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. independentemente das outras com as quais ela se articula. uma concepção da sociedade e das relações humanas. Entretanto. no espaço desse artigo. Assim. uma classe de atores etc. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. Tal representação exclui. toda análise em termos de relações bipolares. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST.6 como oportunamente evocado por J. desde LEWIN. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. um serviço administrativo. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. parece-nos ser uma ética. interagindo entre eles.

tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. Em suma. J. dessa forma. LEWIN. em especial. trata-se de tentar definir. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . o interventor-pesquisador contra o risco de. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. Evidentemente. desde o início da ação de intervenção. instrumental. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). 3. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. então.Por outro lado. sem o perceber. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. ao mesmo tempo. igualmente. a fortiori. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. A introdução. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. e sendo breve. é importante que todo ator e. em especial. por exemplo –.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. por K. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. Sem dúvida. Desse ponto de vista. antecipadamente. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. aplica-se também à Psicanálise. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. Assim. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. 2.7 Porém. identificar os dados. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. em uma relação de colaboração.

aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. em seguida. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. “saber como se foi apreendido”. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites. uma orientação. nos termos de J. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. algumas tendências atuais.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. assim como observar. consideráveis nas últimas décadas. embora não suficiente. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. de qualquer jeito. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. parafraseando J. Igualmente. brevemente. então. FAVRET-SAADA. é impossível. É indispensável. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. então. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. FAVRET-SAADA. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. Da mesma forma. tentando identificar.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. Embora seu enunciado seja necessário. 118 . Entretanto. questionar. reafirmar essa posição e manter-se nela. investigar. elas expressam antes uma perspectiva. da sociedade e das ciências do homem.

convergências. etnometodologia. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. certas correntes de Sociologia Clínica. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . dedicaram-se. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. Finalmente. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. rogerianas e morenianas. é impossível. hoje. de análise de grupo.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. impõe-se: qualquer que seja o domínio. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. de uma forma diferente. de ordem geral. com uma perspectiva bem global. assim. dominados principalmente. não é mais aceitável. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. Mostram. Por outro lado. no início do texto. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. a problemas de mudança social. talvez rapidamente demais. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. desde os anos 60. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. até então. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. cada vez mais evidentes. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. Em todo caso.10 Mais recentemente. por perspectivas lewinianas. há alguns anos. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. análise conversacional. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. Assim.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa.

por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado.. J. A. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. 1983. Situations de groupe et relations langagières. arquitetos etc. J. 1987. A. paradoxes et psychothérapies. ATLAN. “Eloge de la psychosociologie”. “Coopération et analyse des conversations”. J. J. 1978. 1987. e JOULE. A. 7. trabalhadores sociais. J. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. 10 120 . BION. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. Seuil. Tese de Doutorado. Dunod. 1973. O problema da mudança individual. e CAMUS-MALAVERGNE. Entre le cristal et la fumée. Dunod. RAPOPORT. J. la mort. 1984. L’Harmattan.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. La voix et le regard. 1987. 9-18. E. Les mots. 1984. L. Gallimard. responsáveis políticos locais. Seuil. E. C. Sociologie du Travail. PUF. 42. FLAHAULT. muitos outros atores apareceram: formadores. DUBOST. DUBOST. Paris: Seuil. Como exemplos: BARUS. W. 12 BORZEIX. CHABROL. 3 ENRIQUEZ. 1977. Connexions. “Ce que parler peut faire”. e de representações específicas de objeto. 1979. 1985. L’intervention institutionnelle. TROGNON. André. Seuil. Dunod. 1979. JAQUES. Em especial. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. Payot. A. D. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. por vezes fundamentais. Le sujet social. 7 Cf. 1981. In: ARDOINO et al. R. Minuit.N. nos anos 60 e 70. L’intervention psychosociologique. 11 TOURAINE. 1965. PUF. 1972. Recherches sur les petits groupes. O. 1975. 1989. 17. Connexions. sindicalistas. p. DUBOST. Por exemplo: ANZIEU. Intervention et changement dans l’entreprise. 2:87. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. Paris: Seuil. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. LECLERC. LÉVY. “L’analyse sociale”. e BAREL. 1987. L’observation de l’homme. La parole intermédiaire. Changements. In: Du discours à l’action. “Connexions”. La société du vide. Y. Le groupe et l’inconscient. H. 43. les sorts. 53. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. Paris X. BEAUVOIS. 1978. A. E. PUG. 1980. R. GOFFMAN. Connexions. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. 6 8 9 FAVRET-SAADA. e LÉVY. Façons de parler. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. G. 1990. 2 4 5 WATZLAWICK et al.

de forma mais ou menos clara. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. mais do que como fenômeno excepcional. em nenhuma das duas. em contrapartida.4 Essas evoluções. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. certamente. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. tendência. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos.2 Mas. Entretanto. depois de LEWIN. o segundo 121 . interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e.3 sobretudo nas Ciências Humanas. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. retorno a uma problemática do indeterminismo. também. no campo que nos interessa. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social.

Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. do interior e não de um ponto de vista exterior. necessariamente. porém algumas observações prévias: a. iria reificá-lo. parece-nos possível. Nesse terreno. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. participando delas diretamente.5 Além disso. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. ele permite. isto é. aquém ou além. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. por isso. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. dirigir ou combater. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. LEWIN. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. definitivamente. deslocamento. aqui. Assim. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. compreendê-la como tal. recristalização). não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. hoje. como demonstramos num texto anterior). no grupo (na relação e pela relação. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. de súbito.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. muito fecundo.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. necessitando ser aprofundada. para as constatar. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. K. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. Antes. 122 . mas que ela poderia se realizar. prever. de uma leitura psicológica. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. com efeito. com efeito. por definição. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais.

entretanto. também.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (.. é acontecer. desse ponto de vista. porém. tecnológico –. eles não podem ser previamente enunciados.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. “exceto do corpo que se usa”.. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . econômico.. a mudança é um acontecimento psíquico.. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. reprodução das instituições.9 a mudança. não se reduz a esse processo evolutivo. como ruptura. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. (. a um processo de mudança. é se abrir a uma história. físico. redirecionamentos.. legitimamente. é o espírito que. como observou Paul VALÉRY. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. seja a de um indivíduo ou de um grupo. o desenrolar de uma existência..8 Com efeito. tal definição é geral demais para ser útil. Antes de ser um acontecimento objetivo. Ele se traduz. escrevia Paul VALÉRY. Com efeito. reorientações bruscas. que queremos nos centrar aqui.). Toda vida é “repetição de ciclos”. Como já dissemos. pois.. A mudança é um trabalho do espírito.. à aventura. ao risco (.. A teoria dos sistemas distingue.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. nem todo processo discursivo se identifica. lento e ininterrupto. mutações. ela é um acontecimento subjetivo. designar tudo o que está vivo. O termo mudança poderia. Com efeito. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. assim. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito.). é sobre essa segunda significação de mudança. que é a morte) – reprodução das espécies. reprodução das idéias.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. freqüentemente não isentos de violência. No entanto.

no qual o psicológico teria todo o seu lugar. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. 124 . ele o é apenas se fizer sentido. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. a liberdade”. ao contrário. isto é. um trabalho de pensamento. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. antes de tudo. das instituições. objetivas. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. então. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. dos modos de pensamento. Fazemos. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. os psicossociólogos. depois de LEWIN. Por exemplo. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. ainda. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. por excelência. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. o lugar da mudança. por um trabalho do espírito. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. ao nível de suas significações.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. em todos os níveis. Ou. As condições materiais. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. representações ou intenções e os que estimam.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. ao contrário. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. Para entender bem essa proposição. A decisão: momento. se o ato é fundador. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam.

por si. LEWIN. com o risco de sua própria desagregação”. o psicanalista W. a divisão. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. da ordem do real-concreto-sensível. necessariamente. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. em sua época. Somente a decisão pode fundá-lo”. em suas opções e em seus desejos fundamentais. da continuidade sem hiatos. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que.12 A decisão seria.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. Os processos de decisão analisados por LEWIN. a organização social. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. da duração (bergsoniana). a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. por exemplo). algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. renunciando.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. então. por si própria. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. “operando uma disjunção violenta.13 acentuamos o ato arbitrário. ao mesmo tempo. do feminino. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. para chegar ao processo secundário e criar o real. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. 125 . Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. Por isso. só pode ocultá-lo. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. o tempo. uma situação nova e envolve inteiramente. o “golpe de força” na origem de toda organização social. um salto para o desconhecido. em um trabalho anterior. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. inicialmente. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas.

simplesmente. de forma mais importante ainda. isso significa que uma escolha. ele não compromete nem seu autor nem ninguém.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. evidentemente. pois ele pode sempre ser desmentido.. a decisão é. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e.” é um ato “ilocucionário explícito”. como que por mágica. não muda nada. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. econômicas ou sociais. nem que a palavra seja onipotente. explicitamente designado. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. que uma decisão necessariamente modifica. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. Mas. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. por seu conteúdo informativo e prescritivo. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. qualquer que ela seja. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. retomado ou reinterpretado. mas porque é um ato público. apenas por seu enunciado. simplesmente. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. Um ato. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. não pode significar uma mudança. Se o sujeito que 126 . os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. em si mesmo. Isso não significa. tomados como testemunhas. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. é o mesmo sujeito da enunciação. O sujeito de tal enunciado. pois.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. ao mesmo tempo. manifestação da vontade de produzir. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. quer sejam. modificações na realidade. assim.. assim. Mas. um ato de palavra. Toda decisão é. as situações institucionais.

como muitas vezes ocorre. efetivamente. interpretação e prática de análise social No entanto. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. a respeito do herói. Decisão. do imaginário. a uma atividade lúdica ou de encantamento. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. Nesse sentido. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. e de abandonar o terreno do possível. os desafia. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. para um processo de mudança. talvez mais do que em qualquer outro momento. para fundar o real. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. não se reduzindo. esconde mal. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. sob a má fé dos argumentos. rituais ou emblemáticos. o jogo de hipóteses. formal e. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. igualmente. Aqui. como diante da morte –. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. eles próprios. vazios de sentido e sem conseqüências. entre as possibilidades. inelutável. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. Então. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. conscientes ou inconscientes. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. bem antes do livro sobre Moisés. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. sem apreender o real? 127 .

remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. P. ao mesmo tempo. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. tais como J. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). implica um risco e um custo. termo que. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. certamente. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. senão impossível. para fazer a história. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. escapar dessa eventualidade. 128 . a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. como toda decisão. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. Assim. mas. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. Seria importante. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. O trabalho sobre as resistências. Esses sistemas. Certamente. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. certamente. com efeito. igualmente. Mas ele pode. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. FAYE15 as analisou. como observa FAYE. possuem as características do relato histórico. ainda que não tenham conhecimento disso. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. incontestavelmente. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. feita pelos psicossociólogos. sendo difícil. ela é necessariamente parcial e partidária. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão.

que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. “nascendo. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. não podendo ser traduzidos em decisões. contentando-se em esclarecê-los e. atuem diretamente no real. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. bem claramente. mas sua coerência. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. das condutas às quais elas se referem. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. de uma mesma “realidade”. diz-nos LEGENDRE. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. em um processo de reificação de enunciados fechados. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. práticas contestadas ou abordadas. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . contribui para reforçar seu caráter dogmático. no inconsciente dos sujeitos. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. que preserva o analista social da decisão. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. do risco de uma interpretação verdadeira. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. pois. essas diferentes visões e o que elas ocultam. cada um. visto que essas.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. muitas vezes. justificando. o texto. sobretudo. ideológico. que eles constituem visões diferentes. então.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. assim. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. ao contrário. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. subtraído do tempo”. mas tende a afastá-las. mas complementares. mais ainda. É aqui que uma concepção por demais rígida.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. longe de se fundamentarem no “real”. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. uma parte da verdade comum. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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constituindo-se. atores e autores do seu sistema. cujos elementos. Nesses períodos. não restavam mais que 10 000). as crises econômicas foram. colocam outros problemas. autopoieses.Rupturas. então. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. os novos conceitos e hipóteses. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. em 1900. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. são simultaneamente (cf. capazes de se auto-regularem. Eles se referem a sistemas autônomos. como crises momentâneas de coerência. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. isto é. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. face a “ruídos” provenientes do exterior. isto é. ou seja. autocriação. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. pois. mas abertos ao seu meio ambiente e. químicos ou biológicos. supra) agidos. Assim.Os conceitos de auto-organização. *** Quais são. inicialmente. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. os atores. oriundos de outras áreas. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). 2. o que não é o caso dos elementos físicos.Inicialmente. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . literalmente. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. por isso. em 1950. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. a partir do século XIX. autogeração etc. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes.

nesse momento. encontramos poucas reflexões (na França. Sua presença é vista como consolidada. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe.P. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. na sociedade ou numa área econômica dada. de inovadores potenciais. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos.. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. Mas. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. de outro lado. de um lado. Essas crises-ruptura. por conseguinte. o compromisso fordista empresários-assalariados. entre os economistas.2 por exemplo).Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. na França. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema.I. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. sob o protecionismo de MÉLINE. amplia a margem de manobra dos inovadores que. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. mas isso deixa de lado os fatores 136 . Nesse ínterim. logo não previsível. em especial. segundo CROZIER) e. No entanto. sob a égide do Estado. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). É certo que essa escolha é aleatória.

Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. inerente ao sistema. 137 . por conseguinte. Mesmo se essas teorizações existissem. Há outro problema não estudado. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. entre a mão invisível e o punho de ferro. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. da designação.Rupturas. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. ao nível dos detalhes. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). a difusão ou não – de suas inovações. ou seja. da predestinação do mais forte. Em épocas de crises-ruptura. nessas mutações estruturais.000 sociedades. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. CASTORIADIS). assim como aos fatores culturais. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e.I. ele se torna o ordálio. uma teoria do fracasso.P. Mas ainda continua faltando. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis.. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. em cinqüenta anos. nesse quadro. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. tornando possível viver em perspectiva (C.

por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). da cultura. Mas.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial).fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . podemos constatar: . poderes oligopolíticos em escala internacional. após a solução eventual da ruptura. ENRIQUEZ): nacionalismos. . . .fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.enfim. 138 . . à extensão do capitalismo (os N. integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. des-sindicalização e mesmo des-identificações.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. BOYER. às vezes. . . 3 .fenômenos de regressão a formas mais simples. embora ainda não totalmente. o sagrado e. 3. Ela se define (P. integrismos. ao mesmo tempo.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R.I. homogeneização da linguagem. desde BRAUDEL. devido à extensão atual do mercado e. mesmo que saibamos.outras referências. o lúdico.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. por exemplo): concorrência. após dessacralização. GROU. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados.). por exemplo).aumento do número dos agentes aí implicados.P. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).). a família e a escola). despolitização. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. que o Centro se desloca. polimorfismo das intervenções do Estado.

*** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). introduzir normas. por um lado.). mecânicos. 139 . a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. 1. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). como afirma o individualismo antropológico. por um lado. por outro lado. por outro. químicos. Essa adesão. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. informáticos. Ela supõe. as sociedades animais). uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. REYNAUD). além das imposições do mercado e dos demais poderes. Contrariamente. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. para poderem inovar. biológicos e mesmo etnológicos. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). E esses. quando da sua transgressão e. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. regras ou convenções para lhe dar suporte. o leque dos comportamentos não é. completamente fechado.Nos sistemas sociais. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. tão caro aos marxistas de outrora. uma interiorização das normas e uma culpabilização. para serem fecundas.Rupturas. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. das conexões) e do “salto qualitativo”. para cada grupo de agentes. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. por seu lado. É preciso. pois. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. Do mesmo modo. devem inicialmente ser especificadas.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. D.

muito numerosos e/ ou muito obsoletos. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. 140 . os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. em seguida. mais nitidamente.5 o pessoal patronal). acumulação. dos fatos de regressão (por exemplo. Por outro lado – apesar de KEYNES –.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. devendo encontrar. sem esquecermos ainda as marginalizações. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. da sedentarização ao nomandismo).Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. em período de crise. então. por fim. pelos golpes das OPA. No total. a modificação do tipo de conjuntura. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano.Quando há ruptura. 2. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. por isso mesmo. por exemplo). os outsiders e os parvenus substituem. de se expandir e. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. 3. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. as ocasiões de experimentar. seria preciso distinguir. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. Existe então. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. de sua unicidade histórica. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. inovações. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. no segundo. No primeiro caso. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. O imaginário da destruição pode. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. enquanto que. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias).

2. 40. a adesão às normas e. uma mutação estrutural. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. A continuação do funcionamento implica. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. por Teresa Cristina Carreteiro. tal como: 1. Cf. normas. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais).Rupturas. então. Paris: ERES. portanto.).T.As estruturas (as relações de complementaridade e. n. 2.Mas a adaptabilidade do sistema.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). 55. representações. por conseguinte. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. mutations et complexification en économie (mimeogr. a aquisição de conhecimentos e de representações. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra.T. “esgotamento da relação salarial fordista”). para experimentar as inovações. então.). Connexions. Cf. março 1989. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. um esquema ideal típico. 1990. 141 . N. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema.). n. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. “L’économie des conventions”. Ruptures. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. por conseguinte. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. Revue Économique. André. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. V. por exemplo. 3. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. “Malaise dans l’identification”.

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Pois essas “perturbações”.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. João Paulo II. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. não se trata mais de crises (isto é. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. (Heráclito. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. BRANDT. por sua vez. de criança o reinado. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. no 52) A crise das identificações. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. Assim. porém robusta. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. de algum modo. jogando. ROCCARD. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). 3. de incertezas).Ela mobiliza atores em potencial. condições de “saída da crise”: l. (Hobbes) Tempo é criança brincando. nos anos 60. 143 . E.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. e os transforma em autores das mudanças. talvez anuncie o fim delas. quando não destroem a sociedade em questão. por exemplo. MITTERAND. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. 4. a qual. precedeu uma crise econômica. No Ocidente. então. criam. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. precedeu uma crise política. TAPIE e outros). 2. MARADONA. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. Atualmente. Do mesmo modo. “desfusão das pulsões”. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. a introdução de novas referências. Fragmentos.

Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. angústias de identidade. localizadas e transitórias. assimilam e transformam. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. para todos. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. o individualismo ilusório ou de oportunismo.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. O resultado é que. a tipos de personalidade diferentes. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. de modos diferentes. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. tentativas de reconstrução. levados pela incerteza das situações e do futuro. não apenas a realidade parece incerta. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. a grupos étnicos. por um lado. as “intermináveis adolescências” que. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. O “mal-estar na identificação” traduz. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. é claro. diz FREUD. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. a categorias socioprofissionais e. ao mesmo tempo. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. de assimilação e de inovação. reativados ou mesmo imaginados). 6. assim. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. ao contrário. com todas as posições intermediárias possíveis.No final de contas. pode-se reciclar também a identidade.Ela libera. desses imaginários de projeto. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. por outro. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . perplexidades face às alternativas e buscas de orientação.

O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. organizacionais etc. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. de classe. em vista da emancipação para o societário e a individuação. regionais. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). é paralela à involução identificatória de seus membros. a. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. religiosas. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. Assim. nacionais. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. e a aparência NAP) pelo simbólico. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. gorros cristãos etc. a regra e as sublimações. profissionais. da igreja. nos dois sentidos do termo. as reativações religiosas atuais no Irã. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. da empresa etc. Por exemplo.3 A família.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. é claro.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. do racismo. finalmente. solidéus – kipas – hebraicos. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. b. A identificação que não se desvencilha do partido. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. c.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. Fenômeno que ilustra 145 .

5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. a. especialmente na França. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. principalmente. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. por sua vez. E isso. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. b. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. Ela é. sendo aliás esse que permite aquele. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. Quer dizer que o narcísico.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento.Mais interessantes. primeiramente. exatamente como Deus. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). O retorno pode ir ainda mais longe. é. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. fortalece as exigências da necessidade econômica.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. isto é. além disso. ipso facto. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. justamente porque mais na moda. com o dinheiro. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . às avessas.Do primeiro diremos pouca coisa. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. “tem necessidade dos homens”. entre 1983 e 1988. o narcisismo individual.

posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. O dinheiro. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. Isso é talvez patológico. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. manter ou criar os meios de aumentá-la. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. Por enquanto.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. Entre a binaridade e a injunção contraditória. Enfim. talvez. é mais simples escolher a binaridade. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. notemos que o modelo do sucesso individual. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. Assim. o prestígio etc. essa acumulação pecuniária permite. em substituição ao “Mudar de vida”). o festivo. Além disso. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. o sucesso dos outsiders permite também e. mais tranqüilizadora. caso se propagasse a todos os agentes. se ela for realizada. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). o mercado. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. de junho de 68. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro.) permite. induz não ao 147 . em prêmio de Schadenfreude. Na verdade. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. “Criem sua própria empresa”. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. A monetarização. simultaneamente. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. se autodestruiria. numa androgeneidade fecunda.

em contrapartida. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. a programação dos computadores das Bolsas) que. esse narcisismo manipulador. 1. logo. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. Intermináveis adolescências. a nítida binaridade do mercado. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. (T. Acrescentaremos apenas algumas observações. daí resulta. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. na época atual. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. entretanto. No caso de fraqueza delas.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. nas três etapas – puberdade. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. cada um será. necessariamente. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. um cavaleiro solitário. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. a individualização extrema dos novos modelos. a partir de elementos de vestuário comuns.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . passa-se rapidamente. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. adolescência e pós-adolescência -. ao insolúvel. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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“surpresas”. por exemplo. como. pois. produzem-se onde não se espera e constituem. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. conjugada com a manutenção dos objetivos. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. É por isso que as revoluções. no que tange à história do capitalismo. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. inclusive jovens executivos12. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. fora do controle exercido pelo Centro. Além disso. Além disso. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. em certas regiões. pelo menos em muitos jovens. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. Pode-se. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. entretanto. Com a condição. por historiadores como BRAUDEL ou I. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. 154 . cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. mesmo que sejam minúsculas. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. antigamente atrasadas. não podem ser reorganizadas e reorientadas. pois. uma vez instaladas.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. Nesse caso. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. Assim. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário.

Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. ao contrário. a personalidade arrisca-se a desmoronar). política etc. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. ainda mais. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 .. GODALIER). constitutivas da personalidade e. no adulto não é a repetição mas. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. do espaço. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. das coisas. mas existem. podemos contrapor. dos prazeres. as identificações são. E como se sabe. em seguida. das idéias.. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. numa situação de mal-estar. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. aí. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J.. a conformidade e.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica.. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. logo. dos valores. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. Assim. jogo de empresas. cujas identificações seriam. Paralelamente. MC DOUGALL).) pelas outras. a captação do lúdico (jogo de papéis. idealmente.). no início. unicamente confirmadoras da identidade. Em contrapartida. por sua superação. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. diz WININICOTT). do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. Mas.

então. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas.experimentam-se. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . sem dúvida. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. imprecisas e transitórias. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. . .tentam-se. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. Mas.a dificuldade está. representadas e transicionais. ao mesmo tempo que se escreve. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. como vimos.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. Essa é. entre esses tipos extremos e opostos. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. com o 156 . em identificações hierárquicas.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. então. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses.13 Fundamentalmente. DUPUY. . Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. . então. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Desse modo. por exemplo). A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). em transformar as identificações laterais.

Algumas conseqüências 1. das coordenações pelos sindicatos etc..Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. de bandeiras. aliás. às vezes. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. Enquanto isso.. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). o mal-estar subsiste. da maioria dos marxistas. como na tectônica as placas entram em fricção. 2. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. outsiders ou reciclados. podem entrar em conflito. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. na Colômbia ou alhures. o fim da história só concerne a cada indivíduo). a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. que apesar de HEGEL. dos indivíduos e da identificações 157 . diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. pois.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. apesar de tudo. por isso. e das intermináveis adolescências. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. no fim de contas.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. (O que prova. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. em concorrência). Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. Há. Essas apropriações podem. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. Daí a multiplicidade. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. em 1981). Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. de passagem. com a eliminação das organizações. Chegando à encruzilhada. tanto para os autores das mudanças. de fetos ou de liberdade de viajar. quanto para aqueles que o desemprego. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. das utopias (“mudar a vida”.

Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. Por isso. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. 158 . então.Mas sabe-se também que o vínculo social e. amanhã. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. e a complexidade progressiva do sistema. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. portanto. como alguns dizem. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. ENRIQUEZ. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. 3. a estrela polar) são. as únicas referências ainda fidedignas. as culturas etc. E a que corresponderia. O barroco societário atual é. os tempos. Talvez. encontramo-nos. principalmente). Os signos (o sol. talvez. os espaços. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos).). pedidores de emprego. ao mesmo tempo agradável e funcional. por um momento denegadas (entre os sexos. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. das normas e das formas. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. as gerações. um momento dessa ascensão. Ora. necessariamente. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego.

no mal-estar. n. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 239. no adulto que eles se tornariam. C. É por isso que. os atores (Individualismo). Tomo 1.” In: M. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. Gallimard. 1981. 61-78. do econômico ao sagrado. 1990-1. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. Connexions. Auteuil. MARX. “Zur Kritik. 1989. edição de 1963. p. W. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. sem dúvida. Hoje ele teria.. O problema: em época de “destruição criativa”. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. Oeuvres: Économie. 2 de março. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. N. As épocas de crise e reconstrução valorizam. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. 40. das coesões) não parece ainda inventada. então. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. Temos assim uma alternância de interpretações. Revue Economique. logo. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. a receita das identificações complementares novas (e. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”.T. naturalmente). “L’économie des conventions”.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. nas diferentes esferas do social. RUBEL. para outros? Mas. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. Petit Larousse. 29. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. simultaneamente. Mais dura foi a queda. 55. por Eliana de Moura Castro. André. Passy. 159 .. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. Pléiade. ao contrário. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. Estaria a saída. p. na formação de ninho familiar. NAP: Neuilly. sociedade e personalidades”. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social.].

Paris: Flammarion: 1974. 1984. DE CLOSETS. Autonomie et systèmes économiques.. Paris: Seuil. “Les représentations sociales”. 1976. The end of ideology.. Interminables adolescences. Paris: PUF. Le désordre. Paris: Gallimard. 1975. Si tu m’aimes. 1981. Les ruses de l’intelligence: la Métis. ARMANDO. mobilidade. Aux carrefours de la haine. n. oportunismo. Bulletin de l’AISLF. L’homme et le sacré. Paris: Cerf. Uma mudança social. ANREP. BALANDIER. Le paradoxe et le système. Paris: Minuit. Grenoble: PUG. G. VERNANT. Cujas. n. 1979. P. L’auto-organisation. DETIENNE. Paris: Seuil. Ordres et désordres. J. CERISY (Actes du Colloque de). Paris: PUF. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. 1950. BAREL. CASTORIADIS. Paris: Seuil. 1988. La distinction. 1989. Cf. L’individualisme. L’institution imaginaire de la société. CROZIER. 45. BELL. Paris: Seuil. 1989. 1982. M. LECA.-P. Connexions. Le lien social.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. 160 . J. BELL. Paris: Seuil. DENOYELLE. Les destins du plaisir. Paris: PFNSP. D. n. ENRIQUEZ. M. ENRIQUEZ. Les révolutions minuscules. A. New York: Collier. Paris: Grasset. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. 4. Paris: Fayard. 1960.. Paris: Epi. 1985. DUPUY. Paris. 1982. J.. BELL). Paris X. 1988. 1988. 1982. CHASSEGUET-SMIRGEL. AULAGNIER. 29. M. P. FRIEDBERG. J. P. 1979. 1987. Connexions. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. T. J.] uma não-imitação de exemplos paternais”. Autrement. ELKAIM. 1983. C. Y. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. BIRNBAUM. F. “Le changement en question”. Toujours plus. R. 1989. De la horde à l’Etat. 1974. para TARDE. 51. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. 1979. por outro lado. n.. Freud et l’éducation. M. Les contradictions culturelles du capitalisme. 1988. E. E. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Paris: ESF. 1988. Tese. P. Les deux arbres du jardin. D. CAILLOIS. Paris: Gallimard. 1977. Paris: des Femmes. Winnicott en pratique. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. L’acteur et le système. BOURDIEU. ne m’aime pas.

1984. MITSCHERLICH. Paris: PUF. angoisse. Les lois de l’imitation. Paris: Minuit. FREUD.. 1989. 1989. junho 1987. Paris: CNRS. S. de la vertu et de plaisir. Le Monde. 38-39. Revue française de psychanalyse. S. “Et mourir de plaisir. 1981. Paris: Gallimard. L’autre et le semblable. 1979. n. TOURAINE. Paris: Laffont. NICOLAÏ. A. 1977. n. G. La pensée sauvage. MENDEL.. S. Le retour de l’acteur. L’effort pour rendre l’autre fou. Paris: Payot. Paris: Plon. Cl. Paris: PUF. Malaise dans la civilisation. Nauplie. FREUD. Jeu et réalité. 1966. Reedição GEX. 1973. Revue Economique. 18 julho. psychose et perversion. Inhibition. GOFFMAN. n. nov.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. 1989. LE GENDRE. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. S. D.” Connexions.. NICOLAÏ. 1989. “Les mutations de la famille.. 1989. Paris: PUF. LIPOVETSKY. MENAHEM. H. LÉVI-STRAUSS. out. LASH. 1987. 1978. TARDE. WINNICOTT. Psychologie des minorités actives. F. outono. E. M. SEARLES.. M. Ch. Le complexe de Narcisse. FUKUYAMA. J. S. LÉVI-STRAUSS. A. Paris: RFP. Cl. 1989. Cl. SIBONY. A. G. NICOLAÏ. A. A. et al. n. 15 nov. 18 mai/7 jun. 1934. n.. KRISTEVA. D. 1980. 1989. Paris: Plon.. Les enfants de Jocaste. Pour décoloniser l’enfant. 26 jan. Freud et le problème du changement. 1980. n. symptôme. Paris: Payot. n. 1971. 20.. 3. SEGALEN. Mc DOUGALL. “La voix écoute”. S. 1981. Paris: Gallimard. Ressources. Paris: Fayard. FREUD. GODELIER. SIBONY. FREUD. 1951. L’empire de l’éphémere.” Peuples méditerranéens. Le Monde. n. MOSCOVICI. “Les Français et l’argent”. Paris: Gallimard. Paris: Seuil. 40. J.. W. “Psychologie des foules et analyse du moi”. Paris: PUF. 25 de out. D. “Penser le chômage”. Anthropologie structurale I.1974. B. nov. 2 de março. 1971. G. 161 . 1958. Pouvoirs de l’horreur. “L’économie des conventions”. Paris: Gallimard. 1974. Névrose. D. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. 47. In: Essais. 1980. WIDLOCHER. G. 1982. Paris: PUF. Le déclin du complice d’Oedipe. 1989. 1971. “La fin de l’histoire?” Commentaire. 27. Paris: Maspéro.” L’homme et la société. Idéaux. Rationalité et irracionalité en économie. “La nation disparaît au profis des tribus”. FREUD. Traverses. OLIVIER. “Et le poussent jusqu’au bout. 10. Playdoyer pour ume certaine anormalité. Vers la société sans père. 1980. “La politique en apesanteur”. Paris: Denoël. Forum de Delphes. 1983. 1970. FINKIELKRAUT. A. 1979. 1988. Les rites d’interaction. Le Monde. 51-54. Paris: Gallimard.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

nas décadas de 60/70. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. É bem verdade. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. entretanto. que essa “crise” também eclode em vários países e que. na maioria das vezes. 1980) e de E. 1987). ela tomará formas próprias. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. a partir da divisão não-saber x saber. sem vê-lo como algo já dado. em uma espécie de “crise das instituições”. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. instrumentalizada então. Benevides de Barros É. os textos de J. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. também. em fins de 50/início de 60. lançar um olhar novo sobre o mundo. criando em nós uma vontade de entrar no debate. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. Assim. essa parece ter sido. desembocando. 1980. No Brasil. contribuir. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. em cada lugar. por exemplo. Pelo que eles mesmos nos contam. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. Poderíamos dizer. mais tarde. de A. LÉVY (“Intervenção como processo”. pelas Comunidades 165 . sem dúvida. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”.

abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. de modo generalizado. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. de um lado. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. político e social. questionamento de seus modos de instrumentalização. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. Por aí. então. ARDOINO) ou. do conservadorismo universitário. LOURAU. ao Chile e ao Uruguai. crítica das experiências instituídas. por outro. designa a crítica à naturalização das instituições. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. Em meados de 60. inserem-se. Vemos. DUBOST.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. As instituições são analisadas. ainda. principalmente. J. então. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. através do contato com os “institucionalistas” franceses. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. LAPASSADE. DELEUZE). de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. quando tomado em seu sentido amplo. à Socioanálise (R. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. 166 . por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. chegar também até nós o eco dessas produções. No campo da Psicologia. LÉVY. analisador histórico do status quo vigente. uma certa psicossociologia se faz intervenção. HESS. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. palco de uma produção expressiva. fica claro que “Movimento Institucionalista”. da burocracia partidária. No Brasil. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. desde essa época. Ainda que marcados por grandes diferenças. como à Argentina. o país. E. na interseção dos campos filosófico. GUATTARI e G. G. Os fins do anos 60/década de 70 serão. presenciamos. A. PAGES. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. J. colocou em cheque. O mês de maio de 68 francês. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. R. ENRIQUEZ). convulsionado pelo golpe militar.

iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. com a qual logo rompemos (.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. Em 1967. 3-4). respectivamente.P.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. 1992. a influência do pensamento institucionalista francês. MATA-MACHADO. sobretudo.). (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). É marcante.. (MATA-MACHADO. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. Ambos haviam participado. cuja prática foi denominada Socioanálise”.).).(. 2). para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram. Com PAGES. de forma mais pontual.. 167 . além de seus próprios escritos.. mantinha.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE.)”. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. Lapassade (. como grupo. segundo a autora. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. da formação da A.. através do Curso de Psicologia. de Rouchy e. A entrada se dá. 1992.. p.I. alguns de Enriquez.. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França.. via Universidade e. Lévy apresentou-nos. a partir de 1968.. voltado à pesquisa e à prática. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. “(. que congregou pesquisadores práticos (.. portanto. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. p. 2) O pensamento institucionalista atravessa.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (.. 1992. p. Junto com René Lourau (... O recente trabalho de M.. em 1959. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972... participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. mais especialmente.. segundo M. Se no início a orientação era claramente norte-americana. sob a liderança de Garcia. (MATA-MACHADO.R. mas há algumas produções importantes que já apontam. tivemos entre nós.) Em 1971.

4). 6). psiquiatras e psicólogos. além dos autores já citados. F. LEITÃO e BARROS. p. somou-se a influência do pensamento de outros (M. LÉVY. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. Encontramos. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que.. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. Hoje. enquanto que. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. É também na década de 80. DUBOST e E. O que se percebe é que. J. no Brasil. por um certo tempo. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. p. menos desejosas de mudar o mundo (. atentas às características da realidade brasileira. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. 1992). DELEUZE. No Rio de Janeiro. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. a partir de então. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. 1992. 1987). construindo-se práticas singulares. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. ENRIQUEZ. entre outros). G. Na década de 80. Essa perspectiva é. assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. no Rio de Janeiro. cujos interlocutores privilegiados são A. mas estendendo-se até hoje. pedagogos. MENDEL). 1986). G. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. mais tarde. O pensamento pichoniano. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. há alguns projetos em andamento. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. G.. R. o movimento institucionalista inclui sociólogos.)” (MATA-MACHADO. 1992. segundo a autora. LOURAU. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. 168 . “parcialmente abandonada. LAPASSADE. GUATTARI. em fins de 70/início de 80. CASTEL. FOUCAULT. Ao mesmo tempo. fez com que. na Europa. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. entretanto. Digo isso porque chama a atenção o fato de que.

Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. e SAIDON. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. Especialmente através dos trabalhos de S. difundiram-se os pensamentos de F. Rio de Janeiro. 1986. de obras desses autores. Petrópolis: Vozes. Heliana B. Heliana B. desembocando em algumas traduções e publicações. à instituição de formação e à de pesquisa. Atualmente. 169 . pesquisas e intervenções. MATA-MACHADO. GUATTARI e de G. em suas várias vertentes.). tendo incluído outras influências teórico-práticas.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. 1986. Regina D. e BARROS. em São Paulo. Micropolítica. B. ROLNIK. Regina D. Intervenção psicossociológica. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. 327p. Grupos e instituições em Análise. nas intervenções e práticas sociais. A década de 60: seus efeitos no pensamento. 164p.). M. (mimeogr. O inconsciente institucional. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. Rio de Janeiro: Vozes. 175p. Marília N. sobretudo. KAMKHAGI. (orgs). Félix e ROLNIK. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. C. hoje. História do Movimento Institucionalista. 1992. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. Mas. Vida R. GUATTARI. as contribuições da socioanálise. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. RODRIGUES. o “pensamento institucionalista”. em alguns casos. LEITÃO. e BARROS. RODRIGUES. já toma contornos bastante diferenciados. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. Gregório F. mais tarde. incluindo. na universidade – PUC/SP –. Análise institucional no Brasil. DELEUZE. Osvaldo (orgs). 1984. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. Referências bibliográficas BAREMBLITT. Cartografias do desejo. 1992. (coord. C. B. bem como na entrada. (mimeogr. 1987. Suely.).. Belo Horizonte. 22p.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

em uma determinada situação. Mas creio. em primeiro lugar. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.R. o status e a posição social.a formação. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. as dificuldades sentidas por um ator social. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. b. os princípios e as modalidades de sua intervenção.as condições gerais que engendram. a interação entre essas variáveis. c.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. a algumas observações.I. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . a natureza do “saber-fazer”. Limitamo-nos entretanto. além dos desejos de terceiros. finalmente. Por mais banais que sejam.P.. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. de variáveis como: a. mais ou menos livremente. principalmente. aqui. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. implicando opções e esforços de imaginação e que. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa.

suas aplicações no domínio da economia. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.. simultaneamente. entre 1945 e 1959. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. da formação em habilitações. ênfase a métodos estatísticos. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. a busca de participação. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. missões de produtividade. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. de reeducação. de gestão. do 172 .Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. Na Sorbonne. evidentemente. comportava. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. Nesse contexto. econômica e social. O período imediatamente após-guerra foi dominado. Muitos dentre nós trabalharam. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. em períodos diferentes. de estruturas de direção. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. do recrutamento de pessoal. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. inflação. o Marxismo. nos mesmos organismos3). estabelecidos na capital. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. da conjuntura. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. pelo problema da reconstrução. então.). o funcionalismo etc. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL.

Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. desenvolvendo uma abordagem mais global. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. é o momento também no qual G. da demografia. o movimento trotskista. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. separam-se em duas tendências. da gestão etc. especialmente. a partir dos anos 40. pouco conhecidas na França. pela Dunod). no plano das práticas. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. as obras de G. lembremos. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. onde milito durante esse período. MORENO e depois ROGERS). então. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. estudos de mercado –. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. em 1961. o movimento que iria ser denominado “institucional”. a partir de 1952. na França. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. em seguida. Em relação a esse último ponto. nessa época. André BRETON. a relação crítica e complexa que G. por exemplo. se as tentativas de Reich são.

no qual se encontra B. com o restante do relatório. Igualmente um outro. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. na relação que elas estabelecem com o cliente. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. LEFORT. 174 .Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. servem. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. CASTORIADIS4 e Cl.O.S. durante a ocupação. mas elas permanecem muito próximas. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. em 1949. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. R. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. dirigido por C. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. Entre essas últimas. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). desde sua origem. Perret. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. Antes de sua volta aos Estados Unidos. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. WILLIAMS. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. Entretanto.E. um dos colaboradores dessa equipe.G.5 retém. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. sobre a “moral” da empresa. em 1947-1948. separa-se da IVa Internacional. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). em função do problema da burocracia operária. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. a C.

À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. e eles devem ter acesso aos resultados. junto a pessoal assalariado de uma empresa. em empresas maiores. de início. 175 . aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. Ao contrário. depois eventualmente coletivas –. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. porém.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. elas colocam.W. parece cada vez mais interessante. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. em última análise. as que são conduzidas por equipes francesas. apoiando-se nos resultados.I. se abrem a uma abordagem mais clínica. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. passando pelas reformulações européias do T. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. da mesma forma que a direção. Da mesma forma. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes.

pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. um objeto de trabalho. modos de remuneração. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. as relações intercategorias e as microculturas da organização. e tenta inventar. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. pirâmide de idade. para uma orientação mais clínica. as disfunções. ou aos que decidem – Direção Geral. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. a se expressarem. Ajudando todas as pessoas. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. algumas vezes antigos. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. que fala sobre seu campo e suas intervenções. Ele faz da relação de consulta um problema em si. segurança etc. grupos de mais velhos. Direção de Pessoal –. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. feita pelos encarregados da pesquisa. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. as crises. de pagar o preço por sua solução. no interior desse quadro de atitudes. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. ele se pergunta se os bloqueios. Por outro lado. turn-over. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. absenteísmo. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. pelos sentimentos coletivos. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. cujos conflitos. higiene. sua natureza real. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . Em outros termos. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo.). e essa não sendo a conseqüência menos importante. Enfim. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade.

a idéia de que a intervenção. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. mais tarde. ele exerce uma pressão que. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. sem dar conselho. sem dúvida. permitindo a expressão do reprimido. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. os sistemas de comunicação na empresa. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. gestão ou organização. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. mesmo nesse caso. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. além dos arranjos menores concedidos. de fato. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. mesmo desejando o contrário. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. à medida que esses são identificados. acaba totalmente reforçada. de perceber direções de solução. ajuda as categorias vítimas da repressão. ele próprio contribui. ele crê que. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. de fato. Nessa perspectiva. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. isto é. 177 . do especialista em uma técnica de produção. os processos de preparação e tomada de decisões. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. em especial dos inconscientes. isto é. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. Porém. se aceita.

I. mais do que acelerar tal processo. A outra continuava a realizar. O caráter clínico do novo grupo. a 178 . nessa época. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. do psicodrama analítico etc. Da mesma forma.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. (1959). mas também em uma transformação cultural profunda. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel.P. das formas de autoridade. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. em uma empresa nacional. então. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. Tenho a impressão de que. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias.. os limites das ações de intervenção. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema.R. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. Os anos sessenta No momento de criação da A. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. No momento da criação.

a metade das atividades da A. grupos abertos de análise etc.R. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. uma longa intervenção em uma empresa implanta.). de sociologia das organizações. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. de inspiração rogeriana.6 No começo dos anos sessenta.I. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. e ainda agora. a continuidade no tempo. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações.P. A organização e a condução de seminários representa. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. reunindo às vezes toda a equipe. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. atuando diretamente no campo. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. HERBERT. se podemos dizê-lo. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). neles. de metodologia psicossocial. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. a proporção era aproximadamente de nove décimos. ROUCHY). o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. de formação de adultos. dez anos depois. algumas vezes mesmo de introdução à economia. era de um terço. a metade já era. do sócio-técnico e mesmo do econômico.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado.-C. durante todo esse período. nesses. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). A orientação não diretiva. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama. outras vezes apenas três psicossociólogos. ou iria finalmente se tornar. dominou os primeiros anos de funcionamento.7 Paralelamente. até 1966 (marcado pela vinda de C. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. terapeutas ou analistas.

por exemplo.E. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. de trabalhadores sociais. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. É sobretudo na França. em 1961.I. de padres e religiosos. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. de atendentes. diversos membros da A. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. movimentos educativos. a demanda se estende a associações. de maneira ainda mais geral. na equipe. de psiquiatras e de psicoterapeutas. junto a um Centro de Produtividade. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.P. a integração.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. junto a organizações com função econômica. então. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc.F. desenvolvimento organizacional). 180 . a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). por volta de 1965. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. Mas creio que é necessário evocar também.N. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. a guerra da Algéria. Entretanto. Ao mesmo tempo. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. durante vários anos. é uma intervenção no México.). Psicossociologia e Política etc. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. em Paris. sua recusa em fazer pesquisas de mercado.R. para explicá-lo. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. as condições ideológicas próprias da França.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue.

ao contrário.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. por exemplo. dentro de certo prazo.10 .9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: .P.N. como o fazem os indivíduos ou os grupos. centrando-se na evolução das pessoas. uma evolução global do sistema educativo. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. mesmo que modesta. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal.E.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. . um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). o período que se seguiu a maio mostra. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. uma direção susceptível de provocar. As instituições não se analisam. nas ações de movimentos como a F. não desembocou no político. ao considerarem suas relações e vida psicológica. trabalhava desde 1964. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. simultaneamente política e cultural.R. como muitos outros. através do desenvolvimento de ações locais. antes de 68. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. Embora alguns dentre nós víssemos.I. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. de uma audácia espantosa. por parte da instituição. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e.O..E. que dava uma direção totalmente imprevista. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 .integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.elaboração de projetos de pesquisa-ação. com os quais a A. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho.V.

todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. mesmo quando. ou “indutor de mudança”. mas também de seu objeto de trabalho.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. até o começo dos anos 60. no campo social. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. 182 . progressivamente. na prática. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. . ou melhor. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. sob a influência do pensamento psicanalítico. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. tal opção. “agente de mudança”. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início.A partir dos anos 60. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. bem problemático. parece-me que. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo.Porém. em especial lacaniano. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica.12 . 1967. Esse último aspecto leva à questão mais geral. no último período. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. afastando-se dela em seguida.nos anos que se seguem à Liberação e. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. O modelo do analista pareceu sempre. quando as referências à pedagogia ativa. ele deve ser buscado em outro nível. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. a “socioanálise” ilustra. devendo ser afastado ou suspenso. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. no plano das idéias. sem dúvida. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. Como o mostra André LÉVY. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. benefício a mais).11 Estudando (por três vezes: 1963.

ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . ou que se tenta ocupar. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. tendo em vista sua própria história. cedendo a pressões de que se é objeto. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. nunca é independente. sobretudo. por exemplo. porque ocupa. lugar onde se está. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. com todos os riscos que isso comporta. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. Simetricamente. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. pertencente ao campo estudado. a esse respeito. no campo. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. A expressão pesquisa-ação. é certamente oposta à acepção lewiniana. presente nele. Se ele se encontra em uma posição menos central. e. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. na referência ao próprio lugar ocupado. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. como pesquisador ou consultor social. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. por exemplo. nem a se considerar parte da ação. Toda intervenção psicossociológica.

evidentemente. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 1963. J. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. Jean e LÉVY. Paris: Epi. André.P. de forma mais livre. ou mesmo depois de terminar.). Ecrits (por exemplo. sobre. “Une intervention psychosociologique”. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. desde sua criação. 1978. “L’Analyse social”. meu texto de introdução em Elliott JAQUES.”. quatro anos depois. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. 4 Cf. seu vice-presidente. n. 1980. 1977. 29 de Connexions. les Sorts. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). p. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. LÉVY. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. não se pode. 1331. 857. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. 3. In: ARDOINO et al. Épi. Droz. 1332 etc. de 1955). 7 Max PAGÈS. L’intervention institutionnelle. 13 Les Mots.S. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. 2. 11 Cf. secretário geral da associação. In: Fondation Royaumont. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. por Marília Novais da Mata Machado. André. de PERETTI. 8 Cf. Le psychosociologue dans la cité. 1980.E. o capítulo “Variantes de la cure-type”. 1304. sobre esse último ponto. presidido por Jean STOETZEL e. 9 Cf.F. ROUCHY em Connexions. Continuando. 12 Cf. n. 1969. 806. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. Jean-Claude ROUCHY. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751.-março. “Dire la loi.. Psychosociologies. 825. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. 1972. 1967. la Mort. A C. com universitários como Georges FRIEDMANN. 17. 5 Compagnie Générale d’Organisation. 50-68.O. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. Paris: Dunod. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). por exemplo o artigo de J. Paris: Payot. Connexions. Connexions. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. LACAN. n. n.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder.) e dos de Cl. contra. 2 3 184 . Gallimard. 10 Cf. Intervention et changement dans l’entreprise.G. Sociologie du Travail..-C.T. a partida de Max PAGES. 1972.. mais recentemente. n. 1971. e de A.O. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. 1303. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. responder a essa questão. jan.

pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. permitindo esclarecimentos progressivos. Parafraseando HEGEL. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. Tal afirmação. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. Porém. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. mesmo que artificial. além disso. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. Esclarecer sua posição em relação às situações. há muito tempo. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. tem qualquer coisa de suspeita. sobredeterminado por uma profunda lógica. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. 185 . à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. quando é apenas verbal. porém. No que me diz respeito. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. Porém. entretanto. esses ainda são muito relativos. à crença em sua positividade fundamental e.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. através das contradições de suas condutas profissionais. bem ou mal resolvidos. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade.

ainda hoje. fundamentalmente. reciprocamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. instituindo. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. As práticas de intervenção. dizem respeito.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. Durante muito tempo e. na França. leva-me. mais lúcida ou. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. ela é. ela desconhece 186 . diferentemente das ações de formação e de pesquisa. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. Ela repousa. com freqüência. a reconhecer. junto aos grupos envolvidos. sem dúvida. diretamente. cada vez mais claramente. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. As tomadas de consciência. desapaixonada. diferentemente lúcida. em relações diretas. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. no mínimo. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. Toda a minha experiência. ou mesmo a um nihilismo. científica. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um.6 por esse rótulo. ao contrário. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. longe de chegar a um ceticismo. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. face a face. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 .

com vistas a decisões e ações.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. implicitamente. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. Tal metodologia induz. em determinado momento. com efeito. melhor coordenação administrativa. de um lado. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. por sua vez. uma única vez. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. A reunião desses diferentes objetos na análise. de uma forma histórica.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. 187 . isto é. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. de forma alguma. caso contrário. que adotava aproximadamente esse modelo. supõe. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. de quem dependia bastante. De toda forma é surpreendente que. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. Porém. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. cuidando. seu amigo. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. de outro lado. então. sobretudo. que. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. data de 1972. quase narrativa. considerado como um diagnóstico e. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. os problemas atuais da empresa. mas. visto como ligado demais ao responsável comercial. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. esclarecimento das funções. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. é apenas um simples instrumento ideológico. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário.7 A última intervenção da qual participei.

complementares. reconstituído graças a nossos cuidados. no limite. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. mas potencialmente articuláveis entre si. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. de um a outro. porém situados no mesmo plano.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. traduzia também. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. então. e de passar assim. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. particularmente por meio de nosso relatório oral. sobretudo. inevitavelmente. a coexistência desses diferentes discursos. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. A pesquisa havia fortificado essa esperança. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. e. A perda da esperança acarretou. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. em outras palavras. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. como se esperava de nós. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. e sobretudo. sem dificuldade. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. para apreender a “realidade”. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. organizacional). O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. expondo cada um com a mesma objetividade. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). ideológico-afetiva. Em outras palavras. um de cada vez. à medida que cada discurso. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos).

o levantamento de dados. excessiva demais) e conservar. associa-se necessariamente à busca de um sentido. é a função das representações. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. o “real”. desconectados das condutas e estratégias. 189 . pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. assim.Intervenção como processo (subjetiva demais. Essa experiência possibilitou-nos. assim. Essa crença conduz. que não se reconhecem como um discurso. sabemos. a pesquisa contribui. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. ao contrário. isto é. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. para o recalque: primeiramente. ações ou decisões (saber para). que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. articulá-las. desejaríamos. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. então. qualquer que seja a maneira como é conduzida. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. constrangidos. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. Longe de favorecer um processo de análise. em seguida. no mínimo. embora imperfeitamente. não aceitamos seus pressupostos. em discursos que as pessoas expressam. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. escutada ou recusada. a partir de diversos “pontos de vista”. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. perceber o quanto a prática da pesquisa. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. legitimamente. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). de uma explicação geral. Mas se aceitamos. em contrapartida. reduzidas a enunciados fechados.

com efeito. sob forma falada ou atuada. 190 . reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. na enunciação. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. instituídos. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. pode ocorrer. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. Porém. no sentido pleno do termo. na qual uma resposta instantânea. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. A não ser que se idealize o processo de análise social. mas. reciprocamente. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. se há um resultado do qual estou seguro. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. moral ou corpórea. se articulam e se transformam. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. sua posição de exterioridade é apenas relativa. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. então. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. Os grupos face a face aparecem. independentemente das maneiras como se atualizam. na qual o imediatismo do risco é sensível. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. essa só pode. Só é possível. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. ser feita em uma experiência de comunicação.

Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. estratégias. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. no sentido preciso desse termo. pressões. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. corpo a corpo. essas relações implicariam particularmente. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. no próprio ato que o institui como analista. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). por parte do analista. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. por exemplo). isolados de toda historicidade. uma vez que. 191 . “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. mas relações de transferência.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. Nas situações de intervenção. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. material ou simbólica. com a participação do analista-interventor. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. das quais necessariamente é parte. grupo do outro. desde o início. ele se insere no mesmo sistema de alianças. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. o respeito à regra de abstinência. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. do não agir. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. isso é apenas uma petição de princípios. em função de uma “demanda”. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor.

essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. por antecipação. traduzia o desejo de tirar 192 . ele elimina. fora da situação de análise. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. no mesmo ato. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). um serviço). por exemplo. então. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. O interventor pode. o grupo ou equipe como unidade diferenciada.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. seu objeto. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). por meio de regras explícitas e implícitas.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. isto é. tendo que tomar decisões e executá-las. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. assim. fragmentada. Um dos objetos de análise pode ser. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”.12 e a legitimar sua interpretação. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. não unificada. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. quanto para as relações internas. do “aparelho psíquico grupal”.

podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. Não se pode escapar disso dizendo. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. do trabalho de análise. Um dos resultados. que continuaria submetido às regras administrativas. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. essa modalidade se constituía. ele entra em conluio com as resistências. quando o interventor. e o grupo de suas restrições externas. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. Nessa perspectiva.). nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. a presença. por exemplo. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . a desmistificação de certas crenças. observações. paradoxal. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. a composição do grupo pode evoluir. a não ser provisoriamente. que a emergência dos conflitos latentes. merece ao menos uma explicação. numa colocação em ato do desejo. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. com efeito. Se isso é em parte verdadeiro. mas também para o gozo sexual ou estético. como o fazem certos psicanalistas. É por isso que. à medida em que o trabalho progride. as resistências internas na organização tendem. o que vale não só para a análise. como. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. pesquisaação etc. assim. de uma terapêutica localizada. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. institui tal quadro. especialmente do médico-chefe. Certamente. o abandono de tabus. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas.

antes de tudo. Com efeito. Em um texto anterior. com noções e representações úteis à ação. as peças começam a circular. conseqüentemente. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. à incerteza. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. O novo que aparece não é. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . Graças a esse vazio repentinamente desvelado. do pior ao melhor. mas uma subtração. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. centrada no sistema de regras etc. então. um acontecimento marcado pelo advento. uma certeza a menos. centrada nos problemas de produção racional. irredutíveis. a da organização científica do trabalho. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. o acesso a uma história. um possível onde havia certeza. Com efeito. ao desconhecido. do menos ao mais. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. um jogo mais livre se torna possível. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. ao risco. a mudança representa para nós. uma questão onde havia uma afirmação. ou como o reconhecimento de clivagens internas. a da burocracia. de acordo com eixos orientados. em face à eventualidade de uma ruptura. inclusive nas pessoas. uma certeza a mais. um novo pleno.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista.. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. Não é uma soma. isto é. no mínimo. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças.. toda teoria organizacional é relativa.

ordenado. são discursos destinados a legitimar. com a finalidade de construir referências. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. temporais. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. o que dá no mesmo. Nessa perspectiva. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. Pareceu-nos. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. então. enfrentar e ocultar as contradições que vive. as ações e as divisões. tenta explicar. Nesse sentido. Entretanto. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. desde 195 . mas em apreendêlas como discursos incompletos. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. permanecem divididos os discursos de representação. com efeito. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. tendo sua própria pertinência. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. também ela. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. Assim. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. então.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. hierarquizado. o processo de análise não pode. para os outros e para si próprios. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). a análise não alcança objetivamente um real suposto.

por sua vez. pareceu-me simpática. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. A razão de minha determinação. Depois de uma breve hesitação. Embora eu tivesse trabalhado no passado. Buscavam essencialmente um “técnico”. destinadas a serem engavetadas. como ocorrera na assembléia anterior. ao contrário. Igualmente. aceitei. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. talvez tivesse mesmo o inverso. citarei o caso de uma intervenção muito breve.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. era o sentimento de que não poderia. Para ilustrar o que precede. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. em sua maior parte. 196 . isso não apenas não os inquietou mas. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. como condição para aceitarem sua missão. aliás muito rapidamente. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. em especial. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. reificaria significados. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. com interesse e prazer. Assim. por diversas vezes. tanto quanto pude analisála. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. que deveria ser. ela pretendia ser. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. endereçada agora a mim. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. mas a demanda. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. Esclarecemos. com pessoas pertencentes a esses meios. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa.

Para isso. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. dois encontros no local da Assembléia Geral. Como cheguei lá. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. depois dos debates. Tratava-se então de um momento que. atendendo expressamente à sua demanda. de outro lado. era considerado por muitos (ou. uma Assembléia Geral extraordinária.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. Como já mostrei. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. e enfim. em relação à Comissão e. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. o lugar deles. na história da Comunidade. à noite. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. que não podia ser perdido. diversas sessões haviam sido previstas. Ela havia sido decidida no ano precedente. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. vencimento dos prazos para decisões importantes). pelo menos. em seguida. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. pela Comissão) como um ponto de transição. cuja forma seria definida? 197 . de um lado. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. de fato.

tomei conhecimento. Eu era calorosamente acolhido. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. os textos definindo seu funcionamento. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. de sair de um estilo de relações muito corteses.I.). pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade.R.P. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. então. com a ajuda deles. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. como um estranho mas não como um intruso. tendo em vista a Assembléia Geral. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. 198 . ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. evitando toda aspereza. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. Parecia-me. eu próprio me sentia um estranho. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. as relações entre elas. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. talvez também meu próprio sobrenome judaico. Espantei-me. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. com amizade e com confiança. a fim de levantar suas opiniões. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. ao mesmo tempo. O fato de que eu estava lá como um profissional. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. Nessa ocasião. esquivando-se dos conflitos e divergências. as regras às quais se submetiam etc. então. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. sem implicação com o grupo.

Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . sem dúvida. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. com bastante veemência. declarei-lhes: 1. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. em última análise.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. a meu ponto de vista.Intervenção como processo No nível do conteúdo. então. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. demonstrei que. 2. observei. entretanto. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. mas representavam também. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. pelas vontades expressas pela “base”. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. assim. Pareceu-me. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. com relativa facilidade. ao contrário. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. Eles aderiram. O papel que tinham era não apenas técnico. que eles deveriam. seu papel de porta-vozes puros. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. em nome de valores democráticos. sem deixar de observar. para a escolha dos temas que seriam então tratados. periodicamente. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado.

Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. sem implicar posições táticas e políticas. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. Paradoxalmente. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. eventualmente. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . Com efeito. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). seria necessariamente confundido com a Comissão. ao contrário. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). com alguma hesitação).Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. No limite. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. Caso eu participasse da Assembléia Geral.

enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. formalmente. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. judeu) tinham para eles.. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. b. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. existente no real. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. durante o primeiro dia de trabalho. nossa posição profissional e inserção institucional. ficou claro que: a. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro.R.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. a partir dessas diferenças em status 201 . através de minha inesperada implicação afetiva. durante um vazio de poder). nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. uns em relação aos outros. Assim. Deveria representar um tempo de análise coletiva. até a eleição do próximo Conselho. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. sobretudo. ligado à Comissão. Certamente. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura).Intervenção como processo como observador. c. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. entre nós e os membros da Comissão. membro da A. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. sem direito à palavra. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. mas no calor da discussão. não em trocas prévias. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. mas também de escolha de orientação política.I. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. isto é.quanto a mim.P.

entretanto. 202 . Tudo isso. entre outros escalões – e. em conseqüência. às instituições ou às atividades). relatórios de reuniões. a partir desse primeiro dia. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. Esse efeito de sentido. Nesse sentido. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. Foi preciso.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. por sua vez. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. entre as comunidades regionais. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). como terceiro. destinados a serem comunicados à Comunidade. assim. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. entre a Comissão e o Conselho. particularmente. não se produz. Na sua maior parte. lutar para tornar o trabalho mais lento. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. a partir desses documentos. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. e sobre o que pôde ser produzido. era “relativa”. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. como membros dessas comunidades regionais. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. da importância atribuída às pessoas. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. por exemplo. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. o desenvolvimento de um certo trabalho. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. nossa alteridade.

. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. a definição da pauta dos diferentes dias. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. refletindo situações particulares diferentes. da segurança.”). Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa.. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. em contrapartida. algumas vezes. as questões a serem submetidas a voto etc.. por meio desse trabalho preparatório e. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. segundo os quais as definições da Comunidade. ou ainda. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.). seja o conjunto de atividades –. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. aparentemente menores. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. assim. ou mesmo..18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. da idade. 203 . interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. sem dar muita importância. em seguida. sobre palavras fetiches. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). carregadas de subentendidos (por exemplo. na Assembléia Geral. seja a coabitação em um mesmo lugar.Intervenção como processo considerando questões particulares. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. No curso desse processo. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo.

de um lado. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. de outro. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. o “serviço concreto do Homem”). criar uma situação nova. de outro. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . quando aplicado a um processo de intervenção. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. fazer uma sondagem. a-organizacional? Bem entendido. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. ao contrário. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. ela constitui uma terapêutica dessa última. de comum acordo. Nessa perspectiva. permitindo-lhe aumentar sua força.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. reflexivo e crítico. isto é. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. facilitando a escolha de futuras estratégias. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. melhorar seu funcionamento. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. Para concluir. de um lado. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre.

eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. Com efeito. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. necessariamente. Assim. melhor se fica”. Ora. a ação de outro. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. essas afirmações estão longe de serem verificadas. longe de terem um valor geral ou intransitivo. em uma modificação das relações de poder. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). como alguns às vezes pretenderam. 205 . Em um trabalho anterior.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. com precisão. senão de cegueira. ao contrário. antes. “quanto mais houver saber. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. ela também não é. uma afirmação da identidade desses dois processos. conseqüentemente. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. uma dose de desconhecimento. ela implica. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. uma colocada a serviço da outra. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. isto é. tivemos a oportunidade de demonstrar. mais a ação é eficaz e pertinente”.

O saber. implica todo um trabalho sobre si. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação.19 Por isso. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. entre o que pode ou não ser escutado. um sistema de ação. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. como experiência. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. uma escola). é a parte que permite trocas e manipulações. com o mundo. a mais simbolizável. tratando dos processos de pesquisa. em uma organização ou em uma sociedade. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. em um processo de escrita. os transforma. ao mesmo tempo. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. sobre seu passado. Com efeito. por exemplo. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. mas como um processo. Assim. 206 . entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros.

Daí o hiato persistente entre. De alguma forma. ao contrário. O processo organizacional funda-se. de outro. essa. que pretenderia circundar o sentido. já foi evocada anteriormente. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. clivagens e limites. visam a introduzir. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. contabilizável ou informática.Intervenção como processo Tal concepção de organização. assim. de uma racionalidade criadora. de separar. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. por exemplo. Esse golpe de força. de limitar. As regras dividem e separam. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de um lado. mas. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. para perdurar. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). no nível do pensamento. a necessidade de dividir. que não exclui nem dúvida nem incerteza. especialmente do desejo de onipotência. em uma negação do inconsciente. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. de toda construção material. é precisamente a impossibilidade. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. 207 . para essas representações – esses discursos de representações –. dito de outra forma. é a condição de toda vida social. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. ao mesmo tempo. de realizarem sua meta de dar sentido. espiritual ou mesmo afetiva. que. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. o desejo de tudo compreender e. o desejo de tudo controlar.

L’intervention institutionnelle. L’Analyse social. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. Porém. 69-100. uma palavra continua. assim. Connexions. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. Respondendo a uma demanda de palavra. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. a se desenvolver. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. 29. ao menos. 2 208 . Paris: Payot. quanto da análise que a torna possível. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. então. é importante. em seu primeiro esforço. ela se choca assim. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. fazendo isso. de ignorar as implicações dessa inversão. p. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. Dessa forma. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. In: ARDOINO et al. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. 1980. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. mantendo vivo o passado.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. ou. Jean e LÉVY. por Marília Novais da Mata Machado. André. até então bloqueada ou proibida. I/1980. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. sobretudo.

“L’acteur et le système”. Connexions. Traduzido de: DUBOST. FREUD. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. trabalhando com a própria contratransferência.”. In: ARDOINO et al. um individual e outro grupal. Gallimard. L’intervention institutionnelle. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Paris: Payot. 1980. em Topique. la Mort. Connexions. Por exemplo: Max PAGES. Nesse exemplo.”. Thèse d’Etat. Esse conceito. 49-68.. L’amour du censeur. 196l. FAVRET-SAADA. “L’interprétation de discours”. “Dire la loi. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Cf. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. 1978. “Sens et crise du sens dans les organisations”. cit. LAPASSADE. 29. Cf. 7. Paris: Seuil. Mal-estar na civilização. Como toda análise de conteúdo.. CROZIER. inédita. Connexions. les Sorts de J. 21.3 4 5 Inspirado em G.. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Cf. “L’Analyse social”. André.. Segundo o Petit Robert. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. LÉVY. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. Seuil. S. de P. introduzido por R. Connexions. LEGENDRE. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. Jean e LÉVY. op. Sociologie du Travail. Connexions. pp. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. de E. “Dire la loi. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Les Mots. Connexions. 21. “Sens et crise du sens dans les organisations”. também “Le pouvoir et la mort”. cf. ENRIQUEZ. Em termos mais sofisticados. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . KAES. “Le changement comme travail”. postula dois aparelhos psíquicos distintos. I/1980.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. de toda atividade de formação. ainda. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. 2. Dizendo o mesmo com outras palavras. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. e mais violentamente. Esse número de revista testemunha bem o fato. o procedimento de exclusão do real e. Entretanto.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. isto é. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. há casas para ela). tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. uma dúvida me invade. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. ou.O que ocorre de essencial no ato formador. Por isso. sem dúvida. as práticas de formação. nesse breve artigo.E também o que é o próprio sentido desse movimento. como a maior parte das indagações a respeito da formação. e. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas. mais precisamente. de forma concisa e injusta (mas.

Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. o progresso dos conhecimentos. de paciência. de tempo. 3. ainda mais. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. de um lado. Toda formação. Trata-se. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. Orienta-se (e não apenas na China. então. todo crescimento no domínio das informações.a dos sociólogos críticos. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. para um sistema onde. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. um efeito positivo para o formado. então. de reciclagem e. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. O problema é unicamente operatório.a dos psicólogos. a formação permanente torna-se indispensável. para desejá-las e provocá-las. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. cada um à sua maneira. situando a prática que buscamos promover. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. sua vontade e sua imaginação. 212 . a todo momento. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. temores do formado e condicionamentos sociais. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. Certamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. advindo a necessidade. resistências. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. de investimento pensado. toda aprendizagem de técnicas teria. mas também têm. a fim de poder seguir as mudanças e. Assim.a dos formadores e educadores. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. 2. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. de outro.

o real é o que escapa a toda definição. que as reconstituições são parciais. que a libido é turbulenta. na transformação e ele é. inesgotável. da mesma forma. estritamente falando. além de anularem toda diferença e toda dispersão. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. o do louco. os blocos erráticos. do cálculo. cartesiano. O real não está lá. ele se revela na ação. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. é o que excede toda análise. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. através da ordem. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. O comportamento adulto é o comportamento refletido. o do outro. sem paixão. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. da medida. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. ao umbigo dos sonhos. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. Ora. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. portanto. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. as brechas repentinas. sem sonho nem loucura”. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. sempre a serem melhoradas. que se torna assim excluído). Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). que o homem está sempre por nascer. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. mestre das leis e da morte. hoje. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). o do primitivo e. que as causas determinantes não existem. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. além de toda interpretação. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. obtido apenas 213 .3 referindo-se ao racional e ao controle.

como uma água calma. Temos de um lado o conhecimento. as variações de temperatura. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. 2. como diziam os alquimistas. a cada dia. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. Como viver o desejo do pleno. De outro lado. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. não se trata aqui de uma simples metáfora. temos a bola de fogo.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade.5 Certamente. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. Quando houver apenas Eus fortes. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. pois ele não pode sê-lo. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. de hábito. a angústia de se perder no turbilhão de questões. cuja única saída é o aniquilamento mútuo. as provas de sua impossibilidade. a humanidade estará. o seu contrário. por isso. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. imagens protetoras.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. do que tranqüiliza. a alegria da certeza e. E nunca esse programa foi mantido. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. se for atravessado pela ideologia do senhor. o confronto com a finitude. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. a energia que se desprende. então. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. desenvolvendo-se progressivamente. falando dos signos da 214 . Aliás.4 isto é. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). Ora. a opacidade. ao mesmo tempo. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. do questionamento do saber obtido.

. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. Então. Os tecnocratas. mas uma relação angustiada com o saber. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. Igualmente. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . os psiquiatras aliados do poder.. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. a despeito de suas diferenças.6 Ora. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Conclusão: o que permanece são as certezas. 2.Quanto ao segundo princípio. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas.

grupos de encontro. esses mesmos estágios. não existe. o cachorro ou com o estrangeiro que. no momento. ter um outro modo de relação com os outros. há alguns anos. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. então. é preciso. É talvez por essa razão que. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. algumas vezes. além do mais. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. a mulher. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. que relações de poder ele pressupõe. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). alienada na sociedade contemporânea. com seu corpo e com seus desejos. Acrescentemos que. em um congresso de chefes de empresa. gestalt-terapia. aliás. Um importante dirigente internacional não dizia. ao qual muitos poderiam se subscrever. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. liberação corporal e sexual. mas de peso. impacto social menor (estamos. Horizonte grande e enaltecedor. o homem. assim como as experiências de bio-energética. tendo recebido um certo tipo de educação. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. é que a pessoa. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. no qual se inscreve toda 216 .Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. mas porque apresenta. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade.

a seu cheiro. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. de uma luz na qual me banho. Então.8 Pode-se apenas descrever tal estado. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. justamente. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. que dá a cada parte de seu corpo. como tais. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. num momento de estado de graça. então. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. que podem ser atuados. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. à sua voz. testados no mundo. renasço. Trata-se unicamente de relações faladas e. complementares ou antagônicos. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. LECLAIRE: Quando. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. Não se aprende o amor. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. que instituições me sustentam. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. que sofre e que ama. feito de uma explosão que me fascina. a quem falo. que desejos elas retomam ou reprimem?. não temos nada a dizer. por quem e por que sou falado. mesmo nesse último caso. em técnicas e em posturas. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. Como escreve S. durante um tempo determinado. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. Mas. eles não se explicam. alguma coisa explode em mim. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . Sua beleza desencadeia esse prodígio. por que falo dessa maneira. Em contrapartida. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Entretanto.

estará pronto a largar mulher e filhos. questionará as instituições. as transferências maciças. Eles. pelo menos. essa explosão. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). São palavras (ou gestos) em um lugar específico. do aumento do grau de irrealidade da situação. E talvez. Uma vez de volta às suas instituições. seu “saber-fazer”. os mais narcíseos) podem. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. assim. onde tudo era diferente.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. mostrando assim sua potência. a fim de viverem sentimentos intensos. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). para que entrem em uma relação de transferência. Mas o psicólogo está lá para as acossar. ao mesmo tempo. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. tomar o grupo em seus desejos. não pode ser feito. definido como um lugar no qual se deve comunicar. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. as manifestações sem seqüências. não se entregam. então. ou. as fantasias invasoras. e ele é um bom juiz. para fazê-las sair de suas tocas. na maior parte do tempo. Ficará apenas a lembrança de um momento único. o fazer ao dizer. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). a não ser que queiram ou possam. analisando com toda a sua força. esses discursos. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. os choros e os gritos de alegria. embora plenas. seu rigor. chorará (o próprio ROGERS. irromperá um lapso. Mas. super-ativo. arriscam tudo e nada arriscam. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. O lento trabalho do negativo. favorecendo os processos regressivos. como os weekends e as maratonas. Outro deixará se levar por suas emoções. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). as proibições. fazer triunfarem suas fantasias. de tempos em tempos. única fonte de mudança. declarará sua paixão por uma estagiária. vai querer se fazer amar por todos. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. pois as palavras trocadas. tomar o lugar do líder. certificando-se de que nada lhe escapa. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. Ei-lo. um ato-falho. esse irromper não ocorrerá. o tempo ao momento. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . não porá nada em movimento. no medo e tremor. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. os tabus.

FOUCAULT). Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. em muitos aspectos. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. então? Vemos que o que é dito é. para expressá-las ou mesmo provocá-las. ou atento e vivido como o dos psicólogos. é o veículo privilegiado da dominação social. Toda formação (qualquer que seja seu programa. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. DELEUZE e GUATTARI). Quanto a seu conteúdo.-B. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). como muito bem o diz J. em sua aridez. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. O único senão é que. é esse turbilhão do amor e da morte. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. seus métodos. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 .Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. assim. Igualmente. Além disso. Mas. mas científico. na formação. aquele que dita a norma (M. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. divulgá-la nas massas dominadas e. Sem dúvida. Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. A mensagem dada. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. é essa troca de palavra. exato e periférico (não tocando no essencial). é a capacidade inventiva dos participantes. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. Afinal. ele é chocante e desesperante. PONTALIS. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. simultaneamente. o que é essencial é o que se passa no campo formador.

mesmo se. isto é. em filigrana. justamente. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. Seus enunciados são tão gerais. homogêneo. o que não se pode esperar dela. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. 220 . se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. depois de tê-los escutado. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. não de uma formação (a rigor. os movimentos sociais emergentes. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. ao mesmo tempo. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. de constatação aguda e de desmobilização geral. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. ela não chega a ser totalmente dominante. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. o que ela esconde em seu próprio movimento.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. que só nos resta. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. nas Questões propostas. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. profissionalmente e socialmente se mexam. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. a transformação das relações sociais. em uma palavra. se ela o fosse. de um trabalho de mudança. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. isto é. de um processo. a vida. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. tão sistemáticos. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. tenha sido possível ler. explicável por um único tipo de lei.

através dessa ausência. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Ausente. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. provocando a vontade de respirar. resvalando. suas idas e vindas. em suas diferentes dimensões: culturais. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. organizacionais. na situação. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. fazem surgir formas da sombra. as correntes de informação. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. dessa desordem-ordem. Quando ele intervém. políticas. Mesmo quando faz uma exposição (e por que.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. aliás. suas falhas. Ele está lá simplesmente como uma referência. mas. suas interrogações e também suas paixões. Ele está lá vivendo. por isso mesmo. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. uma movimentação de energias. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. indicando. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. ele oferece não um saber. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. 221 . As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. desse lugar desocupado e fugidio. ele não é o portador do sucesso da experiência. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. um jogo de luz sobre certos pontos que. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. suas descobertas e suas resistências. mas sua relação com o saber. assim. Por meio dessa ausência-presença. mas uma problemática. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. ele deveria se calar?). um encadeamento de Questões. a criação de negentropia (isto é. seus entusiasmos. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo).

mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. vivem em organizações específicas. praticamente nunca era contradito e. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro.). com relação a esse personagem. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. tomando certos caminhos e não outros. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. 222 . caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. o resto do grupo o seguiu em bloco. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. a resistência se deslocou. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. um dos membros do grupo era particularmente escutado. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. de suas relações afetivas. Por isso o trabalho do grupo será centrado. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. formadores etc. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. tendo um passado. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. hoje. entre cem. não há muito tempo. a relação com o saber é suspensa no vazio. uma atitude de deferência e de sedução. as diferenças são apagadas. os conflitos não têm mais espessura social. Um outro participante manifestava. tal funcionamento é profundamente mistificador. No caso contrário. projetos sociais. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. para não falar de sua situação econômica. Um exemplo. Ora. Como interpretar tal situação. Não são pessoas ou seres desencarnados.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. de seus corpos e. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente.

a imersão na vida aqui e agora. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. imaginário instituinte. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. intensivo. menos tal processo pode ocorrer. de seus sucessos. Em cada sessão. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. aprofundadas. fazem propostas. é aberto sobre o mundo exterior ou. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. um ou dois anos). o foco em relações afetivas imediatas. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. lugar de análise. mais exatamente. retomadas. confrontadas. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. ação real e ideologia. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. O lugar fechado. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. A partir do momento em que o desejo circula. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. outros atos sociais. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. outras palavras sociais. É por isso que somos partidários de estágios longos. construíram ou destruíram em seu meio real. realizaram. de breve duração. os participantes falam do que fizeram. a 223 . imaginam soluções. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. conduta e gesto. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. Não estão lá como pura presença. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. não há mais dicotomia entre ato e palavra.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. mas como portadores de suas angústias. de suas tentativas. experimentaram. fecundarão novas atitudes. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo.

Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. uma angústia diante do desconhecido. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. por enquanto. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. de novo. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. ser protegidos. ter efeitos. algumas vezes. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. Momentos de mutismo e de temor. do fogo e mesmo do caos. do saber alegre. nesse processo que. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo.. Não nos enganemos entretanto. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. do excesso. a precluir certos registros (da paixão. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. em questão visar à dissolução pela dissolução. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. então. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. com o outro. naturalmente. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. discursos ideológicos desenfreados. mais dinâmicos. viva paixões. Resistência vinda de indivíduos em formação. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. com o saber) são descentradas. possa. a fim de que a energia livre. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. Trata-se. ter caminhos balizados. do gozo). irrupções vulcânicas. todos juntos.. se interrogue sobre si mesmo. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. reencontra muitos obstáculos ou. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. depois de terem liquidado 224 . Essa experiência da heterogeneidade. Não está. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. Aqui. falar. a loucura e o sonho possam ter. talvez. a periodicidade desses momentos.. períodos de análise refletida. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. que o amor inexiste sem a experiência da morte. momentos de embotamento. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. de necessidade de alimento. impossibilidades totais. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. ao contrário. mesmo se ela pode se tornar criativa. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. expressão gráfica etc. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. direito de atuarem.

a dificuldade intransponível. Naturalmente. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. eles reencontram a inércia das estruturas. Na intervenção. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. Trata-se. o espanto e o desprezo de seus colegas. deliberadamente. Enfim. as numerosas escolas. mesmo se os participantes podem. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. é necessário que ele seja evocado. naturalmente.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. Essa experiência da margem. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. tentar experimentar novas condutas. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. para nós. o que ela busca induzir. que deveria transformar o que está no centro. senão a violência simbólica da organização. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. da intervenção. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. avançando uma série de proposições. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. sobretudo. seu possível devir Não está em questão aqui. então. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. quando retornam às suas organizações. mas a confusão. de trabalhar 225 . provocar mudanças. Intervenção psicossociológica. entre as sessões. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. E que. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. se transformará em um simples prestador de serviços. seu modo de existência. o que ela não poderá jamais realizar. a utopia e a inquietante finitude.

então. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. numa primeira análise. como submissos. absenteísmo. toda a violência do cotidiano que. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). mas. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. como na formação. assim. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam.) e que desejam resolvê-los. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. existissem como executantes da máquina. A palavra reprimida. recusa a alguns o próprio direito de falar. desordem nas salas. na hierarquia interna. uma situação irreal. desperdício. consciente ou inconsciente. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. ao contrário. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. isto é. mas. Não por razões morais. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . antes de tudo. além do mais. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). A intervenção. no processo de trabalho. uma certa fissura no organograma da organização. impede de ver e de sentir outra coisa. de melhoria de condições de trabalho. de definições de tarefas etc. para se expressar. durante muito tempo. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. que têm problemas concretos (de decisões. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. O que está presente não é. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). mais exatamente. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. Essa recusa. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato.

mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . pelas relações codificadas. transformador do mundo. pensamento-execução. Não se trata de sonhar por sonhar. pai-filho ou ele-outros. O que resulta. ou que possa pensar de fora da fábrica. então. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. Numa pesquisa efetuada pela C. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). Mas. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. “ruídos”. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou.T. progressivamente. Colocá-la em causa seria um salto mental. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. para que o olhar se desloque. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. a deixar seus desejos serem expressos. entre si e o outro. a aceitar sua parte de loucura. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. para que possa interrogar o oculto. relações de poder e separações instituídas.D. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. que faz surgir um real além do real percebido. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar.F.

sem análise. imaginativo. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. a médio prazo. é necessário que os modos de pensamento. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. é o que permite a troca e a reciprocidade. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. decepção. ou. o inesperado. pode sair a surpresa. dessa ruidosa confusão. promete apenas. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. ele classifica. igualmente. a própria idéia 228 . no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. numa análise em ato da organização. os psicólogos. mas em uma maior fluidez. os psiquiatras. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. dessa maneira. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. que o surgimento do imaginário. é lei retomada. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. ele exclui e. então. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. numa decodificação das relações. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. no mínimo. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. sua cronologia e suas articulações. cada um se tornando. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. analógico. metafórico. O que significa. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. Ele distingue. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. subvertidos ou. ator e analista social. transformada e garantida por cada um. à sua maneira. ao se deslocarem. As posições. Aliás. com seus argumentos e suas demonstrações. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. os educadores chefes e especialistas. isto é. além das crianças. outras formas de relação e outros modos de estruturação. onde a lei. uma nova forma de educação.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. Assim. interrogados. pessoal de cozinha e de limpeza. fazem da criança também um educador. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor.

Quando. submetem-se ao princípio do prazer. na França. da ortografia necessária. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. dissimula. Ora. na realidade. Buscamos. pede que cada um pense e viva na contracorrente. já não indica que as relações de cumplicidade. isto é. da criatividade diária dos grupos sociais. à língua (a parte social da linguagem) dominante. o homo demens no homo sapiens. então. inversamente. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. pelo contrário. de intimidade. Naturalmente. As pessoas se submetem. do bom estilo. isto é. sob certos aspectos. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. é como o dinheiro. nas organizações. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. antes. isto é. falarão. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. Assim. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. Mas. Mas aí também sabemos que. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. a língua. um elemento de mascaramento do sistema social. como ele próprio o diz. divertida. por sua vez. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. o roubo da língua espontânea. Não se trata apenas do modo de pensamento.11 Queremos dizer que a verdade. de fazer. a invenção popular. A língua. a verdadeira 229 . para ser expressa ou reencontrada.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. colorida. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. mas também da linguagem utilizada. atrás da imagem de falar bem. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. da Psicanálise uma arte de construção. as “estórias de comadres”. Essa perspectiva não o impedirá. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho.

mais exatamente. É por isso que atacar a língua dominante. pode-se constatar que eles se protegem. Eis que chegou o tempo dos tradutores. para obrigá-los. então. Aliás. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. Veja-se bem a dificuldade. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. inventar um falar. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. confusamente. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. em boa linguagem. todo mundo. Não apenas de autoridade. antes de mais nada. as frases que inventam. Por isso. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . experimentar o seu calor. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. mas o da dominação que ela instaura. A mesma coisa ocorre hoje. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. reencontrar sua língua. de seus mandamentos. mas de poder: da lei. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. fazê-la viver. a dos tecnocratas. quando se escutam as palavras que eles utilizam. se dá conta disso. argumentada. Mas os tradutores traem. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. Há uma língua dominante. de modalidade de comando. pois o 230 . a partir do Século XVII. dessa forma. Se. precisa e cifrada. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. fazendo-os aprender a falar. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. reencontrar a língua perdida. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). para se protegerem dos outros atores sociais. que são os que podem traduzir. do mundo adulto (e o atacam). A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído.

A intervenção. então. De qualquer maneira. Então. a intervenção pára. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. Assim. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. sendo. quando estão no campo de análise não apenas as relações. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. a se informarem. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. o interventor ultrapassou o limite. as comunicações interpessoais e intergrupais. membros do comitê de empresa. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. mas. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. então. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). justamente. interminável. as resistências.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. se uma demanda lhe foi feita. então. Entretanto. sendo inauguração de uma palavra nova. dentro de certos limites. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. Mas. os hábitos. chocase violentamente com as estruturas. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. colocar-se em questão. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. assim. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. nem renunciar a seu poder. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). ele lhes permitiu. mas sim questionamento infinito. mas também quando o poder está em jogo. ao contrário. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. quer que ele seja reforçado. sua vontade instituinte e.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. quem quer que seja (dono de empresa. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. com uma outra linguagem. os estilos de autoridade. agradece-se ao interventor.

Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. Não sabe pelos outros. através de ações. O que ele sabe bem. dispersões a se operarem. não os conduz em direção a nenhum resultado. então. eus a se abalarem. sendo alguém que incomoda. mas favorece o desejo de mudança. energias começaram a circular. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. Pois. das funções elucidativas. 232 . Quanto ao valor e à importância desse movimento. Ele não analisa sozinho. Também não se pode dizer que ele fracassou. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. colocando-se como um shaman ou um mártir. se ela se coloca. é que. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). Porém. Ele não realiza nenhuma mudança. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. que. em contrapartida. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. palavras a serem ditas. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. que só poderá viver. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. pólo de identificação ou bode expiatório. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. seu trabalho só pode ser lento. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. não lhe cabe questionar os poderes. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. Ele não transforma as estruturas. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. procedendo por deslocamentos e rodeios. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. é aos atores sociais reais. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. os movimentos sociais.

3. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. desde o início. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. Pode. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. 4. mas que ele deve saber.A falta de formação dos interventores. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. agricultores tendo interesses em comum.Em contraposição.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. ao contrário. Entretanto. Suspeito por todos. sua posição nada tem de confortável. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. inclinar-se à rigidez ou. traidor em potencial. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. Anteriormente. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. então. mais sua ação será limitada a certos grupos.

3. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. do desejo da alienação etc. por seus gestos. um maior controle consciente. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. que assim buscam empreender atos significativos. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. com outras relações. 234 . pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. da mulher. sobretudo. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. em um soberbo isolamento psicótico. efetuado por eus fortes. Aparentemente. a demanda acaba. eles desabarão. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). ser retomado. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. Isso é compreensível. Um dia. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. 2. não a desejam com freqüência para si mesmos. Como escutar ainda uma palavra que cochicha.Enfim. comunicações melhores e. em uma sociedade tecnocrática.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. o que nos parece mais importante. Quem quer conhecer a dúvida. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. eles se preparam para uma vocação de mártir. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena.

Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. 1974. Cinco lições de Psicanálise. essa abertura profunda na superfície das continuidades. CASTORIADIS-AULAGNIER. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Em Lip.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. M. FREUD. 137-159. p. Pour la Sociologie. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. cf. 1976. enunciadas. E. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. On tue un enfant.” Le sauvage et l’ordinateur. Serge. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. descritas. MORIN. DOMENACH: “Para não ser destruído. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. cujos signos. A. Les mots et les choses.-M. recalcamento e repressão em organizações. do sonho e do gênio maligno. 13. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. o Eu tudo destrói. Le paradigme perdu. La nature humaine. Segundo J. “Imaginaire social. 1974). Na primeira meditação. Epi. caracterizadas. Piera. Eugène. TOURAINE. 1972 (Imaginário social. Cf. Rio de Janeiro: Zahar. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . por Marília Novais da Mata Machado. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. refoulemente et répression dans les organizations”. Topique. L’institution imaginaire de la société. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. repentinamente. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. Connexions. 17. não caem nesse erro. Le Seuil. Gallimard. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. FOUCAULT. Le Seuil. CASTORIADIS. no 3. C. “Points”. Connexions. Paz e Terra). ENRIQUEZ. Seuil. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. n. Le Seuil. 1977). E. LECLAIRE. 1975 (Mata-se uma criança. eles disseram: “mas era apenas isso!”. Points.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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pode. a examinar princípios. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. Assim. Ao mesmo tempo. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. isso se dá. justamente. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. regras. sua participação no trabalho. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. também. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. que pode ser feito fora de um universo técnico. hipóteses. de preferência. mas tomo iniciativas e faço propostas. 242 . além disso. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). meus conhecimentos e habilitações. abordando concomitantemente o sistema. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. algumas vezes. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. dimensões ideológicas. mas. Ao mesmo tempo. os atores envolvidos. Caso um apelo seja feito a mim. parece importante aos solicitadores. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. não poder sê-lo. mas pode. perspectivas. em excesso. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. sobre a maneira como se afastou do previsto. justamente. porém. os fatores geradores do problema. firmemente. numa dada situação concreta. a partir de um determinado momento. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores.

os recursos da equipe de consultores escolhidos. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. tolerância à diferenciação. não apenas objeto de trabalho para os participantes. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. os fenômenos de moda. Poderíamos. Evocaremos. tentar. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. 243 . tolerando apenas uma gama restrita de variações. em função do campo no qual elas aparecem. Porém. tornar mais inteligível. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. as propriedades do sistema (grau de centralização. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. os custos etc. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. no final desse artigo. princípios estratégicos. tamanho. constituindo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado.). na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. na determinação das técnicas. Cada uma comporta pressupostos. então. as funções externas almejadas pelos atores. então. É nessa perspectiva que é preciso. em si mesmo. rapidamente. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. tal vantagem deve ser abandonada. formas de autoridade. a natureza dos objetos. para tratá-lo. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. a seguir. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. então. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. O modo de estruturação do processo pode se tornar. suas orientações teóricas. ecologia etc. um objeto de trabalho. por exemplo.

de maneira bem menos acentuada. Entre esses dois pólos. nas de TOURAINE. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. estão as técnicas de pesquisa de campo que. GODIN. de devolução aos participantes e de interação dos atores. algumas vezes. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. 244 . mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. na maneira como J. COCH e FRENCH). a partir da prática psicanalítica. em especial. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. por exemplo. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. a observação participante. bem cedo. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. uma origem técnica importante. isso se passa sobretudo porque. depois de LEWIN. B. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. Quanto às estratégias de pesquisa. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. Entretanto. parece-me. Algumas vezes. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. em algumas práticas. Em seguida. a propensão dos práticos de intervenção. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J.

Entretanto. no começo. Igualmente. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. o significado das condutas etc. as razões dos bloqueios. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. no papel de especialistas. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. a atuação dos conflitos. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. a caracterizar melhor as situações. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. pela encomenda de um estudo “Retrato”.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. a identificar os problemas. a obra de G. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. como em outros lugares. a natureza das resistências. a isolar os objetivos. nas próprias operações das fases de estudo). os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. os limites desse modo 245 . é comum. por exemplo. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). quem escolherá as opções. ainda hoje. atualmente. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. Pode-se observar que. na França. em todos os casos. produzindo dados válidos. Em todos os casos. quem reterá as soluções etc. quem conduzirá esse trabalho. que. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. de fato. a escolher as variáveis de ação. é dessa maneira que elas se estruturam. Em um campo bem diferente. a origem das disfunções. há muito tempo. freqüentemente. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los.

Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. então. um retrato eventualmente objetivo e fiel.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. depressão etc. 1980). . escolhe-se. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. são interrompidas. de caráter mágico. o trabalho de recenseamento. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. constróem. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. de fato. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). restaurando a coesão. O texto de André LÉVY. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. . cólera. com a apresentação dos resultados. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. freqüentemente com espanto. caso se decida reiniciá-lo. Se muitas intervenções. a não ser esquecê-lo. por exemplo. apresentaremos rapidamente três observações: . muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. por exemplo. o inventário. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. sobretudo. desenvolve muito claramente esse aspecto. denegação. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. em especial. Não se sabe mais o que fazer. do exterior. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. conseguindo uma solução de síntese ou.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. já citado. enterrá-lo. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. ao menos.

chega-se. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica.fracionar a investigação (por tema. adiamentos de realizações importantes. . em outras palavras. algumas vezes. por categoria de ator etc. como o próprio relatório.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. parece-me.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. assim. sobretudo.associar todos os parceiros envolvidos. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. . o debate. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. a uma solução que exige uma equipe e. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. correspondentes a atuações mais modestas. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. pertinência. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. eles me parecem. De meu lado. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. a perlaboração. os critérios de cientificidade: validade. durante o trabalho de análise da demanda. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. então. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição.preferir. às relações elaboradas e conceituadas demais. com o trabalho sobre os resultados. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. pode-se tentar: . quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. 247 . e apesar das reservas expressas. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. o que provoca aumento dos temas de estudo. mas repensar essa lógica (por exemplo. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação.

de aperfeiçoamento e. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. em seguida. numa escala pequena. adquiririam novas propriedades. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . é necessário lembrar que. Passar-se-ia. em um plano concreto. porém. a partir de 1964. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. de uma perspectiva de formação. TRIST. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. assim. JAQUES. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. as práticas de formação. Logo. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. em diferentes lugares da sociedade). que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. sobre a possibilidade de contorná-los. nessa segunda categoria de origens técnicas. na Glacier Metal Company. algumas vezes. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. o artigo de E. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. evoluiriam. de 1948. traduzido para o no 3 de Connexions. De uma maneira geral. 1972). Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. com muita freqüência. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. os grupos. na qual. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. a fim de que elas mudem”. a uma perspectiva de intervenção. social analysis. apresentam-se como a aplicação simples. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas.

o movimento de democracia industrial. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. consistia em transpor. de se diversificarem em função da natureza das demandas. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. ANZIEU transpôs. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. Sociopsychanalyse. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. Evidentemente. inscrevendo-se. no plano organizacional. a fortiori. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. a importância da referência à Psicanálise.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. Payot). os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. essa evolução. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. J. se quiséssemos ser menos esquemáticos. especialmente. ao mesmo tempo. ROUCHY e E. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . utilização da autóptica. KAES). conceberam diretamente. MENDEL e sua equipe. sua prática de psicodrama analítico. Mas se. as intervenções que se seguiram. G. D. ao contrário. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. não pararam. na França e em países estrangeiros. por exemplo. LÉVY e. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. A. em seguida. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. ao mesmo tempo em que se reforçava. ROUCHY. 1972). para o seio da cúpula. em pedagogia institucional. na empresa Geigy. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. ENRIQUEZ consideram. passando pelos estudos de caso. das estruturas de organização. no plano teórico. C. o que representaria. em pedagogia do projeto. nos quais a ARIP interveio. grupos de análise de prática profissional. C. jogos de simulação. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. no 1 a 10. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. tecnicamente. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde.

Enfim. é que se engane sobre a causa das dificuldades. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. Com efeito. da facilitação e. 250 . De uma maneira geral. entre os próprios serviços de uma organização. no espaço organizacional. na medida em que instituir. de acompanhamento ou dinâmica). aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. freqüentemente. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. é a descentralização. Além disso. a mudança social desejada. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. da regulação (hetero – ou auto –. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. em especial. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. forçosamente. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. ao mesmo tempo. é mais rápido. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. mais racional e menos caro. esperando-se que se aumentará assim. a palavra de ordem. desde há algum tempo. estágios existentes fora dela. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. é necessário providenciar a formação do responsável local. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. durante um tempo que pode ser apreciável. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. então. os meios de verificar a validade das hipóteses. irrelevante.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. as que se nutrem da formação surgiram. localmente. Evidentemente. o risco.

de uma maneira progressiva. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. aliás. tal risco. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). entre os dirigentes. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. evidentemente. Um meio técnico (que. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. confrontá-la à dos outros atores. do qual se espera a responsabilidade. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. além disso. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. de um lado e de outro. Ainda assim.. Paralelamente. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. manter essa dimensão presente durante todo o processo. A competência de um interventor. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. ao desempenho eficaz da prática de formador. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. Esse risco pode ser reduzido apenas se. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . Tal dispositivo técnico é insuficiente. na elaboração dos programas. os solicitadores. em assegurar “suas tarefas”. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. primeiro. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. os consultores. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. descobrir. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. então.

Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. a convicção de que as condutas das pessoas. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. em resposta ou não a um apelo. de agentes de comando ou de pessoal de execução. afetando a estrutura e as instituições internas. Porém.) –. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. um grupo.. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. e não em técnicas de ação formadora de diretores.. em problemas de remuneração etc. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. um sistema e seu problema. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. Entretanto. numa crítica aos limites do staff and line. é interessante observar que. dois atores ou diversas instâncias em interação. Ela compartilha. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. o desenvolvimento técnico e científico. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. em data. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. 252 . é incapaz de obter uma verdadeira evolução. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. Por exemplo. as estruturas internas das organizações se complexificam. Sem poder preparar aqui tal reflexão.

Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. ALINSKY. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. TOURAINE recorre também. retomaram. existem. vir a substituílas completamente. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. J. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. por exemplo. L. 253 . no fim dos anos 20. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. eventualmente. Mesmo a história da intervenção de E. sistematicamente. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. Em países como o Canadá. enriquecendo-as. freqüentemente. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. nos conflitos entre direção e sindicatos. Mais recentemente. evidentemente. em Nova Iorque. renovando-as. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. como o sociólogo S. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. o sociodrama. Então. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. de defesa ou de negociação. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. os psicossociólogos. a práticas de debate. os “organizadores de comunidades”. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. assim. durante os motins do Harlem. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. No campo das empresas de produção. mas. são chamados. progressivamente. a metodologia de intervenção desenvolvida por A.

de formação. para a primeira origem. concurso de segurança) etc. de alguma forma. de propaganda. audiovisual. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. para a segunda. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. das relações pastorais. Parece-nos que. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. os dispositivos de proteção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. as prescrições) e funcional (no campo técnico. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. tanto no plano material quanto no legal. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. e que. difusão das estatísticas de acidentes. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. Embora não ilustre especialmente esse risco. educativo. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. das lutas militantes etc. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. para a terceira. No começo. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. da polícia. então. Entretanto. e renunciar. apenas. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de sensibilização (por exemplo. de organizar as ações de inspeção. as oportunidades. há uma 254 . o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. de fato. em conseqüência. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. Da mesma forma que. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. a toda especificidade. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. social). Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. da magistratura. de estudar as instalações da fábrica. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais.

com a colaboração de consultores externos à sua unidade. De acordo com os resultados. No fim desses dois dias. em outros países. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. pessoal de execução). Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. por exemplo. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. evitase. Uma abordagem mais recente. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. de segurança e de condições de trabalho. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. propor as medidas. então. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . concomitantemente. fundamenta-se também. evidentemente. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. contramestres. por uma intervenção psicossociológica. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. algumas vezes desenvolvendo. Uma vez estabelecida a composição. Os confrontos entre atores (por exemplo. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. gerentes. No caso da intervenção psicossociológica. produzir os diagnósticos. no começo. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. geralmente. ou por uma intervenção apenas formadora.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto.

a intensidade emocional mais forte. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. Em relação ao processo das intervenções precedentes. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. então. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. em teoria. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. Ela permite. Como no caso anterior. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. estende-se numa duração que se mede em meses. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. instituídos pela lei Auroux. tal 256 . A última negociação consiste. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. ligada às diferenças de status e/ou de poder. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. para nós. entre outras coisas. produz uma frustração muito forte no ator. decisivos. a ponto dele renunciar. em especial. Porém. de múltiplas forças antagônicas). demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande.

evidentemente. senão à primeira. sem dúvida. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. Em outros termos. evidentemente. em todos os níveis. uma importância acentuada. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . ancorar. mas têm. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. entretanto. aliás. para guiar a análise. aqui. mas também em encontros do mesmo estrato. e. Escolher.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. tal metáfora. elas não dependem apenas da técnica. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. Está claro também que. Por isso. sempre pluridimensional. bem cedo. por exemplo. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. Enfim. está. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. tecido com fios múltiplos. Tais requisitos. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga.

privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. Com efeito. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. do terapeuta. filtrar com segurança um objeto teórico. Nem ciência nem tecnologia. as escolhas iniciais arriscam. capazes de contribuir em processos de pesquisa. do gerente ou do político. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). permitindo isolar. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. em cada momento. a mim. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. Assim. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. sem chegar a lhe dar um molde. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. retomando a distinção de PALMADE (1977). antes. mas. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. enquanto pesquisador. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. com o tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. o interventor é um clínico. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. quer esteja empenhado. ela me leva. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. para o pessoal de um estabelecimento. fundamentar tal distinção. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. Não é fácil. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). depois de dez ou vinte dias de intervenção. no entanto. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. enquanto dispositivo de inserção. por si só. elas seriam.

se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. malgrado sua fragilidade no tempo. por certos setores da sociedade. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. na literatura especializada. importantes sob esse ponto de vista. pode-se observar que. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. Entretanto. 259 . o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. Por outro lado. tais acontecimentos podem inspirar outros e. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. a administração. A inserção na universidade. e se surgem conjunturas favoráveis. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. seria natural levantar tal hipótese. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. em função do campo social em que aparecem. Enquanto atores sociais. no começo desse artigo. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. analisar e experimentar as vias de democratização etc. o mesmo se passa. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam.. adquirir um sentido menos restrito. sem subterfúgios. Anunciamos. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. os movimentos sociais ou culturais etc. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. o comércio. de maneira mais ou menos difusa. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. os setores de saúde. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. assim. os espaços urbanos. sua identidade social e a natureza de seu projeto. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. a invenção de instituições locais (por exemplo. para os atores. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. podem-se encontrar. Porém.). para mim. analítica.

a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. nesse número. 1987-l. 49. a estruturação dos papéis recíprocos. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. Connexions. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. 7-28. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. pode-se aplicá-la a outros campos. ainda. voluntária ou militante etc. . Por exemplo. a divisão do trabalho. ROUCHY chegou. DO – Desenvolvimento Organizacional (N.T. Notas 1 Traduzido de DUBOST.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. o espaço urbano). Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . o grau de nossa capacidade de indentificá-los.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças.). . “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. poder.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. por Marília Novais da Mata Machado. evocando. autoridade. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. posição central ou periférica etc. p. sua própria experiência no campo da saúde.). Porém.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional.). . até um determinado ponto. necessariamente. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. os resultados quantitativos estabelecidos por C. de colaboração profissional.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). não coincidiriam.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. MARTIN em uma pesquisa recente. 2 260 .-C. Jean. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. . com o que se observaria em outros lugares. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. as conclusões às quais J. de dependência hierárquica.

LÉVY. Paris: Payot. 1980. Paris: PUF. 1972. “Une intervention psychosociologique”. 1981. La Documentation française. J. J.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. ROUCHY. L’intervention psychosociologique. MARTIN. In: L’intervention institutionnelle. 261 . Interdisciplinarité et idéologies. 1987. Les recherches-actions sociales.-C. Paris: Anthropos. 3. L’enquête participation en question. G. C. G. A. Connexions. PALMADE. Théories et pratiques de l’éducation permanente. 1977. 1986. LE BOTERF. Paris: LFEEP.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 . telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.com. fax.com.autenticaeditora.

br 0800 2831322 . É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo.com. grupos religiosos etc. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações.autenticaeditora. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. os ‘intemináveis adolescentes’. o triunfo da racionalidade experimental. finalmente.“Quais são os problemas realmente essenciais. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.

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