Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

.............................................................. 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez........................................................................................................................................................................................ 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï..................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS...................................................................... 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D........................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy............................................................... 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost..................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï..... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost........ Benevides de Barros............................. 237 6 ..................................................................................................................................

quanto para os que praticam a psicologia. fruto do trabalho de psicólogos. tal como no momento da primeira edição. Desde a primeira edição. o campo da psicossociologia cresceu. a educação. cada vez mais utilizada. Por tudo isso. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. hoje. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. À metodologia de intervenções/pesquisas. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. por meio da “intervenção psicossociológica”. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. bem conhecida e divulgada no Brasil. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. o direito. reais. a economia. cuja história é nele revista e avaliada. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. Junho de 2001 Os organizadores 7 . este livro. esclarecedoras dos processos de criação do social. a psicanálise. a administração e a política. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. dispositivo de consulta e pesquisa. tornou-se ainda mais importante.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. sociólogos e um economista. da organização e do funcionamento social. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. a sociologia. prático e metodológico. Assim.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

Passaram a se preocupar. grupos. organizações e comunidades. são o objeto de pesquisa. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. por sua presença.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. a metodologia de pesquisa-ação. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. igualmente. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. geridos e transformados. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. com as instâncias de mudança. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. isto é. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. fez aparecerem certos problemas. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. em seus grupos. organizações e comunidades. empregando para tanto. Por meio dessa abordagem. reflexão e análise dessa disciplina. em especial. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. inicialmente. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. Portanto. 9 . que condutas. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. freqüentemente através de experimentos. Em conseqüência. A partir dos anos 50. Atuando diretamente na vida dos grupos. das organizações e das comunidades. se revelassem. no quadro da vida cotidiana. o pesquisador-prático. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. as condutas concretas dos indivíduos. até então desconhecidas.

aptos a um “imaginário motor”. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. por um ato de decisão. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. a mudança social (A. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. Paulatinamente. hoje ela se renova. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. Ora. pouco a pouco tecido. NICOLAÏ). do socius. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. mesmo que involuntariamente. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. sujeitos capazes de serem autônomos. Porém. mobilizados por ilusões e crenças. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. LÉVY). retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. DUBOST). e do processo de criação institucional. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. que 10 . sujeitos que. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. 60 e 70. adquire um sabor de novidade. com suas mudanças e rupturas. sempre inacabada. de transformações nos sistemas sociais (A. dos desejos de onipotência e dominação. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). idealizando e buscando destruir seus chefes. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. é formulada uma teoria. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. contra esse pano de fundo. que é também um ato de palavra. torna visível a presença do sujeito social. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. nos termos de E. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. e serem criadores da história. ENRIQUEZ. do trabalho da pulsão de morte. de onde e como surge a dinâmica social. pois a teorização é fruto da reflexão que. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. da organização e do funcionamento social.

José Newton G. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. 11 . E. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. Eliana de Moura CASTRO. são analisadas novas ideologias. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. entretanto. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. é analisada. M. mas também de outras referências. práticas de intervenção mitificadas. CASTORIADIS. BARROS. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. André LÉVY e André NICOLAÏ –. de suas fantasias de onipotência. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. de BARROS. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. assim como novos sagrados e certezas. aqui e ali. enfim. T. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. J. CARRETEIRO.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. DUBOST. o desenvolvimento de um processo organizacional. como sistemas dinâmicos. S. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. está presente em quase todos os textos. Psicologia Clínica (J. a respeito das suas representações historicamente constituídas. autopoieses. Os autores – Jean DUBOST. B. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. da MATA-MACHADO. nestas páginas. Sociologia. A. o pensamento filosófico de C. Assim. Política. estruturas dissipativas. Assim. ROEDEL). CASTRO. TOURAINE que. ARAÚJO. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. auto-organização e complexificação a partir do ruído. Sonia ROEDEL. a condição de construção da vida social. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. de suas demandas de amor e proteção. assim como. MATA-MACHADO). são apresentados nesse livro por Marília N. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. LÉVY. Eugène ENRIQUEZ. formadoras das sociedades atuais e futuras. de ARAÚJO. relações de poder e autoridade. formuladora de grandes quadros teóricos mas.

Paris X (J. de um projeto pessoal e familiar. mutações e complexificação em economia” – A. 1991.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. 1990-1. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. A. M. NICOLAÏ) – mas. LÉVY. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. MATA-MACHADO – Psicologia Social). Essa primeira proposta. ARAÚJO. em função do mencionado convênio. NICOLAÏ (mimeogr. MATAMACHADO). E. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E.Em segundo lugar. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. Inicialmente. a Psicossociologia. distribuídos em três partes.). resultando em treze textos. ROEDEL. 1989.). . com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. ENRIQUEZ) e Economia (A. na França. MATA-MACHADO e S. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. no Brasil. a partir do exame de uma centena de textos. Assim. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. BARROS. especialmente. T. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. na empresa. ENRIQUEZ. DUBOST. ENRIQUEZ. feita em novembro de 1991: . 1990. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. NICOLAÏ. a disciplina que os congrega. CARRETEIRO). Além desse território de pesquisa. “A interioridade está acabando? – E. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). ROEDEL).Foram escolhidos. textos recentes. LÉVY (mimeogr. primeiramente. ARAÚJO. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. NICOLAÏ). sofreu modificações. “Rupturas. LÉVY). ENRIQUEZ). 1990-1. “O fanatismo religioso e político” – E. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). CASTRO – Psicanálise. cobrindo questões atuais. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. Paris XIII (A. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. ENRIQUEZ. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. Paris XIII: M. T. CASTRO. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E.

“forclusão” ou “preclusão”. Utilizou-se a palavra “narcíseo”. Buscou-se uma certa uniformização. ENRIQUEZ. na primeira nota de rodapé. Seus nomes aparecem. NASCIUTTI para o livro de E. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. As traduções foram revistas por J. . além de ser uma parte de retrospectiva histórica. em maior ou menor grau. em cada texto. a última tradução foi preferida. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. Por exemplo. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. mantendo-se a tradução utilizada por T. editado por Jorge Zahar. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. DUBOST. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. 1980. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento.Prefácio desejo” (A. CASTRO e M. E. para designar 13 . foi objeto de discussão e comparação. apresenta a intervenção. preferiu-se “fantasia”. 1987). 1976. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. CARRETEIRO e J. mantiveram-se termos como “fantasmático”. contudo. Por exemplo. DUBOST. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. finalmente. o grupo e a questão da mudança. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. LÉVY. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). de atividades e produções criadoras. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. à Psicossociologia e à Psicanálise. através da análise etimológica. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir.Em terceiro lugar. “Intervenção como processo” – A. ARAÚJO. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. a apreensão de seu sentido original. algumas aterrorizantes. respectivamente. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. Psicanálise do vínculo social. MATA-MACHADO. Mais de uma dificuldade de tradução. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado.

a critério do tradutor. essa foi a escolha. Finalmente. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . para a palavra enquête. entretanto. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. expressão bastante usada em português. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. a palavra investigation. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. na expressão méthodes d’investigation.“relativo a narciso”. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. nosso primeiro leitor. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. foi igualmente traduzida por “pesquisa”.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

Cabe. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. Mas não poderia ser diferente. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. LÉVY e E. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. visto que todo leitor recebe. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. no enfoque psicossociológico. à sua maneira. a idéia de um “eu”. no entanto. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. No entanto.2 . seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. O sujeito que não “morreu” A. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. Eles descartam. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. aquilo que lhe cai nas mãos. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala.1 Pois bem. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. preenche ou interpreta. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. desde o início. Ao apresentar tais artigos. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários.

No texto de A. um ponto de passagem. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. A esse respeito. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual.6 Isso é claro para os autores. ela é 18 . um átomo talvez.. suas relações próximas e regulares. o ofício ou o produto. no conjunto das discussões sobre o sujeito. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade. por exemplo. convém observar que. Assim. entre nós. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. entre outras coisas. não estariam restritas. vemos que o “indivíduo” é. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. o da Psicanálise. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente.”. a empresa-família é anterior ao sujeito. E. LÉVY. mesmo na França. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). a chamada “sociologia do cotidiano”. por exemplo. a família. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. ligada a uma prática clínica. nos parece em parte negligenciada. já na virada dos anos setenta. notadamente através da teoria lacaniana.. os autores caminham numa direção que. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. nas décadas anteriores. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. antes de tudo. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. nos artigos aqui apresentados. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais.

narcisismo social. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. Desse modo. ENRIQUEZ retoma essa posição.” De outro lado. enfim. fanatismo de empresa etc. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. por exemplo. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. Importante ainda. um papel essencial nas transformações sociais”. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. segundo os autores. daí a ilusão da identidade pessoal. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. sempre imprevisível. pois este. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. as significações das ações”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. além de desempenhar. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. narcisismo grupal. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. as relações sociais. espírito de empresa. O primeiro é aquele que se agarra. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. “às vezes sem sabê-lo. isto é. Assim sendo. através de FREUD. tenta transformar “o mundo. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. antes de mais nada. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. LÉVY nos lembra. Ele destaca ainda. “no momento em que falamos. identidade coletiva. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. A. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. 19 . num crescente alienar-se. sua constituição “plural” ou coletiva. mas que reenvia.

A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. O grupo não suporta nenhuma outra verdade.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. árida novidade. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. além da sua. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. pois ela se torna uma ameaça. ilusão e crença. como se tinha notícia até pouco tempo. Assim. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. em diversos momentos. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. algum tempo após as notícias. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. tentando eliminar dele os negros. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. Basta lembrar.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira.” 20 . xenofobia. mas exemplar. científico ou outro qualquer). Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. os judeus e.) deve ser eliminada. no início de 1993. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. os nordestinos. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político. religioso. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. religiosas..9 composto por militantes islâmicos negros que. Assim. outras idéias. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. estamos falando de mecanismos inconscientes).. científicas etc. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. mas sim os processos de idealização. cabem algumas observações. esportivo. A essa altura.. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. como a intolerância e o fanatismo. como um fenômeno “periférico”. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. outras propostas políticas.. amor (ou cumplicidade?) mútuo. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. mas que tentam ainda se expandir.

num clima onde toda crítica está ausente. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. sejam elas brancas ou negras. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda.Análise social e subjetividade Aliás. seja num grupo intolerante. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. cada sujeito está perseguindo. em níveis talvez menos contundentes. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. já de início. ele desconhece também. Poderíamos. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. rapidamente. Em outras palavras. noção de origem literária e filosófica. seja num grupo democrático. E. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. isolada e coletivamente. por analogia. resvala necessariamente para a intolerância. nossa “seita” de comedores vegetarianos. contrapor as noções de sujeito e interioridade. às vezes. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. nosso time de futebol. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). nosso grupo body-building. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. no Sul do Brasil. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. O que se torna problemático. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. a eterna questão do sentido. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. infantilizando os “fiéis”. Enfim. a ação grupal deve cobrir um vazio. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. nosso partido de direita ou de esquerda etc. Gostaríamos de lembrar. ela deve ser doadora de sentido. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras.

vítima de ataques. A questão do espaço. Talvez seja. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. íntima. num certo sentido. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. segundo o autor. a não ser por arrombamento. pois. é ‘uma terra estrangeira’”. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. em oposição ao vazio: trata-se. na esfera psicossocial. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. alegria. A interioridade. A compreensão da interioridade é. questionamentos. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal).14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. Se esse sentimento nem sempre existiu. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. ele existe atualmente e está. por ser da ordem da especialização. Aliás. que não é recente. na Filosofia antiga. parece haver uma tendência. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. é numa relação espacial que ela se inscreve. Só o ser existe e ele é cheio. 22 . A interioridade remete. ameaçado de extinção. Por outro lado. onde ninguém tem o direito de penetrar. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. à alternativa interior x exterior. BERGSON. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. pois. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. Para ele. interrogações e que. para ela. em se pensar espacialmente. foi discutida em termos do cheio. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. quase que imediatamente. o que é pura duração. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento.

quase que uma obsessão em relação ao próprio território. meio de se situar no mundo. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. isto é. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. ao que marca a diferença. denotadas pelo termo identidade. capta os estímulos exteriores e também os internos. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. a identidade própria. Há. Assim. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. refletindo a si mesmo). foram abaladas pela Psicanálise. o que se vê por fora é um reflexo do interior. temos de falar nos órgãos dos sentidos. Limite e superfície privilegiada de estimulações. bonito. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. a pele se liga à formação do eu. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. Já a identidade marca a diferença. ela é capaz de dizer: eu tenho. diferenciando o interno do externo. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. isto é. A percepção do espaço remete à visão. saturada de comunicação. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. O ter é ulterior. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. Dito de outro modo. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. Existe. separada. Um corpo dinâmico (isto é. na época atual. considerando o 23 . A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. O culto exagerado do corpo. unidade e similaridade. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. As idéias de permanência. depois da perda do objeto. eu não sou. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. diz FREUD.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. porque especular.

Em outras palavras. Por isso. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. em sua obra Lector in Fabula (trad. Finalmente. do outro que eu sou. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. E o mais importante. feitas pela religião. é passiva. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. nenhuma leitura é um ato neutro. e como bem captou ENRIQUEZ. no campo da argumentação psicossociológica. em outros termos. só podendo. francesa Grasset. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. isto é. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. quer como sentimento pessoal. O oculto. isto é. entre outras coisas. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. Notas 1 Humberto ECO. As propostas absolutizantes. por ser essencialmente espacial. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. pela empresa ou pela sociedade. Afinal. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. ao eu e muito menos ao sujeito). é certamente desprovida de energia ou. pois. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente).Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. se tornam assim mais claras. Ele diz. já dissemos. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. de outro lado. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. naquilo em que ele é diferente do outro. que todo texto é um tecido de espaços em branco. 2 24 . a interioridade considerada. quer como conceito psicológico. Assim. oferecer uma resistência passiva. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. ARAÚJO.

Para ele.. além de serem historicamente contestáveis. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. “Discours politique et réduction de l’angoisse”.Análise social e subjetividade 3 Cf. principalmente após as recentes eleições da Rússia. 50-53. p. de 28/04/93. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. p. Cf. na América Latina e mesmo na Europa. P. na Biblioteca Nacional de Paris. como um instrumento terapêutico. senhor de si e do universo e como se. D. vol. G. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. De outro lado. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. Paris. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). em seu número de 1º/12/93. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas.. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. Paris: Bordas. Paris: Gallimard. Lembremos. tomo XXIX. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. líder da extrema-direita francesa. p. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu.. P. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. Essa mesma revista. cit. nessa mudança. reportagem da revista Isto É. em nível individual. Assim. O autor evoca J. alguns anos atrás. JIRINOWSKI saiu vitorioso. o culto à figura de GUEVARA. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. Conseqüentemente. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. 1984. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. em seus níveis mais profundos. Cf: ANZIEU. mais perto de nós. p. por Jean-Marie LE PEN. p. 1983. (Cf: ANSART. fez reaparecer o sujeito. soberano. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. SELLIER (cf: Le mythe du héros. 322. por isso mesmo. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. não passavam de “mero detalhe”. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. 29-31) afirma que. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. Paris: Dunod. 1975-1976. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. Paris: Gallimard. LXXIV. P. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. n. “Essai d’identification du quotidien”. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. BALANDIER. Observação semelhante já fora feita. nas quais o Sr. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. 13). 5-12. 1970. In: Bulletin de Psychologie. face às estruturas e aos sistemas”. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. uma editora de propaganda nazista. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. 445-449).

p. ver: FREUD. D. H. Essai sur les données immédiates de la conscience. S. 120 ed. p. 1985. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Entre outras alusões a essa questão. Buenos Aires: Editorial Vancu. 15 16 26 . 68. XVIII vol. 1976.) 14 Cf: BERGSON. El tiempo y los grupos. ANZIEU. (Cf: FONTANA (A) et al. 1967.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. 1977. Le moi-peau. Rio de Janeiro: Imago. Além do princípio do prazer (1920). Paris: PUF. 42. semelhante à vivência intra-uterina. Paris: Dunod. ss.

do aumento do individualismo. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. sua classe ou sua raça. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. que nega a interrogação de D. um ser falado. De minha parte. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. do sujeito. que decidi me manifestar. É contra essa tendência reducionista. mesmo sem dizê-lo. 27 . um ser agido. No entanto. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. LAGACHE. só se fala do indivíduo. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. como psique. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. pois.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. um determinismo absoluto dos processos sociais. por um lado. O indivíduo torna-se. No momento atual. Com efeito. ALTHUSSER). pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história.2 A razão é simples: como muitos outros autores. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. ao invés. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. por outro lado. Seguindo essas abordagens. em grupos e organizações. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. em maior ou menor grau. assim.

logicamente. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. isto é. para retomar a terminologia de C. “a possibilidade de saber que alhures. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. heterônima. portanto. ir muito longe nesse sentido. em parte. em parte voluntariamente. Nessas condições. a anterioridade dos processos sociais. Em outras palavras. em uma classe. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. Não é necessário. em uma etnia. De fato. uma cultura. zonas inexploradas. DE MAISTRE –. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. é preciso pressupor. ao mesmo tempo. ela própria. Essa emergência acontece. Freqüentemente. além disso. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. mas deixassem também. numa sociedade que é. a cada homem. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. portadoras de 28 .5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. quer seja por Deus – BOSSUET. BURKE. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. Nessas condições. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. em parte inconscientemente. Uma tal sociedade heterônima tem. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. de antepassados e de Deuses. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. que lhe deu direito à existência.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). sua conduta. conformados a seus votos e a seus ideais. CASTORIADIS. num lugar-tela. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. conduta estruturada social e culturalmente. no entanto. já que nascemos sempre em um grupo. que pode tomar a forma de totens. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. ou de um Deus único. porque toda sociedade comporta falhas. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. em uma nação etc. as sociedades nunca são totalmente heterônimas.

uma “parcela de originalidade e de autonomia”. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. Reis continuam a se 29 .8 Enfim. até mesmo se choca.7 Quanto ao indivíduo humano. um discurso dominante. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. às vezes. um papel essencial nas transformações sociais. a trocar sua natureza pela de um térmita. em toda sociedade. em certos casos. de maneira invisível. não se pode esquecer que o discurso. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. portanto. fanático. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. Notemos que as sociedades modernas. sem sabê-lo. Deve-se. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. se põem a acumular riquezas. não a um contra-discurso organizado mas. apoiando-se nas funções corporais. por mais totalitário que seja. Elas se tornaram. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. Mas. às vezes. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. seja lá por que modo. contra a vontade da massa. como dizem FRITSCH e PASSERON.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. sobretudo. desde a Renascença e. pelo menos de imediato e. Alguém inventa uma máquina a vapor. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. a médio ou a longo prazo. em pessoas e grupos sempre diferentes. desde a Revolução Francesa. ele também só é parcialmente heterônimo. outro um novo tear. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Além disso. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. como evocava FREUD. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. Embora exista. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. mesmo sem percebê-lo.

o elemento esportivo predomina. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. Se cada um deve manifestar sua singularidade. Ele deve gozar com essa renúncia. do seu serviço. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. da sua organização. mas é o homem da performance mensurável. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. apenas um elemento do processo de massificação.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). em nossa época. performance sempre a recomeçar. Nessa ética. Ao contrário. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). objeto de tantas preocupações. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. como sublinha CASTORIADIS. ela pode ser bem efêmera. mais freqüentemente. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. Assim. seu tempo. os processos sociais. cada um deve ser criativo à sua maneira. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. a vitória nunca sendo definitiva. de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. a individualização. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . No entanto. vencedores que querem ir até o fim. De fato. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir.9 Assim. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. “matadores frios”. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. é. sempre imprevisível. então. se os processos psicogenéticos pressupõem. Assim. O winner sempre pode se tornar o looser.

Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. mas que. aqueles a quem chamamos vencedores. financeiras ou de prestígio. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. designava por “zé-ninguém”. o “culto da empresa”. quando se fala do indivíduo. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. mas não se orgulha de si mesmo. a justificá-lo”. a se associar a paixões puramente agonísticas. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. características de um esporte. para depositar seu destino nas mãos dos outros. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. em geral. nas universidades.10 Assim. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. Ele atinge. nos hospitais. ou ainda. posições de poder. hoje em dia. igualmente. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. Admira o pensamento que ele não concebeu. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. a busca da riqueza. naquele tempo. 31 . o indivíduo renuncia. um novo ritual. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. desvestida de seu sentido ético-religioso. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Nos Estados Unidos. em vez de admirar o que ele concebeu. igualmente. o que lhe confere. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. atrás da força e da grandeza de outros homens. assim. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. REICH. tende. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. O “zé-ninguém” está sempre.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. os que W. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. onde seu paroxismo predomina. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. além disso. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. na maioria das vezes.

então. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. ser um agente ativo desses processos de recalque. agora bem conhecido. nós próprios nos tornamos admiráveis. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. médios ou pequenos homens. às vezes. portanto. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. apoiado 32 . Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. Em outras palavras. A idealização é. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. depois de descrever esse fenômeno. reprimir suas pulsões. de repressão e de adesão. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. aderir profundamente às injunções sociais e. correndo um mínimo possível de riscos. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. para existirem. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. assim. é. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. o mundo criado não é contestável. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. Resta-me. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. apresentando-se como objeto maravilhoso. o que devemos fazer e como seremos recompensados. sempre ameaçador). a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. Além disso.

eles suscitam a aceitação ou a identificação. Se somos apenas um espartano. nas quais. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. 33 . estamos divididos e angustiados. o narcisismo social. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. como mostrou FREUD.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). uma massa maior de homens. é imputar os problemas ao outro. um budista. ao nosso “nós”. contraditórios. A identidade coletiva. o racismo. graças a identidades coletivas fortes. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. um capitalista. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. portanto. G. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. de fato. através desse processo. dificilmente. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. A identidade coletiva favorece ainda. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. É necessário precisar esse último ponto. estamos perto de não ser absolutamente nada e. é se voltar ao grupo de pertinência. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). produzir por produzir. consumir por consumir?) Ora. (Com efeito. ideais vazios e desprovidos de sentido.13 Reencontrar a coesão. um proletário. De fato. que sentido pode ter ganhar por ganhar. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. freqüentemente. de simplesmente não ser. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. sem se dar conta de que. os ideais são múltiplos. Vivemos em sociedades nas quais. o fanatismo. tem como futuro possível a xenofobia. graças a esse jogo identificatório. que tem como efeito “unir uns aos outros. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. está cheia de perigos. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. da sedução ou da obrigação]. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”.

não pode ser considerado como sujeito humano. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. as relações sociais. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. as significações das ações. seres a eliminar. ao menos. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. nos lugares da vida cotidiana. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. bem entendido. O indivíduo individualizado (e não individuado. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. quanto mais a identidade coletiva existe. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). reproduzir. em sua vida de trabalho. o indivíduo singular. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. em suas relações sociais de todos os dias. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. daí.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. a respeito de qualquer tipo de problema. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. tem como projeto voluntário. 34 . O sujeito é um ser criativo. Quero simplesmente dizer que cada um. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. portanto. quanto mais uma cultura se quer unificada. portanto. Tal indivíduo só sabe repetir. por mínima que seja. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. no entanto. Não podemos. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. Vê-se. que. Para definir criatividade. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. a sua conversão. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. bem como da tranqüilização narcísica. criança. Com efeito.

demens (objeto da hybris). é ainda pior.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. O sujeito é. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). ludens e viator. em compensação. E mais se imprime. é a formação. ela está presente em quem faz. o nascimento. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. portanto. meu amigo. aqui e agora. um ser capaz. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. Os artistas não se enganaram a esse respeito. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. não na escola!. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. de repente. respirando a plenos pulmões um ar salubre. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. imobilizada. chegarás. voluntariamente... o primeiro movimento indistinto da matéria. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. não ao charco das alegrias imortais. a gestação. em lugar de uma imagem da natureza. quanto na inspiração do arquiteto que. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. e que o mundo possa testemunhá-la. em seus Conselhos a um viajante. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). antes que ela se fixe em natureza morta. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. que sente prazer em respirar.. ao mesmo tempo sapiens. do jogo e da vagabundagem.. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. levo a sério. uma novidade irredutível. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. homem portanto de sabedoria e loucura.

O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. a esse respeito. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. um pouco paranóico. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. Assim. de seus medos. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. a sua própria alteridade). é preciso parar um momento. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. para lavar o mundo de sua sujeira. cientificamente. aliás. os manipuladores ocupando uma posição perversa. identificado a seu pai. 36 . pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. atualmente. Michel SERRES. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. No entanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. O megalômano. para realizar uma missão salvadora. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. em particular o grande homem. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. pela natureza. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. entre os grandes homens.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela.17 Porém. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. os sedutores ocupando uma posição histérica. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). sente-se eleito por Deus. assegurando-lhe a redenção. portanto. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. Com efeito. depois da guerra de 1914-1918. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. preso na ganga dos ideais. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social.

quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. a um nível mais irrisório. O teatro é também para ele um terreno de esportes. para isso. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. que não tinha interesse algum pelos outros. segundo FREUD e BULLITT. LENIN. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. ao contrário. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. crê falar a linguagem da verdade. o povo judeu. recém-saídos das grandes escolas. é um bom exemplo desses chefes perversos. quis fazer do alemão o povo eleito e. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. ou capacidades manipulatórias.21 Assim também HITLER. ele se proíbe de ser excepcional.20 do homem que declarava. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. 37 . só pensa em termos de estratégia. como LENIN: ao contrário. que tomou o poder contra os mencheviques. Quanto ao manipulador perverso. reduz as relações humanas a relações de objetos. caso bem conhecido e. como WILSON ou HITLER. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. ao mesmo tempo. os tecnocratas. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. denega a realidade). basta o de STALIN. obcecado com a força pela força. como já indiquei anteriormente. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. que queria dobrar o mundo à sua vontade. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). tem gosto pelo instantâneo. por sua vez. só considera o mundo sob o ângulo econômico. esse está. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. nem uma força de pensamento e de ação.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. que toma a si mesmo por ideal). inventando complôs.

O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. a seus olhos. Mesmo assim. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. AGNELLI por exemplo. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. sem dúvida. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). AGNELLI a gente nasce. os outros escapam a essa denominação. de uma normalidade esmagadora.. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. talvez. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo.) são as pessoas comuns. mas uma duração realista. O grande patrão italiano C. ele perdeu alguma coisa. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. como indivíduos perfeitamente normais. não se torna. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. como GORBATCHEV. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. Eles se apresentam. um indivíduo sem fantasias. M. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. Em contrapartida. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. pois ele promete a qualquer um. Se elas tomarem um grande patrão italiano. Em todo caso. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. é possível tornar-se DE BENEDETTI. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. se tiver tanta coragem quanto eu”. porque sou. Em outras palavras. uma demonstração do possível (.. Tentarei em outra ocasião. sem interrogação.). com a condição de ser corajoso. não tenho dúvidas morais”.. Mas.. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. ao contrário. nem mesmo na imaginação. meus aliados (.

reproduzir. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. por um lado. pois falta a ambos. assim. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. S. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. só sabem repetir. favorecer a tomada de consciência de situações reais. tomar caminhos transversais. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. Ele não tem projeto. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa.23 Em certo sentido. conforme McDOUGALL. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. mesmo se nada descobre. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. Teríamos. em sua linhagem. Se o sujeito evolui. fazer advir o sujeito individual. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. ao inusitado. ele o faz em sua linha. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. MOSCOVICI. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. em MARX. FAUCHEUX. “que significa. Mas não são verdadeiros criadores de história. sem falhas. Mas ele conserva o mesmo projeto. insiste sobre essa noção. São portadores da pulsão de morte. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. Eles têm uma influência social inegável. fazer advir o sujeito coletivo. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. Corre pela vida como em uma auto-estrada. de se lançar no desconhecido. 39 . E. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. por outro. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. no sentido que dou a esse termo. criar seja lá que novidade for. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). dos outros. Um ser consistente pode ter dúvidas. em FREUD. É também um homem que demonstra consistência. o caráter irrevogável de sua escolha e. São desprovidos da aptidão à transgressão. a recusa de compromisso sobre o essencial. de tudo desarrumar. mais ainda. assim. de tudo realizar” (McDOUGALL).

” O sujeito não é homem de comprometimentos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. provenientes 40 . Consistência e furor. igualmente. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. a um Estado. o exilado. a uma identidade coletiva. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. porque a dispersão. portanto. criar e sustentar um conflito com a maioria. quando ela se apresenta. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. Ele é. um grupo ou um Estado. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. à dispersão. interdita a tentação da Unidade-Identidade. consistência e astúcia. Para SEGALEN. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. consistência e astúcia andam juntas. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. isto é. Aqui não se trata de manipulação. souberam conciliar furor. pessoas vindas de outros países. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. não pode jamais estar colado a uma organização. finalmente. Ao mesmo tempo. visível e. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa.24 O “exota”. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. no entanto. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. recentemente republicado. delimita também. O que é interessante. o que não é nada fácil. é que. segundo a expressão de V. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. para fazer triunfar suas idéias. no momento atual. diante da exigência do todo. SEGALEN. em seguida. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. a ocasião. como também a provocá-los. MOSCOVICI. uma outra exigência e.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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sejam quais forem. para fazê-lo. portanto. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. seus valores e seu processo de socialização. ao propor. assim. ele entrará. capaz de se adaptar a todas as situações. aos que dela participam. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. de colocá-los. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. Para obter tais resultados. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. do vencedor. com personalidades “as if” (H. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. de ter modos de “comunicação afirmativa”. SERVAN-SCHREIBER).Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. Minha contribuição será. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. dando. então. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. sobretudo. sem o saber (e de consciência tranqüila). DEUTSCH) serão particularmente apreciados. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . no sentido sadiano do termo. L. desembaraçado de compromissos. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. o homem capaz de ultrapassar seus limites. . de sonhos e de interrogações. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. então. do combatente. Se o indivíduo se identifica com a organização. A cultura de empresa ou de organização. em demasia. aos outros. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. se só pensa através dela. de considerar os problemas em sua frieza. sobretudo. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou.

47 .A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. através de um projeto a concretizar. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. Sabe-se muito bem. no mundo medieval. mas. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. Basta ter em mente: a renovação do Islã. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. pronta a punir os blasfemadores. exige a idealização. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). Então. E. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. desde DURKHEIM e FREUD. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. de perda e de sofrimento. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. o renovar de uma igreja dogmática. segura de estar em seus direitos. um ideal a realizar. gurus. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. encarnar a “instituição divina”. mais próximos do integrismo. ao contrário. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. injustamente martirizado. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. que uma sociedade não pode existir sem religião. atualmente. em nome da verdadeira fé. xamãs. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. uma causa a defender. quando as igrejas não são suficientemente atraentes.

persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. o “grito primal”. As técnicas de body-building. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. a aeróbica. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. mesmo os mais repreensíveis. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. “Estar bem em sua pele”. esbelto. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. todas as religiões. as maratonas de Paris ou de Nova York). Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. a expressão corporal. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. que aqui apenas menciono. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. as ginásticas suaves. competitivo ou não (por exemplo. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. portanto. Mas as religiões. cuja meta é a homogeneização do “interior”. O fanatismo político. sofredor. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. falado e falante. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. continuamente desejável. o desenvolvimento do esporte de massa. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. “tornar-se saudável”. 48 . as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. afastar a dor. pelo menos. os estágios off limits. o jogging. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. submetê-la a ídolos não contestáveis. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. como a expressão da graça que lhe cabe.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. as medicinas naturais. animado) é o nosso bem mais precioso. Voltarei adiante aos métodos empregados.

deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. Os próprios indivíduos. a busca do “erro zero”. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. interrogação do ser. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. Quer se tenha nascido rico ou pobre. necessariamente. GREEN. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. mas de edificar novos cultos. a “qualidade total”. para se tornar um sujeito falante e atuante. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção).A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. mudança sempre difícil pois traz. de fato. grupal e coletiva. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. O narcisismo mais total está na ordem do dia. Elas anunciam. No narcisismo de morte. na medida em que não se trata. assim. confronto com o sofrimento. ao menos. de intervenção psicossociológica ou institucional. cada qual se mira em seu próprio espelho. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. membro de um conjunto que tem suas coerções. processo de ligação com os outros. Ora. de criar uma cultura. únicos responsáveis (se eles fracassam. embora alienados no mais profundo de sua psique. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . “a paixão pela excelência”. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. Por outro lado. nas organizações sociais. que o indivíduo. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. na qual fatalmente se perderá. de evolução pessoal ou grupal. de autoridade. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. A explicação é simples: todos os métodos de formação. 1983). Basta querer. sinais de uma fantasia de domínio total. na qual ele tem que desempenhar um papel social.

pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. a sua submissão. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). do aumento dos métodos mais bizarros. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). a astrólogos. para viver e se desenvolver. como a simples lógica o exigiria. quer dizer. Por isso. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . para a seleção de dirigentes. uma psique sem conflitos. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. Assim. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. uma psique a serviço da organização. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. com os pés amarrados a um elástico. portanto. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. mas. não do desenvolvimento da racionalidade. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. O reconhecimento da psique como força operante tem. como resultado a sua destruição ou. a implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. a mobilização total de todos. faz-se apelo a leitores de tarô. únicos a prometerem resultados tangíveis. perfeitamente interiorizadas. na sociedade. necessariamente. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. Cada “conjunto humano”. nas organizações e nos indivíduos. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. em reação. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. pelo menos. ao contrário.

nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. Caso se retome a análise de A. Mas. de ser um sujeito que tem uma história. Cada um sente. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. em uma espécie). ela revela características um pouco suspeitas. Cada indivíduo. credo. ou vinte anos? BARTHES. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. GREEN (1985). caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. nacionalidade etc. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. Ora.A constância não existe. portanto. não vivo mais. escreveu belíssimas páginas. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. que se liga a uma tradição. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. em uma palavra. através dessas diversas experiências. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. portanto. que participa de uma memória coletiva. não creio mais como esse ser que leva meu nome. por minha vez. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. portanto. ele é capaz de ser um “Si”. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. de constância: (b) idéia de objeto separado. em um gênero. se examinarmos mais de perto essa noção. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. permite que se possa situá-lo em uma classe. Além disso. ou o status social a que chegaram. quer dizer. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). de referências seguras. isto é. – podendo 51 . animado por uma coesão totalizante tendo. classe. uma unidade. Os indivíduos evoluem. a necessidade de ter uma certa identidade. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo.

“criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. 1982). Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. o eu etc. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. que processos de clivagem. então. de MIJOLLA. quem está falando e por que falamos dessa maneira. b. não podemos abandonar essa idéia. cairmos na irresponsabilidade. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. no momento em que falamos. No entanto.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. a sua própria finalidade. em sua pureza. 1976). admitir.Quanto ao reconhecimento do mesmo. então. mas que mantém um certo grau de 52 . a partir de um estado não integrado. pois toda construção. c. ilusória. Assim. a idéia de permanência e de constância. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. quando sei tão pouco o que sou.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. no entanto. Precisamos. com WINNICOTT (1966). necessita do trabalho do tempo. TOROK. então é possível questionar. além disso. já dizia RIMBAUD. por definição. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. ABRAHAM e M. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. Mas ele insiste. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. de preclusão e de denegação estão operando em nós. Eu é um outro. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. que. Nunca sabemos de maneira precisa. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. Se. assim. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. sob certos aspectos. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação.5 Certamente.) que visam. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. cada uma.

mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. Porém. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. Apenas um exemplo: numa grande empresa. contraditórias. O que nossa sociedade reclama. tão apreciada por FREUD. de “maioria compacta”. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). da “inquietante estranheza” e. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. portanto sedução. de um narcisismo a toda prova. os diretores participam de um grupo. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. assim como as instituições e organizações que a compõem. a aceitação dos processos de clivagem. Um deles explicita suas dúvidas. portanto. Os outros. o remorso. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. a interrogação. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. e tanto mais porque se parecem conosco. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. de seus desejos. São. escolhendo as máscaras sociais que precisam. sobretudo. trazendo “temor e tremor”. é ouvido um momento. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. como também um amor consciente por si. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. o trabalho sobre si. para o indivíduo. a dúvida. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. muito pelo contrário). Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si.A interioridade está acabando? coerência. problemáticas. portanto. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. quaisquer que sejam. de suas faltas.

Além disso. Esse exemplo (que. 36). SEGALEN). comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. ENRIQUEZ. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). em termos mais gerais. reedição de 1986. se você continua. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. seu imaginário enganoso. 1984. Nessas condições. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. O “homem com problemas” aprendeu a lição. Transformam o mundo no qual estão. desde então. até que ponto evitam-se a si mesmos. que lhe diz. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. Domine-se. é interrompido por um de seus colegas. Ora. Pôde obter o posto desejado. nem mesmo à sua esposa. naturalmente. seu simbólico. eles questionam sua identidade. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. até que ponto estão presos na apatia (SADE). Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. Apenas. não quero saber nada de seus problemas porque. por um processo de contra-investimento. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. um grupo que tem uma cultura própria. Com efeito. em substância: “Não continue. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. ele tem úlceras constantes. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. Nesse momento. formam uma nova maioria compacta. Ele se tornaria o fraco. filho de um grande industrial. p. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. serei obrigado a falar disso a meu pai e. vinda da boa burguesia. p. diante dessas revelações. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. quando os indivíduos estão nessa situação. 54 . Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. tendo uma identidade compacta. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. que detestam. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). 270). seja de novo como nós. quer dizer.

Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra. para SADE. como escreve P. De um lado estão os vencedores. num mundo a priori hostil ou indiferente. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. ainda mais. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. 103-104). do outro. os que não se assemelham aos indivíduos que. por si próprios. 1835. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. todos os “exotas”. 55 . dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. sem emoção. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. no dizer dos racistas. “fazer correr sangue”. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. que todos aqueles que buscam articular sentidos. o homem dinâmico. pelo menos. guerreiro e sedutor. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. reedição de 1961. se evitam a si próprios. um piolho a ser eliminado. todas as “minorias ativas”. O “matador frio”. “em demasia”. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. “Apagar. quer dizer. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. possam se tornar objeto de ódio ou. doentes de AIDS. Quem não se amolda deve ser liquidado. AULAIGNER. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. em seu corpo como em seu espírito. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. então. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. ENRIQUEZ). Como dizia um chefe de empresa. assim. pelo menos. colocar em lugares criados especialmente para eles).. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. Compreende-se.. soropositivos e. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. p. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. todos os “marginais”.

Se não for descoberto. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. 1988). Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. Ela supõe. Essa distinção é. simplesmente. mas o toca em seu ser social. em condições normais. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. em O crisântemo e a espada (1946). seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. voar em asa delta etc. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. aos outros. mas pela vergonha. ir além de seus limites. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. SERVAN-SCHREIBER. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. a honra e o dinheiro serão seus sem que. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). a luta. vemos proliferar. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. seja ele qual for. por isso. Se um ato corajoso – ou. Todo ato repreensível. sem dúvida. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. fracassar. é preciso que seja conhecido por todos. Da mesma forma. a vergonha se abate sobre o autor da ação. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. utilizando-se produtos proibidos. Ora. da agressividade. Se ele for conhecido. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. infeliz de quem trapacear. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. as práticas que permitem ganhar. Tudo está no ato e em sua visibilidade. portanto. no interior de si. em sua aparência. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. Mas. L. Basta que não seja descoberto. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. escalar um paredão com as mãos nuas. pode ser perpetrado. Essa última seria uma cultura da vergonha. 56 . Assim. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. um estudo sobre a sociedade japonesa. No entanto. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. da inveja e do amor.). se sinta culpável. além do reconhecimento dessa luta.

Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. Não se deveria pensar. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). podem ser criados sem que daí decorra.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. contra a pobreza etc. apesar de suas imperfeições – normais. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. atos dos mais contrários à moral comum. são suspeitos. Com efeito. quando não é possível falar-se a si mesmo. necessários à vida humana. contra o racismo. as notas frias. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. Porém. necessariamente. nas sombras. já começa a ser profundamente criticado. sem culpabilidade. pelo jogo de aparências. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. lendo as reflexões precedentes. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . postos de lado. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. com um único passe de mágica. o corpo se encarrega de fazê-lo. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. que o jogo está feito. o fanatismo. (c) que os ideais fortes. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. a lavagem dos narco-dólares. privilegiando a aparência. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. nascem a cada dia sob nossos olhos e. felizmente -.

de afirmação ou de identificação. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. aceitando as regras do novo jogo. os animadores socioculturais etc. Sendo assim. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. Esses “excluídos”. evitando o Charybde da exterioridade. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. não desapareceu e não está 58 . assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. governa seus discursos e seus atos. deverão se precaver. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. ser tratadas “na interioridade”. Mais ainda. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. Entretanto. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. começam a se fazer perguntas. encontram-se na mesma situação todos os que. de indústrias. Sem dúvida. Na realidade. com sua carga enigmática. por isso. esses “esquecidos” da sociedade. a delinqüência. tal como tentei delineá-la. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. sem dúvida. Eles não se dão conta. entretanto. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). eles ainda as fazem “na exterioridade”.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. poderão. trabalhadores incapazes de se readaptar. de espaços. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. busca de identidade. necessariamente. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. na doença da idealidade. a droga. os ferroviários. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. pelo sofrimento. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. veladamente. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. as perguntas. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. pela alegria. mesmo se a interioridade. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. de crédito. assim como pela capacidade de sublimação. Esses sujeitos. Nesse momento.).

Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Referências ABRAHAM. os “diários de bordo”. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. o romantismo. DUMONT. ENRIQUEZ. Eugène. E. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. da T. Paris: Seuil. 1987.Topique. (N. v. da poetização do universo. 4 Como um cadáver (em latim no original). o mundo político. a Bildung do homem alemão. com suas difusões amplas). p. assim. involuntariamente. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 1976. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. é uma consciência cultural individualista. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão.). Quanto a KLEIST. 5 FREUD. p. pela emoção. 34. com o aprofundamento do eu puro ou. 163. as autobiografias. na qual o mundo objetivo. S. tão diversos quanto GOETHE. 1985. 1989-2. espírito racional e humanista por excelência. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. então. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. e TOROK. por Sonia Roedel. o homem dos Hinos à noite. Inácio de Loyola. M. da salvação e da justificação da vida pura. sobre KLEIST: E. 1976. é. Topique.). descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. 59 . Segundo o Larousse. 38-53. Paris: Aubier. do culto do inconsciente e dos instintos. Individualisme apolitique. p. 37. 1962. ENRIQUEZ. 135. o gosto pelo mórbido. N. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. NOVALIS. p. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. (N. Rio de Janeiro: Imago. In: Sur l’individu. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. Cf. é a absorção em si ou introspeção. em suas constituições. com a formação. em termos religiosos. 61-76. citado por L. 1976. L’écorce et le noyau. Le Verbier de l’homme aux loups. seu oposto. 3 Cf. é a inquietação com o cuidado. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. 2 Grandes escritores alemães. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. Considérations d’un apolitique. XVIII. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. “expressão pela qual Sto. assim. da T. p. Entre la marionnette et Dieu. 89-112. Paris: Aubier. ABRAHAM. como diz Lutero. GOETHE. N.

J. D. Topique. Paris: Ed. Tomo I. La chambre claire. Trad. 1961. 1985. 1975. W. 1981. EPI. nova.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. L’identité. Paris: Gallimard/Seuil. 1987. 1985. 311-321. A. 1982. 1987. 1970. Le retour du courage. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. SEGALEN. reedição. Paris: Payot. C. S. In: LEVI-STRAUSS. 37. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. A. 1986. GREEN. 25. Paris: Seuil. 1987. J. DUMONT. A. In: Essais de Psychanalyse. WINNICOT. 20-37. Barthes par lui-même. Biblio-Essais. Paris: Les Belles Lettres. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. MIJOLLA. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. Hogarth Press. Aux carrefours de la haine. Notes sur l’exotisme (1908). R. ENRIQUEZ. 1946. Paris: Grasset. 11. R. ENRIQUEZ. de Minuit. franc. Paris: Seuil. Les visiteurs du moi. de. Paris: Payot. “Individualisme apolitique”. 1983. Paris: Seuil. p. Psychoanalitic quaterly. M. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. 34: 89112. Paris: Gallimard. narcissisme de mort. 1942. Trad. BARTHES. 309-330. ENRIQUEZ. 1962. Trad. L. 1965. R. 1984. In: Sur l’individu. GREEN. Narcissisme de vie. retomado em Nevroses and character types. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 1982. Paris: Gallimard. 1984. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. DEUSTCH. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. P. “L’Individu dans la cité”. FREUD. BENEDICT. L. Picquier. SERVAN-SCHREIBER. E. V. FOUCAULT. VERNANT. M. 60 . In: Sur l’Individu. R. Nouvelle Revue de Psychanalyse. E. p. n. BARTHES. Topique. 1980. H. ps. P. Le sabre et le chrysanthème. “Condamné à investir”.

neste texto. no entanto. no entanto. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . Vamos um pouco adiante. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. em um imaginário social comum. de início. esse problema é capital. mas não se está à altura de compreender. Ora. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. Um projeto comum significa. São mais raras. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. O que parece. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. as análises dos grupos em estado nascente. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. pois pode-se. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. então. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. sem dúvida. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização).OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. Todos sabem e reconhecem isso. à primeira vista. para existir. Tal sistema de valores.

trata-se de sentir coletivamente. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. a passagem é rápida. nos inspirar. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. motor de nossa conduta. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. Ora. todo trabalho de interrogação sobre si. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. vigor e “aura” excepcional. num grau maior ou menor. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. nela. ele se apresente sob um aspecto religioso. Não se trata unicamente de querer coletivamente. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . Da ilusão à crença. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. inatacável: assim. aquilo que queremos vir a ser. com uma força particularmente viva. transforma-se logo em um sistema de crença. a nossos próprios olhos. sagrado. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. A ilusão deixa igualmente sua marca. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. ele pode nos atrair. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. é necessário que. Para serem operantes. pois ela é o elemento que dá consistência. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu).2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. Mas esse sentimento.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. Todo grupo funciona à base da idealização. correndo esse risco intelectual e social. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. da ilusão e da crença. mas afetivamente sentidas. consciente e inconscientemente.

). pois. o militante político arrisca. Todo membro de um grupo é. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. sobre a possibilidade de sua impotência. Causa a defender. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. Embora um grupo. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. Todo militante político pensa do mesmo jeito. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). Assim. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. grandiosa ou pueril. idealização. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. suas práticas à da Psicanálise como um todo). possa perder parte de suas ilusões. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. A causa pode ser sublime ou irrisória. de maneira mais ou menos forte. para se desenvolver. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. FREUD já pensava que a Psicanálise. E isso não acontece gratuitamente. sua vida). abusivamente sem dúvida. Idealização. 63 . deveria ser defendida como uma causa. consequentemente. bem à vontade. assimilando. existente há muito tempo. verdadeiramente. em certa medida. missão a cumprir. na formação de todo grupo. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. esse não é o problema.O vínculo grupal (deve. a revolução etc.

IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. sem exceção. mas direi que. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. queira triunfar. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. de uma profissão ou de uma disciplina). os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). geralmente. acreditar que está com a razão. algumas vezes de uma só3 . faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. progressivamente. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. para se reforçar. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. Pouco importa.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. Toda minoria tem. membros do grupo. A maioria não tem jamais um grande propósito. A maioria não tem jamais uma causa a defender. um dia. isto é. caso uma minoria. Para isso. Essas pessoas sabem que. As idéias novas. sua luta não terá alma nem razão de ser. imperativamente. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. ela deve. no caso de sucesso. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. triunfar. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . isso significa que ele se pensa. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. propagar-se como uma mancha de óleo e. mais modestamente. ela deve primeiro. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. Eu serei menos afirmativo. vocação majoritária: mas. Do contrário. antes de tudo e contra tudo. antes de chegar a seus fins. nós o sabemos. talvez mesmo. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. pois. se tornar a dissidência de muitos. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade.

no passado. por exemplo. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. ao contrário. pois se funda em instituições sólidas. A Psicanálise. Para que a vitória seja possível. mas à sua transgressão. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. A transgressão. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. explicitando o implícito dos comportamentos. novas maneiras de ser ou de se conduzir. 65 . a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. ela é. mas pela luta. enfim. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. enquanto elemento da regulação social. desmistificando-o e desmitificando-o. Toda instituição. visando não à contestação da ordem existente. deram certo. contra um exterior percebido como tão obscuro. com efeito. mas propõe novas idéias. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. E na maior parte das vezes ele o é. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. sob certos aspectos. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. Assim. Ela não visa a propor outra coisa. A contestação. mas que um novo saber apareceu. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. visando à repetição. Como essas representam a ordem paterna. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. Assim fazendo. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. o grupo vai tentar destruir as instituições. maneiras inovadoras de ser. tem por objetivo questionar o sistema vigente. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. vista como pulsão agressiva).

É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. FREUD. porém sem sucesso. tornar seus sonhos reais. graças a esse imaginário comum e não a outro. amor mútuo. em outras palavras. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. Ódio ao exterior. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. Sem essa vontade de destruição. a priori estranhos ou rivais entre si. ao menos. Não há complô verdadeiro. irmãos uns dos outros. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. Se ele faz parte do grupo. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. não ser rejeitado. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. O reconhecimento do desejo Em um grupo. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. amor ao grupo enquanto grupo. todo grupo. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. não obstante. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. aliás. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. isto é. a não ser entre irmãos. violência fundadora de um novo mundo. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. fazer-se aceito em sua 66 . deve criar um acontecimento irreversível.

para que possam se amar. eles devem se identificar uns aos outros. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). é o desejo de reconhecimento que predomina. diferenciação A MASSA Num tal caso. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. Assim. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. em seu ser insubstituível. um corpo social completo. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. quer. não teria podido fazer parte da conjuração. O único problema é a mais estrita identificação. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. Assim sendo. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. em um grupo. igualmente. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. Essa semelhança buscada. De todo jeito. não devem ser muito diferentes uns dos outros. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. às quais cada um deverá se submeter.O vínculo grupal diferença irredutível. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. Aliás. eles se tornarão semelhantes. nesse caso. ser reconhecido como um de seus membros. o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. homogêneos. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. em maior ou menor grau. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. se não o desejasse. querendo formar uma comunidade. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. O grupo.

Ao contrário. face a um grupo “sorvedouro.A falta de diferenças provoca. Assim como. coberto de certezas. com efeito. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. a degradação da reflexão e da inventividade. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. à primeira vista.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. 3. de indivíduos os mais emocionais. sem-fundo”.5 2. Ocorrerão comportamentos regressivos. O grupo. que será particularmente dura de suportar. sem que se perceba. a falta de inovação e. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. igualmente. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. de tipo defensivo: suspeita mútua. tomam um vigor particular. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. mas que. angústias de explosão. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. sentimento de um meio hostil. não parecem defensivas.A semelhança pode.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. abismo. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). Que ele se guarde da desilusão. 4. senão os mais perturbados. LEFORT). a partir de MARX. então. desenvolver condutas que. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. no grupo. avança cego. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. influência. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal.A compacidade do corpo formado vai. 68 .O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. delação. tomando as características de um corpo todo-poderoso. por ser o mais forte e o mais belo. portador da “verdade” (!). de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. progressivamente. Estamos. Aliás.

No entanto. em um centro de jovens inadaptados. em certos momentos. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. O grupo se centrará em si mesmo. como a cooperação idílica não existe mas.O vínculo grupal 5. como frouxos ou traidores. ao contrário. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. No limite. Os membros do grupo são. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. em seu interior. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. Se não se trata de questionar o projeto comum. ao contrário. de argumentações contraditórias. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. cada qual acreditando deter a verdade. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. “níveis insuportáveis” (FREUD). Todo mundo. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. serão excluídos do grupo. os educadores. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. então. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. Em tal caso. (Assim. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. de negociações rigorosas. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. tive a surpresa de 69 . acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. a administração. então. por acaso.Se. A tolerância existe.

Nesse caso. Em qualquer caso. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. por isso. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Esse. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. será tentado a achar um bode expiatório. uma influência que vem do domínio das idéias. ao contrário. “personalização do poder”. eu deveria ter ficado menos surpreso. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. 70 . a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. enquanto professor. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. Para não chegar a esse ponto. se torna um grupo edipiano. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. Entretanto. nos países ocidentais. assim transformado. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. mestre do pensamento e da ação). repetição da palavra do mestre. Fenômenos regressivos do tipo submissão. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. É raro ouvir professores falarem de estudantes. é freqüente.

as pessoas conformistas e os traidores potenciais. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. pois um grupo minoritário. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. se somos suficientemente amados. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. em maior ou menor grau. mas quem são os amados e os rejeitados. a única digna de ser respeitada. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. para afirmar a primazia de sua posição fálica. mas também os fracos. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. se consegue impor os seus ideais ou transformar. do mesmo modo que estão condenados à crença. isto é. como já constatamos. Essas questões não podem ser elucidadas. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. para existir. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. 71 . os membros do grupo estão condenados ao amor. transformado muitas vezes em processo de erotização. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. podem. os grupos não podem se esquivar. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. de todo modo. o grupo minoritário que. tornar-se majoritário. o grupo corre o risco do fracasso. Se o grupo é bem sucedido. Ora. Com efeito. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. Correlativamente. o campo social. sendo bem sucedidos ou não.O vínculo grupal Mas. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. inscrever seu sonho na realidade. O amor desemboca no ódio. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. Assim. igualmente. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal.

no entanto. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. Ora. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. para dizer que ele ainda subsiste. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. Muitos observadores se espantam. além disso. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). os marginais. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. Com efeito. isto é. mas não é um resultado inelutável. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. educadores. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. é o contrário que seria de espantar. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. mas outro que está ainda para ser encontrado. em um processo de análise: 1. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. É preciso. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. Ela representa uma tentação constante. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. Se. por exemplo. de outro lado. isto é. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. Com efeito. o organizador do grupo. De fato. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. serão inventados segundo as necessidades e. se ele não provoca impacto social. 72 . ele vai procurar as causas de seu fracasso. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. o grupo fracassa. psiquiatras.

assim. 2. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. É importante não nos esquecermos. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. arriscar-se a ser amado. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. a tomada de consciência se produz. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. no entanto. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. serão feitas análises superficiais. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. Se. Outras vezes. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. Deveríamos. 73 . O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. em vez de favorecer o seu esclarecimento. em certos casos. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. Ela pode levar à dissolução do grupo. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). de maneira recorrente. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. e o disse muito bem. Além disso. às custas do mal que nutrem com gosto. de crença e de ilusão. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. Viver na angústia e na violência é se sentir viver.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. há muito tempo atrás. De fato. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. FREUD disse isso. em muitas circunstâncias. Aí também há muita ilusão.

ao mesmo tempo. p. por José Newton Garcia de Araújo. PONTALIS. “L’illusion mantenue”.F. mas é preciso não querer ir muito longe.U. S.” (FREUD. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. Um homme en trop. Cf. B. em caso algum. J. P. Por dez anos. uma solução. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. 1983. no 360. Ma vie et la psychanalyse. MOSCOVICI. se dar conta de que tal tarefa é limitada. 2 3 4 5 6 74 . LEFORT. Gallimard). Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Segundo os termos de C. 631-637.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. 4. n. Bulletin de Psychologie. S. suas relações de poder. Seuil. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. fui o único a me ocupar dela e. “Le lien groupal”. suas angústias e. por dez anos. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Tomo XXXVI. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. seus antagonismos. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. C. Eugène. CASTORIADIS. Psychologie des minorités actives.

por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. então. convincente e inquietante. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. Com efeito. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. Espero. tanto no Leste da Europa. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. 75 . Devo acrescentar. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. é porque me parece que essa tendência. de modo algum. na verdade. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). Entretanto. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. atualmente. 1985). mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. os acontecimentos que se produzem atualmente. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. não deve. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. em Grenoble.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. se me detive a explicitar tal proposição. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. 1983.

está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. A referência dura se exprime para mim. elas não colocavam mais problemas particulares. no entanto. sem totens. além de nos sentir para sempre em dívida. a Deus o que era de Deus. Pois bem. ela nos religa uns aos outros. A religião produz então o “ser-junto”. sustentadas por rituais 76 . o fanatismo religioso – isto é. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. a crença exacerbada em um mito. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. ou seja. um ritual compartilhado que é preciso defender. as grandes religiões monoteístas foram. se depurando. sem lhe outorgar. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). às vezes com reticência. necessariamente. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. sem deuses ou sem Deus único). como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. seja como ser coletivo). no renascimento do (ou. às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. Ao contrário. o papel que lhes estava destinado. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. Assim. pode-se dizer que. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. sob pena de exclusão da comunidade. As crenças. isso não a obriga. de maneira privilegiada. 1989). um dogma.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. igualmente ENRIQUEZ. A César o que era de César. ao longo do tempo. com relação a ele. No conjunto.

Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. Entretanto. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. aspirando assim. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. mas à criação de religiões substitutas. não assistimos. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). a qualquer preço. dos padres operários. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. laicas (E. um estado psíquico onde o conflito não aparece. J. a longo prazo. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. porque é 77 . STOETZEL). Todos os homens. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. Algumas religiões. como desejava DURKHEIM. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. ARON. como medida de todas as coisas. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). O episódio. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. do declínio de uma fé sincera e manifesta. ENRIQUEZ). uma sociedade da transparência e da reciprocidade. a longo prazo. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. ao “desencantamento do mundo”. na França. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. passam a se desenvolver. profanas (MOSCOVICI). mas foram se laicizando. o Estado como aparelho separado. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores.

eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). (mesmo se. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. os chefes de guerra ou os chefes de Estado.). governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. pois. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . sob a IIIa República. de ideologias totais (LYPSET. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. É. na França. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. conscientemente ou não. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). 1976). não como uma ideologia (quer dizer. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. os mestres. de serviços. tal como a ideologia republicana. 1963). Quando falo de religiões substitutas. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. depois. após a morte de MARX. por ENGELS e. então. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. A ideologia pode.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. pois. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. de fato. quer sejam os pais. mais ou menos fortemente. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. de votos etc. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. da ideologia de granito (LEFORT. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. a boa forma da obediência aos que detêm o saber.

elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. na época moderna. constituindo-se. como uma Igreja com seus templos. representaram um papel menor na dinâmica social. 1979). ideologias “compactas” que. As ideologias que eu evoco são. como as religiões. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. projetando-o nos outros. que produzem uma cultura própria. por seu caráter absolutista. 79 . pelo sacrifício de seus mártires. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. Uma religião. então. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. a negar. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir.O fanatismo religioso e político (colonização). devem estabelecer com o Sagrado. pelo ferro e pelo fogo. não pode estar na origem de nenhuma religião. por sua força de convicção. É assim que ela pode formar uma cultura. antes mesmo que seja colocada. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. conseguiu se desenvolver. jacente em todo ser humano. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. heréticos ou descrentes. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. indica que a seita. no cerne mesmo da sociedade. Um grupo minoritário. Ela então regula essa questão central da alteridade. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. em maior ou menor grau. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. substituindo-os por outros que. que já mencionei. sozinhos. reunidos em comunidade. vão se impor como lei. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. Mas é preciso observar que. que ela assegura sua identidade. quando as religiões se enfraquecem. a converter ou a destruir. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”.

Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. é porque os judeus. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. Em outras palavras. (Entretanto. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. ao contrário. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. É verdade que os grandes místicos. como heróis (no sentido freudiano do termo). discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. “poetas”. 80 . A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. apesar de tudo. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. porque a morte santifica e promete o paraíso. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. no “sentimento oceânico” (R. desenvolveu uma política de conversão). É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). de seu lado.

viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada).As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. ser totalmente dissociados. tudo se vende”. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. (Não existe. segundo a terminologia weberiana). a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. segundo o axioma de WALRAS). o texto de J.O fanatismo religioso e político Concluindo. substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. ideologia sem porta-voz. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. Entretanto. é conveniente fazer algumas observações. eles não podem. 1. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. entretanto. que são religiões da revelação. intensificação da produção não somente de objetos úteis. por conseguinte. 81 . 2. de novas características. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. PALMADE). nossas sociedades ocidentais contemporâneas.Elas se enriquecem. além disso. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. mas somente possível e previsível. como a ideologia republicana. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). sem emblemas. na verdade. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. as liberais e as “socialistas”. 1971). (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. se certas condições são preenchidas. São sociedades: a. Ora. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX.

quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. Sociedades sem pais e. “mãe das cloacas e dos brejos. por isso mesmo. LAPLANCHE. pensar e querer o apocalipse) e. realizáveis. 1989). se desembaraçar. (Assim. sua legitimidade desaparece. ao mesmo tempo.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. de imortalidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. Assim também. seu valor se corrói. 1967. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. c. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. b.sociedades que. além do furor de não poder satisfazê-los. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ.sociedades que. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. o trabalho perde seu significado. 1967). o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. Nesse momento. já havia observado isso). Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. concebê-lo como um inimigo ideal. 82 . d. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. para os homens e para as mulheres. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. no fim das contas. da qual é necessário. assim. enquanto criação e distribuição das riquezas.

aquela que designa claramente os aliados. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. (FREUD. não oferecem mais interesse.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. os irmãos e os adversários. de um proletário. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. de um budista. em particular. do desaparecimento de referência a toda transcendência. formar uma cultura. se sacrificar. os excluídos. da loucura. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. os “desgarrados”. da exclusão. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. Mas as religiões. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. só há salvação na paranóia partilhada. 1930) 83 . construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. os esquecidos. uma causa a defender. O indivíduo desaparece. um projeto a sustentar. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. da apatia. Eles querem se tornar um “Nós”. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. da ausência de um fundamento. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. da corrupção). O que desejam os deserdados. permanecer na certeza e. Contra o mundo perverso. Essa citação dispensa comentário. no Ocidente. aquela que cria uma identidade coletiva. de um capitalista. Daí se seguem três conseqüências. no limite. Se não somos nada além de um espartano. da miséria. A religião reclamada é a religião absolutista.

o super-investimento no projeto. O fanatismo visa. ou seja. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. Quanto mais uma cultura quer se unificar. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. ENRIQUEZ. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. o que é um alimento. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. uma imensa massa de homens. elas exigem a super-identificação à causa. pelo menos. nos diversos países. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. É certo que. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. então. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. para ela é uma impureza?”.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. o inglês fala tudo de ruim do escocês. Não esqueçamos. sua conversão. para isso. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. a criar um mundo novo. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . O desenvolvimento do fanatismo. liberado finalmente do mal. no entanto. 1984). livre do mal. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. tais como as descrevi acima. o espanhol despreza o português”. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. anunciador de um mundo novo. além disso. como seres a eliminar. da sedução ou da coerção).

um instrumento a serviço do fanatismo político. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. mas. para que o fanatismo se fortaleça. É preciso. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. Ou seja. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. o sinal de seu enfraquecimento.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. por sua vez. E nós tocamos. é preciso lembrar que. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. o essencial: a dimensão política. Síria). o Azerbadjão. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. para unificar os corações e os espíritos. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. São Estados. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. o Irã). a se tornar dominantes (por exemplo. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. no máximo. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . O fanatismo religioso. O fanatismo religioso é. É por essa razão que meu texto tem esse título. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. Retomemos esses dois pontos: 1. resulta. sem dúvida. sozinho. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. ainda. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. primeiro e antes de tudo. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. na hora atual. fundamentalista. assim.

Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . do qual eles não saberiam o que fazer. Eglise de Scientologie). ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. Communione e Liberazione. b. destruição cultural.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. Irlanda do Norte. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. protestante. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. lepenistas. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. sob uma forma fanática.A religião não se apresenta. c. cristãs. na retomada das negociações na Nova-Caledônia. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. judia. das comunidades islâmicas. em nossos dias.redourar o brasão das religiões tradicionais. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. se ela se extingue. muçulmana) na vida cotidiana da França. Loja P2. ela pode ter como papel: a. na França. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). Se a aliança persiste. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . na regulação dos Estados modernos. nos quais não existe senão um fraco consenso. certos grupos religiosos em Israel). 2. interdição de pensar (Polônia. ela designará os vencedores e os vencidos. Países Bálticos. Alemanha do Leste. forçosamente.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. judias). o convite a alguns líderes protestantes. Nesse caso. que querem fazer valer sua palavra.

desde o início dos tempos modernos. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. De fato. ao contrário. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. com a ajuda de seu Deus –. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. o caos e o abismo. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. como no exemplo de KHOMEINY). mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. não é o caso de superestimá-la. a falta de sentido. antes de tudo. o religioso. ele tenta. sem recorrer a referências seguras –. para terminar. de precisar meu objetivo. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. Se essas são capazes de inventar novos projetos. prontos a afrontar o absurdo. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. ao invés de processos de sublimação. 87 . cada vez mais freqüentemente. Eu gostaria. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. mas que. sem fim. nesse caso. laborioso. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. finalmente. suas dúvidas. Os homens aprenderiam. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. nascida desse trabalho árduo. 1. fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. Mas. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. de reflexão e de reflexividade. o Estado leigo faz apelo. paralisar a atividade de mentalização.

na América do Sul). Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. ela lhes permite tomar iniciativas. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. a perversão ou a paranóia triunfam. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. a ideologia. do fato ideológico. do fato nacional. Ela assume então o papel de desalienação. Os valores religiosos. que a religião. tanto quanto outros tipos de valores. naturalmente. 137-149. Ora. Por outro lado. quando o religioso se põe a serviço do político. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. “Le fanatisme religieux et politique”. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. na armadilha que denuncia. ideológicos e nacionais. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. uma vez que elas são. antes de tudo. Ela lhes é consubstancial. “A última tentação de Cristo”. no outro. Eugène. devem ser levados em consideração.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. Connexions. n. nos seus interlocutores e. sob pena de cair. por Leila de Melo Franco S. 1990-1. quando a ideologia dura impede o livre pensar. em si mesmo. T.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. então a reflexão desaparece. efetivamente. (N.) 2 88 . Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. 3. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. Eu não quis dizer. se ele não faz esse trabalho.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. Araújo. p. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. nos fenômenos sociais. 55. Se. em nenhum momento. tão fácil e prazerosamente.

“Notations sur le racisme”. 1973. 1979. PUG. sobre o fanatismo hoje. LAPLANCHE. In: Autonomie sociale. P. DEVEREUX. 1989.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. “La défense et l’Interdit”. n. PUF. 1967. Épi. 54. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. L’homme et la politique. E. ENRIQUEZ. Psychologie des minorités atives. J. 1971.(1930) Malaise dans la civilisation. Cl. G. FREUD. Epi. (org. 1989. S. CASTORIADIS. LEFORT. Essais d’ethnopsychiatrie générale. 89 . 1984. Un homme en trop. Seuil. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. Editions de Minuit. “Malaises dans les identifications”. PUF. MOSCOVICI. 1967. In: La NEF. G. C. 1976. Connexions. 1985.). 1963. 48. Au carrefour de la haine. E. S. M. S. Y. La monnaie vivante. n. ENRIQUEZ. L’autonomie sociale. DELEUZE. PUG. Présentation de Sacher-Masoch. 1987. ENRIQUEZ. 1971. Connexions. Seuil. E. LYPSET. janeiro. KLOSSOWSKI. 1985. Eres. . ENRIQUEZ.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

incessante. sobretudo. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. individual e coletivo. e o conservadorismo social e cultural da região. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. calçados etc. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira.CONJUNÇÃO. de outro lado. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. vestuário. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. seus produtos. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. alimentação.. uns nos outros. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. que 91 . se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. de um lado. A escolha da região do Cholet. como elas se desenvolvem. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. em plena Vendée. por exemplo). de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. Esse texto trata das instituições – como elas se criam.2 Tais reflexões mostram. como elas podem morrer. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. já havia sido notado por vários pesquisadores. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. NA EMPRESA. são exportados para todo o mundo (iates. vividas pelos dirigentes.

de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. de seus projetos. sobre aquilo que a empresa. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. sua história. clivagens. ainda que solicitadas por nós. Uma tal aventura. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. de suas dúvidas. é. suas dificuldades. caso a caso (empresa a empresa). Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. a partir de sua criação. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. num primeiro momento e. à antigüidade. pudemos pôr em evidência certas constantes. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. Tendo analisado esses depoimentos. isto é. que são ao mesmo tempo seu principal tema. mas a empresa como objeto psicossocial. entretanto. que tais entrevistas. evocava neles. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. com efeito. a partir de suas lembranças. diferenciações. seu futuro. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Assim. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. desde sua origem até o momento atual. entretanto. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. o qual é vivido como o fundamento da empresa. Ou seja. convidados a falar a respeito. 92 . segundo um método comparativo. ao produto. como objeto no discurso dos dirigentes. ou ainda. para si próprios. para nós. depois. era. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. Em outras palavras. Não se trata.

cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. Essas três entidades.a terra ou a região.Conjunção. a partir do qual elas podem se desenvolver. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. locais e regionais. Nesse último sentido. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. ou ainda. com a região (no caso. quer dizer. suas tradições e a 93 . embora todas tenham dependido. na origem. a terra ou a região. sua cultura. argila. de maneira mais abstrata. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. quer dizer. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. De maneira mais geral. de maneira mais extensa. de um projeto pessoal e familiar. quer dizer. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. podem ser resumidas da seguinte maneira: . ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. . parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. com o território (nome das cidades. quer se exprima pela relação com o solo. com freqüência até mesmo joint families. quer dizer. a regiões de Mauges. nota-se que. geográficos. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas).a família. também. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. . conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. grão etc. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras.o ofício ou o produto. na empresa. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança.) que se trabalha ou. aquilo que é ligado aos locais físicos. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. histórica e sociológica. conceitos verbais. A terra Essa referência é onipresente. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. de Bocage.

nas relações e atitudes: assim. o lugar dessa é aí dominante. A “região”. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. Desse ponto de vista. no sentido concreto. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). mas também no metafórico. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. assim que ultrapassamos a fronteira. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. constituem então. Antes de ser um projeto pessoal. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. 94 . a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. “a terra”. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. não se pode fingir”. vira tudo uma máfia”). em nome de uma certa ética. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. contribuindo para o renome da cidade ou da região. em caso de dificuldade. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. um conjunto de obrigações e de restrições. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. físicas e morais. a empresa é um projeto de família. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). mas também um sentimento de segurança. atividades e lucros organizam-se em torno dela. eis nosso jeito fazendeirão”. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. tanto no imaginário quanto no real. “não ficar falando abobrinhas. na maior parte dos casos. bem como uma fonte de riquezas. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. de empresas familiares. simultaneamente. A família Tratando-se.

Da mesma maneira.Conjunção. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. então. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). inclusive para outras aglomerações. Assim. Naturalmente. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. “sociedade de família”. as relações de autoridade. fortemente personalizadas. seja pelos homens (os filhos). de um projeto pessoal e familiar. de fato. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. As estruturas e as relações de poder são. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). descartado. geralmente. quer dizer. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). então. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). designada como “negócio de família”. Como se pode notar. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. “sociedade familiar” ou. A presença da família e de seu passado se traduz. num primeiro tempo. e o capital e os salários. de outro. na sua origem. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. de papéis e de procedimentos formais. Compreende-se. SA. “empresa familiar”. onde empregados e patrões podem comer juntos. por um lado. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. é certo. inclusive com empregados. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. no início. entre os bens e os dividendos pessoais. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. como “a realização de seus antepassados”. sendo um dos dois sexos. sendo também imagem das relações de parentesco. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). 95 . substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. na empresa. mas também nos fatos reais. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. ainda. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é.

uma inspiração. seus vizinhos.. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. casamentos. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. com os acontecimentos familiares – mortes. um elemento de coesão e também uma limitação. Apalpar essa matéria. os sindicatos independentes são mal tolerados. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Está diretamente associado às mãos do artesão. O ofício. Nessas condições. da receita ou do jeitinho de fazer. uma fonte de problemas e de conflitos. couro etc. o produto Em função de sua origem artesanal. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. a maior parte das vezes. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. rupturas. lenços da região do Cholet. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. transmitidos de geração em geração. Assim como para a referência à região. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . –. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. freqüentemente. A história da empresa é assim. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc.

em desligar aquilo que estava ligado. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. Juntos. para o dirigente. eles formam então como um bloco compacto. Sua história. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. com efeito. na empresa. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. encarnada na pessoa do fundador. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. à terra. Esse processo não se realiza sem problemas. transmitido de geração em geração. vêse então que. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. essas três bases – ou instituições primárias –. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. profissionais. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. pelo menos em parte. ele supõe a adoção de atos concretos. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. o marketing etc. não são entidades independentes. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. não em negar. Entretanto. trata-se de um conjunto extremamente coerente. para garantir as evoluções indispensáveis. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. sangue ou mãos). o ofício. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima.Conjunção. que asseguram sua identidade e a base da empresa. constatou-se. Consiste. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. De fato. estão imbricadas umas nas outras. de um projeto pessoal e familiar. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. –. cujas partes. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 .

a industrialização. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. essencialmente. PARSONS: do particular ao universal. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. de valores ou modos e redes relacionais. isto é. consiste em passar de um sistema social a um outro. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. O ponto de chegada de tal processo. isto é. Esses três movimentos resumem. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. de estruturas de necessidades e de motivações. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. da afetividade à separação. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. b. a transferência física da empresa para outros locais. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. da proximidade ao distanciamento. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. c. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. De maneira mais precisa. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. do pessoal ao impessoal.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. portanto. 98 . com efeito. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. ao longo de toda a história da empresa. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. Nos termos de T. seu objetivo. de produções. exigindo. investimentos em máquinas e em locais especializados. PARSONS. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. do herdado (ou do dado) ao adquirido. elaboração de uma organização e. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. principalmente.o deslocamento.

O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. com efeito. em contrapartida. se 99 . freqüentemente. bem como na composição do Conselho de Administração.. máximo. na empresa. a entrada em cena de um contador. O envolvimento da família é. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”.. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. que põe as contas em ordem.Conjunção. então. adquirir as competências ligadas à gestão –. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. a partir de então. ou ainda: “das famílias na sociedade. ele não pode assumi-las todas e é. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. obrigado a repartir o poder com outros. de acordo com regras precisas que excluem. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. de um projeto pessoal e familiar. Enfim. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. regidas segundo técnicas e métodos importados. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. pode-se dizer (. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. sua principal razão de ser – ele deve. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. bem como uma administração capaz de a gerenciar. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou.

melhor formados) e a da clientela. transformando as relações de poder e os modos de pensar. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. Esses estão. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. principalmente entre os (jovens) dirigentes. o que permite.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). pela definição de papéis e critérios decisórios. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. portanto. com efeito. ela se baseia em competências que eles adquiriram. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. mostra-se assim sempre indispensável. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. portanto. sócios etc. pela instauração de regras explícitas e. colocados numa situação extremamente conflitiva. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). por conseguinte. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. mas. É. Progressivamente. podendo implicar até em falência. Esse processo não se realiza de uma só vez. como para qualquer chefe de empresa. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. –. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. geralmente fora da empresa. a estrutura de pessoal (mais jovens. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. Eles são. pois. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. freqüentemente.

na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. uma tomada de distância em relação à terra natal. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. Outros se orientam para soluções. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. Se. Em todos os casos. E. por exemplo. renunciando a uma expansão possível. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. pois. bancos etc. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. portanto. necessariamente. – e o questionamento de vínculos anteriores. Se o deslocamento para outra região. Para essa questão. permitindo administrar as contradições. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo.Conjunção. mas permitindo a sobrevivência da empresa. outras exigências. 101 . mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. além disso. outros modos de relação. para si próprio como para o ambiente é. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. Trata-se. outras aspirações. considerado preferível a uma expansão sem significado. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. preservar uma base local. o solo no qual a empresa se situa. no entanto. isto é. encontramos respostas extremamente diversas. ou mesmo para o estrangeiro. é importante para reduzir. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. manter uma qualidade de vida e de trabalho. de um projeto pessoal e familiar. na empresa. a empresa adotar uma estratégia de exportação. como uma espécie de traição. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. nesse caso.

uns em relação aos outros. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. é pois. Como conseqüência de decisões. é ele. mais eles se autonomizam. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. as pessoas ou os hábitos de pensar. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. então. margem de lucro. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. Quanto mais eles se ampliam. assimilado a um trabalho de luto. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . por exemplo). mercados. indiretas. no entanto. ou ainda. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. SEU ofício que dá corpo a ele. algumas das quais podendo se situar alhures. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. produtividade. situadas em regiões economicamente mais propícias. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. e de rupturas que essas provocam com o lugar. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. Seria. é SUA família. Um tal processo pode ser. com efeito. portanto nitidamente diferenciados e interligados. etc). emerge assim uma organização. no sentido pleno do termo. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. entretanto. a rachar. são substituídas por relações secundárias. As relações diretas. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. Todas as empresas. evitando. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. taxa de crescimento. mais ou menos importantes. SUA terra.). que supõem prazos e contatos (redes etc. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. que manifestam um crescimento sensível. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. face a face. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. ou ainda. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. por regras ou por técnicas. por exemplo. admitindo divisões e separações. no entanto. uns sobre os outros. desenvolver uma rede de sub-contratantes. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. criar vínculos de dependência com eles.

) 2 103 . por Júlio M. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. ficando na ilusão de sua existência. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. sob pena de perder o contato com o real biológico. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. André. de sua consistência. existindo para e por si mesma.Conjunção. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. sua ancoragem biológica.T. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. (N. Toulouse. Região situada no oeste da França. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. desprender-se inteiramente.). et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. A instituição é um processo. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. Paris. do clã. 1990. organisation sociale. na empresa. de sua unidade.(mimeogr. Se. de um projeto pessoal e familiar. constitutivo do sujeito. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. despregar-se. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. uma tensão permanente. Mourão. collectif). “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. sua fonte energética. ele deve sempre compor com o nível primário. é impossível. 1991. que é o seu fundamento. com o título Inconscient. no entanto. de negar aquilo que é.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. mais eficazes e mais rápidos. os “intermináveis adolescentes” citados por A. verdadeiramente. etnias. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. com o seu corolário. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. possível. o triunfo da racionalidade experimental. como o evidencia Nicolaï. Essas transformações devem. finalmente. NICOLAÏ. NICOLAÏ). na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. No espaço até então ocupado por ela. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. Todavia. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. LÉVY. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. a fim de que as sociedades possam. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. No momento atual. então. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. pois. LÉVY e A. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. aparentemente. Entretanto. as mudanças essenciais 107 . quais são os problemas realmente essenciais. um trabalho de tal monta é necessário e. grupos religiosos etc. sobretudo. de forma responsável. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades.

levantada por A. prováveis de ocorrerem na sociedade. o “retorno do ator”. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. desde a sua criação. Seguindo essa via. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. interessar-se mais pelos movimentos sociais. na prática social. quando anunciaram. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. É importante ainda mencionar outra questão. realizando um genuíno trabalho psíquico. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. como o fez Touraine. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. também. Mas. Será. pelas interações entre sujeitos. portanto. antes de mais nada.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. seja para a sua involução. como têm sido feitas. Essa disciplina deverá. LÉVY). dar atenção especial à conversação e ao debate. seja para a evolução social. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. Ela poderá. Nesse sentido. Esse processo é longo. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. LÉVY: as verdadeiras mudanças. não surgirão de tomadas de decisões formais. na atual crise pela qual passa o Brasil. suas instituições e seus diversos grupos sociais. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. com freqüência. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. capazes de contribuir. 108 . ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. ritualizadas. para tanto. sujeito). e não a nível global e em regiões centrais. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. No entanto. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Ao contrário. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. Os sociólogos não se enganaram. na relação e pela relação. igualmente. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade.

as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. forçosamente. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. é porque me parece que. com efeito. seríamos tentados a pensar que. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. na acepção forte do termo. ainda. no modo de compreender as organizações e as instituições e. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. no início dos anos 60.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. Se me decidi a escrever esse texto.2 o envelhecimento. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. – tudo isso parece indicar. malgrado as aparências. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. E isso se traduz em um interesse. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. nem sempre bem sucedido. e observando-se toda uma série de sinais. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . da socioterapia e da Escola de Palo Alto. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. presente em muitos meios.

Entretanto. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. ou. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. desde o início dos anos 70. pode-se citar a análise institucional. 110 . oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas.. Parece-me igualmente que. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. enfim.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. uma após outra. Essa enumeração. constituem. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade.. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. primeiro. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. em um determinado momento. elas têm em comum o fato de terem pretendido. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. que evidentemente não é exaustiva. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. por exemplo). o que tem como conseqüência que. uma após outra. a análise organizacional. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. para os atores sociais e para muitos práticos. para os atores engajados na ação. os métodos centrados na expressão corporal. retomando termos de E. em função do que lhes parece ser necessário. a análise transacional e. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. Em outras palavras. mais recentemente. senão a única. mas a vontade de inovar. Embora durante alguns anos. Mas importa. É certo que a maior parte delas não desapareceu. ENRIQUEZ. como todo fenômeno de moda. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. em seu conjunto. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica.3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. de ter prazer. elas tenham podido ser a referência principal. de viver de outra forma. não apenas a inquietude e a interrogação.

4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). eles se comparam. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. Dessa forma. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. Em outras palavras.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. Certamente. LEWIN e C. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. efeitos espetaculares em uma instituição. com ambições mais limitadas e incertas. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. auto-realização. por não lhe deixar escolha. ROGERS (resolução de conflitos sociais. na verdade. 111 .A psicossociologia: crise ou renovação? Em si.. com vantagens. então. desse ponto de vista.). podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade.. ao mesmo tempo. por exemplo. É praticamente certo que a análise institucional. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. incertos e custosos. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. fazendo assim. a outros métodos mais longos. Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. intenções que. meios que ele controla. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. pelo menos – desses métodos: a. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”.

mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. automaticamente a problemas delimitados. Tal fascinação pelo que “funciona”. especialmente a necessidade de tempo. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. e que. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). o sistema de ação concreto de M. 112 . se possível. aparecendo em utensílios. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. evidentemente. há que se lembrar. não garante nem assegura nada. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. “enquadramentos”. dominada por relações mercadológicas e seus valores. tudo isso é. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. concomitantemente. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. Essa tendência já estava presente. Nessa perspectiva. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. “sistemas” (por exemplo. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. reduzido. então.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. mas também nas orientações cognitivas. condenado a ser rejeitado. Embora ocorram desvios. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. a um “ator” ou a um “agente”.

exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. há quem quis diferenciar. implicando um bem. podem-se percorrer todos os graus. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. Assim. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. Assemelha-se. no registro econômico. combinada então a pressões mais ou menos fortes. a demandas por respostas e soluções. assim como uma relação de troca. demanda de encomenda – LOURAU. Se. nesse caso. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. No que nos diz respeito. que podem. progressivamente. mais ou menos explícitas. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. por isso mesmo. ao contrário. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. endereçada a um outro. a demanda é. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. então. uma demanda de objeto. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. é eco de acontecimentos sociais. reciprocamente. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. no sentido de ordenar ou encomendar. necessariamente. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. toda história singular. Nesse sentido. está próxima à noção de encomenda. uma grande parte de sua riqueza. com efeito. O conceito de demanda social Com efeito. A demanda expressa. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). especialmente. Primeiramente. assimilá-la a uma encomenda. entre a demanda e a encomenda. um objeto. isto é. inscritos em uma história coletiva que. reciprocamente. sem risco. no limite. tal distinção não nos parece desejável pois. uma 113 . Entretanto. retira-lhe.

Por essa razão. é que. a demanda é facilmente interpretável. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. É. Nesse caso. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. no segundo. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. durante um processo de consulta ou de intervenção. no primeiro registro. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. na acepção própria do termo. seja de reconhecimento ou de amor. em demanda de outra coisa – conselho. de uma falta. a questão da demanda – sua escuta. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. Ele não é evidente. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. inversamente. sua interpretação. solução. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica. Certamente. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. a demanda é considerada não como individual. disfarçando-se. em contrapartida. objeto material etc. pois o qualificativo “social” tende. marido e mulher etc. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. explicitada pelo objeto que designa. trata-se de uma demanda de amor. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. necessário indagar a respeito de seu significado. pelo menos em um segundo plano. Ela se torna real por essa e nessa relação. Entretanto. principalmente. então. Se.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). inclusive e sobretudo por quem a formula. não é uma demanda de objeto. tudo isso não é específico da Psicossociologia. dificilmente é formulada como tal. seja em um quadro terapêutico. a “demanda” só tem sentido e só existe. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. o que lhe dá riqueza e complexidade. mas como social. Enquanto é apelo ao outro. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. 114 . mas a expressão de um desejo. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. aí. sua interpretação é sempre problemática.. freqüentemente ou sempre. seu tratamento – é. na Psicossociologia. uma certa relação de poder e de dominação. No limite. ajuda. precisamente.

de dependência ou de submissão. quis ou “demandou”. eventualmente. por sua vez. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. a solicitou. de outro. às quais é difícil resistir. meios de resolver um conflito etc. as quais. de uma maneira ou de outra. mobilizadas. Porém. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. Ao contrário. compreendidas e interpretadas. testemunhado através de seus escritos. reflexo interpretante. não há nada em comum com a posição de simples espelho. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva.). mas também de permitir interpretá-las. podem ter efeitos nas situações que as originaram. nas quais elas podem ser avaliadas. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. das quais resultam vivências compartilhadas que. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. De um lado. atos e palavras. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. transformadas em atos. que sua prática não é aplicação de uma 115 . o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. Como conseqüência. Assim.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. Em outras palavras. mesmo que seja de maneira difusa. manifestações agressivas ou angustiantes etc. é necessário que ele tenha se manifestado. exprimem-se sob formas coletivas (greves.

um grupo. consequentemente. na falta de outro termo. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. ao mesmo tempo. uma perspectiva – que. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. a noção de sistema é bastante útil. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. Entretanto. uma ética. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. desde LEWIN. enigma.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST.. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. Esse ponto. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. confessáveis e tratáveis. toda análise em termos de relações bipolares. Trata-se. mas através de princípios regendo procedimentos.6 como oportunamente evocado por J. uma concepção da sociedade e das relações humanas. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). afirmar que elas são. Tal representação exclui. entretanto. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. no espaço desse artigo. da mesma forma. Desse ponto de vista. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. tudo isso expressa bem o que. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. independentemente das outras com as quais ela se articula. não é possível. Assim. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. ao contrário. principalmente. individuais e coletivos. uma empresa. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. um serviço administrativo. Evidentemente.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. com a condição. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. uma classe de atores etc. mas que traduzem um desejo. interagindo entre eles. DUBOST. parece-nos ser uma ética.

A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. aplica-se também à Psicanálise. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. J. Evidentemente. instrumental. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). em especial. desde o início da ação de intervenção. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. em especial. o interventor-pesquisador contra o risco de. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. Sem dúvida. 3. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. é importante que todo ator e. identificar os dados. Desse ponto de vista. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. igualmente. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. a fortiori. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se.Por outro lado.7 Porém. A introdução. antecipadamente. em uma relação de colaboração. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. por exemplo –. Em suma. LEWIN. Assim. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . dessa forma. sem o perceber. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. 2. e sendo breve. ao mesmo tempo. por K. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. trata-se de tentar definir. então.

parafraseando J. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. então. Igualmente. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. investigar. embora não suficiente. consideráveis nas últimas décadas. Da mesma forma. 118 . quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. da sociedade e das ciências do homem. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. tentando identificar. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. Entretanto. uma orientação. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. então. “saber como se foi apreendido”. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. FAVRET-SAADA. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. É indispensável. Embora seu enunciado seja necessário. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. brevemente. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. nos termos de J. assim como observar. elas expressam antes uma perspectiva. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. algumas tendências atuais. é impossível. de qualquer jeito. FAVRET-SAADA. em seguida. reafirmar essa posição e manter-se nela. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. questionar. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites.

A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. de ordem geral. talvez rapidamente demais. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . Não é mais possível considerar o trabalho de formação. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. não é mais aceitável. a problemas de mudança social. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. Finalmente. Por outro lado. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. assim. há alguns anos. é impossível. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. análise conversacional. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. de uma forma diferente.10 Mais recentemente. por perspectivas lewinianas. convergências. impõe-se: qualquer que seja o domínio. com uma perspectiva bem global. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. certas correntes de Sociologia Clínica. Mostram. rogerianas e morenianas. dominados principalmente. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. cada vez mais evidentes. dedicaram-se. de análise de grupo. desde os anos 60. hoje. até então.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. Assim. no início do texto. Em todo caso. etnometodologia. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos.

Dunod. 43. L’Harmattan. p. R. 1979. A. Em especial. J. Dunod. Como exemplos: BARUS. les sorts. 53. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. ATLAN. sindicalistas. J. nos anos 60 e 70. Minuit. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Gallimard. Paris X. “Connexions”. Tese de Doutorado. 9-18. C. In: ARDOINO et al. 1987. O problema da mudança individual. 1985. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. Façons de parler. BION.. “Coopération et analyse des conversations”. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. H. W. e de representações específicas de objeto. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. A. DUBOST. Por exemplo: ANZIEU. Intervention et changement dans l’entreprise. A. TROGNON. 1977.N. André. 7 Cf. E. BEAUVOIS. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. G. Entre le cristal et la fumée. Seuil. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. 1973. 1989. In: Du discours à l’action. Seuil. PUF. 7. “L’analyse sociale”. Paris: Seuil. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. e BAREL. D. 1979. 1965. RAPOPORT. A. DUBOST. muitos outros atores apareceram: formadores. 1978. Connexions. Les mots. Payot. La société du vide. 1987. trabalhadores sociais. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. J. 1984. Paris: Seuil. JAQUES. Le sujet social. La parole intermédiaire. 1980. J. 2:87. 1990. A. 1978. LECLERC. Connexions. PUG. 1984. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. paradoxes et psychothérapies. 12 BORZEIX. e CAMUS-MALAVERGNE. la mort. R. L. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. Recherches sur les petits groupes. FLAHAULT. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. E. L’intervention psychosociologique. 1983. “Eloge de la psychosociologie”.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. 1972. Seuil. LÉVY. e JOULE. arquitetos etc. E. 3 ENRIQUEZ. responsáveis políticos locais. 11 TOURAINE. Situations de groupe et relations langagières. “Ce que parler peut faire”. Y. 42. J. 17. 2 4 5 WATZLAWICK et al. PUF. Sociologie du Travail. 1987. e LÉVY. L’intervention institutionnelle. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. O. por vezes fundamentais. Le groupe et l’inconscient. 1981. L’observation de l’homme. J. 1987. Connexions. Changements. 10 120 . Dunod. 1975. CHABROL. La voix et le regard. GOFFMAN. DUBOST.

em contrapartida.3 sobretudo nas Ciências Humanas. depois de LEWIN. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. o segundo 121 . de forma mais ou menos clara. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade.4 Essas evoluções. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. também. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. certamente. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. tendência.2 Mas.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. Entretanto. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. em nenhuma das duas. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. no campo que nos interessa. mais do que como fenômeno excepcional. retorno a uma problemática do indeterminismo. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas.

com efeito.5 Além disso. ele permite. mas que ela poderia se realizar. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. como demonstramos num texto anterior). dirigir ou combater. participando delas diretamente. por isso. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. K. recristalização). foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. aqui. Antes. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. isto é. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. iria reificá-lo. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. compreendê-la como tal.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. de uma leitura psicológica. Nesse terreno. muito fecundo. parece-nos possível. 122 . porém algumas observações prévias: a. prever. necessariamente. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. Assim. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. no grupo (na relação e pela relação. com efeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. deslocamento. de súbito. necessitando ser aprofundada. LEWIN. definitivamente. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. por definição. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. aquém ou além. hoje. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. do interior e não de um ponto de vista exterior. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. para as constatar.

é acontecer. também. Como já dissemos. tal definição é geral demais para ser útil.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. No entanto. (. reprodução das idéias.8 Com efeito. ao risco (. desse ponto de vista. Ele se traduz. o desenrolar de uma existência. tecnológico –. a um processo de mudança.. eles não podem ser previamente enunciados. mutações. redirecionamentos. reprodução das instituições.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. “exceto do corpo que se usa”.. A mudança é um trabalho do espírito. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . que queremos nos centrar aqui. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. que é a morte) – reprodução das espécies.. entretanto.9 a mudança. porém. Antes de ser um acontecimento objetivo. Com efeito.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (.. freqüentemente não isentos de violência. legitimamente.. Com efeito. é se abrir a uma história. não se reduz a esse processo evolutivo. à aventura. reorientações bruscas.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender.. A teoria dos sistemas distingue.. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. como observou Paul VALÉRY. físico. seja a de um indivíduo ou de um grupo.).. O termo mudança poderia.). a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias.. assim. lento e ininterrupto. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. designar tudo o que está vivo. é sobre essa segunda significação de mudança. é o espírito que. pois. como ruptura. escrevia Paul VALÉRY. Toda vida é “repetição de ciclos”. a mudança é um acontecimento psíquico.. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. ela é um acontecimento subjetivo. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. econômico. nem todo processo discursivo se identifica.

As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. Por exemplo. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. um trabalho de pensamento. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. objetivas. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. isto é. representações ou intenções e os que estimam. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. Fazemos.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. por um trabalho do espírito. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. por excelência. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. ao nível de suas significações. As condições materiais. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. ainda. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. os psicossociólogos. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. ao contrário. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. Ou. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. ele o é apenas se fizer sentido. das instituições. o lugar da mudança. A decisão: momento.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. dos modos de pensamento. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. ao contrário. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. depois de LEWIN. 124 . a liberdade”. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. em todos os níveis. antes de tudo. então. se o ato é fundador. Para entender bem essa proposição.

Somente a decisão pode fundá-lo”. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. LEWIN.13 acentuamos o ato arbitrário.12 A decisão seria. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. ao mesmo tempo. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. o “golpe de força” na origem de toda organização social. do feminino. em suas opções e em seus desejos fundamentais. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. Por isso. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. uma situação nova e envolve inteiramente. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. da ordem do real-concreto-sensível. inicialmente. Os processos de decisão analisados por LEWIN. um salto para o desconhecido. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. o tempo. necessariamente. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. 125 . da duração (bergsoniana). a organização social. por si. renunciando. em um trabalho anterior. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). em sua época. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). com o risco de sua própria desagregação”. da continuidade sem hiatos. por si própria. para chegar ao processo secundário e criar o real. “operando uma disjunção violenta. a divisão. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. então. só pode ocultá-lo.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. por exemplo). o psicanalista W. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada.

os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. evidentemente.. econômicas ou sociais. não muda nada. um ato de palavra. assim. Isso não significa. pois ele pode sempre ser desmentido. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. nem que a palavra seja onipotente. as situações institucionais. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. simplesmente. manifestação da vontade de produzir. retomado ou reinterpretado.” é um ato “ilocucionário explícito”. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. como que por mágica. é o mesmo sujeito da enunciação. qualquer que ela seja. modificações na realidade. quer sejam. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. não pode significar uma mudança. Se o sujeito que 126 . arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. tomados como testemunhas. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. explicitamente designado. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. Mas. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. por seu conteúdo informativo e prescritivo. que uma decisão necessariamente modifica.. isso significa que uma escolha. de forma mais importante ainda. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). Um ato. a decisão é. pois. em si mesmo. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. Mas. simplesmente. assim. Toda decisão é. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. ao mesmo tempo. O sujeito de tal enunciado. apenas por seu enunciado. mas porque é um ato público. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON.

Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. como diante da morte –. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. sob a má fé dos argumentos. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. entre as possibilidades. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. a uma atividade lúdica ou de encantamento. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. e de abandonar o terreno do possível. Então. eles próprios. Decisão. conscientes ou inconscientes. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. interpretação e prática de análise social No entanto. esconde mal.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. do imaginário. a respeito do herói. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. igualmente. para fundar o real. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. formal e. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. bem antes do livro sobre Moisés. sem apreender o real? 127 . vazios de sentido e sem conseqüências. talvez mais do que em qualquer outro momento. o jogo de hipóteses. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. efetivamente. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. não se reduzindo. para um processo de mudança. os desafia. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. inelutável. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. Aqui. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. Nesse sentido. como muitas vezes ocorre. rituais ou emblemáticos.

processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. 128 . a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. possuem as características do relato histórico. escapar dessa eventualidade. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. FAYE15 as analisou. sendo difícil. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. feita pelos psicossociólogos. igualmente. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. como toda decisão. com efeito. para fazer a história. tais como J. certamente. P. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. Esses sistemas. implica um risco e um custo. O trabalho sobre as resistências. Certamente. ela é necessariamente parcial e partidária. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. certamente. ao mesmo tempo. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. Seria importante. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. ainda que não tenham conhecimento disso. Assim. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. senão impossível. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. como observa FAYE. mas. termo que. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. incontestavelmente. Mas ele pode.

fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. muitas vezes. não podendo ser traduzidos em decisões. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. de uma mesma “realidade”. o texto.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. que eles constituem visões diferentes. em um processo de reificação de enunciados fechados. das condutas às quais elas se referem.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. do risco de uma interpretação verdadeira. uma parte da verdade comum. no inconsciente dos sujeitos. contentando-se em esclarecê-los e. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. essas diferentes visões e o que elas ocultam. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. pois. mas complementares. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. justificando. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. mas sua coerência. mais ainda. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. É aqui que uma concepção por demais rígida. contribui para reforçar seu caráter dogmático. ao contrário. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. longe de se fundamentarem no “real”. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. que preserva o analista social da decisão. então. bem claramente. mas tende a afastá-las. práticas contestadas ou abordadas. atuem diretamente no real. “nascendo. visto que essas. subtraído do tempo”. diz-nos LEGENDRE. sobretudo. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. cada um. assim. ideológico.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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autocriação. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. oriundos de outras áreas.Os conceitos de auto-organização. Nesses períodos. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. autogeração etc. não restavam mais que 10 000). como crises momentâneas de coerência. químicos ou biológicos. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. Assim. em 1950. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. *** Quais são. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. então. supra) agidos. atores e autores do seu sistema. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. capazes de se auto-regularem. colocam outros problemas. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. os novos conceitos e hipóteses. pois. Eles se referem a sistemas autônomos. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que.Inicialmente. a partir do século XIX. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. isto é. mas abertos ao seu meio ambiente e. inicialmente. literalmente. os atores. autopoieses.Rupturas. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). 2. o que não é o caso dos elementos físicos. cujos elementos. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . são simultaneamente (cf. em 1900. ou seja. face a “ruídos” provenientes do exterior. constituindo-se. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. por isso. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. isto é. as crises econômicas foram.

logo não previsível. segundo CROZIER) e. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. No entanto. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. por conseguinte. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. Sua presença é vista como consolidada. amplia a margem de manobra dos inovadores que.I. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. de inovadores potenciais. Nesse ínterim. mas isso deixa de lado os fatores 136 . em especial. É certo que essa escolha é aleatória.. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. nesse momento. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. encontramos poucas reflexões (na França. de outro lado.P. sob a égide do Estado. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. de um lado. sob o protecionismo de MÉLINE. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. o compromisso fordista empresários-assalariados. entre os economistas. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. na sociedade ou numa área econômica dada. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera).2 por exemplo). apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. na França. Essas crises-ruptura. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. Mas.

elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. da predestinação do mais forte. em cinqüenta anos. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40.P.. inerente ao sistema. ou seja.Rupturas. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. Há outro problema não estudado. nessas mutações estruturais. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. uma teoria do fracasso. assim como aos fatores culturais. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). Mas ainda continua faltando. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. tornando possível viver em perspectiva (C.000 sociedades. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Em épocas de crises-ruptura. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). 137 .I. da designação. a difusão ou não – de suas inovações. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. por conseguinte. Mesmo se essas teorizações existissem. entre a mão invisível e o punho de ferro. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. ao nível dos detalhes. nesse quadro. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. ele se torna o ordálio. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. CASTORIADIS). desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N.

aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados.aumento do número dos agentes aí implicados.enfim. BOYER. . . podemos constatar: . 138 .). que o Centro se desloca. da cultura. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . o lúdico. “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura. polimorfismo das intervenções do Estado.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. Mas. despolitização.P. 3. poderes oligopolíticos em escala internacional. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação.).outras referências. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. após a solução eventual da ruptura. integrismos. . . a família e a escola). à extensão do capitalismo (os N. homogeneização da linguagem. embora ainda não totalmente. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”. . GROU. devido à extensão atual do mercado e.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). após dessacralização. por exemplo): concorrência.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R.fenômenos de regressão a formas mais simples. ENRIQUEZ): nacionalismos. ao mesmo tempo. desde BRAUDEL. por exemplo). o sagrado e. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). às vezes. 3 . . des-sindicalização e mesmo des-identificações. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. Ela se define (P.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. mesmo que saibamos.I. não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.

por outro lado. o leque dos comportamentos não é. É preciso. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. completamente fechado. para serem fecundas. por outro. REYNAUD). a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. Essa adesão. Ela supõe. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. por um lado. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. devem inicialmente ser especificadas. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). biológicos e mesmo etnológicos. as sociedades animais). a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. das conexões) e do “salto qualitativo”. pois. uma interiorização das normas e uma culpabilização. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). informáticos. para cada grupo de agentes. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo.Rupturas. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. introduzir normas. como afirma o individualismo antropológico.Nos sistemas sociais. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. 1. por seu lado. Contrariamente. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta. 139 . Do mesmo modo. regras ou convenções para lhe dar suporte. químicos. E esses. D. mecânicos.). tão caro aos marxistas de outrora. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). além das imposições do mercado e dos demais poderes. por um lado. quando da sua transgressão e. para poderem inovar.

lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. pelos golpes das OPA. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. No total. em período de crise. a modificação do tipo de conjuntura. mais nitidamente. por isso mesmo. Por outro lado – apesar de KEYNES –. as ocasiões de experimentar. por fim. devendo encontrar.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. sem esquecermos ainda as marginalizações. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. de se expandir e. então. em seguida. 3. No primeiro caso. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). da sedentarização ao nomandismo). 140 . O imaginário da destruição pode. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. Existe então. de sua unicidade histórica. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. os outsiders e os parvenus substituem.Quando há ruptura. no segundo. dos fatos de regressão (por exemplo. enquanto que. acumulação. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. 2. inovações. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo.5 o pessoal patronal). por exemplo). seria preciso distinguir.

A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). uma mutação estrutural. então. para experimentar as inovações. “esgotamento da relação salarial fordista”). por exemplo. portanto. “Malaise dans l’identification”. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. 2. 55.T. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. então. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. 2. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. por conseguinte.). V. Revue Économique. a adesão às normas e. A continuação do funcionamento implica.Mas a adaptabilidade do sistema. representações. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.As estruturas (as relações de complementaridade e. normas. N.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). Connexions. Cf.Rupturas.T. n. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. 3. tal como: 1. por Teresa Cristina Carreteiro. Cf. 141 . 40. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. março 1989. “L’économie des conventions”. a aquisição de conhecimentos e de representações. Paris: ERES.). OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra.). mutations et complexification en économie (mimeogr. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. André. por conseguinte. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. 1990. n. um esquema ideal típico. Ruptures.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

MARADONA. 2. 4.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. “desfusão das pulsões”.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. precedeu uma crise política. Fragmentos. talvez anuncie o fim delas. MITTERAND. 143 . a qual. não se trata mais de crises (isto é. no 52) A crise das identificações. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. de algum modo. E. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. por sua vez. Assim. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. (Hobbes) Tempo é criança brincando. por exemplo. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. (Heráclito. o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. quando não destroem a sociedade em questão. a introdução de novas referências.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. então. de criança o reinado. Do mesmo modo. criam. e os transforma em autores das mudanças.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). jogando. BRANDT. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. nos anos 60. condições de “saída da crise”: l. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. TAPIE e outros). João Paulo II. No Ocidente. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. 3. de incertezas). Atualmente. ROCCARD. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. porém robusta. Pois essas “perturbações”. precedeu uma crise econômica.Ela mobiliza atores em potencial.

em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. 6.Ela libera. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. com todas as posições intermediárias possíveis. reativados ou mesmo imaginados). para todos. o individualismo ilusório ou de oportunismo. ao contrário. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. por outro. angústias de identidade. pode-se reciclar também a identidade. O “mal-estar na identificação” traduz. ao mesmo tempo. de assimilação e de inovação.No final de contas. diz FREUD. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. O resultado é que. assim. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. as “intermináveis adolescências” que. é claro. a tipos de personalidade diferentes. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. tentativas de reconstrução. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. levados pela incerteza das situações e do futuro. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. assimilam e transformam. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. a grupos étnicos. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. localizadas e transitórias. de modos diferentes. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. desses imaginários de projeto. a categorias socioprofissionais e. por um lado. não apenas a realidade parece incerta.

b. da igreja. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. profissionais.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. finalmente. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). c.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. em vista da emancipação para o societário e a individuação. é claro. de classe. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. da empresa etc. as reativações religiosas atuais no Irã. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. e a aparência NAP) pelo simbólico. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e.3 A família.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. regionais. Assim.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. solidéus – kipas – hebraicos. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. Por exemplo. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). a regra e as sublimações. é paralela à involução identificatória de seus membros. organizacionais etc. nos dois sentidos do termo. do racismo. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. Fenômeno que ilustra 145 .Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. A identificação que não se desvencilha do partido. nacionais. religiosas. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. a. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. gorros cristãos etc.

com o dinheiro. o narcisismo individual. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. sendo aliás esse que permite aquele. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. b. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 .Do primeiro diremos pouca coisa. primeiramente.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. justamente porque mais na moda. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. Quer dizer que o narcísico. a. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). é. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. isto é.Mais interessantes. E isso. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. especialmente na França. exatamente como Deus. Ela é. entre 1983 e 1988. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. por sua vez. O retorno pode ir ainda mais longe. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. principalmente. além disso. ipso facto. às avessas. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. fortalece as exigências da necessidade econômica. “tem necessidade dos homens”. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys.

Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. o festivo.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. Por enquanto. se autodestruiria. o prestígio etc. talvez. em prêmio de Schadenfreude. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. notemos que o modelo do sucesso individual. Entre a binaridade e a injunção contraditória. o sucesso dos outsiders permite também e. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. se ela for realizada. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. “Criem sua própria empresa”. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). em substituição ao “Mudar de vida”). mais tranqüilizadora. manter ou criar os meios de aumentá-la. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. induz não ao 147 . atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. o mercado. numa androgeneidade fecunda. é mais simples escolher a binaridade. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. O dinheiro. de junho de 68. caso se propagasse a todos os agentes. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. Assim. Enfim. simultaneamente. Isso é talvez patológico. Além disso. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. essa acumulação pecuniária permite. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. Na verdade. A monetarização. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”.) permite.

como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. a partir de elementos de vestuário comuns. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. No caso de fraqueza delas. na época atual. logo. cada um será. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. a nítida binaridade do mercado. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. (T. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. a programação dos computadores das Bolsas) que. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. necessariamente. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. em contrapartida. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. 1. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. Acrescentaremos apenas algumas observações. esse narcisismo manipulador. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. passa-se rapidamente. a individualização extrema dos novos modelos. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. daí resulta. adolescência e pós-adolescência -.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 .7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. ao insolúvel. Intermináveis adolescências. entretanto. um cavaleiro solitário.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. nas três etapas – puberdade. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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Além disso. uma vez instaladas. em certas regiões. não podem ser reorganizadas e reorientadas. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. entretanto. produzem-se onde não se espera e constituem. É por isso que as revoluções. Assim. pois. Nesse caso. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). inclusive jovens executivos12. conjugada com a manutenção dos objetivos. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. fora do controle exercido pelo Centro. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. antigamente atrasadas. no que tange à história do capitalismo. Pode-se. Além disso. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. Com a condição. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. como. mesmo que sejam minúsculas. por historiadores como BRAUDEL ou I. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. por exemplo. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. 154 . prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. pelo menos em muitos jovens. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. pois. “surpresas”.

GODALIER). E como se sabe. dos prazeres. no adulto não é a repetição mas.) pelas outras. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. numa situação de mal-estar.. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. dos valores. unicamente confirmadoras da identidade. as identificações são. podemos contrapor. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. a personalidade arrisca-se a desmoronar). cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. Assim. das idéias. MC DOUGALL). o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft).Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. por sua superação. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. ao contrário. aí. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. em seguida. cujas identificações seriam. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. Paralelamente. ainda mais.).. a conformidade e. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). constitutivas da personalidade e. política etc. Em contrapartida. Mas. diz WININICOTT). a captação do lúdico (jogo de papéis. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . idealmente. das coisas. mas existem.. no início. logo. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. do espaço. principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo.. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. jogo de empresas.

Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza. . . é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. Essa é. em identificações hierárquicas.13 Fundamentalmente.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. sem dúvida. . a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. Mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). com o 156 . Desse modo. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. então. por exemplo).tentam-se. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . imprecisas e transitórias. então. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. DUPUY. como vimos. então. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. entre esses tipos extremos e opostos. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. . situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. ao mesmo tempo que se escreve.experimentam-se. representadas e transicionais. em transformar as identificações laterais.a dificuldade está. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante.

podem entrar em conflito. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. no fim de contas.. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. com a eliminação das organizações.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. 2. quanto para aqueles que o desemprego.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. como na tectônica as placas entram em fricção. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. pois. em 1981). que apesar de HEGEL.. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. o mal-estar subsiste. tanto para os autores das mudanças. apesar de tudo. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. o fim da história só concerne a cada indivíduo). a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. de passagem. e das intermináveis adolescências. das coordenações pelos sindicatos etc. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. em concorrência). aliás. por isso. de bandeiras. Há. Algumas conseqüências 1. Chegando à encruzilhada. (O que prova. de fetos ou de liberdade de viajar. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. dos indivíduos e da identificações 157 . Daí a multiplicidade. das utopias (“mudar a vida”. Essas apropriações podem. Enquanto isso. da maioria dos marxistas. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. às vezes. na Colômbia ou alhures. outsiders ou reciclados. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido.

ao mesmo tempo agradável e funcional. Ora. um momento dessa ascensão. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. E a que corresponderia. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. os tempos. 3. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. das normas e das formas. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. encontramo-nos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. as gerações. talvez. então. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. a estrela polar) são. 158 . um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. as únicas referências ainda fidedignas. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. Por isso. necessariamente. e a complexidade progressiva do sistema. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. como alguns dizem. ENRIQUEZ. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. Talvez. portanto. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. por um momento denegadas (entre os sexos.). Os signos (o sol. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. as culturas etc. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. O barroco societário atual é. pedidores de emprego. os espaços. principalmente). amanhã.Mas sabe-se também que o vínculo social e.

As épocas de crise e reconstrução valorizam.. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. logo. RUBEL. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. a receita das identificações complementares novas (e. no mal-estar. então. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). 1981. 1989. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 1990-1. 55. sem dúvida. Pléiade. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. edição de 1963. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. simultaneamente. sociedade e personalidades”. para outros? Mas. Temos assim uma alternância de interpretações.” In: M. Oeuvres: Économie. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. 61-78. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. os atores (Individualismo). MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. É por isso que. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). Estaria a saída. C. nas diferentes esferas do social. 2 de março. ao contrário.. Gallimard. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. W. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. n. “L’économie des conventions”. 239. das coesões) não parece ainda inventada. MARX.]. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. na formação de ninho familiar. do econômico ao sagrado. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. 40. Tomo 1. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. por Eliana de Moura Castro. O problema: em época de “destruição criativa”. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. André. Passy. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. Auteuil.T. p. N. 29. naturalmente). Hoje ele teria. Revue Economique. “Zur Kritik. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. NAP: Neuilly. Connexions. p. Petit Larousse. no adulto que eles se tornariam. 159 . Mais dura foi a queda.

LECA. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. New York: Collier. Interminables adolescences. ELKAIM. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. BIRNBAUM. La distinction. 1983. BAREL. n. Paris X. Le paradoxe et le système. 1988. 1988.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. L’auto-organisation. J. Tese. para TARDE. D. J. R. J. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. Autonomie et systèmes économiques. CHASSEGUET-SMIRGEL. E.. 1988. Paris: Epi. DE CLOSETS. 1988. Toujours plus. 1981. 1982. 1979. DETIENNE. Paris. ne m’aime pas. n. BELL. Paris: PUF. Les révolutions minuscules. BOURDIEU. Paris: Flammarion: 1974. Paris: Seuil. 1989. De la horde à l’Etat. Paris: Seuil. Les contradictions culturelles du capitalisme. Uma mudança social. 51. ANREP. Winnicott en pratique. 1974. The end of ideology. 1984. Connexions. Grenoble: PUG. Cujas. DENOYELLE. ENRIQUEZ. 1989. 160 .. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. Paris: Seuil. FRIEDBERG. BELL. T. Freud et l’éducation. M. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. Paris: Gallimard. 1975. Paris: Gallimard. 1989.. CROZIER. Paris: Seuil. 1977.. Paris: Cerf. por outro lado. D. Aux carrefours de la haine. 1985. CAILLOIS. M. P. “Les représentations sociales”. n. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Paris: Minuit. 1960.. 4. “Le changement en question”. G. 29. Paris: Fayard. Les deux arbres du jardin. Y. Les destins du plaisir. 1988. 1979. 1950. 1982. Paris: PUF. oportunismo. Paris: PFNSP. P. Connexions. 45. L’individualisme. VERNANT. mobilidade. CERISY (Actes du Colloque de). E. CASTORIADIS. BELL). Paris: Seuil.-P. C. AULAGNIER. M. Si tu m’aimes. Autrement. M. Paris: des Femmes. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. J. F. 1982. L’institution imaginaire de la société. 1976. 1979. BALANDIER. n. 1987. P. Cf. L’homme et le sacré. Le désordre. Ordres et désordres. Paris: ESF. ARMANDO. Le lien social. Bulletin de l’AISLF. L’acteur et le système. A. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. DUPUY. P. Paris: Grasset.] uma não-imitação de exemplos paternais”. J. ENRIQUEZ.

L’empire de l’éphémere. angoisse. MENAHEM. “Les Français et l’argent”. Revue Economique. LE GENDRE. S. SEGALEN. Paris: Gallimard. 2 de março. J. W. FUKUYAMA. 1989. Le déclin du complice d’Oedipe. FREUD. D. L’autre et le semblable.. 40. Ch. Le retour de l’acteur. B. 1934.1974. M. Paris: Laffont. GOFFMAN. Paris: RFP. out. Ressources. Paris: Gallimard. Paris: PUF. H. FREUD. Traverses. Le Monde. G. Le complexe de Narcisse. A. L’effort pour rendre l’autre fou. 15 nov.. Paris: Plon. Paris: Maspéro.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. GODELIER. D. 1978. 25 de out. “Et le poussent jusqu’au bout. Psychologie des minorités actives. In: Essais. OLIVIER. 1982. Paris: Seuil. FREUD. psychose et perversion. de la vertu et de plaisir. Paris: PUF. n. Les enfants de Jocaste. NICOLAÏ. “La voix écoute”. 38-39. 1983. Pour décoloniser l’enfant. Reedição GEX. S. LASH. S. “La nation disparaît au profis des tribus”. Paris: Gallimard. SEARLES. 47. 51-54. Le Monde. 1981. 1989. “La politique en apesanteur”. SIBONY. 1989. 26 jan. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité.. LÉVI-STRAUSS. Paris: Payot. LIPOVETSKY. 1988. 1987. “Les mutations de la famille. junho 1987. 1989. 20.. MOSCOVICI.. Malaise dans la civilisation. 1980. J. G. 18 julho. n. SIBONY. n. Paris: PUF. Nauplie. 1980. 1977. NICOLAÏ. 1979. NICOLAÏ. WINNICOTT. TARDE. nov. KRISTEVA. 1974. “Psychologie des foules et analyse du moi”. 1971. et al. Jeu et réalité. “Penser le chômage”. 10. A. Paris: CNRS. Paris: Plon.. La pensée sauvage. 1973. Paris: Payot. nov. Pouvoirs de l’horreur. Paris: Denoël. Cl. Idéaux. 1958. Paris: PUF. Névrose. Paris: Gallimard. 1980. Paris: PUF. F. 1966. Les lois de l’imitation. Le Monde. 18 mai/7 jun. Vers la société sans père. 161 . MITSCHERLICH. 1989.. FINKIELKRAUT. M. Inhibition. “L’économie des conventions”. WIDLOCHER. 1970. n. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. Playdoyer pour ume certaine anormalité. 1989. “La fin de l’histoire?” Commentaire. FREUD. A. 1971. LÉVI-STRAUSS. Paris: Gallimard. 1989. 1984. 1981. Mc DOUGALL. Rationalité et irracionalité en économie.. Les rites d’interaction. n. 1979. G. S. 27. symptôme. A. Paris: Minuit. Cl.” Connexions. Paris: Fayard. S. E. FREUD. Cl. outono. Freud et le problème du changement. D. A. G. S. Revue française de psychanalyse. Forum de Delphes. Anthropologie structurale I. 1980. 1989. n. TOURAINE. A. 1971.” L’homme et la société. n. D. n.. 3. “Et mourir de plaisir. 1951. MENDEL.” Peuples méditerranéens.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. instrumentalizada então. LÉVY (“Intervenção como processo”. por exemplo. também. ela tomará formas próprias. em uma espécie de “crise das instituições”. em fins de 50/início de 60. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. entretanto. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. os textos de J. Poderíamos dizer. 1987). que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. No Brasil. É bem verdade. a partir da divisão não-saber x saber. lançar um olhar novo sobre o mundo. criando em nós uma vontade de entrar no debate. mais tarde. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. pelas Comunidades 165 . em cada lugar. contribuir. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. que essa “crise” também eclode em vários países e que. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. de A. na maioria das vezes. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. sem dúvida. essa parece ter sido. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. 1980. Assim. Pelo que eles mesmos nos contam.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. desembocando. sem vê-lo como algo já dado. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. nas décadas de 60/70. Benevides de Barros É. 1980) e de E.

DELEUZE). No Brasil. uma certa psicossociologia se faz intervenção. fica claro que “Movimento Institucionalista”. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. PAGES. de modo generalizado. 166 . por outro. HESS. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. político e social. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. inserem-se. na interseção dos campos filosófico. como à Argentina. DUBOST. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. J. LOURAU. palco de uma produção expressiva. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. Em meados de 60. Ainda que marcados por grandes diferenças. questionamento de seus modos de instrumentalização. O mês de maio de 68 francês. chegar também até nós o eco dessas produções. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. crítica das experiências instituídas. ao Chile e ao Uruguai. R. ARDOINO) ou. As instituições são analisadas. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. o país. Por aí.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. E. analisador histórico do status quo vigente. ENRIQUEZ). presenciamos. Os fins do anos 60/década de 70 serão. convulsionado pelo golpe militar. G. A. à Socioanálise (R. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. de um lado. do conservadorismo universitário. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. LÉVY. No campo da Psicologia. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam. quando tomado em seu sentido amplo. Vemos. então. ainda. designa a crítica à naturalização das instituições. LAPASSADE. GUATTARI e G. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. J. colocou em cheque. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. principalmente. então. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. desde essa época. da burocracia partidária. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. através do contato com os “institucionalistas” franceses.

) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. p. alguns de Enriquez. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. da formação da A. a influência do pensamento institucionalista francês. Se no início a orientação era claramente norte-americana.) Em 1971.. respectivamente..). com a qual logo rompemos (. MATA-MACHADO. 1992. via Universidade e. portanto. Lévy apresentou-nos. em 1959. O recente trabalho de M. p. mais especialmente.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. através do Curso de Psicologia. fomos lançados numa perspectiva rogeriana..Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita.. de Rouchy e.. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. os professores Max PAGÈS e André LÉVY. 1992. além de seus próprios escritos. (MATA-MACHADO. Junto com René Lourau (.(. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. sob a liderança de Garcia. sobretudo.. 2) O pensamento institucionalista atravessa. segundo M. “(. segundo a autora. 1992. voltado à pesquisa e à prática..I. 2). A entrada se dá. como grupo. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. 3-4). a partir de 1968. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. tivemos entre nós. de forma mais pontual.. mas há algumas produções importantes que já apontam. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques). Em 1967.). Lapassade (..)”.). o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (.. (MATA-MACHADO. que congregou pesquisadores práticos (. Ambos haviam participado..... p. mantinha. É marcante. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO.P..R. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. cuja prática foi denominada Socioanálise”. Com PAGES. 167 .

1992. LOURAU. somou-se a influência do pensamento de outros (M. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. G. Ao mesmo tempo. assim. LAPASSADE. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. menos desejosas de mudar o mundo (.. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. F. DUBOST e E.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. no Brasil. segundo a autora. mais tarde. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. por um certo tempo. 4). ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. p. R. 1987). aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. “parcialmente abandonada. fez com que. 6). J. 168 . LEITÃO e BARROS. Encontramos. enquanto que. 1992). G. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. 1992. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. Essa perspectiva é. em fins de 70/início de 80. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. O que se percebe é que. DELEUZE. o movimento institucionalista inclui sociólogos. a partir de então. CASTEL. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. G. pedagogos. É também na década de 80. MENDEL). atentas às características da realidade brasileira. entre outros). LÉVY. O pensamento pichoniano. p. cujos interlocutores privilegiados são A. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. Hoje. FOUCAULT. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. construindo-se práticas singulares. no Rio de Janeiro..)” (MATA-MACHADO. há alguns projetos em andamento. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. mas estendendo-se até hoje. na Europa. além dos autores já citados. 1986). ENRIQUEZ. No Rio de Janeiro. psiquiatras e psicólogos. entretanto. Na década de 80. GUATTARI.

Vida R. 169 . e BARROS. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. M. (coord. Gregório F. A década de 60: seus efeitos no pensamento. Rio de Janeiro. Análise institucional no Brasil. incluindo. Mas. Heliana B. Referências bibliográficas BAREMBLITT. C. nas intervenções e práticas sociais. (mimeogr. na universidade – PUC/SP –. GUATTARI. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. B. (orgs). Micropolítica. sobretudo. as contribuições da socioanálise. e BARROS. Belo Horizonte. de obras desses autores. Osvaldo (orgs). Regina D. bem como na entrada. Heliana B. História do Movimento Institucionalista. pesquisas e intervenções. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. O inconsciente institucional.. o “pensamento institucionalista”. Regina D. mais tarde. Félix e ROLNIK. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. 175p. Cartografias do desejo. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. em alguns casos. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. 327p. Rio de Janeiro: Vozes. B. Especialmente através dos trabalhos de S. C. difundiram-se os pensamentos de F. 1992. já toma contornos bastante diferenciados. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. GUATTARI e de G. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. RODRIGUES. Grupos e instituições em Análise. hoje. em São Paulo. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. 1986. LEITÃO. à instituição de formação e à de pesquisa. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. 1984.). 1992.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Marília N. RODRIGUES. Suely. Petrópolis: Vozes. 22p. (mimeogr. tendo incluído outras influências teórico-práticas. 1987. KAMKHAGI. 1986. DELEUZE. ROLNIK. MATA-MACHADO. em suas várias vertentes. e SAIDON. desembocando em algumas traduções e publicações.). encaminhou-se para a formação de centros de estudos. 164p. Intervenção psicossociológica. Atualmente.).

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

aqui.. os princípios e as modalidades de sua intervenção. mais ou menos livremente.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos. finalmente.as condições gerais que engendram. de variáveis como: a. c. a interação entre essas variáveis. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. Limitamo-nos entretanto. Mas creio.P. em primeiro lugar. implicando opções e esforços de imaginação e que. b.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. principalmente. além dos desejos de terceiros.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. Por mais banais que sejam.R. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. o status e a posição social. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. a natureza do “saber-fazer”. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 .I. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. em uma determinada situação. as dificuldades sentidas por um ator social. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. a algumas observações.a formação.

formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. simultaneamente. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. Na Sorbonne. inflação. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. então. Muitos dentre nós trabalharam. o funcionalismo etc. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. de reeducação. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. o Marxismo. de estruturas de direção. suas aplicações no domínio da economia. do recrutamento de pessoal. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. comportava. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. estabelecidos na capital. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. em períodos diferentes. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. da formação em habilitações. nos mesmos organismos3). da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.). missões de produtividade. pelo problema da reconstrução.. evidentemente. do 172 . O período imediatamente após-guerra foi dominado. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. ênfase a métodos estatísticos. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. Nesse contexto. a busca de participação. entre 1945 e 1959. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. de gestão. econômica e social. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. da conjuntura.

Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. separam-se em duas tendências. na França. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. lembremos. em 1961. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. a partir de 1952. a partir dos anos 40. o movimento trotskista. pouco conhecidas na França. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. da gestão etc. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. Em relação a esse último ponto. da demografia. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. desenvolvendo uma abordagem mais global. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. a relação crítica e complexa que G. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. MORENO e depois ROGERS). marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. por exemplo. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. se as tentativas de Reich são.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. nessa época. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. pela Dunod). POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. o movimento que iria ser denominado “institucional”. em seguida. estudos de mercado –. é o momento também no qual G. André BRETON. onde milito durante esse período. no plano das práticas. especialmente. as obras de G. então.

a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito.G. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra.O. desde sua origem. mas elas permanecem muito próximas. um dos colaboradores dessa equipe. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. Igualmente um outro. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. LEFORT.E. dirigido por C. 174 . Antes de sua volta aos Estados Unidos. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Entretanto.5 retém. sobre a “moral” da empresa. durante a ocupação. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. servem. Perret. WILLIAMS. com o restante do relatório. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. em função do problema da burocracia operária. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C. na relação que elas estabelecem com o cliente.S. a C. em 1947-1948. separa-se da IVa Internacional. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. Entre essas últimas. em 1949. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. no qual se encontra B. CASTORIADIS4 e Cl. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. R.

a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. passando pelas reformulações européias do T. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. Ao contrário. porém. se abrem a uma abordagem mais clínica. depois eventualmente coletivas –. Da mesma forma. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. em empresas maiores.W. apoiando-se nos resultados. elas colocam. em última análise. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. de início. junto a pessoal assalariado de uma empresa.I. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. as que são conduzidas por equipes francesas. 175 . parece cada vez mais interessante.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). da mesma forma que a direção. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. e eles devem ter acesso aos resultados. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase.

queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. ou aos que decidem – Direção Geral. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . sua natureza real. a se expressarem. Por outro lado. grupos de mais velhos. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. as crises. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. ele se pergunta se os bloqueios. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. modos de remuneração. Ele faz da relação de consulta um problema em si. turn-over.). pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. algumas vezes antigos. Enfim. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. Direção de Pessoal –. cujos conflitos. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. feita pelos encarregados da pesquisa. e essa não sendo a conseqüência menos importante. para uma orientação mais clínica. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. as relações intercategorias e as microculturas da organização. que fala sobre seu campo e suas intervenções. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. absenteísmo. Ajudando todas as pessoas. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. e tenta inventar. no interior desse quadro de atitudes. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. pirâmide de idade. um objeto de trabalho. Em outros termos. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. higiene. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. de pagar o preço por sua solução. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. segurança etc. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. as disfunções. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. pelos sentimentos coletivos.

se aceita. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. do especialista em uma técnica de produção. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. mais tarde. os processos de preparação e tomada de decisões. 177 . acaba totalmente reforçada. ele próprio contribui. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. isto é. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. isto é. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. os sistemas de comunicação na empresa. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. à medida que esses são identificados. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. mesmo nesse caso.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. sem dúvida. Nessa perspectiva. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. gestão ou organização. Porém. a idéia de que a intervenção. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. ele exerce uma pressão que. permitindo a expressão do reprimido. de fato. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. mesmo desejando o contrário. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. ajuda as categorias vítimas da repressão. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. em especial dos inconscientes. ele crê que. de perceber direções de solução. sem dar conselho. além dos arranjos menores concedidos. de fato.

então.P. No momento da criação. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. das formas de autoridade. A outra continuava a realizar. mais do que acelerar tal processo. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. a 178 . O caráter clínico do novo grupo. (1959). Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. em uma empresa nacional. os limites das ações de intervenção. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. mas também em uma transformação cultural profunda. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. Os anos sessenta No momento de criação da A. Tenho a impressão de que. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. Da mesma forma. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. do psicodrama analítico etc.R. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas.. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista.I. nessa época.

era de um terço.R. dominou os primeiros anos de funcionamento. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. A orientação não diretiva. atuando diretamente no campo. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. ou iria finalmente se tornar. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. algumas vezes mesmo de introdução à economia. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. a metade das atividades da A. dez anos depois. terapeutas ou analistas. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. a proporção era aproximadamente de nove décimos. e ainda agora. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama.). os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .I. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia.7 Paralelamente. a metade já era. de inspiração rogeriana. durante todo esse período. a continuidade no tempo. nesses. reunindo às vezes toda a equipe. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. HERBERT. até 1966 (marcado pela vinda de C. neles. uma longa intervenção em uma empresa implanta. ROUCHY). se podemos dizê-lo. A organização e a condução de seminários representa.6 No começo dos anos sessenta. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. de metodologia psicossocial. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. grupos abertos de análise etc. do sócio-técnico e mesmo do econômico.-C. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos.P. de formação de adultos. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração).Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. de sociologia das organizações. outras vezes apenas três psicossociólogos.

desenvolvimento organizacional). a demanda se estende a associações. Psicossociologia e Política etc. Ao mesmo tempo. diversos membros da A. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica.). as condições ideológicas próprias da França. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. então.R.I. para explicá-lo.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem.P.N. é uma intervenção no México. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça.F. em 1961. de padres e religiosos. na equipe. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. Entretanto. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. movimentos educativos.E. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. em Paris. 180 . de atendentes. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. junto a organizações com função econômica. a guerra da Algéria. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. de maneira ainda mais geral. de psiquiatras e de psicoterapeutas. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. É sobretudo na França. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. durante vários anos. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). de trabalhadores sociais. por volta de 1965. por exemplo. junto a um Centro de Produtividade. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. Mas creio que é necessário evocar também. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. a integração. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países.

Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros.R.10 .V. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. por parte da instituição. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 .elaboração de projetos de pesquisa-ação. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. Embora alguns dentre nós víssemos. que dava uma direção totalmente imprevista. por exemplo.. trabalhava desde 1964. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. ao contrário. simultaneamente política e cultural. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. o período que se seguiu a maio mostra. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural.O. mesmo que modesta.E.P. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. dentro de certo prazo. como muitos outros. ao considerarem suas relações e vida psicológica. não desembocou no político. uma direção susceptível de provocar. As instituições não se analisam.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . a despeito de sua repercussão no conjunto do país. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).E.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. de uma audácia espantosa. com os quais a A. antes de 68. centrando-se na evolução das pessoas.I. nas ações de movimentos como a F. através do desenvolvimento de ações locais. uma evolução global do sistema educativo. como o fazem os indivíduos ou os grupos.N. .integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.

Porém. a “socioanálise” ilustra. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra.11 Estudando (por três vezes: 1963. ou melhor. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. quando as referências à pedagogia ativa. bem problemático. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. “agente de mudança”. . seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica.A partir dos anos 60. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. afastando-se dela em seguida. mesmo quando. devendo ser afastado ou suspenso. ele deve ser buscado em outro nível. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. na prática. Como o mostra André LÉVY. no último período. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. sem dúvida. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. 1967. no campo social. mas também de seu objeto de trabalho. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf.nos anos que se seguem à Liberação e. no plano das idéias. tende a se ver como um analista com funções de elucidação. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . 182 . sob a influência do pensamento psicanalítico. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. O modelo do analista pareceu sempre. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. benefício a mais).Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta.12 . parece-me que. ou “indutor de mudança”. em especial lacaniano. Esse último aspecto leva à questão mais geral. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. até o começo dos anos 60. progressivamente. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. tal opção.

O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. pertencente ao campo estudado. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. lugar onde se está. com todos os riscos que isso comporta. tendo em vista sua própria história. Simetricamente. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. por exemplo. e. porque ocupa. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. como pesquisador ou consultor social. Se ele se encontra em uma posição menos central. sobretudo. cedendo a pressões de que se é objeto. por exemplo. nunca é independente. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. A expressão pesquisa-ação. no campo. na referência ao próprio lugar ocupado. ou que se tenta ocupar. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. Toda intervenção psicossociológica. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. a esse respeito. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. nem a se considerar parte da ação. presente nele. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. é certamente oposta à acepção lewiniana.

com universitários como Georges FRIEDMANN. 1978. la Mort.). “Une intervention psychosociologique”. não se pode. 857. J. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. n. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. 1971. A C.-C. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques.P. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. 1980. Le psychosociologue dans la cité. n. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). 2. 1963. contra. de 1955). ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. seu vice-presidente. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 13 Les Mots. 4 Cf. n. André. Jean e LÉVY.-março. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 9 Cf. secretário geral da associação. Paris: Epi. 2 3 184 . quatro anos depois.T. sobre esse último ponto.O. mais recentemente. 1967. de PERETTI. 1303. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique.. responder a essa questão.O. LACAN. por Marília Novais da Mata Machado. 7 Max PAGÈS. In: ARDOINO et al. 1977. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. ou mesmo depois de terminar.G. Jean-Claude ROUCHY. Connexions. les Sorts. Paris: Dunod. 1972. 11 Cf. e de A. por exemplo o artigo de J. 10 Cf. de forma mais livre. 825. 17. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. L’intervention institutionnelle.. 50-68. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. LÉVY. 12 Cf. Paris: Payot. André. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. p. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. jan. evidentemente. 1972. 8 Cf. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. Intervention et changement dans l’entreprise. n. Psychosociologies. Connexions. 1332 etc. Gallimard. 3. n. desde sua criação. Ecrits (por exemplo. 1969. Sociologie du Travail. sobre. 5 Compagnie Générale d’Organisation. presidido por Jean STOETZEL e. “L’Analyse social”. In: Fondation Royaumont. 29 de Connexions. o capítulo “Variantes de la cure-type”. Continuando. 806. 1304.S. Droz. 1331.F. Épi.”.. ROUCHY em Connexions. “Dire la loi. a partida de Max PAGES. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 1980.) e dos de Cl. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início.E. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751.

quando é apenas verbal. tem qualquer coisa de suspeita. sobredeterminado por uma profunda lógica. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. permitindo esclarecimentos progressivos. entretanto. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. Esclarecer sua posição em relação às situações.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. através das contradições de suas condutas profissionais. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. Tal afirmação. Parafraseando HEGEL. 185 . pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. à crença em sua positividade fundamental e. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. há muito tempo. porém. No que me diz respeito. Porém. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. esses ainda são muito relativos. bem ou mal resolvidos. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. além disso. mesmo que artificial. Porém. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas.

5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. científica. desapaixonada. ainda hoje. diferentemente lúcida. face a face. diretamente. no mínimo. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS.6 por esse rótulo. mais lúcida ou. na França. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. Toda a minha experiência. reciprocamente. Durante muito tempo e. a reconhecer. ao contrário. As tomadas de consciência. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. sem dúvida. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. dizem respeito.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. instituindo. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. leva-me. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. As práticas de intervenção. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. longe de chegar a um ceticismo. junto aos grupos envolvidos. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . cada vez mais claramente. em relações diretas. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. Ela repousa. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. fundamentalmente. ela é. ou mesmo a um nihilismo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. com freqüência. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. ela desconhece 186 .

a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. data de 1972. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. com vistas a decisões e ações. com efeito. de outro lado. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. de um lado. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. é apenas um simples instrumento ideológico.7 A última intervenção da qual participei. seu amigo. quase narrativa. de uma forma histórica. visto como ligado demais ao responsável comercial. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. esclarecimento das funções. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. de forma alguma. Porém. então. sobretudo. cuidando. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. A reunião desses diferentes objetos na análise. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. Tal metodologia induz. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. mas. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. melhor coordenação administrativa. De toda forma é surpreendente que. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. em determinado momento. os problemas atuais da empresa. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. caso contrário.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. que adotava aproximadamente esse modelo. isto é. 187 . fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. que. implicitamente. de quem dependia bastante. considerado como um diagnóstico e. por sua vez. uma única vez. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. supõe. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa.

teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. para apreender a “realidade”. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. então. a coexistência desses diferentes discursos. de um a outro. mas potencialmente articuláveis entre si. Em outras palavras. reconstituído graças a nossos cuidados. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. organizacional). sem dificuldade. e de passar assim. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. A perda da esperança acarretou. porém situados no mesmo plano. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). ideológico-afetiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. à medida que cada discurso. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. sobretudo. particularmente por meio de nosso relatório oral. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. traduzia também. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. um de cada vez. expondo cada um com a mesma objetividade. em outras palavras. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). A pesquisa havia fortificado essa esperança. complementares. como se esperava de nós. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. e. e sobretudo. no limite. inevitavelmente.

o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. desconectados das condutas e estratégias. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. Longe de favorecer um processo de análise. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. reduzidas a enunciados fechados. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. no mínimo. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. articulá-las. Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. é a função das representações. em contrapartida. qualquer que seja a maneira como é conduzida. o “real”. o levantamento de dados. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. a pesquisa contribui. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. perceber o quanto a prática da pesquisa. excessiva demais) e conservar. legitimamente. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. escutada ou recusada. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. em seguida. ações ou decisões (saber para). levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. sabemos. em discursos que as pessoas expressam. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. então. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). ao contrário. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. Essa crença conduz. Mas se aceitamos. assim. de uma explicação geral. para o recalque: primeiramente. não aceitamos seus pressupostos. assim. embora imperfeitamente.Intervenção como processo (subjetiva demais. 189 . isto é. a partir de diversos “pontos de vista”. que não se reconhecem como um discurso. desejaríamos. constrangidos. associa-se necessariamente à busca de um sentido. Essa experiência possibilitou-nos.

essa só pode. sua posição de exterioridade é apenas relativa. moral ou corpórea. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. 190 . ser feita em uma experiência de comunicação. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. com efeito. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. se há um resultado do qual estou seguro. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. pode ocorrer. reciprocamente. Só é possível. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. na enunciação. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. se articulam e se transformam. na qual o imediatismo do risco é sensível. na qual uma resposta instantânea. A não ser que se idealize o processo de análise social. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. sob forma falada ou atuada. então. Os grupos face a face aparecem. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. então. Porém. instituídos. mas. no sentido pleno do termo. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. independentemente das maneiras como se atualizam. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão.

ele se insere no mesmo sistema de alianças. isolados de toda historicidade. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. essas relações implicariam particularmente. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. material ou simbólica. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. uma vez que. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. Nas situações de intervenção. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). por parte do analista.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. isso é apenas uma petição de princípios. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. em função de uma “demanda”. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. por exemplo). mas relações de transferência. do não agir. estratégias. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. no próprio ato que o institui como analista. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”. pressões. corpo a corpo. 191 . A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. das quais necessariamente é parte. grupo do outro. com a participação do analista-interventor. no sentido preciso desse termo. o respeito à regra de abstinência. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. desde o início.

13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. não unificada. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio.12 e a legitimar sua interpretação. então. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. assim. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. tendo que tomar decisões e executá-las. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. traduzia o desejo de tirar 192 . ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). fragmentada. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. quanto para as relações internas. isto é. Um dos objetos de análise pode ser. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). O interventor pode. ele elimina. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. por antecipação. um serviço). realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. por meio de regras explícitas e implícitas. seu objeto. no mesmo ato. fora da situação de análise. do “aparelho psíquico grupal”. por exemplo. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia.

podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. o abandono de tabus. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. Se isso é em parte verdadeiro. paradoxal. observações. as resistências internas na organização tendem. a desmistificação de certas crenças. por exemplo. Não se pode escapar disso dizendo. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. a composição do grupo pode evoluir. que continuaria submetido às regras administrativas. com efeito. pesquisaação etc. institui tal quadro. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. como. como o fazem certos psicanalistas. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. Certamente. essa modalidade se constituía. numa colocação em ato do desejo. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. a não ser provisoriamente. a presença. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. mas também para o gozo sexual ou estético. o que vale não só para a análise. É por isso que. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. de uma terapêutica localizada. e o grupo de suas restrições externas. quando o interventor. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas.). merece ao menos uma explicação. que a emergência dos conflitos latentes. ele entra em conluio com as resistências. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. à medida em que o trabalho progride. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. especialmente do médico-chefe. Um dos resultados. assim. do trabalho de análise. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. Nessa perspectiva.

centrada nos problemas de produção racional. irredutíveis. um jogo mais livre se torna possível. o acesso a uma história. a da burocracia. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. a mudança representa para nós. conseqüentemente. à incerteza.. Não é uma soma. Com efeito. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. centrada no sistema de regras etc.. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. então. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. uma certeza a mais. inclusive nas pessoas. um possível onde havia certeza. antes de tudo. de acordo com eixos orientados. ao risco. Com efeito. um novo pleno. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. no mínimo. com noções e representações úteis à ação. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. do pior ao melhor. isto é. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. mas uma subtração. toda teoria organizacional é relativa. um acontecimento marcado pelo advento. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . uma certeza a menos. do menos ao mais. ou como o reconhecimento de clivagens internas. O novo que aparece não é. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. em face à eventualidade de uma ruptura. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. a da organização científica do trabalho. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. uma questão onde havia uma afirmação. as peças começam a circular. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. ao desconhecido. Em um texto anterior. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização.

Entretanto. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). desde 195 . na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). com a finalidade de construir referências. permanecem divididos os discursos de representação. a análise não alcança objetivamente um real suposto. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. para os outros e para si próprios. tenta explicar. então. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. as ações e as divisões. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. temporais. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. são discursos destinados a legitimar. também ela. o processo de análise não pode. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. mas em apreendêlas como discursos incompletos. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. Nesse sentido. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. com efeito. enfrentar e ocultar as contradições que vive. hierarquizado. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. Assim. ordenado. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. tendo sua própria pertinência. o que dá no mesmo. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. Nessa perspectiva. Pareceu-nos. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. então. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam.

em especial. em sua maior parte. que deveria ser. Igualmente. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. Depois de uma breve hesitação. por diversas vezes. tanto quanto pude analisála.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. Esclarecemos. ela pretendia ser. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. reificaria significados. com interesse e prazer. isso não apenas não os inquietou mas. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. com pessoas pertencentes a esses meios. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. Buscavam essencialmente um “técnico”. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. Embora eu tivesse trabalhado no passado. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. ao contrário. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. citarei o caso de uma intervenção muito breve. como ocorrera na assembléia anterior. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. destinadas a serem engavetadas. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. 196 . colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. pareceu-me simpática. Assim. talvez tivesse mesmo o inverso. aceitei. Para ilustrar o que precede. A razão de minha determinação. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. era o sentimento de que não poderia. como condição para aceitarem sua missão. aliás muito rapidamente. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. endereçada agora a mim. por sua vez. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. mas a demanda. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma.

a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. pela Comissão) como um ponto de transição. Como já mostrei. e enfim. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. em relação à Comissão e. à noite. Tratava-se então de um momento que. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. de fato. de outro lado. de um lado. atendendo expressamente à sua demanda. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. uma Assembléia Geral extraordinária. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. era considerado por muitos (ou. cuja forma seria definida? 197 . em seguida. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. Para isso. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. o lugar deles. depois dos debates. pelo menos. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. Como cheguei lá. Ela havia sido decidida no ano precedente. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. na história da Comunidade. vencimento dos prazos para decisões importantes). diversas sessões haviam sido previstas. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. que não podia ser perdido. dois encontros no local da Assembléia Geral.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e.

como um estranho mas não como um intruso. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. O fato de que eu estava lá como um profissional. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. Parecia-me. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. tendo em vista a Assembléia Geral. com a ajuda deles. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. esquivando-se dos conflitos e divergências. os textos definindo seu funcionamento. 198 . pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. Nessa ocasião. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. as regras às quais se submetiam etc.R. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. com amizade e com confiança. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. de sair de um estilo de relações muito corteses. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. Espantei-me. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. a fim de levantar suas opiniões. ao mesmo tempo. então. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. então.I. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. evitando toda aspereza. as relações entre elas. sem implicação com o grupo.). eu próprio me sentia um estranho. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. Eu era calorosamente acolhido. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. tomei conhecimento.P. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. talvez também meu próprio sobrenome judaico.

se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. declarei-lhes: 1. entretanto. então.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. periodicamente. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. demonstrei que. Pareceu-me. observei. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. sem dúvida. com relativa facilidade. em nome de valores democráticos. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. com bastante veemência. Eles aderiram. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. sem deixar de observar. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. seu papel de porta-vozes puros. em última análise.Intervenção como processo No nível do conteúdo. mas representavam também. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . para a escolha dos temas que seriam então tratados. que eles deveriam. a meu ponto de vista. 2. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. assim. O papel que tinham era não apenas técnico. pelas vontades expressas pela “base”. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. ao contrário. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam.

com alguma hesitação). com o conhecimento e o acordo da Comunidade). isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. eventualmente. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. Com efeito. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. sem implicar posições táticas e políticas. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. Caso eu participasse da Assembléia Geral. No limite. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). Paradoxalmente. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. seria necessariamente confundido com a Comissão. ao contrário. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos.

eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. Deveria representar um tempo de análise coletiva. sobretudo.R. Assim. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. judeu) tinham para eles. ligado à Comissão. através de minha inesperada implicação afetiva. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. entre nós e os membros da Comissão. ficou claro que: a. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. isto é. durante o primeiro dia de trabalho. a partir dessas diferenças em status 201 . o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. mas no calor da discussão. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. nossa posição profissional e inserção institucional.quanto a mim.I. mas também de escolha de orientação política. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. uns em relação aos outros. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. membro da A. Certamente. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. até a eleição do próximo Conselho.Intervenção como processo como observador. não em trocas prévias. durante um vazio de poder). para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. sem direito à palavra. existente no real. formalmente.. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. c. b.P. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura).17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais.

Esse efeito de sentido. Tudo isso. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. 202 . nossa alteridade. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. e sobre o que pôde ser produzido. particularmente.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. relatórios de reuniões. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. a partir desse primeiro dia. às instituições ou às atividades). não se produz. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. por sua vez. entre a Comissão e o Conselho. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. lutar para tornar o trabalho mais lento. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. entre as comunidades regionais. destinados a serem comunicados à Comunidade. como terceiro. em conseqüência. era “relativa”. a partir desses documentos. entretanto. Nesse sentido. o desenvolvimento de um certo trabalho. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. Foi preciso. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). Na sua maior parte. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. assim. como membros dessas comunidades regionais. entre outros escalões – e. por exemplo. da importância atribuída às pessoas.

refletindo situações particulares diferentes. seja o conjunto de atividades –. da idade. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer.Intervenção como processo considerando questões particulares.”). segundo os quais as definições da Comunidade. da segurança. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade.). as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse.. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. a definição da pauta dos diferentes dias. ou ainda. as questões a serem submetidas a voto etc. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. algumas vezes.. em contrapartida. carregadas de subentendidos (por exemplo.. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. assim.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. aparentemente menores. na Assembléia Geral. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. em seguida. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. sem dar muita importância. 203 . seja a coabitação em um mesmo lugar. No curso desse processo. por meio desse trabalho preparatório e.. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. sobre palavras fetiches. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva. ou mesmo.

visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. isto é. reflexivo e crítico. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. Nessa perspectiva. facilitando a escolha de futuras estratégias. de um lado. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. melhorar seu funcionamento. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. ao contrário. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. quando aplicado a um processo de intervenção. permitindo-lhe aumentar sua força. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . ela constitui uma terapêutica dessa última. o “serviço concreto do Homem”). de outro. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. fazer uma sondagem. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. de um lado. a-organizacional? Bem entendido. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. Para concluir. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. de comum acordo. criar uma situação nova. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. de outro.

205 . à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. como alguns às vezes pretenderam. conseqüentemente. Assim. tivemos a oportunidade de demonstrar. melhor se fica”. em uma modificação das relações de poder. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). mais a ação é eficaz e pertinente”. uma colocada a serviço da outra. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. essas afirmações estão longe de serem verificadas. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. uma afirmação da identidade desses dois processos. necessariamente. com precisão. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. ao contrário. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. ela também não é. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. antes. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. senão de cegueira. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. uma dose de desconhecimento. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. a ação de outro. isto é. longe de terem um valor geral ou intransitivo. Em um trabalho anterior. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. Ora. Com efeito. “quanto mais houver saber. ela implica. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado.

entre o que pode ou não ser escutado. com o mundo. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. ao mesmo tempo. por exemplo. O saber. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. Com efeito. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. mas como um processo. sobre seu passado. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado.19 Por isso. implica todo um trabalho sobre si. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. em um processo de escrita. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. é a parte que permite trocas e manipulações. um sistema de ação.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. em uma organização ou em uma sociedade. os transforma. a mais simbolizável. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. Assim. 206 . como experiência. tratando dos processos de pesquisa. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. uma escola).

Se a existência de regras e proibições funda uma organização. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. já foi evocada anteriormente. mas. ao mesmo tempo. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. a necessidade de dividir. 207 . de separar. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. é a condição de toda vida social. de limitar. de realizarem sua meta de dar sentido. De alguma forma. que. de outro. no nível do pensamento. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de toda construção material. que não exclui nem dúvida nem incerteza. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. em uma negação do inconsciente. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história.Intervenção como processo Tal concepção de organização. ao contrário. o desejo de tudo controlar. de uma racionalidade criadora. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. essa. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. para perdurar. Daí o hiato persistente entre. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. clivagens e limites. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). espiritual ou mesmo afetiva. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. As regras dividem e separam. assim. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. dito de outra forma. de um lado. Esse golpe de força. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. o desejo de tudo compreender e. é precisamente a impossibilidade. que pretenderia circundar o sentido. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. por exemplo. visam a introduzir. O processo organizacional funda-se. especialmente do desejo de onipotência. contabilizável ou informática. para essas representações – esses discursos de representações –.

assim. ao menos. L’Analyse social. 29. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. até então bloqueada ou proibida. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. I/1980. 1980. de ignorar as implicações dessa inversão. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. André. In: ARDOINO et al. ou. L’intervention institutionnelle. mantendo vivo o passado. fazendo isso. então. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. é importante. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. p. Paris: Payot. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. a se desenvolver. em seu primeiro esforço. uma palavra continua. 69-100. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. por Marília Novais da Mata Machado. Respondendo a uma demanda de palavra. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. Porém. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. quanto da análise que a torna possível. 2 208 . da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. sobretudo. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. Connexions. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. Jean e LÉVY. Dessa forma. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. ela se choca assim.

la Mort. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Por exemplo: Max PAGES.. Gallimard. também “Le pouvoir et la mort”. Sociologie du Travail. Seuil. Connexions. Em termos mais sofisticados. L’intervention institutionnelle. Connexions. 21. “L’acteur et le système”. S. de E. 49-68. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”. 29. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. Jean e LÉVY. LEGENDRE. LÉVY. postula dois aparelhos psíquicos distintos. em Topique. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Segundo o Petit Robert. inédita. Mal-estar na civilização. ENRIQUEZ. “L’Analyse social”. CROZIER. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. um individual e outro grupal.3 4 5 Inspirado em G. I/1980.. André. In: ARDOINO et al. cf. “L’interprétation de discours”. LAPASSADE. introduzido por R. Paris: Seuil. pp. FAVRET-SAADA. Cf. de P. “Dire la loi.”. op. les Sorts de J. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. Connexions. L’amour du censeur. 1978. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. 1980. Connexions. Cf.”. FREUD. KAES. Como toda análise de conteúdo.. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . Paris: Payot. Les Mots. Esse conceito. cit. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. “Dire la loi. Cf. “Le changement comme travail”. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Traduzido de: DUBOST. Thèse d’Etat. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. 21. 7. trabalhando com a própria contratransferência.. Nesse exemplo. Connexions. 196l.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. e. as práticas de formação. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. de toda atividade de formação. como a maior parte das indagações a respeito da formação. Entretanto. Por isso. nesse breve artigo. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas.E também o que é o próprio sentido desse movimento. 2. ou. Esse número de revista testemunha bem o fato. uma dúvida me invade. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. e mais violentamente. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. há casas para ela). de forma concisa e injusta (mas. o procedimento de exclusão do real e. isto é. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. possibilidade e multiplicidade das comunicações. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. Dizendo o mesmo com outras palavras. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. ainda. sem dúvida. mais precisamente.O que ocorre de essencial no ato formador.

Certamente.a dos sociólogos críticos. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. Orienta-se (e não apenas na China. para desejá-las e provocá-las. de reciclagem e. todo crescimento no domínio das informações. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. mas também têm. ainda mais.a dos psicólogos. 212 . mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. sua vontade e sua imaginação.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. a formação permanente torna-se indispensável. toda aprendizagem de técnicas teria. a fim de poder seguir as mudanças e. Toda formação. um efeito positivo para o formado. de investimento pensado. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. Trata-se. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. advindo a necessidade. então. de paciência. Assim. temores do formado e condicionamentos sociais. 2. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. O problema é unicamente operatório. resistências. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. para um sistema onde. situando a prática que buscamos promover. cada um à sua maneira. de um lado. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. o progresso dos conhecimentos. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. a todo momento. de tempo.a dos formadores e educadores. então. de outro. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. 3. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados.

que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. que a libido é turbulenta. na transformação e ele é. da medida. O real não está lá. portanto. o do primitivo e. da mesma forma. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. hoje. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. ao umbigo dos sonhos. através da ordem. sem sonho nem loucura”. que as reconstituições são parciais. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. que o homem está sempre por nascer. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. além de anularem toda diferença e toda dispersão. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. Ora. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. ele se revela na ação. o do outro. do cálculo. que as causas determinantes não existem. obtido apenas 213 . estritamente falando. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. cartesiano. o do louco. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. é o que excede toda análise. O comportamento adulto é o comportamento refletido. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que.3 referindo-se ao racional e ao controle. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. os blocos erráticos. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. que se torna assim excluído). inesgotável.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). o real é o que escapa a toda definição. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). as brechas repentinas. mestre das leis e da morte. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. sem paixão. sempre a serem melhoradas. além de toda interpretação. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente.

Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. imagens protetoras. Aliás. a cada dia. falando dos signos da 214 . Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). cuja única saída é o aniquilamento mútuo. Como viver o desejo do pleno. do questionamento do saber obtido.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. não se trata aqui de uma simples metáfora. se for atravessado pela ideologia do senhor. do que tranqüiliza. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. pois ele não pode sê-lo.5 Certamente. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. como uma água calma. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. Ora. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. como diziam os alquimistas. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. a opacidade. a alegria da certeza e. o confronto com a finitude. por isso. a energia que se desprende. De outro lado. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. então. as provas de sua impossibilidade. Temos de um lado o conhecimento. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. 2. as variações de temperatura. Como é o funcionamento desses dois princípios? l.4 isto é.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. de hábito. o seu contrário. desenvolvendo-se progressivamente. E nunca esse programa foi mantido. ao mesmo tempo. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. a angústia de se perder no turbilhão de questões. temos a bola de fogo. a humanidade estará. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. Quando houver apenas Eus fortes.

pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Os tecnocratas. Igualmente. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. 2.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido.. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. Conclusão: o que permanece são as certezas. mas uma relação angustiada com o saber. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”.Quanto ao segundo princípio.. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 .6 Ora. a despeito de suas diferenças. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. Então. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. os psiquiatras aliados do poder. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo.

impacto social menor (estamos. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. é preciso. esses mesmos estágios. tendo recebido um certo tipo de educação. não existe. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. mas porque apresenta. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem).Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. o cachorro ou com o estrangeiro que. o homem. grupos de encontro. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. então. assim como as experiências de bio-energética. É talvez por essa razão que. no qual se inscreve toda 216 . A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. aliás. em um congresso de chefes de empresa. a mulher. algumas vezes. que relações de poder ele pressupõe. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. Horizonte grande e enaltecedor. ao qual muitos poderiam se subscrever. alienada na sociedade contemporânea. mas de peso. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. Um importante dirigente internacional não dizia. há alguns anos. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. gestalt-terapia. no momento. Acrescentemos que. é que a pessoa. além do mais. ter um outro modo de relação com os outros. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). com seu corpo e com seus desejos. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. liberação corporal e sexual.

eles não se explicam. alguma coisa explode em mim. renasço. durante um tempo determinado. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. Mas. que dá a cada parte de seu corpo. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. que podem ser atuados. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. que desejos elas retomam ou reprimem?. Então. Em contrapartida. testados no mundo. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. Sua beleza desencadeia esse prodígio. por que falo dessa maneira. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. não temos nada a dizer. justamente. à sua voz. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. complementares ou antagônicos. Não se aprende o amor. LECLAIRE: Quando. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. feito de uma explosão que me fascina. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . Como escreve S. de uma luz na qual me banho. em técnicas e em posturas. a seu cheiro. por quem e por que sou falado. num momento de estado de graça. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. que sofre e que ama. então. Entretanto. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. a quem falo. como tais. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. mesmo nesse último caso. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. Trata-se unicamente de relações faladas e. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. que instituições me sustentam.8 Pode-se apenas descrever tal estado.

vai querer se fazer amar por todos. as manifestações sem seqüências. não porá nada em movimento. tomar o grupo em seus desejos. irromperá um lapso. seu “saber-fazer”. no medo e tremor. ou. esse irromper não ocorrerá. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. fazer triunfarem suas fantasias. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. um ato-falho. os mais narcíseos) podem. única fonte de mudança. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. pelo menos. os tabus. as proibições. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. o tempo ao momento. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. Ei-lo. super-ativo.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. estará pronto a largar mulher e filhos. favorecendo os processos regressivos. na maior parte do tempo. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). analisando com toda a sua força. as fantasias invasoras. arriscam tudo e nada arriscam. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). tomar o lugar do líder. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. não pode ser feito. não se entregam. Mas. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. essa explosão. mostrando assim sua potência. seu rigor. ao mesmo tempo. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). O lento trabalho do negativo. para que entrem em uma relação de transferência. Outro deixará se levar por suas emoções. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. os choros e os gritos de alegria. Eles. questionará as instituições. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. declarará sua paixão por uma estagiária. a não ser que queiram ou possam. de tempos em tempos. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. para fazê-las sair de suas tocas. embora plenas. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. a fim de viverem sentimentos intensos. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . Mas o psicólogo está lá para as acossar. então. as transferências maciças. pois as palavras trocadas. certificando-se de que nada lhe escapa. Ficará apenas a lembrança de um momento único. Uma vez de volta às suas instituições. do aumento do grau de irrealidade da situação. o fazer ao dizer. esses discursos. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). E talvez. chorará (o próprio ROGERS. como os weekends e as maratonas. e ele é um bom juiz. assim. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. definido como um lugar no qual se deve comunicar. onde tudo era diferente.

é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. seus métodos. divulgá-la nas massas dominadas e.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. é o veículo privilegiado da dominação social. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. Sem dúvida. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. FOUCAULT). simultaneamente. assim. em sua aridez. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. Além disso. mas científico. Toda formação (qualquer que seja seu programa. em muitos aspectos. é esse turbilhão do amor e da morte. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. exato e periférico (não tocando no essencial). Quanto a seu conteúdo. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. o que é essencial é o que se passa no campo formador. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. ou atento e vivido como o dos psicólogos. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. PONTALIS. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. é essa troca de palavra. Mas. então? Vemos que o que é dito é. para expressá-las ou mesmo provocá-las. ele é chocante e desesperante. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. Afinal. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. aquele que dita a norma (M. é a capacidade inventiva dos participantes. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. O único senão é que. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. A mensagem dada. DELEUZE e GUATTARI). que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. como muito bem o diz J. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Igualmente. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante.-B. na formação.

220 . Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. o que não se pode esperar dela. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. ao mesmo tempo. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. isto é. se ela o fosse. nas Questões propostas. Seus enunciados são tão gerais. a vida. mesmo se. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. justamente. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). profissionalmente e socialmente se mexam. que só nos resta. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. de um processo. tão sistemáticos. isto é. não de uma formação (a rigor. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. ela não chega a ser totalmente dominante. homogêneo. em filigrana. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. depois de tê-los escutado. de um trabalho de mudança. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. tenha sido possível ler. a transformação das relações sociais. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. de constatação aguda e de desmobilização geral. os movimentos sociais emergentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. explicável por um único tipo de lei. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. o que ela esconde em seu próprio movimento. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. em uma palavra.

ele deveria se calar?). que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). a criação de negentropia (isto é. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. um encadeamento de Questões. políticas. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. assim. seus entusiasmos. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). desse lugar desocupado e fugidio. ele não é o portador do sucesso da experiência. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Por meio dessa ausência-presença. dessa desordem-ordem. 221 . As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. provocando a vontade de respirar. suas descobertas e suas resistências. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). através dessa ausência. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. uma movimentação de energias. organizacionais. aliás. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. na situação. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. suas falhas. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. ele oferece não um saber. por isso mesmo. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. resvalando. indicando. um jogo de luz sobre certos pontos que. Ele está lá simplesmente como uma referência. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. as correntes de informação. fazem surgir formas da sombra.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. mas uma problemática. Ausente. em suas diferentes dimensões: culturais. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. mas sua relação com o saber. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. suas idas e vindas. Quando ele intervém. suas interrogações e também suas paixões. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. mas. Ele está lá vivendo.

hoje.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. as diferenças são apagadas. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência).). mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. 222 . entre cem. vivem em organizações específicas. um dos membros do grupo era particularmente escutado. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. tomando certos caminhos e não outros. No caso contrário. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. tal funcionamento é profundamente mistificador. praticamente nunca era contradito e. os conflitos não têm mais espessura social. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. a resistência se deslocou. não há muito tempo. Um exemplo. de seus corpos e. para não falar de sua situação econômica. Um outro participante manifestava. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. Como interpretar tal situação. tendo um passado. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. formadores etc. projetos sociais. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. Não são pessoas ou seres desencarnados. de suas relações afetivas. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. a relação com o saber é suspensa no vazio. Por isso o trabalho do grupo será centrado. uma atitude de deferência e de sedução. o resto do grupo o seguiu em bloco. com relação a esse personagem. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. Ora.

Os membros do grupo trabalham sobre esse material. mas como portadores de suas angústias. realizaram. imaginário instituinte. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. conduta e gesto. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. é aberto sobre o mundo exterior ou. O lugar fechado. mais exatamente. Em cada sessão. retomadas. de breve duração. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. menos tal processo pode ocorrer. imaginam soluções. A partir do momento em que o desejo circula. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. Não estão lá como pura presença. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. não há mais dicotomia entre ato e palavra. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. construíram ou destruíram em seu meio real. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. o foco em relações afetivas imediatas. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. outros atos sociais. É por isso que somos partidários de estágios longos. confrontadas. ação real e ideologia. aprofundadas. intensivo. de seus sucessos. lugar de análise. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. de suas tentativas. a imersão na vida aqui e agora. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. fazem propostas. um ou dois anos).Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. outras palavras sociais. fecundarão novas atitudes. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. a 223 . os participantes falam do que fizeram. experimentaram.

ter caminhos balizados. discursos ideológicos desenfreados. períodos de análise refletida.. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. ter efeitos. ser protegidos. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. a precluir certos registros (da paixão. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. falar. Não está. algumas vezes. direito de atuarem. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. nesse processo que. depois de terem liquidado 224 . Resistência vinda de indivíduos em formação. reencontra muitos obstáculos ou. Não nos enganemos entretanto. de necessidade de alimento. Momentos de mutismo e de temor. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. que o amor inexiste sem a experiência da morte. mais dinâmicos. ao contrário.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. viva paixões. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. do saber alegre. do gozo). a loucura e o sonho possam ter. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. então. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. momentos de embotamento. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. naturalmente. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. de novo. do fogo e mesmo do caos. a periodicidade desses momentos. impossibilidades totais. Aqui. expressão gráfica etc. do excesso. com o outro.. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. por enquanto. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. todos juntos. Trata-se. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. a fim de que a energia livre. talvez. possa. irrupções vulcânicas. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. com o saber) são descentradas. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. mesmo se ela pode se tornar criativa.. se interrogue sobre si mesmo. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. Essa experiência da heterogeneidade. em questão visar à dissolução pela dissolução. uma angústia diante do desconhecido. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose.

Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. se transformará em um simples prestador de serviços. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. Trata-se. a dificuldade intransponível. mas a confusão. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. eles reencontram a inércia das estruturas. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. mesmo se os participantes podem. seu modo de existência. as numerosas escolas. de trabalhar 225 . entre as sessões. Na intervenção. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. seu possível devir Não está em questão aqui. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. naturalmente. o que ela não poderá jamais realizar. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. que deveria transformar o que está no centro. a utopia e a inquietante finitude. quando retornam às suas organizações. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. Essa experiência da margem. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. então. o espanto e o desprezo de seus colegas. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. avançando uma série de proposições. tentar experimentar novas condutas. o que ela busca induzir. para nós. senão a violência simbólica da organização. é necessário que ele seja evocado. Naturalmente. Intervenção psicossociológica. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. Enfim. da intervenção. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. provocar mudanças. deliberadamente. E que. sobretudo.

atraso e sabotagem da produção nas fábricas). só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. O que está presente não é. consciente ou inconsciente. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. de melhoria de condições de trabalho. que têm problemas concretos (de decisões. assim. além do mais. A palavra reprimida. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. absenteísmo. um certo modo de linguagem e de relações com os outros.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. como submissos. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. para se expressar. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. existissem como executantes da máquina. recusa a alguns o próprio direito de falar. desperdício. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . A intervenção. mas. numa primeira análise. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. Não por razões morais. uma certa fissura no organograma da organização. como na formação. então. antes de tudo. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). uma situação irreal. durante muito tempo. mas. de definições de tarefas etc. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. Essa recusa. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. desordem nas salas. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. ao contrário. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). isto é. impede de ver e de sentir outra coisa. na hierarquia interna. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. mais exatamente.) e que desejam resolvê-los. toda a violência do cotidiano que. no processo de trabalho.

pelas relações codificadas.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. para que possa interrogar o oculto. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. que faz surgir um real além do real percebido. pai-filho ou ele-outros. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. entre si e o outro. para que o olhar se desloque. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. Mas. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . O que resulta. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). progressivamente. “ruídos”. Numa pesquisa efetuada pela C. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. transformador do mundo. Não se trata de sonhar por sonhar. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. a deixar seus desejos serem expressos.D. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. relações de poder e separações instituídas. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. ou que possa pensar de fora da fábrica. pensamento-execução.F. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. então. Colocá-la em causa seria um salto mental. a aceitar sua parte de loucura. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos.T. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada.

Aliás. é o que permite a troca e a reciprocidade. a médio prazo. promete apenas. cada um se tornando. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. que o surgimento do imaginário. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. imaginativo. à sua maneira. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. fazem da criança também um educador. As posições. com seus argumentos e suas demonstrações. Ele distingue. os psicólogos. além das crianças. é lei retomada. numa análise em ato da organização. o inesperado. os educadores chefes e especialistas. isto é. decepção. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. os psiquiatras. mas em uma maior fluidez. transformada e garantida por cada um. no mínimo. interrogados. ator e analista social. numa decodificação das relações. metafórico. a própria idéia 228 . Esses deslocamentos não desembocam na confusão. O que significa. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. uma nova forma de educação. ao se deslocarem. sua cronologia e suas articulações. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. Assim. ele exclui e. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. sem análise. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. subvertidos ou. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. ele classifica. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. igualmente. é necessário que os modos de pensamento. pode sair a surpresa. analógico. dessa maneira. onde a lei. pessoal de cozinha e de limpeza. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. então. ou. outras formas de relação e outros modos de estruturação. dessa ruidosa confusão. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados.

o roubo da língua espontânea. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. se elas querem se definir apenas em relação à realidade.11 Queremos dizer que a verdade. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. colorida. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. dissimula. antes. pede que cada um pense e viva na contracorrente. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. A língua. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. para ser expressa ou reencontrada. nas organizações. a invenção popular. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. à língua (a parte social da linguagem) dominante. Quando. sob certos aspectos. Mas aí também sabemos que. a verdadeira 229 . então.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. da Psicanálise uma arte de construção. o homo demens no homo sapiens. divertida. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. Naturalmente. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. na França. da criatividade diária dos grupos sociais. na realidade. pelo contrário. inversamente. isto é. isto é. Assim. Mas. um elemento de mascaramento do sistema social. as “estórias de comadres”. isto é. submetem-se ao princípio do prazer. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. de intimidade. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. a língua. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. por sua vez. da ortografia necessária. como ele próprio o diz. atrás da imagem de falar bem. de fazer. Buscamos. do bom estilo. Ora. é como o dinheiro. mas também da linguagem utilizada. Essa perspectiva não o impedirá. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. As pessoas se submetem. falarão. já não indica que as relações de cumplicidade. Não se trata apenas do modo de pensamento. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho.

antes de mais nada. experimentar o seu calor. Por isso. Eis que chegou o tempo dos tradutores. A mesma coisa ocorre hoje. mas o da dominação que ela instaura. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. a dos tecnocratas. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. confusamente. as frases que inventam. Há uma língua dominante. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. É por isso que atacar a língua dominante. para se protegerem dos outros atores sociais. em boa linguagem. mais exatamente. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. pois o 230 . argumentada. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. de seus mandamentos. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . Veja-se bem a dificuldade. todo mundo. Aliás. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. mas de poder: da lei. precisa e cifrada. Não apenas de autoridade. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. reencontrar sua língua.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. pode-se constatar que eles se protegem. a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. para obrigá-los. que são os que podem traduzir. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. Se. dessa forma. reencontrar a língua perdida. fazê-la viver. fazendo-os aprender a falar. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. Mas os tradutores traem. inventar um falar. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. do mundo adulto (e o atacam). dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. se dá conta disso. de modalidade de comando. quando se escutam as palavras que eles utilizam. então. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. a partir do Século XVII.

membros do comitê de empresa. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. quando estão no campo de análise não apenas as relações. a intervenção pára. então. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). sendo. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. Entretanto. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. nem renunciar a seu poder. dentro de certos limites. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. quem quer que seja (dono de empresa. ao contrário. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. as comunicações interpessoais e intergrupais. colocar-se em questão. quer que ele seja reforçado. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. então. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. justamente. Mas. interminável. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. então. mas também quando o poder está em jogo. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. os estilos de autoridade. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. agradece-se ao interventor. a se informarem. De qualquer maneira.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. sendo inauguração de uma palavra nova. o interventor ultrapassou o limite. sua vontade instituinte e. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. se uma demanda lhe foi feita. A intervenção. ele lhes permitiu. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. assim. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. Assim. os hábitos. as resistências. chocase violentamente com as estruturas. Então. mas. mas sim questionamento infinito. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . com uma outra linguagem.

mas favorece o desejo de mudança. se ela se coloca. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. é aos atores sociais reais. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. Também não se pode dizer que ele fracassou. procedendo por deslocamentos e rodeios. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). sendo alguém que incomoda. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. 232 . Ele não analisa sozinho. palavras a serem ditas. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. pólo de identificação ou bode expiatório. então. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. se houver uma germinação ao invés de um fechamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. eus a se abalarem. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. Pois. não os conduz em direção a nenhum resultado. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. que. os movimentos sociais. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. Não sabe pelos outros. das funções elucidativas. energias começaram a circular. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. é que. através de ações. Ele não realiza nenhuma mudança. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. seu trabalho só pode ser lento. Quanto ao valor e à importância desse movimento. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). dispersões a se operarem. que só poderá viver. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. colocando-se como um shaman ou um mártir. em contrapartida. Porém. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. O que ele sabe bem. não lhe cabe questionar os poderes. Ele não transforma as estruturas.

Anteriormente. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. 3. Suspeito por todos. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. inclinar-se à rigidez ou. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. ao contrário. mais sua ação será limitada a certos grupos.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. então. mas que ele deve saber.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas.Em contraposição. sua posição nada tem de confortável. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. desde o início.A falta de formação dos interventores. 4. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. agricultores tendo interesses em comum. traidor em potencial. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. Entretanto. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. Pode. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever.

onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. eles se preparam para uma vocação de mártir. em um soberbo isolamento psicótico. que assim buscam empreender atos significativos. Quem quer conhecer a dúvida. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. com outras relações. em uma sociedade tecnocrática. 2. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. efetuado por eus fortes. por seus gestos. a demanda acaba. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. um maior controle consciente. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). então. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. Um dia.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. comunicações melhores e. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. não a desejam com freqüência para si mesmos. eles desabarão. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. da mulher.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. 234 . que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. sobretudo. ser retomado. Isso é compreensível. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. do desejo da alienação etc. Aparentemente. o que nos parece mais importante. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. 3. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. que já nem se permitem mais o autoquestionamento.Enfim.

pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. repentinamente. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. Seuil. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. FOUCAULT. Paz e Terra). 17. Segundo J. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. A. eles disseram: “mas era apenas isso!”. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. 137-159. C. La nature humaine. recalcamento e repressão em organizações.” Le sauvage et l’ordinateur. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. o Eu tudo destrói. Serge. enunciadas.-M. 1974). do sonho e do gênio maligno. caracterizadas. CASTORIADIS-AULAGNIER. M. 1975 (Mata-se uma criança. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. CASTORIADIS. Piera. Rio de Janeiro: Zahar. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . Em Lip. MORIN. ENRIQUEZ. n. descritas. no 3. LECLAIRE. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Le Seuil. TOURAINE. Pour la Sociologie. Connexions. por Marília Novais da Mata Machado. Eugène. “Imaginaire social. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. 1976. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. 1977). essa abertura profunda na superfície das continuidades. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. 13. Cinco lições de Psicanálise. Topique. “Points”. refoulemente et répression dans les organizations”. Cf. cf. On tue un enfant. 1974. FREUD. p. cujos signos. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. Le Seuil. Epi. Connexions.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Le Seuil. 1972 (Imaginário social. E. Les mots et les choses. DOMENACH: “Para não ser destruído. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Gallimard. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. E. Na primeira meditação. L’institution imaginaire de la société. Le paradigme perdu. não caem nesse erro. Points.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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sobre a maneira como se afastou do previsto. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. meus conhecimentos e habilitações. a examinar princípios. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. dimensões ideológicas. porém. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. a partir de um determinado momento. Ao mesmo tempo. abordando concomitantemente o sistema. perspectivas. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. parece importante aos solicitadores. os atores envolvidos.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. mas pode. isso se dá. Ao mesmo tempo. além disso. sua participação no trabalho. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. firmemente. Assim. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. Caso um apelo seja feito a mim. pode. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. os fatores geradores do problema. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). algumas vezes. porque se atribuem a mim competências em um domínio que. que pode ser feito fora de um universo técnico. 242 . de preferência. regras. em excesso. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. justamente. mas tomo iniciativas e faço propostas. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. numa dada situação concreta. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. mas. também. hipóteses. não poder sê-lo. justamente.

para tratá-lo. constituindo. Porém. tornar mais inteligível. tamanho. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. Evocaremos. Cada uma comporta pressupostos. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. tolerando apenas uma gama restrita de variações. rapidamente. os fenômenos de moda. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. em função do campo no qual elas aparecem. por exemplo. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. suas orientações teóricas. O modo de estruturação do processo pode se tornar. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. princípios estratégicos. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. formas de autoridade. ecologia etc. então. os custos etc. tolerância à diferenciação. então. a natureza dos objetos. um objeto de trabalho. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. não apenas objeto de trabalho para os participantes. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. na determinação das técnicas. tentar. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. então. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. os recursos da equipe de consultores escolhidos. 243 . a seguir. as propriedades do sistema (grau de centralização. Poderíamos. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). É nessa perspectiva que é preciso. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G.). as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. no final desse artigo. tal vantagem deve ser abandonada. em si mesmo. as funções externas almejadas pelos atores.

ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. em algumas práticas. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. uma origem técnica importante. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. a observação participante. isso se passa sobretudo porque. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. estão as técnicas de pesquisa de campo que. Algumas vezes. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. na maneira como J. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. de maneira bem menos acentuada. 244 . de devolução aos participantes e de interação dos atores. Entretanto. COCH e FRENCH). Entre esses dois pólos. a propensão dos práticos de intervenção. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. Em seguida. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. nas de TOURAINE. por exemplo. Quanto às estratégias de pesquisa. a partir da prática psicanalítica. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. depois de LEWIN. algumas vezes. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. parece-me. B. bem cedo. em especial.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. GODIN. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise.

Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. freqüentemente. Em um campo bem diferente. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. é dessa maneira que elas se estruturam. Entretanto. nas próprias operações das fases de estudo). Em todos os casos. como em outros lugares. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. Igualmente. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. a escolher as variáveis de ação. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. os limites desse modo 245 . ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. quem conduzirá esse trabalho. o significado das condutas etc. a atuação dos conflitos. que. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. na França. há muito tempo. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. a caracterizar melhor as situações. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. pela encomenda de um estudo “Retrato”. atualmente. a isolar os objetivos. quem escolherá as opções. no papel de especialistas. produzindo dados válidos. a identificar os problemas. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. a origem das disfunções. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. de fato. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. ainda hoje. Pode-se observar que. as razões dos bloqueios. por exemplo. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. em todos os casos. quem reterá as soluções etc. no começo. a obra de G. a natureza das resistências. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. é comum.

denegação. o inventário. escolhe-se.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. são interrompidas. por exemplo. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. então. . depressão etc. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente). 1980). O texto de André LÉVY. apresentaremos rapidamente três observações: . com a apresentação dos resultados. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando.A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. em especial. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. cólera. por exemplo. conseguindo uma solução de síntese ou. de fato. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. . a não ser esquecê-lo. de caráter mágico. freqüentemente com espanto. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. enterrá-lo. sobretudo. Não se sabe mais o que fazer. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . desenvolve muito claramente esse aspecto. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. o trabalho de recenseamento. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. um retrato eventualmente objetivo e fiel. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. constróem. do exterior. caso se decida reiniciá-lo. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. ao menos. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. já citado. Se muitas intervenções. restaurando a coesão.

que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem.associar todos os parceiros envolvidos. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. o que provoca aumento dos temas de estudo. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. às relações elaboradas e conceituadas demais. . a uma solução que exige uma equipe e. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. mas repensar essa lógica (por exemplo. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. com o trabalho sobre os resultados. por categoria de ator etc.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram.preferir. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). assim. eles me parecem. algumas vezes. durante o trabalho de análise da demanda. sobretudo. a perlaboração. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas.fracionar a investigação (por tema. correspondentes a atuações mais modestas. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. pode-se tentar: . o debate. em outras palavras. . parece-me. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. pertinência. chega-se. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. então. como o próprio relatório. adiamentos de realizações importantes. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. 247 . os critérios de cientificidade: validade. De meu lado. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. e apesar das reservas expressas. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente.

de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. 1972). comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. na qual. nessa segunda categoria de origens técnicas. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. as práticas de formação. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 .Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. os grupos. TRIST. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. o artigo de E. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. Logo. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. a fim de que elas mudem”. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. traduzido para o no 3 de Connexions. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. Passar-se-ia. em diferentes lugares da sociedade). de 1948. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. social analysis. com muita freqüência. assim. em seguida. adquiririam novas propriedades. de aperfeiçoamento e. porém. algumas vezes. numa escala pequena. na Glacier Metal Company. evoluiriam. De uma maneira geral. a partir de 1964. a uma perspectiva de intervenção. apresentam-se como a aplicação simples. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. JAQUES. sobre a possibilidade de contorná-los. de uma perspectiva de formação. é necessário lembrar que. em um plano concreto.

nos quais a ARIP interveio. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. essa evolução. a fortiori. em pedagogia institucional. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. sua prática de psicodrama analítico. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. 1972). KAES). ao contrário. a importância da referência à Psicanálise. de se diversificarem em função da natureza das demandas. Mas se. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. ROUCHY e E. no plano organizacional. o movimento de democracia industrial. das estruturas de organização.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. especialmente. utilização da autóptica. MENDEL e sua equipe. conceberam diretamente. em pedagogia do projeto. Sociopsychanalyse. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. LÉVY e. Evidentemente. ANZIEU transpôs. no 1 a 10. C. não pararam. em seguida. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. o que representaria. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. tecnicamente. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. as intervenções que se seguiram. ao mesmo tempo. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. G. A. Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . ao mesmo tempo em que se reforçava. ENRIQUEZ consideram. por exemplo. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. passando pelos estudos de caso. consistia em transpor. J. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. ROUCHY. Payot). tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. na empresa Geigy. C. grupos de análise de prática profissional. na França e em países estrangeiros. D. inscrevendo-se. para o seio da cúpula. se quiséssemos ser menos esquemáticos. jogos de simulação. no plano teórico.

da facilitação e. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. entre os próprios serviços de uma organização. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. estágios existentes fora dela. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. durante um tempo que pode ser apreciável. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. é a descentralização. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. Enfim. da regulação (hetero – ou auto –. mais racional e menos caro. freqüentemente. esperando-se que se aumentará assim. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. a mudança social desejada. em especial. Com efeito. na medida em que instituir. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção. então. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. Evidentemente. é necessário providenciar a formação do responsável local. localmente. as que se nutrem da formação surgiram. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). Além disso. é mais rápido. os meios de verificar a validade das hipóteses. forçosamente. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. De uma maneira geral. o risco. é que se engane sobre a causa das dificuldades. a palavra de ordem. 250 . ao mesmo tempo. no espaço organizacional. desde há algum tempo. irrelevante. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. de acompanhamento ou dinâmica).

. descobrir. os consultores. de um lado e de outro. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. de uma maneira progressiva. ao desempenho eficaz da prática de formador. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. primeiro. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. então. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . aliás. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. confrontá-la à dos outros atores. do qual se espera a responsabilidade. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. Paralelamente. Tal dispositivo técnico é insuficiente. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. na elaboração dos programas. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. tal risco. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. entre os dirigentes. manter essa dimensão presente durante todo o processo. os solicitadores. Um meio técnico (que. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). evidentemente. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. Ainda assim. em assegurar “suas tarefas”. além disso. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. A competência de um interventor. Esse risco pode ser reduzido apenas se.

a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. dois atores ou diversas instâncias em interação. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. Sem poder preparar aqui tal reflexão. em problemas de remuneração etc. Entretanto. e não em técnicas de ação formadora de diretores. Porém. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. de agentes de comando ou de pessoal de execução.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. Ela compartilha. um grupo. a convicção de que as condutas das pessoas. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. 252 . e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. é interessante observar que.. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. numa crítica aos limites do staff and line. em data. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. o desenvolvimento técnico e científico. em resposta ou não a um apelo. Por exemplo. afetando a estrutura e as instituições internas. as estruturas internas das organizações se complexificam.) –. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). um sistema e seu problema.. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças.

no fim dos anos 20. os psicossociólogos. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. Em países como o Canadá. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. durante os motins do Harlem. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. como o sociólogo S. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. TOURAINE recorre também. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. evidentemente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. o sociodrama. renovando-as. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. progressivamente. assim. nos conflitos entre direção e sindicatos. Mesmo a história da intervenção de E. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. No campo das empresas de produção. Então. 253 . correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. retomaram. vir a substituílas completamente. existem. L. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. mas. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. em Nova Iorque. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. enriquecendo-as. J. a práticas de debate. Mais recentemente. os “organizadores de comunidades”. sistematicamente. freqüentemente. de defesa ou de negociação. ALINSKY. são chamados. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. eventualmente. por exemplo.

sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. em conseqüência. No começo. das relações pastorais. audiovisual.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. de formação. como por exemplo no campo da imprensa escrita. de sensibilização (por exemplo. Parece-nos que. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. de fato. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. da polícia. há uma 254 . das lutas militantes etc. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. para a terceira. e renunciar. educativo. de organizar as ações de inspeção. as prescrições) e funcional (no campo técnico. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. social). de alguma forma. da magistratura. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. Embora não ilustre especialmente esse risco. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. de estudar as instalações da fábrica. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. difusão das estatísticas de acidentes. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. e que. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. para a segunda. os dispositivos de proteção. então. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. tanto no plano material quanto no legal. Entretanto. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. de propaganda. Da mesma forma que. a toda especificidade. para a primeira origem. concurso de segurança) etc. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. apenas. as oportunidades. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos.

Uma vez estabelecida a composição. algumas vezes desenvolvendo. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. em outros países. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. propor as medidas. evidentemente. gerentes. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. produzir os diagnósticos. geralmente. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. concomitantemente. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. pessoal de execução). no começo. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. então. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. De acordo com os resultados. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. Os confrontos entre atores (por exemplo. evitase. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. ou por uma intervenção apenas formadora. No caso da intervenção psicossociológica. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. fundamenta-se também. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. de segurança e de condições de trabalho. contramestres. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. por uma intervenção psicossociológica. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. por exemplo. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. Uma abordagem mais recente. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. No fim desses dois dias.

em especial. A última negociação consiste. ligada às diferenças de status e/ou de poder. instituídos pela lei Auroux. então. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. entre outras coisas. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. estende-se numa duração que se mede em meses. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. tal 256 . demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. de múltiplas forças antagônicas). para nós. Como no caso anterior. em teoria. a ponto dele renunciar. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. decisivos. a intensidade emocional mais forte. Porém. produz uma frustração muito forte no ator.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. Em relação ao processo das intervenções precedentes. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. Ela permite. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida.

na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. e. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. Por isso. evidentemente. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. mas também em encontros do mesmo estrato. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. bem cedo. Em outros termos. aqui. Enfim. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. Escolher. Está claro também que. evidentemente. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. para guiar a análise. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. elas não dependem apenas da técnica. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. mas têm. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. em todos os níveis. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. tecido com fios múltiplos. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. senão à primeira. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. está. tal metáfora. Tais requisitos. por exemplo. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. uma importância acentuada. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). ancorar. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. entretanto. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. sempre pluridimensional. aliás. sem dúvida. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários).

uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. Não é fácil. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. quer esteja empenhado. por si só. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. o interventor é um clínico. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. para o pessoal de um estabelecimento. filtrar com segurança um objeto teórico. do gerente ou do político. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. retomando a distinção de PALMADE (1977). a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. enquanto pesquisador. com o tempo. em cada momento. enquanto dispositivo de inserção. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. elas seriam. a mim. ela me leva. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. as escolhas iniciais arriscam. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. Com efeito. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. antes. mas. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. Nem ciência nem tecnologia. sem chegar a lhe dar um molde. permitindo isolar. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. do terapeuta. fundamentar tal distinção. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. Assim. depois de dez ou vinte dias de intervenção. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. no entanto. capazes de contribuir em processos de pesquisa. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência.

Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. 259 . um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. importantes sob esse ponto de vista. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. em função do campo social em que aparecem. pode-se observar que. na literatura especializada. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. os movimentos sociais ou culturais etc.). de maneira mais ou menos difusa. sua identidade social e a natureza de seu projeto. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. seria natural levantar tal hipótese. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. tais acontecimentos podem inspirar outros e. no começo desse artigo. malgrado sua fragilidade no tempo. a administração. o mesmo se passa. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. podem-se encontrar. os setores de saúde. adquirir um sentido menos restrito. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. e se surgem conjunturas favoráveis. para os atores. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. os espaços urbanos. Anunciamos. A inserção na universidade. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. analisar e experimentar as vias de democratização etc. Porém. para mim. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. sem subterfúgios. o comércio.. a invenção de instituições locais (por exemplo. Enquanto atores sociais. Por outro lado. por certos setores da sociedade. Entretanto. assim. analítica.

). . os resultados quantitativos estabelecidos por C. 2 260 . até um determinado ponto. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e.T.a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. Connexions. a divisão do trabalho. 49. nesse número. de colaboração profissional. .). posição central ou periférica etc. Por exemplo. voluntária ou militante etc.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). pode-se aplicá-la a outros campos. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. 7-28. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. ROUCHY chegou. MARTIN em uma pesquisa recente. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. 1987-l. Porém. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos.). ainda.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. o espaço urbano). poder. Jean. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. evocando. sua própria experiência no campo da saúde.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. a estruturação dos papéis recíprocos.-C. . com o que se observaria em outros lugares. de dependência hierárquica. necessariamente. as conclusões às quais J. não coincidiriam. o grau de nossa capacidade de indentificá-los.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. p. autoridade. Notas 1 Traduzido de DUBOST. .Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. por Marília Novais da Mata Machado.

1986. 1977. 1980. Paris: Anthropos.-C. J. “Une intervention psychosociologique”. J. A. Paris: Payot. L’enquête participation en question. LE BOTERF. Les recherches-actions sociales. C. 261 . 1987. PALMADE. In: L’intervention institutionnelle. Connexions. G. La Documentation française. 1972. MARTIN. Paris: PUF. LÉVY. Paris: LFEEP. G. L’intervention psychosociologique. 1981. 3.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. Interdisciplinarité et idéologies. ROUCHY. Théories et pratiques de l’éducation permanente.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

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com.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www.com. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.autenticaeditora. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora. fax.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta.

“Quais são os problemas realmente essenciais. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. finalmente.autenticaeditora. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.br 0800 2831322 . etnias. os ‘intemináveis adolescentes’. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”.com. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. grupos religiosos etc. o triunfo da racionalidade experimental.

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