Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

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PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez.....................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS............................. 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D....... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï................................................................................................................................................................................................ 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost.............................................................. 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost............................................................................................................................ Benevides de Barros................................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy................ MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï................................................................................................................................. 237 6 ..................

Por tudo isso. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. a administração e a política. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. o direito. dispositivo de consulta e pesquisa. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. hoje. principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. a psicanálise. por meio da “intervenção psicossociológica”.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. a educação. cada vez mais utilizada. Junho de 2001 Os organizadores 7 . quanto para os que praticam a psicologia. este livro. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. a economia. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. sociólogos e um economista. reais. tornou-se ainda mais importante. A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. bem conhecida e divulgada no Brasil. À metodologia de intervenções/pesquisas. o campo da psicossociologia cresceu. cuja história é nele revista e avaliada. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. fruto do trabalho de psicólogos. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. Assim. Desde a primeira edição. da organização e do funcionamento social. tal como no momento da primeira edição. esclarecedoras dos processos de criação do social. prático e metodológico. a sociologia.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

Portanto.PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. se revelassem. com as instâncias de mudança. por sua presença. empregando para tanto. as condutas concretas dos indivíduos. no quadro da vida cotidiana. Por meio dessa abordagem. que condutas. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. inicialmente. reflexão e análise dessa disciplina. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. organizações e comunidades. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. fez aparecerem certos problemas. grupos. das organizações e das comunidades. freqüentemente através de experimentos. geridos e transformados. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. organizações e comunidades. igualmente. isto é. a metodologia de pesquisa-ação. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos. são o objeto de pesquisa. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. Atuando diretamente na vida dos grupos. Em conseqüência. Passaram a se preocupar. A partir dos anos 50. 9 . os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. em especial. o pesquisador-prático. até então desconhecidas. em seus grupos.

do socius. idealizando e buscando destruir seus chefes. contra esse pano de fundo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. DUBOST). com suas mudanças e rupturas. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. de transformações nos sistemas sociais (A. hoje ela se renova. sujeitos que. que 10 . ENRIQUEZ. mobilizados por ilusões e crenças. Paulatinamente. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. é formulada uma teoria. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. do trabalho da pulsão de morte. por um ato de decisão. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. Porém. dos desejos de onipotência e dominação. de onde e como surge a dinâmica social. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. aptos a um “imaginário motor”. adquire um sabor de novidade. sempre inacabada. Teoria e prática se confundem nessa tarefa. podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). pois a teorização é fruto da reflexão que. torna visível a presença do sujeito social. mesmo que involuntariamente. sujeitos capazes de serem autônomos. nos termos de E. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. sujeitos que são verdadeiros autores e atores. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. NICOLAÏ). a mudança social (A. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. pouco a pouco tecido. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. da organização e do funcionamento social. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. que é também um ato de palavra. 60 e 70. Ora. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. LÉVY). a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. e serem criadores da história. e do processo de criação institucional. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser.

entretanto. T. 11 . a respeito das suas representações historicamente constituídas. DUBOST. BARROS. como sistemas dinâmicos. Psicologia Clínica (J. são analisadas novas ideologias. TOURAINE que. aqui e ali. ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. ROEDEL). formuladora de grandes quadros teóricos mas. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. MATA-MACHADO). Assim. autopoieses. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. CARRETEIRO. o pensamento filosófico de C. M. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. práticas de intervenção mitificadas. de BARROS. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. de ARAÚJO. Eliana de Moura CASTRO. Eugène ENRIQUEZ. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. nestas páginas. E. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. B. Assim. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. a condição de construção da vida social. assim como novos sagrados e certezas. está presente em quase todos os textos. mas também de outras referências. auto-organização e complexificação a partir do ruído. CASTORIADIS. relações de poder e autoridade. de suas demandas de amor e proteção. S. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. J. da MATA-MACHADO. enfim. o desenvolvimento de um processo organizacional. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. André LÉVY e André NICOLAÏ –. CASTRO. é analisada. de suas fantasias de onipotência. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. Sociologia. são apresentados nesse livro por Marília N. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. formadoras das sociedades atuais e futuras. Sonia ROEDEL. A. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. Política. estruturas dissipativas. ARAÚJO. Os autores – Jean DUBOST. José Newton G. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. LÉVY. assim como.

mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. ARAÚJO. primeiramente. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores). BARROS. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e. no Brasil.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. ROEDEL). MATA-MACHADO – Psicologia Social). ENRIQUEZ. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. Inicialmente. MATAMACHADO). 1991. Paris X (J. “Rupturas. ENRIQUEZ). Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. ROEDEL. “O fanatismo religioso e político” – E. na França. feita em novembro de 1991: . mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. M. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. sofreu modificações. 1990-1. textos recentes. 1990. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. na empresa. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. E. NICOLAÏ) – mas. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . resultando em treze textos.Em segundo lugar. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A.Foram escolhidos. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. a disciplina que os congrega. a Psicossociologia. cobrindo questões atuais. ENRIQUEZ. UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. a partir do exame de uma centena de textos. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. ENRIQUEZ) e Economia (A. Paris XIII (A. ARAÚJO. NICOLAÏ (mimeogr. A. CASTRO – Psicanálise. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa. “A interioridade está acabando? – E. CASTRO. de um projeto pessoal e familiar.).). LÉVY). Assim. CARRETEIRO). julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. Essa primeira proposta. Paris XIII: M. 1989. NICOLAÏ). 1990-1. MATA-MACHADO e S. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. . T. ENRIQUEZ. em função do mencionado convênio. mutações e complexificação em economia” – A. NICOLAÏ. Além desse território de pesquisa. T. LÉVY (mimeogr. distribuídos em três partes. DUBOST. especialmente. LÉVY.

contudo.Prefácio desejo” (A. preferiu-se “fantasia”. E. para designar 13 . foi objeto de discussão e comparação. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). ENRIQUEZ. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. a apreensão de seu sentido original. A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. algumas aterrorizantes. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. de atividades e produções criadoras. o grupo e a questão da mudança. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. CARRETEIRO e J. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. . Utilizou-se a palavra “narcíseo”. Psicanálise do vínculo social. ARAÚJO. 1987). a terceira – Intervenção Psicossociológica –. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. “forclusão” ou “preclusão”. em cada texto. Mais de uma dificuldade de tradução. apresenta a intervenção. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. em maior ou menor grau.Em terceiro lugar. editado por Jorge Zahar. DUBOST. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. a última tradução foi preferida. As traduções foram revistas por J. MATA-MACHADO. finalmente. CASTRO e M. Seus nomes aparecem. mantendo-se a tradução utilizada por T. 1980. mantiveram-se termos como “fantasmático”. respectivamente. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. NASCIUTTI para o livro de E. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. Por exemplo. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. através da análise etimológica. à Psicossociologia e à Psicanálise. o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. LÉVY. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. Por exemplo. “Intervenção como processo” – A. DUBOST. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. 1976. na primeira nota de rodapé. Buscou-se uma certa uniformização.

Finalmente.“relativo a narciso”. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. entretanto. essa foi a escolha. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. a palavra investigation. na expressão méthodes d’investigation. expressão bastante usada em português. para a palavra enquête. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. nosso primeiro leitor. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. a critério do tradutor.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. desde o início. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. à sua maneira. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. aquilo que lhe cai nas mãos. marcando suas especificidades na articulação entre o psicológico e o social. preenche ou interpreta. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão.2 . no entanto. no enfoque psicossociológico. funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. O sujeito que não “morreu” A. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. Ao apresentar tais artigos. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. a idéia de um “eu”. LÉVY e E. visto que todo leitor recebe. seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. No entanto.1 Pois bem. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. Mas não poderia ser diferente. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . Cabe. Eles descartam.

Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). no conjunto das discussões sobre o sujeito. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”. não estariam restritas. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual.6 Isso é claro para os autores. mais próxima de uma self-psychology? Pois bem. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade.. um ponto de passagem. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”.”. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. E. entre outras coisas. LÉVY. antes de tudo. entre nós. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas. os autores caminham numa direção que. a chamada “sociologia do cotidiano”. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. convém observar que. mesmo na França. notadamente através da teoria lacaniana.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. suas relações próximas e regulares. A esse respeito. nas décadas anteriores.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. nos parece em parte negligenciada. por exemplo. o ofício ou o produto. nos artigos aqui apresentados. a empresa-família é anterior ao sujeito. dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. No texto de A. um átomo talvez.. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. ligada a uma prática clínica. vemos que o “indivíduo” é. ela é 18 . as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. o da Psicanálise. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. a família. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. por exemplo. Assim. já na virada dos anos setenta. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma.

narcisismo social. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. “às vezes sem sabê-lo. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. sua constituição “plural” ou coletiva. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. Desse modo. um papel essencial nas transformações sociais”. num crescente alienar-se. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. A. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. através de FREUD. a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. LÉVY nos lembra. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”. espírito de empresa. O primeiro é aquele que se agarra. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. segundo os autores. Importante ainda. Ele destaca ainda. daí a ilusão da identidade pessoal. 19 .Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. além de desempenhar. as relações sociais. fanatismo de empresa etc.” De outro lado. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. as significações das ações”. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. Assim sendo. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. tenta transformar “o mundo. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. narcisismo grupal. mas que reenvia. enfim. por exemplo. identidade coletiva. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. isto é. só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. ENRIQUEZ retoma essa posição. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. antes de mais nada. pois este. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. “no momento em que falamos. sempre imprevisível. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –.

esportivo. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior. científicas etc. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. os nordestinos. religioso. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. ilusão e crença. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas. A essa altura. como a intolerância e o fanatismo. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. amor (ou cumplicidade?) mútuo. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. como se tinha notícia até pouco tempo. pois ela se torna uma ameaça. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. mas que tentam ainda se expandir. tentando eliminar dele os negros. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. além da sua. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. algum tempo após as notícias. como um fenômeno “periférico”. cabem algumas observações. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. Assim.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. estamos falando de mecanismos inconscientes). pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado.) deve ser eliminada. em diversos momentos. outras idéias. presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. outras propostas políticas..” 20 . objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país.. no início de 1993. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. árida novidade. mas sim os processos de idealização. os judeus e. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade... Basta lembrar. científico ou outro qualquer).Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. mas exemplar.9 composto por militantes islâmicos negros que. Assim. xenofobia. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. religiosas. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político.

onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. noção de origem literária e filosófica. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. Enfim. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. cada sujeito está perseguindo. Gostaríamos de lembrar. ele desconhece também. rapidamente. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. O que se torna problemático. seja num grupo intolerante. seja num grupo democrático. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica.Análise social e subjetividade Aliás. a ação grupal deve cobrir um vazio. ela deve ser doadora de sentido. em níveis talvez menos contundentes. Em outras palavras. a eterna questão do sentido. E. nosso grupo body-building. contrapor as noções de sujeito e interioridade. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. às vezes. no Sul do Brasil. isolada e coletivamente. nossa “seita” de comedores vegetarianos. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . nosso time de futebol. sejam elas brancas ou negras. num clima onde toda crítica está ausente. resvala necessariamente para a intolerância. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. Poderíamos. por analogia. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. já de início. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. nosso partido de direita ou de esquerda etc. infantilizando os “fiéis”.

segundo o autor. 22 .14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. pois. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. Para ele. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. vítima de ataques. A interioridade. Só o ser existe e ele é cheio. A interioridade remete. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. parece haver uma tendência. BERGSON. ameaçado de extinção. em oposição ao vazio: trata-se. foi discutida em termos do cheio.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. na Filosofia antiga. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. em se pensar espacialmente. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. Se esse sentimento nem sempre existiu. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. Por outro lado. por ser da ordem da especialização. na esfera psicossocial. pois. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. à alternativa interior x exterior. que não é recente. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). questionamentos. para ela. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. interrogações e que. íntima. alegria. A questão do espaço. Aliás. onde ninguém tem o direito de penetrar. quase que imediatamente. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. num certo sentido. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. a não ser por arrombamento. o que é pura duração. A compreensão da interioridade é. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. ele existe atualmente e está. é ‘uma terra estrangeira’”. Talvez seja. é numa relação espacial que ela se inscreve.

capta os estímulos exteriores e também os internos. O ter é ulterior. isto é. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. saturada de comunicação. na época atual.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. bonito. diz FREUD.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. Assim. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. temos de falar nos órgãos dos sentidos. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. depois da perda do objeto. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. ao que marca a diferença. refletindo a si mesmo). Existe. diferenciando o interno do externo. Dito de outro modo. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. foram abaladas pela Psicanálise. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo. Já a identidade marca a diferença. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. Um corpo dinâmico (isto é. Há. ela é capaz de dizer: eu tenho. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. porque especular. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. denotadas pelo termo identidade. separada. a pele se liga à formação do eu. considerando o 23 . É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. eu não sou. A percepção do espaço remete à visão. meio de se situar no mundo. o que se vê por fora é um reflexo do interior. unidade e similaridade. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. As idéias de permanência. a identidade própria. Limite e superfície privilegiada de estimulações. isto é. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. O culto exagerado do corpo.

quer como sentimento pessoal. Ele diz. que todo texto é um tecido de espaços em branco. a interioridade considerada. Finalmente. Por isso. enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. é certamente desprovida de energia ou. é passiva. do outro que eu sou.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. naquilo em que ele é diferente do outro. se tornam assim mais claras. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. francesa Grasset. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. Afinal. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. O oculto. As propostas absolutizantes. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. quer como conceito psicológico. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. feitas pela religião. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. 2 24 . pois. pela empresa ou pela sociedade. isto é. nenhuma leitura é um ato neutro. ao eu e muito menos ao sujeito). porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. em outros termos. entre outras coisas. Assim. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). já dissemos. E o mais importante. só podendo. de outro lado. isto é. em sua obra Lector in Fabula (trad. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. e como bem captou ENRIQUEZ. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. ARAÚJO. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. Em outras palavras. Notas 1 Humberto ECO. no campo da argumentação psicossociológica. oferecer uma resistência passiva. por ser essencialmente espacial. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa.

Paris: Gallimard. 5-12. líder da extrema-direita francesa. além de serem historicamente contestáveis. p. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. face às estruturas e aos sistemas”. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. em seu número de 1º/12/93. Cf: ANZIEU. nessa mudança.Análise social e subjetividade 3 Cf. p. o culto à figura de GUEVARA. uma editora de propaganda nazista. JIRINOWSKI saiu vitorioso. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas.. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. principalmente após as recentes eleições da Rússia. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. Observação semelhante já fora feita. 50-53. tomo XXIX. 29-31) afirma que. 1983. reportagem da revista Isto É. Paris: Gallimard. In: Bulletin de Psychologie. na América Latina e mesmo na Europa. P. BALANDIER. p. não passavam de “mero detalhe”. como um instrumento terapêutico. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. 1975-1976. cit. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. alguns anos atrás. D. em nível individual. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). de 28/04/93. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. Paris: Bordas. por isso mesmo. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. G. nas quais o Sr. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. De outro lado. “Essai d’identification du quotidien”. p. na Biblioteca Nacional de Paris.. senhor de si e do universo e como se. soberano. 322. mais perto de nós. Essa mesma revista. O autor evoca J. LXXIV. Conseqüentemente. 1984. Cf. SELLIER (cf: Le mythe du héros. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. 13). “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. em seus níveis mais profundos.. Paris: Dunod. n. P. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. Assim. P. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. 445-449). Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. (Cf: ANSART. p. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas. Esse autor comenta que os termos nó e círculo. 1970. fez reaparecer o sujeito. por Jean-Marie LE PEN. vol. Para ele. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. Lembremos. Paris. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 .

ver: FREUD. Paris: Dunod. H. Buenos Aires: Editorial Vancu. 120 ed. 42. 1967. El tiempo y los grupos. p. Além do princípio do prazer (1920).) 14 Cf: BERGSON. ANZIEU. ss. S. p. 1976. Entre outras alusões a essa questão. Essai sur les données immédiates de la conscience. Le moi-peau. 1977.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. (Cf: FONTANA (A) et al. 1985. XVIII vol. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Paris: PUF. Rio de Janeiro: Imago. 68. semelhante à vivência intra-uterina. 15 16 26 . D.

mesmo sem dizê-lo. No entanto. pois. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. um ser agido.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. É contra essa tendência reducionista. que nega a interrogação de D. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. em grupos e organizações. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. por um lado. sua classe ou sua raça. por outro lado. O indivíduo torna-se. LAGACHE. em maior ou menor grau. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. um ser falado. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. do aumento do individualismo. ALTHUSSER). a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. só se fala do indivíduo. No momento atual. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. que decidi me manifestar. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). como psique. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. do sujeito. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. 27 . como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. Com efeito.2 A razão é simples: como muitos outros autores. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. ao invés. De minha parte. Seguindo essas abordagens. assim. um determinismo absoluto dos processos sociais.

que pode tomar a forma de totens. é preciso pressupor. Nessas condições. já que nascemos sempre em um grupo. Não é necessário. ou de um Deus único. isto é. Essa emergência acontece. conduta estruturada social e culturalmente. Freqüentemente.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. logicamente. em parte voluntariamente. Nessas condições. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. além disso. De fato. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. Em outras palavras. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. sua conduta. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. em uma nação etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. CASTORIADIS. numa sociedade que é. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. em parte. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. portadoras de 28 . zonas inexploradas. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. ir muito longe nesse sentido. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. Uma tal sociedade heterônima tem. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. a anterioridade dos processos sociais. em uma classe. ao mesmo tempo. quer seja por Deus – BOSSUET. mas deixassem também. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. uma cultura. heterônima. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. “a possibilidade de saber que alhures. portanto. de antepassados e de Deuses. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos. em uma etnia. DE MAISTRE –. BURKE. para retomar a terminologia de C. que lhe deu direito à existência. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. ela própria.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. em parte inconscientemente. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. conformados a seus votos e a seus ideais. num lugar-tela. no entanto. porque toda sociedade comporta falhas. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. a cada homem.

contra a vontade da massa. não a um contra-discurso organizado mas. Elas se tornaram. em certos casos. fanático. em toda sociedade.7 Quanto ao indivíduo humano. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. mesmo sem percebê-lo. sem sabê-lo. como dizem FRITSCH e PASSERON. Notemos que as sociedades modernas. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. se põem a acumular riquezas. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. desde a Revolução Francesa. não se pode esquecer que o discurso. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente.8 Enfim. Alguém inventa uma máquina a vapor. Mas. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. Embora exista. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. portanto. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. de maneira invisível. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. um discurso dominante. um papel essencial nas transformações sociais. em pessoas e grupos sempre diferentes. seja lá por que modo. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual. Reis continuam a se 29 . Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. por mais totalitário que seja. até mesmo se choca. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. a médio ou a longo prazo. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. pelo menos de imediato e. outro um novo tear. ignorando soberanamente a ideologia dominante. Além disso. como evocava FREUD. Deve-se. às vezes. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. a trocar sua natureza pela de um térmita. às vezes. apoiando-se nas funções corporais. desde a Renascença e. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem. sobretudo. ele também só é parcialmente heterônimo.

mas é o homem da performance mensurável. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. No entanto. o elemento esportivo predomina. “matadores frios”. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. Nessa ética. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. sempre imprevisível. vencedores que querem ir até o fim. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. a vitória nunca sendo definitiva. Ao contrário. os processos sociais. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. em nossa época. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. ela pode ser bem efêmera. é. da sua organização. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. apenas um elemento do processo de massificação. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . seu tempo. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. como sublinha CASTORIADIS. cada um deve ser criativo à sua maneira. De fato. a individualização. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. Ele deve gozar com essa renúncia.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. Assim. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. O winner sempre pode se tornar o looser. do seu serviço. objeto de tantas preocupações.9 Assim. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. Se cada um deve manifestar sua singularidade. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. então. se os processos psicogenéticos pressupõem. performance sempre a recomeçar. Assim. mais freqüentemente.

quando se fala do indivíduo. naquele tempo. atrás da força e da grandeza de outros homens. igualmente. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. o “culto da empresa”. a se associar a paixões puramente agonísticas. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”. financeiras ou de prestígio. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. tende. um novo ritual. para depositar seu destino nas mãos dos outros. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. características de um esporte. REICH. O “zé-ninguém” está sempre. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. nos hospitais. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade. o indivíduo renuncia.10 Assim. mas que. ou ainda. assim. igualmente. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. mas não se orgulha de si mesmo. Nos Estados Unidos. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. na maioria das vezes. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. o que lhe confere. aqueles a quem chamamos vencedores. Admira o pensamento que ele não concebeu. em vez de admirar o que ele concebeu. 31 . REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. desvestida de seu sentido ético-religioso. em geral. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. posições de poder. onde seu paroxismo predomina. designava por “zé-ninguém”. Ele atinge. Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. os que W. hoje em dia. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. a busca da riqueza. nas universidades. além disso. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. a justificá-lo”. tem-se no pensamento um indivíduo conformado.

correndo um mínimo possível de riscos. depois de descrever esse fenômeno.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. assim. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. o mundo criado não é contestável. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. às vezes. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. A idealização é. Além disso. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. então. médios ou pequenos homens. a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. para existirem. sempre ameaçador). apresentando-se como objeto maravilhoso. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. agora bem conhecido. portanto. Em outras palavras. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. de repressão e de adesão. ser um agente ativo desses processos de recalque. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. é. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. nós próprios nos tornamos admiráveis. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. o que devemos fazer e como seremos recompensados. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. aderir profundamente às injunções sociais e. apoiado 32 . favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. reprimir suas pulsões. Resta-me.

sem se dar conta de que. é se voltar ao grupo de pertinência. G. A identidade coletiva. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. graças a identidades coletivas fortes. o racismo. de fato.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). é imputar os problemas ao outro. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. nas quais. que tem como efeito “unir uns aos outros. eles suscitam a aceitação ou a identificação. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo.13 Reencontrar a coesão. consumir por consumir?) Ora. Vivemos em sociedades nas quais. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. tem como futuro possível a xenofobia. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. É necessário precisar esse último ponto. através desse processo. está cheia de perigos. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. estamos divididos e angustiados. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). estamos perto de não ser absolutamente nada e. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. um proletário. (Com efeito. um budista. contraditórios. Se somos apenas um espartano. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. como mostrou FREUD. A identidade coletiva favorece ainda. ideais vazios e desprovidos de sentido. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. da sedução ou da obrigação]. dificilmente. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. produzir por produzir. um capitalista. graças a esse jogo identificatório. 33 . Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. portanto. ao nosso “nós”. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. o narcisismo social. os ideais são múltiplos. uma massa maior de homens. de simplesmente não ser. que sentido pode ter ganhar por ganhar. De fato. o fanatismo.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. freqüentemente.

Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. Tal indivíduo só sabe repetir. as significações das ações. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. Vê-se. quanto mais uma cultura se quer unificada. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. o indivíduo singular. a respeito de qualquer tipo de problema. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. tem como projeto voluntário. bem como da tranqüilização narcísica. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). O indivíduo individualizado (e não individuado. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. por mínima que seja. Para definir criatividade. O sujeito é um ser criativo. reproduzir. as relações sociais. criança. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. Não podemos. ao menos. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). que. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. em sua vida de trabalho. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. daí. em suas relações sociais de todos os dias. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. não pode ser considerado como sujeito humano. quanto mais a identidade coletiva existe. portanto. A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. Com efeito. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. nos lugares da vida cotidiana. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. seres a eliminar. bem entendido. Quero simplesmente dizer que cada um. 34 . a sua conversão. portanto. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. no entanto. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. totalmente pré-formado e definido pela sociedade.

qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. chegarás. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . é ainda pior. O sujeito é. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. meu amigo.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. demens (objeto da hybris). portanto. em compensação. ela está presente em quem faz. homem portanto de sabedoria e loucura. imobilizada. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. em lugar de uma imagem da natureza. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. uma novidade irredutível. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. voluntariamente. Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada. que sente prazer em respirar. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar.. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias. aqui e agora. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. E mais se imprime. do jogo e da vagabundagem. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). e que o mundo possa testemunhá-la. de repente. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. a gestação. o primeiro movimento indistinto da matéria. é a formação. quanto na inspiração do arquiteto que. não ao charco das alegrias imortais. não na escola!... ao mesmo tempo sapiens.. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. levo a sério. em seus Conselhos a um viajante. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. respirando a plenos pulmões um ar salubre. um ser capaz. ludens e viator. antes que ela se fixe em natureza morta. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. o nascimento. Os artistas não se enganaram a esse respeito. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas.

Com efeito. um pouco paranóico.17 Porém. os sedutores ocupando uma posição histérica. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. portanto. aliás. atualmente. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. para realizar uma missão salvadora. é preciso parar um momento. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. cientificamente. entre os grandes homens. assegurando-lhe a redenção. sente-se eleito por Deus. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. 36 . No entanto. Michel SERRES.18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela. identificado a seu pai. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. pela natureza. a esse respeito. para lavar o mundo de sua sujeira. de seus medos. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. Essa desagregação da Europa Central tem ainda.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). preso na ganga dos ideais. Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. em particular o grande homem. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente. O megalômano. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. os manipuladores ocupando uma posição perversa. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. depois da guerra de 1914-1918. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. Assim. a sua própria alteridade).

caso bem conhecido e. quis fazer do alemão o povo eleito e. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. obcecado com a força pela força. como LENIN: ao contrário. nem uma força de pensamento e de ação. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho. crê falar a linguagem da verdade. só pensa em termos de estratégia. esse está.21 Assim também HITLER. graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). O teatro é também para ele um terreno de esportes.20 do homem que declarava. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. denega a realidade). só considera o mundo sob o ângulo econômico. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. ao contrário. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. tem gosto pelo instantâneo. segundo FREUD e BULLITT. os tecnocratas. é um bom exemplo desses chefes perversos. que toma a si mesmo por ideal). Quanto ao manipulador perverso. 37 . ou capacidades manipulatórias. recém-saídos das grandes escolas. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. inventando complôs. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. reduz as relações humanas a relações de objetos. LENIN. para isso. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. que tomou o poder contra os mencheviques. que não tinha interesse algum pelos outros. o povo judeu. que queria dobrar o mundo à sua vontade. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. a um nível mais irrisório. como WILSON ou HITLER. ao mesmo tempo. como já indiquei anteriormente. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. basta o de STALIN. ele se proíbe de ser excepcional. por sua vez. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais.

Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. O grande patrão italiano C. nem mesmo na imaginação. ao contrário. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo. pois ele promete a qualquer um. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . de uma normalidade esmagadora. talvez. AGNELLI a gente nasce. AGNELLI por exemplo. os outros escapam a essa denominação. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. a seus olhos. CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. Tentarei em outra ocasião. ele perdeu alguma coisa. como GORBATCHEV.). Mesmo assim. Em outras palavras. mas uma duração realista.) são as pessoas comuns. sem dúvida. M. uma demonstração do possível (. sem interrogação.. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. Eles se apresentam. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. Mas. porque sou. é possível tornar-se DE BENEDETTI.. não podem sonhar em se tornar AGNELLI. não se torna. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. meus aliados (. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. como indivíduos perfeitamente normais. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. Em todo caso. com a condição de ser corajoso. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo.. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. Em contrapartida. um indivíduo sem fantasias. não tenho dúvidas morais”. se tiver tanta coragem quanto eu”. Se elas tomarem um grande patrão italiano.. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido.

no sentido que dou a esse termo. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. ao inusitado. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. mesmo se nada descobre. por outro. reproduzir. de tudo realizar” (McDOUGALL). de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. fazer advir o sujeito individual. a recusa de compromisso sobre o essencial. sem falhas. Corre pela vida como em uma auto-estrada. por um lado. tomar caminhos transversais. E. São desprovidos da aptidão à transgressão. Se o sujeito evolui. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. em FREUD. É também um homem que demonstra consistência. criar seja lá que novidade for. insiste sobre essa noção. Mas ele conserva o mesmo projeto. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade. só sabem repetir. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. conforme McDOUGALL. 39 . na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. ele o faz em sua linha. dos outros. S. assim. em MARX. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. Um ser consistente pode ter dúvidas. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. MOSCOVICI. FAUCHEUX. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. Eles têm uma influência social inegável. de tudo desarrumar. assim. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. em sua linhagem. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. pois falta a ambos. o caráter irrevogável de sua escolha e. mais ainda.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Ele não tem projeto. Teríamos. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. “que significa. de se lançar no desconhecido.23 Em certo sentido. favorecer a tomada de consciência de situações reais. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. fazer advir o sujeito coletivo. São portadores da pulsão de morte. Mas não são verdadeiros criadores de história.

ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. diante da exigência do todo. no momento atual. criar e sustentar um conflito com a maioria. é que. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. Ao mesmo tempo. delimita também. o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. porque a dispersão. finalmente. MOSCOVICI.” O sujeito não é homem de comprometimentos. visível e. o exilado. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. consistência e astúcia. provenientes 40 . recentemente republicado. souberam conciliar furor. quando ela se apresenta. como também a provocá-los. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. SEGALEN. a um Estado. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas. isto é. consistência e astúcia andam juntas. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. interdita a tentação da Unidade-Identidade. Consistência e furor. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). à dispersão.24 O “exota”. segundo a expressão de V. pessoas vindas de outros países. Para SEGALEN. portanto. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. a ocasião. em seguida. o que não é nada fácil. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. um grupo ou um Estado. Ele é. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. não pode jamais estar colado a uma organização. no entanto. O que é interessante. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. para fazer triunfar suas idéias. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. igualmente. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. a uma identidade coletiva. uma outra exigência e. Aqui não se trata de manipulação.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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portanto. do vencedor. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. de ter modos de “comunicação afirmativa”. então. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. L. tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. em demasia. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. sem o saber (e de consciência tranqüila). assim. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. SERVAN-SCHREIBER). sobretudo. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 . com personalidades “as if” (H. de sonhos e de interrogações. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior. de colocá-los. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. do combatente. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. A cultura de empresa ou de organização. Minha contribuição será. então. dando. sejam quais forem. de considerar os problemas em sua frieza. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. Para obter tais resultados. no sentido sadiano do termo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. capaz de se adaptar a todas as situações. . para fazê-lo. sobretudo. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. aos que dela participam. se só pensa através dela. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. o homem capaz de ultrapassar seus limites. Se o indivíduo se identifica com a organização. desembaraçado de compromissos. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. seus valores e seu processo de socialização. aos outros. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. ao propor. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. ele entrará.

A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. Basta ter em mente: a renovação do Islã. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo). inscrevendo-se no mito coletivo da organização. mais próximos do integrismo. exige a idealização. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. Sabe-se muito bem. uma causa a defender. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. mas. de perda e de sofrimento. um ideal a realizar. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. atualmente. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente. o renovar de uma igreja dogmática. gurus. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. desde DURKHEIM e FREUD. E. pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. em nome da verdadeira fé. injustamente martirizado. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. ao contrário. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). encarnar a “instituição divina”. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. Então. Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. no mundo medieval. através de um projeto a concretizar. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. xamãs. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. que uma sociedade não pode existir sem religião. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. pronta a punir os blasfemadores. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. segura de estar em seus direitos. 47 . a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França.

as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. os estágios off limits. todas as religiões. O fanatismo político. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. submetê-la a ídolos não contestáveis. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. as ginásticas suaves. o desenvolvimento do esporte de massa. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. as maratonas de Paris ou de Nova York). mesmo os mais repreensíveis. o “grito primal”. falado e falante. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. sofredor. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. o jogging. Mas as religiões. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. portanto. a aeróbica. “tornar-se saudável”. pelo menos. animado) é o nosso bem mais precioso. 48 . As técnicas de body-building. as medicinas naturais. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. a expressão corporal. afastar a dor. esbelto. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). competitivo ou não (por exemplo. Voltarei adiante aos métodos empregados. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. “Estar bem em sua pele”. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. continuamente desejável. Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. que aqui apenas menciono. cuja meta é a homogeneização do “interior”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. como a expressão da graça que lhe cabe. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”.

novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. que o indivíduo. Basta querer. sinais de uma fantasia de domínio total. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. únicos responsáveis (se eles fracassam. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. de autoridade. de fato. cada qual se mira em seu próprio espelho. A explicação é simples: todos os métodos de formação. assim. necessariamente. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. Os próprios indivíduos.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. membro de um conjunto que tem suas coerções. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. mudança sempre difícil pois traz. O narcisismo mais total está na ordem do dia. Ora. 1983). embora alienados no mais profundo de sua psique. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). grupal e coletiva. de intervenção psicossociológica ou institucional. ao menos. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. “a paixão pela excelência”. para se tornar um sujeito falante e atuante. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. na qual fatalmente se perderá. No narcisismo de morte. GREEN. na medida em que não se trata. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. de criar uma cultura. mas de edificar novos cultos. interrogação do ser. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . a “qualidade total”. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. confronto com o sofrimento. de evolução pessoal ou grupal. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. Quer se tenha nascido rico ou pobre. processo de ligação com os outros. a busca do “erro zero”. na qual ele tem que desempenhar um papel social. nas organizações sociais. Por outro lado. Elas anunciam. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade.

A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. a astrólogos. como resultado a sua destruição ou. a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. como a simples lógica o exigiria. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. a implicação. nas organizações e nos indivíduos. Por isso. Cada “conjunto humano”. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. para a seleção de dirigentes. do aumento dos métodos mais bizarros. mas. pelo menos. ao contrário. quer dizer. portanto. a mobilização total de todos. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. Assim. perfeitamente interiorizadas. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). necessariamente. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. para viver e se desenvolver. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. com os pés amarrados a um elástico. na sociedade. não do desenvolvimento da racionalidade. a sua submissão. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. faz-se apelo a leitores de tarô. uma psique sem conflitos. únicos a prometerem resultados tangíveis. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). O reconhecimento da psique como força operante tem. uma psique a serviço da organização. em reação. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 .Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais.

acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. quer dizer. Os indivíduos evoluem. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas. escreveu belíssimas páginas. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. ou o status social a que chegaram. através dessas diversas experiências.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. uma unidade. Caso se retome a análise de A. – podendo 51 . em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). permite que se possa situá-lo em uma classe. em uma palavra. Ora. se examinarmos mais de perto essa noção. Cada um sente. que se liga a uma tradição. isto é. por minha vez.A constância não existe. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. Mas. nacionalidade etc. portanto. Além disso. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. GREEN (1985). não creio mais como esse ser que leva meu nome. de referências seguras. de constância: (b) idéia de objeto separado. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. a necessidade de ter uma certa identidade. não vivo mais. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. credo. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. que participa de uma memória coletiva. ou vinte anos? BARTHES. Cada indivíduo. portanto. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. portanto. animado por uma coesão totalizante tendo. ela revela características um pouco suspeitas. em um gênero. classe. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. de ser um sujeito que tem uma história. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. ele é capaz de ser um “Si”. em uma espécie). eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas.

Precisamos. ABRAHAM e M. Assim. a partir de um estado não integrado. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. então. de MIJOLLA. TOROK. em sua pureza. a idéia de permanência e de constância. quem está falando e por que falamos dessa maneira. 1982). que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. Mas ele insiste. já dizia RIMBAUD. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. Se. não podemos abandonar essa idéia. admitir. no momento em que falamos. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. no entanto. Eu é um outro.) que visam. No entanto. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. a sua própria finalidade. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. que. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. então. ilusória.Quanto ao reconhecimento do mesmo. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. por definição. pois toda construção. necessita do trabalho do tempo. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. então é possível questionar. quando sei tão pouco o que sou. com WINNICOTT (1966). a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. mas que mantém um certo grau de 52 . cada uma.5 Certamente. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. de preclusão e de denegação estão operando em nós. b. 1976). “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. além disso. assim. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”. Nunca sabemos de maneira precisa. o eu etc. c. que processos de clivagem.A idéia de unidade parece ainda menos sólida. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. cairmos na irresponsabilidade. sob certos aspectos.

a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. Porém. e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. quaisquer que sejam. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. e tanto mais porque se parecem conosco. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. contraditórias. a aceitação dos processos de clivagem. os diretores participam de um grupo. Os outros. para o indivíduo. o remorso. O que nossa sociedade reclama. o trabalho sobre si. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. assim como as instituições e organizações que a compõem. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. problemáticas. da “inquietante estranheza” e. escolhendo as máscaras sociais que precisam. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. portanto. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. de seus desejos.A interioridade está acabando? coerência. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). a interrogação. trazendo “temor e tremor”. sobretudo. como também um amor consciente por si. portanto. Um deles explicita suas dúvidas. a dúvida. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. é ouvido um momento. de um narcisismo a toda prova. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. de suas faltas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. de “maioria compacta”. portanto sedução. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. muito pelo contrário). donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. São. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. tão apreciada por FREUD.

Pôde obter o posto desejado. Apenas. não quero saber nada de seus problemas porque. tendo uma identidade compacta. p. Além disso. Ora. é interrompido por um de seus colegas. eles questionam sua identidade. um grupo que tem uma cultura própria. formam uma nova maioria compacta. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. quer dizer. reedição de 1986. em termos mais gerais. nem mesmo à sua esposa. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. que lhe diz. desde então. p. 36). seja de novo como nós. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. quando os indivíduos estão nessa situação. em substância: “Não continue. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. serei obrigado a falar disso a meu pai e. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. por um processo de contra-investimento. até que ponto estão presos na apatia (SADE). aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. seu imaginário enganoso. Esse exemplo (que. filho de um grande industrial. ENRIQUEZ. 1984. se você continua. que detestam. Ele se tornaria o fraco. ele tem úlceras constantes. seu simbólico.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. Transformam o mundo no qual estão. naturalmente. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). até que ponto evitam-se a si mesmos. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. 270). vinda da boa burguesia. SEGALEN). diante dessas revelações. Com efeito. Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. Domine-se. serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. 54 . como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Nessas condições. O “homem com problemas” aprendeu a lição. Nesse momento.

por si próprios. em seu corpo como em seu espírito. ENRIQUEZ). sem emoção. soropositivos e. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. no dizer dos racistas. 1835. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. quer dizer.. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. os que não se assemelham aos indivíduos que. como escreve P. “em demasia”. Como dizia um chefe de empresa. pelo menos. todos os “marginais”. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. todas as “minorias ativas”. “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que.. 103-104). um piolho a ser eliminado. “fazer correr sangue”. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. do outro. assim. num mundo a priori hostil ou indiferente. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. doentes de AIDS. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. que todos aqueles que buscam articular sentidos. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. reedição de 1961. 55 . o homem dinâmico. Compreende-se. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. AULAIGNER. então. possam se tornar objeto de ódio ou. pelo menos. guerreiro e sedutor. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. para SADE. O “matador frio”. De um lado estão os vencedores. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. Quem não se amolda deve ser liquidado. todos os “exotas”. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. colocar em lugares criados especialmente para eles). se evitam a si próprios. “Apagar. p. ainda mais. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra.

em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. Mas.). Se não for descoberto. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. mas pela vergonha. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. Essa distinção é. SERVAN-SCHREIBER. No entanto. 56 . Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. infeliz de quem trapacear. fracassar. Todo ato repreensível. aos outros. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. a honra e o dinheiro serão seus sem que. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. ir além de seus limites. seja ele qual for. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. Assim. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. da agressividade. Essa última seria uma cultura da vergonha. se sinta culpável. um estudo sobre a sociedade japonesa. mas o toca em seu ser social. L. Basta que não seja descoberto. no interior de si. da inveja e do amor. 1988). Da mesma forma. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. em condições normais. em O crisântemo e a espada (1946). Ora. Se ele for conhecido. as práticas que permitem ganhar. pode ser perpetrado. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. Se um ato corajoso – ou. utilizando-se produtos proibidos. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). Tudo está no ato e em sua visibilidade. em sua aparência. sem dúvida.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. por isso. portanto. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. escalar um paredão com as mãos nuas. é preciso que seja conhecido por todos. voar em asa delta etc. Ela supõe. a vergonha se abate sobre o autor da ação. a luta. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. simplesmente. além do reconhecimento dessa luta. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. vemos proliferar. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa.

Porém. lendo as reflexões precedentes. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. pelo jogo de aparências. sem culpabilidade. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. com um único passe de mágica. Com efeito. a lavagem dos narco-dólares. podem ser criados sem que daí decorra. apesar de suas imperfeições – normais. quando não é possível falar-se a si mesmo. necessários à vida humana. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. contra a pobreza etc. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável.A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos. (b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. o fanatismo. o corpo se encarrega de fazê-lo. (c) que os ideais fortes. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. necessariamente. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. postos de lado. nas sombras. que o jogo está feito. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). contra o racismo. nascem a cada dia sob nossos olhos e. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. atos dos mais contrários à moral comum. já começa a ser profundamente criticado. senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. Não se deveria pensar. são suspeitos. felizmente -. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. privilegiando a aparência. as notas frias. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 . Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos).

necessariamente. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. poderão. com sua carga enigmática. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”.). os ferroviários. a droga. tal como tentei delineá-la. mesmo se a interioridade. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. Esses “excluídos”. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. de espaços. aceitando as regras do novo jogo. Entretanto. sem dúvida. deverão se precaver. as perguntas. busca de identidade. assim como pela capacidade de sublimação. pela alegria. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. veladamente. por isso. Na realidade. não desapareceu e não está 58 . os animadores socioculturais etc. governa seus discursos e seus atos. Eles não se dão conta. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. encontram-se na mesma situação todos os que. Mais ainda. de afirmação ou de identificação. assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. Sendo assim. Nesse momento. pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. evitando o Charybde da exterioridade. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. esses “esquecidos” da sociedade. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. ser tratadas “na interioridade”. Esses sujeitos. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. Sem dúvida. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. de indústrias. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. começam a se fazer perguntas. pelo sofrimento. trabalhadores incapazes de se readaptar. eles ainda as fazem “na exterioridade”.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. de crédito. a delinqüência. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. na doença da idealidade. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. entretanto.

na qual o mundo objetivo. v. ENRIQUEZ. Eugène. p. Considérations d’un apolitique. (N. p. da salvação e da justificação da vida pura. Segundo o Larousse. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. 1976. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). 1976. tão diversos quanto GOETHE. é a absorção em si ou introspeção. 37. da poetização do universo. 59 . 4 Como um cadáver (em latim no original). 38-53. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. assim.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. 163. da T. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. E. Individualisme apolitique. o gosto pelo mórbido. com suas difusões amplas). Paris: Seuil. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. 1987. 2 Grandes escritores alemães. e TOROK. é uma consciência cultural individualista. em suas constituições.Topique. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. (N. os “diários de bordo”. Topique. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. Le Verbier de l’homme aux loups. Quanto a KLEIST. DUMONT. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia.). as autobiografias. o romantismo. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. p. L’écorce et le noyau. citado por L. p. XVIII. com a formação. N. Entre la marionnette et Dieu. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. NOVALIS. seu oposto. espírito racional e humanista por excelência. 61-76. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. 3 Cf. 34. Paris: Aubier.). prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Cf. a Bildung do homem alemão. sobre KLEIST: E. 135. assim. Inácio de Loyola. 1962. é a inquietação com o cuidado. como diz Lutero. 1989-2. N. do culto do inconsciente e dos instintos. o homem dos Hinos à noite. “expressão pela qual Sto. involuntariamente. Referências ABRAHAM. S. Paris: Aubier. 89-112. 5 FREUD. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. Rio de Janeiro: Imago. por Sonia Roedel. In: Sur l’individu. p. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. em termos religiosos. 1976. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. com o aprofundamento do eu puro ou. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. da T. ENRIQUEZ. o mundo político. é. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. pela emoção. ABRAHAM. 1985. GOETHE. um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. então. M.

Paris: Payot. 1982. Nouvelle Revue de Psychanalyse. 1961. Hogarth Press. ENRIQUEZ. In: LEVI-STRAUSS. BARTHES. Paris: Seuil. Notes sur l’exotisme (1908). La chambre claire. ENRIQUEZ. de. retomado em Nevroses and character types. BENEDICT. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. SERVAN-SCHREIBER. 1986. MIJOLLA. p. GREEN. Narcissisme de vie. P. J. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. VERNANT. Trad. WINNICOT. 25. 37. R. Trad. 1987. nova. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. 11. L. Trad. H. 1985. S. Paris: Gallimard. GREEN. 1980. BARTHES. “Condamné à investir”. reedição. Paris: Ed. “Individualisme apolitique”. L’identité. In: Sur l’Individu. n. 1985. p. ENRIQUEZ. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. narcissisme de mort. J. DUMONT. DEUSTCH. 1970. FOUCAULT. 1982. Topique. Paris: Seuil. 1987. E. P. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 1984. de Minuit. E. Paris: Seuil. A. Le sabre et le chrysanthème. 1984. SEGALEN. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. 20-37. M. 60 . Topique. 1983. Picquier. C. FREUD. 1946. D. Le retour du courage. W. R. M. In: Essais de Psychanalyse. 1987. A. A. EPI. V. Aux carrefours de la haine. Les visiteurs du moi. Psychoanalitic quaterly. 1975. 1962.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. Paris: Les Belles Lettres. Barthes par lui-même. Biblio-Essais. R. In: Sur l’individu. 1981. franc. Tomo I. Paris: Payot. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. 1942. Paris: Grasset. Paris: Gallimard. L. R. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. “L’Individu dans la cité”. 34: 89112. 1965. 309-330. ps. 311-321. Paris: Gallimard/Seuil.

Todos sabem e reconhecem isso. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. Ora. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. as análises dos grupos em estado nascente. São mais raras. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . à primeira vista. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). para existir. Tal sistema de valores. Um projeto comum significa. no entanto.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. O que parece. então. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. Vamos um pouco adiante. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum. em um imaginário social comum. neste texto. no entanto. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. pois pode-se. de início. mas não se está à altura de compreender. esse problema é capital. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. sem dúvida. a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria.

mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. pois ela é o elemento que dá consistência. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. ele se apresente sob um aspecto religioso. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. sagrado. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses. Todo grupo funciona à base da idealização. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. da ilusão e da crença. transforma-se logo em um sistema de crença. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). vigor e “aura” excepcional. Ora. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. consciente e inconscientemente. todo trabalho de interrogação sobre si. num grau maior ou menor. inatacável: assim. correndo esse risco intelectual e social. Para serem operantes. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. trata-se de sentir coletivamente. motor de nossa conduta. Da ilusão à crença. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. é necessário que. Não se trata unicamente de querer coletivamente. a nossos próprios olhos. aquilo que queremos vir a ser. nela. com uma força particularmente viva. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . a passagem é rápida. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. nos inspirar. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. Mas esse sentimento. A ilusão deixa igualmente sua marca. ele pode nos atrair.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. mas afetivamente sentidas.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque.

Idealização. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. FREUD já pensava que a Psicanálise. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. possa perder parte de suas ilusões. sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. idealização. esse não é o problema. Embora um grupo. consequentemente. verdadeiramente. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. 63 . Todo membro de um grupo é. suas práticas à da Psicanálise como um todo). bem à vontade. Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. para se desenvolver. pois. E isso não acontece gratuitamente. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui.). deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir. sua vida). Causa a defender. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. Assim. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. missão a cumprir. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). a revolução etc. o militante político arrisca. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes.O vínculo grupal (deve. deveria ser defendida como uma causa. A causa pode ser sublime ou irrisória. sobre a possibilidade de sua impotência. na formação de todo grupo. em certa medida. Todo militante político pensa do mesmo jeito. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. assimilando. existente há muito tempo. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. de maneira mais ou menos forte. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). todos esses termos têm uma ressonância religiosa. ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. grandiosa ou pueril. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. abusivamente sem dúvida.

Essas pessoas sabem que. Do contrário. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. sua luta não terá alma nem razão de ser. ela deve. membros do grupo. vocação majoritária: mas. isso significa que ele se pensa. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). pois. antes de chegar a seus fins. o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. triunfar. encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. um dia. propagar-se como uma mancha de óleo e. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. Eu serei menos afirmativo. se tornar a dissidência de muitos. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. A maioria não tem jamais uma causa a defender. algumas vezes de uma só3 . geralmente. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. imperativamente. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. Pouco importa. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. de uma profissão ou de uma disciplina). a proclamar uma visão nova do mundo (ou. sem exceção. no caso de sucesso. talvez mesmo. isto é. acreditar que está com a razão. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). queira triunfar. progressivamente. A maioria não tem jamais um grande propósito. ela deve primeiro. mas direi que. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. caso uma minoria. As idéias novas. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. nós o sabemos. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. para se reforçar. antes de tudo e contra tudo. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. mais modestamente. Toda minoria tem. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. Para isso. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu.

mas propõe novas idéias. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. tem por objetivo questionar o sistema vigente. enquanto elemento da regulação social. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. E na maior parte das vezes ele o é. Como essas representam a ordem paterna. enfim. desmistificando-o e desmitificando-o. A contestação. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. sob certos aspectos. novas maneiras de ser ou de se conduzir. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. ela é. visando à repetição. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. maneiras inovadoras de ser. mas pela luta. ao contrário. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. contra um exterior percebido como tão obscuro. Assim fazendo. mas à sua transgressão. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. deram certo. Toda instituição. com efeito. A Psicanálise. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. Assim. explicitando o implícito dos comportamentos. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos. A transgressão. 65 . Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. por exemplo. mas que um novo saber apareceu. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. o grupo vai tentar destruir as instituições. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. Para que a vitória seja possível. no passado. Ela não visa a propor outra coisa. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. vista como pulsão agressiva). pois se funda em instituições sólidas. visando não à contestação da ordem existente.

a priori estranhos ou rivais entre si. FREUD.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. violência fundadora de um novo mundo. isto é. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. ao menos. tornar seus sonhos reais. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. graças a esse imaginário comum e não a outro. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. fazer-se aceito em sua 66 . Sem essa vontade de destruição. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. a não ser entre irmãos. deve criar um acontecimento irreversível. todo grupo. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. Ódio ao exterior. não obstante. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. O reconhecimento do desejo Em um grupo. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. porém sem sucesso. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. Se ele faz parte do grupo. Não há complô verdadeiro. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. amor ao grupo enquanto grupo. aliás. irmãos uns dos outros. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. amor mútuo. não ser rejeitado. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). em outras palavras.

Aliás. homogêneos. De todo jeito. ser reconhecido como um de seus membros. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. O único problema é a mais estrita identificação. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. é o desejo de reconhecimento que predomina. se não o desejasse. não teria podido fazer parte da conjuração. querendo formar uma comunidade. eles se tornarão semelhantes. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. Essa semelhança buscada. nesse caso. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. O grupo. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. não devem ser muito diferentes uns dos outros. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. em um grupo. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. diferenciação A MASSA Num tal caso. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. Assim. pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação. em maior ou menor grau. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. para que possam se amar. quer. às quais cada um deverá se submeter.O vínculo grupal diferença irredutível. igualmente. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. eles devem se identificar uns aos outros. Assim sendo. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. um corpo social completo. em seu ser insubstituível.

com efeito. sem que se perceba. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. mas que. que será particularmente dura de suportar. no grupo. tomando as características de um corpo todo-poderoso. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. sem-fundo”. portador da “verdade” (!). igualmente. influência. O grupo. não parecem defensivas. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. Estamos. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. progressivamente. a partir de MARX.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1.A compacidade do corpo formado vai. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. de indivíduos os mais emocionais. angústias de explosão. por ser o mais forte e o mais belo. a falta de inovação e.5 2. de tipo defensivo: suspeita mútua. face a um grupo “sorvedouro. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores. LEFORT). Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo. Ao contrário. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. tomam um vigor particular. então. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. Que ele se guarde da desilusão. 68 . desenvolver condutas que. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. a degradação da reflexão e da inventividade.A semelhança pode. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). à primeira vista. 4. Aliás. Ocorrerão comportamentos regressivos.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. abismo. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem. Assim como. 3. delação. senão os mais perturbados. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. coberto de certezas. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível.A falta de diferenças provoca. sentimento de um meio hostil. foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. avança cego.

irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). de argumentações contraditórias. ao contrário. A tolerância existe. então. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. Em tal caso. em um centro de jovens inadaptados. em certos momentos. “níveis insuportáveis” (FREUD). alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. No entanto. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico. Os membros do grupo são. Todo mundo. (Assim. Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. No limite. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. em seu interior. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. ao contrário. então.O vínculo grupal 5. O grupo se centrará em si mesmo. Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. como frouxos ou traidores. os educadores. como a cooperação idílica não existe mas. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. tive a surpresa de 69 . o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. a administração. Se não se trata de questionar o projeto comum. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. por acaso. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. de negociações rigorosas. serão excluídos do grupo. cada qual acreditando deter a verdade.Se. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados.

Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. enquanto professor. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. Entretanto. assim transformado. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. Nesse caso. repetição da palavra do mestre. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. eu deveria ter ficado menos surpreso. Para não chegar a esse ponto. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. por isso. mestre do pensamento e da ação). aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. é freqüente. nos países ocidentais. encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. se torna um grupo edipiano. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. 70 . vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. “personalização do poder”. será tentado a achar um bode expiatório. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. Em qualquer caso. É raro ouvir professores falarem de estudantes. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. Fenômenos regressivos do tipo submissão. Esse. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. ao contrário. uma influência que vem do domínio das idéias. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança.

como já constatamos. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. igualmente. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. 71 . Assim. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. para existir.O vínculo grupal Mas. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. Essas questões não podem ser elucidadas. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. em maior ou menor grau. se consegue impor os seus ideais ou transformar. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. se somos suficientemente amados. transformado muitas vezes em processo de erotização. do mesmo modo que estão condenados à crença. mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. tornar-se majoritário. os membros do grupo estão condenados ao amor. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. O amor desemboca no ódio. mas quem são os amados e os rejeitados. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. de todo modo. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. podem. a única digna de ser respeitada. o grupo minoritário que. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. sendo bem sucedidos ou não. para afirmar a primazia de sua posição fálica. isto é. o grupo corre o risco do fracasso. o campo social. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. Ora. inscrever seu sonho na realidade. Com efeito. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. os grupos não podem se esquivar. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. pois um grupo minoritário. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. Se o grupo é bem sucedido. mas também os fracos. Correlativamente. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos.

Ela representa uma tentação constante. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. 72 . Com efeito. Ora. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. mas outro que está ainda para ser encontrado. Muitos observadores se espantam. mas não é um resultado inelutável. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. por exemplo. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. em um processo de análise: 1. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. Com efeito. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. além disso. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. o grupo fracassa.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. os marginais. serão inventados segundo as necessidades e. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. de outro lado. isto é. ele vai procurar as causas de seu fracasso. É preciso. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). isto é. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. é o contrário que seria de espantar. psiquiatras. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. De fato. no entanto. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. Se. para dizer que ele ainda subsiste. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. o organizador do grupo. educadores. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. se ele não provoca impacto social.

O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. Se. de maneira recorrente. em certos casos. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. Deveríamos. há muito tempo atrás. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). De fato. no entanto. às custas do mal que nutrem com gosto. e o disse muito bem. arriscar-se a ser amado. 2. FREUD disse isso. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. em muitas circunstâncias. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. serão feitas análises superficiais. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular. É importante não nos esquecermos. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. Além disso. 73 .A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo. de crença e de ilusão. Outras vezes. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. assim. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. em vez de favorecer o seu esclarecimento. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. Ela pode levar à dissolução do grupo. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. a tomada de consciência se produz. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Aí também há muita ilusão.

Eugène.” (FREUD. Por dez anos. Gallimard). LEFORT. PONTALIS. p. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. J. Um homme en trop. no 360. FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. 1983. por dez anos. Tomo XXXVI. fui o único a me ocupar dela e. CASTORIADIS. 631-637. S. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer. B. suas angústias e. Cf. 2 3 4 5 6 74 . foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. seus antagonismos. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. C. Psychologie des minorités actives. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. uma solução.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer.F. P. Bulletin de Psychologie. suas relações de poder. Nouvelle Revue de Psychanalyse. Seuil. “L’illusion mantenue”.U. ao mesmo tempo. por José Newton Garcia de Araújo. Segundo os termos de C. 4. Ma vie et la psychanalyse. mas é preciso não querer ir muito longe. “Le lien groupal”. MOSCOVICI. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. em caso algum. se dar conta de que tal tarefa é limitada. n. S.

então. não deve. Devo acrescentar. Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente. atualmente.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. de modo algum. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. convincente e inquietante. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. tanto no Leste da Europa. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. 75 . passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. os acontecimentos que se produzem atualmente. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). Entretanto. na verdade. 1983. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. Com efeito. é porque me parece que essa tendência. em Grenoble. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. Espero. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. 1985). se me detive a explicitar tal proposição. a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas.

o papel que lhes estava destinado. A referência dura se exprime para mim. a Deus o que era de Deus. No conjunto. sustentadas por rituais 76 . um dogma. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. de maneira privilegiada. necessariamente. as grandes religiões monoteístas foram. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. a crença exacerbada em um mito. As crenças. se depurando. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. ou seja. sob pena de exclusão da comunidade. sem totens.Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. ao longo do tempo. no renascimento do (ou. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. além de nos sentir para sempre em dívida. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. igualmente ENRIQUEZ. Ao contrário. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. um ritual compartilhado que é preciso defender. elas não colocavam mais problemas particulares. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. pode-se dizer que. A religião produz então o “ser-junto”. Assim. Pois bem. no entanto. com relação a ele. o fanatismo religioso – isto é. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. sem lhe outorgar. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. 1989). as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. sem deuses ou sem Deus único). isso não a obriga. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. ela nos religa uns aos outros. às vezes com reticência. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). A César o que era de César. seja como ser coletivo). às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer.

Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). aspirando assim. laicas (E. dos padres operários. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). a longo prazo. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. do declínio de uma fé sincera e manifesta. tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. na França. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. como desejava DURKHEIM. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. sem se dar conta disso na maior parte do tempo. o Estado como aparelho separado. mas à criação de religiões substitutas. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. não assistimos. Todos os homens. a qualquer preço. O episódio. mas foram se laicizando. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). J. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. Algumas religiões. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. porque é 77 . profanas (MOSCOVICI). que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. ao “desencantamento do mundo”. ENRIQUEZ). uma sociedade da transparência e da reciprocidade. As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. STOETZEL). ARON.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. um estado psíquico onde o conflito não aparece. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. como medida de todas as coisas. Entretanto. a longo prazo. passam a se desenvolver.

depois. os chefes de guerra ou os chefes de Estado. (mesmo se. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. por ENGELS e. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. conscientemente ou não. após a morte de MARX. plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. de votos etc. então. como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. pois. na França. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. de serviços. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. 1976). e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. da ideologia de granito (LEFORT. pois. A ideologia pode. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. sob a IIIa República. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. Quando falo de religiões substitutas.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. de ideologias totais (LYPSET. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar. 1963). para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . É.). não como uma ideologia (quer dizer. quer sejam os pais. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. os mestres. tal como a ideologia republicana. de fato. mais ou menos fortemente. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo).

têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. devem estabelecer com o Sagrado. no cerne mesmo da sociedade. Uma religião. Ela então regula essa questão central da alteridade. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. pelo ferro e pelo fogo. como uma Igreja com seus templos. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. indica que a seita. que ela assegura sua identidade. As ideologias que eu evoco são. quando as religiões se enfraquecem. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. ideologias “compactas” que. representaram um papel menor na dinâmica social. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. heréticos ou descrentes. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. por seu caráter absolutista. por sua força de convicção. como as religiões. 79 . É assim que ela pode formar uma cultura. que produzem uma cultura própria. vão se impor como lei. jacente em todo ser humano. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. antes mesmo que seja colocada. reunidos em comunidade. a converter ou a destruir. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. não pode estar na origem de nenhuma religião. constituindo-se. que já mencionei. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. substituindo-os por outros que. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. sozinhos. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. Um grupo minoritário. pelo sacrifício de seus mártires. a negar. então. 1979). conseguiu se desenvolver. em maior ou menor grau.O fanatismo religioso e político (colonização). Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. projetando-o nos outros. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. na época moderna. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas. Mas é preciso observar que.

discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. É verdade que os grandes místicos. como heróis (no sentido freudiano do termo). mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). Em outras palavras. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. ao contrário. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade. no “sentimento oceânico” (R. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. é porque os judeus. desenvolveu uma política de conversão). É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. (Entretanto. apesar de tudo. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. porque a morte santifica e promete o paraíso. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. 80 . Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. “poetas”. além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. de seu lado. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena.

1. de novas características. sem emblemas. 1971). substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. ser totalmente dissociados.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. entretanto. São sociedades: a. Ora. segundo a terminologia weberiana). nossas sociedades ocidentais contemporâneas. eles não podem. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). 81 . além disso. a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. PALMADE). levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. 2. como a ideologia republicana. o texto de J.Elas se enriquecem. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. tudo se vende”. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. intensificação da produção não somente de objetos úteis. na verdade. mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. as liberais e as “socialistas”. Entretanto. por conseguinte. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas. mas somente possível e previsível. (Não existe. se certas condições são preenchidas. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. segundo o axioma de WALRAS). que são religiões da revelação. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas.O fanatismo religioso e político Concluindo. é conveniente fazer algumas observações. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. ideologia sem porta-voz. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada).

Nesse momento. sua legitimidade desaparece. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. de imortalidade. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. seu valor se corrói. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. no fim das contas. para os homens e para as mulheres. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE.sociedades que. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. 1967). por isso mesmo. além do furor de não poder satisfazê-los. concebê-lo como um inimigo ideal. Sociedades sem pais e. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. “mãe das cloacas e dos brejos. HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. (Assim. 1989). Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. da qual é necessário. ao mesmo tempo. d. 82 . caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. LAPLANCHE. o trabalho perde seu significado. c. enquanto criação e distribuição das riquezas. assim. já havia observado isso). A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria. 1967. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). realizáveis. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai. b. Assim também. se desembaraçar.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta.sociedades que. o capitalismo tinha uma certa legitimidade. pensar e querer o apocalipse) e.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro.

de um budista. (FREUD. da corrupção). Daí se seguem três conseqüências. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. uma causa a defender. em particular. Contra o mundo perverso. um projeto a sustentar. formar uma cultura. Mas as religiões. Essa citação dispensa comentário. da miséria. permanecer na certeza e. os “desgarrados”. no Ocidente. os excluídos. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. O indivíduo desaparece. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. 1930) 83 . de um capitalista.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. do desaparecimento de referência a toda transcendência. da exclusão. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. os esquecidos. da loucura. da apatia. Eles querem se tornar um “Nós”. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. não oferecem mais interesse. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. só há salvação na paranóia partilhada. Se não somos nada além de um espartano. da ausência de um fundamento. aquela que designa claramente os aliados. os irmãos e os adversários. A religião reclamada é a religião absolutista. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. no limite. se sacrificar. aquela que cria uma identidade coletiva. de um proletário. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. O que desejam os deserdados.

livre do mal. É certo que. o inglês fala tudo de ruim do escocês. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos. liberado finalmente do mal. uma imensa massa de homens. É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. tais como as descrevi acima. ou seja. da sedução ou da coerção). É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. o espanhol despreza o português”. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. para ela é uma impureza?”. sua conversão. O desenvolvimento do fanatismo. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. anunciador de um mundo novo. no entanto. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. ENRIQUEZ. como seres a eliminar. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. Quanto mais uma cultura quer se unificar. Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. o que é um alimento. elas exigem a super-identificação à causa. além disso. pelo menos. Não esqueçamos. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. para isso. nos diversos países. então. 1984). que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. O fanatismo visa. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. o super-investimento no projeto.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. a criar um mundo novo. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M.

para unificar os corações e os espíritos. um instrumento a serviço do fanatismo político. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. assim. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. ainda. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. primeiro e antes de tudo. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. para que o fanatismo se fortaleça. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. E nós tocamos. que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . Ou seja. O fanatismo religioso é. É por essa razão que meu texto tem esse título. Retomemos esses dois pontos: 1. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. São Estados. por sua vez. fundamentalista. sem dúvida. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. na hora atual. É preciso. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. o sinal de seu enfraquecimento. sozinho.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. o Irã). O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. O fanatismo religioso. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). Síria). o Azerbadjão. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. resulta. é preciso lembrar que. a se tornar dominantes (por exemplo. no máximo. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. mas. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. o essencial: a dimensão política. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação.

na retomada das negociações na Nova-Caledônia. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência.A religião não se apresenta. Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . judia. forçosamente. na França. antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). o convite a alguns líderes protestantes.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade). cristãs.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. que querem fazer valer sua palavra. lepenistas. na regulação dos Estados modernos. Loja P2. judias). conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. b. 2. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. Alemanha do Leste. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas. interdição de pensar (Polônia. Países Bálticos.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. protestante.redourar o brasão das religiões tradicionais. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. certos grupos religiosos em Israel). a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . Se a aliança persiste. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. Irlanda do Norte. se ela se extingue. Eglise de Scientologie). destruição cultural. c. do qual eles não saberiam o que fazer. Communione e Liberazione. ela designará os vencedores e os vencidos. nos quais não existe senão um fraco consenso. muçulmana) na vida cotidiana da França. ela pode ter como papel: a. das comunidades islâmicas. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. Nesse caso. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política. sob uma forma fanática. em nossos dias.

fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. sem fim. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. Se essas são capazes de inventar novos projetos. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. Os homens aprenderiam. de precisar meu objetivo. De fato. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. mas que. laborioso. ele tenta. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. prontos a afrontar o absurdo. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. a falta de sentido. cada vez mais freqüentemente. suas dúvidas. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. o Estado leigo faz apelo. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. nesse caso. o caos e o abismo. nascida desse trabalho árduo. 87 . ao invés de processos de sublimação. paralisar a atividade de mentalização. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. de reflexão e de reflexividade. antes de tudo. desde o início dos tempos modernos. ao contrário. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. como no exemplo de KHOMEINY). Eu gostaria. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. para terminar. com a ajuda de seu Deus –. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. Mas. sem recorrer a referências seguras –. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. finalmente. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. não é o caso de superestimá-la. 1. o religioso.

3. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. na armadilha que denuncia. 137-149. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades. quando o religioso se põe a serviço do político. do fato ideológico. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. ideológicos e nacionais. do fato nacional. ela lhes permite tomar iniciativas. efetivamente. devem ser levados em consideração. a perversão ou a paranóia triunfam. 1990-1. que a religião. n. naturalmente. a ideologia. antes de tudo. Araújo. Eugène. “Le fanatisme religieux et politique”. no outro. nos fenômenos sociais. Por outro lado. sob pena de cair. T. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. Connexions. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. Ora. Ela lhes é consubstancial. p.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. quando a ideologia dura impede o livre pensar. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. tão fácil e prazerosamente. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. se ele não faz esse trabalho. tanto quanto outros tipos de valores. Ela assume então o papel de desalienação. Eu não quis dizer. 55. uma vez que elas são. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. na América do Sul). em nenhum momento. (N. então a reflexão desaparece. “A última tentação de Cristo”. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. Os valores religiosos.) 2 88 . Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. por Leila de Melo Franco S. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. nos seus interlocutores e. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. em si mesmo. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. Se.

L’autonomie sociale. Connexions. P. Epi. LYPSET. ENRIQUEZ. 1967. LAPLANCHE. 1989. 1971. PUG. (org. J. Psychologie des minorités atives. S. KLOSSOWSKI.(1930) Malaise dans la civilisation. PUG. Seuil. LEFORT. 1985. 1984. FREUD. DEVEREUX. G. S. Présentation de Sacher-Masoch. PUF. L’homme et la politique. 1989. MOSCOVICI. 54. In: Autonomie sociale. janeiro.). Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. Cl. CASTORIADIS. ENRIQUEZ. Y. G. Editions de Minuit. C. 1985. n. In: La NEF. 1971. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. . “Malaises dans les identifications”. E. Seuil. 1979.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. “Notations sur le racisme”. M. E. S. DELEUZE. Eres. 1987. ENRIQUEZ. 1976. 1967. 1963. Au carrefour de la haine. sobre o fanatismo hoje. Un homme en trop. Essais d’ethnopsychiatrie générale. Épi. 1973. PUF. 89 . E. Connexions. La monnaie vivante. ENRIQUEZ. n. “La défense et l’Interdit”. 48.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa. individual e coletivo. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. já havia sido notado por vários pesquisadores.. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. alimentação. DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR. de outro lado. sobretudo. vestuário. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. que 91 . uns nos outros. em plena Vendée. incessante. por exemplo). O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. são exportados para todo o mundo (iates. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. como elas podem morrer. calçados etc.CONJUNÇÃO. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento.2 Tais reflexões mostram. NA EMPRESA. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. e o conservadorismo social e cultural da região. A escolha da região do Cholet. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. seus produtos. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. vividas pelos dirigentes. de um lado. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. como elas se desenvolvem. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira.

respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. a partir de suas lembranças. seu futuro. Em outras palavras. entretanto. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. Ou seja. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. Assim. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. diferenciações. como objeto no discurso dos dirigentes. suas dificuldades. à antigüidade. Tendo analisado esses depoimentos. de suas dúvidas. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. 92 . o qual é vivido como o fundamento da empresa. caso a caso (empresa a empresa). com efeito. segundo um método comparativo. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. clivagens. num primeiro momento e. que são ao mesmo tempo seu principal tema.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. sua história. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. é. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. Uma tal aventura. ainda que solicitadas por nós. pudemos pôr em evidência certas constantes. que tais entrevistas. mas a empresa como objeto psicossocial. isto é. era. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. para si próprios. ou ainda. a partir de sua criação. de seus projetos. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. ao produto. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. depois. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. entretanto. sobre aquilo que a empresa. evocava neles. desde sua origem até o momento atual. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. para nós. Não se trata. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. convidados a falar a respeito.

a terra ou a região. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. embora todas tenham dependido. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. ou ainda. quer se exprima pela relação com o solo. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes.) que se trabalha ou. com a região (no caso. também. Nesse último sentido. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. De maneira mais geral. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais. de maneira mais extensa. de um projeto pessoal e familiar.Conjunção. a partir do qual elas podem se desenvolver. aquilo que é ligado aos locais físicos. suas tradições e a 93 . Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual. geográficos. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. com freqüência até mesmo joint families. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. na origem.o ofício ou o produto. de Bocage. histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. conceitos verbais. . histórica e sociológica. a regiões de Mauges. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. sua cultura. quer dizer. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. na empresa. Essas três entidades. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. podem ser resumidas da seguinte maneira: .a família. grão etc. quer dizer. A terra Essa referência é onipresente. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. com o território (nome das cidades. de maneira mais abstrata.a terra ou a região. quer dizer. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. nota-se que. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. locais e regionais. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. quer dizer. argila. .

“não ficar falando abobrinhas. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). mas também um sentimento de segurança. 94 . o lugar dessa é aí dominante. um conjunto de obrigações e de restrições. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”). na maior parte dos casos. Desse ponto de vista. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. em caso de dificuldade.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. no sentido concreto. “a terra”. tanto no imaginário quanto no real. de empresas familiares. atividades e lucros organizam-se em torno dela. eis nosso jeito fazendeirão”. mas também no metafórico. como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. a empresa é um projeto de família. bem como uma fonte de riquezas. A família Tratando-se. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. assim que ultrapassamos a fronteira. vira tudo uma máfia”). simultaneamente. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. não se pode fingir”. constituem então. nas relações e atitudes: assim. A “região”. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). em nome de uma certa ética. Antes de ser um projeto pessoal. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. contribuindo para o renome da cidade ou da região. físicas e morais.

designada como “negócio de família”. como “a realização de seus antepassados”. onde empregados e patrões podem comer juntos. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. “empresa familiar”. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). num primeiro tempo. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). de um projeto pessoal e familiar. Da mesma maneira. então.Conjunção. “sociedade de família”. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. por um lado. SA. 95 . mas também nos fatos reais. inclusive com empregados. quer dizer. inclusive para outras aglomerações. no início. sendo um dos dois sexos. descartado. então. entre os bens e os dividendos pessoais. fortemente personalizadas. ainda. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). A presença da família e de seu passado se traduz. é certo. de papéis e de procedimentos formais. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. e o capital e os salários. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. As estruturas e as relações de poder são. Assim. sendo também imagem das relações de parentesco. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. de fato. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. na empresa. Como se pode notar. as relações de autoridade. Compreende-se. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares. geralmente. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. na sua origem. seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). de outro. “sociedade familiar” ou. seja pelos homens (os filhos). os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). Naturalmente. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados.

Nessas condições. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. seus vizinhos. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc. o produto Em função de sua origem artesanal. O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. freqüentemente. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. os sindicatos independentes são mal tolerados. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. a maior parte das vezes.. Apalpar essa matéria. casamentos. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. lenços da região do Cholet. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. um elemento de coesão e também uma limitação. A história da empresa é assim. uma fonte de problemas e de conflitos. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. Está diretamente associado às mãos do artesão. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. transmitidos de geração em geração. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. da receita ou do jeitinho de fazer. –. O ofício. com os acontecimentos familiares – mortes. uma inspiração. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. Assim como para a referência à região. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. rupturas. Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. couro etc. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca.

para o dirigente. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. o marketing etc. não em negar. ele supõe a adoção de atos concretos. na empresa. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. que asseguram sua identidade e a base da empresa. sangue ou mãos). como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. Esse processo não se realiza sem problemas. para garantir as evoluções indispensáveis. políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. –. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. de um projeto pessoal e familiar. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. Juntos. em desligar aquilo que estava ligado. cujas partes. com efeito. pelo menos em parte. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. Consiste. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. essas três bases – ou instituições primárias –. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. encarnada na pessoa do fundador. à terra. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. profissionais.Conjunção. eles formam então como um bloco compacto. Sua história. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. De fato. trata-se de um conjunto extremamente coerente. não são entidades independentes. o ofício. transmitido de geração em geração. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. vêse então que. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. estão imbricadas umas nas outras. constatou-se. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. Entretanto.

o deslocamento. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. O ponto de chegada de tal processo. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. isto é. investimentos em máquinas e em locais especializados. 98 . consiste em passar de um sistema social a um outro. essencialmente. a transferência física da empresa para outros locais. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início. c. elaboração de uma organização e. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. Esses três movimentos resumem. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. do pessoal ao impessoal. Nos termos de T. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. portanto. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. PARSONS. de produções. de valores ou modos e redes relacionais. de estruturas de necessidades e de motivações. De maneira mais precisa.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. ao longo de toda a história da empresa.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. seu objetivo. isto é. do herdado (ou do dado) ao adquirido.a industrialização. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. exigindo. PARSONS: do particular ao universal. da proximidade ao distanciamento. principalmente. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. b. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste. da afetividade à separação. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. com efeito.

unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. na empresa. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. de um projeto pessoal e familiar. então. obrigado a repartir o poder com outros. em contrapartida. Enfim. com efeito. ou ainda: “das famílias na sociedade. de acordo com regras precisas que excluem. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é.. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado..Conjunção. ele não pode assumi-las todas e é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”. pode-se dizer (. sua principal razão de ser – ele deve. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. que põe as contas em ordem. regidas segundo técnicas e métodos importados. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. O envolvimento da família é. bem como uma administração capaz de a gerenciar. a partir de então. freqüentemente.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. se 99 . Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. máximo. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. adquirir as competências ligadas à gestão –. bem como na composição do Conselho de Administração. a entrada em cena de um contador.

pela definição de papéis e critérios decisórios. pela instauração de regras explícitas e. mostra-se assim sempre indispensável. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. portanto. eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. com efeito. Eles são. mas. a estrutura de pessoal (mais jovens. É. portanto. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. Progressivamente. –. ela se baseia em competências que eles adquiriram. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . sócios etc. por conseguinte. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. como para qualquer chefe de empresa. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. principalmente entre os (jovens) dirigentes. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. freqüentemente. colocados numa situação extremamente conflitiva. o que permite. pois. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. geralmente fora da empresa. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. podendo implicar até em falência. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. melhor formados) e a da clientela. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. Esses estão. transformando as relações de poder e os modos de pensar. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). Esse processo não se realiza de uma só vez.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados.

bancos etc. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. renunciando a uma expansão possível. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. para si próprio como para o ambiente é. a empresa adotar uma estratégia de exportação. Em todos os casos. Se. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. E. de um projeto pessoal e familiar. outras aspirações. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. considerado preferível a uma expansão sem significado. encontramos respostas extremamente diversas. o solo no qual a empresa se situa. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. pois. permitindo administrar as contradições. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. Outros se orientam para soluções. portanto. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. como uma espécie de traição. na empresa. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. Para essa questão. preservar uma base local. por exemplo. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. – e o questionamento de vínculos anteriores. 101 . o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. ou mesmo para o estrangeiro. nesse caso. mas permitindo a sobrevivência da empresa. no entanto. outros modos de relação. outras exigências. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. é importante para reduzir. Se o deslocamento para outra região. manter uma qualidade de vida e de trabalho. isto é. uma tomada de distância em relação à terra natal. necessariamente.Conjunção. Trata-se. além disso.

é SUA família. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. ao mesmo tempo. admitindo divisões e separações. e de rupturas que essas provocam com o lugar. SEU ofício que dá corpo a ele. indiretas. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. por regras ou por técnicas. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. taxa de crescimento. Quanto mais eles se ampliam. mais eles se autonomizam. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. Um tal processo pode ser. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. evitando. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. a rachar. por exemplo. margem de lucro. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. por exemplo). uns em relação aos outros. com efeito. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. As relações diretas. situadas em regiões economicamente mais propícias. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. etc). SUA terra. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. Seria. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. no entanto. Como conseqüência de decisões. uns sobre os outros. mercados. que manifestam um crescimento sensível. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. ou ainda. produtividade. face a face. desenvolver uma rede de sub-contratantes. as pessoas ou os hábitos de pensar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. que supõem prazos e contatos (redes etc. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. algumas das quais podendo se situar alhures. é pois. no entanto. criar vínculos de dependência com eles. são substituídas por relações secundárias. assimilado a um trabalho de luto. então. no sentido pleno do termo. mais ou menos importantes. é ele. portanto nitidamente diferenciados e interligados.). traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. entretanto. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . emerge assim uma organização. Todas as empresas. ou ainda.

constitutivo do sujeito. de um projeto pessoal e familiar. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. André. com o título Inconscient. que é o seu fundamento. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. Se. despregar-se.(mimeogr. sua ancoragem biológica. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”. “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. (N. Toulouse. ele deve sempre compor com o nível primário. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. organisation sociale. Mourão. por Júlio M. ficando na ilusão de sua existência. existindo para e por si mesma. Região situada no oeste da França. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando.T. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. é impossível. no entanto. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. sob pena de perder o contato com o real biológico. 1990. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. do clã. de sua consistência. O social nunca é estabelecido de uma vez por todas.). A instituição é um processo. uma tensão permanente. na empresa. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. de sua unidade. desprender-se inteiramente. 1991.) 2 103 . collectif).Conjunção. de negar aquilo que é. Paris. sua fonte energética.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. LÉVY e A. as mudanças essenciais 107 . quais são os problemas realmente essenciais. NICOLAÏ. finalmente. Todavia. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. então. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. Entretanto. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. aparentemente. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. sobretudo. o triunfo da racionalidade experimental. nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. etnias. possível. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. LÉVY. pois. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. de forma responsável. a fim de que as sociedades possam. como o evidencia Nicolaï. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. No espaço até então ocupado por ela. NICOLAÏ). No momento atual. Essas transformações devem. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). verdadeiramente. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. com o seu corolário. grupos religiosos etc. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. os “intermináveis adolescentes” citados por A. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. mais eficazes e mais rápidos. um trabalho de tal monta é necessário e.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível.

LÉVY). No entanto. dar atenção especial à conversação e ao debate. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. portanto. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. antes de mais nada. Essa disciplina deverá. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. levantada por A. na relação e pela relação. prováveis de ocorrerem na sociedade. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. como o fez Touraine. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. 108 . Será. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. na prática social. Ao contrário. sujeito). capazes de contribuir. Esse processo é longo. quando anunciaram. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. também. e não a nível global e em regiões centrais. Mas. LÉVY: as verdadeiras mudanças. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. desde a sua criação. para tanto. com freqüência. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. Os sociólogos não se enganaram. Nesse sentido.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. igualmente. Seguindo essa via. ritualizadas. Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. realizando um genuíno trabalho psíquico. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. É importante ainda mencionar outra questão. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. como têm sido feitas. não surgirão de tomadas de decisões formais. na atual crise pela qual passa o Brasil. o “retorno do ator”. pelas interações entre sujeitos. Ela poderá. interessar-se mais pelos movimentos sociais. suas instituições e seus diversos grupos sociais. seja para a evolução social. seja para a sua involução.

nem sempre bem sucedido. e observando-se toda uma série de sinais. forçosamente. no início dos anos 60. malgrado as aparências. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 .APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. com efeito. na acepção forte do termo. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações.2 o envelhecimento. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva. presente em muitos meios. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito. Se me decidi a escrever esse texto. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. E isso se traduz em um interesse. ainda. é porque me parece que. seríamos tentados a pensar que. – tudo isso parece indicar. no modo de compreender as organizações e as instituições e. a receptividade reduzida das produções escritas recentes.

ou. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas...3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. 110 . a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. que evidentemente não é exaustiva.Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. a análise transacional e. de viver de outra forma. Essa enumeração. em um determinado momento. de ter prazer. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. como todo fenômeno de moda. Parece-me igualmente que. elas tenham podido ser a referência principal. uma após outra. Em outras palavras. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. em seu conjunto. senão a única. para os atores sociais e para muitos práticos. Mas importa. mas a vontade de inovar. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. elas têm em comum o fato de terem pretendido. por exemplo). mais recentemente. Embora durante alguns anos. retomando termos de E. não apenas a inquietude e a interrogação. os métodos centrados na expressão corporal. uma após outra. para os atores engajados na ação. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. a análise organizacional. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. primeiro. É certo que a maior parte delas não desapareceu. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. ENRIQUEZ. em função do que lhes parece ser necessário. enfim. desde o início dos anos 70. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. o que tem como conseqüência que. pode-se citar a análise institucional. Entretanto. constituem. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica.

na verdade. meios que ele controla. auto-realização. Em outras palavras. É praticamente certo que a análise institucional. eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro. Dessa forma.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e.). efeitos espetaculares em uma instituição. por não lhe deixar escolha. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. com vantagens. então. com ambições mais limitadas e incertas. desse ponto de vista. por exemplo. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas). Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. 111 . a outros métodos mais longos. ROGERS (resolução de conflitos sociais. fazendo assim. Certamente. pelo menos – desses métodos: a. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas. LEWIN e C. eles se comparam. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos.. incertos e custosos. ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar..eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. ao mesmo tempo. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. intenções que.

“enquadramentos”. concomitantemente. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. e que. a um “ator” ou a um “agente”. tudo isso é. Essa tendência já estava presente. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. não garante nem assegura nada. então. “sistemas” (por exemplo. dominada por relações mercadológicas e seus valores. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. Embora ocorram desvios. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. evidentemente. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. se possível. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). mas também nas orientações cognitivas. Tal fascinação pelo que “funciona”. deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. há que se lembrar. o sistema de ação concreto de M. Nessa perspectiva. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. condenado a ser rejeitado. especialmente a necessidade de tempo. tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. 112 .5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. automaticamente a problemas delimitados. então. aparecendo em utensílios. reduzido.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos.

então. especialmente. Entretanto. No que nos diz respeito. uma 113 . a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. Se. assimilá-la a uma encomenda. a demandas por respostas e soluções. a demanda é. está próxima à noção de encomenda. reciprocamente. sem risco. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). toda história singular. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. que podem. há quem quis diferenciar. assim como uma relação de troca. tal distinção não nos parece desejável pois. implicando um bem. isto é. uma demanda de objeto. A demanda expressa. ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. reciprocamente.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. é eco de acontecimentos sociais. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. nesse caso. progressivamente. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. necessariamente. uma grande parte de sua riqueza. Assemelha-se. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. combinada então a pressões mais ou menos fortes. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. demanda de encomenda – LOURAU. por isso mesmo. no limite. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. Nesse sentido. inscritos em uma história coletiva que. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. Assim. mais ou menos explícitas. com efeito. podem-se percorrer todos os graus. no registro econômico. um objeto. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. endereçada a um outro. O conceito de demanda social Com efeito. ao contrário. retira-lhe. no sentido de ordenar ou encomendar. Primeiramente. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. entre a demanda e a encomenda.

necessário indagar a respeito de seu significado. sua interpretação. Ele não é evidente. a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. Enquanto é apelo ao outro. Certamente. a demanda é facilmente interpretável. trata-se de uma demanda de amor. a demanda é considerada não como individual. no segundo. o que lhe dá riqueza e complexidade. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. 114 . solução. Se. não é uma demanda de objeto. de uma falta. mas a expressão de um desejo. seja em um quadro terapêutico. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. Nesse caso. aí. na Psicossociologia. disfarçando-se. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado.. mas como social. a “demanda” só tem sentido e só existe. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. é que. freqüentemente ou sempre. tudo isso não é específico da Psicossociologia. inversamente. seja de reconhecimento ou de amor. durante um processo de consulta ou de intervenção. sua interpretação é sempre problemática. pelo menos em um segundo plano.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). É. Por essa razão. na acepção própria do termo. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. explicitada pelo objeto que designa. então. No limite. marido e mulher etc. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. seu tratamento – é. Ela se torna real por essa e nessa relação. ajuda. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. inclusive e sobretudo por quem a formula. a questão da demanda – sua escuta. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. precisamente. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. em contrapartida. pois o qualificativo “social” tende. dificilmente é formulada como tal. uma certa relação de poder e de dominação. objeto material etc. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. Entretanto. principalmente. no primeiro registro. em demanda de outra coisa – conselho. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica.

Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. a solicitou. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. às quais é difícil resistir. meios de resolver um conflito etc. de uma maneira ou de outra. de outro. exprimem-se sob formas coletivas (greves. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. compreendidas e interpretadas. podem ter efeitos nas situações que as originaram. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. eventualmente. mesmo que seja de maneira difusa. Assim. de dependência ou de submissão. manifestações agressivas ou angustiantes etc.). as quais. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. quis ou “demandou”. mas também de permitir interpretá-las. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. mobilizadas. é necessário que ele tenha se manifestado. nas quais elas podem ser avaliadas. Ao contrário. reflexo interpretante. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. Porém. transformadas em atos. Como conseqüência. não há nada em comum com a posição de simples espelho. que sua prática não é aplicação de uma 115 . atos e palavras. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. testemunhado através de seus escritos. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e.A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. De um lado. por sua vez. das quais resultam vivências compartilhadas que. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. Em outras palavras.

afirmar que elas são. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. na falta de outro termo.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. uma empresa. confessáveis e tratáveis. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária.6 como oportunamente evocado por J. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . da mesma forma. ao contrário. individuais e coletivos. ao mesmo tempo. entretanto. um grupo. uma concepção da sociedade e das relações humanas. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. DUBOST. não é possível. uma perspectiva – que.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. com a condição. mas que traduzem um desejo. Assim. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). desde LEWIN. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação. consequentemente. Entretanto. Tal representação exclui. a noção de sistema é bastante útil. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. independentemente das outras com as quais ela se articula. uma classe de atores etc.. mas através de princípios regendo procedimentos. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. Trata-se. Desse ponto de vista. que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. Esse ponto. Evidentemente. enigma. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. uma ética. Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. tudo isso expressa bem o que. toda análise em termos de relações bipolares. um serviço administrativo. interagindo entre eles. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. parece-nos ser uma ética. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão. no espaço desse artigo. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. principalmente.

Sem dúvida. conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. o interventor-pesquisador contra o risco de. a intervenção junto a um grupo deve ser vista. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. Desse ponto de vista. J. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. em especial. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. então. e sendo breve. desde o início da ação de intervenção. Evidentemente. eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. igualmente. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas.7 Porém. trata-se de tentar definir. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. Em suma. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. 3. identificar os dados. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual.Por outro lado. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se. por K. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. aplica-se também à Psicanálise. instrumental. antecipadamente. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social.Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. por exemplo –. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica). é importante que todo ator e.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. dessa forma. 2. LEWIN. Assim. A introdução. em especial. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. ao mesmo tempo. a fortiori. em uma relação de colaboração. sem o perceber. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática.

implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. da sociedade e das ciências do homem. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. algumas tendências atuais. assim como observar. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. nos termos de J. “saber como se foi apreendido”. embora não suficiente.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. é impossível. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. investigar. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. FAVRET-SAADA. um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. 118 . em seguida. uma orientação.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. parafraseando J. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. então. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. então. É indispensável. Igualmente. consideráveis nas últimas décadas. tentando identificar. elas expressam antes uma perspectiva. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. Da mesma forma. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. brevemente. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. questionar. FAVRET-SAADA. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. de qualquer jeito. Entretanto. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. Embora seu enunciado seja necessário. reafirmar essa posição e manter-se nela. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites.

11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. é impossível. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. por perspectivas lewinianas. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. há alguns anos. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . etnometodologia. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos. rogerianas e morenianas. Finalmente. hoje. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. até então. assim. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais. elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. de ordem geral. talvez rapidamente demais. de análise de grupo. Assim. a problemas de mudança social.10 Mais recentemente. no início do texto. Por outro lado. com uma perspectiva bem global. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. impõe-se: qualquer que seja o domínio. Em todo caso. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. análise conversacional. Mostram. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. dedicaram-se. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. certas correntes de Sociologia Clínica. de uma forma diferente. convergências. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. cada vez mais evidentes. dominados principalmente. desde os anos 60. não é mais aceitável.

53. “Coopération et analyse des conversations”. O. La voix et le regard. e LÉVY. e de representações específicas de objeto. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. Em especial. Tese de Doutorado. CHABROL. responsáveis políticos locais. Dunod. Sociologie du Travail. 9-18. André. Entre le cristal et la fumée. L. J. L’observation de l’homme. la mort. 1987. Gallimard. Intervention et changement dans l’entreprise. E. 1989. H. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. Paris: Seuil. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. Le sujet social. DUBOST. LECLERC. paradoxes et psychothérapies. A. Seuil.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. 1984. J. 11 TOURAINE. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. D. R. ATLAN. Connexions. BION. J. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. In: Du discours à l’action. Façons de parler. 17. RAPOPORT. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. C. 1977. e CAMUS-MALAVERGNE. 1975. O problema da mudança individual. La société du vide. 1980. A. R. Payot. 6 8 9 FAVRET-SAADA. 1981. 7 Cf. DUBOST. GOFFMAN. 12 BORZEIX. BEAUVOIS. Paris: Seuil. J.N. L’intervention institutionnelle. “Connexions”. Le groupe et l’inconscient. nos anos 60 e 70. 43. La parole intermédiaire. 1984. 1965. PUG. PUF. 1978. Seuil. 1972. “Eloge de la psychosociologie”. e JOULE. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. Recherches sur les petits groupes. muitos outros atores apareceram: formadores. TROGNON. Dunod. Connexions. sindicalistas. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. PUF. Por exemplo: ANZIEU. 1987. G. W. Les mots. p. A. 1973. por vezes fundamentais. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. 2 4 5 WATZLAWICK et al. 2:87. 10 120 . DUBOST. “L’analyse sociale”. J. Minuit. les sorts. In: ARDOINO et al. 1983. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. J. Como exemplos: BARUS. L’Harmattan. Y. 1985. A. LÉVY. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. 1978. 1987. L’intervention psychosociologique. e BAREL. “Ce que parler peut faire”. 3 ENRIQUEZ. 7. JAQUES. 1987. FLAHAULT. E. 1979. Situations de groupe et relations langagières. Connexions.. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Paris X. Seuil. trabalhadores sociais. arquitetos etc. Dunod. A. E. Changements. 1990. 42. 1979.

retorno a uma problemática do indeterminismo. de forma mais ou menos clara. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje.3 sobretudo nas Ciências Humanas. da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. Entretanto.2 Mas. mais do que como fenômeno excepcional. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. também. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. em nenhuma das duas. tendência. o segundo 121 . o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto. em contrapartida.4 Essas evoluções. depois de LEWIN. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. no campo que nos interessa. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. certamente.

5 Além disso. Antes. como demonstramos num texto anterior). isto é. para as constatar. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. prever. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. necessitando ser aprofundada. com efeito. que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. aquém ou além. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. de uma leitura psicológica. no grupo (na relação e pela relação. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. muito fecundo. iria reificá-lo. mas que ela poderia se realizar. hoje. com efeito. parece-nos possível. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente. necessariamente. deslocamento.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. por definição. K. definitivamente. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. Nesse terreno. LEWIN. recristalização). dirigir ou combater. por isso. compreendê-la como tal. Assim. do interior e não de um ponto de vista exterior. aqui. ele permite. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. porém algumas observações prévias: a. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. de súbito.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. participando delas diretamente. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. 122 .

. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. que é a morte) – reprodução das espécies.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. que queremos nos centrar aqui. é sobre essa segunda significação de mudança. reprodução das idéias. a mudança é um acontecimento psíquico. o desenrolar de uma existência. O termo mudança poderia. reprodução das instituições. físico. à aventura. Com efeito.. No entanto. (. não se reduz a esse processo evolutivo.).). entretanto. escrevia Paul VALÉRY. eles não podem ser previamente enunciados. Com efeito. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos. assim. A mudança é um trabalho do espírito. como ruptura. “exceto do corpo que se usa”... seja a de um indivíduo ou de um grupo...Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. Ele se traduz. reorientações bruscas. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. lento e ininterrupto. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. tecnológico –. a um processo de mudança.A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. pois. ela é um acontecimento subjetivo. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . porém.. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. é se abrir a uma história. é acontecer.. tal definição é geral demais para ser útil. designar tudo o que está vivo.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. também. legitimamente. desse ponto de vista. Antes de ser um acontecimento objetivo. redirecionamentos.. freqüentemente não isentos de violência. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. como observou Paul VALÉRY. econômico. A teoria dos sistemas distingue. Como já dissemos. é o espírito que. nem todo processo discursivo se identifica.. mutações.8 Com efeito. ao risco (. Toda vida é “repetição de ciclos”.9 a mudança.

em todos os níveis. por excelência. Para entender bem essa proposição. depois de LEWIN.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. Fazemos. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade. isto é. ao contrário. das instituições. ele o é apenas se fizer sentido. o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. Por exemplo. os psicossociólogos. A decisão: momento. antes de tudo. As condições materiais. Ou. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. dos modos de pensamento. o lugar da mudança. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. ainda. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. se o ato é fundador. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. ao nível de suas significações. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. ao contrário. 124 . tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. por um trabalho do espírito. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. um trabalho de pensamento. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. representações ou intenções e os que estimam. objetivas. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. a liberdade”. então.

LEWIN.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. por si. em sua época. o psicanalista W. a divisão. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. por si própria. Os processos de decisão analisados por LEWIN. do feminino.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. em suas opções e em seus desejos fundamentais. o “golpe de força” na origem de toda organização social. uma situação nova e envolve inteiramente. inicialmente. a organização social. Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. para chegar ao processo secundário e criar o real. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). por exemplo). a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa.13 acentuamos o ato arbitrário. da ordem do real-concreto-sensível. renunciando. em um trabalho anterior.12 A decisão seria. “operando uma disjunção violenta. da continuidade sem hiatos. ao mesmo tempo. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). 125 . necessariamente. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. Por isso. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. o tempo. então. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. só pode ocultá-lo. podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. com o risco de sua própria desagregação”. Somente a decisão pode fundá-lo”. um salto para o desconhecido. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. da duração (bergsoniana).

Mas. Isso não significa. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). assim. por seu conteúdo informativo e prescritivo. explicitamente designado. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se. econômicas ou sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. as situações institucionais. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. assim.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. como que por mágica. isso significa que uma escolha. manifestação da vontade de produzir. pois ele pode sempre ser desmentido. quer sejam.” é um ato “ilocucionário explícito”. Mas. nem que a palavra seja onipotente. não pode significar uma mudança.. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. evidentemente. não muda nada. simplesmente. tomados como testemunhas. O sujeito de tal enunciado. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. qualquer que ela seja. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida. é o mesmo sujeito da enunciação. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. a decisão é. mas porque é um ato público. modificações na realidade. que uma decisão necessariamente modifica. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. Um ato. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. um ato de palavra. retomado ou reinterpretado. em si mesmo. Toda decisão é. pois. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. Se o sujeito que 126 . ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. ao mesmo tempo. apenas por seu enunciado. de forma mais importante ainda. simplesmente..

o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. eles próprios. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. como diante da morte –. esconde mal. para fundar o real. como muitas vezes ocorre. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade. não se reduzindo. entre as possibilidades. e de abandonar o terreno do possível. sob a má fé dos argumentos. para um processo de mudança. Então. a uma atividade lúdica ou de encantamento. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. vazios de sentido e sem conseqüências. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. sem apreender o real? 127 . do imaginário. interpretação e prática de análise social No entanto. Nesse sentido. a respeito do herói. inelutável. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. Aqui. rituais ou emblemáticos. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. efetivamente.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. formal e. Decisão. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. o jogo de hipóteses. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. igualmente. os desafia. talvez mais do que em qualquer outro momento. bem antes do livro sobre Moisés. conscientes ou inconscientes. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam.

como toda decisão. certamente. mas. tais como J. Assim. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. escapar dessa eventualidade. O trabalho sobre as resistências. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). certamente. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. Certamente. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. igualmente. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. implica um risco e um custo. Esses sistemas. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. para fazer a história. 128 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. feita pelos psicossociólogos. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas. senão impossível. Seria importante. ela é necessariamente parcial e partidária. Mas ele pode. P. possuem as características do relato histórico. com efeito. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. ao mesmo tempo. sendo difícil. ainda que não tenham conhecimento disso. FAYE15 as analisou. termo que. como observa FAYE. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. incontestavelmente. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem.

essas diferentes visões e o que elas ocultam. cada um. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. atuem diretamente no real. mas complementares. pois. mas tende a afastá-las. mais ainda. mas sua coerência. longe de se fundamentarem no “real”. no inconsciente dos sujeitos. práticas contestadas ou abordadas. que eles constituem visões diferentes.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. contribui para reforçar seu caráter dogmático. sobretudo. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. ao contrário. uma parte da verdade comum. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. subtraído do tempo”. então. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. não podendo ser traduzidos em decisões. o texto. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. bem claramente. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. visto que essas. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. ideológico. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. em um processo de reificação de enunciados fechados. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. É aqui que uma concepção por demais rígida. “nascendo. muitas vezes. contentando-se em esclarecê-los e. de uma mesma “realidade”. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. que preserva o analista social da decisão. assim. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 .16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. do risco de uma interpretação verdadeira. diz-nos LEGENDRE. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. justificando. das condutas às quais elas se referem.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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autocriação. supra) agidos. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . por isso. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. constituindo-se. as crises econômicas foram. face a “ruídos” provenientes do exterior. O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. em 1950. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. em 1900. oriundos de outras áreas. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. ou seja.Inicialmente. os novos conceitos e hipóteses. como crises momentâneas de coerência. os atores. Nesses períodos. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). mas abertos ao seu meio ambiente e. “desnaturalizados” pela extensão do mercado. não restavam mais que 10 000). isto é. químicos ou biológicos. colocam outros problemas. são simultaneamente (cf. *** Quais são. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. Eles se referem a sistemas autônomos. isto é. capazes de se auto-regularem.Os conceitos de auto-organização. então. o que não é o caso dos elementos físicos. cujos elementos. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. a partir do século XIX. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. autogeração etc. 2. autopoieses. Assim.Rupturas. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. literalmente. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). inicialmente. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. mas também um deslocamento da coesão entre os agentes. pois. atores e autores do seu sistema. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema.

entre os economistas. No entanto. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. amplia a margem de manobra dos inovadores que. de inovadores potenciais. por conseguinte.I. Sua presença é vista como consolidada. mas isso deixa de lado os fatores 136 . ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e.. Essas crises-ruptura. Nesse ínterim. a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. de outro lado. É certo que essa escolha é aleatória. logo não previsível. A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. o compromisso fordista empresários-assalariados.P. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria. nesse momento. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. Mas.2 por exemplo). de um lado. sob o protecionismo de MÉLINE. sob a égide do Estado. apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos. em especial. na França. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). na sociedade ou numa área econômica dada. segundo CROZIER) e. encontramos poucas reflexões (na França. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N.

Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. entre a mão invisível e o punho de ferro. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. uma teoria do fracasso. nessas mutações estruturais. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT). desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40. nesse quadro. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. da designação. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). da predestinação do mais forte. ou seja. 137 . MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. ele se torna o ordálio.I.Rupturas. tornando possível viver em perspectiva (C. inerente ao sistema. assim como aos fatores culturais. Mas ainda continua faltando. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno.P. por conseguinte. a difusão ou não – de suas inovações.. Em épocas de crises-ruptura. Mesmo se essas teorizações existissem. Há outro problema não estudado. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. ao nível dos detalhes.000 sociedades. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. CASTORIADIS). Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. em cinqüenta anos.

“mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura.enfim.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos). diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação. despolitização. homogeneização da linguagem. ao mesmo tempo.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). à extensão do capitalismo (os N. que o Centro se desloca. após dessacralização. 3 . embora ainda não totalmente. devido à extensão atual do mercado e. mesmo que saibamos.outras referências. a família e a escola). não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. às vezes.fenômenos de regressão a formas mais simples. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem).). integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc.I. poderes oligopolíticos em escala internacional. podemos constatar: . .aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. da cultura.fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. ENRIQUEZ): nacionalismos. desde BRAUDEL. por exemplo): concorrência. após a solução eventual da ruptura. . polimorfismo das intervenções do Estado.P. . o sagrado e. des-sindicalização e mesmo des-identificações. integrismos. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”.). Ela se define (P. por exemplo). BOYER.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. GROU. 138 . . . 3.aumento do número dos agentes aí implicados. . Mas. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . o lúdico. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”.

a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. D. mecânicos. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. quando da sua transgressão e. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias. Contrariamente. introduzir normas. por seu lado. Do mesmo modo.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. por um lado. E esses. mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. o leque dos comportamentos não é. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. Ela supõe. das conexões) e do “salto qualitativo”. 1. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. 139 . ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). regras ou convenções para lhe dar suporte. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. para poderem inovar. para cada grupo de agentes. pois. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior).Rupturas. para serem fecundas. as sociedades animais). químicos. Essa adesão. uma interiorização das normas e uma culpabilização. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). por um lado. completamente fechado. devem inicialmente ser especificadas.). biológicos e mesmo etnológicos. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. tão caro aos marxistas de outrora. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. como afirma o individualismo antropológico.Nos sistemas sociais. informáticos. REYNAUD). por outro lado. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo. É preciso. por outro. além das imposições do mercado e dos demais poderes. mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta.

entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. de se expandir e. por fim. seria preciso distinguir. a modificação do tipo de conjuntura. inovações. os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. as ocasiões de experimentar. no segundo. enquanto que. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. pelos golpes das OPA. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. por exemplo). modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas. em seguida. os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo. devendo encontrar. Por outro lado – apesar de KEYNES –. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. da sedentarização ao nomandismo). de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores. 2. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. acumulação. O imaginário da destruição pode.5 o pessoal patronal). mais nitidamente. No primeiro caso. então. No total.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. em período de crise. 140 . sem esquecermos ainda as marginalizações. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. de sua unicidade histórica. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. dos fatos de regressão (por exemplo. 3.Quando há ruptura. por isso mesmo. os outsiders e os parvenus substituem. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. Existe então. estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema.

3.As estruturas (as relações de complementaridade e. 55. 141 . a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. a aquisição de conhecimentos e de representações. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. n.). tal como: 1. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. um esquema ideal típico. André. A continuação do funcionamento implica. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N.Mas a adaptabilidade do sistema. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. normas. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais). em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. por exemplo.). “Malaise dans l’identification”. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social. representações. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes.Rupturas. Connexions. Ruptures. março 1989. “L’économie des conventions”. 40. por Teresa Cristina Carreteiro. Cf. V. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. 1990. mutations et complexification en économie (mimeogr.).T. para experimentar as inovações. então. Revue Économique. N.T. Paris: ERES. a adesão às normas e. por conseguinte.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). por conseguinte. portanto. então. Cf. uma mutação estrutural. n. “esgotamento da relação salarial fordista”). 2. 2. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 142 .

Fragmentos. por sua vez. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W. (Hobbes) Tempo é criança brincando. Assim. condições de “saída da crise”: l. Pois essas “perturbações”. E.Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). reorganização das personalidades e reciclagem da ação. 143 . por exemplo.Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. não se trata mais de crises (isto é. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. de algum modo. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. nos anos 60. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. de criança o reinado. 4. 3. precedeu uma crise política. Do mesmo modo. MARADONA. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. de incertezas). o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. 2. jogando. talvez anuncie o fim delas. a qual. quando não destroem a sociedade em questão.Ela mobiliza atores em potencial. no 52) A crise das identificações. “desfusão das pulsões”. Atualmente. No Ocidente. BRANDT. se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. e os transforma em autores das mudanças. TAPIE e outros). ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. MITTERAND. criam. precedeu uma crise econômica. (Heráclito. a introdução de novas referências. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. ROCCARD. porém robusta. então. João Paulo II.

assim. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. pode-se reciclar também a identidade. é claro.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. não apenas a realidade parece incerta. por outro. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. O resultado é que. para todos. com todas as posições intermediárias possíveis. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. a categorias socioprofissionais e.No final de contas. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. a grupos étnicos. O “mal-estar na identificação” traduz. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. de assimilação e de inovação. o individualismo ilusório ou de oportunismo. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. localizadas e transitórias. de modos diferentes. levados pela incerteza das situações e do futuro. 6. diz FREUD.Ela libera. reativados ou mesmo imaginados). angústias de identidade. tentativas de reconstrução. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. desses imaginários de projeto. por um lado. ao mesmo tempo. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. assimilam e transformam. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. as “intermináveis adolescências” que. ao contrário. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. a tipos de personalidade diferentes.

as reativações religiosas atuais no Irã. A identificação que não se desvencilha do partido. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis.3 A família. é claro. nos dois sentidos do termo. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. nacionais. do racismo.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. Assim. Por exemplo. a regra e as sublimações. de classe.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. Fenômeno que ilustra 145 . podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. e a aparência NAP) pelo simbólico. da empresa etc. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. profissionais. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. em vista da emancipação para o societário e a individuação. religiosas. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir). regionais. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. organizacionais etc. da igreja. solidéus – kipas – hebraicos. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. a.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. c. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador. é paralela à involução identificatória de seus membros. gorros cristãos etc. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. b.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. finalmente.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais.

quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. o narcisismo individual. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que. ipso facto. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. sendo aliás esse que permite aquele. “tem necessidade dos homens”. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. E isso. é. justamente porque mais na moda. a.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. especialmente na França. O retorno pode ir ainda mais longe. primeiramente. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. com o dinheiro. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal).Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. além disso. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. entre 1983 e 1988. isto é. fortalece as exigências da necessidade econômica. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. principalmente. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. às avessas. por sua vez. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais. Ela é. exatamente como Deus. b.Mais interessantes. Quer dizer que o narcísico.Do primeiro diremos pouca coisa.

mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. Além disso. é mais simples escolher a binaridade. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). em substituição ao “Mudar de vida”). se autodestruiria. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. simultaneamente. o mercado. “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. o prestígio etc. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno.) permite. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. “Criem sua própria empresa”. Na verdade. manter ou criar os meios de aumentá-la. Por enquanto. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. Entre a binaridade e a injunção contraditória. Enfim. o sucesso dos outsiders permite também e. se ela for realizada. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. induz não ao 147 . acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. Isso é talvez patológico. O dinheiro. A monetarização. Assim. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. numa androgeneidade fecunda. em prêmio de Schadenfreude. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. essa acumulação pecuniária permite. de junho de 68. tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. caso se propagasse a todos os agentes. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. notemos que o modelo do sucesso individual. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. mais tranqüilizadora. talvez. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. o festivo.

provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens. (T. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. necessariamente.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. esse narcisismo manipulador. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. Intermináveis adolescências. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. a programação dos computadores das Bolsas) que. logo. daí resulta. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. ao insolúvel. 1. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. um cavaleiro solitário. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. No caso de fraqueza delas. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . adolescência e pós-adolescência -. a partir de elementos de vestuário comuns. a nítida binaridade do mercado. nas três etapas – puberdade. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las. cada um será. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. na época atual. em contrapartida. passa-se rapidamente. Acrescentaremos apenas algumas observações. entretanto. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. a individualização extrema dos novos modelos. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. Nesse caso. antigamente atrasadas. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. produzem-se onde não se espera e constituem. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). fora do controle exercido pelo Centro. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo. como. por historiadores como BRAUDEL ou I. Além disso. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. É por isso que as revoluções.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. não podem ser reorganizadas e reorientadas. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. pelo menos em muitos jovens. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. pois. “surpresas”. Pode-se. Com a condição. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. Além disso. no que tange à história do capitalismo. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. entretanto. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. inclusive jovens executivos12. Assim. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. 154 . que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. pois. conjugada com a manutenção dos objetivos. uma vez instaladas. em certas regiões. mesmo que sejam minúsculas. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. por exemplo.

principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. das idéias. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. diz WININICOTT). no adulto não é a repetição mas.. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. GODALIER). aí. constitutivas da personalidade e. dos valores..). mas existem. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. cujas identificações seriam. MC DOUGALL). substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. das coisas. a captação do lúdico (jogo de papéis. no início. podemos contrapor. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. ao contrário. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes. do espaço.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. ainda mais. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. política etc.. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. a conformidade e. Paralelamente. Assim.) pelas outras. as identificações são. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. idealmente. Mas. dos prazeres. logo. unicamente confirmadoras da identidade. por sua superação.. numa situação de mal-estar. Em contrapartida. jogo de empresas. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft). a personalidade arrisca-se a desmoronar). E como se sabe. em seguida. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento.

onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. . Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. representadas e transicionais.13 Fundamentalmente. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. Essa é. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. sem dúvida. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . Mas. . como vimos. em identificações hierárquicas.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. então.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes. Desse modo.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. imprecisas e transitórias.experimentam-se.a dificuldade está. . é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza.tentam-se. por exemplo). em transformar as identificações laterais. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. entre esses tipos extremos e opostos. . ao mesmo tempo que se escreve. então. a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. com o 156 . então. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. DUPUY.

diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. da maioria dos marxistas. das coordenações pelos sindicatos etc. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. pois. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. o fim da história só concerne a cada indivíduo). de bandeiras. Daí a multiplicidade. em concorrência). como na tectônica as placas entram em fricção. de Daniel BELL e de FUKUYAMA.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. com a eliminação das organizações. e das intermináveis adolescências. Há.Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. apesar de tudo. quanto para aqueles que o desemprego. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. de fetos ou de liberdade de viajar.. Algumas conseqüências 1. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo.. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. Essas apropriações podem. podem entrar em conflito. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). por isso. o mal-estar subsiste. das utopias (“mudar a vida”. Chegando à encruzilhada. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. 2. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. dos indivíduos e da identificações 157 . (O que prova. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. tanto para os autores das mudanças. de passagem. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. às vezes. no fim de contas. Enquanto isso. na Colômbia ou alhures. em 1981). que apesar de HEGEL. outsiders ou reciclados. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. aliás. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago.

Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. necessariamente. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. portanto. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. Os signos (o sol. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. e a complexidade progressiva do sistema. ao mesmo tempo agradável e funcional. E a que corresponderia. as gerações.Mas sabe-se também que o vínculo social e. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. a estrela polar) são. pedidores de emprego. amanhã. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos).Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. talvez. 158 . os espaços.). O barroco societário atual é. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. ENRIQUEZ. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. então. as culturas etc. Ora. Por isso. como alguns dizem. principalmente). mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. encontramo-nos. um momento dessa ascensão. os tempos. 3. por um momento denegadas (entre os sexos. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. as únicas referências ainda fidedignas. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. Talvez. suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. das normas e das formas. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema.

Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. sociedade e personalidades”. “L’économie des conventions”. Temos assim uma alternância de interpretações. Petit Larousse. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. para outros? Mas.T. As épocas de crise e reconstrução valorizam. Revue Economique. nas diferentes esferas do social. no mal-estar. os atores (Individualismo). “Zur Kritik. MARX. logo. do econômico ao sagrado.” In: M. C. Passy. É por isso que. RUBEL. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. NAP: Neuilly. Mais dura foi a queda. 55. Connexions. simultaneamente. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. 40. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). por Eliana de Moura Castro. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre). 1990-1. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. 159 . onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. 61-78.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. p.. ao contrário. 1981. Hoje ele teria. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. n. das coesões) não parece ainda inventada. p. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. 1989. Estaria a saída. 29. Auteuil. Tomo 1. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. N. Gallimard. 2 de março.. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement.]. Pléiade. O problema: em época de “destruição criativa”. edição de 1963. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. no adulto que eles se tornariam. então. Oeuvres: Économie. André. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. 239. W. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”. na formação de ninho familiar. sem dúvida. naturalmente). a receita das identificações complementares novas (e. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.

. J.-P. Si tu m’aimes. 1987. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. CAILLOIS. Paris: Gallimard. 1988. De la horde à l’Etat. Freud et l’éducation. Connexions. BOURDIEU. Bulletin de l’AISLF. Le désordre. D. J. The end of ideology. Autrement. n. Le lien social. ENRIQUEZ. 1988. Ordres et désordres. Paris: Minuit. Uma mudança social. CHASSEGUET-SMIRGEL. M. 1975. n. “Les représentations sociales”. M.. 1974. 1989. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. “Le changement en question”. L’homme et le sacré. 1988.. M. E. D. L’acteur et le système. ARMANDO. mobilidade. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. 51. Paris: PUF.] uma não-imitação de exemplos paternais”. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”. J. Les deux arbres du jardin. 1984. 1989. Les contradictions culturelles du capitalisme. DE CLOSETS. 1982. Y. 1979. Paris: PUF. M. 1976. CROZIER. Paris. 1960. J.. 4. Paris: Seuil. 1982. 29. 1981. New York: Collier. ne m’aime pas. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. J. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. T. 1982. Paris: Seuil.. P. BELL.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. 1977. DETIENNE. 1988. n. DENOYELLE. Paris: Grasset. Paris: Seuil. 1985. 1983. 45. BELL. Autonomie et systèmes économiques. ELKAIM. Aux carrefours de la haine. Winnicott en pratique. E. Interminables adolescences. ENRIQUEZ. Les destins du plaisir. Paris: PFNSP. Toujours plus. Grenoble: PUG. Paris: Gallimard. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. VERNANT. 160 . Paris: Epi. R. AULAGNIER. P. Connexions. LECA. CERISY (Actes du Colloque de). Paris: Cerf. Cf. Tese. FRIEDBERG. por outro lado. L’individualisme. Le paradoxe et le système. Paris: ESF. G. Cujas. 1979. 1989. BELL). 1950. Les ruses de l’intelligence: la Métis. Paris: Seuil. P. Les révolutions minuscules. ANREP. oportunismo. P. 1979. Paris: Flammarion: 1974. A. Paris X. BALANDIER. La distinction. para TARDE. BAREL. Paris: Fayard. 1988. Paris: des Femmes. F. n. DUPUY. BIRNBAUM. CASTORIADIS. Paris: Seuil. L’institution imaginaire de la société. L’auto-organisation. C.

Le Monde. WIDLOCHER.. 15 nov. 1974. D. LASH. Paris: PUF. 161 . “Psychologie des foules et analyse du moi”. Paris: Gallimard. FREUD. GODELIER. A. L’empire de l’éphémere. psychose et perversion. L’autre et le semblable. 1980. symptôme. 1978. LÉVI-STRAUSS. S. S. “Et le poussent jusqu’au bout. M. 1979. 1980. “La fin de l’histoire?” Commentaire. “L’économie des conventions”. A. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. n. Le Monde. “Penser le chômage”. Le complexe de Narcisse. Paris: PUF. LIPOVETSKY. Malaise dans la civilisation. FUKUYAMA. S. “La nation disparaît au profis des tribus”. G. Rationalité et irracionalité en économie.” Connexions. Ressources. MENAHEM. Paris: Maspéro. nov. A. angoisse. 40. 1958. 1989. 1966. Paris: RFP. Paris: Gallimard. G. WINNICOTT. “Les Français et l’argent”. “La politique en apesanteur”. Paris: CNRS. Nauplie. Freud et le problème du changement. G... Revue Economique. Vers la société sans père. Paris: Payot. D. La pensée sauvage. 18 julho. 1989. Paris: Denoël. 1989. 1987. D. 1983. B. 1981. 18 mai/7 jun. J. NICOLAÏ.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. Paris: Plon. MENDEL. Jeu et réalité. 20. Paris: Gallimard. SIBONY. Paris: Plon.1974. Pouvoirs de l’horreur. 1934. n.. F. Paris: PUF. n. Paris: Seuil. 27. n.” Peuples méditerranéens. 1988. 1951. S. Le retour de l’acteur. nov. A. D. 1977. In: Essais. Pour décoloniser l’enfant. GOFFMAN. n. SIBONY. outono. Les enfants de Jocaste. 1989. FREUD. MITSCHERLICH. E. NICOLAÏ. Les lois de l’imitation. LÉVI-STRAUSS.. FREUD.” L’homme et la société. junho 1987. Forum de Delphes. n. Paris: Laffont. Psychologie des minorités actives. LE GENDRE. Traverses. 51-54. S. TARDE. KRISTEVA. 3. 1984. Paris: PUF. Les rites d’interaction. Cl.. Le Monde. M. 1970. S. Névrose. Cl. Paris: Gallimard. Revue française de psychanalyse. SEARLES. A. SEGALEN. Paris: Payot. Anthropologie structurale I. Mc DOUGALL. Idéaux. 10. 25 de out.. et al. H. Le déclin du complice d’Oedipe. 1971. 26 jan. Playdoyer pour ume certaine anormalité. TOURAINE. Paris: Fayard. 1989. Paris: Gallimard. n. 1980. FREUD.. MOSCOVICI. 1971. 1989. OLIVIER. 47. “La voix écoute”. 1973. de la vertu et de plaisir. FREUD. Inhibition. Paris: PUF.. “Et mourir de plaisir. Ch. 1989. W. 2 de março. “Les mutations de la famille. 1982. G. 1971. out. 1981. 1980. NICOLAÏ. 1989. Paris: Minuit. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. n. A. FINKIELKRAUT. Cl. L’effort pour rendre l’autre fou. Reedição GEX. 1979. J. 38-39.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. em uma espécie de “crise das instituições”. Poderíamos dizer. que essa “crise” também eclode em vários países e que. na maioria das vezes. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. Assim. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. LÉVY (“Intervenção como processo”. contribuir. pelas Comunidades 165 . essa parece ter sido. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. em cada lugar. nas décadas de 60/70. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. desembocando. sem dúvida. os textos de J. Pelo que eles mesmos nos contam. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. 1980) e de E. No Brasil. É bem verdade. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. em fins de 50/início de 60. Benevides de Barros É. instrumentalizada então. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. por exemplo. sem vê-lo como algo já dado. também. ela tomará formas próprias. lançar um olhar novo sobre o mundo. entretanto. 1980. de A. 1987). mais tarde. criando em nós uma vontade de entrar no debate. a partir da divisão não-saber x saber.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político.

Rio de Janeiro e Belo Horizonte. E. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. crítica das experiências instituídas. então. analisador histórico do status quo vigente. por outro. GUATTARI e G. principalmente. PAGES. da burocracia partidária. designa a crítica à naturalização das instituições. Por aí. ainda. Os fins do anos 60/década de 70 serão. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. quando tomado em seu sentido amplo. político e social. HESS. DUBOST. ARDOINO) ou. Ainda que marcados por grandes diferenças. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. convulsionado pelo golpe militar. ENRIQUEZ). DELEUZE). 166 . questionamento de seus modos de instrumentalização. Em meados de 60. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. uma certa psicossociologia se faz intervenção. do conservadorismo universitário. J. então. LAPASSADE. R. LÉVY. J. colocou em cheque. No campo da Psicologia. inserem-se. As instituições são analisadas. de um lado. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. No Brasil. fica claro que “Movimento Institucionalista”. Vemos. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. através do contato com os “institucionalistas” franceses. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. desde essa época. G. palco de uma produção expressiva. chegar também até nós o eco dessas produções. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. como à Argentina. ao Chile e ao Uruguai. O mês de maio de 68 francês. A. LOURAU. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. o país. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. presenciamos. na interseção dos campos filosófico. à Socioanálise (R. de modo generalizado. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam.

respectivamente. de Rouchy e. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. Se no início a orientação era claramente norte-americana. p. 1992. portanto.. 1992. a influência do pensamento institucionalista francês. “(.). sobretudo. em 1959. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG.) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (... (MATA-MACHADO. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.R. Ambos haviam participado.. além de seus próprios escritos. segundo a autora.. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. que congregou pesquisadores práticos (. os professores Max PAGÈS e André LÉVY.). 2). 2) O pensamento institucionalista atravessa. fomos lançados numa perspectiva rogeriana.) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. p. Junto com René Lourau (... Lapassade (..Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita.).. como grupo.. p.)”. mantinha. através do Curso de Psicologia.P. sob a liderança de Garcia. com a qual logo rompemos (. cuja prática foi denominada Socioanálise”.. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. (MATA-MACHADO. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA)... É marcante. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. segundo M..) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. de forma mais pontual.. a partir de 1968.. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969. 1992.) Em 1971. mas há algumas produções importantes que já apontam. mais especialmente. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. 3-4). A entrada se dá. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. O recente trabalho de M. voltado à pesquisa e à prática. via Universidade e. Lévy apresentou-nos. Com PAGES. tivemos entre nós. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques).(. Em 1967. MATA-MACHADO. 167 . alguns de Enriquez. da formação da A.I.

absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. R. somou-se a influência do pensamento de outros (M. 6). construindo-se práticas singulares. na Europa. fez com que. DELEUZE. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. enquanto que. Encontramos. entre outros). 1992). no Brasil. p. “parcialmente abandonada. Ao mesmo tempo. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP.. LÉVY. DUBOST e E.)” (MATA-MACHADO. No Rio de Janeiro. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. LEITÃO e BARROS. LAPASSADE. pedagogos. por um certo tempo. MENDEL). entretanto. há alguns projetos em andamento. 1986). Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. ENRIQUEZ. Hoje. p. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”. menos desejosas de mudar o mundo (. O pensamento pichoniano. Digo isso porque chama a atenção o fato de que. O que se percebe é que. J. G. são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. além dos autores já citados.. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. a partir de então. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. F. o movimento institucionalista inclui sociólogos. no Rio de Janeiro. 4). É também na década de 80. mais tarde. em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. cujos interlocutores privilegiados são A. 1992. CASTEL.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. em fins de 70/início de 80. psiquiatras e psicólogos. atentas às características da realidade brasileira. 1987). Essa perspectiva é. 1992. assim. 168 . GUATTARI. mas estendendo-se até hoje. LOURAU. segundo a autora. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. Na década de 80. G. G. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. FOUCAULT. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise.

(coord. 1992. as contribuições da socioanálise. 327p. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. 22p. mais tarde. tendo incluído outras influências teórico-práticas. Petrópolis: Vozes. se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. 169 . Marília N. GUATTARI. hoje. B. já toma contornos bastante diferenciados. RODRIGUES.). Heliana B. RODRIGUES. Mas. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. Grupos e instituições em Análise. e BARROS. Regina D. Félix e ROLNIK. na universidade – PUC/SP –. 1986. e BARROS. C. Rio de Janeiro: Vozes. MATA-MACHADO. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. Belo Horizonte. difundiram-se os pensamentos de F. bem como na entrada. B. Osvaldo (orgs). Análise institucional no Brasil. e SAIDON. (orgs). Vida R. Gregório F. desembocando em algumas traduções e publicações. incluindo. Intervenção psicossociológica. KAMKHAGI. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. encaminhou-se para a formação de centros de estudos. LEITÃO. (mimeogr. (mimeogr. 1987. Regina D. nas intervenções e práticas sociais. Heliana B. Micropolítica. Rio de Janeiro. o “pensamento institucionalista”.. à instituição de formação e à de pesquisa.).Intervenção psicossociológica Em São Paulo. 164p. 1986. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam. sobretudo. DELEUZE. A década de 60: seus efeitos no pensamento. 1984. em suas várias vertentes. Referências bibliográficas BAREMBLITT. em São Paulo. História do Movimento Institucionalista. pesquisas e intervenções. M. O inconsciente institucional. em alguns casos. C. 1992. de obras desses autores. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. ROLNIK. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. Especialmente através dos trabalhos de S. 175p.). Cartografias do desejo. Suely. GUATTARI e de G. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. Atualmente.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. de variáveis como: a.I. as dificuldades sentidas por um ator social. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados. em uma determinada situação. principalmente.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. a natureza do “saber-fazer”. além dos desejos de terceiros. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam.P.a formação. em primeiro lugar. a interação entre essas variáveis. b. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . aqui. finalmente..NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam. os princípios e as modalidades de sua intervenção. implicando opções e esforços de imaginação e que.R. o status e a posição social. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. Mas creio. c. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e.as condições gerais que engendram. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica. Limitamo-nos entretanto. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. Por mais banais que sejam. a algumas observações. mais ou menos livremente.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos.

da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política. da conjuntura. de reeducação. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. Nesse contexto. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. do recrutamento de pessoal. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. evidentemente. pelo problema da reconstrução. estabelecidos na capital. do 172 . de gestão. ênfase a métodos estatísticos. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. comportava. nos mesmos organismos3). Muitos dentre nós trabalharam. simultaneamente. então. entre 1945 e 1959.). da formação em habilitações. inflação. o Marxismo. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. a busca de participação. o funcionalismo etc. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e.. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. missões de produtividade. Na Sorbonne. em períodos diferentes. de estruturas de direção. O período imediatamente após-guerra foi dominado. suas aplicações no domínio da economia. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. econômica e social.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional.

desenvolvendo uma abordagem mais global. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. em 1961. MORENO e depois ROGERS). pela Dunod). as obras de G. estudos de mercado –. em seguida. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. separam-se em duas tendências. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa. especialmente. a partir de 1952. o movimento trotskista.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. no plano das práticas. pouco conhecidas na França. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. o movimento que iria ser denominado “institucional”. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. da gestão etc. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. André BRETON. por exemplo. se as tentativas de Reich são. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. lembremos. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. Em relação a esse último ponto. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. onde milito durante esse período. na França. é o momento também no qual G. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. a partir dos anos 40. levantamentos de dados com amostras – opinião pública. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. a relação crítica e complexa que G. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. da demografia. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. nessa época. então. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –.

utilizando um tipo de entrevista inspirada em C.5 retém. servem. Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. Entre essas últimas. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?.S. CASTORIADIS4 e Cl. no qual se encontra B. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. Igualmente um outro. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. a C. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito.G. durante a ocupação. separa-se da IVa Internacional. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado. WILLIAMS. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. Perret. em função do problema da burocracia operária. dirigido por C.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. desde sua origem. em 1947-1948. Antes de sua volta aos Estados Unidos. em 1949. LEFORT. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. sobre a “moral” da empresa.E. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. na relação que elas estabelecem com o cliente.O. com o restante do relatório. mas elas permanecem muito próximas. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. Entretanto. R. um dos colaboradores dessa equipe. 174 .

As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados. as que são conduzidas por equipes francesas. em última análise. em empresas maiores. depois eventualmente coletivas –. de início. porém. junto a pessoal assalariado de uma empresa. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. se abrem a uma abordagem mais clínica. passando pelas reformulações européias do T. Da mesma forma. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais.I. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. da mesma forma que a direção. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. 175 . elas colocam. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. apoiando-se nos resultados. Ao contrário.W. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes. e eles devem ter acesso aos resultados. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. parece cada vez mais interessante. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –.

mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. as disfunções. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. modos de remuneração. ou aos que decidem – Direção Geral. um objeto de trabalho. Por outro lado. higiene. ele se pergunta se os bloqueios. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. e tenta inventar. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. feita pelos encarregados da pesquisa. a se expressarem. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. grupos de mais velhos. de pagar o preço por sua solução. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. sua natureza real. características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. turn-over. Enfim. cujos conflitos. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. pelos sentimentos coletivos. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . as crises. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. ainda marcam representações e atitudes para com a direção.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. Direção de Pessoal –. Ajudando todas as pessoas. algumas vezes antigos. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. para uma orientação mais clínica. no interior desse quadro de atitudes. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. pirâmide de idade. as relações intercategorias e as microculturas da organização. Em outros termos. Ele faz da relação de consulta um problema em si. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas.). queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. que fala sobre seu campo e suas intervenções. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. absenteísmo. e essa não sendo a conseqüência menos importante. segurança etc. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos.

Porém. de fato. ele crê que. isto é. ele próprio contribui. os processos de preparação e tomada de decisões. permitindo a expressão do reprimido. mesmo desejando o contrário. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. mais tarde. acaba totalmente reforçada. isto é. do especialista em uma técnica de produção. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. os sistemas de comunicação na empresa. além dos arranjos menores concedidos. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. em especial dos inconscientes. de perceber direções de solução. à medida que esses são identificados. de fato. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização. mesmo nesse caso. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. 177 . se aceita. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. a idéia de que a intervenção. Nessa perspectiva. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. ajuda as categorias vítimas da repressão. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. ele exerce uma pressão que. sem dúvida. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. sem dar conselho. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. gestão ou organização. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo.

I. ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. Tenho a impressão de que. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista.R.P. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. Da mesma forma. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. O caráter clínico do novo grupo. das formas de autoridade. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. a 178 . os limites das ações de intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. em uma empresa nacional. mas também em uma transformação cultural profunda. então.. mais do que acelerar tal processo. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. A outra continuava a realizar. do psicodrama analítico etc. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto. No momento da criação. nessa época. Os anos sessenta No momento de criação da A. (1959).

os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J. se podemos dizê-lo. a metade já era. do sócio-técnico e mesmo do econômico.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. a continuidade no tempo.7 Paralelamente. até 1966 (marcado pela vinda de C. de inspiração rogeriana. terapeutas ou analistas. a metade das atividades da A. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. de sociologia das organizações. era de um terço. neles. HERBERT. nesses. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas.6 No começo dos anos sessenta. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. atuando diretamente no campo. a proporção era aproximadamente de nove décimos. dominou os primeiros anos de funcionamento. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração).P. e ainda agora. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. A orientação não diretiva. uma longa intervenção em uma empresa implanta. dez anos depois. ou iria finalmente se tornar. Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 .I. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. durante todo esse período. reunindo às vezes toda a equipe. algumas vezes mesmo de introdução à economia. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama.). outras vezes apenas três psicossociólogos. malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. ROUCHY). de metodologia psicossocial. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). de formação de adultos.R. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. A organização e a condução de seminários representa. grupos abertos de análise etc.-C. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado.

a demanda se estende a associações. movimentos educativos. o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. junto a organizações com função econômica. então. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e. em 1961. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. de psiquiatras e de psicoterapeutas. Ao mesmo tempo. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão.N. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc. Mas creio que é necessário evocar também. de maneira ainda mais geral. por volta de 1965. é uma intervenção no México. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. de trabalhadores sociais. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada. por exemplo. de padres e religiosos. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. as condições ideológicas próprias da França.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. para explicá-lo. 180 .P. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça.E. em Paris. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. a integração. de atendentes. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. Psicossociologia e Política etc. diversos membros da A.I. na equipe. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U. É sobretudo na França. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). durante vários anos.). desenvolvimento organizacional).R. junto a um Centro de Produtividade. Entretanto.F. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. a guerra da Algéria. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos.

integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula.elaboração de projetos de pesquisa-ação. com os quais a A. como muitos outros. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho. que dava uma direção totalmente imprevista. o período que se seguiu a maio mostra.I.9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: .V. mesmo que modesta.O. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). dentro de certo prazo. uma evolução global do sistema educativo. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global. não desembocou no político.P. antes de 68.E. ao contrário. .E. como o fazem os indivíduos ou os grupos. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. simultaneamente política e cultural. As instituições não se analisam. Embora alguns dentre nós víssemos. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. por exemplo. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural.. ao considerarem suas relações e vida psicológica. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. a despeito de sua repercussão no conjunto do país. nas ações de movimentos como a F. trabalhava desde 1964. de uma audácia espantosa. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança.R.10 . por parte da instituição.N. mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. uma direção susceptível de provocar. através do desenvolvimento de ações locais. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS).as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. centrando-se na evolução das pessoas.

Como o mostra André LÉVY. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. afastando-se dela em seguida.12 .A partir dos anos 60. 182 . relativo primeiramente à natureza das relações sociais. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. bem problemático. 1967. tende a se ver como um analista com funções de elucidação.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. parece-me que. ou “indutor de mudança”. até o começo dos anos 60. a “socioanálise” ilustra. quando as referências à pedagogia ativa. ou melhor. devendo ser afastado ou suspenso. ele deve ser buscado em outro nível. sob a influência do pensamento psicanalítico. mesmo quando. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. na prática. sem dúvida. parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. “agente de mudança”. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. mas também de seu objeto de trabalho. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. no campo social. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. Esse último aspecto leva à questão mais geral. progressivamente.11 Estudando (por três vezes: 1963.Porém. O modelo do analista pareceu sempre. no último período. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. benefício a mais).nos anos que se seguem à Liberação e. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . tal opção. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. em especial lacaniano. . no plano das idéias.

é certamente oposta à acepção lewiniana. por exemplo. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . tendo em vista sua própria história. Se ele se encontra em uma posição menos central. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. ou satisfazendo o próprio exibicionismo. por exemplo. presente nele. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. porque ocupa. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. com todos os riscos que isso comporta. cedendo a pressões de que se é objeto. Simetricamente. nunca é independente.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. na referência ao próprio lugar ocupado. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo. e. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. lugar onde se está. nem a se considerar parte da ação. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. A expressão pesquisa-ação. a esse respeito. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. pertencente ao campo estudado. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. ou que se tenta ocupar. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. Toda intervenção psicossociológica. no campo. como pesquisador ou consultor social. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. sobretudo.

3.O.P. Paris: Epi. secretário geral da associação. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. n. contra. Sociologie du Travail. “L’Analyse social”. 1303. André. seu vice-presidente. n. responder a essa questão. 1978. 9 Cf. 1971. J. 12 Cf. 8 Cf. quatro anos depois. 17. 806. LACAN. não se pode. 50-68. presidido por Jean STOETZEL e. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. 7 Max PAGÈS. 1977. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. n. la Mort. 1304. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 1980. Connexions. 2. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou.E. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação. e de A.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. André. com universitários como Georges FRIEDMANN. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”. de forma mais livre.S.-C. de PERETTI. por exemplo o artigo de J.”. Paris: Payot. 1963. In: ARDOINO et al. 857. Connexions.. Le psychosociologue dans la cité. Jean-Claude ROUCHY.). Droz. 4 Cf.F. ou mesmo depois de terminar. ROUCHY em Connexions. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. Continuando. no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. n. 10 Cf. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. jan. Paris: Dunod. por Marília Novais da Mata Machado. 1332 etc. In: Fondation Royaumont. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. p. 2 3 184 . LÉVY. 1972. 1969. Intervention et changement dans l’entreprise. 1980. Épi. mais recentemente. Gallimard. les Sorts. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. meu texto de introdução em Elliott JAQUES. A C.) e dos de Cl. “Une intervention psychosociologique”. desde sua criação. de 1955). 1972.. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. 13 Les Mots. 825. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). 5 Compagnie Générale d’Organisation. 29 de Connexions. Psychosociologies. “Dire la loi. 1967. evidentemente. sobre esse último ponto.O.. Ecrits (por exemplo.-março. 1331. L’intervention institutionnelle.G. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. a partida de Max PAGES. Jean e LÉVY. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). n. sobre. o capítulo “Variantes de la cure-type”.T. 11 Cf.

esses ainda são muito relativos. através das contradições de suas condutas profissionais. bem ou mal resolvidos. à crença em sua positividade fundamental e. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. além disso.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. Porém. Porém. Esclarecer sua posição em relação às situações. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. mesmo que artificial. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. entretanto. No que me diz respeito. permitindo esclarecimentos progressivos. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. Tal afirmação. quando é apenas verbal. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. há muito tempo. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. porém. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. 185 . Parafraseando HEGEL. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. sobredeterminado por uma profunda lógica. tem qualquer coisa de suspeita. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos.

penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva.6 por esse rótulo. As tomadas de consciência. mais lúcida ou. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo. científica. na França. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. ainda hoje. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. ou mesmo a um nihilismo. junto aos grupos envolvidos. em relações diretas. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. face a face. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. Toda a minha experiência. diretamente. ao contrário. dizem respeito. longe de chegar a um ceticismo. cada vez mais claramente. desapaixonada. ela é. com freqüência. sem dúvida. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. leva-me. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. Durante muito tempo e. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. fundamentalmente. a reconhecer. instituindo. no mínimo. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. reciprocamente. ela desconhece 186 . diferentemente lúcida. As práticas de intervenção. Ela repousa.

os problemas atuais da empresa. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. de outro lado. com efeito. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. que. então. supõe. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. cuidando. considerado como um diagnóstico e. A reunião desses diferentes objetos na análise. em determinado momento. de um lado. sobretudo.7 A última intervenção da qual participei. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. com vistas a decisões e ações. Porém. Tal metodologia induz. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. é apenas um simples instrumento ideológico. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. que adotava aproximadamente esse modelo. de uma forma histórica. 187 . caso contrário. visto como ligado demais ao responsável comercial. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. de forma alguma. isto é. data de 1972. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. quase narrativa. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. mas. esclarecimento das funções. por sua vez. seu amigo. implicitamente. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. melhor coordenação administrativa. uma única vez. de quem dependia bastante. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. De toda forma é surpreendente que. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto.

complementares. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). particularmente por meio de nosso relatório oral. a coexistência desses diferentes discursos. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. sem dificuldade. sobretudo. à medida que cada discurso. expondo cada um com a mesma objetividade. A pesquisa havia fortificado essa esperança. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. e. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. como se esperava de nós. em outras palavras. ideológico-afetiva. mas potencialmente articuláveis entre si. inevitavelmente. no limite. um de cada vez. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. então. para apreender a “realidade”. A perda da esperança acarretou. teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. Em outras palavras. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. organizacional). a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. porém situados no mesmo plano. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. e sobretudo. e de passar assim. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. reconstituído graças a nossos cuidados. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. de um a outro. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. traduzia também. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos).

que não se reconhecem como um discurso. não aceitamos seus pressupostos. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. reduzidas a enunciados fechados. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. associa-se necessariamente à busca de um sentido. perceber o quanto a prática da pesquisa. a partir de diversos “pontos de vista”. ações ou decisões (saber para). levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. desconectados das condutas e estratégias. ao contrário. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. em seguida. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. Essa crença conduz. constrangidos.Intervenção como processo (subjetiva demais. embora imperfeitamente. de uma explicação geral. para o recalque: primeiramente. Longe de favorecer um processo de análise. então. 189 . Essa experiência possibilitou-nos. sabemos. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. articulá-las. isto é. é a função das representações. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. legitimamente. o “real”. Mas se aceitamos. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. no mínimo. em discursos que as pessoas expressam. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. em contrapartida. excessiva demais) e conservar. assim. desejaríamos. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. o levantamento de dados. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. qualquer que seja a maneira como é conduzida. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. a pesquisa contribui. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. escutada ou recusada. assim. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela.

de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. instituídos. na qual uma resposta instantânea. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. então. na qual o imediatismo do risco é sensível. A não ser que se idealize o processo de análise social. mas. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. se articulam e se transformam. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. sob forma falada ou atuada. no sentido pleno do termo. O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. ser feita em uma experiência de comunicação. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face. 190 . então. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. Porém. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. Os grupos face a face aparecem. com efeito. na enunciação. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. Só é possível. independentemente das maneiras como se atualizam. moral ou corpórea. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. sua posição de exterioridade é apenas relativa. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. reciprocamente. pode ocorrer. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico. essa só pode. se há um resultado do qual estou seguro.

não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. grupo do outro. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. em função de uma “demanda”. isso é apenas uma petição de princípios. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. corpo a corpo. o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. material ou simbólica. das quais necessariamente é parte. por parte do analista. o respeito à regra de abstinência. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. isolados de toda historicidade. 191 . tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. por exemplo). mas relações de transferência. no sentido preciso desse termo. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. pressões. estratégias. do não agir. Nas situações de intervenção. no próprio ato que o institui como analista. essas relações implicariam particularmente. com a participação do analista-interventor. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. desde o início. uma vez que. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. ele se insere no mesmo sistema de alianças.

ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação.12 e a legitimar sua interpretação. do “aparelho psíquico grupal”. por meio de regras explícitas e implícitas. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. isto é. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. fragmentada. preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. fora da situação de análise. ele elimina. quanto para as relações internas. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. seu objeto. O interventor pode. não unificada. no mesmo ato. um serviço). então. traduzia o desejo de tirar 192 . Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. por antecipação. realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. assim. tendo que tomar decisões e executá-las. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. Um dos objetos de análise pode ser. o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. por exemplo. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio.

nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. Se isso é em parte verdadeiro. merece ao menos uma explicação. a composição do grupo pode evoluir. que a emergência dos conflitos latentes. as resistências internas na organização tendem. como. Um dos resultados. quando o interventor. a não ser provisoriamente. assim. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas. por exemplo. paradoxal. a desmistificação de certas crenças. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. institui tal quadro. mas também para o gozo sexual ou estético. o que vale não só para a análise. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa.). essa modalidade se constituía. de uma terapêutica localizada. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. que continuaria submetido às regras administrativas. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. numa colocação em ato do desejo. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. Não se pode escapar disso dizendo. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. o abandono de tabus. e o grupo de suas restrições externas. observações. do trabalho de análise. com efeito. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. especialmente do médico-chefe. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. como o fazem certos psicanalistas. pesquisaação etc. à medida em que o trabalho progride. ele entra em conluio com as resistências. a presença. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. Nessa perspectiva. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos.Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. Certamente. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. É por isso que.

um possível onde havia certeza. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá.. mas uma subtração. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. a da organização científica do trabalho. no mínimo. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. ao risco. centrada nos problemas de produção racional. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças. conseqüentemente. o acesso a uma história. uma certeza a menos. irredutíveis. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. um acontecimento marcado pelo advento. com noções e representações úteis à ação. ao desconhecido. de acordo com eixos orientados. Em um texto anterior. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. a da burocracia. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. à incerteza. isto é. do pior ao melhor. as peças começam a circular. toda teoria organizacional é relativa. um jogo mais livre se torna possível. então. uma questão onde havia uma afirmação. Com efeito. Com efeito. inclusive nas pessoas. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. um novo pleno. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas. centrada no sistema de regras etc. Não é uma soma. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. antes de tudo. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. do menos ao mais. em face à eventualidade de uma ruptura. a mudança representa para nós. ou como o reconhecimento de clivagens internas. uma certeza a mais.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. O novo que aparece não é. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 .. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista.

mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. são discursos destinados a legitimar. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. temporais. as ações e as divisões.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. com a finalidade de construir referências. mas em apreendêlas como discursos incompletos. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. Nessa perspectiva. então. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. a análise não alcança objetivamente um real suposto. para os outros e para si próprios. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. Assim. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. o processo de análise não pode. desde 195 . tenta explicar. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. enfrentar e ocultar as contradições que vive. também ela. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. Entretanto. Nesse sentido. somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. Pareceu-nos. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. então. o que dá no mesmo. hierarquizado. ordenado. permanecem divididos os discursos de representação. explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. com efeito. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). tendo sua própria pertinência.

dado o mal-estar existente no interior da comunidade. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. que deveria ser. em especial. em sua maior parte. isso não apenas não os inquietou mas. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. era o sentimento de que não poderia. Embora eu tivesse trabalhado no passado. como condição para aceitarem sua missão. ao contrário. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. pareceu-me simpática. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. com pessoas pertencentes a esses meios. ela pretendia ser. por diversas vezes. talvez tivesse mesmo o inverso. como ocorrera na assembléia anterior. Depois de uma breve hesitação. 196 . A razão de minha determinação. aliás muito rapidamente. Para ilustrar o que precede. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. Assim. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. destinadas a serem engavetadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. reificaria significados. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. Esclarecemos. Igualmente. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. tanto quanto pude analisála. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. aceitei. citarei o caso de uma intervenção muito breve. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Buscavam essencialmente um “técnico”. endereçada agora a mim. com interesse e prazer. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. por sua vez. mas a demanda.

na história da Comunidade. Como já mostrei. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. cuja forma seria definida? 197 . de outro lado. em seguida. que não podia ser perdido. Para isso. pela Comissão) como um ponto de transição. à noite. Ela havia sido decidida no ano precedente. à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. vencimento dos prazos para decisões importantes). pelo menos. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. em relação à Comissão e. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. dois encontros no local da Assembléia Geral. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. depois dos debates. de um lado. uma Assembléia Geral extraordinária.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. era considerado por muitos (ou. atendendo expressamente à sua demanda. diversas sessões haviam sido previstas. o lugar deles. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. Como cheguei lá. de fato. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. Tratava-se então de um momento que. e enfim. se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu.

tendo em vista a Assembléia Geral. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles. eu próprio me sentia um estranho. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. as relações entre elas.R. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades. Eu era calorosamente acolhido. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. Espantei-me. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis. a fim de levantar suas opiniões. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. as regras às quais se submetiam etc. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. com a ajuda deles. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. talvez também meu próprio sobrenome judaico. ao mesmo tempo. O fato de que eu estava lá como um profissional. evitando toda aspereza. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. Parecia-me. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. Nessa ocasião. os textos definindo seu funcionamento.Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. então. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -.). com amizade e com confiança. então. esquivando-se dos conflitos e divergências. de sair de um estilo de relações muito corteses. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. 198 . como um estranho mas não como um intruso. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. tomei conhecimento. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade.I.P. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. sem implicação com o grupo.

seu papel de porta-vozes puros. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. observei. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. Pareceu-me. mas representavam também. para a escolha dos temas que seriam então tratados. O papel que tinham era não apenas técnico. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. que eles deveriam. a meu ponto de vista. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. Eles aderiram. então. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. sem deixar de observar. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. periodicamente. ao contrário. sem dúvida. 2. com relativa facilidade.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. demonstrei que. em última análise. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. declarei-lhes: 1. pelas vontades expressas pela “base”. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . assim.Intervenção como processo No nível do conteúdo. em nome de valores democráticos. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada. entretanto.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. com bastante veemência. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral.

sem implicar posições táticas e políticas. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). com alguma hesitação). exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. Caso eu participasse da Assembléia Geral. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. seria necessariamente confundido com a Comissão. eventualmente. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). Com efeito. Paradoxalmente. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. ao contrário. a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). No limite. Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância.

Mas isso resultava não de uma diferença de natureza. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. judeu) tinham para eles. Assim. durante um vazio de poder). para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. sem direito à palavra. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. formalmente.. sobretudo. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido.I. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. Certamente.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras.P. ligado à Comissão. ficou claro que: a. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. existente no real. membro da A. b. uns em relação aos outros. isto é. até a eleição do próximo Conselho. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. mas também de escolha de orientação política. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer.Intervenção como processo como observador. não em trocas prévias. entre nós e os membros da Comissão. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. a partir dessas diferenças em status 201 . mas no calor da discussão.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. Deveria representar um tempo de análise coletiva. nossa posição profissional e inserção institucional. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava.R. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho.quanto a mim. através de minha inesperada implicação afetiva. durante o primeiro dia de trabalho. c.

entre a Comissão e o Conselho. a partir desses documentos. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. por sua vez. Foi preciso. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. o desenvolvimento de um certo trabalho. relatórios de reuniões. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. Na sua maior parte. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. era “relativa”. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. Nesse sentido. nossa alteridade. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. a partir desse primeiro dia.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. às instituições ou às atividades). lutar para tornar o trabalho mais lento. assim. em conseqüência. entre as comunidades regionais. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. particularmente. Tudo isso. entre outros escalões – e. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). destinados a serem comunicados à Comunidade. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser. Esse efeito de sentido. por exemplo. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. não se produz. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. entretanto. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. da importância atribuída às pessoas. como terceiro. como membros dessas comunidades regionais. 202 . que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. e sobre o que pôde ser produzido.

ou ainda. sobre palavras fetiches. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. algumas vezes. sem dar muita importância. diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva.. No curso desse processo. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral.. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. as questões a serem submetidas a voto etc. refletindo situações particulares diferentes. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos. a definição da pauta dos diferentes dias. por meio desse trabalho preparatório e.). ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. aparentemente menores. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. ou mesmo. seja a coabitação em um mesmo lugar. em contrapartida. seja o conjunto de atividades –. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”). algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. da segurança. em seguida. assim. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. 203 . segundo os quais as definições da Comunidade. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade.Intervenção como processo considerando questões particulares... na Assembléia Geral. carregadas de subentendidos (por exemplo. da idade.”).

ela constitui uma terapêutica dessa última. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. quando aplicado a um processo de intervenção. Nessa perspectiva. ao contrário. o “serviço concreto do Homem”). de outro. de comum acordo. de um lado. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. facilitando a escolha de futuras estratégias. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. isto é. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. de outro. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. fazer uma sondagem. de um lado. reflexivo e crítico. criar uma situação nova. tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. a-organizacional? Bem entendido. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. permitindo-lhe aumentar sua força. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. melhorar seu funcionamento. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. Para concluir. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 .

antes. tivemos a oportunidade de demonstrar. a ação de outro. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. Ora. eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. uma dose de desconhecimento. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. conseqüentemente. isto é. entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. mais a ação é eficaz e pertinente”. uma colocada a serviço da outra. essas afirmações estão longe de serem verificadas. ao contrário. com precisão. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. Com efeito. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. “quanto mais houver saber. melhor se fica”. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). Assim. ela também não é. necessariamente. ela implica. 205 . Em um trabalho anterior. longe de terem um valor geral ou intransitivo. como alguns às vezes pretenderam. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. uma afirmação da identidade desses dois processos. em uma modificação das relações de poder. senão de cegueira. à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso.

tratando dos processos de pesquisa. Assim.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. os transforma. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. entre o que pode ou não ser escutado. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. um sistema de ação. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. em uma organização ou em uma sociedade. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. a mais simbolizável. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. em um processo de escrita. O saber. sobre seu passado. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. é a parte que permite trocas e manipulações. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. Com efeito. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. mas como um processo. uma escola). os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. ao mesmo tempo. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. com o mundo. por exemplo. implica todo um trabalho sobre si. 206 . como experiência. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e.19 Por isso. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas.

em uma negação do inconsciente. é precisamente a impossibilidade. espiritual ou mesmo afetiva. 207 . tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. de limitar. essa. mas. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. por exemplo. contabilizável ou informática. especialmente do desejo de onipotência. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. dito de outra forma. De alguma forma. assim. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. de outro. visam a introduzir. O processo organizacional funda-se. ao mesmo tempo. As regras dividem e separam. o desejo de tudo compreender e. que não exclui nem dúvida nem incerteza. de realizarem sua meta de dar sentido. ao contrário. de uma racionalidade criadora. já foi evocada anteriormente. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. para perdurar. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização. a necessidade de dividir. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. clivagens e limites. que pretenderia circundar o sentido. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. no nível do pensamento. que. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. para essas representações – esses discursos de representações –. permite aos homens escapar do ciclo da repetição.Intervenção como processo Tal concepção de organização. de separar. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. o desejo de tudo controlar. de um lado. de toda construção material. Daí o hiato persistente entre. é a condição de toda vida social. sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). Esse golpe de força. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço. Não se trata então de uma racionalidade mecânica.

assim. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. a se desenvolver. 2 208 . a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. 29. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. até então bloqueada ou proibida. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. I/1980. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. Dessa forma. de ignorar as implicações dessa inversão. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. então. sobretudo. Paris: Payot. 1980. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. uma palavra continua. In: ARDOINO et al. Connexions. mantendo vivo o passado. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. fazendo isso. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. 69-100. por Marília Novais da Mata Machado. L’intervention institutionnelle. ou. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. p. ao menos. ela se choca assim. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. L’Analyse social. Porém. Respondendo a uma demanda de palavra. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver. é importante. André.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. quanto da análise que a torna possível. em seu primeiro esforço. Jean e LÉVY. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam.

quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. Connexions. Como toda análise de conteúdo. Connexions. 29. 21. Gallimard. “Sens et crise du sens dans les organisations”. Nesse exemplo. Jean e LÉVY.. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. André. introduzido por R. 1980. 196l. Esse conceito. “Dire la loi. les Sorts de J. Cf.. trabalhando com a própria contratransferência. L’amour du censeur. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. ENRIQUEZ. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Por exemplo: Max PAGES. LÉVY. Cf. FREUD. inédita. postula dois aparelhos psíquicos distintos. em Topique. 21. 7. “Sens et crise du sens dans les organisations”. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. Paris: Payot. Connexions. LAPASSADE. 49-68. Paris: Seuil. “L’interprétation de discours”. Em termos mais sofisticados. Connexions. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. CROZIER. pp. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. 1978.. cf. L’intervention institutionnelle.”. Sociologie du Travail. Traduzido de: DUBOST. “L’Analyse social”. cit.3 4 5 Inspirado em G. Thèse d’Etat. KAES. Connexions.. Mal-estar na civilização. FAVRET-SAADA.”. I/1980. Segundo o Petit Robert. de E. In: ARDOINO et al. Les Mots. Cf. la Mort. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. de P. op. “L’acteur et le système”. Descrita e analisada mais detalhadamente em A. “Le changement comme travail”. um individual e outro grupal. “Dire la loi. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . LEGENDRE. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. Seuil. também “Le pouvoir et la mort”. S. Connexions.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

E também o que é o próprio sentido desse movimento. nesse breve artigo. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes. possibilidade e multiplicidade das comunicações. Dizendo o mesmo com outras palavras. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. isto é. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. uma dúvida me invade. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. e mais violentamente. de forma concisa e injusta (mas. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. ainda. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. mais precisamente. sem dúvida. como a maior parte das indagações a respeito da formação. há casas para ela). ou. de toda atividade de formação.O que ocorre de essencial no ato formador. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. Por isso.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. e. Esse número de revista testemunha bem o fato. as práticas de formação. 2. Entretanto. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável. o procedimento de exclusão do real e. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas.

a dos sociólogos críticos. a formação permanente torna-se indispensável. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. advindo a necessidade. a fim de poder seguir as mudanças e. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. Certamente. 212 . 2. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. resistências. cada um à sua maneira. mas também têm. então. de paciência. para desejá-las e provocá-las. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. de outro. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. toda aprendizagem de técnicas teria. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. Orienta-se (e não apenas na China.a dos psicólogos. para um sistema onde. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. Assim.a dos formadores e educadores. 3. de investimento pensado. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. o progresso dos conhecimentos. Trata-se. sua vontade e sua imaginação. a todo momento. de tempo. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. temores do formado e condicionamentos sociais. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. ainda mais. Toda formação. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. então. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. de reciclagem e. O problema é unicamente operatório.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. todo crescimento no domínio das informações. um efeito positivo para o formado. de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. situando a prática que buscamos promover. de um lado. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo.

que as causas determinantes não existem. na transformação e ele é. O real não está lá. da mesma forma. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. que o homem está sempre por nascer. sem paixão. ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos. Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. portanto. O comportamento adulto é o comportamento refletido. cartesiano. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. inesgotável. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. Ora. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que.3 referindo-se ao racional e ao controle. ele se revela na ação. sempre a serem melhoradas. o do louco. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. estritamente falando. que a libido é turbulenta. do cálculo. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. o do outro. que se torna assim excluído). sobre qualquer outro pensamento (o da criança. o real é o que escapa a toda definição. além de toda interpretação. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. as brechas repentinas. obtido apenas 213 .2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. sem sonho nem loucura”. além de anularem toda diferença e toda dispersão. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. os blocos erráticos. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. o do primitivo e.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. é o que excede toda análise. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. ao umbigo dos sonhos. que as reconstituições são parciais. da medida. mestre das leis e da morte. hoje. através da ordem.

as variações de temperatura. a humanidade estará. Temos de um lado o conhecimento. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. E nunca esse programa foi mantido. as conseqüências que acabam de ser enunciadas. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. do questionamento do saber obtido. cuja única saída é o aniquilamento mútuo.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. então. não se trata aqui de uma simples metáfora. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. o seu contrário. falando dos signos da 214 . plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. Aliás. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social.4 isto é. por isso. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador). a angústia de se perder no turbilhão de questões.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. de hábito. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. a alegria da certeza e. temos a bola de fogo. desenvolvendo-se progressivamente. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. as provas de sua impossibilidade. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. pois ele não pode sê-lo.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a energia que se desprende. se for atravessado pela ideologia do senhor. Quando houver apenas Eus fortes. o confronto com a finitude. como diziam os alquimistas. 2. De outro lado. como uma água calma. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. a opacidade. do que tranqüiliza. ao mesmo tempo. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. a cada dia. Ora. imagens protetoras. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. Como viver o desejo do pleno.5 Certamente.

Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores.6 Ora. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . a despeito de suas diferenças. Os tecnocratas. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva.. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo. os psiquiatras aliados do poder.Quanto ao segundo princípio.. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão. Igualmente. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. Conclusão: o que permanece são as certezas. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram. 2. Então.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. mas uma relação angustiada com o saber.

ter um outro modo de relação com os outros. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. mas porque apresenta. em um congresso de chefes de empresa. deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. mas de peso. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. assim como as experiências de bio-energética. com seu corpo e com seus desejos. gestalt-terapia. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. aliás. o homem. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. no momento. o cachorro ou com o estrangeiro que. não existe.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. tendo recebido um certo tipo de educação. grupos de encontro. Um importante dirigente internacional não dizia. É talvez por essa razão que. impacto social menor (estamos. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. a mulher. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. que relações de poder ele pressupõe. esses mesmos estágios. no qual se inscreve toda 216 . então. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. é que a pessoa. ao qual muitos poderiam se subscrever. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. alienada na sociedade contemporânea. liberação corporal e sexual. há alguns anos. é preciso. além do mais. Horizonte grande e enaltecedor. no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). algumas vezes. Acrescentemos que.

Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. que instituições me sustentam. Não se aprende o amor. que podem ser atuados. Então. renasço. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. Sua beleza desencadeia esse prodígio. complementares ou antagônicos. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. a quem falo. como tais. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . num momento de estado de graça. em técnicas e em posturas. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. mesmo nesse último caso. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. durante um tempo determinado. de uma luz na qual me banho. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. feito de uma explosão que me fascina. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. justamente. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. não temos nada a dizer. que desejos elas retomam ou reprimem?. Entretanto. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. que dá a cada parte de seu corpo. por quem e por que sou falado. Como escreve S. LECLAIRE: Quando. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo.8 Pode-se apenas descrever tal estado. por que falo dessa maneira. à sua voz. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. Trata-se unicamente de relações faladas e. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. eles não se explicam. Em contrapartida. testados no mundo. então. Mas. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. que sofre e que ama. alguma coisa explode em mim. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. a seu cheiro. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim.

do aumento do grau de irrealidade da situação. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. os tabus. arriscam tudo e nada arriscam. certificando-se de que nada lhe escapa. as transferências maciças. única fonte de mudança. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. no medo e tremor. seu rigor. não se entregam. as manifestações sem seqüências. Mas o psicólogo está lá para as acossar. e ele é um bom juiz.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. pelo menos. de tempos em tempos. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). seu “saber-fazer”. favorecendo os processos regressivos. o tempo ao momento. analisando com toda a sua força. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . como os weekends e as maratonas. Mas. as fantasias invasoras. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). Uma vez de volta às suas instituições. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. mostrando assim sua potência. onde tudo era diferente. O lento trabalho do negativo. assim. super-ativo. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). questionará as instituições. embora plenas. Outro deixará se levar por suas emoções. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. Eles. a não ser que queiram ou possam. vai querer se fazer amar por todos. declarará sua paixão por uma estagiária. esse irromper não ocorrerá. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. fazer triunfarem suas fantasias. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. estará pronto a largar mulher e filhos. essa explosão. as proibições. o fazer ao dizer. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. tomar o lugar do líder. ou. chorará (o próprio ROGERS. não pode ser feito. definido como um lugar no qual se deve comunicar. um ato-falho. não porá nada em movimento. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. pois as palavras trocadas. então. Ficará apenas a lembrança de um momento único. os choros e os gritos de alegria. Ei-lo. esses discursos. ao mesmo tempo. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). irromperá um lapso. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. tomar o grupo em seus desejos. E talvez. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. na maior parte do tempo. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. os mais narcíseos) podem. para fazê-las sair de suas tocas. para que entrem em uma relação de transferência. a fim de viverem sentimentos intensos. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém.

Quanto a seu conteúdo. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. Toda formação (qualquer que seja seu programa. Afinal. é a capacidade inventiva dos participantes. Sem dúvida. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. Mas. FOUCAULT). aquele que dita a norma (M. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. divulgá-la nas massas dominadas e. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. simultaneamente. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. para expressá-las ou mesmo provocá-las. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. DELEUZE e GUATTARI). o que é essencial é o que se passa no campo formador. ou atento e vivido como o dos psicólogos. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais. em muitos aspectos. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. mas científico.-B. ele é chocante e desesperante. como muito bem o diz J. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . A mensagem dada. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. assim. então? Vemos que o que é dito é. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. Além disso. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. é essa troca de palavra.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. PONTALIS. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. é esse turbilhão do amor e da morte. exato e periférico (não tocando no essencial). O único senão é que. seus métodos. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica. na formação. Igualmente. é o veículo privilegiado da dominação social. em sua aridez. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante.

quais eram os princípios que guiavam nossa ação. se ela o fosse. nas Questões propostas. depois de tê-los escutado.9 as palavras inovadoras e as ações sociais. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. os movimentos sociais emergentes. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. a vida. que só nos resta. de constatação aguda e de desmobilização geral. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência. ao mesmo tempo. de um processo. tenha sido possível ler. justamente. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. 220 . em uma palavra. explicável por um único tipo de lei. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. em filigrana. mesmo se. não de uma formação (a rigor. o que não se pode esperar dela. isto é. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado. isto é. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. ela não chega a ser totalmente dominante. Seus enunciados são tão gerais. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. profissionalmente e socialmente se mexam. tão sistemáticos. de um trabalho de mudança. homogêneo. o que ela esconde em seu próprio movimento. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. a transformação das relações sociais.

assim. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. um encadeamento de Questões. mas. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. ele oferece não um saber. ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. as correntes de informação. 221 . suas interrogações e também suas paixões. seus entusiasmos. dessa desordem-ordem. Quando ele intervém. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. um jogo de luz sobre certos pontos que. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. suas descobertas e suas resistências. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. Ele está lá simplesmente como uma referência. fazem surgir formas da sombra. mas sua relação com o saber. por isso mesmo. para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. suas idas e vindas. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. provocando a vontade de respirar. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). Por meio dessa ausência-presença. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. Ele está lá vivendo. na situação. organizacionais. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. em suas diferentes dimensões: culturais. suas falhas. resvalando. a criação de negentropia (isto é. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. indicando. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). aliás. e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. Ausente. ele não é o portador do sucesso da experiência. mas uma problemática. uma movimentação de energias. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. desse lugar desocupado e fugidio. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. através dessa ausência. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). políticas. ele deveria se calar?).

os conflitos não têm mais espessura social. com relação a esse personagem. projetos sociais. de suas relações afetivas. de seus corpos e. 222 . entre cem. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios. não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. Um exemplo. tomando certos caminhos e não outros. a relação com o saber é suspensa no vazio.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. uma atitude de deferência e de sedução. Ora. a resistência se deslocou. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. vivem em organizações específicas. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. praticamente nunca era contradito e. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. Como interpretar tal situação. formadores etc. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. para não falar de sua situação econômica. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. hoje. não há muito tempo. um dos membros do grupo era particularmente escutado. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). as diferenças são apagadas.). Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. Não são pessoas ou seres desencarnados. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. o resto do grupo o seguiu em bloco. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. No caso contrário. Por isso o trabalho do grupo será centrado. Um outro participante manifestava. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. tal funcionamento é profundamente mistificador. tendo um passado.

em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. É por isso que somos partidários de estágios longos. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. lugar de análise. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. de breve duração. menos tal processo pode ocorrer. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. O lugar fechado. A partir do momento em que o desejo circula. fazem propostas. o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. mais exatamente. imaginam soluções. um ou dois anos). realizaram. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo. ação real e ideologia. a imersão na vida aqui e agora. outros atos sociais. conduta e gesto. fecundarão novas atitudes. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. de seus sucessos. os participantes falam do que fizeram. Não estão lá como pura presença. retomadas. outras palavras sociais. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. confrontadas. Em cada sessão. construíram ou destruíram em seu meio real. imaginário instituinte. o foco em relações afetivas imediatas. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. experimentaram. a 223 . O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. aprofundadas. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. de suas tentativas. mas como portadores de suas angústias. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. não há mais dicotomia entre ato e palavra. é aberto sobre o mundo exterior ou. intensivo.

É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. talvez. Aqui. algumas vezes. de necessidade de alimento. irrupções vulcânicas. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. Momentos de mutismo e de temor. depois de terem liquidado 224 . reencontra muitos obstáculos ou. impossibilidades totais. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. períodos de análise refletida. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. a precluir certos registros (da paixão. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. naturalmente. a fim de que a energia livre.. com o outro. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. a periodicidade desses momentos.. nesse processo que. do gozo). mesmo se ela pode se tornar criativa. Essa experiência da heterogeneidade. que o amor inexiste sem a experiência da morte. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. em questão visar à dissolução pela dissolução. momentos de embotamento. ao contrário. ser protegidos. Não está. ter caminhos balizados. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. do fogo e mesmo do caos. Trata-se. a loucura e o sonho possam ter. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. todos juntos. Resistência vinda de indivíduos em formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. do excesso. por enquanto. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. expressão gráfica etc. do saber alegre. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. falar. se interrogue sobre si mesmo. então. com o saber) são descentradas. discursos ideológicos desenfreados. direito de atuarem. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. mais dinâmicos. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução.. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. uma angústia diante do desconhecido. Não nos enganemos entretanto. possa. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. viva paixões. ter efeitos. de novo.

entre as sessões. o espanto e o desprezo de seus colegas. é necessário que ele seja evocado. de trabalhar 225 . sobretudo. a utopia e a inquietante finitude. seu possível devir Não está em questão aqui. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. Essa experiência da margem. eles reencontram a inércia das estruturas. se transformará em um simples prestador de serviços. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. Enfim. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. mas a confusão. provocar mudanças. Naturalmente. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. Na intervenção. mesmo se os participantes podem. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. o que ela não poderá jamais realizar. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. avançando uma série de proposições. deliberadamente. Intervenção psicossociológica. a dificuldade intransponível. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. da intervenção. que deveria transformar o que está no centro. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. as numerosas escolas. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. quando retornam às suas organizações. naturalmente. Trata-se. E que. então. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. tentar experimentar novas condutas. o que ela busca induzir. seu modo de existência. senão a violência simbólica da organização. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. para nós.

na hierarquia interna. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho).) e que desejam resolvê-los. então. uma situação irreal. impede de ver e de sentir outra coisa. O que está presente não é. numa primeira análise. além do mais. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. A intervenção. desperdício. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. absenteísmo. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. ao contrário. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. recusa a alguns o próprio direito de falar. no processo de trabalho. os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. assim. mas. como na formação. de melhoria de condições de trabalho. que têm problemas concretos (de decisões. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. mas. consciente ou inconsciente. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. antes de tudo. como submissos. desordem nas salas. A palavra reprimida. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. uma certa fissura no organograma da organização. toda a violência do cotidiano que. isto é. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. atraso e sabotagem da produção nas fábricas). de definições de tarefas etc. para se expressar. Essa recusa. mais exatamente. Não por razões morais. durante muito tempo. existissem como executantes da máquina. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho.

Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. O que resulta. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. para que possa interrogar o oculto.D. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. então. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . entre si e o outro. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas). para que o olhar se desloque. que faz surgir um real além do real percebido. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. transformador do mundo. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais.Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. Colocá-la em causa seria um salto mental. a deixar seus desejos serem expressos. Não se trata de sonhar por sonhar. pai-filho ou ele-outros.F. pensamento-execução. ou que possa pensar de fora da fábrica. relações de poder e separações instituídas. pelas relações codificadas. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. Mas. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. progressivamente. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. a aceitar sua parte de loucura. “ruídos”.T. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. Numa pesquisa efetuada pela C. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa.

no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. a própria idéia 228 . em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. mas em uma maior fluidez. com seus argumentos e suas demonstrações. interrogados. é o que permite a troca e a reciprocidade. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. Ele distingue. pessoal de cozinha e de limpeza. o inesperado. sua cronologia e suas articulações. Aliás. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. os educadores chefes e especialistas. numa decodificação das relações. então. As posições. outras formas de relação e outros modos de estruturação. ao se deslocarem. a médio prazo. além das crianças. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. fazem da criança também um educador. ator e analista social. promete apenas.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. os psicólogos. imaginativo. metafórico. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. igualmente. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. à sua maneira. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. é lei retomada. cada um se tornando. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. analógico. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. dessa ruidosa confusão. ele classifica. no mínimo. onde a lei. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. transformada e garantida por cada um. que o surgimento do imaginário. subvertidos ou. é necessário que os modos de pensamento. numa análise em ato da organização. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. isto é. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. decepção. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. dessa maneira. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. ou. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. os psiquiatras. pode sair a surpresa. uma nova forma de educação. O que significa. Assim. ele exclui e. sem análise.

é como o dinheiro. de fazer. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. A língua. atrás da imagem de falar bem. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. dissimula.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. um elemento de mascaramento do sistema social. Ora. como ele próprio o diz. Buscamos. Mas. divertida. na França. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. de intimidade. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. Mas aí também sabemos que. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. do bom estilo. da Psicanálise uma arte de construção. nas organizações. Essa perspectiva não o impedirá. à língua (a parte social da linguagem) dominante. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. pelo contrário. submetem-se ao princípio do prazer. isto é. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. Quando. colorida. sob certos aspectos. isto é. para ser expressa ou reencontrada. por sua vez. inversamente. antes. mas também da linguagem utilizada. as “estórias de comadres”. Assim. Não se trata apenas do modo de pensamento. então. da ortografia necessária. As pessoas se submetem. o homo demens no homo sapiens. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. o roubo da língua espontânea. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. da criatividade diária dos grupos sociais. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. na realidade. já não indica que as relações de cumplicidade. isto é. falarão. a verdadeira 229 . recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. a língua. Naturalmente. pede que cada um pense e viva na contracorrente. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista.11 Queremos dizer que a verdade. a invenção popular.

a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. confusamente. se dá conta disso. antes de mais nada. para obrigá-los.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. então. reencontrar a língua perdida. experimentar o seu calor. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. a partir do Século XVII. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. fazê-la viver. Veja-se bem a dificuldade. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. Por isso. É por isso que atacar a língua dominante. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). todo mundo. mas de poder: da lei. precisa e cifrada. de modalidade de comando. que são os que podem traduzir. em boa linguagem. pode-se constatar que eles se protegem. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. Se. Não apenas de autoridade. Há uma língua dominante. reencontrar sua língua. pois o 230 . quando se escutam as palavras que eles utilizam. de seus mandamentos. para se protegerem dos outros atores sociais. mas o da dominação que ela instaura. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. a dos tecnocratas. A mesma coisa ocorre hoje. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. inventar um falar. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . Eis que chegou o tempo dos tradutores. argumentada. Mas os tradutores traem. mais exatamente. do mundo adulto (e o atacam). Aliás. as frases que inventam. fazendo-os aprender a falar. dessa forma. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam.

Assim. Entretanto. com uma outra linguagem. Mas. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. assim. mas também quando o poder está em jogo. então. chocase violentamente com as estruturas. nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado. os hábitos. se uma demanda lhe foi feita. Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. a se informarem. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. mas sim questionamento infinito. as resistências. interminável. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam.” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. ao contrário. colocar-se em questão. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. membros do comitê de empresa. sendo. a intervenção pára. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). o interventor ultrapassou o limite. nem renunciar a seu poder. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. quem quer que seja (dono de empresa. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. De qualquer maneira.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem). agradece-se ao interventor. as comunicações interpessoais e intergrupais. dentro de certos limites. ele lhes permitiu. A intervenção. quer que ele seja reforçado. então. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. mas. sua vontade instituinte e. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . então. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. quando estão no campo de análise não apenas as relações. sendo inauguração de uma palavra nova. os estilos de autoridade. Então. justamente. o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial.

Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. energias começaram a circular. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). Ele não analisa sozinho. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. em contrapartida. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. colocando-se como um shaman ou um mártir. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. Ele não realiza nenhuma mudança. não lhe cabe questionar os poderes. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. mas favorece o desejo de mudança. procedendo por deslocamentos e rodeios. que.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. O que ele sabe bem. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. dispersões a se operarem. 232 . Porém. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. Pois. das funções elucidativas. é que. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. eus a se abalarem. palavras a serem ditas. é aos atores sociais reais. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). pólo de identificação ou bode expiatório. seu trabalho só pode ser lento. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. Quanto ao valor e à importância desse movimento. então. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. que só poderá viver. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo. sendo alguém que incomoda. Também não se pode dizer que ele fracassou. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). se ela se coloca. Não sabe pelos outros. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. Ele não transforma as estruturas. através de ações. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. não os conduz em direção a nenhum resultado. os movimentos sociais. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade.

Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. ao contrário. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. mais sua ação será limitada a certos grupos.A falta de formação dos interventores.Em contraposição. 4. 3. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. então. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. desde o início.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. Entretanto. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. inclinar-se à rigidez ou. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. Suspeito por todos. agricultores tendo interesses em comum. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. Anteriormente. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. sua posição nada tem de confortável. traidor em potencial. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . mas que ele deve saber. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. Pode.

Enfim. efetuado por eus fortes. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. ser retomado. comunicações melhores e. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros. o que nos parece mais importante.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. 2. uma redistribuição mais aceitável da autoridade. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. Isso é compreensível. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. com outras relações. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões.Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. eles se preparam para uma vocação de mártir. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. Aparentemente. da mulher. que assim buscam empreender atos significativos. a demanda acaba. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). do desejo da alienação etc. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. por seus gestos. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. Quem quer conhecer a dúvida. Um dia. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. não a desejam com freqüência para si mesmos. então. em uma sociedade tecnocrática. em um soberbo isolamento psicótico. um maior controle consciente. 234 . sobretudo. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. 3.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. eles desabarão. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam.

FOUCAULT. M. 1975 (Mata-se uma criança. TOURAINE. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. recalcamento e repressão em organizações. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. Eugène. “Points”. repentinamente. o Eu tudo destrói. “Imaginaire social. 13. Paz e Terra).-M. Connexions. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. Em Lip. Cf. CASTORIADIS-AULAGNIER. La nature humaine. Le Seuil. E.” Le sauvage et l’ordinateur. Gallimard. 1974). p. 1977). Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. FREUD. n. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Seuil. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. Le paradigme perdu. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. não caem nesse erro. Points. C. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. eles disseram: “mas era apenas isso!”. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Pour la Sociologie. essa abertura profunda na superfície das continuidades. LECLAIRE. Cinco lições de Psicanálise. Le Seuil. por Marília Novais da Mata Machado. do sonho e do gênio maligno. refoulemente et répression dans les organizations”. Connexions. On tue un enfant. A.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. caracterizadas. MORIN. Serge. 1976. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. CASTORIADIS. no 3. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. cf. DOMENACH: “Para não ser destruído. Rio de Janeiro: Zahar. enunciadas. 1974. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. Piera. Topique. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. L’institution imaginaire de la société. Na primeira meditação. Les mots et les choses. 17. descritas. E. Segundo J. ENRIQUEZ. 137-159. Epi. cujos signos. Le Seuil. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . 1972 (Imaginário social. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. de preferência. parece importante aos solicitadores. acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. isso se dá. numa dada situação concreta. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. em excesso. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. Ao mesmo tempo. também. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. 242 . os fatores geradores do problema. mas pode. hipóteses. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. algumas vezes. a partir de um determinado momento. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. que pode ser feito fora de um universo técnico. justamente. sobre a maneira como se afastou do previsto. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. firmemente. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). porque se atribuem a mim competências em um domínio que. mas tomo iniciativas e faço propostas. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. pode. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. abordando concomitantemente o sistema. mas. meus conhecimentos e habilitações. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. não poder sê-lo. a examinar princípios. justamente.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. Ao mesmo tempo. dimensões ideológicas. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. sua participação no trabalho. Caso um apelo seja feito a mim. os atores envolvidos. além disso. Assim. regras. perspectivas. porém.

as propriedades do sistema (grau de centralização. os fenômenos de moda. O modo de estruturação do processo pode se tornar. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. então. princípios estratégicos. no final desse artigo. os recursos da equipe de consultores escolhidos. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. É nessa perspectiva que é preciso. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. Poderíamos. então. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. em função do campo no qual elas aparecem. a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). não apenas objeto de trabalho para os participantes. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. na determinação das técnicas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. Evocaremos. considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. em si mesmo. tamanho. rapidamente. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. tolerância à diferenciação. tolerando apenas uma gama restrita de variações. Porém. então.). suas orientações teóricas. um objeto de trabalho. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. Cada uma comporta pressupostos. as funções externas almejadas pelos atores. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. os custos etc. tal vantagem deve ser abandonada. tornar mais inteligível. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. a natureza dos objetos. formas de autoridade. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. 243 . compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. tentar. para tratá-lo. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. a seguir. por exemplo. constituindo. ecologia etc.

mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. em especial. Entre esses dois pólos. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. isso se passa sobretudo porque. COCH e FRENCH). B. a propensão dos práticos de intervenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. Quanto às estratégias de pesquisa. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. na maneira como J. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. GODIN. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica. parece-me. tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. Entretanto. por exemplo. Em seguida. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. a observação participante. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. em algumas práticas. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. de maneira bem menos acentuada. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. a partir da prática psicanalítica. algumas vezes. nas de TOURAINE. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. estão as técnicas de pesquisa de campo que. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. bem cedo. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. 244 . de devolução aos participantes e de interação dos atores. Algumas vezes. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. depois de LEWIN. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. uma origem técnica importante.

Entretanto. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. Igualmente. ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. no começo. a origem das disfunções. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. Em todos os casos. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. há muito tempo. as razões dos bloqueios. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. no papel de especialistas. quem reterá as soluções etc. a caracterizar melhor as situações. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. como em outros lugares. é comum. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. Pode-se observar que. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. quem escolherá as opções. na França. Em um campo bem diferente. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. pela encomenda de um estudo “Retrato”. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). a isolar os objetivos. a obra de G. por exemplo. o significado das condutas etc. é dessa maneira que elas se estruturam. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. a identificar os problemas. em todos os casos. que. produzindo dados válidos. o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. quem conduzirá esse trabalho. a atuação dos conflitos. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. nas próprias operações das fases de estudo). de fato. ainda hoje. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. a escolher as variáveis de ação. os limites desse modo 245 . atualmente. freqüentemente. a natureza das resistências.

Se muitas intervenções. caso se decida reiniciá-lo. em especial. desenvolve muito claramente esse aspecto. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. com a apresentação dos resultados. o trabalho de recenseamento. escolhe-se. por exemplo. de fato.Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. a não ser esquecê-lo. do exterior. conseguindo uma solução de síntese ou.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente).Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. são interrompidas. apresentaremos rapidamente três observações: . sobretudo. por exemplo. depressão etc. O texto de André LÉVY. restaurando a coesão. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. 1980). ao menos. .A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. já citado. de caráter mágico. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. enterrá-lo. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. denegação. . Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. então. Não se sabe mais o que fazer. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. um retrato eventualmente objetivo e fiel. o inventário. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. cólera. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. constróem. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. freqüentemente com espanto. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis.

não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. assim. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. por categoria de ator etc. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. . como o próprio relatório.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. e apesar das reservas expressas. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. então.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa.preferir. De meu lado. a perlaboração. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –. o debate. o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. correspondentes a atuações mais modestas. dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. a uma solução que exige uma equipe e. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas. durante o trabalho de análise da demanda. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. chega-se. pertinência. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica.fracionar a investigação (por tema. mas repensar essa lógica (por exemplo. pode-se tentar: .associar todos os parceiros envolvidos. parece-me. o que provoca aumento dos temas de estudo. eles me parecem. em outras palavras. algumas vezes. adiamentos de realizações importantes. sobretudo. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. com o trabalho sobre os resultados. os critérios de cientificidade: validade. . às relações elaboradas e conceituadas demais. 247 . essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas.

adquiririam novas propriedades. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. de 1948. apresentam-se como a aplicação simples. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. nessa segunda categoria de origens técnicas. evoluiriam. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. de aperfeiçoamento e. na Glacier Metal Company. porém. a uma perspectiva de intervenção. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia. Logo. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. os grupos. em seguida. JAQUES. sobre a possibilidade de contorná-los. a fim de que elas mudem”. TRIST. com muita freqüência. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . é necessário lembrar que. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. numa escala pequena. De uma maneira geral. a partir de 1964. algumas vezes. social analysis. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. em diferentes lugares da sociedade). Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. de uma perspectiva de formação. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. 1972). todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. traduzido para o no 3 de Connexions. o artigo de E. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. Passar-se-ia. assim. na qual. em um plano concreto.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. as práticas de formação. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou.

na França e em países estrangeiros. ANZIEU transpôs. por exemplo. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. D. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. utilização da autóptica. no 1 a 10. ROUCHY. das estruturas de organização. em seguida. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. Payot). ao contrário. A. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. especialmente. ENRIQUEZ consideram. em pedagogia institucional. se quiséssemos ser menos esquemáticos. grupos de análise de prática profissional. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. ROUCHY e E. Sociopsychanalyse. no plano teórico. Evidentemente. jogos de simulação. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. para o seio da cúpula.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa. 1972). Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . conceberam diretamente. a fortiori. o que representaria. o movimento de democracia industrial. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. a importância da referência à Psicanálise. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo em que se reforçava. tecnicamente. consistia em transpor. C. essa evolução. LÉVY e. G. KAES). um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. nos quais a ARIP interveio. J. inscrevendo-se. passando pelos estudos de caso. de se diversificarem em função da natureza das demandas. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. as intervenções que se seguiram. no plano organizacional. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. Mas se. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R. MENDEL e sua equipe. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. C. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. sua prática de psicodrama analítico. em pedagogia do projeto. na empresa Geigy. não pararam.

Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. estágios existentes fora dela. é que se engane sobre a causa das dificuldades. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. durante um tempo que pode ser apreciável. da facilitação e. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes. freqüentemente. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. o risco. Enfim. irrelevante. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. 250 . mais racional e menos caro. entre os próprios serviços de uma organização. as que se nutrem da formação surgiram. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. localmente. esperando-se que se aumentará assim. no espaço organizacional. ao mesmo tempo. Além disso. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. a mudança social desejada. De uma maneira geral. então. é a descentralização. é mais rápido. é necessário providenciar a formação do responsável local. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. forçosamente. na medida em que instituir. os meios de verificar a validade das hipóteses. da regulação (hetero – ou auto –. Evidentemente. em especial. Com efeito. o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. de acompanhamento ou dinâmica). desde há algum tempo. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. a palavra de ordem.

ao desempenho eficaz da prática de formador. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. Esse risco pode ser reduzido apenas se. tal risco. Um meio técnico (que. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. entre os dirigentes. primeiro. confrontá-la à dos outros atores. além disso. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. evidentemente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. na elaboração dos programas. manter essa dimensão presente durante todo o processo. do qual se espera a responsabilidade. em assegurar “suas tarefas”. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. então. os consultores. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . A competência de um interventor. Paralelamente. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. Ainda assim. os solicitadores. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. de uma maneira progressiva. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). Tal dispositivo técnico é insuficiente. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. de um lado e de outro. aliás. descobrir.. os voluntários para se associarem na preparação de decisões.

Entretanto. um sistema e seu problema. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. de agentes de comando ou de pessoal de execução. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. dois atores ou diversas instâncias em interação. numa crítica aos limites do staff and line.) –. em data. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. Por exemplo. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. em resposta ou não a um apelo. e não em técnicas de ação formadora de diretores. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. o desenvolvimento técnico e científico. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. Porém. 252 . e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. as estruturas internas das organizações se complexificam. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc.. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. em problemas de remuneração etc. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. um grupo. afetando a estrutura e as instituições internas.. a emergir como práticas e como papéis diferenciados. Sem poder preparar aqui tal reflexão. a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. a convicção de que as condutas das pessoas. é interessante observar que. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). Ela compartilha. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância.

de defesa ou de negociação. freqüentemente. L. progressivamente. seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. mas. assim. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. J. retomaram. a práticas de debate. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. em Nova Iorque. durante os motins do Harlem. 253 . Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. são chamados. o sociodrama. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. os psicossociólogos. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. renovando-as. No campo das empresas de produção. ALINSKY. Mais recentemente. no fim dos anos 20. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. Mesmo a história da intervenção de E. como o sociólogo S. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. os “organizadores de comunidades”. nos conflitos entre direção e sindicatos. vir a substituílas completamente. Então. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. por exemplo. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. evidentemente. Em países como o Canadá. TOURAINE recorre também. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. eventualmente. sistematicamente. enriquecendo-as. existem. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens.

Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. em conseqüência. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. Da mesma forma que. apenas. de organizar as ações de inspeção. e que. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. para a primeira origem. Parece-nos que. de propaganda. deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. das relações pastorais. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. para a terceira. há uma 254 . a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. de sensibilização (por exemplo. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. difusão das estatísticas de acidentes. de fato. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. No começo. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. e renunciar. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. os dispositivos de proteção.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. tanto no plano material quanto no legal. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. Entretanto. de estudar as instalações da fábrica. educativo. de alguma forma. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos. como por exemplo no campo da imprensa escrita. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. então. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. audiovisual. concurso de segurança) etc. da magistratura. para a segunda. da polícia. as prescrições) e funcional (no campo técnico. Embora não ilustre especialmente esse risco. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. de formação. social). das lutas militantes etc. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. as oportunidades. a toda especificidade.

certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. pessoal de execução). combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. ou por uma intervenção apenas formadora. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. gerentes. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. produzir os diagnósticos. por exemplo. de segurança e de condições de trabalho. No fim desses dois dias. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. no começo. No caso da intervenção psicossociológica. concomitantemente. a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. fundamenta-se também. Uma abordagem mais recente. evidentemente. propor as medidas. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões. que abandona os dispositivos de estudo e de formação.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. Os confrontos entre atores (por exemplo. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. geralmente. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. então. Uma vez estabelecida a composição. contramestres. por uma intervenção psicossociológica. evitase. algumas vezes desenvolvendo. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. De acordo com os resultados. em outros países. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores.

então. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. para nós. Como no caso anterior. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. tal 256 . mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. entre outras coisas. a ponto dele renunciar. Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. de múltiplas forças antagônicas). Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. ligada às diferenças de status e/ou de poder. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. instituídos pela lei Auroux. Em relação ao processo das intervenções precedentes. decisivos. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. estende-se numa duração que se mede em meses. em teoria. Porém. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. A última negociação consiste. a intensidade emocional mais forte. Ela permite. em especial. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. produz uma frustração muito forte no ator.

O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. em todos os níveis. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. tecido com fios múltiplos. está. uma importância acentuada. aliás. sempre pluridimensional. Por isso. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. senão à primeira. evidentemente. para guiar a análise. sem dúvida. Tais requisitos. Em outros termos. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. entretanto. evidentemente. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. elas não dependem apenas da técnica. por exemplo. mas também em encontros do mesmo estrato. Está claro também que. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. Escolher. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. tal metáfora. Enfim. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. e. aqui. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . ancorar. mas têm. que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. bem cedo.

enquanto dispositivo de inserção. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio. retomando a distinção de PALMADE (1977). capazes de contribuir em processos de pesquisa. enquanto pesquisador. as escolhas iniciais arriscam. quer esteja empenhado. sem chegar a lhe dar um molde. filtrar com segurança um objeto teórico.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. para o pessoal de um estabelecimento. Não é fácil. no entanto. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. depois de dez ou vinte dias de intervenção. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. Nem ciência nem tecnologia. do gerente ou do político. o interventor é um clínico. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. em cada momento. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. a mim. ela me leva. com o tempo. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. fundamentar tal distinção. elas seriam. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. mas. permitindo isolar. Assim. do terapeuta. por si só. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. Com efeito. antes. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra.

lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. os setores de saúde. para os atores. Entretanto. malgrado sua fragilidade no tempo. Por outro lado. a administração. os espaços urbanos. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar. Enquanto atores sociais. analítica. para mim. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. pode-se observar que. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. o mesmo se passa. por certos setores da sociedade. Anunciamos. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. importantes sob esse ponto de vista. 259 . o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. de maneira mais ou menos difusa. podem-se encontrar. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. seria natural levantar tal hipótese. adquirir um sentido menos restrito. tais acontecimentos podem inspirar outros e. a invenção de instituições locais (por exemplo. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. o comércio. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. e se surgem conjunturas favoráveis. analisar e experimentar as vias de democratização etc. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. os movimentos sociais ou culturais etc. A inserção na universidade.). se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. na literatura especializada. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. no começo desse artigo. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. Porém. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. sua identidade social e a natureza de seu projeto. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. sem subterfúgios. assim. em função do campo social em que aparecem.. demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas.

a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. p. sua própria experiência no campo da saúde. ROUCHY chegou. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: . Porém.-C. Notas 1 Traduzido de DUBOST. necessariamente. as conclusões às quais J.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura). evocando. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos.T.). 1987-l. Jean. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência. posição central ou periférica etc. MARTIN em uma pesquisa recente. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. ainda. não coincidiriam. . pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. voluntária ou militante etc. por Marília Novais da Mata Machado. a divisão do trabalho. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. de dependência hierárquica.). Por exemplo.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa. a estruturação dos papéis recíprocos.). . poder. Connexions. de colaboração profissional. o espaço urbano). 7-28. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. pode-se aplicá-la a outros campos. a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros.o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. nesse número. autoridade. os resultados quantitativos estabelecidos por C. 2 260 .a relação pesquisador-ator (relação mercantilista. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. com o que se observaria em outros lugares. . 49. . até um determinado ponto.

PALMADE. Les recherches-actions sociales. Théories et pratiques de l’éducation permanente. 1987. 261 . LÉVY. A.-C. 1980. J. J. La Documentation française. 3. L’intervention psychosociologique. Paris: Payot. G.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. Interdisciplinarité et idéologies. MARTIN. C. Paris: PUF. 1986. 1977. G. “Une intervention psychosociologique”. 1972. Paris: LFEEP. 1981. LE BOTERF. L’enquête participation en question. Connexions. ROUCHY. Paris: Anthropos. In: L’intervention institutionnelle.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 262 .

263 .

com.com.br ou ligue gratuitamente para 0800-2831322 .autenticaeditora. fax.Qualquer livro da Autêntica Editora não encontrado nas livrarias pode ser pedido por carta. 437 – Bairro Floresta Belo Horizonte-MG – CEP: 31110-060 PABX: (0-XX-31) 3423 3022 e-mail: autentica@autenticaeditora.br Visite a loja da Autêntica na Internet: www. telefone ou pela Internet a: Autêntica Editora Rua Januária.

finalmente. grupos religiosos etc.autenticaeditora. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. o triunfo da racionalidade experimental. o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações. os ‘intemináveis adolescentes’.br 0800 2831322 .com. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. etnias. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.“Quais são os problemas realmente essenciais.

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