Arranha-céu


A. C. Lyoko
Eu fui traída, pela pessoa que mais confiava e a que mais amava. Então a confiança virou fúria e distância, o amor se transformou em raiva e ódio. “Você pode levar tudo o que eu tenho” Ao fitar a face pálida, um arrepio me percorreu o corpo, logo em seguida de uma dor e agonia no peito, e eu sabia que isso era algo que nenhuma música, que cantava pelas estradas do país, iria curar. Voltei rapidamente a minha cadeira deixando que o resto visse o rosto pálido e sem vida, esperando aquilo tudo acabar logo. Sentei novamente no fundo, afastado de todos. As lágrimas vieram automaticamente de modo inesperado. Me perguntei como, afinal, fazia dias já que estava chorando, como ainda havia algo em mim? Me pergunto: Como faço isso passar? Fui a ultima a sair, não queria seguir o caixão, vê-lo sendo enterrado, nada disso. Então fiquei naquela capela funerária e deixei toda água que havia no meu corpo sair, para que eu não pudesse chorar mais depois. E quando percebi que já tinha passado tudo isso, fui até onde estaria seu túmulo. A pessoa que por tanto tempo odiei e agora ela jazia ali, a sete palmos da terra. Se eu a odiava, como podia sofrer com sua perda? Pois é, eu não entendia isso. Só assim para eu entender que meu ódio era, na verdade, pelo o que eu sentia, e não pela pessoa. Eu odiava ama-la tanto depois de tudo, mas no final... Bem, esse é o final: a morte. “Você pode quebrar tudo o que sou” Me lembrei dos dias que só ouvir o nome dela me trazia raiva e fúria, depois vi que era na verdade dor e mágoa. Só ver o rosto dela numa foto me fazia querer gritar novamente e falar tudo o que já tinha dito e repetido na cara dela. Por que disso? Traição. Essa pessoa me roubou tudo, matou tudo o que eu amava, e depois disso ainda sofro pela morte dela. Por que raios?! Uma mão tocou meu ombro e me virei. Era Joe. - O que você quer? – Perguntei. - Sabia que estaria aqui. Por que não me atendia? - Acha mesmo que depois de tudo eu quero ouvir sua voz? Tudo o que mais quero agora é achar uma faca e encravar no seu peito. - Entendo. Mas acho que se eu explicar você entenderá. - Como?! Você matou uma pessoa! Como posso esquecer isso? - Deixe-me explicar. - Tente. Ele deu um suspiro. “Como se eu fosse feita de vidro” - Ao contrário do que pensa, não foi uma traição. Eu quase ri de tamanho absurdo.

- Me ouça – ele pediu –, por favor. A esse ponto minhas lágrimas de dor haviam se tornado lágrimas de raiva. Enxuguei e deixei ele falar. - Renata, desde sempre, você teve uma vida complicada, filha de uma mulher casada com um amante. Seu pai lhes deu uma casa e um lar ainda sim. - O que isso tem a ver? - Lembra de quando éramos crianças? Você dizia que um dia seria a heroína da história, que salvaria a família da ruinas que estavam. - Onde quer chegar? - Como pode existir uma heroína se não há vilão? - Como assim? - Para virar um símbolo, inspiração e heroína para outros, você primeiro precisava de um vilão. E o vilão achou um jeito de fazer isso, tirou tudo de você, o amor, os bens, até que você caísse por terra. - Não faz sentido o que você diz – Respondi. - Talvez para você. Mas pense, se tudo isso não tivesse acontecido, você não teria se erguido, você não lutaria tão bravamente. Você não teria a autoconfiança que teria agora, a coragem, a determinação... tudo o que ganhou quando a ‘traição’ aconteceu. - Mas por que? – minha voz estava rouca e percebi que estava voltando a chorar. - Por que você tem uma vida toda pela frente, ela sabia que não teria. - Isso não faz sentido! – exclamei. - Se agora está a sete palmos da terra ou depois, não fria diferença. - Do que está falando? “Como se eu fosse feita de papel” - Tumor. Tumor cerebral - disse ele – não tinha muito tempo restando, acha mesmo que foi imprudência de tomar um calmante e ir pra banheira? Não achou nem um pouco estranho? Ele estava certo, sempre achei estranho. Era isso que me incomodava. Eu me derramei em lágrimas percebendo o que aquilo significava. Não pode haver heroína sem um vilão, então se transformou no vilão só para que eu pudesse ser a boazinha da história. Isso, durante o pouco tempo de vida que lhe restava. - Por que está me contando isso agora? - Por que só agora descobri – respondeu ele –, Leka achou uma carta esses dias dizendo, mas pediu para que ela não lhe entregasse até você se erguer. - Então onde está a carta? - Com a Leka. Ela não deveria nem lhe entregar ou contar, mas nada dizia sobre contar a mim ou eu te contar. – respondeu. - Eu quero ver! Preciso! - Então faça o que deve fazer. Você já caiu por terra, então agora você precisa se erguer de novo e ficar mais alto que o céu... Então me lembrei, a nossa música favorita. “Skyscraper” da Demi Lovato, Arranha-céu em português. Lembrei que quando tudo aconteceu eu ficava a ouvir e pensar no que houve como o que aconteceu. “Vá em frente e tente me derrubar,” Mais alto que o céu.

De repente tudo estava fazendo sentido, e me senti num estado de desespero ao perceber que havia sido cruel, talvez fosse a intenção, mas não deixava de ser ruim. - Joe, tem algo mais? - Bem, tem o fato que nós nunca te traímos. - Ah, então está me dizendo que não a amava? - Amava, mas fiquei porque precisava de ajuda, não por que quis te abandonar. - Então o que pretende? - Não tenho um plano para o futuro, mas gostaria de saber se você poderia fazer parte dele e me permitisse fazer parte do seu. Eu ainda estava em choque. Agora ele decide se declarar? - Acha mesmo que é uma boa hora pra isso? - Não sei, precisava dizer isso. Toquei o túmulo na minha frente. “Francinne Bollevard 1983 – 2012” Chorei, dessa vez com tristeza, ternura talvez e o amor que tanto neguei. - Eu te amo, Fran. - Ela também te amava. – Respondeu ele consolando. - O que vou fazer agora? Ela era o meu raio de Sol, minha esperança. - Continue – deu de ombros –, ela gostaria disso, sempre pense no amanhã e olhe o sol que te traz a esperança no dia novo, como a ela. - Não posso substituir minha irmã. - Não. – Disse ele – Mas pode se confortar, não? Me levantei. Olhei para ele, percebendo sua compaixão por mim, tentei me manter fria como segundos atrás, mas acho que o gelo já foi. - Por que está aqui? - Eu não deveria, mas precisava te ver. – Ele desviou os olhos. - Por que? - Por que ainda te amo. O único futuro que posso ter, é ao seu lado ou fazendo algo por você, qualquer coisa, só quero que você seja feliz. - Acha que fui feliz quando me deixou? - Achei que você merecia algo melhor do que eu. - Então ficou com minha irmã? - Ela precisava de mim, mas nunca passamos do “enfermeiro – paciente”. Eu fiquei parada. Ele sabia que eu o amava, mas ficou com minha irmã como amigo dela, e provavelmente não disse o porquê a pedido dela. Acho que ele tentou me avisar na época, mas eu não ouvi. - Joe, você nunca foi casado com ela? - Não. Nem namoramos, sempre tivemos claro em nossa mente que... Eu era... seu. – Disse ele. - Fala como se fosse um escravo meu – ri, pela primeira vez em muito tempo. - Se isso te deixa feliz, então sou. - Joe, eu... Não consegui continuar. Ele abaixou a cabeça e ficou triste. Se eu não tinha palavras, então vamos aos atos. Eu o abracei, me sentindo melhor, quase curada de tudo. Eu não queria, mas o amava. Não era algo que eu podia mudar, era como se eu fosse a flor e ele o sol, eu podia não querer, mas era ele que me dava forças e me fazia continuar ali.

Então fitei seu rosto, ele continuou a me abraçar. - Não posso fazer isso. - Por que não? - Por que... Eu não sei. Não parece certo. - Nem tudo que é para ser parece certo, por isso nos arriscamos, para descobrir se é ou não. Se for, tudo bem. Se não, bem, não vamos cometer o mesmo erro de novo, e tiramos uma lição. - Isso seria uma segunda chance. – Eu disse, já hipnotizada pelo cheiro do hálito fresco dele. - Sim, e dessa vez, não vamos cometer os mesmos erros, ok? Olhei nos olhos dele, pude ver a ternura, o sentimento e a verdade em suas palavras. Eu o amava, ainda o amava. Por isso do meu ódio por ele. - Eu ainda te amo. – Sussurrei. - Eu sempre te amei. – Respondeu ele, já me beijando. O cenário era estranho, afinal, estávamos num cemitério. Mas acho que se Fran estivesse aqui, ela teria gostado de ver nossa reconciliação. Já que era ela que nos juntava sempre que havia uma briga. “Eu vou me reerguer do chão” Parei o beijo e voltei a abraça-lo, me sentindo mais completa e sentindo que completava mais alguém. Claro que ainda havia feridas, mas o tempo as curaria. - Desculpe por todas as feridas – Disse ele. - Já perdoei. – Respondi. Então nos separamos, ainda de mãos dadas e fitamos o túmulo. Toquei novamente a placa com o nome dela. - Obrigada por tudo, mana. Vou me reerguer. Isso eu te prometo. Me levantei, enxuguei as lágrimas e me virei. Encontrei-o sorrindo para mim e sorri de volta. Feliz por que minha vida estava voltado aos eixos, e meu o sol estava radiante, como se também estivesse feliz, sorrindo e olhando por mim. “Como um arranha-céu.” ======================================================FIM A Música “Skyscraper” pertence à Demi Lovato, nenhuma infração aos direitos autorais intencionada. A Letra aqui presente é apenas um trecho da música traduzido.

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