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Kimpa Vita (1)

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De João Portelinha d`Angola

Dona Beatriz Kimpa Vita, a guerreira esquecida
(c. 1682 a 1706)

Fala-se muito das Amazonas da Grécia, das Américas, da Europa e da Ásia... Foram ou não
uma realidade? E as amazonas angolanas? Aquelas mulheres guerreiras que derrubaram preconceitos e cada dia lutaram contra a dominação colonial, contra invasões estrangeiras, contra a cultura, política e religiões impostas, que se notabilizaram e não são muito faladas... Que cessem as amazonas e as musas do sábio Grego e do Troiano. Da fama e das vitórias que tiveram; que eu canto o peito ilustre afro-angolano a quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa Antígua canta que outro valor mais alto se levanta! Entre as guerreiras gloriosas, de que a humanidade guardará a eterna e agradecida memória, avulta a Dona Beatriz Kimpa Vita, sacerdotisa popular no reino do Congo, uma precursora das figuras proféticas das igrejas independentes e a criadora de um movimento que utilizava os símbolos cristãos, mas revitalizou as raízes culturais tradicionais do Congo Não usou espada, nem armas, não derramou uma gota de sangue humano, não escravizou ninguém, sequer. No entanto, encetou muitas batalhas na segunda metade do século XVII contra a desintegração cultural e um desarranjo político no reino Congo (território que hoje faz parte Angola, Zaire e Congo). As forças do reino do Ndongo haviam vencido o Congo… Vita, só não é tão famosa em Angola como é a Njnga Mbandi por seu reino ter sido fragmentado entre vários países e por não ter tido a sorte de ter um António Cavazzi de Monteccuolo como seu biógrafo!

No final de seiscentos, o Congo possuía três reis, sendo Dom Pedro IV o mais poderoso deles, aparentemente, e talvez o único capaz de levar adiante um projeto de reunificação congolês. Dentro desse vácuo cultural e político, diversos profetas messiânicos surgiram para proclamar suas visões sócio religiosas. A mais importante entre eles foi Kimpa Vita, uma jovem moça que acreditava estar possuída pelo espírito de Santo António de Pádua, um santo católico popular e realizador de milagres. Na realidade a cristandade de Kimpa Vita já havia caído no sincretismo, uma mistura do cristianismo com as religiões tradicionais africanas... Em M’Banza Congo, capital do reino do Congo, o primeiro galo cantara, quando o manicongo (soberano do reino) Dom Pedro IV, se levanta e convoca os mais velhos para uma reunião importante na embala (sede do governo) cuja pauta principal é debruçarem-se sobre a situação caótica que vive o reino... - Para além de sermos agora vassalos do reino do Ndongo, meus caros amigos, ainda temos um grande problema - o começo das secas! Não são nada benéficas as calamidades públicas que assolam a nossa terra... Quando o sol - apontando um dedo em sua direção -, que deve reanimar a natureza, mata as plantas e os viventes; quando os crepúsculos assemelham-se a fornalhas de cobre candente que abrasam os caminhos e os campos; e a fome e a morte levantam-se das plantações que torram, das fontes sem água como órbitas vazadas, do fumo que ondula em espirais fantásticas das matas que se incendeiam, o nosso povo e os seus sacerdotes devem refugiavam-se aos nossos antepassados, com o fim de obter deles a intervenção ancestral e divina no sentido de resolvermos os problemas que assolam o nosso reino! – Falou manicongo aos seus súditos. - E a Cristo e a Santo António também, Majestade! – Disse Vita, uma jovem aristocrata, nascida de família nobre congolesa na década de 1680, batizada como Dona Beatriz, mulher que fora sacerdotisa do culto de Marinda (nganga marinda), embora educada no catolicismo. Kimpa Vita contava entre 18 e 20 anos quando, cerca de 1702-1703, acometida de forte doença, disse ter falecido e depois ressuscitado como Santo António. E seria como Santo António que ela pregava às multidões do reino – daí o movimento ter ficado conhecido como antonianismo – seguindo o rasto de outras várias profetisas que lhe precederam na mesma tarefa, como a profetiza Matuta, em meio à crise que assolava o reino. DOM PEDRO: Vita, minha filha, tu deves entender que existe uma união indissolúvel entre nós, simples mortais, os nossos antepassados e as gerações futuras! Este traço de união é que põe em movimento o ritmo dos tempos e das estações do nosso reino e do universo; ela faz a chuva; implora a lua e o sol. Ela possui o raio, o vento, a trovoada... E continuou... - Para nós, a religião católica trazida pelos maniputo (lusos) não se mostrou eficaz contra os infortúnios que assolavam o nosso reino. Não estão vendo? Além disso, os nossos nobres resistem em aceitar a monogamia imposta pelos padres capuchinhos! Na realidade é um dos temas mais polêmicos na aceitação da nova religião, uma vez que a extensão da rede de solidariedades tecida pelos casamentos era e é peça fundamental nas relações de poder tradicionais. . KIMPA VITA: Mas Majestade agora não somos todos católicos? Fomos batizados na religião do maniputo e com isso não devemos apenas fazer apelo aos nossos antepassados, a Cristo e a Santo

António também! E finalmente, não vos posso dizer todas as coisas que podeis cometer em pecado; porque há vários modos e meios, tantos são que nem posso enumerara-los neste preciso momento, mas de uma coisa posso dizer-vos se não tomardes cuidado convosco mesmos e vossos pensamentos, vossas palavras, vossas obras e não observardes os mandamentos de Cristo e nem continuardes tendo fé, certamente perecerás no inferno! - Mas Vita o Deus do maniputo não fala connosco ao contrário dos nossos antepassados que são onipresentes?- Questionou Dom Pedro O culto aos antepassados constituía como que a síntese da vida religiosa dos congoleses. - Manicongo, se nós unicamente atendermos as coisas que se veem e se ouvem, certamente não teremos a misericórdia de Deus e a ressurreição; porque as coisas que se veem e se ouvem são temporais, enquanto as que não se veem e não se ouvem são eternas! – Retorquiu Kimpa Vita, a jovem mais bela congolense. DOM PEDRO: Não entendi muito do que falas, Vita... E a ressurreição? KIMPA VITA: Tu, manicongo, melhor do que ninguém, sabes que existe! Eu mesmo com os 18 anos acometida de forte doença morri e depois de falecido ressuscitei! DOM PEDRO: Porque dizes falecido e não falecida? Tu não és uma mulher? KIMPA VITA: Porque ressuscitei como Santo António, Majestade! E é como Santo António que eu vos falo e prego às multidões do nosso reino! DOM PEDRO: Mas eis que tomarei estas tuas palavras que contêm profecias e revelações e pôlas-ei eternamente em minha memória porque me são preciosas; e sei que serão preciosas também para o nosso povo, minha querida Vita! Embora ele não concordasse em tudo com D. Beatriz Vita, tinha muito respeito pela sua autoridade. Foi ela quem o proclamou Rei do Congo em troca da sua adesão ao antonianismo. Assegurou-se ainda, por meio de vários acordos, da aliança de famílias nobres adversárias de D. Pedro, a exemplo dos grupos de Kimpanzu, especialmente da família Nóbrega, enraizada no sul da província de Nsoyo. Embora a sua pregação possuísse forte conotação política. Pois, preconizava o retorno da capital a São Salvador e a reunificação do reino, chegando mesmo a envolver-se nas lutas facciosas da época. No entanto, as alianças estabelecidas por Kimpa Vita, metamorfoseada em Santo António, não eram, porém resultado de mero cálculo político. Suas teorias ancoravam-se numa cosmologia complexa e peculiar; uma modalidade remodelada e completamente africanizada do cristianismo. Com efeito, para a profetiza congolense existia uma unidade significativamente organizada, de modo que Cristo, apesar de ser totalmente “OUTRO” não aparecesse como alguém “FORA” do contexto cultural a conhecer apenas através dos seus atributos, mas na totalidade de ser e da vida. Certamente encontramos aqui a ideia de ligame entre o homem e Zambi, o Cristo. Para

ela, este ligame alarga-se também aos antepassados que estão em contato mais direito com o homem... Dali a dez dias... Os Padres capuchinhos voltariam ao reino. Vita entregava-se com frenesi àquele amor a Santo António, a Virgem Maria e a Cristo... Apesar das ameaças dos padres católicos que viam nela uma forte concorrente, Vita saia furtivamente todas as noites, para pregar o seu Movimento e só voltando de madrugada... Depois começou a pregar na cidade congolesa de São Salvador, a qual declarou ser desejo de Deus que fosse novamente tornada capital. Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica de Belém. KIMPA VITA: Meus queridos irmãos! Cristo quer que esta linda cidade se torne novamente capital do nosso reino! Ninguém pode tirar este desejo Dele! A nossa cidade é a verdadeira Belém... É aqui que nasceu Jesus. Acreditem, todas sextas – feiras eu almoço com Ele, desde aquele dia que eu morri e ressuscitei como santo António! A mãe de Jesus, Virgem Maria é preta! Ouviram? Não é branca como os padres dizem ser! Ela foi filha de uma escrava aqui mesmo em Belém, aqui em São Salvador... Virgem Maria foi criada pelo Marquês de Zimba Npanghi! Ouviram? São Francisco também é daqui, pertenceu ao clã do marquês de Vunda! Vocês querem ou não querem que a capital volte para cá? - Queremos! Queremos! Queremos! - Grita a multidão em uníssimo. A população pediu para acompanhá-la. Prometeram obedecê-la e foram aceitos... Seu apelo pela unidade obteve um grande apoio entre os camponeses, que migraram em massa para a cidade, identificada por Kimpa como a cidade bíblica de Belém. Ela disse a seus seguidores que Jesus, Maria e outros santos cristãos haviam sido realmente congoleses. Vita dava as suas roupas aos indigentes, que encontrava à beira dos caminhos. Apenas ficou com a tanga e uma manta parda. Como quase não dormia, seu rosto moreno tinha um tom azulado, os olhos cansados estavam cercados por profundas olheiras com jejuns constantes e prolongados; ela andava por toda a parte com o rosto completamente descoberto, daí por diante, limitava-se a fazer uma única refeição por dia. No entanto, seu olhar tornava-se triste, sempre que via os mercadores de escravos, ou via seus familiares enlutados que choravam a sua partida. Embora se considerasse católica apostólica romana! Ficava irada quando, ao atravessar uma aldeia, topasse com alguns dos seus desafetos geralmente padres capuchinhos - falando mal de si! Para estes, ela era simplesmente uma falsa profetiza! Uma grande pecadora! Por isso, tempos depois foi capturada... PADRE: Então Dona Beatriz Kimpa VIta, a senhora e o General, súdito do rei Pedro IV, estão conspirando contra o manicongo? As relações de amizade entre Dom Pedro IV e Vita eram tão extraordinárias e evidentes que ninguém imaginaria que tempos depois ele, Dom Pedro, facilitaria a sua captura. KIMPA VITA: Bem, o senhor padre é congolês? PADRE: Não! Porquê? KIMPA VITA: Porque os senhores são estrangeiros no meu reino. Não é legítimo julgarem-me por desobediência ao meu próprio soberano! Creio ser um assunto doméstico, Senhor! Havia um crucifixo na parede do convento... Mas nada disso agora era digno de ser olhado. Afinal tudo era mentira; tudo naquela sala era um fedor; tudo ressentia a falsidade, tudo criava a

ilusão de significado, de felicidade, de religião, misericórdia, perdão, beleza, e, todavia, não passava de putrefação oculta... Amargo era o sabor do mundo dos padres... A vida era um tormento com aqueles que diziam apregoar a VERDADE DIVINA! PADRE: Você viu aquela cruz, lá na parede? KIMPA VITA: Eu não gosto de cruzes! Foi nela que Deus foi crucificado. Por exemplo, uma faca que mata alguém que nós amamos nunca é guardada com carinho! PADRE: Você vê nele algum negro? KIMPA VITA: Isso é só uma imagem feita pelos brancos, é claro. Se fossemos nós a fazê-la, seria preta. Dessa nossa madeira escura, dura como ferro. Mas também eu não gosto da cruz porque foi nela que Cristo foi crucificado como já disse... É uma má recordação! PADRE: Então a senhora confirma o que anda dizendo por aí que Deus é negro? KIMPA VITA: Deus de certeza que é negro. E mesmo Cristo não nasceu em Belém, mas aqui em M‟Banza Congo... E foi batizado no Nsundi, não na Nazaré. E a mãe dele, Nossa Senhora, nasceu de uma escrava do rei Nzinga Mpangu. E foi também aqui que Deus amassou o barro para criar o homem com as suas próprias mãos... Simpa Vita opõe-se ao Cristo “prisioneiro” de uma Igreja que tenderia a monopolizá-Lo, um Cristo que ultrapassa e transcende os quadros institucionais, todas as categorias religiosas e culturais unicamente familiares aos cristãos do Ocidente. Cristo é Aquele que em toda a parte precede o missionário (branco ou negro) e que está presente na cultura de cada povo e de cada nação! PADRE: Você diz que os brancos têm origem numa pedra bruta chamada „fuma‟ e que vocês, os negros, nasceram de duas árvores, uma negra e outra vermelha, a „nsanda‟ e a „nkula‟, que têm as raízes ligadas aos espíritos da terra, os „Nkisi-Nsi‟. É isso? Então pretos e brancos não têm a mesma origem? Ouvi bem? KIMPA VITA: Ouviu sim, Senhor Padre! Que mal há nisso? Não somos todos da mesma natureza? Os maniputos é que fazem distinção entre as pessoas! Deus sive natura! Deus é a natureza e nós somos filho Dele, porque não sermos também iguais ao pai, nosso criador? PADRE : Não entendeu a pergunta? Não foi isso que eu perguntei! Responda a pergunta, por favor! KIMPA VITA: Filhos não são todos iguais perante o pai? PADRE: E você? Diz que foi concebida pelo seu “anjo da guarda” - Santo António? Você é virgem? Como pode conceber? KIMPA VITA: O senhor está falando de virgem Maria ou de mim? O meu anjo da guarda é S. João! Eu é que sou António! PADRE: De si! KIMPA VITA: Se o senhor padre acredita que nossa senhora tenha sido concebida por Deus sendo virgem… como não pode acreditar que eu na mesma condição tenha sido concebida por um espirito? PADRE: Isto é uma blasfêmia! Você não é Virgem Maria e nem tão pouco Santo António e ele, São António, por mais que seja santo não é Deus! Que tamanha confusão santo Deus! Como se não bastasse ainda diz que também é Santo António! E continuou...

PADRE : Se você diz ser Santo António é porque é homem e sendo assim como pode amamentar? KIMPA VITA: Se o senhor padre acredita que Deus é três: pai, filho e espírito santo... Como não acredita que eu possa ser pelo menos dois: uma mulher e um homem? PADRE: Olha não me confunda! Você também é acusada de ter amamentado o seu filho! KIMPA VITA: Isso é pecado? Que eu saiba padre, não constitui pecado nenhum amamentar uma criança! Nem nossa nem dos outros! PADRE: Mas a senhora sendo Santo António não pode amamentar... Se diz ser Santo António é um homem, e os homens não amamentam! Então a senhora é um falso Santo António! KIMPA VITA: Na nossa cultura, padre, os santos não têm sexo! PADRE: O que é isso? Nossa cultura? Quer dizer que para si as Igrejas têm que ter tradições próprias? Que blasfêmia! KIMPA VITA: Os Apóstolos sempre fundaram verdadeiras Igrejas com tradições próprias e nem por isso deixaram de ser unidas! PADRE: Como é possível estarem unidas com tradições próprias? Que incoerência! KIMPA VITA: Ninguém, padre… pode negar que continuando unidas entre si as Igrejas de Jerusalém, de Antioquia, de Corinto, de Éfeso, de Roma... Tivessem tido as suas tradições, que lhe vinham inspiradas pelo mesmo Espírito Santo a partir justamente das respectivas culturas... -!!!PADRE: Dê exemplos! KIMPA VITA: …Pedro teria seguido para Roma via Antioquia e Tiago teria ficado em Jerusalém; João ver-se-ia estabelecido em Éfeso; Paulo foi o Apóstolo que fundou mais Igrejas; O Evangelista Marcos, discípulo de Pedro e Paulo, foi o fundador da Igreja em África etc. Todas elas, porém, com suas tradições construídas a partir dos costumes, da sabedoria e da cultura, da arte e das ciências dos respectivos povos! -!!!PADRE: Como você pode se considerar sacerdotisa... Santa... Sendo.. KIMPA VITA: Sendo mulher ou negra? PADRE: Não era bem isso... Que eu queria... KIMPA VITA: Pois, Senhor Padre, desde o século III ao século IV a vida cristã nas regiões setentrionais de África foi intensíssima e sempre esteve na vanguarda, tanto no estudo teológico como na expressão literária. Saltam-nos à memória os nomes dos grandes Doutores e escritores, como Orígenes, Sto. Atanásio e Sto. Cirilo, luminares da Escola de Alexandria; e, na outra extremidade mediterrânica de África, Tertuliano, Sto. Cipriano, e, sobretudo Sto. Agostinho, um dos espíritos mais brilhantes do cristianismo. E, entre outros tantos, não posso deixar de mencionar Sto. Frumêncio, chamado Abba Salama, que, tendo sido sagrado bispo por Sto. Atanásio, foi o apóstolo da Etiópia. E continuou... ... Estes exemplos luminosos e figuras dos santos Papas africanos Vítor I, Melquíades e Gelásio I, pertencem ao patrimônio comum da Igreja; e os escritos dos autores cristãos de África ainda hoje são fundamentais para o aprofundamento da história da salvação à luz das palavras de Deus, que não é branco e não tem sexo, nem nacionalidade! Portanto, como pode ver, eu não sou uma

exceção... Se não pode haver sacerdotes e profetas negros como pode haver cristãos negros, Padre? - Retorquiu filosoficamente a oradora mais célebre do reino do Congo com verdadeiro primor de eloquência ...!!!... O padre sabia que ela tinha razão e por falta de argumentos o padre furibundo, sentenciou: - Bem senhores, ouviram com vossos próprios ouvidos que ela amamenta o seu bebê. Sendo assim está claro que é um “falso Santo António”. Assim decido que tanto ela como o seu rebento, que é filho do diabo, bem como os seus seguidores mais próximos, sejam todos queimados por heresia! Kimpa Vita despertou obviamente a ira dos missionários capuchinhos e das frações nobres adversárias do antonianismo e postulantes do poder real. O próprio D. Pedro IV, de início cauteloso e hesitante em reprimir o movimento, terminou por ceder às pressões dos capuchinhos italianos, ordenando a prisão da profetisa e de São João, "o anjo da guarda" de Kimpa Vita que os frades diziam ser seu amante. O estopim ou pretexto que levou à prisão de dela teria sido a acusação de que tinha um filho recém-nascido, cujo choro teria sido ouvido enquanto ela o amamentava em segredo, do que resultara o seu desmascaramento como "falso Santo António”. Vita foi presa e condenada a morrer na fogueira como herege. A tentativa da catequese missionária em convencê-la de “seus erros de apóstata” não surtiu efeito... Kimpa Vita embora condenada a morrer na fogueira como herege do catolicismo... Morreu santa... Morreu como “Santo António do Kongo”... Como Santo António da África... Santo António do universo... Em completo silêncio... Mantinha-se de pé, amarrada ao um tronco com seu bebê ao colo... Kimpa Vita cristianizada, batizada com o nome de Dona Beatriz, agora volta os olhos para os céus, para o Deus dos brancos, o Deus dos invasores, e pergunta a esse Deus em profunda prece para que serve a água lustral da religião cristã “derramada sobre os civilizados”, já que eles não têm piedade da raça negra, da infeliz e triste raça africana. Por que não escravizam os homens brancos também? Não são, os negros e os brancos, todos os seres humanos e com o mesmo direito à vida, à liberdade? Por que os negros não podem ser santos? Por que Deus não pode ser africano? Virgem Maria? Santo António... Que diferença há entre os pássaros de todas as cores? E os animais e as florestas, as feras e as águas? Agora a lenha já está acesa... Torturada pela dor, consumida pela sede... Seus lábios carnudos, ávidos de água, mesmo assim sorriem, em constante meditação... Mantém-se ainda em pé, amarrada a um tronco, até já não sentir nem dor nem sede, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas. Seu olhar tornava-se glacial, sempre que via algum membro da família real presenciando sua morte... Desdenhosamente crispava-se-lhe a boca, cada vez que, ao virar cabeça, topava com algum padre! A carne some-lhe das pernas, dos braços e das faces... Os dedos queimados e ressequidos tornavam-se nodosos, as olheiras tornavam-se cada vez mais profundas... Os olhos proeminentes... Começa a chuviscar... Com a água a gotejar-lhe os cabelos (mais não o suficiente para apagar o fogo...) por sobre as espáduas e bebê que está em seu colo, que começa a ser consumido pelo fogo... Ele, já desfalecido ainda tem um resquício de vida... Ainda se contorce... De dor... Chora muito... Seus bracinhos estão pegando fogo... Os quadris e as coxas de sua mãe já

foram carbonizados... Daqui por uns minutos tudo se transformará em cinza... Em pó... A multidão chora sua partida... A sentença foi executada pelos padres capuchinhos, em M’Banza Kongo, numa manhã, de um dia qualquer de 1708...

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