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Relatorio - A Violencia Domestica Contra as Mulheres

Relatorio - A Violencia Domestica Contra as Mulheres

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Curso de Pós-Graduação Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência doméstica contra as Mulheres e seus efeitos emocionais.

Manaus
Agosto 2008

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Curso de Pós-Graduação Terapia Cognitivo-Comportamental

Violência doméstica contra as Mulheres e seus efeitos emocionais.
Monografia apresentada á Coordenação do Curso de Pós-Graduação em Terapia Cognitiva Comportamental do Instituto de Ensino Superior da Amazônia da Faculdade Martha Falcão, como requisito necessário à obtenção do título de Especialista em Terapia Cognitiva Comportamental.

Autoria: Maricília Teixeira da Costa Sílvia Mendonça dos Santos e Santos

Orientador: Dr. Thomé Eliziário Tavares Filho

Manaus 2008

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Considerações Finais. Páginas 03 04 05 06 07 09 12 18 22 27 31 35 37 39 .5 SUMÁRIO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Assuntos Dedicatória Agradecimentos Sumário Resumo Introdução Concepção de Violência A Violência de Gênero: Violência contra a Mulher Violência doméstica: A Família em Crise. A Violência doméstica em Manaus. Programas de controle da violência contra a mulher no Brasil e em Manaus. Referências. Razões que levam as mulheres vitimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. Violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais.

que partiu do método de abordagem dedutivo. Objetiva-se ainda de forma específica realizar um estudo sobre a violência de gênero e doméstica. . buscando através da revisão da literatura sobre o tema. Efeitos emocionais. as autoras buscaram ampliar e consolidar seus conhecimentos acerca do tema abordado. à luz da literatura quais os aspectos psicológicos e sociais e quais as razões que levam as mulheres vítimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. Quanto aos meios classifica-se como uma pesquisa bibliográfica. das ansiedades e até desordens de personalidade. onde buscou-se descrever os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. identificar os efeitos emocionais relacionados à violência doméstica e verificar. Neste artigo. das depressão. Palavras-chave: Violência doméstica.6 RESUMO O objetivo geral desta Monografia foi de se discutir acerca dos efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. No que se refere aos procedimentos metodológicos. quanto aos fins este artigo classifica-se como uma pesquisa descritiva. Com a realização do trabalho detectou-se que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental das mulheres evidenciadas por meio do estresse. a compreensão dos efeitos emocionais relacionados à violência doméstica. Mulheres.

INTRODUÇÃO A violência doméstica constitui-se no objeto de estudo deste artigo que discorre sobre o tema por meio de uma abordagem bibliográfica. consumo de drogas e a desestruturação familiar. percebe-se que os principais fatores que contribui para a violência contra a mulher têm raízes sociais. econômica. desemprego. na família. até na escola. A violência contra a mulher é a submissão adquirida pelo aprendizado. na sociedade e às vezes. onde os agressores. culturais e psicológicas como: a má distribuição de renda. por não possuir uma independência financeira. permanecem no relacionamento. muitas vezes ocorre a violência. Na dimânica familiar. O comportamento violento é estruturado sobre vários enfoques sendo um deles um conceito multidimensional da agressão. destacando os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. No que se refere à justificativa para o desenvolvimento do presente artigo intitulado “A violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais” é decorrente de motivação pessoal das autoras e experiência profissional de atendimento de mulheres envolvidas neste quadro. geralmente são os maridos e companheiros. sabem de suas vulnerabilidades. a falta de atenção. que atinge milhares de pessoas de ambos os sexos e não costuma obedecer nenhuma classe social. é importante para os profissionais de psicologia que lidam com este tipo de violência compreender a natureza do problema para conseguir desenvolver intervenções eficazes. inclui-se a violência doméstica contra as mulheres. saúde. que possuem livre acesso às vítimas. Neste contexto. . Diante deste contexto. tomando-se como base a experiência pessoal de uma das autoras que trabalha na área de segurança pública. educação.7 1. um problema universal silencioso e dissimulado. Grande parte das mulheres vítimas de violência doméstica. Entretanto. religiosa ou cultural. sabem de toda a sua atividade diária e o mais importante.

desordens de personalidade e expressões de caráter obsessivo compulsivo. a condição de violência de gênero em que vive a sociedade brasileira se expressa em geral sob as mais variadas formas e. arrasta-se em dimensão da violência doméstica e do espancamento. como não poderia deixar de ser. O problema que deu origem ao trabalho está delimitado na seguinte questão: Quais os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres? A hipótese que norteou a pesquisa partiu da premissa de que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental. é necessária e importante a compreensão das relações dos casais no contexto familiar. parentes e amigos. pois quando não ocorre acaba de certa forma acarretando diversos problemas de níveis sociais. Objetiva-se ainda de forma específica realizar um estudo sobre a violência de gênero e doméstica. entre pais e filhos. disfunções sexuais. ansiedades. Como objetivo geral deste artigo. à luz da literatura quais os aspectos psicológicos e sociais e quais as razões que levam as mulheres vítimas de violência doméstica a permanecerem no mesmo relacionamento. identificar os efeitos emocionais relacionados à violência doméstica e verificar. que são apresentados nos relacionamentos conjugais. No que se refere à metodologia. buscando através da revisão da .8 Além disso. Quanto aos meios classifica-se como uma pesquisa bibliográfica. No caso específico dos relacionamentos conjugais. onde buscou-se descrever os efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. que partiu do método de abordagem dedutivo. quanto aos fins este artigo classifica-se como uma pesquisa descritiva. detectadas na forma de estresse pós traumático. é de fundamental importância para o indivíduo uma boa estrutura familiar. pretendeu-se discutir acerca dos efeitos emocionais provocados pela violência doméstica nas mulheres. distúrbios alimentares. depressão. evitando-se desta forma ou pelo menos minimizando o problema da violência doméstica contra as mulheres. fornecendo assim informações para melhorar a prática do bom relacionamento. Logo.

política. Na última e quinta seção. irá se traçar um panorama da violência doméstica em Manaus. Tomando-se como base os objetivos propostos. sexual. forçar. ou contra um grupo ou comunidade que possa resultar ou tenha alta probabilidade de resultar em morte. contra outra pessoa. contra si próprio. bem como suas dimensões estruturais e culturais. as violências são caracterizadas pelo uso intencional da força física ou do poder. 2. Antes de se adentrar na questão da violência doméstica contra a mulher e no convívio conjugal. o que implicaria em uso de força para produzir dano. a compreensão dos efeitos emocionais relacionados à violência doméstica. real ou em ameaça. problemas de desenvolvimento ou privação. a violência pode ser classificada em três categorias: a) violência dirigida contra si mesmo (auto-infligida). violar. e violência . b) violência interpessoal que são classificadas em dois âmbitos: violência intrafamiliar ou doméstica. Assim a violência poderia ser vista de qualquer perspectiva psicológica. Em seguida a terceira seção teve por escopo caracterizar a violência doméstica. A segunda seção contempla a violência de gênero. Segundo a OMS (2002). faz-se necessário caracterizar a violência em geral e suas dimensões estruturais e culturais. ou seja. social. CONCEPÇÃO DE VIOLÊNCIA Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (2002). tomando-se como base pesquisas realizadas sobre a violência doméstica em Manaus. entre parceiros íntimos ou membros da família.9 literatura sobre o tema. dentre outras. Na quarta seção se abordaram os efeitos emocionais da violência nas mulheres vítimas de violência doméstica. como a obra “A representação social da mulher no contexto da violência conjugal na cidade de Manaus” de Ramos (2003). o artigo foi dividido em cinco seções principais como a seguir delineadas: Na primeira seção caracteriza-se a violência em geral. econômica. Ramos (2003) evoca um conceito da raiz etimológica do termo violência correspondente aos verbos violentar. dano psicológico. lesão.

sexual e envolvendo abandono. nas últimas décadas. quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas. que define violência não como violação ou transgressão de normas. No entanto. objeto de estudo deste artigo. sentir e agir. sendo localizado sobre diferentes vertentes analíticas. a violência é uma relação de forças caracterizada em um pólo pela dominação e no outro pela coisificação. opção. os atos violentos podem ser classificados como abuso físico. Esta se caracteriza pela inércia. Nessa percepção. como a ação que trataria um ser humano não como sujeito. de forma a ter uma capacidade aumentada ou diminuída. com fins de dominação. negligência e privação de cuidados (CONASS. O conceito de violência. Em segundo lugar. mas como coisa. Na visão de Chauí (1985).10 comunitária. pode-se dizer que a violência é uma violação do direito de liberdade. pela passividade e pelo silêncio de modo que. há violência (CHAUÍ. 2007). políticos e econômicos. surge a indagação sobre a violência contra a mulher. psicológico. do direito de ser sujeito constituinte da própria história. As ações caracterizadas como manifestações de violência abarcam freqüentemente uma gama grande de comportamentos. Já quanto à natureza. de exploração e opressão. p. um vasto campo de estudo de diversas disciplinas. O pressuposto dessa definição é a idéia de liberdade. Nesse sentido. se a liberdade é tomada como uma capacidade e um direito fundamental do ser humano. Em primeiro lugar. querer. caracterizados pela dominação de grupos e do estado. mas sob dois outros ângulos. mas a capacidade de autodeterminação para pensar. entre conhecidos e desconhecidos. que pode ser entendida não como escolha voluntária. Dentro do contexto da violência. O tema violência tornou-se. 23-26). regras e leis. Nascimento e Candau . ser sujeito é construir com autonomia uma relação com determinantes do que somos e o que fazemos. conforme Lucinda. como conversão de uma diferença e de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade. 1985. de maneira submetida ou não a força e a violência ou sejamos agentes dela. que é aquela ocorre no ambiente social em geral. e c) violência coletiva que englobam atos violentos que acontecem nos âmbitos macrosociais.

ao desrespeito e à negação do outro. que se situa a reflexão de Arnoud e Damascena (1996). Desta forma. a violência é multicausal e plural. quanto do complexo de mediações materiais e culturais que envolvem a violência. ao argumentarem que o poder é a capacidade de agir em conjunto e a violência começa onde o consenso (e o poder) terminam. Uma das vertentes mais trabalhadas nos estudos sobre violência é. expressando-se através da quebra dos laços de solidariedade na sociedade e da crise das relações sociais tradicionais. antes de tudo. que o espectro de comportamentos percebidos como violentos se amplia significativamente. A pobreza isoladamente não explica a perda de referenciais éticos que sustentem as interações entre grupos e indivíduos. É também comum uma abordagem tão abrangente da violência. para Velho (1996). É nesta linha. podendo a ação situar-se no plano físico. A violência. em geral. afinal a violência no Brasil é. têm sido cada vez mais preocupantes os níveis de complexificação e banalização da violência. No âmbito da sociedade brasileira como um todo. Na concepção de Arnoud e Damascena (1996). identifica-se violência com criminalidade e/ou agressão física. a sua relação com a desigualdade social. a marca constitutiva da violência seria a tendência à destruição do outro. também. Neste sentido. não se pode afirmar que a pobreza constituía o único fator explicativo da violência na sociedade brasileira. . em síntese. Tomando-se como base o pensamento supra referenciado pode-se deduzir que a questão da violência é também um problema da cultura política do país. sem dúvida. A compreensão deste fenômeno depende tanto da percepção de fatores estruturais. como a crise econômica. No entanto. Em seguida para um melhor entendimento sobre o assunto se discorrerá sobre as dimensões estruturais e culturais da violência. é expressão da impotência. apesar de se reconhecer a existência de elementos comuns entre ambas. o problema do modo pelo qual a sociedade estabelece culturalmente as relações de poder. psicológico ou ético. não incluída na mesma categorização.11 (2001). a miséria e o empobrecimento. diluem-se as fronteiras que permitiriam distinguir uma situação de violência de outra.

quando se percebe tal violência como um problema que iria além do âmbito de cada um. No entanto. pois há muitas situações de violência no dia-a-dia das mulheres e a freqüência com que essas situações ocorrem é muito alta. infelizmente. convém sempre ter presente a articulação entre as dimensões estrutural e cultural da violência. Diante deste contexto. sem dúvida. não reconhecem a situação como uma transgressão de direitos e um contexto instaurador de danos à saúde. os familiares. no extremo oposto e pelas mesmas razões. não é entendida como uma específica e particular transgressão aos direitos da mulher. A VIOLÊNCIA DE GÊNERO: VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER Schraiber et al. particularmente os éticos. chega a não ser considerada violência no sentido de transgressão de direitos e violação de dignidade da pessoa e. espaço onde os contrastes dos modos de vida atuam como potencializadores da iniqüidade social. Neste último caso. a comunidade. de cada mulher. uma trama complexa e dramática da problemática da violência na sociedade brasileira hoje. corriqueiro. e elas não podem ser dissociadas. por isso. No máximo. que tem por base a submissão feminina. a violência contra a mulher foi tão banalizada que muitas vezes. Existe mútua implicação. dentro da qual se situam as questões específicas relativas às manifestações da violência doméstica contra as mulheres. 3. vizinhos. e até as próprias mulheres vítimas de violência. uma das variáveis fundamentais para compreender a crescente violência da sociedade brasileira é o fato de ser acompanhada por um esvaziamento de conteúdos culturais. tornando . os profissionais de saúde ou de outros serviços de assistência. assim. como bem esclarecem Schraiber et al. essas situações de violência não são valorizadas como problemas sociais ou de saúde. Por ser uma questão de gênero. (2005) colocam a questão da violência de gênero como uma “questão invisível”. pelas grandes cidades. ou. colegas. (2005). no sistema de relações sociais. seriam problemas individuais. é tomada tal qual uma violência qualquer. não deveria receber atenção de mesmo porte socioinstitucional que as demais violências.12 Para Velho (1996). a ponto de tornar-se algo comum. Configurase. O cenário privilegiado de tudo isto é constituído. Em decorrência desta visão.

tanto na esfera pública como privada. por isso. Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará/ONU) em 1994 considera como violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseado no gênero. o principal agressor. (2005) se referem. física e sexual. em intenso contraste com a violência que sofrem os homens. Segundo o CONASS (2007). embora também seja outro homem. jornais.13 muito difícil compreender porque relações afetivas teriam o mesmo estatuto de violência que as ocorridas nas ruas e perpetradas por estranhos. e não de cunho estritamente individual. dano ou sofrimento físico. a maus tratos psicológicos e a abusos ou assédios sexuais. além de programas de apoio em instituições de assistência. trata-se com freqüência de um estranho. tratam da falta de reconhecimento de certos acontecimentos como sendo da sociedade como um todo e. A violência contra a mulher apresenta uma freqüência muito alta de ocorrências e. ou pelo menos de uma pessoa nada íntima (SCHRAIBER et al.. sexual ou psicológico à mulher. A violência contra a mulher constitui um problema de saúde pública devido a comprovação de que a violência de gênero está associada a um maior risco para diversos agravos à saúde física e mental. é caracterizada como atos dirigidos contra a mulher que correspondem a agressões físicas ou sua ameaça. Também a violência sexual acarreta uma série de agravos à saúde física e emocional de mulheres. importante movimento social do século XX. . Na atualidade a forma de violência contra a mulher consiste em entender tal temática como uma das formas de violência de gênero e deve muito de sua força ao movimento feminista. como programas de esclarecimentos públicos. (2005) destacam que a violência contra a mulher. televisões. além de trauma físico direto. A invisibilidade de que Schraiber et al. como aponta o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2002. as mulheres encontram em seus parceiros íntimos o principal agressor. São problemas para os quais cabem ações públicas e políticas sociais apropriadas. Além disso. no caso de homens adultos. revistas. e também a uma procura mais freqüente dos serviços de saúde. enquanto. 2005). a Convenção Interamericana para Prevenir. campanhas antiviolência em meios de comunicação social como rádios. na grande maioria dos casos. seguido de outros familiares do sexo masculino. que cause morte. devem ser alvo de propostas de resolução de caráter público para todos. superposição de suas formas psicológica. Schraiber et al.

identificados com certas formas de exercer as masculinidades.Produzir gestos e atitudes obscenos. pessoal. elas são.Forçar relações sexuais quando a mulher está com alguma doença.Discriminar a mulher por sua orientação sexual. . . comportamentos “provocadores”! Algumas pesquisas demonstram que mulheres que viveram diversas agressões e abusos. no máximo.Forçar relações sexuais. e associado às valorizações culturais de comportamentos violentos. por causa de um comportamento seu. segundo. mas que não chamam essas experiências de violência. desencadeado as agressões. ao contrário. trata-se de um fenômeno social e cultural existente em diversas partes do mundo. As mulheres que experimentam tais situações nem sempre percebem essa vivência como uma violência. em geral. terceiro. é por demais diverso o contexto em que ocorre a violência contra a mulher para ser apenas creditado às características pessoais ou individuais de certas mulheres. via de regra. as humilhações ou os abusos de qualquer espécie. 2005).Estuprar e assediar sexualmente. . pois estas teriam. ou. Tendem a assumir que teriam. Não há razões para acreditar que a violência se dê estritamente por motivos pessoais e que as mulheres. pela inadequação de todas as mulheres. . por entenderem que violência corresponde a situações de agressão ou abusos praticados por estranhos. não aquela perpetrada por familiares ou parceiros íntimos (SCHRAIBER et al. deveriam se envergonhar de seu comportamento “causador” da violência. (2005) observam três questões: primeiro. não sendo restrita às mais desfavorecidas. então. . Minayo e Silva (2005). colocando sua saúde em risco. em comum. quando.. no trato com as mulheres. elas mesmas. as formas mais habituais de maus tratos e abusos contra as mulheres são: a) Violência Sexual: . Conforme Gomes.14 No contexto da violência de gênero. a violência é de alta freqüência mesmo em camadas sociais distintas. violências de gênero. Schraiber et al. por sua “natureza”. Uma parcela considerável da população feminina já sofreu agressão física ou sexual por um parceiro íntimo na vida.

. à segurança pública e pessoal.Desrespeitar seu trabalho de cuidado com a família ou fora de casa. . para o mesmo trabalho. d) Violência Social: . . manchas e fraturas. arranhões. .Esconder ou rasgar seus pertences e documentos. sobretudo diante de filhos e filhas. a visibilidade proposta por Schraiber et al. então. Logo. em todos os ângulos.Oferecer menor salário que ao homem.Ignorar e menosprezar o seu corpo.Trancar a mulher em casa.Agredir deixando marcas como hematomas.Exigir atestado de laqueadura ou negativo de gravidez para emprego. Neste sentido. Como pode-se perceber pela classificação da violência praticada contra as mulheres.Quebrar seus objetos.Deixar o cuidado e a responsabilidade do cuidado e da educação dos filhos e das filhas só para a mulher. este quadro requer políticas de intervenção social. utensílios e móveis.Impedir de trabalhar fora.Assediar sexualmente. . . além de violar os direitos destas pessoas ainda instaura agravos à saúde. c) Violência Psicológica: . . compondo-se redes de várias assistências: à saúde. cortes. . . .Criticar de forma depreciativa e permanentemente sua atuação como mãe e mulher. tornar a violência contra a mulher.Insinuar que tem amante para demonstrar desprezo. .Discriminar por atributos de gênero ou por aparência.Rasgar suas roupas. .15 b) Violência Física: .Privar de afeto.Usar linguagem ofensiva.Ameaçar de espancamento e de morte. (2005) seria. .ofender moral sua família.Humilhar e ameaçar. . . . ações de caráter interdisciplinar e intersetorial. dos inter-pessoais ou éticos aos políticos. . de assistência e de cuidados quando a mulher está doente ou grávida. . à justiça e ao bem-estar social. . de ter sua liberdade financeira e de sair.Promover e explorar a prostituição e o turismo sexual de meninas e de adultas.

assim. objeto de intervenções que melhorem o convívio social e privado das pessoas. Em certa medida. que tem a atribuição de formulação. humanizado e de qualidade às mulheres em situação de violência. A visibilidade da questão da violência de gênero. uma questão social bastante complexa e difícil. e a garantia do cumprimento dos acordos internacionais e da legislação brasileira de enfrentamento à violência contra a mulher. pois é uma violência. Tomando-se como base a complexidade e seriedade da violência de gênero surgiu a necessidade de políticas de combate à violência contra as mulheres. que não dizem respeito apenas à ordem ou à legalidade do viver em sociedade. que coíbe a violência doméstica e .16 como violação dos direitos humanos da pessoa mulher. mas não qualquer violência. ainda. a garantia do atendimento integral. através da Lei n° 11. Outra medida de extrema relevância foi a instituição da Lei de Violência Contra a Mulher (LVM). não significa só ver e compreender. coordenação e articulação de políticas que promovam a igualdade entre mulheres e homens.340. em 07/08/2006. e ao estímulo à ética da solidariedade. Para o enfrentamento das desigualdades entre as mulheres e os homens foi criada a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. tanto social quanto interindividual. mas sobretudo à ética da igualdade entre humanos. E em outra medida. em 1 de janeiro de 2003. sejam quais pessoas forem. cada um participando dessa construção comunicacional. A violência de gênero constitui. Um outro passo importante foi a elaboração do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres em 2006 que tem como um dos objetivos o enfrentamento à violência através de uma Política Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher prevendo a redução dos índices de violência. No Brasil já têm alguns sinais promissores. conforme descritos a seguir. deve ser objeto das sanções que regem a violação dos direitos e das leis. mas também fazer ver cada um percebendo e interpretando este acontecimento e. Seria também torná-la como questão de gênero na sociedade.

O caso se tomou emblemático na medida em que o réu foi condenado em duas ocasiões (1991 e 1996). Souza e Kümpel (2007) destacam que no Rio Grande do Sul as denúncias aumentaram em 50% somente nos primeiros 30 dias de vigência da lei. Só para se ter uma idéia da efetividade e alcance da lei. considerável avanço trouxe a Lei de Violência Contra a Mulher (LVM). dois flagrantes. já possui grande repercussão pelo País. Marco Antonio acabou sendo preso apenas em 2003. Maria da Penha se mobilizou e procurou os organismos internacionais. Tudo isso redundou na criação da Lei 11. mas observar-se-á ao longo do trabalho que muitos são os mecanismos preventivos. 1 Como bem observam Souza e Kümpel (2007). em Fortaleza/CE. O jornal “O Estado de São Paulo”. A vítima recebera. Ponto Viveiros. Em Pernambuco. além de tipificar a violência doméstica como uma das formas de violação dos direitos humanos. em apenas cinco dias foram registrados 13 flagrantes e em Tocantins. 20 anos depois do fato. a Organização dos Estados Americanos (OEA) responsabilizou o Estado Brasileiro por negligência e omissão em relação à violência doméstica e recomendou a tomada de medidas com base no Caso Maria da Penha. altera o Código Penal e possibilita que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada. apud Souza e Kümpel (2007) dedicou uma página inteira para retratar o sucesso da lei. a sociedade já mais adaptada trabalhará certamente em um plano mais de prevenção e de conscientização do que vem ocorrendo nesse primeiro momento.17 familiar contra a mulher. na ocasião. bem como o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL). um tiro nas costas que a tomou paraplégica. . quando ameaçarem a integridade física da mulher. a Lei Maria da Penha. muito embora em vigor apenas desde o dia 22 de setembro de 2006. posto que a violência contra a mulher estava banalizada e a “coisificava” na medida em que. professor na Faculdade de Economia. na ocasião. vem apresentando tremenda efetividade social. do dia 12 de novembro de 2006. O certo é que as coisas não podiam continuar como estavam. mas não chegou a ser preso. Esse primeiro momento da Lei sem dúvida nenhuma é repressivo. em uma segunda ocasião. Sem sombra de dúvida. a saber: o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM). sofreu tentativa de homicídio provocada pelo então marido Marco Antonio H. Esta lei que ficou conhecida como Lei Maria da Penha . quando não havia 1 O caso Maria da Penha ocorreu em 1983. acompanhado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. chegando até a causar estranheza as várias alegações de inconstitucionalidade.340/2006 que acabou sendo batizaria de “Maria da Penha”. ou seja. Em 2001. recorrendo sempre em liberdade. de forma que. envolvendo a biofarmacêutica Maria da Penha Fenandes que. impactando em um primeiro momento e conduzindo muitos homens violentos à prisão. Além de a lei gozar de constitucionalidade.

Espera-se que estas políticas e leis sejam efetivamente implementadas na sociedade e não permaneçam apenas como propostas demagógicas de uso político na máquina da burocracia pública. pode ainda ser entendida. atualmente. que descendem de um tronco comum e se unem entre si pelo mesmo vínculo de sangue. Contudo essa realidade mudou e. A família é a base de toda sociedade e por isso recebe especial proteção do Poder Público. a família em crise. composição e papel dos pais. o que confere à família contemporânea. conhecida como a família tradicional vem se alterando muito ao longo dos tempos. existem famílias que se distanciam do perfil tradicional. que ao longo dos últimos tempos. vem passando por profundas mudanças no que se refere à sua definição e função. conceituá-la não ficou fácil. . impunha ao agressor o pagamento de uma cesta básica. constituído pelos pais e seus filhos. Costa (2008) conceitua a família como uma série de pessoas. A mulher em situação de violência tem um status constitucional diferenciado e a sua situação é tratada com base nos ditames da dignidade da pessoa humana.18 retratação. uma configuração muito diferente das formas antigas no que se refere às suas finalidades. como um grupo de indivíduos que. ou por adoção. No entanto. que sempre foi considerada a célula-mãe da sociedade. 4. Atualmente. a célula básica da família. ou gerações. o que colocou muitas vezes. quanto à sua definição e função. faz-se mister discorrer brevemente sobre a família. em geral. Hoje a situação é vista de maneira particularizada. sob o mesmo teto. Quando se fala em família. conceituar família ficou cada vez mais difícil. As discussões em torno das causas das mudanças na estrutura da família e do futuro dessa instituição. formada por pais e filhos. A família. Entretanto. se acham ligados e vivendo. a família ter passado por mudanças profundas. têm se acirrado. pelos laços consangüíneos. ainda vem à mente aquele modelo tradicional formada por um homem e uma mulher unidos pelo casamento e cercados de filhos. em decorrência dos últimos anos. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: A FAMÍLIA EM CRISE Antes de abordar a violência doméstica.

Como bem observa Tomaszewski (2004). vigente até então. ou tenha habitado. o beneficia com a possibilidade de transação penal. Sem dúvida alguma. A violência doméstica contra mulheres tornou-se um acontecimento corriqueiro e que não deve ficar à margem do direito. a partir da segunda metade do século XIX. por exemplo. o processo de modernização e o movimento feminista provocam outras mudanças na família e o modelo patriarcal. a violência no âmbito doméstico. de natureza leve) e. muitas vezes estão tanto na situação de agredidas como quanto agressoras. seja física ou psicológica. as pressões econômicas. em muitos casos apenas incentiva o indivíduo a perpetrar outros atos abusivos contra a esposa ou companheira. segundo Venosa (2004). transfigura-se a convivência entre pais e filhos. a se desenvolver a família conjugal moderna. quando. Segundo Gueiros (2002). a violência doméstica é caracterizada por atos cometidos por um membro da família ou pessoa que habite. tendo como perspectiva a superação da dicotomia entre amor e sexo e novas formulações para os papéis do homem e da mulher no casamento. No entanto. Com isso. As uniões sem casamento passam a ser regularmente aceitas pela sociedade e pela legislação. a passagem da economia agrária à economia industrial atingiu irremediavelmente a família que deixou de ser uma unidade de produção na qual todos trabalhavam sob a autoridade de um chefe. (2005). então. No caso da violência doméstica contra as mulheres as mesmas estão envolvidas na situação de agredidas. ainda. Inegavelmente somente resta contra o agente agressor uma lei branda. De acordo com Schraiber et al. que se limita à aplicação de multa ou pena restritiva de direitos. sofrem violência do marido e batem nas crianças. com base no amor romântico. na qual o casamento se dá por escolha dos parceiros. é uma realidade cada vez maior na sociedade.19 Historicamente. por parte do marido ou companheiro. pois além de enormes danos emocionais e psicológicos . consubstanciando-se em verdadeira rotina forense e lamentáveis notícias da ocorrência de fatos desta natureza. Estes passam mais tempo na escola e em atividades fora do lar. o mesmo domicílio. Os conflitos sociais gerados pela nova posição social dos cônjuges. a desatenção e o desgaste das religiões tradicionais fazem aumentar o número de divórcios. Começa. que exige a representação da vítima para o processamento do fato (lesão corporal dolosa. passa a ser questionado.

ela se perpetua para as famílias que ele constitui. se obtêm os seguintes índices: Quanto à questão da violência no Brasil. no lar. Diante dos dados em evidência e obtidos a qualquer instante por simples pesquisa. a malformação da personalidade dos filhos destes casais está em imediata conseqüência. contribuindo para a clássica afirmação de que o filho de um agressor. dividem-se basicamente em maus tratos físicos. sexual ou psicológica aparece como uma das principais causas do sofrimento para as crianças (TOMASZEWSKI. pois mesmo quando não se trata de vítimas diretas. produzem nefastas conseqüências na formação da personalidade dos filhos que presenciam e vivenciam tais fatos. p. A violência doméstica. Um levantamento do Banco Interamericano do Desenvolvimento considera que a violência doméstica incide sobre 25 a 50% das mulheres latino americanas. Estudos apontam que cerca de 25% das mortes de mulheres em idade fértil estão associadas à violência. as mulheres representam 66% das vítimas de agressões contra parentes. Esculpida a violência no íntimo do ser. que são agredidas dentro da sua própria casa. . o único meio de se obter a solução dos próprios problemas. em situações em que quase sempre o agressor é o homem. os filhos de casais que enfrentam o problema da violência doméstica têm. talvez por crerem que este é. embora não sejam capazes de dimensionar a magnitude do problema em toda sua extensão. são bastante capazes de detectá-los e classificá-los. estatisticamente. reúne todos os pressupostos para se tornar um igual. afinal com o clima instaurado. maior propensão à perpetuação da violência no âmbito do lar. sendo que mais de 60% delas foram vitimadas por seus companheiros. De acordo com a visão de Tomaszewski (2004). sexuais e psicológicos. muito freqüentemente o marido. temse que o índice de violência ocorrida no âmbito do lar é extremamente alto. senão o melhor.20 que causam às mulheres vítimas de violência doméstica. aumentam os riscos da manifestação de comportamentos agressivos ou de distúrbios afetivos nas crianças e adolescentes. Tomaszewski (2004) esclarece que os estudos já existentes sobre a violência no âmbito doméstico contra as mulheres. em âmbito ampliado. É importante ainda salientar que os pais que utilizam de forma indiscriminada a punição física caracterizando desta forma a violência doméstica.147). apresentando crianças e adolescentes inclusive na condição de silenciosas vítimas. 2004. pois enquanto expressão e forma. Como se não bastassem estes modestos dados. sob as formas física.

de tão leves que eram. As que viveram situações de violência familiar aprendem a usá-la como mediadora de suas relações sociais em todas as fases da vida. foram criadas as Delegacias de Proteção à Mulher. sob a lente institucional muito se tem feito para coibir a violência doméstica. de certa forma seguindo-se orientação internacional no combate a este tipo de crime. principalmente no plano internacional. que não obstante o abnegado 2 Segundo Pelisoli et al. a pretensa proteção. praticamente se poderia afirmar que eles nem mesmo vivenciaram a experiência oficial. a transmissão intergeracional ou multigeracionalidade tem sido entendida como a repetição de um padrão aprendido de comportamento. pode-se perceber claramente que a mulher luta pela sobrevivência e o homem para obter o controle. a tendência deste é o progressivo afastamento. Destacando. Tanto é assim que. ainda que levados à corte e condenados. as sentenças. a multigeracionalidade pode ser um dos fatores ou não para que os adultos. . a título de exemplo. quando crianças. vítimas de violência na infância. (2007). Como bem esclarece Tomaszewski (2004). absorvem esta “cultura”. deixam de ser processados e que. em Massachusetts (EUA) demonstrou que 90% dos agressores de suas esposas. No contexto da multigeracionalidade. um estudo conduzido pela Universidade de Brandeis. de sorte a tratar desta violência diferentemente dos crimes em geral. Somente a título de exemplo. que é passado de geração a geração. contribuindo para a multigeracionalidade2 das crianças e adolescentes. Normalmente neste tipo de ambiente deteriorado. os casais desenvolvem um padrão de comunicação tal que a despeito de que a mulher tente trazer o marido ou companheiro para o engajamento. também sejam violentos com seus filhos. mesmo nos países mais desenvolvidos é ainda muito insignificante. Muitos homens que vivem um histórico de violência na família. foram vítimas de violência tem um comportamento inadequado e violento. vários Estados aprovaram leis específicas. para reproduzi-lo no futuro. Todavia. a predominância. No Brasil. Em uma relação de violência doméstica. repetindo dessa forma o modelo dos pais. abordando-a de forma diferenciada.21 A utilização de práticas coercitivas como uma das principais estratégias de educação utilizadas pelos pais. os adultos que. bem como a ausência de diálogo com os pais e entre os membros da família podem trazer conseqüências negativas para o desenvolvimento emocional e nas interações futuras.

ansiedades. como bem esclarecem Schraiber et al. adaptam-se às mais diversas violências.22 esforço de muitos servidores ainda conta com falta de recursos. é muito difícil que a violência doméstica apareça com clareza durante os atendimentos. no entanto propicia e perpetua doenças emocionais. apesar de muitas vezes saberem que podem se machucar. e mais ainda que esse problema seja abordado pelo profissional. disfunções sexuais. mas sim os resquícios de sua reprovável conduta sobre a saúde emocional da mulher e dos filhos ainda menores que convivem em tal ambiente. não acreditam em seu potencial e não buscam ajuda. A violência chega ao ponto de afetar o discernimento a respeito do caráter destrutivo destas relações a ponto de se permitirem cair na sedução. No contexto dos atendimentos em saúde. passando a não se valorizar mais. 5. 2004). Mas. O que se retira de substancial é que é uma realidade que não se pode maquiar e diante de fatos que ocorrem diuturnamente. distúrbios alimentares e desordens de personalidade. porém sonham. não pode o profissional de psicologia. Quando mulheres que estão sofrendo violência procuram os serviços de saúde. idealizam e negam-se a ver a realidade. vítimas de violência doméstica. depressão. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA AS MULHERES E SEUS EFEITOS EMOCIONAIS A violência não é doença. tais como estresse. inclusive de pessoal e de treinamento adequado (TOMASZEWSKI. (2005). infelizmente ainda não é vista correntemente como tal. ou que seja registrado em prontuário e transformado em objeto de alguma conduta ou encaminhamento. Muitas das mulheres. pois não tem somente a implicação penal para o agressor. principalmente o que atua na área de segurança pública estar alheio. . quanto porque não tem sido experiência das mulheres o crédito e o acolhimento diante dessa revelação nesses espaços. que colocam a vida efetivamente em risco. Trata-se pois de um problema de saúde coletiva e também da assistência à saúde das mulheres. Isso ocorre tanto porque é bastante difícil falar sobre a violência. por exemplo. baixa auto-estima. muitas vezes não revelam espontaneamente essa situação.

pois esses casos requerem uma postura ética e um acolhimento especial. por sua alta prevalência. seja porque ainda não podem confiar nos atendimentos em delegacia ou nos serviços de saúde. É importante ter em mente que cuidar da mulher e do grupo familiar a que ela pertence inclui necessariamente lidar com a violência doméstica. (2005). vários deles sugerindo que a pergunta acerca dessa forma de violência. o tratamento torna-se paliativo e reiterado. o receio de identificar-se com a situação (especialmente em pacientes próximas do ponto de vista socioeconômico) e a falta de treinamento têm papel importante nessa dificuldade (SCHRAIBER et al. 2005). Na visão de Schraiber et al. tornar visível a violência doméstica no interior dos serviços de saúde tem sido uma preocupação de associações médicas. Isso é o que tem sido chamado de violência institucional. Para tanto é essencial que o serviço não seja violento ele próprio. a falta de tempo. governamental ou não. são os inúmeros protocolos que têm sido propostos para isso.23 Desta forma. Afinal.. Nem os profissionais de segurança e nem os saúde investigam essa condição. seja por dificuldades das mulheres. o medo de ofender a mulher ao perguntar sobre o assunto. deveria ser feita para todas as mulheres atendidas nos serviços de segurança e saúde. porque novas queixas surgem. ou as antigas não desaparecem. que é um contexto instaurador de sofrimento e doenças emocionais. Prova disso como bem ressaltam Schraiber et al. Diante deste contexto. Os estudos que investigam os motivos para tanto têm demonstrado que o sentimento de impotência diante dos casos. as mulheres geralmente não contam que vivem em situação de violência. Infelizmente. A primeira condição para a garantia dos direitos são profissionais comprometidos e respeitosos com a população em qualquer instituição pública. com funcionários que são negligentes ou que agridem verbalmente. o treinamento destes profissionais não alcançam o atendimento e o cuidado da pessoa como um ser integral. . (2005). sem esta abordagem. e até fisicamente. a população. o primeiro passo para este cuidado é a possibilidade de relato e escuta dos episódios de violência. governos e hospitais ao redor do mundo na última década.

vítimas de violência doméstica. sexualmente. mágoas chegando a ponto de não mais diferenciarem o bom do ruim. chegando a ponto de perder o controle como situações bem antes das agressões físicas como: ameaças. seria de vital importância que as mulheres agredidas pudessem ou tivessem a coragem de enfrentar seus companheiros e tomassem finalmente a decisão de levá-lo a justiça para que a mesma tomasse as medidas cabíveis nessa situação. abuso emocional. 2003). abuso econômico. Na visão de Ramos (2003). Algumas mulheres. Por isso treinamento. isolação. intimidade. A violência doméstica é muito mais que um simples abuso físico entre casais. sem receber ajuda necessária para finalmente sair e ver que é capaz de enfrentar qualquer obstáculo pela frente. insegurança. pois nenhum ser humano é obrigado a ser violentado fisicamente. financeiramente e de modo particular emocionalmente. não voltassem atrás. uso dos filhos. supervisão e conhecimento por parte dos profissionais da rede de serviços se segurança e saúde existentes são fundamentais. Seria necessário que essas mulheres fossem decididas para. As mulheres vítimas de violência doméstica precisam perceber que não precisam estar nessa situação de vida. o que faz bem ou mal (RAMOS. a dependência financeira faz com que muitas mulheres. culpa.24 É importante ainda salientar que saber perguntar sobre agressões na família é tão importante quanto saber o que fazer quando a resposta é positiva. abuso sexual e imposição do domínio masculino. traumas. sendo uma grande exposição do poder entre a pessoa que aplica a violência e seu executado. . caso contrário será um círculo vicioso onde agressor e agredido não mais cessaram tal procedimento. vítimas de violência doméstica não conhecem os seus direitos diante das situações vividas quase que diariamente. desistam de tentar ter uma vida menos conturbada. diante de toda esta realidade tem que haver uma intervenção apropriada. Porém. ou seja. Infelizmente os relacionamentos que envolvem violência são destrutivos e muitas dessas mulheres permitem estar ou continuar nessa relação que só traz perdas. quando chegasse o momento de sair de casa. A falta de informação.

(2005) sugere uma rota composta pelo conjunto de decisões tomadas por mulheres que vivem situações de violência e suas ações para lidar com o problema. e quando chegam a este estado de indiferença consigo mesmas. Para lidar com o problema da violência doméstica. ela passa a questionar sua situação como pessoa. O estudo identificou os fatores que facilitaram e os que obstaculizaram o processo dessa rota. É uma rota interativa. mas sim. 2000). não pode fechar os olhos e passar acreditar que estar vivendo. Sagot apud Schraiber et al. crescimento. desde que esteja pronta a reconhecer os erros e agir. vai se modificando a partir das respostas recebidas das pessoas e/ou instituições procuradas. e desta forma. b) saturação com a situação. porque rompeu com os próprios desejos (PAPALIA e OLDS. transformação e de ser respeitada como ser humano importante que é. emocionais ou qualquer outra não pode se calar. como segue: No que se refere aos fatores facilitadores internos destacam-se os seguintes: a) convencimento de que os recursos pessoais se esgotaram. Esta rota foi alvo de estudo de Sagot no ano de 2000. cuida dos ferimentos e muitas delas recomeçam a viver. que entrevistou em profundidade 400 mulheres. como se viver fosse abrir mão de sonhos. Papalia e Olds (2000) ainda ressaltam que as mulheres que sofrem agressões físicas. Quando a mulher chega a esse processo. e isso acontece não só porque a mulher permite que o outro não a respeite. reúne forças recolhe os pedaços. A mulher agredida precisa reagir e entender que permanecer no contexto da violência doméstica é uma escolha destrutiva que a machuca. já não mais tem auto respeito e muito menos a capacidade de se amar primeiramente. . procura conhecer seus direitos. c) convencimento de que o agressor não vai mudar. que a faz sentir no fundo do poço. as mulheres abrem mão de seus “eus”. mas que também pode ensina a crescer. constatando que elas buscam diversas formas de apoio e meios de transformar a situação. d) raiva e desamor e e) colocar-se metas e projetos próprios.25 Papalia e Olds (2000) destacam que quando a mulher desvaloriza tudo o que é e que pode realizar. é como se deixasse de ter vida própria para viver somente de acordo com aquilo que o companheiro concorda como certo. ou seja.

conduzindo. c) atitudes negativas dos profissionais e respostas institucionais inadequadas. esposa e mãe. é importante a ajuda de outras mulheres próximas. mesmo que de forma ainda tímida.26 Já quanto aos fatores facilitadores externos destacam-se os seguintes: a) a própria violência contra ela. d) amor pelo agressor. (2005). conforme esclarecem Schraiber et al. . Diante das dificuldades. a informação precisa. sentimento de vergonha e o desprestígio em relação ao cumprimento do papel esperado de mulher. geralmente de irmãs. é importante salientar que o agravamento da violência. c) apoio de pessoas próximas. Os facilitadores mais significativos foram estes apoios. Também a qualidade do cuidado recebido em instituições foi muito importante: o encorajamento. b) culpa. tem se tornado um grande propulsor da mudança. f) manipulação do agressor e dinâmicas do ciclo da violência e g) desconhecimento de seus direitos e falta de informação. b) insegurança econômica e falta de recursos materiais. a busca de saídas é tardia. cunhadas e familiares. Já quanto aos fatores obstaculizadores externos destacam-se os seguintes: a) pressões familiares e sociais. o não-julgamento e o respeito às decisões da mulher contribuíram para a continuidade para sair da situação de violência. enquanto o descaso. ainda foram listados os fatores obstaculizadores internos dentre os quais se destacam: a) medos. a burocracia e a dificuldade de acesso foram grandes inibidores. b) a violência contra filhos e filhas. bloqueiam internamente a decisão de sair da situação de violência. d) condições econômicas e materiais favoráveis e e) informação precisa e serviços de qualidade. No entanto. d) limitada cobertura de organizações governamentais e não-governamentais de mulheres e e) contextos sociais com histórias de violência. amigas e/ou agentes comunitários. e) idéia de que o que ocorre no interior da família é privado. c) vergonha. Diante deste contexto. (2005). Fatores como a percepção da falta de apoio. Nos estudos realizado por Sagot apud Schraiber et al. muitas vezes. que a mulher tome decisões por medo do que poderia vir a acontecer a ela e aos seus filhos.

RAZÕES QUE LEVAM AS MULHERES VITIMAS DE VIOLENCIA DOMESTICA A PERMANECEREM NO MESMO RELACIONAMENTO Quando a discussão envolve o tema violência de gênero. por permanecerem em situação de violência. por quem a sofre. que não demandaria nenhuma providência. Até hoje. banal. . por vezes. outras relacionadas ao estigma associado à condição de vítima de violências.27 6. e que. portanto. No entanto. aspectos que fazem parte da construção e reconstrução cotidiana desses indivíduos. percebe-se que apesar de todo o movimento das últimas décadas a favor dos direitos humanos das mulheres. é melhor como se diz no velho ditado popular “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. (2005). do acesso a serviços. Diante deste contexto. mas da cultura. livre e conscientemente. amigos e familiares. talvez. além da importância do casamento e do cuidado dos filhos como projeto de vida para as mulheres. acirra a idéia de que algumas mulheres estariam optando. como situação indesejável. a violência doméstica ainda é uma realidade bastante freqüente entre as mulheres do mundo. Mas como precisar esse momento em situações de desrespeito e violência cotidiana? Como bem observam Schraiber et al. em casos de grande gravidade e risco de vida. é importante salientar que as escolhas de cada indivíduo dependem não apenas de sua consciência e vontade individual vistas isoladamente. surgem os seguintes questionamentos: Por que tantas mulheres se envolvem e permanecem em relações de intimidade permeadas de violência? Por que a mulher simplesmente não sai da relação violenta assim que esta se inicia? Não resta dúvidas de que estas questões não admitem respostas simples e nem descontextualizadas. e também entre as brasileiras. da opinião da comunidade. da situação social. Entretanto. diversas razões dificultam a saída da situação e o pedido de apoio. pode ser percebida pelos homens e até por algumas mulheres como um acontecimento dentro do usual. afinal a dificuldade de transformação destas situações. algumas relacionadas à dinâmica própria do “ciclo da violência”. a agressão por parceiro íntimo é sempre percebida. exceto. a violência doméstica contra as mulheres. que não deveria ocorrer.

Na visão de Freitas apud Papalia e Olds (2000). medo.28 A mulher pode sentir-se culpada. Uma pesquisa realizada por Demaris e Swinford apud Papalia e Olds (2000) demonstrou como as mulheres. afetiva. A maioria apresenta uma baixa auto-estima. vergonha. talvez porque sejam as que sentem menos controle sobre o que lhes acontece. Mulheres que são vítimas de violência severa ou de sexo coercitivo. se for melhor esposa e mãe. Uma outra pesquisa realizada por Reiss e Roth apud Papalia e Olds (2000) revela que algumas mulheres têm medo de ir embora. são as que mais têm medo. temer por sua segurança e a de seus filhos. que são agredidas . quando tomam uma atitute. sentir-se incapaz de sobreviver sozinha. um medo realista. vítimas de violência doméstica. sua vida estará trilhada pelo medo. comprometendo a sua auto-confiança. Algumas mulheres têm baixa auto-estima e acham que merecem serem espancadas. Algumas mulheres acham que não tem a quem recorrer. Pode achar que. Geralmente. Afinal. na qual a mesma vem recebendo de seu marido. elas são mais agredidas. para essa mulher voltar a ser ela mesma. sonham. devido ela ter perdido seu referencial. a violência está cada vez mais infligindo a sociedade. Quando a mulher é violentada é muito difícil voltar a ser a mesma. idealizam e se negam a ver a realidade. a ponto de concordar com as agressões verbais. sem amor próprio e sem nenhuma estrutura para viver no seu próprio mundo. são mulheres que sofrem abusos sexuais. pode ter vergonha. uma vez que alguns maridos abusivos posteriormente perseguem e espancam e até mesmo matam suas esposas afastadas. e a manipulação psicológica destroem sua autoconfiança. como prometeu. Pode amar o parceiro. Pode-se verificar como é difícil. As mulheres. até mesmo pela dependência financeira. tentam terminar o relacionamento ou chamar a polícia. o marido vai mudar. as ameaças. pensar que o que sofre é banal e que ninguém daria importância. não resta dúvidas de que as zombarias. vítimas de violência doméstica. seus parceiros as isolam da família e dos amigos e elas com freqüência são financeiramente dependentes e carecem de apoio social. as críticas.

foi iniciado um processo de reconhecimento da violência contra a mulher como um problema da sociedade. Foram realizadas campanhas e abertos serviços de diversas naturezas dedicados à questão. a mulher é violentada. na política. Segundo Schraiber et al. Na concepção de Silva (1992). a violência é uma questão muito mais cultural do que econômica. ainda. Está afetando todas as classes sociais embora isso seja uma questão pouco divulgada. trata-se de uma vida difícil. podendo ocorrer dentro ou fora do ambiente familiar.29 fisicamente. levando a mulher a conquistar novos espaços. não se restringe somente ao homem. embora ocorra freqüentemente no espaço doméstico e familiar. . o que somente varia de acordo com a situação econômica e sociocultural. no trabalho. o uso de bebida alcoólica e. Apesar da luta feminista ter evoluído. As dificuldades para mudar as situações são muitas. A questão da violência está diretamente ligada ao problema da democracia e do autoritarismo. a violência contra a mulher é uma atitude cultural. As formas de violência retratam. Sabe-se que não é um problema só das autoridades como de toda sociedade. Assim. Os estudos realizado por Moser apud Papalia e Olds (2000) demonstram que em determinadas condições existem alguns elementos que interferem no cotidiano da vida da mulher. nas duas últimas décadas do século XX. procuram ajuda e por vezes conseguem transformar a situação. No entanto. A impressão que se tem é a de que pobre apanha e classes média ou rica não apanha. (2005). no lar. em maior ou menor escala. a influência dos fatores psicossociais na formação de atitudes sociais no que diz respeito aos estereótipos de homem e mulher. mas também são variadas as formas com que as mulheres falam sobre seu problema. verbalmente e psicologicamente. o processo de violência contra a mulher continua. não apenas de cada mulher submetida a agressões. como a pobreza. A violência contra a mulher. A vida da mulher é constituída dentro de padrões de comportamentos específicos cobrados pela sociedade em que vivem. o estresse e o ciúme. pouco conhecida. Em todos os lugares onde tenha que competir de forma mais aberta com os homens.

buscam formas de saída e fazem diversos esforços nesse sentido. parte-se da premissa de que. E essas formas serão tão mais eficazes quanto melhores forem as respostas encontradas. tanto de amigos e familiares como das instituições de segurança como a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e serviços de saúde existentes. poderá garantir que tais casos deixem de ocorrer. Compreender as condições necessárias para a superação da violência e os obstáculos colocados nesse trajeto pode ajudar a responder. nem que seja parcialmente. só uma sociedade atenta e ativamente contrária à violência contra a mulher. vítimas de violência. Neste sentido. que são os mais efetivos. No entanto. também é verdade que as mulheres. de uma forma geral. tendo em vista a grande diversificação nos comportamentos adotados por elas. se algumas mulheres e homens conseguem mudar suas vidas e encontrar caminhos livres de violência. afinal. . coordenado e consciente. Há obstáculos que devem ser enfrentados. às perguntas colocadas a repeito da continuidade das situações e apontar meios coletivos de superação. Os percursos que as mulheres enfrentam ao tentarem lidar com suas situações de violência são difíceis. Uma mudança tão profunda como a pretendida. quanto os motivos ou origens das situações que culminam na agressão. como demonstram os dados acerca das prevalências e conseqüências para a saúde emocional e física das mulheres.30 Mas isso ainda não é suficiente. sexual ou psicológica. em relação à posição das mulheres na vida social. mas toda a violência que tenha por finalidade coagir e implementar sofrimento. com sólidas e eficazes instituições. se é verdade que essas situações muitas vezes se perpetuam. de uma grande parcela da população. sendo ela verbal. exige um grande esforço. bem como dificuldades de contar com pessoas próximas ou apoios institucionais. faz-se necessário um maior aprofundamento tanto na questão dos efeitos gerados à mulher no momento posterior ao da violência. A violência contra a mulher não se resume somente às agressões onde ocorre o contato físico entre vítima e agressor.

659 1. como forma de descarregar tensões acumuladas. e a discutam com os profissionais de segurança e saúde. já a física. portanto.31 Essa diversificação de comportamento mostra-se estar ligada às variáveis socioeconômicas e culturais.355 101 Sem dados 1999 1. pensando soluções e abordando com maior profundidade as raízes das doenças e sofrimentos emocionais.681 1. de perdão pensando a vítima que pelo carinho momentâneo. formais. seus familiares e amigos conheçam as importantes conseqüências para a saúde física e emocional de todos os envolvidos na violência. Desta forma as vítimas são atingidas com empurrões. O silêncio só contribui para perpetuar a violência.426 Os tipos de violência desencadeada pelo marido/companheiro contra a mulher podem ser percebidos através da tabela 1. entre outros atos físicos contra a mulher. o momento atual da sociedade revela que cada vez mais deixam de existir barreiras entre as classes sociais quando se trata da questão violência contra a mulher. não há motivo para envergonhar-se de ser vítima dela. socos. 7. que permite visualizar as formas de violência cometida pelo homem contra a sua esposa/companheira na realidade de Manaus. Em seguida vem a fase da reconciliação com pedidos.067 1.370 2.132 60 46 2001 1. atritos com agressões verbais que são seguidos pela fase da agressão.750 2. isto é.995 39 39 Fonte: Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher – SESEG – Manaus-AM. A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANAUS Em relação à violência doméstica a OMS (2002) alerta que pode se tomar um ciclo vicioso constituído por fases que se divide em: fase da tensão caracterizada por discussões com insultos.355 62 34 2000 1. e não ajuda em nada esconder o problema quando vamos buscar cuidados. é importante que as mesmas. bem como seus caminhos de solução. . A situação de violência é muito comum. Vias de fato 2.668 2. não vá mais acontecer a agressão. Tabela 1 – Tipos de Violência cometida pelo Homem contra a Mulher em Manaus Ano Lesão Corporal Ameaças Estrupo Homicídios 1998 1.694 2. Para aumentar ainda mais a visibilidade da violência doméstica contra mulheres.

uso de poder ou explicação para sujeitar mulher. tomando. encontrando-se aqui o ponto que reforça a dificuldade no rompimento com a relação que produz a violência. um dos pilares da violência conjugal. a violência está além das características individuais. podendo ele se achar dono da mulher o que leva à aceitação da violência no âmbito doméstico. Quanto à forma de resolução de conflitos. Essas seriam formas de justificar que mereceram a violência ao infringir normas do convívio conjugal. de acordo com o estudo realizado por Ramos (2003) colocam o “querer dominar” como motivo mais freqüente causador de violência. em seus estudos. mesmo sendo contestada é também aceita e perdoada pelo aspecto representativo e simbólico do senso de pertença que esta tem. costumes e comportamentos sócio-culturais. por parceiros. erros cometidos pela mulher e bebida. e contradizem-se no momento que relatam: “eu gritei mais que ele”. . desta forma. As causas alegadas pelos homens. A violência doméstica contra mulheres cometida. uma vez que as mulheres respondem negativamente afirmando que a violência não é a forma de resolver seus conflitos. seriam de ordens secundárias. contribui para a dominação masculina. que no caso da mulher manauara na relação conjugal. Ramos (2003) encontrou contradição entre o discurso e a fala de casais que estiveram conflitados. os fatos denotados como possíveis causas. no plano cultural e psicossocial da relação de forças entre os gêneros. Desta forma. seria uma forma inconsciente de acreditar que o companheiro tem o direito de puni-las quando há infração de normas estabelecidas. o grande vilão como sendo o gênero. a literatura não aponta causas enfáticas. As relações conjugais estão pautadas na base da construção das representações sociais dos gêneros. ao viver sua historicidade. por ordem de escala e alegações. que possui duas vertentes. a qual reproduz a forma de vida das sociedades antigas. está profundamente arraigada nos hábitos. porém numa perspectiva macro. meio de justificativas.32 No que se refere às causas da violência doméstica em Manaus. “trabalhava fora e chegava atrasada”. Então pode-se notar que tal constituição reafirma o poder do homem sobre o corpo feminino. seguido de infidelidade.

que deve saber cuidar bem do marido. entre homens e mulheres. existindo amparo. a realidade da mulher amazonense é diferente das demais de outras regiões. que não sendo aceitos implicava em demissão. Diante deste contexto. em Maio de 2006. que deve ser uma boa dona de casa. Quanto à inserção no mercado de trabalho. foi de que práticas. Ramos (2003) afirma que a mulher manauara se introduz no mundo moderno urbano participando do processo de produção e reprodução do seu domínio próprio. entre outro aspecto proveniente de sua constituição simbólica. ou seja. Em Manaus. A imposição de outras culturas se dava com uma desvalorização preconceituosa dos indígenas. a mulheres amazonenses eram obrigadas a provar que não estavam grávidas. de suas representações. que em sentido físico é mais fraca que os homens. Segunda a autora acima dos hábitos sexuais. pode-se notar divergência cultural ao relatar o valor que a castidade. por exemplo. Assim denota se o quanto a mulher indígena teve que incorporar e conviver com outra cultura e padrões impostos por processos migratórios. que trazia sobre a mulher o perdão e amor da tribo. o que distribuídos trazem uma média de 550 . Afirma que a população de Manaus cresceu sob influência de vários outros tipos culturais o que levou o nativo a perder suas tradições e costumes. enquanto que para os indígenas não existia tal valor. comunicações e ações da mulher amazonense denotaram que a mesma sente-se fraca em relação aos homens. A autora em sua pesquisa sobre a representação social da mulher construída no contexto da relação conjugal violenta. após utilização dos métodos que a orientou. na lenda. reforçando a dominação masculina. além de muitas vezes sofrerem assédios. para tanto a fim de serem aceitas. o que está associado aos aspectos culturais adquiridos no decorrer de sua história. informam um aumento crescente de atos de violência praticados contra a mulher. dados fornecidos pela Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher.33 Na visão de Ramos (2003). europeus e indígenas. uma vez que o filho poderia ser do “boto”. valorizando mais os forasteiros que chegavam na cidade.932 em 2000 com aumento gradativo que chega a 9. a partir de 1978. assim passa a descrever o contexto das simbolizações. da mesma forma a maternidade que era exercida sem que houvesse preocupação com a paternidade.422 em 2005. havendo controvérsias nos papéis desempenhados entre. sendo os registros de ocorrências em torno de 6. relata que a leitura feita. era exclusivamente para jovens solteiras e sem filhos. outrora exercia para os europeus.

422 Casos 10. Maio de 2006. onde o senso comum ainda pensava. por ordem decrescente do número de ocorrências.000 0 Ano 2000 Ano 2005 Figura 1 – Violência praticada contra a mulher Fonte: Delegacia Especializada de Crimes Contra a Mulher. não surtiam efeitos em termos de que não se tomavam providências legais exigidas pela dimensão dos casos. difamação.000 4. conforme o dístico popular: “briga de marido e mulher. vias de fato e até mesmo tentativas de homicídio. estupros.000 6.34 ocorrências mensais. 9.392 Casos 8. as denúncias aumentaram em função da propaganda do governo em relação à inauguração da mesma. . assédio sexual. como no caso delas. As causas mais comuns citadas pelos homens: infidelidade. As maiores incidências concentram-se nos delitos de ameaças. De acordo com a pesquisa realizado por Ramos (2003). sendo que. especialmente quando as denúncias eram feitas contra cônjuges. o querer dominar. sedução. Se compararmos com o que disseram as mulheres. ameaças. ameaças. Os delitos registrados são desde lesões corporais.000 2. cerca de 18 casos por dia. percebe-se não existir uma causa preponderante. lesão corporal e vias de fato. ninguém mete a colher”. Ramos (2003) afirma que a partir de 1987. percebe-se que bebida/ciúme/querer dominar são os elementos mais recorrentes nas justificativas dadas. atentados violentos ao pudor. erros cometidos pela mulher e bebida. com a criação da Delegacia de Mulheres em Manaus. anteriormente as denuncias feitas em delegacias não especializadas. elucidando ainda que tais dados somente são possíveis quando registrados em delegacia. em relação à violência cometida pelos homens contra as suas esposas/companheira.000 6.

em 07/08/2006. está mais presente no discurso do manauara. a causa mais citada é a infidelidade feminina. Como exemplo mais recente pode-se citar a instituição da Lei de Violência Contra a Mulher (LVM) . Em todo caso. juízes. Casas brigo. Além disso. para o indígena e o caboclo o seu peso é bem menor. 2003). instituições governamentais e não-governamentais de diversos setores (saúde. no entanto.340. 8. por exemplo. justiça. Centros de Referência. . psicólogos. a tônica das falas masculinas reproduz o conteúdo semântico dos elementos centrais da representação social do homem entre os sujeitos desta pesquisa: dominador/chefe de família. médicos. sobre um mesmo problema: a violência exercida principalmente contra as meninas. Programas de controle da violência contra a mulher no Brasil e em Manaus Em nível Brasil. conflitantes. nas duas últimas décadas houve o surgimento e o incremento de instituições que atendem mulheres. que cada categoria de sujeitos. Delegacias de Defesa da Mulher (DDM). em função de sua realidade cultural. policiais. operam com diversos profissionais (advogados. bem-estar social) foram criados e passaram a atender meninas e mulheres em situação de violência. que em uma grande parcela dos casos atendidos é doméstica. (2005). mais conhecida como Lei Maria da Penha que coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher. Serviços dirigidos aos homens também têm sido recentemente implementados e ampliados pouco a pouco. assistentes sociais. educadores) com saberes distintos e.35 Constata-se. como bem esclarecem Schraiber et al.. além do surgimento de Conselhos da Condição da Mulher e das Coordenadorias da Mulher em administrações estaduais e municipais. Serviços de Atendimento à Violência Sexual. segurança pública. comprometendo-se a combater a violência baseada nas relações de gênero (SCHRAIBER et al. adolescentes e mulheres. 2005). Para o indígena. respeito/caráter e trabalhador responsável (RAMOS. dá uma acentuação diferenciada para cada razão alegada. Já o caboclo está mais voltado para os erros cometidos pela mulher. por vezes. adolescentes e meninas em situação de violência. Se a bebida. Esses serviços possuem culturas institucionais variadas.Lei n° 11. e da assinatura pelo país de diversas Conferências Internacionais.

A mídia também pode ser utilizada como meio de sensibilização da sociedade em relação à violência contra as mulheres. como bem observa Ramos (2003). 2003). tendo a própria vítima que dirigir-se ao IML e ela própria entregar intimação ao agressor. ainda existem muitas falhas no atendimento às mulheres. No entanto. para tratamento e posterior orientação. a Delegacia de Mulheres representou uma grande conquista e é de fundamental importância na assistência às mulheres no tocante aos crimes praticados contra elas. o que para esta autora é uma exposição à novas agressões. no Brasil existem 339 Delegacias de Mulheres. dentre as quais destaca a falta de assistência psicológica ou qualquer outra no momento em que esta chega à delegacia. bem como orientações de como reagir em horas de ataque e como se proteger. um acordo é feito e o agressor sai impune. serviços de saúde e assistência social) seguramente aumenta o uso das mulheres e potencializa a efetivação dos . folhetos são distribuídos trazendo um esclarecimento sobre a violência assim. manuais. indicando que em casos de emergência a vítima procure o serviço de saúde mais próximo.36 No contexto da cidade de Manaus. cartilhas. por vezes paga uma indenização à mulher ou presta serviços públicos. Os Conselhos Tutelares também estão orientados à acompanhar e aconselhar vítimas e denúncias efetivadas sobre violências de gênero sendo de qualquer tipo. Não resta dúvidas de que a oferta de serviços (delegacias. sendo que existem 70 casas abrigo que guardam vítimas de seus agressores (RAMOS. Além disso. vítimas de violência doméstica. como o que fazer e a quem procurar em caso de abusos. contudo não há um tipo de ajuda que venha abranger o casal em suas dificuldades. revistas é significativa em todo o país e tem o objetivo de ajudar no norteamento de políticas públicas. Para efeito comparativo do que acontece na cidade de Manaus. da qual a de Manaus está incluída. A produção de pesquisas. Outro fato importante é que quando a denúncia chega até a justiça especializada. A Prefeitura Municipal de Manaus mantém um serviço de atendimento a vítima de agressão sexual que recebe denúncias e atende a própria vítima para orientar em caso de violência contra a mesma.

subjazem à constituição psicossocial e cultural dos gêneros. valores religiosos. 9. muitas mulheres ainda têm medo de quando o homem sair da prisão. fora do âmbito conjugal e que não são de ocorrência física. Muitas. ainda permanecem no relacionamento por amor ao marido mesmo depois de sofrer violência. Quando denunciam seus algozes. das depressão. e essa relação está baseada na amizade. assim como proteção nos demais casos. pelo Estado brasileiro. sociais e muitas vezes. A . é que um casal possa se entender na vida a dois. eles parecem “caminhar a passos curtos” já que medidas para minimização deste contexto somente são tomadas secundariamente. mas que merece atenção. A violência doméstica é um problema de grande abrangência social. oferecendo alternativas concretas de ação. A existência destes locais favorece a percepção da violência como injustiça e a legitimidade de voltar-se contra ela. Para se desenvolver um bom relacionamento. ela desiste de denunciar a violência doméstica. em casos extremos. reforçando a importância do cumprimento.37 direitos. Dessa forma sem prevenção primária tornar-se-á cada vez mais difícil erradicar o problema. Além disso. Além disso. física e financeira. a fim de dar maior segurança às vítimas de agressão e um posterior acompanhamento aos casais conflitados e envolvidos em situação. das ansiedades e até desordens de personalidade. Além da dependência emocional. Em relação aos avanços assistenciais. pelos seus dados alarmantes e pela própria complexidade de sua instalação. conforme relatada na bibliografia pesquisada. os filhos fazem as mães desistirem de destruir a família. não atingindo as questões primárias que hipoteticamente são os motivos das agressões. de acordo com os autores estudados. pode-se inferir que a violência doméstica produz conseqüências para a saúde mental das mulheres evidenciadas por meio do estresse. muitas mulheres foram criadas para manter o casamento até o fim e diante das pressões. já que a raiz do problema. amor e sexualidade. promessas de mudanças. pode-se considerar também que os programas de apoio às mulheres poderiam ser mais bem planejados. a tarefa crucial. de seus compromissos internacionais. CONSIDERAÇÕES FINAIS Respondendo ao problema incial que motivou este artigo.

sempre estão com sua auto-estima em baixa. opondo-se ao constrangimento e a autoridade. Além disso. programas. pois os aspectos legais e emocionais que circundam a questão da violência doméstica contra as mulheres e seus efeitos emocionais são muitos e que um trabalho não pode contemplar em todas as suas especificidades. verbalmente e de modo particular emocionalmente. não se opondo às necessidades. Este artigo não teve a pretensão de esgotar o assunto e nem se tirar conclusões acerca do mesmo. quanto mais se oculta o crime sofrido. Afinal. ou por acharem que não há necessidade para tal. sendo que algumas mulheres tem alto grau de dependência financeira. por seus sentimentos não serem respeitados. mais remotas são as chances de serem tomadas às atitudes necessárias para a solução do problema. Quanto às necessidades das mulheres é importante que as mesmas tenham consciência de que devem resgatar a sua autonomia. A maioria das mulheres. e de alguma forma se tornar exemplo para outras mulheres. a literatura revela que toda mulher violentada física ou moralmente deve ter coragem para denunciar o agressor. para o adequado aprofundamento muitas obras devem ser consultadas. A violência doméstica existe em todos os níveis sociais. não vendo diante de si qualquer perspectiva de vida melhor. fóruns. vítimas de violência doméstica. mas trabalhando com elas. faz-se necessário ainda a defesa dos direitos da mulher através da lei. seja por falta de condições. a conscientização individual para gerar uma conscientização coletiva.38 oportunidade deste trabalho foi valorosa para se observar que estas mulheres que são agredidas física. não procura um tratamento psicológico. Tem-se consciência de que inúmeras obras com os mais renomados e competentes autores foram escritas. No que se refere às atitudes que as mulheres devem tomar. afetiva e sexual. criação de ONG´S de amparo financeiro são boas estratégias para combater a violência contra a mulher. Agindo dessa forma ela está se protegendo das futuras agressões que possam vir a ocorrer. A utilização dos meios de comunicação como novelas. logo. propagandas. eventos. .

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