P. 1
Livro_10_Sociologia_da_Educacao-Olhares_para_a_Escola_de_Hoje

Livro_10_Sociologia_da_Educacao-Olhares_para_a_Escola_de_Hoje

|Views: 702|Likes:

More info:

Published by: Bianca Amorim Sena Souza on Mar 15, 2012
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

03/24/2013

pdf

text

original

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

Reitor Vice-Reitor Diretor da Eduem Editor-Chefe da Eduem

Prof. Dr. Décio Sperandio Prof. Dr. Mário Luiz Neves de Azevedo Prof. Dr. Ivanor Nunes do Prado Prof. Dr. Alessandro de Lucca e Braccini

CONSELHO EDITORIAL

Presidente Prof. Dr. Ivanor Nunes do Prado Editor Associado Prof. Dr. Ulysses Cecato Vice-Editor Associado Prof. Dr. Luiz Antonio de Souza Editores Científicos Prof. Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima Profa. Dra. Analete Regina Schelbauer Prof. Dr. Antonio Ozai da Silva Prof. Dr. Clóves Cabreira Jobim Prof. Dr. Edson Carlos Romualdo Prof. Dr. Eliezer Rodrigues de Souto Prof. Dr. Evaristo Atêncio Paredes Prof. Dr. João Fábio Bertonha Profa. Dra. Maria Suely Pagliarini Prof. Dr. Oswaldo Curty da Motta Lima Prof. Dr. Reginaldo Benedito Dias Prof. Dr. Ronald José Barth Pinto Profa. Dra. Dorotéia Fátima Pelissari de Paula Soares Profa. Dra. Terezinha Oliveira Prof. Dr. Valdeni Soliani Franco Profa. Dra. Luzia Marta Bellini Profa. Dra. Valéria Soares de Assis

EQUIPE TÉCNICA

Projeto Gráfico e Design Fluxo Editorial

Marcos Kazuyoshi Sassaka Edneire Franciscon Jacob Mônica Tanamati Hundzinski Vania Cristina Scomparin Edilson Damasio Artes Gráficas Luciano Wilian da Silva Marcos Roberto Andreussi Marketing Marcos Cipriano da Silva Comercialização Norberto Pereira da Silva Paulo Bento da Silva Solange Marly Oshima

FORMAÇÃO DE PROFESSORES - EAD

Aparecida Meire Calegari-Falco
(ORGANIZADORA)

Sociologia da Educação: olhares para a escola de hoje
2. ed. revisada e ampliada

Maringá 2009

10

-. Calegari-Falco. org. por escrito. 4. Todos os direitos reservados desta edição 2009 para Eduem. Educação – Sociologia. 5790 . mesmo parcial. Sociologia educacional. (Formação de professores – EAD. 21cm. 155p. 2009.Coleção Formação de Professores . Aparecida Meire. Sociologia da educação. 370.br / eduem@uem. 3. do autor.uem.Maringá . sem a autorização. Proibida a reprodução.br .Paraná Fone: (0xx44) 3261-4103 / Fax: (0xx44) 3261-1392 http://www.EAD Apoio técnico: Rosane Gomes Carpanese Normalização e catalogação: Ivani Baptista CRB . CDD 21. organizadora. rev.Maringá: Eduem.Editora da Universidade Estadual de Maringá Av. reprográfico etc. Endereço para correspondência: Eduem .. e ampl. 10). Colombo. I.eduem. 2.Campus Universitário 87020-900 . 2.Bloco 40 . ISBN 978-85-7628-188-7 1.ed. ed.9/331 Revisão Gramatical: Annie Rose dos Santos Edição e Produção Editorial: Carlos Alexandre Venancio Eliane Arruda Capa: Júnior Bianchi Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) S678 Sociologia da educação: olhares para a escola de hoje/ Aparecida Meire CalegariFalco. eletrônico.19 Copyright © 2009 para o autor Todos os direitos reservados. por qualquer processo mecânico. Sociedade e educação. n.

Primeiros atos: possibilidades apresentadas Marta Chaves / Sonia Mara Shima Barroco > 49 3 .S umário Sobre os autores > 5 > 7 > 9 > 13 Apresentação da coleção Apresentação do livro CAPÍTULO 1 O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Tarcyanie Cajueiro Santos CAPÍTULO 2 Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Mário Luiz Neves de Azevedo / Dalila Andrade Oliveira > 25 > 41 CAPÍTULO 3 Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Eloiza Elena da Silva CAPÍTULO 4 A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE CAPÍTULO 5 Construção do sujeito na era tecnológica Tarcyanie Cajueiro Santos > 63 CAPÍTULO 6 O conhecimento no projeto educativo da “Sociedade do conhecimento” Lizia Helena Nagel > 77 CAPÍTULO 7 As funções sociais da escola na atualidade Maria Eunice França Volsi > 89 > 99 CAPÍTULO 8 Escola: ideologia e indústria cultural Iris Yae Tomita / Tereza Kazuko Teruya / Vanderlei Siqueira dos Santos CAPÍTULO 9 Segregação. integração/inclusão escolar: A educação de pessoas com necessidades especiais Nerli Ribeiro Nonato Mori > 113 CAPÍTULO 10 Impossibilidade de educar para a não-violência?: Reflexões preliminares Lizia Helena Nagel > 127 CAPÍTULO 11 Fracasso escolar: uma questão sociológica Luciana Grandini Cabreira / Luzia Grandini Cabreira > 141 CAPÍTULO 12 Novas demandas educacionais na contemporaneidade: um olhar para a ecopedagogia Aparecida Meire Calegari-Falco / José Ricardo Penteado Falco > 155 4 .

Pesquisadora na área de História e Filosofia da Educação. Graduado em Ciências Biológicas (Unesp-Rio Claro). Mestre em Biologia Celular (Unicamp) e Doutor em Biologia Celular e Estrutural (Unicamp). JOSÉ RICARDO PENTEADO FALCO Professor do Departamento de Biologia Celular e Genética da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEL). Graduada em Publicidade e Propaganda (Cesumar). Mestre em Educação (UEL). LIZIA HELENA NAGEL Graduada em Filosofia e História. Mestre em Educação (UFMG). Bacharel em Ciências Sociais (UFMG). LUZIA GRANDINI CABREIRA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre em Educação (UEM). DALILA ANDRADE DE OLIVEIRA Professora da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais. IRIS YAE TOMITA Professora do Centro Universitário de Maringá (Cesumar). Pesquisadora do CNPq (bolsista de produtividade). Participa do Grupo de Pesquisa ‘Transformação Social e Educação nas Épocas Antiga e Medieval’ (UEM). Doutora em Educação (USP) e Pós-Doutoramento (UERJ) na Universidade de Montreal (Canadá). Doutoranda em Educação (UEM). Mestre em Educação (UEM). Graduada em Jornalismo (UEL) e Pedagogia (Fafijan). LUCIANA GRANDINI CABREIRA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Graduada em Psicologia (UEL). Graduada em Pedagogia (UEM). Mestre em Ensino pela UFRGS. Doutora em Filosofia da Educação (PUC-SP). 5 .S obre os autores APARECIDA MEIRE CALEGARI-FALCO Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Mestre em Psicologia da Educação (PUC-SP). Mestre. Graduado em História (UEM). Doutor em Educação (USP). Mestre em Educação (UEM). TEREZA KAZUKO TERUYA Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Doutora em Educação (UFPR). MARTA CHAVES Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pesquisadora do CNPq. Pós-Doutoramento pela USP. Graduada em Psicologia (UEM). TARCYANIE CAJUEIRO SANTOS Formada em Ciências Sociais pela UFPE. Pedagoga da Rede Estadual Pública de Ensino. Bolsista jovem pesquisadora da Fapesp. Mestre em Educação (UEM). Mestre em Educação (UEM). Faz parte do Grupo de Estudos Filosóficos da Comunicação-Filocom. 6 . Mestre em Educação (UFSCar-São Carlos). MÁRIO LUIZ NEVES DE AZEVEDO Professor do Departamento de Fundamentos da Educação e do Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Graduada em Ciências Sociais (Unesp-Marília) e História (Faculdade Auxilium de Lins-SP). Mestre em Educação (UEM). Mestre em Educação (Unesp-Marília). Doutora em Educação (Unesp-Marília).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE MARIA EUNICE FRANÇA VOLSI Graduada em Pedagogia (UEM). Doutora e Pós-Doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Pesquisador visitante do IESALQ-Unesco (1/2008) e do CNPq (bolsista produtividade). Professora da Fafipar. VANDERLEI SIQUEIRA DOS SANTOS Graduado em Jornalismo (Faculdades Maringá). Doutora em Educação (Unesp-Araraquara). Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP). no Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso. Graduada em Pedagogia (UEM). NERLI RIBEIRO NONATO MORI Professora do Departamento de Teoria e Prática da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM). SONIA MARI SHIMA BARROCO Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

serão impressos 695 exemplares de cada título. Neste sentido. ofertado pela Universidade Estadual de Maringá. mas em nenhum deles seus organizadores e autores tiveram a pretensão de dar conta da totalidade das discussões teóricas e práticas construídas historicamente no que se referem aos conteúdos apresentados. A princípio. O que buscamos. é abrir a possibilidade da leitura. A tiragem da primeira edição foi de 2500 exemplares. Agradecemos. Cada livro da coleção traz. à administração central da UEM. que é responsável pelo programa denominado Universidade Aberta do Brasil (UAB).EAD teve sua primeira edição publicada em 2005. com 33 títulos financiados pela Secretaria de Educação a Distância (SEED) do Ministério da Educação (MEC) para que os livros pudessem ser utilizados como material didático nos cursos de licenciatura ofertados no âmbito do Programa de Formação de Professores (Pró-Licenciatura 1). no âmbito do Sistema UAB. Modalidade de Educação a Distância. De modo bastante 7 . A partir de 2008. Por isso mesmo. com cada um dos livros publicados. demos início ao processo de organização e publicação da segunda edição da coleção. ainda. A conclusão dos trabalhos deverá ocorrer somente no ano de 2012. com o acréscimo de 12 novos títulos.A presentação da Coleção A coleção Formação de Professores . tendo em vista que o financiamento para esta edição será liberado gradativamente. de acordo com o cronograma estabelecido pela Diretoria de Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES). uma vez que os livros da nova coleção serão utilizados como material didático para os alunos matriculados no Curso de Pedagogia. esta coleção somente poderia ser construída a partir do esforço coletivo de professores das mais diversas áreas e departamentos da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e das instituições que têm se colocado como parceiras nesse processo. da reflexão e do aprofundamento das questões pensadas como fundamentais para a formação do Pedagogo na atualidade. um objeto de reflexão que foi pensado para uma disciplina específica do curso. em seu bojo. que por meio da atuação direta da Reitoria e de diversas Pró-Reitorias não mediu esforços para que os trabalhos pudessem ser desenvolvidos da melhor maneira possível. agradecemos sinceramente aos colegas da UEM e das demais instituições que organizaram livros e ou escreveram capítulos para os diversos livros desta coleção.

EAD possa contribuir para a formação dos alunos matriculados no curso de Pedagogia. que no decorrer dos últimos anos empreenderam esforços para que o curso de Pedagogia. ainda. vinculado ao Centro de Ciências Humanas. Letras e Artes (CCH). Esperamos que a segunda edição da Coleção Formação de Professores . pudesse ser criado oficialmente. No tocante ao Ministério da Educação. que em parceria com as Instituições de Ensino Superior (IES) conseguiram romper barreiras temporais e espaciais para que os convênios para a liberação dos recursos fossem assinados e encaminhados aos órgãos competentes para aprovação. o que exigiu um repensar do trabalho acadêmico e uma modificação significativa da sistemática das atividades docentes. o envolvimento direto dos professores do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE). na modalidade de educação a distância. bem como de outros cursos superiores a distância de todas as instituições públicas de ensino superior que integram e ou possam integrar em um futuro próximo o Sistema UAB. Internamente enfatizamos. Maria Luisa Furlan Costa Organizadora da Coleção 8 . destacamos o esforço da Reitoria para que os recursos para o financiamento desta coleção pudessem ser liberados em conformidade com os trâmites burocráticos e com os prazos exíguos estabelecidos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). tendo em vista a ação direta e eficiente de um número muito pequeno de pessoas que integram a Coordenação Geral de Supervisão e Fomento e a Coordenação Geral de Articulação. ressaltamos o esforço empreendido pela Diretoria da Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES) e pela Secretaria de Educação de Educação a Distância (SEED/MEC).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE específico.

que apesar de oferecer um panorama das questões atuais. Franco Cambi1 define com maestria o momento de reavaliação atual da pedagogia: “acontece por solicitação de uma sociedade em profunda transformação e que está assumindo a forma de ‘sociedade aberta’ (plural. bem como suprimir. os limites e sugestões que por ventura pudessem ter surgido no trabalho efetivo com os alunos do Curso Normal Superior. É importante destacar que. junto aos tutores e professores/orientadores da disciplina. 1999). acrescentamos temas que têm por objetivo contribuir na construção de um arcabouço teórico/prático para a formação de professores. não se configura em uma abordagem da micro-história. ao contrário. considerando que estas se multiplicam rapidamente. apesar de atender em parte o conjunto de tais temáticas. atendendo às demandas levantadas por eles e repensando o propósito desta obra. Dessa forma. Essa abordagem é pertinente em um momento em que se repensa a própria identidade dos cursos de Pedagogia e da própria Educação. Agradecemos aos autores que se empenharam em contribuir com suas pesquisas para enriquecer a presente obra. autos de História da Pedagogia (Editora Unesp. sob diferentes concepções teóricas. 9 . pedagogo italiano. uma vez que em seu limite não conseguirá abarcar todas as demandas.A presentação do livro A reedição desta obra nos possibilitou acrescentar. uma vez que permite tecer considerações sobre tais problemas que envolvem diretamente a escola. que indubitavelmente flexibiliza-se em espaço e tempo para acontecer nos mais diversos setores/lugares que antes sequer se cogitava pensar sob a perspectiva educacional. dinâmica e até mesmo conflituosa)”. Desejamos aos leitores que possam se apropriar adequadamente dos temas que serão 1 Franco Cambi. permitindo. temáticas que são emergentes nas discussões educacionais na atualidade. esta obra certamente pontuará somente as principais questões. É imprescindível que não percamos de vista a TOTALIDADE da questão envolvida. Buscamos identificar. desvelar temáticas importantes para um curso de formação de professores. a quem a primeira edição se destinava. Soma-se a essas questões a necessidade de apresentar um panorama relativo às novas possibilidades de atuação do pedagogo também nos espaços não escolares. busca compreendê-las sob uma perspectiva histórica desse novo repertório pedagógico.

Aparecida Meire Calegari-Falco Organizadora do Livro 10 . com a certeza de que somente parte dessa pluralidade aqui se apresenta. e sim como um exercício de compreensão de fatos sociais que interferem em nossas vidas. mas não como um receituário a ser seguido.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE abordados. especialmente na comunidade escolar.

trouxe consigo a produção de estilos diferentes dos das instituições sociais tradicionais (GIDDENS. 14) e produziram modos de vida sem correlação com os tipos tradicionais de ordem social. mais especificamente com a “ruptura do tecido simbólico que encerrava a sociedade do Antigo Regime” (CAILLÉ. seja na dimensão social. 1991. inaugura uma nova maneira de conceber o homem e repercute nas relações sociais. foram “mais profundas que a maioria dos tipos de mudança característicos dos períodos precedentes” (GIDDENS. econômica. como uma organização social correspondente a um estilo de vida. 9). política. A modernidade. quando a sociedade feudal se desagrega e em seu lugar surge a progressiva consolidação da sociedade capitalista. surgiu no século XIX. p. seja na cultural e existencial. As transformações que caracterizaram esse período. 1991. A partir da modernidade. 1991. 45). cuja característica principal é a de ser emulada por um conjunto de descontinuidades que descentram o homem. no continente europeu. Podemos afirmar que a partir do 11 .1 O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Tarcyanie Cajueiro Santos A Sociologia. Esse novo modo de vida. mas sua gestação remonta ao final do século XVI e início do século XVII. O indivíduo emerge progressivamente como sujeito detentor de seu destino. É com a derrocada efetiva do mundo baseado na dominação da nobreza e com o surgimento da crença de que o homem é o principal porta-voz de seu destino que as Ciências Sociais vão se desenvolver. a natureza da vida social cotidiana é radicalmente alterada. 1991). afetando os aspectos mais pessoais da existência humana (GIDDENS. As Ciências Sociais e a Sociologia são uma tentativa de resposta às transformações geradas no homem e na sociedade pelo advento da modernidade. p. Esse fenômeno se insere em um outro ainda maior: o advento da modernidade. ciência que se propõe a estudar a sociedade. p.

assentado sobre os pilares da emancipação e da regulação. porque isto lança luz sobre a ruptura de sentido e a nova cultura que então emerge e que se espelhará pelo século XX adentro. 29). 30-31). o telégrafo e a fotografia. com a nova secularidade daí advinda. o tempo e o espaço confinavam-se em fronteiras seguras. Esse projeto “coincide com a emergência do capitalismo como modo de produção dominante nos países da Europa que integraram a primeira grande onda de industrialização” (SANTOS. É importante compreendermos bem o que ocorre entre o século XVIII e o século XIX. 78). A primeira. p. Ou seja. que desloca “as relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação por meio de extensões indefinidas de tempo-espaço” (GIDDENS. os padrões religiosos de interpretação da ordem do mundo foram substituídos por padrões seculares. durante o Antigo Regime. a eletricidade. p. a iluminação a gás. p. 1996. Assim. imanente e. duas modernidades caracterizariam esse período. Essas duas modernidades são. Segundo o autor. que se estende da Revolução Francesa até a metade do século. associa-se à Revolução Industrial e as suas descobertas. por isso. com a Revolução Francesa o espaço urbano passa a ser pensado cada vez mais como um conjunto formado por partes conectadas entre si e não isoladas (ORTIZ. 198). propenso a mudanças.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE final do século XVIII tem início o cumprimento histórico do projeto sociocultural da modernidade. uma transformação que reflete o afastamento do capitalismo e dos seus avatares da tradição feudal e do Antigo Regime. Podemos pontuar que. A segunda anuncia elementos que marcarão o século XX e que têm como substrato outro sistema técnico: o automóvel. promoveu um intercâmbio entre espaços que estavam voltados para si mesmos. a telecomunicação (rádio) e o cinema (ORTIZ. modificando as relações do homem com o espaço e com o tempo. Se. As 12 . Renato Ortiz. a cidade se especializa e o espaço se transforma. a qual remete ao desencaixe dos sistemas sociais. 1991. o avião. ao analisar a história da modernidade. p. o dinamismo que a modernidade imprime ao mundo deriva dessa separação do tempo e do espaço. O advento de uma nova organização socioeconômica implicou um rompimento com os constrangimentos do século XVIII. como as estradas de ferro. que tinham a natureza e não mais Deus como princípio explicativo. Ou seja. o mundo deixou de ser visto e explicado como perfeição divina e passou a ser encarado como algo em si. descontinuidades que inauguram um novo patamar social. distingue dois momentos no século XIX francês: um primeiro. e outro. a partir dessa época. descrita por Baudelaire com ironia e vivacidade. Trata-se de uma mudança de visão dos homens em relação a si mesmos e ao mundo. conforme Ortiz. que se inicia com a aceleração da Revolução Industrial. 1991. 1991.

É nesse panorama de turbulência ocasionado pela disseminação dos ideais de igualdade. mas também no campo dos interesses práticos. das lojas de departamento e das exposições universais. como se as pessoas vivessem em um mundo unificado. cujo 13 . de outro. Isto gerou um ambiente de constantes crises: de um lado. cujo resultado nas pessoas que viveram no século XIX foi a sensação de habitarem dois mundos diferentes. a Sociologia teve como parâmetro o método das ciências naturais. assinala que: Eram as condições inumanas de trabalho. A crença de que a sociedade era regida por leis naturais incentivava não apenas a tentativa de elaborar um conhecimento sistemático acerca delas. que tem se caracterizado pela aceleração do ritmo da vida e pela compressão do tempo-espaço. p. 1986). ao mesmo tempo.medidas revolucionárias introduzidas na sociedade rompem com o modelo do Antigo Regime. pessoal e política. torna-se o elemento estruturante da modernidade. buscando não apenas entender os problemas que surgiam. a cidade ainda guarda um passo provinciano. impulsionando o desenvolvimento do capitalismo. como também solucioná-los. No caso da Sociologia. De acordo com Renato Ortiz. Vilma Figueiredo. o qual é sentido potencialmente. não apenas se deu no nível intelectual. o sistema e o desempenho. a funcionalidade. Deste modo. é no século XIX que surgem os primeiros esforços sistemáticos de delimitação do objeto de estudo e de estratégias metodológicas para a produção de conhecimento. O princípio de circulação. estruturas de poder pouco flexíveis e impermeáveis aos anseios das grandes massas alguns dos principais temas que ocupavam grande número de intelectuais de então (FIGUEIREDO. pela inovação tecnológica e por uma industrialização causadora de miséria e de desemprego em uma época que. por meio da imprensa. a miséria generalizada. que emerge no século XIX juntamente com a racionalidade. as impossibilidades técnicas não efetivam o total “encolhimento” do espaço. explosivas convulsões em todos os níveis da vida social. que os intelectuais vão pensar uma nova teoria da sociedade. um tempo lento que se contrapõe à rapidez da modernidade a vapor. 5). 2001. A esse respeito. A racionalização do espaço e do tempo ao longo do século XVIII compôs um processo de reorganização social caracterizado por uma profunda dicotomia. o sentimento de um mundo que não chega a ser moderno por inteiro (BERMAN. a exploração de mão de obra infantil. fazendo com que as pessoas sentissem o tempo e o espaço fraturados. as precárias condições de higiene. como também a aplicação dessas descobertas na correção e no controle do social e dos indivíduos. ainda respira os ares do passado. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista A resposta destes pensadores ao caos desse período. liberdade e fraternidade da Revolução Francesa. Apesar do avanço considerável do sistema de comunicações.

9). ao mesmo tempo. a natureza do vínculo social e os tipos de dominação. Isso porque foi em seu nome que se desenvolveram argumentos e desdobramentos inspiradores e justificadores da revolução que pretendeu implantar o comunismo na Rússia e criou a União Soviética (FIGUEIREDO. seja no sentido de sua organização e conservação. A Sociologia. p. por meio de suas teorizações sobre a evolução da racionalidade. 7). seja no da mudança gradual ou transformação radical: Deixando-nos uma macro-sociologia cujo eixo está nos fatores condicionantes do conflito e da solidariedade na sociedade industrial. Como apregoa Giddens: 14 . foi por elas influenciada. o surgimento das estradas de ferro. em seu desenvolvimento. quem fornece o exemplo mais visível de teoria posta em prática. esses fundadores da Sociologia têm em comum a responsabilidade pela formação da crença de que o conhecimento sociológico poderia controlar a sociedade. Apesar das diferenças entre si. mais igualitárias ou mais racionais (FIGUEIREDO. p. baseados na tradição positivista de August Comte e Max Weber. O impacto das teorizações produzidas por esses pensadores nas sociedades do século XX é apontado por sociólogos como Vilma Figueiredo. supranaturais. as ciências naturais alcançaram um desenvolvimento notável. segundo as quais a razão era a principal aliada do homem. se Comte. Èmile Durkheim. nas razões da ordem e nas possibilidades de mudança lenta ou acelerada. com multiplicidade de temas. Durkheim e Weber influenciaram o desenvolvimento das democracias que se fortaleceram durante o século XX. Para ela.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE emprego sistemático da observação e da experimentação possibilitou uma progressiva dominação e controle do homem sobre a natureza. São dignos de atenção os fundadores clássicos da Sociologia. Entre o tempo de Copérnico e Newton. 2001. para sociedades mais avançadas. cujo resultado foi. do telégrafo e da fotografia. influenciou os destinos das sociedades que almejavam se tornar modernas e. por exemplo. foram feitas descobertas tecnológicas extraordinárias. entretanto. gradual ou não. quer sejam mais solidárias. na medida em que deixaram para essa ciência um legado teórico e prático que inspirou inúmeros intérpretes e seguidores ao longo do século XX e cuja força se estende até os dias atuais: Karl Marx. o que estava dentro do espírito do tempo impregnado pelas ideias iluministas. Com o fim de ter o mesmo progresso das ciências naturais e alcançar o status de ciência. a sociologia elaborou um sistema de conhecimentos com base em fatos e tentou livrar-se de concepções dogmáticas. É Marx. religiosas e de ideias preconcebidas. problemas e propostas. passando a ser produzida em diferentes lugares. 2001. que se associavam à Revolução Industrial. da iluminação a gás.

15 . enriquecimento da humanidade inteira por meio dos progressos da tecnociência. as ciências sociais se articularam basicamente em torno de três grandes paradigmas: o marxismo. e até. apesar dos diferentes conceitos e metodologias. tinham origem no contexto da sociedade industrial e na crença de que o progresso seria alcançado por meio da razão e da ciência. Em sua visão. quando muito. o funcionalismo e o weberianismo. tais como: Emancipação progressiva da razão e da liberdade. ao caminhar da macro para a microssociologia. teorias e descobertas das outras ciências sociais continuamente ‘circulam dentro e fora’ daquilo de que tratam. salvação das criaturas por meio da conversão das almas à narrativa crística do amor mártir. os cientistas sociais aderiam a uma ou a outra visão de mundo. ou seja. os atuais desafios da Sociologia e. 1993. procurando dar conta dos novos problemas sociais que têm aparecido. criando uma jaula de ferro. “funcional-weberiano”. Tais paradigmas. se considerando o próprio cristianismo na modernidade (opondo-se. Cabe ao homem conviver com os ‘paradoxos’ (TRAGTENBERG. A modernidade é ela mesma profunda e intrinsecamente sociológica (1991. Para ele. “nem a ciência.O discurso da sociologia e os conceitos. p. Assim. de maneira geral. A modernidade não comporta ‘soluções’. neste caso. p. A filosofia de Hegel totaliza todas estas narrativas. quando o mundo parece ter finalmente entrado em uma nova fase. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Por isso. 1992. 31). Por conseguinte. 49). Normalmente. a complexidade e a incerteza que vivenciamos parecem não condizer mais com muitos dos conceitos por eles elaborados. O eixo básico desse pensamento era a ideia de um sujeito e de um fim unitários e também de superação. ao classicismo antigo). que em um futuro iria se efetuar1. aquilo que Lyotard designou como as metanarrativas. das ciências sociais emergiram na segunda metade do século XX e tornaram-se mais evidentes ou aguçados no início deste século. a racionalização leva ao desencantamento do mundo. Apesar de os pensadores clássicos ainda serem uma fonte inesgotável de conhecimento para se pensar a contemporaneidade. p. 1 Weber foi o único desses pensadores clássicos que viu o uso abusivo da razão sob uma perspectiva negativa. essa ciência vem se diversificando tanto metodologica quanto teoricamente. de modo que se era ou marxista ou funcionalista ou weberiano. xiv). nem a filosofia podem dar um ‘sentido’ à existência. durante todos esses anos. emancipação progressiva ou catastrófica do trabalho (fonte do valor alienado no capitalismo). e neste sentido concentra em si a modernidade especulativa (LYOTARD. que são narrações com funções legitimadoras. ele próprio tendo aprendido a pensar sociologicamente. Assim fazendo. eles reestruturam reflexivamente seu objeto.

Renato. o século XX desenvolveu.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Diversamente de outros períodos históricos. eletrônicas e informacionais. permitindo. que visou à conquista de um maior mercado possível e dirigiu seus produtos a consumidores em expansão. mas por meio de uma velocidade cada vez maior e ininterrupta. p. indicando a existência de uma malha imprescindível para a mobilidade cultural. Isto significa que. a técnica não apenas passou a ser prolongamento da ciência. Mundialização e cultura. conectada cada vez mais pelos meios de comunicação voltados ao grande público. À medida que o século XIX se estendeu. Para uma compreensão melhor desse conceito. 1998. as classes sociais e as nações”. A vocação mundial sobre a qual se estrutura essa modernidade repousa sobre as exigências de uma civilização urbano-industrial. como as da época do surgimento da sociologia como ciência. no final do século XX. como o conjunto 2 Modernidade-mundo pode. 1991. Portanto. da reestruturação do capitalismo e das novas tecnologias comunicacionais. 58-59). por meio da separação do tempo e do espaço. a tecnologia tornou-se estruturadora das próprias sociedades. que modificou o panorama de então. com o advento da globalização. em que os homens encontram-se interligados. em síntese. 7. David Harvey (1992) vê aí uma intensa fase de compressão do espaço e do tempo similar à ocorrida no final do século XIX. veja: ORTIZ. embora já no final do século XIX a emergência de uma “modernidade-mundo”2 possa ser captada em alguns estratos sociais dos países ocidentais mais desenvolvidos. a materialidade dos meios de comunicação permite interligar as partes desta totalidade em expansão” (ORTIZ. tecnologias comunicacionais e informacionais. como também da sociedade. se no século XIX a racionalização da sociedade ainda era uma potencialidade. independentemente de suas vontades. Em meio ao processo de modernização da sociedade observa-se o aparecimento de uma cultura de massa. em escala abrangente e dinâmica. pois o circuito técnico sobre o qual as suas mensagens se apoiam é responsável por um tipo de civilização que se mundializa. da precarização do trabalho. A modernidade avançou materializando-se nela. princípio estruturante das relações sociais. o desencaixe das relações sociais. ocorre com base nesses meios. São Paulo: Brasiliense. os meios de comunicação de massa contêm uma dimensão que transcende as territorialidades locais. da fragmentação das sociedades. na conjuntura posterior à Segunda Guerra Mundial sofrerá saltos e redefinições. cujo impacto não parece ser menor do que o de técnicas anteriores. Comportaria a emergência de uma sociedade global. A circulação. a sua plena realização ocorre apenas no decorrer do século XX. Contudo. 16 . assim “como as antigas estradas de ferro. p. ser compreendida com base na “existência de processos globais que transcendem os grupos. Como propala Renato Ortiz. Foi nesse caminhar que.

convergente de tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware), telecomunicações/radiodifusão, optoeletrônica, a engenharia genética e seu crescente conjunto de desenvolvimentos e aplicações. No momento em que o processo de racionalização sobre o qual se ancora a modernidade ocorre nas diversas esferas do tecido social, a sociedade passa a ser caracterizada como um conjunto desterritorializado, cujas partes são articuladas umas às outras. Com isso, não foram apenas a Primeira Guerra Mundial, o choque da Segunda Guerra Mundial, a revolução soviética e a ascensão dos movimentos fascistas que fizeram com que o mundo ocidental entrasse em uma nova fase; também o advento do pós-industrialismo, de uma burocratização cada vez mais impessoal, a proliferação de armas químicas e nucleares, a devastação do meio ambiente e a deterioração da vida social, assim como a atuação cada vez maior dos meios de comunicação como cimentadores sociais, entre outros acontecimentos, ajudaram a produzir uma desconfiança em relação às ideologias do progresso e uma incerteza sobre o futuro e colocaram em xeque as metanarrativas que guiaram as ciências sociais. Uma sensação de que “tudo o que é sólido desmancha no ar”, como bem pontuou Marx no Manifesto Comunista, vai a par do processo de secularização e individualização da sociedade e da crise das ciências, as quais parecem não dar mais conta dos acontecimentos, não conseguindo, muitas vezes, prevê-los ou explicá-los. Esse processo de substituição de uma sociedade disciplinar, estruturada com base na noção de dívida infinita e de dever absoluto, por uma sociedade do controle, assentada na informação, na estimulação das necessidades, no sexo, no culto da naturalidade, da cordialidade e do humor e no levar em conta os “fatores humanos” (LIPOVETSKY, 1994) indica a passagem da modernidade à pós-modernidade, na teoria e na cultura em geral. O momento de radicalização da modernidade, segundo autores que negam a pós-modernidade, é entendido como um fenômeno de superação daquela3. Essa mutação, que apenas veio a ser amplamente analisada nas últimas décadas do século XX, quando nos deparamos com o processo de reestruturação do sistema capitalista implementado pela revolução tecnológica da informação, não ocorreu da noite

O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista

3 Concordamos com Renato Ortiz, no sentido de que a pós-modernidade pode ser compreendida como uma configuração social que se projeta para além da anterior, mesmo se construindo com base nela, uma vez que é um momento de radicalização das modernidades anteriores. Ortiz. Mundialização e cultura, op. cit, p. 68-69.

17

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

para o dia4. Todavia, já em 1950, ano do aparecimento da televisão, alguns autores começaram a discutir e analisar esse processo de transformação cultural, social, econômica, tecnológica e política, que impulsionou a nova configuração social, política, econômica e existencial, cujo marco foi a explosão de maio de 1968. A proclamação desse movimento de todos os desejos, bem como a sua pretensão à autenticidade e ao direito à diferença, como novas visões de mundo, em nome do respeito ao indivíduo e da erradicação dos dogmatismos morais e religiosos, apontam o novo espírito da época. Com essa mudança normativa, que instituiu sociologicamente o indivíduo puro, o importante passa a ser poder se exprimir e se assumir. Esse novo sujeito soberano e incerto, por não ter mais o peso de morais rígidas para indicar a sua conduta, deve elaborar suas próprias regras (EHRENBERG, 1998, p. 133). Riesman (1971, p. 85), que no início da década de 1950 publicou A Multidão Solitária, com a assistência de Nathan Glazer e Reuel Denney, figura entre os cientistas sociais que se preocuparam em analisar o declínio do modelo normativo, baseado na disciplina e na culpa, que guiou a individualidade até 1950. Ele argumentava que a sociedade estava transitando de um estágio “orientado para dentro” para um estágio “orientado para o outro”. As pessoas, antes influenciadas pelos pais e outras autoridades mais velhas, passavam a depender da aprovação de seus pares. No início da segunda metade do século XX, Riesman já percebia que “educação, lazer e serviços caminham conjuntamente com um crescente consumo de palavras e imagens dos novos meios de comunicação de massa” (RIESMAN, 1971, p. 85). Se essas técnicas, juntamente com o capitalismo, ajudaram a corroer os laços comunitários ao mesmo tempo em que aumentavam a demanda por comportamentos mais “socializados”, a difusão da televisão, após a Segunda Guerra Mundial, criou uma nova “galáxia da comunicação”, aprofundando ainda mais processos iniciados anteriormente, como os de individualização e de distanciamento entre o tempo e o espaço. Com a sua introdução, um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético é deixado para trás. Em seu lugar, emerge “um meio fundamentalmente novo caracterizado pela sua sedução, estimulação sensorial da realidade e fácil comunicabilidade, na linha do menor esforço psicológico” (CASTELLS, 1999, p. 358).

4 Steven Connor afirma que “embora o termo ‘pós-modernismo’ tenha sido usado por alguns escritores dos anos 1950 e 1960, não se pode enunciar que o conceito de pós-modernismo tenha se cristalizado antes da metade dos anos 1970, quando afirmações sobre a existência desse fenômeno social e cultural tão heterogêneo começaram a ganhar força no interior e entre algumas disciplinas acadêmicas e áreas culturais, na filosofia, na arquitetura, nos estudos sobre o cinema e em assuntos literários”. CONNOR, Steven. Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo. São Paulo, Loyola: 1992, p. 13. Outros autores, como Ciro Marcondes Filho, postulam que o pós-modernismo já existia em 1920.

18

Ao modelar a linguagem da comunicação societal, os media, especialmente a televisão e o rádio, moldaram o ambiente no qual agimos e interagimos. Quanto mais esses media penetram em nossa vida, mais tendemos a, individualmente, nos absorver. Castells preconiza que a difusão desses media, cujo eixo central é a TV, pressupõe uma importante característica da sociedade em que um número cada vez maior de pessoas está morando sozinhas. Ciro Marcondes Filho, por sua vez, ao mencionar o papel da televisão, distingue nela uma característica única. Para este autor, ela não apenas foi “o veículo dominante no final da modernidade”; como também foi o “veículo de ingresso na nova fase social, fim da modernidade, interregno pós-modernidade e agora cibersociedade” (MARCONDES FILHO, 2000, p. 36). Deste modo, como principal meio de comunicação da modernidade, a televisão, junto com a motorização, contribuiu amplamente para o confinamento das pessoas em casa, para a implosão da esfera pública e para a política de sedução de massa (MARCONDES FILHO, 2000, p. 36). No final do século XX, a Internet, aliada ao aparecimento e à cotidianização de sistemas multimediáticos, como o computador, que reúne media dispersos (a televisão, o telefone, o rádio e o jornal), parece aprofundar essa tendência. Por meio deles, conceitos como interatividade, participação e performance indicam novos vetores, como realidade virtual, imagem, digitalização, transitoriedade, entre outros. Ou seja, nos deparamos com o aparecimento de uma sociedade em rede, cujo sistema multimediático se apresenta como o sinalizador de novas tendências culturais, políticas, econômicas e sociais. Se com os media dispersos já vivíamos em um ambiente comunicacional, com a introdução e a difusão dos sistemas multimediáticos entramos na sociedade em rede. Com o teclado e a tela as pessoas já acionam programas via satélite e a cabo, veem o clima e jogam. De fato, atualmente a televisão não apenas está conectada a grandes redes, TV a cabo e parabólicas; sua tela já integra cassetes, jogos eletrônicos e até mesmo o computador, fazendo o papel de visor (ORTIZ, 1998, p. 63). Diversamente do ambiente de discussão produzido pelo espaço público moderno, como contraponto ao espaço privado, os sistemas multimediáticos, cujo epicentro é a Internet, aparecem como uma esfera pública inteira, “um mundo em que a constelação de atividades se acha deslocada e condensada no meio eletrônico”5. A penetrabilidade em todos os domínios das atividades humanas, atuante nas tecnologias da informação, do processamento e da comunicação, faz com que vivamos em um mundo que já se tornou digital.

O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista

5 Marcondes Filho. “Haverá vida após a Internet?”, disponível em: http://www.anpocs.org.br.http://www.eca.usp.br/ nucleos/filocom/home.html. 2000.

19

da inovação individual e da iniciativa empreendedora oriunda dos campi norte-americanos da década de 1960. As novas tecnologias. concretizou um novo estilo de produção. a disponibilidade de novas tecnologias constituídas como um sistema já na década de 70 foi uma base fundamental para o processo de reestruturação socioeconômica dos anos 80. em interação com a economia global e a geopolítica mundial. p. a maior interdependência entre o homem e a máquina deriva desse novo modo informacional de desenvolvimento. A digitalização. Assim. segue-se uma relação muito próxima entre os processos sociais de criação e manipulação de símbolos (a cultura da sociedade) e a capacidade de produzir e distribuir bens e serviços (as forças produtivas) (CASTELLS. 1999. não apenas foi de encontro com a tradição cautelosa do mundo corporativo de então. de processamento da informação e de comunicação de símbolos. muitas vezes sem muito sentido comercial. Por se juntarem ao profundo movimento de individualização das sociedades modernas. pela primeira vez na história a mente humana se torna uma força direta de produção e não apenas um elemento no sistema produtivo. como também se difundiu pela cultura mais significativa das sociedades contemporâneas. reordenando seu modus 20 . Com elas. pode ser compreendido por meio de três palavras chaves: autonomia. de comunicação e de gerenciamento de vida. essas novas tecnologias simbolizam a liberdade e a capacidade de dominar o tempo e o espaço. 87). em grande parte. funcionam como amplificadores e extensões do homem. atuante nessa revolução da tecnologia da informação. seus usos e trajetórias na década de 90 (CASTELLS. na formação de redes e na busca de novas descobertas tecnológicas. p. ao integrarem mentes e máquinas. até certo ponto. A ênfase nos dispositivos personalizados. E a utilização dessas tecnologias década de 80 condicionou. Na medida em que a fonte de sua produtividade se encontra na tecnologia de geração de conhecimentos. na interatividade.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Essas tecnologias não são apenas ferramentas a serem aplicadas. O seu sucesso. Desse modo. correspondeu a um seguimento específico da sociedade norte-americana que. a velocidade e o excesso informativo são considerados por Marcondes Filho como os três componentes da era tecnológica. Informa Castells que o espírito libertário dos anos 1960. 1999. 69). Ao interferirem na ordenação física e psíquica dos agentes. eles produzem novas sínteses. p. domínio e rapidez. desembocando na cibersociedade ou sociedade tecnológica ou sociedade em rede dos anos 1990. 51). mas também processos a serem desenvolvidos. Castells (1999) relaciona esse grande progresso tecnológico do início dos anos 1970 com a cultura da liberdade. na visão de Dominique Wolton (2000.

36). conectando o mundo. cit. Humilde. O surgimento de uma nova estrutura social coloca inúmeras dificuldades para aqueles que desejam compreendê-la. políticas. assim como sobre a vida social e cultural. a todos os lugares. inúmeros autores têm chamado atenção à interdisciplinaridade. sua difusão ocorreu com a velocidade da luz. levando à necessária relativização de seus pressupostos. ou seja. 1999. Por isso. em menos de duas décadas. Como expõe Ciro Marcondes Filho: 6 Marcondes Filho. Eles foram postos em xeque pela teoria do caos e da mecânica quântica. p. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista O grande desafio da sociologia é o de procurar compreender todas essas mudanças. Apesar de haver grandes áreas e consideráveis segmentos populacionais que não têm acesso a esse novo sistema. Ao se difundir por todo o conjunto de relações e estruturas sociais. equilíbrio de poder de classe. 1999. por meio da tecnologia da informação. porque a neutralidade científica e o racionalismo como os modos dominantes de pensar da ciência (incluindo-se aí a sociologia) se mostraram um mito. Reiterando Castells: Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação está remodelando a base material da sociedade em ritmo acelerado. o Estado e a sociedade em um sistema variável (CASTELLS. uma sociologia humilde e plural. p. As transformações sociais são tão drásticas quanto as tecnológicas. 52. penetra em todos os domínios de tal forma que a sociologia sozinha não pode mais dar conta de seu objeto. modificando-os (CASTELLS. subsumindo-os. Plural. foi levada a repensar a própria atividade do investigador diante da precedência dos fatos e dos fenômenos em relação a ele próprio. as últimas décadas do século XX foram caracterizadas por um impacto desorientador e diruptivo sobre as práticas políticas e econômicas. apresentando uma nova forma de relação entre a economia. culturais e econômicas.vivendi e sua estruturação de mundo6. 21). à importância de outras disciplinas para se entender as transformações sociais e o próprio campo da sociologia. a tecnologia e as relações técnicas de produção penetram no poder e na experiência. em maior ou menor escala. porque o novo estágio do capitalismo e a globalização a ele atrelada têm nos mostrado um mundo interconectado por uma tecnologia que chega. Economias por todo o mundo passaram a manter interdependência global. Assim. 21 . Ela pressupõe. Neste sentido. para ser ao menos delimitada. uma ciência que se pretendia soberana. acima dos fenômenos. “Haverá vida após a Internet?” op.

A. l.combinada à falência do humanismo.br>. Assim. S. a Sociologia poderá nos dizer muito sobre os rumos que as nossas sociedades estão tomando. São Paulo: Paz e Terra. Companhia das Letras. Acesso em: 26 out.]: Anpocs. EHRENBERG. São Paulo: Unesp. São Paulo. A sociedade em rede. 32-45. A condição pós-moderna.br>. M. muito mais modesto em relação às capacidades humanas diante das máquinas. Ciência da sociedade: texto do curso teoria sociológica. HARVEY. Brasília. jun. Loyola. n. Paris: Editions Odile Jacob.org. CONNOR. GIDDENS. CAILLÉ.org. homem) . Cultura pós-moderna: introdução às teorias do contemporâneo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Levou a uma postura que . V. Referências BERMAN. n. 1998. São Paulo: Loyola. [s. Fim da modernidade?: algumas razões para a perda de sentido nas ciências sociais.anpocs. 22 . Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. As conseqüências da modernidade. M. David. ao ter uma postura crítica diante dos acontecimentos que marcaram o século XX. Sociedade e Estado: Revista Semestral de Sociologia da UnB. história. 39-57. Disponível em: <http://www. 1999. 6. à crise dos ideais emancipatórios e a todos os mitos que envolveram o despertar científico do início do século 19 (progresso. DF: v. teleologia. 1991. 1992. evolução. 25. 2001. São Paulo. 1992. muito mais crítico em relação aos desenvolvimentos da ciência e muito mais consciente das verdadeiras capacidades de pesquisa do ser humano (MARCONDES FILHO. 1994. Acesso em: 16 nov. jan. Disponível em: <http://www. Para uma sociologia da cultura pós-moderna. M. Alain. FIGUEIREDO./jun.se alinhava ao pensamento deste século. 1. 2005. 1991. ano 9. 2005. p. e sem negligenciar a razão. Revista Brasileira de Ciências Sociais. La fatigue d’être soi: dépression et société. razão. p.anpocs. 2000). mas também não fazendo dela a sua musa. CASTELLS. FEATHERSTONE. Belo Horizonte. 1986.

São Paulo: Brasiliense. O princípio da razão durante. ______. C. Superciber.html>. SANTOS. WOLTON. O que é sociologia. G. 2005.:s. Metodologia das Ciências Sociais. Internet et après? Paris: Flammarion. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. [S.LIPOVETSKY. Disponível em: <http:// www.]: 2000. Max. M. ORTIZ. 1971. MARTINS. 2000. São Paulo: Brasiliense. 1996. 1992. l. Cultura e modernidade. 1993. O debate sociológico atual e as transformações na sociedade capitalista Proposta de Atividade 1) Qual a relação entre a Sociologia e a modernidade? Anotações 23 . B. O crepúsculo do dever: a ética indolor dos novos tempos democráticos. Acesso em: 14 nov. São Paulo: Cortez. Lisboa: Dom Quixote. Champs. O pós-moderno explicado às crianças. São Paulo: Perspectiva. Mundialização e cultura.br/nucleos/filocom/razao. B. RIESMAN. 1994. São Paulo: Brasiliense. TRAGTENBERG. A multidão solitária. In: WEBER. Lisboa: Don Quixote. 1991.usp. 1998. LYOTARD. 2000.eca. R.n. Introdução à edição brasileira. MARCONDES FILHO. São Paulo: Ática. David. 1994. ______. São Paulo: Cortez.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 24 .

A advertência de Matteucci é bastante atual. p.2 Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Mário Luiz Neves de Azevedo / Dalila Andrade Oliveira O liberalismo. o liberalismo não se define de maneira simples. pois tal conceito continua equívoco (não unívoco). p. “que não tem muito a ver com história” (1992. Onde quer que tenha conquistado o poder. como teoria político-econômica e prática de governo. não só da complexa matriz liberal. 25 . que tem o trabalho livre. 241). a burguesia calcou aos pés as relações feudais. que consolidava sua força econômica ante uma aristocracia em decadência amparada no absolutismo monárquico. 686). 23). o que coloca-nos diante do risco de se escrever uma história paralela de diversos liberalismos ou de se chegar a um liberalismo “ecumênico”. apesar dos exemplos de escravismos conhecidos na História. sobretudo. o liberalismo defendia: 1) a mais ampla liberdade individual.. basicamente) ao longo dos séculos XVII e XVIII e à luta pela independência dos Estados Unidos. e a liberdade de empreendimento para o capital como conteúdos e o mercado como espaço de relação entre possuidores de mercadorias. no Dicionário de Política de Norberto Bobbio. Correspondendo aos anseios de poder da burguesia. pósmedieval. mas. Entretanto. cumpriu funções históricas fundamentais para avançar no sentido de uma sociedade com maior riqueza e liberdade1. patriarcais e idílicas” (1998b. concorrendo. 1985..] (SANDRONI. reconhece que não existe um conceito unívoco de liberalismo. dessa forma. Em outro dicionário. agora de Economia. para uma maior dificuldade na definição. ao escrever o verbete “Liberalismo”. O pensamento liberal deu forma a um modo de produzir. do que se convencionou chamar de neoliberalismo e de suas consequências. 1 Segundo Marx e Engels. legislativo e judiciário). Matteucci (1992). encontramos a seguinte definição para o termo liberalismo: doutrina que serviu de substrato ideológico às revoluções anti-absolutistas que ocorreram na Europa (Inglaterra e França. 3) o direito inalienável à propriedade. p. 4) a livre iniciativa e a concorrência como princípios básicos capazes de harmonizar os interesses individuais e coletivos e gerar o progresso social [. 2) a democracia representativa com separação e independência entre os três poderes (executivo. “a burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário.

historicamente. de David Ricardo. de 1817. De acordo com Adam Smith. a mínima intervenção do Estado e assemelhando-se ao liberalismo defendido pela Escola Neoclássica2. e os “Princípios de Economia Política e Tributação”. podemos afirmar que os 2 Segundo Capul e Garnier. radicalmente. economista e alto funcionário britânico. isto é. o valor do bem torna-se maior à medida que o produto escasseia. o indivíduo. de John Stuart Mill. faz uma fissura com a Escola Clássica ao negar a teoria do valor-trabalho. na procura de benefícios para si. 114) afirma que as características unificadoras e fundantes do liberalismo residem na economia e na política. Conforme Sandroni. p. a explicação para a existência dessa curiosa energia “ego-filantrópica” reside no mercado. O mercado é o campo desta determinação. p. von Hayek (1899-1992). O neoliberalismo O que se conhece por neoliberalismo é um projeto político e econômico que se (re)apresenta na segunda metade do século XX. c) Escola de Lausanne: León Walras (1834-1910). Jevons (1835-1882) sucedido por Alfred Marshall (1842-1924). que teve como discípulo Vilfredo Pareto (1848-1923). o indivíduo é guiado por uma “mão invisível” e “colabora” com o desenvolvimento social. 26 . p. a Economia Keynesiana é o “conjunto de análises econômicas inspiradas nos trabalhos de John Maynard Keynes (1883-1946). imutável e acabado. 96). Ou seja. ao buscar maximizar o próprio ganho. Para Smith. de 1776. 1989. não é um sistema único. promove o bem público (1980). As políticas de orientação liberal clássica apoiam-se em Smith. De modo esquemático. o Estado deve limitar-se a “(1) proteger as fronteiras nacionais. (2) a administrar a justiça interna. defendendo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Observamos então que o liberalismo constitui um conjunto de princípios que serve de referencial a seus partidários. isto porque. após um período de relativa estabilidade do Estado de bem estar social e de economia política keynesiana3. liberalismo. O marginalismo é criado e desenvolvido por três escolas diferentes: a) Escola Inglesa: William S. autor clássico do liberalismo anglo-saxão. individualismo e mínima intervenção do Estado). 82). O valor para o marginalismo é gerado a partir de um fator subjetivo a utilidade marginal. A Escola Neoclássica segue a maioria dos princípios da Escola Clássica (automatismo do mercado. Além disto. atribuindo certa racionalidade ao mercado e recomendando que o Estado tenha papel mais restrito. defendendo maior liberdade de escolha. originado na Escola Neoclássica. Ludwig E.. Para Smith. As publicações mais relevantes são “A Riqueza das Nações”. apoia-se no livre-cambismo e como teoria política propõe um Estado que governe o menos possível. de 1848. 256). A Teoria Keynesiana [. como teoria econômica. por sua ‘utilidade marginal’” (ibid. “o valor de cada bem é dado pela utilidade proporcionada pela última unidade disponível desse bem. 3 A Economia Clássica foi fundada por Adam Smith e David Ricardo.] opõe-se frontalmente à Teoria Neoclássica e defende a necessidade da intervenção do Estado face às crises econômicas” (1996. sua utilidade marginal aumenta. e (3) a criar e promover certas obras e instituições públicas” (HUNT. von Mises (1881-1973) e Friedrich A. como sendo as bases do liberalismo. O livre mercado e o individualismo firmam-se. Bobbio (1990. de Adam Smith. p. portanto. os “Princípios de Economia Política”. b) Escola Austríaca: Karl Menger (1840-1921) seguido por Böhm-Bawerk (1851-1914).. O marginalismo. ou seja. Friedrich von Wieser (1851-1926).

p.pensadores neoliberais. qualquer ação do governo nesse sentido representa um perigo” (FRIEDMAN. o monetarismo também não é novo. p. a obra de Smith serve como referência tanto para a tradição liberalconservadora como para o pensamento mais progressista. em uma nota de rodapé. inclusive. A participação estatal na economia só é aceita por Friedman em casos excepcionais.. 12). em O Capital. Para ele.. a emissão devia ser regulada conforme a importação e exportação do metal precioso. Os representantes da teoria quantitativa afirmam que os preços das mercadorias seriam determinados pela quantidade de dinheiro em circulação.. Contemporaneamente. Contudo. 1983. algumas vezes. Eles acreditavam alcançar um curso estável do dinheiro por meio da plena cobertura em ouro das notas bancárias. p. Só quando Smith abandonou a teoria do valor-trabalho é que ele pôde argumentar em favor da “mão invisível” e da harmonia social (1989. é a referência monetarista acadêmica. promover mercados competitivos” (1983. Entretanto. referência incontestável do neoliberalismo. p. inspiradas nas escolas neoclássicas. nos levar a fazer em conjunto o que seria mais difícil ou dispendioso fazer separadamente. As tentativas do governo inglês (lei bancária de 1844) de basear-se nessa teoria não tiveram nenhum sucesso e somente confirmaram sua falta de sustentação científica e sua total inutilidade para fins práticos" (MARX. Curiosamente. a Escola de Chicago. Milton Friedman. quanto à questão do conflito de classes versus harmonia social. que defende o trabalho como o original fator criador de riqueza. 120).. qual seja: a criação e promoção de “certas obras e instituições públicas”. 82). também as notas bancárias. pois tem referência no século XIX. Marx. a uma versão do argumento da “mão invisível”. no capitalismo. desestimando. considerou os pressupostos monetaristas como absurdos.] é de que os proponentes da teoria do valortrabalho vêem o conflito de classes como algo de importância fundamental para a compreensão do capitalismo. Ele explica em nota complementar: "Teoria monetária muito divulgada na Inglaterra na primeira metade do século XIX. o governo pode. enquanto que a teoria do valor-utilidade vê a harmonia social como fundamental e leva. a roupagem ideológica do neoliberalismo traz novos adereços e o seu conteúdo teórico comporta determinadas características que. conforme dito. ao estilo dos economistas neoclássicos. propõe que a principal função do Estado seja “a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas. a terceira função do Estado defendida por Smith. tanto para a teoria do valortrabalho. Segundo Hunt. preservar a lei e a ordem. do keynesianismo. No currency (meio circulante) incluíam. Um argumento central [. “além desta função principal. inevitavelmente. que partiu da teoria quantitativa do dinheiro. 12). caracteriza-se por sustentar que é possível manter a estabilidade do sistema capitalista com medidas de controle sobre a quantidade de moeda no mercado. essencialmente. são mais “liberais” que o próprio liberalismo clássico4. de Smith. representada por seu maior expoente Milton Friedman. que propugna a utilidade como fonte de valor. o diferencia do liberalismo de Adam Smith e o distingue. Os representantes do Currency principle queriam imitar as leis da circulação metálica. As obras de Smith [. como para a teoria do valor-utilidade. 1983. é atualizado pela Escola de Chicago. reforçar os contratos privados. 27 . além do dinheiro metálico.] impressionam o leitor por serem extremamente ambíguas. Entretanto. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 4 O monetarismo segue o extremo laissez-faire.

são vários neoliberalismos. p. escrito em 1944. pois. 185). à semelhança do liberalismo. Perry Anderson recorda que o neoliberalismo nasceu logo depois da II Guerra Mundial. uma “regulação” capitalista. o mercado deve ser livre e deve ser tratado como o principal regulador nas relações sociais. os representantes políticos e teóricos dessa corrente de pensamento entendem que a sociedade deve voltar a adotar a política econômica anterior às regulações de matiz keynesiano. marcando uma ruptura com a tradição econômica liberal dos Estados Unidos da América. do marginalismo e da vertente quantitativista do Monetarismo5. Como já podemos notar o liberalismo clássico e o neoliberalismo preservam tênues.. mas também política (1995.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE A obra de Smith. Desse modo. Seu texto de origem é O Caminho da Servidão. o papel de vigilante dos princípios de respeito à propriedade privada. denunciadas como uma ameaça letal à liberdade. 9). comportando esse paradoxo (ou ambiguidade). a obra deve ser datada e compreendida de acordo com o espírito da época em que foi escrita. Enfim. para pôr fim às subservientes relações sociais do feudalismo. 5 “Nome dado pelo presidente dos EUA Franklin D. segundo a noção de historicidade. OLIVIER. de modo que se destine ao Estado. na autarquia dos feudos e no misticismo religioso fossem superados e para que se impedissem retrocessos ao estilo de um “neofeudalismo”. de Friedrich Hayek. A compreensão do movimento neoliberal é um desafio teórico. Grosso modo. No entanto. na agricultura primitiva. Para a ortodoxia neoclássica e para o neoliberalismo. isto é. na região da Europa e da América do Norte onde imperava o capitalismo. apenas. mas fundamentais. segundo a qual o Estado não podia intervir na vida econômica” (CAPUL. dá margem a uma dupla interpretação. a livre iniciativa e a mínima intervenção do Estado eram pressupostos básicos para que regimes e sistemas. da preservação dos contratos estabelecidos e de promotor do livre mercado. baseados no servilismo. Foi uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar. no artesanato. não somente econômica.. Destaquemos que o individualismo. 28 . diferenças entre si. o mercado foi um elemento desagregador do modo de produção feudal e a burguesia beneficiou-se da impessoalidade das novas relações sociais. entre as variantes mais conhecidas. Trata-se de um ataque apaixonado contra qualquer limitação dos mecanismos de mercados por parte do Estado. não existe um neoliberalismo com sentido unívoco. a sua política econômica de luta contra a crise [. em essência.]. em 1933. cujas marcas principais são a troca de coisas e o individualismo do laissez-faire. retornar ao caminho que a Escola Clássica indicou e que a Escola Neoclássica radicalizou na forma. podemos inferir que a “desregulação” do servilismo é. 1996. Roosevelt.

convocou várias celebridades que compartilhavam de sua orientação ideológica para uma reunião em Mont Pèlerin. dada a falta de efeito das usuais intervenções. 7 Adam Smith sugere: "Mesmo que o Estado não viesse a tirar qualquer vantagem da instrução das camadas inferiores do povo. 1995. Este é um livro político [sem grifos no original]” (ANDERSON. três anos após a publicação de O Caminho da Servidão. Walter Lipman. 29 .Segundo Perry Anderson. p. pois as décadas de 1950 e 1960. 1995. Ludwig Von Mises. era o Partido Trabalhista inglês. Michael Polanyi. 398). deveria mesmo assim. A crise dos anos 1970 foi a grande prova para o keynesianismo. na Suíça. anuncia e reconhece Hayek nas primeiras páginas de sua obra: “quando um estudioso das questões sociais escreve um livro político. Walter Eupken. p. Os princípios do liberalismo radical não podiam ser aplicados em países que conheciam os mais altos índices de crescimento econômico da história e que maravilhavam-se com a assistência do Estado de bem-estar social. Hayek. entre outros. parecia ter se esgotado a política de keynesiano. Conforme Anderson. Contudo. Salvador de Madariaga. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin. naquele momento. o neoliberalismo tornou-se uma opção para os governantes: 6 Esse é um testemunho do que significou os "Anos Dourados" em uma região da Itália: "foi nos últimos quarenta anos que Modena viu de fato o grande salto à frente. pois as políticas sociais e econômicas dos governos tinham por pressupostos que os problemas seriam temporários sem a necessidade de mudanças de fundo (HOBSBAWM. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo. com reuniões internacionais a cada dois anos. Anderson nota o que. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman. conhecidas como “Os Anos Dourados” do capitalismo. Enquanto os fundamentos do Estado de bem-estar se estruturavam na Europa do pósguerra (II Guerra Mundial) e o New Deal6 consolidava-se nos EUA. às vésperas da eleição geral de 1945 na Inglaterra. seu primeiro dever é declará-lo francamente. O período que vai da Unificação até então fora uma longa era de espera. mais precisamente com a crise 1973. p. 9-11). ou de lentas e intermitentes modificações. duro e livre de regras para o futuro (1995. 9). p. Karl Popper . p. antes que a transformação se acelerasse até a velocidade do raio. De acordo com Hobsbawm. uma espécie de franco-maçonaria neoliberal. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento As propostas econômicas referenciadas na obra teórica de representantes desse grupo passam a ser consideradas relevantes por policymakers somente a partir da década de 1970. p. Hayek entra assim na luta ideológica e no clima de disputa eleitoral do pós-II Guerra Mundial: “O alvo imediato de Hayek. em 1947. 1995. 253). 425). abertamente. que este partido efetivamente venceria” (1995. Lionel Robbins. constituíram um período infrutífero para o neoliberalismo7. interessar-se por que não fossem completamente ignorantes" (1980. 7). As pessoas agora podem desfrutar um padrão de vida antes restrito a uma minúscula elite" (MUZZIOLI apud HOBSBAWM. altamente dedicada e organizada.

Resumidamente. Mesmo antes do crash. elevaram as taxas de juros. O zelo ideológico dos velhos defensores do individualismo era agora reforçado pela visível impotência e o fracasso de políticas econômicas convencionais. se lançaram num amplo programa de privatização.. Perry Anderson faz um conciso relato sobre o processo de implantação do modo de governar neoliberal no Reino Unido: o modelo inglês foi. a Inglaterra. aplastaram greves. que nada mais é que a ideologização das relações de troca. E.. não ocorre crise de superprodução. O NEOLIBERALISMO E A EDUCAÇÃO Sistematicamente. inspirado na “mão invisível” de Adam Smith. a minoria [. o gás e a água (ANDERSON. Jean Baptiste Say (1767-1832). p. foi a primeira a tentar cumprir a agenda neoliberal. em 1980. que o mercado deve ser o sinalizador e o regulador dos negócios. sob a presidência de Ronald Reagan. equivocadamente (e a História o comprova). 1995. p. Para Say (1983). entende a oferta cria a sua própria procura e o mercado tende ao equilíbrio. a eletricidade. seguida pelos EUA. Além disso. baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos. aboliram controles sobre os fluxos financeiros. defende que a iniciativa privada deve ser a empreendedora por excelência. 398). na teoria e na prática de governo. sob o Governo de Margareth Thatcher. principalmente suas correntes mais ortodoxas. pois. tomam por base o individualismo para a formulação das políticas sociais. essa variação ortodoxa de liberalismo como programa econômico de governo ganhou maior crédito político internacional com a premiação de dois de seus maiores intelectuais: Friedrich von Hayek e Milton Friedman. o pioneiro e o mais puro.]. finalmente [. os fundamentos do liberalismo. conhecida pelo nome de “lei dos mercados”. sobretudo após 1973 (1995.. começando por habitação pública e passando em seguida a indústrias básicas como o aço. que receberam o Prêmio Nobel de 1974 e 1976. do cotidiano e das condições de vida dos sujeitos e que o Estado deve se privar de qualquer intervenção no mercado. o neoliberalismo.. 12). respectivamente. criaram níveis de desemprego massivos. ao mesmo tempo. também pode ser considerado um resgate radicalizado da “Lei de Say”. dos investimentos.] de crentes no livre mercado irrestrito já começara seu ataque ao domínio dos keynesianos e outros defensores da economia mista administrada e do pleno emprego. impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária. Entre os países centrais. Não diferentemente. o petróleo. em 1979. a partir dessa visão de mundo e sob a perspectiva da “lei dos mercados”. portanto. as reformas neoliberais identificaram o mercado como 30 .SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE A única alternativa oferecida era a propagada pela minoria de teólogos econômicos ultraliberais.

por excelência. Em suma. isto é. 9 Cf. A intervenção governamental no campo da educação pode ser interpretada de dois modos. A educação é um direito social e uma obrigação do Estado. a construção de uma sociedade democrática e estável demanda (prioritariamente) indivíduos alfabetizados com um grau mínimo de conhecimentos. justifica-se a construção de políticas públicas para a formação geral. p. a universalização da educação possibilita um ganho para toda a sociedade.circunstâncias estas que tornam a troca voluntária impossível. ou seja. 1987. de cidadãos. até certo limite. p. 83). do déficit educacional ainda existente em grande parte do Planeta e. 89).referência para as mudanças na relação Estado. é uma conquista popular extraída a duras penas do Estado” (AZEVEDO. a questão educacional encontra-se no âmbito do mercado. cheguei à conclusão de que. Ele admite tão somente que a educação possa ser financiada pelo Estado se “justificada pelos efeitos laterais” (1983. com referência a uma sociedade de homens livres. no Brasil. pois. potencialmente civilizador. da complexidade das relações humanas e. há mais de dez anos. uma das minhas maiores preocupações. 31 . Para Friedman. Efeitos laterais e paternalismos têm implicações muito diferentes (1) para a educação geral dos cidadãos e (2) a educação vocacional especializada (1983. o benefício gerado pela educação diretamente ao sujeito não se descola do 8 “Descobrir o significado do que se costuma chamar de 'justiça social' tem sido. 1995. em especial. necessariamente. o que propõe o neoliberalismo para a educação? Na opinião de Friedman.ou melhor. Diante de tanta força criativa. para além das possíveis vantagens individuais. ou produz ganhos substanciais pelos quais também não é possível forçar uma compensação . a expressão 'justiça social' não tem o menor significado” (HAYEK apud BUTLER. p.: Oliveira (1997). Além disso. a execução do projeto do sistema educacional é retirada do âmbito público e transferida para a iniciativa privada. O projeto de sociabilidade neoliberal marca-se pelo afastamento da democracia tradicional e pelo menosprezo da ideia de justiça social9. Dessa maneira. 17). Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Os pensadores neoliberais costumam distinguir educação e instrução. sociedade e educação8. é considerada uma atividade de socialização. Historicamente. entretanto. O primeiro diz respeito aos ‘efeitos laterais’. antes de ser somente um setor do Estado. “Educação e planejamento: a escola como núcleo do sistema”. circunstâncias sob as quais a ação de um indivíduo impõe custos significativos a outros indivíduos pelos quais não é possível forçar uma compensação. ao mesmo tempo. “a educação é um instrumento público. Não consegui esse intento . a educação geral é considerada pelo neoliberalismo como um usufruto pessoal/familiar. p. O segundo é o interesse paternalista pelas crianças e por outros indivíduos irresponsáveis. de formação de cidadãos e preservação da vida em sociedade. argumentando que. de integração social. Entretanto. 86). criador.

entre outros. das instalações e dos prédios escolares e com a criação do “vale-educação”. As ideias neoliberais tiveram muita força no movimento de reformas educacionais vivido por muitos países latino-americanos na década passada. Tais reformas vieram no bojo de um movimento mais amplo de reforma do próprio Estado. as orientações neoliberais. Friedman propõe a privatização das escolas. a descentralização da cobertura. que os pais trocariam pela educação de seus filhos em escolas particulares. inclusive.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE benefício para toda a sociedade. A Argentina. O Chile é comumente apontado como o país que sofreu maiores influências das ideias neoliberais na reforma de seu sistema educativo. os referenciais perseguidos pelos reformadores estatais foram. Para tanto. bem como a implementação de ações e programas. 32 . Nesse contexto. também na década de 1990. sendo que ao Estado nacional cabe um papel condutor. No entanto. Alguns deles tiveram seus sistemas educacionais reformados em uma direção contrária ao movimento de construção da educação pública como um direito do cidadão e obrigação do Estado. as reformas educacionais implementadas estavam imbuídas da mesma racionalidade presente na reforma do Estado brasileiro. embasadas em maior flexibilidade. sendo que em cada país tais orientações foram sendo incorporadas de maneira distinta. As justificativas para tais reformas assentavam-se na necessidade de modernizar o Estado e adequá-lo às exigências da economia mundial. com a venda. atingir maior efetividade das políticas. por fim. A educação privada está dividida em dois tipos: aquela financiada pelas famílias e a que recebe recursos financeiros estatais. Trata-se de um processo que pressupõe a focalização das políticas públicas nas populações mais vulneráveis. gerando maior impacto por meio da expansão do atendimento com menores custos. o que resultou em modelo de organização muito peculiar. a partir da definição de um padrão mínimo de atendimento. sobretudo para possibilitar a busca de complementação orçamentária junto à sociedade e. A educação chilena é administrada por um sistema misto. uma espécie de bônus (voucher). variando conforme a capacidade de resistência e contraposição a tais processos. o Peru. O Brasil. em grande medida. cuja maior expressão é a Reforma Administrativa. também viveram processos de reformas educacionais orientadas na direção aqui discutida. visando a atenção local. viveu um período de importantes reformas tanto no âmbito do Estado quanto da educação. a desregulamentação para permitir maior flexibilidade orçamentária e administrativa. seguindo a lógica do Estado Mínimo e do livre-mercado. A suposta crise do modelo burocrático de administração ensejou o desenvolvimento de outras formas de organização do serviço público. conhecida como “educação particular subvencionada”. a Colômbia. apesar da descentralização da educação pública e uma forte área de gestão privada. distribuídos pelo governo.

o Congresso dos EUA. Os números são do IIF (Instituto de Finanças Internacionais). os altos cargos da Administração e os grupos especialistas. como também essa abertura tem estimulado-as a buscarem complementação orçamentária junto à iniciativa privada e a outras formas de contribuição da população. “Washington” significa o complexo político-econômico-intelectual integrado pelos organismos internacionais (FMI. 11 Olivares e Guedes assim definem o chamado Consenso de Washington: “A primeira formulação do chamado “consenso de Washington” se deve a John Williamson. que se mantinha. reforma fiscal encaminhada para buscar bases tributárias amplas e modelos secundários moderados. BM). a Reserva Federal. as escolas não só passaram a contar com maiores possibilidades de decidir e resolver suas questões cotidianas com mais agilidade. que reúne 380 grandes bancos. entendida como um objetivo mensurável em termos quantitativos. bem como a definição de prioridades de gastos. privatizações. desregulações.htm). mudanças nas prioridades do gasto público (de áreas menos produtivas como a saúde. verifica-se que através da autonomia. nos quais. a qual. 33 .br/fsp/dinheiro/ fi0803200911. Em contrapartida. “os norte-americanos estão enfrentando um súbito processo de empobrecimento que já destruiu cerca de US$ 16. net/libros/2005/gog/3c. liberalizacão financeira. as famílias ficaram US$ 9. Tais modelos foram justificados pela busca de melhoria da qualidade na educação. Só de setembro para cá. e foram divulgados em antecipação a dados semelhantes a serem publicados pelo Fed (o banco central dos EUA) nos próximos dias” (CANZIAN.As reformas dos anos 1990 trouxeram importantes mudanças para a gestão da educação pública.5 trilhões mais pobres. garantia dos direitos de propriedade (2009. 2009. abertura para entrada de investimentos estrangeiros diretos. http://www1. Tal processo fez com que fossem ampliadas as responsabilidades e espaços de decisão nas unidades escolares.5 trilhões da riqueza disponível entre as famílias nos últimos 15 meses. tais como a elaboração do calendário escolar. educação e infra-estruturas). entra em crise.eumed. 08 mar. especialmente das modalidades de lucro. do ponto de vista histórico.uol. Diante da crise de Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 10 Segundo Canzian. liberalização comercial. http://www. a realidade demonstra que o liberalismo necessita do Estado para a manutenção de sua referência para o capitalismo. Os temas sobre os quais existe acordo são: disciplina orçamentária. Apesar de parecer paradoxal. o orçamento anual da escola.htm). “Washington” está de acordo. referenciado no liberalismo ortodoxo (ou neoliberalismo) e na supremacia do capital financeiro. busca e manutenção de modelos de câmbios competitivos. entre outras. os modelos fundamentados na flexibilidade administrativa promoveram maior desregulamentação de serviços e descentralização de recursos. ganha uma magnitude que somente pode ser comparada à crise de 192911. VIVE-SE TEMPOS DE PÓS-NEOLIBERALISMO? (À GUISA DE CONCLUSÃO) No final da primeira década do século XXI.com. mais precisamente a partir da segunda quinzena de setembro de 2008. Seu enunciado concretiza dez temas de política econômica. em grande medida. o que acabou por ampliar a autonomia da escola e fortalecê-la como núcleo do sistema10. segundo o autor. devendo ser alcançados por meio de inovações incrementais na organização e gestão do trabalho na escola. o sistema capitalista. O valor equivale a mais do que tudo o que os EUA produzem em um ano e a quase 13 PIBs do Brasil.folha.

. economistas ligados ao establishment dos EUA passam a defender essa intervenção. Paulo.. concebido como algo de absoluto.] o Estado é investido de uma função de primeiro plano no sistema capitalista.. 408) “[. professores de uma escola de administração no coração da capital financeira do mundo. que se manifestam predominantemente como exaltação do Estado em geral. em tempos de crise. como os grandes bancos de Wall Street. e como desconfiança e aversão às formas tradicionais do capitalismo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE 2008. escreve a respeito da crise financeira: 12 Gramsci. Daí a impressão de que a base político-social do Estado parece repousar sobre a ‘gente humilde’ e os intelectuais. a sua estrutura permanece plutocrática. Como economistas defensores do livre mercado. na linha de Richardson e Roubini. a se construir um novo consenso em favor da intervenção do Estado na economia. assevera: “[. o único meio de salvar os bancos é a estatização. 2009).. A crise do subprime e do estouro da “bolha imobiliária” nos Estados Unidos da América tem obrigado. privatizantes e desregulamentadores da economia.. a respeito da política econômica italiana na passagem da década de 1920 para a de 1930. Richardson e Roubini declaram em artigo intitulado “Agora. na realidade. o que torna impossível romper as ligações com o grande capital financeiro [sem grifos no original]” (p. A declaração de que a alternativa é a estatização faz sucumbir a célebre sentença da primeira ministra do Reino Unido (1979-1990). Mas o sistema financeiro dos Estados Unidos chegou a um ponto tão crítico que não há muita escolha [sem grifos no original] (RICHARDSON. na qualidade de empresa (holding estatal) que concentra a poupança a ser colocada à disposição da indústria e da atividade privada [. se não quisermos ficar como o Japão nos anos 90 ou os Estados Unidos nos anos 30. em 1989. esse gênero de intervenção significa a transferência de rendas e fundos do tesouro público para a esfera e interesses privados que se resume na antiga e patrimonialista consigna de “apropriação privada de lucros. Esse tipo de ortodoxia é uma “verdade” que foi superada a partir de setembro de 2008. quando se espalharam pelo Globo programas de governo de corte neoliberal.] deste complexo de exigências nem sempre confessadas. culminando. 410). de que não havia alternativas ao livre mercado. na série de recomendações liberalizantes denominada de “Consenso de Washington”12. Defendem-se sem ressalvas a nacionalização de bancos. o salvamento de empresas capitalistas e a injeção de capitais (públicos) na economia. nasce a justificação histórica das chamadas tendências corporativas. ROUBINI. mas. todos nós somos suecos”: o sistema bancário dos Estados Unidos está à beira da insolvência e. rendas e dividendos e nacionalização de perdas e prejuízos”.. De certo modo. correspondente em Washington do jornal O Estado de S. sentimo-nos como se dizendo uma blasfêmia quando propomos que o governo assuma totalmente o controle do sistema bancário. 34 . celebrizada pela abreviação TINA (There is No Alternative). Margareth Thatcher.] (p. Patrícia Campos Melo. inclusive a estatização de determinados símbolos do capitalismo mundial.

8 trilhões em ativos tóxicos – papéis de origem duvidosa e com baixa aceitação no mercado (MELO. resultou no chamado “Estado de Bem-Estar Social”. legal e coercitivamente. à maneira narcísica. 35 . o sistema capitalista necessita de que o Estado seja o regulador das relações econômicas e políticas entre os diversos atores sociais e garanta. Há ainda um rombo que pode chegar a US$4 trilhões. mas isso é só o começo. os atores sociais que têm por referência o mercado sem regras. ao paralisar-se diante da única alternativa reconhecida pelo neoliberalismo: o próprio mercado. inebriados pela atmosfera do jogo e da etérea ilusão da acumulação sem limites. necessita da regulação pelo Estado. Se durante os anos 1990 os programas de reformas eram unânimes em propor a descentralização da educação. Poderiamos recordar as políticas públicas posteriores ao crash de 1929 para demonstrar como o sistema capitalista alcança a saída para as crises. p. na atualidade assistimos a um movimento de busca de maior articulação e de estímulo à organização sistêmica. ao mesmo tempo em que a teoria (neo)liberal supõe aversão à intervenção do Estado. 2009). apesar do discurso em contrário. 2009.O governo dos EUA já injetou US$2 trilhões no sistema financeiro desde agosto de 2007. avaliam analistas ouvidos pelo Estado. deixado à (ideo)lógica dinâmica do mercado. É desnecessário pontuar que a solução para aquela crise (1929) foi a regulação e a intervenção de Estado que. inclusive no financiamento educativo. Os pressupostos do neoliberalismo são postos em questão diante da realidade construída pelo próprio capitalismo: o sistema capitalista para ser operativo. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento Essa não é uma novidade para o sistema dominante. em países considerados desenvolvidos. Descartada essa regra. Em suma. em época conhecida como “anos dourados” do capitalismo. o jogo de mercado. Calcula-se que o sistema financeiro americano tenha US$10. a livre-escolha e a busca dos pressupostos da economia privada na gestão da escola pública. Instituições como Citibank e Bank of América são tidas como insolventes. O esmaecimento do neoliberalismo como modelo de organização política e a falência do mercado como eixo regulador da vida em geral também se refletem na educação. maior participação da comunidade. tendem ao suicídio por definhamento.

36 . Dissertação (Mestrado em Educação)-UFSCar. BOBBIO.n. GRAMSCI. Perry. AZEVEDO.br/fsp/dinheiro/fi0803200911. Acesso em 25 fev. Eamon. 1979. v. _____. Rio de Janeiro: Paz e Terra.uol.). São Carlos. A contribuição de Hayek às idéias políticas e econômicas de nosso tempo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Fernando.:s. Norberto.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Referências ANDERSON. _____. GENTILI. Mário L. _____.intratext. São Paulo: Brasiliense.com/IXT/ITA3087/_P1.l. FRIEDMAN. O futuro da democracia. In. 1980. Folha de São Paulo. Emir. 1990. _____. São Paulo: Abril Cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Acesso em: 08 mar. Rio de Janeiro: Instituto Liberal. 1987.HTM#8KZ>.]. Lisboa: Seara Nova. Acesso em: <http:/ www. CANZIAN. 1995.5 tri mais pobres. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. a política e o estado moderno. Disponível em: <http://www1.com. Milton. Note sul Machiavelli sulla politica e sullo Stato moderno. Rio de Janeiro: Graal. 1995.1.folha. 2009. N. Existe uma doutrina marxista do Estado? In. Tradução de Luiz Mário Gazzaneo. htm>. Americanos ficam US$ 16. 1981. BUTLER. Capitalismo e liberdade. Pablo (Org. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Balanço do neoliberalismo.: Escritos Políticos. Liberalismo e democracia. In: SADER. 1976. 2009.: O Marxismo e o Estado. 1983. Maquiavel. 2009. Neoliberalismo e Educação: novo conflito entre o público e o privado. Antonio. 1995. Concepção dialética da História. A revolução contra “O Capital”. 1989. [S. _____.

htm>. v. _____. 1995. História do pensamento econômico. Karl. _____.L. 2009. I. Norberto. 1. 1984. Petrópolos: Vozes. A teoria geral do emprego. 2000. E. MATTEUCI. V. ed.K. O manifesto do partido comunista: obras escolhidas. Acesso em: 08 mar. São Paulo: AlfaOmega. César. 1. Nicola. São Paulo: AlfaOmega. O Caminho da servidão. Educação básica: gestão do trabalho e da pobreza. Rombo nos EUA chega a US$4 tri. KEYNES. A Miséria da filosofia. São Paulo. 2. Globalización. _____. O Estado de São Paulo. São Paulo: Global. Rio de Janeiro. São Paulo: Nova Cultural.n. 1. Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 37 . Dicionário de política. O Capital: crítica da economia política. Mario Gomes. HUNT. [198_a].. A-1. 1984. Guedes. In: BOBBIO. Disponível em:<http://www. O Capital: crítica da economia política. Rio de Janeiro. 1992. Friedrich. p. 1989. do juro e da moeda: inflação e deflação. HOBSBAWM. UnB. Instituto Liberal. 1989. São Paulo: Alfa Ômega. MELO. LÊNIN. MARX. Eric. 1. Karl. _____. 1985. São Paulo: Companhia das Letras.s.]. 1979. A. 2009 OLIVEIRA.eumed. 15 fev. As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo. 2. 4. O dezoito brumário de Luís Bonaparte: obras escolhidas. In. ed. 1985. inversiones extranjeras y desarrollo en América Latina. F. 1983. Liberalismo. v. OLIVARES.[S. A Ideologia alemã: Teses sobre Feuerbach. v. Brasília: Ed. v. v. Dalila Andrade. Patrícia Campos. São Paulo: Moraes. São Paulo: Abril Cultural. Campus.HAYEK. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. ENGELS. John M. São Paulo: Abril Cultural. MARX. 2005. [198_b]. net/libros/2005/gog/3c.: Obras escolhidas.

1995. defina o que é o neoliberalismo. René. 2008. Adam. RICHARDSON.). 1983. Jean-Baptiste. Calouste Gulbenkian. Agora somos todos suecos. Estadão de Hoje: Economia e Negócios. Dalila Andrade. 1. B-4. Gaëtan. In: ______. Gestão democrática da Educação: desafios contemporâneos. Nouriel. Lisboa: Fund. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. Anotações 38 . p. In: SADER. Emir. 1980. Proposta de Atividade 1) A partir da análise crítica do presente capítulo e com base em leituras complementares. 2. PIROU. SANDRONI. São Paulo: Abril Cultural. A crise e o futuro do capitalismo. v. 8. 2099. GENTILI. Tratado de Economia política. Les théories de l’équilibre économique: Walras et Pareto. Paulo. Paris: Éditions Domat Montchestien. 1984. São Paulo: Abril Cultural. ed. Educação e planejamento: a escola como núcleo da gestão. SMITH. política econômica e ideologia do neoliberalismo. 1985. 15 fev. A contra-revolução monetarista: teoria.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE OLIVEIRA. Göran. Inquérito sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. VILLAREAL. Pablo (Org. SAY. ROUBINI. 946. Rio de Janeiro: Record. THERBORN. Dicionário de Economia. Matheus. Petrópolis: Vozes. São Paulo.

Anotações Neoliberalismo e reforma educacional: crise e esgotamento 39 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 40 .

nesse caso. O acesso ao mercado internacional ampliou a gama de fornecedores e compradores. ocorrida na década de 1990. No Brasil. em consequência da reestruturação produtiva que se dá no atual contexto de globalização da economia. desconsiderando os demais condicionantes sociais. a educação cumpre o papel de garantir. bem como no surgimento de novas funções sociais.3 Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Eloiza Elena da Silva São inúmeras as mudanças que ocorrem no mundo do trabalho. ainda que ideologicamente. As mudanças no mundo do trabalho se revelam tanto no surgimento de novos campos profissionais e empregatícios quanto na revolução tecnológica. fazendo com que as empresas nacionais se reestruturassem. mais precisamente o fato de os objetivos e fins de nossa educação estarem ancorados em princípios muito próximos aos objetivos (e resultados) atribuídos à educação pelo senso comum. visando a garantir sua fatia no mercado globalizado. Tais ideias fundamentam-se em um princípio de igualdade entre todos os homens e. quando as empresas perderam a proteção governamental e passaram a ter como concorrentes os produtos importados. investindo em tecnologia e qualidade. as mudanças começaram a acontecer realmente com a abertura da economia ao mercado externo. O entendimento da educação como ideologia pode ser observado nos ditos populares que apregoam um poder social/reformador à educação e estão largamente difundidos por grande parte dos meios de comunicação. É com base nesse contexto historicamente modificado que pretendemos discutir a educação atual. como a televisão. essa 41 . os jornais e revistas. os quais. na elevação dos índices de desemprego e no aniquilamento de algumas profissões. transmitem a ideia de que a educação pode ser o fator chave do sucesso ou não de um indivíduo.

esse comprometimento entre educação e formação para o trabalho. exige que questionemos o real e o imaginário constantes nessa relação e baseados nos conceitos de igualdade e individualidade. independentemente dos demais condicionantes envolvidos no mesmo processo. A educação toma a forma de redentora do homem. Essa suposta igualdade se concretiza então como produtora de profundas desigualdades. ou seja. 1996. preparando o cidadão para a vida em sociedade e para atuar no mercado de trabalho. Para analisar a questão. justifica-se que as definições para a educação estejam quase sempre vinculadas ao binômio cidadania e trabalho. 1996) estabelece como prioridade do Estado a educação básica (Ensino Fundamental e Médio). Ao mesmo tempo. é importante lembrar que a escola. em uma sociedade em que a venda da força de trabalho é fator primordial para a sobrevivência da maior parte da população. Na medida em que se vive na sociedade capitalista. independente das oportunidades reais que lhe foram negadas. o esforço pessoal e a capacidade de consumo). 5). seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL. o ensino ulterior. de acordo com sua aplicação individual. Assim. assume o poder de realizar mudanças no ser social. 42 . A prática pedagógica na sociedade humana. como instituição. que passam a ser compreendidas como de responsabilidade apenas do indivíduo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE igualdade. atuando “teoricamente” como niveladora de oportunidades. ou aquele que realmente possibilita uma formação profissional. como o acesso à educação fundamental é um direito de todos. Isso significa que. no que se refere ao preparo para o trabalho. pelo acesso à educação. inspirada nos princípios de liberdade e de solidariedade humana. está sempre comprometida ideologicamente. é uma prática ideológica que carrega em si o objetivo preestabelecido de ‘formar’ os homens de que ela necessita para se manter na forma em que está estabelecida. tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando. conforme os objetivos e fins atribuídos à educação. p. em sua essência. não se considera o fato de muitas vezes as oportunidades de emprego não atenderem à demanda de pretensos trabalhadores que estão excluídos do mercado produtivo. Em um país em que teoricamente todos são iguais e que. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB 9394/96 (BRASIL. baseada na relação capital-trabalho. recai apenas no indivíduo a responsabilidade pelo seu fracasso ou seu sucesso. a categoria trabalho firma-se então como condicionante do fenômeno educativo. a começar por seus objetivos e fins: A educação. nesse caso. dependerá exclusivamente da capacidade do indivíduo para acessá-lo (considerados. todos teriam a mesma possibilidade de alcançar sucesso ou não. considerados em sua totalidade. dever da família e do Estado.

em que uns têm mais. Nesse novo pensar. a excelência dos dotes e o mérito colocarão outros acima do nível comum. da união entre os homens em comunidades. p. 1983. 48).. em um mundo de trabalho cada vez mais escasso e competitivo. é a 43 .. a qual.. No entanto. A idade ou a virtude podem atribuir ao homem justa precedência. p. As ideias que fundamentam essa concepção existem desde Locke (1632-1704). gratidão ou outros motivos [. e outros não têm nada.. Esse direito natural não poderia ser tirado por ninguém. visto que possuem a propriedade do trabalho. sendo senhor de si próprio e proprietário de sua pessoa e das ações e do trabalho que executa. teria ainda em si mesmo a base da propriedade” (LOCKE. se todos os homens são iguais em estado de natureza. para prestar obediência àqueles que a merecem pela natureza.] que todos os homens são iguais pela natureza. Esse é um direito social que também deve ser garantido. apenas uma boa qualificação profissional não é capaz. nessa ideia de igualdade há limites estabelecidos sobre a propriedade: Embora tenha dito [. Locke (1983 p. o homem. um filósofo inglês descendente de comerciantes.] embora a natureza tudo nos ofereça em comum. 82) define que “o objetivo grande e principal. como direito natural. Em um momento de ruptura com o modelo produtivo que já não atendia às necessidades e interesses da população. tirava-se Deus das relações sociais. não pode ser tirada por ninguém. cuja concepção de homem e sociedade baseava-se no princípio da igualdade.. 51). de gerar novas oportunidades de emprego. Na perspectiva de que o sucesso ou fracasso de cada um é resultante da dedicação individual. mas a propriedade do trabalho que dava forma aos homens era uma resposta às mudanças que ocorriam no interior daquela sociedade. a educação ganha a feição de uma grande arma que.] (LOCKE. por si mesma. que se ignora o fato de que o mundo do trabalho já não é mais o mesmo e que. a posse de outros bens e de outras propriedades está acessível a qualquer um por meio do trabalho.. cada um era proprietário de seu trabalho. todos os homens em estado de natureza eram iguais e proprietários. é fundamentada em um princípio de igualdade e individualidade. o nascimento pode submeter a alguns e alianças e benefícios a outros. portanto. Para Locke. Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo Assim. outros menos. seria ao mesmo tempo a prova da igualdade e a justificativa para as desigualdades. Essa visão ideológica que confere à formação escolar o poder de levar qualquer homem ao sucesso. colocando-se eles sob governo. acessível a todos. em um momento em que as oportunidades de trabalho sucumbem ao desemprego. não pretendo suponham que entenda eu toda espécie de igualdade.A reafirmação da categoria ‘trabalho’ no primeiro plano dos objetivos educacionais significa que estes se mantêm sob parâmetros do passado. e “[. a ideia de que não era a vontade divina. Nesse aspecto. 1983.

puramente formal. visto que uma suposta igualdade garante esse direito. podemos identificar essa relação estado/sociedade/propriedade em nossa prática social. Conseguir atingir ou não esses objetivos é de sua exclusiva 44 . preservando a propriedade. lazer. apesar de aparentemente tudo estar disponível a todos. ao contrário. Assim. resultando em uma sociedade de classes que Locke (1983) não desconsidera. Em uma sociedade que condiciona a educação diretamente à formação para o trabalho. esta possibilitará o acesso a outras propriedades. mas. na prática somente os proprietários de bens terminam por exercitar plenamente a cidadania. faz-se necessário ‘pagarmos’ por eles. Desse modo. Deste modo. podemos encontrar a definição de propriedade apenas no sentido de propriedade da vida. outras vezes somente como bens e fortunas. visto que resulta do trabalho humano. Apesar de o atual momento histórico ser extremamente diferente daquele em que se produziram tais ideias. Esse acúmulo. sendo considerados membros com o objetivo principal de ser governados. assim. Sua essência não se modificou: hoje também se encontra à disposição de qualquer cidadão uma infinidade de bens e serviços. Em alguns momentos de seu “Segundo Tratado Sobre o Governo”. o pensamento liberal (do qual Locke foi um dos maiores representantes) conteria um claro elitismo. liberdade e posses. produz diferenças e gera desequilíbrios. se teoricamente todos são membros da sociedade civil. justificando. o usufruto está condicionado à propriedade e à quantidade de capital que cada um possui para a troca. carros. uma vez que a igualdade era definida de forma abstrata e até. Sendo a propriedade considerada legítima. como escolas. os proprietários estariam apenas submetidos à sociedade civil. bem remunerada. por outro lado. por meio de seu próprio esforço. dar acesso à educação é dar as armas para o homem agregar valor a sua propriedade pessoal (força de trabalho). as desigualdades com base em uma suposta igualdade. entre outros. justifica quando se refere a todos os cidadãos como proprietários e iguais. produzir e acumular ilimitadamente outras propriedades. ao considerar que o objetivo principal da união entre os homens era preservar a propriedade. A forma de governo representativo representa a propriedade e garante a posse inerente às desigualdades latentes. havendo grande distância entre o que está disponível e o que é acessível. relacionando o fracasso ou sucesso ao individual e não ao social. que o Estado tem o dever de preservar. talvez possamos assinalar. qualquer homem poderá. mas para que possamos gozar de quaisquer desses bens ou serviços. meios de transporte.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE preservação da propriedade”. já que tomar para nós um bem que não é nosso significa usurpar a propriedade do outro. Essa situação leva-nos a refletir: nessa relação.

o fato de outro nada possuir também é atribuído ao seu fracasso individual. 1996. O que não podemos negar é que tudo o que se faz ou se pretende fazer em termos de educação no Brasil também pouco se distancia do binômio cidadania-trabalho. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (BRASIL. devemos considerar a estreita relação entre educação e trabalho e questionar se o atual estágio em que se encontra o trabalho ou o emprego é capaz de garantir a sobrevivência. Logo. na prática. tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando. da mesma forma.. artigo 01. artigo 129. Na Lei nº. quando o valor de um homem é medido pelo que possui. p. 1989. 341). os outros condicionantes sociais são “inocentados” de qualquer participação nesse processo. que se encontra presente em praticamente todas as leis que definem a educação no Brasil. Consequentemente. Já a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. essa concepção de propriedade e de igualdade distancia as pessoas dessa mesma sociedade em classes claramente distintas. 5692/71. dever da família e do Estado. ou seja. 450). p. p. Atualmente.. A Constituição de 1937. A situação que se apresenta é a de que uma grande parcela da classe trabalhadora cada vez mais rapidamente vê o emprego diminuir. inspirada nos princípios de liberdade e de solidariedade humana. apregoa que um dos fins da educação é “o preparo do indivíduo e da sociedade para o domínio dos recursos científicos e tecnológicos que lhes permitam utilizar as possibilidades e vencer as dificuldades do meio” (NISKIER. a LDB nº. por exemplo. Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo É claro que o preparo para a cidadania tem um importante papel no esclarecimento dos deveres e direitos. estabeleceu como primeiro dever do Estado. 4024/61. Quando. 1989. A Lei nº. qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania”. 9394/96 define que: A educação. leva-se em consideração sua própria capacidade. o “ensino pré-vocacional e profissional” (NISKIER. na compreensão e aceitação da forma como os homens serão governados para manter a ordem e a propriedade. 7077/82 define como ”objetivo geral proporcionar [. 304). 05). 45 .responsabilidade.] preparação para o trabalho e para o exercício consciente da cidadania” (NISKIER. o artigo 01 apresenta como “objetivo geral proporcionar ao educando a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades como elemento de auto-realização. p. 1989. Esses dados revelam a crise que se instaura no mercado de trabalho e se agrava a cada dia. demonstrando que a propriedade da força de trabalho não mais representa a possibilidade real (como regra) de propiciar a manutenção das necessidades básicas ou de se adquirir outras propriedades. é como se os demais aspectos sociais em nada influenciassem sua trajetória. em matéria de educação.

algumas máximas do senso comum. dentro do contexto social e não como curativo para seus males. O trabalho não mais se encontra sob as perspectivas do passado. como ideologia. e talvez para a busca de um novo fim e de um objetivo mais condizente com a realidade. o sonho de máquinas que realizariam o trabalho pelo homem tornou-se pesadelo para uma grande parcela da classe trabalhadora. Diante de tais considerações. com proprietários de meios de produção que. sem qualquer formação específica. visto que podemos nos deparar com pessoas consideradas “ninguém” e que possuem boa formação escolar e/ou profissional. parecem-nos um tanto utópicas. em que a exploração do trabalho humano assalariado representava o grande filão para se produzir riqueza. e a da grande massa de desempregados que disputam as poucas vagas disponíveis. ao lado de algumas máquinas gerenciadas pelo homem. Sua única propriedade para negociar em favor de sua sobrevivência é sua força de trabalho e. Passam. Acreditamos que essas condições e contradições possam servir de suporte para uma reflexão sobre a visão de educação advinda do senso comum. porém o senso comum. Faz-se necessário libertar a educação institucionalizada do estigma de redentora social. podem “comprar” o trabalho e o potencial de inúmeros “letrados”. A educação carece sim de novos fins e objetivos para sua existência. Tendo em vista que. com as quais muitas vezes nem podem competir. como “Sem a Educação Eu Não Sou Ninguém”. para que possamos buscar soluções para as crises sociais consideradas como totalidade. A utopia da igualdade tornou-se produtora de profundas desigualdades. as empresas conseguem mais lucro substituindo o trabalho humano pela máquina (ou mesmo parando as máquinas). e. por outro lado. torna-se claro quem representa o “ninguém” e o “alguém” nessa relação. portanto. diretamente relacionada com uma possível perda de identidade entre educação e trabalho e para a necessidade de novos paradigmas que venham guiar o fenômeno educativo. pois a escola não tem em si mesma o poder de resolver tais crises. eles nem sempre encontram comprador. tende a perpetuar conceitos que apresentam a 46 . ansiosos por uma oportunidade de emprego. nossa análise apontou para a necessidade de uma reflexão acerca da crise no mundo do trabalho. que disputarão com garra uma vaga disponível. Desse ponto de vista. a enfrentar uma dupla concorrência: a de máquinas avançadas. tão massificadas pelos meios de comunicação.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Em nossos dias. cabe à grande maioria da população sustentar-se com a venda de sua força de trabalho e que os fins e objetivos da educação estão também diretamente relacionados à formação para o trabalho. Hoje. para ela. na sociedade capitalista. em busca de um capitalismo estável e lucrativo. e o quesito educação quase sempre representa apenas um detalhe em tais definições.

educação como redentora do homem e como solução para as desigualdades sociais, embora a história comprove que a educação não é capaz de solucionar problemas sociais, como o da falta de emprego. Essa constatação, indiscutivelmente, gera um embate contra um de seus principais fins e objetivos, o que nos aproxima de uma questão crucial para a compreensão da própria sociedade. Se a educação é uma das formas de que esta se utiliza para se reproduzir, quando começa a perder sua identidade é porque a sociedade se encontra em uma profunda crise e necessita de novos paradigmas. Teoricamente, o capitalismo supõe o trabalho humano, mas na atualidade passa a prescindir dele. Como não é possível negar a totalidade, ou seja, considerar apenas o lado dos proprietários dos meios de produção, é necessário considerar que essa mudança acarreta uma perda da identidade dos não-proprietários da força de trabalho, que já não conseguem garantir sua sobrevivência. Essa contradição se desnuda, demonstrando que não se pode mais insistir em políticas educacionais que retratem o senso-comum ideológico sobre o saber e o trabalho, ignorando a crise no mercado, que denuncia a própria contradição da sociedade capitalista e a crise na educação. A crise que se instaura na sociedade denuncia a existência de objetivos e necessidades que não estão sendo satisfeitos. Ou seja, o modelo de produção capitalista não satisfaz mais na forma como as relações sociais estão postas, porque, em seu processo histórico, as mudanças no processo de trabalho correspondem a uma negação da forma burguesa de ser, ou seja, traz em si sua contradição ou a necessidade de superação. Faz-se necessária uma nova forma de vida, posta como possibilidade, que apontará uma nova forma de conhecimento, não mais o saber sobre o trabalho, mas a compreensão do papel histórico das forças produtivas, gerando uma nova forma de existência dos homens. Relembrando Marx, este expõe que:
A revolução social [...] não pode tirar sua poesia do passado, e sim do futuro. Não pode iniciar sua tarefa enquanto não se despojar de toda veneração supersticiosa do passado. As revoluções anteriores tiveram que lançar mão de recordações da história antiga para se iludirem quanto ao próprio conteúdo. A fim de alcançar seu próprio conteúdo a revolução [...] deve deixar que os mortos enterrem seus mortos. Antes a frase ia além do conteúdo; agora é o conteúdo que vai além da frase (MARX, [19--], p. 205).

Considerações sobre o trabalho como categoria explicativa do fenômeno educativo

Urge compreender e diferenciar o velho do novo, para que possamos nos libertar das superstições do passado e, finalmente, buscar (e encontrar) um novo sentido para a educação, com os pés centrados no presente e os olhos voltados para o futuro.

47

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Lei n. 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: 1996. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o Governo. São Paulo: Abril Cultural, 1983. MARX, Karl. O dezoito brumario de Luiz Bonaparte. In:______. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa - Omega, [19--]. v. 1. ______. O capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985. NISKIER, Arnaldo. Educação brasileira: 500 anos de história, 1500-2000. São Paulo: Melhoramentos, 1989. SAVIANI, Dermeval. A nova lei da Educação. Campinas, SP: Autores Associados, 1997.

Proposta de Atividade

1) Como podemos averiguar a influência das mudanças ocorridas no mundo do trabalho no processo educativo?

Anotações

48

4

A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas
Marta Chaves / Sonia Mari Shima Barroco

Ser educador nos dias atuais tem sido um desafio, pois quando a prática social parece complexa, e ao mesmo tempo impotente, é preciso cuidado. Há um risco muito grande de se tomar os homens por essa medida aparente; como se ela fosse apenas fruto das suas ações imediatas e como se naturalmente tivesse que ser sempre assim. Para avançar além dessa constatação, é preciso da ciência que vá além do aparente. Neste sentido, é importante retomar o teórico soviético L. S. Vigotski (1997), posto que denunciou, em sua crítica à psicologia burguesa, a crise de uma ciência, justamente pelo fato de ela lidar com aparências e emergências. Ela tomava os sujeitos, e as queixas a eles referentes, descolando-os do mundo, e concebendo o próprio mundo de modo estagnado, sem movimento, ou ainda sob rotações sobre as quais não se poderia intervir; antes, apenas aguardar o desenrolar natural dos fatos e fenômenos inter e intrapsíquicos. Uma psicologia dessa natureza, que embasaria a educação, só poderia descrever, mas não explicar a contento como os homens aprendem e se desenvolvem, como eles imitam; como seus psiquismos constituem-se de uma ou de outra forma segundo as suas condições biológicas, que tomam uma ou outra direção de acordo com as condições sócio-históricas disponíveis. Essa psicologia criticada acabava referendando e perpetuando uma dada visão de mundo, bem como uma dada prática social; a prática de se conceber a sociedade a partir de polos naturalmente antagônicos, a sociedade de classes. Vigotski e outros psicólogos, bem como vários educadores soviéticos (Makarenko, Pistrak etc.) puseram ou reconheceram diante de si uma tarefa histórica: a formação de um novo homem, do homem para uma sociedade sem classes. Nesse contexto fundamental, destacar Krupskaia, educadora e combatente
49

de fato. da sina do destino. Neste sentido. 1996). órfã naqueles anos pós-1917. história. dos grilhões do Q. saberes técnicos. Para nós. mas que lhe retiram de fato o seu vigor. quanto os grandes pensadores e autores propiciam-nos níveis mais elevados de consciência. que os libertasse da mediocridade. 50 . e a autora insiste que os jogos e reuniões contribuem para isto. adulto ou criança. a primeira direção ou um dos pilares para a educação do novo homem é a unidade e ajuda mútua. como uma nobre guerreira reafirmava a importância da formação do novo homem. Para isto. e reconhecemos. Pôde vislumbrar e defender outra ciência. cuja aplicação desmedida pela pedologia foi fortemente questionada por ele – da presdestinação dos berços dos bem ou mal-nascidos etc. 1996). em que os homens poderiam revelar-se. 2001). camaradagem. como ele. em meados dos anos de 1920. o homem desenvolvido é aquele que domina os recursos externos e direciona seus processos internos por meio do conhecimento. No mesmo cenário e com os mesmos propósitos Vigotski. Krupskaia [19--?) afirmava que para a vida soviética daqueles tempos não bastava substituir o pronome eu por nós. mas sem o devido entendimento das implicações dessa tese. Literatura.I. posto que o isola de seu contexto e de suas bases filosóficas sob uma ideologia neoliberal e uma prática pós-moderna (DUARTE. vislumbrou e demonstrou a possibilidade de outra sociedade. é um meio para a formação do espírito e de responsabilidade social. fortalecimento da solidariedade. Para esta autora. Fica dele a defesa de que o bom ensino é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento e que as mediações instrumentais. a da socialização do saber. socioculturais significativas elevam os indivíduos de um estado primitivo a um nível cultural. um grande humanista. a importância e a necessidade de se apreender o mundo pela única via possível. com documentos oficiais que fazem menção a este autor e a sua teoria. afirmava que o trabalho social. de utilidade social. Podemos dizer que a sua visão prognóstica do desenvolvimento humano. Krupskaia solicita ao povo soviético coerência entre a proposta e as ações. mas deve expressar a vida quotidiana de cada pessoa. filosofia. BLANK. esses seriam os primeiros conteúdos dessa educação. faminta. vencer aparentes limites. a sua essência. Hoje estamos aqui no Brasil. 2005. foi possível porque ele mesmo teve sólida formação humanista (BARROCO. aquela que pusesse os homens em movimento. tudo isso levava ao remover das montanhas. LURIA.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE revolucionária russa. de outra forma daquela que tinha a sua frente: grande parte da Rússia era analfabeta. de uma constante atuação sobre o mundo ( VIGOTSKI. – investigado por Binet (1905). essa prática deve representar não uma mera substituição de termos ou pronomes. Entendemos. como Vigotski. em defesa de outra ciência e de outra sociedade. revelando ao mesmo tempo todas as dificuldades de se exercitar uma prática que até então era anunciada.

Brecht com suas poesias. Ressaltando tal conhecimento como um elemento fundamental para a formação da consciência crítica. procurou revelar a prática dos homens comprometidos e dependentes de instituições que legitimam a sociedade burguesa. reflexões acerca da obra de um desses mediadores que a história propicia: Bertolt Brecht (1898-1956). Assim. vale aqui lembrar o que o próprio Karl Marx assinalou acerca da História ao tratar da Revolução Francesa. portanto. Para efetivar tal objetivo. Brecht entende que a construção da sociedade sem classes. portanto carregado de possibilidade transformadora. ocupando-se em promover a compreensão e a superação da mesma. reproduzindo-a sem discuti-la ou estranhá-la. Com ele. e a aquela de fato referenda a prática social. apresentamos. Trata-se de enriquecer nosso repertório para outro devir. De acordo com Chaves (2000). músicas. 2000). como afirmam os clássicos do marxismo. Em sua crítica. como Marx denuncia. não sob as circunstâncias de sua escolha. emprestar seus olhos e identificar os diagnósticos que faziam e os remédios que propunham. afirmando que os homens fazem sua própria história. não desconsiderou a necessidade de tratar da educação formal e. práticas didáticas. baseia-se no conhecimento da economia da sociedade capitalista (CHAVES. o que significa enunciar que apresentou os limites e ao mesmo tempo a positividade das instituições educativas. em 1919 Brecht põe seus personagens a ensinarem que o “homem não pode ser A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 51 . expressos sob a forma de conteúdo escolar. Apresentando-se expressamente como um defensor do conhecimento histórico. buscamos por pistas para mais bem compreendermos o homem que somos e que formamos pela via educacional. conclamando seus espíritos. não há independência da escola em relação à sociedade. mas sim sob aquelas que encontra apresentadas pelo passado. Não intentamos reeditar o passado. mas também por apresentar as instituições sociais como elementos que contribuem para a estabilidade da sociedade capitalista. os elementos que caracterizam a prática dos indivíduos envolvidos diretamente ou não com a escola confirmam que a valorização de determinados comportamentos pela sociedade encontram-se evidenciados no interior da mesma. ao pontuar os limites da escola. não negou o método dialético. PRÁTICAS SOCIAIS E PRÁTICAS DIDÁTICAS: A NECESSIDADE DA SUPERAÇÃO Segundo Brecht (1992). e até podemos mencionar a organização da rotina e do espaço escolar. à medida que traz em suas atividades cotidianas a forma de relação estabelecida pelos homens na luta pela vida. porém precisamos ir aos clássicos. Neste capítulo. suas peças e personagens nos instiga não só por seu estilo literário.No sentido de destacar essa prática.

o conhecimento tem a função de revelar cientificamente como as instituições sociais contribuem para a edificação da dinâmica social burguesa. 1991. cuja efetivação só ocorreu a partir do século XIX. o descontentamento de Brecht com o conteúdo da educação não se restringe à educação da Alemanha. do direito e teoria do estado romano e do pensamento cristão. a educação fazia a defesa do Estado Moderno. Ficam evidentes as raízes de sua independência e de sua concepção da arte como uma forma alternativa de educação. Em 1808. se responsabilizavam pela ordem e bem estar moral. As reformas educacionais não estavam isentas do sentimento de humilhação e derrota que se propagou na Alemanha e uniu as forças patrióticas em busca da autoconsideração. A escola conhecida pelo jovem Brecht é expressão da educação europeia que se edificou sobre as bases da filosofia grega. comercial e físico dos homens. passei no Realgynasium de Augsburg. tendo como referência a filosofia iluminista. durante a renascença. Há. então. marcas postas desde a Idade Média e início da Idade Moderna. em última instância.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE paralisado pelo saber”. unificada. foram introduzidas em alguns de seus estados as diretrizes modernas de educação estatal. escrivães e médicos. a razão tornava-se o critério da ação. Neste sentido. que. atividades econômicas preciosas à Alemanha naquele momento de reorganização política e econômica em função da derrota imposta por Napoleão em 1806. 26). A dinâmica social que deu origem à organização da educação formal determinou a estruturação dos mosteiros cristãos que representavam a primeira forma de ensino institucionalizado. em seus “Discursos à 52 . nove anos que. acessível a todos e que deveria priorizar o comércio e a agricultura. como a obrigatoriedade escolar. Eles não cessaram de me estimular meu gosto pelo prazer e pela independência (BRECHT apud PEIXOTO. formando padres. e em tal contexto. uma preocupação com a formação do homem para desempenhar seu papel no Estado. como evidencia: Me aborreci durante quatro anos na escola primária. não consegui aprender nada dos meus professores. cuja função última no período em que o autor frequentava os bancos escolares era preparar o homem para o Estado. o sistema educacional passou a orientar-se pelo pensamento humanista. Agora tratando especificamente da educação na Alemanha. Ao discutir o comprometimento do conteúdo da educação burguesa com essa ordem social. em seguida. sua nação de origem. Brecht dá um depoimento que demonstra seu descontentamento com seus primeiros anos na escola. p. As bases para uma nova organização do Estado alemão foram postuladas pelo filósofo Johann Gottlieb Fichte (1762-1814). E durante. Evidentemente. Fichte. Lembramos que. A preocupação com a reconstrução nacional alemã requisitava uma educação de formação geral. Posteriormente. nos séculos XVII e XVIII.

segundo Michel (1977). Valores como o culto à juventude e à guerra. A defesa do homem com formação patriótica para a reorganização da nação alemã confirma aqui. expressa-se no conteúdo escolar. A valorização da pátria e o “gosto pela independência”. A preocupação não era se limitar a preparar o homem para a realização de tarefas. acrescida de valores morais. p. Na formação institucional do homem alemão. Ideológico. Todos os encaminhamentos estavam voltados para tal prática. deveria responsabilizar-se pelo Estado. em um momento em que sua organização já se mantém com base em uma defesa prática e ideológica. marcam a estruturação e consequentemente a defesa da sociedade capitalista. porque a defesa da nacionalidade unia. a crítica de Brecht à educação burguesa. mais uma vez. dão a sua parcela de contribuição no cenário político e econômico. que incorporasse a defesa e a aceitação da dinâmica social capitalista. cada uma a sua maneira. Hitler (1983) tinha toda uma argumentação concatenada. a qual. que marcam a face educacional no século XIX e início do século XX em resposta aos anseios sociais da Alemanha. enquanto instituição promotora da sociedade capitalista. 86). Nesse âmbito. a formação geral e profissional para a ação em sociedade. Brecht nos mostra. que se manifestava em seus discursos. a escola do século XX expressava a necessidade de preparação do homem para atender o Estado. imperiosa. formando o homem para a defesa prática e intelectual da sociedade capitalista. Assim. tanto no tocante às orientações oficiais quanto à dinâmica escolar referentes a esse período. Prática. por meio dos quais insistia: “quero uma juventude brutal. o homem era considerado um elemento integrante da política estatal. a ideia de que a dinâmica social mostra-se na dinâmica escolar e também em outras instituições sociais. formam a geração de Brecht. porque no início desse século os conflitos pela posse de territórios conduziam a um embate direto para os quais os homens deveriam estar preparados. para servir de mãode-obra para a Alemanha e demais países. as classes conflitantes em uma preservação da propriedade privada. intelectual. através do desenvolvimento integral de suas capacidades. incorporados pela sociedade e legitimados pela escola. defendia que cada cidadão. prática frequente A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 53 . contraditoriamente.Nação Alemã”. patriota. o conteúdo moralizador caracteriza-se com dupla intenção. incide sobre a exaltação ao herói. apenas reforçam a ideia de que as instituições sociais. logo. nos livros escolares das escolas em geral e também dos institutos responsáveis pela formação dos dirigentes para o nazismo a prioridade eram os ensinamentos de amor à pátria e a negação de qualquer possibilidade de se refletir sobre as práticas sociais e escolares instituídas. mas a formação moral. impávida e cruel” (HITLER apud MICHEL. Naquele contexto. 1977. Neste sentido.

é geralmente difícil para os jovens na flor da idade. DA SUPERAÇÃO BRECHTIANA: À SUPERAÇÃO POSSÍVEL Brecht relata uma de suas experiências enquanto estudante em 1915. assumidamente amparado pelos clássicos marxistas. estão As histórias do Senhor Keuner. na cama ou no campo de batalha. Essa prática torna-se. na qual só havia espaço para a ordem e a obediência. lembrando que essa é uma questão intensamente abordada nos escritos de Marx e Engels. sendo um dos elementos dos programas oficiais da rede de ensino. acentuava-se a louvação ao individualismo e de valorização da hierarquia. Durante o Terceiro Reich. em sua aparência. a guerra apresenta-se. sabemos que em 1936 passou a ser obrigatória a adesão de jovens em organizações do partido nazista. 20). quando. o qual pedia uma redação sobre o tema Doce e honroso é morrer pela Pátria. Despedir-se da vida. o que significa dizer que sua geração foi marcada pelos princípios que referenciam os mortos no “front” e vangloriam os que retornam dos campos de batalha. Brecht. ao líder ou. manifestas nas imagens e experiências de toda sorte que as guerras forneciam. e muito sobrava para a exaltação do herói. enquanto ideal almejado pela prática social.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE não só na Alemanha como também em outros países. mais precisamente. Formando um conjunto de 87 crônicas. em sua essência. Nessa experiência escolar denunciada por Brecht. Com as memórias vivas diante deles. Vale lembrar que a exaltação dos heróis nacionais camufla a luta de classes. p. ocasião em que contestou a orientação de seu professor. Nessa perspectiva. faz inúmeras referências críticas ao conteúdo da escola burguesa. pouco sobrava para a reflexão e o conhecimento. Para 54 . Pondo em discussão a importância da consciência histórica. em alemão. Apenas os imbecis podem levar tão longe a vaidade de falar sobre o pequeno salto através da porta escura. E isto também só enquanto acreditarem que estão distante da hora final (BRECHT apud PEIXOTO. Para a garantia da incorporação desses valores pela juventude. 1991. como a defesa coletiva da pátria. trata-se da defesa do capital privado. pequenos textos escritos no início da década de 1930. assim se manifestou: A máxima de que é doce e honroso morrer pela pátria pode ser valorizada apenas como propaganda tendenciosa. Lembremo-nos de que este autor testemunhou as duas guerras mundiais do século XX. Contrariando a tarefa recebida. durante o nazismo. seria associado ao culto ao chefe. consequentemente. convencendo o homem a se unir para proteger as riquezas de seu país. trazem certezas e indagações pertinentes ao comportamento humano. presente no cotidiano escolar. há o culto ao herói que. Entre as diferentes obras que tratam dessa questão. ao Führer.

não somente vigente na Alemanha. Quando a menina interroga o Senhor Keuner sobre como seria o mundo se os tubarões fossem homens. Como toda gente sabe. A ideia de sacrifício é fundamental e permanentemente exaltada. e todos deveriam ter fé nos tubarões.. escreve um diálogo entre o Senhor Keuner e uma menina.. sobretudo quando prometem zelar pela felicidade futura. tratando da forma oficial de se educar o homem na sociedade capitalista: Como é natural.] (BRECHT. caros à sociedade capitalista. instituição social cuja rotina diária e conteúdo preparavam meninos e meninas. o Senhor Keuner a desmistifica.] É claro que a formação moral dos peixinhos seria o mais importante. Lembremo-nos da redação Doce e honroso é morrer pela Pátria. Mandariam os seus próprios peixinhos para a guerra. e ensinar-lhes-iam que há enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Eis como. os peixinhos são mudos mas calam-se em línguas muito diferentes e por isso é impossível entenderem-se. Ensinarlhes-iam que nada é mais sublime nem formoso do que um peixinho que se sacrifica alegremente. filha de uma hospedeira. que Brecht e seus companheiros de escola deveriam elaborar. Brecht utiliza esse conto como recurso didático. “os peixinhos”. p. que simboliza no conto a ingenuidade. em linguagem figurada e irônica. o culto ao indivíduo e a exaltação ao herói. A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas Brecht denuncia a escola. Os exercícios aparentemente realizados de forma integrada. Escreve: Se os tubarões fossem homens.. [. dada com muita astúcia. destacamos que esse texto pode ser considerado como uma síntese da obra de Brecht. para incorporar valores morais. 57). mas em todo o mundo.. por certo fariam guerra uns aos outros para conquistar caixas e peixinhos estrangeiros. princípio religioso. este autor focaliza algumas instituições sociais. Para tal fim. proclamariam. Far-se-ia os peixinhos compreender que um tal futuro só estaria assegurado se aprendessem a obedecer [.tratar temas como nacionalismo. Brecht (1993) cria o Senhor Keuner. Em seu permanente exercício de desvelar os mecanismos da sociedade capitalista. a relação mediada pela falsa ideia de bondade e alegria são práticas constantes. o caráter de naturalidade que os homens atribuem às questões da sociedade. é um exemplo do comportamento deste autor diante da dificuldade de sobreviver nos anos trinta em função da perseguição política que sofriam aqueles que se opunham à ordem. e décadas depois sua contestação ganha consistência e o dramaturgo nos dá uma oportunidade de refletir sobre uma das mais importantes funções da escola. nessas grandes caixas também haveria escolas. perseguição aos opositores do regime nazista. E nessas escolas os peixinhos aprenderiam como se nada na goela dos tubarões. Brecht muito jovem contestou a tarefa ordenada. a resposta. 1993. A cada peixinho que matasse na guerra uns quantos 55 . que se posiciona criticamente contra essas e outras questões na luta pela vida. entre as quais a escola. Em uma das curtas histórias e utilizando-se da fábula intitulada Se os Tubarões fossem Homens.

19). No entanto. Para podermos ser dignos deles. p. 80). portanto. 1993. O conteúdo escolar é marcado historicamente. dos que se calam noutra língua. Ou seja. Insistindo que a escola era um elemento necessário à prática burguesa e. escrita em 1939. Estude bem as batalhas deles E as suas vidas extraordinárias. 1992. cuja estrutura permanece a mesma até os dias atuais. Brecht (1992). no ano em que oficialmente se iniciou a II Guerra Mundial. Essa questão está presente na peça O Julgamento de Luculus. O autor evidencia quanto os livros didáticos. o conteúdo escolar não pode revelar a contradição social. Entendemos que Brecht não responsabiliza particularmente a educação pela edificação da sociedade burguesa. mas uma intrínseca relação entre ambos. não é a ausência de conteúdo revolucionário que ele critica.] os livros da escola não dizem que quem emprega o suor é um e quem recebe é outro” (BRECHT. põe em discussão os livros didáticos. seriam dadas uma condecoração de algas marinhas e o título de herói (BRECHT. podem servir e correntemente têm servido de respaldo ou para naturalizar (demonstrar como curso natural da história) o modo de ser da sociedade capitalista. e é como tal que ele a focaliza. não está desvinculado da realidade. estruturando seu posicionamento em relação a essa educação. 58). Brecht reafirma nossa compreensão de que não há independência entre conteúdo escolar e conteúdo social.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE peixinhos inimigos. Entretanto. 1992. p. Em um texto da década de 1940. instrumentos do universo escolar. o conteúdo da escola burguesa está comprometido com o capitalismo e expressa a sociedade capitalista. Assim. p.. Quem os quiser imitar. Devemos elevar-nos bem acima Da multidão. o fato de Brecht mostrar-se um crítico da educação não significa que atribui à escola a responsabilidade de preparar os homens para a ação revolucionária. A escola traz o conteúdo comprometido com a prática social que 56 . contribui com sua edificação. e na qual o autor afirma: Nos livros escolares Lêem-se os nomes dos grandes generais. o autor apresenta essa instituição como instrumento legitimador da sociedade de seu tempo. Logo. porque trazem em muitas de suas ilustrações e textos a defesa de valores patrióticos expressos na exaltação ao herói. mas sim o fato de que por ser burguesa. Ele tem plena consciência dos limites burgueses dessa instituição. o autor escreve que “[. que trazem como conteúdo o culto aos heróis. Nossa cidade espera Algum dia também os nossos nomes (BRECHT..

ATOS DECISIVOS: A REALIZAÇÃO COLETIVA E A EDUCAÇÃO POSSÍVEL QUE PROTAGONIZAMOS Não fazendo de Brecht um herói. Música. condenando o entendimento fascista de que o homem precisa ser enquadrado e comandado por uma organização que garanta de forma eficaz o culto à nação e proclame a virtude da violência. É importante realçar que a práxis utilitária imediata e o senso comum que a ela condiz permitem ao homem que se viva no mundo. símbolos. que compreenda a realidade. o conhecimento deve ser vivo acerca de uma prática também viva. se familiarize com as coisas. 1972). Brecht faz do teatro um instrumento da elaboração da consciência crítica. todas as formas de manifestação estavam comprometidas com o nazismo. assumem papel fundamental nessa busca. de Shelling até Hitler – que dirá de outros espaços (LUKÁCS. de fato. O fato de Brecht ter vivido sob o nazismo e de ter produzido suas peças nessas circunstâncias não invalida a atualidade de suas questões. A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas 57 . toda a sociedade estava sendo intencionalmente reeducada para o nazismo. o autor aborda a aparência do fenômeno. Com a intenção de desmistificar questões como estas. aprimorando-os de acordo com suas necessidades. revelando que. E. que as maneje e que crie novos aparatos e os reproduza. a racionalidade. como dramaturgo ou poeta. foram paulatinamente dispensados ao longo do próprio percurso da filosofia alemã. devendo também provocar ações vívidas. É fato que. portanto. A teorização. criando recursos cênicos diferentes daqueles da dramaturgia convencional.lhe condiz. portanto. propaganda. trata-se da negação da luta de classe. poucas e clandestinas opções aos opositores ao regime. um conteúdo que justifica e sustenta a prática capitalista. uma vez que o conhecimento e a teorização. sendo um educador que fez de seu teatro um instrumento da práxis revolucionária. é necessário salientar que este autor dedicou sua vida e seus escritos à defesa da igualdade entre os homens. Este se apresentava como a alternativa natural para os desdobramentos históricos da Alemanha. uma alternativa educacional. nem por isso. Tal como Brecht. enfim. nesse momento particular. em seu momento. literatura. consideramos o conteúdo escolar dependente do movimento social e. mas. somada a um dado modo de atuação. Ao abordar o período da História marcado pela Alemanha nazista. denuncia as formas de negação aos direitos do homem. porque quando a prática se mostra impotente é preciso buscar razões para se viver. a emoção irrefletida. discursos eloquentes provocavam a identificação. Essa ênfase objetiva salientar aos educadores atuais que a linguagem deve ser viva. imprensa. Restavam. as peças de Brecht tinham um sentido político de resistência muito particular.

da autoridade. Tratando do ensinar e aprender no palco. descomprometida. Compreender que a escola é expressão da lógica social instituída. Brecht permite-nos rever conteúdos e práticas frequentes. ao desenvolvimento científico. experimentos que permitam. Muitas vezes. As “conquistas”. Nos livros didáticos. de modo pouco dialético. ou de outros segmentos formadores? São instituições cujo limite é a reprodução da dinâmica social vigente? Essas questões merecem nossa atenção se quisermos evitar que se tome a escola de modo estanque e paralisador. aquela dinâmica na qual a relação ensinoaprendizagem efetiva-se com a supremacia da ordem. que impedem o homem de compreender sua própria vida. Ensinar e aprender a ser ativo e não passivo diante do conteúdo. desvelar o cotidiano e. mais que conhecer. Seu trabalho apresenta-se como recurso didático capaz de questionar as guerras. e ao mesmo tempo se queremos que ela avance para outra função. da escola. no sentido brechtiano. tornam-se clássicas. que é determinada não impede a possibilidade de atuação nessa escola. no cotidiano escolar. cênico. elas superam seu momento. apenas como aparelho ideológico do Estado. os problemas apontados por Brecht permanecem em nossa época com marcas aparentemente democráticas. nas comemorações semestrais – conduzidas pelo calendário oficial – valoriza-se a máxima da individualidade. Brecht contribuiu para que repensássemos o processo ensino-aprendizagem. com práticas e conteúdos marcados pela hierarquia e submissão. que lhe deveria ser a clássica. Negar. de fato. e conforme o conceito de Saviani (2003). solidárias. da submissão. portanto. como também sugere Saviani (2003): a de ensinar conteúdos científicos e culturais. 58 . A escola tradicionalmente marcada pelo autoritarismo ou pela liberdade.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Entretanto. fazendo com que o singular seja sempre superior ao plural (ao coletivo). resistindo ao tempo. agora: qual é o efeito da atuação da mídia. nos murais nos pátios e corredores. o espaço que deveria estar reservado ao conhecimento cede lugar ao culto ao passado. Avaliar não apenas a didática ou a forma de apresentação do conteúdo. posto que inofensivas. da hierarquia. caracteriza sua rotina. conflitos com roupagens religiosas. Como é possível perceber. a dinâmica social. como obra de um só indivíduo e não como produção social dos homens. ou seja. cujas estratégias de harmonização social em muito se assemelham às anteriores. Perguntamos. o culto aos heróis nacionais ou midiáticos. os feitos históricos são atribuídos a um homem e não aos homens. por consequência. com ações. em que a aprendizagem permanece no limite do cotidiano. atravessaram os mares e alcançaram outros povos. mas o próprio conteúdo. fora do espaço teatral. Nessa possibilidade de refletir sobre a dinâmica escolar está implícita a necessidade de avaliar a atuação dos educadores.

Parece-nos que o ensinamento maior Brecht reside na ênfase da necessidade de se ampliar o universo de pares na relação ensino-aprendizagem, no sentido de valorizar o coletivo, incentivar a superação do estado inicial da aprendizagem, não limitá-lo a capacidades mínimas de leitura e escrita. Levar o educando a assumir uma postura de independência, e não de submissão frente ao saber ou diante daquele que pretensamente sabe, e que, por força de uma tradição que não promove, ao contrário oprime, deixa aprendiz e educador simplesmente em lugares opostos. Acreditamos que o que se coloca como desafio à escola atual, assim como orientaria Brecht, ainda é a necessidade de revigorar a formação dos educadores, a nossa própria formação. Se há a necessidade de se avaliar a didática, seja quanto à apresentação dos conteúdos e recursos didáticos, seja quanto aos próprios conteúdos, isso só nos parece possível se o eixo de trabalho não for perdido. Neste sentido, Chaves (2008) assinala que as tentativas de tornar a educação subserviente ao capital se apresentam e se reapresentam na História – trata em sua pesquisa particularmente do Estado do Paraná na década de 1960 – o que não nos impede de refletir acerca das possibilidades de enfrentamento a essa lógica que precisamos ensaiar até que possamos protagonizar atos que seja decisivos. O eixo ainda nos parece ser o domínio do conhecimento específico, mas também daquilo que ainda deve ser o universal: o domínio de como o mundo se move, não só no sentido em que Galileu desvenda, mas que a história tem revelado. Esse saber vivo que põe as coisas em relação não pode ser dispensado na sala de aula, e nem na própria formação do educador. Recoloca-se, portanto, como essencial, ter a dimensão de que a aprendizagem movimenta o desenvolvimento, daí sua dimensão não ser apenas do domínio cognitivo, porém a de alcançar o sentido ético. Assim, também nos parece necessário continuar a discutir as questões da escola e a sua relação com a sociedade em geral nos termos em que Brecht entende como a “praxis revolucionária”.

A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas

Referências

BARROCO, Sonia Mari Shima. Psicologia educacional, Vigotski e arte: em busca de superação na apreensão do homem. Maringá: UEM; Araraquara: Unesp, 2005. Texto não publicado. BLANCK, Guilhermo. Vygotsky: o homem e sua causa. In: MOLL, Luis C. Vygotsky e a Educação: implicações pedagógicas da psicologia sócio-histórica. Tradução de Fani A. Tesseler. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
59

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

BRECHT, Bertold. Antologia poética. Rio de Janeiro: Elo, 1982. ______.Teatro completo em 12 volumes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. ______. Histórias do Senhor Keuner. Lisboa: Hiena, 1993. CHAVES, Marta. Reflexões sobre história e educação: a luta revolucionária no teatro de Bertolt Brecht. 2000. 113 f. Dissertação (Mestrado em Fundamentos da Educação)–Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2000. ______. O papel dos Estados Unidos e da Unesco na formulação e implementação da proposta pedagógica no Estado do Paraná na década de 1960: o caso da educação no Jardim de Infância. 2008. 279 f. Tese (Doutorado)– Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2008. DUARTE, Newton. Vigotski e o “aprender na aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modernas da teoria vigotskiana. 2. ed. rev. e ampl. Campinas, SP: Autores Associados, 2001. ENGELS, F. Economia política. São Paulo: Edições RÉS, [199-]. (Coleção substância). HITTLER, A. Minha luta: Mein Kampf. São Paulo: Moraes, 1983. KRUPSKAIA, N. Acerca de la educacion comunista: artículos e discursos. Traducion de V. Sanchez Esteban. Moscou: Ediciones em Lenguas Estranjeras, [19--]. LUKÁCS, George. El asalto a la rázon. 3. ed. Barcelona :Ediciones Grujalbo, 1972. MARX, Karl. O 18 de Brumário de Louis Bonaparte [1851-1852]. In: MARX, Karl. Manuscritos econômicos e filosóficos e outros textos escolhidos. Seleção de textos de José Arthur Giannotti. Traduções José Carlos Bruni et al. 2. ed. São Paulo: Abril cultural, 1978. p. 323-404). (Os pensadores). MICHEL, H. Os fascismos. Lisboa: Dom Quixote, 1977. PEIXOTO, F. Brecht: vida e obra. São Paulo: Paz e Terra, 1991. SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-crítica: primeiras aproximações. 8. ed. rev. e ampl. Campinas, SP : Autores Associados, 2003.

60

VYGOTSKI, Lev Semenovich. Obras escogidas. 2. ed. Trad. José Maria Bravo. Madrid: Visor, 1997. t. 1. VYGOTSKY, L. S.; LURIA, A. R. Estudos sobre a história do comportamento: símios, homem primitivo e criança. Tradução de Lolio Lourenço de Oliveira. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

A educação na obra de Brecht: representações de conquistas e realizações coletivas

Proposta de Atividade

Considere as práticas educativas realizadas na escola atual e apresente alguns procedimentos didáticos que possam contribuir para demonstrarmos a potencialidade da escola em favor de uma educação que contribua para a formação de educandos com espírito de solidariedade e defesa de bens e realizações coletivas.

Anotações

61

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 62 .

Dito de outra forma. Nem a filosofia Antiga. Isso porque tal sistema de pensamento parte “da afirmação da existência da realidade e de que ela poderia ser conhecida verdadeiramente pela razão e pelo pensamento” (CHAUÍ. tampouco a filosofia Cristã colocaram o sujeito como o centro de inúmeros questionamentos e grandes apostas. trouxe consigo a produção de estilos diferentes das instituições sociais tradicionais. Apesar das divergências entre os grandes filósofos – pré-socráticos. não existia um sistema de pensamento que considerasse o sujeito como uma categoria filosófica. O único meio de alcançar a verdade. que corresponde a um estilo de vida e inaugura uma nova maneira de conceber o homem. provocando uma cisão entre corpo (matéria) e alma (espírito). Sócrates. partindo da linguagem. independente do sujeito conhecedor. cuja característica principal é a de ser emulado por um conjunto de descontinuidades que descentraram o homem. Entender o que é a realidade é a grande pergunta que esses primeiros filósofos se fazem. pois basta que este conheça para que encontre a verdade. O indivíduo emerge progressivamente como sujeito. essa filosofia não se questiona sobre o estatuto do sujeito. parte da premissa de que o ser existe em si mesmo e por si. 63 . p. é realista. ou seja. que dominou toda a Idade Média. e é pensado como detentor de seu destino. Com a modernidade. repercutindo sobre as relações sociais. cujo ponto de partida reside na indagação da possibilidade de o nosso pensamento alcançar a realidade. Antes da Idade Moderna. o infinito. entre outros – permanece a crença na indissociabilidade entre aquele que conhece e a própria realidade. 1999. A exceção são os sofistas que.5 Construção do sujeito na era tecnológica Tarcyanie Cajueiro Santos A modernidade é um modo de organização social. ou o Bem. em suma. que se inicia com o pensamento grego. Esse novo modo de vida. como quer Sócrates. como o de conciliar as exigências da razão humana com a revelação divina. a realidade e o sujeito. relativizam ou até negam o ser. A Filosofia Antiga. que passou a ser mediada pela fé. a partir do século VII. 209). A Filosofia Cristã. Platão e Aristóteles. como fez o pensamento moderno com o racionalismo clássico. o questionamento sobre a possibilidade de o sujeito poder ou não compreender a realidade é posto. apresentou novos problemas.

É a partir da suposição de que fenômenos da natureza são regidos pela lei da extensão e do movimento conhecidas pela razão. O auge do sujeito moderno se dá com a filosofia crítica de Kant e com a ideia de que o avanço do conhecimento exige que as crenças tradicionais e a própria razão sejam submetidas à operação crítica. colocando em xeque tudo o que aprendeu. o aparecimento e as redescobertas de textos sacros e antigos. p. as grandes navegações.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Deus. incapaz de. Daí a máxima “penso. a reforma. Se com Descartes o sujeito se torna o primeiro 64 . e que explica tudo que não é alma ou pensamento apenas pelas noções de extensão e de movimento dessa extensão. ele busca um método universal. as incertezas intelectuais. duvidando inclusive da religião. inúmeros são aqueles que questionam o legado filosófico de então. de um ser finito e corruptível. Nessa época marcada por profundas transformações. Do ceticismo de Montaigne ao pragmatismo político de Maquiavel. O único fundamento seguro é a razão. o homem dessa nova época se vê em meio a um turbilhão de acontecimentos e sentidos. à medida que Deus jamais poderia ser compreendido por meio da razão. de modo que a consciência aparece como sujeito e objeto do conhecimento. menos da nossa capacidade racional. sem saber ao certo que caminho traçar. a razão humana é limitada e imperfeita. como o homem. Deste modo. Por isso. própria do cogito. para que possamos utilizar corretamente a razão. as primeiras descobertas científicas. alcançar a verdade. porque ela não possui dinamismo próprio. Descartes enfatiza a necessidade de se criar um método. o sujeito moderno desponta apenas com o desmoronamento da Idade Média e o aparecimento de uma época que traz consigo o capitalismo. Neste sentido. 225). o corpo e a vida à extensão. Para Descartes. assim como a importância que o homem e a razão passam a ter. ele busca fundamentos sólidos e princípios seguros. O dinamismo da natureza pertence ao criador. podemos duvidar de tudo. Fazendo uma recapitulação sobre a sua vida. Ora. 1999. logo existo”. O mecanicismo é a doutrina que reduz a matéria. este pensador chega à conclusão de que nada do que aprendeu fornece certeza. deveria ocorrer através da fé. “para os cristãos. entregue à exploração da razão humana. precisando ser socorrida e corrigida pela fé e pela Revelação” (CHAUÍ. por si mesma e sozinha. é ante essa indeterminação e insegurança que se antepõe Descartes. à medida que os fenômenos devem ser interpretados segundo o modelo fornecido pelos dispositivos mecânicos. Ao reduzir o homem ao seu cogito. que Descartes dá origem a duas grandes correntes da filosofia moderna: o idealismo e o empirismo. instabilidades e perturbações políticas e sociais. com base no rigor da matemática e no encadeamento racional. Por conseguinte. sendo reduzida a um mecanismo transparente e à linguagem matemática.

com seu discurso emancipatório e suas fantasias antropocêntricas do sujeito. já que considera que a razão depende exclusivamente do sujeito. da verdade. ou o espírito deixa de ser substância e passa a ser visto como processo. se depois de Hegel aparecem diversas críticas ao seu absolutismo da Construção do sujeito na era tecnológica 65 . do progresso e da evolução presentes no Iluminismo. cuja plena emancipação ocorreria senão existissem entraves a sua realização. 231). Contudo. Posto que “a razão em Hegel não é nem exclusivamente razão objetiva (a verdade está nos objetos) nem exclusivamente subjetiva (a verdade está no sujeito). Nesses termos. Kant é um pensador que abraça o ideal iluminista do século XVIII. das estruturas de sensibilidade e do entendimento. Em outros termos. Com ele. isto é. nasce a pretensão de propiciar ao homem o totalizante conhecimento absoluto do Absoluto. 1999. Kant concebe o sujeito moderno como um ser repleto de potencial. Conhecemos apenas a realidade como fenômeno. automovimento que se realiza e se supera no desenvolvimento da história. Hegel é outro grande pensador idealista. forma kantiana da verdade absoluta. Em seu sistema de pensamento. De acordo com Kant. que rejeita as certezas do mundo e afirma um profundo ceticismo. Isto significa que “nunca saberemos o que é e como é a realidade em si mesma. 1999. p. o sujeito. caindo em um subjetivismo epistemológico. Kant se posiciona contra o empirismo de Hume. separada e independente de nós. 81). um estudo sobre a estrutura e o poder da razão para determinar o que ela pode e o que ela não pode conhecer verdadeiramente” (CHAUÍ. há uma absolutização do idealismo. p. Kant confere ao sujeito um lugar muito mais importante do que Descartes dera. A realidade conhecível e conhecida é aquela aposta pela objetividade estabelecida pela razão ou pelo Sujeito Transcendental” (CHAUÍ. mostrando a necessidade de questionar a própria razão. das verdades sintéticas a priori. 1999. buscando evitar o excesso de subjetivismo kantiano por meio da importância que atribui à objetividade. há com ele a pretensão de purificar a consciência empírica e elevá-la ao Espírito e ao Saber Absoluto. Pensador iluminista. “Despertar do dogmatismo é elaborar uma crítica da razão teórica. Ou seja. mas ela é a unidade necessária do objetivo e do subjetivo” (CHAUÍ. p.momento no processo epistemológico do conhecimento e da busca da verdade. Por conseguinte. isto é. refundando a filosofia e o próprio conhecimento. com Kant o sujeito passa a ser a condição mesma do conhecimento verdadeiro. do homem. o conhecimento verdadeiro e necessário apenas é possível quando organizado pelo sujeito do conhecimento nas formas de espaço e tempo e conforme os conceitos de entendimento. 235). organizada pelo sujeito do conhecimento segundo as formas do espaço e do tempo e segundo os conceitos do entendimento. prosseguindo com as fantasias da história. Hume o desperta de seu sonho dogmático. Com Hegel.

Gehlen).]. A consequência dessa visão. precisando.. Destronando Deus de seu infinito poder. à teoria do caos e à auto-organização. caracterizada pela unidade. 1997. Toda a sua filosofia se contrapõe às ideias filosóficas e aos valores morais tradicionais. 66 . Desde os átomos até o universo. isolados. Tal filosofia nos remete à pequenez do homem. Impiedoso.. O modelo de ciência que emerge no século XX. Nietzsche tem sido apontado como o filósofo que anteviu não apenas o niilismo que muitos autores consideram como um fenômeno característico da pós-modernidade. amplas ideologias. dá importância aos fenômenos irregulares. vastas posturas morais. será apenas com Nietzsche que todo esse edifício filosófico se destruirá. considerando-o como vontade de potência. uma ordem estável. 13). essa mesma vontade não passa de ilusão [. que é um modelo mecanicista. é a de um sujeito que se vê como uma essência identitária. à sua insignificância no conjunto geral das coisas que constituem o mundo. Ao postular que a condição geral do mundo é o caos. com a sua crítica feroz a toda essa concepção filosófica do sujeito moderno e de sua racionalidade. que se afirmam como a grande verdade. sempre igual a si mesma. que diante de dificuldades encontram novas respostas. o homem ocupou o seu lugar acreditando-se o novo criador. as grandes ideias condutoras (A. “Combinava com uma visão de mundo do passado. dá um golpe final na visão de homem erguida e exaltada durante toda a modernidade. sua posição de mero figurante no teatro dos acontecimentos não tardou a surgir (MARCONDES FILHO. e que se constituem como conhecimentos da era tecnológica. não existindo nele uma ordem ou uma estrutura. a mecânica se ocupava apenas com processos regulares e repetitivos. dos grandes processos.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE razão e a sua crença de que a consciência é a própria realidade. Isso porque a vontade. por sua vez. sendo unidade entre pensamento e ser. sua impotência. Não podemos esquecer que todo o edifício da filosofia moderna foi construído tendo em conta a física clássica. p. Ao considerar que a natureza segue leis eternas e imutáveis. desse mundo artificial e de todo o seu imaginário tecnológico. Nietzsche chegou mesmo a antecipar Freud. 1997. outro importante pensador que contribuiu para a aniquilação da crença no sujeito universal e racional ao chamar a atenção para o inconsciente como uma das dimensões estruturais do homem. Segundo alguns autores. E. O homem sonhou o sonho da onipotência durante vários séculos. os metarrelatos ( J. Não obstante. sua fraqueza. ser desmascarados. p. Nietzsche. 11). como também os desdobramentos da cibercultura. Nietzsche também se adiantou à própria concepção de ciência que emergiu com a física quântica. sob o ponto de vista da subjetividade. constância e isolamento. aquilo pelo qual o homem se bate achando que é o seu senhor. no século XX. por isso. Lyotard)” (MARCONDES FILHO. com suas repercussões para o sujeito contemporâneo.

E nos mundos gerados por máquina dos MUDs. Para ela. é feito e transformado pela linguagem. ou seja. as pessoas organizam seu significado não 67 . que tem seu auge no espaço eletrônico da Internet. não repetitivas. Dos processos não lineares passa-se à auto-organização” (MARCONDES FILHO. Massachusetts Institute of Technology. onde podemos assumir diversas personagens. nada mais é o que a própria desordem. Não somente as bases materiais da sociedade se modificaram drasticamente. sistemas complexos. já apontava esses espaços como intensos locais de trocas. Essa homogeneidade estática. passando a ser compreendido como processual e aberto. Isso é uma mudança enorme em relação à ciência clássica. p. encontro pessoas que me põem em uma nova relação com minha própria identidade (TURKLE. o calor que se dissipa no encontro dos corpos jamais será utilizado novamente. o intercurso sexual é uma troca de significantes. a imprevisibilidade e o acaso. instauram-se entre a velha dualidade entre máquinas simples (que não possuíam organização) e os seres vivos. Com as sociedades da informação. seja através das máquinas geradoras de realidade virtual (simulação). chamadas de MUDs (multi-user-domain ou multi-user-dungeon).Depois da descoberta da segunda lei da termodinâmica. o eu [self] é múltiplo. 17). não-linear e fluida. e a compreensão vem da navegação e da experimentação mais do que da análise. Construção do sujeito na era tecnológica Essa transformação na maneira de se perceber e se vivenciar a subjetividade. Estrutura descentrada. o que gera transformações irreversíveis. é que “cada vez mais. A pesquisadora do MIT. Em meus mundos mediados por computador. e constituído na interação como conexões com máquina. 1995. sistemas não-lineares. o sujeito deixa de ser visto através da primazia da consciência e da centralidade. uma vez que. sob o ponto de vista social. É assim que “os computadores. o sujeito da sociedade tecnológica ou da cibersociedade desmascara sociologicamente a concepção de um eu unitário. 1997. falta de forma. ao contrário de um modelo preestabelecido. levando à dispersão regular por todo o espaço. 13). fluido. a relação com o outro passa cotidianamente pela tecnologia. abriu-se a possibilidade de se estudar fenômenos a partir de modelos que operam com a indeterminação. o atual permite apreender nos próprios processos sua livre manifestação. levando à desordem no sistema físico. seja através das redes de interação telemáticas. como também outras esferas. Isso porque essa lei parte do pressuposto de que a quantidade de trabalho útil que se pode obter a partir da energia do universo está constantemente diminuindo. Em relação à subjetividade. Sherry Turkle. emergiu com a revolução tecnológica no final do século XX. Em outras palavras. em seus primeiros estudos sobre as comunidades virtuais. coerente e organicamente construído. p. sistemas que elaboram repostas novas a novas questões. e uma das consequências disso.

escola. Com a expansão dos meios técnicos de informação. família” (DELEUZE. mas com base no que elas são ou acreditam que são” (CASTELLS. Devido à complexidade da sociedade tecnológica. hospital. p.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE em torno do que fazem. gerando uma “crise generalizada de todos os meios de confinamento. como se o indivíduo tivesse uma estrutura acabada. que trazem intermitentemente notícias do suposto espaço público para o espaço privado. p. qual a delimitação entre o espaço da família e o da escola. contribuindo para que o sujeito da era tecnológica se assente em lógicas diferenciadas daquelas que acreditou até então. cujo apogeu se deu no início do século XX. Cada vez mais fica difícil impor limites territoriais e legais sobre as diversas instituições que regem a sociedade. Se nas sociedades disciplinares os indivíduos passavam de um espaço fechado para outro. as pesquisas privilegiam minorias. o mundo analógico torna-se cada vez mais obsoleto. não é mais possível sustentar a definição do sujeito em função de seu território geopolítico. que teoricamente parecem saber mais como educar os seus filhos do que eles próprios? E em relação ao trabalho. que com as novas tecnologias estende-se à esfera outrora sagrada. A identidade hoje assume dimensões inesgotáveis de análise. Afinal. 220). 23). 1992. denomina sociedade de controle. de seu pertencimento a um Estado-Nação. tornam-se reféns dos conselhos de pedagogos e de psicólogos. podendo passar por configurações tão díspares como. prisão. movimentos moleculares e auto-organizações espontâneas. as 68 . p. ao mesmo tempo. 1999. Como entender essas instituições que parecem se perfazer a cada instante. 27). as sociedades de controle emergem no final do século XX com a centralidade que a técnica passou a ter na vida das pessoas. Diversamente das sociedades disciplinares dos séculos XVIII e XIX. se grande parte das crianças no mundo contemporâneo passa o dia inteiro sob os cuidados da escola enquanto os seus pais precisam trabalhar e. seguindo Michel Foucault. 1999. Isso significa que a identidade. borrando ambos ao expô-los a assuntos que abarcam o domínio da intimidade. em um exercício contínuo que nunca tem fim? Que tipo de domínio e gestão de corpos existem nesse incessante processo de dominação? Nas cruas palavras de Deleuze (1992. a família. A essa passagem de uma vivência “sólida” para uma “volátil”. p. como também “a busca pelo significado ocorre no âmbito da reconstrução de identidades defensivas em torno de princípios comunais” (CASTELLS. ao invés de se buscar a velha e tão almejada essência. estruturada pela velocidade. cada um circunscrito as suas leis. 224). pelo menos em termos de importância. nas sociedades de controle essa delimitação do dentro e do fora se esfumaça. local tradicionalmente de afetividade? Isto sem mencionar a televisão e a Internet. o modo de se relacionar e perceber o outro assume novos sentidos. É por isso que. o filósofo Gilles Deleuze. por meio de seu relacionamento com as corporações do mercado global. sendo substituído pelo mundo digital. por exemplo. fábrica.

a escola. a concentração e a produção. 1992. o exército e a fábrica não são mais espaços analógicos distintos que convergem para um proprietário. em que a mente humana se torna uma força direta de produção. 223). características das sociedades disciplinares. 223). como nas ações de hackers ou ciberpiratas. a sabotagem ocorre de maneira mais difusa. nos enviam ao perigo passivo da interferência e o ativo. p.. por transformação do produto mais do que por especialização da produção (DELEUZE. mas incide sobre as trocas flutuantes. as máquinas energéticas. os mercados e as diversas modulações de moeda. deformáveis e transformáveis. mais complexas e difíceis de controlar.instituições como: a família.] como se a sobrevivência das empresas no mercado 69 . exacerbado pela informatização da sociedade. Por conseguinte. o uso desenfreado da racionalidade tecnocientífica. Enquanto que no primeiro caso o perigo de sabotagem poderia ocorrer pela destruição das máquinas por operários. as conquistas de mercado se fazem por tomada de controle e não mais por formação de disciplina. A consequência perversa disso é que sob o ponto de vista do capital. ao subordinar as decisões de investimento não às taxas de retorno. Equipamentos aparentemente mais simples. 1992. como os luditas. sendo desbancadas pela empresa. veremos que seu modelo de sobreprodução não atua no par indivíduo-massa. pois como pontua Deleuze (1992. já não têm tanta importância. p. p. indispensáveis nas sociedades de controle. 223). da pirataria e da introdução de vírus (DELEUZE. leva à penetração de sua lógica em várias esferas das sociedades de controle. [. “não porque as máquinas sejam determinantes. pareciam se deparar “com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem” (DELEUZE. Aqui. enquanto que as máquinas informáticas e os computadores das sociedades de controle. mas à dinâmica da inovação. que no século XIX se revoltaram contra a mecanização do trabalho e de suas péssimas condições decorrentes da Revolução Industrial. mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las”. como da racionalidade econômica. 1992. mas são agora figuras cifradas. Construção do sujeito na era tecnológica Também podemos compreender a configuração das sociedades a partir dos seus tipos de máquina. Se ainda estendermos essa lógica ao capitalismo. pelo marketing e pela venda (de ações e serviços). Estado ou potência privada. por fixação de cotações mais do que por redução de custos. no segundo. 224).. p. de uma mesma empresa que só tem gerentes. a fábrica. que devido aos seus conhecimentos em computadores têm a habilidade de entrar nos sistemas e modificá-los.

próteses. a tecnociência. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. como também certo tipo de controle sobre a vida.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE dependesse mais de sua capacidade de invenção e substituição de produtos do que da extensa exploração comercial dos mesmos. A marca da cibersociedade ou da sociedade tecnológica é a de ser regida e reorganizada por meio da cibernética e das redes computacionais. inúmeros autores têm se debruçado sobre a discussão que remete ao pós-humano. abrangendo no mínimo: Implantes. Tem-se. com a sua primazia absoluta. seguindo a ânsia ilimitada do capital. um processo paroxístico de renovação ilimitada de gadgets. no final do século XX. Anabolizantes. com as transformações no corpo humano feitas pela tecnociência e ao mesmo tempo com a humanização e subjetivação das máquinas. questiona a humanidade de nossa subjetividade. deste modo. psicofármacos. no século XIX. seres ‘artificiais’ quase humanos. 2008. criando questionamentos acerca da relação homem-máquina. Sentidos farmacologicamente intensificados: a percepção. com a sua exaltação do sujeito antropológico. denominada por Michel Foucault biopolítica. clones e tantas outras invenções maquínicas. 70 . Seres portadores de órgãos ‘artificiais’. A lista é enorme. 5). vacinas. Máquinas de guerra melhoradas de um lado e outro da fronteira: soldados e astronautas quase ‘artificiais’. Superatletas. indistintamente. Afinal. Estados ‘artificialmente’ induzidos. a própria vida do humano torna-se centro de questionamentos. Biotecnologias. Supermodelos. Seres ‘artificiais’ que superam. transplantes. ainda é possível falar do humano? Existem diferenças entre o humano e as máquinas. Realidades virtuais. Superguerreiros. cujo objetivo é desenvolver linguagens e técnicas que deem conta do problema do controle e da comunicação em geral. Se Nietzsche. Dito de outra forma. tornando-os igualmente indistintos: corpos humano-elétricos (SILVA. que intervém sobre a realidade biológica do ser humano. cujo ciclo de vida é cada vez menor (SANTOS. de reações mais ágeis. a própria vida passa a ser gerida e controlada a partir dessa mesma lógica tecnocientífica. Bits e bytes que circulam. p. entre corpos humanos e corpos elétricos. pautadas sob a lógica das máquinas inteligentes. tanto dos homens quanto das máquinas. enxertos. que aliada à racionalidade científica acaba não apenas criando uma relação paradoxal entre homem e natureza mediada pela ciência e pela tecnologia. 15). p. Máquinas de visão melhorada. com a evolução da engenharia genética e das redes computacionais. com seus ciborgues. ou ambos não passam de sistemas de informação? Com a penetração do humano com a máquina. apontou para a morte de Deus e para a grande farsa da metafísica. Clones. Seres geneticamente modificados. de coordenação mais precisa. a imaginação. a tesão. Assim. 2000. as limitadas qualidades e as evidentes fragilidades dos humanos. localizada e parcialmente (por enquanto).

a dúvidas que podem ser. Construção do sujeito na era tecnológica Um exemplo disso foi o projeto Biosfera II. com a melhoria do patrimônio genético. mas sem o “mal” ou a degradação presente no ambiente (natural) externo. que visualiza o póshumano como a superação do humano a partir da própria evolução deste por meio de seu aperfeiçoamento genético. p. de outro. forma-se uma rígida hierarquia. através da formulação de uma ‘exigência’ cada vez maior de que o homem precisa poder viver em ambientes que não são seu habitat natural – como as viagens espaciais (SANTOS. O projeto Genoma. em que as pessoas que são concebidas geneticamente em laboratórios se tornam econômica e socialmente mais bem sucedidas do que aqueles que foram concebidas naturalmente. com seres vivos. Primeiro. Existem duas formas desse processo de obsolescência do corpo. Essa transformação pela qual mal começamos a entrar remete a inúmeros questionamentos. Em consequência. como Gattaca – a experiência genética. que foram manipulados geneticamente antes 71 . 164). Ora. tanto nós homens quanto as máquinas somos fabricações.Não há mais como negar que. estando obsoleto. visando ao aumento de duração da vida. e. mas seu aperfeiçoamento por meio de um processo de eugenia. que opera com a genética e a biologia molecular. que sabendo o tipo de doenças que elas podem futuramente ter. ou ainda de o mercado de trabalho ser fatiado segundo as aptidões genéticas dos indivíduos. Um segundo ponto de vista é o da transformação biogenética. o corpo humano precisa ser superado. Não há aqui uma ruptura radical do humano. que considera o pós-humano como superação do humano. no deserto do Arizona. como o das pessoas se tornarem reféns de grandes corporações. produção autônoma de oxigênio em uma bolha. em consonância com Laymert Garcia dos Santos. cobrariam taxas altíssimas de plano de saúde. esses perigos já foram mostrados em diversos filmes. surge como uma possibilidade de mapear o genoma e eliminar os genes defeituosos. esse projeto indica diversos problemas. Tal como existe. A sociedade fica dividida entre os válidos. Sob o ponto de vista ético. legitimadas pela ciência. que tentava ser uma reprodução da nossa biosfera. revelando a preparação para a possibilidade da terra se tornar futuramente um planeta inabitável. onde oito pessoas residiram durante dois anos. Esse projeto era uma instalação de vidro e metal. A Biosfera II. Ela ocorre. que procurava reproduzir o mundo natural. resumidas em três posições acerca dessa temática. fracassou. é a via da singularidade. somos ciborgues em contínuo aprimoramento tecnocientífico. 2005. plantas. através de uma necessidade aparentemente crescente de modificar o organismo mediante a incorporação de próteses para lidar com a velocidade da transformação. com novas espécies de castas. tendo o monopólio do homem perfeito e de sua matriz. preconceitos e divisões sociais. com o objetivo de sobrevivência em outras condições climáticas e até em outros planetas. por um lado.

que aparece em Nietzsche e em Heidegger e posteriormente com o desenvolvimento da tecnociência. indivíduos que. precária. que não apenas pareciam com os humanos. Esta última opera com a negação do corpo enquanto a anterior. alterar o patrimônio genético da humanidade. 72 . Cabe. Um trata de reformar o corpo a partir de sua matriz básica. Surge aqui a visão de que a emoção. Outro tem mais a ver com uma ‘recauchutagem’. como aqueles imortalizados no filme de ficção científica Blade Runner. entre outras características consideradas ainda por alguns da ordem do humano. posto que agora este sujeito não mais apresenta um componente demasiado fraco e débil: a sua humanidade. refletirmos um pouco mais sobre a constituição do sujeito na sociedade tecnológica. tornam-se agora objeto de uma ciência que acredita poder controlá-las no homem e atém mesmo criá-las em máquinas. Trata de ver o corpo como uma máquina imperfeita. estamos aqui diante de um processo que se propõe a mexer diretamente com o corpo.. com sua reconstrução (MARCONDES FILHO. que vê nas duas linhas anteriores a confirmação da obsolescência do humano e de sua passagem para o pós-humano. Seguindo essa perspectiva. o amor. como também eram mais perfeitos. A Inteligência Artificial é o consubstanciamento dessa visão. no campo da utopia. então. e os não-válidos. Se podemos tratar do ocaso do humanismo. e até mesmo mais humanos que os próprios humanos. Por último.. como defendem as novas utopias da cibersociedade? A descoberta do homem como ser desprovido de valor e onipotência. a célula. Com o fim da exaltação do homem tão apregoada pelo humanismo. de substituição de partes prejudicadas ou ineficientes por mecanismos técnicos [. São seres maquínicos ou robôs. Diferentemente do Biosfera II. uma substituição de tudo que é ou se tornou falho em nosso sistema por peças recambiáveis. 50). quais seus sonhos e utopias. São na verdade dois desenvolvimentos paralelos. p. toma novos rumos com as utopias da sociedade tecnológica. sem possibilidade alguma de ascensão social. assim como procurar compreender que tipo de sociedade é esta. 1997. Estes sim fracos e imperfeitos. como a válvula do coração. buscando-se. o saber. desta forma. que só sobrevive com o enxerto de peças mais aperfeiçoadas. Não se trata das próteses. por causa da possibilidade de desenvolverem ou de já terem algum tipo de doença ou “defeito”. sem as deficiências do humanismo. o ódio. será possível também pensar o fim do humano. ficam com os piores trabalhos. naturalizando. de toda essa indústria de órgãos artificiais. com seus sentimentos e emoções. vemos emergir a substituição do conceito de homem pelo de corpo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE de seu nascimento. frágil.]. temos a terceira vertente. buscando construir uma nova espécie de seres artificiais através de processos que simulam as propriedades da vida por meio de computadores. à guisa de conclusão. a cibersociedade se assenta em uma nova visão de sujeito. inclusive porque menos humanos e mais maquínicos do que os belos replicantes.

São Paulo: Paz e Terra. 1992.Misto de técnica com natureza desnaturalizada. Internet culture. Scott. 1994. Madrid: Ediciones siruela. e nem por isso instintivo” (SANTOS.). Gilles. cyberpunk. fortalecendo “um modo de ser pré-reflexivo. The postmodern paradise: Dante. Marshall. São Paulo: Educ. apenas humanos. Rio de Janeiro: Ed. FIGUEIREDO. In: PORTER. não-racional e não espiritual. DELEUZE. and the thecnosophy of cyberespace. que ao tomar como parâmetro à máquina e à inteligência artificial. 1999. A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500-1900). p. David (Org. sociedade e cultura. BUKATMAN. Manoel. 2). DERY. New York: Routledge. 2008. 1. promulgado pelo pós-modernismo nos anos 1980. CASTELLS. Terminal identity: the virtual subject in post-modern science fiction. estes sim. 1991. 1986. Neste sentido. 1999. E assim fazendo. p. o sujeito da era tecnológica desponta como um ser híbrido. o que vemos agora é a tentativa de resgatar o homem por meios diversos daqueles defendidos pelo humanismo. 1997. FISHER. Convite à Filosofia. Contudo. 73 . dos genes e da carne. criando a utopia de que há uma espécie cujo processo de evolução tecnocientífica superará este homem falido. 111-132. 1993. Durham: Duke University Press. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. CHAUÍ. Velocidad de escape: la cibercultura en el final del siglo. São Paulo: Ática. ele acaba instaurando um comportamento niilista. Mark. crente em seus poderes. M. parece ter sido ultrapassado pelo ressurgimento dos grandes projetos sociais presentes na cibernética e em suas diferentes vertentes. v. Construção do sujeito na era tecnológica Referências BERMAN. M. Luís C. São Paulo: Companhia das Letras. Jeffrey. o desaparecimento de grandes relatos explicativos. 34. Conversações: 1972-1990. porque atualmente a busca do “além do homem” ocorre com referência ao discurso do corpo. A sociedade em rede (a era da informação): economia. comporta-se como se não tivesse ligação alguma com a natureza.

HARAWAY. Comunicação. 74 . São Bernardo do Campo. 1995. Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. p. Da produção da subjetividade. Tadeu da (Org. 1997. São Paulo: Companhia das Letras. Manifesto ciborgue: ciência. São Paulo: Paulus.. As conseqüências da modernidade. RENAUT. O indivíduo: reflexão acerca da Filosofia do sujeito. In: PARENTE. Laymert Garcia dos. São Paulo: EPU. GONÇALVES. 1991. Belo Horizonte: Autêntica. Disponível em: <http://contrun. Marvin. Acesso em: 1 jan. SANTOS.). 1979.: s. 2000. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 1998. SP: Papirus. Superciber: a civilização místico-tecnológica do século 21: sobrevivência e ações possíveis : texto introdutório. Rio de Janeiro: Francisco Alves. cultura e subjetividade. Anais. Michel. Contr’um. 173. Resumo dos cursos do collège de France: 1970-1982. 2008. MINSKY. NEGROPONTE.l. MARC. ECA-USP. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. 1975. F. Tecnologia. Sociedade da mente. REALE. Rio de Janeiro: Difel.). da Universidade de São Paulo. SP: Umesp. 2004. São Bernardo do Campo. 2004. A vida digital. Alain. 1997. M. Augé. André (Org. GILES. Anthony. Nicholas. Thomas Ransom. MARCONDES FILHO. São Paulo: Ática. 1996. São Paulo: Unesp. História do existencialismo. Donna.. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. HARVEY... 13. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. GIDDENS. [S. História da Filosofia três.noblogs. G. Campinas. David. Não-lugares: introdução a uma Antropologia da supermodernidade.n. GUATTARI.org/ post/2008/04/16/tecnologia-perda-do-humano-e-crise-do-sujeito-laymert-garcia-dossantos>.].SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE FOUCAULT. São Paulo: Loyola. In: COMPÓS. In: SILVA. 1992. 1991. Ed. 2009. Ciro. 1989. crise do humano e perda do sujeito.

117-123. debilitada pelo descentramento do sujeito humano diante do poder da técnica e do capital. São Paulo. 1996. In: SILVA. Nós. Paul. mas sim objetos técnicos complexos. Demasiadamente pós-humano: entrevista com Laymert Garcia dos Santos. Disponível em: <http://www. reivindicam um atributo elementar da hominidade: tempo de vida.SANTOS. n. Todas as personagens do filme buscam algo. July. Life on the screen: identity and age of the Internet. embora não sejam do gênero humano. T. seja no campo da técnica e da tecnologia. 2002. subjetividade e tecnologias digitais. seja no da sociabilidade e subjetividades humanas e também do ecossistema urbano-social.scielo. VIRILIO. New York: Touchstone Edition. 72. Como essas contradições se apresentam no filme? Blade Runner é um filme de ação que contém uma profunda reflexão filosófica sobre o problema da identidade do homem. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Construção do sujeito na era tecnológica Proposta de Atividade O desenvolvimento da sociedade do capital é o desenvolvimento ampliado de suas contradições sociais. TURKLE. Rio de Janeiro: Relume Dumará. Porto Alegre.br/scielo. A bomba informática. dez. Lucien. Paula. Novos Estud. Laymert Garcia dos. Sherry. A saúde perfeita: crítica de uma nova utopia. SIBILA. ciborgues: o corpo elétrico e a dissolução do humano. ______. SFEZ.. p. produtos do trabalho humano. Revista FAMECOS. os replicantes. Em Blade Runner. São Paulo: Loyola. 2000. 2009. 1999. Como você analisa a questão da identidade no filme? Utilize-se das personagens para fundamentar a sua resposta. Fronteiras do real e do virtual. Tadeu da (Org. SILVA. São Paulo: Estação Liberdade. 11. 1999.). Até que ponto o drama vivido pelos replicantes é humano? 75 . 1995. da engenharia genética e de seus avanços fantásticos. O homem pós-orgânico: corpo.php?script=sci_arttext&pid=S010133002005000200009&lng=en&nrm=iso>. Belo Horizonte: Autêntica. 2005. Acesso em: 1 jan. n.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 76 .

g) o controle de infovias urbanas ligadas à prestação de serviços das prefeituras. h) o uso da telemedicina. 77 .6 O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” Lizia Helena Nagel A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO QUE VIROU SOCIEDADE DO CONHECIMENTO A “Sociedade do Conhecimento” é a forma (brasileira) de traduzir. a expressão empresarial dos investimentos racionalmente programados para o mundo globalizado. que incluem. menos pretensiosas em sua compreensão e mais precisas em sua extensão. Sociedade da Informação) é. telecomunicação. expressões conceitualmente mais realistas. órgão especialmente criado para coordenação e divulgação de suas atividades. a Sociedade da Informação ou a Super Estrada da Informação. Esse amplo programa de investimentos. antes de tudo. ideologicamente. f ) as redes de administração pública. entre outros tantos. de modo mais imediato. redes de comunicação digitais (Banda Larga) sistemas de comunicação móveis. c) o tráfego computadorizado. por Empresas Locais e por Redes de Pesquisa (em nosso caso. b) os serviços de telemática para pequenas e médias empresas. cunhadas nos anos 1990 pela Comunidade Econômica Europeia e Estados Unidos com o objetivo de planejar ou concentrar esforços na construção de uma infraestrutura global da informação1. desdobrase em ações capitaneadas pelo Estado. No entanto. Isso significa que a “Sociedade do Conhecimento” (na verdade. a) o ensino a distância. d) a gerência de tráfego aéreo. não podemos esquecer que 1 A política preconizada pela Comunidade Europeia a esse respeito pode ser acessada pela Internet Information Society Projetct Office ISPO. pelo MEC/ MCT/ CNPq). e) a licitação e compra eletrônica. desenvolvido pela União Europeia e Estados Unidos para garantir uma infraestrutura globalizada da informação. relativos à informática.

de banco de dados. organização e objetivos. Cabe lembrar. Quando os educadores listam e apregoam as vantagens da “Sociedade do Conhecimento”. no artigo Uma disputa de projetos nas sociedades do conhecimento. mesmo quando reconhecidos como articulados por um poder político e econômico definido. o processo de desenvolvimento da legítima Sociedade da Informação se deve. contraditórios ou contrários ao mercado não podem ser divulgados em função da própria natureza particular da entidade privada da qual emanam as informações. Infelizmente. então. concretude informacional. Regras que. louvando a futura “democratização da informação”. no entanto. 2007. de forma cada vez mais ampla e sofisticada. Nenhum país do mundo (exceto México. 78 . internacionais. afirma: O Brasil. esses megaconglomerados da informação. 3 Para maior aprofundamento da temática. talvez) tem um predomínio tão gigantesco de poucos grupos empresariais sobre a exploração do fenômeno comunicacional de massa. c) exploração comercial de produtos virtuais. consequentemente. organizam. divergentes. Ora. não estão sendo analisados. dinamicamente. os quais. a ser “democratizado”. até hoje. têm poderes ilimitados para determinar a informação que pode ser (re)passada à sociedade. em sua natureza privatista. esquecem-se de que o conhecimento a ser socializado dependerá dos interesses privados dos organismos que sustentam essa mesma infraestrutura. essencialmente operacionalizadas pelo privado. Educação e desenvolvimento na “pósmodernidade”. transnacionais). O conhecimento. a natureza privada que lhe confere. somente pode expressar. por meio de contínuas fusões. usufruindo total 2 Gustavo Gindre. tornam-se megaconglomerados da informação. comandam o desenvolvimento da infraestrutura da informação e.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE é do setor privado a responsabilidade primária pelo projeto e pela implementação não só dessa infraestrutura de informação pretendida como pela regulamentação em qualquer nível de parceria e/ou de interconexões das redes (locais. b) propriedade intelectual. meta definitiva da chamada “Sociedade do Conhecimento” (tão celebrada como grande conquista pelos educadores3!). também. ou repassado em sua estrutura. que as regulamentações que estruturam ou organizam essas redes de informação definem tanto a legitimidade de operações integradas entre várias redes quanto prescrevem o conteúdo e incluem: a) sigilo das comunicações. pelos educadores. garantem. o poder dos oligopólios já existentes2. Coordenador Geral do Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Sociedade. de forma mais ou menos sutil. sugere-se o texto de NAGEL. Interesses múltiplos. tem sido citado como exemplo da mais brutal concentração de oligopólios na comunicação. aos oligopólios ou aos mega conglomerados que se apropriam. Esses organismos. portanto.

como ponto de partida. Nada melhor. d) delimitação das novas funções do Estado na perspectiva do desenvolvimento global. Ora. esse estudo postula: El conocimiento se asemeja a la luz. O CONHECIMENTO. consideradas chaves. contempla os seguintes itens: a) necessidade de reduzir as diferenças de conhecimentos entre países pobres e ricos. para a educação dos homens do amanhã! Da mesma forma.] A pesar de ello. NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. miles de milliones de personas viven todavía sumidas . portanto. se a educação pressupõe conhecimentos não-sofísticos. b) sugestões para corrigir os problemas derivados da falta de informação dos países em desenvolvimento. a convicção de ser a pobreza (de países e de pessoas) resultante da falta de conhecimentos e. nessa formulação já estão contidas as ideias mestras. para isso.independência de demandas públicas e/ou demandas culturais. passível de ser superada por alternativas direcionadas pelas nações que detêm o saber científico e tecnológico. Analisando apenas o resumo desse estudo – o conhecimento a serviço do desenvolvimento – pretendemos abordar. que fornece o roteiro sobre em quais conhecimentos os países em desenvolvimento devem investir. publicando seu Informe sobre o Desenvolvimento Mundial (1998-1999). geradora de pobreza. faz-se necessária uma incursão nessa área. para a superação da situação aflitiva. das redes. expressando sinteticamente as questões trabalhadas na totalidade do Informe. Lista sintética das “Lições de Casa” a serem cumpridas pelos países emergentes e que demonstram ter.en la oscuridad O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 79 . 1998-1999). com capacidade de emancipar-se de qualquer paradigma que não seja definido pelo lucro. oferece ricos subsídios para considerações pelos educadores. dependendo da forma como se elabora um problema. fundamentalmente. não-falaciosos. c) políticas para diminuir as deficiências de comunicação por meio de instituições internacionais. Cabe.sin ninguna necesidad . [. se pretende. ainda assim não são analisados pelos educadores como entraves reais para o conhecimento. para a inclusão. o tipo de conhecimento considerado necessário aos países pobres ou em desenvolvimento.. tornar mais ágil a aquisição de conhecimentos aos homens que não o possuem. o problema principalizado pelo Banco Mundial constitui-se na tese de que a falta de conhecimento. Ora. não é analisado o pensamento do Banco Mundial. PARA OS PAÍSES EMERGENTES O Banco Mundial.. uma legítima Sociedade do Conhecimento. como tal. A versão resumida. Inicialmente. impede o desenvolvimento. que começar examinando as propostas do Informe sobre o Desenvolvimento Mundial (BANCO MUNDIAL. Já pontuamos que. de fato.

os passos para a produção. o conhecimento comprado. contrata Edgar Morin para redigir os parâmetros educativos ideais do século XXI – o que ele realiza no livro: Os sete saberes necessários à educação do futuro. O conceito de razão embutido nas teses Iluministas. Lo que distingue a los pobres . segundo indicações básicas de “como usar”. a confecção. 4. passa a ser disseminado. da Ilustração. “vide bula”. O arrazoado do Banco Mundial reativa. ou de pacotes científicos e tecnológicos. o Banco Mundial investe naquilo que considera o problema real a ser debelado: a superação da pobreza pela via do conhecimento.de los ricos es no sólo que tienen menos capital sino tambíen menos conocimientos. 80 . de modo rápido. a natureza. tira do usuário a possibilidade de compreender. ou mesmo de alguns partícipes de certo otimismo pedagógico não é o mesmo que o Banco Mundial utiliza para defender ou emular o conhecimento nas nações subdesenvolvidas. a transformação social. servindo para eliminar. passível de ser adquirido como uma mercadoria que. presas ao próprio produto. feito no Primeiro Mundo. porque. assim como os possíveis danos derivados do produto 4 A Unesco. 1998-1999. Los problemas de información son con frecuencia la causa fundamental de las dificultades que los pobres de los países en desarrollo encuentran en su lucha diaria por sobrevivir y mejorar su nivel de vida (BANCO MUNDIAL. um certo otimismo pedagógico que se alia ao esforço para a difusão da nova forma de ser da educação. intensamente divulgados ao final do século XX. transformando-se em cartilha básica para os professores dos diversos sistemas de ensino. e seu livro: Educação: um tesouro a descobrir. até as últimas consequências. Nessa proposta. apresenta a vantagem de suprimir o tempo necessário para a descoberta dos conhecimentos já existentes.sean personas o países . e das novas “verdades” asseguradas por esse organismo financeiro internacional4. Jacques Delors é convocado pelo mesmo organismo. ao “recuperar” o ideal Iluminista que promete. p. o estímulo ao crédito na razão ou no conhecimento para o saneamento de problemas sociais também deve ser examinado para além de suas aparências. expressando os interesses do Banco Mundial. objetivada em um pacote. na verdade. em muitos professores o otimismo perdido nos discursos asseguradores da morte dos paradigmas. reativa em muitos homens. ou suprimido. pelo saber. O conhecimento sugerido ao Terceiro Mundo é o saber como um produto acabado. já empacotado. pode ser apropriada por qualquer consumidor. Tese aparentemente cativante.p. sistematicamente. 1. nos mais desavisados.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE de la pobreza. quando da compra de bens. grifos nossos). Todavia. Secundarizando as relações capitalistas na determinação das diferenças entre nações ou homens. de serviços. A proposta só não revela que esse tempo reduzido. Também para dar continuidade a esse trabalho. do ensino. a defasagem entre ricos e pobres.

Estimula-se um voluntarismo destinado a implementar o já constituído. dessa forma. inclusive. o desenvolvimento dos pobres só é agilizado porque o consumidor do conhecimento-pronto é dispensado de entender ou dominar todo e qualquer procedimento relativo àquilo que ele consome. do conhecimento sem os desafios que antecedem as legítimas descobertas. Sente-se livre. da necessária disciplina para organizar dados. legitima-se o direito de ser o conhecimento. ou com estruturas teóricas que permitem. Na perspectiva do Banco Mundial. mas esperados e /ou aconselhados. em toda a sua grandeza. como promessa de superação das desigualdades. apenas uma propriedade dos países já ricos. as representações. p. do descarte do passado em direção ao futuro inquestionável. as dúvidas científicas formuladas e testadas com o aval de comunidades diversas. Tira do usuário a possibilidade de analisar e avaliar o material obtido via mercado. p. 1998-1999. grifos nossos). no entanto. 2). la mayor diferencia es la que existe no en el volumen de conocimientos disponibles sino en la capacidad de generación de los mismos (BANCO MUNDIAL. as rotinas pertinentes.adquirido. contraditoriamente. inquirir. Desvalorizam-se os passos próprios à formação da consciência pesquisadora. os atos intelectivos de compor e de decompor as tecnologias. propague: De hecho. Em nome do “necessário desenvolvimento econômico”. 1998-1999. ni redescubrir el tratamiento del paludismo. los países en desarrollo no tienen que reinventar la rueda ni las computadoras. los países más pobres tienen la posibilidad de adquirir y adaptar gran parte de los conocimientos ya disponibles en los países más ricos (BANCO MUNDIAL. Sente-se desobrigado de conhecer os nexos que unem a teoria à prática e eximido de conhecer símbolos ou terminologias específicas. para o entendimento dos produtos elaborados. de acordo com a frase do Informe: Por otro lado. uma vez que o consumidor não possui conhecimento teórico e/ou metodológico para tanto. o comprador do pacote de conhecimento-pronto é induzido a desvalorizar os meios apropriados de investigação. embora o próprio texto do Banco Mundial. nessa proposta. ter familiaridade com critérios de julgamento. Na apologia do “tempo ganho”. atributos ou propriedades dos materiais. previsões antecipadas dos fenômenos. 2. extensão ou complexidade. os métodos de pesquisa. dimensão. com naturalidade. Sem negar a importância de transmitir conhecimentos já produzidos pela 81 . O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” Suprimem-se pedagogicamente. examinar tendências. por quem detém o saber. Comportamentos trágicos para quem precisa aprender. os símbolos. En vez de volver a descubrir lo que ya se sabe. produtiva. Fica desobrigado de levantar e de testar hipóteses sobre a eficiência e eficácia do que adquire.

] Al mismo tiempo que el mundo avanza hacia una economía basada en el conocimiento. 82 . no Brasi eles não passam de 30% nas universidades públicas. o Congresso cortou em 18% o orçamento para 2009 do Ministério da Ciência e Tecnologia. 10). Opção nunca separada de sistemática propaganda. 5 Enquanto nos países desenvolvidos o percentual do Produto Interno Bruto destinado à educação beira os 5%. al frenar la adaptación..7%. Na verdade.. que. afirma-se o poder pernicioso do ideário e da prática que limita o ato de conhecer à aplicação de saberes disponíveis no mercado do Primeiro Mundo. 1998-1999.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE humanidade em geral.. Enfim.. 1998-1999. [. la inversión extranjera y la concesión de licencias de tecnología. Convém lembrar. “a priori. agrande las diferencias de conocimientos (BANCO MUNDIAL.] La concesión de licencias de productos tecnológicos desempeña un papel de creciente importancia en la adquisición de conocimientos por los países en desarrollo. o ensino proposto para o próprio desenvolvimento econômico já está comprometido. controle da natalidade. ficando com um percentual muito inferior nas escolas privadas. [. O saber científico e tecnológico como propriedade de quem já o detém fica. se observa una tendencia a proteger mejor los derechos de propiedad intelectual. claramente definido como vendável a quem interessar possa. explorador e opressivo. como podemos ler no texto que segue: Los factores fundamentales para la adquisición de conocimientos en el exterior son tres: un régimen comercial abierto. nesse documento.” da produção do saber mais avançado. programas de contabilidade e de informática. Empreitada reducionista de valorização meramente mecânica de aplicação da tecnologia já pronta. p. também.. além de conhecimentos sobre ecologia para impedir a degradação ambiental e manter a força dinâmica do trabalho saudável (BANCO MUNDIAL. para poner de manifiesto su preocupación de que el endurecimiento de los derechos de la propiedad intelectual pueda inclinar la relación de fuerzas en favor de quienes generan la información y. Para o ensino universitário. 2. p. recomenda serem levados aos alunos conhecimentos técnicos sobre nutrição. Mesmo com essa diferença. Para a educação básica. só esse conjunto de juízos emitido pelo Banco Mundial obriga a refletir sobre como se desenvolvem as relações de produção capitalista à época denominada “Sociedade do Conhecimento”. enquanto nos países do primeiro mundo os docentes universitários têm grau de doutor. p. no Brasil esse percentual gira em torno de 3. recomenda serviços de qualidade [mas] de baixo custo. posto que os argumentos a favor dessa proposta não escondem seu caráter político. 9.] Los países en desarrollo deben participar activamente en las negociaciones en curso sobre estos temas.. de certa forma. Orientações que confirmam a redução dos conteúdos e a falta de profundidade dos temas tratados pela escola. acentuando a escolha do ensino em sua forma virtual. Como podemos constatar. é a lógica da desinformação na objetivação da Sociedade do (Des)Conhecimento5 . grifos nossos). com a negação. [.

Questionamentos importantes. A frase de Batista Junior é tão ou mais importante quando a pensamos no quadro de aceitação em massa das orientações dadas pelo Banco Mundial. fazem um trio imbatível em termos de credibilidade didática e de citações em projetos pedagógicos de qualquer instância. estimulam mais consumidores do que produtores. uma vez que. com a função que a ONU lhe outorgou de organizar a educação. se os professores estabelecem relações entre o “ideal educativo atual” (no Brasil e para o Brasil) com os interesses econômico-financeiros que operam em nível internacional. concreta e objetivamente. portanto. torna-se imprescindível interrogar os docentes brasileiros sobre o que. O peso do marketing a favor das ideias educativas desenvolvidas por esse organismo financeiro e alavancadas pela Unesco é incomensurável. conforme o solicitado. encarregados pela Unesco de detalhar o conteúdo e os procedimentos educativos necessários às novas demandas do capital. Cumpriu. Para dar continuidade a esse trabalho. o conhecimento ou conteúdo proposto pelas Diretrizes Educacionais correspondem às demandas do atual mercado que. Morin. da imortal popularidade de explicações que economizam esforço de reflexão” (1998. como propõe Batista Junior: “A ‘globalização’ virou pau para toda obra. Confirmando a tese de que nunca se abordou tanto acerca da importância do conhecimento e nunca. 11). A Unesco capitaneou tanto a escolha e depuração dos conteúdos para a escola da sociedade globalizada quanto a forma de pensar o ensino e a aprendizagem. os parâmetros educativos ideais para o século XXI. com tanta ênfase. retira dela as condições para tal realização. ao iniciar sua O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 83 . também Jacques Delors é convocado pelo mesmo organismo. Edgar Morin. sistematicamente. Educação: um tesouro a descobrir. expostos em seu livro: Os sete saberes necessários à educação do futuro. de qualquer nível no Brasil. sofisticamente. nos mais diversos sistemas de ensino. além disso. se o desmereceu. no final dos anos 1990.O CONHECIMENTO NO BRASIL (ENQUANTO “SOCIEDADE EM DESENVOLVIMENTO”) NA PERSPECTIVA DOS PROFESSORES Dez anos após a publicação do documento do Banco Mundial aqui citado. nunca se imaginou tanta adesão ao ideário neoliberal que. os métodos utilizados. transformaram-se em ícones. hoje. Importante interrogar. se eles percebem quanto a pedagogia instituída. eles entendem por “Sociedade do Conhecimento”. optamos por arrolar alguns aconselhamentos dados por esses intelectuais tão prestigiados. Edgar Morin e Jacques Delors. ao mesmo tempo. ainda. e seu livro. a ciência e a cultura necessárias ao “desenvolvimento” desejado. redige. é disseminado. com Perrenoud. Enfim. É desculpa para tudo e desfruta. transformando-se em verdadeira bíblia da pedagogia. trata de desenvolver o conhecimento na sociedade e. autor de extensa obra. p. Mesmo sem idealizar o sistema educacional como capaz de contrariar o sistema produtivo no qual se insere.

divide-a em dez campos. Morin induz à dúvida sistemática sobre tudo o que já foi dito e feito. suscitando neles o desejo de aprender. imediatamente. 89). fundamentalmente. 5) trabalhar em equipe. 23). Perrenoud (1999). com proposta similar à de Morin. em nenhum item. da biotecnologia. 3) conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação. sugere não estar a mesma relacionada. se atendidos. Reconceituando a competência. características cerebrais. 8) usar novas tecnologias. dando uma nova dimensão à palavra competência. criticando a bagagem escolar que considera excessivamente pesada (p. incluindo a administração da heterogeneidade no interior dos grupos. 4) comprometer os alunos com sua aprendizagem e seu trabalho. como os da robótica. São eles: 1) capacidade de organizar as situações de aprendizagem que inclui saber trabalhar a partir das representações dos alunos. mostrariam a relevância de um professor. induz os professores em geral a privilegiarem as possibilidades subjetivas do educando em detrimento da conquista daquele saber que fez e faz das nações ricas as legítimas proprietárias dos conhecimentos que negociam. da engenharia clínica. Para ele. 7) informar e inserir os pais na instituição. não encontramos. da engenharia de alimentos. Sem tocar nos progressos. exigente e 84 . entre tantas outras práticas concretizadas com sucesso pelo saber teórico existente. e 10) administrar sua formação continuada. 2) administrar a progressão das aprendizagens. Delors (2001). afirmando.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE obra. que a educação deve reanimar e fortalecer o potencial criativo e a autonomia de cada aprendiz frente ao já existente (p. não repassa aos seus leitores uma valorização respeitosa dos conhecimentos teóricos que. no mínimo. O primeiro princípio educativo por ele defendido. dos supercondutores. mentais e culturais podem levar a juízos falsos. habilidosos. Apregoando e repetindo inúmeras vezes a impossibilidade de conhecer as coisas tais como elas são. interessado na formação dos profissionais da educação. a desacertos. 90). Formar futuros profissionais. com domínio dos saberes necessários às áreas citadas e em expansão não teria lugar no rol de objetivos das escolas. de fato mera tautologia. alerta para os erros e ilusões do saber e chama os professores a duvidarem da racionalidade que comandou o que já foi descoberto. preocupação mais imediata com o saber dito científico. da informática médica. 6) participar da gestão da escola. com o domínio e/ou a profundidade dos conhecimentos específicos de uma área. esses intelectuais inviabilizam não só o ensino de conteúdos pertinentes a essas áreas como o crédito na própria razão. criticando a obsessão de acesso ao ensino superior (p. movem as nações mais desenvolvidas. aprender a aprender. os quais. 9) enfrentar os deveres e os direitos éticos da profissão. por outro lado. a incorreções. colocando em dúvida o conhecimento existente. Nesse quadro de responsabilidades propostas aos professores.

O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 85 . pela insistência e valor atribuído a elas. confronta-se. pela sensibilidade. pois. que concretizam descobertas importantes na área da mecânica. que auxiliam o reconhecimento de necessidades sociais e/ou a elaboração de diversos projetos de vida. de modo consistente. a obediência aos paradigmas anteriores. uma pedagogia hipócrita para um mundo ávido de competição e de ganhos financeiros escandalosos. por dever de ofício na pós-modernidade. À escola é. os atuais representantes da intelectualidade educativa direcionam. de todo e qualquer modo de pensar e/ou de sentir dos seres humanos. com o sistema ou o paradigma proposto por eles para a educação do século XXI. tolerância e solidariedade. na obra desses autores. Ora apelando para práticas pedagógicas mais modernas. Segundo os autores. assim. para a negação das bases epistemológicas que sustentaram e sustentam a tecnologia do mundo desenvolvido. Quer na perspectiva das humanidades (da história. qualquer sistema é. Condenando os paradigmas em geral. da filosofia. tampouco. muitas informações e dados anteriores. ora para o descrédito no Racionalismo. o que realmente unifica tantas contradições e o que congrega tantos professores. no Iluminismo. para esse mesmo aprofundamento. da política. sem qualquer análise histórica. a possibilidade de generalização de princípios? Tentando responder às perguntas dadas. vinculando-os a opções pessoais. negado como verdade. os pedagogos pós-modernos condenam todo e qualquer sistema de interpretação dos homens em suas relações com o mundo. Como dar crédito a intelectuais que condenam sobejamente o autoritarismo teórico. Interessante é que a condenação feita por esses autores a qualquer sistema já produzido no mundo das ideias. pela admissão incondicional de todo e qualquer modo de ser. enquanto oportunizam uma coerção cultural em direção as suas teses? Por que somente as orientações fornecidas por eles precisam ser aceitas como sendo as “legítimas havainas”? Por que se confere crédito a um sistema de ideias quando esse mesmo sistema de ideias afirma não ser válida a transmissão de conhecimentos? Por que se autoriza um modelo educativo que afirma não existir verdades definitivas.de aprofundamento constante que. a escola passa a assegurar que “só o amor constrói”. ora para a importância da subjetividade em detrimento da objetividade. contraditoriamente. das artes). dada a função de (ao invés de oferecer conhecimentos) estimular atitudes reguladas pelo afeto. a educação do século XXI para a negação do conhecimento. Nesse levantamento. repassando. Enfim. levantamos uma hipótese para o entendimento dessa capacidade docente de crer no inacreditável. necessita. todo e qualquer projeto pedagógico não pode deixar de tê-las como plataforma básica. três palavras. a qualquer paradigma. quer na perspectiva das ciências duras (ou exatas). por outro lado. merecem ser destacadas: compreensão. Procuramos identificar.

p. NAGEL. São Paulo: Cortez. 19. Importante lembrar. sediados nos países desenvolvidos! Referências BANCO MUNDIAL. A escola não é uma empresa: o neoliberalismo em ataque ao ensino público. 1999. para garantir a fantasia de que somente teremos um mundo melhor pela renovação de princípios cristãos. (Org. In: HIRST. H. P. neoliberalismo. N. C. M. ed. Petrópolis: Vozes. Informe sobre el desarrollo mundial: el conocimiento al servicio del desarrollo. E. podemos pontuar que eles. D. 6. 2007. 86 . ed. R. L. DF: MEC. fazem bem melhor à alma dos comerciantes.. M. LAVAL. São Paulo: Cortez. R.) Políticas sociais e desenvolvimento. pela introjeção didática de comportamentos não egoístas nos alunos. L.43. que se esses atributos fazem bem à alma de qualquer cidadão. PERRENOUD. As armadilhas da globalização. Globalização em questão. Profissionalização do professor e desenvolvimento de ciclos de aprendizagem. P. Cadernos de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisa em Educação.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE O tempo de escolarização serve. p. 1998-1999. no entanto. São Paulo. MORIN.. n.. FERNANDES. G. 2006. (Coleção zero à esquerda). In: NOGUEIRA. L. 7-26. 2004. dos vendedores do saber pronto. M. VIZENTINII. G. Prefácio à edição brasileira. privatizações: quem decide esse jogo? 2. Educação e desenvolvimento na “pós-modernidade”. 2001. Os sete saberes necessários à educação do futuro. ainda. 108. RIZOTTO. Resumen. Educação: um tesouro a descobrir. UFRGS. ou. Washington. Londrina: Planta. DELORS. 9-11. P. dessa forma. nov. Globalização.C. THOMPSON. p. Brasília. ed. P. na “Sociedade do Conhecimento”. F. São Paulo: Xamã. F. 11. In: CARRION. G.. Porto Alegre: Ed. BATISTA JUNIOR. 1998. Brasília. DF: Unesco. 1998. Unesco. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. J.

Faça uma breve exposição das possíveis causas desses resultados e estime os resultados em termos de desenvolvimento da nação brasileira. em português. nos últimos dez anos. matemática e ciências. Anotações 87 .Proposta de Atividade O conhecimento no projeto educativo da “sociedade do conhecimento” 1) Procure no site do INEP os dados estatísticos que revelam o desempenho dos alunos dos Ensinos Fundamental e Médio. Assinale a diferença no rendimento dos estudantes ao longo desses anos.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 88 .

mas como compreendê-la. ele passou a ser o recurso determinante nessa nova fase da sociedade capitalista. a exploração de uma classe em favor de outra. denominada também Sociedade do Conhecimento. Neste sentido. a acumulação de capital. mas ainda é uma sociedade capitalista. A sociedade pode ter mudado e inovado as formas de acumular riqueza. que passa a exigir dos homens novas formas de agir tanto nos negócios quanto na própria vida. por exemplo. também denominada sociedade do conhecimento. é atribuída à educação a responsabilidade de formar e educar os homens de acordo com as necessidades da sociedade atual. é necessário entendermos as funções atribuídas à escola. Juntamente com os avanços científicos e tecnológicos. para serem enfrentados. Apesar das mudanças na forma de produzir e se organizar que vêm ocorrendo desde a sua criação e das inovações pelas quais tem passado de forma mais intensiva nos últimos tempos. Todas essas transformações requerem um novo tipo de educação. exigem um novo comportamento. permanecem. especialmente a educação escolar. Diante desta nova realidade. a globalização da economia e principalmente o fato de o conhecimento ter se transformado no principal recurso no processo de produção. o individualismo. que expressa a transição para uma outra forma de ser que ainda desconhecemos e sobre a 89 .7 As funções sociais da escola na atualidade Maria Eunice França Volsi As rápidas mudanças que têm marcado a sociedade contemporânea. fazem com que os homens de nossa época se preocupem mais com a formação e consequentemente com a educação. Essas transformações são frutos do avanço da ciência e da tecnologia às quais os homens recorrem para sanar suas diversas necessidades. nesse contexto? Como entender e determinar o papel da escola em uma sociedade dita Sociedade do conhecimento. como o avanço científico e tecnológico. como. Temos ainda o conhecimento como princípio ativo no processo de produção. muitas das características que lhe dão sustentação. especialmente a necessidade de acumular mais e mais capital. uma nova visão do futuro dos homens. temos também a globalização da economia. As transformações que estão ocorrendo na sociedade trazem desafios que. bem como os desafios postos a ela no contexto atual.

sabemos. Entendemos que a escola precisa estar em consonância com as necessidades do mercado. Nela. Essa afirmação acerca da função atual da escola pode ser encontrada na vasta literatura sobre a qualidade total na educação. Na realidade. certamente não poderia seguir por um caminho diferente. p. pela capacidade de manejo de instrumentos 90 . Do mesmo modo que a Didática Magna de Comênio fora à elaboração. Neste sentido. Estas não se resumem apenas às estabelecidas pelas relações econômicas. a escola é. sua ideologia e garantir as relações de produção. como explica Guareschi (1994). projetada para a satisfação das necessidades competitivas ditadas pelo mercado (grifo nosso). uma instituição criada pela classe dominante para reproduzir seus interesses. acrescenta o autor. apesar de serem importantes e necessárias para entendermos a educação e a escola. 72). Para tanto. segundo a própria história. Pensada dessa forma. A educação. a escola que. às demandas da sociedade naquele momento. mas por isso mesmo necessária para podermos entender como se situa a educação. em meio a essas atribulações. das respostas no campo educacional. nada mais são do que a sistematização de uma resposta necessária às questões da formação dos seres que fazem essa sociedade. se faz necessário pensar na qualidade da educação escolar. pais. sociedade) poderá comprar. É preciso. 1994. de certa forma. AS FUNÇÕES DA ESCOLA A escola. O desafio da qualidade coloca-se para a escola em dois níveis. a qual também deveria ser a de formar um cidadão crítico. às necessidades postas pelos homens. sempre atendeu. pensante e apto a lidar com todas as situações que possam surgir na vida. a educação é vista como uma mercadoria (de boa ou de má qualidade) e a escola como uma empresa fornecedora dessa mercadoria que qualquer cliente (aluno. caracterizada essencialmente pelo domínio de técnicas. pois desta forma estaria reduzida sua função. segundo a interpretação. diante da materialidade. a escola hoje desempenha duas funções principais: “preparar mão-de-obra para o capital” e “reproduzir as relações de dominação e de exploração” (GUARESCHI. 8). Um tanto complexa. Uma é a formal. portanto. p. mas não deve existir somente para atendê-lo. desde a sua origem. De acordo com Ferreira (1998. necessidade estas advindas do próprio processo de produção. hoje a escola tem que ser repensada. em especial a escolar. ela deve estar equipada para permitir dois tipos de qualidade.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE qual podemos apenas conjeturar? São estas as questões que desenvolveremos e analisaremos na perspectiva sociológica neste capítulo. que a escola não se limite a reproduzir as relações existentes na sociedade.

[. traduzida em uma capacidade de o sujeito fazer sua própria história... 244). capazes de construir elementos categorias de compreensão e apropriação crítica da realidade... Pensando nessas funções atribuídas à escola na sociedade atual. 10). 1993. p. ligada a questões do conhecimento.] é o de assumir a condição de lugar de formação de um tipo essencial de competência frente a formação da cidadania e frente às mudanças na sociedade e na economia (DEMO. Ou seja..e de procedimentos científicos. [.] Tem. é preciso. Mas será que a escola que temos está preparada para assumir essas responsabilidades? Quando fazemos essa indagação.. resgatar a importância da escola e reorganizar o trabalho educativo.. bem como não será educação aquela que não se destinar a formar o sujeito histórico. A outra é a política. a partir do qual se define a especificidade da educação escolar (SAVIANI 1997. o compromisso de ajudar os alunos a tornarem-se sujeitos pensantes. 114). no qual os alunos e os professores sejam reconhecidos como sujeitos capazes de inovar e de produzir conhecimento (BEHRENS. 90-91). pois. A escola de hoje precisa propor respostas educativas e metodológicas em relação às novas exigências de formação postas pelas realidades contemporâneas como a capacitação tecnológica. Demo (1993. levando em conta o problema do saber sistematizado.. Neste contexto a escola deve se apresentar como um ambiente inovador transformador e participativo. a 91 . diante dos fins históricos da sociedade humana (DEMO. 16) afirma que “não há como se chegar à qualidade sem a educação. o compromisso de reduzir a distância entre a ciência cada vez mais complexa e a cultura de base produzida no cotidiano.] o papel da escola [.. pois. 1993. o papel da escola é de ser o lugar próprio onde se inicia e se sedimenta a capacidade de manejar e produzir conhecimentos. p. p. [. estamos nos referindo à escola como um todo. p.[.... a consciência ecológica (LIBÂNEO. ou pós-industrial [. Vejamos alguns destes autores e suas afirmações: [. 115). Por isso. 1999.. p. o relativismo ético. 1998.] a escola tem uma função específica educativa.] a escola tem um papel insubstituível quando se trata de preparação das novas gerações para enfrentamento das exigências postas pela sociedade moderna. crítico e criativo”. a escola deve buscar o conhecimento aliado às qualidades formal e política. considerada a condição primordial da oportunidade de desenvolvimento. a alfabetização tecnológica. p.] tem também..] a escola precisa propiciar um ambiente em que os professores e alunos sujeitos do processo possam gestar projetos conjuntos que propiciem a produção de conhecimento. a superinformação. propriamente pedagógica. As funções sociais da escola na atualidade Podemos verificar que não são poucas as funções atribuídas à educação escolar dos nossos dias. e a provida pela escolarização. destacamos vários estudiosos da educação e da sociedade contemporânea que definem a função e/ou papel da escola no contexto atual. a diversidade cultural.

a suas condições financeiras. que é o de formar os futuros cidadãos. elevar-se-iam suas condições de produtividade e consequentemente seu nível de vida. estamos nos referindo também ao papel que lhe é imposto pela sociedade. acreditava-se que. p. Constatemos essa premissa no documento do Banco Prioridades y Estrategias para la Educacion – estudio sectorial del Banco Mundial de maio de 1995: 92 . assistimos ao desemprego em massa e a substituição crescente da mão-de-obra humana por uma “máquina inteligente”. enfim. Essa ideia de que a educação pode acelerar o progresso econômico. ela compartilha a tarefa de socialização do saber com várias outras instâncias comunicativas. capaz de trazer retorno considerável e aumentar a produtividade e a acumulação de capital. especialmente nos países em desenvolvimento considerase que o investimento em educação é de suma importância para se alcançar ou pelo menos acompanhar o desenvolvimento econômico dos países desenvolvidos. politicamente. tem sua origem na teoria do capital humano criada nos anos cinquenta. Isso significa que uma nação tende a prosperar mais economicamente conforme se dá mais atenção à educação e ao nível de desenvolvimento humano de sua população. a seu currículo. Partindo dessa premissa. que a escola não está sozinha na tarefa de educar. considera a educação básica e o investimento em capital humano como ponto chave para o desenvolvimento econômico e redução da pobreza. embora as condições políticas e econômicas sejam diferentes das daquela época. Segundo essa teoria. No momento atual. a seu corpo docente. apesar de amplamente difundida na sociedade atual. Lembremos. Delors (1998. empresariais e principalmente com a mídia. O Banco Mundial. EDUCAÇÃO ESCOLAR E CRESCIMENTO ECONÔMICO De acordo com o relatório da Unesco. melhorando a qualidade de vida. a partir do investimento no homem.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE sua estrutura física. cujos objetivos mais específicos são os adestramentos e reciclagens para o mercado de trabalho. a nova geração que desponta. A teoria do capital humano tem sido utilizada para justificar a necessidade do ajuste entre o sistema produtivo e as políticas educacionais como condição para a prosperidade econômica. observamos uma retomada desses preceitos. Muitos serviços instrucionais são prestados por instituições capacitadoras. 69) propõe que a ciência e a educação são os “motores principais do progresso econômico”. Mercado este tão concorrido que chega a gerar uma contradição: ao mesmo tempo em que se exige constante formação. órgão que vem financiando a educação nos países em desenvolvimento. no entanto. em sua capacidade pedagógica e. O conhecimento é concebido como capital.

Para que a escola tenha sucesso na adequação às novas demandas que lhe são impostas. é preciso que se levem em consideração as transformações constantes no sistema produtivo. tem-se dedicado mais intensivamente à universalização da educação básica. para a inovação. daí é compreensível a pregação de que deve haver ajuste entre a educação e as demandas criadas pelo sistema produtivo. o comércio internacional.A educação. Por isso. A rapidez com que se adquirem novos conhecimentos e se produzem as mudanças tecnológicas implica a possibilidade de se alcançar um crescimento econômico sustentado. de se adaptar a um mundo em rápidas mudanças e capazes de dominar essas transformações. Já não se trata de pedir aos sistemas educativos que formem mão-de-obra para empregos industriais estáveis. a desregulamentação da economia e do mercado de trabalho e a migração estão mudando as estruturas de emprego dos países em desenvolvimento. portanto. em que a empresa se encarregava do treinamento necessário à execução do trabalho. tem importância fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza. As funções sociais da escola na atualidade 93 . à qualidade e à inovação tecnológicas. como no taylorismo e no fordismo. empregos mais abstratos que se separam cada vez mais da produção pelo esforço físico. Para ajustar a educação às demandas do mercado atual. as responsabilidades da educação escolar. neste novo contexto histórico. O Banco Mundial considera também o investimento em capital humano como “motor principal do crescimento” (BANCO MUNDIAL. Observamos a utilização cada vez menor do trabalho manual. pessoas capazes de evoluir. Atualmente. passíveis de mudanças constantes. que a escola forme o trabalhador para dominar conhecimentos primários. assim. em particular o ensino primário e o secundário de primeiro ciclo. A tecnologia. p. de forma que as mudanças de emprego serão mais frequentes na vida das pessoas. A essa realidade não basta. Ampliaram-se. mas sim que formem. xxxii). 1995. especialmente agora que as estruturas do mercado de trabalho estão experimentando enormes transformações decorrentes da evolução tecnológica e da reforma econômica. sendo o conhecimento o principal fator no processo produtivo e devido ao avanço tecnológico. A educação é vista como investimento capaz de promover a mobilidade social. os empregos nas indústrias tornaram-se instáveis. Vejamos: A economia e os mercados de trabalho estão experimentando mudanças enormes no mundo todo. Essa metamorfose pela qual a sociedade como um todo vem passando é relatada também no já referido documento do Banco mundial. é preciso responder às necessidades geradas pelo mercado. nos últimos anos.

não é tão simples assim. É o potencial de conhecimento que também tem classificado um país como desenvolvido ou em desenvolvimento. com a disseminação das máquinas. Parece evidente que o problema não é tanto formar profissionais com capacidade de produzir conhecimentos. Traduzindo. parece não ser suficiente formar profissionais com altos níveis de conhecimento. maior a possibilidade de aumento da produtividade e consequentemente de produção de riqueza. uma vez que a educação e o investimento em capital humano são considerados como principais recursos para o desenvolvimento.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Como bem propaga o documento do Banco Mundial: “está cada vez mais evidente que para se ter êxito neste novo mundo os países devem por em prática reformas baseadas no mercado e continuar investindo em conhecimento” (1995. que representem o capital intelectual de seu país. pois ainda é predominante. Nesse âmbito. particularmente nos países pobres. Com a transformação do conhecimento no princípio ativo do processo produtivo. Estes. hoje. o que representava o potencial de uma indústria eram as máquinas que esta possuía. p. A situação. Isto se aplica também às reformas educacionais. mas sim conseguir manter essa elite detentora e produtora de conhecimentos. É claro que esses profissionais representam uma pequena fração da população. especialmente o formal. Países em desenvolvimento até conseguem formar muitos profissionais com alto potencial cognitivo. é necessário que lhes sejam dadas as condições para que aí permaneçam e apliquem seus conhecimentos. xxxii). principalmente no que se refere ao aspecto econômico. a tarefa de transmitir e ao mesmo tempo produzir conhecimentos. as pessoas (cérebros) passam a ser vistas como capital intelectual da empresa. p. o que realmente tem determinado o potencial produtivo de uma empresa é o conhecimento. ou seja. este passou a ser considerado um capital decisivo para o desenvolvimento da sociedade como um todo. uma grande massa da população em condições precárias. mas nem sempre são capazes de mantê-los. cujo acesso a qualquer tipo de conhecimento. porém. uma escola e uma nação que consigam trabalhar neste sentido estarão respondendo às necessidades da sociedade atual. em busca de melhores salários e melhores condições de trabalho. como aventa Delors. já que quanto maior a detenção e a produção de conhecimento. 73). é restrito. a pobreza intelectual acaba imperando 94 . “emigram para os países ricos onde as suas potencialidades podem ser mais bem utilizadas e remuneradas” (1998. Isso significa que o grande capital de uma empresa hoje é o conhecimento que ela possui. Se. Se o conhecimento se tornou o diferencial no processo de desenvolvimento e se é delegada à educação. então. especialmente a escolar. na Revolução Industrial.

A. CORTELLA. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. Hugo. BANCO MUNDIAL. estabelecem as prioridades educacionais e o papel da escola na sociedade. S. São as relações produtivas entre os homens que. DEMO. será que realmente a educação via escola poderá resolver ou pelo menos amenizar os problemas desses países? Será que. n. FRIGOTTO. CEPAL. Educação um tesouro a descobrir: relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI.. Educação e conhecimento: eixo das transformações produtivas com equidade. DELORS. Petrópolis: Vozes. ed. Mário. 1998. qual educação se faz necessária em cada momento histórico. 1998. 1995. RS. C. p. Petrópolis: Vozes. que é a forma de produção e organização da sociedade que determina qual formação. abr. 2. Diante dessa situação. basta produzir e transmitir conhecimentos para que se possam resolver problemas que são frutos das próprias relações estabelecidas entre os homens no meio social em que vivem? Verificamos. 95 . 1993. Versión preliminar. São Paulo: Cortez. 1999. Ijuí. As funções sociais da escola na atualidade Referências ASSMANN. diante da problemática exposta. Jacques. Desafios modernos da Educação. D. Curitiba: Champagnat. Capital humano e sociedade do conhecimento: concepção neoconservadora de qualidade na Educação. O paradigma emergente e a prática pedagógica.nos países pobres. N. Contexto & Educação.C. São Paulo: Cortez. G. Prioridades y estratégias para la educación: estudio sectorial./jun. no entanto. Pedro. São Paulo: Cortez. 34.1992. M. Reencantar a Educação: rumo à sociedade aprendente. 1994. Washinton. 1998. Santiago do Chile. 7-28. direta ou indiretamente. FERREIRA. 1998. Unesco. BEHRENS. Gestão democrática da Educação: atuais tendências e novos desafios.

Novo paradigma de conhecimento e políticas educacionais na América Latina. 11. W. 1994. Marília Gouveia de. São Paulo: Cortez. P. São Paulo: Autores Associados. Adeus professor. Excelência na Educação: a escola de qualidade total. 1997. São Paulo: Melhoramentos. D. adeus professora? novas exigências educacionais e profissão docente. ed. São Paulo. 1973. C. n. 100. ed. Sociologia crítica: alternativas de mudanças. MIRANDA. Porto Alegre: Mundo Jovem. José Carlos. H. 33. como explicam alguns autores. Proposta de Atividade 1) Como a sociologia da educação pode contribuir para que a escola não seja apenas. Caderno de Pesquisa: Revista de Estudos e Pesquisa em Educação. reprodutora das relações capitalistas de produção e possa contribuir para a transformação das relações de exploração existentes na sociedade? Anotações 96 . LIBÂNEO. SAVIANI. Rio de Janeiro: Qualitymark. KILPATRICK. p. Educação para uma civilização em mudança. 1998. 1995.37-48. RAMOS. 1997. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE GUARESCHI. mar.

As funções sociais da escola na atualidade Anotações 97 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 98 .

a partir do Regulamento de 1854. baixado em 17 de fevereiro de 1854 pelo Ministro do Império Luiz Pereira do Couto Ferraz. determinando uma multa de 20.000 a 100. Neste capítulo. as transformações sociais. foi criada e idealizada segundo o projeto burguês de educação. decorrente da ‘Reforma Couto Ferraz’. o debate relativo à importância da educação nacional e da criação da escola foi intenso. estabelecia em seu artigo 64 a obrigatoriedade do ensino. mas os projetos de instrução em nível 99 . Em seguida. Esse Regulamento. sua ideologia e seus reflexos na escola. ou seja. a ideia de sistema nacional de ensino só surgiu no século XIX. tal como a conhecemos hoje. considerando que a construção de redes de escolas em todo o território nacional dependia de recursos financeiros para investir na educação. econômicas. BREVE HISTÓRICO DA ESCOLA A escola. de forma sintética. dobrando-se a multa em caso de reincidência (SAVIANI. p. bem como abordaremos as dificuldades de sua implementação no Brasil. 2004. ideologia e indústria cultural” pode ser tratado de diferentes perspectivas. como a escola se universalizou com a criação do sistema nacional de ensino. para viabilizar a sociedade burguesa e efetivar o sistema capitalista de produção. que acompanharam as revoluções burguesas na Europa e o processo de industrialização e urbanização exigiam a formação de trabalhadores qualificados para ocupar os postos de trabalho e a instrução do povo. uma vez que este precisava ser adaptado ao novo modo de produção industrial. Nas últimas décadas do Império. ideologia e indústria cultural Íris Yae Tomita / Teresa Kazuko Teruya / Vanderlei Siqueira dos Santos O tema “escola. procuramos resgatar. culturais e políticas. No Brasil. a criação desse sistema enfrentava as dificuldades decorrentes das precárias condições materiais.000 réis aos pais ou responsáveis por crianças de mais de sete anos que a elas não garantissem o ensino elementar.8 Escola. com base em alguns conceitos. Especialmente a partir do século XVIII. procuramos refletir sobre o poder da indústria cultural. 253). nesse período. No entanto.

realizava-se a “Semana de Arte Moderna”. engajados no movimento progressista. Nessa época.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE nacional também não se realizaram por falta de investimento financeiro. com o caráter nacionalista que lhe deram as novas correntes culturais de São Paulo e Rio de Janeiro. Havia uma crença de que a educação poderia substituir o espírito de revoltas e guerras pelo espírito de diálogo. Era o movimento da Escola Nova. capitaneada pela oligarquia cafeeira. p. passou a ser discutida a necessidade da implantação de rede escolar em nível nacional. nossos costumes e realidades. Desse ponto de vista. foi o único nesse gênero. denunciavam a situação precária das escolas e dos métodos de ensino. No Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova em 1932 foram traçadas as diretrizes da nova política nacional para a educação escolar no Brasil. em 1959. 1984. A privatização é a meta do projeto 100 . No Congresso Nacional tramitou outro documento: o Manifesto dos Educadores Democráticos em Defesa do Ensino Público. da riqueza e do poder. Foram impulsionados pelas transformações no mundo industrial e pelas ideias de renovação dos métodos na Europa pós-guerras. Após a Revolução de 1930. Os debates em torno do pensamento educacional não surgiram espontaneamente. a fim de conduzir a humanidade para a paz e a harmonia. a pesquisa deve ser de cunho prático e utilitário. Após 26 anos do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova. Segundo Lemme (1984). os educadores brasileiros. sendo retomado somente em meio à crise da década de 1920. que até então desprezávamos e desconhecíamos completamente” (LEMME. cujo resultado levaria o país ao crescimento econômico e ao desenvolvimento social e cultural. Com a Proclamação da República. a eficiência e a competitividade como indicativos da qualidade total. que defendia o método baseado na psicologia infantil. o problema da instrução escolar novamente voltou ao palco dos debates. o projeto foi abandonado. Era uma tentativa de romper com os modelos europeus e olhar para “as coisas de nosso País. esse documento histórico teve um caráter abrangente e. Os defensores da educação popular argumentavam que a necessidade de expansão da escola pública era condição para a democratização da cultura. Para o autor. esse comportamento da elite favoreceu o crescimento da miséria e o atraso no desenvolvimento social. no respeito à personalidade e ao interesse da criança contra a velha pedagogia coercitiva dos jesuítas. para as características de nossa terra e de nossa gente. a ideologia neoliberal vem dominando o processo de globalização e define a produtividade. Atualmente. Florestan Fernandes (1966) denunciava a precariedade da instrução popular e o descaso das camadas dominantes em relação à universalização da instrução primária. 259). de debates e de decisões em assembleias. uma vez que deve atender às necessidades do mercado. No bojo dessas transformações. na história da educação no Brasil.

Escola. AIE sindical. Louis Altusser procurou demonstrar que a ideologia se materializa nos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE). recursos cada vez mais sofisticados. os aparatos da mídia são mais eficientes para transmitir a ideologia. que atrela a escola e a universidade pública aos critérios mercantis de produtividade. o Estado impõe sua ideologia por meio do AIE religioso. Se Altusser já denunciava a escola como um AIE que reproduz a ideologia burguesa. A expansão e a diversificação das tecnologias de informação e comunicação lançadas ao mercado oferecem. vamos nos dedicar um pouco a ela. Entendemos que. Dentre os sociólogos que. denunciam a função da escola como reprodutora da ideologia burguesa na sociedade. que desenvolveram análises críticas referentes ao engodo da razão iluminista e dos sistemas totalitários nazifacistas da cultura massificada. conforme a perspectiva do materialismo histórico cunhada por Marx e Engels. é necessário analisar criticamente as mensagens da mídia e desvendar a ideologia que ela propaga. uma vez que se utilizam do entretenimento para seduzir o público. De acordo com essa teoria. Erik Fromm. é necessário compreender a ação da indústria cultural no processo educativo. assim. Como a teoria crítica desenvolvida pelos pensadores da Escola de Frankfurt muito contribuiu para enriquecer as nossas reflexões sobre a influência da indústria cultural no processo de difusão da ideologia burguesa e da racionalidade técnica. Na cidade de Frankfurt. na década de 1970. AIE jurídico. o qual ficou conhecido como Escola de Frankfurt. Dentre eles. AIE escolar. AIE familiar. AIE político. especialmente. a escola impõe arbitrariamente a cultura dos grupos ou classes dominantes aos grupos ou classes dominados. Por isso. AIE da informação e AIE cultural. exerceram influência sobre os educadores brasileiros. Valter Benjamim. com suas inovações e técnicas de manipulação. IDEOLOGIA E INDÚSTRIA CULTURAL Primeiramente. podemos citar Pierre Bourdieu e Passeron. um grupo de intelectuais formava o Instituto de Pesquisa Social. podemos citar Herbert Marcuse. As teorias crítico-reprodutivistas. a partir da década de 1920. para identificar a ideologia da mídia. adverte Saviani (1995). podemos enunciar que. como veremos a seguir. Alemanha. hoje.neoliberal de educação. Jürgen Habermas e. Essa imposição vem da autoridade pedagógica e do poder arbitrário que se encontra na autoridade legítima. Theodor W. a qual atua de forma discriminadora e repressiva. entendida como elemento de controle opressivo e dominação. Adorno e Max Horkheimer. é preciso esclarecer que entendemos o conceito de ideologia como falseamento da realidade. os quais elaboraram a teoria da violência simbólica. ideologia e indústria cultural 101 .

conduziu o homem a uma nova tutelagem: ser escravo das tecnologias que ele mesmo criou. Um ano depois. enfeitiçado pelo vertiginoso “progresso” da dimensão instrumental dessa mesma razão. de uma cultura surgida espontaneamente das próprias massas. foi transferida para Genebra. por Adorno e Horkheimer. a exclusão e a exploração. por meio de seus aparatos. prometia tirar o homem da tutela do trono e do altar e dar a ele condições e autonomia. em 1930. No entanto. onde escreveram o livro: Dialética do Esclarecimento. por via da razão iluminista. Para entender essa ideia. mas de uma cultura feita para as massas. o cinema era indústria. na obra Dialética do Esclarecimento.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE De acordo com Bruno Pucci (2003). Segundo estes dois pensadores alemães banidos para um território norte-americano. dirigida e. O termo indústria cultural torna-se mais apropriado para conceituar o papel alienante e fetichista que a produção dos bens culturais passou a ter no processo de desenvolvimento da sociedade industrial. nos EUA. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienante de si mesma” (ADORNO. Nas relações com o mundo. o que implicaria um sentido democrático e popular. que. 114). a ambiguidade do termo cultura de massa. A indústria cultural 102 . considerado um clássico do pensamento do século XX. Suíça. o capitalismo. que a priori parece preconceituosa. Horkheimer e Adorno foram para os EUA. em 1933. Horkheimer foi nomeado diretor da escola. Gabriel Cohn (1994) assinala que o termo indústria cultural foi criado com o intuito de desvendar o caráter fetichista e manipulador do processo de produção e veiculação da cultura. perdendo o seu caráter de consistência civilizadora e emancipatória. p. Segundo esses pensadores alemães. Ele revela uma cultura comprometida com os aparatos instrumentais gerados pela sociedade industrial. portanto. A cultura passa a ter. ponto mais desenvolvido do capitalismo monopolista. estandardizada e alienante com que atinge as massas. O termo “indústria cultural” foi usado pela primeira vez em 1947. HORKHEIMER. uma dimensão massificada e. o ser humano tem necessidade de simbolizar o seu cotidiano e esses símbolos passam a representar essas relações. A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. ao passo que na Europa era arte. Não se trata. Adorno e Horkheimer alertam para o fato de que a indústria cultural traz consigo a ideologia do capital. sociedade representante da emergência das transformações tecnológicas trazidas pelo capitalismo. Desfaz-se. em consequência. Em lugar de este ser expressão de uma cultura procedente das massas. perpetuando. é preciso compreender o conceito de Indústria cultural cunhado por Adorno e Horkheimer. “O que não se diz é que o terreno no qual a técnica conquistou seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. feita pelas massas. desse modo. neste sentido. sobressai a dimensão totalitária. exerce uma função ideológica de adaptação do indivíduo ao contexto historicamente determinado. 1994. administrada.

ao invés da indústria cultural possibilitar aos sujeitos uma experiência emancipatória. pois. um programa ou um ator da mídia. mas no fato de ela estragar o prazer. por isso. Por trás de um determinado produto há uma estereotipia que faz parte do todo da indústria cultural e que se revela nesse particular. uma doença incurável. como alienantes. transformando-as em mercadorias. Não basta ver um produto. Os autores preconizam que: a diversão não passa de simples prolongamento do trabalho mecanizado e possui. consome-se uma ideologia. Os indivíduos não têm nenhuma forma de resistência a essa tendência porque não percebem o mecanismo de tal sistema. eles também são fruto de um processo alienante. INDÚSTRIA CULTURAL E CONSUMISMO Adorno e Horkheimer (1994) alertam para a violência com que a indústria cultural leva os indivíduos ao consumo desenfreado de mercadorias. entendido como o abandono descontraído à multiplicidade das associações e ao absurdo feliz. não está no fato de a indústria cultural propor diversão. ‘O espectador não deve ter necessidade de nenhum pensamento próprio. acaba reforçando os estereótipos com os quais a subjetividade humana está comprometida. Mas o puro entretenimento. Não são estes que alienam a sociedade. Alienante porque leva o indivíduo a uma falsa experiência do real. Da mesma forma. dando a falsa impressão de que eles são reconhecidos e integrados socialmente e não administrados em seus desejos e atitudes. Dessa forma. O logro. e sim no consumo do todo da indústria cultural. mantendo uma relação de dominação e reforçando a incapacidade de superação. Mais do que um produto.penetra nessas formas de representações subjetivas construídas pelos indivíduos. Essa é uma questão de fundamental importância para a compreensão dos aparatos da indústria cultural e que nem sempre é bem entendida. o produto prescreve toda reação [. ideologia e indústria cultural 103 .] Toda Escola.. é cerceado e estorvado pelo entretenimento corrente que a indústria cultural teima em acrescentar a seus produtos. por exemplo. A violência da indústria cultural não está manifestada apenas no consumo de algum produto material específico dessa indústria. consomem-se também as relações de subordinação nela imbricadas. uma vez que envolve seu tino comercial nos clichês ideológicos da cultura em vias de se liquidar a si mesma. que está latente em um determinado produto. quando se consome uma determinada mercadoria.. INDÚSTRIA CULTURAL E ENTRETENIMENTO Adorno e Horkheimer (1994) pontuam que a indústria cultural permanece a indústria da diversão.

Tudo o que exigir um esforço mental maior e demandar maior capacidade reflexiva por parte do telespectador. 1994. Nas palavras de Adorno e Horkheimer. essa rebelião é o resultado lógico do desamparo para o qual ela própria o educou (ADORNO. O entretenimento acaba por tomar. a indústria cultural destrói a possibilidade de os indivíduos se reconhecerem como sujeitos de si e de sua história. são levados a posturas de submissão paciente perante as mensagens e produtos da mídia.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE ligação lógica que pressupunha um esforço intelectual é escrupulosamente evitada (ADORNO. a própria indústria do prazer é apresentada como se estivesse em busca dessa pessoa. a diversão se torna a própria apologia da sociedade industrial. No fundo. emitida pelo enredo e pela encenação. o lugar dos bens superiores. A promissória do prazer. Por trás dessa lógica. afundando-se em um lamaçal de contradições que esconde a sua própria dor. Na maioria das vezes. O entretenimento é ofertado pela indústria cultural ao trabalhador como recompensa pelo esforço dedicado às horas de trabalho. Destruindo a capacidade de individuação. concedido por um ser superior apenas para alguns privilegiados. mas da última ideia de resistência que essa realidade ainda deixa subsistir. É na verdade uma fuga. acabam rindo da sua própria desgraça. é prorrogada indefinidamente. A indústria cultural não cessa de lograr seus consumidores quanto ao que está continuamente a lhes prometer. Ao desejo. esconde-se o grande limite da indústria cultural: ocultar. que o convidado deve se contentar com a leitura do cardápio. HORKHEIMER. mas não. o que enfim se serve é o simples encômio do quotidiano cinzento ao qual ele queria escapar. 1994. 135). os consumidores. p. anulando a capacidade do indivíduo de reconhecimento e emancipação. quando sua missão específica é desacostumá-las da subjetividade. principalmente os mais desatentos. que ele expulsa inteiramente das massas. Divertir significa sempre: não ter que pensar nisso. exclusivamente. Significa que jamais chegaremos à coisa mesma. 128-129). A impotência é a sua própria base. A própria felicidade é entendida como um privilégio. A liberação prometida pela diversão é a liberação do pensamento como negação. O descaramento da pergunta retórica: mas o que é que as pessoas querem? Consiste em dirigir-se às pessoas como sujeitos pensantes. na medida em que deixa de revelar o todo do processo social. HORKHEIMER. Por estarem acostumados e conformados à indústria cultural. excitado por nomes e imagens cheios de brilho. por meio da estereotipagem da cultura. uma fuga da realidade ruim. Mesmo quando o público se rebela contra a indústria cultural. esquecer o sofrimento até mesmo onde ele é mostrado. p. Nessa falsa sociedade até o riso 104 . deve ser evitado devido à cumplicidade deste com o processo de trabalho. aquilo que é regressivo e coercitivo na sociedade industrial. como afirma.

mas a própria ordem social. o que a reforçaria como semiformação. Substituindo toda e qualquer forma mais elaborada de conteúdo. SEMIFORMAÇÃO E EDUCAÇÃO No livro Dialética do Esclarecimento. Essa ideologia já não seria um conjunto ideal no plano das ideias. deixa de se reconhecer e nomear seus sentimentos. Rir-se de alguma coisa é sempre ridicularizar. mas seu inimigo mortal. seja na produção. Para essa teoria. mas o resultado de um processo planejado de supressão das possibilidades libertadoras até mesmo da incultura. São mônadas. Rodrigo Duarte (2003). Adorno e Horkheimer referem-se a ela como uma determinada forma social da subjetividade socialmente imposta por um determinado modo de produção em todos os planos da vida. De acordo com Wolfgang Leo Maar (2003). amadurecimento e enfrentamento da realidade. transformando-se em um enlatado pesado da sociedade do trabalho. seja fora dela. Adorno diria que hoje a sociedade é ela própria uma ideologia. Neste sentido. apesar de toda ilustração e de toda informação que se difunde. a semiformação passou a ser a forma dominante da consciência atual. Rouba da cultura aquilo que é revelador. esclarece que a semiformação ou semicultura não significa pura e simples falta de cultura. como uma doença. a qual poderia ampliar-se em consciência crítica graças a seu potencial de dúvida.atacou. a ideia de cultura não pode ser sagrada. a felicidade. a indústria cultural rouba dos sujeitos a capacidade de reflexão. Dessa forma. emancipatório. É essa a lógica da indústria do entretenimento. que exija maior capacidade de concentração e reflexão. ideologia e indústria cultural 105 . O indivíduo. e até mesmo com sua ajuda. cada uma das quais se entrega ao prazer de estar decidida a tudo às custas dos demais e com o respaldo da maioria (ADORNO. o entretenimento aparece como meio privilegiado para eliminar da cultura o pouco de resistência que ainda existe. Adorno (1996) salienta que. Um grupo de pessoas a rir é uma paródia da humanidade. mergulhado na oferta e na promessa do falso prazer (porque o indivíduo não experimenta o prazer e sim a sua estereotipia). 1994). estão as primeiras referências à semiformação. pois a formação nada mais é que a cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva. A semiformação vai muito além de uma Escola. o que exige uma teoria que seja abrangente. com a repetição padronizada de seus produtos e do imediatismo. O lazer perde a despreocupação e a leveza da sua essência. Ao argumento de que seria melhor o contato precário com a cultura do que nenhum. chiste e ironia. de manter uma relação de objetivação com as coisas e acontecimentos e perde a capacidade de emancipação entendida como conscientização e racionalidade. parafraseando Adorno. Adorno responde que aquilo que é semicompreendido e semi-informado não é estágio prévio da cultura. HORKHEIMER.

no debate radiofônico “Educação para quê?”. apontando as ideologias pelas quais enveredou a modernidade. A consequência seria de que a situação existente se imporia no que tem de pior Neste sentido. Todavia. Do ponto de vista educacional. há que se questionar o método utilizado para promover essa visão crítica. E o segundo. e somente nesse âmbito pode ser adequadamente apreendida. desconhece. ao fato de que a educação – por sua essência racional e conscientizadora – seria imponente se ignorasse a adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. Primeiramente. seria igualmente questionável se ela ficasse nisto e não produzisse nada além de pessoas bem ajustadas. IDEOLOGIA E INDÚSTRIA CULTURAL Os pesquisadores. pois o professor pode não ter formação para criticar uma linguagem que. determinada conforme certo modo de produção social dos homens. precisamos examinar os diferentes tempos e espaços da cultura e sua formação fora do âmbito estritamente cultural ou pedagógico definidos na sociedade. É necessário investigar o plano ou o contexto da própria produção social e material da sociedade em sua forma determinada. Enquanto isso. é preciso aplicar toda a energia para que a educação seja uma educação para a contradição e para a resistência: contradizer e resistir são modos de se ir além do plano da reconstrução cultural e da vigência da semiformação e de se referir ao plano da vida real efetiva. os retornos positivos dessa prática nem sempre atendem às expectativas. o primordial é não perder de vista a constelação em que a educação é estruturada. vêm realizando reflexões e críticas relativas ao conteúdo ideológico utilizado pela mídia. REFLEXÕES SOBRE A ESCOLA. cuja pressão sobre as pessoas é tão intensa que supera toda educação. Maar (2003). informa que Adorno menciona a existência de dois problemas difíceis quando se trata de emancipação: o primeiro refere-se à própria organização do mundo – expressão da ideologia dominante – que teria convertido a si mesma imediatamente em sua própria ideologia. na perspectiva da educação para os meios de comunicação. consideramos que a maior contribuição de Adorno e Horkheimer é “esclarecer o esclarecimento”. 106 . inspirados na visão frankfurtiana da teoria crítica iniciada na década de 1930. Para captar a essência na análise da historicidade da construção educacional. a TV continua sendo um utensílio tão ou mais importante que outras necessidades básicas. muitas vezes.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE “perturbação pedagógica” no interior de uma determinada situação social educacional. No entanto. Em seu pensamento. Nem mesmo os mais críticos deixam de assistir à TV: proíbem os filhos de fazê-lo. Refere-se a uma forma ordenada da sociedade contemporânea.

existe também uma função formativa ou deformativa da consciência humana. De um lado. Essa visão reflete a ideia de que a criança é um ser incompleto. ciência. qual seria o critério para que a criança pudesse assisti-la? Censurar ou selecionar os programas da TV para que seus filhos possam assistir não é caminho. porque são perfeitamente realistas. 84). 77). p.mas eles próprios não a desligam. pois ela alcança quase todas as pessoas no mundo. ela oferece serviço de formação cultural. ideologia e indústria cultural 107 . vêm semiformados. A harmonização e a deformação da vida são imperceptíveis para o público. 1995. filosofia. O professor enfrenta o grande desafio de lidar com educandos que. Talvez até mesmo acreditem estar se comportando de um modo realista. p. que continua mantendo o modelo tradicional de ensino. direito. A televisão como ideologia procura incutir uma falsa consciência. mediados pela linguagem da mídia. na medida em que tudo dependeria das pessoas” (ADORNO. p. p. ocultar a realidade e impor um conjunto de valores ideológicos. de modo que as pessoas absorvem a harmonização oferecida sem ao menos se dar conta do que lhes acontece. cujo conteúdo apresenta modelos aparentemente ideais de conduta para os homens alcançarem uma vida verdadeira. apresentando perfis com os quais ainda não estamos preparados para lidar. “o contrabando ideológico se realiza sem ser percebido. como no caso da televisão educativa. de excelente qualidade técnica. Escola. “dando a impressão de que as contradições presentes desde os primórdios de nossa sociedade poderiam ser superadas e solucionadas no plano das relações inter-humanas. Adorno tem um duplo posicionamento sobre a formação pela televisão. torna-se um local monótono e desinteressante. expõe a um perigo não menor a vida política e a democracia”. A linguagem televisiva de fácil assimilação e a fragilidade da escola são fatores que contribuem para transformar a televisão em uma fonte de entretenimento e diversão para as crianças e jovens. que visam à formação geral ou à profissionalização. arte. Nesse caso. Bourdieu (1997. literatura. E justamente aqui é necessário resistir” (ADORNO. A escola. De outro. Os programas televisivos. uma vez que é enorme a quantidade de espectadores que ocupam muito tempo assistindo a televisão. 9) preconiza que a televisão “expõe a um grande perigo as diferentes esferas da produção cultural. 1995. A mídia eletrônica tornou-se um instrumento poderoso. Adorno opõe-se a esse instrumento ideológico. apresentam-se como imparciais e neutros. Talvez porque se sentem mais preparados para assisti-la sem serem persuadidos. antes mesmo de ingressar na vida escolar. 1995. O problema é que a reprodução da ideologia na TV não é percebida. Quais seriam os efeitos de transmissões sem objetivo educacional? Ele entende que o uso em grande escala da televisão “contribui para divulgar ideologias e dirigir de maneira equivocada a consciência dos espectadores” (ADORNO. 86).

um escândalo. Tudo em forma de entretenimento. as tragédias que ocorrem no mundo. nas informações. O espetáculo está presente nas novelas. A mídia define o modelo de indivíduo para a sociedade. é a exibição da racionalidade técnica de representação e ilusão. além de produzir a ilusão. de maneira geral. Essas categorias são “estruturas invisíveis” que organizam a visão de mundo construída por meio da educação. Alguns assuntos ganham mais destaque porque despertam as curiosidades e prendem a atenção dos telespectadores. como. prioritariamente. são pouco exigentes. as novelas. por sua vez. imprimindo o consenso nas mentes e nos corações dos indivíduos. na rede. “O importante é viver a vida e não ser careta”. nos bate-papos. no entretenimento. tem legitimado o poder econômico e político. nos CD-ROMs. os programas de humor e de futilidade. Para satisfazer o público. um crime e outras tragédias. destacando diariamente os eventos esportivos. O telejornal e a imprensa escrita sensacionalista difundem. como catástrofes. da autoafirmação e da autoestima. o sexo. de acordo com as categorias de percepção do repórter ou dos produtores. Em se tratando de um jovem que desde o seu nascimento convive com a televisão. nos shows. da vaidade. Elas têm o poder de “ocultar mostrando”. isto é. mas sim na capacidade de entreter o público. os programas estão sempre atrás de novidades e variedades. da cultura e da história. nos vídeos. A indústria cultural. denúncias de corrupções e escândalos. na Internet. nos sites. um acidente. o jornal reúne uma variedade de “assuntos-ônibus”1 para garantir um nível desejável de audiência. São flashes de acontecimentos cotidianos informados artificialmente. 2006). provavelmente o poder de influência desta sobre a representação da realidade é muito maior. não leem jornais e têm a televisão como a única fonte de informação. nos telejornais. no consumo.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Por que esse perigo existe? As emissoras de televisão estão de olho nos índices de audiência. por exemplo: o tempo. isto é. incêndios. O espetáculo. nos computadores. As pessoas. Essas categorias de percepção. A mensagem publicitária atua na área da emoção. a chuva. Para manter o sucesso de audiência. nos CDs. A técnica do espetáculo garante o entretenimento e pode transformar uma determinada realidade com o potencial de falsificar ou simular imagens previamente montadas para mostrar uma estrutura escolar (TERUYA. 108 . especialmente o aparato televisivo e o cinema. crimes. por isso não investem na qualidade de seus programas. no 1 O termo “assunto-ônibus” é utilizado por Bourdieu (1997) para referir-se àqueles assuntos banais da vida cotidiana. direciona as preocupações e incita o desejo de consumir cada vez mais coisas. podem manipular uma seleção de imagem do cotidiano e adaptar a uma mensagem ideológica. podem estar contaminadas pelos diferentes níveis de preconceitos e de valores éticos e políticos pervertidos. o sucesso comercial.

Hoje. A leitura da imagem exige abstração e reflexão crítica. sem qualquer tipo de contradição social. Todavia. conforme o pensamento de Adorno. São crianças que crescem em frente à televisão. deve também ajudar o aluno a perceber que. cada vez mais. O que importa é fazer de si um espetáculo. Os professores reconhecem que os meios de comunicação desempenham função educativa paralela à da escola e que estão. a mediação do professor é de fundamental importância no processo de recepção. despertar sua consciência sobre o engodo dos produtos da indústria cultural. cujo perfil é mostrar se os indivíduos têm dinheiro. Mediadas pelas mensagens de fácil assimilação e requintadas pelos apelos emocionais que os recursos audiovisuais da indústria cultural produzem com muita eficiência e convencimento. prestígio. o professor pode ajudar os alunos a formar uma consciência crítica sobre os produtos e as mensagens midiáticas. no convite ao consumo. Esta é a lógica da ideologia capitalista. ideologia e indústria cultural 109 . de modo a imprimir um pensamento único segundo os interesses da elite. elas educam a visão humana de forma cada vez mais atraente. equipados com recursos para conquistar o sucesso de público. Nesse contexto. se ali estão presentes as formas reducionistas da própria cultura. do ritmo e da animação nos oferece é a pura ideologia disseminada pela indústria cultural. inteligência. As imagens espetaculares da televisão têm o poder de fazer o telespectador acreditar naquilo que ele vê. Cada modelito novo significa a visualização de uma personalidade à procura de seus pares. minimizando ao extremo os poucos resquícios de resistência. Não importa se o que mostra é falso ou verdadeiro. por exemplo.shopping-center com suas mercadorias glamorosas. pois as imagens veiculadas nos meios eletrônicos limitam a capacidade intelectual das pessoas. ajudar os alunos a perceber as falsidades presentes na vida da sociedade culturalmente construída. fama e beleza. do som. Mais do que ignorar a influência dos meios de comunicação. Todos nós participamos desse espetáculo de consumidores em que desfilam mercadorias e que revela a nossa identidade na sociedade. O professor pode. Essa representação da realidade que o mundo da imagem. que impõe um espírito competitivo. levá-los a perceber que ela apresenta uma sociedade harmônica. mais do que nunca. os produtos da indústria cultural estão presentes na sala de aula. também estão presentes as possibilidades de emancipação e libertação. Escola.

HORKHEIMER. Sobre a televisão. Esquematismo e semiformação. 2003. São Paulo: Ática. 1997. A Filosofia e a música da formação de Adorno.). 1966. A idéia de sistema nacional de ensino e as dificuldades para a sua realização no Brasil no séc. v. 2003. BOURDIEU. A escola nova e suas repercussões na realidade educacional brasileira. 56. p. semiformação e educação. ADORNO. 2004. R. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. DF. ______. Gabriel. Theodor W. 83 p. 255-272. T.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Referências ADORNO. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. K. 1994. SP. 459-476. Tradução de Guido A. Trabalho e Educação na era midiática. SAVIANI. Campinas. 377-389. FERNANDES. 65. 83. Theodor. Adorno. n. v. 24. Campinas. G (Org. São Paulo: Dominus. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Maringá: Eduem. de Almeida. Anais. 110 . ADORNO. 250-256. Educação e sociedade no Brasil. D. Teoria da semicultura. n. ed. Wolfgang Leo. 1994. 2004. Max. Pierre.. SP: Autores Associados. SP. 24. 2006. 3. Bruno. Campinas. 1995. 1984. ago. 1995. Sociologia. onze teses sobre educação e política. v. 83. Educação e Sociedade: Revista de Ciência da Educação. Escola e democracia: teorias da educação.. COHN. Rodrigo. F. Educação e emancipação. Paschoal. XIX. 2003. 24. DUARTE. ago.. SP. ago. A. Pedag. n. n. Est. p. Bras.45. 150. p.. TERUYA. maio/ago. CONGRESSO LUSO-BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO. p.. p. 30. Theodor W. ano 17. Campinas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. (Coleção polêmicas do nosso tempo)... 441-458. Coimbra: Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação. curvatura da vara. n. v. Campinas. Tradução de Maria Lucia Machado. Dialética do esclarecimento. PUCCI. MAAR. In: FERREIRA. LEMME. São Paulo: Paz e Terra. ______. 35. SP.1996. Coimbra. Brasília.

faça uma análise dessas manifestações para verificar como a indústria cultural interfere no mundo infantil. ideologia e indústria cultural Proposta de Atividade 1) Após a leitura deste capítulo.Escola. observe as manifestações das crianças no espaço escolar. Em seguida. Anotações 111 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 112 .

que vai da segregação entre os antigos até a luta pela inclusão social em nossos dias. sonham e buscam novos caminhos. A mais antiga forma de segregação foi a eliminação das pessoas que. outros mais longos. No entanto. 113 . em Esparta. até a forma de morrer ou viver. alguns até mesmo para trás. que reconhecia ou lhes negava o direito de viver. por isso. ultrapassar o já estabelecido nunca é um processo tranquilo. a dedicação à guerra exigia um corpo forte e perfeito. excluir. No presente capítulo. Outros exemplos de eugenia radical são os da eliminação dos surdos na China. Caminhos melhores. por fim e para sempre. elas eram exterminadas ou abandonadas. por alguma deficiência. o caminho da utopia exige passos mais curtos. assim. (Gabriel Garcia Márquez) Nunca é tarde para utopias. mais justos e solidários. UM POUCO DE HISTÓRIA: DA SEGREGAÇÃO À INTEGRAÇÃO A história dos homens é marcada pela segregação dos diferentes. um percurso de conquistas e retrocessos. nem decidir por outro. A educação de pessoas com necessidades especiais também tem sido. pessoas pensam. não conseguiam providenciar o seu próprio sustento ou defender-se nas situações de perigo. Nesse caso. onde ninguém possa decidir. vamos tratar um pouco desse percurso histórico e discutir os limites e possibilidades de uma escola inclusiva. sem obstáculos. os recém-nascidos eram examinados por uma comissão especial.9 Segregação. uma segunda oportunidade sobre a terra. integração/inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Nerli Nonato Ribeiro Mori Temos o direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para empreender a criação da nova utopia da vida. Na antiga Grécia. Onde as estirpes condenadas a Cem anos de Solidão tenham.

15). vagabundos e boêmios. Esse modo de pensar e agir predominou na Idade Média. Como informam Garcia e Beatón (2004). os bastardos e os “expostos” (abandonados) e também aqueles que hoje compõem a clientela das instituições especializadas. O mesmo ocorre com Alfred Binet. os homens passaram a desenvolver uma atitude de resignação e tolerância para com as pessoas que apresentavam características especiais. sua maior contribuição foi a possibilidade de avaliar a inteligência e a disposição para oferecer educação especial para as crianças que dela necessitassem. que considerasse suas características psicológicas e os preparasse para uma vida útil. deficientes. loucos e párias da sociedade era considerado um caminho para se chegar ao céu. quando cuidar dos doentes. roubavam ou se prostituíam. Entre o século XVII e início do século XIX. ou seja. Assim. os órfãos. Data desse período o nascimento da Educação Especial e sua didática. mendigavam. “idiotas ou insensatos”. Quais eram as pessoas enviadas para essas instituições? Nelas eram colocados os loucos. foram escritas as primeiras obras sobre deficiências e criadas as primeiras instituições voltadas para a educação de pessoas com deficiências. no entanto. Na página seguinte. Simon. fundamentados em Mazzota (2003). proliferaram as obras de caridade e os internatos. que vagabundeavam. em 1882. XVII e XVIII. surdos. Esse movimento se realizou em meio a conquistas no campo da Pedagogia. na Gália. A criação das “classes e escolas de aperfeiçoamento” aparece associada à promulgação. Ainda hoje é ascendente o movimento de criação de centros especializados na forma de escolas. a partir do século XVII passou a imperar a ideia de que as pessoas com deficiência requeriam atendimento especializado. por solicitação do Ministério de Instrução da França desenvolveu uma escala para identificar escolares que necessitavam de atendimento especial. Segundo Simon (1991. os cegos. desde o século XVIII foram produzidas abordagens importantes referentes à necessidade de um ensino pautado no desenvolvimento do indivíduo. as crianças que se portavam mal. ou seja. 114 . os filhos dos mendigos. os doentes. disformes. Essa escala é a referência mais forte quando se fala de Binet. especialmente nos séculos XVI. juntamente com H. ou os de deficientes sacrificados aos deuses. Como indicamos no Quadro 1.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE os quais eram lançados ao mar. Lus (1995) observa que autores como Maria Montessori e Ovide Decroly são muito mais lembrados pelos seus métodos para crianças normais do que pelo trabalho com deficientes. na França. Com o início do cristianismo e a propagação de uma moral judaico-cristã. da obrigatoriedade do ensino primário. apresentamos um quadro com os principais fatos da história da educação especial. que entre 1905 e 1910. cujo resultado foi a criação de escolas e classes especiais. p.

Obra: A verdadeira maneira de instruir os surdos-mudos (1776). • O trabalho desse sensorialista. aluno de Itard → criou o primeiro internato público da França para crianças retardadas mentais. Fundada a primeira instituição especializada para a educação de “surdosmudos” pelo abade Charle M. Com a obrigatoriedade escolar aparecem alguns atrasados escolares para os quais vão ser criadas ‘classes e escolas de aperfeiçoamento’. o “selvagem de Aveyron”. Criação do sistema Braille. Eppée → inventor do método dos sinais. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 1770 1780 1829 Início do séc.] até a obrigatoriedade escolar. em oposição ao método de sinais. encaixes.1620 Primeira obra impressa sobre deficientes. distinguiam-se facilmente as crianças deficientes sensoriais. aprimorou os processos de Itard e Seguin: criou programas de treinamento para crianças com retardo mental cujo objetivo era a “auto-educação” pelo uso de materiais didáticos (blocos. [. mas. aparente.. Fundação do Instituto Nacional dos Jovens Cegos. organicista e médico tem como norte a instrução individual. pela divulgação e continuação de sua obra: •Tomas Braidwood (1715-1806 – Inglaterra). Definiu regras para educação de pré-escolares normais e escolares treináveis. na medida em que esta deficiência mental era. o consequente aumento de alunos e a insuficiência de professores originaram classes 115 . médica italiana. objetos coloridos e letras em relevo). As referidas classes surgiram em 1909. proliferaram escolas para cegos. antes disso. Dentre os discípulos do abade. surdos e pessoas com deficiência mental. Programas para deficiência física só foram criados nas décadas posteriores. a programação sistemática de experiências de aprendizagem. Primórdios do atendimento educacional aos “débeis” ou “deficientes mentais”: • Jean Marc Itard (1774-1838) → educação de Vítor. em Paris. por Louis Braille (1809-1852). quatorze classes haviam sido criadas em caráter experimental. de algum modo. recortes. •Samuel Heineck (1729-1790 – Alemanha) → criador do método oral. a motivação e a recompensa. → Emigrou para os estados Unidos e em 1907 publicou o livro Idiocy and its treatment by the Physiological Method. • Eduard Seguin (1812-1880). no qual apresentava um programa para escola residencial. motoras e mesmo ‘mentais’. • Maria Montessori (1870-1956).. por Valentin Haüy. A obrigatoriedade de educação para todos. → Ambos criaram institutos para educação de “surdos-mudos”. com base na adaptação de um método idealizado por Charles Barbier para a transmissão de mensagens noturnas nos campos de batalha. Redação das letras e arte de ensinar os mudos a falar. XIX Entre 1817 e 1850. Segregação. destacaram-se.

as quais tinham como objetivo a inserção de pessoas com deficiência nos mesmos espaços e contextos sociais que as pessoas ditas normais. por outro lado. constituindo-se um panorama de segregação escolar. com movimentos em prol da integração de pessoas com deficiência. a colocação dos alunos com deficiência nas classes ou escolas especializadas passou a ser uma constante. criaram-se classes para ‘disléxicos’) e. Uma justificativa para o que o autor chama de “febre segregativa” é a de que seria mais barato concentrar especialistas e materiais no menor número de estabelecimentos e aí atender o maior número possível de pessoas que apresentassem quadros semelhantes. pois se pode ser verdade para as deficiências sensoriais e motoras. a segregação escolar ampliou-se ainda mais. não figuram aí) que. Platone e outros (1984) referem que as estatísticas oficiais classificam as crianças e adolescentes segundo 15 categorias (os disléxicos. as propostas de escolas especiais e. Para o autor. DA BUSCA DE UMA EDUCAÇÃO ESCOLAR INTEGRADORA À INCLUSÃO Os movimentos em prol da integração têm como marco ações empreendidas entre o final da década de 60 e início dos anos 70 (século XX) nos países nórdicos.] ao multiplicarem-se as categorias de crianças que freqüentarão estabelecimentos ou classes especiais (a título experimental. Foi em meio aos movimentos dos pais de crianças cujo acesso às escolas comuns foi negado que surgiu nos países desenvolvidos a filosofia da “normalização e integração escolar”. englobavam 384. no total. porque. Além da França. as classes especiais dentro das escolas comuns. atrasos intelectuais ou dificuldades de aprendizagem” (SIMON. 1991. mas também as atitudes sociais para com as pessoas que têm deficiência. ao generalizar-se a despistagem precoce. felizmente. Um contraponto à segregação teve início na década de 1960. cujo sentido é tornar acessível às pessoas com deficiência − ou àquelas socialmente desvalorizadas − condições e modelos de vida análogos aos disponíveis ao conjunto da população.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE numerosas. 16). mais tarde. p. 17).. questionando-se não somente a segregação social e escolar. Somente a partir da década de 1970 começou a tomar corpo a ideia de inserção de 116 . F. esse enfrentamento do problema é simplista. antes da entrada na escola primária. Surgiram. Dessas ações derivou o conceito de normalização. “é menos evidente para uma classificação que quisesse distinguir entre distúrbios do comportamento.633 crianças a receber um ensino especial (ano escolar de 1981-1982) (SIMOM. a especialização dos professores e dos estabelecimentos foi ampliada em países como Canadá e Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial. então.. [. 1991 p.

P. transcrita de Bautista Jiménez (1997. graduadas conforme as necessidades das crianças. p. as crianças e jovens podem ser colocados em diferentes níveis de ambientes educativos.X. denominada cascata. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Nível 1 Classe regular com professor de ensino regular. É interessante observar que. primeiro responsável pela prevenção. Uma versão desse sistema. a inserção da criança ou jovem não seria permanente em qualquer um dos seus níveis. (Comité Provincial de L’Enfance Inadaptée) Segregação. foi apresentada em Quebec. já que estes são muito restritivos em termos de integração. que vão desde a classe regular até a escolarização em centros de Educação Especial. Vejamos uma representação do sistema em cascata. ou seja. mas em uma perspectiva de normalização. Sua proposta é o atendimento educacional especial em oito níveis de integração baseados em uma diversidade de medidas. Para tanto. identificação. segundo a proposta do sistema em cascata.O. avaliação e correcção das dificuldades ligeira do aluno Nível 2 Classe regular com serviços de apoio ao professor de ensino regular ssári o coce ntínu que o re ão p ge do is lon o ma aç Educ Edu neste Nível 5 Classe especial na escola regular com participação nas actividades gerais da escola senti cam Não Nível 7 Apoio domiciliário Nível 8 Ensino em instituição ou centro hospitalar.crianças e jovens de acordo com as suas necessidades individuais. Assim. o trabalho 117 Regr e Nível 6 Escola especial ssar neste inhar senti d oom d ais r apid Nível 4 Classe regular com o aluno a frequentar uma classe de apoio caçã o co ame n te po Nível 3 Classe regular com serviços de apoio ao professor de ensino regular e ao aluno nece ssíve a l . 39): QUADRO 2 Sistema em cascata segundo o relatório C. Canadá. em 1976. o movimento em seu interior não deveria ser estático.E. O apoio domiciliar ou o ensino em instituições ou centros hospitalares só devem ser adotados em casos de extrema necessidade.

unicamente da capacidade de adaptação dos alunos a serem inseridos. a formação dos professores e adotar uma política educacional consistente e contínua. voltada para a escolarização de todos. Aqueles que não conseguiam se adaptar ou acompanhar os colegas eram excluídos. assim explicitada por Forest e Lusthaus (apud MANTOAN. torná-la mais inclusiva. de modo que ele se tornasse mais inclusivo e de qualidade. Essas constatações deram início a outro movimento na história da educação de pessoas com necessidades especiais: a luta pela inclusão. Para concretizar a metáfora do caleidoscópio. de forma a indicar novas metas para a prática pedagógica e possíveis inserções em níveis menos restritivos e mais integradores. menos rico. 48): O caleidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. era necessário modificar não apenas a escola. Todavia. passou-se a defender um único sistema educacional para todos os alunos. as transições interníveis raramente ocorriam. acirraram-se nos anos 1990 com base na ideia de que. Os debates. porque o sistema escolar regular não se modificou para receber os alunos especiais e a integração dependia. 118 . 1998. Para tanto. professores e órgãos gestores da escola. seria necessário reformular os currículos. o que se pretendia integrador não se efetivou na prática. iniciados na segunda metade da década de 1980. tivessem eles ou não alguma deficiência. com suas diferenças e necessidades. Quando se retira pedaços dele. ao passo que a da integração é o caleidoscópio.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE desenvolvido e os resultados alcançados deveriam ser continuamente avaliados por pais. mas reestruturar também a sociedade. as formas de avaliação. o sistema escolar tem que se adaptar às particularidades dos alunos. portanto. Assim. o desenho se torna menos complexo. A metáfora da integração é a cascata. p. além de atuar diretamente com essas pessoas. As crianças se desenvolvem. aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado. Sob a perspectiva da inclusão.

069/90. a educação especial no Brasil é uma modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino. na rede regular ensino.Nos últimos anos. aumentou de 13% para 34. Diretrizes e Bases a Educação Nacional.753 alunos com necessidades especiais matriculados. Segundo o Censo Escolar divulgado em abril de 2004 pela Secretaria de Educação Especial.6%. os inclusionistas totais advogam a extinção do continuum de serviços e a colocação imediata de todas as crianças e jovens na escola comum. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 119 . por outro lado. sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. Art. inciso III: “é dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente: atendimento especializado aos portadores de deficiência.] uma modalidade de educação escolar. com ou sem apoio pedagógico. Comparando a evolução dos números de 1998 a 2004. 208: “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência.. vale destacar algumas leis: • Constituição Federal 1988. preferencialmente na rede regular de ensino”.4% a matrícula em escolas regulares e classes comuns.394/96. É necessário avaliar também a qualidade da escolarização que está sendo desenvolvida. • Lei 8. Como mostram as leis. de 11 de fevereiro de 2001: institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. preferencialmente. preferencialmente na rede regular de ensino”. capítulo V: educação especial é “[.. oferecida. do Conselho Nacional de Educação. Art. quais as possibilidades e limites de uma escola inclusiva no Brasil? EDUCAÇÃO INCLUSIVA NO BRASIL Para entender o atendimento educacional oferecido às pessoas com necessidades especial no Brasil. têm-se formado duas correntes em torno das discussões sobre educação inclusiva: a da “inclusão” e a da “inclusão total”. • Resolução nº 2. Os inclusionistas defendem a manutenção dos serviços especiais para aqueles que deles desejam usufruir e também como forma de viabilizar o processo de inclusão. • Plano Nacional de Educação/1997: a formação dos profissionais da educação deve ser garantida pelas Secretarias Estaduais e Municipais da Educação. sendo 57% na rede pública e 43% na rede privada. Embora ainda muito longe do desejado. observamos que a matrícula do alunado especial em escolas e classes especiais passou de 87% para 65. há 566. No panorama delineado. esta última mais coerente com a ideia do caleidoscópio. os dados indicam avanços com relação a Segregação. para educandos portadores de necessidades especiais”. 54. • Lei 9.

os programas de formação do professorado. Organizado pelo governo espanhol em cooperação com a Unesco. o encontro contou com cerca de trezentos representantes de noventa e dois governos e vinte e cinco organizações internacionais. as escolas integradoras necessariamente devem apresentar gestão escolar e currículo mais flexíveis. O objetivo era examinar mudanças políticas para estender o enfoque da educação integradora a todas as crianças. No caso daquelas com necessidades educativas especiais. emocionais. Dois eventos contribuíram especialmente para a situação atual. toda criança tem direito à educação e à possibilidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem. intelectuais. novas formas de ensino e ampliação dos recursos pedagógicos. na Espanha. sobretudo aquelas com necessidades educativas especiais. como contínua. em junho de 1994. 10). cujo princípio fundamental é o de que as escolas devem acolher todas as crianças. Não é fácil romper com a prática da homogeneização. 2004. na Tailândia. “num contexto de mudança sistemática. Dos trabalhos ali realizados resultou a Declaração de Salamanca. Um deles foi a Conferência Mundial de Educação para Todos. Além disso. Conforme a Declaração. “devem ter acesso às escolas comuns que deverão integrálas numa pedagogia centralizada na criança. p. inclusive aquele voltado para o alunado especial. sociais. Essa é uma tarefa muito complexa. isto implica acabar com a rotulação. 11). realizada em Jomtien. Por estarem voltadas para as características culturais e individuais dos alunos. Como denuncia Mendes (2002) a despeito da retórica da integração escolar e da inclusão. Concomitante a esse desafio. flexibilizar currículos e respeitar os diferentes ritmos e estilos de aprendizagem. o Brasil fixou metas para melhorar o seu sistema educacional. tanto inicial. 2004. em 1990. O maior desafio para a criação da escola integradora é justamente oferecer um ensino ao mesmo tempo individualizado e grupal. as metas 120 . todos os países devem assegurar que. porque envolve a superação da visão do déficit individual e a ênfase na proposta educativa. linguísticas ou outras. independentemente de suas condições físicas.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE sua inserção na escola regular. no Brasil ainda há o grave problema do número de pessoas com necessidades especiais fora de qualquer sistema escolar. realizada em Salamanca. Outro evento foi a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade. vivemos no Brasil uma situação de exclusão significativa. Nessa ocasião. como ressalta a autora. estejam voltados para atender às necessidades educativas especiais nas escolas integradoras” (BRASIL. p. Ou seja. capaz de atender a essas necessidades” (BRASIL.

Quanto ao conhecimento do processo ensino-aprendizagem desse segmento. para alguns. para evitar conflitos como os ocorridos no episódio da divulgação da cartilha. 31): Apesar das críticas que podem ser feitas às escolas especiais. Por trás dos conflitos está a incerteza sobre o futuro das escolas especiais. todas as escolas brasileiras fossem inclusivas. Para eles. o Ministério Público Federal. se posicionaram aqueles que defendem o direito do deficiente estudar com outras crianças e acreditam que isso levará a uma postura mais inclusiva da comunidade escolar. É preciso lembrar que a quase 121 . Não deixa de ser desalentador verificarmos que apenas 4. não há preparo suficiente por parte dos professores ou estrutura adequada para lidar com alunos do segmento especial. Muitas outras conclusões positivas podem ser numeradas.8% das escolas públicas da educação básica possuem sanitários adequados aos alunos com necessidades educacionais especiais e somente 3. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais As instituições especializadas construíram um conjunto de conhecimentos fundamentais para a inclusão. Para estas últimas.6% têm dependências e vias adequadas ao alunado especial. na lei) nas escolas da rede comum. cegos. concordamos com García e Beatón (2004. até 2006. por exemplo. com o apoio de várias instituições. Faz também um apelo à sociedade e às escolas especializadas para que denunciem atos de discriminação como o de escolas que negam matrícula a alunos com deficiência. p. do lado oposto ficaram as associações que mantêm escolas especiais e para quem certos graus de deficiência não permitem a inclusão. Segregação. É necessário delimitar mais claramente a relação entre escolas especiais e escolas comuns. mas essa se tornou a mais significativa. que. A meta era que. publicou e distribuiu uma cartilha intitulada O Acesso de Alunos com Deficiência às Escolas e Classes Comuns da Rede Regular. quando são bem atendidos e educados. Os gestores da educação especial não pensam assim. narrado anteriormente.assumidas em 1990 ainda não foram cumpridas. usuários de cadeiras de rodas e com deficiência intelectual (deficiência mental. serviram para por em evidência e demonstrar as imensas possibilidades de desenvolvimento que apresentam os escolares. isso contribuirá. a qual exorta a inclusão de crianças e jovens surdos. a elevação da taxa de inclusão de estudantes com necessidades educacionais especiais em classes comuns e a redução do crescimento das matrículas em escolas especializadas ou classes especiais consolidam a tendência de inclusão. Em setembro de 2004. aquelas que realmente se converteram em escolas no sentido amplo da palavra. são incompatíveis com a ideia de inclusão. A cartilha provocou muita polêmica: de um lado.

o momento atual de luta pela inclusão é um avanço na estratégia de universalização do saber. • Todas as escolas reestruturando seu programa de ensino. de seus colegas e da comunidade. É compreensível. Segundo Mittler (2005). apoio do diretor. pois também entre os pais. avaliação e sistemas de agrupamento para garantir acesso e sucesso a todas as crianças da comunidade. As propostas. Foram criadas em uma época em que a escola regular não recebia as crianças especiais. Uma escola inclusiva rompe com o modelo escolar que conhecemos. para levá-las a termo. • Todos os professores aceitando a responsabilidade pelo aprendizado de todas as crianças. Frente às questões levantadas. pensamos que a inclusão total. legais. estão bem distantes da nossa realidade. recebendo treinamento contínuo. devem levar em conta os fundamentos históricos.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE totalidade das escolas especiais brasileiras é fruto de lutas de pais e outros setores da sociedade civil e são mantidas por organizações não-governamentais. Trata-se de uma educação na e para a diversidade. pedagogia. na sala de aula regular e com o devido apoio. ou seja. Independentemente das divergências em torno da definição do que seja a inclusão. cujas mudanças devem ser voltadas para atender à diversidade. essas mudanças envolvem três níveis: • Todas as crianças frequentando a escola local. com todos os membros da comunidade envolvidos nas tomadas de decisões. com o imediato desmonte dos programas e serviços especializados. a preocupação por parte do setor especial com a manutenção dos serviços. no entanto. portanto. Stainback e Stainback (1999) propõem algumas estratégias práticas para promover 122 . a qual deve ser um objetivo a ser alcançado. seria necessário reinventar a escola. é preciso abandonar o princípio da homogeneidade e voltar-se para a heterogeneidade. a inclusão não é unanimidade. do corpo administrativo da escola. somente reinventando-a. Não se trata de negar ou ser contra a educação inclusiva. pode ter consequências desastrosas e se configurar em um retrocesso das conquistas realizadas. ela pode tornar-se inclusiva. se efetivado. há um consenso de que ela exige uma reorganização de base das escolas e salas de aula regulares. é um equívoco que. aparentemente simples. voltada para todos os alunos. Tanto os alunos quanto os profissionais e recursos financeiros e educacionais devem estar integrados em uma síntese superadora do individualismo. filosóficos e políticos norteadores do atendimento educacional ofertado às pessoas com necessidades especiais no Brasil. As propostas neste sentido.

que reúnem tanto os aspectos teórico-práticos como as atitudes e disposições” (p. É ilusão pensar que essas possam se fazer de forma tranquila. não temos que romper com o que veio antes. intelectuais. Será que. temos uma cultura de contraposição: é tradição. sociais. curricular. temos que destruir instituições que ocuparam um lugar deixado vazio pelo Estado? Uma sociedade inclusiva é aquela que proporciona as condições necessárias para que o cidadão possa exercer seus direitos e cumprir seus deveres. colocar autores em opostos extremos e eliminar um em favor de outro. Uma delas é prever processos de adaptação no currículo geral. o que ainda não está claro é como chegar lá. linguísticas ou outras. de modo a adequá-lo às necessidades dos alunos. para viver a comunidade. para sermos inclusivos. O debate está posto. independentemente de suas condições físicas. Nesse novo pensar. emocionais. Grandes mudanças sempre são produtos de tensões e lutas advindas de necessidades geradas na produção da vida. a curto ou médio prazo.a educação inclusiva. Para o autor. o conhecimento e a prática com as necessidades especiais não ficam restritos aos espaços e educadores especializados. mas a todas as crianças. é preciso ressaltar que ela envolve mudanças na sociedade. essa nova proposta educacional se configura em um novo espaço profissional. o outro já não serve mais. O que fazer com os programas e instituições especializados? Acabar com eles e colocar todo o seu alunado na escola regular? No Brasil. Uma providência imediata é a formação profissional e atitudinal dos educadores e gestores da educação. É interessante observar que os defensores da educação inclusiva ou da educação para e na diversidade não se referem apenas às deficiências. 259). que requer uma formação pautada pela lógica da diversidade e da heterogeneidade. usufruir e contribuir para formar a cultura humana. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais 123 . de modo que eles possam ser modificados durante o processo educativo. de modo a apreender. organizativo e institucional. Como efetivar a escola inclusiva? Essa é uma longa discussão que não cabe no espaço reservado para o presente capítulo. É necessário também estabelecer mecanismo de flexibilidade dos objetivos. mas sim pensar em uma continuidade pautada em mudanças que desenvolvam práticas mais Segregação. Uma educação inclusiva demanda políticas públicas que assegurem a todos os alunos a possibilidade de desenvolver o máximo de suas potencialidades. Como expõe Torres González (2002). se adotamos um método. “a diversidade implica vias formativas. o final do caminho aponta para a inclusão. No entanto. didático. o conceito de diversidade implica tanto a educação geral como a especial. Para reinventar a escola. na academia.

M. L. mas com o provimento das condições materiais de acessibilidade física. BEATÓN. T. Porto: Porto Editora. defendendo que a matrícula das pessoas com necessidades especiais seja feita preferencialmente em classes comuns das escolas regulares. A . Somente com essas condições a escola pode receber e ensinar a todos. 5. M. p. E. GARCIA. M. 1997. Integração X Inclusão: escola de qualidade para todos. Alunos com necessidades educativas especiais nas classes regulares. 124 . Declaração de Salamanca e linhas de ação sobre necessidades educativas especiais. DF. saísse definitivamente do discurso e alcançasse a sala de aula e as escolas. por meio de classe especial. 48-51. pela adoção do professor itinerante ou. A.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE inclusivas por meio da criação ou do fortalecimento de vínculos entre escolas regulares e escolas especiais. 2. R. São Paulo: Linear B. Lisboa: Dinalivro. portanto. Porto Alegre. Números da Educação especial no Brasil. BRASIL. M. B. Necessidades educativas especiais: desde o enfoque histórico-cultural. 1998. De la integración escolar a la escuela integradora. (Org. ainda. 2004. Modalidades de escolarização: a classe especial e a classe de apoio. maio/jul. G. 1997. Secretaria de Educação Especial. CORREIA. México: Paidós. atitudinal e de formação geral e específica.). MANTOAN.. Brasília. 2004. Referências BAUTISTA JIMÉNEZ. com ênfase na matrícula em sala comum − com o aluno e a escola recebendo apoios especializados de acordo com suas necessidades − propiciaria que a educação inclusiva. Concluímos. 1995. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE). Para a autora. LUS. T. DF. ao contrário da integração escolar. a manutenção de um continuum de serviços e soluções. 2005. BRASIL. Necessidades educativas especiais. Mendes (2002) explica que a legislação atual seria cumprida caso a inserção ocorresse pelo caminho da associação entre classe comum e Sala de Recursos. n. Coordenação Geral do Planejamento. Brasília. Pátio Revista Pedagógica. v. In: ______.

v. M. Educação e diversidade: bases didáticas e organizativas. S.). Segregação. 2002. Pátio Revista Pedagógica.. O futuro das escolas especiais. TORRES GONZÁLEZ. São Paulo: EdUFSCar. A. P. W. 1999. J. Educação especial no Brasil: histórias e políticas públicas. p. maio/jul.MAZZOTTA. 2005. MITTLER. Anotações 125 . 61-85. A integração escolar das crianças deficientes. MENDES. In: PALHARES. G. Porto Alegre. MARINS. integração/ inclusão escolar: a educação de pessoas com necessidades especiais Proposta de Atividade 1) Aponte algumas diferenças básicas entre integração e inclusão. 34. Porto Alegre: Artes Médicas. Inclusão: um guia para educadores. S. Perspectivas para a construção da escola inclusiva no Brasil. 2002.. M. 1-4. Escola inclusiva. S. SIMON. Porto Alegre: Artmed. Rio Tinto. STAINBACK. 1991. 2003. C (Org. E. Portugal: Edições ASA. p. J. S. J. STAINBACK. São Paulo: Cortez.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 126 .

como também por se sentirem mais apoiados pelas revelações chocantes. de modo mais disciplinado. estavam calados. velhos. O simples fato do início dos debates relativos à violência estar ligado ao apoio da Unesco e da mídia já mostra que os educadores. abertamente. entre outros. a liderar. ou com bagagem teórica suficiente. jovens.10 Impossibilidade de educar para a não-violência? Reflexões preliminares Lizia Helena Nagel A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR A preocupação no país sobre a violência. velhos. em delegacias de polícia. professores. jovens. é importante perguntar: por que os professores. Ciência e Cultura) sobre seu alastramento em todos os cantos do mundo. psicólogos. Se educar significa opor-se a comportamentos que desqualificam o homem como um ser social. a maioria vitimada em ambientes domésticos ou educativos. em uma luta a favor de relações humanas mais respeitosas? Por que pais. Com dados estatísticos disponíveis em hospitais. oferecidas pela mídia. movidos não só pela angústia vivida em salas de aula. adultos. dos quais se poderia esperar que abrissem a discussão. pais ou educadores não se irmanam. para levantar uma bandeira contra os mais diversos tipos de agressão sofridos nas famílias ou nas escolas. Ainda de modo tímido. mulheres. está adquirindo espaço na consciência social dos brasileiros. estimulada desde 1997 pelo alerta da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação. profissionais que se sentem responsáveis pela vida não se propuseram. professores começam a se reunir para discuti-la. ainda assim os professores e pais não se sentem com coragem. de modo sistemático e produtivo. médicos. quer como 127 . acerca do cotidiano das escolas e das famílias. até agora. adolescentes. campanhas contra a violação dos direitos humanos? Crianças. sobre crianças. quer como vítimas. independentemente da classe social ou do poder econômico.

caiu por terra. antes entendidos como “pessoas de bem”. potencializada. deixaram de ser identificados e/ou selecionados por tais atributos. Se os cargos públicos eram entendidos como destinados a pessoas dignas de serem imitadas. políticos. embora possam ser cotidianamente identificados. por uma única força. ao mesmo tempo. Nenhum deles. sempre sustentadas pela defesa incondicional da liberdade da imprensa.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE responsáveis pela violência. Se. não tem por meta a educação em uma a perspectiva ética. a responsabilidade de cada um como favorece o entendimento de que a violência não pode ser debelada por uma única categoria. cada vez mais. no entanto. o homem público era descrito com um perfil delimitado por regulações morais. o cidadão como um ser virtuoso. assim. reféns. por suas convicções e práticas. Tal interrogação exige aprofundamento. o homem público atual. juízes. hoje. os homens da atualidade. de uma prática social destrutiva e. antes. A mídia. cidadãos e o que se pensava sobre a moralidade deles no início do século XX. ou admiradas. por uma ou duas instituições. ela educa muito mais por sua aparente neutralidade na narração dos fatos do que reconhece sua capacidade de interferência nas ideias e nas ações dos indivíduos 128 . sem a pretensão de esgotar o número. muito tem contribuído para descaracterizar o político. pode ser entendido como vetor único. a força e a complexidade dessas variáveis que acionam o império crescente da violência. a divulgação de comportamentos atípicos no espectro da moralidade não tem por objetivo imediato a preocupação com a negação de atitudes antissociais. hoje. Na verdade. não se transformaram em dados suficientes para envolver e empurrar os diferentes tipos de educadores em direção a projetos marcados pela busca da autêntica civilidade. outrora desenhado como “modelo cívico”. comprometidos com deveres em prol das relações sociais. responsável pela situação vivida. As funções públicas não são mais vistas como carentes de homens honrados. Por uma questão didática. com cargos eletivos ou executivos. por uma rápida comparação entre o que se espera. Iniciamos. passamos a discorrer sobre algumas questões que a sustentam. A consecutiva e crescente publicização dos escândalos dos indivíduos ligados ao Estado. eticamente dos governantes. A compreensão relativa à complexidade das variáveis interatuantes não só divide e multiplica. principalmente porque os educadores sabem que a realidade de amanhã está nas mãos dos filhos e dos alunos do presente. CONSIDERAÇÕES A MARCAR Inúmeros fatores podem ser indexados para responder aos questionamentos sobre a violência. As funções que são atribuídas aos representantes do povo não são mais associadas ao comando de homens íntegros. preocupada essencialmente em capitanear manchetes. No entanto.

129 . só essa decisão já mostra a perda ou o desgaste da imagem desses profissionais.09 às 8h30 min. por essa educação midiática.quipus. modelos de intelectuais bem formados. desacreditar no homem. qualificando-o. a impunidade também já foi traduzida como natural! A propagação contínua. subliminarmente. ad nauseum. conforme depoimento de Luiz F. com metodologia sensacionalista. o princípio da não-censura (bandeira liberada de qualquer dever. sem limites. ora mostram argumentos de defesa dos anteriormente acusados. referências de profissionais competentes. Valladão. totalmente. pelo mesmo caminho. não busca relações sociais mais qualificadas. de fato termina por educar todas as classes sociais Na internalização dessa “verdade”.02. assim. advogando e administrando. desacreditam os intelectuais. A imprensa. Nesse quadro. pela repetição dos fatos. vulgarizam e desqualificam as profissões. em um condenado a desacreditar naquilo que antes era induzido a valorizar. o crescimento da consciência de ser o sucesso um produto do descumprimento de normas e regras. roubam a dignidade dos homens em geral. ou ônus.com. por seu potencial de “sagacidade” e de “criticidade”. assim como conferem a pena de morte a qualquer adesão a princípios éticos. sistematicamente. apresentar como padrão um homem que. correspondente a esse direito). de superação antes considerados condição de melhoria da sociedade brasileira. de que os dirigentes do país não só têm os pés de barro como são.2 Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 1 A neutralidade da mídia se faz pela mutabilidade constante das manchetes que ora acusam. contudo. sob o manto da impunidade. O leitor transforma-se. 2 Quando a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil . Resta. tornar corriqueiro. imunes a qualquer sanção. imagens de políticos escrupulosos desaparecem no horizonte e expressam-se no desinteresse progressivo pela coisa pública. Também. induzido a abandonar os velhos desejos de aperfeiçoamento. paradigmas de idoneidade. acessado em 07. pela mudança rápida do foco das noticias é.br/oab8. forjada pela repetição dos fatos e/ou das informações. apenas. Os inumeráveis e crescentes habeas corpus que assolam o país não só garantem as mais esdrúxulas impunidades como deslegitimam as instituições. norteadores de atos sociais politicamente comprometidos com a coletividade. fluido e sem parâmetro! Afinal. defendendo interesses próprios. ela educa por vulgarizar.qps/Rf/QUIS-7DRSQZ. informa aos cidadãos. concretiza-se. de desenvolvimento. Ao não tomar partido. acerca da corrupção “dos outros”.Seccional de Minas Gerais) encaminha uma campanha para recuperar a imagem do próprio advogado. http://oab.comuns1.

ou a função do modelo. ajustados à era cibernética. acionada ou 3 Como representantes da pós-modernidade incluem-se todos aqueles que privilegiam: a) o singular. o conceito.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Se a pós-modernidade3 vem louvando. enquanto modelos. em sua base. orkut etc. neste artigo. nem o ponto de chegada dos interessados na extinção de práticas orientadas por perfis ou referências já conhecidas. foram eliminados e. a priori. violência física ou simbólica. como meras expressões de poder. 4 Modelo. Os educadores em geral são condenados a abrir mão de deliberações e ações diretivas consideradas. servindo. como destrutivas da subjetividade. também. pais e professores são os primeiros condenados a abrir mão de sua autoridade5. e) o entendimento do sujeito como criador de si mesmo emancipado de forças sociais ou de “violências simbólicas”. princípios reguladores de comportamentos foram extintos no mundo das mercadorias ou do consumo compulsivo. Os “modelos”. a concepção. Internet. quais argumentos sustentam essas afirmações tão desprovidas de bases concretas. Nesse quadro de ações fundamentalistas contra qualquer poder. é tomada como diretividade. Os modelos em sua objetivação saem das mãos dos personagens reconhecidos. O “conteúdo” dos novos modelos. entre outras características já postas pela literatura específica. de modo simplificado. sem materialidade. a morte dos modelos4. mesmo que indiretamente. d) a louvação do presente como superação qualitativa do passado. como pais e educadores. fundamentalmente. convém lembrar que nem modelos. frágeis. o particular. c) a libertação de qualquer parâmetro teórico. e multiplicam-se na imprensa. deve ser entendido como um recurso metodológico capaz de auxiliar no encaminhamento de conhecimentos e de práticas consideradas relevantes para um determinado contexto. como abusivas frente aos direitos individuais de cada um. não é nem o ponto de partida. Qualquer modelo é lido como objetivado pelo arbítrio de uns sobre outros que. ou o inédito. ou os princípios teóricos de atuação social condenados pelos pós-modernos. Na verdade. substituem os velhos perfis desejados para os homens. controle ou coerção. não sendo identificada como arbítrio posto ter. para compreensão e análise da realidade a qual ele se refere. tampouco. interesse social de qualidade maior ao já existente. Implica na descrição de um perfil considerado ideal que facilitaria a direção educativa desejada assim como oportuniza a crítica a esse mesmo ideal projetado como conveniente à sociedade. Convém explicitar. a defenestração de princípios (éticos) reguladores da vida em comum. são entendidos. agora. imposição. tornam-se apenas menos aparentes. norma. 5 Autoridade. então. Mas a realidade é mais complexa do que muitos cérebros que dela falam. de modo submisso se poriam a cumprir as regras dadas pelos detentores de algum tipo de força social. como conquista social. coerção. tal como era antes entendido. televisão. como condução de um ponto definido para outro desejado. como fantasmas! Mais difusos na prática social ou na prática educativa. 130 . A subjetividade continua construída. metafisicamente. ou ainda detectados filosoficamente. f ) a liberdade emancipada de qualquer regra. b) a afirmação da inexistência de verdades ou princípios de caráter universal. Isso porque os modelos e princípios reguladores das atividades humanas continuam a existir. aqui.

os modelos. o desejo de viver no mundo de espetáculos. A moda faz dos jovens uma cabeça universal com boné. Propondo-se a colocar todos como iguais pela reprodução de papéis. na sociedade dos “sem-modelo” não é a condenação à morte de uma educação pautada em modelos impostos. Não é a negação da virtualidade do modelo ou da saga de qualquer modelo. ou reconhecidas. contraditoriamente. Na sociedade de consumo. O pai. agora. Nas artes. mobilizam. “estrelas” fabricadas. de qualquer idade. Na sociedade globalizada. mais do que nunca. mais novo. afirmando o crepúsculo do dever. sem interferências contrárias faz o papel dos antigos modelos educativos.(de)formada. Segal. a moda padroniza comportamentos. tem como espelho a imagem do “filho sarado”. a partir dos anos 60 do século XX de forma gradativa e crescente. O mais importante na sociedade dos “sem-modelos” é a rejeição visceral a qualquer situação que possa implicar compromissos com os outros. de perfis. a filha se reconhece na “Gisele Bündchen”. Di Cavalcanti. mantém-se forjada (ou destruída?) por outras referências. entranha-se Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 131 . os meninos. em todas as obras. atitudes. Amy Winehouse. como perigosamente destruída por “modelos educativos impostos”. a morte do moralismo. sentem-se respeitados pela grife em uso. Criticado e rejeitado o discurso sobre a educação por modelos tal como o passado afiançou. nos fãs. por exemplo. Por meio das mais variadas formas de comunicação. não deixa de se transformar no mais novo recurso metodológico. agora não mais identificadas. habilidades. como reguladoras dos novos comportamentos. os referenciais que interferem na formação ou educação dos homens continuam. a prática efetiva da imitação de novos ícones. das fantasias. com um vigor centuplicado. mesmo efêmera. capaz de padronizar hábitos. os paradigmas. com muito maior fôlego do que os velhos modelos ligados à moralidade existencial. por outros meios e por outros “modelos”. de comportamentos. A subjetividade que foi analisada. da mesma forma. no dia-a-dia. Machado de Assis. agora. Britney Spears. da propaganda. com talento suficiente para não se reproduzir. Ainda que a pós-modernidade liberte seu grito hedonista. portanto. Paulo Coelho entra para a Academia ao lado de notáveis como Aluízio de Azevedo. e a professora só se justifica se for democrática (ainda que ignorante)! O novo. Pichadores com seu estilo repetitivo são enquadrados na categoria de artistas como Anita Malfati. a mãe tem como referência a “jovem descomprometida”. a moda. quer na superação da forma anterior. revitalizados pela volatilidade do mercado e pela força da publicidade. que é a de ser reproduzido quer na modernização. os cidadãos confirmam. Ruy Barbosa. produz (ou educa) o maior número de adeptos à forma de vida definida como a melhor. sob a coordenação dos holofotes da mídia e/ou do mercado.

10). só podem ser assumidos como afirmações pouco prováveis. as referências. entre tantos outros modelos do século XX. de pensar. Zorro. p. A substituição radical de comportamentos fica.. a aceitação de comportamentos irascíveis. O melhor discurso a favor da paz entra em contradição com o discurso hegemônico que se move rejeitando qualquer coerção. universalizantes. inflexíveis. de não-permanência. pensam-se como únicos dentro de uma “pluralidade” de iguais já modelados! Na produção dessa modelagem em série. no contexto das práticas atuais. como oposição permanente a denominadores comuns. modelo ou 6 Séries da televisão como Gossip.]” (1997. também se torna. tornaram-se obsoletos.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE na subjetividade de todos o modo de ser. A luta contra a violência. os paradigmas. é aquela que não admite interferências de valores alheios ou estranhos aos interesses de cada indivíduo. quiçá esquizofrênica. fóbicos. defensores dos oprimidos. antes creditados e acreditados. lei ou princípio. nada melhor do que lembrar personagens como Monk e House. de agir. à deriva do capital. antissociais. o mais avançado para os cidadãos da sociedade do “conhecimento”! Dominados por comportamentos padronizados. Richard Rorty (1931-2007). Louva-se um outro tipo de homem. os indivíduos. incrementar a esperança e a solidariedade. assim. defende a ideia de que no indivíduo cabe. Nessa perspectiva de descontinuidade. esses personagens invadem todos os países e fertilizam. Capitão Marvel. contraditoriamente. regra. Representando um tipo-padrão de comportamento. apenas. Os heróis do passado. Os velhos padrões (ou os velhos modelos com grande durabilidade) precisam ser substituídos pelo mercado. titulares das séries televisivas mais premiadas nos últimos anos. Como ele mesmo diz: “Los llamados neopragmatistas no están demasiado preocupados por la filosofia moral y la filosofia social [. sociais. Nesse quadro. exatamente por essa razão. desaparecem do imaginário social na mesma neblina pela qual lobos passam a ser transformados em cordeiros. homens em vampiros e mulheres6 são formatadas pelo sexo e pelas drogas. O que pode ser interpretado pela frase: o mundo atual não mais está interessado na formação de homens com princípios filosóficos. controladores de atos de vandalismo. a não-permanência.. Robin Hood. de rejeição de princípios condutores de ações a longo prazo. Isso porque todo parâmetro. como único ritmo para seu desenvolvimento. de viver nominado como o mais moderno. A subjetividade reclamada. que impõe a descontinuidade. em todas as residências. o maior representante do neoliberalismo. uma vez que as verdades. torna-se impróprio advogar um código de ética universal. que antes eram vendidos como lutadores contra injustiças. se não obsoleta. de novas subjetividades. 132 . por exemplo.

Eliminando do raciocínio a relação entre subjetividade e objetividade (no caso. lida e reduzida. traduzido como ataque à subjetividade. se libertos de saberes e valores impostos como racionais. antes admitidos como verdades. na verdade. nesse momento. Nessa perspectiva. Essa despreocupação dos educadores frente à formação administrada pelos meios de comunicação. os indivíduos. a uma “natureza disciplinadora” que deve ser negada”. apenas. A pós-modernidade.. denunciados. inerentes à educação midiática. Negando a educação intencional. sem contestação ou repúdio.. sem contradições.princípio. normas ou regras. ao já feito. O PENSAMENTO QUE (SÓ) QUER “LIBERTAR”. para julgar qualquer ação humana já é. ou “modelos”. intrinsecamente unidos ao desenvolvimento da produção flexível. que se faz concreta pela recusa espontânea Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 133 . Sua principal qualidade será a “desobediência”. na seguinte hipótese: confere-se a cada indivíduo a possibilidade de produção de sua própria subjetividade. Subjetividade que. as contínuas mudanças na sociedade. mas em fase de substituição por outros. orientando pais e professores a “não destruírem” a subjetividade de seus filhos e alunos. à automação e à robotização e respondem pelas mudanças estruturais de nossa sociedade. as mudanças no mundo industrial são percebidas como possibilidade de recusa de todas as práticas e de todos os discursos já constituídos. que não é simples. pela mídia. A fluidez do mundo. educação formal ou informal). seriam: O que faz com que a educação por modelos seja tão ridicularizada? Por que modas. em profusão. no entanto. assim. como organizadores e/ou destruidores de subjetividades? A resposta. ao já regulado ou já legislado! Os pós-modernos parecem admitir que as transformações operadas pela tecnologia. Deve manter-se em atitude de “estranhamento” diante de todos os “fazeres” e de todos os “dizeres”. entre individuo e sociedade. desde que ele não se submeta ao já dado. com os modelos construídos pelo mercado e viabilizados. ou ainda como autêntica objetivação da violência. organizam discursos que proliferam nos meios pedagógicos. Nesse quadro. podem construir sua subjetividade de modo soberano. à informatização. aqui. permitem aos homens grande margem de independência. na verdade. As perguntas básicas. institucionalizada. Solidifica-se. ignora a formação dada aos cidadãos pelos meios de comunicação. toma forma. precisa ser mais bem aprofundada. contraditoriamente convive. atuais. ao já dito. por não viabilizarem a duração ou a rigidez dos conceitos. o fazer-se homem como dono de si mesmo implica um exercício oculto de crítica sobre o mundo em que vive. ajusta-se à Revolução Tecnológica. não são apresentados. concepções. a ideia de libertação ou de emancipação do homem dessa sociedade. intitulando-se como um movimento libertário.

já formuladas. a formação do sujeito pela via da negação de qualquer ação realizada. outro economista de renome. confirma os axiomas de Hayek. Hayek (1889-1992) acentua a condição considerada básica para manter e agilizar a sociedade ocidental: respeitar e acatar as opiniões e os gostos pessoais assumindo-os. em nenhuma hipótese. contraditoriamente. nesses tempos. Na grandeza conceitual dada à coerção. ou por realizar. a partir dos anos 1970. realçando a importância de todos se sentirem como donos de seu destino. como supremos (1977. ou atos já consagrados. já em mudança. Mas não só economistas e políticos da atualidade reproduzem discursos da 134 . em sua obra O caminho da servidão. a necessidade de libertar os indivíduos de quaisquer orientações diretivas. descrevem-se como integrantes de uma categoria privilegiada que conseguiu superar os erros e limites do passado. pelo uso da própria razão negada! Importante lembrar que tanto os favoráveis à reprodução da sociedade capitalista quanto os que a ela se opõem. sem interferências. o “dever de nada ensinar a qualquer filho. defensores do neoliberalismo. “refém” do outro. p. Entre os intelectuais de renome. se assumidos. pois. esse discurso entra na educação que proclama. Essa proposta de autonomia absoluta. Hayek e Friedman reforçam a nova fase do capitalismo. deliberações. reprodutor subserviente de uma sociedade que. Urge. Ideias. Sustenta. tomando proporções fantásticas. claramente. afirma ser qualquer intervenção externa um ato coercitivo. a favor de uma “distância isolacionista”. Como não poderia deixar de ser. contraditoriamente. ao se referenciarem como vanguarda. Tais pensadores. Friedman (1912-2006). desembainham espadas para cortar as amarras que impedem o indivíduo de ser único em suas decisões. por outrem. lutam pela autonomia absoluta dos homens. O discurso a favor da emancipação de tudo e de todos. contribuem inúmeros pensadores. destrutivo. juízos. defendendo o pressuposto de que nada existe além do próprio indivíduo. em seu livro Capitalismo e Liberdade (1988). revelariam um homem ultrapassado. 15).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE GRAFIA CORRETA: Hayek e Friedman e sistemática a endossar qualquer informação ou orientação. a qualquer aluno”! Para isso. da negação das relações em suas mínimas possibilidades. sem criatividade. divulgados consecutivamente pelos (interessados) meios de comunicação. nem qualquer outra ideia. não mais suporta velhos hábitos. torna-se o desejo universal de todas as classes sociais. Nessa direção. do desinteresse pelo outro e que se converte em autêntica apatia política toma dimensões inacreditáveis no mundo atual. Sua proposta básica não deixa de incitar todos a cobrarem o direito individual de seguirem seus próprios valores e preferências em vez de os alheios. agora já detalhada como um mal maior. o interesse pela acumulação capitalista torna-se pouco transparente. essa pretensão em não ser. nem pátria.

O sujeito (de fato. Deleuze (1925-1995). 1998). Estes autores. Pais e professores. das instituições.. associadas aos intelectuais proponentes: a) “[A] subordinação tem de desaparecer. portanto. deve ser respeitado pelo modo de vida escolhido. a respeitarem a autonomia dos filhos e dos alunos. pois qualquer medida neste sentido não é só considerada uma invasão de privacidade como um abuso de autoridade. assumidos como “leme para uma nova pedagogia”. O dogma contemporâneo da não-interferência em qualquer das múltiplas formas possíveis de ser dos indivíduos leva. filosófica e didaticamente. nunca crédulo.] (NIETZSCHE . das ideias que o deformam (DELEUZE. 2005. apontam para o ideal educativo comum: libertar os indivíduos de qualquer força externa ao sujeito. são orientados a se posicionarem a favor da não-interferência. pois [assim] desaparece o seu fundamento: a crença na autoridade absoluta” [. Defendendo tais pontos de vista. Importante é libertar o pensamento das regras. de fato. com poucas diferenças significativas. segundo os pioneiros desse mais novo movimento cultural. Coesos. nunca submisso ao já existente. a um tipo de educação que tem como objetivo mais definido e relevante a estimulação para a tomada de decisões individuais. historiadores. leva o sujeito a se perder em generalizações indevidas. p. já modelado pela cultura em que está inserido). Derrida (1930-1995) e Lipovetski (1944-). marcando sobremaneira o cotidiano de professores e de pais. Frases eloquentes e sedutoras são defendidas por seus inúmeros intérpretes brasileiros. alguns pensadores confirmam tal práxis na sociedade. sem a imposição de saberes já dados. marcam os fins e os meios dos procedimentos educativos por “aconselhamentos sistematicamente repetidos”. 216): b) O “adestramento” (educação por forças exteriores equivalentes à violência ou ao poder) priva o homem de julgar por si mesmo. Foucault (19261984). todavia. São instados a execrar qualquer instrumento ou parâmetro regulador de comportamentos. em vista de objetivos e por meio de procedimentos definidos interessados em fins já estabelecidos (FOUCAULT.. temos: Nietzsche (1844-1900). Lembrando os mais citados. Filósofos. pelos valores que expressa. d) O velho humanismo deve Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares 135 . o segundo corolário obrigatório consiste em incentivar o aluno a transformar-se em um eterno contestador.não-regulação. 1990). antropólogos. por seu direito de ser único. Nessa educação para a tomada de decisões personalizadas. vêm acentuando posicionamentos semelhantes. nunca subserviente. pelo espaço que lhes é concedido na mídia. nas últimas décadas. Elencando alguns pontos dessa “doutrina”. incapazes de destruir a unicidade entre eles quanto à defesa da construção da subjetividade. c) Importante é não ser governado em nome de princípios. apresentamos ideias-chave dessa nova forma de educar. entre outros profissionais das áreas de ciências humanas.

aos direitos instituídos. o que garante legitimidade a qualquer ação. consequentemente. dos pós-estruturalistas ao destruir a importância dos paradigmas como opção metodológica para análises. em paralelo. por sua curiosidade. à reavaliação (DERRIDA apud BAUMAN. Não é mais relevante formar o cidadão para a República. por seu estado de constante “estranhamento”. a de respeitar a diversidade e a pluralidade. na base. o pensamento “reacionário” se encontra definitivamente com seus “contestadores”. oferecer meios para a contestação ou o “estranhamento” permanente. categoria pouco interessada em estabelecer nexos (causais ou não) entre os elementos de um dado sistema. tal como o antigo racionalismo requeria. Morin se põe ao lado dos que condenam a forma de pensar e de agir que teria regulado o século XIX e XX. A autoridade deve ser submetida à inquirição. às leis proclamadas. Aproximase. Enaltece a necessidade constante de questionar o existente e. ato.. atribui grande peso ao saber vinculado a 136 .SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE ser substituído. em não mais formar o cidadão com universais reguladores de comportamentos. os dois se fundem. na verdade. Da mesma forma. todos concordam. verdades. Em síntese. convém elucidar se o projeto de Morin contraria ou afirma as linhas mestras defendidas pelos intelectuais aqui apresentados. pois. e) O espírito de abnegação está desvalorizado por toda parte. Quanto ao conhecimento. aos discursos políticos. Negando as relações do todo com as partes. mas sim incentivá-lo a reforçar a paixão por si mesmo. propõe a analisar o mundo pela complexidade. funde-se ao dos neoliberais pela negação absoluta de qualquer diretividade. pela negação peremptória de qualquer comparação. como contrata Edgar Morin para delinear a educação ideal para o século XXI – o que ele realiza em Os sete saberes necessários à educação do futuro. à crítica. desejo ou forma de ser da cultura ou de cada indivíduo. Propaga que ensinar não é distribuir certezas. também. O discurso contra o racionalismo em seus erros e falácias levao a solicitar da educação um comportamento permanente na identificação dos limites dessa forma de pensar. Como podemos perceber. a cultura sacrificial está morta.] Seja qual for o estado de graça da ética... mas provocar dúvidas. enquanto se reforça a paixão do Ego. convicções. Em uma confluência de interesses.1998). ele deve ser pensado como aquele que estabelece limites à força. Considerando que a Unesco não só alerta para a violência crescente. podemos dizer que o projeto educacional dos filósofos pós-modernos. prega ser o mundo (objetivo) captado por meio de estímulos individuais.. nós deixamos de nos reconhecer na obrigação de viver para outra coisa se não por nós mesmos (LYOTARD. do bem-estar e da saúde [. 2005). A EDUCAÇÃO QUE NÃO QUER ENSINAR.

em nível absolutamente internacional. visto como responsável pelos entraves relativos ao alargamento das empresas transnacionais. emancipadas de coerções externas. na prática. na qual aponta a vida como precária e de duração incerta. somente com a intenção de apaziguar os ânimos conturbados na passagem do milênio. ou adequadas. posto já terem sido todas as referências ou modelos existentes colocados na berlinda. como solidariedade. apoiando a ideia de projetos privados. Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares As demandas típicas para o desenvolvimento do capitalismo. ou como responsável pelos entraves a uma nova divisão do trabalho internacional. individuais. por isso mesmo. interessado em um pacto social entre homens (nesse momento entendidos por sua racionalidade). de acordo com as experiências próprias. Exalta a competência que. Como assinala Nagel: Ao final do século XX. 21). inclui. agora interessado em uma globalização mais alargada. podem ser recuperadas. não só de Locke. políticas. sem o desejo de transformar o capitalismo. do sistema capitalista sem fronteiras. retoma-se essa luta contra a coerção cerceadora do progresso capitalista escamoteando-a e/ou simplificando-a (sem nenhuma criticidade) como princípio educativo da atual sociedade! (2007. 31). retorna com as modificações necessárias. o discurso da tolerância que busca a paz. já utilizado por Locke (1632-1704). aos novos tempos. escreve a Carta acerca da tolerância (1978. observamos que a busca educacional na perspectiva da liberdade natural dos indivíduos. como meta fundamental. a efetiva compreensão que deve se desdobrar. Nessa proposta educativa. respeitados como iguais em suas diferenças religiosas. na fase da negação do Estado Nacional. ainda hoje (mesmo sob a defesa de uma nova epistemologia) é mantida. Descontadas as diferenças entre as exigências típicas do nascimento da sociedade capitalista e a sua reprodução na fase atual. A força do discurso de Stuart Mill (1806-1873) na defesa do individualismo também reaparece no enfático discurso dos defensores de uma liberdade 7 Locke. relativizado. O conhecimento cientifico é. para o nascimento e desenvolvimento da sociedade das mercadorias em função das dificuldades trazidas pelas guerras religiosas da época. ou com base nas formas como cada indivíduo se relaciona com os signos. p. Nesse momento. 137 . de vida. lembra que o exercício da solidariedade moriniana não implica o uso de qualquer paradigma como estímulo para as ações.traduções e reconstruções pessoalizadas. abre-se para uma nova conotação muito mais alargada: transforma-se em capacidade para saber lidar com o mundo tal como é (!). sem Estados nacionais. carente de decisões livres. portanto. O segundo expressa o interesse em sossegar a animosidade própria às convulsões do Leste e do Oeste europeu que precisam ser harmonizadas para a estruturação. p. Nesse ponto. O primeiro7 expressa o propósito de organizar situações positivas. em sua obra. particulares.

outra hipótese pode ser levantada: a educação do século XXI é instada a buscar a paz. N. R. em todas as esferas de ação dos homens. Conferência proferida em 27 de maio de 1978. n. o que não significa a negação da violência que agride pais e professores. FABRINI. intimamente relacionada com a determinação de não constranger subjetividades por imposições externas. Rio de Janeiro: Relume. Bulletin de la Société française de philosophie. Referências BAUMAN. Disponível em: <http://www. São Paulo. Tradução de Gabriela Lafetá Borges e revisão de Wanderson Flor do Nascimento. por modelos. temos que Mill (1983) defende. tal como os pensadores pós-modernos. 2. Os espectros de Marx. n. 1. Nesse quadro. como se ela fosse de ordem natural. em situação diversa a dos idos do século XIX (tão rejeitado pelos intelectuais). desagregadora de ambientes familiares e institucionais. que “as coisas na vida são mais bem feitas quando se deixa liberdade de ação àqueles que têm um interesse imediato envolvido. O mal-estar da pós-modernidade. p. J. O ensino de filosofia: a leitura e o acontecimento. 2006. 1990. paradigmas ou referências. 35-63. v. por conseguinte. Aproximando-as. indiretamente o descrédito e o descompromisso para com as instituições existentes ou com as normas reguladoras externas a aspirações subjetivas.unb. Revista Trans/ Form/Ação. Zygmunt. neoliberais e pós-modernos recuperam a exigência de que cada indivíduo busque sua satisfação. 1994./juin. Como podemos constatar. São Paulo: Editora 34. está. DELEUZE. desrespeitosa frente à dignidade das pessoa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. A manutenção da violência de todos os dias. sustenta-se no tempo por estar fundamentada na defesa exacerbada dos direitos individuais. hoje. G. avr. sua “verdade”.html>. A negação da violência. 403). 1998. FOUCAULT Qu’est-ce que la critique? Critique et Aufklärung. Conversações. p. 1998. 7-27. DERRIDA. o que se traduz em benefício apenas para o desenvolvimento da sociedade das mercadorias. 138 . Acesso em: 12 jan. afirmando. v. sem controle por parte da lei ou da intromissão de algum funcionário público” (p. 2009. na defesa da liberdade. 82.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE mais radical. 28.br/fe/tef/filoesco/foucault/ critique.

R. Impossibilidade de educar para a nãoviolência? Reflexões preliminares Proposta de Atividade 1) Considerando o texto em tela e considerando que o homem. In: NOGUEIRA. DF: Unesco. E. NAGEL. relativismo e verdade. P. Brasília. 2007. NIETZSCHE. RIZZOTTO. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. F. HAYEK. ed. São Paulo: Globo. v. Princípios de Economia Política. RORTY. LYOTARD. Barueri. 1988. 2006. escreva como pais e professores poderiam encaminhar dez situações educativas dificultadoras do ciclo evolutivo do individualismo. 2000. F. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. PERRENOUD. a concretização de violência nas relações interpessoais. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica. 2. 11. MILL. MORIN. F. Educação e desenvolvimento na “pós-modernidade”: algumas reflexões. Políticas sociais e desenvolvimento: América Latina e Brasil. ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará. O caminho da servidão. R. (Os economistas). 1977. quando estimulado. São Paulo: Companhia das Letras. 2005. 1983. São Paulo: Xamã. Capitalismo e liberdade. mesmo diante de circunstâncias limitantes. é capaz de modificar a natureza. São Paulo: Nova Cultural. M. M. Os sete saberes necessários à educação do futuro. S. RORTY. SP: Manole.). 19-43. 2002. F. (Org. L. que permite. 1997. G. H. 139 . Objetivismo. São Paulo: Abril Cultural. demasiado humano: um livro para espíritos fortes. alterar situações humanas. Esperanza o conocimiento?: una introducción al pragmatismo.. p. G. 2005. Novas competências para ensinar: convite à viagem.FRIEDMAN. 2. Humano. M. L. modificar comportamentos. São Paulo: Cortez.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 140 .

onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos. então o responsável pelo “fracasso escolar” é nosso sistema de governo. têm sido temas de inúmeros debates acerca dos problemas que ocasionam o insucesso escolar. É comum observarmos que a educação. 247). também. preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT. se entendemos que a questão do fracasso escolar é resultado das políticas econômica e social. contrariando a LDB 9394/96. frente ao nível de desenvolvimento que a sociedade contemporânea alcançou em diferentes áreas. não conseguem formar professores. o que pretendemos é analisar o fracasso escolar na contemporaneidade. Isto porque consideramos que reflete um conjunto de medidas e de pessoas envolvidas com esse processo que afeta nosso cotidiano de forma muito peculiar. quando verificamos que o Brasil integra o grupo dos nove países com maior índice de analfabetismo. que não garante vaga para todos os brasileiros em idade escolar. então o “fracasso escolar” deve ser atribuído ao sistema educacional. Dessa maneira. e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós. considerando que vem ocupando espaços nas agendas internacionais enquanto prejudica jovens e crianças que tendem a fazer parte dos contingentes de excluídos que vão 141 . p. assim como sua consequência natural – a aprendizagem. Assim. não é por acaso que os países com os piores índices de alfabetização também façam parte dos considerados “em desenvolvimento” ou ainda “países periféricos”.11 O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Luciana Grandini Cabreira / Luzia Grandini Cabreira A educação é. 1972. E ainda. que promove a exclusão social e pratica a “política da escola dual”. O ensino. então o “fracasso escolar” é dos cursos de formação. Assim. Se entendermos que os professores não conseguem promover a aprendizagem. entendemos que a temática “fracasso escolar” está longe de ser esgotada. tem sido um referencial até mesmo para indicar o nível de desenvolvimento de determinada população. Se entendermos o fato de a escola ainda não ser para todos. que.

ao enfocar. Son muchas las manifestaciones del fracaso escolar. observamos que há.acompanhar cada aluno da rede individualmente.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE viver à margem de uma sociedade tecnológica e científica. que trata da implementação do Plano de Metas Compromisso “Todos pela Educação”. como también los índices de abandono escolar uma vez terminada la escolarización obligatoria. aferindo os resultados por exame periódico específico. ou. quando couber. mediante programas e ações de assistência técnica e financeira. FRACASSO ESCOLAR O fracasso escolar se apresenta sob diferentes formas. pela adoção de práticas como aulas de reforço no contra-turno. La segunda manifestación es la desigual duración de sus estúdios. mediante registro da sua freqüência e do seu desempenho em avaliações. os oito anos de idade. precisamos conhecer as variadas nuances que o identificam. V . pela União Federal. Um último indicador son las dificultades para encontrar empleo que experimentan los jóvenes salidos del sistema educativo (p. 2007). em detrimento do ensino. que devem ser realizadas periodicamente. um entendimento de que o 142 . das seguintes diretrizes: I .estabelecer como foco a aprendizagem. apresentadas por Caillods (2008). estudos de recuperação e progressão parcial. “em regime de colaboração com Municípios. Neste sentido. e a participação das famílias e da comunidade. no máximo. uma vez finalizada laescolarización obligatoria. Distrito Federal e Estados. Estados e respectivos sistemas de ensino.combater a evasão pelo acompanhamento individual das razões da nãofreqüência do educando e sua superação (BRASIL. nos demais casos.alfabetizar as crianças até. II . Um tercer indicador es el nível de conocimientos alcanzado. ya sea después de alguns años de estúdios primários. Distrito Federal. apontando resultados concretos a atingir. por Municípios.094. y que acarrea el atraso escolar em el que quedan sumidos. Evidentemente. por meio do Decreto nº 6. dadas as especificidades de cada rede. Caillods (2008) descreve algumas situações que identificam o fracasso escolar. y también lãs distancias observadas entre los alumnos sobre el particular. Para conter as manifestações do fracasso escolar. visando a mobilização social pela melhoria da qualidade da educação básica” estabelece no Artigo 2º que: A participação da União no Compromisso será pautada pela realização direta.combater a repetência. de 24 de abril de 2007. por parte dos legisladores. Por isso. percebemos que no Brasil. para compreender melhor seus efeitos. IV . la primera de ellas es el índice de repitencia experimentado por los alumnos. pelo incentivo e apoio à implementação. III . 146-147). como los 15 años de edad. estendendo seu alcance às populações com maior índice de vulnerabilidade social. a “aprendizagem” no inciso primeiro. o Ministério da Educação e Cultura – MEC.

México. No entanto. do grupo dos nove países do mundo com a pior taxa de alfabetização do mundo e onde poderia ser encontrada a grande maioria que integra as “100 milhões de crianças fora da escola e mais de 900 milhões de adultos analfabetos” da sociedade contemporânea. Essas políticas articuladas recomendam. 2007. os países firmaram o compromisso de “impulsionar políticas educativas articuladas” (SHIROMA. acarreta atraso nos estudos e até mesmo a desistência do aluno. Da mesma forma. p. Egito. porque consideram que: 143 . Com isso. temos. MORAES. um alto índice de analfabetismo.. por seu turno. o combate à repetência e à evasão escolar. qualificação reduzida a testes ou taxas de aprovação/repetência. sem uma política efetiva de melhoria do ensino público e de formação do educador o insucesso escolar tende a permanecer no cenário educacional brasileiro. o Brasil. Juntamente com Bangladesh. de organizações sociais e de forças políticas e econômicas no “provimento da educação” (SHIROMA. vem adotando políticas públicas no sentido de superar o fracasso escolar e diminuir o número de analfabetos brasileiros. EVANGELISTA. [200-].. Na Conferência Mundial de Educação para Todos. Na atualidade. realizada em 1990.] a escola é uma instituição cujo papel consiste na socialização do saber sistematizado (SAVIANI. Será que os que trabalham com a educação. que. enfrentam seus problemas cotidianos e tentam encontrar soluções – os professores. a qual. Isso se dá porque eles vêem o mundo de uma outra perspectiva. Em escala mundial. 48). Medidas que visam a atenuar o fracasso escolar. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade PERSPECTIVAS POLÍTICAS DO FRACASSO ESCOLAR NA CONTEMPORANEIDADE [. signatário dos tratados internacionais voltados para a área educacional.objetivo da educação se concretiza apenas se ocorre o aprendizado. estamos entre os países com as piores taxas de alfabetização. p. Indonésia. na Tailândia. p. em 1990. educação à distância ou treinamento em serviço ao invés de qualificação do professor (SIQUEIRA. China. propõem nos incisos seguintes ações que priorizam o processo de alfabetização. Índia. pais e os pesquisadores nacionais/locais – serão ignorados como sempre? Todos parecem continuar sendo ignorados/descartados/desautorizados como atores-intelectuais-ativos. o envolvimento do Estado. 9). distinta daquele defendida pelo Banco baseada em quantificação/ custos. MORAES. na prática. segundo Caillods (2008). Nigéria e Paquistão. 2007. em Jomtien. o controle de faltas. 2005. 14). 52). o Brasil fazia parte. quem vivem. EVANGELISTA. se manifesta na repetência escolar. p. no país. estudantes.

É importante a compreensão que os termos “adotados” na redação dos documentos oficiais nessa área são extremamente importantes e precisam ser analisados. 144 . enfrenta uma crise sem precedentes. O instrumento criado para alcançar tais objetivos foi a Emenda Constitucional 14. p. por exemplo. Em nossa LDB 9394/96. A Emenda suprimiu das Disposições Transitórias da Constituição de 1988 o artigo que comprometia a sociedade e os governos a erradicarem o analfabetismo e universalizarem o ensino fundamental até 1998. Nesse âmbito. a atual LDB 9394/96. e sua focalização no ensino fundamental de crianças e adolescentes. com a visão de uma educação com o papel de promover a equidade social e garantir o acesso à educação básica a quase todos os brasileiros.. é nada mais nada menos que a paz mundial! Paz necessária e a ser assegurada pelo investimento que todos os países devem despender na educação.] o que está em risco. segundo o diagnóstico dos organismos multilaterais. DI PIERRÔ. especialmente nos países “periféricos”. a concepção dos organismos internacionais e a natureza das ações que serão implementadas no âmbito educacional. o cenário que verificamos. geralmente. porque é preciso que haja um mínimo de condição de igualdade para que se possa almejar a condição de equidade. o governo federal legitimou a antiga prática de realizar a maior parcela de seus gastos com o ensino superior e desobrigou-se de compromissos legais em contribuir com aportes substantivos para a educação básica. Com isso. mas enquanto isso. As principais diretrizes da reforma são a desconcentração do financiamento e das competências de gestão relativas à educação básica em favor dos Estados e Municípios. Com isso. 1999. o que implicaria elevar seu orçamento (SILVA. aponta que o Brasil se norteou pelas determinações dos organismos multilaterais para a década de 1990. 8).SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE [. a escola tem sido responsabilizada pela transmissão do saber e pela promoção da equidade social. integrando o movimento de ênfase internacional “Todos pela Educação”. pois indicam. período em que foi gestada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. no contexto das políticas educacionais.. Quando tratamos do vocábulo equidade. amplamente utilizado nos documentos elaborados em Jomtien e Dakar. GIL. Essas mesmas formulações vão estar presentes nos documentos gerados por uma avalanche de seminários realizados no Brasil. desobrigando o governo federal de aplicar com essa finalidade a metade dos recursos vinculados à educação. podemos observar que está contemplado o “Programa Educação para Todos” como diretriz a ser seguida pelo sistema nacional de ensino. Dentro do contexto atual. proposta pelo Executivo e aprovada pelo Congresso em dezembro de 1996. o Brasil vem participando dos Fóruns Internacionais e das discussões acerca das novas tendências mundiais voltadas para os países periféricos. temos a impressão de que já superamos as desigualdades. após Jomtien.

3). em uma tendência dos Organismos Multilaterais Internacionais de gerir a educação em países mais pobres e com alta taxa de endividamento junto ao Banco Mundial ou FMI. de que forma se estrutura a sociedade atual e ainda de que forma vai participar desse contexto.1992. Essa interferência de organismos multilaterais na área educacional também tem sido responsável pela crise enfrentada na educação. 307) O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Na década de 70. no sentido de contribuir para a diminuição do índice de analfabetismo e de pobreza. p. dentro de uma vertente crítica que promove a conscientização e a formação de um indivíduo capaz de compreender a sociedade atual e definir de que forma irá atuar nesse contexto e que revoluções irá promover para ter melhores condições de vida. no acesso ao saber produzido pela sociedade contemporânea de tal forma que os estudantes possam compreender o nível de desenvolvimento que a humanidade atingiu e apreender os saberes já produzidos. Neste sentido. estão as teorias que entendem ser a educação um instrumento de discriminação social. A escola. bem como os professores. pelo viés da escolarização. de superação da marginalidade. de marginalização (SAVIANI. Para Saviani (2005). p. Diante desse fato. Saviani (2005) busca as teorias da educação para explicar duas correntes teóricas bem definidas na educação.Esse movimento se configura por globalizar as diretrizes educacionais. No segundo. 145 . teorias que entendem ser a educação um instrumento de equalização social. em formar o estudante para que possa analisar. a saber. uma vez que promove a implantação de programas que não atendem às especificidades de nosso país. O PAPEL DA ESCOLA E O FRACASSO ESCOLAR A escola eximindo-se de oferecer a todos explicitamente o que exige de todos implicitamente. consiste. o papel da escola consiste em “ensinar”. 2005. portanto. quer exigir de todos uniformemente que tenham o que não lhes foi dado. a partir dos conteúdos apreendidos. portanto. A inclusão social. o papel da escola consiste em transmitir o saber sistematizado. instrumentos que somente a educação familiar pode produzir quando transmite a cultura dominante (BOURDIEU. no interior da sociedade têm assumido tarefas que extrapolam a grade curricular e vêm sendo responsabilizados pelo fracasso escolar. sobretudo a competência lingüística e cultural e a relação de intimidade com a cultura e com a linguagem. logo. cerca de 50% das crianças saíam da escola em condição de semialfabetismo ou analfabetismo potencial na maioria dos países da América Latina.

ao criticarmos a política educacional vigente pela distorções decorrentes de seu atrelamento aos interesses dominantes. memória e pensamento. Para tanto. 118). questionar e compartilhar saberes. a partir dos estudos desenvolvidos por Vygostsky. e observar como resolviam problemas utilizando instrumentos e signos. p. discutir. uma atuação pedagógica para que o professor tenha condições de ensinar em uma perspectiva crítico-transformadora. 1997. 2005. O modelo de Vygotsky incorpora estes dois aspectos. para a colaboração mútua e para a criatividade. principais representantes da psicologia soviética.] Com efeito. 31). não será possível deixar reconhecer seus efeitos sobre a formação (deformação) dos professores (SAVIANI. tinham por objetivo acompanhar como se desenvolvia a atividade mediada nas crianças e as funções superiores: percepção. que repercute tanto na organização econômica e política quanto resulta em consequências decisivas nas condições de vida da grande maioria da população trabalhadora. que para promover a aprendizagem a escola deve apresentar características que permitam superar o papel de conformadora e reprodutivista da estrutura social vigente. a concepção torna-se dialética. possam pensar. Os postulados de Vygotsky parecem apontar para a necessidade de criação de uma escola bem diferente da que conhecemos. os professores e estudiosos da vertente histórico-crítico que contrapõem a crítico-reprodutivista apresentam.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Não se trata. Para Vygotsky (1991). privilegiando tanto um corpo geneticamente construído quanto a sua vinculação com o social no desenvolvimento das potencialidades do sujeito. Conseqüentemente. o pensamento e a fala têm a mesma raiz genética e se 146 .. onde a interação entre as variáveis biológicas e sociais é constantemente referida a um processo contínuo de mudança (MRECH. 1996. Os estudos desenvolvidos por Vygotsky (1991). Lúria e Leontiev. nesse contexto.. para as diferenças. p. duvidar. de deslocar a responsabilidade pelo fracasso escolar que atinge as crianças das camadas trabalhadoras para os professores. pois. 68-69). refletir sobre o seu próprio processo de construção de conhecimentos e ter acesso a novas informações. escamoteando o fato de que eles também são vítimas de uma situação social injusta e opressora [. Na sociedade brasileira atual. a estrutura social se apresenta dividida em classes e grupos sociais com interesses distintos e antagônicos. Uma escola em que professores e alunos tenham autonomia. para as contradições. Uma escola em que as pessoas possam dialogar. Tradicionalmente a construção da inteligência humana tem sido pensada apenas como se fosse um mero produto biológico decorrente da combinação de gens humanos ou um produto social. para o erro. Onde há espaço para transformações. p. Observamos. Uma escola em que o conhecimento já sistematizado não é tratado de forma dogmática e esvaziado de significado (REGO.

. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Forquin (1993. o saber sistematizado. portanto. As atividades da escola básica deve organizar-se a partir dessa questão. praticar a luta social e cultural é rejeitar qualquer forma de domesticação do tempo e da história humana. ao lado do acesso é preciso construir alternativas de permanência com sucesso. O desenvolvimento.] Ora. Do ponto de vista educacional. e em muitos casos não sabem como se portar ou reagir diante das descobertas. p. o discurso da adaptação e da utilidade momentânea. 10) pontua que “é o instrumentalismo estreito que reina.. e em seguida pela linguagem. através do brinquedo as crianças estabelecem relações. O brinquedo. que promovam a aprendizagem para as gerações escolarizadas. Desse modo. É a partir dos anos sessenta 147 . sendo que em um primeiro momento de vida a relação do indivíduo com o meio ocorre mediada pela percepção e motivação. é uma cultura letrada. contar. o analfabetismo escolar de crianças e jovens denuncia um processo de exclusão por dentro da escola que precisa ser enfrentado. [. de acordo com este autor. Além disso. escrever. e lutar a favor da realização de tarefas pedagógicas e socioculturais possíveis para promover a inserção social desses grupos. são sufocadas ou ignoradas”. bem como o próprio acesso aos rudimentos desse saber. nesse momento. Daí que a primeira exigência para o acesso a esse tipo de saber seja aprender a ler e escrever. enquanto que as questões fundamentais. e sob esse ponto de vista faz-se necessário combater politicamente qualquer forma de resignação às condições desfavoráveis das crianças. propicia a criação da zona de desenvolvimento proximal. para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado (ciência). p. constituindo-se em uma atividade que determina o desenvolvimento da criança. pois. 2005. a cultura erudita. a linguagem da natureza e a linguagem da sociedade. o papel do professor é primordial por favorecer o desenvolvimento do conceito científico. A escola existe.desenvolvem de forma independente. os rudimentos das ciências naturais e das ciências sociais (história e geografia humanas) (SAVIANI. não obedece. que permite à criança passar para um novo estágio de desenvolvimento. 15). adolescentes e jovens oriundos de grupos sociais marginalizados. Sendo assim. as que dizem respeito à justificação cultural da escola. Está aí o conteúdo fundamental da escola elementar: ler. é preciso conhecer também a linguagem dos números. Neste sentido. mas pode ocorrer a partir das atividades lúdicas que a criança desenvolve e dos saltos qualitativos que ocorrem em sua história de vida. a um padrão de sequência organizado. O insucesso escolar caracteriza-se pela incapacidade de uma criança corresponder aos objectivos da escola em termos escolares. para Vygotsky (1991).

no mundo moderno as funções da escrita e da leitura não se realizam apenas por intermédio dos livros.1). revê-los e reconstruí-los com sabedoria (PIMENTA. p.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE que encontramos as suas primeiras manifestações. quando se começou a exigir que as escolas. a finalidade da educação escolar na sociedade tecnológica. tanto na vida profissional quanto na vida pessoal. é fundamental viabilizar ao formador a possibilidade de aprender o significado cultural da escrita para poder vivenciá-lo com os seus educandos. a integram. do raciocínio lógico-matemático e do cálculo. A preguiça. É preciso. A culpa do seu insucesso escolar passou a ser assumida como um fracasso de toda a comunidade escolar. Isso requer preparação científica. é condição fundamental para o estudante tornar-se um mediador da cultura escrita. multimídia e globalizada. combater o fracasso culturalmente mediado pelos grupos sociais mais empobrecidos que constituem a escola pública. através da pesquisa e da troca de informações. longe de concorrerem com a escrita. interpretar e fazer uso social desse aprendizado. Apesar de a leitura não se restringir à escola. O sistema não criava factores que motivassem e encaminhassem os alunos para o êxito escolar (BORDIEU. A apropriação da escrita como instrumento de informação e comunicação. 1999. da expressão oral e escrita. técnica e social. reinventar a forma como a escrita foi apropriada pela escola. a falta de capacidade ou interesse deixaram de ser aceites como explicação para o abandono escolar de crianças e jovens. de forma que através delas os/as educadores/as e os/as jovens podem se educar na linguagem do mundo. Por outro lado. por razões económicas e de igualdade. As novas tecnologias da informação e da comunicação. Por isso. é possibilitar que os alunos trabalhem os conhecimentos científicos e tecnológicos. educar na escola significa ao mesmo tempo preparar as crianças e os jovens para se elevarem ao nível da civilização atual – da sua riqueza e dos seus problemas – para aí atuarem. tornando as crianças e os/as jovens sujeitos centrais de um processo de mudança que situe a leitura como produção cultural. O que era atribuído até então ao foro individual. Para isso. inclusive com outros grupos de diferentes culturas. p. tornou-se subitamente um problema de cariz social. Assim. Essas são algumas das condições que podemos promover no sentido de qualificar os processos educativos da escola. então. desenvolvendo habilidades para operá-los. possibilitando aos jovens o domínio da leitura. 23). ampliar o seu horizonte de possibilidades e formar redes através das quais possam construir comunidades capazes de assumir coletivamente a produção de alternativas para os problemas que as afetam. 148 . 2008. ela tem um papel importante na formação de leitores/as capazes de ler. e por conseguinte. encontrassem formas de garantir o sucesso escolar de todos os seus alunos.

que este sentimento seja partilhado pelo próprio professor. 1997. a ciência contemporânea trouxe uma mudança bastante radical em relação aos paradigmas de saber anteriores. Se não há realmente ensino possível sem o reconhecimento. Desse ponto vista. de certa legitimidade da coisa ensinada.A RESPONSABILIDADE DA ESCOLA [. pois lhes cabe escolher qual concepção de vida e de sociedade deve ser trazida à consideração dos alunos e quais conteúdos e métodos lhes propiciam o domínio dos conhecimentos e a capacidade de raciocínio necessários à compreensão da realidade social e à atividade prática na profissão. do lado dos interesses da população majoritária da sociedade. Trata-se de uma questão crucial. que tem estado no centro das nossas preocupações (CANÁRIO. inserida numa problemática. e simultaneamente na produção de ‘sentido’. corolário da autoridade pedagógica do professor. pelo menos em tese o ofício do professor é trabalho que 149 . p. mentira ou passatempo fútil. portanto. em larga medida. sua competência técnica na luta ativa por esses interesses bem como na conquista de melhores condições de vida e de trabalho e a ação conjunta pela transformação das condições gerais (econômicas. p. 9). ele insere sua atividade profissional.] o modelo capitalista de produção. ou seja. de cuja solução depende. relativamente às suas próprias acções. Esta perspectiva da escola como ‘sujeito’ remete para a questão central da implicação dos actores sociais na produção de conhecimento. culturais) da sociedade. Toda pedagogia cínica. Para tanto. a própria sociedade e o indivíduo. 1996. políticas. Em síntese. isto é. distribuição e consumo institui novas formas de se pensar a cultura. A responsabilidade social da escola e dos professores. consciente de si como manipulação.. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade O campo específico de atuação profissional e política do professor é a escola. destruiria a si mesma: ninguém pode ensinar verdadeiramente se não ensina alguma coisa que seja verdadeira ou válida a seus próprios olhos (FORQUIN. a ‘fertilidade’ da investigação educacional.. é necessário também. de âmbito mais vasto. quando o professor se posiciona. 67). é muito grande. A própria concepção de pensamento e inteligência foi alterada (MRECH. de pensamento independente e criativo. o desenvolvimento de suas capacidades intelectuais. e antes de tudo. 1993. p. De acordo com Libâneo (1994). não podemos reduzir a escola a um simples objeto de estudo. por parte daqueles a quem o ensino é dirigido. consciente e explicitamente. do ponto de vista da história do conhecimento humano. na política e nos movimentos sociais. 139). à qual cabem tarefas de assegurar aos alunos um sólido domínio de conhecimento e habilidades. ela precisa ser compreendida como “sujeito de estudo”.

1999. fora de consideração os demais aspectos importantes da ecologia cognitiva para concentrar-nos na questão da linguagem. os aprendentes devem poder também. nos quais os indivíduos estão envolvidos de modo necessário e inevitável pelo simples fato de existirem socialmente. Educar significa propiciar e desencadear processos de auto-organização nos neurônios e nas linguagens das pessoas.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE pressupõe a unidade entre teoria e prática. da plasticidade de nossos neurônios (ASSMMAN. mas também o processo de prover os indivíduos dos conhecimentos e experiências culturais que os tornam aptos a atuar no meio social para transformá-lo em função de necessidades econômicas. p. Para que ela ensine autonomia. é algo que extrapola o espaço da sala. Domesticar e escravizar os significantes em sentidos unívocos representa um atentado à plasticidade do cérebro/mente. como decorrência de ser o conhecimento o mediador e o material. mas ativá-la ao máximo. 150 . Então. no envolvimento de professores e alunos com a aventura do conhecimento. sociais e políticas da coletividade. 27). de Montaigne). 71). assim como o objeto produzido nesse processo de ensino-aprendizagem. todo cuidado é pouco para não diminuíla. do relacionamento com a realidade” (RIOS. a educação compreende os processos formativos que ocorrem no meio social. depois de caminharmos pelos autores e teses que nortearam a composição deste capítulo. A aula. e que “o fazer a aula não se restringe à sala de aula. como respeito à versatilidade de seu sistema neuronal. Quem ensina apenas há de mostrar pistas. especialmente considerando que integramos a “sociedade do conhecimento”. podemos questionar: a escola que fracassa em seu papel de ensinar as novas gerações tem sido a única responsável pela não concretização do processo educativo ou ela faz parte de uma estrutura maior que a norteia nessa direção? Por isso mesmo é necessário repensar a escola que pretendemos. não é apenas uma exigência da vida em sociedade. A rigidez excessiva no uso de palavras e conceitos geralmente representa uma diminuição. insinuar ritmos para a dança das linguagens. deixar soltos os laços de seus significantes. Se tomarmos em conta a extrema versatilidade original do cérebro/mente. temporária ou prolongada. Enquanto adquirem novas informações e conhecem novas linguagens. 2001. nessa concepção. A prática educativa. conteúdo e em que sociedade vivemos nesse século XXI ela precisa saber disso. por sua vez. Na realidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS À beira de um precipício só há uma maneira de andar para frente: é dar um passo atrás (M. Deixemos. está além de seus limites. p. neste momento.

seja na sala de aula. significou apenas a transferência de tarefas das administrações centrais para os Estados e municípios. A minoria dominante dispõe de meios para difundir a sua própria concepção de mundo (ideias. O sistema educativo. práticas sobre a vida. em sua maioria. inclusive a de se contentarem com uma escolarização deficiente. as relações humanas) para justificar. de programa de governo em programa de governo. nos moldes que foi implantada. Para que a autonomia seja de fato uma realidade na área educacional é imprescindível a conquista da autonomia de gestão e administrativa para que a área educacional possa caminhar sem sofrer tanto com os impactos políticos. Sem uma política à prova de mudanças intempestivas fica difícil a área educativa combater o “fracasso escolar” que vem excluindo e relegando tantos brasileiros à condição de marginalidade. os programas voltados para a educação são alterados por conta das mudanças de governos. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade 151 . A educação que os trabalhadores recebem visa principalmente a prepará-los para o trabalho físico. os meios de comunicação de massa. porque a finalidade da educação. Freire (2002) educava para a cidadania e fazia torcida para o sucesso dos movimentos sociais que tinham a proposta de libertar os homens.porque para ensinar é preciso primeiro conhecer. valores. seja na sociedade. para atitudes conformistas. Assim. vemos uma alternância que impede a implantação de políticas educacionais planejadas a longo prazo. o trabalho. Atualmente. A descentralização. mas não a desconcentração do poder da União. as igrejas. de modismo em modismo. no entanto. ao seu modo. têm constituído meios privilegiados para o repasse da ideologia dominante. o sistema de relações sociais que caracteriza a sociedade capitalista. as agências de formação profissional. Programas de Governo passíveis de mudanças de acordo com a visão que cada equipe política porta da área educativa. uma vez que representam. não podemos nos eximir dessa inferência. E. está no processo de permitir que o indivíduo seja livre para se relacionar de forma ativa. incluindo as escolas. em nossa escola ainda não temos nem mesmo autonomia no processo de gestão. e que possibilitem um trabalho organizado e articulado pelas esferas educativas.

CANÁRIO. Escola e cultura. São Paulo: Cortez. José Carlos. Nuevos temas em la agenda de política Educativa. João (Org. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.). de 24 de abril de 2007. Petrópolis: Vozes. A Economia das trocas simbólicas. 1997. 2009. Hugo. Prado. PIMENTA. 2007.htm>.pt/$insucesso-escolar. FREIRE. Presidência da República. Sonia Miceli. Hannah. Tradução de . 3. Didática. 1999. Emilio Tenti (Org.). FORQUIN.2>. O Estudo da escola. Vieira.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Referências ARENDT. 2008. In: SANTOS. Dispõe sobre a implementação do Plano de Metas Compromisso Todos Pela Educação. São Paulo: Perspectiva. Buenos Aires: Siglo XXI Editores. Disponível em: <http://www. Françoise. Wilson C. ed.planalto. Brinquedoteca: o lúdico em diferentes contextos. Acesso em: 12 jan. Disponível em: <URL: http://www. 1993. MRECH. Acesso em: 12 nov. ed. São Paulo: Cortez. 1999. Os estudos sobre a escola: problemas e perspectivas. Petrópolis: Vozes. P.gov. 152 . 1994. 1992. 2008. Porto Alegre: Artes Médicas. BRASIL. La lucha contra el fracasso escolar em los países desarrollados: cuál es el impacto de lãs políticas? In: FANFANI. Santa M. DF. Sergio Miceli.094. Entre o passado e o futuro.br/ ccivil_03/_Ato2007-2010/2007/Decreto/D6094. A criança e o computador: novas formas de pensar. In: BARROSO. Leny Magalhães. 2008. Silvia de A. LIBÂNEO. Casa Civil. 1996. ASSMMAN. Insucesso escolar In: Infopédia [Em linha]. São Paulo: Paz e Terra. Brasília. Selma G. Reencantar a Educação: rumo à sociedade aprendente. Saberes pedagógicos e atividade docente. Porto: Porto Editora. São Paulo: Perspectiva. ______. 1972. Rui. 2002. Jean-Claude.infopedia. BOURDIEU. Paulo. CAILLODS. Porto: Porto Editora. Pires dos. 1. Decreto nº 6.

Maria Clara. Lev S. Terezinha Azerêdo. Dermeval. SAVIANI. Ângela Carvalho de.doc>. Maria Célia M. Eneida Oto.n. 1996. SIQUEIRA. VYGOTSKY. Camilla Croso.gov. Petrópolis: Vozes. Pedagogia histórico-crítica.Juca-Pirama Camargo. nos movimentos sociais”.br/site/documentos/espacovirtual/espacoleituras/ WEBTECA/politica>. RIOS. de.REGO.smec. desenvolva um texto sobre o fracasso escolar no contexto escolar e social dos quais você participa. São Paulo: Martins Fontes. 2001. Acesso em: 6 dez. SILVA.:s. São Paulo: Cortez. 2005. ed. 2007. 3. na política. 200-]. Pensamento e linguagem.salvador.anped. SP: Autores Associados. O fracasso escolar e suas implicações na atualidade Proposta de Atividade 1) A partir da afirmação: “Portanto. Política educacional no Brasil: avaliando o primeiro ano do Fundef. Acesso em: 2 dez. O novo discurso do Banco Mundial e o seu mais recente documento de política educacional. 153 . Disponível em: <http://www. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da Educação. Teresa Cristina. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. I. Disponível em: <http://www.org. DI PIERRÔ. EVANGELISTA. 1991. GIL. Campinas. Política educacional. 2008. [S. SHIROMA.ba. Rio de Janeiro: DP&A. a responsabilidade social da escola e dos professores é muito grande.br/reunioes/24/T0552423529049..l. Olinda. pois cabe-lhes escolher qual concepção de vida e de sociedade deve ser trazida à consideração dos alunos e quais conteúdos e métodos lhes propiciam o domínio dos conhecimentos e a capacidade de raciocínio necessários à compreensão da realidade social e à atividade prática na profissão. MORAES. 2008.

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 154 .

e dentre outras funções também a de promover uma sociedade democrática. Wertheim e Cunha pontuam que: 155 . torna-se imprescindível que os profissionais da educação descubram novos horizontes e reinventem novas formas de apropriação do saber” (Alvim Tofler) Até meados do século XX. por si só. a categoria trabalho tem se firmado como principal condicionante do fenômeno educativo. carregando em si o objetivo de “formar” os homens que tal sociedade necessita para se manter. assistimos atualmente às inúmeras mudanças que ocorrem. NOGUEIRA. destacando inclusive que a escola.12 Novas demandas educacionais na contemporaneidade: um olhar para a Ecopedagogia Aparecida Meire Calegari-Falco / José Ricardo Penteado Falco “Para criar e organizar uma nova cultura. como consequência da reestruturação produtiva que se dá no contexto da globalização. Segundo o Relatório Mundial de Educação da Unesco. Muitos pesquisadores questionaram essa visão funcionalista da educação. o fenômeno da globalização aconteceu inicialmente no campo da economia. coordenado por Jacques Delors. em sua essência. está vinculada e comprometida com o modelo de produção. obedecendo a uma lógica própria que passa então a ditar orientações nos campos da economia e demais setores dos paises. justa e igualitária. Sobre a questão. e que a prática pedagógica na sociedade humana é. na forma como está organizada e estabelecida. O princípio de escola pública vinha. uma prática ideológica. atender o acesso e garantir o princípio de igualdade entre os indivíduos (NOGUEIRA. No entanto. enquanto instituição. desregulamentando mercados financeiros. 2002). especialmente no mundo do trabalho. Neste sentido. predominava a crença que a escola teria o papel de superar o atraso econômico. A ideia de mercado mundial de capitais afundou a concepção de “ilhas financeiras”.

coloca em risco o desenvolvimento humano nesses patamares de relação. CUNHA. considerando seus limites frente aos novos desafios impostos na atualidade. Essa relação. perpassa sobretudo o repensar sua própria identidade. De acordo com Reimers. gerando incertezas e perplexidades crescentes quanto ao futuro. mantendo a maioria da população marginalizada da conhecida “sociedade do conhecimento”. sem dúvida. Por sua vez. imposta. o sistema educacional atende apenas a uma pequena parcela. atingem toda estrutura social. O aumento do desemprego e da violência. “a rigor. A globalização desenfreada segue lado a lado com a própria redução do papel do Estado. ajudam a espalhar um sentimento de vulnerabilidade entre as pessoas e entre as instituições. uma das implicações imediatas da dívida externa é a redução da taxa de expansão da educação no país. 1999. o setor produtivo aumenta a cobrança junto ao sistema educacional para responder às demandas em função de habilidades básicas que são exigidas pelo mercado e não necessariamente inspiradas nos direitos à cidadania.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Uma nova carta ao mundo foi traçada e. a concentração de riquezas gera concentração de conhecimentos e de tecnologias. p. Repensar os cursos de formação de professores. estes se encontram cada vez mais impotentes para assegurar o mínimo compatível com a promoção da cidadania. uma nova cultura empresarial para a qual são exigidas posturas de liderança. p. as redes científicas e tecnológicas se estruturaram e geraram disparidades entre países pobres e ricos. 49). Essa concentração tem forças para silenciar muitas culturas” ( WERTHEIM. p. seguida da saúde. Com o advento da globalização. 2001). por assim dizer. Os novos mercados competitivos e globalizados exigem. o que torna mais escandalosa a separação entre os que ganham e os que perdem (2001. um contraponto crucial para o enfrentamento da crise ( WERTHEIN. entre outros fatores. 2001. diluída a soberania dos países pobres ou em desenvolvimento. 48). por assim dizer. especialmente os cursos de Pedagogia. uma vez que. habitação e segurança pública: As mudanças neoliberais que já se efetivaram ou as que estão em curso. a auto-estima dos países. que assim argumenta: a partir dos anos 80 e sucessivamente até hoje. a pedagogia foi atravessada 156 . capacidade de trabalhar em grupo. o progressivo endividamento e a redução da autonomia das nações. Nesse contexto. Devido a isso. Isso porque. CUNHA. (apud WERTHEIM. Recorremos a Cambi (1999). 11). inclusive a auto-estima tecnológica se vêem abaladas com sérios prejuízos no que se refere à dinamização da sociedade civil. Quem quiser participar e ser incluído nesse novo mapa precisa arranjar trunfos específicos. capacidade de antecipação e conhecimento do cliente.

fixando novas fronteiras elaborando novos procedimentos (1999. 02) Atenção à adolescência (orientação pessoal e profissional. É um saber que se reexamina. 638). 05) Atenção à terceira idade.ou de muitas . da transmissão cultural. a educação (o terreno das práxis formativas. podemos constatar: A pedagogia é um saber em transformação. os quais abordamos brevemente. Destacamos ainda que o projeto pedagógico do curso de Pedagogia. que se reprograma e se reconstrói. de autocrítica. férias). ambiente familiar desestruturado). sem a pretensão de aprofundamentos. 641-642). separações). 04) Atenção à família em suas necessidades existenciais (famílias desestruturadas. voluntariado. Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia Tais emergências são capazes de reescrever o papel e o território da pedagogia. Ainda nas palavras de Cambi. na classificação de Quintana (1993). prevê uma obra específica para tratar dos campos de atuação do pedagogo de forma mais esmiuçada. tempo livre. por não se constituir objeto deste capítulo. 08) Prevenção e tratamento das toxicomanias e do alcoolismo. atravessado por várias tensões. 09) Prevenção da delinquência juvenil (reeducação dos dissocializados). de desmascaramento de algumas . Ressaltamos ainda que a ampliação do conceito de educação que extrapola o âmbito escolar vem se configurando nos diferentes espaços denominados não escolares ou não formais. 03) Atenção à juventude (política de juventude. em crise e em crescimento. 07) Atenção a pessoas hospitalizadas (pedagogia hospitalar). 157 . por instâncias de radicalização. das instituições educativas) também vem se reexaminando e requalificando. 06) Atenção aos deficientes físicos. são as seguintes: 01) Atenção à infância com problemas (abandono. Ao mesmo tempo. esta se organiza como uma das áreas no campo de Trabalho Social. envolvendo uma série de especialidades que. adoção. associacionismo. considerando assim uma sociedade que se organiza a partir de um saber em constante transformação e a necessidade de adequação aos novos paradigmas sociológicos. que revê sua própria identidade. sensoriais e psíquicos. modalidade a distância da UEM. atividades. p.por um feixe de ‘novas emergências’ e novas fórmulas educativas. Chamada de Pedagogia Social. por desafios novos e novas tarefas.de suas engrenagens ou estruturas. novos sujeitos dos processos formativos/educativos e novas orientações políticoculturais (p. emprego).

realçando a necessidade do papel educativo do domínio/exploração do ambiente. diferente em suas atitudes daquelas que mantinha no passado. Ela só tem sentido como projeto alternativo global onde a preocupação não está apenas na preservação da natureza (Ecologia Natural) ou no impacto das sociedades humanas sobre os ambientes naturais (Ecologia Social). os desertos e as florestas.presidiários). uma das únicas (mas não exclusiva) formas de preparar o cidadão é a educação. a respeitar e a preservar. sociais e culturais. sociais e ambientais que temos hoje (GADOTTI. haja vista que. Objetiva superar a visão de habitat e forjar a concepção de “nicho ecológico”. 15).. cultural e recreativo). ao lado de outras pedagogias. ou seja. destacando novos valores e novos modelos antropológicos e culturais. Cambi (1999) enuncia que a Ecologia marcou a reflexão pedagógica dos últimos tempos. ela recebe uma carga injusta de rejeitos. podemos definir Meio Ambiente por tudo aquilo que nos rodeia. e não exclusivamente no âmbito da escola. Salientamos ainda o campo da pedagogia empresarial e a atuação em organizações não governamentais de diversos direcionamentos (ambiental. 11) Promoção da condição social da mulher. a qual se organiza como resposta a uma emergência atual de pensar os problemas ambientais de modo a considerar os aspectos econômicos. 13) Educação no campo. educacional. culturais e políticos. exaltando a relação entre o homem e o ambiente que congregue compreensão e respeito. Ao mesmo tempo que a natureza nos dá suporte de existência biológica e social. mas num novo modelo de civilização sustentável do ponto de vista ecológico (Ecologia Integral) que implica uma mudança nas estruturas econômicas. as cidades e aldeias.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE 10) Atenção a grupos marginalizados (imigrantes. Ela está ligada. dejetos e todo tipo de ações predatórias. portando. uma área extremamente nova para a pedagogia é conhecida como Ecopedagogia ou Pedagogia da Terra. o Meio Ambiente natural e o Meio Ambiente modificado pelas ações antrópicas. Todavia. p.. Fazemos parte do Meio Ambiente e nossas ações refletem nele hoje e em seu futuro. de maneira a construir um novo homem. engendradas e produzidas nas nossas atividades humanas e 158 . o conceito de educação extrapola os muros escolares. a um projeto utópico: mudar as relações humanas. Sem dúvida alguma. Em termos gerais. 12) Educação de adultos. minorias étnicas. como já assinalamos anteriormente. presos e ex.] a ecopedagogia não é uma pedagogia a mais. [. 2003.

sociais. Nesse processo das ações da sociedade humana são criados e recriados modos de relacionamento, ao mesmo tempo que ocorrem as relações intra-sociais que dão origem à cultura através de bens materiais, tecnologia e outras formas de se reproduzir biológica e socialmente (HIGUCHI; AZEVEDO, 2004, p. 64).

Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia

A degradação ambiental ocorre pela destruição de ambientes naturais para a construção de cidades e indústrias e exploração agropecuária, bem como pelos dejetos produzidos pelos hábitos humanos (resíduos hospitalares, domésticos, agrários, tecnológicos, entre outros). Cabe lembrar que a exploração do Meio Ambiente é uma necessidade do homem e de todos os animais. A exploração ocorre desde a origem da espécie humana. Como animal consumidor, precisamos explorar o Meio Ambiente como moradia e para extrair o alimento que contém a matéria orgânica que nos constitui e também contém a energia necessária para nos manter vivos. Contudo, devido ao modo atual de vida da sociedade, também necessitamos explorar o Meio Ambiente como fonte de matéria-prima para a produção dos “bens de consumo”. Os impactos ao Meio Ambiente causados pela exploração humana aumentam conjuntamente com o crescimento da população e com os hábitos sociais contemporâneos, principalmente os de consumo aliados ao avanço das tecnologias, que necessitam de matéria-prima para a sua construção.
O potencial destrutivo gerado pelo desenvolvimento capitalista o colocou numa posição negativa frente à natureza. O capitalismo aumentou mais a capacidade de destruição da humanidade do que o seu bem-estar e prosperidade (GADOTTI, 2003a).

No século passado, a exploração do meio ambiente pelo homem se deu de forma devastadora, produzida pela industrialização e urbanização descontrolada e pela ideologia da exploração da natureza, sem a preocupação com o futuro. Cientistas, prevendo os impactos humanos sobre o meio ambiente, criaram em 1972 o conceito de Desenvolvimento Sustentável, ou sustentabilidade, que prevê o equilíbrio entre a ação humana, o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e o Meio Ambiente. Em termos simples, a sustentabilidade deve prover o melhor para as pessoas e para o ambiente, tanto agora quanto para um futuro indefinido. Deve suprir as necessidades da geração presente sem afetar as possibilidades das gerações futuras de suprir as suas, enfocando o desenvolvimento econômico, o desenvolvimento social e a proteção ambiental; um conceito sistêmico, relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana.
159

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE

Ao ser instituída a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014), ações político-pedagógicas da educação ambiental passaram a ser vistas em suas múltiplas nomenclaturas: ecopedagogia, educação no processo de gestão ambiental, alfabetização ecológica, educação ambiental crítica, educação científico-ambiental, emancipatória ou transformadora, tendo por objetivos compreender que o modo de vida atual da enorme população de seres humanos, com base no consumismo capitalista, está gerando uma degradação ambiental constantemente abordada nos meios de comunicação. Mesmo assim, a população em geral pouco faz para evitar essa degradação. Vale ressaltar que muitos vivem em condições precárias de sobrevivência, daí a pensar nessa temática é algo que com certeza não faz parte de suas prioridades. A qualidade de vida vem atrelada à conservação do meio ambiente, mas não somente sob essa perspectiva ecológica, somam-se a isso as questões sociais, culturais e econômicas que estão diretamente relacionadas à produção do homem e da maneira de este produzir sua vida.
[...] as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outra, devido ao fato de que a intervenção humana nos ecossistemas tem alcançado níveis alarmantes, com consequências globais [...] (ANGELINI; CARVALHO, 2005, p. 26).

Sem dúvida nenhuma é uma demanda educacional contemporânea se preocupar com essa temática, propiciando desvelar que fazemos parte do Meio Ambiente. Estamos interagindo constantemente com o Meio Ambiente. Exploramos o meio para as necessidades básicas e para as necessidades “criadas” pelo consumismo capitalista, produzindo grande quantidade de resíduos, que também agridem o Meio Ambiente. Destruímos o Meio Ambiente para construir moradias, para produzir alimento para nossa população através da agropecuária, para a construção de indústrias que produzem nossas “necessidades” tecnológicas. Destruímos o meio com a grande quantidade de resíduos que produzimos, com os quais não nos preocupamos, como se esses resíduos não nos afetassem. Para pensar, é necessário conhecimento adquirido, e o lócus da escola é indubitavelmente esse espaço por excelência. Não podemos deixar de destacar que, somadas às ações individuais, é imprescindível ações governamentais que possam assegurar diretrizes concretas para a efetivação de políticas de ação e de proteção ao meio em que vivemos; podemos citar o caso brasileiro, quando propôs a Agenda 21, a qual objetiva desvelar tal temática, inclusive no que se refere a uma abrangência para além do meio ambiente físico, como consta no documento,

160

Praticar a Agenda 21 pressupõe a tomada de consciência individual dos cidadãos sobre o papel ambiental, econômico, social e político que desempenham em sua comunidade. Exige, portanto, a integração de toda a sociedade na construção desse futuro que desejamos ver realizado. Uma nova parceria, que induz a sociedade a compartilhar responsabilidades e decisões junto com os governos, permite maior sinergia em torno de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável, ampliando as chances de implementação bemsucedida (BRASIL, 2004, p. 16).

Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia

E ainda: “Acreditamos que a Agenda 21 é um forte instrumento que permite definir e implementar políticas públicas com base em um planejamento participativo voltado para as prioridades do desenvolvimento sustentável” (BRASIL, 2004, p. 4). São prioritárias as questões que procurem desenvolver programas de inclusão social, ampliando o acesso universal da população à educação, saúde e distribuição de renda, buscando a sustentabilidade urbana e rural, a preservação dos recursos naturais e minerais e a ética política para o planejamento rumo ao desenvolvimento sustentável. Destacamos a essa soma de prioridades o combate à cultura do desperdício, um “problema ecológico, produzido pela industrialização descontrolada e pela ideologia do domínio/exploração da natureza” (CAMBI, 1999, p. 638).
[...] a evolução do conceito de educação ambiental acompanhou a evolução do conceito e da percepção de ambiente. Evoluiu de um enfoque mais ecológico no sentido das ciências biológicas, para uma dimensão que incorpora as contribuições das ciências sociais fundamentais para a melhoria do ambiente humano. Assim, pode-se pensar o ambiente e a educação ambiental de forma a reduzi-los aos aspectos relativos à fauna, flora, ar, solo e água. Pode-se, no entanto, ampliar o conceito e adotar o modelo do tecido celular de Dias (1992), abordando os aspectos políticos, éticos, sociais, científicos, econômicos, tecnológicos, culturais e ecológicos, por exemplo. Compartilho, no entanto, de um pensamento no qual o ponto de partida é o ambiente interno de cada ser humano. Não no sentido antropocêntrico, mas porque parto do princípio de que o ambiente interno de cada ser humano está interconectado com o planeta e com o cosmos. É onde começa a compreensão do conceito de rede e de interconexão, de interdependência, de teia da vida. A Conferência de Tbilisi considera a educação ambiental como sendo: ‘um processo permanente no qual indivíduos tornam-se conscientes do seu ambiente e adquirem conhecimento, valores, habilidades, experiências e a determinação para agir individual e coletivamente, prevenido e resolvendo problemas presentes e futuros’ (DIAS, 1992 apud MUNHOZ, 2004, p. 142).

Em âmbito internacional, podemos citar o Protocolo de Kyoto, assim denominado em homenagem à cidade japonesa de Kyoto onde o acordo foi assinado. Constitui-se em um acordo assinado em 1997 por 189 nações, que se comprometeram em reduzir a emissão de gases causadores do efeito estufa em 5%, com base em

161

uma vez visto que os cientistas acreditam que a emissão descontrolada desse gás. sobretudo a Ecopedagogia. a falta de adesão dos Estados Unidos enfraqueceu muito a utilidade do acordo. Bush refutou o acordo. se constituem apenas no início de caminhada. quando o documento expira. promovendo uma série de catástrofes que muito prejudicará a humanidade e toda e qualquer espécie de vida. 2008). tornando concretas as ações ambientais neste âmbito (PROTOCOLO. Por outro lado. envolvendo governos para o comprometimento de ações concretas para atendimento às diretrizes do documento. pensar na formação do educador sem 162 . O efeito estufa pode comprometer ainda mais a vida no planeta. justamente. alegando que a implantação de metas prejudicaria a economia do país. principalmente os maiores causadores dos problemas e finalmente estabelecer uma verdadeira “vitrine” das questões que envolvem a sobrevivência/consumo/ atrelado a uma posição responsável frente ao planeta. Não resta dúvida de que é preciso reconhecer que as novas demandas educacionais. Para eles. Apesar dos limites que o Protocolo possa ter na efetivação de medidas eficazes a que se propõe. que se desponta como novos saberes e novas fronteiras que a pedagogia precisa buscar para reestruturar sua ação. entre eles os Estados Unidos. Kioto foi essencial para que diversas nações e empresas tenham transformado em lei as metas de redução. contribuir para a formação do espírito de responsabilidade e solidariedade e fugir da propagação oportunista que vem rondando a temática é um dos principais objetivos da Ecopedagogia. O então presidente George W. bem como de outros. alegando também que este não exigia providências dos países em desenvolvimento. Por fim. já que são eles. haja vista que se constitui em uma temática emergencial frente à degradação do meio ambiente que se construiu no último século. o maior emissor de gás poluente do mundo. prevendo que suas metas sejam atingidas entre 2008 e 2012. os defensores do Protocolo apontam que. Baseando-se nessa crítica. além da importância em traçar as linhas gerais para os próximo acordo. O Protocolo entrou em vigor em fevereiro de 2005. há algo que não podemos deixar de considerar importante. apontar os países que se recusam a participar das propostas. causando um impacto pequeno na mudança do panorama atual. A principal crítica ao Protocolo de Kyoto é que as metas instituídas representam pouco na luta contra o aquecimento global. O alvo é o dióxido de carbono (CO2). Vale ressaltar que alguns países se recusaram a assinar o acordo. na esperança de que seja mais rígido e abrangente.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE pesquisas comparativas com os níveis da década de 1990. boa parte dos especialistas se mantém cautelosa quanto ao novo tratado. qual seja: expor ao mundo a situação do planeta. o país com maiores emissões de gases poluentes do mundo. esteja diretamente ligada ao aquecimento da Terra. Portanto.

DF. RODRIGUES. 2004. 2003a. n. Disponível em: <http://www. Educação como processo na construção da cidadania ambiental. [S. Genoveva Chagas de. 1999.php?id_articulo=392>.Pedagogia da terra: ecopedagogia e educação sustentável.). In: LAYRARGUES. Pedagogia da terra. p. [S. São Paulo: Ed. Moacir . Déborah. Maringá: Eduem. 2003. v. 2. Philippe P. Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia Referências ANGELINI.). 2004. A ecopedagogia como pedagogia apropriada ao processo da Carta da Terra. Identidades da Educação ambiental brasileira.F. In: FALCO. Antroposmoderno. Maria Aparecida (Org.]. Revista Brasileira de Educação Ambiental. Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável. José Ricardo Penteado. Peirópolis. GADOTTI. GADOTTI. Brasília. (Formação de professores EAD). AZEVEDO. Ronaldo.perpassar pelo debate da Ecoformação (GADOTTI. 2004. p.antroposmoderno. Educação científica-ambiental: histórico e perspectiva. 2006) é restringir e estreitar a consciência de totalidade que tanto se busca nos cursos desses profissionais. Adriana Rosa. 163 . DF: Ministério do Meio Ambiente. Identidades da Educação ambiental brasileira. 2006. CARVALHO. (Coord. 12. Cuiabá.n. São Paulo: Editora Unesp. 228p. G. 2005. HIGUCHI. ed. 2009. Educação ambiental: princípios e práticas. MUNHOZ. História da Pedagogia. 21. Acesso em: 13 jan. 2004. Maria Inês Gasparetto. DIAS. 63-70. 11-24. Ações prioritárias da Agenda 21: possibilidades e restrições. Ministério do Meio Ambiente. n. Alfabetização ecológica: de indivíduos às empresas do século XXI. Moacir . Biologia dos organismos. São Paulo: Gaia. DF: Ministério do Meio Ambiente. com/antro-articulo. Revista de Educação Pública..l.l. BRASIL. 1992.]. LAYRARGUES. Philippe Pomier. s. 4. CAMBI. ed. Brasília. 0. GADOTTI. Moacir . Franco. Brasília.

CUNHA. Educação & Sociedade. 2002. O choque do futuro. São Paulo: AnnaBlume. Célio da. trabalho e desemprego. Fundamentos da Biologia moderna. Revista Veja. Brasília. 2004. José Maria. QUINTANA. 183-85. MARANDINO. PROTOCOLO de Kioto. Políticas de Educação: idéias e ação. TOFLER. Campinas. ed. Jorge.SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE NOGUEIRA. Alvim. G. 2004. WERTHEIN.. São Paulo. DF: Unesco. 1970. 1999. WERTHEIN. NOGUEIRA. São Paulo: Moderna. Políticas de Educação: idéias e ação. Brasília. Jorge. 2002.. n. DF: Unesco 2001. 2008. In: WERTHEIN. Pedagogia social. 6). 2001. 164 . M. 3. 78. cidadania e proteção do meio ambiente. Rachel Biderman. Dossiê “Ensaios sobre Pierre Bourdieu”. Rio de Janeiro: Record. FURRIELA. REIMERS. Ensino de ciências e cidadania. (Cadernos Educação. DF. v. Proposta de Atividade Debate com sua turma sobre a seguinte temática: em que base podemos defender a bandeira dos países desenvolvidos quando postulam que precisam “usar” o meio ambiente para que haja o desenvolvimento e consequentemente empregos e prosperidade para todos. Madrid: Dykison. 6). Maria Alice. J. M. M. Fernando. A Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu: limites e contribuições. São Paulo: Atual. Brasília. v. Cláudio Marques Martins. R. 1993. 23. Referências Complementares AMABIS. São Paulo: Moderna. MARTHO. p. CONTI. José Bueno. Célio da. CUNHA. 1998. 4. Democracia. Unesco. (Cadernos Educação. Clima e meio ambiente. Educação. Jorge. abr. SP. Deuda externa y financiamiento da la educación.. v. KRASILCIK. v.

Anotações Novas demandas educacionais na contemporaneidade: Um olhar para a Ecopedagogia 165 .

SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO: OLHARES PARA A ESCOLA DE HOJE Anotações 166 .

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->