SAMIZDAT

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O Conde Lucanor
um clássico da Literatura medieval espanhola
Nesta edição: Coelho Neto, Ricardo Palma, Camões e mais...

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dezembro de 2008
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Autores Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Marcia Szajnbok Maria de Fátima Santos Maristela Scheuer Deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior Zulmar Lopes Textos de: Camões Coelho Neto Don Juan Manuel Ricardo Palma

Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público ou royalty free. As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira responsabilidades de seus autores ou tradutores.

Editorial
Em janeiro, a Revista SAMIZDAT completerá um ano de existência. Como um projeto completamente anárquico, com contribuições espontâneas, cada um selecionando o conteúdo que acredita ser interessante, com o mínimo de edição, conseguiu obter um nível de coerência e coesão é algo que provavelmente transcendeu as expectativas dos autores que compõem a equipe da revista. Não há uma orientação ideológica que delimite nosso projeto. As únicas intenções são: mostrar nosso trabalho literário e trazer ao leitor um conteúdo de qualidade. Felizmente, conseguimos nos acercar de outros produtores culturais que compreendem a natureza deste projeto e que contribuem com ele da maneira que podem, seja através das entrevistas, seja através daqueles leitores que propagam a SAMIZDAT em seus sites ou blogs. Às vésperas de cruzarmos o limiar de um ano de teimosia, nosso agradecimento será para nossos leitores: nossa grande motivação nesta longa e sinuosa estrada da Literatura. Henry Alfred Bugalho

Imagem da capa:
REMBRANDT, Homem de Harmenszoon van Rijn usando um elmo dourado

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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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ENtrEViSta Carlos Henrique iotti miCroCoNtoS
Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

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rEComENdaÇÕES dE LEitura o homo absurdus de Camus
Henry Alfred Bugalho Guilherme Rodrigues Guilherme Rodrigues

Jane Eyre, de Charlotte Brönte orgulho e Preconceito, de Jane austen

autor Em LÍNGua PortuGuESa o duplo
Coelho Neto Camões

20 24

Sonetos

CoNtoS o Sabão milagroso

Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho

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o aniversário de J.S.B.

Paulette na cidade
Joaquim Bispo

32 35 36 38 40 42 44 48 47 52

Conspiração zHaarP
Dênis Moura

Para que nos serve
Maria de Fátima Santos

a Surpresa
Guilherme Rodrigues

Para lá do muro No Elevador dezessete
Pedro Faria Marcia Szajnbok Pedro Faria Zulmar Lopes

José Espírito Santo

descobertas

Gosto Refinado alice por trás do espelho
Giselle Natsu Sato

traduÇÃo o Conde Lucanor a Festa de São Simão Esgaratujo
Ricardo Palma Don Juan Manuel

54 68

tEoria LitErÁria Enchendo Lingüística: Ficção sob Pressão 61
Volmar Camargo Junior

a tese na Literatura
Henry Alfred Bugalho

70

CrÔNiCa Erótico ou Pornográfico: eis a questão
Giselle Natsu Sato

74

a Vida Continua
Joaquim Bispo

76 78

Nossa história abandonada
Maristela Scheuer Deves

PoESia Laboratório Poético - indriso
Volmar Camargo Junior Carlos Alberto Barros

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urbanidade

SoBrE oS autorES da Samizdat

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SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista. Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários. Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Resenha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convidado. Escreva-nos para: revistasamizdat@hotmail.com

Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprirmir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiram, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exenplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. Ao serem obrigados a burlarem a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substitua o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Entrevista

CarLoS HENriquE iotti
Carlos Henrique Iotti, 44 anos, gaúcho de Caxias do Sul, é colaborador dos jornais Pioneiro (www.pioneiro.com) e Zero Hora (www.zerohora.com), e tem vários livros publicados, principalmente de tiras com o personagem Radicci. Radicci, seu personagem mais famoso, foi criado em 1983, representando um ítalo brasileiro (ou gringo, como ele mesmo diz) de temperamento forte, amante do vinho e do ócio. Casado com Genoveva, é pai de Guilhermino. O personagem Nono completa a típica família de descendentes de italianos. Iotti tem ainda outros personagens menos conhecidos, como a dupla de criação Deus e o Diabo, que competem entre si numa espécie de agência de criação e propaganda. Além de atuar como chargista e cartunista, inclusive com trabalhos na Itália, Iotti também tem programas na rádio e na TV (este último, Iotti Repórter, pela RBS). Além de uma série de livros com as melhores charges, Iotti está lançando um DVD com o show onde interpreta seu personagem. Mais sobre o Iotti e seus personagens na página oficial do Radicci: http://www.radicci.com. br

Como você começou a desenhar? Seu trabalho foi desde o início direcionado para o humor? Carlos H. Iotti: Sou formado em Jornalismo pela UFRGS e foi ainda na faculdade que criei o meu primeiro personagem. Era um guerrilheiro trapalhão chamado Ernesto Che da Silva, uma espécie de sátira ao movimento estudantil da época. De lá para cá outros personagens foram criados (como Frederico e Fellini, que conta a história de amor e ódio entre um menino e seu gato -, Deus e o Diabo, que são uma dupla de criação publicitária, Adão Hussein e o Radicci e a Genoveva) e aí de cara percebi que normalmente tudo que é trabalhado com humor fica mais leve, mais

digerível. É muito melhor ler uma charge do que um editorial, por exemplo. Sem esquecer que o editorial tem um mérito maior, quando bem escrito. Então me aventurei como jornalista na área do cartunismo. Como funciona o processo de criação de suas personagens? O Radicci, por exemplo, de onde veio a inspiração? O Radicci foi criado em 1983 para ser a síntese do nosso colono. Uma caricatura do tipo italiano que aportou em 1875 e seus descendentes. Uma caricatura dos hábitos, dos costumes e da fala dessa gente. Se é que é possível fazer uma caricatura disso.

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Ele é uma HQ regional. É muito conhecida no Sul do país, mas é uma tira regional. Eu acredito que o público se identifica com a família Radicci, pois ela fala do cotidiano, do dia a dia do colono. Que pode acontecer ali com o colono, mas que pode acontecer em outros lares, em outras formações. Como é a tua relação com o Radicci? Tem gente que te confunde com ele? Iotti: Às vezes há uma confusão entre criador e criatura e aí as pessoas esperam que eu me comporte como o Radicci. Não fazem a distinção entre o Iotti e o intérprete do Radicci. Isso sempre gera fatos engraçados, que até rendem repertório pras piadas mesmo. Um dia, encontrei um colono ali do Desvio Rizzo (distrito de Caxias). Ele me olhou embasbacado e disse: - Oh, tu que é o Radicci? - Sim, sou eu! - Ma Dio! Até meio negro tu é! - Eu fiquei rindo, fazer o quê? Um dia fui a Ibiçá. Acho que toda a cidade estava reunida no salão paroquial. Eu tinha voltado da praia

e estava todo bronzeadão. Para realçar minha cor, coloquei um terno branco, bonito. Entrei no salão e disse: “Alôôôô, guRRizada!”. Bem, tudo ficou no mais absoluto silêncio. Eu só ouvia o bater de asas de uma mariposa que estava rondando a luminária. E, no meio daquele vazio sonoro, alguém cochichou: “Bah, esse daí que é o Radicci?”. O pessoal fica um pouco decepcionado, sabe, porque espera que eu seja gordo e bonachão. Em cada lugar que eu vou é a mesma reação. O que você lê? Iotti: Leio de tudo. De bula de remédio a romance. Gosto muito de autores como Tabajara Ruas, Ernest Hemingway, livros com a temática de mar e guerra também vejo de tudo. E que história foi essa de senador romano? Iotti: Me convidaram a fazer parte de um movimento não-partidário, associativo, o que foi me convencedo no sentido de ver que sim, talvez fosse possível ajudar de alguma forma os descendentes, as pessoas

com dupla cidadania, etc. O convite partiu mais para lidar com questões relativas à cultura, a intercambiar as coisas entre Brasil e Itália e obtive 14 mil votos. Fui o brasileiro mais votado e sou suplente de senador na Itália agora. Há alguma técnica à qual você recorre para causar o riso? Conte-nos o seu segredo. Iotti: Sou um tanto tímido, tenho de embarcar na onda dos personagens e aí vou me soltando. Na verdade não há nenhuma grande técnica assim. Escrever sob prazos é um estímulo ou um obstáculo para você? Iotti: Ter prazo é sempre um estímulo. Jornalista que não tiver prazo não escreve (risos). Iotti, dê uma definição acadêmica para quem não conhece o “sotacón”. Quem são os falantes dessa variante lingüística? É português, é italiano, é gauchês...?

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Iotti: É uma variante que mistura o italiano e o português – utilizando a fonética do colono, transpondo isso para a grafia sem nenhum filtro. Quando ingressou na faculdade, sua intenção já era atuar como ilustrador ou você tinha outras aspirações?

tiras futuras? Iotti: Na verdade foi um editor que ficou com receio de publicar em virtude de uns leitores bem religiosos. A maioria das pessoas costuma me dar um retorno bacana, mas polêmica sempre é bom, instiga a fazer mais coisas.

e não apenas um produto comercial. Qual é a tua opinião em relação a isso? E como você vê o espaço do cartunista nesse meio? Você se considera um artista? Os quadrinhos aos poucos foram galgando um lugar muito legal, de espaço, de visibilidade, de patamar artístico também. Há sempre quadrinhos muito legais e gente que tem um traço que eu admiro muito. Eu gosto muito dos desenhistas locais. O Santiago e o Edgar Vasques são chargistas que eu conheço e admiro. Também tem o Jaguar, que é carioca, que foi editor do Pasquim, um marco no jornalismo brasileiro. Gosto ainda do Ziraldo e do Angeli, que é o criador do Chiclete com Banana e atualmente está fazendo as charges na Folha de São Paulo. A maioria do pessoal que lida com quadrinhos está lutando muito ainda

Qual considera o seu Iotti: O desenho foi um melhor desempenho: a caminho natural. Eu simimagem ou o texto? Qual plesmente não parei de custa mais a apurar? desenhar, como de Se você quiser Iotti: Demodo geral pende, tem as pessoas ser um chargista dias que a fazem quan- realmente, vai imagem é do “crescem”. melhor do precisar de muita que o texto e persistência. A sua «duvice-versa. pla da criação» foi Há quem objeto de diga que os quadrinhos protestos por parte de alguns leitores. Como é que já se aproximam de um patamar de arte, como você lida com os protesuma forma de literatura tos? Influenciam as suas

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para conseguir o seu lugar ao sol e ser reconhecido. Precisa existir uma valorização bem maior dentro dessa área. De todo modo, sempre tem surgido gente nova e a Internet é um meio muito bacana de divulgação desses trabalhos. Vira e mexe descubro alguma coisa diferente. No seu site tem uns contos narrados em “sotacón”. Além disso, você escreves ficção em português? Já pensou, ou até já tentou, transpor as histórias do Radicci em forma de microcontos? Iotti: Na verdade o que faço são quase pequenas crônicas neste estilo do sotacón. De quando em vez aplico de escrever como o Radicci e acaba sendo divertido também. Que dica, que recado, que recomendação você dá a

quem quer escrever humor? Iotti: Nunca desistam no primeiro “não”. Vocês vão receber vários deles durante a sua trajetória. Não tem espaço, não tem chance, não tem condições… Se desistir no primeiro “não”, não vai adiante. Tem que ser chato, tem que lutar. É um começo terrível, é uma verdadeira tragédia, porque o mercado é muito pequeno, limitado. Ou a pessoa abre o próprio mercado à base de muita perserverança, ou acaba indo para outro caminho, vai ser desenhista de publicidade ou algo parecido. Se você quiser ser um chargista realmente, vai precisar de muita persistência.

Coordenadora da entrevista: Maristela Deves Perguntas feitas por: Volmar Camargo Junior Carlos Alberto Barros Joaquim Bispo Henry Alfred Bugalho Maristela Deves

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microcontos

as viravoltas da vida
Henry Alfred Bugalho Na época da escola, todo mundo tirava sarro da “girafa”, que corria para o banheiro chorar sozinha. Ano passado, ela foi a modelo mais bem paga do mundo.

Sexo virtual
Henry Alfred Bugalho — Ai, gozei! E você? Mal sabia ele que o computador dela havia pifado.

medalhista de ouro
Henry Alfred Bugalho Na modalidade “xixi à distância”, ninguém derrotava o Marquinhos.

http://www1.pictures.gi.zimbio.com/2003+Victoria+Secret+Fashion+Show+vvTHm88Qpynl.jpg

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desencontros
Platão? que Platão?
Volmar Camargo Junior
— Ouvi dizer que todas as coisas do mundo, um dia, existiram no mundo das idéias. Então, como podemos saber se na verdade, o mundo das idéias não é aqui? Às vezes, eu penso que sou apenas um personagem na imaginação de um escritor desocupado e... [Estas foram as primeiras e as últimas palavras de um personagem que não entrou em nenhuma das minhas histórias. Não tenho paciência para esses atrevimentos.]

Pequenos
http://www.pedagogy.ca/Sanzio_01_Plato_Aristotle.jpg

Primeiro amor
Volmar Camargo Junior
Orlando reconheceu na rua a menina por quem havia se apaixonado nos tempos do primário, e correu para dar-lhe um abraço. Thereza, abordada por um desconhecido com tamanha intimidade, achou que seria descortês dizer-lhe que foi um engano, mas evitou o contato físico. Soldado Juarez, à paisana, viu na cena um princípio de assalto, e com dois golpes fulminantes nocauteou e imobilizou o suspeito. Um cinegrafista amador filmou com a câmera do telefone celular a ação do policial responsável pela captura de Orlando Silva da Silva, estelionatário, que estava foragido havia meses. Nem depois de a foto do dito cujo sair nas manchetes dos noticiários Thereza associou aquela cara à do gorducho que lhe deu um beijo babado na quarta-série. Naquela época, ela só tinha olhos para o Roberto Carlos.

Voyeurismo
Volmar Camargo Junior
Todos os dias, o menino espiava pelo buraco no muro do vizinho, e do outro lado via um gramado e, à distância, uma cabana na árvore. Tocado pelo remorso, o pai esmerou-se para fazer um bela plataforma de madeira, sustentada pelos galhos da mangueira que havia em seu próprio pátio. Feliz da vida, o menino correu até seu baú de brinquedos, tirando de lá o binóculo que ganhara no Natal. Finalmente teria uma vista privilegiada da tão amada cabaninha do quintal ao lado.

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o homo absurdus

recomendações de Leitura

de Camus
Henry Alfred Bugalho

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Albert Camus é um dos grandes autores do século XX, e sua obra é um símbolo da crise epistemológica, ética e ontológica do Homem contemporâneo.

supremo exercício da liberdade. O homem é livre, e tirar a própria vida é um ato de liberdade.

As duas primeiras obras de Camus abordam tais problemas. É imposPor um lado, sível negar Quando o Homem temos uma a influência compreende-se em obra ficcioque Nietzsche sua absurdez, ele nal austera, exerceu sobre deixa de buscar o com uma o pensamenlinguagem to e arte do sentido, e passa a comedida e século XX. criá-lo. um enredo A ruptura atômico: “O irremediáEstrangeiro”; por outro lado, vel entre mundo de fato e o há uma obra filosófica, com mundo inteligível, a relatiuma linguagem que parevização de todas as noções ce se aproximar do estilo morais, a certeza de que não sartreano, dividida em vários existem certezas e o fim de ensaios, na qual tais questões todo e qualquer sentido paisão apresentadas explícitarou sobre as filosofias da Europa continenal - de Husserl, mente: O Mito de Sísifo. de Heidegger, de Sartre, de Temos de pensar nestas Merleau-Ponty, de Foucault duas obras em paralelo, pois - , sobre todas as formas de uma esclarece a outra. expressão artística - o modernismo, o surrealismo, o Em O Estrangeiro, o protaconcretismo, o pós-modernisgonista é um sujeito chamamo - e também assombrou a do Mersault. Literatura. A obra é divida em duas Camus é um filho desta geração esvaziada de sentido. partes: Dois temas são fundamentais - Na pripara esta geração: o sentido da existência e a morte. Am- meira delas, bas questões se interligam: se Mersault acompanha não existe um sentido para o velório e a vida, por que viver? O que o enterro me impede de me matar? de sua própria mãe. O Para Sartre, o gênio inprotagonista telectual da época, cometer é indiferente suicídio não era um ato ao fato, age imoral, aliás era um ato de

quase mecanicamente, cumprindo o protocolo. Logo após o sepultamento, retorna ao marasmo da sua existência, que é quebrado quando Mersault assassina, sem nenhuma razão óbvia, um árabe na praia; - Na segunda parte, assistimos ao julgamente do protagonista. Ele é condenado à morte e, nos dias antes de sua execução, Mersault analisa vários conceitos morais e sociais, sem identificar-se com eles, renegando-os. É a parte filosófica. O protagonista move-se num universo ausente de sentido, realiza atos também desprovidos de sentido, não tem remoso, e só passa a fazer uma revisão de seus conceitos diante da presença inevitável da morte. Em O Mito de Sísifo possuímos a explicitação teórica da prática literária de Camus. Nesta coleção de ensaios, a tese básica pode ser resumida da seguinte maneira: “o Homem vive por causa da esperança do amanhã, mas cada dia que passa não o aproxima do futuro, e sim da morte. Mas o Homem prefere

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ignorar a presença da morte e vive uma vida de fingimento, considerando o mundo como familiar, quando, na verdade, o mundo é hostil, inóspito, absurdo e não fornece respostas.” A saída para este abismo - representado pelo absurdo da existência - não é o suicídio, por ela ser a negação da existência, mas sim a revolta. Quando o Homem compreende-se em sua absurdez, ele deixa de buscar o sentido, e passa a criá-lo. A metáfora para este homo absurdus, para Camus, é o mito de Sísifo, aquele que, na mitologia grega, desafiou os deuses olímpicos e foi condenado a empurrar

uma rocha até o topo dum penhasco, por toda a eternidade. Toda vez que a rocha era carregada até o cimo, ela rolava morro abaixo. Sísifo deveria, então, perfazer esta tarefa inglória e sem sentido por toda sua existência. Para Camus, somos como Sísifo, realizando projetos e tarefas sem sentido e que sempre redundam em nada, ou conduzindo-nos para a morte. A obra deste autor francês, laureado pelo Prêmio Nobel em 1957, é profunda, apesar da superficial leveza, e causa o mal-estar de toda quebra de paradigmas.

O Estrangeiro Autor: Albert Camus Editora: Record Publicação: 2001

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Jane Eyre,
de Charlotte Brönte
Guilherme Rodrigues
Jane Eyre é um romance gótico escrito pela escritora inglesa Charlotte Brontë e publicado pela primeira vez em 1847. Jane Eyre, a personagemprotagonista, órfã de pai e mãe, vive terríveis dias na casa de seu tio após seu falecimento. Passa a ser criada pela senhora Reed, esposa do falecido, uma pessoa cruel que a deixava presa num quarto escuro para amedrontá-la e afastá-la de seu filho John. O qual sempre batia na pobre e indefesa Jane. Certo dia, ela resolveu, então mandá-la para Lowood School cuja escola era destinada para crianças órfãs. Esta instituição, administrada pelo clérigo Brocklehurst, homem religioso, mas de gestos desumanos e cruéis com seus subalternos. Ele, influenciado pela senhora Reed, dizia ser ela uma menina rebelde, mentirosa e que não merecia a confiança de ninguém. No entanto, Jane encontrou uma aliada na escola, a senhorita Temple, a quem tinha amizade e a defendia dos impropérios do administrador de Lowood School. Jane fez amizades com suas colegas, mas, infelizmente, a escola não era um lugar feliz e algumas de suas amigas vieram a

recomendações de Leitura

morrer. O tempo se passou, ela, uma mulher à frente de seu tempo, foi aprendendo as lições até se tornar professora de Lowood School. No entanto, com a partida de sua amiga e aliada, a senhorita Temple, que havia se casado, procurou um novo trabalho. Então, Jane mudou-se para Thornfield Hall, a casa do senhor Edward, para cuidar da pequena Adele. Seu vínculo como professora foi se ampliando e logo conseguiu com suas habilidades em línguas e pintura, também mexer com o senhor Edward. Tudo do melhor que um romance gótico poderia ter. O cenário sombrio, o misterioso, o terror e a névoa envolvem o leitor para um mundo fantástico e sobrenatural. O livro pode ser considerado uma autobiografia de Charlotte Brontë, pois há muitas semelhanças entre ela e Jane Eyre. Eram órfãs, viveram em orfanatos, foram professoras e mulheres independentes. Jane Eyre mostra que já naquela época a mulher, muito desprezada e encarregada de cuidar das tarefas domésticas apenas, podia ser independente e demonstrar sua capacidade perante a sociedade.

O livro pode ser considerado uma autobiografia de Charlotte Brontë, pois há muitas semelhanças entre ela e Jane Eyre.

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recomendações de Leitura

Preconceito,
de Jane austen
Guilherme Rodrigues
Orgulho e Preconceito é o romance mais popular da escritora inglesa Jane Austen. Foi publicado pela primeira vez em 1813 e chegou a se chamar Primeiras Impressões. embora nunca impresso com este título. A História nos é apresentada de uma maneira inteligente e cômica e com um estilo sarcástico em que as personagens nos são reveladas aos poucos. Na Inglaterra rural do século XVII a chegada ao local do milionário sr. Darcy, uma pessoa muito bonita e fria, cria grande expectativa dentro da família Bennet. A sr.ª Bennet, até então desconsolada com as filhas ainda não casadas, tem esperança de que uma delas irá conquistar o jovem aristocrata. O romance conta sobre as filhas de uma família campestre, sobretudo o ódio e amor entre Elizabeth e o sr. Darcy. Ela cria preconceitos sobre ele, que a insultou no baile, e nos comentários maldosos dos amigos. Um não declara amor pelo outro de princípio, eles relutam. No entanto, enquanto ela se ocupa com os romances e escândalos das suas irmãs, se encontra novamente na companhia dele. Progressivamente as suas opiniões em relação a este jovem começam a mudar. Darcy é um homem orgulhoso por ser o mais rico das redondezas, e se sente superior àquelas pessoas do campo, considerando-as boêmias e preconceituosas. Com o desenrolar

orgulho e

da trama, Darcy e Elizabeth revelam o amor que um sente pelo outro. Jane, a filha mais velha dos Bennet, é uma jovem muito bonita com uma personalidade cativante. O sr. Bingley, o amigo de Darcy, apaixona-se por ela. Lydia, a filha mais nova, mimada pela mãe, é vaidosa e frágil que nunca pensa nas conseqüências dos seus atos, foge com o jovem Wikham, que nada vale, e coloca o nome desta família em perigo. A história se mantém atual mesmo nos dias de hoje que mostra o preconceito por diferentes classes sociais e o amor juvenil e leviano; e a influência e manipulação das famílias para conseguirem uma situação melhor, preocupados com os olhares da sociedade.

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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como umas das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

http://oficinaeditora.org/

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autor em Língua Portuguesa

o duPLo
Coelho Neto
- Temos, então, um caso de desdobramento da personalidade do meu querido amigo? - Quem te disse ? - Laura. Benito Soares ficou um momento encarado no coronel. Por fim, meneando com a cabeça, desabafou contrariando: - Laura... Laura faz mal em andar contando essa história por aí. - Que tem? - Ora! Que tem... Há dias, em casa do Leivas, pouco faltou para que eu rompesse com o Malveiro, a propósito do que se deu comigo, e que lhe contaram não sei onde, entendeu que me devia tomar à sua conta, expondo-me à risota de uns petimetres ridículos que o cercam. Fiz-lhe sentir que não me agradavam os seus remoques e deixei-o com os tais mocinhos, que lhe aplaudem os versos quando ele lhes paga a cerveja ou o chá, aí por essas casas. Não ando a pregar doutrinas: não sou sectário, não freqüento sessões nem leio, sequer, as tais obras de propaganda que pretendem revelar o que se passa no Além da morte. Sou religioso à velha moda, observando a doutrina que aprendi, ainda que não ande beata-

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mente pelas igrejas de círio e ripanço. Cumpro rigorosamente os Mandamentos e os marcos que limitam a minha Crença são os quatro evangelistas; fora de tais “termos” não dou um passo - nem para diante, seguindo os reformadores, que pregam o novo Credo, nem para trás acercando-me de altares pagãos ou adorando ídolos grosseiros. Onde me deixaram meus pais, que foram os meus iniciadores, aí ficarei até morrer. Contei a Laura a tal história como contaria um acidente qualquer de rua, sem cuidar que ela fizesse do caso assunto de palestra nos salões que freqüenta. O resultado disso é o que se está dando comigo, aborrecendo-me, irritandome, porque desconfio de todos os olhares e, se alguém sorri à minha passagem, imaginando que comenta o meu caso, fico logo pelos cabelos. - Mas, afinal, como foi? Comigo podes abrir-te sem receio. Sabes que, além de discreto, não sou dos que zombam do sobrenatural. Os fatos ai estão: produzem-se, reproduzem-se e, se ninguém os explica, muitos dão deles testemunho e provas e eles, efetivamente, manifestam-se visível, sensivelmente. Os cépticos encolhem os ombros sorrindo, os adversários, à falta de argumentos com que os destruam,

bradam contra os que os apregoam. A verdade, porém, é que nos achamos diante de uma porta de bronze que nos veda um grande mistério, ou melhor - Mistério. Mas já é muito havermos chegado à porta. Sente-se que além dos túmulos, que são limiares de outro mundo, há alguma coisa que... ninguém sabe o que é. A porta mantém-se fechada, deixando apenas passar um rastinho de luz no qual flutuam indícios, revelações vagas, como átomos nos raios de sol. Mas deixemos as dissertações para mais tarde. Vamos ao teu caso. Foi, então, um desdobramento da tua personalidade...? - Não sei que foi. Digo-te apenas que passei os minutos mais angustiosos da minha vida. Saindo do Alvear, subi vagarosamente a Avenida até a Tabacaria Londres, onde comprei charutos e estive um instante a conversar com o Borges sobre coisas da vida. O Borges anda com a mania dos Marcos; possuí não sei quantos milhões, e espera que a Alemanha recomponha as finanças para aturdir-nos, a nós e ao mundo, com a vida maravilhosa que tem toda em plano. O que me está parecendo é que o pobre está com o juízo em pior estado de que as finanças germânicas. Enfim, dei-

xando o Borges, dirigi-me, sem mais empeços, para a Galeria, onde comprei os jornais. O meu bonde apareceu logo e logo foi assaltado. Não consegui uma ponta e fiquei entalado no banco da frente, entre um obeso cavalheiro ruivo e uma matrona anafada, dessas que se esparralham. O bonde partiu e, oprimido pelas duas enxúndias, dificilmente consegui abrir um dos jornais. Pus-me a ler, ou antes: a olhar a página porque, em verdade, a minha atenção vagueava, aí por longe. Os olhos passeavam pelas palavras, sem que o espírito lhe colhesse o sentido, como deve acontecer com os aviadores que vêem, de muito alto, todo o panorama de uma cidade em mancha, sem distinguir os bairros, as ruas, os edifícios, apenas o alvejamento das casas, a placa cintilante do mar, o relevo dos montes. Sentia-me atraído por alguma coisa. Voltei página do jornal - a mesma confusão, o mesmo empastamento. Foi então, que levantei a cabeça, olhando em frente e vi, meu amigo, vi...! - Viste...? - A mim mesmo, a mim! Eu, eu em pessoa sentado defronte de mim, no banco da frente, que dá costas à plataforma. Era eu, eu! como refletido em um espelho, e certo estremeci vivamente, incomodando os

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meus companheiros laterais, porque ambos voltaram-se encarando-se de má sombra. Pasmado, sem poder desfitar os olhos daquele reflexo, que era, em tudo, eu: nas feições, na atitude, no trajo, não parecido, mas reproduzido em exteriorização, pensei de mim comigo: “Se tal se dá é que o meu espírito, alma, ou lá o que seja, exalou-se de mim, deixando-me apenas o corpo, como a borboleta deixa o casulo em que se opera a metamorfose. Assim, pois, o que ali se achava, no bonde, era uma massa inerte, sustida pelos dois corpanzis que ladeavam. E, em menos de um segundo, vi todo o horror da cena, que seria cômica, se não fosse trágica, que se daria com a retirada de um daqueles gordos. Desamparado, o meu corpo vazio tombaria. Darse-ia, então, o alarma: todos os passageiros de pé, a verificação da minha morte, o reconhecimento do meu cadáver pelo condutor e a minha entrada fúnebre em casa”. Que angústia, meu amigo! E o outro lá estava em frente a olhar-me, como se gozasse com o meu sofrimento. Lembrei-me, então, de fazer um movimento com os braços, com as mãos; o receio, porém, de ser a minha vontade atendida pelos nervos fez-me hesitar. Mas eu pensava,

raciocinava. Sim, mas o corpo não esfria de repente e tais pensamentos e tais raciocínios podiam ser ainda restos de energia d’alma que me houvessem ficado nas células, como fica nas polias o movimento ainda depois do motor parado. Sentia-me rígido, petrificado e tinha a sensação de frio, como se me fosse congelando, a começar pelos pés. E o outro sempre encarado em mim. Fiz um esforço supremo como se quisesse levantar o bonde com todos os passageiros que ele continha e, arremessando os braços, pus-me de pé. A matrona levantou a cabeça com atrevimento e olhou-me com tal carranca que eu pensei que me fosse agatafunhar ou, com a força dos braços, que eram duas coxas, atirar-me do bonde abaixo e o ruivo roncou ameaçadoramente, aprumando a cabeçorra quadrada de ulano com entono de desafio. Mas que me importavam ameaças A minha alegria era grande e tornou-se maior quando, ao procurar com os olhos o meu outro “eu”, não o vi mais. Teria descido? Não ! Não descera. Tornara a mim, atraído pela vontade, na ânsia de viver, no desespero em que me vi, só comparável ao de alguém que, indo ao fundo, sem saber nadar,

debate-se agoniadamente conseguindo elevar-se à tona e gritar a socorro. E tudo isso, meu amigo, não durou, talvez, um minuto e eu guardo de tais instantes a impressão penosa de um século de sofrimento. Eis o meu caso, o caso que tantos aborrecimentos me tem trazido pela tagarelice de Laura, a quem o contei, e que o repete por aí, a todo o mundo. E crença que D. Juan de Maraña, encontrando-se, certa noite, com um saimento, perguntou a um dos que conduziam o esquife: ‘~ Quem era o morto?” E logo lhe foi respondido: - É D. Juan de Maraña. Querendo o fidalgo verificar o que lhe dizia o farricoco e outros sinistramente repetiam, afastou o sudário e viu. Efetivamente: o defunto era ele. E tal visão foi que o levou ao arrependimento. Pois comigo a coisa foi num bonde. Eu vi-me, como te estou vendo; a mim, entendes? a mim! Como explicas tal coisa? - Essas coisas, meu amigo, não se explicam: registamse, são observações, fatos, elementos para a Ciência do Futuro, que será, talvez, Ciência da Verdade.

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Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor, político e professor brasileiro. Nascido em épocas antes na vila de Caxias interior do Maranhão. Foram seus pais Antônio da Fonseca Coelho, português, e Ana Silvestre Coelho, de sangue índio. Tinha seis anos quando seus pais se transferiram para o Rio. Fez os seus preparatórios no Externato do Colégio Pedro II. Tentou o curso de Medicina, logo desistindo. Em 1883 matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, morando na pensão em que vivia Raul Pompéia, que também frequentava a Academia de São Paulo à época. Seu espírito irrequieto encontrou ali ótimo ambiente para destemidas expansões, e logo ele se viu envolvido num movimento dos estudantes contra um professor. Antevendo represálias, transferiu-se para a faculdade de Recife, onde completou o primeiro ano de Direito, tendo sido aluno do jurista e poeta Tobias Barreto. Regressando a São Paulo, dedicou-se ardentemente à campanha abolicionista e republicana, atitute que rendeu-lhe novos atritos com o corpo docente da Faculdade do Largo de São Francisco. Em 1885 desistiu, por fim, de suas pretensões jurídicas, e transferiu-se para o Rio de Janeiro. Fez parte do grupo de boêmios que abrangia figuras da monta de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimaraens Passos e Paula Ney. A história dessa geração apareceria depois em seus romance A Conquista e Fogo Fátuo, dedicado este ao amigo Francisco de Paula Ney, jornalista e brilhante orador

conhecido por sua boemia e seu célebre anedotário. Tornou-se companheiro assíduo de José do Patrocínio, na campanha abolicionista. Ingressou no jornal Gazeta da Tarde, passando depois para a folha Cidade do Rio, onde chegou a exercer o cargo de secretário. Desta época datam seus primeiros volumes publicados. Em 1890, contraiu matrimônio com Maria Gabriela Brandão, filha do educador Alberto Olympio Brandão. Tiveram 14 filhos. Foi nomeado para o cargo de secretário do Governo do Estado do Rio de Janeiro e, no ano seguinte, diretor dos Negócios do Estado. Em 1892, foi nomeado professor de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes e, mais tarde, professor de Literatura do Colégio Pedro II. Autor de numerosos livros, artigos, crônicas e folhetins, em 1910, foi nomeado professor de História do Teatro e Literatura Dramática da Escola de Arte Dramática, sendo logo depois diretor do estabelecimento. Eleito deputado federal pelo Maranhão, em 1909, e reeleito em 1917. Foi também secretário-geral da Liga de Defesa Nacional e membro do Conselho Consultivo do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Além de exercer os cargos públicos, Coelho Neto manteve e multiplicou a sua atividade em revistas e jornais de todos os feitios, no Rio e em outras cidades. Além de assinar trabalhos com seu próprio nome, escrevia sob inúmeros pseudônimos, entre eles Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, FurFur, Manés. Em 1923, converteu-se ao Espiritismo.

Cultivou praticamente todos os gêneros literários e foi, por muitos anos, o escritor mais lido do Brasil, tendo, provavelmente a sua maior consagração ao ser nomeado, em votação aberta ao público promovida pela revista O Malho, o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", em 1928. Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido sua pessoa e sua obra furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.

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autor em Língua Portuguesa
XIX
Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento Etéreo, onde subiste, Memória desta vida se consente, Não te esqueças daquele amor ardente, Que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer-te Alguma cousa a dor que me ficou Da mágoa, sem remédio, de perder-te, Roga a Deus, que teus anos encurtou, Que tão cedo de cá me leve a ver-te, Quão cedo de meus olhos te levou.

SoNEtoS
Camões

XXVII
Males, que contra mim vos conjurastes, Quanto há-de durar tão duro intento? Se dura, por que dure meu tormento, Baste-vos quanto já me atormentastes. Mas se assim porfiais, porque cuidastes Derribar o meu alto pensamento, Mais pode a causa dele, em que o sustento, Que vós, que dela mesma o ser tomastes. E pois vossa tenção com minha morte É de acabar o mal destes amores, Dai já fim a tormento tão comprido. Assim de ambos contente será a sorte: Em vós por acabar-me, vencedores, Em mim porque acabei de vós vencido.

LXXXI
Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se e contente; É um cuidar que ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 10 de Junho de 1580) é frequentemente considerado como o maior poeta de língua portuguesa e dos maiores da Humanidade. O seu génio é comparável ao de Virgílio, Dante, Cervantes ou Shakespeare. Das suas obras, a epopéia Os Lusíadas é a mais significativa. Desconhece-se a data e o local onde terá nascido Camões. Admite-se que nasceu entre 1517 e 1525. A sua família é de origem galega que se fixou na cidade de Chaves e mais tarde terá ido para Coimbra e para Lisboa, lugares que reivindicam ser o local de seu nascimento. Frequentemente falase também em Alenquer, mas isto deve-se a uma má interpretação de um dos seus sonetos, onde Camões escreveu "[…] / Criou-me Portugal na verde e cara / pátria minha Alenquer […]". Esta frase isolada e a escrita do soneto na primeira pessoa levam as pessoas a pensarem que é Camões a falar de si. Mas a leitura atenta e completa do soneto permite concluir que os factos aí presentes não se associam à vida de Camões. Camões escreveu o soneto como se fosse um indivíduo, provavelmente um conhecido seu, que já teria morrido com menos de 25 anos de idade, longe da pátria, tendo como sepultura o mar. O pai de Camões foi Simão Vaz de Camões e sua mãe Ana de Sá e Macedo. Por via paterna, Camões seria trineto do trovador galego Vasco Pires de Camões, e por via materna, aparentado com o navegador Vasco da Gama. Entre 1542 e 1545, viveu em Lisboa, trocando os estudos pelo ambiente da corte de D. João III, conquistando fama de poeta e feitio altivo. Viveu algum tempo em Coimbra onde teria freqüentado o curso de Humanidades, talvez no Mosteiro de Santa Cruz, onde tinha um tio padre, D. Bento de Camões. Não há registos da passagem do poeta por Coimbra. Em todo o caso, a cultura refinada dos seus escritos torna a única universidade de Portugal do tempo como o lugar mais provável de

seus estudos. Ligado à casa do Conde de Linhares, D. Francisco de Noronha, e talvez preceptor do filho D. António, segue para Ceuta em 1549 e por lá fica até 1551. Era uma aventura comum na carreira militar dos jovens, recordada na elegia Aquela que de amor descomedido. Num cerco, teve um dos olhos vazados por uma seta pela fúria rara de Marte. Ainda assim, manteve as suas potencialidades de combate. De regresso a Lisboa, não tarda em retomar a vida boémia. São-lhe atribuídos vários amores, não só por damas da corte mas até pela própria irmã do Rei D. Manuel I. Teria caído em desgraça, a ponto de ser desterrado para Constância. Não há, porém, o menor fundamento documental de que tal fato tenha ocorrido. No dia de Corpus Christi de 1552 entra em rixa, e fere um certo Gonçalo Borges. Preso, é libertado por carta régia de perdão de 7 de Março de 1553, embarcando para a Índia na armada de Fernão Álvares Cabral, a 24 desse mesmo mês. Chegado a Goa, Camões toma parte na expedição do vice-rei D. Afonso de Noronha contra o rei de Chembe, conhecido como o "rei da pimenta". A esta primeira expedição refere-se a elegia "O Poeta Simónides falando". Depois Camões fixou-se em Goa onde escreveu grande parte da sua obra épica. Considerou a cidade como uma "madrasta de todos os homens honestos" e ali estudou os costumes de cristãos e hindus, e a geografia e a história locais. Tomou parte em mais expedições militares. Entre Fevereiro e Novembro de 1554 integrou a Armada de D. Fernando de Meneses, constituída por mais de 1000 homens e 30 embarcações, ao Golfo Pérsico, aí sentindo a amargura expressa na canção "Junto de um seco, fero e estéril monte". No regresso foi nomeado "provedormor dos defuntos nas partes da China" pelo Governador Francisco Barreto, para quem escreveria o "Auto do Filodemo". Em 1556 partiu para Macau,

onde continuou os seus escritos. Viveu numa gruta, hoje com o seu nome, e aí terá escrito boa parte d'Os Lusíadas. Naufragou na foz do rio Mekong, onde conservou de forma heróica o manuscrito da obra, então já adiantada (cf. Lus., X, 128). No desastre teria morrido a sua companheira chinesa Dinamene, celebrada em série de sonetos. É possível que datem igualmente dessa época ou tenham nascido dessa dolorosa experiência as redondilhas "Sôbolos rios". Regressou a Goa antes de Agosto de 1560 e pediu a protecção do Vice-rei D. Constantino de Bragança num longo poema em oitavas. Aprisionado por dívidas, dirigiu súplicas em verso ao novo Vice-rei, D. Francisco Coutinho, conde do Redondo, para ser liberto. De regresso ao reino, em 1568 fez escala na ilha de Moçambique, onde, passados dois anos, Diogo do Couto o encontrou, como relata na sua obra, acrescentando que o poeta estava "tão pobre que vivia de amigos" (Década 8.ª da Ásia). Trabalhava então na revisão de Os Lusíadas e na composição de "um Parnaso de Luís de Camões, com poesia, filosofia e outras ciências", obra roubada. Diogo do Couto pagou-lhe o resto da viagem até Lisboa, onde Camões aportou em 1570. Em 1580, em Lisboa, assistiu à partida do exército português para o norte de África. Faleceu numa casa de Santana, em Lisboa, sendo enterrado numa campa rasa numa das igrejas das proximidades. Os seus restos encontram-se atualmente no Mosteiro dos Jerónimos.

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Contos

Lavadeiras (detalhe) Cândido Portinari óleo sobre tela 1944

o Sabão
milagroso
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Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

No tempo em não existia nem água encanada, instalou-se na cidade uma fábrica de sabão. Era uma coisa de outro mundo, porque desde sempre só se usava daquele sabão brabo feito em casa. Os ingredientes eram coisas comuns, como banha de porco, soda, cinzas, essas coisas. O sabão da fábrica, coisa fina, tinha um componente que até então ninguém havia sentido falta: perfume. Depois que as primeiras barras apareceram — tanto no Mercado Público quanto no Bolichão do Ataliba, as donas-decasa abandonaram completamente o sabãozinho caseiro. Em pouco tempo, ninguém mais sabia a receita. Bom, dizer ninguém é um exagero. Uma pessoa ainda sabia. Dona Maricota era uma mestiça de gringa com bugre, gorducha, que a essa época já estava meio senil. Era do tipo de gente para quem o século XIX não tinha acabado, nem o século XX tinha começado, nem sabia nada dessa coisa de séculos. Pois Dona Maricota não se importava com o perfume do sabão da fábrica – e insistia em teimar com as comadres que sabão perfumado não servia para lavar roupa.

A fábrica estava tendo êxito, mandando carregamentos para os quatro cantos do Rio Grande, quando o proprietário da fábrica, Doutor Jorge Gusmão, Engenheiro Químico, (chamado às escondidas “Jorge Sabão”) tomou conhecimento que as vendas estavam diminuindo drasticamente na cidade-sede da fábrica. Percorrendo Pereirópolis ele mesmo, de vendinha em vendinha, e mesmo no “mercadão” do finado Malaquias, encontrou caixas empoeiradas do sabão perfumado, encalhadas nas prateleiras e nos depósitos. “Agora, só querem saber do sabão milagroso da Dona Maricota” diziam os comerciantes. Doutor Jorge Gusmão, Engenheiro Químico, quis conhecer o produto da concorrência. A primeira coisa que notou era que o sabão da Dona Maricota não tinha cheiro algum. A textura era muito parecida a de uma... pedra-sabão. Submeteu-o a todos os testes químicos possíveis para saber de que era feito – e para sua grata surpresa, não tinha nenhum dos componentes importados do seu. O problema foi quando submeteram o tal “sabão milagroso” ao teste definitivo: o tanque de roupa suja. Doutor Jorge Gusmão, Engenheiro Químico, não conseguia acreditar quan-

do suas técnicas-lavadeiras terminaram com quase quinhentos quilos de roupa suja sem diminuir um milímetro. E, ainda mais estranho, ficava tudo impecavelmente limpo, sem nem precisar deixar quarando. Formou-se o rebuliço. Doutor Jorge Gusmão investiu do próprio dinheiro para adquirir todas as barras do sabão milagroso da concorrente. Vendeu o carro alemão, os ternos italianos, o cavalo árabe e as botas de Uruguaiana. Comprou para Dona Maricota uma fazendinha na França, garantindo-lhe uma formidável aposentadoria que, em dinheiro de hoje, daria uns bons cinco mil por mês. O sabão perfumado voltou a ser um sucesso. Doutor Jorge Gusmão, Engenheiro Químico, teve que inventar muitas variedades para poder manter a concorrente bem longe. Dona Maricota, todavia, nem lembrava mais de Pereirópolis. A última notícia que se teve dela é que os vinicultores da Borgonha andavam arrancando os cabelos por causa de uma certa velhinha que aprendeu a fabricar champanha. Dizem que as garrafas que ela vendia, por mais que se bebesse, não esvaziavam nunca.

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O Aniversário
de

Contos

J.S.B.

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

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Em 1999, a revista Der Spiegel publicou um artigo intitulado “Era Bach o melhor?”; conseqüência duma exumação feita no cemitério de Leipzig. Foi quando a seguinte história veio à tona. Durante as comemorações do aniversário de sessenta anos de Johann Sebastian Bach, um concurso foi organizado para determinar quem era o melhor organista da Europa. Na verdade, o intuito era apenas confirmar o que todos — concorrentes, jurados e até o próprio homenageado — já sabiam: Bach era o maior dos virtuosi. Músicos de todos os países, de todas as cidades e paróquias se congregaram em Leipzig para o festival, com duração de três dias. Os moradores decoraram as casas e as ruas, mais cheias de vida do que nunca, invadidas pela multidão de pessoas e idiomas, artistas e curiosos. Cada um dos concorrentes poderia praticar por algumas horas no magnífico órgão da Igreja de São Nicolau e se prehttp://www.flickr.com/photos/giefferre/2878541901/sizes/o/

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parar para o embate. No entanto, Bach não conseguiu conter a ansiedade e, durante os ensaios, se escondeu num canto da igreja para ouvir e constatar a perícia dos desafiantes. Após todos terem deitado os dedos no teclado do órgão, um dos organizadores da celebração indagou Bach: — E então? São bons músicos? — Todos, sem exceção. Aqui estão os melhores do mundo. O organizador limpou com um lenço o suor que lhe escorria pelas têmporas: — E dará tudo certo? Imagino que nenhum deles se equipare a você. — Eu não teria tanta certeza... — Bach gaguejou — Há um jovem com um talento extraordinário, muito mais hábil do que eu. — Impossível! Sua inspiração é divina, Sr. Bach. — Se minha inspiração é divina, então é a própria mão de Deus que toca através daquele rapaz. Se quisermos ser justos, o título de melhor organista do mundo de-

verá ser dado a ele. Os organizadores descobriram que o jovem se chamava Wolfram Benjamin, organista em Hamburgo, na casa dos trinta anos, genial e arrogante. Nem mesmo a ausência do pé esquerdo — amputado por causa dum tumor — reduzia sua desenvoltura nas pedaleiras. Além de brilhante intérprete, era um compositor incomparável. A constatação de que Bach não mentia os levou ao desespero, o festival seria arruinado. A data do aniversário chegou e, um a um, os competidores se apresentaram. Bach assistia a tudo em silêncio, sentado na primeira fila. Mas em nenhum dos três dias Wolfram Benjamin tocou. Ele simplesmente não compareceu ao desafio. A última apresentação foi de Johann Sebastian Bach. O clamor se ergueu, de boca em boca, pelas ruas de Leipzig: Bach havia vencido. Isto até 1994, quando foram necessárias reformas no cemitério da igreja. Numa cova sem iden-

tificação, encontraram a ossada dum homem, pé esquerdo amputado. Pesquisadores estudaram os restos mortais, vasculharam documentos da congregação, manuscritos e concluíram: aquele era Wolfram Benjamin, assassinado com um golpe de objeto rombudo no crânio. O escândalo se instaurou no mundo da música, vários críticos, musicólogos e especialistas se posicionaram em lados distintos da disputa, alguns defendiam a genialidade de Bach, outros, a interrompida carreira dum prodígio. O governo de Hamburgo exigiu retratação por parte do de Leipzig, além da redação duma nota pública expondo os fatos e afirmando que o organista hamburguense teria morrido por causa dum único crime — ser melhor do que Bach. Leipzig não cedeu, alegou desconhecimento do assunto e, segundo dizem, ocultou evidências, destruiu documentos históricos, tudo para apagar quaisquer vestígios da presença de Benjamin durante o aniversário de J. S. Bach.

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O artigo de Der Spiegel, poucos anos depois, reacendeu o debate. Os defensores de Benjamin requisitaram ao Kremlin o envio das partituras e do caderno de notas do organista. Alegaram que, durante a ocupação soviética, os russos apreenderam tais documentos nas dependências da igreja, mas os diretores do Kremlin negaram possuir qualquer informação sobre isto. E a contenda prossegue, com acusações, mentiras e evidências duvidosas. Talvez, um dia, encontremos o busto Wolfram Benjamin nas galerias da História e a epígrafe: “o melhor organista do mundo”; ou talvez sua imagem mais uma vez se desvaneça, restando apenas a imorredoura glória de J. S. B.

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Contos

Paulette na cidade
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Joaquim Bispo

Paulette, a Castanha, não queria acabar comida por um esquilo. Nem a sua ambição era ficar lá pela terra e um dia gerar um grande castanheiro. – Maior e mais majestoso que o papá – chilreavam de entusiasmo as irmãs. Antes de tomar qualquer decisão, queria saber o que havia para lá da curva do caminho. Um dia, de manhãzinha, disse adeus às duas irmãs, que se mantinham no aconchego do ouriço familiar, e partiu em direcção a Sul. A meio da manhã, encontrou outra Castanha como ela, mas mais anafada. – Olá! Quem és tu e para onde vais? – perguntou Paulette. – Sou uma Castanha da Índia e vou para a cidade. Uma prima arranjou-me trabalho – respondeu a outra radiosa nas suas bochechas luzidias. – Então vamos as duas! Mais à frente encontraram uma espécie de castanha pequenina e redondinha. – Olá! Quem és tu e para onde vais? – perguntou a Castanha? – Sou uma Avelã e vou para a cidade. Quero ga-

nhar dinheiro. – Então vamos as três! Por volta do meio-dia, num cruzamento, encontraram outras duas. – Olá! Quem são vocês e para onde é que vão? – disse a Castanha da Índia, que já tinha aprendido a senha. A mais encorpada respondeu: – Eu sou uma Noz e esta minha amiga é uma Amêndoa e vamos para a cidade estudar. Estamos fartas de ser casca-grossas. – Então vamos todas de companhia! – Era a vez da Avelã concluir. E lá foram divertidas e tagarelando a tarde inteira. Ao anoitecer, encontraram uma Castanha Pilada toda encarquilhada, que lhes ofereceu guarida. Aceitaram agradecidas, que a noite está cheia de roedores. Mas apenas começou a haver luz, partiram e chegaram à cidade ainda de manhã. Deram uma volta a apreciar os prédios enormes e o formigueiro dos carros. Depois encontraram um jornal de anúncios grátis. – Olha este – disse a Amêndoa. – «Precisa-se amêndoa para fábrica de doces conventuais». Vou responder! Se for um part-

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time, posso ganhar uns dinheirinhos e ter tempo para estudar. – Olha, este é para mim! – entusiasmou-se a Avelã – «Chocolataria procura avelã grada. Paga bem». Se ganhar muito dinheiro, compro um pulverizador à minha mãe. – Hum, não sei o que este é – disse a Castanha carregando o sobrolho – «Castanhas nacionais e estrangeiras. Quentes e boas!». É capaz de ser uma empresa de trabalho temporário. Mas não há mais nada! Combinaram que cada uma iria responder ao seu anúncio e que voltariam a juntar-se de tarde, excepto Paulette que ficou à espera de saber se havia vagas no trabalho da Castanha da Índia. À hora aprazada chegou a Noz muito zangada. Tinha ido responder a um anúncio para Segurança e tinham-lhe dito que era um estágio não remunerado. – Lá na terra nunca me fizeram uma proposta tão desavergonhada! – Eu cá, estou contente com o trabalho – disse a Castanha da Índia. – Fiquei a trabalhar em casa duma velhota simpática e o que tenho que fazer é só ficar numa gaveta de roupa a afugentar as traças. – O sorriso de orgulho que lhe

assomara à casca fechou-se logo a seguir. – Mas não é trabalho para vocês. Não têm este cheiro! Da Amêndoa e da Avelã, nem sinal. A Castanha da Índia teve que voltar ao trabalho. A Noz e a Castanha esperaram ainda umas duas horas, e como as outras não vinham, foram responder ao anúncio para a Paulette. Era numa rua estreita e o local de trabalho, envolto em fumo, não passava despercebido. Aproximaram-se, sem dizer nada, e ficaram à espreita, para descobrir qual era o ramo do patrão. Este, de bigodinho e cabelo com gel, pegava nas castanhas, dava-lhes um golpe na casca e atirava-as para um pote esburacado que tinha sobre brasas. Só então, horrorizadas, se aperceberam do cheiro a castanhas assadas que enchia o ar, e as viram amontoadas num grande tabuleiro. Estavam irreconhecíveis. A casca golpeada encanecera como noiva adiada e abrira-se pela acção do calor, deixando ver o delicado véu interior, que se separara do corpo expondo o miolo dourado das castanhas. «Que degradante! Porquê estas atrocidades, porquê?» – perguntavam-se. Observaram então como os homens se aproximavam de

olhos lúbricos e esmigalhavam com mãos papudas o resto de casca e de película que as castanhas ainda mantinham. E depois – oh horror! – de uma só dentada comiam-nas. Inteiras. Escapou-se-lhes um «Oh!» involuntário. O homem das castanhas viu-as e baixouse para as apanhar. Estava quase a agarrar Paulette quando a Noz, ginasticada e enraivecida pela repulsa, saltou. Apontou uma cabeçada aos dentes do homem. O lábio superior deste interpôs-se e ficou esmagado entre os próprios dentes e a cabeça dura da Noz. O homem gritou agarrado ao lábio a sangrar. Várias cabeças de homens se voltaram. A Castanha e a Noz sentiram aquelas dezenas de olhos sobre si. Um medo imenso apoderou-se delas. Fugiram dali tão depressa quanto conseguiram, sem olhar para trás. Ao virar uma esquina, quase foram esmagadas por um carro. Atiraram-se para o lado às cegas e caíram numa sarjeta. No escuro húmido e fétido, olharam em volta tentando enxergar o que quer que fosse. Só três pares de olhos brilhantes guinchavam.

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Dênis Moura

Conspiração zHaarP
“Em 2068, por todos os lugares do mundo, de um lado, sessenta famílias controlando toda a riqueza do planeta enquanto seus aparatos de poder reagem violentamente ao que chamam de desordem das massas. Do outro, milhões de pessoas invadem no mesmo instante os gabinetes corporativos e governamentais. São os braços de três bilhões de sobreviventes que se organizam mundialmente através da Grande Rede e deliberam regras para regular a desordem esgotadora de pessoas e natureza que perdurou por mais de cinco séculos.” - Não deixaremos que esta anarquia continue a assolar o mundo. - Diz um bigodudo senhor no meio da imensa mesa de sessenta lugares ocupados. - De hoje não passará, senhor Karl Mittali. Apresento-lhes o plano que nossas corporações deverão seguir. Todos olham ansiosos para o grande holograma que surgiu no auto da mesa. Walton Lee Rockefeller prossegue: - Vejam esta constelação de satélites ao redor da Terra. A maioria deles estão equipados com canhões Zhaarp que disparados em direção a todas as cidades da Terra, inutilizarão todos os equipamentos eletrônicos. Será o fim da Internet e com ela todas as mobilizações que atentam contra a liberdade dos empreendimentos. - Mas sem Internet como ficarão nossos negócios? Se voltarmos à era do papel, dos contratos através de correios, nossos lucros cessarão. Diz um gordo senhor. - Muito simples, senhor Carl Johnson. A partir de amanhã passará a funcionar a mundial rede fotônica, única imune aos pulsos Zhaarp. Todas as nossas operações passarão a utilizá-la. Diferente da Internet baseada em eletrônicos e totalmente descontrolada, a rede fotônica (que utiliza somente raios luminosos) será centralizada e apenas os conteúdos que nos interessam trafegarão por ela. Devemos firmar agora o compromisso de que nossas Industrias nunca mais produzirão eletrônicos. Tiremos assim a ferramenta com que os baderneiros se mobilizam e retomaremos o controle do mundo, a tranqüilidade dos nossos negócios. Todos aplaudem exultantes. Pequenos hologramas em frente de cada magnata coletam suas assinaturas biométricas. Cada corporação recebe uma parte a ser cumprida no plano. O grande holograma central se transforma em um imenso cronômetro em contagem regressiva mostrando o tempo inicial de seis horas, seis minutos e seis segundos. (Capítulo 4 do Romance “RETORNO AO BIG BANG MICROCÓSMICO”) http://bigbangmicrocosmico. blogspot.com/

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Contos

Para que nos serve
Maria de Fátima Santos

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Eu me pergunto há muito: para que nos serve. De um qualquer modo, a gente solta-se disto. Assim como hoje, um dia usa a faca que trouxe na liga, ano e ano, e desfere o golpe. - Zás! - diz o moço a quem Deus não deu entendimento mais que o perceber que sangue é o que corre do buraco seja ele degolando ave ou arrebentando veia com um fino golpe mesmo por debaixo, no pescoço de gente. - Zás! - e fica olhando o gorgolejar com ar aparvalhado, que a baba no canto da boca escorre e completa o quadro de um perfeito tonto. O moço põe um pé mais atrasado do que o outro, que um quase morto assusta para carago e se vier alguém ainda vai pensar que fui eu que peguei na ponta afiada da faca pequenina, com um cabo a brilhar de prata e osso, e a enfiei de um só golpe no pescoço deste desgraçado. O sangue escorre e ele revira os olhos que nem sei se me está olhando e nem sei se o acuda, se o largue. - Chamem-lhe parvo... – penso eu, o que se está morrendo, nos últimos laivos que tenho de pensar. - Zás! - balbucia o tonto enquanto o ar da vida se me foge.

Olha-me como se fosse ele o morto, e eu penso de novo para que nos serve e fico-me morrendo devagar, ao ritmo do sol que se distende em amarelos, lilazes e vermelhos, por detrás do morro onde joguei à bola e pastei as cabras do avô Gilberto e estudei para muitos exames, sentado numa pedra. Um sol deslizando para dentro do rio onde me lavei de várias mágoas. Um fio escarlate corre sobre o ombro que trago desnudado. O dia terminando e eu nesta loucura de querer soltar-me. Eu a querer responder ao para que nos serve e o fio deslizando quente sobre o meu corpo. Depois, ele pegará a faca de cabo prateado e osso que eu retirei da gaveta da cómoda da minha avó Benvinda no dia em que havia lá por casa a confusão habitual da matança do porco. Eram seis da tarde, então, como o são agora quando me envio deste mundo. Abri a gaveta onde ela guardava, preciosas, duas ligas negras com um friso de rendas e uma saia rodada com folhos, junto com um colete. Tudo vermelhos que um dia tinham ataviado o pequeno corpo que, ao mo-

mento, esquartejava, lá em baixo, avantajado, mas ainda levemente belo, as carnes do porco criado a bolota e a cuidado. Guardei a faca comigo desde essa tarde e, vendo o bácoro grunhir, como pela noite aqueles dois num por detrás que lhes deu no jeito, perguntei-me: para que nos serve. E até hoje me pergunto, como agora, no preciso momento, ou um pouco antes, de me apartar disto. - Zás! - diz o parvo mal eu me morro. E retira a faca de prata e osso. E afasta-se rolando dois dedos sobre a jugular, como me viu fazendo.

Hão-de vir buscar-me o corpo. De mim, que cuidei responder ao para que nos serve, dirão, num dizer de descuido:

- Coitado!

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Contos

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a Surpresa
Guilherme Rodrigues
Depois daquele dia, marcamos de nos encontrarmos, na semana seguinte, na sorveteria “Bola de Neve”, a melhor da cidade. Fazia um tempo fresco e ensolarado, eu já aguardava no local. Cheguei dez minutos mais cedo, como de costume. Nesse tempo comecei a observar ao meu redor. Uns onze metros à frente, uma família, pai, mãe, filho e filha. Crianças pequenas. O menino, que era dois anos mais velho que a menina, estava com a cara inteirinha lambuzada de sorvete e mergulhava seu boneco nele. A mãe gritando. A menina chorava e dizia querer pastel, não sorvete. E a mãe gritando. Enquanto o pai tomava o seu sorvete sossegadamente e olhava o movimento na rua. E a mãe gritando. No lado interno, no canto, ti-

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nha uma mulher gorda que estava na sua terceira tigela. Tomava desesperadamente e completamente lambuzada, mãos, rosto, barriga e até a ponta do nariz. Era cômico. Na mesa encostada à parede, duas amigas conversavam sobre os garotos da escola e se deliciavam com enormes copos de milk-shake. Fernando apareceu e me assustei. Nem pude ver a cara do homem quando tomou o sorvete com sal que um garotinho tinha posto. – Olá! Achei que não viesse mais. Ele sorriu puramente e me beijou a bochecha. Tive a impressão de já ter visto esse sorriso tão doce. Logo pedimos sorvete. Eu, Montanha Negra, ele, Céu Estrelado. – Nos dias de hoje é difícil conhecer pessoas como nos conhecemos. Num bar no centro da cidade não é o melhor lugar. Seria normal numa festa, na faculdade, com os amigos... – É o mundo moderno... Mas você forçou. Dei de ombros. – Você não teria me visto. Ele pensou e enfim, disse:

– Talvez... Sempre morou aqui? – Nasci aqui. Vivi até os seis anos. Fiz alguns amigos nesse tempo, mas acabei perdendo contato. Depois minha família se mudou para ficar mais unida. E voltei faz um mês e meio. Retornei às origens. A cidade mudou tanto todos estes anos. – Que ótimo... – disse, diminuindo a intensidade, com cara de assustado ou que não entendeu nada – Eu era um de seus amigos. Lembro-me do seu rosto, seus olhos... Seus cabelos... – Não pode ser! – disse perplexa– Bem achei já ter visto seu sorriso doce. Nunca me esqueci. – Quanta felicidade te reencontrar! E só agora nos demos conta disso! Os sorvetes tinham chegado. E trocamos colheradas como velhos amigos. – Como foi a sua vida lá? – Minha família toda é de lá. Senti muita saudade daqui e aos poucos a família e os novos amigos foram amenizando essa carencia. Mas nunca me esqueci deste lugar. Tanto que deu certo de voltar. Agora faço jornalismo. – Naturalmente. Sempre

me lembro daquela época com nostalgia. Nem me lembro como você era, seu jeito, seu temperamento... Mas jornalismo combina com você. Que Máximo! Acabamos por estender o encontro até o jantar. Jovem estudante que sabe cozinhar, e bem! Fechamos a porta.

Continua! Não perca no próximo mês!

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Contos

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Para lá do muro
José Espírito Santo
A cada ser a sua arte. A da barata é resistir, contornar, encontrar novos caminhos rodeando os obstáculos. Só não a virem de cabeça para baixo Anónimo

sionista das nossas modestas construções. Tão perto... tão à bica! No topo um longo corredor feito calha servia de auto-estrada por onde deslizavam velozes e silenciosos os pequenos “robot”. Cresci brincando em redor deste monstro marco de fronteira, habituando-me gradualmente à sua presença. Meus pais e avós referiam o artefacto nas suas histórias de nossos serões dos domingos de inverno quando, reunidos

em volta da lareira aquecíamos os ossos e alimentávamos a alma com tudo o que conseguíamos escutar. Parece que alguns loucos tentaram escalá-lo ou contorná-lo. De alguma forma vencer aquela barreira, esgotá-la, encontrar-lhe um fim. Foi assim com o homem que chegou um dia vindo do horizonte feito de pó para logo partir duas horas após chegar à nossa cidadela. Com o seu ar cansado e a longa

A enorme massa branca e sólida estava ali desde que me conheço. Fria e imponente com seus sessenta metros de altura, numa vizinhança próxima, em frente a minha janela, travando com sucesso silencioso o ímpeto expan-

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barba branca, deixou a voz fraca confidenciar que já andava naquela demanda desde os vinte anos. E assim comeu, bebeu, descansou um pouco, ganhou fôlego e logo proferiu “não há tempo a perder que a vida é curta” e foi-se em busca do fim da coisa, da extremidade de cauda de bicho feito cobra, cobra feito muro, muro feito obstáculo e omnipresença, qual navegador incansável, Gil Eanes com o seu cabo Bojador para dobrar! As tentativas de subida não colheram melhor sorte. Depressa colocaram em evidência o propósito dos nossos companheiros metálicos. Ao invés do frio cortante na chegada ao cume de um qualquer Everest, os alpinistas desgraçados encontravam o calor de um raio quente fulminante ficando reduzidos a menos nada naquela fracção de segundo. Só o mistério sobreviveu a todos estes fracassos. Mistério mal recebido, mal acolhido, tornando-se adubo eficaz para crescimento rápido da especulação e crença ignorante. Logo apareceram para a festa os hábitos e rotinas pouco racionais, os dogmas, os pecados, as remissões e auto flagelações, o poder dos poucos em função da dormência dos muitos. O dia de leitura e escrita é um desses hábitos que não apela muito em prol de nosso bom senso e sanidade mental. Todos os anos naquele dia – o último, a massa humana

de crentes inicia jornada e vai colar-se junto ao enorme paredão. Cada qual tem primeiro de encontrar um espaço para si (apagando se necessário escritos antigos) e escreve os seus desejos, as suas aspirações para o ano vindouro. E o “senhor do muro”, o “magnífico que tudo pode”, em toda a sua bondade não tardará a satisfazer tal ensejo conferindo a cada um o seu cada qual. Talvez seja perfeccionista, detalhista, até um pouco chato mas sempre me conheci muito observador. O meu olho treinado e mente atenta depressa me revelaram as diferenças, a revolução silenciosa que ocorria no topo fronteiriço. E a diferença estava no tempo, no aumento de tempo entre cada chegada e cada paragem em frente a minha janela. O minuto e meio entre chegadas no fim de mês passado tinha-se alongado. No início da semana – estamos na segunda semana do mês, já íamos em dois minutos. Nesse dia decidi: se as coisas continuassem da mesma forma, ao fim de três meses teria todo o tempo que necessitava – trezentos segundos, cinco longos minutos. Ninguém excepto Patrícia sabia das minhas intenções. Minha vizinha e confidente desde sempre, ela daria uma ajuda essencial no projecto. Nesses meses muni-me de tudo o que era necessário e preparei-me com rigor e afinco. A estratégia era simples –

aproveitar a multidão em dia da excursão anual de tolos, partir com eles e não regressar, ficando junto ao muro como lapa na rocha, bem encostado, fora de ângulo de visão dos guardas cibernéticos. Depois, com a ajuda do equipamento sofisticado, escalar cerca de cinquenta e cinco metros e ficar esperando o sinal. Ao notar que “a costa estava livre” a minha companheira fecharia a janela e eu subiria rapidamente o que restava. Finalmente o dia chegou e eu estava preparado. Escalei, a janela fechou-se e então subi os últimos metros. Triunfante, cheguei ao topo e olhei para o lado. Nem sinal de “robot”. Respirei fundo. Observei. Foi com estranheza que minha vista encontrou o outro eu, qual imagem minha no espelho que também subia, que respirava fundo, que me fitava. Ficamos examinando as nossas caras incrédulas, incrédulos por um momento. Olhámos para o horizonte de edifícios em cada lado, para as janelas em frente, para as Patrícias que acenavam. Então, decidimos preservar nossa sanidade mental e descemos. O que vimos, nunca contámos a ninguém. Hoje pensamos certamente eu e ele (ou deveria dizer eu e eu) como para desvendarmos um mistério encontrámos outro bem maior e fugimos voltando rapidamente à realidade de nossa toca.

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Contos

No ELEVador
Zulmar Lopes

Voltar para casa o deprimia. A expectativa de, após um dia de trabalho ouvindo os berros animalescos de seu Djalma tratando-o como um reles vassalo; abrir a porta de casa e topar com a megera, estendida no sofá, devorando bombons e metida em um enorme robe cor-derosa era um desajuste para qualquer mortal. Fosse só isto, ele até que poderia tolerar, mas as cobranças,

humilhações e o desprezo iam minando, dia após dia, o que ele e a esposa ainda fingiam ser um casamento. - Bancário! – exclamava a esposa carregando no desprezo, boca marrom de chocolate – Não passas de um medíocre e vil bancário! E pensar que eu podia estar casada com o Deputado! Que triste sina a minha! No decorrer dos anos, passou a ter nojo de choco-

late. Bastava o cheiro para nauseá-lo. Sua angústia diária tinha início dentro do elevador do prédio onde morava. Acompanhava o lento passar da cabine pelo andares até chegar àquele palco seu tormento. “Lar, doce lar”, resmungava em tom irônico. Naquele final de tarde tudo parecia caminhar para a mesma rotina de achincalhes promovidos

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pela megera. Apertou o botão de chamada do elevador e esperou que ele chegasse até o térreo. Quando fechou a porta ouviu uma súplica. - Sobe? Era uma voz adocicada, mansa, suave, em tudo contrastante com o tom estridente e marcial de sua esposa. Curioso e gentil, segurou a porta do elevador. Ela sorriu para ele em sinal de agradecimento. Tratavase não de uma mulher exuberante, mas alguém que estava elegantemente vestida e denotava alguma sofisticação. Seus gestos eram refinados e um leve perfume agradável exalava de sua pele. Saltou no décimo andar, sacudindo a cabeça em sinal de boa noite. Desde aquela data, a curta viagem de elevador tornou-se o melhor momento do seu dia. A presença daquela mulher e os quase monossilábicos cumprimentos pareciam amenizar todo o peso do cotidiano desprezível de sua existência. Ansiava por aqueles minutos, chegava a fazer uma horinha no hall social do prédio esperando que ela chegasse, forçando a coincidência do encontro. Entristecia-se caso ela não aparecesse e renovava a suas esperanças para o dia seguinte. Numa tarde, enquanto esperava o elevador já

desapontado pela ausência da sua admirada, ela surgiu no hall social. Chorava. As lágrimas inundavam seu rosto, umedecendo os olhos redondos. Não havia ainda prestado atenção na beleza dos seus olhos castanhos. Na verdade, o tempo da viagem era demasiadamente curto para se prender a detalhes. - Posso ajudá-la, moça? Sacudiu negativamente a cabeça. Ele ofereceu um lenço, prontamente aceito. O elevador chegou. - Sou feia? - Não.. imagina... - Pareço uma pessoa sem atrativos? Me visto como uma freira? - Claro que não! - Ele acha que sim – disse soluçando – que fazer amor comigo é como beber água. Algo sem gosto, sem graça. - Ele deve ter dito isto da boca pra fora – disse ele enquanto entravam no elevador. Assim que a porta fechou, ela inesperadamente o agarrou, beijando-o com volúpia. Entre o correr dos andares, amaram-se de pé, vestidos. Parcos minutos de prazer até o elevador alcançar o décimo andar. Os encontros passaram a ser diários. Quando havia uma ou mais pessoas

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esperando o elevador, eles aguardavam a oportunidade de subirem sozinhos. Caso um ou outro estivesse com o seu companheiro, fingiam indiferença e desconhecimento, um tanto desapontados pela oportunidade perdida. Amavamse dentro da cabina, respiração ofegante, um misto de prazer e medo de que os respectivos cônjuges pudessem estar do outro lado da porta, no andar seguinte. Arrumavam-se rapidamente ante a aproximação do andar onde ela morava. Era automático, sem preliminares, sem nomes, curiosidades sobre a vida de cada um. Nada os atrapalhava naqueles breves momentos de paixão. Somente o ato de amor os consumia. Um dia, um blecaute tomou conta do Rio de Janeiro. A cidade foi invadida por um breu no começo da noite. Tudo parou, inclusive o elevador onde os amantes estavam. Os bombeiros, ao abrirem a cabina, parada entre dois andares, os encontraram risonhos, nus e gargalhantes, suas roupas espalhadas por todo o elevador. Ela agora sabia que ele se chamava Mauro. Ela, Andréa. Tiveram tempo.

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Contos

dEzESSEtE
Pedro Faria

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Ele precisava dar uma volta. Saiu de casa com o passo apressado, e subiu no primeiro ônibus que parou. Queria matar, destruir. Estava irritado com tudo. Achava que se alguém o olhasse nos olhos naquele momento, ele partiria para cima para brigar. Com a intenção de se acalmar, ele fechou os olhos e tentou se lembrar de coisas boas. Porém, em cada imagem que lhe aparecia estava ela, e isso o fazia fechar com mais força seus punhos, até que suas unhas mal aparadas lhe cortassem superficialmente a pele áspera das mãos. Para ele, ela havia morrido. Ele cansara de despejar seu carinho e amor sobre ela, e não obter nada em retorno. Ele queria apenas o amor dela, um tom de satisfação na voz dela quando conversassem. Um pingo de felicidade, de carinho, em seus olhos, quando ela o visse. Ele queria se sentir desejado. E com ela, nunca tinha conseguido. O ônibus seguia seu caminho enquanto ele olhava para fora: As pessoas, que não passavam de borrões para ele, cuja existência não lhe acrescentava em nada. Ele sentia ódio por elas, um ódio que vem do ciúme, da inveja, da vaidade. Ele precisava machucar alguém, ferir uma pessoa, fazê-la sentir como ele se sentia.
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O que lhe despertou para a realidade foi a gota de sangue no assento a seu lado. Ele balançou a cabeça. Tinha saído de casa justamente para esfriar a cabeça, para deixar a violência contida dentro de seu quarto, numa bolha. Mas ao que parecia, a bolha o havia seguido, e grudara em seu coração. Puxou a cordinha, e saltou no ponto. Colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e olhou ao redor. Não conseguiu conter uma risada ao ver onde estava. Tinha pegado justamente o único ônibus que lhe deixava à porta da casa dela e, como o bordão de alguma piada cósmica sem graça, era lá onde havia saltado. Naquele momento, ele não conseguiu mais se segurar. A bolha de raiva tremia em seu peito, sua respiração tinha acelerado. Ele marchou até a casa dela. Bateu vigorosamente na porta. Quando ela abriu a porta, ele achou que iria desmaiar. Era esse o efeito que ela fazia sobre ele: Perto dela, ele não era nada, era como um fragmento de um gigantesco cenário construído para a diversão dela, no qual ela era o centro de todas as ações, e todos os diálogos eram sobre ela. O olhar dela quando o viu foi de confusão. Isso não foi o bastante para detê-lo. Ele investiu para ela,

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fazendo-a cair sentada numa poltrona. Ela começou a gritar. Após fechar a porta, ele se aproximou dela. “Não, agora você vai ficar sentada aí e me ouvir! Eu fiz tudo para você, tudo mesmo. Ouvi seus lamentos, tratei de suas feridas, enxuguei suas lágrimas. E você, nada!” Ele estava errático. Seus olhos desfocados, como se estivesse drogado. Ela tentou se levantar e fugir, mas ele a segurou de bruços na poltrona. “Eu vou fazer o que tenho que fazer. Eu vim fazer a cobrança”. Havia uma estante atrás da poltrona. Ele puxou seu cinto e prendeu as mãos acima da cabeça, amarrando o cinto na estante. Com seu joelho nas costas dela, ele tirou suas calças e a cueca. Toda aquela briga o havia deixado excitado. Arrancou a bermuda dela, e a calcinha. As nádegas dela estavam quentes, e ela chorava. Ele queria que ela não gostasse. Enfiou as mãos entre as pernas dela. Ela chutava e gritava. Ele ignorou a vagina dela. Não, ali seria fácil demais. Então ele a penetrou no orifício entre suas nádegas, de uma vez só. O grito dela foi horrível. Com as duas mãos pres-

sionando o corpo dela contra a poltrona, ele começou o vai e vem dentro dela. Ela chorava, implorava para que parasse, mas ele não se importava. Estava adorando aquilo. Estava finalmente tomando o que sabia ser seu de direito. Sangue pingava no chão. A posição estava ficando desconfortável para ele. Então, ele a segurou por baixo, para levantar seu corpo na poltrona. Quando a mão dele tocou no meio das coxas dela, uma surpresa: Ela estava encharcada, seu mel lambuzando os dedos dele. A puta estava gostando! Esquecendo qualquer desconforto que pudesse estar sentindo, ele continuou mais forte. Aí, ela riu. Ele parou. A risada dela não era apenas fora de lugar, era horrível. Seu sangue congelou. “É só isso? Vamos, mais forte! Vamos lá! Vai me dizer que já entrou tudo? É só isso mesmo? Você me enoja! Precisa me pegar desprevenida, me amarrar, para fazer o que não teria coragem. Você é um fraco. Mais! Você começou agora você vai terminar. Mais forte! Mais, mais!” Ele continuou se movendo, a risada dela ecoando em sua mente, suas palavras flutuando pela sala, ditas com uma voz gutural, que não era a

dela. Seu suor escorria sobre o corpo dela, e ele achava que ia desmaiar. Notou que estava muito fácil penetrála. Mesmo que o corpo dela tivesse se ajustado, estava muito fácil. Olhou para baixo, e gritou. As nádegas dele lhe envolviam a barriga. Ele estava entrando nela, como ele sempre quis. Estava se tornando parte dela, para sempre. Achou que deveria estar feliz. Mas não estava. A única coisa que sentia era um medo paralisante. “Isso, agora sim, mais forte! Somos apenas eu e você agora, amor.” Ele gritou, e algo o atingiu no rosto. Olhando bem, ele viu que era o chão. Estava caído em seu quarto, o suor do pesadelo lhe ensopava a camisa. Esfregando o rosto, ele se levantou. As imagens do sonho iam e vinham em sua mente, e ele estava tonto com a queda. A última coisa que lembrava era de ter ido deitar com raiva. Aí ele se lembrou dela, e deu um soco na parede. Estava cansado dela em sua cabeça. Levantou-se. Daria um passeio. Isso o acalmaria. Sim. Uma caminhada. Talvez uma volta num ônibus. E tudo ficaria bem.

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Pedro Faria

Eu sempre tive uma fantasia com as pernas dela. Não com os seios, com a boca ou com a bunda. Além do mais, era sempre o mesmo sonho: O facão, o sangue, o pote de molho barbecue... Fico duro só de pensar. Acordei ontem de manhã depois da, não sei, milésima vez que sonhei com aquelas pernas grossas dela. Tinha sujado meus lençóis, e decidi que não agüentava mais. Esperei chegar a noite (só a antecipação me obrigou “liberar a tensão” cinco vezes durante o dia), pus uma toca preta, peguei o facão que guardo com minhas ferramentas no galpão e marchei até a casa dela. Todas as luzes estavam apagadas, menos a do quarto dela no segundo andar. Subi na árvore e abri a janela do outro quarto. Entrei, e assim que saí para o corredor, ouvi um grito vindo de seu quarto.

Congelei de medo, porém sabia que não tinha como ela ter me visto, e, além disso, eu não tinha feito nenhum barulho. Eu sabia que se desistisse agora, eu nunca ficaria livre dos sonhos. Então me dirigi de encontro ao som. Com o ouvido encostado na porta, eu consegui ouvila, berrando e chorando, e gritando com uma voz mais aguda do que eu pensei ser possível para um ser humano. Assustado, chutei a porta com força suficiente para arrancá-la das dobradiças, e o que eu vi, eu nunca esquecerei enquanto viver: Ela estava deitada na cama, o choro interrompido, substituído por um olhar que era misto de dor e surpresa. Havia um homem de pé ao lado dela, um homem que eu reconheci como sendo um vizinho nosso em co-

mum. Ele segurava com as duas mãos a perna esquerda dela, decepada na altura da cintura, um machado sangrento deitado no tapete junto à cama. Ele a tinha lambuzado com algo, e estava arrancando com os dentes, grandes pedaços da parte carnuda da coxa. A situação seria cômica; e de fato foi, por alguns segundos, nós três nos olhando com expressões de surpresa estampadas em nossos rostos, nossos olhos arregalados. Até que os gritos dela voltaram, lavando a graça embora. Uma expressão de fúria tomou conta de minha face, e eu o encurralei, meu facão em seu pescoço. “Mas o que é isso?”, gritei. Seu olhar era o de um homem morto. “Você está usando mostarda?!” E nós dois caímos na risada.

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GoSto rEFiNado

dESCoBErtaS
Marcia Szajnbok

Contos

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Na primeira vez que subiu aquela escadaria, de mãos dadas com a mãe, João sentiu medo. O lugar lembrava uma casa malassombrada, dessas que aparecem nos filmes: pouca luminosidade, portas altas, a escada de madeira produzindo estranhos ruídos sob os pés. Depois de meses desempregada, Bete finalmente conseguira um trabalho: faxineira numa escola de música. Maestro Manfredo, o dono do conservatório, concordara com que Bete levasse consigo o filho pequeno, desde que o menino não atrapalhasse as aulas. Foi assim que João chegou ao universo da música: assustado pelos fantasmas que a velha casa evocava, pelo tal do Maestro, que imaginava ser um velho narigudo cheio de verrugas e muito bravo, e pela mãe – esta, um perigo bem real quando se zangava com ele. João tinha apenas cinco anos, e aparentava ainda menos com sua baixa estatura e magreza, as pernas finas, e os dentes grandes e brancos aparecendo demasiadamente no contraste com a pele escura. À medida que os dias passavam, entretanto, João ia ficando mais à vontade. Descobrira um modo de passear despercebido pela escola: tirava os sapatos, andava de meias. Como todo o chão era de madeira, o garoto patinava nas tábuas largas e, assim silencioso,
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percorria todas as salas de aula como que invisível. No que devia ter sido outrora um porão, havia um pequeno anfiteatro, onde os alunos tinham aulas de canto com o Maestro. - Meninos, cantemos! O coração que canta não conhece tristeza! – era sempre com esse bordão e a batuta levantada, que ele dava início às sessões de cantoria. Encolhido em alguma cadeira da última fila, João ouvia. Visto assim de longe, o Maestro nem parecia tão mau. Várias vezes em cada aula, ele interrompia, os alunos recomeçavam. E João ouvia. A partir de certo momento, seria capaz de cantar junto, mas só o fazia em pensamento, a voz da mãe com o indicador esticado em seu nariz, repetialhe na memória: - Nem um pio, entendeu bem? Nem um pio, senão você entra na piaba! João não sabia o que era uma piaba, mas pelo tom de sua mãe, não devia ser coisa boa. No primeiro andar, havia a secretaria e duas salas de aula com carteiras e lousas. Ali os alunos aprendiam história da música, análise, folclore, teoria musical, solfejo, harmonia. Esse vocabulário iniciático tornou-se familiar para o menino. O que ele mais gostava de acompanhar eram as aulas de solfejo: as mãos ritmadas batendo nas mesinhas, a fala acompanhando o

ritmo: - La-á-Dó-Lá-Si-í-Dó-RéSi-Sol... João repetia mentalmente essa linguagem estranha e monossilábica. Mesmo sem ter nenhuma idéia do significado daquele amontoado de sons, achava bonito o grupo todo declamando aquela ladainha em uníssono. No entanto, o melhor estava no andar de cima. Era preciso vencer a escadaria rangente, mas sempre valia à pena. Eram três salas, duas menores e uma grande, onde aconteciam as aulas de instrumentos: violão, violino, violoncelo, flauta e piano. Na sala maior, João encontrou um tesouro. Certa vez viu a porta aberta, ninguém lá dentro, e entrou. Achou curioso que, numa sala tão ampla, houvesse um só móvel no centro. Ele era engraçado. Enxergou ali uma cabeça disforme: a boca ampla, dentes brancos e pretos num sorriso estático, a parte de trás com um formato irregular, como um crânio com a tampa aberta. Não resistiu. Puxou para perto daquela abertura o banco que ficava diante da boca, e espiou lá para dentro. Várias tramas de fios sobrepostos uns aos outros, pinos metálicos, tiras de feltro vermelho recobrindo pedaços de madeira de diferentes formatos. Era um quebra-cabeças incompreensível.

Ouviu vozes no corredor e passos que se aproximavam. Apavorado, João correu a se esconder atrás da cortina de uma das janelas. Respirava devagar para que ninguém notasse sua presença. E então, ouviu. Era um som límpido, suave, um som que parecia falar-lhe, lindo. Pôs um só olho para fora e viu que, diante do móvel estranho, uma menina mexia na grande boca aberta e, a seu lado, uma senhora lhe corrigia os erros. No final da aula, a professora indagou à aluna, se tinha gostado de tocar num piano de cauda. Era isso, então! Um piano de cauda! Depois que elas saíram, João se aproximou novamente. Encheu-se de coragem, e encostou um dedinho numa das teclas. Bem de leve e tão devagar, que não se produziu nenhum som. Desde então, sempre que podia, o garoto se punha em seu esconderijo atrás da cortina e acompanhava as aulas no piano de cauda. Do mesmo modo que acompanhava o solfejo e o canto orfeônico, aqui também ia aprendendo as músicas pela repetição. A diferença é que o piano não cantava, e por isso foi desenvolvendo um tipo de memória diferente, puramente musical, a seqüência melódica sem palavras, desvinculada de significados. E quando se via sozinho na sala, chegava perto e acariciava as teclas, maravilhado.

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Um dia, inadvertidamente, apertou uma das teclas com mais força do que o habitual. O som produzido assustou-o, e não pôde conter uma gargalhada. Mas, cativado, repetiu o toque. O que ouviu lhe soou de algum modo familiar. Tateando, foi apertando outras teclas, até que obteve um par, e os dois sons em seqüência evocaram um trecho melódico. A partir daí, esqueceu a regra materna do nenhum - pio e despreocupou-se completamente. Depois do par, achou o terceiro som, e depois o quarto, e assim sucessivamente ia recompondo, por tentativa e erro, um pedaço de melodia muitas vezes ouvida na clandestinidade de seu posto atrás da cortina. Por instantes, o mundo se resumiu àquela sala: o menino, o piano, a música. Como se, para lá das paredes, nada mais existisse. Por estar assim, tão absorto, demorou um pouco para compreender que vinha da porta da sala a voz que lhe interrogava: - O senhor pode me explicar o que é que está fazendo aí? João, paralisado, não conseguia responder. Parado na soleira, as mãos postas na cintura e o cenho caricatamente franzido, estava o temido Maestro. - Toque de novo, pediu ao menino. A música que você estava dedilhando,

toque de novo. João tocou, apesar do tremor que lhe agitava a mão. Sem saber o nome das notas que apertava, repetiu a seqüência: Dó-Ré-MiFa-Re-Mi-Do-Sol. E parou. Maestro Manfredo, então, segurou gentilmente o indicador do garoto e guiou-o até a próxima nota da série, outro Dó, uma oitava acima. Olharam-se nos olhos, o menino esboçou um sorriso tímido, e encontrou a continuação da melodia: Si-Dó-Ré-Sol-Lá-Si-Dó-LáSi-Sol-Ré... E as horas foram passando. João aprendeu que o banco podia subir até que estivesse numa altura confortável, que aqueles sons se chamavam notas, que cada uma tinha o seu nome, e que poderia apertar cada nota com um dos dedos, fazendo a mão deslizar ao invés de pular sobre o teclado. E descobriu, principalmente, que Maestro Manfredo não era um velho cheio de verrugas e muito bravo, e sim um professor paciente que, acima de tudo, divertia-se muito ensinando crianças. - Você sabe como se chama essa música que estamos tocando? perguntou-lhe às tantas o Maestro. João não sabia. Achou muito estranho quando lhe foi dito que aquela era uma Invenção a Duas Vozes. Como se lesse seus pensamentos, Maestro Manfredo completou: - É claro que todas as

músicas são invenções de alguém... mas esta aqui faz parte de uma coleção de invenções bem difíceis de se inventar! E os dois riram muito. As lições se repetiram por algum tempo, mas João não se tornou concertista. Seu estudo de piano terminou quando a mãe conseguiu outro emprego, dois anos depois. Ao se despedir do Maestro, ele abriu uma gaveta cheia de partituras antigas. Remexeu, procurou, até que tirou de lá umas folhinhas amareladas, cheirando a guardado, onde estava escrito “Johann Sebastian Bach: Inventio 1 C-Dur BWV 772”. Preparando-se para fazer uma dedicatória, perguntou ao garoto: - Como é mesmo seu nome todo? João... ? - João Sebastião Ribeiro, respondeu o menino. Maestro Manfredo, então, abraçou-o afetuosamente e abriu um sorriso largo, que João nunca tinha visto naquele rosto. Seu significado, só compreendeu muitos anos depois. Mas, aquela imagem e o calor daquele abraço guardou para sempre, bem junto com a partitura, a dedicatória, e o amor pela música, sobretudo pela música de Bach.

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Contos

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alice por trás do espelho
Alice. Desde o nascimento, estava marcada: parto complicado, icterícia e pulmão fraco:- É uma menina, a senhora quer pegar um pouquinho? - Não. Tô com fome. Enfermeira, eu quero comida. Entendeu? - O bebê precisa ser amamentado. Ela é tão fraquinha, precisa de cuidados... - Cê acha, mesmo? Dá mamadeira pra ela. Quer prá você? - A senhora não trouxe nada pra criança vestir? - Vocês não doam enxoval pros pobres? Pelo menos, doavam... A menina cresceu, lenta e desajeitada. Nunca chorava e falava muito pouco. Passava os dias quieta, olhando as paredes descascadas. Dessa forma, apanhava menos que os irmãos. Eram surras diárias e sem motivo. Foi crescendo feito bicho. Sem escola, faminta, disputando as migalhas e restos. Com treze anos, aparentava oito. A mãe não sabia quem era o pai das crianças. Quando o filho mais velho sumiu, deu graças aos céus e amaldiçoou os quatro restantes. A mulher passava o dia inteiro na birosca. Filava

Giselle Natsu Sato

uma cachacinha e oferecia o corpo gasto. Quando voltava para casa, enxotava os filhos: - Tô cansada de sustentar tantas bocas. Vão tentar a sorte no asfalto. Vão embora... Um dia, Alice desceu a favela. Caminhou pelas ruas sem rumo. As pessoas desviavam, olhando sérias e desconfiadas. Ela não entendia. Andou a manhã inteira até chegar ao centro da cidade. Passou por uma grande loja de brinquedos. Parou diante da vitrine, admirando as bonecas, os castelos e as fadas. Tudo era lindo e diferente. Desejou poder tocar alguma coisa, uma peque-

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nina, apenas uma daquelas maravilhas, bastaria... Então, viu seu reflexo. Nunca tinha parado para olhar para si. A aparência desgrenhada, roupas puídas e encardidas. Sentiu vergonha e encolheu os ombros. Procurou andar pelos cantos das calçadas. Abaixou a cabeça, lembrando a mãe chamando-a de lesada e ‘’fraca das idéias’’. Grossos pingos começaram a cair, anunciando a chuva forte. Discretamente, catou restos de comida no lixo em frente à lanchonete. O atendente ofereceu os salgados murchos do fim do dia: - Pegue e saia daqui, o patrão não gosta que fique na frente da loja. Comeu um pastel e guardou o resto na sacola plástica. O temporal formou rios de lama e sujeira. Os bueiros entupidos transbordavam detritos e esgoto . As pessoas comentavam que era uma enchente. Alice não entendia nada. Foi quando viu o bando de crianças. Vinham correndo pelo meio da rua, gritando palavrões e ameaçando o povo. Quase trinta delas, aparentando, no máximo dez anos. Seguiam um garoto mais forte que parecia o líder. Alice reconheceu o irmão

desaparecido. Daniel, que a mãe colocava no sinal vendendo balas e chicletes. Alice gritou bem alto o nome do irmão : - Alice, vem com a gente, não posso parar! - Pra onde vai? - Por aí, está tudo inundado. Anda logo, vem... - Não. Tenho medo. - Vem Lice, eu te ajudo. - Não. - Eu volto pra te buscar. Vá pra igreja. Lá é bem alto. Em poucos minutos, a confusão estava formada. Trabalhadores recém saídos dos escritórios tentavam entrar nos estabelecimentos abertos. A multidão, desesperada, buscava abrigo ou tentava voltar aos edifícios comerciais. Quem estava do lado de dentro, não saía nem deixava abrir as portas. O bando desapareceu pelas vielas. A água não parava de subir e o povo acuado. Duas horas mais tarde, já não havia para onde correr. Todos disputavam o espaço nos degraus mais altos da catedral. A escadaria estava tomada por gente de todo tipo. Alguém empurrou Alice para fora do patamar. A menina caiu na água imunda, batendo na altura do peito.

Em segundos, a correnteza forte, tragou o corpinho, arrastando-o para longe... Alguns gritavam, apontando a pequena que não se debatia. Ninguém saiu do lugar, assistiram Alice sumir lentamente... Enquanto deslizava nas águas turvas, Alice recordou a vitrine onde se viu pela primeira vez. Pensou nas coisas bonitas e viu a si mesma no meio de todas aquelas riquezas. Rodeada de bonecas, o mundo além do reflexo... Alice por trás do espelho. Nem sentiu quando a morte apagou seus sonhos.

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tradução

o Conde Lucanor
Don Juan Manuel
tradução: Henry Alfred Bugalho

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Conto Vii
O que aconteceu a uma mulher chamada senhora Truhana

Certa vez, Conde Lucanor conversava com Patronio deste modo: — Patronio, um homem me propôs algo e também me disse a forma como consegui-lo. Assegurou que tem tantas vantagens que, se com a ajuda de Deus tudo ocorrer bem, seria para mim de grande utilidade e proveito, pois os benefícios se unem uns aos outros, de tal forma que, no final, seriam muito grandes. Então, contou a Patronio tudo que sabia. Após ouvilo, Patronio respondeu o conde: — Senhor Conde Lucanor, sempre ouvi dizer que o prudente se atém às realidades e desdenha as fantasias, pois muitas vezes a quem vive destas costuma ocorrer o mesmo que se sucedeu à senhora Truhana. O conde perguntou o que havia acontecido a ela. — Senhor conde, disse Patronio, havia uma mulher que se chamava senhora Truhana, que era mais pobre do que rica, e que, indo um dia ao mercado, levava um jarro de mel sobre a cabeça. Enquanto seguia pelo

caminho, começou a pensar que venderia o mel e que, com o que lhe dessem, compraria um bocado de ovos, dos quais nasceriam galinhas e que logo, com o dinheiro que lhe dessem pelas galinhas, compraria ovelhas, e assim iria comprando e vendendo, sempre com lucro, até que se visse mais rica do que todas as suas vizinhas. Logo pensou que, sendo tão rica, poderia arranjar um bom casamento a seus filhos e filhas, e que iria acompanhada pela rua por genros e noras, e pensou também que todos comentariam sua boa sorte, pois havia conseguido tantos bens, mesmo que houvesse nascido muito pobre. Assim, pensando nisto, começou a rir com muita alegria por causa de sua boa sorte, e rindo, rindo, deu um tapinha na própria testa, o jarro caiu no chão e se rompeu em mil pedaços. Senhora Truhana, quando viu o jarro quebrado e o mel derramado pelo chão, começou a chorar e a se lamentar amargamente, porque havia perdido todas as riquezas que esperava obter com o jarro, se este não houvesse se quebrado. Assim, porque pôs toda sua confiança em fantasias, não pôde fazer nada do que tanto esperava e desejava. Se quereis, senhor conde, aquilo que dizeis e pensais

sejam realidade algum dia, procura sempre que se tratem de coisas razoáveis e não fantasias, ou imaginações duvidosas e vãs. E quando quiserdes iniciar algum negócio, não arrisqueis algo mui caro, cuja perda vos possa causar desgosto, com o intuito de obter um proveito baseado apenas na imaginação. O que Patronio contou agradou muito o conde, que agiu de acordo com a história e, assim, se saiu muito bem. E como Don Juan gostou deste conto, escreveu-o neste livro e compôs estes versos:

Em realidades certas podeis confiar, Mas das fantasias deveis vos afastar.

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Conto Xiii
O que aconteceu a um homem que caçava perdizes

Outra vez, o Conde Lucanor conversava com Patronio, seu conselheiro, e lhe disse: — Patronio, alguns nobres muito poderosos e outros nem tanto, às vezes, causam danos a minhas terras ou a meus vassalos, mas, quando nos encontramos, eles me pedem desculpas, dizendo-me que fizeram-no obrigados pela necessidade, muito a contragosto e sem poderem evitar. Como eu gostaria de saber o que devo fazer em tais circunstâncias, suplico-vos que me deis vossa opinião sobre este assunto. — Senhor Conde Lucarno, disse Patronio, o que haveis me contado, e sobre o qual me pedis conselho, parece-se muito com o que ocorreu a um homem que caçava perdizes. O conde lhe pediu que contasse a história. — Senhor conde, disse Patronio, havia um homem que estendeu suas redes para caçar perdizes e, quando já apanhado bastantes, o caçador voltou para junto da rede onde estavam suas presas. Na medida em que as recolhia, tirava-as da rede e as matava e,enquanto

fazia isto, o vento, que batia em cheio em seus olhos, o fazia chorar. Ao ver isto, uma das perdizes, que estava presa na malha, começou a dizer a suas companheiras: — Olhem, amigas, o que acontece a este homem! Ainda que nos mate, olhem como ele se condói por nossa morte e, por isto, chora! Mas outra perdiz que avoava por ali, mais velha e mais sábia do que a outra que havia caído na rede, respondeu-lhe: — Amiga, dou graças a Deus porque me salvei da rede e agora peço a Ele que salves a mim e a todas minhas amigas dum homem que busca nossa morte, mesmo que dê a entender com lágrimas que muito se condói. Vós, senhor Conde Lucanor, evitai sempre aqueles que vos causam dano, mesmo que dêem a entender que sentem muito; mas se algum vos prejudica, sem buscar vossa desonra, e se o dano não for muito grave para vós, se se trata duma pessoa à qual deveis favores, e que além disto foi forçado a isto pelas circunstâncias, eu vos aconselho que não se importeis demais, mas deveis procurar que tal não se repita tão freqüentemente que chegue a macular vosso bom nome ou vos-

sos interesses. Mas se vos prejudica voluntariamente, rompei com ele para que vossos bens e vossa fama não se vejam lesionados ou prejudicados. O conde viu que este era um bom conselho que Patronio lhe dava, seguiu-o e tudo ficou bem. E vendo don Juan que o conto era bom, ordenou pô-lo neste livro e fez estes versos:
A quem te faz mal, mesmo que seja para ti pesar, Busca sempre um modo para poder dele se afastar.

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Don Juan Manuel (1282-1348) nasceu no Castelo de Escalona, na província de Toledo. Por ser filho do Infante Don Manuel de Castela (Senhor de Escalona e de Peñafiel) e de Dona Beatriz de Saboya, era sobrinho do rei Alfonso X, o Sábio, e neto de Fernando III, o Santo. Herdou de seu pai o grande Senhorio de Villena, recebendo os títulos de Príncipe, Senhor e Duque de Villena. Foi educado como um nobre, adestrado em artes como equitação, caça e esgrima, aprendeu latim, História, Direito e Teologia. Literariamente, sua formação incluiu a leitura de diversos poemas clericais (Livro de Alexandre, Livro de Apolônio...), os tratados de Raimundo Lúlio, a obra de Alfonso X (especialmente, a História da Espanha), vários livros doutrinais e coleções de frases, provérbios e ditos de sábios, traduzidos de línguas orientais, ou do latim, para o castelhano (Calila e Dimna, Sendebar...), etc.

Aos oito anos, perdeu os pais, por isto, desde muito jovem, pôde dispor do amplo patrimônio de sua família. Aos doze anos, iniciando uma atividade que o acompanharia por toda a vida, participou na guerra para repelir o ataque dos mouros de Granada contra a Múrcia. Casou-se três vezes, escolhendo suas esposas por conveniência política e econômica e, quando teve filhos, esforçou-se para desposá-los com pessoas pertencentes à realeza. Don Juan Manuel se converteu em um dos homens mais ricos e poderosos de sua época e, além de manter ele próprio um exército de mil cavaleiros, chegou a cunhar sua moeda própria por um tempo, assim como faziam os reis. O autor de “O Conde Lucanor” dividiu seus esforços, durante toda sua vida, entre suas atividades como escritor e nobre cavaleiro. Ao seu redor, houve certas críticas sobre sua vocação literária, pois se pensava que um nobre de tão alto prestígio não deveria se dedicar a tais atividades. O prazer que encontrava na escrita e a utilidade que via nela para os outros o levaram a seguir com sua atividade literária. Don Juan Manuel teve disputas constantes com seu rei. Na época, o trono de Castela esteve ocupado por dois monarcas que até chegaram a traçar planos para matá-lo: Fernando IV e Alfonso XI. No entanto, o último buscou a fidelidade de Don Juan Manuel ao pedir a mão de sua filha, Constanza. Finalmente, o rei rejeitou o matrimônio já arranjado e encarcerou a jovem no Castelo de Toro. A luta entre o rei e Don Juan Manuel se prolongou por uma década, e houve pelo menos duas ocasiões em que este quase chegou a cair nas mãos do primeiro. O rei também se opôs ao transporte de Constanza a Portugal para se casar com o infante Don Pedro de Portugal. A necessidade de paz interna para enfrentar o rei de Marrocos e a mediação de Dona Juana Núñez,

sogra de Don Juan por seu terceiro casamento, fez com que o rei devolvesse a Don Juan seus bens e honrarias em 1337, pondo fim à inimizade, que se consolidou definitivamente com a autorização para o casamento de Constanza e, até 1340, quando ambos se aliaram contra os muçulmanos na batalha de Salado, tomando-lhes a cidade de Algeciras. Após estes acontecimentos, o infante Don Juan Manuel deixou a vida política e se retirou para a Múrcia, onde passou seus últimos anos entregue à literatura. Orgulhoso de suas obras, decidiu reuni-las todas num único volume, que desapareceu queimado num incêndio.

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tradução

a Festa de São Simão Esgaratujo
Ricardo Palma
tradução: Henry Alfred Bugalho

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Faustino Guerra cumpria a condição de soldado raso durante a batalha de Ayacucho. Assegurada a independência, obteve licença definitiva e recolheu-se à província de seu nascimento, onde conseguiu ser nomeado professor da escola do vilarejo de Lampa. Certamente, o bom Faustino não era um homem de letras; mas para desempenhar seu cargo e deixar os pais de família contentes, bastava-lhe saber ler medianamente, ter uma caligrafia regular e ensinar de cor a doutrina cristã aos meninos. A escola estava situada na rua Ancha, numa casa que, na época, era propriedade do Estado e que hoje pertence à família Montesinos. Contra o costume geral dos mestres daqueles tempos, Seu Faustino pouco utilizava o látego, o que fez com que fosse batizado com o apelido de São Simão Esgaratujo. Ele o ostentava mais como um sinal de autoridade do que como instrumento de castigo, e era necessário que a falta cometida fosse muito grave para que o professor aplicasse um par de açoitadas, do tipo que nem tira sangue, nem deixa roxo. Em 28 de outubro de 1826, dia de São Simão e Judas para ser mais exato, grandes festejos foram celebrados nas principais cidades do Peru. As autoridades estavam empenhadas e mandaram oficialmente que o povo se alegrasse. Bolívar estava, então, em todo seu apogeu, mesmo que seus planos de vitaliciedade começassem a eliminar o afeto dos bons

peruanos. Apenas em Lampa não houve manifestação alguma de regozijo. Para os lampeanos este foi um dia de trabalho, como qualquer outro do ano, e os meninos foram, como de costume, à escola. Já havia passado do meio-dia quando Seu Fastino mandou fechar a porta pra rua, dirigiu-se ao curral da casa, fê-los ficar em fila e, chamando dois índios robustos que lhe serviam, ordenou-lhes que agarrassem os meninos. Do primeiro ao último, todos levaram uma dezena de chicotadas, com as bermudas arriadas, aplicadas pela mão do professor. A gritaria foi ensurdecedora e houve pranto coletivo por mais de hora. Quando chegou o momento de fechar a escola e mandar os meninos para a casa de seus pais, disse-lhes Seu Faustino: — Falem, pícaros godos, como vocês contarão o que acabou de acontecer! Coureio vivo ao primeiro que eu descobrir que saiu a me caluniar. “Terá ficado louco?", perguntavam-se os pequenos; mas não contaram a suas famílias o ocorrido, se bem que as escoriações das chibatadas os haviam deixado acabrunhados. — Que bicho mordeu o professor, que era tão manso de temperamento, para distribuir tão furioso açoitamento? Já descobriremos. No dia seguinte, os meninos chegaram à escola, não sem recear que a sessão se

repetisse. Por fim, Seu Faustino fez sinal que iria falar. — Meus filhos — ele lhes disse — tenho certeza de que se recordam do rigor com que os tratei ontem, contra meu hábito. Tranqüilizem-se, que só faço estas coisas uma vez por ano. E vocês sabem por quê? Sinceramente, filhos, digam-me se souberem. — Não, senhor professor — responderam em coro os meninos. — Pois vocês hão de saber que ontem foi o dia do santo do libertador da pátria, e não tendo nenhuma outra maneira para festejar isto, já que os lampeanos têm sido tão ingratos para com aquele que os tornou gente, eu recorri ao chicote. Assim, enquanto vocês viverem, terão gravado na memória a lembrança do dia de São Simão. Agora estudem sua lição e viva a pátria! E a verdade é que os poucos que ainda vivem daquele grupo de meninos se reúnem em Lampa em 28 de outubro e celebram com um banquete, no qual brindam por Bolívar, por Seu Faustino Guerra e por São Simão Esgaratujo, o mais milagroso dos santos em matéria de refrescar a memória e esquentar as partes posteriores. (1871) Fonte: Tradições Peruanas, http://www.cervantesvirtual. com/

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Ricardo Palma era filho de Pedro Palma Castañeda e de dona Guillermina Soriano Carrillo; neto paterno de Juan de Dios Palma e de Manuela Castañeda. Nasceu em Lima em 7 de fevereiro de 1833. Desde jovem teve envolvimento com a política junto a ala dos liberais, a qual o incitou a participar em um malfadado levante contra o presidente Ramón Castilla, que levou a seu desterro ao Chile por três anos. A política o conduziu aos cargos de cônsul do Peru, senador por Loreto e funcionário do Ministério de Guerra e Marinha. Mas foi nas Letras a atividade em que se destacou. Desde jovem começou a escrever poesias e peças teatrais, inclusive a realizar colaborações em jornais do país. Teve grande presença na imprensa satírica, na qual foi um prolífico colunista e um dos baluartes da sátira política peruana do século XIX. Começou colaborando na folha satírica El Burro, para ser posteriormente um dos principais redatores de La Campana. Mais adiante, fundou a revista La Broma. Também foi um colaborador assíduo de publicações sérias como El Mercurio, El Correo, La Patria, El Liberal, Revista del Pacífico e Revista de Sud América. Também atuou com correspondente de periódicos estrangeiros durante a Guerra do Pacífico. Em 1872, foi publicada a primeira série de sua principal obra: “Tradições Peruana”. Ao longo de sua vida, publicou artigos históricos, trabalhos de investigação como Anais da Inquisição de Lima e inclusive estudos lexicográficos sobre a variedade peruana do espanhol. O êxito conquistado por suas Tradições e sua incansável capacidade intelectual o converteram em uma figura reconhecida em vida, não apenas em seu país, como em

todo o mundo hispanófono, que o acolhe como um dos escritores clássicos de prosa mais acessível do continente americano. Foi membro correspondente de La Real Academia Española, La Real Academia de la Historia e de la Academia Peruana de la Lengua, assim como membro honorário da Hispanic Society de Nova York. Em 1881, participou da defesa de Miraflores durante a batalha de Miraflores de 15 de janeiros de 1881, no Forte Nº 2, sob o comando do coronel Ramón Ribeyro, quando as tropas invasoras incendiaram a cidade, incluindo sua casa. Em 1883, foi nomeado diretor e restaurador da Biblioteca Nacional do Peru. Casou-se com Cristina Roman Olivier, com quem teve vários filhos. Seu filho, Clemente Palma, foi um escritor de destaque, autor de contos fantásticos, geralmente de terror, sob influência de Edgar Allan Poe, e sua filha, Angélica Palma, foi uma das fundadoras do movimento feminista peruano. Morreu no distrito limenho de Miraflores, em 1919.

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teoria Literária

Volmar Camargo Junior

ENCHENdo LiNGüÍStiCa:

FiCÇÃo SoB PrESSÃo
quisaram sobre a vida e os métodos de trabalho e os hábitos de escrita de escritores conhecidos, aclamados, considerados literatos ou best-sellers. Nessa pesquisa, pudemos comparar os hábitos dos “grandes” com os nossos, confirmarmos se organização e método influenciam ou não a atividade dos escritores. E também, para avaliarmos se nossas manias e nossas crises de desespero (quando temos que produzir contos dentro de um tema, um gênero e dispomos de poucos dias para entregá-los ao organizador da atividade...) estão dentro

Escrever sob pressão, assim como executar qualquer outra atividade, pode ser tanto um estímulo quanto um agente promotor de mal-estar — do desconforto ao pânico. Os oficineiros que participaram da discussão, todos confidenciaram como se relacionam com essas pressões. Como uma tarefa, os colegas pes-

O resultado dessa pesquisa foi tão interessante que me senti na obrigação de dividi-lo com o leitor da SAMIZDAT. Como foi produzido a várias mãos, brasileiras e lusitanas, esse texto pode apresentar algumas diferenças de grafia entre um trecho e outro da biografia dos autores. Por hora, ainda não temos a reforma ortográfica a nos pressionar, mas essa também não tarda. Boa leitura

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Durante o mês de outubro, no tópico “Enchendo Lingüística” da comunidade da Oficina de Escritores, discutimos assunto da dificuldade de escrever sob alguma forma de pressão: de um prazo, de um tema, de um gênero.

da normalidade. Ao menos, da normalidade que compartilham os escritores.

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Jorge Luis Borges (1899 - 1986) é um autor que sempre se considerou um preguiçoso. Numa biografia que li dele, ele afirmava que não escrevia romances porque tinha preguiça, demorava muito tempo para serem escritos. Uma citação que demonstra esta concepção (inclusive a preguiça) pode ser encontrada no prólogo de “Ficções”: “Desvarío laborioso y empobrecedor el de componer vastos libros; el de explayar en quinientas páginas una idea. cuya perfecta exposición oral cabe en pocos minutos. Mejor procedimiento es simular que esos libros ya existen y ofrecer un resumen, un comentario. (...) Más razonable,más inepto, más haragán, he preferido la escritura de notas sobre libros imaginarios.”

Graciliano Ramos (1892 – 1953) era muito meticuloso em sua escrita. Ele costumava cortar todas as arestas e só considerava seus livros prontos quando estivesse completamente livres de excessos. Durante os anos em que ficou preso, Gracialiano Ramos escreveu num diário tudo que lhe ocorria. No entanto, tais notas se extraviaram, o que para o autor foi um bom sinal, pois livrou “Memórias do Cárcere” de informações desnecessárias: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxaguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

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Mark Twain (1835 – 1910) era um escritor obcecado pela escrita. Escrevia muito e escrevia sempre. “É um hábito meu manter em processo de construção quatro ou cinco livros duma só vez, e a cada verão adicionar uma fileira de tijolos em dois ou três deles, mas eu não posso prever qual destes dois ou três vingará. Demora uns sete anos para concluir um livro através deste método, mas mesmo assim é um bom método: permite que o público descanse.” (http://www.w2mw.com/marktwain.htm)
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Guimarães Rosa (1908 – 1967) talvez seja o mais importante escritor brasileiro desde Machado de Assis. Com uma escrita própria e poderosa, ele criou alguns mitos literários. Dividia o tempo entre o ofício diplomático e a escrita. Morreu poucos dias após ter tomado posse duma cadeira na ABL. Dizem que era um forte candidato ao Nobel. “Quando escrevo, não penso na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Moçambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares com às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palvras belíssimas como’gramado’,’aloprar’, pertencem à gíria brasileira, ou como’ malga’, ‘azinhaga’,‘azenha’ só correm em Portugal - será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sempre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um acto religioso. E prova está em que tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boaidas, a cavalo, e levei sempre um caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido - até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.”

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José Cardoso Pires (1925 – 1998), escritor com uma vintena de obras publicadas e uma dúzia de prémios literários, dedicava-se exclusivamente à escrita nos últimos anos de vida. Numa sua entrevista de há vinte anos, ele dizia que escrevia uma página por dia, todos os dias. A ideia é simples e tem muita força, tanto que eu a ainda a lembro. Pensei, então, que escrever uma página num dia era coisa acessível e que, por esse método, ao fim de meio ano podia ter um romance completo.

Clarice Lispector (1920-1977), em uma entrevista para a TV Cultura (janeiro de 1977, publicada na Revista Shalom), quando questionada sobre a periodicidade de sua produção literária, Clarice Lispector disse: “Eu não sou uma profissional, eu só escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e faço questão de continuar sendo amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever. Ou então com o outro, em relação ao outro. Agora eu faço questão de não ser uma profissional... para manter minha liberdade. Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável.” Segundo a autora, a questão da liberdade de escrever quando se quer e assim produzir material legítimo, isento de pressões mercadológicas. A obrigação é vista como algo que inibe a beleza dos textos e torna o escritor um operário que teria em mãos, ao invés de peças de ferro, caneta e papel (máquina de escrever/PC). Isso significa que o ato de escrever com qualidade está ligado muito mais a um passatempo sem compromissos do que a um ofício regular, linear e imposto.

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José Rodrigues dos Santos (1964) é um jornalista e escritor português best-seller. Tem, publicados, seis romances e alguns ensaios. Faz questão de frisar que os seus livros são baseados em informação científica actualizada, o que o obriga a extensas pesquisas e a consultas a especialistas das matérias abordadas. Publica, em média, um romance por ano, com uma média superior a 500 páginas, cada, e uma média de vendas superior a 100.000 exemplares, cada. Wow! O curioso é que a actividade principal dele é jornalismo; é, há muitos anos, um dos três principais pivots do principal jornal da emissora estatal de televisão, e já foi o director de informação da estação, durante vários anos. Um colega comum, intrigado com uma tão extraordinária gestão do tempo, que a sua, como para a maioria de nós, mal dá para se manter lavado e escanhoado, em certa oportunidade, perguntou-lhe: – Zé, quando é que tu arranjas tempo para escrever livros? A resposta foi de uma simplicidade desarmante:
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– De manhã. António Lobo Antunes (1942) é o escritor português vivo mais conhecido, a seguir a Saramago. Publicou uma vintena de romances, desde 1979, tendo sido distinguido com vários prémios nacionais e internacionais. Médico psiquiatra, dedica-se em exclusivo à escrita, actualmente,
“Fico parvo quando vejo escritores que escrevem 30 ou 40 páginas por dia. Quando escrevo uma, é uma sorte.” (Jornal de Notícias, 20.01.2008) “Quando estou a escrever não existe nada a não ser o livro. Isso é muito bom.” “...ao acabar-se um dia de trabalho, no dia seguinte o livro inflecte. Às vezes dá-me vontade de continuar a escrever por mais horas. O que eu faço, então, é parar, se possível, a meio de uma frase. Se possível, a meio de uma palavra. Para tentar não torcer muito o rumo ao livro, para usar a sua expressão.” “Tinha contado fazer esta página em quatro ou cinco dias e fi-la em dois. Isto para mim é uma coisa muito rara.” “Tenho que me impor uma data para começar. Fui ver ao calendário: 25 de Fevereiro. Não sei porquê. Não é uma data que tenha, para mim, nada de especial. Calhava a uma segunda-feira. Normalmente, o que eu fazia antigamente era esperar que houvesse um mês em que o dia um fosse a uma segunda-feira, para começar. Era uma forma de atrasar o começo do livro.” “Foi sempre a mesma coisa. Eu não escrevia por estar motivado. Escrevia porque tinha que escrever. Não era uma questão de destino, nem de obrigação.” (Revista Ler – nº 69 - Maio de 2008. http://www.ala.nletras.com/entrevistas/LER0508.htm)

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Fernando Pessoa (1888 – 1935), sobre o próprio processo de escrita: “Em eu começando a falar – e escrever à máquina é para mim falar –, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V . quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz.) Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas cousas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.) Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.” (trecho duma carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro)

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Kafka (1883 – 1934) era um autor atormentado pelo passado, pela opressora presença paterna e por uma constituição física doentia. A escrita para ele era um exercício de abnegação e martírio. Mesmo após a rotina dioturna no escritório, Kafka
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atravessava a noite escrevendo. “É fácil reconhecer a concentração de todas minhas forças na escrita. Quando ficou claro ao meu organismo que a escrita era a mais produtiva direção para o meu ser, tudo se apressou em tal direção e esvaziou toda as outras habilidades que eram direcionadas para as alegrias do sexo, da alimentação, da bebida, da reflexão filosófica e, acima de tudo, da música. Atrofiei-me em todas estas direções. Isto foi necessário porque a totalidade das minhas forças era tão tênue que apenas coletivamente elas poderiam servir, mesmo que a meio caminho, ao propósito da escrita.” (Diários, 1912) Marguerite Duras (1914 – 1996): “A escrita é o desconhecido. Antes de escrever não sabemos nada acerca do que vamos escrever. Com toda a lucidez. É o desconhecido de nós mesmos, da nossa cabeça, do nosso corpo. Não é sequer uma reflexão, escrever é uma espécie de faculdade que temos ao lado da nossa pessoa, paralelamente a ela, de uma outra pessoa que aparece e que avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que, por vezes, pelos seus próprios factos, está em perigo de perder a vida. Se soubéssemos alguma coisa do que vamos escrever, antes de o fazer, antes de escrever, nunca escreveríamos. Não valeria a pena. Escrever é tentar saber aquilo que escreveríamos se escrevêssemos - só o sabemos depois - antes, é a interrogação mais perigosa que nos podemos fazer. Mas é também a mais corrente.” (“Écrire”) José Saramago: “Nunca andei à procura de ideias para os meus livros. As ideias vêm ter comigo, algumas não servem, outras talvez, outras são como um amor à primeira vista. Não sistematizo, não faço planos, não escrevo 30 páginas para as converter depois em 300. Os meus livros crescem naturalmente, tal como uma árvore cresce. Quando a árvore atinge o tamanho próprio, deixa de crescer. É muito simples, como vê.” (http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI16184-15220,00-DEI+A+PROCURA+DE+IDEIAS.html)
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Honoré de Balzac (1799 – 1850) era tão doido que chegava a escrever por dias a fio. Sua rotina diária era absurda, como escrever por quinze horas ininterruptas, regadas a muito café. Além disso, Balzac sofria de um irreparável perfeccionismo. Diz-se que fazia préimpressões dos livros – ao ponto de ele próprio adquirir uma pequena gráfica - ocupando apenas o espaço central da página. Assim, fazia inúmeras correções, e tornava a imprimir. No caso do Balzac, cuja obra é monumental, sofria a pressão de si mesmo. (http://en.wikipedia.org/wiki/Balzac) O nipo-brasileiro Ryoki Inoue entrou para o Guiness Book por ser o escritor mais prolífico do mundo: segundo ele, produz hoje uma média de três romances por ano, mas chegou a produzir três por dia para cumprir as exigências das editoras. Para citar um exemplo:
http://www.gruposummus.com.br/images/imprensa/Ryoki2.jpg http://www.flickr.com/photos/intherough/2871369963/sizes/o/

“Ao ver Ryoki no Guinness Book, Matt Moffett, jornalista americano do Wall Street Journal, teve sua curiosidade despertada para o processo de criação do escritor, querendo ver pessoalmente para crer, como alguém poderia produzir histórias de sucesso em tão pouco tempo. Assim, lançou um desafio ao escritor e aportou em São José dos Campos (onde Ryoki morava na época), no final de janeiro de 1996. Uma semana depois, Moffett contou como nasceu o livro de Ryoki Inoue - Seqüestro Fast Food, elaborado em uma noite, mais precisamente das 23h30 às 4h - num dos jornais mais famosos do mundo.” (http://www.ryoki.com.br/biografia.htm)

Pesquisa realizada por: Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo Léo Borges Maria de Fátima Santos Volmar Camargo Junior

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No mês de novembro, foi lançado o Audiobook com contos de membros da Oficina da E-TL. O CD foi produzido por Alian Moroz.

Conteúdo 1 - "Vovô Caneco", de Alian Moroz 2 - "O Menino Binário", de Carlos Barros 3 - "Coleção de Botões", de Giselle Sato 4 - "Noite Estrelada", de Guilherme Rodrigues 5 - "A Vingança de Bento Julião", de Henry Alfred Bugalho 6 - "Os Ratos", de Joaquim Bispo 7 - "Esmeralda, Jade e Rubi", de José Espírito Santo 8 - "Fissuras Íntimas", de Leo Borges 9 - "A Palhinha", de Maria de Fátima Santos 10 - "A Última Revolta de Jesus Cristo", de Rogers Silva 11 - "Com Carinho, Isolda", de Volmar Camargo Junior

As faixas do audiobook podem ser baixadas gratuitamente no enredeço abaixo: http://oficinaeditora.org/2008/11/29/audiobook-da-oficina/

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teoria Literária

a tESE Na LitEratu
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

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“A opção entre um texto panfletário ou um com tese implícita nunca é descompromissada. A abordagem dependerá do público para o qual a obra se destina, da proposta do autor e também da própria tese defendida.”
Charles Thévenin: La prise de la Bastille, 1793 Paris, Musée Carnavalet (P.572)

Todo texto defende uma tese.

Quando afirmamos isto, não nos referimos apenas a textos acadêmicos, ou teóricos, mas a todo e qualquer texto, incluindo o texto literário. Antes de tudo, devemos explicar o que se entende por “tese”. Thesis é uma palavra grega derivada do verbo tithemi, cujo sentido nada mais é do que “colocar em algum lugar, apresentar algo”. Este é praticamente o mesmo sentido da palavra latina propositio, ou proposição, em português. A tese, ou a proposição, é aquilo que é posto diante dos olhos do leitor, aquilo que o autor deseja apresentar. Numa carta de amor entre namorados, a tese é provar os sentimentos amorosos dum para o outro; num texto teórico universitário, a tese é a demonstração e comprovação duma hipótese; em qualquer texto, existe uma tese, uma idéia a ser defendida, mesmo que ela esteja diluída e pareça ser inexistente. Na Literatura, a tese costuma transparecer de duas maneiras mais comuns: explicitamente, quando a proposta do texto é convencer o leitor a aceitar a tese, ou implicita-

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mente, quando o texto estimula o leitor a concluir, por si só, qual é a tese.

A Literatura Panfletária

A narrativa literária que defende explicitamente uma tese e que utiliza todos os recursos necessários para persuadir o leitor de sua veracidade é conhecida por “panfletária”. A literatura panfletária não possui orientação política específica, pode tanto defender ideais esquerdistas quanto de direita, pode ser tão reacionária quanto revolucionária, tão anárquica quanto conservadora. O “panfleto” não diz respeito às idéias que estão presentes numa obra literária, mas ao modo como elas são apresentadas. O texto panfletário não esconde a que veio, não mascara seus objetivos. A Literatura panfletária atrai os correligionários da tese defendida, ao mesmo tempo em que repele quem a ela se opõem. Não aceita meio termo. Um exemplo é “O Último Dia dum Condenado à Morte” de Victor Hugo. Nesta obra, acompanhamos um prisioneiro pouco antes de sua execução na guilho-

tina. Victor Hugo se opunha à pena capital e tanto nesta obra como em outras, ele defenderá este ideal. No entanto, o que diferencia “O Último Dia dum Condenado à Morte” de “Os Miseráveis” é exatamente a opção do autor em, na primeira obra, tornar a tese evidente, isto é, o repúdio à pena de morte. Como dissemos anteriormente, esta escolha do autor delimita o leitor que acolherá o texto, alguns concordarão com ela, outros discordarão e, aquele que estiver indeciso, poderá ser convencido pelos argumentos, ou se constrangerá por causa da tentativa do autor em manipulá-lo.

mos um personagem sofrendo por causa da expectativa da execução. Já no caso duma obra na qual a tese esteja implícita, o autor geralmente tenta falsear a tese defendida, ou apresenta uma tese contrária que será, no decorrer da narrativa, refutada. Podemos utilizar outra obra de Hugo como exemplo: em “Os Miseráveis” a tese inicial parece ser a de que “um criminoso nunca se recupera, nunca mais pode ser reinserido na sociedade”. Como Hugo introduz esta falsa tese? Jean Valjean é libertado da prisão, mas como ele é um ex-condenado, ele é obrigado a carregar um passaporte amarelo, o que faz com que ele seja estigmatizado pela sociedade. Nem teto para dormir ele consegue encontrar. No entanto, um bispo o abriga em sua casa. Naquela mesma noite, Jean Valjean resolve roubar a casa de seu anfitrião, ou seja, a tese parecia ser: “Jean Valjean (e, por extensão, todos os demais ex-condenados) sempre será um criminoso”. Mas o protagonista é capturado e reconduzido à presença do bispo, que, ao invés de acusar Jean e enviá-

A Tese Implícita

Uma narrativa literária também pode apresentar a sua tese sem evidenciá-la. Na verdade, a Literatura panfletária aborda uma tese sob a mesma ótica dum texto teórico. A tese precisa ser demonstrada, para tanto, apresenta-se casos nos quais ela pode ser aplicada. A ficção situa então a tese num caso ficcional, que através do enredo visa comprovar a tese que a motiva. Retornando ao exemplo da obra de Hugo, para provarmos que a pena de morte é cruel, apresenta-

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lo novamente para a prisão, mente para a polícia, dizendo que os bens roubados eram, na verdade, presentes seus para Jean. Esta atitude do bispo é um ato de perdão que Jean jamais poderia imaginar. Daquele ponto em diante, ele decide que será um homem correto. Todo o restante do enredo trata de luta de Jean para apagar seu passado e provar que ele está mudado.

acredita ser extraordinário. No entanto, quando ele assassina sua senhoria, ele começa a constatar que talvez estivesse equivocado, que ele também faz parte dos homens ordinários. Em Dostoievsky, quase sempre a tese é a antítese do que ele apresenta no início de suas obras.

cuja tese esteja disfarçada. Entretanto, a História da Literatura costuma destacar os autores que conseguem defender suas idéias sem dogmatismo, sem proselitismo. Via de regra, uma obra de Arte é aquela capaz de tocar, de algum modo, todas as pessoas, concordem elas ou não com a tese apresentada. E, para muitos leitores, desvendar os mistérios, desencavar os porões duma obra literária para desvelar seu sentido é uma grande recompensa. Prêmio comumente recusado por obras panfletárias.

Tese Explícita ou Implícita?

Victor Hugo compreende que esta é a maneira mais eficaz para abordar tal tese. Através dos atos de Jean Valjean, o autor acaba conduzindo o leitor à conclusão de que um homem pode mudar, que um criminoso pode se recuperar. Através da negação, através de caminhos tortuosos, o autor pode conduzir o leitor até a tese defendida. Outro bom exemplo é a obra-prima de Dostoievesky, “Crime e Castigo”. Nela acompanhamos o personagem Raskolnikov, um estudante russo que elabora uma teoria: “as pessoas estão divididas em duas categorias: as ordinárias, para quais as leis e normas morais valem, e as extraordinárias, que estão acima do bem e do mal”. Raskolnikov acredita fazer parte da segunda categoria,

Todo texto defende uma tese. Contudo, a abordagem desta tese faz parte do planejamento duma obra literária. O autor deve saber, de antemão, qual será a tese defendida, e como ele fará para que o leitor a perceba. A opção entre um texto panfletário ou um com tese implícita nunca é descompromissada. A abordagem dependerá do público para o qual a obra se destina, da proposta do autor e também da própria tese defendida. Não é tão simples estabelecermos uma hierarquia de valores e considerarmos as obras panfletárias como piores do que aquelas com tese implícita. Na verdade, para alguns leitores, apenas uma obra com objetivo explícito é compreendida; nem todos possuem o refinamento para ler as entrelinhas dum texto

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Crônica

Giselle Natsu Sato

ErótiCo ou PorNoGrÁFiCo: EiS a quEStÃo
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O próximo SAMIZDAT especial, apresentará o tema erótico. Quando o assunto é sexo, alguns termos são associados automaticamente. Pornografia e erotismo surgem como correntes antagônicas. Para entender, montei um mosaico e com muito cuidado, tentei encaixar as peças. O assunto é delicado, fascinante e polêmico. Pornografia tem origem grega, significa inscrita da prostituição. Atualmente é a representação, por quaisquer meios, destinada a instigar a libido. O aspecto moral é bastante pesado. Está associada, aos maiores problemas sociais do mundo moderno. Crimes contra menores, estímulo de violência e abusos sexuais. Neste ponto, fica bem claro a diferença moral e legal das duas vertentes. Porém, ao falar de erotismo as coisas mudam. Usamos um tom mais brando, sofisticado e com ares de superioridade. Erotismo é referente a amor, paixão e desejo ardente. Prazer pelo prazer. Apesar da intensidade, é associado a um conceito suave e permissivo. No mundo das artes, a linha entre pornografia e erotismo é muito tênue. Como diferenciar a pornografia e o erotismo?

Paixão, amor e desejo. A necessidade fundamental de algum contato. O erotismo sugere a presença, ainda que virtual de compartilhar o prazer. Mesmo em pensamento, não foge da idéia de registrar um parceiro. Há textos conceituando essas duas palavras à participação ativa. Como se na pornografia, o estímulo à participação fosse direto e de forma objetiva. No erótico esse convite é subliminar, o que condiz com o conceito de que o pornográfico expõe e o erótico faz desejar. A literatura erótica traduz a inspiração em forma de desejo. O sexo está inserido na narrativa, podendo ou não ser o assunto principal. A imaginação em possibilidades múltiplas, conduz ao mundo íntimo. Velado, oculto e silencioso. O que não ocorre nos textos pornográficos. O contexto deste tipo de leitura é o sexo explícito. Sem a menor preocupação em ser vulgar ou obsceno. É cru, realista e sem meio-termo. Tem urgência e o ‘tesão’’ é imediato! O erotismo é algo que pode não ser pornográfico, porém a pornografia é necessariamente erótica. Temos outro ponto que ainda hoje, e por muito tempo, tornará esses conceitos nebulosos e pessoais. O

que define o que é erótico: quem o produz ou quem observa? Definitivamente, erotismo e pornografia caminham lado a lado. Estão presentes em nossas vidas, entram em nossas casas através dos canais de comunicação. São usados em propagandas, mexem com o imaginário e estão disponíveis. Sem hipocrisia e falsos moralismos, acredito que somos responsáveis por nossas escolhas. E limites.

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Crônica

a Vida CoNtiNua

Joaquim Bispo

Os cemitérios de Lisboa são lindíssimos. Têm avenidas bordejadas de «palacetes» e esculturas, muitas flores e algum silêncio. Ostentam uma arquitectura que, ao longo dos tempos, tem reflectido a arquitectura dos vivos. E melhor preservada que a da cidade dos vivos. É que, nessa cidade dos mortos, não é necessário deitar jazigos abaixo para construir agências de bancos e de companhias de seguros. Ali, não abundam os clientes financeiros. Vêem-se jazigos de todos os estilos: neo-gótico, neomanuelino, neo-clássico, casa portuguesa. Uns, imponentes, a reflectir a importância do defunto em vida,

outros, discretos, a exaltar a humildade devida ao novo estado. Alguns são autênticas esculturas arquitecturais. É nos cemitérios, também, que existe, talvez, a maior concentração de escultura por hectare. Alguma, de grande qualidade. Além de chorosos anjos, escondendo a face, encontram-se, também, muitas alegorias da dor e da perda, adequadamente acompanhadas de fustes de colunas partidos ou troncos de árvore decepados precocemente. Lápides verticais ostentam delicados rendilhados florais em alto-relevo ou símbolos adequados à profissão e ao estatuto do finado.

Uma deambulação por um silencioso cemitério lisboeta é, quase de certeza, mais tranquilizante e culturalmente mais estimulante que um passeio por muitos dos jardins da cidade. Estes cemitérios têm ritmos próprios. Cada talhão de enterramento passa por uma fase de alvoroço, de abertura de covas e montões de coroas de flores, que progride, durante umas poucos semanas ou meses, em linhas paralelas ao longo do talhão. Aos poucos, as linhas revoltas vão evoluindo para um aspecto arrumado, pincelado de lajes de mármore e floreiras multicoloridas. Chega um momento em que todo o ta-

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lhão se arrumou e mantém um aspecto muito estável durante cinco anos, com os mármores alinhados, entremeados por um ou outro monte de terra dos defuntos de menos posses, cada um com a sua floreira. Às vezes, com uma ou outra placa de mármore com inscrições do tipo: «Grand-maman – Je ne t’oublierais jamais». Muitas vezes, esses talhões, de meio hectare de área, estão circunscritos por um muro quadrilátero de gavetas de cimento embutidas nas quais, mais tarde, serão depositados os pequenos caixões contendo apenas os ossos lavados e desinfectados dos corpos que tenham atingido o estado necessário ao levantamento. Estar sozinho num desses talhões a observar a extensão florida agitada pela aragem e a ouvir o concerto da vibração das centenas de pequenas floreiras metálicas, faz-nos sentir num universo distinto do nosso. São várzeas artificiais, «prados» de flores naturais de caules cortados, e de flores de plástico, inseridas em floreiras, numa densidade e numa multiplicidade de cores que nem a Natureza produz. Depois, passados os cinco anos da curtimenta, os talhões começam a ser escalavrados pelos levantamentos avulsos, que deixam

uma paisagem desoladora semeada de crateras rectangulares por entre as campas intactas cujos ocupantes se atrasaram a atingir a decomposição total. Passado algum tempo, tudo recomeça e o talhão recobra a «vida» florida – se de vida podemos falar –, para mais um ciclo de enterramentos. Aos Domingos, os ciganos instalam-se todo o dia no cemitério a honrar os seus mortos. Pintaram de branco a moldura da gaveta onde está o caixão do familiar falecido e o chão do passeio por baixo da gaveta. Mantêm-se por ali a limpar a gaveta, o caixão, o pano que o tapa e depois ficam simplesmente sentados, de porta da gaveta aberta com várias fotografias do defunto expostas e jarrinhas de flores sobre naperons brancos. Os outros vão menos ao cemitério. E tanto menos quanto o inexorável apagamento da dor que a passagem do tempo provoca. As floreiras deixam de ter flores naturais e ficam-se pelas de plástico que «duram mais tempo». Mesmo essas são, às vezes, levadas pelo vento. No fim do Verão, a maioria das floreiras está vazia. Perto do Dia de Finados – 2 de Novembro –, os cemitérios enchem-se, numa romaria de mãos carregadas de flores. Cumpre-se a

«obrigação» e o ritual. Por entre o bulício respeitoso dos que levam um rumo determinado, é possível ouvir pelas alamedas: – Anda cá, o 1622 deve ser para aqui! – O João não disse onde é? Ele já cá veio uma vez! – Sim, mas já foi há muito tempo! Há pessoas de todas as idades encavalitadas nas escadas metálicas que os cemitérios disponibilizam para aceder às posições mais elevadas. Nessa ocasião, são sobretudo os muros repletos de gavetas que registam uma primavera fora de época. Pode ler-se, aqui e ali, nas portinhas: «O tempo passa – A saudade aumenta». Ou outra mentirinha parecida, crida com toda a sinceridade. O tempo passa e tudo faz passar, felizmente. Ninguém conseguiria viver, sempre, com a dor do primeiro dia; ninguém conseguiria aguentar, ano após ano, as saudades sentidas no primeiro.

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Crônica

Nossa história abandonada
Maristela Scheuer Deves

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Lendo uma reportagem, tempos atrás, fiquei pensando como é estranho que nós, muitas vezes, simplesmente apaguemos da mente fatos marcantes do nosso passado – do nosso, mesmo, não o de nossos pais ou avós. No embalo das novas tecnologias, nem sabemos mais manusear uma máquina de escrever, sobre a qual nos debruçamos horas e horas para aprender datilografia. E com o advento do ar-condicionado, ainda saberíamos fazer um leque para espantar o calor, como nos tempos de criança? A vida doméstica foi o que mais mudou desde os meus primeiros anos – e olhe que tenho só 33. Hoje, me parece impossível que, na infância, eu tenha bebido água puxada com balde de um poço junto de casa. Ou, mais estranho ainda, que os banhos não eram de chuveiro elétrico, mas sim de chuveiro de lata, uma espécie de balde com chuveirinho adaptado no qual despejávamos água aquecida. As torneiras só vieram bem depois. No lugar de vaso sanitário, até os meus quatro, cinco anos, usávamos os “toaletes” de madeira, construídos em cima de poços-negros. E eu

adorava ir ao banheiro na casa da vovó, onde além do modelo adulto havia um para crianças... Em vez de videogame, a brincadeira era mesmo na rua, no pátio, na mata atrás da casa do vovô, no telhado da casa vizinha, de onde passávamos o dia pulando e subindo, com a falta de medo dos pequenos. A TV também era companhia, mas os desenhos e programas pareciam Ter mais sentido. Sítio do Pica-Pau Amarelo, Clubinho Gaúcha Zero Hora... Bons sonhos eles inspiraram! Outras brincadeiras que me fascinavam tinham, também, a ver com o passado – dessa vez, dos meus antepassados. Adorava fuçar no girau da casa do vovô Jacó, descobrindo livros e objetos antigos. E todos aqueles quadros nas paredes da velha casa em estilo enxaimel? E o grande relógio sobre duas portas fechadas, atrás das quais, segundo a vovó Leduína, se escondia o “Christkind”? Na casa dos outros avós, Guilherme e Linda, a atração era o galpão, onde estavam as quinquilharias – o baú dos bisavós e tataravós, que deu origem a várias histó-

rias; as bijouterias antigas; as estranhas fotos mostrando noivas vestidas de negro. Hoje nada disso existe mais. Nem as brincadeiras, nem os banheiros ou chuveiros improvisados, nem os museus de faz-de-conta, nem os avós. Até da memória eles somem, às vezes. Mas, quando lembro, dá uma saudade...

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Poesia

LaBoratório PoÉtiCo iNdriSo
O ser definitivo
O ser definitivo Tal homem e bicho Será finito. Etéreo, incorpóreo Crescerá como quiser E quando quiser, morrerá. Será como os sonhos Partindo sem ser lembrado.

Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

o pior dos deuses
O tempo é o menos óbvios dos deuses Ilude-nos com isso de passado e futuro E ri de nossos medos. A esperança é a única entre os deuses Capaz de sofrer conosco Mas ri de nossos medos. De todos eles, ainda pior é o amor. Faz o tempo e a esperança parecerem amadores.

o sangue negro
As almas são negras As dores são negras Negros amores são. Os sangues são negros Os filhos dos homens são negros Negras são todas as mães Da mesma negra massa somos Todos negros irmãos.

o poço
Onde havia de mim idêntico, Mesmo que inverso, um outro. Do fundo, com rancor autêntico, Encarou-me aquele eu imerso Impondo que fosse em seu encontro. Entre a borda e a água ficou suspenso O olhar que lá deixei cair dentro.
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Encontrei há tempos um poço

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urBaNidadE
Carlos Alberto Barros Se a cidade eu escrevesse, Desse jeito, não faria. Mudaria suas vias, Para a morte não achá-las. Não mais sangue: vinho tinto Nos seus cantos, suas valas. Em suas praças, seus recintos, Só o amor como interesse. Se a cidade eu rabiscasse, Muita coisa censurava: Empregada feita escrava; Mãe sem ter onde parir; O menino andando roto; Dia-a-dia sem porvir... O acordar seria outro: Sol sorrindo em cada face! Se a cidade eu colorisse, Transformava todo prédio. E na casa entregue ao tédio, Pintaria multicores. Edifício arranha-céu, De minhas mãos, teria flores, Feito um grande carrossel, Pr’a acolher as meninices. Se a cidade, um dia, eu fosse, Com seus bares, padarias, Um desejo só teria: De, com zelo, ser gerido. E quem quer que nessa gana Descrevesse o colorido, Não deixasse a face urbana Mascarar-me a alma doce.

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ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como umas das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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SA OS M IZ
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s erto Barro desenhisCarlos Alb rdestinos, filho de no , ormado, Paulistano plástico f e, artista onal como empr da profissi ta desde s çou sua vi seu rasCome já deixou escritor. sde então, Culturais, , de e Centros educador e , Escolas pedagógiG’s tísticos e tro por ON abalhos ar tr influência têm forte através de ncias que organiza riê cos – expe tualmente, a scritos. A e ças, estud sobre seus para crian escreve lustração e i a da Arte oficinas de em Históri t. graduação pósinterne cações na para publi il.com ador@hotma carloseduc pot.com nome.blogs http://des

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Dênis Moura é paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!
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Giselle Sato Giselle Sato é autora de Meninas Malvadas, A pequena bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos. gisellenatsusato@gmail.com

Guilherme Rodrigues Estudante Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre grande paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas em que se dedica cada vez mais.

o Henry Alfred Bugalh a pela UFPR, com É formado em Filosofi ra e pecialista em Literatu ênfase em Estética. Es as atro romances e de du História. Autor de qu . coletâneas de contos Nova York, com sua Mora, atualmente, em sua cachorrinha. esposa Denise e Bia,
henrybugalho@gmail .com

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Joaquim Bispo Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

José Espírito Santo ra e pós Informático com licenciatu de Ciências da graduação na Faculdade boa, trabalha há largos Universidade de Lis sultoria, sendo anos em formação e con Dados, Sistemas especialista em Bases de e Middleware de de Gestão Transaccional la escrita surgiu “Messaging ”. A paixão pe ano de 2007 recentemente, tendo no ços” (contos) e produzido os livros “Esbo (poesia). Vive pouco a norte de “Onde termina esta praia” uma pequena cidade um em Portugal em Alverca, com a família 84 SAMIZDAT dezembro de 2008 jjsanto@gmail.com 84 Lisboa. .blogspot.com/ http://www.riodeescrita

Marcia Szajnbok Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de vez em quando. Paulistana convicta, lo. vive desde sempre em São Pau marciasz@hotmail.com

Pedro Faria Estuda Matemática na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, músico amador e escritor quando dá na telha. Nascido e criado no Rio. punksterbass@hotmail.com
http://civilizadoselvagem.blogspot.com/

Maria de Fátima Santos Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licenciada em Física tem sido professora de Física e Química. Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pequenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama “meus contos”. O blog Repensando (www.intervalos. blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Maristela Scheuer Deves
Volmar Camargo Ju nior é gaúcho. Form ado em Letras pela Unive rsidade de Cruz Alta, não leciona por sua próp ria vontade. Entrou na ECT em 2004, e desde en tão já morou em meia dúzia de “Pereirópolis” pelo Rio Grande. Atualm ente vive com a esposa Na tascha em Canela, na Serra Gaúcha. Dividem o ap artamento com Marie, uma gata voluntario sa e cínica.

v.camargo.junior@gm ail.com http://recantodasletra s.uol.com.br/autores/v cj Zulmar Lopes ca. Formado em jorna Zulmar Lopes é cario lha de Gama Filho, traba lismo pela Universida ovinciana e prensa. Alma pr como assessor de im encontra-se provisoriam coração suburbano, en irro olita Copacabana, ba te exilado na cosmop es personagens e situaçõ fonte de inspiração de ra fugir ntos. Escreve pa que compõem seus co do marasmo. www.samizdat-pt.blogspot.com

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Também nesta edição, textos de

Carlos alberto Barros dênis moura Giselle Natsu Sato Guilherme rodrigues Henry alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo

marcia Szajnbok maria de Fátima Santos maristela Scheuer deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior zulmar Lopes

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