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Instituto Sol Nascente - Huambo

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REPÚBLICA DE ANGOLA

INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO SOL NASCENTE HUAMBO

A Construção das Identidades Nacionais Da identidade imposta à identidade reclamada

Nelson Artur Lopes

………………………………………………………………………. apenas reflectir sobre esta problemática a partir de alguma literatura científica que temos disponível e de trabalhos académicos anteriormente realizados.………………………………………………………………………….…………14 Bibliografia………………………………………………………………………………..As Identidades…………………………………………………………………………….15 Sumário Este artigo apresenta a nossa reflexão realizada no âmbito da proposta endereçada pela Subdirecção Académica do Instituto Superior Politécnico Sol Nascente – Huambo.2 Abstract……………………………………………………………………………………….. O nosso ponto de partida é o reconhecimento da natureza cultural e processual da identidade e do seu carácter de construção social e histórica. profissionais e epistemológicos centrados no campo das Ciências Sociais.2 2012 Índice Índice.... plurais e dinâmicas.. onde se combinam referências culturais variadas.4 II – História e Identidades……………………………………………………………………7 Súmula.... multiculturais. mas identidades compósitas......... .. Na investigação bibliográfica interdisciplinar sobre esta questão. aplicáveis a outros contextos políticos e geográficos.3 I . incorporando nessa análise uma abordagem ao caso da construção de Angola.. após uma filtragem prévia dos Curriculum Vitae. percebemos que enfrentamos uma problemática de natureza intercultural..... tendo em vista o processo de selecção de Docentes. nem contrapor nada a outras visões.. essenciais.Página 2 Sumário………………………………………………………………………………………. tentamos aqui elaborar sucintamente acerca dos processos históricos e socioantropológicos inerentes aos processos de construção das identidades nacionais.. Estando os nossos interesses académicos... e a subjectividade dos actores sociais intervenientes em interacção com outros sujeitos e com as culturas tão diversificadas que informam o quadro espácio-temporal onde habitam.. o processo de identificação não produz identidades homogéneas. Não pretendemos propor nenhuma tese.

Nation. Nationalism. we try to develop briefly here about the historical and socioantrophologycal processes inherent to the construction of national identities. Processo Abstract This article presents our discussion held in the proposal addressed by the Academic Subdirectorate Polytechnic Sol Nascente . Key Words: Cultures. but composite identities. Process. Our starting point is the recognition of cultural and procedural nature of identity and of is character of social and historical construction. essential. Nação. plural and dynamic. .Huambo. Estado. in view of the selection process for new teachers in this University and after a prior filtration of the Curriculum Vitae. incorporating this analysis approach to the case of construction of Angola. Being hour academic interests and professional occupations focused on the epistemological field of Social Sciences. Identities. the identification process does not produce homogeneous identities. Identidades.3 Palavras-chave: Culturas. we realize we face a problem of intercultural nature.. applicable to other geographical and political contexts. where they combine different cultural and multicultural references. In interdisciplinary research literature on this issue. and the subjectivity of social actors involved in interaction with other subjects and with such different cultures that informs the spatial-temporal context in which this identities lives. just reflect on this issue from some scientific literature that we have available and the academic work carried out previously. State. Nacionalismo. We do not intend to propose any theory or any other opposing views.

o fenómeno dos nacionalismos é historicamente recente e não deve ser assimilado aos nacionalismos do “Velho Mundo”. Provavelmente nunca existirá uma História mas apenas Historiografias narrativas pautadas pelas subjectividades político-ideológicas dos narradores. quanto a sua génese geográfica e afirmação política foram às vezes forjadas a partir do exterior. Ora. ou que já o perderam. Norte de África. A História que perdura é normalmente a versão dos vencedores A reduzida informação documental escrita. 3 Entende-se por Nação uma unidade cultural homogénea. ou por elites locais já muito aculturadas e europeizadas 2. Esta premissa é tão mais válida no caso dos países africanos. ou foram aglutinadas no seio de novos Estados. diríamos que os historiadores mais nacionalistas. própria das sociedades orais tradicionais africanas. 2 É sabido que muitas lideranças dos movimentos nacionalistas africanos foram escolarizadas em Missões ou escolas públicas (com limites à progressão escolar) e religiosas. Por outro lado. normalmente em regiões do planeta onde já existem unidades espaciais e culturais politicamente organizadas há muito tempo (Europa. esta premissa é mais fácil de verificar em países nos quais existe uma coincidência entre Estado e Nação3. De forma empírica. Ainda assim há inúmeras nações sem Estado. tendem a defender que a emergência e afirmação de um dado país (não importa qual) emana da vontade e do anseio organizado dos povos que lutam para ver transposta para a ordem da geografia política a sua identidade colectiva. mormente quando se analisam períodos mais ancestrais. também condiciona o acesso à verdade histórica. 1 Nomeadamente após a Conferência de Berlim (1884-85). quando velhas e novas potências coloniais repartiram entre si a África e vastas zonas da Ásia. sedimentada historicamente. das potências coloniais hegemónicas1. ao sabor das reconfigurações contínuas presentes na História. pelos nacionalismos e compromissos com ideários e projectos históricos particulares.I – As Identidades «O Homem é um animal preso numa rede de significados» Pierre Bourdieu «As culturas são totalidades complexas» Warnier Abordar a questão da construção de uma identidade nacional é uma tarefa complexa e plena de armadilhas. Noutras zonas do mundo como as Américas e África. Ásia). de todo o mundo. a juventude histórica da maioria dos actuais países africanos e o contexto de luta armada tantas vezes presente nos seus processos emancipatórios – pautada também por antagonismos étnicos fratricidas – produziram narrativas históricas distintas e difíceis de conciliar. . prosseguindo estudos em universidades do Hemisfério Norte. ou se encontram repartidas por vários Estados.

5 De forma ainda opinativa. estéticos. Este quadro gera complexidades extremas nem sempre bem compreendidas nas análises oriundas do Ocidente. Devido aos condicionalismos históricos africanos. etnocêntricos. diríamos que nestas regiões os nacionalismos emergiram tipicamente da acção condutora das elites. que aproveitando os desmandos dos colonizadores e o ambiente internacional ao longo dos Séculos XIX (nas Américas) e XX (em África e certas zonas da Ásia). igual a si mesmo. membro de uma dada comunidade alargada. como se forja depois o sentimento nacional. Nesta formulação característica da Antropologia filosófica e cultural. A identidade comporta uma dimensão lógica e uma outra. ser isto. num só indivíduo. As questões da identidade suscitam um problema inicial de natureza conceptual. dada a sua iminente historicidade e a ênfase conferida ao comportamento cultural dos indivíduos agregados em sociedades. Neste sentido. porque remete para a lógica formal (que culmina num essencialismo antropológico) e porque depende da dimensão ontológica: o que existe é. a condescendência e a imposição de padrões políticos e culturais exógenos. aquilo e mais ainda.. que unem o «conceito e a realidade do conceito». podemos também enquadrar a problemática das identidades colectivas. que muitas vezes produz olhares injustos. enquanto ideias historicamente determinadas. Assim. nacional? Para esta análise. de si. do Self (da mesmidade) e do Outro (da alteridade). encontraram formas de mobilizar colectivos culturalmente heterogéneos. um «ente» não pode ser e não ser simultaneamente. todo o real histórico pode ser visto como um sistema de ideias. etc. assistimos à afirmação de Estados plurinacionais que não correspondem ao paradigma Ocidental de Estado-nação culturalmente homogéneo (quando o é). na acepção clássica. sobrepondo a geografia política à geografia étnica e cultural. nesse caso. Vamos desvalorizar a dimensão lógica da identidade. desadequados da realidade africana. 1991: 84). A nossa questão de partida pode ser formulada assim: se as divisões territoriais africanas foram impostas do exterior. religiosos. tecnológicos. a abordagem da construção identitária é incontornável. dada a escassez de bibliografia e de material empírico para suportar as nossas asserções. muito examinadas ao longo da História. porque a identidade é conhecimento e reconhecimento. políticos. reais produzidos e construídos que ganham uma existência própria. no âmbito de inúmeras reflexões filosóficas e literárias. em sentido descendente. adoptamos o pressuposto Hegeliano segundo o qual a Ideia é a unidade do conceito e da realidade do conceito (Giannotti. que não podem objectivamente ser vistos como Nações. e num plano lógico. entre o paternalismo. toda a História é o produto de ideias materializadas em sistemas simbólicos. a comunidade nacional? O que faz alguém sentir-se cidadão. que seria. “O Ser . ontológica. idêntico. económicos.

Mas esta fórmula é demasiado «atomista» e remete sobretudo para a identidade individual. pode resumir-se a duas variáveis principais: a «identificação» do sujeito com a sociedade e a cultura de referência. que remete para a dimensão idiossincrática do sujeito . preferimos uma grelha de tradução mais interaccionista e processual. como algo estático e essencial (Cf. Toda a cultura . Pinto. com uma identidade subjectiva individualizada. M.6 é. É uma auto-consciência reflexiva (Cf. social.uma construção identitária progressivamente mais consciente. enquanto constituição de um sujeito individual. e o processo através do qual os agentes tendem a autonomizar-se e diferenciar-se socialmente […]” (Pinto. que remete para a noção de «sujeito sociológico» moderno (Mead. Nada impede que sejamos unos e múltiplos simultaneamente. Cuche) e das identidades concebidas em moldes processuais: “Toda a cultura é singular. de pertença ou de referência. notava Parménides já no século V a. Idem: 218). Giddens. concebendo-a involuntariamente ou não. Por isso. Podemos igualmente convocar a noção de individuação. Desta abordagem interaccionista emerge o conceito de Self (H. “o processo pelo qual os actores sociais se integram em conjuntos mais vastos. naturalista. a etnia e outros factores têm). cultural (e nacional). a leitura clássica que as Ciências Sociais fazem das questões identitárias. cultural. mas como um processo dinâmico e interactivo. o âmbito da nossa análise desloca-se necessariamente para outra conceptualização das identidades. geograficamente ou socialmente localizada. sociológica). linguístico -. o nada não é”. Quando transposta para a dimensão colectiva (histórica. de um conjunto homogéneo – racial. de um estado inicial. factor de identificação pelos grupos e pelos indivíduos e de diferenciação em relação aos outros. F. e Nouss. traduzida historicamente em conceitos como a raça ou a mestiçagem. Assim. já enunciada por Aristóteles. interessa-nos sobretudo a dimensão ontológica. e a «diferenciação» face a ela. entendida como a mistura de tipos biologicamente puros. J. Hall. Também é o produto de um determinismo filogenético. sendo as orientações dos actores uns em relação aos outros e em relação aos seus lugares vizinhos. que pressupõe uma identidade biológica pura ou não. dando assim origem a um fenómeno « impuro» ou heterogéneo” (Laplantine. Genericamente. em interacção com o contexto cultural (logos) e espacio-temporal (topos). 2003: 60) cultural. o modelo essencialista revela-se pobre e perigoso. com eles se fundindo de modo tendencial (processo de identificação). a identidade tem que ser vista não em moldes naturalistas ou essencialistas (apesar do peso que o género. Mead)..C.. 1994). ou. Mas se pensarmos a identidade em termos sociais e culturais. auto-apropriada. 2002: 8). O que “implicaria a existência de dois indivíduos originalmente «puros». A. que a determinado momento teria encontrado um outro conjunto. objecto de expressão discursiva numa língua determinada. na generalidade. 1991: 219). uma «identidade de traço de união» (Cuche.

aceitamos a coexistência de várias subespécies de hominídeos. Warnier. A História comparada das técnicas. as mudanças climáticas e o nomadismo. mas filiamos o Homem moderno num tronco comum com origem em África.. dinâmico e interaccionista. Gellner) Admitindo que a identidade é “definida historicamente. homogéneos e “idênticos”. Leroi-Gourham. das mentalidades. Idem. 1983b. Pelo contrário. 1987). A. Por mimesis da perfeição divina.. A descodificação do genoma humano reforça esta tese de uma origem comum.. Eliade. muitas vezes agrupadas subtilmente. o processo histórico subsequente seria assinalado corrupção da pureza inicial. o processo histórico é feito não de separação . culturalmente idênticas e estáticas por ausência de permutas. a Antropologia física e cultural. que se supunha muito limitado. B. a linguística e o que sobrou do estruturalismo. Exceptuando populações isoladas. sistemas jurídicos.7 é transmitida pelas tradições reformuladas em função do contexto histórico…………” (Warnier. há narrativas de origem que assinalam um início da História. 2003: 13). não constituem uma versão política da doutrina dos seres naturais […]. e não biologicamente. a autarcia favoreceria a preservação da pureza inicial: “as culturas primitivas eram vistas como culturas não ou pouco modificadas pelo contacto. 1985. da arte. Nas cosmogonias que integram um princípio deísta. II . os entes seriam inicialmente puros. os humanos teriam colonizado todo o planeta (Cf. marcada pela intervenção demiúrgica de entes sobrenaturais na ordem do natural em momentos genesíacos (Cf. Goody. Rensch. 2002:16). uma época heróica e mitológica.» (E. Em alternativa a este modelo. M. conceber um estado inicial. puro e homogéneo. O contacto com a alteridade produziria a mistura e a corrupção da homogeneidade. seguida de uma diversificação fenotípica.História e identidades «As nações não estão inscritas na natureza das coisas. A partir daí.” (Hall. 1985). s/d. situamo-nos num paradigma filogenético e ontogenético evolucionista. Sobre a hominização (o conceito implica a ideia de processo). é interessante reflectirmos sobre a sua extrema heterogeneidade étnica e linguística e o modo como se forja um sentido de pertença a uma comunidade nacional. 1983a. puros e homogéneos. é o reflexo de uma concepção circular da História. Se as identidades e as culturas são historicamente produzidas e estando nós a debruçarmo-nos sobre um caso como Angola. com outras culturas” (Cuche. religiões. fazendo sombra umas às outras. através de uma difusão recente alimentada pela economia de caça e recolecção. O que existe realmente são culturas.. Idem: 90). sobrepondo-se e entrelaçando-se. o que não exclui a possibilidade de processos de miscigenação. colidem com a ideia de estados iniciais.

. enquanto emanação natural da especificidade étnica ou de uma identidade naturalista ou biológica... ocorreram migrações dos povos Bantu que gradualmente se disseminaram pelo território da África central e Austral. e subdividindo-se em inúmeras formações etnolinguísticas que originaram a extrema heterogeneidade cultural presente em Angola (Cf.. e Nouss. coexistem como sabemos em Angola dezenas de línguas. dialectos e variantes dialecticais.. 2006. são variáveis dependentes na História que invalidam a ideia de puro. A. 2005. F. Ib. que é mais apropriado falarmos em processos de identificação do que em identidades. exílios. A tese que pretendemos expor (com a reserva de assentar apenas numa metodologia hermenêutica) acentua o processo de identificação da angolanidade como uma confluência de vários factores. comércio e viagens. Migrações. 1981). A unificação cultural surgirá como o corolário lógico da unificação .: 10). As culturas particulares não são absolutamente estranhas umas às outras. original. A. deportações. Ki-Zerbo. esses movimentos migratórios prosseguiram. nem mesmo quando acentuam as suas diferenças para melhor se afirmarem e distinguirem…. Muito anteriores ainda à colonização europeia. catalisado pela oposição a um denominador comum externo. não havendo “nenhuma cultura-tradição que não esteja ligada a uma determinada sociedade. difusões. R. sobrepondo-se às camadas étnicas pré-existentes (nomeadamente os Khoisan).8 mas de trocas culturais. diásporas.. “confrontação e diálogo” (Laplantine. É também sabido que estas Nações (algumas constituídas em Reinos estruturados) se antagonizaram reciprocamente. não “há verdadeira descontinuidade entre as culturas que.. Altuna.. que teve o condão de unificar a diversidade em torno de um objectivo comum. A.. no que concerne ao caso angolano.. Warnier: Ibidem).. sendo que nestes processos prevalecem as aculturações.. gradualmente. Parece-nos claro portanto.” (Cuche. incluindo o território que seria mais tarde Angola. pelo menos no interior de um dado espaço social. enriquecendo ainda mais o caleidoscópio étnico presente no território angolano. 1991. a independência nacional.. as quais se sobrepõem ao patamar da socialização primária. Idem.. Ibidem: 111). Ainda sob o domínio colonial. Boavida. A posição que assumimos aqui torna difícil a aceitação da legitimidade essencialista do nacionalismo. Embora a maioria das línguas nacionais possuam um parentesco filiado na ancestralidade Bantu. Gonçalves. invasões. escravizações. Mesmo os movimentos nacionalistas tiveram alicerces étnicos relativamente bem definidos.. As fontes que temos disponíveis corroboram estas proposições. histórica e geograficamente situada” (Warnier.. se põem em comunicação umas com as outras. o domínio colonial português. J.

constrói-se por oposição ao(s) outro(s).” (Idem: 38). O sentido de pertença opera em escalas progressivas. nómadas ou semi-nómadas. significando nascimento. Os mitos sobre a «essência» dos povos foram fundamentais para a construção de estadosnação. cada estado continha em si uma só nação ou povo. O que legitima a separação dos colectivos humanos: “A identificação individual e colectiva pela cultura tem como corolário a produção de uma «alteridade» em relação aos grupos cuja cultura é diferente. organizados em torno das suas culturas diferentes das nossas. a nossa «área cultural» (Boas) ou a nossa «configuração cultural» (Ruth Benedict). passando pelo clã. que tenderão a organizar-se em Estados com uma base territorial clara. mas a gradual adopção de uma língua comum. por seu turno. Mas é preciso mais do que uma unidade cultural para forjar a nação ou o Estado. Segundo estes mitos. mitos de origem e narrativas nacionais. signos e associações. um sistema de ideias. no plano individual e no plano dos colectivos históricos4. Cuche. comunidade original.” (Warnier. .” E a nossa cultura. que se definia pela sua residência num território comum. divergem das outras. As sociedades pré-agrárias. desde a família mononuclear. conheceram formas incipientes de Estado (sociedades politicamente organizadas de modo acéfalo ou comunitário). E. Ib. Gellner (1993: 19) formula a questão nestes termos: “Dois homens pertencem à mesma nação se e só se partilharem a mesma cultura.: 13). diminutas. 4 O vocábulo “Nação” deriva do Latim «natio». poderá ser fundamental para a construção de uma identidade partilhada. a identidade do eu e do nós. Ib. não é regra na História. pela tribo. a qual representa. sustentam que pode chamar-se de “construção do estado-nação a este processo de formação de uma memória colectiva. origem. pela sua total lealdade a um governo comum e pelas suas origens e destinos comuns…………. Sendo seres gregários e territoriais. A coincidência entre a «unidade nacional» (assente na unidade étnica e na homogeneidade cultural) e a «unidade política» e territorial. é nas sociedades sedentárias e complexas que os Estados se tornam imperiosos.9 política e é um processo que está longe de terminar. Positiva ou negativamente.). bem como modos de comportamento e comunicação. com uma base tecnológica simples (e uma fraca divisão de tarefas) e territórios fluidos. são necessárias as sagas. Nina Schiller e Georges Fouron (1997: 38). Nesse processo a questão identitária torna-se uma questão de Estado (Cf. o sentido de pertença passa pela identificação com um colectivo e com as suas estruturas simbólicas (as culturas) e pela oposição e distinção face a outros colectivos. Numa abordagem culturalista. Os discursos sobre as questões da identidade prestam-se facilmente a utilizações ideológicas.

como os argumentos culturais (língua. religião…) face à alteridade exógena (Cf.” (Zippelius. […]” (Ib. Gellner: “As nações são artefactos das convicções. É também na sua dimensão política.” (Schiller e Fouron. Ibidem: 74). “interacções essas iniciadas por causa de determinados instintos ou com vista a determinados fins. defende que: “É o nacionalismo que dá origem às nações. o que veio a suceder recentemente. A construção de nações e de nacionalidades.: 89). ou de uma cultura dominante que federou e hegemonizou outras culturas. do Ndondo. “a unificação das ideias em sistemas contínuos e uniformes está relacionada com o seu reagrupamento em comunidades inteiramente fluidas e culturalmente contínuas. Sem esquecer as figuras associadas à época heróica da luta armada. uma construção instrumental de uma elite que forjou ou manipulou um «padrão cultural».: 40).10 Não deixa de ser interessante aqui reflectirmos sobre os mitos fundadores da angolanidade (Reinos do Congo. como afirma E. A sociedade é o complexo de indivíduos socializados e a soma das suas formas de relações sociais.. herdadas historicamente. O «princípio da comunidade» não resulta só de uma mera associação entre indivíduos.]. Hobsbawm. 1997: 39) é só um princípio das interacções colectivas que geram uma sociedade. “actuarem com. aculturando-as (e aculturando-se também. por exemplo. radicalizou os discursos e dispositivos identitários homogeneizantes a nível endógeno e levou à sobrevalorização dos factores distintivos. Possuindo no seu espaço geográfico uma extrema diversidade cultural. e não o contrário. os habitantes de um dado território ou os que falam uma determinada língua) transforma-se numa nação se e quando os membros dessa categoria reconhecem firmemente uns aos outros determinados direitos e deveres mútuos em virtude da qualidade comum de membros dela”………(Idem: 19-20). lealdades e solidariedades do homem. Ib. por certo) e construindo um «complexo de condutas orientadas por um sentido» (Cf.” (Gellner. Uma simples categoria de indivíduos (por exemplo. Rowland. o nacionalismo utiliza a proliferação das culturas ou a riqueza cultural pré-existente. a unificação da nação implicaria necessariamente a adopção de uma língua nacional. recorreu-se às categorias de raça e etnia: a “identidade nacional é um conceito marcado pela raça [. Para reforçar a diferença face à outridade. as Rainhas e Reis míticos e outros ícones da nossa História). embora o faça selectivamente e muito frequentemente as transforme de forma radical. Reconhecidamente.: 1997): “o nacionalismo é que reflecte a necessidade objectiva de homogeneidade” (Gellner. O caso de Angola e outros países da CPLP é paradigmático.). restaurar antigas essências bastante fictícias. normativa e cultural. 1980. É possível revivificar línguas mortas. Ibidem. por e contra outros” (Zippelius. Idem: 34). Zippelius. Lévi-Strauss. Além disso exige-se um princípio voluntarista. Idem).. Gellner. R. mas durante décadas a . 1985. inventar tradições.

num contexto Iluminista e de Revolução Industrial. a pretexto dessa racionalidade organizativa. Morin: 1992) de unidade nacional. normativamente organizada: “uma totalidade de indivíduos cujas condutas são coordenadas de uma maneira específica: a comunidade. essa «noologia» (Cf. Ib. e a comunidade estatal. e o subsequente papel da escrita primitiva no auxílio à unificação dos grandes impérios” (Goody. (coloniais ou não). Neste sentido. ou por efeito das diferenças de escala e de desenvolvimento entre dominantes e dominados. constitui-se como estrutura de acção juridicamente organizada” (Zippelius. a este propósito. invocamos aqui o conceito de «aculturação organizada» e forçada (Cuche. reais ou supostos. Mesmo na Europa. capazes de sedimentar nos colectivos abrangidos. mas por razões decorrentes da identidade histórica e da distinção e diferenciação face aos países vizinhos. torna-se a garantia da existência de uma «comunidade juridicamente constituída». é já na época Moderna que. Ib. no fundo. Assim. que se procedeu à homogeneização cultural e a aculturações coercivas. a extensão dos Estados sobre esses territórios (Cf. já que a “grande massa do povo. como afirma Gellner (Ib. A procura de traços culturais identitários. o Estado ou a comunidade estatal (e não a Nação). Outro exemplo curioso do uso da língua como factor de integração e distinção. não o contrário. “As nações fazem o homem”. Ou o exemplo das duas Irlandas. foi a construção do Estado que produziu a cultura nacional e a Nação. foi a hesitação de países como Timor e Moçambique quanto à língua oficial a adoptar. acompanhando a construção e afirmação do Estado moderno. Idem: 111). Zippelius. constitui-se como estrutura de condutas orientadas por um determinado sentido. a burocracia. A “relação entre a escrita e a orientação política tem precisamente a ver com a formação do estado. assumindo uma formulação muito determinista. muitas vezes. Referimos de novo o caso de Timor que usou o Catolicismo como traço cultural agregador e de distinção colectiva face ao Islamismo da vizinha Indonésia. É sobretudo na fase de construção de Estados centralizados e complexos e de Impérios. pensou-se na adopção do Inglês.). mas sim vários patois. semiótico e afectivo. que “A língua oficial da República de Angola é o português”.11 língua portuguesa teve o estatuto formal de língua veicular5. Trata-se ainda da definição de um espaço e de um património simbólico.: 61). urbana e demográfica. Essa organização implica uma certa padronização cultural. monoculturais. as línguas se tornaram nacionais. mutuamente quase 5 A actual Constituição da República de Angola estabelece no seu Artigo 19º. Ponto 1. em especial. .: 19). Ib. acabaram por adoptar o Português como língua oficial. submetendo os sujeitos à norma e à regulação e suprimindo os particularismos. a recomposição territorial. passou também pelo sistema de crenças unificadoras.: 103). a unificação cultural. Por questões de integração num dado espaço económico. que nem sequer falava o idioma literário nacional.

et la création d´un espace culturel. centralisation administrative. mostram que a par da língua “oficial” e mestiçando-se entre si e com ela. de uma historiografia nacionalista. Mas os crioulos e o multilinguismo do sujeito Moderno. fondamental pour la constituition d´une identité nationale ». Não era possível deixá-lo manter-se como um ser embrutecido e indomado. mesmo em grande parte da Europa. Hobsbawm e E. “Assimilar uma cultura é assimilar. na evolução nacional. l´espace politique (pouvoir unitaire. cultural. Hobsbawm (Ibidem: 140) dá-nos um esboço dessa equação: “Quando o quadro dos letrados passa a ser suficientemente grande. daí que constitua um passo crucial. a propósito da metodologia de «observação participante» entre culturas exóticas. Que evidenciam «a contrario» a debilidade do sentimento nacional.” (Sardai. A. político e económico. por várias razões. l´espace social (la société bourgeoise) . a língua nacional impõe-se […]. O que implica a gradual marginalização dos particularismos culturais locais. investindo fortemente na escolarização (limitada) da população angolana. A visão paternalista. filiando-se em E. as línguas nacionais e as culturas tradicionais parecem estar em declínio. de literaturas nacionais (numa língua nacional) e da afirmação unilateral das identidades e Pátrias (Cf. para “conquistar mentes e almas”. o momento em que livros de textos ou jornais são pela primeira vez escritos na língua nacional.. ou em que a língua é pela primeira vez usada para qualquer fim oficial”. et al. opunhase directamente ao imperativo de estender a ordem a todos…………. Z. Idem: 141-142). A este propósito. O poeta português Fernando Pessoa também disse que “a minha Pátria é a minha língua” As autoridades coloniais perceberam bem a necessidade dessa homogeneização cultural. “Restos .. são tempos de nacionalismo romântico. 1996:34). refere que a expansão do sistema escolar visa a construção de « l´espace économique (la création d´un marché national) . Mas tratou-se também da construção de um espaço “nacional”. et tendance à la sécularisation) . (2002 : 20). 1980). G. Candeias. Ib. visto que. nomeadamente após o início da luta armada pela independência. acompanhando a urbanização acelerada do país e as migrações internas originadas pela guerra civil e o êxodo rural. cristianizadora e civilizadora também é patente neste processo: “O selvagem tinha portanto de ser civilizado ou sacrificado à civilização. a sua língua” (Warnier. persistem os dialectos e línguas locais. Gellner. Balandier. como sabem os antropólogos.: 12). a favor da homogeneidade proporcionada pela língua portuguesa. nesse estado. Após a conquista da independência nacional o Estado tem prosseguido esse forte investimento no sistema de ensino e. A imposição da língua portuguesa em Angola exemplifica bem este fenómeno.12 incompreensíveis” (Hobsbawm. em primeiro lugar.

Assim. não colide necessariamente com o sentimento de pertença a uma comunidade alargada. mais do que os territórios (topos) parecem constituir as sedes. Súmula A construção do espaço nacional angolano resultou em parte de uma imposição externa. Uma situação que ainda se verifica em Angola são os fluxos transfronteiriços de populações que partilham uma cultura comum. constituem na prática o único tipo de unidade com que os homens se identificam voluntariamente e muitas vezes ardentemente…………” (Gellner. Apesar da diversidade étnica. nacional. Ib. podemos ser unos e múltiplos. abrangendo populações inteiras e não apenas minorias de elite. Como dissemos antes. Ib. educacionalmente sancionadas e bem definidas.13 fragmentários da cultura de origem podem coexistir com contributos fragmentários da cultura dominante” (Cuche. surge uma situação em que as culturas unificadas.: 88). não tinha necessariamente uma . as culturas (logos). “Quando as condições sociais gerais conduzem a culturas eruditas standardizadas. Apesar de as identidades nacionais se construírem nesta sobreposição de camadas culturais. Mas a geografia política definida pelas fronteiras coloniais.: 108). Aqui observamos a prevalência da lealdade étnica sobre a lealdade nacional. os lugares que vinculam as lealdades das pessoas. homogéneas e centralizadas. mas que se encontram repartidas pela arbitrariedade das fronteiras coloniais. Ou podemos admitir que a identificação tem múltiplos níveis e que o sentido de pertença para com a comunidade e a cultura de origem. a unificação cultural padronizada não elimina a diversidade cultural.

forjando gradualmente uma consciência nacional. podem redundar em enviesamentos analíticos. quase niilista e Pós-Moderno.” Bibliografia . considerava no poema Opiário: “Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a Índia e a China. angolana. Mas se é verdade o que defendem os teóricos da Globalização. Mas terá sido a oposição a um inimigo externo comum. assente numa língua veicular. o colonialismo. no seu tédio burguês ocidental. na qual se mesclam traços culturais particularistas e universalistas. A gradual homogeneização cultural promovida pela colonização terá produzido algum sentido de pertença a uma comunidade alargada e as bases de uma cultura comum. passou-se de uma identidade imposta para uma identidade reclamada e conquistada que ganha a sua própria legitimidade e dinâmica histórica e sociológica. Assim. bem como a escassez de fontes e de materiais empíricos. A extensão gradual da língua portuguesa e dos padrões culturais urbanos. A terra é semelhante e pequenina E há só uma maneira de viver.14 correspondência num sentimento de pertença a uma comunidade nacional por parte das populações abrangidas nesses limites. o local manifesta-se no global e vice-versa. através do seu heterónimo Álvaro de Campos (um Self plural). caracterizadas por uma grande heterogeneidade étnica. vão modelando paulatinamente uma comunidade homogénea. Fernando Pessoa. e que a metodologia hermenêutica aqui utilizada. fortemente ocidentalizados. um sentimento de pertença a algo mais vasto que a comunidade de origem. Temos consciência que o conteúdo exposto neste texto resulta em parte de extrapolações produzidas a partir de outros contextos. que produziu um sentido comum e partilhado às diversas comunidades presentes no território angolano.

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