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Nilson Lage - Ideologia e Técnica da Notícia

Nilson Lage - Ideologia e Técnica da Notícia

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LAGE, N. L. . IDEOLOGIA E TÉCNICA DA NOTÍCIA - 3A. EDIÇÃO REVISTA. 3a.. ed. Florianópolis: Insular-Edufsc, 2001. v. 1. 158p .
LAGE, N. L. . IDEOLOGIA E TÉCNICA DA NOTÍCIA - 3A. EDIÇÃO REVISTA. 3a.. ed. Florianópolis: Insular-Edufsc, 2001. v. 1. 158p .

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Published by: Marcelo De Franceschi on Mar 20, 2012
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Procuramos partir da notícia como se faz ainda presente no jornalismo impresso e
como é considerado de boa técnica fazê-la. Desse núcleo mais conhecido estaremos em condições
de partir para incursões eventuais em outras áreas.
Entre os gêneros de texto correntes nos jornais, a notícia distingue-se com
certo grau de sutileza da reportagem, que trata de assuntos, não necessariamente de fatos
novos; nesta, importam mais as relações que reatualizam os fatos, instaurando dado
conhecimento do mundo. A reportagem é planejada e obedece a uma linha editorial, um
enfoque; a notícia, não.

Há duas razões básicas para a confusão entre a reportagem e notícia. Uma
refere-se à polissemia da palavra reportagem que, além de designar certo gênero de texto, é
nome da seção das redações que produz indistintamente notícias e reportagens. A segunda
resulta da importância peculiar que a estrutura da notícia assumiu na indústria da
informação: freqüentemente, a reportagem da imprensa diária é escrita com critérios de
nomeação, ordenação e seleção similares aos da notícia e apresentada com diagramação
idêntica.

Os veículos eletrônicos são, atualmente, os principais transmissores de
notícias para as grandes coletividades humanas. A redação inicial delas é progressivamente
açambarcada pelas fontes, que para isso organizam assessorias, serviços ou agências de
imprensa. Em geral, trata-se não tanto de falsear a informação, mas de revesti-la com a
versão conveniente.

O jornal diário é cada vez mais instado a compilar fatos já divulgados,
investigar causas e antecedentes mais ou menos remotos, interpretar e produzir versões da
realidade - a fazer reportagem, em suma. As notícias impressas refugiam-se nos periódicos
e seções especializadas (em economia, espetáculos, cultura, etc.), sempre que o interesse
específico se sobrepõe aos critérios mais gerais de avaliação.
Resta ainda à notícia impressa o campo aberto para a relativa liberdade dos
jornais, quando o rádio e a TV estão, em quase toda a parte, sob maior controle. Pode-se

15 RUSSEL, Bertrand. “As funções do professor”. In: Ensaios Impopulares. São Paulo, Companhia Editora
Nacional, 1954, p. 140.
16 MIRANDA, Orlando. Tio Patinas e os Mitos da Comunicação. São Paulo, Summus, 1976, p.16s.

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argüir que é a reportagem o instrumento mais facilmente disponível - investigação e
interpretação - quando se trata de elidir os esforços do controle da informação
desenvolvidos em várias instâncias do sistema de notícias. Mas é preciso que haja interesse
e recursos para tanto.

O texto noticioso ocupa ainda bom espaço na grande imprensa - das
manchetes aos pés de página; recua lentamente da condição de produto acabado à
contingência de matéria-prima do trabalho das redações.
Podem-se alinhar dezenas de definições clássicas de notícias em jornalismo - na
maioria ingênuas, algumas genéricas, nenhuma capaz de “determinar de maneira única seu
objeto”.17

Eis algumas definições tradicionais:
a) “Se um cachorro morde um homem, não é notícia; mas se um homem
morde um cachorro, aí, então, e notícia é sensacional”( Amus Cummings);
b) “É algo que não se sabia ontem” (Turner Catledge);
c) “É um pedaço do social que volta ao social” ( Bernard Voyenne);
d) “É uma compilação de fatos e eventos de interesse ou importância para os
leitores do jornal que a publica” ( Neil MacNeil);
e) “É tudo o que o público necessita saber; tudo aquilo que o público deseja
falar; quanto mais comentário suscite, maior é seu valor; é a inteligência
exata e oportuna dos acontecimentos, descobrimentos, opiniões e assuntos
de todas as categorias que interessam aos leitores; são os fatos essenciais de
tudo o que aconteceu, acontecimento ou idéia que tem interesse humano”
(Colliers Weekly)
f) “Informação atual, verdadeira, carregada de interesse humano e capaz de
despertar a atenção e a curiosidade de grande número de pessoas" (Luís
Amaral).18
Para Hohenberg, "os fatos que são ou não notícias variam de um dia para o
outro, de país para país, de cidade a cidade e, sem dúvida, de jornal para jornal".19

Os
autores marxistas destacam em geral o tratamento dado à notícia como objeto de consumo
e relacionam sua crescente centralização às tendências da sociedade. "A força motriz do
processo de monopolização da comunicação de massa no mundo imperialista deve ser
buscada tanto nos fatos políticos quanto econômicos", escreve exemplarmente Ivã
Tomasov20

Por mais judiciosas que possam ser observações como as de Hohenberg ou
Tomasov, elas não permitem responder a uma pergunta simples: o que é notícia? Ou, para
usar uma expressão coloquial norte-americana, "não garantem a ninguém que reconhecerá
uma notícia quando a encontrar". A resposta depende de uma definição que dê conta da
aparência, aspecto ou forma de notícia no jornalismo contemporâneo, abrindo o caminho
para um enfoque mais rigoroso de seu conteúdo.
Com tal objetivo, poderemos definir notícia como o relato de uma série de
fatos a partir do fato mais importante, e este, de seu aspecto mais importante. Assim,
reduzimos a área de discussão ao que venha ser importante, palavra na qual se resumem
conceitos abstratos como o de verdade ou interesse humano. Permitimo-nos encarar a notícia
como algo que se constitui de dois componentes básicos:

17 TARSKY, Alfred. “La construction d’une sémantique scientifique”. In: Lógique, sémantique, mathématique.
Paris, Armand Colin 1974, vol. II, p. 133
18 AMARAL, Luís. Técnica de Jornal e Periódico. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1969, p. 60.
19 HOHENBERG, John. Manual de Jornalismo. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, s.d., p.47.
20 TOMASOV, Ivan. “K vývoju monopolizacie masovych komunikacii v imperialistickon svete”. In: RUTTKAY, Franco et
allii. Zurnalistika
. Bratislava, Slovesnké Pedagogicke Nakladatelstvo, 1974, p. 214.

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a) uma organização relativamente estável, ou componente lógico e
b) elementos escolhidos segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis,
que se organizam na notícia - o componente ideológico.

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