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Direito das Obrigações I

Direito das Obrigações I

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Ano lectivo 2010/2011
Regência: Prof. Dr. António Menezes Cordeiro
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  • 1. Relatividade
  • 2. Tutela do devedor
  • 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos
  • 4. Causalidade
  • A reforma alemã das obrigações (2001/2002)
  • 1. Napoleónico
  • 2. Romano-germânico
  • 3. Anglo-saxónico
  • 4. Islâmico
  • 5. Chinês
  • Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona
  • No Brasil
  • Em África
  • Na Ásia
  • Dissociação teleológica
  • Natureza patrimonial
  • O interesse do credor e a juridicidade
  • A mediação e a colaboração do devedor
  • Relatividade estrutural
  • A relatividade na produção de efeitos
  • A relatividade na responsabilidade civil
  • A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa)
  • Discussão dogmática e solução proposta
  • Atipicidade
  • Obrigações e reais
  • Obrigações, personalidade e família
  • Obrigações e relações especiais
  • O dever de prestar
  • Prestações principais e secundárias
  • Os deveres acessórios
  • Prestações fungíveis e não-fungíveis; prestações divisíveis e indivisíveis
  • 1. Quanto ao conteúdo
  • 3. Absolutas, relativas e mistas
  • 4. Puras e combinadas
  • 5. Típicas e atípicas
  • 6. Determinadas e indeterminadas
  • 1. Obrigações duradouras
  • 2. Direitos pessoais de gozo
  • 3. Obrigações naturais
  • 4. Obrigações genéricas
  • A escolha e o risco
  • 5. Obrigações alternativas
  • 6. Obrigações com faculdade alternativa
  • 7. Obrigações de informação
  • Obrigações pecuniárias
  • Obrigações plurais
  • A solidariedade e a parciariedade
  • Solidariedade
  • Pluralidade heterogénea
  • A contratação colectiva e a contratação pública
  • O contrato nos nossos dias
  • Tutela constitucional do contrato
  • 1. Consensuais, formais e reais quoad constitutionem
  • 2. Típicos e atípicos
  • 3. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum
  • 4. Comuns e especiais
  • 5. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos; monovinculantes e bivinculantes
  • 6. Onerosos e gratuitos
  • 7. Principais e instrumentais
  • Contratos típicos, atípicos e mistos
  • Contratos indirectos
  • Contratos fiduciários
  • Uniões de contratos
  • Regime
  • Coordenadas histórico-dogmáticas
  • O contrato-promessa no sistema jurídico
  • Contrato de doação
  • Contrato de casamento
  • Negócios jurídicos reais quoad constitutionem
  • Sinal
  • Tradição da coisa
  • O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa
  • O direito de retenção
  • Execução específica da promessa: consagração e reformas
  • Forma
  • A viabilidade jurídica do definitivo
  • Mora ou não-incumprimento definitivo
  • A exclusão convencional; limites
  • Contratos com natureza pessoal
  • A alteração das circunstâncias
  • Depósito do preço
  • Origem e consagração
  • Requisitos
  • A primazia da promessa
  • A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo
  • A natureza da execução específica
  • Noção
  • As preferências no sistema jurídico
  • Modalidades; a interpenetração de regimes
  • O regime do pacto de preferência
  • Forma
  • Os procedimentos da preferência
  • A resposta do preferente; o contrato definitivo
  • Venda da coisa conjuntamente com outras
  • Prestação acessória; união de contratos e contratos mistos
  • Pluralidade de preferentes
  • A preferência com eficácia real
  • A natureza da preferência
  • Aspectos gerais e regime da opção
  • A optabilidade e o preço da opção
  • Direito e deveres, execução e incumprimento
  • Funções, natureza e aplicações
  • Dogmática geral: relações básicas e de atribuição; a prometibilidade a terceiro
  • A posição do promissário
  • A posição do promitente; a prestação principal
  • A posição do terceiro
  • O papel dos deveres acessórios
  • Configuração geral
  • Regime, efeitos e natureza
  • As relações contratuais de facto
  • Relações paracontratuais em especial
  • 2. Insubsistência do contrato
  • 3. Protecção de terceiros
  • 5. Respondência pela confiança
  • A tipicidade histórica
  • Dogmática geral
  • Negócios unilaterais em especial
  • 1. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida
  • 2. Promessa pública
  • 3. Concurso público

Direito das Obrigações I Parte I: Introdução – noção e origem das obrigações O Direito das Obrigações é direito civil.

No 397º encontra-se uma noção de obrigação. Não vale a pena ocupar-se com noções – isso cabe à doutrina. A expressão obrigação tem outras acepções. Cabe atentar no sentido preciso das palavras. Uma obrigação pode ser uma relação jurídica obrigacional complexa (não só o dever de prestar, mas todas as outras situações que surgem entre credor e devedor). O credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação, conduta humana. Mas há também prestações secundárias, como a obrigação de entrega do bem, ou deveres acessórios, decorrentes da boa-fé (a sapataria não se pode incendiar sozinha, ter as coisas mal arrumadas, p. ex.). Há, pois, um sentido amplo de obrigação, mas também se fala apenas em deveres simples como obrigações. Outrossim, pode significar o próprio conteúdo da mesma. Pode ser um título de crédito no Direito comercial. No CC há cerca de 600 referências a “obrigação”. Existe polissemia do termo. Obrigação é uma situação jurídica passiva. Mas muitas vezes utiliza-se, indevidamente, para significar qualquer situação passiva. As situações jurídicas compreensivas contrapõem-se às situações analíticas (lógicas, inteligíveis por si próprias). Aquelas só se captam pela descrição das suas características, são-nos dadas pela História. O Direito é uma ciência linguisticamente condicionada. A língua alemã é muito analítica, donde, são os alemães os melhores juristas. A língua inglesa, plástica, mutável, é boa para a gestão. A língua portuguesa é latina mas tem características próprias, como a musicalidade. A consequência é a constante busca de sinónimos para evitar cacofonias e repetições. Há, pois, muitos sinónimos. Para saber qual o significado das palavras temos de conhecer o contexto. Sabemos, em Portugal, retirar vantagens das várias línguas. Os romanos, intelectualmente menos desenvolvidos do que os gregos, foram muito melhores juristas. Isso deve-se ao latim. As obrigações surgem no Direito Romano. No Direito Romano o que existia eram situações concretas. Quando havia violações das regras jurídicas, delitos, no seio da família, o pater resolvia; se fosse entre famílias, recorria-se à retaliação. Houve uma preocupação com a moderação destas situações. Preconizou-se – lei de Talião – proporcionalidade na retaliação. Mais tarde, pensa-se que incutir sofrimento era menos inteligente do que exigir uma compensação que saldaria a questão. Pagava-se com gado, mais tarde com metais preciosos e dinheiro. A pessoa obrigada sujeitava-se a uma determinada sanção se não cumprisse. A expressão “obrigação” também vem do latim obligare. A pessoa obrigada estava adstrita a uma certa conduta. A sujeição pessoal do devedor às consequências do incumprimento cria a ideia de adstrição, sujeição. Atinge-se uma abstracção, sai-se do caso concreto. Para que se atingisse o estado de obligatio havia toda uma liturgia prevista, enormes formalidades; com a expansão de Roma pelo Mediterrâneo, criaramse figuras menos formalizadas, os tipos contratuais.

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Criaram-se novas figuras jurídicas, um regime menos adaptado à realidade. Obrigação vai-se apartando da pura concepção delitual dos primeiros tempos. Os gregos eram mais ideológicos, filosóficos (equidade, justiça, obediência à lei, etc.). Os romanos eram mais técnicos, pragmáticos. Contudo, no final do Império Romano do Ocidente, já tinham recebido a tradição grega de pensar o Direito. É no Corpus Iuris Civilis de 533 que se condensa o Direito romano justinianeu. O Direito civil previsto para uma sociedade como a romana veio a aplicar-se a sociedades eclesiásticas, mais tarde feudais, depois mercantilistas, industriais, aplicando-se ainda hoje. Como será possível que essas regras se perpetuem? Algumas são de equilíbrio, de tal forma intemporais que não se estranha a sua perpétua aplicação. Por outro lado, prolongaram-se no tempo muitos dos valores que já enformavam a sociedade romana. A classificação germânica do Direito civil surge no séc. XIX. Tem sido criticada por não ter homogeneidade de critérios de construção e organização. Os Direitos das obrigações e reais seriam estruturais, enquanto família e sucessões seriam institucionais. A parte geral é postulado do jusracionalismo setecentista. As partes especiais são Direito romano actual, com excepção do direito sucessório, que vêm mais da tradição medieval. A classificação germânica é um somatório de massas históricas, sempre remontando ao ius romanum. No Direito das obrigações o limite é o universo. É o tecido básico sobre que se inscreve toda a realidade jurídica. Obrigações stricto sensu Na parte especial encontramo-la no Direito da circulação dos bens; no sector dos serviços; nas sanções (área da responsabilidade civil, nomeadamente); na transferência do risco; nos contratos, como o de sociedade; em matérias como o desfruto de bens (Direitos reais); na tutela do consumidor, etc. O Direito das obrigações é marcado por diversidade substancial. Nas obrigações não há limites leais: o limite é a imaginação dos seres humanos. Não há, como no Direito das coisas, um princípio de tipicidade. O termo obrigação é utilizado em Direito das obrigações no sentido de vínculo jurídico que une duas pessoas, por virtude do qual o credor tem o direito de exigir ao devedor uma prestação. O Direito das obrigações é como o coração o Direito civil. Há, no Direito civil, um fenómeno de absorção. Há cinco tipos possíveis de absorção:  Matéria objecto de absorção estrutural (sendo englobada no Direito das obrigações ou excluídas, consoante a sua estrutura). A responsabilidade civil, p. ex., funciona através de vínculos obrigacionais, sendo absorvida pelo Direito das obrigações. É uma matéria geral mas posteriormente absorvida;  Absorção teleológica. Há matérias que estão ao serviço de outras. O penhor e a hipoteca, direitos reais de garantia, são, não obstante, figuras do Direito das obrigações, pois são garantias das obrigações;  Absorção institucional. Há institutos que absorvem matérias que poderiam ser de Direito das obrigações. Os deveres conjugais são obrigacionais. Mas não são tratados no Direito das Obrigações, tendo sido absorvidos pela instituição casamento, família – absorção negativa;

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 Absorção linguística. Quando surjam matérias novas, o jurista e o legislador tendem a tratá-las junto daquelas que linguisticamente lhes são mais próximas. A responsabilidade pelo risco não tem as características de raiz da responsabilidade delitual, mas estão juntas;  Absorção histórico-cultural. Certas matérias são absorvidas pelo Direito das Obrigações por causas histórico-culturais. As relações entre arrendatário e locador são tratadas neste, quando poderiam ser tratadas no Direito das coisas. Podemos identificar duas grandes áreas:  O negócio jurídico;  A matéria da responsabilidade civil. Coordenadas actuais das obrigações – a construção de princípios No Direito das obrigações há duas características típicas: abstracção e rigor linguístico. Como as prestações não têm materialização é necessário exprimi-las com rigor para que sejam entendidas. Uma regra é uma proposição que associa a certos factos consequências. Um princípio é uma proposição que sintetiza uma orientação geral, normalmente com carácter valorativo ou axiológico. Os princípios obtêm-se não por interpretação mas por construção jurídica, indução de muitas regras. Os princípios comportam excepções. Uma regra, quando é excepcionada, não se aplica. Os princípios podem entrar em contradição, as regras não. Os princípios não têm pretensão de exclusividade, conjugam-se. As regras não. Os princípios não são puramente racionais – há alguns que são histórico-culturais, explicáveis pela história. Princípios de Direito das Obrigações 1. Relatividade Diz-nos que as obrigações produzem efeitos apenas entre o credor e o devedor. É um Direito eminentemente relacional – relaciona pessoas delimitadas. Porque isto é um princípio, tem excepções. Mas é um princípio. Resulta de vários preceitos. Axiologicamente é muito interessante. As obrigações podem ser perigosas porque o seu incumprimento tem consequências muito sérias. 2. Tutela do devedor É um princípio clássico. Historicamente, o devedor merece a protecção da lei. Ao longo do CC constatamos essa preferência, protecção (favor debitoris). Há muitos preceitos em que se detecta favorecimento, tutela do devedor. Hoje em dia, começam a ser necessários mecanismos de tutela do credor, sobretudo na fase do não cumprimento. 3. Irrenunciabilidade antecipada aos direitos Diz-nos que o Direito não gosta da ideia de permitir que as pessoas prescindam antecipadamente dos seus direitos. É um princípio problemático. 3

Foi muito pouco mexido. (448º. que nascem de uma determinada fonte. é abstracto. defesa do consumidor). a remodelação das “perturbações das prestações” ou incumprimento (incluindo a impossibilidade. 4. sendo nele importantíssimo o Direito romano actual. doutrina e jurisprudência foram muito produtivas nesses cento de anos. Mas a regra geral no nosso Direito é a da causalidade. Resulta do movimento da pandectística. 947º. O legislador optou por emitir leis avulsas. p. Se a fonte for inválida. Mas há zonas periféricas. regras. o que o torna impreciso quando comparado com o Direito alemão. A validade de um cheque. 4 . que merecem reforma em Portugal. a obrigação não subsiste. todavia. Não se quer que as pessoas. O Direito civil é muito estável. transposição de directivas comunitárias. Romano-germânico Sistema centrado no BGB. como o Direito do consumidor – que poderia ser integrado no Código Civil. doutrina. A responsabilidade civil é fechada. A responsabilidade civil é ampla. 863º. 994º). Causalidade Significa que. baseada num conceito vago. individualista e muito contaminado com as ideias da revolução francesa. por regra. nesse caso. tendo em regra uma parte geral e trabalhando com o negócio jurídico. A reforma alemã das obrigações (2001/2002) Em 2001/02 fez-se a reforma do Direito das obrigações na Alemanha. as obrigações. veio a ser objecto de reforma muito bem preparada. Sistemas e Direito europeu das obrigações – os grandes sistemas de obrigações 1. analítica. não depende da sua fonte – o negócio jurídico.Existem. ex. prescrição. É muito elegante linguística e estilisticamente. A sociedade alemã também se alterou substancialmente. É um código típico do início do séc. Há uma área muito estável – a das obrigações em geral. O Direito das Obrigações alemão é líder. para não darem o que não têm. das descobertas científicas da doutrina e jurisprudência com que já se trabalhava mas que não estavam ainda consagradas. O BGB. A causalidade contrapõe-se à abstracção.. A codificação da boa-fé. 457º. O Direito das Obrigações é super estável. Protegem-se as pessoas contra si próprias. renunciem aos seus direitos. no Código Civil. 809º. antes de terem as coisas. É uma família composta pelos países da área de influência da França e da cultura francesa. São direitos que adoptaram a classificação germânica do Direito civil. 942º. É centrado no contrato – os franceses desconhecem o conceito de negócio jurídico. O BGB é de 1900. É muito difícil mexer nele. XIX. 812º. daí tal importância. vários artigos em que podemos detectar esta orientação. 2. É uma área que se sedimentou por milénios de decisões. como aconteceu no BGB com a reforma de 01/02 – ou o Direito do arrendamento. Napoleónico A sua primeira característica prende-se com a sua origem no CC de 1804 – racionalista e iluminista. ao longo da sua duração dependem dessa fonte. No entanto.

veio considerar como aplicáveis nas nossas terras os direitos das nações evoluídas da Europa. 5 . mantiveram-se em vigor as Ordenações. O Direito português é aberto ao exterior. Chinês É muito antigo. Há união entre religião e Estado. no entanto. Os ingleses organizaram-no em torno de duas áreas: as torts e os contracts. há um período de pré-codificação. O Código de Seabra é. na China não aconteceu isso. Os ingleses e países que resultaram da expansão britânica tiveram influência dos povos do norte – saxónicos e normandos. sequer. tentam harmonizar as situações sem lugares pré-definidos. Este sistema não é codificado. Islâmico A principal diferença é que não existe separação entre o que para nós é o Direito da sociedade civil e o Direito dos crentes. Mas foi uma novidade científica que vingou. O Código não é de inspiração alemã. São tratados separadamente os contratos e as obrigações em geral e depois em particular. O Código de Napoleão conseguia sintetizar muitas matérias. O código de 1867 tem uma inspiração napoleónica. Procurouse adaptar o direito das Ordenações ao séc. a partir de 1911. Houve uma contra-reacção de lentes mais antigos e de alguns estudantes. O Direito não se desenvolveu nos mesmos moldes. islâmica. Os comandos jurídicos estão revestidos de importância transcendental. assiste-se a uma aproximação aos cânones da família romanogermânica. No Brasil. A Lei da Boa Razão de 1769 fixou o sistema de fontes. Guilherme Moreira começou a ensinar o direito civil na base pandectística. Além da redistribuição germânica das matérias. não havendo negócio jurídico separado dos contratos. Naturalmente. As nossas Ordenações vigoraram até 1867. A recepção da pandectística começou-se a dar com Coelho da Rocha. Mas. canónica. A doutrina de referência deixou de ser a francesa para ser a alemã e a italiana. XIX. por influência da recepção nipónica da tradição jurídica do BGB. entre os conceitos desta família e os das anteriores. Cada instituto foi passado a pente fino e actualizado. Não há correspondência. 4. sendo uma enorme influência. 5. muito avançado. As obrigações em língua portuguesa Na Europa: um verdadeiro Direito de base lusófona O Direito português é uma síntese de muitas influências: romana. sendo revigorados os já conhecidos. Antes da aprovação do Código de Seabra. Anglo-saxónico É um mundo à parte. Tenta-se resolver os conflitos através do consenso.3. A responsabilidade civil ainda estava muito incipiente. Mas tem uma organização e conceptualização originais. agraves da tradução de manuais de Direito Romano alemães. surgem institutos até então desconhecidos. Enquanto no Ocidente o Direito se desenvolveu muitíssimo a partir da civilização romana. nova recepção do Direito romano e elaboração de base europeia. Há pouca influência romana. tal como a cultura chinesa.

Fazer um CC em democracia demora muito tempo. Ele é de 1966. Na Ásia O antigo Estado da Índia foi tomado pela União Indiana em 1961. numa primeira fase. com algumas alterações após a independência. O Código brasileiro aparece só em 1916. tem havido uma intensa reformulação do Código Vaz Serra. Antunes Varela tornaram o código mais moderado do que a proposta de Vaz Serra. com o punho influente de Vaz Serra na sua origem. logo em meados de oitocentos. Na Guiné. Não terá havido influência do Direito brasileiro em Guilherme Moreira? Se se confirmar esta ideia. Foi aprovada uma lei das sociedades comerciais parecida com a nossa e o CC que se está a preparar é muito influenciado pelo nosso. Foi necessário recomeçar. tendo-os traduzido para chinês. A crítica ao Código Civil não está ainda consolidada. 6 . Vários juristas adoptaram no ensino o pandectismo. Em Timor. Mas a sua grande dificuldade é uma certa heterogeneidade. XIX. As revisões ministeriais do Prof. mas começa a ser preparado no pósguerra. Houve. Os juristas brasileiros sentiam a necessidade de reformular o Direito privado brasileiro. mas já havia recepção do pandectismo. Em África Em Angola. Tem influência germânica e do Código de 1966. sendo substituída pelo inglês. Demorou quase 30 anos a surgir o novo código brasileiro. Há algum atraso na sua aprovação. ainda em meados do séc. A Língua Portuguesa deixou de ser ensinada nas escolas. Em Cabo Verde. A literatura consultada pelos juristas que o coligiram é anterior à guerra. verificou-se a invasão indonésia em 1975. quando ocorreu a ocupação. Com a independência. a administração portuguesa fez um Código Civil e um Código Comercial. houve maior inteligência política. a recepção do pandectismo deu-se mais cedo.No Brasil Na doutrina brasileira. mas havia a barreira linguística. Todavia. com Teixeira de Freitas. continua a vigorar o Código de Vaz Serra. Far-se-ia um novo código já no último quartel do século. Antes da entrega de Macau. como membro da OEA. O Prof. tornou-se obrigatório o inglês nos tribunais. foi aprovado um Código Comercial novo. depois da aprovação. permitiria apresentar um sistema lusófono da pandectística. numa segunda fase. um período de exegese. Em Moçambique. procurou-se fazer uma construção mais evolutiva. voltou a vigorar o Direito português. O CC de 1916 tem já influência germânica. Mas não subsistiu a vigência do CC de 1966. Inocência Galvão Telles e Pessoa Jorge. marcaram as primeiras reconstruções do CC. O Estado da Índia foi reconhecido como parte da União mas permitiu-se que houvesse uma zona lusófona. Em Macau. vigora também o código de 1966. O português era a segunda língua. algumas áreas estão mais avançadas (obrigações) do que outras (reais). O Código de 1966 vigora actualmente.

É uma solução que se baseia em dados: massa crítica. O Direito lusófono não tem só essa influência. a grande influência. Mas havia uma grande projecção ultramarina. um pequeno país na Europa. os nossos institutos são mais simplificados do que os alemães. A autonomia do sistema lusófono O sistema lusófono tem uma autonomia linguística. que suportou a nossa independência. Há poucas fontes de Direito das obrigações deste tipo. Na República da China poder-se-ia ter ido buscar a influência do sistema de Hong Kong. a directriz não vigora. entre interpretação e integração. ex. quantidade de falantes da língua. predomina o inglês. francês e alemão. Mais tarde. foi do Direito alemão. etc.) de sistemas próximos do germânico. não havendo confusão com os sistemas da pandectística. O Direito europeu das obrigações O Tratado de Roma não prevê um Direito privado europeu. Todavia. Mas na área do Direito não é assim. provêm de regulamento. Mas o que nos vai salvando é a existência de muitas pessoas que falam português. já que o inglês não é uma língua tão analítica como o alemão). uma enorme barreira linguística. A UE tem dois grandes sectores jurídicos – institucional e material (áreas normativas com origem em órgãos europeus). O caso português é singular. Japão. língua. é diferente. Assiste-se à implantação (Portugal. O sistema da pandectística vai ganhando a dianteira. Brasil. que é do final de Oitocentos). O sistema anglo-saxónico só se divulga pela força ou pelo colonialismo. até. evolução histórica. mas de inspiração germânica (o que gera simplificação. hoje. de Common Law. ganha pelo mérito. No Direito francês há distinção. Nas obrigações. Também temos esquemas napoleónicos (veja-se o Código Comercial.O Direito francês conheceu uma expansão com as guerras napoleónicas e com o colonialismo. também com as operacionais: inglês. As regras sobre a moeda única. Turquia. Quanto a autonomia doutrinária. estão em causa relação inter-pessoais. ao contrário do que acontece no Direito português. Há 23 línguas oficiais na Europa.. a verdade é que os ordenamentos que vêm surgindo. mesmo quando escritos em inglês. Se não o fizerem. Em 1640 havia enorme tendência para se unificarem as nações da Europa. Os regulamentos são diplomas com aplicação imediata em todo o território da EU. Embora o inglês tenha sido tomado como língua franca. Cumpre saber que língua é utilizada. não são de common law. No Direito europeu trabalha-se com a língua do caso. na área dos negócios e nas relações entre povos. 7 . Somos. Ciência do Direito. Coreia do Sul. Em termos planetários. De um modo geral. Na área das Obrigações há poucas regras comunitárias. As directrizes não têm aplicação imediata – os Estados-membros têm de as transpor para as suas ordens. É um Direito que tem uma evolução histórica. os líderes chineses chegaram à conclusão de que era melhor fazer uma reforma com vista à aproximação ao BGB. Há as directrizes e os regulamentos. p. o que gera dificuldades no lançamento de bases dogmáticas sólidas de um Direito privado europeu. O Prof. Há. MENEZES CORDEIRO defende a autonomia de um sistema lusófono.

MENEZES CORDEIRO diz que não pode haver associação entre direito subjectivo e vontade: pode haver direitos sem vontade. No plano oficial. Obrigação implicaria um domínio parcial sobre a pessoa do devedor. Esta noção presta-se a críticas. Antigamente. quando existia obrigação. 8 . O Direito europeu representa um maior problema para quem não tenha formação jurídica na área pandectística. SAVIGNY dizia apenas que uma parcela da esfera do devedor era suprimida. Quando surjam relações que ponham em contacto mais de um Estado. como os Estados ganham cunho territorial e as fontes passam a usar a língua local. Particularmente na área do Direito das obrigações há uma ciência universal do Direito. não há um Governo europeu. a vantagem é o bem que será prestado. forçar a vontade humana. não podemos ficar fora do comboio do Direito europeu das obrigações. e não a totalidade. é direito alemão escrito em inglês – o que é insatisfatório. havia um Direito europeu das obrigações. havia um domínio de alguém sobre outrem. Parte II: Dogmática geral do Direito das obrigações Conceito e estrutura das obrigações As doutrinas pessoalistas SAVIGNY dizia que. era o poder da vontade. O melhor Direito é o interno. para SAVIGNY. As doutrinas realistas Outra ideia tenta trazer realismo. Para o Prof. Não podemos também exportála para o direito das obrigações. O direito subjectivo. A desumanidade da noção (que abria portas à escravatura) é muito apontada. nem uma política externa comum. Não se perde o contacto com a realidade (é o seu ponto positivo). há 500 milhões de pessoas. dizia-se que ninguém podia ser obrigado a fazer o que quer que fosse: o devedor ou cumpria ou não cumpria. intra muros. A existência de vários Direitos das obrigações não prejudica o comércio: quem diz o contrário estabelece mitos. Houve um projecto de Código franco-italiano em 1929. No espaço europeu. ele começa a desaparecer. cabendo ao credor recorrer aos tribunais. Mas a partir dos séculos XVI e XVII. Nós. Mas nós encontramos obrigações sem conteúdo económico.No tempo do ius commune. O Prof. Pode haver um Direito europeu para um certo tipo de situações e a manutenção dos Direitos internos para outras. há muitos constrangimentos. que poderia dar lugar a um Direito universal das obrigações. MENEZES CORDEIRO. A sanção pecuniária compulsória foi uma forma de forçar o cumprimento. Há autores a tentar fazer um código europeu das obrigações. O Parlamento Europeu já fez recomendações: que seja possível fazer contratação com um direito das obrigações unificado. juristas portugueses. Não teve consequências. Se A tem direito. como a falta de competência dos órgãos europeus. dada a insuficiência da língua inglesa. mas com exagero. é normal que se convencione qual dos direitos se aplicará. Fala de um bem a prestar.

mas as suas obrigações permaneciam. pelo que é excepção o recurso ao património. Há. XIX. Quando se evoluiu para o estado em que o dever é o património. Assim. pode-se atingir o seu património. Obrigação como vínculo jurídico pelo qual uma pessoa tem direito a uma prestação. Nas obrigações naturais existe um débito mas não respondência (não se pode exigir ao credor a repetição da obrigação quando ela se extinguir). mas o seu património. Pode haver obrigações sem prestação. evoluiu o Direito e surgiu a ideia de um débito que poderia ser utilizado para resolver. surge a nova noção de obrigação. A própria prestação é uma formulação vocabular que não tem unidade. Construções do débito e respondência (schuld und haftung) Trata-se de uma conjugação das teorias pessoalistas com as realistas. Na prescrição. Depois. Em regra. independentemente de terem culpa). A noção do 397º não é dogmaticamente aceitável. um direito ao património do devedor. Primeiro. surgiu a respondência. Os romanistas diziam que não havia. mas sim situações em que alguém respondia pela sua pessoa. Também se restringe a liberdade das pessoas: as pessoas podem contratar por ninharias. Transformar cada obrigação em um direito ao património não serve dogmaticamente. extingue-se a haftung. já é um valer em si. O conteúdo da obrigação pode ser também um suportar (pati). no início. Na origem das obrigações está o recurso a esquemas de retorção. porque isso explicaria o que é o bem e não o que é a obrigação. A teoria pessoalista clássica é detectada no 397º do Código Civil. chegou-se a esta ideia por causa do problema da transmissão das obrigações. Os sucessores têm de pagar aquilo a que estão adstritas. Como pode haver direito a uma conduta sem invadir a esfera do devedor? Temos de captar as duas posições ao mesmo tempo. as obrigações são cumpridas. A ideia remonta ao antigo Direito romano. sim. Se o devedor não cumprir. assentes apenas em deveres acessórios. todavia. As teorias realistas consideram que na obrigação não há um direito do credor a uma conduta. o dever é sempre um constrangimento ético. obrigações.Não se pode dizer que bem é tudo o que é objecto da obrigação. Crítica: a grande generalidade do regime das obrigações é dirigida à conduta do devedor. A obrigação não é apenas um bem a prestar. Esta teoria afirma-se por oposição à realista (o que há é direitos a património). As pessoas morriam. Pode ser um facere ou um non facere. Os estudiosos do Direito das sucessões oitocentistas diziam que isso era assim porque quem deve não é a pessoa. Pode haver fiança por obrigações futuras: situação de respondência sem obrigação já existente. independentemente de ser cumprida ou não. necessidade moral de adopção de uma conduta (como dizia o Visconde de Seabra). 9 . No séc. Ela. Também pode acontecer que em certos casos haja responsabilidade sem adstrição a nada: responsabilidade por risco (são responsáveis.

a responsabilidade é patológica. colaboração. sabe-se hoje. tratado mais à frente. GOMES DA SILVA dava o exemplo do contrato de trabalho para negar a ideia da natureza patrimonial. cumpriu-se a prestação principal mas mantiveram-se as outras. O Código italiano de 1942 veio admitir também a possibilidade de o interesse do credor não ser económico. na respondência há uma sujeição à prestação – é do fim que decorre todo este regime. O plano decisivo é verificar em que medida as construções correspondem ao regime jurídico-positivo. 10 . que se consubstancia em conceder uma vantagem ao credor. Será que há mesmo dissociação? As obrigações naturais ou são obrigações ou não são. não podendo servir para construir. Se não são. só. noutros.Dissociação teleológica No débito há um dever de prestar. outros afirmar que não há dois vínculos paralelos. deveres secundários e deveres acessórios. O BGB já não exige natureza patrimonial. Em certos casos. está demonstrado que pode haver obrigação sem respondência. O Código de Seabra construía obrigação como tendo natureza patrimonial. com o credor e vice-versa. O regime é solicitado para um tratamento unitário. não tendo interesse para o Direito nesse caso. O credor fica adstrito a deveres de segurança. Uma das consequências da actual ciência do Direito é a possibilidade de haver obrigação sem um dever de prestar principal. um conceito de obrigação.. pode ainda não existir. nos direitos pessoais de gozo há um direito de aproveitar uma coisa corpórea. etc. A obrigação pressupõe um dever específico. antes no prolongamento um do outro (obrigação alongada. Estas construções são úteis. compreende um dever de prestar principal. A obrigação do fiador é secundária. linguística. Se é assim. não teriam todas natureza patrimonial? SAVIGNY chamou a atenção para o facto de ela poder se executada sem qualquer prejuízo se não tivesse natureza patrimonial. por si só. mantendo-se as prestações secundárias e os deveres acessórios. Mas. A prestação pode não existir. pode haver nulidade. E a garantia (haftung)? MENEZES CORDEIRO reconduz a garantia ao conceito de juridicidade. Depois de surgir a ideia de ressarcimento através do património. pelo que obrigação não é uma prestação. A obrigação continua a ter unidade – desde logo. Características das obrigações Natureza patrimonial e juridicidade Natureza patrimonial Natureza patrimonial. outra concepção diz que há um direito real de garantia. A obrigação. com dois regimes). JHERING veio dizer que não tinham necessariamente de ter natureza patrimonial. em termos pragmáticos. MANUEL DE ANDRADE também negava a necessidade da natureza patrimonial. noutros ainda. Se são. Se o devedor principal não cumprir. qual a natureza da respondência? Uma teoria publicista diz que a respondência já é Direito público. é o fiador que deve cumprir. não interessam. terá? Inicialmente era uma ligação entre pessoas.

de sistema.Se um artista se obriga a entoar uma ária. Se houvesse incumprimento passava-se à responsabilidade patrimonial. Os danos morais não podiam ser ressarcidos antigamente. há sanções pecuniárias compulsórias. tem conteúdo económico. Tem tudo natureza patrimonial? MENEZES CORDEIRO entende que se deve normativizar esse conceito. O Código Civil de 1966 foi sensível à evolução germânica. à partida. No 398º diz que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. O Direito das Obrigações é um direito patrimonial privado. mas havendo danos. 2ª parte remete para o interesse. Hoje isso não é assim. 11 . Mas isso pode ter apenas um sentido de reconstrução. É assim ao nível global. Direito. o 398/2 diz que podem não conter valor pecuniário. O devedor é condenado a pagar um x até cumprir. compensação – e não de equivalência. não tem natureza patrimonial (mesmo que possa ser avaliado em dinheiro). Não tem de haver natureza patrimonial (398º). Como são ressarcíveis. o 398/1 estabelece que as partes podem fixar livremente o seu conteúdo. Pode haver execução específica. ANTUNES VARELA dizia que ficavam afastados dois tipos de obrigações: as que tivessem caprichos do credor como conteúdo (se for séria ou se não se tratar de prestações escabrosas MENEZES CORDEIRO entende que podem ser) ou matérias próprias de outros sectores normativos. A responsabilidade patrimonial não é a única sanção que se admite: também as sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). não necessariamente em todas as situações. chegando-se à natureza patrimonial das obrigações. É importante para lhe darmos a cobertura do 66º/1 da CRP. há ressarcibilidade dos danos morais. As relações de obsequiosidade não são. Entroncam aqui as situações de obsequiosidade (trato social. Quando falamos na natureza não patrimonial das obrigações dizemos que o Direito admite obrigações que não podem ser trocadas por dinheiro (sob pena de nulidade). Tudo pode ser avaliado em dinheiro. Mas tem em conta a tradição de sinal contrário. há margem para executar obrigações sem natureza patrimonial. não há óbice há natureza patrimonial das obrigações. O 397º define obrigação. será isso uma obrigação de natureza patrimonial? O artista deve ser pago: isso transforma a sua prestação em patrimonial? Não. Alguém não cumpre uma obrigação não fungível. Se o Direito não permite que seja trocada por dinheiro. ela é avaliável em dinheiro. de cavalheirismo em sentido técnico (situações em que as pessoas combinam deixar de fora tutela jurídica). mas pode receber dinheiro. boa educação) que não relevam para o direito. pode haver responsabilidade pela deferência. o 398/2. MENEZES CORDEIRO entende que no Direito civil se deve admitir tudo o que não viole proibições. O interesse do credor e a juridicidade A lei vem dizer que a obrigação deve corresponder a um interesse do credor digno de protecção legal. acção directa.

Uma última. Os créditos não são sempre relativos. prende-se com a responsabilidade (relativa/absoluta). relações de vizinhança. há figuras como a execução específica. No crédito potestativo há duas partes (titular do direito potestativo e a pessoa que está em situação de sujeição). Noutra acepção. A relatividade e a eficácia perante terceiros Relatividade estrutural As obrigações serão relativas. há créditos absolutos. erga omnes. Em direitos reais há só uma. Há três sentidos diferentes: MENEZES CORDEIRO prefere o primeiro. nos direitos pessoais de gozo. mas não se trata de um direito a contraposto a um dever de. contrapondo-se aos direitos reais. por exemplo). a relatividade existe quando há relação jurídica. Será sempre devida a colaboração em obrigações? Nos direitos reais há fundamentalmente papel de defesa. Esta noção vale o que vale. Há responsabilidade! Convidar para dançar é do campo do trato social. mas era pé de chumbo – a senhora fica muito magoada. Assim. Os direitos potestativos são absolutos. seria sempre necessária a mediação. há créditos potestativos que não carecem de intermediação. no Direito das obrigações há uma ideia de duas pessoas a colaborar uma com a outra. A obrigação é uma relação jurídica. mas não se pode esfarrapar o par de dança. Quanto aos acordos de cavalheiros. Em direitos reais há tendência para surgirem cada vez mais relações jurídicas (propriedade horizontal. são para cumprir – se não forem. 12 . Os acordos de cavalheiros são relevantes. A mediação e a colaboração do devedor A exigência de mediação estaria contraposta à imediação dos direitos reais (o titular aproveita imediatamente o bem). o direito real é uma situação absoluta. A convida B para dançar. justificar-se-á responsabilidade? O que se exige juridicamente é que a obrigação tenha juridicidade: quando se tenha constituído por uma das formas previstas pelo Direito para a sua constituição. Nas obrigações. diz-se que a relatividade é a eficácia (relativa no caso das obrigações. Se a prestação for um serviço. o que tem de surgir é o serviço. que são absolutos? Em termos estruturais. não.Há também deveres de protecção. Em obrigações. O sentido mais oportuno de relatividade é o estrutural. Tendencialmente surge: é característica tendencial das obrigações. encontramos sempre uma dança a dois. A acepção estrutural exigiria que fosse sempre assim. Podem fazê-lo? Em princípio. já se trata de matéria jurídica que as partes combinam deixar de fora. o credor aproveita imediatamente a coisa. A posição de sujeição não é um dever: só se o titular do direito potestativo exercer o direito. Há direitos pessoais de gozo que não são direitos reais. Será que nas obrigações o aproveitamento concedido ao credor se consegue com a única mediação do devedor? Não. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. duas partes. Tudo o que seja retirar tutela jurídica não é válido. A relatividade não surge necessariamente em todas as obrigações. Deve-se sempre perguntar qual a origem. mas não se pode retirar daí uma regra. absoluta. no caso dos direitos reais).

Existe uma ópera e um senhor contrata uma soprano alemã. 13 . Pode haver atentados a um direito absoluto por simples omissão. Isso leva a que não se defenda uma tutela absoluta dos direitos de crédito. então há oponibilidade média. No sentido forte. Mas há também deveres no tráfego que. dão lugar a responsabilidade civil. se incumpridos. relações jurídicas. Na Alemanha diz-se que não. Alguém não celebra o negócio jurídico com o preferente. Se é assim. Outros autores vinham sustentando a eficácia também externa (GALVÃO TELLES. Mas há outras regras. com MANUEL DE ANDRADE. No início. pode existir oponibilidade em sentido forte. Mas poderá também operar em face de terceiros – não há relatividade completa. O terceiro cúmplice é uma figura interessante. Há um credor e um devedor que não cumpre porque foi convencido por terceiro. A doutrina tem evoluído nesse domínio. ex. em direitos reais o proprietário pode exigir a coisa a qualquer terceiro que a tenha (oponibilidade erga omnes). Em sentido médio significa que uma determinada situação jurídica opera como fonte de deveres instrumentais relativos ao bem em causa. Nos direitos reais há figuras próximas da oponibilidade em sentido forte. Deveres acessórios. dizia-se que a eficácia também poderia ser externa. O STJ concluiu que o terceiro também deveria ser responsabilizado (também aqui. médio ou fraco. A regra é de que a eficácia é meramente interna.. Havia uma quebra maliciosa do contrato. A nossa jurisprudência acordou em 1964. Um outro teatro oferece x para que não cumpra o contrato. Se é assim. Os direitos reais serão mesmo direitos com defesa puramente passiva? Também neles podem surgir relações de defesa. com os pactos de preferência. a obrigação produziu efeitos perante terceiros. o dono do teatro prejudicado demanda o outro e não a soprano. Mas inverteu-se a tendência. p. A relatividade na experiência portuguesa (eficácia externa) No direito português soe ensinar-se a expressão “eficácia externa das obrigações”. a externa é perante terceiros. A eficácia interna é entre credor e devedor. o que lhes daria uma tutela relativa. PESSOA JORGE). As obrigações são vínculos. Há contratos com protecção de terceiros.A relatividade na produção de efeitos Quanto à produção de efeitos. Há uma acção. Nas obrigações poderão surgir defesas absolutas? A tendência nos ordenamentos jurídicos parece apontar para tutela absoluta dos créditos. Faz sentido que haja defesa contra terceiros. A relatividade na responsabilidade civil Há uma certa tendência para dar uma protecção alargada aos titulares de direito de crédito. que se manifestam predominantemente perante o devedor. Em sentido fraco: quando os efeitos produzidos pela situação jurídica permitam demandar em responsabilidade qualquer terceiro. a figura do terceiro cúmplice). o titular do direito pode exigir o próprio bem que está em causa (em relação ao devedor). É o que acontece com os chamados deveres de tráfego.

Todavia. as economias britânica e francesa. Uma tese alemã separa o direito da titularidade – é a titularidade que é atingida. Isso justifica-se em ramos agressivos. Atipicidade As normas têm uma previsão e uma estatuição. como o penal ou o fiscal. Um terceiro pode violar uma obrigação: um sequestrador rapta o devedor para o impedir. Tem de pagar ao verdadeiro credor – eficácia externa. Em direitos obrigacionais há vínculos abstractos. poderá contratar com outros? Não se pode colocar o devedor num gueto. O terceiro não pode. não estão assim tão mal. Se existe uma descrição típica das condutas. não havendo lacuna. é muito mais restrita. Isso em princípio. em princípio inatingíveis.  Diz que está proibida a analogia. a lei ou recorre a um conceito definitório ou procede a uma descrição concreta dos factos. 14 . ou o facto cai na previsão e consubstancia a figura prevista ou está hora. Quando faz descrição abstracta há atipicidade. Mas esses não se aplicam a terceiros. proíbe autotutela. diz-se. Argumentos a favor. Outros dizem que só o devedor pode incumprir. Argumento legal: o devedor que falte ao cumprimento é responsável. Contratar-se-ia menos. O Direito objectivo. Se A contrata com B. por exigência da Constituição (no Direito penal e fiscal). Contratos incompatíveis: há um problema de concorrência. aplicam-se os artigos 798º e ss. há responsabilidade. Noutros casos é mesmo normativa. Quando a lei recorre a descrição da realidade. os factos são descritos concretamente.Discussão dogmática e solução proposta Argumento contrário à eficácia externa: vai-se prejudicar a economia. Para se concluir que existe tipicidade:  Sempre que o legislador faça descrição precisa relativa ao que vai aplicar. um terceiro faz-se passar por credor. países que admitem a figura. Está tudo ligado. Só pode estatuir com recurso a tipos. O legislador pode dar uma série de exemplos. Quando existe um devedor.  Diz que existe numerus clausus. Pensa que se pode ter uma construção mais matizada: a defesa dos direitos de crédito é necessária. MENEZES CORDEIRO não vê razão para que o 483º não seja aplicável aos direitos de crédito. Quando recorre a descrição abstracta atinge um universo muito extenso. pois. Quando existe uma previsão normativa. há um numerus clausus – o número de factos é finito. A especialidade e a atipicidade A especialidade diz-nos que na obrigação estamos perante situações específicas que se identificam pelas partes e pelo tipo de prestação. protecção jurídica. Num ramo típico. ao atribui direitos subjectivos. Se ele for atingido. recorre a tipos – tipicidade. mas há várias vias para o conseguir. Há tipicidade exemplificativa. descrevendo as condutas. Dá.

Para trabalhar o abuso do direito encontraram-se as figuras do tu quoque. Mas existem muitas obrigações nessa área. Nas obrigações isso não existe. por via de condicionalismos históricos. de facto. Não é tarefa simples caracterizar o conteúdo das obrigações. tudo é parecido com o Direito das obrigações. um direito e um dever. direito a uma coisa corpórea. O conteúdo geral das obrigações Quer o princípio da autonomia privada. Autonomizou-se do Direito das obrigações. casos de tipicidade sectorial: só é dada relevância aos negócios jurídicos unilaterais previstos na lei (descrição concreta). Tratamo-las como obrigações atentando nas regras especiais do Direito da família. em princípio.Nos contratos há descrição abstracta. também. É uma área de cruzamento entre as obrigações e os bens de personalidade. Delimitação positiva O dever de prestar O dever de prestar é uma expressão que pode ser equívoca. p. O caso mais normal é um direito de crédito e um débito. Há situações de direitos reais que. Há. O Direito comercial é outro ramo especial. Há. ao contrário. obrigações naturais. Há tipicidades de tipo científico. O mediato é também designado por objecto. invariavelmente.). Mas tem regras especiais. etc. O conteúdo distingue-se do objecto. O imediato também é chamado por alguns como conteúdo. Aí. por conjunções históricas. Isto é o núcleo duro – há desvios. um princípio de tipicidade. Embora esteja lá o aproveitamento de coisa corpórea. O contrato de trabalho é um contrato como os outros. personalidade e família Também existem obrigações de personalidade. No âmbito do Direito da Família (organizado em torno do instituto família) é mais difícil distinguir as obrigações. Também a hipoteca é um direito real sujeito a um direito de crédito. Podemos referir-nos ao comportamento ou a um determinado resultado. venire contra factum proprio. Os direitos reais têm. ex. É muito especial. o regime tem um desvio. aqui. 15 . Confronto com outras situações privadas Obrigações e reais A distinção entre obrigações e direitos reais em termos racionais: ali há um direito a uma prestação. foram incluídos nos direitos de crédito (direito do locatário. não há numerus clausus e pode haver lacunas. quer a característica da atipicidade levam a que o limite seja a imaginação (e a lei). Temos objecto imediato e mediato nas obrigações. tipicidade exemplificativa. O conteúdo das obrigações é sempre. O Direito comercial é muito mais antigo do que o Direito do trabalho. Obrigações e relações especiais O Direito do Trabalho é direito das obrigações especial. Obrigações. Isso obriga a estudar caso a caso e entender o que acontece.

Ex. Os deveres acessórios A existência de um direito de crédito e de um débito entre duas pessoas não é linear como parece. A primeira faceta tem que ver com a interpretação da vontade das partes ou da lei.). A diligência tem que ver com o que é exigível para que alguém realize um comportamento. Envolve a relação jurídica principal e uma teia de outras situações jurídicas secundárias. Está obrigado a suportar a actuação de outrem numa área da sua esfera de actuação. A obrigação de se comportar de uma certa maneira não explica o que é exigível à pessoa para que realize essa conduta. por um esforço de análise. mas à prestação de um serviço com determinada diligência.A importância prende-se com a diligência que deve ser posta pelo devedor na realização da prestação. O abstracto regula a responsabilidade obrigacional (798º e ss. A de pati consiste em alguém ter de suportar algo. A de facere consiste na realização ou não de um certo comportamento. Se se comportar abaixo da bitola. De pati. tendo em conta as circunstâncias do caso. Prestações principais e secundárias Na obrigação há a prestação principal e as prestações secundárias. Podemos. correspondendo a afinamentos do interesse do credor. Há médicos e advogados que não se esforçam: não fazem tudo o que poderiam pelos clientes. é um homem médio colocado no caso concreto. noutras pretendem o resultado. distinguir a realização de comportamentos de esforço para atingir o resultado. as partes pretendem uma determinada conduta. Só é exigível que se esforce até esse ponto. É necessário interpretar para saber se a obrigação inclui o resultado ou apenas a conduta. As prestações secundárias podem resultar do contrato ou de normas supletivas. É uma bitola supletiva: as partes podem estabelecer outra. aquilo que for normal num homem médio. apenas de fazer o que puder para que o paciente fique bem. Todavia. o advogado não tem obrigação de ganhar a acção. Seguem o regime da prestação principal. Uma prestação inclui necessariamente o esforço. Foi o critério escolhido pelo legislador. Qualquer delas pode ser de três tipos: De facere (positivo ou negativo). O que é necessário que o devedor faça para cumprir aquilo a que está obrigado? Distingue-se dentro da diligência segundo um critério abstracto e um critério concreto. São instrumentais em relação a ela. O devedor está obrigado à diligência média. Por vezes. O dever de prestar implica a diligência correspondente à do homem médio (487/2 e 799). Temos de saber o que é exigível. A de dare consiste na entrega de uma coisa. São prestações que complementam a prestação principal. apenas de fazer tudo ao seu alcance. É o critério do bonus paterfamiliae. De dare. Não se trata de um non facere. A prestação principal é o núcleo da obrigação. Não se obrigam a resultados. 16 .: o médico não tem obrigação de curar. É o homem médio. Por exemplo: o empreiteiro tem de se sujeitar às inspecções do dono da obra. Culpa é agir com um critério diferente do bom pai de família.) e a aquiliana (483º e ss. tem culpa.

Quer em termos gerais quer em cada obrigação existe o instituto da boa fé. Está em causa a primazia da materialidade subjacente e o interesse do credor.O facto de A ser devedor de B faz com que essas duas pessoas se aproximem. O Direito sabe que a obrigação não é só o binómio crédito/débito. Os deveres acessórios são vínculos que credor e devedor têm para com o outro e que decorrem da boa fé. possível. observando os deveres acessórios. informação. só depois a indemnização. Na prestação principal e secundária o sujeito é o devedor. etc. só no caso concreto é que podemos saber o que é exigível. A culpa in contrahendo. O legislador quer primeiro cumprimento.. Não basta cumprir a obrigação. O Direito pretende que as partes não adoptem comportamentos contrários ao sistema jurídico. nos deveres acessórios são ambos. A indemnização é uma consequência de segunda linha. contratuais e pós-contratuais. Substancializam a obrigação. Sabe que as pessoas se aproximam e que isso é uma fonte de problemas. Podem ser deveres de lealdade. de tal forma que preservem a pessoa e o seu património. Está em causa o princípio da tutela da confiança. rerum sic stantibus. integração de lacunas. A obrigação delimita-se por estas exigências (tem de lícita. determinável. mas há deveres acessórios pré-contratuais. Delimitação negativa O 280º – o negócio jurídico deve ser lícito. determinável e não contrariar a ordem pública e os bons costumes). é preciso cumprir de boa fé. Se o devedor não cumpre a prestação principal ou secundária é responsável. tal como se não cumprir o dever acessório. Os deveres acessórios são imprevisíveis. A boa fé exige que as partes observem deveres de protecção uma para com a outra. Enquanto a prestação principal e as secundárias decorrem da autonomia privada (contrato ou regra supletiva). O cumprimento da prestação principal e das secundárias em princípio extingue-as. depois a reconstituição natural. Diz respeito à integridade das partes e do seu património. os deveres acessórios decorrem de regras imperativas – há heteronomia. são soluções para problemas novos. O Direito é uma realidade tendencialmente omnipresente. tem uma pretensão de incluir todos os aspectos da vida.  Círculo externo. segurança. a obrigação é uma realidade muito complexa. conforme aos bons costumes e ordem pública – também se aplica às obrigações. que corresponde a um conceito indeterminado que veicula os princípios gerais e institutos que servem para regular as situações novas. MENEZES CORDEIRO divide os deveres num:  Círculo interno. O problema resolve-se com o recurso à unidade do sistema jurídico. Como decorrem da boa fé. Além das prestações secundárias e dos deveres acessórios. 17 . A base legal é o 762/2. incluindo outras situações jurídicas no seu conteúdo. É algo que aproxima as pessoas sociologicamente.

combinadas quando estejam associadas a direitos reais. Os direitos pessoais de gozo e direitos de crédito potestativos são absolutos. uns relacionados. como concessão. 3. Em princípio.  Obrigação de abstenção (simples. ambos). suportação de actuação que noutras circunstâncias poderia impedir).). prestações divisíveis e indivisíveis As prestações podem ser fungíveis (podem ser realizadas pelo devedor ou por outra pessoa) ou infungíveis.  Obrigação de serviço (autodeterminado – é a própria pessoa que determina o conteúdo do serviço. ex. não são divisíveis – só se as partes combinarem é que isso poderá acontecer. A regra é da fungibilidade. mas são regularmente utilizadas no sector. porteiro. Quanto ao conteúdo  Entrega de coisa (transferência da posse – controlo material de uma coisa. 4. A divisibilidade da prestação tem que ver com a possibilidade de realizar a prestação aos poucos. Puras e combinadas São puras as obrigações que obrigam simplesmente. 18 . p. relativas e mistas Absolutas não compreendem relação jurídica.). 2. Típicas e atípicas É típica aquela que corresponde a modalidade prefigurada na lei.Modalidades de obrigações Prestações fungíveis e não-fungíveis. na relativa há. Se sou obrigado a recorrer a perífrases. Não é o mesmo que coisa fungível. transferência de propriedade. nas mistas há vários deveres. Simples e complexas (pode dar azo a várias obrigações simples).  Obrigação de organização (ordenação de meios para obter determinado resultado). etc. outros não. se consigo exprimir com uma única expressão é simples. Absolutas. 5. heterodeterminado – a entidade empregadora diz como). Parte III: Classificações e tipos de obrigações Classificações 1. Há tipos legais e tipos sociais (não estão na lei. atípica resulta da autonomia privada. trata-se de obrigação complexa.

mas pessoais. E relações perpétuas. forma de cessação de um contrato duradouro. Mas essa regra viria a ser utilizada com prejuízo dos trabalhadores. Hoje. É necessário. 2. Se não houver relevância jurídica a obrigação é instantânea. ao contrário das obrigações comuns. pelo menos. O direito pessoal de gozo por excelência é a locação. com dilação temporal juridicamente relevante. um pré-aviso. O conteúdo tem de ser sempre. O Prof. se tiver poder de representação celebra também os negócios). também. determinável. Implica especialidade quanto à sua cessação. Não se extinguem com o cumprimento. 19 . como reacção ao regime feudal. Pode-se tentar analogia com o contrato de agência (o agente angaria negócios para um outro. O DL 178/86 trata da cessação da agência. Tipos de obrigações 1. um contrato pelo qual A concede a B o gozo de uma coisa mediante o pagamento de uma retribuição. pode ser comunicada para todas as obrigações duradouras. o principal. A retribuição é a renda ou aluguer. Obrigações duradouras Partimos da prestação. A boa fé impõe que seja um pré-aviso razoável (antecedência razoável). claro está. As obrigações duradouras começaram a ser descobertas por SAVIGNY. A denúncia seria um dos esquemas. Havendo agência. As questões sociais vieram pugnar por protecção. Arrendamento (coisas imóveis) e aluguer (coisas móveis) são duas modalidades de locação. não se pode dizer que não pode haver relações perpétuas: desde que não violem a lei e bons costumes poderão constituir-se. para tutela da confiança. O Direito antevê relevância jurídica na dilação do cumprimento. Podendo haver modificação por alteração das circunstâncias. Quando seja prolongada pode ter prestação contínua ou periódica. entre o agente e o principal há relação duradoura. Determinadas e indeterminadas São determinadas aquelas que têm um conteúdo conhecido no momento da constituição. O Direito civil é um direito prático. Havendo uma relação duradoura ficam reforçados os deveres de informação e lealdade. PESSOA JORGE dizia que o que interessava era o interesse do credor. Direitos pessoais de gozo Serão direitos de gozo (fenómeno pelo qual uma pessoa aproveita as qualidade naturalísticas de uma coisa? Não se trata de direitos reais. Se fosse logo satisfeito. VAZ SERRA propôs que houvesse regulação das obrigações duradouras. O contrato de trabalho e a locação podem tendencialmente ser perpétuos. existirão? O Código de Napoleão dizia que só poderiam durar 5 anos as relações. era instantânea. Há aquelas que se concretizam momentaneamente. em que havia obrigações perpétuas. A denúncia. sob pena de nulidade (280º). não obstante. surge na periferia. quanto mais se cumprem mais ficam reforçadas. Há lacuna. e outras que se cumprem no tempo.6. É um contrato em especial.

Eleitoralmente tornou-se interessante para os governos intervir no regime do arrendamento. é figura real o direito de locatário. Surgem teorias mistas (entre nós.  Inferno burocrático (as iniciativas do senhoria são rodeadas de burocracia tão grande que este é condenado à abstenção). Há subúrbios. inícios do séc. maior o lucro do trespasse. No período republicano foram tomadas medidas para proteger os arrendatários urbanos. Argumento a favor da tese obrigacional: arrendamento está no Livro II. Em 1985 tentou-se reformar. Há bloqueios ideológicos. Seguiram-se as teorias reais: o locatário goza da coisa porque tem direito de o fazer. Mas não explica como é que o fenómeno do gozo surge. mas também não chegou a bom porto. políticos. O aproveitamento é sempre uma actividade do titular da coisa corpórea. Se é assim. havendo transmissão da coisa arrendada.  Congelamento das rendas. centros das cidades abandonados. o CC dá-nos um regime de arrendamento em termos obrigacionais e não numa linguagem real. as rendas vão degradando. surgiram fenómenos e problemas de natureza social. impedindo actualização das rendas.  Possibilidade de transmissão do direito de arrendatário à margem do senhorio. Em 1990 tentou-se de novo. O 1743º do CC francês determina que. menor taxa de natalidade. com a industrialização e grande pressão urbanística. etc. Podia haver regras na lei que facilitassem a vida às pessoas. Consequência prática: ninguém vai dar seja o que for de arrendamento. INOCÊNCIO GALVÃO TELLES): trata-se de proporcionar o gozo ao locatário. detectado pelos seguintes sintomas:  Renovação automática dos contratos. É um direito real. Obrigação de deixar usar? Seria negativo. para o futuro). Contra: não explicam o gozo (não conseguimos explicar o gozo em termos obrigacionais. Chegou-se a este panorama aos poucos. Mas também não explica o que é o gozo. mas sem sucesso (o máximo foi admitir arrendamentos de duração limitada. Quanto mais baixa a renda.  Dificuldades quanto à resolução do contrato (cessação unilateral justificada). trânsito caótico. Será o arrendamento uma figura real ou obrigacional? O Código de Napoleão falava numa obrigação de facere e num direito de gozo. económicos. A solução de quem chega ao mercado é comprar. a pessoa que onera a coisa com arrendamento só a pode transmitir assim. porque ele é sempre real). transmite-se para o adquirente a posição de senhorio. Logo. Mas no arrendamento não há obrigação de fazer gozar: só se o senhorio andasse com o inquilino às costas. Se houver inflação. XX. actualizando as rendas. XIX. por exemplo. Em 2006 houve um projecto. Nos finais do séc. 20 . contraindo empréstimos. Chegou-se a um regime vinculístico.No arrendamento domina a autonomia privada.

Era um débito sem respondência. o locador não é obrigado a defender o direito do locatário contra terceiros. defesa (o arrendatário pode defender-se de terceiros. no conflito com outros direitos. mas se não fizesse não lhe aconteceria nada. Têm eficácia ou oponibilidade erga omnes: o titular do direito pessoal de gozo pode intentar acções possessórias. O Direito dizia que ele estava obrigado. Obrigações naturais É figura muito estudada. o vinculismo dá um total controlo da coisa ao arrendatário. A existência de direitos de crédito incompatíveis não é resolvida pela cronologia. 3. GIORGINI dizia que o direito pessoal de gozo não tem defesa contra terceiros. MENEZES CORDEIRO escreveu um livro a favor desta tese. com recurso aos tribunais). Admitese a existência de direitos de gozo. Mas conseguia celebrar negócios jurídicos com pessoas. Em geral. No Direito romano havia obrigações que tinham débito mas não tinham respondência. Essa tese é inaceitável. porque não era uma pessoa. pelo que ele se pode defender sozinho. a locação sobrevive à transmissão da coisa locada (1057º). A contraposição entre direitos reais e direitos de crédito não é lógica. defender o seu direito face a terceiros. tendo um direito de preferência sobre a coisa. Mas a doutrina dedica-lhe muito tempo. Por exemplo: obrigação contraída por um escravo. Os direitos pessoais de gozo são uma figura híbrida. entre os direitos reais e os de crédito. Os direitos pessoais de gozo não são típicos. 21 . já que é ela que as explica. A pessoa estava obrigada a fazer algo. Nas obrigações naturais não se deve esquecer a história. mas se não cumprisse não havia maneira de o levar a tribunal. As obrigações naturais resultam de uma confluência de dois momentos históricos. Juridicamente não tinha personalidade. há relação de vizinhança de acordo com as regras típicas dos direitos reais. Quando existe conflito entre os direitos de crédito e os direitos pessoais de gozo prevalecem estes. É normal que o gozo seja tratado pelos direitos reais. Seguem. Nos direitos pessoais de gozo vale a regra da prioridade cronológica. por ser figura próxima do direito de crédito. Uns são pessoais e outros são reais. Estão envolvidos numa teia de deveres acessórios e secundários muito superior à dos direitos reais. em regra. de forma similar aos direitos reais. Esta regra também vale para os casos de conflito entre direitos pessoais de gozo e direitos reais: prevalece aquele que surgiu primeiro. o que os aproxima dos direitos de crédito. como direitos reais. na locação. Comportam-se. no 407º estabelece-se uma regra que trata os direitos pessoais de gozo. mas sem shuld. Mas mudou de ideias. Os filhos família (ainda estavam sob a alçada do pater) também podiam contrair obrigações. Há várias normas que ou trazem aspectos do regime dos direitos pessoais de gozo ou clarificam alguns aspectos. Estabelece que prevalece o direito real. pois. Mas pode ser integrado no Livro II. Não tem uma grande relevância prática. o locatário pode fazer obras. ao contrário dos direitos reais (o 306º não se lhes aplica). é histórica.Argumento a favor da teoria real: há o fenómeno do gozo (aproveitamento de uma coisa corpórea). nesta matéria o regime dos direitos reais.

Aparentemente. Todavia. Hoje. mesmo que em erro sobre a obrigatoriedade. não posso pedir devolução do que paguei. mas se não for cumprido espontaneamente não é possível exigir judicialmente. a obrigação natural tem 3 requisitos:  Fundar-se num dever de ordem moral ou social. apesar de consagrar deveres inexigíveis judicialmente. O Direito que se aplica em Portugal é o Direito do Estado português. As obrigações naturais. com base no 404º. Havia ligação entre o Direito e a moral. a moral é uma coisa e o Direito outra. Ser jurídica é estar prevista como obrigação. O que retirar do 402º? No regime jurídico há algumas notas importantes:  Solutio retentio (403º). diz-se por vezes. É jurídico. A doutrina mais antiga (ANTUNES VARELA. diferente de um Direito moralmente enformado. Esta matéria está regulada no 402º. Uma tese diz que se trata de deveres extra-jurídicos. transformando-as em naturais. Em tudo o resto. a justiça é aquilo que o direito disser que é justo e não o que qualquer entende que seja justo. jurídica. entende que esses deveres são por vezes de importância substancial. sociais.  O 404º. Mas isto não pode ser. outra (MENEZES CORDEIRO) diz que são deveres jurídicos. Não pode ser exigível judicialmente. A lei. mas também as obrigações 22 . etc. A constituição ex voluntate de obrigações naturais é nula. Tiveram uma evolução muito atormentada. Noção legal (402º). Resulta de um compromisso que se tentou em 1966 entre a concepção moral e a herança do Direito romano. As obrigações naturais são deveres jurídicos judicialmente inexigíveis. pois.A isso chamaram obrigações naturais. Devemos entender “dever moral ou social” é como situações jurídicas idóneas – importantes o suficiente para merecer a atenção da lei.  Não exigibilidade judicial do cumprimento. aplica-se o regime das obrigações civis. Não podem ser constituídas por contrato. Mas são aqueles os dois momentos cruciais. Alguns deveres acessórios tinha colorações de deveres morais. Isso não é verdade. não jurídicas. A doutrina afadiga-se a determinar a natureza das obrigações naturais.) fazia grandes listas de obrigações naturais porque andava à procura de obrigações morais. não têm valor patrimonial. porque elas são típicas.. Uma obrigação natural provavelmente não será cumprida. E hoje? Não há dúvida de que o Direito e a Moral são ordens normativas distintas. A justiça é aquilo que o Direito consagra.  As obrigações naturais são típicas (809º). No período medieval. o cristianismo e Igreja católica tinham grande influência no Direito. Existiam na natureza mas não eram dotadas de coercibilidade. As obrigações naturais surgem para dar guarida a obrigações morais.  Mas o cumprimento corresponde a um dever de justiça. Tudo isto se enraizou durante centenas de anos. etc. Se eu pagar. Se alguém cumpre uma obrigação natural não poderá exigir a repetição. A obrigação natural deve ser.

A determinação do critério não deve ser feita tendo em conta as circunstâncias casuísticas. A esmagadora maioria dos negócios jurídicos que implica obrigação de entrega é feita com coisas fungíveis. Não tendo sido estabelecido o critério de escolha. No Direito romano eram desconhecidas. O problema que surge é o da determinação do objecto. As partes podem contratar sobre coisas fungíveis. Equidade em sentido fraco pode ser entendida como critério de justiça mas não formalista. quantidade ou qualidade. Não havendo convenção. há obrigação genérica. Se pensarmos de um ponto de vista de não frustração dos interesses e expectativas. é fungível. o 400º diz-nos que deve ser feita a escolha segundo juízos de equidade. Quem escolhe? Com que critério?  Risco. As obrigações genéricas são muito importantes. No 239º temos o critério geral de preenchimento: reconstrução da vontade hipotética à luz da boa fé. O objecto da obrigação não está determinado no momento da celebração. A equidade deve achar-se conjugando o 400º com o 239º. As fungíveis são aquelas que se determinam pelo seu género. A escolha e o risco O 539º estabelece que. dando lugar a obrigações genéricas. A boa fé aponta para a tutela das expectativas das partes e para o equilíbrio dos seus interesses. A determinação do critério de escolha é a determinação do objecto do contrato. antes critério de materialidade (o que as partes verdadeiramente pretenderam). Os contraentes podem estipular diferentemente. dare ou pati. podendo ser qualquer litro de azeite. com a massificação das transacções. Como escolher? As partes também podem estabelecer no contrato qual é o critério. que podem ser de facere. rege o favor debitoris. o critério é o da mediania. escolhe o devedor. Não é o sentido do 400º. se nada for estipulado. o critério deve ser o da mediania. há uma lacuna negocial. 23 . Não é a circunstância de ser possível o incumprimento que lhes retira o valor patrimonial. Por conta de quem corre o risco? Com as coisas determinadas isto não acontece. cujo universo pode ser mais ou menos amplo. A determinação do objecto levanta dois problemas:  Escolha. Só se determina o género. A obrigação genérica prende-se apenas com as de entrega de uma coisa. Ele é determinável mas não está determinado. Na falta de acordo. Obrigações genéricas As obrigações podem ter como objecto prestações. Desde que a coisa a entregar não seja única. A equidade em sentido forte aponta para a justiça do caso concreto. Deve-se escolher a coisa média. Logo. Se as partes não escolheram deviam ter escolhido. Não havia os problemas actuais com a escolha e o risco. Na Idade Média os negócios eram feitos à vista. 4. Um litro de azeite pode retirar-se de vários lugares. Uma dívida de 500€ prescrita – que passa a obrigação natural – tem ainda valor patrimonial.civis podem não ser cumpridas. As coisas podem ser fungíveis ou infungíveis.

Quando é que se escolhe? O 541º revela que o momento da escolha é muito importante, porque é o momento da concentração da obrigação. Nesse momento determina-se a espécie dentro do género. A regra geral é de que a concentração ocorre com o cumprimento. Só se pode escolher vinculativamente no momento do cumprimento. O vendedor da maçã roubada tem de arranjar outra. Se o ladrão tiver roubado após a concentração, já não pode o credor exigir outras – o risco transferiu-se. De facto, com a concentração opera o 408º - a propriedade transfere-se. Passa a propriedade e passa o risco. Muitos contratos são sinalagmáticos. Ambas as partes têm obrigações. Se a obrigação genérica se extingue, a outra parte também fica desobrigada (795º). 5. Obrigações alternativas Sucede quando uma pessoa entra num restaurante, tem várias hipóteses para escolher; o restaurador obriga-se a fazer qualquer prato, de acordo com a escolha do cliente. Uma obrigação, em função do objecto, pode ser simples ou composta (543º e SS.). É Simples se tiver apenas uma prestação principal. Se houver várias, elas podem ser cumulativas (devedor fica adstrito a ambas e só cumpre quando as prestar) ou disjuntivas (o devedor cumpre executando uma ou outra das obrigações em presença), também ditas alternativas. Não se confunde com obrigação subjectivamente alternativa. Quer o credor quer o devedor estão, aqui, bem determinados. Também não se confunde com as pretensões alternativas (a lei confere duas possibilidades ao credor). Não se confunde, tão pouco, com as obrigações com faculdade alternativa (o devedor pode, no momento do cumprimento, optar por outra prestação). O 541º dá uma noção: obrigação que compreende duas ou mais prestações. O devedor é que escolhe, na falta de acordo em contrário: ou cumpre uma ou cumpre outra. Não são divisíveis, isto é, parcialmente prestáveis (metade de uma e metade da outra, por exemplo). As partes podem determinar que é o credor que faz a escolha. Se o indicada para escolher não o fizer, ou escolhe num determinado prazo ou cabe ao outro fazer a escolha. Se uma das prestações se tornar impossível por causa não imputável às partes, a obrigação limita-se (converte-se) à outra prestação. 6. Obrigações com faculdade alternativa. Temos uma prestação, que pode ser substituída no momento do cumprimento. A faculdade alternativa cabe a uma das partes. O artigo 558º do Código Civil fala de obrigação de moeda com curso legal no País, segundo o câmbio do dia. É um exemplo, já que, no caso de obrigações cujo pagamento seria feito com outra moeda, o devedor pode optar por pagar com a moeda em curso no País. Também do lado do credor, embora a lei não o preveja, pode estar a faculdade alternativa. É uma obrigação simples por natureza; contudo, existe no seu conteúdo o direito potestativo de alterar a prestação no momento do cumprimento.

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7. Obrigações de informação São fundamentais. Há áreas complexas (Direito bancário, das sociedades comerciais, etc.). Trata-se de áreas em que lidamos com vínculos abstractos, que apenas existem dentro dos cérebros humanos. Constatamos a sua existência falando, por uma teia de comunicação e informação. Ela pode ter base contratual ou legal; pode ser determinada ou indeterminada; substantiva ou codificada – obriga uma pessoa a procurar a substancia e a clarificar tudo, ou então basta dizer sim ou não; autónomas ou heterónomas (se é a pessoa que está adstrita que tem de saber o que dizer é autónoma). Discute-se, no âmbito da culpa in contrahendo, se é necessário dar todas as informações ou só as necessárias. MENEZES CORDEIRO entende que só cabe dar as informações necessárias. Pode ser prestação principal (contrato de consultadoria), secundária ou ainda deveres acessórios (não há assunção de deveres de informação, mas resultam da boa fé). A informação é uma prestação de serviço. O Código Civil (573º e SS.) trata desta área. Requisitos: titular do direito que tenha dúvidas fundadas acerca da sua existência e conteúdo e alguém que esteja em condições de informar. Se estiverem reunidos, surge o direito potestativo que, utilizado, gera obrigação de informação. No Código Civil trata-se de situações características (obrigação de prestar contas é um exemplo de obrigação de informação). NOTA: a importância da distinção entre obrigação alternativa e obrigação com faculdade alternativa prende-se com a possibilidade do perecimento da obrigação. Não há regime específico para as obrigações com faculdade alternativa. Um exemplo é o da obrigação pecuniária: posso cumprir em moeda nacional ou em moeda estrangeira com valor equivalente. 8. Obrigações de apresentação de coisas ou documentos (564º/1). Se A tem direito sobre x pode requerer ao detentor da coisa a sua apresentação. Há direito potestativo que gera obrigação de reprodução da coisa. Parte IV: Obrigações pecuniárias e obrigações plurais Obrigações pecuniárias São aquelas cuja prestação resulta numa entrega em dinheiro. Deve ser tratado pelo Direito. O Direito bancário é o sector normativo do dinheiro. Funciona utilizando categorias civilísticas. Pressupõem a moeda: é instrumento de troca geral (mercadorias que podem ser trocadas por quaisquer outras) e é bitola de valor de outras coisas. Queria-se algo que tivesse valor intrínseco elevado, que pudesse ser entesourado. Foi fixado, pois, em metas preciosos. Mas posteriormente surge a moeda fiduciária: a moeda vale porque as pessoas lhe atribuem um valor. O Estado interveio. Começa a emitir papel-moeda. Hoje em dia, as transacções fazemse em larga medida electronicamente. A moeda funciona porque acreditamos que existe um Estado, bancos, que o sistema funciona. 25

A moeda está dependente de confiança; a confiança depende de um conjunto de regras, que regula o sistema monetário e financeiro. As obrigações pecuniárias já estavam aprofundadas no Direito romano. Vigorava a ideia do valor nominal. Há vários valores: valor real (quanto vale o metal), valor nominal (valor inscrito na espécie, na moeda), valor aquisitivo (valor de troca). No Direito romano já se dizia que a regra era a do valor nominal. Manteve-se a regra. Com o enfraquecimento do Estado começa a surgir muito moeda com menor valor, cunhada por outras entidades. Com as codificações impôs-se a ideia do valor nominal. O artigo 550º do Código Civil estabelece o princípio nominalista. O valor de troca (poder aquisitivo da moeda) depende da inflação. O valor cambiário (em relação às outras moedas) já é outro tipo de valor. O princípio do nominalista tem algumas excepções no Código Civil. A obrigação de alimentos é calculada, sendo actualizável. Em certos casos, também o valor do arrendamento é novamente ponderado. Os juros traduzem uma remuneração da detenção de capital alheio. Discute-se se é legítimo fazer juros sempre que haja empréstimo de capital. Na tradição judaica só poderia haver em relação a gentios; no Novo Testamento e no Corão foram proibidos os juros. Nas Ordenações permitia-se muito restritivamente. Nos países protestante foram admitidos, vindo o mundo católico a admiti-los mais tarde. Em 1757, o Marquês de Pombal possibilitou a remuneração. No séc. XIX houve grande liberdade neste domínio, praticando-se juros elevados. O contrato de usura ganhou até conotação negativa. Em 1932, Salazar limitou a matéria, fixando taxas máximas. Hoje, deveria haver nova intervenção do Estado no sentido de limitar.Os juros podem ser voluntários ou legal; remuneratórios ou moratórios; civis, comerciais, bancários. Obrigações plurais Uma obrigação pode ser singular (um credor, um devedor) ou plural. A pluralidade pode ser activa, passiva ou mista (vários credores, um devedor; vários devedores, um credor; vários credores e vários devedores). Pode ser disjunta (A ou B devem a C; C deve a A ou B) ou conjunta (A e B devem a C; C deve a B e A). Estas figuras cruzam-se. Na pluralidade conjunta distingue-se as obrigações solidárias e as parciárias. Nas solidárias pode ser exigida a totalidade da obrigação a qualquer dos devedores, extinguindo-se aí a obrigação. O devedor que pagou acertará, depois, contas com os demais. Nas parciárias só se exoneram todos os devedores ao mesmo tempo. O Código Civil não trata expressamente da parciariedade. Trata das obrigações divisíveis e indivisíveis, tendo-se entendido que se deve encontrar aí o seu regime. Haverá nas obrigações plurais a figura da correalidade? A obrigação plural correal tem uma única obrigação e deveres que funcionam em conjunto. Nas obrigações plurais temos algo que tem que ver com a contitularidade. O exemplo paradigmático é o da compropriedade.

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que é sempre singular). a lei estabelece solidariedade. quando há vários sujeitos numa obrigação. na falta de estipulação em contrário. implica o que o fraccionamento da prestação se faça num momento posterior ao do cumprimento. É um regime mais duro para o devedor. é muito frequente haver vários devedores e/ou vários credores. todos têm de prestar ao mesmo tempo.noção. um concerto de orquestra. Aumenta a garantia do credor. Os vários sujeitos têm relações entre si. Nestes casos. a regra supletiva é a da solidariedade. Na parciariedade fracciona-se o esforço antes do cumprimento. O que pagou terá de ir reclamar perante os outros até que lhe paguem a sua quota.Ou há direitos a representações intelectuais da coisa (quota ideal) ou há um único direito com vários titulares (MENEZES CORDEIRO entende que isso não seria um direito subjectivo. isso não multiplica a obrigação. É só uma. Quando há pluralidade subjectiva há relações externas – credor/devedor – e internas. O 513º diz-nos que a solidariedade de devedores ou credores só existe quando resulta da lei ou da vontade das partes. seja porque o regime é unitário. há outras que só o são se as partes acordarem. de modo a assegurar o cumprimento. Entre os vários sujeitos constituise uma teia complexa de direitos e deveres. MENEZES CORDEIRO defende que. Quando há responsabilidade civil na esfera de várias pessoas. 27 . Na prática. porque também temos de tratar das relações internas. Quando as prestações não são divisíveis é que surge o problema. mas complexa. No Direito comercial. ou temos pessoas colectivas (os vários devedores ou credores juntar-se-ia numa pessoa colectiva) – esta hipótese não corresponde à do regime legal. A divisibilidade pode ser objectiva ou subjectiva. por exemplo). os credores). Ao contrário da parciariedade. Há obrigações que são à partida divisíveis. A parciariedade tem um regime fácil de aplicar quando há obrigação divisível (dinheiro. Existe uma presunção de igualdade das quotas. Rege o 512º . A parciariedade é a regra supletiva no Direito civil. Solidariedade É um regime a que estão sujeitas as obrigações quando as partes escolhem ou quando a lei determina (porque quer proteger certas pessoas. A existência de pluralidade introduz complexidade adicional. uma obrigação sujeita ao regime das obrigações plurais é uma única obrigação. A solidariedade e a parciariedade A solidariedade e a parciariedade são as duas modalidades de pluralidade subjectiva. O credor pode exigir a qualquer dos devedores o cumprimento integral da prestação. Em resumo. Há casos em que também existe indivisibilidade mas é ainda mais evidente que todos têm de prestar ao mesmo tempo: por exemplo. cada um entrega a sua parte do esforço financeiro. O credor só pode exigir de cada um essa parte. Presume-se que as partes de cada um são iguais. para proteger o lesado. seja porque existe expressão linguística unitária. Quando vão cumprir. As indivisíveis são aquelas que não podem ser fraccionadas sem prejuízo da prestação.

O credor tem garantia acrescida – pode exigir a qualquer dos devedores: solidariedade passiva. O devedor solicitado pode opor-lhe meios de defesa comuns a todos ou pessoais. São duas fontes fundamentais de obrigações. Eram fontes que. não sendo nem uma nem outra. Mas é uma pluralidade heterogénea. pessoal seria a prescrição. já que o fraccionamento é feito posteriormente. presunção de igualdade (516º). 28 . ter duplo aproveitamento. quando alguém contrata a solidariedade. O mesmo jurista que repartia assim as fontes. p. um credor e um credor pignoratício. A configuração e efeitos das obrigações estão relacionados com a sua causa. é natural que existam meios de defesa dos devedores. ex. No período da pré-codificação francesa. Também existe. A solidariedade tem funcionamento mais complicado do que a parciariedade. uma classificação das fontes. Constatou que havia obrigações que nem resultavam de contrato nem de delito. p. ex. se não houver outro acordo. tinham mais afinidades com esta ou com aquela. A fonte das obrigações é fundamental porque dá origem à obrigação e porque determina o seu regime. p.). significa que há alguma coisa a mais. Pluralidade heterogénea Pode existir pluralidade heterogénea. só dele (não os meios pessoais de outro). Comuns seriam as nulidades (vício de forma. A mesma prestação é objecto de um duplo aproveitamento. Surgiu o esforço de sistematização. No Direito romano distinguia-se o contrato do delito. A expressão fonte é tradicional – 405º e SS. um A. há “gato”. A solidariedade activa dá-se quando o devedor pode pagar a qualquer dos credores toda a prestação. O que se pretende e colocar ordem no universo do Direito das Obrigações. alguns anos depois acrescentou uma figura residual. Um dos princípios fundamentais é o da causalidade. Esta obrigação solidária distingue-se da obrigação de fiança: aí há dois vínculos. O que se pode dizer é que o credor pode pedir o cumprimento a qualquer dos devedores. tal como os direitos reais. Se o devedor que pagou não pode pedir a um dos co-devedores que cumpra porque a dele prescreveu. à estatuição de uma norma. Uma prestação pode. Não se pode invocar a prescrição do dever de prestar de outro dos devedores. concluímos que é um regime muito problemático para os co-devedores. o do devedor e o do fiador. É uma bipartição importante. Com Justiniano foram acrescentadas as categorias do quase-contrato e do quasedelito. Quando o credor vai pedir aos co-devedores que façam a sua parte. ex. O instrumento jurídico que permite acertar as prestações é o direito de regresso. Precisa de um facto jurídico para nascer. acrescentou a lei. tem regime diferente. A partir de muito cedo sentiu-se uma necessidade. aqui. Parte V: Fontes das obrigações A obrigação corresponde a um efeito jurídico. Na solidariedade há co-devedores. Poderia existir um credor e um usufrutuário do crédito. A lei poderia ser fonte de obrigações. Normalmente.

em vez de adoptar a repartição tradicional. no tempo e no espaço. Faz-se. Enumera algumas fontes. O esforço de sistematizar levou a sedimentar a tetrapartição. que é comum a todos os direitos europeus. como se usou em 1867 e 1966. Vários autores dedicam-se a tentar achar um mínimo denominador comum. Na União há ordenamentos jurídicos muito diferentes. Em Portugal o movimento foi acompanhado nas Ordenações. referência à tetrapartição. o enriquecimento sem causa. É difícil unificar. p.). a melhor técnica é a tipológica. As divisões não significam. então. O Código de Seabra faia um elenco original. enquanto a lei é norma heterónoma. O que se deve. O grupo de trabalho pan-europeu mais conceituado trabalha na Alemanha e publicou em 2005 um projecto de referência para todos os países europeus em matéria de obrigações. A “fonte” em Direito romano tinha mais a ver com a justificação axiológica. Mas ele é mesmo muito reduzido. Há um encadeamento.Os autores que escreveram entre o período antes de Cristo e o da pré-codificação viveram períodos distintos. Em termos estatísticos. Mas também em termos significativo-ideológicos: o contrato é filosoficamente um instituto com uma carga ideológica muito forte. fazer? É importante organizarmos o estudo das várias figuras. apesar de não haver classificação qua tale. É um reduto de uma certa forma de entender a vida em sociedade. É a forma de as pessoas exercerem autonomia privada. Vai-se do máximo da autonomia privada para o mínimo. Mas o modo como eram formados e entendidos pelas pessoas variou muito. Já nos sécs. Houve sempre algum acordo entre pessoas que produziam efeitos jurídicos. Há mais fontes do que as elencadas no Capítulo II do Livro II. O direito privado tem 2000 anos. a responsabilidade por actos ilícitos e pelo risco. enumera-se o contrato. Pode haver técnica definitória (definindo as fontes das obrigações) e uma tipologia (elenca-se os vários tipos de fontes). Ao longo da História usaram-se ambas e mistas. Trabalhamos com fontes que nos advêm de períodos históricos muito distintos. Atendendo ao carácter histórico-cultural do Direito e ao facto de haver fontes que nasceram em períodos históricos muito diferentes. Onde se avançou mais foi na matéria contratual. todavia. nuns e noutros a mesma coisa. a gestão de negócios. O Direito português está mergulhado no universo comunitário. O contrato O contrato é uma das mais importantes fontes. Mas sob esta aparente homogeneidade esconde grandes diferenças. Os juristas pensavam em coisas bastante diferentes. No Direito europeu há tentativa de ordenar as fontes de obrigações. ex. XVII e XVIII é expressão mais relacionada com o conceito técnico. o negócio unilateral. a partir do 405º. O contrato contrapõe-se à lei por ser norma autónoma. de se autodeterminarem. 29 . O contrato existe desde o Direito romano e é documentável em todas as latitudes. mas enumeração. Há – dentro do Código Civil e fora dele ou até dentro do Código Civil mas fora do Direito das Obrigações (Família. Com o CC de 1966 também não existe classificação. desde logo.

No Direito da Família também: contrato de casamento. Mas os juristas da escola histórica (SAVIGNY. D. O contrato tem um papel muito alargado. em que se procurou pensar toda a sociedade numa ideia de contratos. Assim. desde logo) surgem com a noção de negócio jurídico. É uma forma muito adequada de resolver problemas laborais. com SAVIGNY. Os direitos reais transmitem-se ou extinguemse através de contrato. Mais tarde. A Parte Geral fala fundamentalmente em negócios jurídicos. igualmente. veio dizer que não admitia pessoas que britassem (quebrassem) a boa fé. o próprio contrato perde espaço. Daria frutos no período jusnaturalista. já o negócio obtém-se pela razão.No Direito romano não havia propriamente ideia de contrato. mas existe pacto sucessório. No Direito sucessório é mais raro. Dá-se uma grande explosão. Também a contratação pública é hoje uma manifestação. Quando fala em espírito do povo (o Direito romano actual). O contrato. 30 . Menezes Cordeiro. O Código de Napoleão diz que o contrato vale como lei entre as partes. A expansão mediterrânica de Roma foi crucial. tem menos aplicação. consensual – basta haver contrato. em lei de Maio de 1352. É uma manifestação do pensamento contratual muito cedo no nosso País. se a sociedade é subdesenvolvida. O socialismo ataca o contrato. No Direito Comercial e no Direito das Sociedades Comerciais a figura do contrato também é fundamental. manifestação da importância do contrato. O contrato nos nossos dias Existe uma ideia liberal: quando a evolução da sociedade vai no bom sentido. o contrato está sempre subjacente. que assentavam em formas rituais muito sofisticadas. É um diploma bem feito. A primeira foi a do aparecimento do negócio jurídico. O pensamento contratual atingiu o máximo com o Código de Napoleão. É importante considerar o canonismo. de acordo com a escola histórica e a pandectística. para o Prof. O contrato obteve-se através de uma evolução histórica. Dinis. vai na direcção do contrato. bem como o desenvolvimento da actividade jurisprudencial. nas Obrigações é o contrato. É o sistema de tipo francês. Na Idade Média desponta a ideia de lealdade (influência germânica). A figura do contrato torna-se importante nas sociedades desenvolvidas. Aquando das codificações é dada grande importância ao contrato. Passava a ser vinculativo por isso. É necessário que haja propriedade. A contratação colectiva e a contratação pública Na contratação colectiva (Direito laboral) temos. pela solução que encontra e pela forma de a ela chegar (negociação). surgindo os contratos que hoje são básicos. a Parte Geral do BGB está construída sobre a figura do negócio jurídico. a bona fides perderá o seu significado. mas se lemos artigos sobre negócios. Na Parte Geral sobressai o negócio jurídico. está em crise. O contrato valia por si. O CCP trata da matéria. Os romanos conheciam figuras equivalentes. Com a figura da bona fides davam juridicidade a essas figuras a que hoje chamamos contrato. Não respeitar a palavra dada seria mal visto. diz-se muitas vezes. O nosso Código Civil torna-se interessante porque faz uma síntese entre os grandes sistemas europeus.

pecuniários. etc. Mas a ideia de que os contratos são para cumprir nunca foi questionada. Modalidades de contratos Classificações Podem ser articuladas com a classificação dos negócios jurídicos e das obrigações.  As cláusulas contratuais gerais: há liberdade de celebração mas não de estipulação na contratação. O que houve foi irracionalidade dos celebrantes. diminuindo a liberdade contratual (banca. Não houve. porque não foi necessário. O contrato é.). Houve recuo com a crise financeira e económica internacional iniciada em 2007. É uma visão pessimista. Se a lei não dissesse nada. Graças às convenções internacionais. à partida.  O aparecimento de regras contratuais sem contrato. pois. etc. plurais. existem “derivas dogmáticas”:  A obrigação de contratar não faz muito sentido. seguros. O 56º/3 garante a contratação colectiva. XX surgiu uma concepção objectivista: o que existe são relações de força. O 99º/a) vem dizer que o Estado deve promover uma concorrência salutar. valores mobiliários. Tecnicamente.). racionalidade.  Intervenção judicial nos contratos. visando deixar claro que elas valem no ordenamento português. nas quais existe um conjunto de regras cientificamente preparadas para controlar esses sectores. Todavia. É óbvia. não relevaria: eles devem ser cumpridos. Tudo isto levaria a deduzir que a CRP fala no princípio pacta sunt servanda. MENEZES CORDEIRO considera que o maior ataque ao contrato foi a surgimento da doutrina do negócio jurídico. O 86º/1 diz que o Estado incentiva a actividade empresarial. os observadores previram explosão dos contratos. os grandes blocos não se envolveram numa guerra nuclear. O contrato tem relevo internacional: os tratados são contratos. Mas isso não aconteceu. pelo menos para coisas úteis. diz que as convenções internacionais vigoram na ordem interna.  Áreas reguladas.No séc. O contrato é um véu que tapa os olhos. Tutela constitucional do contrato A CRP. incluindo direitos de créditos). A Constituição só fala de ideias que foram postas em causa. 31 . mas de certos contratos. como o da boa fé. O contrato tem peso em si. Os contratos que estejam por detrás das obrigações podem ser classificados da mesma forma (genéricos. no artigo 8º/2. O 266º/2 determina que os órgãos administrativos devem respeitar princípios. necessidade de consagrar na CRP. não se trata de um recuo do contrato. Mas MENEZES CORDEIRO entende que não: não. No 62º/1 garante-se a propriedade privada (todo o conjunto de direitos privados. Com a queda do Muro.

O contrato de hospedagem. sendo que a outra tem qualquer coisa ainda). o contrato é bilateral. Os típicos são-no porque ao longo da história vieram a ser tratados juridicamente. Comuns e especiais Os contratos comuns visam uma generalidade de situações. Segundo. formais e reais quoad constitutionem A primeira distinção separa os contratos consensuais dos formais. É distinção relativa. vindo a aperfeiçoar-se. Sinalagmáticos e não sinalagmáticos. Aceitar a formulação do Código Civil seria falar em negócios bilaterais “bilaterais”. 3. consideradas mais sensíveis. No Código Civil parece existir assimilação dos conceitos de sinalagmaticidade e bilateralidade. mas a lei não o disciplinou. A confusão aconteceu porque em francês não é bonito dizer “não sinalagmático”. Tipo social é aquele que normalmente tem um conteúdo unitário. monovinculantes e bivinculantes Um contrato sinalagmático é aquele que pressupõe prestações recíprocas. Pode ser especial em relação a um e comum em relação a outro. regulando com especialidade. As pessoas só têm de compor os elementos necessários. em sinalagma imperfeito (apenas uma das partes está obrigada. no entanto. Consensuais. Terceiro. Os contratos sinalagmáticos podem compreender um sinalagma genético ou um sinalagma funcional. Os contratos típicos são tratados ao longo da história. bem como diminui as dúvidas. Doações com encargos seriam sinalagmas imperfeitos. Vantagens dos tipos contratuais: primeiro. os contratos obrigacionais produzem efeitos obrigacionais. Quando a lei não lhe dá um nome. O sinalagma significa acordo do qual resultam obrigações mútuas. Perante o conceito de negócio jurídico. já que não há possibilidade de comunicar essa realidade a não ser através de linguagem articulada.1. MENEZES CORDEIRO entende que é necessário acabar com a confusão. 2. Todos os negócios são contratos bilaterais. É matéria com interesse prático: se uma figura é inominada. por vezes. não dá para classificar em abstracto. Típicos e atípicos O contrato típico é normativamente nominado. permite intervenção do Estado dentro de determinadas áreas. 32 . Pode haver contratos reais quoad effectum que sejam também quoad constitutionem 4. Fala-se. poupa trabalho às pessoas haver tipos na lei. mexendo com o tipo legal para criar um regime mais adequado. Contratos obrigacionais e reais quoad effectum Os contratos reais quoad effectum produzem efeitos de direitos reais. Os contratos especiais visam só uma situação ou algumas dentro da generalidade. 5. fica fragilizada. maior equilíbrio. é nominado mas atípico. Pode haver tipo social e tipo legal. reais quoad constitutionem e quoad effectum. O contrato oneroso constitui um sinalagma perfeito. nominados e inominados. em princípio também não o regula.

uma vez que domina a autonomia privada. 6. solicitar ao outro a efectuação da prestação. Em regra. não são caracterizados por um princípio de tipicidade. Principais e instrumentais Os negócios jurídicos podem ainda ser principais ou instrumentais. Embora o 405º seja muito abrangente. Fica com o direito potestativo de. O negócio gratuito é oneroso ou gratuito não pelos resultados. se as partes celebram contratos mistos. há alguns contratos em que a lei estabelece normas imperativas. as partes têm liberdade de celebrar livremente. O problema é que. O estudo desta matéria não é fácil. Onerosos e gratuitos Os negócios jurídicos podem ser onerosos ou gratuitos. vêm previstos na lei só parcialmente e estão aliados a cláusulas atípicas). hoje. uma delas não fica obrigada. consoante gerem o direito potestativo numa das partes de desencadear os efeitos jurídicos correspondentes ou em ambas. As partes querem dar. querendo. A generalidade dos negócios jurídicos utiliza cláusulas de tipos previstos na lei. Nos monovinculantes há duas partes. Os contratos atípicos são também um quebra-cabeças para a administração fiscal. A sinalagmaticidade tem em conta a reciprocidade das prestações. Há 16 contratos regulados no Código Civil. o que se faz às normas imperativas? Aplicam-se? Elas estão previstas para os contratos típicos. É diferente da vinculatividade. No contrato-promessa monovinculante há uma parte que tem o direito potestativo de desencadear o contrato definitivo. descritos pela doutrina com recurso ao animus donandi. 7. mas porque as partes estabelecem vantagens e contrapartidas para ambas ou separam. no entanto. passa entre as gotas da chuva. tendo em conta o relevo de que se revestem. À luz do 405º. pois. Os onerosos implicam esforço económico e vantagens correspectivas para ambas as partes. 33 . a parte geral é muito restrita. Se o contribuinte celebra contratos atípicos. reciprocidade. Há. A generalidade das normas é supletiva. Os gratuitos são aqueles em que só há vantagens para um e só esforço para o outro. O problema é que. em regra. Tendo em conta este facto. atípicos e mistos (vêm previstos na lei e são misturados.Os negócios jurídicos podem ser mono ou bivinculantes. como há regulamentação feita a propósito dos contratos básicos. mas ambas as partes terão de proferir as declarações negociais. A tipificação tem o intuito de facilitar a vida aos privados. É sinalagmático. atípicos e mistos Os negócios jurídicos. O nosso direito estabelece que as partes podem celebrar como lhes aprouver. Os gratuitos são. O carácter misto dos contratos tem colocado problema quanto ao seu âmbito de aplicação. podemos distinguir entre negócios típicos. reconduzem-se a um dos cinco tipos básicos previstos na lei. Tipologias de contratos Contratos típicos.

Um pormenor não chega para transformar o típico em atípico. A teoria da combinação diz que devemos combinar os regimes jurídicos. os serviços de limpeza. mas como tendo a casa como refém. Em troca do preço recebe um quarto (locação). Os negócios indirectos podem ser de execução instantânea (no exemplo dado as partes prosseguem fim próprio de outro tipo. B tem de guardar a casa enquanto A não paga. não havendo uma principal. O que se passa efectivamente na jurisprudência? No Direito português. Indirectos – são designados simplesmente por mistos stricto sensu. mas tem prestação subordinada que é de um tipo diferente. 4. aplicando todos. Combinados ou múltiplos – existe de um dos lados uma prestação única e do outro prestações múltiplas. próprias de vários contratos. Aplica-se o seu regime a todo o contrato. 2. Ex. Tendencialmente aplica-se o regime do contrato de trabalho (absorção). Proporcionar a habitação destina-se a aumentar a qualidade do trabalho prestado. que absorverá os outros. Surgem quatro teorias: a teoria da absorção diz-nos que devemos encontrar um tipo principal dentro do misto. Isto só resulta se houver confiança. Não tem salário. comida. mas recebe em géneros. Há mistura. em troca de explicações. Os combinados distinguem-se dos complementados. quando acabar. comida. São aqueles em que as partes utilizam um tipo legal para prosseguir um fim ou função própria de outro negócio. não para que se porte como proprietário. Complementados – aqueles em que existe um tipo base.: A arrenda um quarto a B. Porteiro – a generalidade da jurisprudência entende que o que é fundamental é o contrato de trabalho. esta matéria tem sido tratada a propósito de quatro contratos: 1. já que temos prestações próprias de multiplicidade de contratos. obtendo a realização do interesse pelo simples cumprimento) ou duradouros (a função prosseguida só é conseguida ao longo do tempo). embora tenha havido preço.: A recebe habitação.: A comprou 15 dias num cruzeiro. Estas teorias estão marcadas pela sua origem. cama. 34 . A autonomia privada é o pano de fundo. Permite-lhe que habite a sua casa em garantia do cumprimento. Ex. entretenimento. O resto é extra. A doutrina discute muito o modo de regular os negócios mistos. devolve-lha.A doutrina classifica os contratos atípicos como: 1. Duplos ou híbridos – cada uma das partes está adstrita a uma prestação de um tipo diferente. O caso paradigmático é o da alienação em garantia. o locador. Há o tipo base (locação) e uma prestação menos importante. Ex. que lava também a roupa de cama. A tem dívida para com B. etc. o negócio aproxima-se da gratuitidade. 3. A teoria da analogia diz-nos que devemos tentar encontrar por analogia a norma necessária para o negócio em causa.: A compra por preço muito baixo. na prática. Para que o objectivo se realize tem de haver relação de confiança entre as partes. Não pode ser um mero pormenor. A tese da cumulação entende que devemos cumular os regimes jurídicos. Ex.

que pretende montar uma rede de distribuição sem correr certos riscos. Mas se acontecer aplicam-se todas as normas gerais do CC. Contratos indirectos Exemplos de contratos mistos são o complementado. a quem entrega os bens. deve-se identificar o centro de gravidade do contrato. A solução foi a da analogia. e também com a agência. O que é específico é a marca. o arrendamento tem muitas normas imperativas. bem como sinergia do ponto de vista económico. tal como o da vontade das partes. Mas se houver problemas próximos de negócio de outro tipo. Quando há lacuna contratual. Se ele corresponder ao tipo x. Pode. sem intenção de enganar). segurança. para que os distribua. por analogia. O limite é o das normas imperativas. divergência não simulatória (A e B querem contratar e fazem qualquer coisa que não querem verdadeiramente. publicidade. aplica-se essa solução. No caso do porteiro isso é evidente. Franquia (franchising) – caso de alguém que tinha uma marca permitir que outro usasse a marca. aplica-se o regime do tipo x. a solução também foi a da analogia. Aqui há um produtor de bens distante dos consumidores. P. Em Portugal. mas o contrato é usado para uma função diferente. 4.2. Se os contratos de lojista fossem de arrendamento. Celebra negócios com empresas nos locais onde quer distribuir. aplicam-se as regras desse tipo. temos de ir ao espírito do sistema (10º do Código Civil). mas os serviços que o centro proporciona. acabavam os centros comerciais. no entanto. A solução foi dizer que o fundamental não era a locação. o combinado e o híbrido. nomeia concessionários. O que é específico é a distribuição de bens produzidos por outro. Regra geral. Mas não é normal. Se não for suficiente. é esse que se aplica. Há semelhança entre a agência e a concessão. É contrato de agência que foi encontrado. gestão do centro. a outra também. O que aconteceu foi que a doutrina e jurisprudência tentaram empolar os outros aspectos do contrato: proporcionar serviços e o benefício comum. ser celebrado por conveniência (julga-se melhor) ou por necessidade (a lei imporia a celebração do contrato x. é uma área vinculística. A seguir temos de resolver com analogia. então celebra-se o y). Quando nada se diz. 3. O método foi o da analogia. Que fazer nos casos de contratos totalmente atípicos? É raro isso acontece. é também acompanhado de distribuição. Pode haver várias funções: simulação. a primeira solução é a da vontade das partes. Lojista em centro comercial – os centros comerciais há um promotor que proporciona o gozo de uma loja a um lojista e serviços de limpeza. ex.: um contrato de compra e venda com preço insignificante cumpre função de doação. Mas isso é raro. que tem parte fixa e parte variável (incide sobre a facturação da loja). O promotor é remunerado através da renda. se na lei houver solução. de tal forma que haja lojas que atraiam os clientes. Concessão comercial – é o contrato através do qual se distribuem bens de elevado valor. Se as partes conseguem estabelecer todo o regime. Nos contratos indirectos ou mistos em sentido estrito: há uma parte obrigada a secção típica de um contrato. Recorre-se ao regime da agência. Hoje. 35 . Aqui.

Se ela tem natureza real. O fiduciário é de execução prolongada. Se for à falência. O fiduciário é proprietário. Procura-se o centro de gravidade. Como se constrói a situação fiduciária? Se negócio for fiduciário há uma cláusula que limita o beneficiário. Mas por vezes não surgem duas metades funcionais. todos os credores podem recorrer à coisa dada em fidúcia. Descobrindo-o. o que consubstanciaria uma entrega fiduciária como garantia. porque as coisas dadas em garantia valem mais do que a dívida. era o proprietário da coisa. M. O fiduciante é só entre outros. o fiduciário. a fidúcia é muito violenta para o devedor. 36 . Ele é permitido se não violar regras imperativas. No Direito português. porque doações de bens futuros não são permitidas. Uniões de contratos Os contratos nunca estão isolados. na interna havia contratos distintos com cláusula que remetia de um para o outro. interna e alternada. Não se sabe se o negócio foi feito porque era querido ou se era simulado. O facto de estarem acompanhados altera o seu regime. Na união externa os contratos distintos estavam materialmente unidos.Uma primeira forma de lidar com esta realidade é cindir o contrato em dois (teoria da separação). Mas o Prof. aplica-se o regime correspondente. Poderá ser admitida no Direito português? A entrega a B uma casa enquanto tiver uma dívida. não permite divisão da coisa entregue. na contratação alternada valia ou um ou o outro. MENEZES CORDEIRO propõe que todo o negócio fique em “modo fidúcia”: fica todo orientado pela fidúcia (modus fidutiae). Se separamos algo que é unitário ficamos com dois bocados que de nada servem. mas para o de terceiro. Tradicionalmente distinguia-se entre união externa. Os nossos clássicos dizem que não é permitido. já que o Direito existe para proteger os fracos. ANDRADE e PESSOA JORGE diziam que havia tipicidade e a os fiduciários não estavam previstos na lei. Um pacto comissório é uma cláusula pela qual se combina que a coisa entregue como garantia de uma dívida reverte para o credor se a dívida não for paga. Por exemplo não se pode celebrar contrato de compra e venda por preço insignificante em relação a bem futuro. ao contrário do alemão. Ele não pode ter eficácia real sem norma expressa que o permita. negócio jurídico romano pelo qual uma pessoa ficava adstrita a tomar conta de qualquer coisa. Contrato fiduciário é aquele que tem cláusula que determina que o beneficiário não pode exercer o direito de proprietário para o seu interesse.Qual a diferença entre o contrato indirecto e o fiduciário? O indirecto é de execução instantânea: uma vez cumprido acaba. São óbices consideráveis. À teoria da separação contrapõe-se a teoria da unidade. em benefício de quem a entregava. Estes pactos comissórios são proibidos desde os romanos: desde logo. Mas. Contratos fiduciários Na origem encontramos a fidutia. Quem recebia a coisa com fidutia. teremos uma figura real não prevista na lei. se for combinada uma situação fiduciária ele tem eficácia real.

a promessa valia apenas como prestação de facto. Hodiernamente. O contrato-promessa no sistema jurídico O Código de 1966 manteve a simplificação de forma.. a segunda também vai falhar (falta de legitimidade). Quando estão formalmente separados há regras que são aplicáveis. Quando se tratasse de promessa relativa a bens imobiliários. 37 . para o sinal. 442º. Era importante porque tinha implícita a ideia de que só tinha que ser celebrado por escrito. É uma ideia relativamente recente. 830º. O Código Comercial tinha uma regra igual à napoleónica. homogéneos e heterogéneos. Os Autores do pandectismo entenderam que era possível construir uma figura geral. No Direito português tem grande importância. Nas Ordenações a compra e venda tinha um papel de promessa. Um contrato remete para certas cláusulas de outro. A figura acabaria por aparecer no Código italiano. Admitia a figura e afirmava que os promitentes ficavam obrigados a celebrar contrato. Vários ordenamentos degradaram o contrato-promessa. devia ser celebrado por escrito. A figura da absorção. por exemplo. Segundo o Código de 1867. Se a primeira compra e venda de uma cadeia de compras e vendas falhar. A celebração de uma escritura pública demora tempo. A processualística veio admitir que se um contrato-promessa fosse válido poderia haver execução específica. O Código de Napoleão dizia que a promessa de venda valia como venda. causais. rege nos contratos mistos. Regime Pode acontecer que a união de contratos seja operada em termos de validade: a validade de um dos contratos depende de um ou de alguns que também estejam na união. já que a compra e venda tinha mera eficácia obrigacional: a propriedade só se transmitia quando fosse cumprido o contrato. O Código de Seabra veio consagra um regime diferente. No domínio das Ordenações havia pouco espaço. de tipo processual. Não serão contratos mistos? Muitas vezes a distinção é formal. É matéria tratada em três sectores (410º e ss. Seria uma figura da parte geral e não um tipo especial. dependentes e independentes. há centros de gravidade múltiplos. Há muita jurisprudência sobre isto. sem recorrer à escritura pública. Importou do BGB a execução específica. de tipo não processual. Mas nunca é irrelevante. execução específica). sendo diferente o regime. A nulidade de um contrato em união pode conduzir à nulidade do conjunto. Em uniões de contratos a interpretação deve ser feita em conjunto. A promessa por escrito era válida na hora. A situação da promessa pode parecer inútil (obrigar-se a obrigar-se). Se as partes formalmente recorrem a contratos diferentes. É uma convenção pela qual alguém se obriga a celebrar outro contrato. Admite que produzisse efeitos em relação a terceiros.Há uniões funcionais (é necessário juntar vários para atingir uma função). tem eficácia real. pode ser necessário justificar todos para obter efeito útil – é a potenciação. O contrato-promessa Coordenadas histórico-dogmáticas O 410º dá a sua definição. O contrato prometido e o contrato definitivo.

Regime Menezes Cordeiro chama prometibilidade à susceptibilidade de um negócio jurídico ser prometido. Mitigada ou mitigadora. ex. tendo isso em conta. mas “celebrar um contratopromessa de qualquer outro”.As funções do contrato-promessa podem ser de vários níveis: preliminar. O resultado que se obtém como o contrato definitivo pode ser obtido logo com o contrato-promessa. O contrato-promessa é um contrato que prepara outro. financiamento. transacção meramente obrigacional. acabamento da coisa. 2. ex. o promitente adquirente pode ir viver para a casa que lhe é prometida. não podem ser objecto de promessa. mas o contrato-promessa não confere a possibilidade de execução específica (contrato de trabalho. É usado. uma vez prometido. Regulativa autónoma. desformalização. é possível a execução específica no caso de incumprimento. A prometibilidade fraca significa que certo contrato é susceptível de ser prometido. Mas as partes podem não querer logo: usam o contrato-promessa. por vezes. Há contratos que. um modus vivendi. na promessa tem de haver negociação). Desformalização. É um formato. 5. dos contratos instrumentais (não comportam ainda o texto definitivo). do contrato preparatório material. P. etc. p. Pode ser um contrato que só por si já tem cláusula que permitia soluções de fundo. as partes usam a possibilidade de não celebrar o prometido (direito de arrependimento). 1. do exercício de preferência. do pacto de preferência (não se sabe à partida qual o contrato definitivo. Não se deve dizer “celebrar um contrato-promessa”. um modo geral de celebrar outros contratos. É a função preparatória.. regulativa autónoma. O contrato-promessa distingue-se da proposta. Função preliminar. Por vezes. 3. na promessa sabe-se). os contratos são dotados de prometibilidade forte. Pode ser usado para regulação parcial de interesses que vão ser incluídos no contrato definitivo. Meramente obrigacional.). do convite a contratar (A solicita a B que contrate). Tenho de saber se uma certa palavra é ou não conjugável com aquele prefixo. sobre a entrega. Quanto à prometibilidade fraca. É como se o contrato-promessa fosse um prefixo. Surgem cláusulas de fraccionamento do preço. 4. para preparar o contrato definitivo. do dever legal de contratar. no Direito português os contratos relativos a direitos reais transferem-se imediatamente. 38 . do pacto de opção (pessoa tem direito a fazer surgir o contrato definitivo. são os do 830º/1: contratos com convenção contrária ou com natureza que não permita execução específica. Como no Direito alemão. Regra geral. Prometibilidade é a associabilidade de um contrato a esta forma geral de contratar. A prometibilidade forte significa que certo contrato pode ser prometido e. Há excepções: ou decorrem da lei ou da natureza dos valores envolvidos. mitigada.

Mas. A lei pretende que a doação seja um contrato livre até ao fim. O contrato de doação é um contrato com dogmática própria. É verdade que existe um regime jurídico.  Contrato de casamento A promessa de casamento está regulada nos 1591º e SS. Isso não vem na lei. mas ineficaz quanto às prestações principais.  Negócios jurídicos reais quoad constitutionem Aqueles para cuja válida celebração é necessária a tradição da coisa.Há três casos duvidosos no 830º/1:  Contrato de doação Não existe prometibilidade na doação. Os contratos-promessas estão pensados para negócios jurídicos onerosos e sinalagmáticos. tendo em conta o regime. Vincula quanto a deveres acessórios: não pode frustrar expectativas de modo contrário à boa-fé. O nome é parecido. também não há uma regra expressa que o diga. a proposta ainda não foi feita. O problema é que. até é possível haver excepções ao que se disse. Mas o espaço natural do contrato-promessa é o contrato oneroso e sinalagmático: o seu regime está mais adaptado para este tipo de contratos. Havia autores que diziam que havia um contrato-promessa. Se se permitisse o contrato-promessa de doação estar-se-ia a contrariar essa proibição. à partida. proximidade. já que a lei diz que não há contrato sem entrega. pelo seu carácter gratuito porquanto resulta de uma liberalidade do doador. imperativo. mas que tinha um regime especial. se não houve entrega da coisa. o tribunal não pode conseguir um contrato celebrado. como executo? Os clássicos diziam que não era possível. mas a situação subjacente é diferente. que gerou uma situação de confiança cujo rompimento causa danos. 39 . não é possível qualificá-lo como contrato-promessa.) que conduz à possibilidade de revogação. o que está em causa não é a regulação de um contrato. etc. diferente do regime do contrato-promessa. e o outro não cumprir. Não vincula o promitente a doar. do 1591º e SS. perante a regra do 969º estar-se-ia a obrigar a nada. Já que o promitente se pode arrepender durante a vigência do contrato-promessa. No contrato-promessa. O doador despoja-se do bem no momento em que doar. O 969º permite ao doador revogar a doação enquanto a proposta não for aceite. Contrato-promessa e doação são dois contratos que. Acabaria por ser um artifício para contornar o 942º. Isso não é correcto. A lei exige que o doador se consciencialize de que vai despojar-se da coisa. Não se trata de um contrato-promessa. a obrigar a algo que poderia revogar. Pode fazê-lo. Não há contrato-promessa de doação. O regime do contrato de doação proíbe a doação de bens futuros (942º). Com o não cumprimento. às consequências pela ingratidão. Como tratar disto juridicamente? MC diz que um contrato-promessa de doação não é propriamente nulo ou inválido. É muito influenciado pelo animus donandi e à relação pessoal extra-jurídica entre o doador e o donatário (amizade. O mesmo vale para o pretenso contrato-promessa de doação. mas não fica vinculado por isso a realizar a doação. estão nos antípodas. mas a regulamentação de uma relação especial sociologicamente. É um contrato à parte.. se eu celebrar um contrato-promessa deste contrato. etc.

O proprietário da coisa é solicitado pelo tribunal a entregar a coisa para que a sentença de execução possa ser eficaz. Se para o prometido for necessário documento. A questão das assinaturas é meramente formal. Outros pretenderam salvar o negócio jurídico. para ser quantos se obrigam. A falta de assinatura não se identifica com uma invalidade parcial. nos termos do 293º. é a solução. O “porém” do 410/2 é relativo ao 219º. os contratos-promessas bivinculante em que há 1 assinatura podem salvar-se do ponto de vista formal por conversão. Problema clássico é o saber o que acontece a um contrato-promessa bivinculante com apenas uma assinatura. Para o prof. a jurisprudência e a doutrina tentam salvar o contrato-promessa bivinculante assinado apenas um. As regras sobre a forma estão no 410º/2 e 3. não se precisa é de assinar. Um contrato-promessa bivinculante é muito diferente de um monovinculante. o que se deveria verificar-se sempre era assinatura de ambos. o bivinculante não é a soma de dois monovinculante. E se houver obrigação secundária a que o promitente que não se obrigou quer também vincular-se? Aplica-se a regra geral do 219º. Celebração do contrato-promessa A matéria dos requisitos formais está no 410º. a transformação do negócio em monovinculante traduz um corte em dois. Um assento do STJ não ajudou a resolver o problema. quem celebra bivinculante em princípio não celebra mono. Não haveria problema de prova nem dúvidas. pelo que admite contratos-promessa de contratos reais quoad constitutionem. Nos monovinculantes o outro tem de ter concordado. Se há obrigação que está fora do documento ou que está no documento que não tem as duas assinaturas. Na normalidade dos casos. 40 . Por isso.Hoje em dia. não se entende porque só um assina. Na prática. Mas isso é errado. Às vezes pensa-se que basta ver o número de assinaturas para saber se o contrato é mono ou bivinculante. outros a conversão. aplica-se a regra geral. Resolve o problema da entrega da coisa a nível processual. autêntico ou particular. Alguns autores pronunciaram-se pela nulidade (220º). Se o documento é a materialização do acordo. existe um princípio geral desfavorável aos contratos reais quoad constitutionem. Se for livre também o contrato-promessa é livre. A matéria da forma não está sujeita ao princípio da equiparação. Assim. Uns defendem a redução. em regra o promitente alienante. é preciso o acordo de ambas). Nos monovinculantes pode existir só uma assinatura. Se não se aplicam as regras relativas à forma do contrato prometido. O 410º/2 regula a forma. Estipulações acessórias são válidas. ainda que não tenham as duas assinaturas. MENEZES CORDEIRO em princípio. o contrato-promessa só vale se constar de documento assinado pelas partes que se vinculam (monovinculante ou bivinculante – mas qualquer deles é contrato. A conversão. o regime é o do 219º liberdade de forma. a maioria da doutrina admite contratos parecidos mas em que não seja necessária tradição. Para se saber qual a forma precisamos de ver a forma do contrato prometido. Os contratos-promessa são negócios muito celebrados. Só sabemos analisando e interpretando o contrato. tendo enorme relevância.

Este princípio. Surgiu na década de 1980. em certos casos. para Menezes Cordeiro é mais uma norma metodológica do que uma norma de fundo. Neste momento. Havia pessoas que celebravam contratospromessas de casas ainda não construídas. prestações secundárias de tipo jurídico: obter o consentimento de um terceiro que tenha direito sobre a coisa. Pode ser paralisada através do abuso de direito. Se o contrato-promessa é relativo à venda de coisa que ainda não é do promitente alienante. que vieram trazer uma aproximação à anulabilidade (o tribunal não podia declarar oficiosamente e terceiros não podiam invocar). admite a lei que os direitos e obrigações se transmitam aos sucessores das partes. Há um regime especial: contratos-promessas urbanos. apresentando a licença de construção ou habitação do imóvel. MC sugere a ideia de modus contrahendo. O contrato-promessa é uma realidade jurídica própria. pode-se pedir ao juiz que fixe o prazo – 412º. Havendo contrato-promessa. A parte geral também tem regras. o contrato-promessa deve conter uma formalidade: reconhecimento das assinaturas perante notário. A omissão da formalidade apenas pode ser invocada pelo promitente adquirente ou pelo alienante quando tenha havido culpa do outro. Quando um contrato é contrato-promessa entra em “modo de promessa”. As prestações principais são as declarações negociais que darão origem ao prometido. ex. Quando se celebra o definitivo? Na data em que as partes tiverem combinado ou. ficando com um contrato-promessa monovinculante. também. que depois vinha a ser vendidas com preços mais elevados. Cumprimento e incumprimento da promessa O cumprimento é a execução da prestação. a se. p. Nestes casos. a vantagem só faz sentido se a pessoa que decidirá quando é que o contrato se cumpre tiver tempo. este deve adquiri-la. não se devem considerar extensíveis ao contrato-promessa. possa reduzir-se o negócio. A regra básica no contrato-promessa é o princípio da equiparação (410º/1). Deveres acessórios são os resultantes da boa fé. As prestações secundárias podem ser de tipo formal ou material. por sua razão de ser. 41 . Ao contrato-promessa aplicam-se as regras relativas ao contrato prometido. Obedece a normas: os princípios da correspondência. Qual o regime mais próximo desta invalidade? O ST emitiu dois assentos. O contrato-promessa urbano é aquele que cabe na previsão do 410º/3. dado o retorno dos portugueses viviam nas ex-colónias e a inflação galopante que se verificava. O 411º determina que em casos de promessa unilateral. A partir dele o legislador constitui um subsistema dentro do contrato-promessa. de invalidade mista. no 3.Mas não é fundamentalista. A nossa jurisprudência admite que contratospromessa cujos prometidos venham a ser celebrados pelos cônjuges possam ser celebrados por um só. concretização e boa fé. com excepção das relativas à forma e as disposições que. o regime é o da reforma de 1986. Redunda essencialmente numa directriz metodológica. Trata-se. A posição do promitente é penhorável: pode ser apreendida pelo tribunal e vendida. havendo grandes atropelos ao direito. Admite que. integralidade. se nada disserem. Há. Se a promessa for monovinculante. o 777º diz que o credor pode em qualquer altura pedir o cumprimento e o devedor apresentarse a cumprir.

Incumprimento há quando. MC entende que isso não pode ficar assim. lugar. aplica-se o 280º. Quando haja cumprimento extingue-se a prestação principal. O cumprimento do contrato-promessa ocorre com as declarações de vontade que incorporarão o contrato definitivo. O sinal e o direito de retenção no contrato-promessa Sinal Esta matéria sofreu alterações. pode haver resolução. Ou há mora. Aparece uma prestação de indemnização (798º e ss. em 1986 tentouse resolver as confusões criadas. Se isto não for possível. Pode acontecer que o contrato-promessa não diga porque caiba a um terceiro dizê-lo (400º). e se não cumprir passa a incumprimento definitivo. O promitente fiel é o que é prejudicado. O credor dá um prazo razoável ao devedor para que cumpra. há inadimplemento. se o contrato-promessa permitir. não foi. são aferidos pelo contrato-promessa ou pelo princípio da equiparação. O definitivo está previsto no contrato-promessa. etc. se for cumprido. que serve para cobrir o remanescente (na execução da prestação principal). uma via crucis. se não for cumprido. O princípio da concretização tem vários vectores que nos dizem como a realidade prevista vai passar ao activo: regras sobre preço. impossibilidade superveniente. que resolvem inovar. violação de deveres acessórios. Em 1980 surgiu uma alteração ao 442º. O incumprimento extingue a prestação principal.).). declaração do devedor de que não vai cumprir (possivelmente). que diz que é nulo por indeterminabilidade do objecto. Muitas vezes há AA. mantendo-se o contrato-promessa. etc. Se não houver. prazo. No contrato-promessa há ainda hipótese de arrependimento. imputação. Pode acontecer que seja lacunar. local. a lei prevê a interpelação admonitória. no momento em que deveria ser celebrado o definitivo. O princípio da integralidade diz que o cumprimento deve ser integral: o devedor adimplente deve executar a prestação por inteiro. O incumprimento em sentido estrito (simplesmente não é cumprida a prestação). Isto é uma trapalhada. o faltoso é o que não cumpre. 42 . devolve-se em dobro. Se houver situação de mora. se forem válidas e eficazes. Incumprimento stricto sensu – pode haver situação de mora (não foi executada mas ainda pode vir a ser) ou incumprimento definitivo. Haverá outra forma de extinção do contrato-promessa? Pode haver revogação. Dizem o que os outros dizem com palavras diferentes. Pode haver uma impossibilidade superveniente. À partida.. pode haver um destrate (acordo de ambas as partes).O princípio da correspondência diz que o cumprimento deve corresponder ao que estiver pré-visualizado na obrigação. Pode haver recusa antecipada a cumprir. inclui-se a coisa no cumprimento. Legitimidade. alterando as palavras. O 239º rege para integrar lacunas – procura-se a vontade hipotética das partes com recurso à boa fé. transmitindo-se essa lacuna para o definitivo. violação positiva do contrato. Quando é celebrado um contrato é entregue uma coisa por A a B. o sinal é cláusula típica que pode ser inserida no contrato (440º e ss.

Assim. Em 1980 havia grande inflação. O imobiliário estava sempre a subir. Quando mexeu no 442º. o sinal tinha alcance coercivo. Tornava-se compensador não cumprir. Estas medidas têm vantagens (acautelam as posições das pessoas que na altura careciam de tutela) e desvantagens (criam problemas no futuro). A mais simples era perceber o que o legislador quis fazer: mudar o regime das casas de habitação. mas o valor actual da coisa. A ideia era: como a inflação é muito alta. mexeu no regime do sinal. A jurisprudência. Se está em causa o contrato-promessa haverá sinal definitivo. a indemnização já não é o sinal em dobro. A versão inicial do 441º previa que se presumia que fosse sinal qualquer coisa entregue. penitenciando-se (ficando sem o sinal) – direito de recesso. o sinal ganha coloração particular. Era matéria supletiva: se as partes quisessem combinar diferentemente poderiam fazê-lo. Assim. O problema viria a ser resolvido em 1986. Tanto era que o diploma de 1980 o dizia em preâmbulo. 30%. que chegava aos 20. Houve várias propostas para resolver a situação. recebiam-se sinais. Quando metido no contrato-promessa. O legislador obteve esse desiderato através do direito de retenção. Afastouse a possibilidade de execução específica. Enganou-se e mexeu em tudo. na fase executiva. Os promitentes alienantes devolviam em dobro e depois vendiam a outro por muito mais. Tem um direito de liquidação judicial. com a inflação. O que estava em causa eram casas de habitação. penal. Se for entregue a coisa ao promitente adquirente e o alienante não cumprir. os sinais deixavam de valer tanto. celebrando-se contratos-promessas.  Quando há tradição da coisa prometida. se não se dá o valor da coisa o adquirente não pode ser compensado. vender a coisa e recolher o preço. No Direito justinianeu adquire um sentido penitencial: permitia às partes que tivessem prestado sinal arrepender-se.No Direito grego antigo. No Direito romano tinha um sentido confirmatório.  Atribuir direito de retenção ao adquirente que recebesse a coisa. A posição do promitente adquirente traditário fica muito reforçada (é o vinculismo de 1980). Os banqueiros também ficam muito fragilizados – só não fizeram barulho porque estavam nacionalizados. começou a resolver o problema diferentemente. O Governo resolveu intervir. 43 . o adquirente tem um direito ao aumento do valor da coisa e tem direito de retenção (o seu direito de crédito sobre a casa passa à frente de eventuais direitos de hipotecários). Retenção física e aquisição de posição semelhante à do credor pignoratício. ajudava a provar a existência do contrato. mas não reparou que o sinal se aplica a todos os contratos-promessas. dever-se-ia dizer que o regime só se aplicava àquelas. a propriedade só se transmitia com o cumprimento do contrato de compra e venda. Pode funcionar como um incentivo a que não sejam entregues as coisas com os contratos-promessas. mesmo aqueles em que não se justificava intervenção deste género. se houve incumprimento. O retentor pode. no entanto. faziam-se casas. As três alterações feitas foram desastrosas:  Afastar o sentido penitencial do sinal.

Ficou claro que o regime especial do sinal só se aplica a contratos-promessas.  Se houvesse tradição da coisa ao promitente adquirente. MC disse na altura: o que se queria era resolver os casos das casas para habitação. Lobo Xavier. mesmo que anteriormente registada. fixa-se um novo prazo. pela interpretação). é mais selectivo. perderam a objectividade. Todavia. No regime do sinal foram tomadas 3 medidas:  Afastou-se a natureza penitencial do sinal. É um esquema complicado. Assim. o promitente faltoso pode apresentar-se a cumprir o contrato-promessa. Se houver morar. Vários AA. o facto de o direito de retenção passar à frente da hipoteca. Fica com o valor da coisa mas paga o preço. A reforma veio também afectar os espíritos: os autores ficaram muito excitados. a favor do promitente adquirente traditário. Tendo havido mora. Além disso. Tentou-se. a indemnização seria o valor actualizado da coisa. não sendo necessária a interpelação admonitória. ficou claro que o regime vinculístico só rege se houver tradição da coisa. o regime só se aplicaria a contratos-promessas que tenham em vista prédios urbanos.O regresso a Portugal de portugueses que viviam nas ex-colónias aumentou exponencialmente o número de contratos-promessas sobre compra e venda de bens imóveis. não há logo incumprimento definitivo. Se houver mora. Vasco da Gama Lobo Xavier veio dizer que seria preciso deduzir o preço ao valor da coisa. ele é deduzido do preço. Houve excessos legislativos. introduzir correcções. como a indemnização pelo valor da coisa cumulando com o direito de retenção. O Prof. Tentou-se limar algumas arestas. Ficou ainda entendido que funciona em alternativa com a execução específica. Assim. ainda assim. Com o DL 357/86 de 11 de Novembro tentou resolver a questão. MC veio também dizer: se é pedido o valor da coisa é porque a pessoa que o pede está interessada na coisa. Quem é prejudicado é o promitente adquirente. Tudo isto dependia de um acto de graça do promitente alienante: a entrega da coisa. Em 1986 o legislador interveio novamente. 44 . Medidas desse género são negativas para quem vem depois. Baralhou-se uma série de conceitos (o que seria ultrapassável. Se houver sinal. É uma “excepção de cumprimento”. ficou consagrada a indemnização pelo valo. vieram dizer que só se houvesse tradição haveria direito ao aumento do valor da coisa. O hipotecário ver-se-ia preterido. Há outra trapalhada: como funciona o sinal no contrato-promessa? Se alguém não cumpre na altura em que deve.  Se houvesse tradição da coisa surgiria um direito de retenção. exige mais garantias. doutrinariamente. MC entende que o diploma nem deveria ter integrado o CC. Se escolher o valor da coisa poderá o faltoso oferecer-se para cumprir o contrato-promessa. O sistema bancário reage quando é atacado: eleva os juros. congelando o direito ao valor da coisa. com a solução do Prof. pode o credor ter perdido o interesse na prestação. a primeira consequência é entrar em mora (805º). A maneira mais simples de evitar estas medidas seria não entregar a coisa.

Se for um representante. Menezes Cordeiro assinala que a sua posição doutrinária poderia ser um risco no tribunal. É posse semelhante à do arrendatário. se há sinal. desaparece também o sinal. a doutrina menos boa diria que funciona mas só com resolução. 2. entende que um advogado consciencioso seguirá sempre o calvário da interpelação admonitória (808º). pago sinal pequeno e dá-se reforço do sinal. O Prof. É verdade. Quando há sinal é porque as pessoas querem as coisas rápidas e simples. O possuidor pode tornar-se proprietário se passar um lapso de tempo e se a posse tiver determinadas características (usucapião). a troco da entrega da casa. É celebrado contrato-promessa. a doutrina má diria que a resolução só é possível com o incumprimento. a boa doutrina diria que o sinal funciona com a simples mora. A resolução. O contrato-promessa já é um contrato misto. Um contrato de comodato. A menos que. tem a posso em nome alheio: é detentor e não possuidor. não há posse. porque tem uma cláusula daquelas. 3. bem entendido. 45 . Pode ser uma gentileza mais demorada. Se é esse o sentido da cláusula. Será justo pedir o sinal nestes casos? Menezes Cordeiro diz que se se esqueceu não devia. operando o sinal. É um contrato que dá direitos muito precários. Tradição da coisa Tecnicamente. a lei diz que não há lugar a mais nenhuma indemnização. O que é que as partes pretenderam? 1. É uma posse muito elementar. o que deve fazer é resolver o contrato. Sempre que há meios processuais possessórios é porque há posse. Se for possuidor tem defesas possessórias. Havendo mora poder-se-á fazer logo funcionar o sinal? Os autores e a jurisprudência não estão de acordo. no entanto. Se resolve o contrato por incumprimento. A jurisprudência começou por dizer que o traditário não é possuidor – o contratopromessa não é instrumento idóneo para transmitir a posse. quando haja incumprimento. deve ser tomado seriamente. A distinção é importante. O alienante pretendia que o adquirente fosse lá dormir? Isso é uma gentileza. No Direito funciona-se com prazos. quando se fala em “resolução” estejamos a dar-lhe um sentido diferente daquele que lhe dá o Código Civil. Alguns autores dizem que. destrói o contrato retroactivamente. O sinal visa uma função compensatória.Passa-se logo ao incumprimento definitivo. Menezes Leitão diz que pode haver mora por esquecimento ou demora de dias. Menezes Cordeiro fica pouco entusiasmado: não se deve multiplicar os conceitos. Neste momento. Mas nestes casos houve uma convenção de tradição. Assim. Será o traditário possuidor? Nem sempre se é possuidor quando se tem controlo material. consiste em entregar a posse (controlo material) de uma coisa a outra pessoa. MENEZES CORDEIRO entende que havendo simples mora deve funcionar o sinal.

Estamos em Direito das obrigações: aqui é demais afastar autonomia das partes. mas não especificou. Passa até à frente do credor pignoratício. 46 . Quando se trata de acções humanas. o promitente adquirente pode preferir o regime comum – numa situação de deflação. No contratopromessa ela é feita através de sentença que faz as vezes da declaração que está em falta. por maioria de razão também há sinal comum. Os nossos tribunais são muito restritivos na determinação de indemnização. colocando no terreno. o contrato-promessa não foi resolvido (incumprido). Antunes Varela dizia que o 830º era medida revolucionária do CC de 1966. Em 1980 o regime foi alterado. soluções alternativas à indemnização. pelo que há entrega da coisa. Mas há maneira: sanções pecuniárias compulsórias (829º-A). houver sinal. Foi uma ideia prussiana. No contrato-promessa o que está em causa é o definitivo. Para existir tem de haver um sinal comum mais tradição. Alguns autores ficaram furiosos com esta solução. Tornou-se obrigatória a execução específica (desapareceu a “falta de disposição em contrário” do preceituado). Quando estamos perante incumprimento do contrato-promessa.4. Assim. através dos seus meios. dir-se-á que não podemos obrigar. Se houve. nas universidades deve tentar-se aumentá-la. O sinal vinculístico e a excepção do cumprimento da promessa O regime do sinal vinculístico é excepcional. Consoante o tipo de posse. também. é muito difícil determinar a indemnização. Leva ao mesmo. seria impossível apresentar-se a cumprir. que passou para o BGB e daí para a civilística italiana e portuguesa. Assim. Contudo. Mas isso já estava subentendido. Estamos perante um facto. para além da tradição. pode ser mais interessante o sinal em dobro do que o valor da coisa. A interpretação deve ser restritiva: o direito de retenção só funciona se. a maneira de restabelecer a justiça é fazê-lo aparecer. Já está tudo pago. Se há excepção do cumprimento. muda o regime. A ideia de execução específica é ousada: os liberais recusá-la-ão. Aqui temos posse em termos de propriedade. houve incumprimento. O Código Brasileiro diz que o juiz confere carácter definitivo à promessa. já vinha de trás. O interessado pode ainda optar pela execução específica. Se tivesse havido incumprimento definitivo. Se de facto houve perda do interesse. Execução específica Execução específica da promessa: consagração e reformas A execução específica é execução pelo tribunal. o promitente adquirente traditário tem direito de retenção: retém a coisa até que lhe paguem aquilo a que tem direito. O direito de retenção Foi introduzida a figura em 1980: tendo havido tradição da coisa. apenas funciona para assegurar o pagamento do valor da coisa actualizado e não de qualquer outra indemnização. O 442º/3 prevê a “excepção do cumprimento”. O que o legislador queria era negar a possibilidade de afastar a execução específica apenas nos contratos-promessas de prédios urbanos. A solução mais normal é a execução específica.

Se forem necessárias autorizações não será permitida a execução. Simplesmente. Mas só em 1986 se veio clarificar a lei. se tornar impossível o contrato definitivo? Não pode haver execução específica. já que a prestação se tornou impossível. Em 1986 veio considerar – e bem – que a execução específica só não podia ser afastada nos casos dos contratos-promessas do 830º/3. o regime legal aponta em sentido contrário (410º/1). no momento em que é decretada a execução específica. Passou a ser obrigatório haver contrato definitivo. Aí. verdadeiramente. Conquanto que o conteúdo seja determinável. Se o credor tem dúvidas sobre o comportamento por parte do devedor poderá recorrer a ela. A intenção era acudir aos contratos-promessas relativos a prédios urbanos.  A viabilidade jurídica do definitivo O que acontece se. é lógico que se exija a mesma forma para o contrato-promessa. p.  Mora ou não-incumprimento definitivo A execução específica é para a situação de mora. A validade tem de ser aferida também consoante o regime do definitivo. O Direito português permite que o contrato-promessa não tenha a mesma forma que o definitivo. Haverá consequências indemnizatórias. Pode acontecer que A se obrigue a vender a B. E se a promessa for indeterminada? Caberá ainda execução específica? Pode haver. Ou se o contrato definitivo fosse também indeterminado mas determinável no futuro.Houve soluções doutrinárias. A matéria da execução específica foi atingida em 1980 e 1986. mas vende a C. depois do contrato-promessa e antes da execução específica. a mera alienação a terceiro não impossibilitou. O Prof. em 1980 o legislador foi desastrado. contudo. O tribunal não emite. é muito difícil calcular a indemnização. Para haver execução específica o contrato definitivo tem de ser viável. através da conjugação de um contrato-promessa com a execução específica. Pode acontecer que o promitente fiel tenha perdido o interesse no contrato definitivo. Mas nem sempre. Perante a inexecução de uma obrigação pode-se optar pela execução específica. a inflação dos anos 1980 condicionou o esquema do contrato-promessa. Menezes Cordeiro entende que nada impede a execução específica mesmo antes da mora. pode ainda readquirir antes do momento da celebração do definitivo. Não valerá a pena recorrer à execução. fazer aquilo que não se conseguiria com um contrato definitivo inválido. O 830º/1 voltou a ter a redacção original. a declaração faltosa. Simplesmente. Não se deverá exigir forma equivalente à do definitivo? Uma vez que a soma do contrato-promessa com a execução específica equivale ao contrato definitivo. Pressupostos da execução específica  Forma O contrato-promessa tem de ser válido: não é possível. ex. 47 . No contrato-promessa o bem que está em causa é o contrato definitivo. Perante o incumprimento. O legislador tornou vinculativo o esquema da execução específica. as custas ficaram por sua conta. Nos outros a questão não se colocava. Contudo. Os riscos são compensados pela presença do tribunal.

mesmo que houvesse. Aí já faz sentido. ex. A cláusula de sinal ou penal afasta a execução. Concretização da execução específica A alteração das circunstâncias A execução específica não é automática. O comodato pode cessar a qualquer altura. Todavia. Contratos com natureza pessoal Disse-se que num contrato desta natureza não faria sentido: as pessoas não podem ser obrigadas. MC entende que sim. A reforma de 1980 veio admitir que o juiz procedesse à adaptação em face da alteração das circunstâncias. pode acontecer que. Já no penhor ou no mútuo faz sentido. limites Até que ponto pode ser excluída a execução por convenção das partes? A execução não é obrigatória. Contudo. o 830/1 admite a possibilidade. depois. Alguns destes contratos-promessas relativos a contratos reais quoad constitutionem têm por objecto contratos precários (depósito. Igualmente. Em 1980 inclui-se a alteração das circunstâncias. o Código do Trabalho diz que não pode haver execução. sem prejuízo dos efeitos próprios do contrato-promessa com eficácia real. poderia ser revogado. entre o momento da sua celebração e a do definitivo. demissão). Não faria sentido a execução de contrato-promessa de comodato. Não pode haver execução de contrato que não existe. Tem de haver ponderação de interesses. tão pouco. mas como enxertar numa execução específica uma alteração de circunstâncias? A execução só pode ser requerida quando haja mora. se devem considerar excluídos desse regime (830/1. não se iria muito longe (despedimento. não se pode afastar a execução em contratos-promessas relativos a compra e venda de prédios urbanos (830/3). A lei afasta ainda a execução nos contratos-promessas que. Se se trata de uma resolução por impossibilidade superveniente. Mas aí não cabe execução específica. Mas a lei admite mandato irrevogável. Não pode haver obrigações naturais fora dos casos previstos na lei. Como não há entrega da coisa não se poderia proceder à execução. Quando nem sequer há prometibilidade (doação. já não é de todo possível a execução. o que fazer? Poderá funcionar o instituto? Sim. Mas. por sua natureza.Poderá haver execução de contrato-promessa resolvido? Quando há resolução o contrato-promessa destrói-se com efeitos retroactivos. está-se a renunciar antecipadamente a direitos. na doutrina há quem use a expressão “resolução” num sentido diferente: pode querer dizer que se optou pelo sinal. p.) também não pode haver execução. E se houver eficácia real? Há quem diga que não se pode afastar. a sentença tem de decretar a entrega da coisa. É um instrumento que permite alterar obrigação quando se alterem as circunstâncias em que ela nasceu. O contrato real quoad constitutionem é dado como exemplo. Contudo.  A exclusão convencional. comodato). Não faria sentido a execução de um contrato que. No caso do mandato temos um contrato que tem um regime de muito fácil cessação. Quando seja celebrado um contrato-promessa. 48 . Nessa altura. se verifique uma alteração das circunstâncias. No caso do contrato de trabalho. in fine). Se houver situação de inexistência. Mas se se disser apenas que com o incumprimento não acontece nada.

Pode ser celebrado um contrato de compra e venda e o vendedor não regista a venda. a ideia era consagrar no Direito português algo semelhante. E se for o promitente alienante a promover a execução (situação não propriamente visada com a reforma. registo da promessa. O juiz ordena o depósito do preço ao proponente da acção. ficando privada do preço. É necessário um contrato de promessa de alienação ou oneração. O que está em causa é que o dever seja cumprido. A outra parte pode não ter sido paga. Não há promessa com eficácia real se não houver registo. vendendo a terceiro.  Há execução específica. convenção expressa de atribuição de eficácia real. Eficácia real do contrato-promessa (413º) Origem e consagração A figura veio por iniciativa do Prof. não é norma de excepção. outros recusam essa solução. escritura pública. Através da eficácia real conseguir-se-ia. Deixou de se exigir a escritura.Depósito do preço A sentença é translativa. que a foi buscar ao Direito alemão. pedindo ao juiz que ordene o depósito do preço. mas contra o terceiro (Dias Marques). Menezes Cordeiro entende hoje que o registo é constitutivo. Se o preço não for pago há injustiça. Aí o contrato de compra e venda não tem efeito de translação da propriedade. qual a solução? Normalmente. MC diz que o 830 se aplica a todos os casos em que haja dever de contratar. Esta orientação não procede: o negócio jurídico com o terceiro pode ser válido. É possível (830/5) que se recorra a esta figura. Se não for cumprido. O que significa a eficácia real? Há 5 teorias. Ora. já que a conjuntura era de inflação)? Há uma lacuna. O vendedor fica obrigado a transmitir a propriedade. O Prof. Quem notificar primeiro é quem fica com a coisa. Mas como pode ser? Não há contrato-promessa entre o terceiro e o promitente fiel. O promitente faltoso poderá readquirir o bem. Promove logo a transmissão da propriedade. A propriedade transfere-se através da inscrição no registo. alguns entendem que cabe execução específica. reforçando-se o registo. Requisitos Tem de estar em causa um bem imóvel ou móvel sujeito a registo. há várias construções:  É preciso mover execução específica contra o promitente faltoso e contra o terceiro. Vaz Serra.  Menezes Cordeiro diz que é preciso é uma reivindicação contra o terceiro. execução específica.  Menezes Leitão diz que só se resolve com acção ad hoc contra todos. Dias Marques diz que a coisa é que está em causa. Temos um contrato-promessa que tem eficácia real. Se o mandatário sem representação não contratar quando devia. 49 . MC propõe a integração através da bilateralidade da regra. A excepção de não cumprimento permite que uma das partes se recuse a cumprir enquanto a outra não cumpre. Se não for cumprido porque foi alienado o bem a terceiro. Assim. a lei alemã permite um pré-registo.

a renúncia prévia à execução específica mas nunca a impõe. A autonomia dogmática e significativo-ideológica do definitivo A primazia do contrato-promessa não deve. na promessa.A natureza do contrato-promessa A primazia da promessa Perguntar pela natureza do contrato-promessa é colocar o tema das suas relações com o contrato definitivo. a promessa não representaria mais do que uma operação preparatória.  Esse mesmo papel assiste à promessa a qual. de facto. as partes regularem. Será possível tentar um equilíbrio entre ambos os contratos? O prof. em função dele. por vezes. continua a ser um verdadeiro contrato. um acto de execução do que já estaria combinado. Constitutiva faz todo o sentido: está na base do estádio subsequente da regulação entre as partes. a celebração das promessas. no fundo. haverá que lhe aplicar o regime previsto para o contrato prometido. Mas não se trata de uma obrigação genérica: elas adstringem-se a celebrar um determinado contrato. encontram-se duas soluções antagónicas:  A auto-regulamentação das partes surge. Desta primazia dogmática do contrato-promessa. delimitando. com o contrato definitivo. A natureza da execução específica A primeira nota é a da sua facultatividade. Mau grado a primazia reguladora da promessa. uma vez que dela nada sai de preexistente. Justamente por. a contratar. o que esteja em causa. tão-só. Nos extremos. em definitivo. O definitivo nada traz de novo: os dados foram lançados na promessa. a segunda orientação extremista desvaloriza o contrato definitivo. à negação da própria promessa. pois não há nenhum título rigoroso que ela se limite a levar ao terreno. levar ao apagamento do definitivo. em relação ao definitivo. tão-pouco é declarativa. como contrato autónoma. o contrato definitivo não perde em categoria. O contrato definitivo é sentido como um contrato a se. apenas. A lei proíbe. resulta a necessidade de intensificar o princípio da equiparação. ainda que devido e pré-regulamentado. quando firma o princípio da equiparação (410º/1). A primeira opção explicativa leva. Ao celebrar o contrato-promessa. as partes obrigam-se. uma vez concluída. O Direito positivo parece adoptar esse ponto de vista. 50 . no entanto. esgota a liberdade das partes: o definitivo seria. pelo menos em parte. MENEZES CORDEIRO defende o efectivo apagamento do contrato definitivo. De seguida. a execução específica não é puramente executiva.

o pacto de preferência surge nos artigos 414º a 423º. com o qual o negócio fora ajustado. Da mesma forma. Há aqui uma circunstância relevante: a função do pacto de preferência irá depender da geografia global do contrato em que ele se inclua. As preferências no sistema jurídico No Código Civil.  A de pacto de recuperação: alguém aliena uma coisa ou um direito mas quer reservar-se a possibilidade de vir. A favor do fundeiro (1535º). ele será concluído preferencialmente com um dos intervenientes. perdendo a plena disposição do seu bem. Por exemplo: o obrigado. isso explicará porque se usa “pacto” de preferência e não “contrato” de preferência. A favor da pessoa designada em testamento (2235º). tem. em Direito. por χ. Em regra. a recuperá-lo – a preferência convencional será um instrumento útil. pelo preço em causa. caso este queira. Temos uma parte – o preferente – que recebe uma vantagem apreciável. antes. caso queira celebrar um determinado negócio (o contrato preferível). caso queira vender um prédio a alguém. De resto. a sua interpretação e a sua aplicação devem ocorrer a essa luz. O direito de preferência. A favor de proprietários contíguos (1379º/2. enquanto a outra fica obrigada à comunicação para efeitos de preferência. Diz-se. ao preferente. uma de duas opções:  A de contrato preparatório: querendo celebrar um contrato e não tendo ainda acordado sobre o seu conteúdo. essencialmente. A favor do comproprietário (1409º e 1410º).O pacto de preferência Noção O pacto de preferência consiste na convenção pela qual alguém assume a obrigação de dar preferência a outrem na venda de determinada coisa – 414º. pelo artigo 1535º (1901º). o deva fazer com certa pessoa (o beneficiário ou preferente). 1380º e 1381º). A favor do proprietário onerado com uma servidão legal de passagem (1555º). O pacto de preferência tem uma estrutura típica não-sinalagmática. A favor do senhorio (1112º/4). quando convencionalmente estabelecido. deve vendê-lo. 51 . nesse sentido. desde que esta queira acompanhar as condições do negócio em causa (caso prefira) e isso em detrimento do terceiro (o preferido). que há preferência ou que alguém está obrigado a dar preferência quando um sujeito (o obrigado). 1519º e 1523º). A favor do senhorio directo e do enfiteuta (1507º. um dia. as partes podem pactuar uma preferência – a haver contrato. O mesmo prevê os seguintes direitos legais de preferência:          A favor do arrendatário. A favor do co-herdeiro (2130º). o pacto de preferência articula-se como uma cláusula no seio de um contrato mais vasto.

Na segunda. na opinião dominante.Cabe distingui-lo de figuras onde se verifiquem estruturações desse tipo. Na primeira. 52 . Nesses termos:  A preferência obrigacional dá lugar a um simples direito de crédito. nesta última hipótese. é admissível o pacto de preferência mas não a acção de preferência – queda uma indemnização. ora reais. Temos:  A promessa monovinculante (unilateral) – tal como na preferência. tem cabimento recorrer à acção de preferência. Modalidades. a preferência legal advém da lei. a um direito real de aquisição.  A preferência obrigacional dá azo a um direito de crédito. a real. ainda e por elas. Assim:  A preferência convencional provém de um pacto de preferência livremente concluído entre as partes. todavia. a cargo do preferente: o de exigir que o obrigado lhe dê preferência na conclusão de um negócio que venha a acordar com um terceiro. na promessa sabe-se que o contrato definitivo irá ocorrer entre as partes. nos termos do 414º. apenas uma das partes fica obrigada. a preferência legal alinha-se pela teleologia própria das normas que a estabeleçam. uma indemnização.  A venda a retro – uma das partes dispõe do direito potestativo de resolver o contrato (927º). ela traduz o direito potestativo de uma das partes fazer surgir certo contrato definitivo. através de uma acção de preferência (1410º/1). observadas determinadas formalidades. ao preferente. a preferência real faculta-lhe fazer seu o negócio faltoso. consoante a opção das partes e isso desde que. As preferências convencionais são ora obrigacionais. Na preferência o contrato definitivo é uma incógnita. violado o pacto. ao obrigado faltoso.  A opção – figura inominada e atípica. O regime do pacto de preferência Pode-se distinguir entre preferibilidade fraca ou do primeiro grau e preferibilidade forte ou de segundo grau. a preferência real confere. não podendo o preferente fazer seu o negócio. um aproveitamento da coisa que se traduz em poder exigir que um negócio acordado com terceiro seja preferencialmente concluído com ele. As preferências legais são sempre reais: os preceitos que as estabelecem remetem para o artigo 1410º/1. a interpenetração de regimes O universo das preferências é dominado pela contraposição entre as preferências obrigacionais e as reais ou com eficácia real. permite ao preferente exigir.  A preferência obrigacional. sejam. uma vez que a outra emite logo a declaração final. relativo à acção da preferência. Uma segunda contraposição separa as preferências convencionais e legais.  A preferência convencional segue o escopo eleito pelas partes. quando violada.

deve-se lidar com os deveres acessórios. a ver com a concorrência: as condições são as mesmas. os ónus e os encargos envolvidos. à preferência. à conformidade legal e aos demais requisitos atinentes ao objecto (280º). como cláusula num pacto mais vasto. eventualmente. perante o Direito vigente. Propõe-se a aplicação. Tendo conhecimento do pacto de preferência. de acordo com as regras gerais (219º). de liberdade de forma. daí resulta a aplicação. por definição. Os procedimentos da preferência O direito de preferência mostra as suas potencialidades quando o obrigado à preferência obtenha uma proposta firme. por parte de um terceiro. ao pacto de preferência. Ao especial relacionamento que se estabelece entre o preferente e o obrigado à preferência e à particular coloração que. o terceiro deve-se abster de contratar. o facto de se contratar com o terceiro e não com o preferente não tem. das regras aplicáveis à capacidade.Forma O artigo 415º manda aplicar.  Porém. a essa luz. Num pacto de preferência comum. a menos que ambas as partes se vinculem. pretenda contratar com o obrigado à preferência. é afectado de algum modo. desencadeando o funcionamento do pacto. O modus praelationis. O Código Civil não regulou o regime intrínseco do pacto de preferência: o artigo 415º reporta-se à forma.  Tal escrito deverá ser assinado pela parte que se vincula ou por ambas. Todavia. o artigo 410º/2. apenas uma das partes fica vinculada: o obrigado à preferência. em regra. recebem os deveres. a respectiva preferência teria de ser feita por escrito. quer autêntico quer particular. Bastará a assinatura do obrigado à preferência. Bastaria a assinatura deste. E sendo este o caso. de onde promanam deveres para ambas as partes. podendo. Com uma prevenção: numa situação de preferência. próprio do contrato-promessa. 53 . por ele. de forma a prevenir o incumprimento do mesmo? A resposta. a pagar pelo preferente ao obrigado ou a preferência se inclui. o terceiro O pacto de preferência origina uma relação complexa e duradoura entre as partes. do princípio da equiparação. é pouco compaginável uma preferência ad nutum: ou há uma contraprestação (o prémio da preferência). mas faltando uma assinatura? O negócio é nulo. ao pacto de preferência. Pergunta-se se o terceiro que. quando o contrato preferível exija documento. deve ser dada à luz da doutrina geral da eficácia externa. como a de fazer a competente comunicação. porém ser encarada a hipótese da sua redução ou conversão. se o pacto for bivinculante (bilateral). E isso redundaria do seguinte:  O pacto de preferência beneficiaria. chama-se o modo de preferência ou modus praelationis. Ao lado da prestação principal – a de dar preferência – e das prestações secundarias. próprias do contrato preferível.

Pode-se apresentar o seguinte quadro das possíveis atitudes do preferente:  Ou exerce a preferência. a comunicação para preferência deve ser feita a todos. quer particular. de pleno direito. o preferente deve agir perante o artigo 416º/2. Finalmente. A renúncia antecipada não é válida (809º/1). É o que dispõe o artigo 416º/1.  Ou nada faz e o seu direito extingue-se por caducidade. o prazo para a caducidade prevista no 416º/2 começa a correr perante uma comunicação completa e legitimamente feita e endereçada. por opção do beneficiário. A comunicação deve ser feita pelo obrigado à preferência ou por alguém que.  Ou o preferente rejeita. o terceiro ficará com o negócio. perfila-se o contrato definitivo. com poderes bastantes. Havendo vários preferentes. o contrato. por aplicação do 410º/2. uma de duas:  Ou o preferente prefere. ao seu direito. Ficam claros dois requisitos: a proposta de negócio e a intenção do obrigado à preferência de celebrar. se não o fizer. exige-se forma escrita. pelo menos.  Identificando a pessoa do terceiro interessado nessa qualidade  Pedindo uma resposta. A comunicação não está sujeito. não o quer.  Chegando a comunicação ao conhecimento efectivo do preferente. na presença de um projecto de contrato firme e sério. esta deve ser feita ao preferente. já que o terceiro não celebraria tal contrato. modificações ou reticencias. quer autêntico. 54 . a renúncia. por parte do preferente. a nenhuma forma: e assim já se entendeu que podia ser mesmo verbal. com todos os elementos essenciais que relevem para a formação da vontade de preferir ou não preferir. na mesma linha. e estará enganado. A não se verificarem tais requisitos. afinal. o obrigado à preferência deve comunicá-la ao preferente. Tratando-se de uma comunicação relativa a um contrato definitivo para que a lei exija documento. o contrato definitivo Recebida a comunicação para preferência. a comunicação deve ser feita quando exista uma proposta contratual eficaz e enquanto tal eficácia se mantiver ou. A resposta do preferente. com alterações. isto é. envolve. se vem mesmo a concluir na esfera deste.Na posse dessa proposta. por lei expressa.  Ou renuncia à preferência. o contrato visualizado pelo pacto de preferência e que. A “aceitação” da comunicação para preferência. convicto de que. O projecto de negócio existente deve ser comunicado nos seguintes termos:  A proposta com o clausulado completo ou. declarando que não está interessado. Havendo aceitação da comunicação de preferência. ficando o contrato por celebrar. com base nela. o represente. o que significa a aceitação pura e simples do contrato. pelo menos. deixando o negócio para o terceiro que.

sem prejuízo para o interessado. divisível?  E não sendo divisível. dependendo das circunstâncias. Uma venda de coisas em conjunto tanto pode traduzir uma união de contratos como um único contrato relativo a várias coisas: não há. 55 . é excluída da preferência. Pluralidade de preferentes O artigo 419º soluciona as hipóteses de pluralidade de titulares do direito de preferência. o preferente pode exercer o seu direito em relação à coisa. quando se reporte a uma universalidade. Prestação acessória. A sequência será a seguinte: o obrigado à preferência faz a comunicação da venda da coisa conjuntamente com outras. união de contratos e contratos mistos O obrigado à preferência pode.  Ou o afastamento da parte não-fungível quando não seja essencial. o preferente satisfazê-lo? A primeira tanto abrange as uniões de contratos como os contratos mistos. no nosso Direito da compra e venda. pode o obrigado à preferência exigir que a preferência abranja todo o conjunto. Não o sendo. o seguinte:  A prestação deve ser compensada em dinheiro. procede-se à desarticulação e ao exercício da preferência na parcela respectiva. ou não.  A menos que seja “lícito presumir” que a venda seria efectuada mesmo sem a prestação estipulada ou que foi convencionada para afastar a preferência. Existem três possibilidades básicas. no âmbito do negócio que pretenda celebrar com o terceiro. o regime legal é simples: sendo o negócio divisível. pelo preço que proporcionalmente lhe caiba. o contrato será seguramente único.Venda da coisa conjuntamente com outras O artigo 417º/1 prevê a hipótese de venda da coisa juntamente com outras. podem umas e outros ser desagregados. A segunda valoração tem a ver com a fungibilidade do negócio projectado.  Não sendo avaliável em dinheiro. nenhum princípio de especialidade. o que terá que provar.  Ou o afastamento da preferência quando isso não seja possível. pode. As valorações subjacentes ao artigo 417º. que abrem sempre na indivisibilidade dos direitos – ou cada um exerceria a sua parte. ou não. a lei permite:  Ou a conversão da parte não-fungível em dinheiro. Observar-se-á. antes para outras coordenadas:  O contrato (ou a união) que inclua a matéria preferível é. acordar uma prestação acessória que o preferente não possa satisfazer (418º/1. não o sendo. recebida a comunicação. De todo o modo. caso entenda que a separação lhe traz um prejuízo considerável. 1ª parte). então. apontam. O nº2 tem uma precisão muito importante: a regra aplica-se mesmo quando o direito do preferente considerado tenha eficácia real. o preferente desiste ou prefere em conjunto.

a acção de preferência deve ser intentada no prazo de seis meses a contar da data em que o preferente teve conhecimento dos “elementos essenciais da alienação”. A acção de preferência permite ao preferente. moldadas sobre a relação obrigacional de preferência. E na mesma linha: não pode um preferente exercer validamente o seu direito se não mostrar que todos os outros foram avisados e que não quiseram ou ao puderam preferir. com o preferente. os restantes: não havendo processo de escolha. a preferência produz efeitos perante os terceiros adquirentes da coisa em jogo. em termos de aquisição. ao preço e à identidade do requerente. feito no artigo 410º/2. A prestação principal é. abre-se licitação.  Concluir o contrato em causa. A preferência real implica uma afectação de uma coisa corpórea real. esta última: trata-se de um facere jurídico.  Comunicar ao preferente o projecto de contrato a que chegue com um terceiro. a todos os preferentes.  Preferências disjuntas – só um deles pode exercer o direito. Havendo eficácia real. afastando. A preferência com eficácia real O artigo 421º/1 permite os pactos de preferência com eficácia real. só depois se abrindo o processo de escolha entre eles. fazer seu o negócio faltoso. Verificados os pressupostos. Preferências conjuntas – só podem ser exercidas por todos os preferentes. 56 . Entre o seu titular e o proprietário da coisa onerada estabelecem-se as relações jurídicas (reais). em bloco e o obrigado só perante todos eles se exonera (419º/1. Segundo o artigo 1410º/1. 1ª parte). isto é: afastar o terceiro adquirente e ingressar na posição dele.  Preferências sucessivas – existe uma ordem de prevalência entre os preferentes. A natureza da preferência Na preferência obrigacional existe uma relação complexa que se estabelece entre o preferente e o obrigado a dar preferência e nos termos da qual este deve:  Abster-se de contratar com terceiros. Não basta o conhecimento genérico de que houve uma transmissão: o preferente tem de ter acesso ao objecto do contrato. através de uma acção a tanto destinada: a acção de preferência. com isso. revertendo o excesso para o obrigado (419º/2). sempre. o preferente recebe o direito potestativo de preferir: tal direito potestativo é o passo final de um procedimento complexo que compõe o conteúdo da preferência. É esse o sentido da remissão para o artigo 1410º. seguramente. sem seguir o procedimento da preferência. desde que este as acompanhe. nas condições fixadas. em caso de violação de uma preferência real. Em termos de comunicação: ela deve ser feita.

perante o concreto contrato definitivo em causa. um verdadeiro contrato-promessa. 57 . mediante uma simples declaração de vontade dirigida à outra parte (o vinculado ou o adstrito à opção). ora. só será válida e eficaz se. fazer surgir um contrato combinado entre ambas: o contrato definitivo. só deverá ter lugar se uma das partes quiser.  Com o contrato-promessa monovinculante (unilateral) – há. do definitivo. Logo. provocar o aparecimento do contrato definitivo. no cumprimento.  Quanto à forma aplica-se a forma do definitivo. aqui. Aplicam-se aqui. esta não depende da intervenção da parte vinculada. Direito e deveres. directamente ou por analogia. na execução. Haverá que aplicar. declarações de ambas as partes. A opção. na conclusão. que exigirá. isto é: a susceptibilidade que os contratos tenham de poder ser objecto de pactos de opção.  Quanto à execução. todavia. a opção cessa. por analogia. ele recebe o direito potestativo de. da posição de contratante e do valor que ela representa. execução e incumprimento No que toca ao optante.O pacto de opção Aspectos gerais e regime da opção O pacto de opção é o contrato pelo qual uma das partes (o beneficiário. o artigo 411º: o vinculado pede. por mera declaração unilateral. na opção. por uma simples manifestação da sua vontade. a celebração. o qual. ela reunir os diversos requisitos prefigurados no mesmo. Regime O regime do pacto de opção é enformado pelo princípio da equiparação: ele segue o regime do contrato definitivo. Não é possível a opção relativamente aos contratos que excluam a execução específica ou que exijam. ao tribunal. operações que transcendam a mera declaração unilateral do optante. A opção não se confunde:  Com o contrato-promessa – este exige. por ambas as partes. A optabilidade e o preço da opção À imagem da promessa. pode-se introduzir o conceito de “optabilidade”. as regras sobre a prometibilidade em sentido forte: o que não é prometível não é opcionável. A opção tem uma especialidade: visa justamente promover a circulação no mercado. que fixe um prazo razoável para o seu exercício. tendentes à conformação do contrato definitivo. na opção basta a declaração do beneficiário. excepto no que tanja ao cumprimento deste. passando a integrar o definitivo. o titular ou o optante) recebe o direito de.  Quanto aos pressupostos funcionam o do definitivo. dá azo ao contrato definitivo. embora uma das partes tenha o poder unilateral de fazer surgir o definitivo.

no memento escolhido. Ambas as partes ficam . O optante irá exercer (ou não) o seu direito conforme a mais-valia que lhe confira o aparecimento. Funções. a prometibilidade a terceiro Celebrado um contrato a favor de terceiros. do definitivo. quando se trate de opção relativa à compra e venda (879º). surgem duas relações jurídicas: uma relação básica ou de cobertura entre o promitente e o promissário. ele fica inserido numa teia de deveres acessórios (762º/2) que. O adstrito à opção fica imerso numa situação de sujeição. a sua opção. o obrigam a não complicar a posição do adstrito à opção. O contrato a favor de terceiro Noção Pelo contrato a favor de terceiro. perante a outra (promissário). directamente. a parte compradora deverá pagar o preço e a vendedora entregar a coisa. A execução do pacto centra-se na comunicação de opção: uma declaração recipienda (224º). por via dos artigo 295º e 221º/2. com relevo para o pagamento do preço da opção. o pacto de opção dá corpo a uma relação obrigacional complexa sem prestações principais: esta são substituídas pela dupla direito potestativo/sujeição. entre outros aspectos. surge o contrato definitivo. O risco desaparece. dando-a em garantia ou alienando-a. de modo a não comprometer a integridade da posição da contraparte. dirigida pelo optante ao adstrito com um conteúdo simples de exercício do direito: opto. o qual deve ser cumprido. que exercerá o seu direito se o entender. por analogia. a cargo.O optante deve satisfazer clausulas acessórias a que esteja sujeito. A figura do contrato a favor de terceiro entra em conflito com o princípio da relatividade das obrigações: manda a lógica que os contratos apenas produzam efeitos entre as próprias partes. O obrigado. a qual adquire um direito à prestação. por seu turno. designadamente para a parte optante. do optante e do adstrito. envolvidas na teia das prestações secundárias e dos deveres acessórios. Actuada a opção. uma obrigação de prestar a uma pessoa estranha ao negócio (o terceiro). Dogmática geral: relações básicas e de atribuição. o artigo 762º/2 e.todavia. No plano do seu conteúdo. e uma relação de atribuição entre o promitente e o terceiro. natureza e aplicações Celebrando uma opção. uma das partes (o promitente) assume. há que lhe aplicar. as partes congelam as condições da venda. no mercado. respectivamente. 58 . partes no contrato. O pacto de opção permite ao optante adiar o negócio definitivo enquanto se coloca em posição financeira de o cumprir. Qual a forma dessa declaração? a regra será a seguinte: a declaração de opção deve seguir a forma legalmente prescrita para o contrato definitivo a que se reporte. Ainda o mesmo optante pode colocar. o artigo 272º: na pendência da opção. Como princípio geral. ele deve agir segundo os ditames da boa fé. pode facturar o premio da opção. antecipando o preço que irá obter com a venda da coisa. Assim.

porventura. do promitente.  A de dispõe do direito à prestação ao terceiro ou de autorizar a sua modificação (446º/1. Regime A posição do promissário O promissário é a pessoa perante a qual o promitente assume a obrigação de prestar ao terceiro. o dever de prestar ao terceiro beneficiário: ele assume. 1ª parte). ao promitente.  A de exigir. devam ser trocadas entre os mesmos. fundamentalmente. As prestações que. Esta figura levante dúvidas pois o terceiro não é parte. se outra não tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). O terceiro adquire o direito à prestação. porventura. especificamente. Tal permite excluir. O que se pode “prometer” a uma parte pode prometer-se a favor de terceiro: apenas isso.A relação básica estabelece:     As posições relativas do promitente e do promissário. O promitente fica adstrito à realização da prestação principal. Essa adstrição pode-lhe ser exigida pelo próprio terceiro (444º/1) e pelo promissário. imediatamente.  Quaisquer condicionalismos que a rodeiem. independentemente de ter dado o seu acordo (444º/1). nessa altura. A posição do promitente. quando esse seja o conteúdo da promessa. 59 . a obrigação de efectuar a correspondente prestação (443º/1).  A de exigir. excepto se outra tiver sido a vontade dos contraentes (444º/2). de forma geral. pelo contrato a seu favor. O promissário tem as pretensões seguintes:  A de exigir. as prestações ou outras vantagens que. contratos como o casamento ou a doação. O regime concreto de tais prestações. a exoneração do promissário de uma dívida perante o terceiro. apenas o promissário poderá exigir o cumprimento da promessa. A relação de atribuição fixa:  O direito do terceiro à prestação. a prestação principal O promitente tem. do promitente. A posição do terceiro O terceiro adquire. perante o terceiro. a efectivação da promessa ao terceiro. o direito à prestação: independentemente da aceitação. deste cerne. a contrario e 448º/1. por exigência deste e do promissário. A prestação que o promitente deva fazer ao terceiro. pelo contrário. lhe possam advir da relação básica (405º).

ficando em inferioridade no momento do cumprimento. antes dela. por não ser o destinatário da prestação acordada. de lealdade e de informação. Electio ou electio amici: a escolha. o beneficiário pode rejeitar ou aderir à promessa (447º/1) ou. Eligendus: o terceiro. O contrato para pessoa a nomear Configuração geral Contrato para pessoa a nomear é aquele cujos termos permitem que uma das partes tenha o direito de designar um terceiro que encabece os direitos e as obrigações dele derivados. O terceiro adquire o direito à prestação independentemente de “aceitação” (444º/1) e. ao abrigo das regras gerais (217º). de maneira que seja retirado um máximo de eficácia do negócio acordado. através da regra da boa fé (762º/2). o contrato é concluído entre duas partes: uma dela pode. O papel dos deveres acessórios Num contrato a favor de terceiro. porém. Electus ou amicus electus: o terceiro nomeado que passa a parte definitiva. instável. não sendo parte do contrato.  O terceiro. a contrario e fortiori). logo. quando se desempenhe perante o terceiro. indicar um terceiro que irá ocupar o seu lugar. pode-se apontar várias fragilidades:  O promitente. 60 . falsificar a conduta a que se encontra adstrito. nada fazer. não tem. no limite. Desde modo. Esta apenas consolida um contrato que. pode desinteressar-se dela ou.Perante um contrato a favor de terceiro. Pode-se. há um equilíbrio especial: exigido pelo facto de o beneficiário não ser parte no contrato. de adesão. pode ser menos diligente ou até. Stipulans ou estipulante: a parte que pode nomear um terceiro. pelo menos: pode não dispor dos elementos necessários para se assegurar da sua integridade. por não ter sido celebrado com o terceiro é. A adesão tem as consequências seguintes:  Torna a promessa irrevogável (448º/1.  O promissário. Amicus: o terceiro. admitir que as competentes “declarações” ocorram tacitamente e. ainda. A rejeição extingue o direito do terceiro à prestação. a fiscalização da contraparte. Na linguagem desde subsector. desconhece os precisos termos envolvidos. a contrario). As duas partes e o próprio terceiro ficam envolvidos em deveres de segurança. usa-se a seguinte terminologia:       Promitens ou promitente: a parte firme.  Torna a promessa firme (446º/1. A fraqueza estrutural do contrato a favor de terceiro deve ser ultrapassada através de uma adequada teia de deveres acessórios. em especial: pela rejeição ou pela aceitação da própria prestação. sobre si. Num primeiro tempo. antes de ter ocorrido a sua nomeação.

Nem todos os contratos têm semelhante cláusula – o artigo 425º/2 exclui:  Os casos em que não é admitida a representação. no prazo convencionado ou dentro dos cinco dias posteriores à conclusão do contrato. pois. inicia-se um procedimento que poderá culminar na colocação do amicus na posição de stipulans. A determinação dos contraentes obedece a vários critérios.Regime. Concluído o contrato para pessoa a nomear. essas figuras foram precisadas e autonomizadas noutras tantas fontes. Engendra-se a seguinte sequência: conclusão do contrato. eficácia retroactiva. altura em que o contrato ficará sem efeito. a electio com os seus requisitos e as alternativas: ou o amicus electus. quando superior (454º/2). A ratificação deve constar de documento escrito (454º/1) ou de documento de força probatório equivalente à do contrato. Embora a lei não o diga. efeitos e natureza A cláusula para a pessoa a nomear consta. Ele implica. A electio tem. 61 . ao outro contraente. dele se aproximavam. Como tratá-las? Com o tempo. seja em termos técnicos. a cláusula “pessoa a nomear”. em princípio. Se a declaração de nomeação não for feita nos termos legais. O contrato para pessoa a nomear configura-se como categoria contratual típica e autónoma. produz efeitos em relação ao contraente originário. do próprio contrato que a contenha. foram surgindo figuras que. o negócio consolida-se na esfera do stipulans. ou o stipulans ou a ineficácia do conjunto. Só assim não sucederá se houver estipulação em contrário (455º/2). a pessoa nomeada adquire os direitos e assume as obrigações provenientes do contrato concluído a partir da celebração (455º/1). Podem-se apontar:  Negócios intuitu personae em que as qualidades pessoais da contraparte são essenciais para os mesmos. a concordância do amicus é necessária pelas regras gerais do Direito privado e pelo artigo 453º/2 (ninguém poderá encabeçar um contrato que não queira). concordância do amicus e electio.  Negócios em que os valores subjacentes impliquem a imediata indicação do contraente em jogo. tal como sucede com a ratificação (262º/2). num todo coerente. As fontes paracontratuais Ao longo da História. Feita regularmente e comunicada a designação. não reunindo as características perfeitas do contrato.  Aqueles em que a determinação dos contraentes é indispensável. seja em moldes sócio culturais. Quanto à designação ou electio: ela deverá ser feita por escrito. que manda a nomeação seja acompanhada do instrumento de ratificação do contrato ou de procuração anterior à celebração do próprio contrato: ambas exigem a concordância em causa.

o contrato. execução de relações duradouras. sem integrar previsões contratuais. A ideia básica desta doutrina repousa no seguinte: seria possível a constituição de relações jurídicas de tipo contratual.  Situações de relações jurídicas complexas. seja nos preliminares. A culpa in contrahendo Aquando da preparação de um eventual contrato. tivesse ocorrido qualquer contrato. quando os instrumentos negociais constitutivos sejam nulos ou ineficazes e na de serviços de necessidade vital.  Os contratos com protecção de terceiros. seja na formação.  As relações contratuais sem contrato. no tráfego moderno de massas.É proposto o termo “fontes paracontratuais” e “paracontratualidade” para designar a constituição de obrigações através de formas que não podem. Existem dois círculos de protecção:  O círculo exterior ao concreto contrato em jogo e que respeita à integridade física e psíquica e à integridade patrimonial das pessoas envolvidas. esta relação fundir-se-ia nele. pelo menos. com ele. Este instituto obriga as partes a acatar deveres de segurança. para certos fins. As relações contratuais de facto Em termos dogmáticos. mantenham uma proximidade suficiente para que se lhe aplique. através de meros comportamentos materiais. a manifestação mais imediata de uma possível paracontratualidade residiria na obtenção de relações de tipo contratual sem que. na sua origem. a situações obrigacionais sem que tenha havido a troca prévia da proposta e aceitação contratuais. no espaço jurídico.  Situações de proximidade contratual. postos à disposição dos utentes ainda antes de concluído o competente contrato. derivada do facto simples de um contacto social. em termos rigorosos. Relações paracontratuais em especial 1. depois. Surgindo. isolam-se:  As relações contratuais de facto. As relações contratuais de facto poderse-iam formar em três situações:  Contactos sociais que se estabelecem entre pessoas que colaboram. de lealdade e de informação. Teria de se admitir uma relação de tipo contratual.  Inserção em organizações comunitárias. 62 . Sublinha-se que. independentemente de declarações negociais e sem correspondência nos deveres legais tradicionais. as partes devem proceder segundo as regras da boa fé (227º/1). muitas vezes. Procurando acompanhar estes três grandes grupos apontados. chega-se. ser reconduzidas ao contrato mas que. uma parte razoável do seu regime. Os três grandes grupos de casos problemáticos que merecem o epíteto “paracontratuais” são:  Situações de contacto social.

e existe. o Direito manda proteger. não seja parte. A relação pré-contratual resulta do mero início das negociações. Também está claro e assente que. Com as devidas adaptações. no caso de violação. nele. que se reporta aos bens postos em jogo. no contrato considerado. pelas partes. O círculo interior. lançar mão de pretensões contratuais contra as partes no contrato. Em termos analíticos. surge uma situação valorativamente semelhante à que ocorre. Surge uma impossibilidade superveniente. tenha uma proximidade visível. no sentido de facto jurídico que desencadeia o surgimento da relação pré-contratual. ainda que insubsistente. 3. Havendo proximidade. O contrato é resolvido. que respeita à integridade pessoal e patrimonial das pessoas envolvidas e que. Insubsistência do contrato Um segundo campo da paracontratualidade manifesta-se quando. Várias situações são configuráveis:      O contrato é nulo. Com uma consequência aparentemente impensável: a de estes poderem. Protecção de terceiros A protecção de terceiros surge quando um contrato. o círculo interior. independentemente de qualquer especial vontade. que veicula os valores fundamentais do sistema. perante a prestação principal e em face do credor. Em termos gerais. as partes colocam-se numa situação de proximidade que faz surgir a tutela. pode-se considerar que a protecção de terceiros surge quando. nas protecções dispensadas.  O terceiro tenha uma confiança legítima no bom desenrolar dessa prestação. revogado ou denunciado. Há impossibilidade inicial da prestação. De novo há um círculo exterior. A “fonte”. a situação é similar à da culpa in contrahendo: mercê de uma aparência contratual ou do simples facto de se ter configurado um contrato. por estar vulnerabilizada. para além de dispensar prestações principais a quem neles seja parte. ainda. de lealdade e de informação) não apenas para as próprias partes mas. para terceiros. é o proprio facto (stricto sensu) “negociações” ou “contactos negociais”. mercê dos contratos preliminares. igualmente. promane deveres acessórios (de segurança. por qualquer razão. as situações apontadas correspondem a relações obrigacionais sem dever de prestar principal. relativo aos bens que a exposição contratual torna mais frágeis: também eles tutelados. falte ou venha a faltar o dever de prestar principal. 63 . em face de um contrato:  Alguém que. 2. se jogam os princípios da tutela da confiança e da primazia da materialidade subjacente: ambas concretizações da boa fé. O contrato é anulado. Elas subsistem na base de deveres acessórios apoiados na boa fé.

perante eles. São os deveres pós-eficazes. admitir uma livre adstringibilidade unilateral equivale a uma assunção. ad nutum. de tal modo que a própria doação teria natureza contratual. dando origem. Culpa post pactum finitum Verifica-se uma projecção simétrica da culpa in contrahendo: depois de extinta a relação obrigacional e tendo.Tecnicamente. “negócio” engloba. a responsabilidade obrigacional. Antes de fundam na lei. de lealdade e de informação. com facilidade. Uma verdadeira tipicidade implica:  Uma descrição pormenorizada dos tipos relevantes. 5. e só o contrato pode singrar porque são necessárias duas declarações de vontade. tais deveres não têm origem contratual.  Os perigos da adstrição ad nutum. aparentemente. como um simples facto stricto sensu. 64 . O segundo argumento surge mais consistente: há que ter um especial cuidado com o tema da renúncia antecipada aos direitos: mostram a realidade de que as pessoas dão. o proprio acto unilateral (457º-463º). quando violados. Respondência pela confiança Os deveres originados pela confiança apoiam-se. Os negócios unilaterais A tipicidade histórica Na linguagem consagrada. aqui. o terceiro vem a ser envolvido pelos deveres acessórios dimanados do contrato: de segurança. No que se lhe reporta. em termos jurídico-positivos. ser globalmente denominado culpa post factum finitum. uma regra de tipicidade. aplicar.  Um numerus clausus de realidades relevantes. fora de série. as normas típicas. operando o contrato. o Código Civil veio aceitar uma tal variedade de conteúdos para os negócios unilaterais (maxime. fique adstrito a realizar uma prestação. cessado o contrato. O artigo 457º proclama. obrigações que (só) irão pensar depois. mas noutros locais. As obrigações só surgiriam com a aceitação de uma proposta. por sua livre e exclusiva vontade. a proposta contratual) que tal tipicidade resultaria aparente. O negócio unilateral implica que alguém. com ligeireza. por analogia. de obrigações futuras. uma vez que ele não é partes. que explique os deveres resultantes. De facto. para as partes. diz-se negócio unilateral a fonte das obrigações que se traduz numa única manifestação de vontade. nesse sentido nuclear. o inerente instituto. ainda se poderiam manter determinados deveres. o que (ainda) não têm e subscreverem. Há uma petição de princípios: o negócio unilateral não singra porque não é um contrato. no sistema e na boa fé mas colocam situações problemáticas que em nenhuma delas se pode apontar um contrato firme e claro. Há duas grandes razões para propugnar a tipicidade dos negócios unilaterais:  O princípio do contrato. Em rigor. 4. podendo. Mas têm moldagem contratual.  A proibição de.

importa aludir que eles estão na base de relações obrigacionais complexas. de que. igualmente por via da boa fé. a afirmação. De contratos com apenas uma assinatura. a primazia da materialidade subjacente que. devidas. um negócio unilateral: só que com uma mera eficácia declarativa. até prova em contrário (pelo devedor). no Direito português. Negócios unilaterais em especial 1. passando pela tradição de uma coisa. A regra não origina nenhuma obrigação nova. proclamada no artigo 457º. sobretudo quando interessados. distingue-se de algumas figuras próximas ou afins. quanto à existência de adequada fonte das mesmas. nem se perceberia o regime e o alcance da realidade em jogo. configurações lassas às quais seja possível reconduzir numerosos subtipos. deve sublinhar-se. ainda. 65 . No que tange ao autor do acto. limitada à inversão do ónus da prova. pois. por força de qualquer outra fonte. pelo princípio da causalidade. a tipicidade dos negócios unilaterais. deve imperar. de resto. comum ou pecuniária (“reconhecer uma dívida). Em bom rigor. Do testamento. ainda. é aparente.  Fonte essa cuja existência se presume. podem ser envolvidos pelos deveres acessórios em jogo. pode-se admitir tipos abertos. Do anúncio público (225º). a sua declaração poderá originar no espaço sócio-jurídico. também aqui. que qualquer obrigação só vale se for acompanhada pela sua fonte. pela incorporação própria da acessão ou pela edificação. Promessa de cumprimento e reconhecimento de dívida Sabe-se. isto é. já antiga. com a promessa pública como modelo. fica o credor dispensado de a exibir. O único papel do preceito é:  Dispensar o beneficiário de indicar a verdadeira fonte da obrigação em jogo. sem indicação da sua fonte. A nossa jurisprudência tem entendido que a promessa de pagamento e o reconhecimento de dívida são “negócios causais”: apenas invertem o ónus da prova. existe aqui. A tipicidade dos actos unilaterais dirige-se àqueles que impliquem prestações principais. Da oferta ao público (230º/3).Mantém-se. No âmbito da dogmatização geral dos negócios unilaterais. Deve-se ter também em conta os terceiros que. a assim não ser e dado que a obrigação é um vínculo sem existência física. Assim:      Da proposta de contrato. dos numerosos actos unilaterais que ocorrem no âmbito dos Direitos Reais: desde o apossamento ao abandono. Os negócios unilaterais distinguem-se. Diz o artigo 458º/1: havendo uma declaração unilateral de existência de uma dívida. Dogmática geral O negócio unilateral. anteriormente. para além da concreta eficácia suscitada. Ele limita-se a permitir que se prometa uma “prestação”. cabe salientar a confiança que. numa segunda vertente. Quanto muito.

aqui. o beneficiário adquire imediatamente o direito à prestação. o concurso ficaria indefinidamente aberto. relativo a concursos púbicos. que torne a promessa inexigível. às pessoas designadas no anúncio (o “júri) ou. exclusivamente. atendendo-se à parte que cada uma delas tenha tido na produção do resultado (462º). na sua falta. antes dele. ao promitente (463º/2): trata-se de uma decisão livre. o destinatário apenas adquire o direito potestativo de. por justa causa (461º/1. 3. A lei fixa regras muito simples:  A oferta da prestação pelo concurso só é válida se fixar um prazo para a apresentação dos concorrentes (463º/1): de outra forma. naquela. seja revogada. um motivo atendível. pela aceitação. Até que. in fine). objectiva ou subjectivamente. só nessa altura se constituindo. surgindo alguém nas condições nela previstas. não tendo prazo. deriva. ele extinga. A justa causa será. perante os valores fundamentais do sistema (a boa fé). constituir o contrato. A situação distingue-se. O público. apenas. da indeterminação do destinatário. Segundo o nº 1 dessa norma: “aquele que. por anúncio público. Promessa pública O artigo 459º ocupa-se da promessa pública. tendo prazo. Concurso público O artigo 463º. Feita a promessa. acontecer que várias pessoas hajam colaborado na promessa do resultado previsto no concurso: a prestação deverá ser equitativamente repartida. pode. aqui. ainda. pelo cumprimento. o promitente fica obrigado:  Até que. o promitente adstrito à sua efectivação. propriamente obrigado. seja revogada (461º/1). constitui uma especial modalidade de promessa pública. a sua obrigação. prometer uma prestação a quem se encontre em determinada situação ou pratique certo facto positivo ou negativo. da oferta ao público (230º/3): nesta. 66 . a título de prémio.     Até que expire o prazo nela fixado (460º). Como particularidade: a atribuição da prestação opera a favor de quem vença um concurso. muito claramente. ficando. desde logo. Até que a sua natureza ou o sem fim ditem a sua extinção (460º). Até que.  A decisão de admissão ao concurso ou de concessão de prémio compete. podendo surgir mais concorrentes sem nada se decidir.2. fica vinculado desde logo à promessa”.

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