Você está na página 1de 111

tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

Aqul81çio OrIgem SollcjtarH~ I)',~;';
Pro("

.!

li.

,,

Data it O~ I üJ.
I

I

N,o

d•.... hamad. ,
)

DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

9
13

25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

93
135

6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

157
175 201 219

Nos últimos anos. têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita.e. que eram dados como certos. o tema é. As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes. Ou. o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. em primeiro lugar. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. na ftlosofia e na ciência . o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro. em segundo. antes. . não são inteiramente inerentes à existência humana como tal. por definição. O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. estão intimamente familiarizados com a cultura escrita.estranha e por vezes extravagante para nós .

silabário japonês. que leva a escrita a um novo patamar. é claro. no Sudeste Asiático ou na Coréia). que se apóia tanto na escrita como na impressão. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento. Isso requer conhecimento amplo . contudo. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. mas. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. mas também a cultura impressa. estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. Não há "escola" de oralidade e cultura escrita. ela também envolve a impressão. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. o esclarecimento não ocorre facilmente. econômicas. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. Portanto. ou algo equivalente ao formalismo. religiosas entre outras. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos". em questões relevantes. Nós . do rádio e da televisão. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. em um estágio posterior. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. a oralidade dos telefones. em vez disso. O Roma sapiens existe há cerca de 30. embora também seja dada alguma atenção. passado e presente. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. elas também envolvem nossos próprios preconceitos.000-50. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita. depois. como na Índia. escritas) que coexistem num dado período. cuja existência depende da escrita e da impressão. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história. As questões não são apenas profundas e complexas. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral.leitores de livros como este . caracteres chineses. Porém. Universidade de Saint Louis .000 anos.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. e a cultura eletrônica.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. Nesse quadro diacrônico.000 anos atrás.vasto mesmo -. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes.o. e inicialmente apenas em certos grupos. em todas as ciências humanas e sociais. salvo como uma variante de um universo letrado. reflexão árdua e afirmações cautelosas. Wj. Estas. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. à nova crítica. políticas. pela comparação entre períodos sucessivos. como o rad~o e a televisão via satélite.

1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas... C. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral. isto é. o pai da lingüística moderna. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais.) utilidade. p. Antropólogos. surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. Desde Saussure. possui ao mesmo tempo "C . e não como transformadora da verbalização (ibidem). que sustenta toda comunicação verbal. a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. 33). observou. Ferdinand de Saussure 0857-1913). o modo como a linguagem está enraizada no . sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. assim como para a tendência predominante. chamara a atenção para a primazia do discurso oral.) defeitos e perigos" 0975. a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. até mesmo entre estudiosos. A escrita.

Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio.talvez dezenas de milhares .assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. se tanto. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). McLuhan (962). assemelham-se às línguas humanas (inglês. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. na maioria das vezes.faladas no curso da história humana. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. Todavia. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. Chaytor. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. Por mais rica que seja a linguagem gestual. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. pp. No entanto. McLuhan 1962. A oralidade básica da linguagem é constante. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) . num sentido profundo. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. paladar. fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita.1-9). Stokoe 1972). a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. a linguagem. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras. pp. já muito antes (945). por exemplo). Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. Ong 0958b. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry. olfato e especialmente visão. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. Havelock 1963. que. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). Não apenas a comunicação. as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. Porém. . Na realidade. Haugen (966). em certos aspectos.concluído por Albert B. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . tem importância capital. Ainda hoje. 332). o som articulado. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz. descritiva ou cultural. de todas as milhares de línguas . Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. abordaram os modos como a oralidade primária. eles têm uma linguagem.). Okpewho 1979 etc. Um contemporâneo de Saussure. mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. mas nos estudos literários. meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Contudo. Mallery 1972. 323. se essa afirmação é verdadeira. Lord 1960. 1967b).a gestual. assim como audição (Ong 1967b. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. no mundo sonoro (Siertsema 1955). Chafe (982).que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. Onde quer que existam seres humanos. por enquanto. Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983.som. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária. perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. Não existem. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita. Havelock e outros. Lord depois da morte prematura de Parry . fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. recentemente. O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. bibliografia). mas.e a maioria jamais foi escrita. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. O livro de Jack Goody.

entre os antigos gregos. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. seus perigos. shoshone etc. pp. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. hábitat natural da linguagem. ver também Champagne 1977-1978). e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. muito tempo antes do surgimento da escrita. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. No grego original. O estudo da linguagem. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. A escrita. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. em voz alta ou na imaginação. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. Eles aprendem pela prática .). uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. apesar das raízes orais de toda verbalização.caçando com caçadores experientes. nesse processo. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. mandarim. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. reestrutura o pensamento e. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. 21. Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. aprendem ouvindo. mas nunca a escrita sem a oralidade. Quando o estudo. malaio. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras. comum a culturas de alta tecnologia. no sentido estrito de análise seqüencial ampla. rejeitou a oralidade. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida.e na maioria das vezes existiu . participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. Todos os textos escritos devem. para comunicar seus significados. a linguagem falada. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. assimilando outros materiais formulares. não afetadas por qualquer tipo de escrita. desde os mais antigos estágios da consciência. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. 48-61. Hirsh 1977. pp. a espacialização da palavra. acerca de seus poderes. Mas o exame abstratamente seqüencial. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . No Ocidente. Os seres humanos. mas também centenas de milhares de significados passados. 1-7). Nos quatro cantos do mundo. a palavra falada ainda subsiste e vive. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". dependente de um sistema primário anterior. quando muito. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. Todo pensamento. nas culturas orais primárias. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. a palavra techne rhetorike. o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. sua beleza. os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral. durante séculos e até épocas muito recentes.sem qualquer escrita. mina. que constitui um tipo de aprendizado. A expressão oral pode existir . de algum modo. inclusive nas culturas orais primárias. aprendem muito. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. a não ser nas últimas décadas. por exemplo -. porém não "estudam". pp. se torna possível com a interiorização da escrita. repetindo o que ouvem. das quais se conhecem não apenas os significados presentes.sânscrito. Porém. possuem e praticam uma grande sabedoria. pelo tirocínio. mas diretamente da consciência. amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. 43-48). No entanto.

muitas culturas e subculturas. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. Rhetorike~ ou retórica. • . como as histórias orais tradicionais. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. de litera. desde o início. pp. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. simplesmente textos. 27-28). pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas. Proferido o discurso.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. muito embora. Ong 1971. como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. adotaram essas suposições. referente a uma herança puramente oral. permaneceu. no sentido restrito. pp. Goldin 1973. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . sem referência. designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. Acresce que. Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. pelo rádio. Desde a metade do século XVI. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. Atualmente. Cormier 1974. destinadas à recepção direta da superfície grafada. até mesmo o da escrita (Ong 1967b. vezes passaram a presumir. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . com freqüência irrefletidamente. passim). Desse modo. Desse modo. um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io.da arte oral como tal. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). a escrita acabava produzindo composições somente escritas. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. no fundo. os discursos . Nem todos. Porém. contudo. praticamente como o paradigma de todo discurso. literatura infantil -. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. a escrita. na Arte retórica de Aristóteles -. à escrita. mas como textos escritos. Como observado anteriormente. Porém.falar. não levou a oralidade a um encolhimento.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). mas consagrou-a. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. como "arte" ou ciência refletida. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. ou outras produções orais. os estudiosos muitas . na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. as preces. para todos os efeitos. o que durante séculos. em diferentes graus. Possuímos o termo "literatura".literatura inglesa. até mesmo num meio de alta tecnologia. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. os provérbios.Ong 1967b. 56-58). as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. e que as formas artísticas orais eram. consciente ou inconsciente. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. Criou-se a impressão de que. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. Ahern 1982). pp. uma vez que todas as culturas C . o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. Bauml1980.para não dizer menos desfavorável . praticamente não existe.por exemplo. 58-63. a cultura oral primária. Contudo. organizada . É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia. letra do alfabeto).

Estamos. de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. mas de "automóvel". Conseqüentemente . mesmo quando nada têm a ver com ela. tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. "escrita oral". mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. a começar assim. e assim por diante. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). Uma pessoa pertencente à cultura escrita. digamos. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. como ocorre na tradição oral. Porém. É claro que se pode tentar fazer isso. mas tão somente ao som. sem causar uma distorção desastrosa. exceto como alguma variante da escrita. mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". Em vez de rodas. até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. olhos. em vez de gasolina como fonte de energia. Ele discorrerá sobre cavalos. No fim. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo.subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. quando usado inadvertidamente também causa problemas . a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual.embora com uma freqüência menor hoje -. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. feno. que nunca viram um cavalo. ao menos vaga. Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. em vez de uma cobertura de tinta. Não é possível. Na verdade. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. algo chamado pêlo. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. quando instada a pensar na palavra "contudo". todos os pontos em que diferem. terá alguma imagem. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais.e provavelmente sempre . embora destinado originalmente a obras escritas. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. explicando a leitores altamente motorizados. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita. talvez de forma obscura.como veremos detalhada mente mais adiante . 16) que o termo "literatura". Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. além disso . sem se reportar a alguma inscrição. Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça.pondo o carro na frente dos bois -. Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. As palavras escritas são resíduos. que tende a absorver outras. A escrita. isto é. os cavalos serão apenas o que não são. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. p.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. de trás para diante . Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. 60 segundos.

careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. A cultura escrita. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. Mas. até mesmo em ambientes orais. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. wekw-. como veremos. ainda assim. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. o sentido mais comum do termo epos. da filosofia. o termo "literatura oral" está perdendo terreno. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas.rbapsoidein. Em um mundo lingüístico desse tipo.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. regras gramaticais escritas. Contudo. Porém. quando necessário."formas artísticas puramente orais". assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. mas também da história. Nesse sentido. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. novamente. a perífrases explicativas . O discurso oral tem sido geralmente considerado. Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. "Texto". por mais que se tente o contrário. Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. cuja raiz significa "tecer". como tecer ou alinhavar . assim. e portanto está firmemente apoiada no vocal. sem a escrita. as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). ainda que não tão evidentes. como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz". como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". 293-303). caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. Hoje.iguais. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . embora. de alto valor artístico e humano. que desejam ardentemente a cultura escrita. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. Porém. As apresentações orais seriam.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. é. em termos absolutos. Neste livro. os dicionários são fundamentais. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967). É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. no oral. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". que tem a mesma raiz proto-indo-européia. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. 248-250. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. mais compa. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. na verdade. aos provocados pelo termo "literatura oral". Além disso. Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador.o "sistema modelar primário" . o que elas efetivamente são. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. Na realidade. sentidas como "vocalizações". hoje. na verdade. felizmente. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. pp. pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais.

mas de outros escritos. a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral. ditos. e não uma apresentação oral. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente.. da Idade Média e da época de Erasmo em diante.forçosamente um estudo letrado. verificou e combinou muitos provérbios. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia").pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas. Muitos séculos antes de Cristo. embora seja significativo que.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . a menos que seja cuidadosamente monitorada. aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio. no mínimo. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro . a cultura escrita .busca. atingir. na cultura oCidental pelo menos. Devemos morrer para continuar a viver.. ou seu equivalente grego Eclesiastes. "Registrar por escrito . até mesmo destrua sua memória . o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. .é também infinitamente adaptável. Felizmente. dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles. Ela pode também resgatar sua memória. embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. até certo ponto." Pessoas de cultura escrita.cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10).

de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. Para explicar sua admitida superioridade. Freqüentemente. consciente ou inconsciente. feita por Lang e outros. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. ou talvez por causa delas. embora. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. Durante mais de dois milênios. estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. (Ver Adam Parry 1971.O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. C. Desde então. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. os irmãos Grimm. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica". no entanto. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. p. O Círculo Lingüística de Praga . ou quase oral. e não lastimável. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. ou semelhante à oral. as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia.especialmente J. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. na Antiguidade Clássica ocidental. Vachek e Ernst Pulgram . tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. Cícero considerava como sendo ela própria um texto). de forma mais ou menos direta. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia. Mais do que qualquer estudioso anterior. com diversas misturas de visões fecundas. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. Hockett e Leonard Bloornfield. nehhuma outra parte. como os mais exemplares. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. dando-lhe nova dignidade. desinformação e preconceito. como fazem Edward Sapir.notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. trabalharam com partes da tradição oral. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. da Antiguidade até o presente. 77). o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. No início do nosso século agora já perto do fim. Em . 34). do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual. Desde o início. p. porque conhecia a escrita.) Os homens de letras. e a demonstração. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. centenas de colecionadores.

foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. como observa Adam Parry 0971. fora antecipada na obra de ]. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. começou a formar suas próprias opiniões. pp. Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. de certa forma. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. 163-164). Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. inevitavelmente. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. Düntzer. no Livro VI da Ilíada. O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). No século XVII. Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. Surpreendentemente. François Hédelin. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. 1717-1771). em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. de 1795. na poesia oral de tais culturas. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. no início dos anos 20. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). em leu Prolegomena. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. Mais importante. iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. Jean-Jacques Rousseau (1821. considera um problema a mensagem numa tábula que. Robert Wood (c. Ellendt e H. ix-lxii) . pp. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. diplomata e arqueólogo inglês. pelos unitaristas. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. e M. Murko reconhecera a ausência de memória exata. Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. Com efeito. argumentando. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. criações de todo um povo. Porém. contudo. xiv-xvii). pp. padre jesuíta e erudito.E. Belerofonte leva para o rei da Lícia. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. p. 99-101).uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. O filho de Parry. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. muitas vezes literatos bem-intencionados. Marcel Jousse. até sua morte prematura em 1935. Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. o falecido Adam Parry 0971. Rousseau. no tempo de Pisístrato. mas necessariamente a criação de um só homem. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. dos anos 20 em diante. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. xix). ainda estudante. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). pp. Eles foram seguidos. O axioma fundamental que dirige seu pensamento. palavra por palavra. além disso.

o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa". é verdade. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. 30. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. Esse tipo de procedimento. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). juntamente comâs sílabas longas e curtas. era visto como tolerável apenas em iniciantes. Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. A estrutura geral poderia ser sua. o poeta perfeito deveria ser . mas as peças já existiam. que haviam influenciado estudiosos anteriores.absorvendo sua cultura oral. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. Os poetas. pp. Em sua forma aperfeiçoada. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. era toda sua. contrariavam esse pressuposto. no entanto. Indubitavelmente. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. 85-86. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. 1971. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. Pouco depois de Pope. 147-148. e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. pp. Ora. 1977. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD.lamentavelmente. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. Porém. assim como outras. 77. O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. também o estavam influenciando. dos poetas latinos clássicos. pp. A visão de Parry. p. deveria. tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. O Gradus fornecia frases ~pitéticas. não deveriam usar materiais pré-fabricados. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). relacionado apenas ao "gênio" (isto é. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. mas não quanto às expressões. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. todavia. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971. no começo dos anos 20. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. xx). 166. como veremos. O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história .diferentemente em cada narração. Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . é óbvio que as necessidades métricas. sugestões que pairavam no ar nessa época. moldá-Ios a sua própria "natureza". pois. ver Ong 1967b. p. pp. Certas práticas. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. Para o romântico radical. a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. pensava-s~. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. xxii). até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. 178). 335-336). 261-263. de um modo ou de outro.

as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963.c.adosteoricamente para desvalorizar. 115). Além disso. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita . necessariamente. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. uma vez adquirido. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. Pois os letrados são educados. . até certo ponto..como o precoce Mwindo. no qual a fórmula ou o clichê. formulares. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. 68-98). canto). pareciam ser feitos de clichês. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava".. p. eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. O significado do termo grego "recitar". 49). que os . p. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. por exemplo. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. fórmulas devastadoramente predizíveis. mas um grego especialmente construído pela prática. a frase pronta. segundo o consenso de séculos. No entanto. (Rhys Carpenter. Este libertava a mente para um pensamento mais original. a saber. agora conhecido.). ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. tais como a assembléia. criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. De qualquer modo. "costurar cantos" (rhaptein. a reunião do exército. em princípio. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. o qualificativo previsível . a fórmula. costurar. por volta de 700-650 a. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores. que nunca fora inexperiente. Na cultura oral.c. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça. que podia voar apenas saído da casca . fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. eram obsoletos e contraproducentes. mas no texto escrito. menos previsível era tudo o que houvesse no poema. o clichê. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. pp. Homero. (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. em boa medida com finalidades métricas. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato.c.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). oide. o desafio.) A linguagem toda dos poemas homéricos. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. amados por todos os poetas tradicionais. rematadamente hábil. cada vez mais. tinha-se um operário de linha de montagem.algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego.como o próprio Deus. Era inútil negar o faio. não era um poeta iniciante nem medíocre. Em vez de um criador. por volta de 720-700 a. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. apud Havelock 1963. mais abstrato. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. para nunca utilizar clichês. por volta da época de Platão (427?-347 a. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. a espoliação dos vencidos. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas. o conhecimento. Homero foi normalmente considerado perfeito. Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos. rhapsoidein.poetas transmitiam de um para outro. na llíada e na Odisséia. poeta épico nyanga.ou. Mas. geração após geração. mais simplesmente.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e.

como agora sabemos. pp. p. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. mas. n. U~ dos motivos para isso é que. 1). Adam Parry 1971. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. Por toda parte. a convencionalidade do estilo épico. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. 18).1978. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. p. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. filosofia depois de Platão defendeu era. O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. xxviii. a madeira rachada .1978. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. 11-18. reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. 145). 13). ainda que. direta. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. e passim). de modo inteiramente genérico. a despeito da inquietação de Platão. n. . indiferente a perguntas e destruidor da memória . eletrônica ou de impressão. em Parry. 70) relata. no conceito de Parry. profundamente interiorizada. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. (Cf. aparentemente um tanto surpreso. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. p. no mais das vezes. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. na África Central e em outros lugares. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. mumano de processar o conhecimento. na verdade profundamente antagônico. exatamente. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. A menos que indique claramente o contrário. p. p. "as noções de separação. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. E. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. no nível inconsciente e não no consciente. como um modo mecânico. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. 272). as quais. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. em que a cultura escrita alfabética. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. p. a observação de Opland de . pp. p. recompensa. 1. como veremos. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. na história humana. xxxiii. XXXiii. O conceito da fórmula. 1). realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que .Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. sim.hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. p.embora. Adam Parry 1971. ou a brevidade usual das próprias formulas. Finnegan (1977. Bynum. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . 33-65). da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia.

parece ser de início. que vêem como originais ditos proverbiais que. somente com o movimento romântico. p. A primeira poesia escrita. tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. necessariamente. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger. quando os poetas xhosas aprendem a escrever.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária.poético ou não . Clanchy relata como. 23-47). uma mimetização em manuscrito da atuação oral. pp. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. um tipo de discurso . em sua grande maioria. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI.. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. em toda parte. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. dois séculos mais tarde. Stolti' e Shannon 1976). mas nunca a interiorizaram completamente. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente.a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início.que. Lord e Eric A. . incluindo o uso predominante de elementos formulares. Havelock.Tannen 1980a). Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita.êm sido p~oduZidos por Albert B. A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b. p. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. por exemplo. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. Ao excluir os poetas de sua República. Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . 218).que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor). Anteriormente. Como se verá mais adiante. os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns.tenha s1d~ .· de Havelock. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. 490). ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. PIarão estava. na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. Na verdade. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). ainda no século XI. Adam parry (1971. em sua grande maioria. Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. da antropologia à história literária. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. segundo um de meus amigos libaneses. . atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. Preface to Plato (1%3). segundo a análise de Whitman. Embora o trabalho de Parry . o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. caixas dentro de caixas. o grego .atacado e revisto quanto a alguns pormenores. Os hábitos orais de pensamento e de expressão. pp.

Numa obra mais recente. Lord e Havelock.fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. de modo convincente. Sua afirmação gnômica fundamental. raramente . dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. de executivos e do público informado de um modo geral. "O meio é a mensagem".citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. Por exemplo. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. demasiado loquazes para alguns leitores. incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b .que. em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". Recorrendo não somente a Parry. p. incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. xvü). Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. oral-textual. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. Porém. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. analítico). consistia somente em consoantes e algumas semivogais. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. para a mídia eletrônica. Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. Ao introduzir vogais. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. mas também a outros. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos.verdade. A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. Por exemplo.quando muito . inventado pelos povos semíticos. vozes que o hemisfério esquerdo . rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. E outros estudos especializados estão agora surgindo. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). Eu havia anteriormente sugerido (1967b. em sua obra magistral e judiciosa. Jack Goody (977) mostrou. umas poucas conexões importantes já foram feitas. Todavia. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. O alfabeto original. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições. do contrário. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos . Joseph c. Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. por meio da cultura escrita e da impressão. x-xi. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. seriam extremamente díspares . os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. e da Antiguidade aos dias atuais. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. pp. A estas ele denominou "sondagens". Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral".

) . ou "bicameral" como ]aynes a descreve . como veremos. e ]aynes. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência. (N. o que certamente traz implicações maiores para o leitor. Em uma cultura oral primária.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. do que a tradução "procurar" evidencia. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. de uma percepção de diferença entre passado e futuro .falta de introspecção. das culturas orais intocadas pela escrita. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. é dividido em duas partes bem distintas. (N. isto é.c. como quer o autor. e de outros que serão mencionados. com efeito. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original.processava em fala. Para ser breve. de audácia analítica. literalmente "procurar com os olhos". Esse período. Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes.c.T. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais.) •• Look up something. já não submetida ao domínio das "vozes". Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a.T. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. mas até mesmo nos dias de hoje. acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. ou seja. look up. de preocupação com a vontade como tal. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a.. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo.

conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. preferimos mantê-Io imóvel. O som existe apenas quando está deixando de existir. ausência absoluta de som. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. Elas são sons. A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária.T.é "dinâmico". pr~fenda e. para examinar algo atentamente por meio da visão. portanto. etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. mas o som possui uma relação especial com ele. somos simplesmente incapazes de compreender. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. d todo som . embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. Quando pronuncio a palavra "permanência". nem rastro (uma metáfora visual. que mostra a subordinação à escrita). sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. mas pode também registrar a imobilidade. Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. ** (N. faladas. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. mumente . 111-138). no momento em que chego a "-nência". a química e pôr em prática a engenharia química. pp. b u ao. Toda sensação ocorre no tempo. eventos. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos. 223-126). As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela.especialmente a enunciação oral. Não há como deter e possuir o som. Também não ca~sa surpresa que povos . * Cal! them back. Na realidade.e muito provavelmente em todo o mundo . em uma superfície plana. Poder-se-ia "evocá-Ias" . logo. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. que vem de dentro os organismos vivos .julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. pp. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. na verdade. não tenho nada . nem mesmo uma trajetória. as palavras em si não possuem uma presença visual. num sentido radical. Em segundo lugar. 451. Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas. pois não constituem aç~~s. Muitas vezes. mas. Sem a escrita. a uma estabilização idêntica à do som. As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. (N. dotada de um poder. não. Essa crença é. 470-481) salientou que. Ele não é apenas perecível.teria nenhum significado concebível. não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. pois. embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. entre os povos "primitivos" (orais).apenas silêncio.e talvez universalmente . cheirar. Um caçador pode ver um búfalo. Se detiver o movimento do som. A visão pode registrar o movimento. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923. mas. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. ela favorece a imobilidade. Não têm sede. Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". São ocorrências. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. O som sempre exerce u~ poder. Malinowski 0923. por exemplo. necessariamente portadoras de poder: para eles. se ouve .) To lookfor them. O fato de os povos orais comumente . pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. Nesse sentido. estão mortas. até mesmo morto. 230-271).T. Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. recal! them."reevocá-Ias"*. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. pp. pelo menos inconscien~emente. "lá". pp. Ele existe fora do mundo sonoro. Um oscilograma é silencioso. como eventos e. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. Toda sensação ocorre no tempo. mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente. Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos.) . ou uma cultura não muito distante da oralidade primária. as palavras reais. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas.

cada uma de suas proposições e provas. Como ela retém. o alerta do marinheiro. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- . fortel~ente rítmicos. tende ~ ser altamente rítmico.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. mas. Sabemos o que podemos recordar. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. fosse relativamente complexa. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos. recuperar uma complicada série de asserções. 131-132. Numa cultura oral primária. como . e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação . como apoios mnemônicos." "Dividir para conquistar. Hesíodo. analítica." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope. processo de respiração. quando fundado na oralidade. não queremos dizer que temos na mente. por si sós." "Errar é humano. nesse momento. em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. o duel_o.. assim como funcionam. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida. pois o ritmo auxilia na recordação. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. sim." "O robusto carvalho. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. para posterior recordação. com muito poucas exceções . Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. Uma cultura oral não possui textos. digamos.294-296). mas também da história da Revolução Americana. Podemos recordá-Ias. vermelha à noite." "A tristeza é melhor do que o riso. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. Entre os antigos gregos. possam recordar.. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. realmente. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). de que modo.ou em outra forma mnemônica. ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. O pensamento prolongado. em repetições ou antíteses.à comunicação. poderia uma solução longa. em altteraçoes e assonâncias.quando muito -. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia. e portanto também no hebraico antigo. moldados para uma pronta repetição oral. muitas vezes ritmicamente equilibradas. "Vermelho pela manhã. em uma cultura oral. o "ajudante" do herói e assim por diante)." Fixas.Numa cultura oral.icologicamente. 87-96. consistindo. "A videira aderente. a fim de que "saibam". exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. pp. isto é. mas também os processos mentais. por si sós. em umas poucas centenas de palavras. equilibrados. 294-301). até mesmo p. 97-98. por sua vez. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. a re~ei~ão. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. a delícia do marinheiro. . não há nada fora do pensador. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. O pensamento deve surgir em padrões. perdoar é divino. A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963.. pp. de forma a VIr prontamente ao espírito. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que. Antes de mais nada.

fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5. Isso vale para as culturas orais em geral. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. mas simplesmente um pensamento momentâneo. um modo fixo de processar os dados da experiência. ainda que isso fosse possível.em livros de adágios. Esse é um dos motivos por que. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. mas ilustrativo. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. na verdade. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. Nas culturas orais. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. em si mesmos. Contudo. de Havelock. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . conseqüentemente. na África Ocidental.isto é. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. na realidade. 5).e. no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. baseado diretamente na tradição oral ibo. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico.sas. seria uma perda de tempo. da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. não-padronizados. o modo como a experiência é intelectualmente organizada. uma vez terminado. orais. pois esse pensamento. Porém. a lei.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. quando os falantes refletem. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo. pois é nelas que consiste. determinando o modo como . Não seria um conhecimento confiável. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. podem ser "procuradas". este é impossível em qualquer forma extensa. tal como o seria com o auxílio da escrita. ao fazê-Io.). Em uma cultura 9~. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . Numa cultura oral primária. Elas formam a substância do próprio pensamento. mas são. além de sua estilização formular. provérbios. um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978. não-mnemônicos. porém preserva . Numa cultura oral. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. com grande inteligência e requinte. mas nas culturas orais não são eventuais. a própria lei está encerrada em adágios formulares. que não constituem meros adornos jurídicos. Sem elas. Numa cultura orall. Preface to Plato (1963). O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. embora complexo. é um texto. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. que. são constantes. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. p. Obviamente.

Em muitas das culturas de baixa tecnologia. e as trevas cobriam a superfície das profundezas. e às trevas. e houve luz. Deus então separou a luz das trevas. tais como termos. E Deus viu que a luz era boa. incluindo a que produziu a Bíblia. Ele lhes parece natural e normal. E ele chamou à Luz Dia. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. 1980b. como sugeriu Givón (1979). os clichês nas acusações políticas . O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. mas o soldado valente. E Deus disse: Faça-se a luz. mas a bela princesa. A versão Douay (1610). que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. a terra era um vasto deserto informe. o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. "quando". As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). não a princesa. e até mesmo exótica. Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. mas o carvalho robusto. o No começo. "assim" ou "enquanto". a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. pp. de certa forma independentemente da gramática. constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. 188-212). Deus viu como era boa a luz. Deus criou o céu e a terra. Um dos muitos indícios de um alto . incompreensíveis para os ouvintes). arcaica. e ele dividiu a luz das trevas.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. termos. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite". enquanto um forte vento varria as águas. produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. A New American o traduz por "e". mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota.uma visível padronização oral. mas agrupamentos de totalidades. "então". uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. não o carvalho. As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. Dois "e" introdutórios. uns anos atrás. e o espírito de Deus se movia sobre as águas.o primeiro dia. E a terra era erma e vazia. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. ambos mergulhados num período composto. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. em desenvolvimento. capitalistas fomentadores da guerra -. frases ou orações paralelos. Nove "e" introdutórios. especialmente no discurso formal. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra. As nações orais preferem. em muitos aspectos. Noite. e a ela sucedeu a manhã . dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". quando Deus criou os céus e a terra. e as trevas cobriam o abismo. para a relação de algumas fitas). segue de perto.inimigo do povo. Em todo o mundo. como eram as fórmulas . não o soldado.ainda que em vias de desaparecimento . Assim chegou a noite. frases ou orações antitéticos. Em culturas orais ou com um alto resíduo oral. e houve noite e manhã um dia.Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. Assim.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. Então Deus disse: "Seja feita a luz". epítetos. As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . E a luz se fez.

requer a escrita... que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. o pensamento fragmentado . redundantes. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. a análise . para manter intacto o agregativo.. pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. Por conseguinte. A psique pode controlar a tensão. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. soldados são sempre valentes. deve permanecer intacta. Se deixarmos passar o "não apenas . a hesitação é sempre prejudicial. Sem um sistema de escrita. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. os oradores públicos ainda à época de. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982)." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. Nem todo mundo. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. duas ou três vezes.isto é. No estilo oral. no Zaire. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. Com a escrita. puramente ad boe. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. construída pela tecnologia da escrita. 101). ver Faik-Nzuji 1970. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. fisicamente. dentre uma multidão ouvinte. mesmo que em virtude de problemas acústicos. mas o faz para demonstrar que eles o são. Não há nada para o que retroceder fora da mente. compreende cada palavra que um falante pronuncia. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa. com efeito. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. a repetição do já dito. princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância.) Nas culturas orais. por força do hábito. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. um processo muito lento . Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. a situação é diferente. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. ou algo equivalente. princesas ou carvalhos. oral] totaliza" (1966. p. em parte porque a escrita à mão é. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados.em média. William Jennings Bryan 0860-1925). Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. embora a pausa possa ser benéfica. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo.". sempre disponível em fragmentos inscritos na página. como na conversa de tambores africana. Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. a redundância atinge dimensões excepcionais. deixavam que ela semeasse seus escritos. O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou.. O pensamento requer algum tipo de continuidade. até mesmo epítetos opostos.constitui um procedimento altamente arriscado. Uma expressão formular. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. Uma cultura oral pode. uma vez cristalizada. mantendo . a mente deve avançar mais lentamente. "a mente selvagem (isto é.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". p. é preferível repetir algo. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977. por exemplo. Portanto. Convém ao falante dizer a mesma coisa. mantinham a velha redundância em seus discursos e. No discurso oral. podemos inferi-lo pelo "mas também . perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. A redundância. Por conseguinte. 245). (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas.

que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. não carecem de originalidade própria.a cada narração. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. evidentemente. de seu esforço de memorização e. isto é. Logo depois de seu surgimento. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. a loquacidade. de seres humanos. os escritos de Winston Churchill (1874-1965). como também soam. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. repetidor do passado. inibe o experimento intelectual. Porém.deprecia as figuras do sábio ancião. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . isto é. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. Porém.são propagandeados de forma explícita por sua novidade. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. 30) -. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. oralmente composto.e mais ainda a impressão tipográfica . Eles raramente se tanto . à interação imediata. desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. As culturas orais estimulam a fluência. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. Porém. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. 254-305). que. como Goody os intitula 0977. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. de certo modo. conhecida. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. Por uma espécie de lapso. Todavia. desse modo. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. novos universos conceituais.i. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia.também mudam nas culturas orais. compreensivelmente. mas na administração de uma interação especial com sua audiência. Na tradição oral.se possível engenhosamente. assimilando o mundo estranho. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. de uma maneira única. pp. pp. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece.e. 232). Durante a Idade Média e a Renascença. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. inventam novos santuários e. desnaturar até mesmo o humano. pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. de um certo modo. As culturas orais. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. quando as curas são raras. p. mente.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. muitas vezes intensamente. Os retóricos chamariam a isso copia. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. deve-se dar à história. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. o excesso. a escrita . e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. em sua época . pp. 29-30). pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. 13-14). uma situação singular. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. sim. objetivo. haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele. a escrita é conservadora a seu próprio modo. com estes. p. são. com elas. Obviamente. pelo fato de tomar para si funções conservadoras. De fato. muito freqüentemente. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. As práticas religiosas .

isto é. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. 1972). 258). mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. na Bíblia. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. 176-180). O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. independente. Na última metade do segundo livro. sem perda de tempo.divisões políticas em uma lista abstrata. . Característicos das sociedades orais em todo o mundo. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. Representações de violência físita crua. sounding ou outros nomes. com apenas um mínimo de explicação verbal. são extremamente raros e sempre toscos. 28-29. no Beowulf. joning. os livros VIII e X rivalizariam. no mínimo. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. do mesmo modo. remadores. que não constitui uma lista neutra. até mesmo em culturas de alta tecnologia). a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. é comum depararmos. em todos os contos medievais europeus. Obiechina 1975). mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada .senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. Não somente no uso que se faz do conhecimento. com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. Na llíada. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. De belas faces. nos embates entre personagens. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47). em grande medida.Ong 1967b. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. Uma cultura oral. com base na observação e na prática. certos jovens negros nos Estados Unidos. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. reunamos. Na narrativa. com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. Goody e Watt 1968.mais de 400 versos . pp.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. pp. e que Ora. O dozens não é uma briga real. neutra. Comande o nauio um dos chefes do exército. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . até mesmo em culturas quirográficas. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. mas também na celebração do comportamento físico. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. que eram cruciais na cultura homérica. 32). por exemplo. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. mas uma forma de arte. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. na verdade.141-144. convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. 234. Criados numa cultura predominantemente oral. p.

Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. e sobretudo. a despeito dos ataques feitos a ela. Opland 1975). Porém. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. do bem e do mal. as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima. Sob a influência da escrita. portanto. Lidando com um outro cenário oral primário. de modo que. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. . obviamente. "deixar-se levar por ele". O elogio exagerado na antiga tradição retórica. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. veja que eu já estou prosseguindo". a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. já muito estudados (Finnegan 1970. na "alma" comunal.e. de presunção e de afetação ridícula. "Aqui estou para enterrar César.79). 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. escriba!" ou "ó escriba. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). estão des-oralizando-o num texto. os antagonismos. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. eventualmente. empática. estabelece condições para a "objetividade". mais de 2 mil anos depois. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas.um mago. comunal com o conhecido (Havelock 1963. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. de seus ouvintes. Voltaremos a essa questão posteriormente. Platão excluíra os poetas de sua República. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. p. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. mas. o declamador do poema épico. transcrevendo-o. residualmente oral. uma feiticeira . agonístico oral. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. 145-146). em vez de causas físicas. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. Porém. Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. A escrita separa o conhecedor do conhecido e.tanto as atrações quanto. com o herói Mwindo. da virtude e do vício. aumentam as hostilidades. antes. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. A ligação entre narrador. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. não para falar em seu louvor". o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". e. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado. distanciando-se das meramente exteriores. pp. pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano .\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. A narrativa literária. pp. as relações interpessoais são mantidas em tons extremos . envolvida na dinâmica de troca sonora. dos vilões e dos heróis. desse modo. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. à medida que se aproxima do romance sério. como uma reação encerrada na reação comunal. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. Elas sobrevivem nas baladas medievais. A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". 197-233). por intermédio dele. da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio.ii. sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores.

31-34). muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. que não consiste meramente. vivida. pp. falada. Ong 1977. ilimitada. Nos últimos anos. tais como o poema épico. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. e o termo que permanece ficou vazio. entre o povo tiv da Nigéria. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. por exemplo. como num dicionário. como literatos. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. em Gana. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. 29) chamam de "ratificação semântica direta". expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. podem ser registrados em definições formais. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. já não reconhecidos. sempre ocorre. conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. até mesmo em culturas de alta tecnologia. as formas arcaicas são correntes. em outras palavras. 48-99). embora limitadas à atividade poética. à época em que os . A memória do antigo significado de antigos termos. mas inclui também gestos. desse modo. embora a palavra tenha sido conservada. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. pp. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. p. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. inflexões vocais. pp. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. em disputas jurídicas). QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. tem uma certa durabilidade. conservam algumas palavras. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. desapareceram da experiência diária lokele. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). descobriu-se que. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. o fundador do estado de Gonja. entre os lokele no leste do Zaire. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. pp. também. Goody e Watt (1968. pp. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. Os tambores africanos. em que a palavra real. Sessenta anos depois. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. isto é. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. como pai de sete filhos. Assim. isto é. 41-42. É verdade que as formas artísticas orais. tal como usados. mediante o uso corrente. portanto. nessa época também. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. que. que não é. p. Goody e Watt (1968.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. 94-95). Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. tal como ela ocorre em textos datáveis. no entanto.

Packard (1980. na União Soviética. 157) chamou a atenção para o fato de que. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. Além disso. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. assim como Harms (1980. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974. 247. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. 33. Todavia. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. observa que o "modo oral. n.. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl.mitos de estado foram novamente registrados. Nestes últimos mitos.O.. que. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). p. duas das sete divisões haviam desaparecido. Edmund Leach e outros. 248. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. Luria. p. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. na opinião de Claude Lévi-Strauss. e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. que possuem um mínimo de abstração. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. uma por anexação a uma outra divisão. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. n. Henige (1980. tendeu normalmente a desaparecer. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". 178) acha que se aplica aos bobangi. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. 25-26. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. pp. p. I de uma realidade individual. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. como Franz Boas (não George Boas. extraída e distanciada . faziam questão desse contato em seus mitos. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. 8). que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. As culturas orais estimulam o triunfalismo. até certo ponto abstrato. simplesmente ele próprio. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. de A. operacionais. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . mas constitui uma abstração. durante 1931 e 1932. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. como cita erroneamente Luria 1976. 255). Beidelman. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. isso se aplica aos bashu. nos tempos modernos. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". p. que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. p. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. se todo pensamento conceitual é assim. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". A seu ver. T. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. de modo algum "abstrato". sensível. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923).R. as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado.

. à exceção da tora. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. 56). com objetos concretos. Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. casa. Entre as descobertas de Luria. 14). Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. sim. 74). um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos.. um quadrado seria chamado de espelho. pp. serra. tora. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. plataforma de secagem de damasco. machadinha. Mas. respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. em oposição aos fundados no quirográfico. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. relógio ou lua. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós.). na verdade. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos.um jogo intelectual estranho. Um círculo seria chamado de prato. jogo fora a machadinha. quadrados etc. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. triângulos e assim por diante 0976. p. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. mas usavam um conjunto diferente de categorias. o relato de Luria gira claramente. como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. p. 32-39). mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. com certo grau de cultura escrita. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. não respostas tiradas da vida real. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. do contrário. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. mas em termos de situações práticas . Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. quadrados. Se tiver de tirar um deles. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita . nunca abstratamente como círculos. Quando lhe dizem que o martelo. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos."pensamento situacional" -. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim. peneira. Alunos de cursos para professores. a serra e a machadinha são todos ferramentas. mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. balde. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. p. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. Desse modo. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. mas. a tara não é uma ferramenta)." Por outro lado. porta. Estes não eram líderes em suas sociedades. não podemos construir nada" Cibid. por outro lado.

a saber. isolado. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. machadinha. A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). Por outro lado. 108-1(9). Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. p. embora com a predominância do último. p. mas tendem. o categorial. retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. todos os ursos são brancos. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. Para resolvê-Io. Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. onde há neve. que parecem ter julgado desinteressantes. foice. sobre a cor de um urso polar? Além disso. não era importante. pp. mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas.. Vi um urso negro. Apresentada a série machado. em sua interpretação de dadas afirmações. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. assim como em outras formas. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. . Porém. para além das próprias palavras do enigma. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. 54-55). encerrado. p. era fútil (1976. À luz desse conhecimento. no estágio apenas inicial de alfabetização. No extremo norte.Um trabalhador de 56 anos. num estágio apenas inicial de alfabetização. que deveria completar a série serra. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). 67). Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. não tinha interesse. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos..o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais . como um texto. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles. O enigma pertence ao mundo oral. antes. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez." "Somente um animal voador. desse modo. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. um dirigente de uma fazenda coletiva. 72). espiga. Em determinados momentos de suas discussões. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. Metais preciosos não enferrnjam. fixo. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. "Metal precioso enferruja. de 45 anos. 104). Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. num silogismo. na vida prática. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. mas depois reconsiderou e acrescentou. a respeito da espiga. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. 114). O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. p. eles nunca os compreendiam completamente e. 34 anos) (1976. não minha. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. O ouro é um metal precioso. Nunca vi outros . muitas vezes profundamente inconsciente." É sua responsabilidade. a ir além das afirmações em si. p. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . pp. tora. Em suma. eles deveriam ser todos brancos" (1976.. se a resposta surge dessa forma. 18 anos)..

era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. Usa fogo e vapor. como é seu caráter. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. mas são típicos. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. não de dentro. o eu. 148). Embora ele não estivesse bem informado. não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. não precisam que eu lhes explique". a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros. Um outro homem. vai descobrir. 86). "Bem. álamo. Por outro lado. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. "Tente me explicar o que é uma álVore. p. os pedidos de definições dos objetos. ninguém nos respeitaria" (1976. um teto para sombra e uma máquina. Sua definição. Exige isolamento do eu. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional.é muito veloz. p. todavia. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir ." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976." Mais situações exteriores. não está centrada na descrição da aparência visual . Perguntou-se a um homem de 38 anos. olmo. seja examinado e descrito." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros.esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. Mas para ir direto ao assunto. também precisa de fogo" 0976. até mesmo os mais concretos." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. 87). Mas a falta de familiaridade .''' O respondente enumera algumas características. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro. Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. p. p." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. p. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. Numa viagem. diz: "É feito numa fábrica. de gênio forte. mas no fim retoma à experiência individual. Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. deve haver. em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo. 150): "Que tipo de pessoa é você. mas é uma definição em termos de suas operações. situacional 0976. fez uma tentativa de definir um carro.4) No trabalho de campo realizado por Luria. p. ou às vezes sua memória não é boa... O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. um camponês de 36 anos. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. respondeu um camponês analfabeto. 15). analfabeto.o vapor dá potência à máquina . Mas a água não é suficiente. Não sei se há água num carro. de 22 anos 0976. as pessoas são diferentes calmas. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. de 30 anos. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . Eu mesmo não posso dizer nada. 90). encontraram resistência.

de modo rigoroso. Um habitante da África Central. "Vamos observar um pouco como ele dança. podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. pp. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. milhares de anos após a invenção da escrita. processos de raciocínio formalmente lógico. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. mas o indivíduo oral não conhece as regras. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. p. isto é. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. ou auto-análise articulada. os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. a seu próprio modo. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. tal como a dos sujeitos de Luria. organizam. não porque os considerem "inteligentes". pode ser bastante sofisticado e. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. 61). 53-76)." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. é claro. não apenas das culturas orais. isto é. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. a menos que soubessem escrever. 1978).e muitas vezes tiveram -. os analfabetos podem ter tido . em diferentes graus.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. no Ocidente. respeitam seus navegadores. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. Terão ouvido. associadas ao uso de textos e. 4). O pensamento oral. Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. definições ou até mesmo descrições abrangentes. mas tão somente porque são bons navegadores. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. mas do pensamento formado pelo texto. Essas perguntas estão ausentes. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. respondeu a Carrington 0974. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. no Pacífico Sul. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. na verdade. pelo menos no que diz respeito a esse caso. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. Elas são legítimas. contudo. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. Até poucas gerações atrás. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. uma "consciência moderna". na verdade. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . reflexivo. Mas isso não é um enigma. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. por exemplo. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. Gladwin 0970. Será um jogo? É claro que é um jogo. mas também das escritas. categorização abstrata. p. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. p. mas dentro de contextos operacionais. A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento.

que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. No passado. sem memorização literal. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. no entanto. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. à condição de que lidasse com material tradicional. por exemplo. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. um trunfo valorizado nas culturas orais. Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. p. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. segundo seu próprio modelo textual literal. que seus processos mentais são "toscos". Como tal repetição poderia ser verificada antes . tais como as genealogias. in Pany 1971). Desse modo. Como vimos no capítulo 2. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. Com esse vocabulário hexâmetro. Eles sabem muito bem que. do fisiológico ao psicológico e ao ético. Parry 0928. se empurrarmos com força um objeto móbil.tal como. À primeira vista. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. o empurrão fará com que ele se mova. inteligentes e belas. de algum modo. não são analíticas. na ausência da escrita. Para compreender como elas o fazem. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. As seqüências longas que eles produzem. p. Porém. grupos de palavras para lidar com material tradicional. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. para Ulisses. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. por exemplo. deveriam ser essencialmente composições escritas. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. com êxito. Porém. mas agregativas. compreensivelmente. nos poemas homéricos. 156). A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. Heitor. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. em qualquer sentido simplista . uma vez que. mas de fórmulas. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. Numa cultura letrada. 51). assim como para os outros personagens. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. memorizaram-nas literalmente com base em textos.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. Atena ou ApoIo.

e/ou ao público. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. que nada têm a ver com textos. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. A originalidade não consiste em introduzir novo material. eram métricos e formulares. pp. única. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975.é analfabeta. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. Quando recorda e reconta a história. 17). os melhores . assim como sua utilização. embora metricamente regulares. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. tempo para "se emprenhar" da história. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. indivíduo. ou o "alinhavamento" de narrativas. como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. p. dependendo da reação do público. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. coisa ou ação. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. Com base nessas entrevistas e na observação direta. o material. a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. Como se observou anteriormente. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. pertencem a uma tradição claramente identificável. Na verdade. e a "rapsodização" do poeta. no entanto. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. Uma comparação entre as canções gravadas. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. revela que. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. Porém. os temas e as fórmulas. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. Seus poemas narrativos. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. 216). elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. assim como os temas. As fórmulas sofrem alguma variação. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. porém. é claro. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. essa natureza. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. como os de Homero. na verdade. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. durante meses e anos. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . p.. diferirá visivelmente de um para outro. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. 20-29). Na sua essência. Basicamente. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. Na memorização de um texto escrito. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes .e. até pelo mesmo poeta. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego.

pelo menos 60% em relação às outras versões. 118-119) relata como. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. segundo os padrões de uma cultura escnta. Sherzer . mundo. a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. p. 28). recitações pelo mesmo indivíduo. é "algo que todo mundo 'sabe"'. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. p. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. na África do Sul. na costa panamenha. como o pal-Noss. pp. o mínimo. Na verdade. Todavia. não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. onde a Invocação ao Bagre. 76-82). verso por verso e palavra por palavra. ver Foley 1979). também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. português e outras línguas (ver Foley 1980b). aqui como em qualquer outra parte. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui. em . ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). até mesmo no caso . 27). que. Por J exemplo. parece ser algo textual. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. e pronuncia-se a frase inicial da invocação. um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. francês. ou para uma elocução. O que conseguem? ~a maioria das vezes. não parecem ter uma exatidão literal maior. ou fazem somente com dificuldade. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". 28). as reproduções da mvocaçao. 1976). 114) registra esforços reais. como Goody.. p. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. como interpreta Lord 0960. p. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. não são absolutamente estáveis. relatado por Joel Sherzer (1982). Em 1970. 78. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. assim como as de outros (Opland 1975. quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. p. Ou não? Talvez sejam 28.o entre _os cristãos. por Lord na Iugoslávia. p. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem. Goody 0977. pp. isto é. As descobertas de Goody. ou para uma unidade rítmica de uma canção. o ouvinte toma o refrão. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. Em todo o . Todavia. é dierética. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. quando se conhece a hngua. separada do fluxo discursivo. Opland 0976. Se não se pode escrever. de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. separativa.~ alemão. ou para um tema.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. de modo muito mais detalhado. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. p. mas a juntá-Ias. "Palavra por palavra e verso por verso". entr~ os lodagaa do norte de Gana. Um é o da verbalização ritual entre os canas. verifica-se que são sempre diferentes. um "pedaço" de discurso. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. no entanto. a outros especialistas como ele.) Significativamente. Goody (1977. Há muito tempo (960). embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história.

e alguns interlúdios puramente instrumentais. que começam ainda muito novos. aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . n. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. por um dado período de tempo. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral.e. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. mas também sintáticas. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. com algumas poucas partes em "voz pura". nas suas próprias recitações. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. ainda existente porém em declínio. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. se é que não a aumenta. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. trata-se de composição formular. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. 148). Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. Isto é. Evidentemente. métricas. como os feitos pelo h01110ioteleuton . assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. 118. p. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. embora eles próprios façam. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. palavra por palavra. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. mudanças das quais não se dão conta. na verdade. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. No caso da poesia oral somali. como já indicamos. não literal. a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. que. p. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). Às vezes. portanto. Novamente. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. porém notável. ver também Johnson 1979a). Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. trabalhando com um mestre oral. à que aprendem a própria gramática" 0979b.não totalmente invariável. Em certas partes. 3. Indubitavelmente. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. não equivalentes a seu próprio exemplo. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. senão idêntica. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . Um é da poesia clássica somali. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. rapsódico. mas constróem uma composição em particular.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. a música estabiliza inteiramente o texto.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. com base em Finnegan 1977. fonema por fonema. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. desacompanhadas de instrumentos. como mostrou . é entoada com música. na qual uma narrativa oral. Novamente. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. omitindo o material intermediário.

as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções.#26 . Chafe (982). Sem um texto. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos.c. os textos védicos . Os professores brâmanes. Os exemplos literais de Sherzer são rituais."). pp." Em suma. Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965). é "flexível" ou variável).a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual. 83-84). até mesmo em seus rituais textualizados. 164). até mesmo no ritual. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. as palavras "Este é o meu corpo . no entanto.isto é. p. a estrutura formular . e isso através de muitas gerações? Afirmações. Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia. tanto quanto sei. pp. comparada à coloquial. ao cumprir sua instrução (isto é. deliberadas ou não. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976. tudo indica que. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963). mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva . Meras declarações. tratando especificamente da língua sêneca. nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. Porém. especialmente em rituais. e Rutledge sugere em seu trabalho . . provavelmente em completa independência de quaisquer textos. freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. como poderia um determinado hino . oral. nas culturas orais em geral. poderiam surgir outras tantas variações. Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem.e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . Com efeito. O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. pp.e notas.Lord. cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963.. este é o cálice de meu sangue . 99-100). Tais afirmações. na boca de um outro professor igualmente capaz. Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. sugere que a linguagem ritual.para não falar da totalidade dos hinos das coleções . feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. mas com um conteúdo. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. na verdade. ou gurus.. com certeza. podem ser totalmente contrárias aos fatos. assim como outras relativas à "memorização" oral. De fato..se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. como vimos. Louis Renou. Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus. ou de 1954 (Bright 1981).. O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. Os Vedas são coleções extensas e antigas. "Fazei-o em minha memória". A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. palavra por palavra.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. 25-26 .. disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19).nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . Porém. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução.têm uma história complexa e muitas variantes. de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. de que as reproduções são idênticas.ser estabilizado palavra por palavra. possam geralmente julgar "fixo" um uso que. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. conservam um alto grau de resíduo oral .

uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). ou dançar. mas milhares de cópias podem permanecer. Quando o mercado para um livro impresso decresce. visível até mesmo em traduções. 220-222. A palavra oral. A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. Ela conhecia a história. p. isto é. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. Na verbalização oral. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". completamente. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). como já observamos. culturas nas quais. e minha fórmula não era a que esperava. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. .e temática dos Vedas. não obstante seja um texto. nunca existe num contexto puramente verbal. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras". O Talmude.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. Peabody 0975. A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas.) A esses casos. frontispício. literal ou não.. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. pp. do que ao objeto. Por exemplo. fazendo um beicinho. particularmente a pública. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). as prensas param de rolar. Finalmente. Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. Outros povos manipulam contas em cordões. Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. Havelock 1978a. elementos temáticos e mnemânica oral. disse ela. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. existencial. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. no entanto. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. e significativamente menos do contato não-verbal. 60). é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". p. 173). que sempre envolve o corpo. mas natural e até mesmo inevitável. e portanto da interação humana. É preciso fazer a ressalva. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. como eu mesmo testemunhei. tais como a gesticulação. Reformulei a narrativa. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. Os narradores narram o que o público deseja ou permite. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). que tinham algum conhecimento da escrita. por si só. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. Como se observou (p. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. também o faz a própria genealogia. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. como ocorre com a palavra escrita. (Ver também Lord 1960. muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. Biebuyck e Mateene 1971. Em todos os casos.

isto é. amok. lida com todas as perguntas desse modo. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. A comunicação oral agrupa as pessoas. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. o astuto Ulisses. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. ao passo que os letrados o interiorizam. Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. Um professor que fala a sua classe. A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. uma disputa de talentos.. Para garantir peso e memorabilidade. ao contrário de obter realmente uma resposta. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". bateu com a mão na parede do edifício. o furioso Aquiles. indivíduos cujas façanhas são notáveis. zam o comportamento esquizóide. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. uma operação de agonística oral. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. como agonístico e. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros.e que percebe a si própria . com seu enorme resíduo oral. que muitas vezes os leva a um ato violento. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. que ele percebe . Nunca baixe sua guarda oral. 470-481). Assim. segundo a mitologia. Qualquer nativo de Cork. 451. figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. um duelo polido. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. é uma série de manobras verbais (e somáticas). nesse aspecto. Nas culturas orais primárias. As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. pp. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. Ao contrário. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. na Irlanda. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. descobre que. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. por sua vez. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. memoráveis e geralmente notórias. Em culturas orais. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. Desse modo. Dirigiu-se a ele. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. .como um grupo intimamente ligado. é freqüentemente desviado. o indivíduo do sudeste da Ásia. ele fez algo. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . Kábútwakénda. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. o imensamente perverso lobo. seu epíteto usual).aninham as percepções. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. está relacionada ao estilo de vida agonístico. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica.* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. A natureza não estabelece "fatos".. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável.

O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. acima de tudo. e assim é menos um interior. sim. é interessante. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. Aqui. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. mais profundamente. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. Não se pretende negar que outras forças.de escalar . Índice). (A reflexão difusa. nesse sentido. como um alabast!o. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. em vez de enfrentar o inimigo. típico do romance. que fornece as ressonâncias vocais. aberta. sua relação com o tempo. A visão disseca. a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. embora não seja uma fonte de luz. de uma página impressa ou uma paisagem. e sejam quais forem as outras forças.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. A visão situa o observador fora do que ele vê. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. de John Updike. o som incorpora. À medida que a escrita e. Para testar o interior físico de um objeto como interior. no lugar do herói. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. ao passo que o som invade o ouvinte. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. ou cadeiras em um auditório. um objeto translúcido. as Três Parcas e assim por diante. a uma distância. Aqui. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. a voz humana vem do interior do organismo humano. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. de um espelho. A visão chega a um ser . Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. por exemplo. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra].) Uma fonte de luz. como observou Merleau-Ponty (1961). encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. no entanto. as figuras não sobreviverão. a vista também não pode se "concentrar" nele. além da mera utilidade mnemônica. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. tal como um fogo. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. por fim. Porém. que. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. De modo análogo. Numa economia noética oral. sua evanescência. constantemente recua e foge. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. pp. 65-67). O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. 9-11. E. exteriores. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. as Três Graças. porque. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. contrasta com a reflexão especular. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. O som existe somente quando está desaparecendo. A profundidade pode ser percebida pela vista. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. produzam figuras heróicas e agrupamentos. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. A vista isola. O tato. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. pode ser interessante. pela impressão. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. após cerca de três séculos de impressão. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção.

A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada.o sentido da dissecação . Podemos mergulhar no ouvir. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. que é definido por "dentro de". Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. O conhecimento é. preciso girar meus olhos de um lado para outro. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. O auditório ideal. 231-235 etc. no som. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". pp. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". um sentido unificador. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. Na visão.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. como num atlas impresso moderno. ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. na qual a palavra existe apenas no som. uma luta pela harmonia. embora conhecesse certamente muitos itinerantes. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. 221). as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). na qualidade de palavra falada. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. nem mesmo à possibilidade de um tal texto. estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. com o homem em seu centro. Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. no entanto. 176-179. é harmonia. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. Numa cultura oral primária. São conceitos fundados na existência. pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. o umbigo do mundo (Eliade 1958. que é definido por "entre". desse modo. um estado interior. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. . sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas.Ong 1967b. implementada pela impressão. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. O mesmo vale para "exterior". O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. Quem diz "eu". baseados na experiência que cada um tem de seu corpo. viajantes. de certa forma. dentro de meu corpo). 63. A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. pp. visualizada: a visão é um sentido dissecador). (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . Quando ouço. O homem é o umbilicus mundi. Para as culturas orais . 117-122. girando no círculo tautológico. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". o cosmos é um evento contínuo. que me envolve. fundamentalmente. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. a psique não é sadia. a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. Sem harmonia. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. os seres humanos iriam. pp.). é um colocar junto. '. por outro lado. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. aventureiros e peregrinos. ' . Com "interior" e "exterior". mas unificador. 228. d o que a que envolve coisas impessoais. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas".o som é. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como. Ao contrário da visão . não um fenômeno fragmentador. A propósito. e assim por diante.

fundamentalmente um som. nas religiões mundiais mais abrangentes. mas um "sistema modelar secundário" (cf. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido.) . um movimento no tempo. A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. como indivíduos. por exemplo. A escrita e a impressão isolam. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. "A letra mata. p. Record). A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. desse modo. "A fé vem pelos ouvidos".é uma abstração excessiva. num som real ou imaginado. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. Para pensar em leitores como um grupo unido. A palavra falada é sempre um acontecimento. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). que nos deu a palavra "signo". a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. refere-se diretamente à palavra falada. uma representação textual. o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. Em virtude de sua constituição física como som. Quando um orador se dirige a um público.T.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. até mesmo em suas partes epistolares. como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. o português não tem equivalente para readershíp. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. 14). se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . O hebraico dabar.etimologicamente.esta revista tem um readership de 2 milhões . os ouvintes normalmente formam uma unidade. A mentalidade oral do texto bíblico. direta ou indiretamente. consigo mesmos e com o orador. reais ou imaginadas. Na cristandade. cujos significados. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. nada deixou por escrito. visual de uma palavra não é uma palavra real. que significa "palavra". com as preocupações fundamentais da existência. 176-191). O pensamento aninha-se na fala. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. O coletivo readership' . Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. o • Significativamente. mas a falada. No entanto. Signum. (N. pp. a unidade do público é desfeita. restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". todos. a Palavra de Deus. Eventualmente. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. não escrevendo para eles. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. significa também "acontecimento" e. Na maioria das religiões. é espantosa (Ong 1967b. lemos na Carta aos Romanos 00:17). Jesus. como se fossem realmente ouvintes. como um "signo". completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. Na teologia trinitária. Lotman 1977). não em textos.

a análogos visuais. como uma águia. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. 7). na verdade. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. ao mesmo tempo. ver Yates 1966. e "o tempo caminha". elevando-o acima do mundo comum. pois a oralidade primária subsistia residualmente. isto é. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. por exemplo. Embora os romanos conhecessem o alfabeto. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. Mas isso também falsifica o tempo. (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. mas pelo vôo. o mastro do barbeiro.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". esse signum não era uma palavra soletrada. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. indivisível. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . Ainda na Renascença européia. "objetivo" . leva-nos para a morte real. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. p. O tempo real absolutamente não tem divisões.mas somente parece. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. o tempo parece estar sob um controle maior . pois o tempo real. causados por distorções sensoriais. Reduzido ao espaço. Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. inexoravelmente. grosseiro. as três esferas do agiota. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. ao tratar da internalização da tecnologia. num sentido em que as palavras não o são. seguir). toda a experiência humana. eram. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. repito. (Sobre os rótulos iconográficos. Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. do que a "desconstrução" da literatura. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . pesado.que sugere evanescência. e se ele não é exato. muito mais difícil. efeitos que são brilhantemente fascinantes. parece. uma ao lado da outra.) De modo análogo. é limitar nossa compreensão .talvez incipiente em culturas orais. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. tendiam a registrar neles não um nome escrito. que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. . mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. o ontem não estalou para o hoje. como é representado num calendário. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. Eram "signos". da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". alquimistas letrados. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. algo mais.a reduzir toda sensação e. mas também por vezes psicodélicos.embora realmente produza. sekw-. quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. mudos. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. sem nenhuma parada ou divisão. fenômenos visuais imóveis. O som é um evento no tempo.

. Sem a escrita. a escrita transformou a consciência humana.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). pp. mas normalmente. 21-23. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. pela tecnologia da escrita. mas da estruturação dessas capacidades. direta ou indiretamente. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. Mais do que qualquer outra invenção individual. como o oral. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. porque foi separado de seu autor. não apenas quando se ocupa da escrita. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais.

diz Platão através de Sócrates. possui algo dessa qualidade vática. e muitas ficam angustiadas. A escrita. fazem-nas por meio da impressão. como se viu (Havelock 1963). pp. Tecnologizada a palavra. A escrita enfraquece a mente. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. 31-32). toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. no Fedra. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. As calculadoras enfraquecem a mente. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. Além disso. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. ao saber que. enquanto o livro existir. Fora dele. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". muitas . A joniori. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. Hieronimo Squarciafico. se o fizermos a um texto. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. É uma coisa. objeta o Sócrates de Platão.em vaticínios ou protecias. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). aliviam-na do trabalho que a mantém forte. ele as pôs por escrito. a escrita destrói a memória. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. incluindo sua crítica à escrita. Os textos são inerentemente contumazes. A escrita. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. exceto as mesmas. Como o oráculo ou o profeta. um texto escrito é basicamente inerte. um produto manufaturado. é claro. não a fonte. para tornar mais convincentes essas objeções. fora de contexto. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. a escrita é passiva. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. assim como outras pessoas. O mesmo. e mais ainda a impressão. o livro substitui a enunciação de uma fonte. orais. artificial. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). é dito dos computadores. pois julgava-se ser ele a voz do deus. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. para tornar mais convincentes suas objeções. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. Em terceiro lugar. é inumana. Em segundo lugar. fundamentalmente. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. Na verdade. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. Obviamente. não obteremos nada. ela criou a crítica. pp. podemos obter uma explicação. os pais. A escrita. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. para torná-Ias mais convincentes. em um mundo irreal. Atualmente. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. Como os computadores. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações.

como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos. Em pippapasses. um certo pictograma significará uma certa palavra específica. Ao contrário da linguagem natural. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. pp.em que pressagia a própria morte . com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. "cada livro é teu epitáfio". Não há como escrever "naturalmente". Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. parte de seu próprio processo reflexivo. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. sua rígida fixidez visual.da do mundo da velha vida cotidiana oral. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. imóveis. calorosa.) . coisificada. não são interativas. tiras de madeira. pincéis ou canetas. de 2 Coríntios 3:6 . (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. No entanto. e além dela. ou reação exagerada. "ver". As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. como tal. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. A fala completa a vida consciente. "forma". seu afastamento do mundo da vida cotidiana. mas o espírito dá vida" . Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. "visível" ou "vídeo". a redução do som dinâmico a um espaço mudo. a quem ele expulsara de sua República). Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. b um outro e assim por diante. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. assim como tintas. ou registro escrito. tardia.30. "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. a escrita é inteiramente artificial. conscientes. oral. e muito mais. é claro. A flor morta. A escrita. peles de animais. e de que ela destrói a memória. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. Clanchy (1979. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley. embora. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). é o equivalente psíquico do texto verbal. A escrita é. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. individualmente interativa (representada pelos poetas. O termo idea. é claro. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". As idéias platônicas são mudas. em qualquer cultura. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. de que na Biblioteca Bodleian. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. 230-271). único lugar em que as palavras faladas podem existir.I) . em Oxford. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. mas isoladas. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. Voltaremos a essa questão posteriormente. encontrável em dicionários impressos de citações. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". de certo modo. É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). estão inteiramente acima e além dela. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. outrora viva. a mais drástica das três tecnologias. pp. Platão. superfícies cuidadosamente preparadas. desprovidas de todo calor. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. isto é."A letra mata. ou a representará um certo fonema. móvel. hostil.

ampliar o espírito humano.) Um registro escrito. de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer. transformações interiores da consciência. e mais ainda quando afetas à palavra. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo.bombas. A escrita aumenta a consciência. Os desenhos representam objetos. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. poderia dizer. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. uma ferramenta. Isso exige anos de "prática". 141 e 168). para compreender o que ela é . isto é. E vários dispositivos de registro. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. necessitamos não apenas da proximidade. intJnsificar sua vida interior. As tecnologias são artificiais. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. é resultado de alta tecnologia. Os códigos. Gelb 1963). um registro escrito é mais do que desenhos.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. E assim por diante. isto é. por exemplo. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. Para viver e compreender plenamente. Tais transformações podem ser enaltecedoras. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio. acentua-a. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. na verdade. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. obviamente. em representações de coisas. pelo contrário. mas também da distância. feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. tal como entendido aqui. é altamente desumanizante. ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano.a artificialidade é natural aos seres humanos. em última análise. à oralidade -. uma parte psicológica de si mesmos. Um órgão é uma máquina enorme. ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. geradores elétricos . A orquestra moderna. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. na verdade. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. é a representação de uma elocução. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. Obviamente. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. não consiste em meros desenhos. interiores. Um violino é um instrumento. (Diringer 1953. mas um código não é desenhável. mas . humanamente compreensível. foles. Para conseguir tal expressão. adequadamente interiorizada. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. sim. sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. isto é. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical.inteiramente exteriores a seu operador. pp. ou aides-mémoire. Porém. no sentido de uma escrita genuína. que especificam exatamente como usar as ferramentas. o aprendizado de uma habilidade tecnológica. Mas. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. O desenho de um homem. A escrita. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. O primeiro registro escrito. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. Como outras criações artificiais e.c. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. mas. usando um dispositivo mecânico. mas elogiá-Ia. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . com recursos de força . um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. A tecnologia. no sentido estrito da palavra. que conhecemos. mais do que qualquer outra. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. de Morton Subotnik.novamente um paradoxo . Até mesmo quando é pictográfico. fileiras de seixos. ou verdadeira escrita. não rebaixa a vida humana.

Os registros escritos têm antecedentes complexos. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. ao uso de sinais. pois o primeiro registro cuneiforme. 3000-2400 a. originou-se. de forma a incluir qualquer marcação semiótica. o "Linear B" minóico ou micênico. dentro da bula. 1500 a.C. o registro do vale do Indo. Assim. em seu sentido comum. (datas aproximadas segundo Diringer 1962). Contudo.c. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem. 3500 a. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . Diringer 1960.usar a escrita para produzir literatura .. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. Desse modo. não quando a mera marcação semiótica foi imaginada.Wilson 1975. Em alguns sistemas codificados. sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto.digamos. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). se não a totalidade.digamos. isto é. gradativamente. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos.). Até mesmo com o alfabeto.c. como no sistema desenvolvido pelos vai. os hieroglíficos egípcios. 1200 a. o da visão. interpretável apenas por aquele que os faz.faz e à qual atribui um sentido. mas totalmente fechados. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. o contexto extratextual às vezes é necessário. 3000 a.indicavam. sete entalhes . da mesma regiào que as bulas. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl.c. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. Usar a escrita para criações imaginativas. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas. banaliza seu significado. pelo menos em parte. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. o maia.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. pequenos. em um nível ainda mais elementar. os símbolos do lado de fora da bula . ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico.C. A maioria. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios.. ocos. de um sistema de registro de transações econômicas. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. indicando que deve ser lido até o fim. ou às vezes.c. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. .c. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. o primeiro de todos os registros conhecidos (c. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . o que representavam . talvez. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica. Se anoto em um documento: read. O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. Se isso é o que se entende por escrita. mas somente em casos excepcionais . (talvez sob alguma influência do cuneiforme). Não é um mero apêndice da fala... o asteca. seria "escrita". sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. pp. indicando que ()~ documento foi inteiramente lido. o chinês.o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. Existem estágios intermediários. 3500 a. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. A escrita. 1400 d. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. 50 d. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas.c.

de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. 3 e assim por diante. 2. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. mas não às palavras "primeiro" e "segundo". Em um sentido especial. mutuamente incompreensíveis. Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . em 1716 da nossa era. Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. 2. sole no sentido de "apenas". (Todavia. o mandarim. p. ou já conheceu. arrola 40. embora primorosamente estilizados. A perda para a literatura será colossal. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". A comunicação pictográfica. Desse modo. 2. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. incapazes de compreender o que os outros dizem. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). todos eles. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. algo como um francês. um luba. Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. mas a palavra "floresta". como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. Todos os sistemas pictográficos. 3 e assim por diante estão. no pictograma chinês. mas estabelecido por código: por exemplo. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). um caminho [walkl e uma chave [kryl. como uma letra do alfabeto. para "criança" [dzal.) Algumas línguas são escritas em silabários. Indubitavelmente. freqüentemente. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. 3. nessa ordem. ou soul [almal associada a "corpo". Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista.inglês sole . de certo modo.no sentido mais específico história do registro. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). 3 não são. o que 1. Uma espécie é o ideograma. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. numerais como 1. podem compreender a escrita. poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos.545 caracteres. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. O chinês é o maior. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. requerem uma espantosa quantidade de símbolos. 2. Mas. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. Nenhum chinês ou sinólogo conhece. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. o . que agora está sendo ensinado em toda parte. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. 2. o significado pretendido não fica inteiramente claro. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. desse termo. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. como aparece aqui. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. até mesmo naquela época. desenhos de um moinho [mil/l.

121-122. mu e assim por diante. pp. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. ku. "pontos" vocálicos. grego. rébus e várias combinações. Todavia. como o árabe. eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa".derivam. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh". Além disso. até hoje não possuem letras para vogais. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. mais ou menos. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. muitas vezes extremamente complexas. na história do alfabeto hebraico. tâmil. pronunciados a sua própria maneira). como nos registros u~arítico e coreano. quando os pontos vocálicos são usados. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. . por exemplo. Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. Havelock 1963. o cuneiforme. não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963.até o terceiro ano. ideogramas. outros rébus). p. Posteriormente. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. à medida que lêem. No do vai.) Todos os alfabetos do mundo .. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). o de que foi inventado apenas uma vez. que significa "não"). talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. que se tornou nosso "a" romano. A letra aleph.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. o semítico do norte e o semítico do sul.hebraico. me. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. foram acrescentados a muitos textos. ele usa caracteres chineses. para ka. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados. arábico. alguns ideogramas. "claustro"). mas 2 mil anos depois dele. em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus. e é muito difícil de ler. p. assim como outras línguas semíticas. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". de uma forma ou de outra. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. o sistema coreano é híbrido (além do hangul. ko. não é uma vogal. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". coreano . respectivamente. discordantes em quase tudo o mais. 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. romano. mo. As línguas organizam-se de diferentes maneiras. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. ele usa caracteres chineses. Na verdade. culturalmente ricas e poeticamente belas). pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. ki. ugarítico. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. ke. mi. Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. O hebraico. cinco outros para ma. malabarense. na Libéria. na verdade. mesclando dois ou mais princípios. 456). exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. embora. ela simplesmente representa o fonema [b]. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos.c. (Diringer 1962. do desenvolvimento senútifo original. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. O fato mais notável sobre o alfabeto é. Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. um alfabeto genuíno. E israelenses e árabes modernos. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. discute as duas variantes do alfabeto original. cirílico. sem dúvida.

temos dois. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. que admitia a omissão de vogais na escrita. sem dúvida. no entanto. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. Mas o rébus (fonograma). nem "amora" nem "aroma". O alfabeto. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. com vogais. não reduz o som ao espaço. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. de algum modo. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. como no exemplo fictício usado acima).) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. como muitos outros sistemas de escrita. Kerckhove (1981) sugeriu que. Todo registro escrito representa as palavras como se. o "desapare-" já acabou. marcas imóveis para a assimilação pela visão. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. sobre bases neurofisiológicas. que uma palavra é uma coisa. elas fossem coisas. Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. Um desenho. "pássaro". porém crucial. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. tori. favorece o pensamento analítico. o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. igualmente. Nos livros e jornais coreanos. da palavra. como já explicamos anteriormente. não uma palavra. pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. Constitui um registro democratizante. em componentes puramente espaciais. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. abstrato. pois representa um objeto. O som. mas um som completamente diferente. desse modo. quase total. não um evento. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. Parece que a estrutura da língua grega. para os escolares israelenses. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. Rébus ou fonogramas. pãjaro. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". quando chego ao "-cendo". Ele representa o som em si como uma coisa. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). objetos mudos. existe somente quando está desaparecendo. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. Vogel. Ele analisava o som de modo mais abstrato. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. A escrita de caracteres chineses. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. com certeza. sae. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. até o terceiro ano. não obteremos "aroma". uccello. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. É talvez. mais analíticas. por converter o som a uma forma visível. Porém. digamos. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. embora possa representar várias coisas.r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. Era também "internacionalizante". Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. de um pássaro. Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. facilmente aprendido por qualquer pessoa. mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. (Observou-se há pouco que. semi-permanente. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . b mais a. O alfabeto implica que as questões são diferentes.

p.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. abre caminho pela primeira vez na direção de uma .. caixas de papelão. inici(l1mente. ele o faz necessariamente. Eckvall). Milhares e milhares de coreanos . conhecimentos de embarque.encomendas. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. 120-121). Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. na realidade. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968. Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . Até aquela época. Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. alfabético ou outro. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas. ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. Clamor girls são.e.além do alfabeto . não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras. recibos etc. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. foi comumente associado à magia. por meio de uma forma dialética escocesa. que todos podem virtualmente ler. ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. Apenas no século XX. pp.todos coreanos que sabiam escrever . Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . pp. que são o mínimo exigido . pp. Porém. onde. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. Na cultura da antiga Grécia. 15-16). como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b.B.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar.jornais. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. 236). 16. ao passo que os 1. Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. A escrita é muitas vezes considerada. a recepção dessa façanha notável era previsível. referente ao aprendizado livresco. ou caracteres chineses. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. 201-203). Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. com a democratização maior da Coréia. A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. recibos (Achebe 1961. p. uma realização magistral. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. diante da prevista resistência maciça. sociedade específica. 300-309). Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. O futbark. 113-114). vulgares. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. pp. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. . pp.800 ban. no lruCIO. Porém. práticos. em 1443 d.para ler a maior parte da literatura em coreano. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele). em setores restritos e com diferentes resultados e implicações.alfabeto. e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. citando R. p. A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). 13). A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. garotas de gramática.

90). papiros (melhor do que a maioria das superfícies. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. produzir um pensamento com a pena na mão. bastões de madeira (Clanchy 1979. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. junta suas palavras no papel. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. peles de animais (pergaminho. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. ele possuía blocos de barro molhado. Compor à medida que se escreve. Como superfícies para a escrita. Eadmer de Saint Albans. então. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. p. Ou então cascas de árvores. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. na Inglaterra do século XI. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. era. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. Como ferramentas para escrever. Nesse estágio de profissionalização da escrita. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. 88-115. p. Durante a Idade Média. comumente na Ásia Oriental. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos.. ou um construtor naval para fazer um barco. evidentemente. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. folhas secas ou outros vegetais. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. São Tomás de Aquino.c. manufaturado na China. velino) desbastadas de gordura e pêlos. Ainda era raro na Inglaterra do século XI e. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. que escreveu seus próprios manuscritos. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). Nesse estágio. No ato físico de escrever. como o Mali. p. como na aquarela. Havelock e Herschell 1978). quando compunha por escrito. particularmente em composições breves. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). Não existia papel. até mesmo então. 218). pp. mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . Mas. sobre "A tecnologia da escrita"). desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. esse estágio foi superado. provavelmente por volta do século II a. ou. cf. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. pela ordem. Goody 1968b). De modo semelhante.se é que algum o faz -.. quando ocorria. os escribas possuíam vários tipos de estilete. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções.de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. na Europa.C.

o Conde Warrenne exibiu não uma carta. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. 235-236). Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. todos os dias. 25). 232-233). pp. de bom testemunho". Voltaremos a falar (isto é. porém a história cuidadosa. atualmente. Clanchy chama a atenção 0979. imposto por milhares de calendários impressos. provavelmente por diversos motivos. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). pp. . 231. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente.Clanchy 1979. No período estudado. Antes do uso de documentos. As culturas mais antigas. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. pp. sábias e maduras. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. "pessoas de idade. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. p. do nascimento de Cristo. elaborada por Clanchy. Cada jurado jurou que. as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. pp. devemos lembrar. Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. Em 1127. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. ela pode ainda não lhe dar muito valor. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. o Conquistador. p. Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. em uma moldura de tempo computado abstratamente. até mesmo em um meio administrativo. que conheciam a escrita. relógios de parede e relógios de pulso. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. 230). como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. por exemplo. À primeira vista. não (isso. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). mas não a haviam interiorizado o suficiente. Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. especialmente em um tribunal. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. a idade de herdeiros feudais. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. ao passo que os textos.pensamento baseado na oralidade. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. mas "uma espada antiga e enferrujada". O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. presa ao documento por uma correia de pergaminho . todos vivemos. Por volta de 1130. p. mas por objetos simbólicos (como uma faca. 24). p. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos. De fato. Na Inglaterra do século XII. 236-241). a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. 238).

H. "gerando"). 44 são certamente falsificadas.contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. eles acamparam em Quibrote-Ataavá. Partindo de Quibrote-Ataavá. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. Em vez de uma recitação de nomes. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. encontramos uma seqüência de "gerou". o Confessor. . nas culturas funcionalmente orais. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. portanto. flexível e recente" (Clanchy 1979. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. a cada momento de suas vidas. e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados. p. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. paradoxalmente. porque o passado mais remoto era. É o domínio dos ancestrais.. pp. faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. de fato. sublinha Clanchy. que começam por volta de 3500 a. Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. A oralidade não conhece listas. acamparam em Hazerote. em uma economia de pensamento oral. as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas. a escrita foi. Meujael gerou Metusael. Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . Elas eram identificáveis por sua aparência. No texto da Torá. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael. inacessível à consciência. em sua maior parte. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes). p. A escrita torna possível tais aparatos. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. Partindo de Hazerote. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. são registros de cálculos." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. "A verdade lembrada era . Além disso. uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968.): "Partindo do deserto do Sinai. as pessoas não se sentiam situadas. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!.c. 249. para a maioria das pessoas. E. era automaticamente sempre atualizada e. em certo sentido.461-879) .. 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros.um fato que. De fato. desbastada de material não mais em uso." e assim por muitos versos mais. A lei consuetudinária. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. pp. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. 31-34). mas estão fazendo algo. como facas ou espadas..não um registro de contas objetivo. Sawyer). os de escrita cuneiforme dos sumérios. qual a utilidade. 233). Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos. "Os falsificadores". dos quais o calendário é um dos exemplos.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. portanto. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal". muito velha (cf. citando P.. jovem . como gerador e como gerado). Clanchy 1979. tabelas ou números. isto é. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra. acamparam em Ritmá .. p. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes. como em um alinhamento militar. Goody (1977. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. 233). Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência.

e depois usada para a recuperação visual do material. em vários registros em todo o mundo. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. para o movimento da direita para a esquerda. ou indivíduos reais. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. na escrita grega antiga. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. impossíveis de "examinar". Os textos. As palavras faladas constituem sempre modificações . em seu hábitat natural. regiões do planeta. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha).Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. é resultado não apenas da escrita. b. 4950). Goody mostra em detalhes como. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. As páginas não possuem apenas "cabeças". pelo que se sabe. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. ou todos esses modos ao mesmo tempo. para o estilo stoichedon (linhas verticais) e. As tabelas. 307-318 e passim). depois uma volta na ponta para a outra linha. de baixo para cima . Tudo isso constitui um mundo de ordem. tipos de ventos e assim por diante). nos primeiros tempos da cultura escrita. A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. em uma linha horizontal. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. imobilizados no espaço visual. suas próprias leis de movimento e de estrutura. quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. c e assim por diante. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas.. existencial. que vai da direita para a esquerda. A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. ou da direita para a esquerda. porque não são apresentadas visualmente. A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. são antes "memória de canções cantadas". representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. como nos índices. a outro indivíduo real. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço. quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. para indicar a seqüência. uma linha indo para a direita. para notas de roda pé. e até mesmo os poemas. pp. mais precisamente. aos fonemas que codificam.Não são percebidas como uma coisa. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b.aos sons ou.externamente ou na imaginação . são antes enunciados que são ouvidos. A palavras. pp. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. Em qualquer lugar do mundo. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. Os textos são coisas. pp. vivo. mas como reconstituições de eventos no tempo. como em uma escrita bustrofédon. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). mas também "pés". eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. vivo. vivos. oral. são parte de um presente real. o alfabeto. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. finalmente. mas nunca em lugar algum. ou de cima para baixo. Kerckhove 0981.

na verdade. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. mas elas não serão completas.animado. irado. o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. sem a escrita e. as palavras estão sozinhas em um texto. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. por outro. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. adotada e adaptada por críticos habilidosos. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. excitado. Nem poderia. portanto. Elas nunca ocorrem sozinhas. Para que um texto comunique sua mensagem. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. pp. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. De fato. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. Enquanto escrevo o presente livro. na Idade Média. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. Mais tarde. uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz . resignado ou qualquer que seja. 53-81). A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. sem a impressão. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. Além disso. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). posso muito bem estar morto.e realmente enchem . não importa que o autor esteja vivo ou morto. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história.escritores de diários de angústias. mas também para o escritor. mas escrevendo-a. De fato. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. espero. de certo modo. . portanto. Escrever é uma operação solipsística. como os do Sócrates de Platão. ao "escrever" algo. uma "moldura histórica". Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. calmo. A tradição letrada. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. em um sussurro. ao compor um texto. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . e em um diário. Em um texto. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. A enunciação falada vem apenas dos vivos. por exemplo. O memorialista já não pode conviver com sua ficção.de uma situação que é mais do que verbal. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. Estou escrevendo um livro que. possa interromper minha solidão. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. Na linguagem falada. No entanto. o diário requer. em um contexto simplesmente de palavras. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. Eles apresentam um material filosófico em diálogos. Em um texto. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. isto é. será lido por centenas de milhares de pessoas. ao qual ele deve se moldar. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. finjo estar falando comigo mesmo. Quando meu amigo ler minha carta. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. para que o leitor possa imaginar um debate oral. devo estar isolado de todos. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo.

e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). nós as reduzimos a um mínimo. no sentido de que se lê bem em voz alta. de muitas das enunciações orais. "linguandoas" de ponta a ponta. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. Porém. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. Porém. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. o fluxo de palavras. postas na superfície. Portanto. a tornar o falante muito pouco convincente. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. as correções podem ser tremendamente produtivas. tirando-a do contexto existencialmente rico. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. Por meio de um texto tratado quirograficamente. Não há mimese. _ como nos provérbios. expresso na forma de diálogo. murmurante confusão" de William ]ames. eliminar incoerências (Goody 1977. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. ela pode retroagir na fala. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. narrativa. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. existencial. quer sejam longas. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. como na narrativa formal. quer sejam breves e apotegmática~. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". e o faz. apagadas. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. Na escrita. na verdade.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. língua. e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. em partes mais ou menos separadas. oral. salvo ironicamente. podem ser eliminadas. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos. As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. as palavras escritas refinam a análise. sem um ouvinte real. uma vez "proferidas". Apenas um leitor. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). Para nos fazermos entender sem gestos. em qualquer situação possível. Evidentemente. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. de um tipo ficcional. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. não-analítica. 49-50). a "grande. Em uma cultura oral. segmentos significativos. 272-302). o correspondente fluxo de pensamento. pois se exige mais das palavras individualmente. no sentido aristotélico. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. ou então as evitamos totalmente. as palavras. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. aqui. Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. p. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. sem expressão facial. sem nenhum contexto .E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. O que Goody 0977. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. maldita. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. pp. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. Todavia. sem entoação. pois os diálogos são. Com a escrita. exteriorizadas. na escrita. mas caótico. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. textos escritos. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . mudadas. pp. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. A escrita é de fato a sementeira da ironia. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes.

Todas elas possuem textos sagrados. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. além de certas peculiaridades sintáticas.. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. para construir o conhecimento filosófico e científico. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. Conquanto seja verdade que eles eram todos. pp. na Alemanha ou na Itália. o judaísmo.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. em sua essência. Na Inglaterra. políticos. na Itália. à Bíblia ou ao Corão. Muitas vezes. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. Basil Bernstein 0974. 134-135. não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. é obra de uma mente letrada. pp. respectivamente. mas "como contas em uma caixa" (1974. particularmente os gregos. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. pp. Analogamente. 181. investiram enormemente na escrita. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. 134) . Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. como na Inglaterra. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. da impressão. no entanto. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. carentes de significado pessoal premente. com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". e finalmente se tornou uma língua nacional. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. 56-57). operam funcionalmente. para uma elaboração plena. tais como os conhecemos (Ong 1967b. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. o cristianismo e o islamismo. 15). e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. pp. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. 176. 83). O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. com o toscano. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. 50-71) chamou. como o pensamento e a expressão orais em geral. muito diferente dela própria. como se viu (p. presente nas orações de Cícero. com propriedade. Como ressaltou Guxman 0970. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. p. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. ou mais propriamente dialetos. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. o código lingüístico restrito não funcionará. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. religiosos ou outros. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. Porém certas línguas. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. dialetos regionais e/ou de classe. . "grafoleto". abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. 773-776). por motivos econômicos. p. descartou certas formas dialetais. na Alemanha. pp. Porém. escreVeU-OSposteriormente. oralmente e por escrito.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam.

favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem. A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. lexicógrafos e outros. 74-111). gramáticos. 108. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. p. 255-283). Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. a despeito de toda a fecundidade subseqüente. em um sentido profundo.além do grafoleto . por exemplo em inglês.Um grafoleto moderno como o "inglês". porque não há nada "errado" com os outros dialetos. pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática.S. Porém. pp. a fortíorí. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. Mas Hirsch 0977. ao que parece. 60). pp.e a afetam. pp. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. São a retórica acadêmica e o latim culto. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. representada por Sócrates. pp. pois os outros dialetos do inglês. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. porém sua plenitude se deve à impressão. 43-50) vai mais além e diz que. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. foi trabalhado durante séculos. nenhum outro dialeto. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. depois pelos teóricos normativistas. e arrendondando os números. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. É má pedagogia insistir nisso. Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. Nesse sentido. que é muito menor. mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. Platão e Aristóteles. C. constituía um elemento menor na cultura . apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. 136-137). a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. impresso. À luz desse fato. quando outros dialetos de uma dada língua . possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. são interpretados no grafoleto. alemão ou italiano. Na Grécia Antiga. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. Onde existem grafoletos. os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. 1-22. primeiro e mais intensamente.diferem da gramática do grafoleto. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. o estudo da "filosofia". assim como milhares de línguas estrangeiras.

Os gregos homéricos e pré-homéricos. que explicava e sustentava a persuasão verbal. procurando causas. como as outras "artes". da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). 1971) -. inconscientemente na verdade.. o mal. voltando as costas ao mundo oral. No primeiro. Desde pelo menos a época de Quintiliano. 147-187. como vimos. Durante séculos. da apresentação oral para a escrita). quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. . 56-87. foi. como em geral os povos orais. menos analíticos. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro. considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. C. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. mas que. fórmulas) sobre vários tópicos . Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. 1971.sobre qualquer assunto. Como Platão. Mas. pp. a guerra etc. a culpa de um acusado de crime. (Lanham 1968. referiam-se aos "assentos" de argumentos. etc. embora dissesse respeito à linguagem falada. efeitos. definitiva senão totalmente. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. As culturas orais. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado.S. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. as novas estruturas quirográficas de pensamento. efeito. e a tradição filosófica. isto é. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . para seus primeiros descobridores ou inventores. pp. nunca competindo com a retórica. Índice).. causa. Murphy 1974. o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. No segundo sentido. os sofistas da Grécia do século V. como sugere o infeliz destino de Sócrates.tais como lealdade. Howell1956. 23-103). à Era das Luzes (por exemplo. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. contrastes e tudo o mais. Howell1956. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro).antinomasia ou pronominatio. amizade etc. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. -. Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. Sonnino 1968) . Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. antes da escrita. tal como a lealdade. pp. Com sua herança agonística. A "arte" da retórica. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. decadência. paradiastote ou distinetio. Kennedy 1980. tais como definição. Nesse sentido. não comportam "artes" dessa espécie organizada. quer no número de seus praticantes. contrastes. isto é.da Antiguidade Clássica. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. pareceria óbvio que. pp. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. passando pela Idade Média e pela Renascença. Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento .grega. a retórica era algo maravilhoso. produto da escrita. científico. Lewis estava. a amizade.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!". 194-205). As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito. em um sentido muito profundo. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado.

com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. continuou em latim. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. Por volta de 700 d. médicos. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. com ela. na Alemanha). 192-222. Não havia como traduzir as obras literárias. é claro. Oliver 1971). à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola.. pp. retórica. que muitas vezes possuíam formas diferentes. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). herdados do passado. diplomatas e outros servidores públicos. real embora muitas vezes vaga. 451. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. como tantas desde 1600. A retórica. Não havia realmente outra alternativa. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. outrora uma . Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. vernaculares. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. muito menos oratório. tanto no mundo mental quanto no extramental. Porém. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. de um modo ou de outro. 119-148). o finlandês e o turco. a maioria deles nunca escrita até hoje. mas nas mais novas. título). pp. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. está claro. ao passo que as escolas mais antigas. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. 1981. 453-459). espanhol. O latim. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. com instrução baseada no latim. ao contrário dos indianos e dos chineses. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. na Inglaterra. como efeito ou ambos. mutuamente ininteligíveis. Até que um ou outro dialeto.C.C. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. acadêmica. francês e outras línguas românicas.. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. a escolaridade e. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. científicas. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. catalão. Da época medieval em diante. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. ou o hochdeutseh. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. advogados. filosóficas. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. por motivos econômicos ou outros. No século XIX. pp. Da Antiguidade grega em diante. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. praticamente nenhuma teve tal treinamento. O latim culto foi um resultado direto da escrita. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. é essencialmente antitética (Durand 1960. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. Entre cerca de 550 e 700 d. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. como causa. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966.

estava vinculado ao sexo. como vimos anteriormente. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. 28-34). Todas as línguas usadas para o discurso culto . 1981. em todas as demais dependências escolares. O latim havia sofrido um corte som-visão. pp. pp. que era totalmente masculina . em um cenário tribal que era. Por ordem dos estatutos escolares. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. como todas as línguas realmente em uso. Por um lado. Sugeriu-se (Ong 1977. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. pp. Sem o latim culto. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. mas o rhetor. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. no sentido restrito. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é. tornou-se assim uma língua escolar apenas.embora. outras línguas controladas quirograficamente. Em virtude de sua base na academia. juntamente com o grego bizantino. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. o sânscrito e o chinês clássicos. por exemplo.língua materna. Paradoxalmente. eram controladas exclusivamente pela escrita. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. de fato. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. A ciência moderna nasceu do solo latino. A escrita. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. Baurnl 0980. estabelecer a objetividade. além de sua proveniência clássica. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. aprendidas na infância. era uma língua quirograficamente controlada. 113-141. Despido de balbucios. vinculada ao sexo. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. falado não somente nas salas de aula. 264) chamou a atenção. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. como acabamos de observar. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. A tradução era transformação. uma língua inteiramente controlada pela escrita. se é que o teria feito. aprendida fora do lar. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. sempre têm. oralmente. não usado pelas mães ao criar os filhos). de modo paradoxal. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas.ainda que nem sempre de fato -. p. pp. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. como o latim culto. na verdade. Durante esse período. isolado da mais tenra infância. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. um cenário de rito de puberdade masculino. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. o orator. o árabe clássico. Durante mil anos. o orador público. Assim também seu vocabulário básico . parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. o latim tornou-se o latim culto. 119-48). mas também. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. A interação criou todos os tipos de resultados. Não havia usuários puramente orais. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. todos sabiam também escrevêIa. mas sempre escrito da mesma maneira. em princípio . Não obstante. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. assim. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito.

eclesiástico ou político. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. 53-87.T. pp. Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. Nelson 1976-1977. estruturas formulares e lugares-comuns. à medida que o latim foi expulso. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. livresca. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. pp. da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. gradativa mas inevitavelmente. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. disposição. O célebre McGuJfey's readers. 1971. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. Os três Rs . Durante o processo. 16. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. Crosby 1936. que não era aplicável à escrita. do mundo oral para o quirográfico. Atualmente. Desde a Antiguidade Clássica. elocução (Howell 1956. 241-255). Porém. Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. mas também na escrita. gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. Por volta do século XVI. 'riting e 'rithmetics· -. Ainda aspirando à velha oralidade.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. por esse motivo. declamatória. ritmo. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto.atualmente são também línguas maternas (ou. carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. e mesmo muito depois. agonística. fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. heróica. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. "escrita" e "aritmética". nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. antíteses.reading. relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). 23-48). pp.) "leitura". Na Antiguidade Clássica ocidental. durante o século XIX (Balogh 1926). Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. 144-256). ele também retornou à Antiguidade e. mas a leitura oral. pp. memória e elocução). estudantil. A própria retórica emigrou. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. pp. 20). Ahern 1982). numa forma popular. 146-172. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia.). jocosa. 23-47). 270 etc. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). Uma vez concluída. os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. comercial e doméstica. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. pp. comumente com muitas variações. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. Elas estavam também reduzindo a última. Em larga medida. pp. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. mas sempre pelo debate oral . no entanto. . no caso do árabe. estilo. a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. deu nova vida à oralidade. que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional. os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje.

Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. Em um trabalho deste alcance. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. Além disso. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. Ibe printing press as an agent of change . embora não o único. Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual.

sapatos ou armas. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. sim. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. com ela. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. Porém. alterou a vida social e intelectual. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). palavras inteiras. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. mudou a vida em fanúlia e a política. "A visão é muitas vezes enganadora. de "ouvir" livros de contabilidade. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. . como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. Clanchy 0979. e não a escrita. e desde o século VII ou VIII. por outro lado. Pelo menos até o século XII na Inglaterra. produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio." No Ocidente. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. como unidades. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. durante a Renascença. embebendo-o novamente no mundo oral. e. 5). apenas caracteres basicamente pictográficos. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. e não olhando. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. mais do que a visão. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. como nos debates universitários medievais. A primeira linha de montagem. permitiu a ascensão das ciências modernas e. Ahern 1981.[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). Com o caractere tipográfico não é assim. e referências lá citadas). dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. A audição. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. 1967b. que realmente reificou a palavra e. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. muito mais do que a escrita jamais fizera. na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. Em fins de 1700. Como o alfabeto. mas não o alfabeto. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. 1971. uma técnica de manufatura que. Durante milhares de anos. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". foi a impressão. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. Os chineses tinham tipos móveis. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. são nossa preocupação aqui. não era do tipo que produz fogões. tanto escrito quanto oral. em uma série de etapas fixas. 306-318). às palavras que irão constituir. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). mas de um tipo que produzia o livro impresso. isto é. a atividade noética (Ong 1958b. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. A impressão sugere que as palavras são coisas. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. pp. pp. Antes de meados de 1400. chineses. implementou a exploração européia do planeta. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. 215. 1977). difundiu o conhecimento como nunca antes. a audição serve como garantia. Anteriormente.

que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. constitui a original. da qual a presente se desviou. Além disso. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. que se iniciara com a escrita. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. 154). p. Todo texto envolve a visão e o som. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. meramente posto em movimento pela visão. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. comumente dividem até mesmo palavras capitais. o "the" inicial é. contudo. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. ver Steinberg 1974. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. As páginas de rosto do século XVI. Evidentemente. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. ao processar o texto em busca de sentido. diferentemente do que fazemos. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. de longe. No entanto. e não a nossa. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. Finalmente. com hífens. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. impresso. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. de sir Thomas Elyot. Nossas atitudes é que mudaram. presumivelmente mais "natural". incluindo o nome do autor. Muito depois do desenvolvimento da impressão. em sua grande maioria. os leitores comumente vocalizavam. essa prática. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. em culturas manuscritas altamente orais. Por que o procedimento original.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. O controle da posição é tudo na impressão. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. a palavra mais proeminente. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. e de uma forma que deve ser explicada. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera.

agentes literários. De um modo geral. A impressão com caractere "a quente" (isto é. no espaço visual. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. com caractere gravado . por sua vez. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. Não obstante. pp. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. leitores de editoras. e em outros registros antigos. caracteristicamente.o mais antigo dos processos. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. A maior legibilidade. em última análise. revisores e outros. O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. 284-303). todas alinhadas à direita. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. Os textos impressos parecem feitos à máquina. falada. especialmente os índices alfabéticos. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. que beneficiam o copista.c. enfeitado. como muitas vezes ocorre em manuscritos. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. silenciosa. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. favorece a leitura rápida. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. e não simplesmente escrito) de Derrida. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. da aparência do texto impresso. As listas começam com a escrita.editores. pp. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . Goody 0977. A impressão é orientada para o consumidor. "É assim que as coisas são" . no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. Ele observa 0977. como de fato são. depois de usados. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). são cuidadosamente reposicionados. O controle tipográfico. Essa leitura. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. como na caligrafia. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. que. embora sejam incômodas para o leitor. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente. encerrando a caixa firmemente em uma prensa. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. pp. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. não humanos. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita.

a serviço da oralidade. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. p. Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. Em 1286. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. pp.ou. como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. p. linhas cuneiformes e linhas alongadas. "ovelhas apascentadas" etc. coisas dessemelhantes e assim por diante. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. baseado na oralidade. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. a recuperação visual não foi prioritária. muitas vezes toscos e comumente não entendidos. com divisores· de palavras para separar itens de números. A indexação não valia o esforço. mas eram raros. por si mesmo. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. como os intitularíamos . mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. visual. listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. até mesmo em um índice alfabético impresso. depois famílias de deuses.. tinham a mesma sensação. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. ainda que copiados do mesmo ditado. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. quase nunca correspondem página por página. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. pp. coisas relacionadas. tais como causa. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. embora não fosse perfeita. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. mesmo na Europa do século XIII. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. 73). 28-29. porque Textor considera apropriado que. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial .) A escrita está aqui. na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. pelo primeiro som: por exemplo. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. 86-87). Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas.gordos". 169-172). o intelecto. na verdade. Acompanhando esse equipamento textual formular. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. (Os educadores no Ocidente. até muito recentemente. efeito. em virtude não de sua própria façanha. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. Clanchy 1979. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. O índice alfabético é. pp. . Raramente o são (Daly 1967. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . antes. assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. em uma obra ligada à poesia. pp. espacialmente organizado. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. Aqui. 85).sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes .a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). Nesse sentido. Um novo mundo noético estava se moldando. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. Os índices alfabéticos ocorriam. No livro impresso. novamente. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. pautas. Obviamente.deuses. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. 81-90. sem nenhuma mudança de página. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado. 144). "Halyzones" é arrolada sob a letra a. Para a localização visual do material em um texto manuscrito. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. que originalmente significava a marca 9[. Um signo favorito era o "parágrafo". um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. na enunciação oral. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. e não uma unidade do discurso. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. uma vez que em italiano e em latim.

" (Aqui está. Muitas vezes. assim como a impressão. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. Agora. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. ficcional ou outra do que como. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). Ao mesmo tempo. um objeto idêntico. e não com partes preexistentes. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. 313). A observação exata não começa com a ciência moderna. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. uma ocorrência no curso da conversação. 31) chamou a atenção para o fato de que. As páginas de rosto são rótulos.Steinberg 1974. duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. como se vê nas Ivins 0953. em vez de uma página de rosto.Nesse novo mundo. Uma vez bem interiorizada a impressão. librum quem scripset quidam de . caríssimo leitor.. O mundo noético hipervisualizado resultan- . o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica. 14-16. com a impressão. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. carissime lector. pois. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. 145-148). p. Porém. Durante séculos. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações.). Com a impressão. por exemplo. caçadores e artesãos de muitos tipos. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas. páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. um livro que fulano escreveu sobre . Do contrário. 40-45).. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. ela foi fundamental para a sobrevivência entre. logo degeneraram em manuscritos. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. a página de rosto (nova com a impressão . pp. do que como um objeto. e o livro impresso.. a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. chegam as páginas de rosto. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual). A herança oral está operando aqui. as histórias de Mwindo e assim por diante). a tendência iconográfica ainda era forte. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. xilogravuras e. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. Desenhos técnicos feitos à mão. depois. anteriormente. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados.. uma "afirmação visual reproduzível com precisão". implementou essas descrições expressas com precisão. títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. sendo um objeto marcado com letras. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. nos manuscritos medievais ocidentais. como mostrou Ivins 0953. uma elocução registrada (Ong 1958b. como vimos. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). pp. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. eram duplicatas umas das outras. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. um livro de uma cultura pré-impressão. técnicas (inicialmente. manuscrita. p. diferentemente dos livros manuscritos. como objetos.

com seus espaços tipográficos. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. sobre o gafanhoto. O poema sem título de E. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. pp. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. 80. mas. Havelock 1963. O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. respectivamente. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. d."espaço em branco". A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. clínica. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . pp. Eisenstein 0979. Em manuscritos. mas não lidas em voz alta. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão. pp. dão aos poemas uma forma visualizada. 115-138). 81. seja a unidade do poema. 61-96).te era absolutamente novo. Nº 276 0%8).palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. por exemplo. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" .E. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. nos quais os versos. o próprio espaço em uma folha impressa . Em Tristam Shandy 0760-1767). 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. ela ainda não consiste em mera imagem. não para o aspecto visual de objetos. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. pp. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. a era da Revolução Industrial. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. De certo modo. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica.). meticulosa. como é chamadoadquiriu um significado importante. discutidas por Goody 0977. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. isto é. mas também sobre a imaginação literária. sugerindo asas e um altar. de vários comprimentos. Cummings. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. alcançam a maturidade principalmente na era romântica. as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. . Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. na verdade. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". 202 etc. 65-66. Já no início da era da impressão. p. próximas às descrições que surgem após a impressão e. mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. e com maior sofisticação. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. p. desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página. As listas e as tabelas manuscritas. 74-111). e não o verso. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. Muito mais tarde. mas também a literatura.. A poesia concreta é um gênero menor.

O antigo poet~ latino Marcial (i. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. mas da impressão. O Webster's 1bird New International n. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. paradoxalmente. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). fórmulas e temas dos quais todos se servem. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto).í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. revelam as limitações construídas da palavra falada também. fOI consIderado "corrompido". que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. como ela muitas vezes parece afirmar.um fato que. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". é o texto em sua forma mais plena. Porém. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora.e. para alguém que se apropria do escrito de um outro. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. "torturador". na cultura inicial da impressão. não o escrito. muitas pessoas. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. possuem uma consciência aguda de que. de Jacques Derrida. "opressor". formadas na velha ideologia. . meramente à escrita. p. Como sugeriu Steiner 0967. É esse o território de Derrida. hoje. A poesia concreta não é produto da escrita. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966). Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. ~ uso de todos os outros. embora ele se mova nele a sua própria maneira. O texto impresso. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. Hartman (1981. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. obviamente. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito.curiosidade . por fim. A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. A impressão diminuiu. a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo.53.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. como se viu. portanto. isto é. mais ou menos diretos.9) usa a palavra plagíarius. Exatamente na época inicial da impressão. por isso mesmo. contudo. uma pessoa lendo para outras em um grupo. paradigmática. A desconstrução está antes atada à tipografia do que. 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. se ele se desvia desse uso tipográfico. "saqueador". (Os professores de crianças de áreas pobres. A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. Na cultura manuscrita e. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. p. 383). oral. a leitura tendera a ser uma atividade social. mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. muitas vezes.

atingiu um estado de completude. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. A impressão. Ela pode dar a impressão. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). assim como a obra analítico-filosófica ou científica. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. A tipografia tornou a palavra um bem material. lacrada. por outro lado. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. desde a Antiguidade. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. nesse sentido. Com a impressão. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. Uma vez fechada. Em 1557. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo.um tal privilegium em 1518. Na teoria literária. Até a impressão. a impressão dá origem. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". sem que o queira e sutilmente. Antes da impressão. ao Formalismo e à Nova Crítica. Os livros impressos repetiram uns os outros. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. e alcança seu auge nas histórias de detetive. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. um "ícone verbal". autônomo e indiferente a ataques. de bom ou mau grado. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. impessoais e religiosamente neutros. fora controlado pela escrita. do mesmo modo. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. no romance a partir da época de Jane Austen. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. menos ausentes. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral. todas exatamente da mesma largura). No começo da era eletrônica. um ícone é algo visto . Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. uma forma de caracteres tipográficos. completos. A impressão. o texto não comporta mudanças (rasuras. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. do que os leitores dos escritos destinados à impressão. produzindo uma enunciação. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. separada de qualquer interlocutor. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. Ao contrário. Evidentemente. finalmente. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . conscientes ou inconscientes. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. mas de um modo muito real. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. obtido de Henrique VIII. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. especialmente na narrativa. por volta do século XVIII. foi formada em Londres a Stationer's Company. e. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. Esse sentimento afeta as criações literárias. de algum modo auto-encerrados. aspecto visual e a mesma consistência física. Significativamente. e. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa.não ouvido. os manuscritos. As páginas de um jornal são normalmente cheias . a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. como cada vez mais semelhantes a coisas. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. que.

que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. 144). 280). O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram.atormentavam os escritores. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . Nas culturas manuscritas. como apontou Marshall MCLuhan 0962. possui um arcabouço mental diferente. gramática. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. gramatica. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. A obra de Harold Bloom. ao menos de um ponto de vista ideal. Com a impressão. apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. tudo na arte ficava claro e. Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). muitas vezes de um tipo gnômico. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . uma unidade em si mesma. Ao contrário. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. pp. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. por sua vez. aritmética etc. Cada arte era. que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. originalmente orais. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. uma maior distância entre o escritor e o leitor . convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos.isto é. impossíveis antes da escrita. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. quando apresentada adequadamente. em si mesma. Com o ponto de vista fixo. tomando-os emprestado. partilhando as fórmulas e os temas comuns. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. nas últimas décadas. 126-127.ma~érias em um dado campo. A cultura impressa. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". separada das outras obras. em si mesmo e na mente. surgiram o catecismo e o "manual". Quando. 135-136). Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. que. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente. Uma matéria curricular ou "arte". poucas dessas angústias acerca da influência . elas se tornaram uma espécie de choque. pp. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". r~tonca. aritmética e tudo o mais.se é que existiam . e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. retórica. ~ própria arte estava completa e independente.30-31. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. mas também nas obras filosóficas e científicas. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. usava-se simultaneamente lógica. Além disso. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. em cada um dos manuais ramistas.). as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. inteiramente separada de qualquer outra. adaptando-os. em um aspecto. gramática. Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". 225-269. Ainda atada à tradição comum do mundo oral. trata dessa angústia do escritor moderno. ao compor uma determinada passagem do discurso. p. surgiu com a impressão. ela deliberadamente criou textos de outros textos. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. .

pp. a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. 1977. como indivíduo. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. informações de todo tipo. ausência de preocupação). livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. Finalmente. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. pp. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. pp. alguns pontos precisam ser esclarecidos. faz com que eles se voltem para dentro de si. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. antes da escrita. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. mediante a reflexão analítica. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. 16-49. Ao mesmo tempo. Porém. da qual se ocupa este livro. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. o rádio. 284-303. um verdadeiro público. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. Como a oralidade primária. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. À diferença dos membros de uma cultura oral primária. pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. como se observou anteriormente. assim como para seu uso. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. um maior entendimento tácito.a "aldeia global" de McLuhan. produzindo-os cada vez mais. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. Assim. obtidas e/ou processadas eletronicamente. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. é claro. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela. Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. em outro. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. nasceu o "público leitor" . os povos orais tinham um espírito de grupo. em seu favorecimento de um sentido comunal. são ainda mais intensificados pelo computador. Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento.Ong 1971. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. porque alimenta um estilo novo. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". Além disso. o novo meio reforça o velho. que aumenta a entrega . Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. Não obstante o que algumas vezes se diz. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita.e. Nesse momento. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . mas evidentemente o transforma. conscientemente informal. O indivíduo sente que ele. 82-91). somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. Em nossa época de oralidade secundária. decidimos que a espontaneidade é benéfica. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. 305-341). De modo semelhante. na verdade. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. deve ser socialmente perceptivo. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. E. mas. Além disso. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. com o telefone.

Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. obras filosóficas e científicas. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. cada um deles falando por uma hora e meia. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. A oratória no velho estilo. de certo modo. o segundo. ou pelo menos mais discursos.lírica. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. narrativa. redundante. acontecimentos religiosos. Porém. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. incorporar o teatro. inaudível. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. de uma hora e meia. intercâmbios culturais e muitos outros. O público está ausente. discurso descritivo. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. nascida da oralidade primária. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. que. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. 189-190). As outras talvez ouçam mais oratória. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo. Esse tratamento da narrativa . Obviamente. pp. para os objetivos presentes. durante o verão escaldante de Illinois.e tudo isso sem equipamento de amplificação. clara e verdadeiramente . invisível. para citar apenas alguns. desapareceu para sempre. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. oratória (puramente oral. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. Desses. Nos debates LincolnDouglas de 1858. 137-138. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então.pois isso é o que eles eram. o controle rigoroso. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. O primeiro orador dispôs de uma hora. Illinois. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. Porém. os guerreiros . não era essa a antiga oralidade. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. respectivamente . Ã narrativa podemos. historiografia e biografia. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). teatro. mesmo assim possui um enredo. T 6 MEMÓRIA ORAL. Assim. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal .Sparks 1908.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. cuidadosamente ritmado.mudanças na organização política. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. além da mudança oralidade-cultura escrita. outros acontecimentos na sociedade. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . embora apresente a ação sem linguagem narrativa.

precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram. que são razoavelmente duradouras . Em um laboratório científico. isto é. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. significa formas passíveis de repetição. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. são breves. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. A narrativa.o que. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . especulações filosóficas e rituais religiosos. encaixada no fluxo temporal. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. Em um certo sentido. psicológicos e estéticos e outros mais. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. muitas vezes até as mais abstratas. apresentam apenas informações altamente especializadas. As genealogias. como sublinhou Havelock C1978a. em certos aspectos. usam histórias da ação humana para armazenar. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. em toda parte. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. cf. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. em uma cultura oral. A lírica tende a ser breve. Embora seja encontrada em todas as culturas. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. extensas. possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. Em primeiro lugar. Nas culturas orais primárias. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. Em uma cultura escrita ou impressa. a narrativa é.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. 1963). A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. enigmas. na total ausência da escrita. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. que podem ser extensas. com um atenção especial a complexos fatores sociais. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. as histórias sunjatas do antigo Mali. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. mas. Ele se aplica a uma situação específica e. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. nas quais não existe texto. no geral. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. que podem ser relativamente extensas. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. O mesmo ocorre com as outras formas.gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. em uma cultura oral primária. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. mais ou menos cientificamente abstratas. aforismos. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. uma ocorrência ad hoc. Assim. A grande maioria das culturas orais . As culturas orais não podem gerar tais categorias e. Por trás de provérbios. ou ambas. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. Em segundo lugar. As fórmulas rituais. Com base na narração. mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. assim. tópica. Máximas. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação.senão todas . os estudantes precisam "registrar" os experimentos.

"o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . descritas no capítulo 3. do tamanho de um poema épico ou de um romance. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. especialmente quanto ao funcionamento da memória. 1451a e alhures). não foi construído desse modo. ao As palavras de Milton mostram que ele. eleva-a a um clímax. muitas vezes detalhadamente. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. o poema épico.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita.pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. A exegese do poema épico oral por letrados. do que do poema épico. e é seguida por um final ou desenlace . Poética 1450b). 148-149). os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico.salvo em trechos curtos . como ela surgiu. A antiga narrativa grega oral. uma vez que o teatro grego. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta.e. Assim. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. que. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. Em sua Arte poética. embora apresentado oralmente. meio e fim (Aristóteles. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. em uma cultura oral. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado. As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão.uma localização significativa para tal enredo. dificilmente leva a sua justa avaliação. pp. mostra uma melhor compreensão do teatro. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. no passado. o que. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. durante séculos.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo.e. aprenderam cada vez mais a contar . Não obstante possa ser esse o caso. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". não estava disponível sem a escrita. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. desde o começo. na verdade. com começo. Na verdade. por motivos óbvios. Esse enredo.

e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. descoberta e reversão requintadamente metódica. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. Sua excelência estava. e. O ambiente mais amplo no . Theodor Bergk. não todas . O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. em segundo. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. Além disso. o todo possui uma progressão.salientados. é claro. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. era mais ou menos episódica . faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. nenhuma alternativa. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. entre outras coisas evidentemente. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. em primeiro lugar. Por que toda narrativa longa. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas . com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. Não havia uma lista dos episódios nem. na ausência da escrita. mas porque eram forçados a isso. em uma dada circunstância.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. ele poderia estar certo de que. mas sem a escrita. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. 432-433). os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos. Não tinham nenhuma escolha. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841. pp. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). e não a pirâmide de Freytag. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. no qual não existe narrador. antes do início do século XIX. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista.o progressivo surge apenas com a escrita.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. Na oportunidade seguinte. final perfeitamente esclarecido.tensão sempre crescente. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry.e o mais natural . sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. natural. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. o poema épico não possui enredo. primeiramente no teatro. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. na vida manobra conscientemente planejada. mas o procedimento original.embora. Por que razão esse enredo long. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta.pelo que sabemos.

em diferentes aspectos. inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. desejam que ele cante (1975. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados. ele narrou todas as histórias de Mwindo. Candi Rureke. p. com um ou outro acompanhamento coral. (Sabemos. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. assim. pois não existe tal coisa. Quando um bardo acrescenta novo material. finalmente. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. conforme ele é aplicado à composição escrita. por exemplo. ora em verso. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. a memória. Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. p. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira. e até mesmo para si próprio" (1975. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. ele o processa da maneira tradicional. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. para esse público específico. Ao trabalhar com essa interação. Evidentemente. na medida em que guia o poeta oral. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. 176). Muito provavelmente.. em seu conservadorismo.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. 174). Ele os recorda sempre de um modo diferente. dois niangas e um belga. particularmente em seu caráter aditivo. agregativo. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. irá normalmente de início hesitar. O poema épico oral (e. p. Já que insistem . 172-179). recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. sua redundância ou copia e sua economia participativa.. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. p. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. como um artista. 14): nunca. nessa ocasião. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. protestou ele. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. por extensão hipotética. enquanto três escribas. Como resultado de uma seqüência de eventos. em toda narrativa existe algum tipo de enredo. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. p. 216). O po. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos. registravam suas palavras. pp. ora em prosa.recordando não um texto memorizado. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. em suas numerosas notas. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. Fundamentalmente. 216). o cantor está recordando de um modo curiosamente público . provocando assim renovadas solicitações até que. E de fato. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções.eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). pela experiência atual. A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. Não obstante. em uma seqüência cronológica perfeita. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. ficamos totalmente encantados com a .

aquele que faz o texto. o texto exibe o início. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. como já se observou. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. pode trabalhar com base em notas.). Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. a escrita já estava estruturando a psique grega. Hoje. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. embora o teatro fosse apresentado oralmente. desapareceu sob as vozes de seus personagens. O mundo da impressão gerou o romance. 53-81). em vez do velho enredo episódico oral. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. de modo que o . a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. de início. em uma cultura oral. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. p. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag. o meio e o fim. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. Fora do teatro. 221).c. agora propriamente um "autor". Foi o primeiro gênero . até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. pp. Em virtude de um controle consciente crescente. Sob o olhar do autor. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. Paradoxalmente. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. Porém. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag. como vimos. mais tarde. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto.e durante séculos o único . o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. 600 a. a subordinação da voz ao episódio continuou forte. na narrativa como tal. A impressão. Como vimos. definida pelo fechamento. revisão e outros tipos de manipulação. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. Evidentemente. à época de Safo (c. Porém. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. O teatro grego antigo.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. para livrar o enredo desse molde.

Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. Um escritor de história de detetive é. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. o mistério da pessoa de Aspern. embora o texto seja manuscrito. Não raro. caracterizado por suas explorações exteriores. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. Farrell ressaltou uma vez para mim.reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. as quais. realmente enganador. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. de outro modo. na mente de um dos personagens e. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. "A letra mata. mas para leitores. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. . que não possui uma organização fechada tão meticulosa. não-fonológicas. mas também de sinais de pontuação. p. como se viu. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. no fim da história. são incineradas. na expressão de Kahler (1973). a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. até o clímax e o final.narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). porém abundantes em material impresso. A "inflexão interior da narrativa". passando por Dom Quixote de Cervantes que. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. antes de qualquer outro. é exemplificada aqui com notável clareza. Posteriormente. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade. cada um isolado em seu próprio mundo. ouvintes. Em O escaravelho de ouro (1843). em algum lugar. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. têm algo em comum com a narrativa de Poe. o Tom fones de Fielding. em primeiro lugar. alcança seu auge na história de detetive. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). como Thomas J.cada detalhe da história revela-se crucial e. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. Uma vez solucionado o problema textual. se esfuma. A narrativa estruturada piramidalmente. A própria reflexividade da escrita . Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. o código é em boa parte tipográfico. seria inacreditavelmente precoce -. publicado em 1841. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. na mente de seu seguidor. quando comparada com a velha narrativa oral. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). especialmente o leitor. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). iii). e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). composto não somente de letras do alfabeto. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. Sherlock Holmes já imaginara tudo. misturando seus textos com "poemas longos. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. Na história de detetive ideal. A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. e o final desfaz totalmente o emaranhado . Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. depois. tudo o mais se ajusta. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. como as Aventuras de Pickwick. Com os documentos. As "histórias de detetive" chinesas. E. são impronunciáveis. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. integralmente. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. de um modo requintado. O protagonista do narrador oral.

demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. classicamente urdida. As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo.para empregar o termo de E. Forster 0974. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam. em torno de Nestor. Nas últimas décadas. p. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . . mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu. resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. ao contrário.M.o detetive. Oposto ao "redondo" é o "plano". tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. mas como um constituinte da ação humana. a impressão fizeram com a velha economia noética. Em torno de Ulisses (ou. Watt 0967. com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. e esse fato é expresso simbolicamente quando. dependeu de um grande número de evoluções. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". 46-54) _. na verdade. pp. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. a tradição teatral grega. que podem desabrochar no romance. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. Scholes e Kellogg 0966. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . A história compactamente organizada. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e. como vimos. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. O surgimento do personagem redondo. o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . Quando se estrutura em memórias e ecos. com a passagem do tempo. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. posteriormente. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. pp. que agem de modos à primeira vista inesperados. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. mas. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). Agave. originário do romance. isto é. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. no fim. o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". surgem em um mundo dominado pela escrita. em outras culturas. caracteristicamente letrada . Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. Brer Rabbit ou a aranha anansi). com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde.A escrita. domésticos. Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. o personagem plano.

ainda não foi contada. (N.assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . o entendimento psicológico. como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. não como Aquiles. que. em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. obscuro. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino". na verdade. nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média.de motivação profundamente interiorizada. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. assim também.· As culturas posteriores. Defoe. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. os personagens "redondos" do romance clássico. que se servem de virtudes e vícios abstratos . O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. Dos mundos privados por elas gerados. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente. Allworthy ou Square. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. personagens abstratos. Desde Freud. "nobre". Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado. "antiquado". a síntese de personagens-tipos. fosse uma atividade partilhada). não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". pp. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. interiorizado. e nas peças cômicas do século XVII. após o advento da era romântica. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos. De fato. Porém. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. as culturas escritas podem na verdade gerar. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. Richardson. e atinge seu auge no romance. nos católicos. eletrônicas. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. enquanto simultaneamente a transforma. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon.TJ •• "Pândega". como vimos. A escrita e a impressão. e. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967. citados por Watt. observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo).personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -.T. isto é. pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. (N. de um tipo inacessível ao povos orais. 461). quando. de alta tecnologia. após a chegada da impressão. na mesma época. De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. "livre de ligações amorosas". e os atribui à formação calvinista de Defoe. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. Heartfree.19-2l).) . p. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. na maioria das vezes. Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. e até mesmo por vezes Jane Austen. Miller e Johnson 0938. A história dos personagens-tipos . das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. como em Kafka. concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. e principalmente o psicanalítico.já encontrado em Defoe. em certos aspectos.

psicológicos e outros mais. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . Apresentarei a questão na forma de teoremas. ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. organizada para preservar a "linha" de descendência. Porém. e assim por diante. pois é impossível abrangê-Ios integralmente.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. exigia-se a organização textual da consciência. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. mesmo razoavelmente. a tecnologia avançada. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem.significativo. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. Muito pelo contrário. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. Em ambos os casos. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. de afirmações mais ou menos hipotéticas. Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. impensável em uma cultura oral. posteriormente. também romancistas. Hawkes . Mas. na verdade . Porém. A enorme quantidade de conhecimentos históricos.mas somente alguns. Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. mas também do presente. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. da impressão). sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica). de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. até então. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . que aspiram a esse meio aristocrático. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. Nunca. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . desde o início. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas.Hawkes 1977. a Nova Crítica estava em gestação . para ter sentido deve ser interpretado. colocado por seu autor em um determinado tempo. e não mais uma língua materna. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. Tillyard 1958). reportado ao mundo do leitor . mais livremente oral. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. O latim. pp. p. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. desenvolvido na era romântica. Nos anos 30. Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. um texto. e fundado no estudo da retórica. pp. 155). A própria Nova Crítica. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. isto é.para o autor. A crítica anterior de obras vernáculas. Nas universidades de Oxford e Cambridge. às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse). pp. como vimos. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. Roland Barthes (Hawkes 1977. durante mais de um milênio. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. a saber. dessa perspectiva. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. ainda que complexo e eruditamente compreendido.embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. sua psicologia. em parte porque. pela engenhosidade. embora perspicaz. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. era extra-acadêmica. 177-205). A Nova Crítica. está ipso facto relacionado a todos os tempos. de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. Nessas condições. Os estudos de textos. um texto literário em latim. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. . As implicações são enormes. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). pp. 22-34). durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. ocasional e muitas vezes amadorística.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. nos anos 30 e 40. Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. vernacular. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. que eu saiba. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral.

Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. 109). tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. em Pierre Macherey (978). revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. muitas vezes cruciais. as estruturas binárias. a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. 235. Hawkes 1977. embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. que não se adaptam ao padrão binário. 179). Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . Esses críticos-filósofos. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. apóiam-se . por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. pp. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). p. 457-464. explicar por que uma história é uma história. são perseguidos por distrações.uma especialização significativa. como. Os declamadores. como esses. Roland Barthes. por exemplo. O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". Cohen 0977. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . de certo modo (Peabody 1975. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). Porém. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. e não em explicar o passado em seus próprios termos. na verdade. Tzvetan Todorov. Estudos sobre a oralidade.T A análise estruturalista. xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. Lord e particularmente Havelock e Peabody. particularmente . pp. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). de Lévi-Strauss."Homero se distrai". por exemplo. A composição oral trabalha com "núcleos informativos". que derivam em grande parte da tradição husserliana. morfema etc. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica .todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador).não conseguem. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. 179. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". Lord 1960. p. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . embora os temas o façam. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. Pode haver conexões sutis. improvisação ad hoc). p. Além disso. é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). especializam-se em textos e. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si. O "fio" narrativo direto. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. treinado em técnicas de digressão e de flashback. assim. De modo análogo. na antiga narrativa grega de proveniência oral. como evidenciou Peabody 0975. 235 e passim). Greimas. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. principalmente AJ. pp. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista.

Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. Uma vez que não se refere a algo. exato. redundante.um mundo antipático ao mundo analítico. 74). como os denominei aqui. pp. 241-254) discute a obra de muitos textualistas. quando. incluindo o seu próprio . usam a linguagem de forma representacional. Culler 0975.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. A linguagem é uma estrutura. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. da imitação. à maneira de um tubo condutor. essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. porque representam o antigo mundo oral. visualista. rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique. Por outro. prolongadamente seqüenciais. o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. a própria linguagem . expulsa oS poetas.Ong 1967b. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. elas próprias. na República. tradicionalista. disperso. para Derrida. Além disso. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. é fonocêntrico. como agora podemos perceber. de modo claro e . calorosamente humano. mnemônico. portanto. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial.e inevitavelmente -. Sollers. abstrato. porque A não é B. é que a literatura . isto é. p. Platão podia formular seu fonocentrismo. na verdade.quando muito . Ix). Apoiado nessa suposição de correspondência exata. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral.ou não significa nada. assim. também objetos deste livro. A não seja nada. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. e sua estrutura não é a do mundo extramental. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. tal como as colocam os textualistas. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. como mostra Havelock.ousam mencionar a comunicação eletrônica). Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". segundo os textualistas.e. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. Todorov. mas era isso que ocorria. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados. agregativo. e mostra que. T No entanto. pacientemente analíticos. O resultado final. p. ele o faz. como observa o tradutor de Macherey (1978. Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . Jacques Derrida (1976. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas. por outro lado. mas uma realização totalmente diferente. pela primeira vez. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. todos provenientes do romance do século XIX. Contudo. os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . Por um lado. Poucos duvidarão. Em sua forma mais extrema. Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada".Si' em exemplos específicos. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente. Julia Kristeva e outros). verboso. isso não quer dizer que. Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". que. especialmente no caso de PIarão. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. Derrida denuncia essa metafísica da presença. portanto. Paradoxalmente. p. Em virtude dessa insistência. 252). participativo . que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. ou estruturalistas. ela não se refere a nada . pp. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. no Pedra e na Sétima Cana. como ele os chama. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos.momento em que os processos mentais. na verdade .

mas de "epistemologia corpuscular". L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". nasciam da memória. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. ainda está estranhamente limitada ao texto. então deveríamos T compreender o fundamento . Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável.não podemos descartar os textos. and the decay o/ dialogue [Ramus. Os textualistas. uma espécie de realismo grosseiro. esta é a mais limitada ao texto. pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. Sem o textualismo. 35). se todas as implicações num poema forem examinadas. "Se o pensamento é para nós. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . method. hoje. Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). sem a oralidade. mas tomava o texto impresso. como se o texto fosse um sistema fechado. de todas as ideologias. Linguagem e pensamento.. Na verdade. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. historicamente isolada. Mnemosine. palavra e referente. A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. p.. Essa tese reside em mostrar que. Como propõe Hartman (1981. pp. por brilhante e de certo modo útil que seja. e não com as presenças de "idéias" reais. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. como ponto de partida e modelo para o pensamento.. de ofuscação refinada . A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. . Em Ramus. e não Hefaístos. cada um à sua própria maneira. Na sua dialética ou lógica. em qualquer das exposições de Derrida. para os antigos gregos. As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão. o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo. p. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. no século XVI (Ong 1958b). As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia".embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade.que pode ser extremamente excitante. acrítica." Ou. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. p. chamei sua atitude não de logocentrismo. o texto é fundamentalmente pretexto . A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. mediante uma implicação inevitável. 66). filósofo e reformador do ensino francês. Geoffrey H. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. 203-204). discutível. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. Hartman chamou a atenção para a ausência.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. 32). diria (escreveria) eu. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. que eu saiba. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. no rIÚnimo. a oralidade não pode sequer ser identificada. A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. que moldam nossos processos mentais. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". que nunca chegava realmente à palavra falada. mas podemos compreender suas deficiências. uma correspondência literal grosseira entre conceito. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. é a mãe das Musas. pelo menos as nossas línguas ocidentais. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. e não o enunciado oral. Os textos são um fundo falso. método e o declínio do diálogo) (1958b. até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. textual. Porém.

em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. p. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. Até mesmo atualmente. Austin. John R. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. até a cultura escrita de alto grau. que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. Se fossem. assim como importantes implicações teóricas. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". David Bleich. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. na comunicação oral. particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. um diante do outro. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. cumprimentar. Para se adaptarem a elas. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. ameaçar. As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita.L. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. responder. Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. Uma outra abordagem da literatura. como já se observou. ordenar. Stanley Fish. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. promessa. "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972. passando pela oralidade residual. afirmação. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. além de incluir seu conceito de "implicatura". 400). É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. cumprimento. a mesma coisa que numa cultura escrita. assim como outros atos ilocutórios não significam. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . . por exemplo. numa cultura oral. poderiam revelar que prometer. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). de produzir uma estrutura de palavras). Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). Contudo. como a oralidade primária. falante e ouvinte estão presentes.por exemplo. dentro de certas subculturas. ao passo que. Winifred B.P. Searle e H. convencimento ou encorajamento). protestar. Norman Holland. da oralidade primária. Até onde sei. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). Michel Riffaterre e outros. asseverar. Grice. tais como medo. no entanto.

depende da escrita. no sentido de que a mente as produz por si mesma. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. em seu início. criticamente. através dos séculos. A existência da filosofia. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. os estudos bíblicos tornaram- . desassistida. em termos de fatos "aumentados". ao que parece. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. deveria dar-se conta. até o momento. O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral.isto é. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. como a Arte retórica de Aristóteles). incorporada aos próprios processos mentais. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. Em suma. um tipo especial de produto essencialmente humano.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. a filosofia . O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. como vimos. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. destituídas do conceito de "justiça" como tal. assim como a de outros. Atualmente. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. A filosofia. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. A sociologia. A descoberta crítica do eu. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. passamos para a história da consciência. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. A antropologia e a lingüística. sentiu esses efeitos de forma menos forte. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. embora escrita. é resultado não apenas da escrita. aguda e duplamente crítica. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. Por que meios? Tanto quanto sei. nuançada de forma mais complexa. mas também da impressão: sem essas tecnologias. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. de sua condição de produto tecnológico . pois. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. como Lívio. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. É muito provável que um estudo. Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). a história. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. seriam impossíveis.

e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. resistem à cultura escrita. e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens". tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. sugerindo um viés quirográfico. como notou Werner Kelber 0980. dessas abordagens bem-intencionadas. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. (Alguns indivíduos. é claro. mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. 1983). A principal obra de Kelber. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. . "Sem escrita".primeira edição francesa. por exemplo. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. A afirmação . Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. mas de correlação. Evoluções na produção de alimentos. A ligação não é uma questão de reducionismo. para mostrar que não o somos. A oralidade não é um ideal. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. nas habilidades tecnológicas. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. os estudos bíblicos. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". Mas. Os termos "primitivo" e "selvagem". p. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza".se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. nos meios de transporte. nas práticas educativas. a oralidade não deve ser menosprezada. publicadas posteriormente. na organização familiar. a impressão) a causa única de todas as mudanças.de Lévi-Strauss (1966. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. na organização política. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. pp. não apenas em conversas informais ou de salão. contudo. no comércio. ou está tomando. a Odisséia. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. são pesados. 15-16). aborda de forma direta e de frente. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. mas são em número cada vez menor. pela primeira vez. e nunca foi. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. menos ofensivo e mais positivo. como outros estudos textuais. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos.) No entanto. Tbe oral and the written gospel.muito citada . porém essencialmente limitadoras. Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. constitui ainda um atributo negativo. Numa série de conferências feitas no rádio. apontando uma ausência ou uma deficiência. Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". Ia pensée sauvage. nas instituições sociais. citada repetidas vezes neste livro. 1962). Tbe mind ofprimitive man (922). Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. para não falar de "inferior".

e. a "informação" passa para a outra. com o que meu discurso possa se relacionar. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. Para formular o que quer que seja. Por isso. algo entre duas outras coisas). o título desvirtuado do livro de McLuhan. algum receptor deve estar presente. Para falar. codifico a unidade (isto é. nas quais a fala está mais orientada para a atuação. pelo menos de maneira vaga. difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. "O . o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. A comunicação humana. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha.ou várias. em sua grande maioria . Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. Em segundo lugar. e ele precisa estar dentro de minha mente. ou de outras inúmeras formas.foram elas próprias afetadas. íntimo. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. porém.já "em mente". Mas quando se fala. por seu turno. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. Por isso. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. do contrário não se produzirá um texto: portanto. assim como quando se escreve. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. evitou-se o termo "mídia". afetaram essa mudança. muitas vezes de forma muito profunda. Minha mente é uma caixa. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. O modelo "mídia" não é. verbal ou não. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. devo ter outra pessoa . Em primeiro lugar. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. ela não apenas exige uma resposta. Porém. É esse o paradoxo da comunicação humana. A comunicação é intersubjetiva. A comunicação humana nunca possui mão única.) Tenho de perceber algo na mente do outro. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. na verdade. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. isto é.vida humana.ou a outras pessoas. o texto escrito parece. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. Porém.ou outras pessoas . De uma ponta do tubo. tornando-o irreconhecível. ser uma rua de informação de mão única. para ninguém. essas evoluções. a fim de que possa ocorrer. assim como das outras formas de comunicação humana. isolado de pessoas reais. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. pois nenhum receptor (leitor. para uma maneira de fazer algo para alguém. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. assim como muitas delas. na maior parte deste livro. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. à primeira vista. Na comunicação humana real. muito provavelmente todas . preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. Retiro dela uma unidade de "informação". Durante todo o tempo. que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. de um lugar para outro. Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. das possíveis respostas que eu poderia prever. ouvinte) está presente quando os textos nascem. intersubjetivo. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. a fim de iniciar minha mensagem. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . No modelo do meio. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. por uma troca de olhares. Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. chamado "mente". o escritor invoca uma pessoa fictícia . Para falar.

é conhecida não somente como o Filho. Ele não o escreve. Nesse ensinamento. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Devo conhecer a tradição . elaboradamente expressa. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. até mesmo a hebraica. pp. Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. por conseguinte. mas também uma unidade maior. No ensinamento cristão. exprimindo-as de forma elaborada. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . na qual ninguém nasce. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. pessoais. A escrita introduz divisão e alienação. central em Fichte. que se torna visível em Kant. o Corão. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. se assim quiserem . provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. Desenvolvimentos mais longos . profundamente pessoal. o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. Contudo. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. No entanto. Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. pois. que redimiu do pecado a humanidade. O processo é complexo e repleto de incertezas. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. a consciência nunca alcançaria sem a escrita. mas também como a Palavra de Deus. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. seu Filho. qualquer receptor real está normalmente ausente . a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. na qual. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. ser único e não duplicável.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. atinge as profundezas da psique. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. Para um escritor. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. Porém. a Bíblia.a intertextualidade. a Bíblia.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. no ensinamento cristão. Ésquilo. Onto e filogeneticamente. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. A escrita eleva a consciência. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida.do contrário . e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io.embora não necessariamente de sua separação . segundo parece. a maioria das quais jamais se conhecerá. 54-81).

De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. . Nos casos em que. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. julgou-se necessário. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. Além das obras citadas no texto. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. acrescentamos comentários. não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. mais do que em qualquer outro escrito. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. muitas obras pioneiras. Deus é um autor. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. A fim de evitar um número excessivo de indicações. as culturas africanas). por algum motivo. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa.humanos. como enciclopédias. mas inclui algumas em outras línguas. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão.

vol. 15-21 de out. 81. A. Annals ofScholarship. ABRAHAMS. Josef (926).O. e trad.John (982). BASHAM. BIEBlNCK. No longer at ease. ed. tradução inglesa com texto do original nyanga. revisada. 2ª ed. Aristotle's Poetics. Sétie de conferências proferidas no Lowell Institute. Adam (org. Kahombo C (org. "The training of the man of words in talking sweet". 50. 1beoretical stlldies towards a sociology of language. pp. Berkeley eLos Angeles: University of Califórnia Press.. Roger D. CARRINGTON. 3 vols. Francesco (979). Brigitte (978).: Center for the Study of Oral Literature. AHERN. 22. ACHEBE. Franz (922). A cultura escrita e o analfabetismo na Idade Média eram mais "determinantes de diferentes tipos de comunicação" do que simplesmente "atributos pessoais" de indivíduos. pp. Stuttgart: J. Modern poetry and the idea of langllage: A critical and historical study. Nova York: Macmillan. ____ (974). 1be mwindo epic from the banyanga. BYNUM. (974). BOAS. Genre. 2(3). N. 0932-1940). "Notes on the linguistic structure of Somali poetry". 237-265. Carrington Goodrich. "Literature: Written and oral". pp.: Center for the Study of Oral Literature. ____ theory of Press. Franz H. 1be mind ofprimitive man. 1971). In: Deborah Tannen (org. Basil (974). Child's legacy enlarged: Oralliterary studies at Hamard since 1856. 143-158. "Singing the book: Orality in the reception ofDante's Tagebuch.C: Georgetown University Press. porém ainda muito instrutivo. Language in Society. journal of American Folklore. Metzler.. 1be wonder that was India: A study ofthe history and culture of the Indian sub-eontinent before the coming of the muslims. Londres: Routiedge & Kegan Paul O ª 1be growth of literature.BLOOM. 1. Nova York: Hawthorn Books Oª edição. BERGER. Publicação da Milman Parry Collection. '''Voces Paginarum': Beitrige zur Geschichte des lauten Lesens und Schreibens". mas o acesso a muitos dos textos escritos não era necessariamente direto: muitos conheciam o texto somente porque dispunham de alguém que os pudesse ler para eles. Cambridge. David E. CARTER. pp. New Haven e Londres: Yale University Press. Somalia and the world: Proceedings of the International Symposium. 236-258. BRINK. 1976. 1954). F. e CHADWICK. C. William (981). Spoken and written language: Exploring orality and literacy. Washington. Boston. In: Hussein M. Georgetoum UniversityRound Table on Languages and Linguistics. A cultura medieval era basicamente letrada no que diz respeito a seus principais representantes. pp. Inglaterra: Cambridge University Press. setembro de 1967. ''Varieties and consequences of medieval literacy and illiteracy". John Diffusion.John G. BOERNER. BRIGHT. 19101911. BERNSTEIN. BÃUML. 2ª ed. psychiatry and the written word". (980). Judicioso e bem informado. Cambridge. "The generic nature of oral epic poetry". Daniel e MATEENE. Speculum. Mass. "Culture.). XXII (3). 250-263. CHADWICK. "Narrative techniques and oral tradition in 1beScarletLette1". 1be Daemon in the Wood: A study of oral narrative patterns. ____ (978). 52. Revisado por L. BAYER. pp. Austin e Londres: University of Texas Press. 1be invention of printing in China and its spread westward. inverno de 1978. ANTINUCCI. Tannen (org. Kinshasa: Centre Protestant d'Editions et de American Literature. "A new interpretation of the IQ controversy". Folklore Genres. pp. 141-143. J. CHAFE. "Introductory remarks to a rhetorical folklore". (982). 35-58.) (971).L. Antigo. Distribuído por Harvard University Press. Reeditado em Dan-Ben-Amos (org.B. Mass. 15-29. Cambridge. 1be anxiety of influence. "Integration and involvement in speaking. Thomas Francis (955). ARISTÓTELES (961). pp. 1be Public Interest. codes and control. 307-320. 82.M. 84-109. Harold (973).C (959). Nova York: Ivan Obolensky. e na National University of México. In: Deborah. (967).).). pp. Gerald L.K. Inglaterra: University Press. Narrado por Candi Rureke. H. writing and oral literature". Nova York: Oxford University (972). Class. 'Nova edição. Mogadíscio: Halgan.). pp. Tradução e análise de Kenneth A. 55. Telford. Comed)l'. BRUNS. Reeditado dos originais do Hamard Library Bulletin. 29-44. Nova Jersey: Ablex. 270-283. (980). 1. Cambridge Horace on Poetry: 1be 'J1rsPoetica". pp. Chicago: Henry Regnery. 202-240. (971). La voix des tambours: Comment comprendre le langage tambouriné d J1frique. Chinua (961). Mass. Peter (969). Cambridge. Norwood. Wallace L. . BALOGH. (968). Philologus. (963). julho de 1974. D.. Nova York: Ronald Press. revista. CAROTHERS. (974). Psychiatry.

M. vol. "Differentiating writing from talking". 7be Story of Aleph Beth.Karl 0%3). 25. pp.Munro E. "Culturallag and reviewers of Websterm". ELYOT.). ___ 0978b). Nova York e Londres: Yoseloff. Murray (977). Writing and difterence. Princeton.David (953). "Oral delivery in the Midd1eAges". Ithaca. (968). Specu/um. Plaks Corg. and the J study of /iterature. Outono/Primavera de 1978.Mircea (958). In: Andrew H. Paris: Presses Universitaires de France..Patrick (978). "A taste for apricots: Approaches to chinese fiction". (971).Michael 0%7). lizabeth (979). o polemismo e o comportamento esquizóide extemalizado são próprios da sociedade de meados do século XII. (1). "Writing". CULLEY. (2). From memory to written record: Eng/and. "As caracteristicas amplamente aceitas da sociedade pré-cultura escrita apenas parcialmente se adequam ao novo. Mass. ___ (978). 42. Tradução de Gayatri Chakravortry Spivak. 11. 0978a). pp. "Developing literacy: Walter J. (974). 7be boke named the gouernour. CLANCHY. Thomas J. Nova York: Philosophical Library. Sensib/e words: Linguistic practice in Eng/and 1640-1785Baltimore e Londres: JOhns Hopkins University Press. "Oral poetry in medieval English. Revue d'études latines. pp. Ancient Peoples and P/aces. rudimentar e emergente público do romance. 7beprinting press as an agent of change: CommuniE cations and cultural transformations in Ear/y-Modern Europe. Variation in writing. 2 vols. Co//ege Composition and Communication. Tradução.John (978).T. 1066-1307. 88-110. FEBVRE. Trask. COOK-GUMPERZ. Introdução de CyrilBirch. CURSCHMANN. pp. lémentine (970). onathan (975)." CROSBY. New Literary History. From script toprint: An introduction to medieval /iterature. a saber. 29. enny e GUMPERZ.HJ. Robert C. introdução e notas adicionais de Alan Bass. a oralidade. Gilbert (960). ___ ___ -o (960). Ora/-formu/aic /anguage in the bib/ica/psa/ms. Ong and basic writing". Bruxelas: Latomus. DYKEMA. 2i ed.Eugene (977). Specu/um. Of grammat%g. (967). and Gerrnan literature: Some notes on recent research".: Harvard University Press. COHEN. xc. CUMMINGS. 0%2). Nova Jersey: Princeton University Press. (979). IX. Chinese narrative: Critica/ and theoretica/ essa)lS. Dissertação. Patterns in comparative re/igion. Cambridge.Jacques (1976). Cu/ture and thought. Nova York: Comell University Press. Contributions to a Hístoryofalphabetization in antiquityand the Middie Ages. L'Apparition du livre. "From oral to written culture: J The transition to literacy".Sylvia (973).CHAMPAGNE. In: Marcia Farr Whitehead Corg. pp. DIRINGER. DALY. Nova York: Holt.53-69. pp.E. /inguistics. "The problem of anachronism: Recent scholarship on the French medieval romances of antiquity". French. 2. Nova York: John Wiley. Les stnlctures anthropo/ogiques de /'imaginaire. Cambridge.).Ruth (936). Seria extremamente tentador apontar o analfabetismo como causa dos anacronismos nas narrativas de aventuras da antigüidade e em outras obras semelhantes. FARRELL. EISENSTEIN. 36-53. (945). Collection Latomus. Louis University. "The use of Annang proverbs as tools of education in Nigeria". Lotrnan's semiotics". CORMIER. o dinamismo. Lore:An introduction to the science offo/k/ore and /iterature. 145-157. Tradução de Willard R. 0977-1978). EDMONSON. Hillsdale. DERRlDA.Uoyd S. Londres: MacGibbon and Kee. primavera de 1974. Inglaterra: Cambridge University Press. Enigmes Lubas-Nshinga: Étude stntcturale. 346-350. Phi/%gica/ Quarter/y.Henri-Jean (958). ESSIEN. 7be alphabet: A key to the History of Mankind. . Berthelet. Londres: Thames Hudson.Raymond J. Nova York: Cambridge University Press. 30-51. journa/ofBasic Writing. Nova York: Sheed & Ward. Londres: Thomas EOYANG. Rinehart & Winston. Paris: Editions Albin-Michel. pp. revisada. pp.Michael e SCRIBNER. FAIK-NZU]I. CHAYTOR. Apenas em parte eu subscreveria a afirmação de que as características amplamente reconhecidas da sociedade sem cultura escrita. Nova Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.E. urr. St. 0%7). Toronto: University of Toronto Press. Completepoems. COLE. CULLER. Chicago: University of Chicago Press. Sir Thomas (534). Stntetura/ist poetics: Stnlctura/ism. 2 vols. Baltimore e Londres: Johns Hopkins University Press. "A grammar of the languages of culture: Literarytheory and Yury M.Lucien e MARTIN. 205-210.Roland A. & DURAND. ELIADE. 364-369. AAUP Bu/letin 49. KinshaC sa: Editions de I'Université Lovanium.

GUMPERZ. 44-59. István (954). Inglaterra: Cambridge University Press. Moses (954). Sugere que o que uma fórmula oral realmente é e como funciona depende da tradição na qual é usada. Nova York: Anchor Books. Ruth (970). GLADWIN. Literacy in traditional societies.). Descreve as estruturas sociais. In: Jack Goody Corg. Berkeley. Press. "Some general regularities in the formation and development of nationallanguages". ____ (977). GUXMAN. "The consequences of Iiteracy". Review of Oralpoetry: Its nature. Ohio: Slavica Press). HADAS. Choice. The Hague: Mouton. Rowman & Littlefield).xt: Ten essays. "Restricted Iiteracy in Northem Ghana". Cambridge. E. (957). ou "Juiz Dee" C630-700 d.C).Londres: Edward FRITSCHI. Londres: Dawson. Califómia e Londres: University of Califomia Press. Oxford: Clarendon Press. Oralliterature in Africa. Tóquio: Toppan Printing Co. In: John D. O Dee Goong Ao histórico. Budapest: Academia Scientiarum Hungarica Budapestini. Edição revisada. O original é uma obra anônima chinesa do século XVIII. pp. Talmy (979). Literacy in traditional societies. Esse trabalho foi apresentado numa sessão prévia da 32ª Georgetown University Round Table on Languages and Linguistics. Mass. 1952. Explorations in african systems ofthollght. Cambridge. John]. GIVÓN. Inglaterra: ____ GOODY. pp. Lyrics of the troubadours and trouueres: An anthology and a History. Cambridge. Artigo especializado. "Oral experience in some modem African novels". significance.F. 470-475. Princeton. Bird Corgs. FISH. Seif-consuming artifacts: 7be experience of seuenteenth century poetry. University Press. (974). GULIK. ___ ___ FORSTER. "The traditional oral audience". East is a big bird: Nauigation and logic on pllluwat Atoll. 0980a).. Catherine 0982 ou 1983). Anatomy of criticism. John MiJes (977).FERNANDEZ. 81-112. "From discourse to syntax: Grammar strategy". pp. Ian (968). FINNEGAN. "Beowuif and traditional narra tive song: The potential and Iimits of comparison".). 7be African past-speaks. 19-21. University Press. Cambridge. Aspects of the nouel and relatea um"tings. Columbus. M. Balkan Stlldies. ____ Garden City. Oralpoetry: Its natllre. In: Jack Goody Corg. Jack (John Rankine] e Watt. 18.) (981). Texto datilografado. Corg. Tradução e introdução de Frederick Goldin. Return to the Islands. pp. Frederick Corg. Introdução de Jack Goody. a existência de um número muito grande de semelhanças justifica que se continue a usar o termo fórmula oral. as a processing (977). 487-496. Jack (John Rankin] Corg. A study of writing. 117-136.). Gerhard (981). BIoomington. na apresentação oral num festival sérvio em 1973. e Totowa. pp. "The transition to Iiteracy". pp.M. GOLDIN. No entanto.. 18. FRYE. (980). GOODY. significance. FOLEY.). Old English Literature in conte. de Ruth Finnegan.) 0968a). Coherence in spoken and written discollrse. aparece em histórias chinesas anteriores. Amold. In: Joseph C Miller Corg. Robert Hans van Ctrad. pp. Londres: Murray. 198-264. rituais. Oral traditionalliterature: A Festschriftfor Albert Bates Lord. Cambridge. Nova York: Columbia University GELB. 12. Nova Jersey: Pri~ceton Ancilla to ClassicalReading. 7bree murder cases solued 0'judge dee: An old chinese detectiue nouel. Robert W. HARMS. e org. pp. Introdução BIoomington e Londres: Indiana University Press. 7be Foundations of HAJNAL. (978). Inglaterra. grammatology. Nova Jersey: Boydell. Thomas (970). Inglaterra: Cambridge University Press. .) (973). Originalmente publicado como A study of writing. Manuscritos cedidos pelos autores. 282 pp. 173-178. 145-153. Readings in the sociology of language. Chicago: University of Chicago Press.: Indiana University Press. Syntax and 5emantics. IJ. In: Joshua A. 0980b). Inglaterra: Cambridge University Press. 27-84. Ind. (963). Cambridge 7be domestication of the sauage mind. and social contextoCambridge.). James (980). Fishman Corg. Londres. and social context (977) por Ruth Finnegan. (970).). A. com valiosa bibliografia. de parentesco etc. - In: Ivan Karp e Charles S. Balkan Studies. Literacy in traditional societie. 773-776. Hannah e O·CONNOR. L'Enseignement de l'écriture allx uniuersités médiévales.: Harvard University Press. março de 1981. (979). KALTMANN. Niles Corg. Inglaterra: Cambridge University Press. pp. A ser publicado In: Deborah Tannen Corg. ____ 0968b). A world treasury of oral poetry. 20. GRlMBLE. cedido pelo autor. Northrop (957). "Oralliterature: Premises and problems". pp. que inclui uma lista de gravações sonoras.) (949).M. "Bobangi oral traditions: Indicators of changing perceptions". Stanley (972).).

Cambridge. The Hague: Mouton. I. ___ (1980). "The ancient art of oral poetry". Socio/inguistics: Proceedings ofthe UCIA Socio/ingllistics Conference 1964. pp. rbe inward tum of narrative. "Linguistics and language planning". também Haymes 1973. chez /es cr ___ HENIGE. Havelock e ]ackson F. 214 entradas. University of Cincinnati Classical Studies. pp. et/esouf/le. e Londres: HOLOKA. Co/lege Composition and Communication. (1973). Communication arts in the ancient world (Nova York: Hastings House. ]ohn William (1979a). prefácio de Mauricc Homs. pp. 257-293. Logic and rhetoric in England. 2. KAHLER. Cono. Leparlant. (1978a). In: ]oseph C. (1963). Eric A. MareeI (1925) Le style oral rhythmique et mnémotechniqlle Verbo-moteurs. Eric A. In: Eric A.: Belknap Press of HIRSCH.). kinglists in a newly literate world". Hall. 50-71. "Recent contributions by Somalis and Somalists to the study of oral literature". 15 a 21 de outubro. "Prologue to Greek literacy". pp. École Pratique des Hautes Études.: G. Harvard University Press. ]ersey: Princeton University Press. In: Hussein M. pp. Preface to Plato. Publicação da Milman Pafl)' Collection: Documentation and Planning Series. Geoffrey (1981). Princeton. Winifred B1Yan (1979).K. Herschell (orgs. 1976). Mass. Conn. Baltimore. ]ackson P. Saving the text:Literature/Derrida/Philosophy. (1978). 166-169. HAYMES. In: William Bright (org. .. Cambridge. E.) (1978). Einar (1966). Hom of Africa. (1973). ]r. 187-202. HOWELL. Baltimore e Londres: lobos Hopkins University Press. Beauchesne. Inglaterra: Harvard University Press). HOPKINS. 30.. Londres: Methuen. Gallirnard. Gerard Manley (1937). In: Lectures in memory of LOlliseTaft Samp/e. (Julho-setembro). "Speech-aet and text-aet theo1Y: 'Theme-ing' in freshman composition". Hopkins. Mogadishu: Halgan. Note-books and papers ofGerard Man/ey. pp. 66. "The alphabetization of Homer". HAVELOCK. pp. HARTMAN. rbe origins of consciollsness in the breakdown of the bicameral mind. Pnnts and visual communication. 178-200. 240-261. vol. Londres: Oxford University Press. Mass.: University of Oklahoma Press. Somalia and the world: Proceedings ofthe International Symposium.). Nova York: Hastings House. (1979). laparo/e. (1953). Md: ]ohns Hopkins University Press. Edward R. HORNER. Adam (org. 1500-1700. (1976). 19. ISER. Miller (org. Toronto: Ontario Institute for Studies in Education). Historical rhetoric: An annotated bibliography of selected sOllrces in English. Classical World. também Holoka 1973. Valiosa bibliografIa comentada. e HERSCHELL. Princeton. Terence (1977). Structuralism and semiotics. Cambridge. HAVELOCK. 500 entradas. HAUGEN. mas porque fazem afIrmações importantes acerca do presente. Harvard University Press. 2 (3). pp.. HAWKES. Valiosa bibliografIa comentada. Nova ]ersey: Princeton University Press. Nova ]ersey: Princeton University Press. Essas abordagens baseiam-se no pressuposto de que as tradições orais são memorizadas e transmitidas não em virtude de uma curiosidade ociosa acerca do passado. (1977). Cambridge. pp. William M. MNS. Originalmente publicado como Der Akt des Lesens: rbeorie asthetischer Wirkung.).: Harvard University Press). David (1980). ]OUSSE. Boston. ___ Mass. Mass. 229-291. L'Anthropologie du geste. Ed. "Homeric originality: A survey". 46-54. 3-21. rbe greek concept of justice: From its shadow in homer to its sllbstance in Plato. Eighteenth-Centllry British logic and rhetoric. Communication arts in the ancient world. "Somali prosodic systems". ]AYNES. Humplirey House. A bibliography of stlldies relating to parry's and lord's oral theory. Origins of western literacy. Princeton. Boston: Houghton Mifflin. ]ulian Mass. Berkeley University of California Press. Okla..: Archon. ]r. rbe philosophy of composition.: ___ (1977). African past speaks.). 117-131. Wilbur Samuel (1956). e Londres. (1973). Munique: Wilhelm Fink.Hamden. (orgs. Wolfgang (1978). ___ (1979b). Philosophy and Rhetoric. Chicago University of Chicago Press. '''The discase of writing': Ganda and Nyoro. Norman.D. Nova ___ ___ ___ (1978b). Erich (1973).: Archon. rbe act of reading: A theory of aesthetic response. ]ames P. Tradução de Richard Clara Winston. Paris. e Los Angeles: ]OHNSON. Paris: G. Cf. Londres: Dawson: Hamden. ___ (1971). Humanistic Studies in the Communication Arts.

Introdueingpraetieal phoneties.K. KERCKHOVE. (968). Robert Wood (973).). Approaches to Semiotics. Richard A. verão de 1981. In: c. MALLERY. 7be stmcture ofthe artistic textoTradução de Ronald Vroon. 7be oral and the writtengospel: 7be hermeneutics ofspeaking and writing in the synoptic tradition. Madison. e c. vol. Londres: Kegan Paul. University Press. Marshall e FlORE. Nova York: Harper & Row). A. Cognitive Development: Its cultural and socialfoundations. 7be world of aldus manutius: Business and Scholarship in Renaissance Veniee. MACKAY. LYNN.: Harvard University Press. "The singer of tales". Nova York: Anchor PresslDoubleday. the influenee of language upon thought and of the seienee of symbolism. Título original em francês La mentalité primitive. Reimpressão de uma monografia publicada em 1881 no primeiro Report ofthe Bureau of Ethnology. Inc. pp.: Center for the Coordination of Andent and Modem Studies. pp. inquiry". Luden Paris: F. LLOYD.KELBER. ____ (970). Mich.F. Paul (976). Mass. "The problem of meaning in primitive languages". Ian (978). Boston: McLUHAN. Postgate e ensaios complementares por B. Ogden. Carolina Press. pp. pp. são Washington.P. (966). Aleksandr Lopez-Morillas e Lynn Solotaroff. Quentin York: Bantam Books. Brace. Hanlard Studies in Comparative Literature. tradução de Martin Cambridge. (923).Oxford history of english literature. Kroeber Polarity and analogy: Two types of argumentaInglaterra: Cambridge University tion in ear?y Greek thought. (967). ___ "Mark and oral tradition".). Nova ____ Myth and meaning. Oralliterature. Nova York: Macmillan. Classical rhetorie and its christian and secular traditionfrom ancient to modern times. Books. Ann Arbor. A theory of literaey prodlu::tion. "Oral poetry: Some linguistic and typological considerations". Wemer (980). (983). Cambridge. eLA. 14. Albert B. 7. Título (964). Marshall (962). McLUHAN. Tradução de ]ohn e Doreen Weightman. 7be meaning of meaning: A study of Lesfonctions mentales dans les soeiétés inférieures. KIPARSKY. Malinowski e F. 1-24. (972). Roger (979). Crookshank. A handlist of rhetorical terms. Berkeley: University of LEAKEY. Press. CBS Radio series. Brown. In: Benjamin A. 16. Trubner. Stolz e Richard S. Mark. "A theOIY of Greek tragedy". ____ MALINOWSKI. Richard E. 7be raw and the cooked. A. Derrick de (981). e Londres: Harvard LURJA [também Lurriia]. Geoffrey Edward R. Nova York: Schocken LÉVY-BRUHL. Tradução de Rodney Needham. KROEBER. the 1977 Massey Lectures. Romanovich (976). ____ (975). 451-10. Oxford: Clarendon Press. (979). "Civil catechetics in mid-Victorian America: Some notes about American civil religion. (980). Voegelin. 24. The Hague: Mouton. Título original em francês Le em et le cuit. 7be Gutenberg Galaxy: 7be making oftypographie mano Toronto: University of Toronto Press. Introdução de ]. Pierre (978). Semeia. Sign language among North American Indians. Trench. Cambridge. (910). e Lewin. Título original em francês LANHAM. 1962. Clive Staples (954). In: Michael Cole Corg. LOWRY. ReligiousEdueation. Reimpres"Sign language DC. Boston: Little. . LÉVI-STRAUSS. Ann Arbor. In: ]oseph Duggan Corg. Michigan Slavic Contributions. Beacon Press. Califomia Press). Bronislaw (923). Tradução de Geoffrey Wall.).. 3. 7be medium is the massage. Clare. Nova York: Harcourt. original em francês La pensée sauvage. Understanding media: 7be extensions of mano Nova York: McGraw-Hill. Claude (963). People of the lake: Mankind and its beginnings. The Hague: Mouton. Mass. 1981. ]urij (977). George LOTMAN. "Perspectives on recent work in oral literature". pp. com artigos de A. Sign language among North Ameriean Indians eompared with that among otherpeoples and Deaf-Mutes. Tradução autorizada de Lilian A. Pour une théorie de la produetion littéraire (966). ]. 1964. Londres e Boston: Roudedge & Kegan Paul.L.). 73-106. 68.: University of Michigan. Sub-stance. Oralliterature and theformula. Paul and Q. MACHEREY. Nova York: Comell University Press.Garrick (972).G. In: Garrick Mallery Corg. Nova York: Bames and Noble. Garden City. Chicago: University of Chicago Press. LORD. 7-55. NC: University of North KENNEDY. (960). publicado por Sub-Stance. ____ (966). Richards Corgs.L. past and present". Ithaca. 7be savage mind. "Ideas". Totemism. University of Wisconsin. Mich. Chapel Hill. 5-27. English literature in the sixteenth eentury (excluding drama). Primitiue mentality. LEWIS. Filadélfia: Fortress Press. Alcan. Martin (979). Shannon Corgs).

A bistory of Education in Antiquity. "Uses of literacy in New Guinea and Melanesia". MURPHY. Rbetoric in tbe middle ages:A bistory of rbetorical tbeory from St Augustine to tbe Renaissance. baking and ali otber tbings belonging to tbe bousebold. Perry e Johnson. containing tbe inward and outward Vertues wbicb ougbt to be in a compleat woman: As ber skill in pbysick. 46. Inglaterra: Cambridge University Press. 7be puritans. pp. Book Co. MERLEAU-PONTY. (962). Communication and culture in Ancient India and Cbina. (938). Ramus. Mass. (978). Roberto de Mana. Lord e Ong para reavaliar a poesia hebraica segundo as novas descobertas acerca das culturas orais e sua psicoclinâmica. 30 (4). and now the Eighth Time much Augmented. Tradução George Lamb. A. Rbetoric. tradition. James L. MARROU. Figbting for li/e: Contest. Janeiro. Norton. In tbe Human Grain. Setembro de ~ 1978. of brewing. p. Alan Lomax e Joan Halifax. 58. Syracure.XLII. Londres: CollierMacmillan. Jung. Maurice (961). Originalmente publicado com o título Urspnmgsgescbicbte des Bewusstseins (949). bemp. Henri-Irénée (956). Ithaca e Londres: ComeU University Press. in speech MEGGITT. Interfaces oftbe word. se. Franke Verlag. MILLER. James J. pp. Filadélfia: University of Pennsylvania Press. Inverno de 1980. Emmanuel (975). Max (973). 7be Epic in Africa: Toward a poetics of tbe oral performance. "On edge: The crossways of contemporary criticism". Beme: A. cbintrgery. Berkeley. tbe knowledge of dayries. Alan Dundes. 300-309. 257-281. metbod. ___ 7bepresence oftbe word. 1-7. ___ (org. William 0976-1977). 0958b).xuality.MARANDA. Ithaca e Londres: ComelI University Press. Lordings' to 'Dear Reader"'. Winona Lake. Robert T. "From 'Listen. NELSON. ___ ___ (977). Nova York: Macmillan. Ezra Pound: Poeticsfor an electricage. Thomas H. e Londres: University of Califomia Press. Ithaca e Londres: University Press. 7be origins and bistory of consciousness. and the general good of this Nation. NEUMANN. 111-124. Erich (954). Bulletin oftbe American Academy of Arts and Sciences. 0967b). Isidore (979). NÃNNY. MILLER. and tbe decay of dialogue. Literacy in traditional societies. O'CONNOR. Inglaterra: Cambridge University Press. Stntctural analysis of oral tradition. ElIi Kongãs Maranda. perfumes. "On the language and authority of textbooks". Com habilidade e admirável verve. Unil'ersity ofToronto Quarterly. oflice of malting. journal of Communication. Nova York: Sheed & Ward.) (971). pp. Les temps modernes. Julien Greimas. Cambridge.: Archon. ordering of great feasts. Nova York: Ramus and Talon Inventory. Victor Tumer. e David Maybury-Lewis. Londres: Dawson. banquetting stuff. Pierre. beneficia-se da obra de Parry. 13-32. of oats. (980). Walter J. OLSON. "From utterance to text: The bias of language and writing". New Haven e Londres: Yale University ComeU --_ (971). Bollingen Series. "L'Oeil et l'esprit". Hebrew verse stntcture. pp.). University Press. Conn. cookery. (981). pp. 184-185. preserving all sorts of wines. 193-227.xcellentuses in families. Nova York: Columbia University Press. Joseph C. 0958a). Cambridge.: Harvard Mass.Joseph Hillis (979). 47. Ind. Purged. and society in tbe WestAfrican nove/. pp. and tecbnology. Nova York: MacmilIan. ____ MILLER. pp. Los Angeles.C. and made the most profitable and necessary for alI men. ordering of wool. Nova York: American 0967a).: Eisenbrauns.) 0980b). Londres: George Sawbridge.F. OKPEWHO. Cambridge. pp. 18. MARKHAM. Peacock. (971). "The blending of impulses from the oral and the literary traditions gives the West African nove! its distinctive local colar". de Pantheon Books. DelI Hymes. (2). Hamden. 7be african past speaks: Essays on oral tradition and bistory. Culture. HulI. Press. "Literacy and orality in our times". extraction of oyls. A Work generalIy approved. Harvard University Press. 186-1%. conceited secrets. (977). OBIECHINA. Nova York: Syracuse University Press.G. and consciousness. Gervase (675). 32. In: Jack Goody (org. Cambridge. Mervyn (968). tradução para o inglês de R. tbeir e. ADE Bulletin. ___ 0980a). distillations. Edmund R. David R. Michael Patrick (980). Haroard Educational Review. 7be englisb bouse-wife. Socialfoundations of language and tbougbt. Nova York: ____ . Elli Kongãs (orgs.: ONG. romance. ____ ___ 7be barbarian witbin. 34. jlax. Estudos de Claude Lévi-Strauss. OLIVER. Leach. Número especial: "Maurice Merleau-Ponty". (974). e MARANDA. Prefácio de c. making clotb and dying.

). revista. Écrits sur Ia musiqlle. 726-750. "The study of historical process in African traditions of genesis: The Bashu myth of Muhiyi". pp. 2ª ed. In:Joseph P. 7beories of literarygenre.). Londres: Imbongi Nezibongo: The Xhosa tribal poet and the poetic tradition". Tradução de Wade Baskin. PLATÃO (973). Nova York. passim. ROUSSEAU. Jean-Jacques (821). vol. Toward a speech act theory of literary discollrse. "The lessons of apprenticeship: music and textual variation in japanese epic tradition". 29 de dezembro. Introdução. (4). PLAKS. PARRY. pp. Peter (952). Londres: Dawson. Malcolm (980). PRATT. Oxford: Clarendon Press. Berkley (975). Adam Pany (org. "Essa i sur I'origine des langues: ou il est parlé de Ia mélodie et de l'imitation musicale".) (977). Bloomington e Londres: Indiana University Press. editado por Charles Bally e Albert Sechehaye. PARKER. 1971. University Park e Londres: Pennsylvania State University Press. Brill. SAMPSON. (org. 28. 185-208. Oxford: Clarendon OPIAND. de Schools of /ingllistics. Arm Arbor. programa item 487. Leyden: E. 7be destiny of the Veda in India. Geoffrey (980). Nova Jersey: Princeton University Press. Blameless Aegisthus: A Study of aflúflúlV and other Homeric Epithets. REICHERT. Paper lido no 96ª Convenção Anual da Modern Languages Association of America. Prefácio de Cyril Birch. PACKARD. 7beories of literary genre. In: Benjamin A. Outubro de 1980. pp. pp. "Body and image in oral narrative performance".. RENOU. mediante os quais elas podem ser identificadas em todas as edições eruditas e na maioria das edições comuns. In: Oellures de]] Rousseall (21 vols. 1916. Vladimir lakovlevich (968). Stoltz e Richard S.). 7be MlIse in Chains: A study in edllcation. As referências a Platão seguem os números Stephanus usuais. Stephen (937). Eric (981). pp. Leo (964). University Press. Nova York: State University of New York Press. contemporary Press. 150-165. University Park and Londres: Pennsylvania State University Press. Lequien. 13. Ancient Mesopotamia. 26. Originalmente publicado em francês. "The genres of oral narrative". Randall M. RICHARDSON. William Riley (967). 1820-1823) vol. Adam Pany Press. (Harmondsworth. SCHEUB. Delhi. vol. "Henry V. (980). PMIA. de Paul Kiparsky. Tradução com introdução Walter Hamilton. Strelka (org. 1be making of Homeric verse.). [Seu filho] Adam Pany (org. ROSENBERG. Jeffrey (975). Shannon (orgs. PLATÃO. Hamden. Oxford University Press. pp. Ferdinand de (959). 57-79. Press. 143-221. manuscrito do autor. VIII. Michigan: Center for the Coordination of Ancient and Modern Studies. Nova York: Philosophical Library. In: Milman Pany. Oral literature and the formula.). NY. College University Chicago English. Inclui fotografias da gesticulação . Dev Raj Chanana. Chinese narrative: Critical and theoretical essays. VIII. Strelka (org. Cohn. em colaboração com Albert Reidlinger. Adam (971). Paris: E. Mary Louise (977). COllrsein generallingllistics. Yearbook of comparative Criticism. Chicago: Press. Louis (965). (org. pp. PARRY. L 'Epithetetraditionelle dans Homere. 1be making of Homeric verse: 1be collecedpapers of Milman Parry. 90. 27 a 30 de dezembro de 1981. PROPP. 8. 1be winged word: A study in the technique of ancient Greek oral composition as seen principally through Hesiod's works and days. (970). Patna. 107-125. Princeton. Oxford: Clarendon pp. lona Archibald e OPIE. Supp. 1be African past speaks. 55. Phaednls and Letters VII and VIII. Bruce A. (978). Speclllllm. ix-xlii e notas. for the American Folklore Society and the Indiana University Research Center for the Language Sciences.OPIE. M01phologyoftheFolktale. "More than kin and less than kind: Limits of genre theory". Yearbook of comparative criticism.).J.). A. 345-367. Milman (928). 339-351. In: Joseph c. Califómia: Stanford SAUSSURE. New com as Literary History. ed. John (978). pp. OPPENHEIM. "Where do English departrnents come from?". T POTTER. Anne Amory (973). Albany. ____ and chancery (976). pp. "Anthropological approaches to literature". 1-190. Nova York: PARRY. Jonathan Cape. 7be art ofthe americanfolkpreacher.: Archon. Inglaterra: Penguin Books. pp. In: Joseph P. 157-177. Stanford. Mnemosyne: Bibliotheca Classica Batava. Harold (977). Andrew H. English". Austin e Londres: University of Texas Press. Paris: Société Éditrice Les Belles Lettres. Discussão anexa do artigo "Oral Poetry: Some linguistic and ---ty-pological considerations". the English chancery. Miller (org. 1be making Q(Homeric verse:1be collectedpapers of Milman Parry. In: Milman Parry. Oxford: Clarendon PEABODY. ___ (971). 1be Oxford Dictionary of nursery rhymes. Varanasi: Motilal Banarsidass). Na tradução inglesa. RUTLEDGE.

. Mary Ellen (org. STEINER. In: James E. "Namakke. 50-59. The rise of the novel: Studies in Defoe.mãos e outras partes do corpo por declamadoras Xhosa. A l/íada é tecida a partir de um episódio sem importância. Richard S. pp. Texas e Londres: University of Texas Press. File bundred years of printing. In: Dan Ben-Amos (org. Explorations in the ethnography of speaking. 145-170. 1957. Collections of the nJinois State Historical Library.).). Oxford University Press. cereais e outras mercadorias.).) (976). "Literacy in a Buddhist village in north-east Thailand". Junho de 1978. "The 'Pretty Languages' of Yellowman: Genre. ao que parece. VISIBLELANGUAGE (former1y foumal of Typographic Research) Publishes SIERTSEMA. (1972). Nova Jersey: Ablex. Kormakke: Three types of Cama speech event".). and fw/ding. (958).H. (1958). Cambridge. Lincoln Series. Richardson. Springfield. DC: Georgetown University Press. B. Jr.W. "Literacy without schooling: Testing for intelleetual effects". Edwin Erie (org. Muito provavelmente um precursor da escrita que talvez tenha conduzido da escrita no seu sentido pleno. Trata de selos de barro ocos e sinais gravados em barro do penodo neolítico na Ásia Ocidental por volta de 9. In: Jack Goody (org. pp. Scientific American. A1atis (org. SCHOLES. 1be muse unchained: An intimate account of the reuolution in Englisb studies at Cambridge. STOIZ. E.). Robert (966). e Shannon. 1965. The Hague: Martinus Nijhoff. Washington. Folklore Genres. and /inguistic aspects of narrative production. Mich. (968). m. 326-347. Offprint Series. SONNINO. (6). The Hague e Paris: Mouton.: Harvard University Press). . Berkeley: University af Califomia Press. (974). principalmente para registrar os bens ou carregamentos de gado. "The transmission of Islamic leaming in the westem Sudan". its constitution psychological and cultural effeets etc. Lee Ann (968).d. 489.J. mode. 85-131. DC: Georgetown University Press. 1be Lincoln-Douglas debates of 1858. George (967). Cedric M. Chafe (org. e Nova York: Cambridge University Press. Joel (974).).). Cambridge. its Concretepoetry: A wor/d uiew. valuable articles about typography. Inglaterra: Cambridge University Press. Georgetoum Uniwrsiy round table on languages and /inguistics 1980: Current issues in bilingual education. Homero (inconscientemente?) organiza a Ilíada segundo um padrão geométrico. de narrativas entre os T STOKOE. In: Richard Bauman e Joel Sherzer (orgs. revista por James Moran. Nova York: stories: Cultural. Literacy in traditional societies. and texture in Navaho Coyote narratives". Ann Arbor. \VILKS. SHERZER. Benjamin A. 306-322. "Implications of the oraVliterate continuum for cross-cultural communication". pp. SPARKS. pp. In: Wallace L. 1be nature of narrative. how to grab a snake in the Darien". In: Deborah Tannen (org. Inglaterra. TAMBIAH. TOELKEN. vol.) (970). 51-87. "A comparative analysis of oral narrative strategies: Athenian Greek and American English". or. William. Nova York: Athenaeum. Oral /iterature and the formula. Reimpressão Nova York: Norton. 448-461. 162-197. e usados durante milhares de anos. 249-284 (inclui um apêndice com diagrama). SOLT. Reeditado com a mesma paginação: Institute of Latin American Studies.) (908). 1bepear SCHMANDT-BESSERAT. STEINBERG. S. Literacy in traditional societies. Michael (978). "The interplay of strueture and function in Kuna narrative. Londres: Bowes & Bowes. 174 (s. vol. a Odisséia é mais complexa. (955). 263-282. Semiotics and human sign language. I. (orgs. Washington.000 a.: Center for the Coordination of Ancient and Modem Studies. Discute a "estrutura geométrica da l/íadd'. c. cognitive. m. 306 ss. In: Jack Goody (org. Barre (976). SCRlBNER. 3' ed. Através da composição circular (que termina uma passagem com a fórmula que a iniciou). ____ (981). University Press.). "The ear1iest precursor ofwriting". WHITMAN. pp. S. Rpt. Londres: Routledge & Kegan Paul. Inglaterra: Penguin Books. many and development. pp. pp. 48. Georgetoum university round tab/e on languages and /inguists 1981. Language and si/ence: Essays on language. A bandbook for sixteenth-century rhetoric. Norwood. Homer and the Homeric tradition. TANNEN. Ian (967). Cambridge. Ivor (1968). Bloomington: Indiana WATT. Austin. Denise (978).: nJinois State Historical Library. TILLYARD. pp. A study of glossematics: Critical sunry of itsfundamental concepts. Sunmakke. pp. University of Texas at Austin.M. Harvard Educational Review. Harmondsworth. /iterature and the Inhuman. Inglaterra: Cambridge University Press. 238. Robert e KELLOGG. Mass. pp. Deborah 0980a). ____ O 980b). 462-464. Cambridge.c. como caixas dentro de caixas. Sylvia e COLE.

. David 191 Bloam. 163. Language. Mass. 137. Michael J. Columbus. Samuel 173 Beethoven. 60 Bendey. George 61 Boccaccio. 59. 37 Biebuyck. Franz H. 132. Roland 182. BeIknap Press of HalVard University Press. Brigine 69 Bergk. Giovanni 119 Bodley. 165. ]. 177 Ambrósio de Milão 137 Antinucci. 173-174 Austin. Wa1t (1972). 190 Balogh. ]ane 151. Basil 122-123 Berthelet. 147 Bryan. Harold 152 Bloarnfield. Theodor 163 Bernstein. Thomas 138 Bessinger ]r. communication. 79 Bàuml. David E. sirThomas 96 Boemer. Cambridge. 22. Chicago: University of Chicago Press. 28-40.a. William]ennings 51 Bynum. 68 Carter. ]ohn 18.). 83 Carrington. 187 Basham. Francesco 77 Ariosto 177 Aristóteles 18.c. Richard 28 Berger. (1975).: WOLFRAM. Franz 61. ]ohn F. 1be oral tradition of classical Arabic poetry. T. 125-126. ZWETIlER. Laura 59 Bright.L. William 79 Browning. 109 Agostinho de Hipona. YATES. 180 Bleich. Edward O. ]ohn G. 160-161. Ludwig 98 Beidelman. ]ess B. pp. Heetor l\lunro 19 . ]osef 132 Barthes. Leonard 26 Boas. Roger 55 Achebe. Gerald L. Abrahams. 131 Bayer. Chinua 46. and rhetoric in Black America. Daniel 81. Thomas Francis 136 Cervantes Saavedra. Ohio: Ohio State University Press. "Sociolinguistic premises and the nature of nonstandard dialeets". 177 Becken. Frances A.L. Peter 119 Bohannan. 34-35 Carothers. ].WILSON. Santo 46 Ahem. Miguel de 168 Chadwick. In: Arthur L. (1966). 185. Nova York: Harper & Row. 1be art of memory. 192 Austen. Robert 96 Bruns. Sociobiology: 1be new synthesis. 194 Boas. A. 18. (1977). Smith Corg.

71-74. 50. Edward R. 37 Cronkite. 177 Nelson. Catherine 14 Michael Patrick 14. 60. 126 Kierkegaard. Francis James 26 Churchill. Julia 187 Kroeber. Marcel 29-30. 170 Kafka. 105 Gibran. G. 180-182. Ruth 17. Obiechina. Andrew 26 Lanham. 194 Lewis. Elli Kbngãs 14 Maranda. Kahombo C. JE. Ben 172 Jousse. 172 Derrida. 51. H. Northrop 22 Gelb. Gilbert 128 Dykema. Jacob 26 Grimm. 36. 172 Jonson. Gerhard 146. 143 Defoe. Ruth 132. 39. Pierre 14 Marcial (Marcus Valerius Martialis) 149 Mateene. Walter 140 Crosby. 171. Roland A. 32. Thomas H. R. 104 Corão 122. Ignace 99. 61-62. Martin 95 Luria. 158. 38. 185 Cole. 99 Lévi-Strauss. 100. 177 Cícero. 187. 170 Foucault. 179 Femandez.T. Marshall 14-15. István 177 Hardouin. Madame de 163 Lacan. 58-59. 168 Diringer. 16 Chaucer. 121. 14. 185 Hopkins. 179 Frye. Wolfgang 176. Erich 168. 165 Nashe. 35.R. ThomasJ. 16. John 160-161 Murasaki Shikibu. 20. Pierre 185-186 Mackay. 69 Lyly. 146. Richard E. 177 Macherey. 184. Nikos 178 Kelber. 64. 185-188. 163. 132-133 Husserl. 78. Alexander Romanovich 58. James 65 Fichte. James J 126 Mwindo. Claude 39. 146 Eliade. lady 163 Murphy. David 60 Henrique VIII da Inglaterra 150 Herbert. 101. 188 Haugen.E. 93.150. 109-110. 60 Edmonson. épico 32. Murray 19. 189 Miller. !'vIaurice 85 Miller. M. John 177 Macaulay. 124. 76. Jonathan 187 Culley. 81 Joyce. Gustave 174 Foley. Okpewho. 123 Hadas. Thomas Babington 52. 26. Munro E. James P. 45. 60 Hartman. H. Moses 176 Hajnal. 136. 184-185. 37-38. 176 Hédelin. Talmi 48 Goldin. Mircea 87 Ellendt. 194 Emmanuel 55 Isidore 15. 37-38. Ndewura 59-60 James. Stephen A. 35. Mervyn 109 Meillet. 104 Douglas. John H. E. 52. Henry John 14 Child. 94 Champagne. Raymond J. 26 Holland. George 147 Hesíodo 162 Hirsch. Stanley 191 Flaubert. E. wilbur SamueI126-127. 153. Hermann 193 Guxman. 128 Lord. sirIsaac 131 O'Connor. Robert 159. James 26 Meggitt. William 18. Joseph c. 114-116. 38. William M. Paul 79 Knox.S. 38. AJ. 125-126 Lincoln.D. 82 Mallarmé. 127 Leach. 37 Malinowski. 146 Greimas. Edmund 60 Leakey. Wallace L. 123 Havelock. Georg Wilhelm Friedrich 193. padre Jean 28 Harms. 176-177 Neumann. Clémentine 50 Farrell. 74-75. 125 Hockett. Johann Gottlieb 199 Fielding. Bronislaw 42. 165. 91. 97. !vlichel 185 Freud. Robert Hans van 168 Gumperz. 191 Descartes. François 28 Hegel. 148. Albert B. Norman 191 Holoka. Thomas 56. 81. 175-176. 192 Hawkes. Elizabeth 135. 109 36 Faik-Nzuji. 165. Daniell68. Vicesimus 25 Kristeva. L10yd s. Robert C. 191 Ivins Jr. Michael 65. M. 45-46. 109-110. Desidério 25. 105-106. 147 Curschmann. 178. 89 Lowry. Perry 172 Milton. Werner 194 Kellogg.M. Robert P. 141-142. 95.48. Winston 52. 171 Kennedy. Hannah 14 Kant. 184-185 Hawthorne. Sigmund 173 Fritschi. 143 Cohen.Chadwick. 122 Clanchy. 97. 79. 176 Forster.M. Soren 199 Kiparsky. 160161 Horner. 37 Homero (poemas homéricos. Einar 14. Edmund 185 Iser. 101. 171. 14 Gunkel.56. James 39.120. Stéphane 147 Mallery. 144. O'Connor. Eugene 38 Erasmo. 156 Düntzer. Jacques 185 Lang. George A. Nora Kershaw 19 Chafe. 14. épico grego) 10. Jacques 89. Kahlil 36 Givón. 57. Henry 169 James. 198 . Charles 132. 137. 190 Grimm. David 99. Robert W. 29 Durand. 184-185 Lotman. 194-195 Lévy-Bruhl. John William 76 Johnson. Lucien 61. Francis P. 5354. Henry 168. Julian 39-40 Johnson. 121.B. 14-15. 172 Finnegan. 18 Cortázar. Geoffrey 148. 177 Culler. 15 La Fayette. Garrick 15 lVIaranda. 199 Kaltmann. 162. 196 McPherson. 141. C.. John Miles 14. 169. 54. 145 Jakpa. Marco Túlio 27.75-76 Fish. Winifred Bryan 190 Howell. 16. Geoffrey 119 Chaytor. 160. Richard A.E. Franz 173 Kahler. Abraham 156 Lívio (Tito Lívio) 192 L1oyd. 187. 137. 110-114. 194 Cummings.35. William 120 Jaynes. 185 Grice. 198 Henige. A. E. Karl 149 Eadmer de Canterbury Eckvall. 136. Jurij 16. 137. 121-122. Terence 152.P. 15 Eduardo I da Inglaterra 113 Eisenstein. 83. Patrick 179 Eurípedes 151. Michael 176 Daly. 34. Immanuel 199 Kazantzakis. Gerard Manley 146 Horácio (Quintus Horatius Flaccus) 96. Erich 199 Newton. 163. René 86 Dickens. 38. 56 Ésquilo 198 Essien. Wilhelm 26 Gulik. Antoine 163 Merleau-Ponty. 180 McLuhan. 37. Ian 102 Magoun. 199 Cormier. 155. sir Thomas 138 Eoyang. 29 Elyot. 26-28. Jack (john Rankine) 14. 55. Frederick 18 Goody. C.L. Nathaniel 177 Haymes. 33. Eric A. Júlio 166 Creed.

. 172. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker. Henry 96 Vico. 168-169 Potter. 15 Smollett. Cedric M. 117-118. 37 Sherzer. Laurence 147 Stokoe ]r. 143. 170 Rosenberg. 27-30. 14-15. 187 Toelken. 36. 167. 188 Tannen. 163 Parry. 138. 162 Wilamowitz-Moellendorff. Edgar AlIan 163. Paul 191 Riffaterre. 37 Subotnik. 38. ]ean-]acques 91. 51.109. 119. 59. 30-31. Rei 108 Shakespeare. Edward 26 Saussure. William 172 Shannon. Samue1 172 Ricoeur. ]effrey 56. A. 42-43.188. Geoffrey 14. 149. 46. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. J. 185-186. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard. Edmund 178 Squarciafico. Adam 15. Mary Louise 190 Propp. 119. 36. 165. lan 54. Lev 61 Watt. lady 163 Sidney. P. 20. Andrew H ~Sl 162-166. 163. 49. 125-126. 126-128. 184 Parry. Tobias George 168 Sócrates 94-95. Edwin Erle 156 Spenser. 169-170. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. Edward 0. Bruce 38 Rousseau. Mary Ellen 147 Soooino. 93-94. Godfrey 59 Wilson. Richard S. Emst 26 Pynchon. 54. 18. 34-35. Hieronimo 95 Steinberg. 104 Searle. Denise 101 Scholes. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers.H. 190 Sejong. 36. Benjamim A. Peter 59 Opland. 15 Stoltz. Tzvetan 185. Murasaki. 180-181 Rudedge.58-59. 33-34. Berkley 72. 153-155.191.80. 32-33. 179 Steme. Ferdinand de 13 Sawyer. 75 Oppenheim. Harold 81 Schmandt-Besserat. Thomas 173 Pyson. lona Archibald 59 Opie. Platão. 130-133. 121. 114 Scheub. 96. 112. 87. 147. Henry 14 Vachek. 122.71 Peabody. B. 100. ]000 84 Usener. Robert 28 127 Tambiah. S. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. 187 Solt. Waiter J. Hermann 163 . 177. Milman 14. Stephen 182 Pratt. Deborah 36 Textor. 186 Rureke.W. lvor 110 Wilson. Friedrich August 28 Wood. 171-172 Whitman. Morton 98 Sweet. 110. 136-137. Michaell91 Robbe-Grillet. William C. 123 Ong.198 Opie. Phillippe 185.Olson. 37. 42 Sapir. loannes Revisius 143 Thackeray. Lee Ann 127 Sparks. 184-185 Percy. Sylvia 65. Ulrich von 163 Wilks.H. Candi 57. 144 Steiner. Robert 159.]. 68-69. Monica 59 Wolf. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. 171 Scribner.100 Wilson. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. Thomas 26 Peters. sir Philip 177 Siertsema. 29-30. ]ohn R. ]oel 75-78 Shikibu.M. George 136. 94-97. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. David R. 121.182-183. 187-188 Poe. E. 182 Todorov. William Riley 182 Parry. Louis 79 Richardson. S. 120. 26 Vaughan. 179.114. 140. 109 153. Anne Amory 61. 106. 27. Malcolm 124 Richardson. Alain 166.

Interesses relacionados