tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

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25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

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175 201 219

o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. em segundo.e. .e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura.Nos últimos anos. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes. Ou. não são inteiramente inerentes à existência humana como tal. na ftlosofia e na ciência . uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro. por definição. O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. em primeiro lugar. têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita. antes. o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral .estranha e por vezes extravagante para nós . estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. que eram dados como certos. o tema é. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana.

estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. cuja existência depende da escrita e da impressão. em vez disso. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. ela também envolve a impressão. Estas. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. religiosas entre outras. o esclarecimento não ocorre facilmente. à nova crítica. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. escritas) que coexistem num dado período. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. como na Índia. como o rad~o e a televisão via satélite. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. caracteres chineses. é claro. salvo como uma variante de um universo letrado. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. Portanto. Nós .000 anos. Wj. e a cultura eletrônica. mas também a cultura impressa. econômicas. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos".o. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. do rádio e da televisão. Não há "escola" de oralidade e cultura escrita. pela comparação entre períodos sucessivos. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. políticas. ou algo equivalente ao formalismo.000 anos atrás. a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. em questões relevantes.vasto mesmo -. As questões não são apenas profundas e complexas. e inicialmente apenas em certos grupos. que se apóia tanto na escrita como na impressão. passado e presente. reflexão árdua e afirmações cautelosas. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento. em todas as ciências humanas e sociais.000-50. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes. O Roma sapiens existe há cerca de 30. no Sudeste Asiático ou na Coréia). Universidade de Saint Louis . que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. Porém.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. depois. Nesse quadro diacrônico. que leva a escrita a um novo patamar. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. mas. Isso requer conhecimento amplo . em um estágio posterior. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita. a oralidade dos telefones.leitores de livros como este . embora também seja dada alguma atenção. contudo. silabário japonês.

até mesmo entre estudiosos.. Desde Saussure. que sustenta toda comunicação verbal. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral. C. o pai da lingüística moderna. p. Antropólogos. chamara a atenção para a primazia do discurso oral. observou. a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. isto é. Ferdinand de Saussure 0857-1913).1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas. assim como para a tendência predominante.) utilidade. A escrita. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. 33). o modo como a linguagem está enraizada no .) defeitos e perigos" 0975. sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. e não como transformadora da verbalização (ibidem).. possui ao mesmo tempo "C . surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita.

Havelock e outros. Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. McLuhan 1962. por enquanto. pp. Havelock 1963.e a maioria jamais foi escrita. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. a linguagem. pp. Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. bibliografia). A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária. Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983.). que. Chafe (982). se essa afirmação é verdadeira. mas nos estudos literários. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita. abordaram os modos como a oralidade primária. diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) . Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . paladar. Stokoe 1972). mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. Na realidade. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. Haugen (966).som. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita. 1967b). fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. assim como audição (Ong 1967b. Não apenas a comunicação. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. na maioria das vezes. 323. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz.1-9). Porém. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. em certos aspectos. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. Um contemporâneo de Saussure. Chaytor. Lord depois da morte prematura de Parry . descritiva ou cultural. meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse.faladas no curso da história humana. No entanto. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). Ong 0958b.talvez dezenas de milhares . mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. O livro de Jack Goody.assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. por exemplo). Lord 1960. Todavia. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . de todas as milhares de línguas . McLuhan (962). se tanto. Ainda hoje. Mallery 1972. num sentido profundo. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . Okpewho 1979 etc. fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. já muito antes (945). Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. tem importância capital. recentemente. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. eles têm uma linguagem. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. 332). mas. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. olfato e especialmente visão. Por mais rica que seja a linguagem gestual. Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras. A oralidade básica da linguagem é constante. Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. . no mundo sonoro (Siertsema 1955). apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. Contudo. o som articulado.concluído por Albert B. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. assemelham-se às línguas humanas (inglês.a gestual. Não existem. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. Onde quer que existam seres humanos.

podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. mina. pelo tirocínio. pp. inclusive nas culturas orais primárias. mas também centenas de milhares de significados passados. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso.). nas culturas orais primárias. a palavra falada ainda subsiste e vive. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. a linguagem falada. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. Nos quatro cantos do mundo. Eles aprendem pela prática . no sentido estrito de análise seqüencial ampla. durante séculos e até épocas muito recentes. a espacialização da palavra. Porém. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . dependente de um sistema primário anterior. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. 43-48).sânscrito. 1-7). por exemplo -. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. ver também Champagne 1977-1978). assimilando outros materiais formulares. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. shoshone etc. estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. malaio. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. não afetadas por qualquer tipo de escrita. porém não "estudam". uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. aprendem ouvindo. das quais se conhecem não apenas os significados presentes.e na maioria das vezes existiu . Os seres humanos. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. muito tempo antes do surgimento da escrita. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. sua beleza. aprendem muito. quando muito. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. possuem e praticam uma grande sabedoria. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral. a palavra techne rhetorike. 21. em voz alta ou na imaginação. de algum modo. reestrutura o pensamento e. A escrita. comum a culturas de alta tecnologia. pp. entre os antigos gregos. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. Mas o exame abstratamente seqüencial. nesse processo. hábitat natural da linguagem. que constitui um tipo de aprendizado. mas diretamente da consciência. 48-61. No entanto. desde os mais antigos estágios da consciência. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras.caçando com caçadores experientes. pp. a não ser nas últimas décadas. mas nunca a escrita sem a oralidade. Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. acerca de seus poderes. No grego original. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. seus perigos. Quando o estudo. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. O estudo da linguagem. Todos os textos escritos devem. Todo pensamento. apesar das raízes orais de toda verbalização. para comunicar seus significados. se torna possível com a interiorização da escrita. repetindo o que ouvem. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida. rejeitou a oralidade. Hirsh 1977. A expressão oral pode existir . No Ocidente.sem qualquer escrita. mandarim.

Atualmente. até mesmo o da escrita (Ong 1967b. até mesmo num meio de alta tecnologia. na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. Desse modo. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. e que as formas artísticas orais eram. letra do alfabeto). preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. consciente ou inconsciente. Rhetorike~ ou retórica. simplesmente textos. organizada . permaneceu. a escrita. muitas culturas e subculturas. muito embora. Possuímos o termo "literatura". cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. uma vez que todas as culturas C . pelo rádio. pp. 58-63.por exemplo.literatura inglesa. vezes passaram a presumir. mas como textos escritos. as preces. o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . Nem todos. na Arte retórica de Aristóteles -.para não dizer menos desfavorável . mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. Goldin 1973. como "arte" ou ciência refletida.falar. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. não levou a oralidade a um encolhimento. destinadas à recepção direta da superfície grafada. as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. com freqüência irrefletidamente. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". como as histórias orais tradicionais. 27-28). Ahern 1982).Ong 1967b. Criou-se a impressão de que. contudo. Proferido o discurso.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. à escrita. Contudo. um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia. Cormier 1974. Ong 1971. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. passim). praticamente como o paradigma de todo discurso. Acresce que. 56-58). embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. pp. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. no sentido restrito. de litera. Desse modo. desde o início.da arte oral como tal. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). Desde a metade do século XVI. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. mas consagrou-a. no fundo. o que durante séculos. Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). literatura infantil -. Como observado anteriormente. a cultura oral primária. Bauml1980. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. os provérbios. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. praticamente não existe. Porém.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. os estudiosos muitas . em diferentes graus. sem referência. adotaram essas suposições. para todos os efeitos. Porém. Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . referente a uma herança puramente oral. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . a escrita acabava produzindo composições somente escritas. • . os discursos . ou outras produções orais. pp.

Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). feno. terá alguma imagem. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. A escrita. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. exceto como alguma variante da escrita.como veremos detalhada mente mais adiante . p. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. As palavras escritas são resíduos. Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. 60 segundos. talvez de forma obscura. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. Na verdade.e provavelmente sempre . apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . isto é. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. Conseqüentemente . Estamos. parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais. O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. como ocorre na tradição oral. digamos. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. 16) que o termo "literatura". em vez de uma cobertura de tinta.subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. "escrita oral". de trás para diante . Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. sem causar uma distorção desastrosa. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". Porém. quando instada a pensar na palavra "contudo". até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". Ele discorrerá sobre cavalos. olhos. Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. Uma pessoa pertencente à cultura escrita. os cavalos serão apenas o que não são. que tende a absorver outras. mas de "automóvel". de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. Não é possível. quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). todos os pontos em que diferem. quando usado inadvertidamente também causa problemas .pondo o carro na frente dos bois -. e assim por diante. tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. No fim.embora com uma freqüência menor hoje -. algo chamado pêlo. mas tão somente ao som. mesmo quando nada têm a ver com ela. embora destinado originalmente a obras escritas.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". em vez de gasolina como fonte de energia. mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. que nunca viram um cavalo. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. além disso . sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". explicando a leitores altamente motorizados. Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. a começar assim. É claro que se pode tentar fazer isso. Em vez de rodas. sem se reportar a alguma inscrição. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. ao menos vaga. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma.

a perífrases explicativas . sem a escrita. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. quando necessário. Contudo. na verdade. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. sentidas como "vocalizações".rbapsoidein. o que elas efetivamente são. Neste livro. é.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. Nesse sentido. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. ainda que não tão evidentes. Mas. É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. 248-250. os dicionários são fundamentais. hoje. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. Porém. no oral. mas também da história. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. até mesmo em ambientes orais. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . "Texto". por mais que se tente o contrário. regras gramaticais escritas. como veremos. como tecer ou alinhavar . em termos absolutos. na verdade.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. O discurso oral tem sido geralmente considerado. Na realidade. e portanto está firmemente apoiada no vocal. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. de alto valor artístico e humano. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita. "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". Além disso. wekw-. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. ainda assim. embora. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais.iguais. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. aos provocados pelo termo "literatura oral". assim. o termo "literatura oral" está perdendo terreno. Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. o sentido mais comum do termo epos. mais compa. A cultura escrita. caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. que desejam ardentemente a cultura escrita. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. 293-303). como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz". Porém. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. da filosofia."formas artísticas puramente orais". pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. pp. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967). felizmente. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. novamente. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. As apresentações orais seriam. as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas. Hoje. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. Em um mundo lingüístico desse tipo.o "sistema modelar primário" . "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. cuja raiz significa "tecer". até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io.

forçosamente um estudo letrado. a cultura escrita . no mínimo. Ela pode também resgatar sua memória. a menos que seja cuidadosamente monitorada. embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral. até certo ponto.é também infinitamente adaptável." Pessoas de cultura escrita. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas. Felizmente. verificou e combinou muitos provérbios. continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. mas de outros escritos. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita .cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. da Idade Média e da época de Erasmo em diante. Muitos séculos antes de Cristo. até mesmo destrua sua memória . dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10). Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente. atingir.busca. Devemos morrer para continuar a viver. na cultura oCidental pelo menos. ditos. ou seu equivalente grego Eclesiastes.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia"). o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível. "Registrar por escrito . aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio.. embora seja significativo que.. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro . 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. e não uma apresentação oral. .

estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. Desde o início. trabalharam com partes da tradição oral. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia. Hockett e Leonard Bloornfield. Em . o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" .O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. centenas de colecionadores. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. no entanto. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. de forma mais ou menos direta. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. p. (Ver Adam Parry 1971. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. p. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. embora. Para explicar sua admitida superioridade.especialmente J. ou talvez por causa delas. como fazem Edward Sapir. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. na Antiguidade Clássica ocidental. e não lastimável. O Círculo Lingüística de Praga . de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica".notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. C. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual. feita por Lang e outros. ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. como os mais exemplares. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. No início do nosso século agora já perto do fim. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. desinformação e preconceito. da Antiguidade até o presente. ou semelhante à oral. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. ou quase oral. com diversas misturas de visões fecundas. Mais do que qualquer estudioso anterior. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. nehhuma outra parte. Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. 77). 34). Desde então.) Os homens de letras. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. dando-lhe nova dignidade. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. Freqüentemente. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. Vachek e Ernst Pulgram . as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. e a demonstração. os irmãos Grimm. consciente ou inconsciente. porque conhecia a escrita. Cícero considerava como sendo ela própria um texto). Durante mais de dois milênios.

pp. em leu Prolegomena. Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. 1717-1771). mas necessariamente a criação de um só homem. 99-101). criações de todo um povo. xiv-xvii). julgava que existira realmente um homem chamado Homero. fora antecipada na obra de ]. considera um problema a mensagem numa tábula que. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. 163-164). ainda estudante. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. Belerofonte leva para o rei da Lícia. argumentando. até sua morte prematura em 1935. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. como observa Adam Parry 0971. Ellendt e H. dos anos 20 em diante. pp. palavra por palavra. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. além disso. O filho de Parry. Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. No século XVII. Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . pelos unitaristas. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. Robert Wood (c. pp. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. Jean-Jacques Rousseau (1821. Com efeito. contudo. diplomata e arqueólogo inglês. no início dos anos 20. Rousseau. na poesia oral de tais culturas. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. começou a formar suas próprias opiniões. O axioma fundamental que dirige seu pensamento.uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. no tempo de Pisístrato. de 1795. xix). Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. ix-lxii) . Murko reconhecera a ausência de memória exata. p. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. Düntzer. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. muitas vezes literatos bem-intencionados. no Livro VI da Ilíada. de certa forma.E. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. o falecido Adam Parry 0971. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. pp. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. padre jesuíta e erudito. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). Eles foram seguidos. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. Marcel Jousse. e M. Porém. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. François Hédelin. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. inevitavelmente. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. Surpreendentemente. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento. Mais importante.

Certas práticas. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. pensava-s~. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. Pouco depois de Pope. juntamente comâs sílabas longas e curtas. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. moldá-Ios a sua própria "natureza". relacionado apenas ao "gênio" (isto é. Para o romântico radical. deveria. A estrutura geral poderia ser sua. contrariavam esse pressuposto. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. p. A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. 77. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. que haviam influenciado estudiosos anteriores. não deveriam usar materiais pré-fabricados. sugestões que pairavam no ar nessa época. como veremos. até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). Indubitavelmente. 178). Em sua forma aperfeiçoada. é óbvio que as necessidades métricas. assim como outras. pois. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . 335-336). o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. p. Porém. também o estavam influenciando. no entanto. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. todavia. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. a era romântica exigia uma originalidade ainda maior.diferentemente em cada narração. Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. era toda sua. 1971. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". Esse tipo de procedimento. Ora.lamentavelmente. 261-263. de um modo ou de outro. 1977. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. o poeta perfeito deveria ser . pp. dos poetas latinos clássicos. Os poetas. 85-86. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa". era visto como tolerável apenas em iniciantes. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. xx). e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. 166. pp. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. é verdade. tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. pp. Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. ver Ong 1967b. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. pp. mas não quanto às expressões.absorvendo sua cultura oral. xxii). O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. mas as peças já existiam. A visão de Parry. no começo dos anos 20. 30. 147-148. O Gradus fornecia frases ~pitéticas. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971.

segundo o consenso de séculos. apud Havelock 1963. em princípio. não era um poeta iniciante nem medíocre. que nunca fora inexperiente. 115). agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça. p. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. cada vez mais.como o próprio Deus. mais simplesmente. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava".) A linguagem toda dos poemas homéricos. uma vez adquirido. por volta da época de Platão (427?-347 a. para nunca utilizar clichês. Em vez de um criador. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos.c. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. De qualquer modo. Era inútil negar o faio. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. a saber. canto). Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores.c. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos. necessariamente. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas. o qualificativo previsível . Além disso. o clichê. eram obsoletos e contraproducentes. mas um grego especialmente construído pela prática.. fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. Homero. por exemplo. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. o conhecimento. fórmulas devastadoramente predizíveis. a espoliação dos vencidos. em boa medida com finalidades métricas.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963).ou. Mas. no qual a fórmula ou o clichê.adosteoricamente para desvalorizar. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. que os . "costurar cantos" (rhaptein. por volta de 700-650 a. pareciam ser feitos de clichês. formulares. (Rhys Carpenter. por volta de 720-700 a. mais abstrato.). oide. rhapsoidein. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita . a frase pronta. . o desafio..como o precoce Mwindo. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. a reunião do exército. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. mas no texto escrito. geração após geração. No entanto. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. até certo ponto. pp.poetas transmitiam de um para outro. menos previsível era tudo o que houvesse no poema. tais como a assembléia. eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. Homero foi normalmente considerado perfeito. criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. que podia voar apenas saído da casca . na llíada e na Odisséia. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. poeta épico nyanga. O significado do termo grego "recitar". Pois os letrados são educados.c. a fórmula.algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. tinha-se um operário de linha de montagem. rematadamente hábil. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. 49). costurar. Na cultura oral. 68-98). as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. agora conhecido. Este libertava a mente para um pensamento mais original. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. p. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. amados por todos os poetas tradicionais. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960.

as quais. de modo inteiramente genérico.1978. 70) relata.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. embora superficialmente amistoso e ininterrupto.1978. 13). E. p. em que a cultura escrita alfabética. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. sim. mas. profundamente interiorizada. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. O conceito da fórmula. 1). mumano de processar o conhecimento. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. Adam Parry 1971. xxxiii. p. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. ainda que. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. 1).hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. direta. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. e passim). 18). n. na verdade profundamente antagônico. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. no conceito de Parry. no nível inconsciente e não no consciente. aparentemente um tanto surpreso. como um modo mecânico. reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. Bynum. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry.embora. p. "as noções de separação. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. 1. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. Por toda parte. XXXiii. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. xxviii. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. ou a brevidade usual das próprias formulas. eletrônica ou de impressão. em Parry. n. recompensa. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. A menos que indique claramente o contrário. a madeira rachada . (Cf. a despeito da inquietação de Platão. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . a observação de Opland de . Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. como agora sabemos. p. elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. na história humana. exatamente. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. pp. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. no mais das vezes. pp. Finnegan (1977. 11-18. na África Central e em outros lugares. indiferente a perguntas e destruidor da memória . como veremos. p. 33-65). . 145). U~ dos motivos para isso é que. filosofia depois de Platão defendeu era. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. 272). p. p. p. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia. Adam Parry 1971. À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. a convencionalidade do estilo épico.

A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. Anteriormente. dois séculos mais tarde. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. Ao excluir os poetas de sua República. incluindo o uso predominante de elementos formulares. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. Como se verá mais adiante. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. caixas dentro de caixas. Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita. Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . PIarão estava. p. Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. quando os poetas xhosas aprendem a escrever. pp. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. . em sua grande maioria. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. 23-47). uma mimetização em manuscrito da atuação oral. atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960).que.tenha s1d~ .que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor).Tannen 1980a). já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b.· de Havelock. 490).poético ou não . parece ser de início. necessariamente.êm sido p~oduZidos por Albert B. segundo um de meus amigos libaneses. 218). porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. ainda no século XI. pp. na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. da antropologia à história literária. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. em sua grande maioria. somente com o movimento romântico. Embora o trabalho de Parry . os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns. Lord e Eric A. mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente. o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. . um tipo de discurso .a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início.. ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. mas nunca a interiorizaram completamente. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. Os hábitos orais de pensamento e de expressão. que vêem como originais ditos proverbiais que. em toda parte. A primeira poesia escrita. por exemplo. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. Preface to Plato (1%3). Clanchy relata como. Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária.atacado e revisto quanto a alguns pormenores. _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. o grego . Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . Adam parry (1971. tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. segundo a análise de Whitman. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. Havelock. p. Stolti' e Shannon 1976). Na verdade.

analítico). inventado pelos povos semíticos.quando muito . Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. E outros estudos especializados estão agora surgindo. exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. Porém. em sua obra magistral e judiciosa. de modo convincente. do contrário. Sua afirmação gnômica fundamental. O alfabeto original. Eu havia anteriormente sugerido (1967b. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral". umas poucas conexões importantes já foram feitas. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições. Todavia. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. mas também a outros. Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). para a mídia eletrônica. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. seriam extremamente díspares . pp. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. Jack Goody (977) mostrou. A estas ele denominou "sondagens". Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. oral-textual. incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b . lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). demasiado loquazes para alguns leitores. Ao introduzir vogais. Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. "O meio é a mensagem". raramente . de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência.verdade. Por exemplo. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos. p. ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. Numa obra mais recente. de executivos e do público informado de um modo geral. Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. Joseph c. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos . e da Antiguidade aos dias atuais. Recorrendo não somente a Parry. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. xvü). consistia somente em consoantes e algumas semivogais.fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva.que. dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. vozes que o hemisfério esquerdo . Por exemplo. Lord e Havelock. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. x-xi. incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. por meio da cultura escrita e da impressão. Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia.

Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes. Em uma cultura oral primária. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. Para ser breve. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a. já não submetida ao domínio das "vozes". como quer o autor. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original.processava em fala. Esse período. ou "bicameral" como ]aynes a descreve . 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais. isto é. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis..) .T. e de outros que serão mencionados. como veremos.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. ou seja. das culturas orais intocadas pela escrita. o que certamente traz implicações maiores para o leitor.) •• Look up something. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna.falta de introspecção.T. (N. literalmente "procurar com os olhos". Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo.c. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a. mas até mesmo nos dias de hoje. do que a tradução "procurar" evidencia. com efeito.c. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência. e ]aynes. de uma percepção de diferença entre passado e futuro . de audácia analítica. acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. (N. de preocupação com a vontade como tal. é dividido em duas partes bem distintas. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. look up. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações.

Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais.T. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923. Nesse sentido. d todo som . para examinar algo atentamente por meio da visão. "lá". eventos. mas pode também registrar a imobilidade. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. cheirar. como eventos e. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente. As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. Em segundo lugar. logo. Elas são sons. ou uma cultura não muito distante da oralidade primária. Um caçador pode ver um búfalo. as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas. Ele existe fora do mundo sonoro. não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". * Cal! them back. São ocorrências. num sentido radical. não. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos. em uma superfície plana. sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. nem rastro (uma metáfora visual. estão mortas. a química e pôr em prática a engenharia química. etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. as palavras reais. na verdade. as palavras em si não possuem uma presença visual. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. Não há como deter e possuir o som. faladas. Muitas vezes. O som sempre exerce u~ poder. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. Um oscilograma é silencioso. Na realidade. Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. a uma estabilização idêntica à do som. Toda sensação ocorre no tempo. pois. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. O fato de os povos orais comumente . Toda sensação ocorre no tempo. pp. pp. Se detiver o movimento do som. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. não tenho nada . pois não constituem aç~~s. que mostra a subordinação à escrita).apenas silêncio. recal! them. O som existe apenas quando está deixando de existir.e talvez universalmente . Também não ca~sa surpresa que povos . muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. entre os povos "primitivos" (orais). 223-126). pp.é "dinâmico".T. preferimos mantê-Io imóvel.conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. portanto. Quando pronuncio a palavra "permanência". ela favorece a imobilidade. que vem de dentro os organismos vivos . Poder-se-ia "evocá-Ias" .) To lookfor them. ausência absoluta de som."reevocá-Ias"*. Ele não é apenas perecível. necessariamente portadoras de poder: para eles.) . mas o som possui uma relação especial com ele.especialmente a enunciação oral. b u ao. mas. (N. por exemplo. pp.e muito provavelmente em todo o mundo . nem mesmo uma trajetória. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. Sem a escrita. mas. A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. Não têm sede. A visão pode registrar o movimento.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. pelo menos inconscien~emente. Essa crença é. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. dotada de um poder. pr~fenda e. ** (N. 470-481) salientou que. mumente .teria nenhum significado concebível. Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos.julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. 451. Malinowski 0923. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. no momento em que chego a "-nência". somos simplesmente incapazes de compreender. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. 111-138). se ouve . até mesmo morto. Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. 230-271).

Podemos recordá-Ias. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. sim. a re~ei~ão. tende ~ ser altamente rítmico. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos.quando muito -. As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. por si sós. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente. assim como funcionam. 131-132. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida. mas também da história da Revolução Americana. até mesmo p. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita. Entre os antigos gregos. pp. o duel_o.ou em outra forma mnemônica. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que. processo de respiração. em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. como . em repetições ou antíteses. O pensamento deve surgir em padrões. o alerta do marinheiro. Numa cultura oral primária. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. Antes de mais nada. em uma cultura oral. Hesíodo. muitas vezes ritmicamente equilibradas. Sabemos o que podemos recordar. o "ajudante" do herói e assim por diante).. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. possam recordar.." "A tristeza é melhor do que o riso. e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. . 97-98. A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. "Vermelho pela manhã. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia. cada uma de suas proposições e provas. para posterior recordação.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. mas. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. Uma cultura oral não possui textos. quando fundado na oralidade. recuperar uma complicada série de asserções." Fixas. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos.icologicamente. moldados para uma pronta repetição oral. 87-96. não há nada fora do pensador." "O robusto carvalho." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope.Numa cultura oral. fosse relativamente complexa. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das. a delícia do marinheiro. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. realmente. com muito poucas exceções . vermelha à noite. de que modo. como apoios mnemônicos. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não.à comunicação. por sua vez. pois o ritmo auxilia na recordação. não queremos dizer que temos na mente. fortel~ente rítmicos. Como ela retém. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . a fim de que "saibam". Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. 294-301). analítica. a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. isto é. em umas poucas centenas de palavras. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. pp. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. consistindo." "Errar é humano. em altteraçoes e assonâncias. de forma a VIr prontamente ao espírito. perdoar é divino. ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. e portanto também no hebraico antigo.. equilibrados. O pensamento prolongado. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. poderia uma solução longa. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- .294-296). digamos. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. "A videira aderente." "Dividir para conquistar. nesse momento. mas também os processos mentais. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. por si sós. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação .

um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". baseado diretamente na tradição oral ibo. mas ilustrativo. Contudo. da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. Obviamente. na realidade. Numa cultura orall. tal como o seria com o auxílio da escrita. Não seria um conhecimento confiável. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. uma vez terminado. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). embora complexo. ainda que isso fosse possível. no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. p. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. além de sua estilização formular. o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5. são constantes. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. ao fazê-Io. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . não-mnemônicos. mas simplesmente um pensamento momentâneo. porém preserva . de Havelock. provérbios. é um texto. em si mesmos. seria uma perda de tempo. não-padronizados. determinando o modo como . com grande inteligência e requinte. 5).em livros de adágios.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. o modo como a experiência é intelectualmente organizada. Sem elas. pois é nelas que consiste.isto é. a própria lei está encerrada em adágios formulares. a lei. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico. Esse é um dos motivos por que. conseqüentemente. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. Em uma cultura 9~. Numa cultura oral primária.). pois esse pensamento. podem ser "procuradas". no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. Numa cultura oral.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. Isso vale para as culturas orais em geral. na verdade. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. Preface to Plato (1963). pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. que não constituem meros adornos jurídicos.e. um modo fixo de processar os dados da experiência. que. orais. na África Ocidental. O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade.sas. Elas formam a substância do próprio pensamento. para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. este é impossível em qualquer forma extensa. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. Nas culturas orais. Porém. mas nas culturas orais não são eventuais.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. mas são. quando os falantes refletem.

Em todo o mundo. E Deus viu que a luz era boa. e houve noite e manhã um dia. o No começo. e houve luz. a terra era um vasto deserto informe. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. de certa forma independentemente da gramática. termos. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. Assim chegou a noite. a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. Dois "e" introdutórios. mas agrupamentos de totalidades. quando Deus criou os céus e a terra. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. incompreensíveis para os ouvintes). Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . ambos mergulhados num período composto. e as trevas cobriam a superfície das profundezas.uma visível padronização oral. e ele dividiu a luz das trevas. Noite. e a ela sucedeu a manhã . a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite". como sugeriu Givón (1979). frases ou orações antitéticos. As nações orais preferem. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. Em muitas das culturas de baixa tecnologia. Nove "e" introdutórios. "quando". Deus então separou a luz das trevas. Deus viu como era boa a luz. constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. não a princesa. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. em desenvolvimento. tais como termos. Um dos muitos indícios de um alto . Assim. "assim" ou "enquanto". E a terra era erma e vazia. e até mesmo exótica. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". E a luz se fez. dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. mas o soldado valente. 1980b. especialmente no discurso formal. e às trevas. 188-212). mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. não o soldado. A versão Douay (1610). "então". epítetos. capitalistas fomentadores da guerra -. segue de perto. E Deus disse: Faça-se a luz. pp. Deus criou o céu e a terra. O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. para a relação de algumas fitas). produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte.o primeiro dia.Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. os clichês nas acusações políticas . e as trevas cobriam o abismo. não o carvalho. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra.ainda que em vias de desaparecimento . As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. uns anos atrás. como eram as fórmulas . As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. arcaica. Então Deus disse: "Seja feita a luz". A New American o traduz por "e". o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. Ele lhes parece natural e normal.inimigo do povo. mas a bela princesa. mas o carvalho robusto. frases ou orações paralelos. em muitos aspectos.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. E ele chamou à Luz Dia. incluindo a que produziu a Bíblia. As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. enquanto um forte vento varria as águas.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. Em culturas orais ou com um alto resíduo oral.

Se deixarmos passar o "não apenas . a situação é diferente. por força do hábito. O pensamento requer algum tipo de continuidade. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. mantendo . para manter intacto o agregativo. com efeito. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. Com a escrita. compreende cada palavra que um falante pronuncia.) Nas culturas orais. é preferível repetir algo. deixavam que ela semeasse seus escritos..". 101). A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. No estilo oral. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). Portanto. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. princesas ou carvalhos. Sem um sistema de escrita.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". Por conseguinte.. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. a mente deve avançar mais lentamente. puramente ad boe. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. Uma expressão formular. Nem todo mundo. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. duas ou três vezes. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. p. No discurso oral. construída pela tecnologia da escrita. que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa.constitui um procedimento altamente arriscado. mas o faz para demonstrar que eles o são. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. 245). requer a escrita. Não há nada para o que retroceder fora da mente. o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. a hesitação é sempre prejudicial. pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada.. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. a repetição do já dito. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. oral] totaliza" (1966. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. embora a pausa possa ser benéfica. mesmo que em virtude de problemas acústicos. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. ou algo equivalente. fisicamente. Por conseguinte. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. a redundância atinge dimensões excepcionais." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. dentre uma multidão ouvinte. redundantes. deve permanecer intacta. Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. os oradores públicos ainda à época de. a análise . o pensamento fragmentado . perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. A redundância. um processo muito lento . ver Faik-Nzuji 1970. p. podemos inferi-lo pelo "mas também . O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. Convém ao falante dizer a mesma coisa. como na conversa de tambores africana. soldados são sempre valentes. A psique pode controlar a tensão. sempre disponível em fragmentos inscritos na página. princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos.. no Zaire. uma vez cristalizada. até mesmo epítetos opostos.em média. William Jennings Bryan 0860-1925). em parte porque a escrita à mão é. por exemplo. "a mente selvagem (isto é. mantinham a velha redundância em seus discursos e. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou.isto é. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. Uma cultura oral pode.

mas na administração de uma interação especial com sua audiência.deprecia as figuras do sábio ancião. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. não carecem de originalidade própria. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . evidentemente. em favor de descobridores mais jovens de algo novo.i. que. Os retóricos chamariam a isso copia. 13-14). desse modo.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. pp. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. a escrita é conservadora a seu próprio modo. mente. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos.e mais ainda a impressão tipográfica . O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. deve-se dar à história. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. De fato. As culturas orais estimulam a fluência. conhecida. isto é. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. são. de seu esforço de memorização e. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos.também mudam nas culturas orais. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. de um certo modo. p. 29-30). com elas. 30) -. à interação imediata. uma situação singular. quando as curas são raras. Por uma espécie de lapso. e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. o excesso. pp. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964.são propagandeados de forma explícita por sua novidade. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. Eles raramente se tanto . As culturas orais. Obviamente. compreensivelmente. isto é. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. a escrita . como também soam. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. Porém. As práticas religiosas . inibe o experimento intelectual. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. 254-305). haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele. em sua época . oralmente composto.se possível engenhosamente. de seres humanos. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. 232). pelo fato de tomar para si funções conservadoras. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. de certo modo. Na tradição oral. objetivo.e. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias. a loquacidade. como Goody os intitula 0977. Porém. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. de uma maneira única. pp. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. Porém. desnaturar até mesmo o humano. Logo depois de seu surgimento. assimilando o mundo estranho. que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. muito freqüentemente. p. Durante a Idade Média e a Renascença. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. sim. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. Todavia. muitas vezes intensamente. repetidor do passado. novos universos conceituais. pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode.a cada narração. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. inventam novos santuários e. com estes. os escritos de Winston Churchill (1874-1965).

Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. com apenas um mínimo de explicação verbal. 176-180). na Bíblia. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. 1972).divisões políticas em uma lista abstrata. no Beowulf. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. 258). em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada . 28-29.Ong 1967b. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . em grande medida. até mesmo em culturas quirográficas. Na narrativa. pp. que não constitui uma lista neutra. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. certos jovens negros nos Estados Unidos. mas uma forma de arte. As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. em todos os contos medievais europeus.mais de 400 versos . e que Ora. Comande o nauio um dos chefes do exército. mas também na celebração do comportamento físico. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47). no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. são extremamente raros e sempre toscos. sounding ou outros nomes. que eram cruciais na cultura homérica. os livros VIII e X rivalizariam. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. Na llíada. do mesmo modo. Característicos das sociedades orais em todo o mundo. O dozens não é uma briga real. inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. sem perda de tempo.141-144. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. 234. Criados numa cultura predominantemente oral. O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. Obiechina 1975). joning. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. até mesmo em culturas de alta tecnologia).que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. reunamos. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista.senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. é comum depararmos. De belas faces. independente. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. pp. remadores. Uma cultura oral. 32). convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. Não somente no uso que se faz do conhecimento. Na última metade do segundo livro. neutra. nos embates entre personagens. e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. isto é. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. . no mínimo. Goody e Watt 1968. por exemplo. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. Representações de violência físita crua. com base na observação e na prática. com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. p. na verdade.

A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". 197-233). as relações interpessoais são mantidas em tons extremos . A narrativa literária. da virtude e do vício. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. eventualmente. e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. com o herói Mwindo. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. obviamente.ii. pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". Platão excluíra os poetas de sua República. as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. e. 145-146). dos vilões e dos heróis. sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. desse modo. uma feiticeira . de seus ouvintes. aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima. Porém. o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. Porém. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. "deixar-se levar por ele". p. veja que eu já estou prosseguindo". agonístico oral. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. do bem e do mal. A escrita separa o conhecedor do conhecido e. pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. Sob a influência da escrita. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. portanto. à medida que se aproxima do romance sério.e. mais de 2 mil anos depois. como uma reação encerrada na reação comunal. os antagonismos. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. a despeito dos ataques feitos a ela. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. residualmente oral. da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. já muito estudados (Finnegan 1970. A ligação entre narrador. Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. de presunção e de afetação ridícula. "Aqui estou para enterrar César. aumentam as hostilidades. Elas sobrevivem nas baladas medievais. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. não para falar em seu louvor". distanciando-se das meramente exteriores. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. comunal com o conhecido (Havelock 1963. empática. Opland 1975). transcrevendo-o. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual.79).tanto as atrações quanto. Lidando com um outro cenário oral primário. estão des-oralizando-o num texto. envolvida na dinâmica de troca sonora. estabelece condições para a "objetividade". o declamador do poema épico. de modo que. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. na "alma" comunal. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. Voltaremos a essa questão posteriormente. pp.\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. pp. antes. escriba!" ou "ó escriba. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. em vez de causas físicas. por intermédio dele. e sobretudo. . mas.um mago.

pp. e o termo que permanece ficou vazio. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. que não é. Assim. embora limitadas à atividade poética. inflexões vocais. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. ilimitada. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. 94-95). pp. no entanto. 31-34). p. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. até mesmo em culturas de alta tecnologia. pp. Goody e Watt (1968. falada. vivida. mediante o uso corrente. mas inclui também gestos. pp. sempre ocorre. conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. como literatos. como num dicionário. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. p. entre os lokele no leste do Zaire. que não consiste meramente. Nos últimos anos. pp. entre o povo tiv da Nigéria. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. em que a palavra real. É verdade que as formas artísticas orais. em outras palavras. conservam algumas palavras. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. descobriu-se que. isto é. Os tambores africanos. tais como o poema épico. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. podem ser registrados em definições formais. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. Ong 1977. 41-42. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. 48-99). como pai de sete filhos. à época em que os . em Gana. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. Goody e Watt (1968. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. por exemplo. elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. 29) chamam de "ratificação semântica direta". Sessenta anos depois. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. também. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. tal como usados. tal como ela ocorre em textos datáveis.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. tem uma certa durabilidade. o fundador do estado de Gonja. desse modo. portanto. já não reconhecidos. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. desapareceram da experiência diária lokele. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. isto é. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. que. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. nessa época também. as formas arcaicas são correntes. embora a palavra tenha sido conservada. A memória do antigo significado de antigos termos. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. em disputas jurídicas).

25-26. Henige (1980. Além disso.. simplesmente ele próprio. na União Soviética. assim como Harms (1980. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato.R. n. como cita erroneamente Luria 1976. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. 248. e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. duas das sete divisões haviam desaparecido. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. tendeu normalmente a desaparecer. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. que. Packard (1980. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. 247. T. observa que o "modo oral. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. p. durante 1931 e 1932. p. até certo ponto abstrato. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. 33. I de uma realidade individual. Todavia. 157) chamou a atenção para o fato de que. Edmund Leach e outros. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. sensível. operacionais. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado.. se todo pensamento conceitual é assim. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". 255). uma por anexação a uma outra divisão. isso se aplica aos bashu. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. pp. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais.O. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. A seu ver. extraída e distanciada . Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. 178) acha que se aplica aos bobangi. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. 8). de modo algum "abstrato". Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. p. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). Nestes últimos mitos. Luria. faziam questão desse contato em seus mitos. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. mas constitui uma abstração. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. p. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. n. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores.mitos de estado foram novamente registrados. nos tempos modernos. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. de A. As culturas orais estimulam o triunfalismo. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". na opinião de Claude Lévi-Strauss. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. p. Beidelman. que possuem um mínimo de abstração. como Franz Boas (não George Boas.

Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. pp. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos. 32-39). respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. mas em termos de situações práticas . o relato de Luria gira claramente. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. tora. 56). porta. Um círculo seria chamado de prato.um jogo intelectual estranho. casa. à exceção da tora. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. Se tiver de tirar um deles. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. não respostas tiradas da vida real. Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. Quando lhe dizem que o martelo. 14). quadrados etc. serra. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. p. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. Entre as descobertas de Luria." Por outro lado. Desse modo. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. quadrados. triângulos e assim por diante 0976. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. mas usavam um conjunto diferente de categorias. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. p."pensamento situacional" -. na verdade. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. . com certo grau de cultura escrita. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. Alunos de cursos para professores. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. relógio ou lua. peneira. não podemos construir nada" Cibid. com objetos concretos. sim. a tara não é uma ferramenta). e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita . a serra e a machadinha são todos ferramentas. 74).. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos.). Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. nunca abstratamente como círculos. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. em oposição aos fundados no quirográfico. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. Mas. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. plataforma de secagem de damasco. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. mas. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. do contrário. p. Estes não eram líderes em suas sociedades. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. jogo fora a machadinha. mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. um quadrado seria chamado de espelho. machadinha. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim. balde. por outro lado. e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra.

mas tendem. mas depois reconsiderou e acrescentou. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. 34 anos) (1976. onde há neve. como um texto. na vida prática." "Somente um animal voador. O ouro é um metal precioso. 108-1(9). ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. não era importante. tora." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. 114). Em suma. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. p. foice. se a resposta surge dessa forma. eles nunca os compreendiam completamente e. p. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. 104). No extremo norte. Apresentada a série machado. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. "Metal precioso enferruja. 72). para além das próprias palavras do enigma. muitas vezes profundamente inconsciente. a saber. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. não tinha interesse. Por outro lado. no estágio apenas inicial de alfabetização. Porém. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. machadinha. Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. pp.o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. num estágio apenas inicial de alfabetização. não minha. em sua interpretação de dadas afirmações. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. desse modo.Um trabalhador de 56 anos. a ir além das afirmações em si. um dirigente de uma fazenda coletiva. p. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. que parecem ter julgado desinteressantes. Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. que deveria completar a série serra. pp. Para resolvê-Io.. eles deveriam ser todos brancos" (1976. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais . . mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. 67). Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. 54-55). Metais preciosos não enferrnjam." É sua responsabilidade. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. Nunca vi outros . fixo. embora com a predominância do último. Vi um urso negro. sobre a cor de um urso polar? Além disso.. À luz desse conhecimento. assim como em outras formas. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles.. num silogismo. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. de 45 anos. Em determinados momentos de suas discussões. espiga. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. antes. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. O enigma pertence ao mundo oral. p. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz.. encerrado. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. era fútil (1976. mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas. o categorial. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. todos os ursos são brancos. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). a respeito da espiga. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. 18 anos). 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. p. isolado.

"E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. Perguntou-se a um homem de 38 anos. mas no fim retoma à experiência individual. também precisa de fogo" 0976. os pedidos de definições dos objetos. álamo. "Tente me explicar o que é uma álVore. um teto para sombra e uma máquina. Mas a falta de familiaridade . Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. as pessoas são diferentes calmas. p. vai descobrir. ninguém nos respeitaria" (1976. p. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros.. 90). não está centrada na descrição da aparência visual . p. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . de 30 anos. Por outro lado.. 15). Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. como é seu caráter." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. ou às vezes sua memória não é boa." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. mas são típicos. não precisam que eu lhes explique". deve haver. 150): "Que tipo de pessoa é você. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. p. 86).esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. Não sei se há água num carro. todavia. 87). O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. 148). Eu mesmo não posso dizer nada. não de dentro. Mas para ir direto ao assunto. o eu. diz: "É feito numa fábrica.''' O respondente enumera algumas características. "Bem. Numa viagem. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan.o vapor dá potência à máquina ." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. olmo. de 22 anos 0976. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era. analfabeto. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. Mas a água não é suficiente. em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo. encontraram resistência. situacional 0976. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. Sua definição. Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão. p. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. mas é uma definição em termos de suas operações. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for. até mesmo os mais concretos. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional. não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. p. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro." Mais situações exteriores.é muito veloz. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. de gênio forte. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. Um outro homem. seja examinado e descrito. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir . Embora ele não estivesse bem informado. Exige isolamento do eu. Usa fogo e vapor. respondeu um camponês analfabeto.4) No trabalho de campo realizado por Luria. fez uma tentativa de definir um carro. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. um camponês de 36 anos.

O pensamento oral. Até poucas gerações atrás. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. a menos que soubessem escrever. Mas isso não é um enigma. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. tal como a dos sujeitos de Luria. ou auto-análise articulada. contudo. é claro. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. p. respeitam seus navegadores. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. mas do pensamento formado pelo texto. no Pacífico Sul. mas também das escritas. A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. pelo menos no que diz respeito a esse caso.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. pode ser bastante sofisticado e. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. associadas ao uso de textos e. Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. Elas são legítimas. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. isto é. Essas perguntas estão ausentes. os analfabetos podem ter tido . podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. "Vamos observar um pouco como ele dança. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. 4). uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. p. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. 53-76). em diferentes graus. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. mas dentro de contextos operacionais. no Ocidente. definições ou até mesmo descrições abrangentes. processos de raciocínio formalmente lógico. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. a seu próprio modo. Um habitante da África Central. 1978). como muitos de seus respondentes claramente fizeram. não porque os considerem "inteligentes". reflexivo. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. na verdade. Gladwin 0970." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. milhares de anos após a invenção da escrita. na verdade. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. mas tão somente porque são bons navegadores. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. categorização abstrata. pp. mas o indivíduo oral não conhece as regras. Terão ouvido. organizam. por exemplo. Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. Será um jogo? É claro que é um jogo. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. de modo rigoroso. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. não apenas das culturas orais. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. respondeu a Carrington 0974.e muitas vezes tiveram -. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. 61). isto é. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . p. uma "consciência moderna".

assim como para os outros personagens. No passado. inteligentes e belas. memorizaram-nas literalmente com base em textos. mas de fórmulas. Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. 156). mas agregativas. uma vez que. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. se empurrarmos com força um objeto móbil. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. do fisiológico ao psicológico e ao ético. o empurrão fará com que ele se mova. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". deveriam ser essencialmente composições escritas. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. para Ulisses. p. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. As seqüências longas que eles produzem. Parry 0928. no entanto. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. segundo seu próprio modelo textual literal. 51). coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. na ausência da escrita. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. Como tal repetição poderia ser verificada antes . por exemplo. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. por exemplo. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. Para compreender como elas o fazem. os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. Numa cultura letrada. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. Porém. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. nos poemas homéricos. sem memorização literal.tal como. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. Heitor. de algum modo. Eles sabem muito bem que. Atena ou ApoIo. um trunfo valorizado nas culturas orais. que seus processos mentais são "toscos". Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. in Pany 1971). compreensivelmente. Como vimos no capítulo 2. não são analíticas. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. à condição de que lidasse com material tradicional. com êxito.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. p. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. Com esse vocabulário hexâmetro. é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. Desse modo. À primeira vista. em qualquer sentido simplista . a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. tais como as genealogias. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. grupos de palavras para lidar com material tradicional. Porém. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros.

a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. ou o "alinhavamento" de narrativas. Na verdade. Uma comparação entre as canções gravadas. o material. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. única. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. eram métricos e formulares. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. durante meses e anos. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. Basicamente. os temas e as fórmulas. é claro. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. embora metricamente regulares. Porém. As fórmulas sofrem alguma variação. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. coisa ou ação. Na sua essência. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. dependendo da reação do público. p. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. que nada têm a ver com textos. 216). O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. como os de Homero. p.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. revela que. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. Como se observou anteriormente. e/ou ao público. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. essa natureza. até pelo mesmo poeta. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. Quando recorda e reconta a história. tempo para "se emprenhar" da história. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. porém. assim como sua utilização. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. 17). Seus poemas narrativos. no entanto. pp. na verdade. os melhores . uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. pertencem a uma tradição claramente identificável. Com base nessas entrevistas e na observação direta.e. a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. assim como os temas. A originalidade não consiste em introduzir novo material. diferirá visivelmente de um para outro. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. e a "rapsodização" do poeta. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. 20-29). país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. Na memorização de um texto escrito.. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . indivíduo. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto.é analfabeta.

78. em . ver Foley 1979). o ouvinte toma o refrão. um "pedaço" de discurso. ou fazem somente com dificuldade. 1976). assim como as de outros (Opland 1975. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. p. quando se conhece a hngua. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. 76-82).o entre _os cristãos. na costa panamenha. a outros especialistas como ele. português e outras línguas (ver Foley 1980b). sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. isto é. o mínimo. ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. não parecem ter uma exatidão literal maior. p. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. ou para uma elocução. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer.~ alemão. Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. no entanto. como interpreta Lord 0960. aqui como em qualquer outra parte. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. como o pal-Noss. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem. p. Todavia. que. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). não são absolutamente estáveis. a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui. quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. mas a juntá-Ias. Opland 0976. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. segundo os padrões de uma cultura escnta. por Lord na Iugoslávia. Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. 28). verifica-se que são sempre diferentes. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". Na verdade. Todavia. pp. até mesmo no caso . pelo menos 60% em relação às outras versões. e pronuncia-se a frase inicial da invocação.. na África do Sul. parece ser algo textual. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. separativa. 118-119) relata como. 27). de modo muito mais detalhado. Ou não? Talvez sejam 28. mundo. p. separada do fluxo discursivo. Um é o da verbalização ritual entre os canas. 114) registra esforços reais. p. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. entr~ os lodagaa do norte de Gana. as reproduções da mvocaçao. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. Há muito tempo (960). é dierética. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. ou para uma unidade rítmica de uma canção. Goody 0977. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. p. 28). também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". Se não se pode escrever. Por J exemplo. francês. recitações pelo mesmo indivíduo. como Goody. O que conseguem? ~a maioria das vezes. relatado por Joel Sherzer (1982). e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. p. ou para um tema. Sherzer . é "algo que todo mundo 'sabe"'. onde a Invocação ao Bagre. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. pp. Em 1970.) Significativamente. Goody (1977. "Palavra por palavra e verso por verso". verso por verso e palavra por palavra. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. As descobertas de Goody. Em todo o . não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico.

Em certas partes. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. ainda existente porém em declínio. por um dado período de tempo. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. Um é da poesia clássica somali. não literal. na qual uma narrativa oral. a música estabiliza inteiramente o texto. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. métricas. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. na verdade. desacompanhadas de instrumentos. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. não equivalentes a seu próprio exemplo.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. se é que não a aumenta. com algumas poucas partes em "voz pura". Evidentemente. rapsódico. Novamente. mas também sintáticas.e. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. 118. à que aprendem a própria gramática" 0979b. Às vezes.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. senão idêntica. p. Novamente. como mostrou . portanto. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. 3. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. p. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. trata-se de composição formular. nas suas próprias recitações. aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. com base em Finnegan 1977. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. (Os exemplos citados por Sherzer 1982.não totalmente invariável. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. que começam ainda muito novos. n. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. é entoada com música. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). mas constróem uma composição em particular. Indubitavelmente. fonema por fonema. que. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . omitindo o material intermediário. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. mudanças das quais não se dão conta. Isto é. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. embora eles próprios façam. como os feitos pelo h01110ioteleuton . No caso da poesia oral somali. 148). os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. palavra por palavra. ver também Johnson 1979a). são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. como já indicamos. e alguns interlúdios puramente instrumentais. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. porém notável. trabalhando com um mestre oral.

possam geralmente julgar "fixo" um uso que. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos. 99-100). até mesmo em seus rituais textualizados. palavra por palavra." Em suma. Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem. provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19). O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963).a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. como poderia um determinado hino . Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia.e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . 164). fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. até mesmo no ritual.Lord.. Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965).isto é. ou de 1954 (Bright 1981). nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral. Os professores brâmanes. cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963. podem ser totalmente contrárias aos fatos.c. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel. mas com um conteúdo. conservam um alto grau de resíduo oral . na verdade. Sem um texto..têm uma história complexa e muitas variantes. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. ao cumprir sua instrução (isto é. provavelmente em completa independência de quaisquer textos. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal. na boca de um outro professor igualmente capaz. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976.").. como vimos. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva . "Fazei-o em minha memória". pp. e isso através de muitas gerações? Afirmações. é "flexível" ou variável). inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. Os Vedas são coleções extensas e antigas. tudo indica que.para não falar da totalidade dos hinos das coleções . nas culturas orais em geral. Meras declarações. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. Os exemplos literais de Sherzer são rituais. Porém. p. e Rutledge sugere em seu trabalho .e notas. as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções.ser estabilizado palavra por palavra. deliberadas ou não. tratando especificamente da língua sêneca. assim como outras relativas à "memorização" oral.. Porém. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento. Com efeito. as palavras "Este é o meu corpo .#26 . Tais afirmações. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual. comparada à coloquial. Chafe (982).a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. com certeza. poderiam surgir outras tantas variações.. oral. este é o cálice de meu sangue .se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. 25-26 . de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. ou gurus. a estrutura formular . Louis Renou. especialmente em rituais. pp. sugere que a linguagem ritual.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. no entanto. 83-84). surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. . tanto quanto sei. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. os textos védicos . pp. de que as reproduções são idênticas. Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus. De fato.

como eu mesmo testemunhei.e temática dos Vedas. nunca existe num contexto puramente verbal. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes. 60). Quando o mercado para um livro impresso decresce. A palavra oral. Biebuyck e Mateene 1971. Em todos os casos. Finalmente. (Ver também Lord 1960. Na verbalização oral. Por exemplo. fazendo um beicinho. . Reformulei a narrativa. pp. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. É preciso fazer a ressalva. p. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. como já observamos. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras". que sempre envolve o corpo. As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). e minha fórmula não era a que esperava. e portanto da interação humana. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. não obstante seja um texto. é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. do que ao objeto. completamente. Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. mas milhares de cópias podem permanecer. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). 173). como ocorre com a palavra escrita. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. tais como a gesticulação. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". culturas nas quais. frontispício. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. que tinham algum conhecimento da escrita. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). visível até mesmo em traduções. Outros povos manipulam contas em cordões. literal ou não. Peabody 0975. e significativamente menos do contato não-verbal. elementos temáticos e mnemânica oral. particularmente a pública. existencial. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes.. p. por si só. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". as prensas param de rolar. O Talmude. também o faz a própria genealogia. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). mas natural e até mesmo inevitável. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos.) A esses casos. Havelock 1978a. A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. 220-222. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. Como se observou (p. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. ou dançar. no entanto. muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. disse ela. Ela conhecia a história. Os narradores narram o que o público deseja ou permite. isto é.

* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. 451. Um professor que fala a sua classe. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. ao contrário de obter realmente uma resposta. bateu com a mão na parede do edifício. uma disputa de talentos. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. Desse modo.. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. Em culturas orais. Dirigiu-se a ele. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. 470-481). . Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. o imensamente perverso lobo. que muitas vezes os leva a um ato violento. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica. Qualquer nativo de Cork. nesse aspecto. o astuto Ulisses. Kábútwakénda. o furioso Aquiles. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. memoráveis e geralmente notórias. Nunca baixe sua guarda oral. é uma série de manobras verbais (e somáticas). mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. que ele percebe . As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. como agonístico e. Assim.aninham as percepções. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. na Irlanda. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. isto é. amok. seu epíteto usual). Nas culturas orais primárias. Ao contrário. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. A comunicação oral agrupa as pessoas. zam o comportamento esquizóide. lida com todas as perguntas desse modo. uma operação de agonística oral. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. com seu enorme resíduo oral. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. A natureza não estabelece "fatos". as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. pp. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. o indivíduo do sudeste da Ásia.como um grupo intimamente ligado. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. segundo a mitologia. ao passo que os letrados o interiorizam. ele fez algo. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". é freqüentemente desviado. indivíduos cujas façanhas são notáveis. descobre que. está relacionada ao estilo de vida agonístico.e que percebe a si própria . A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. Para garantir peso e memorabilidade. o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. um duelo polido. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). por sua vez..

de um espelho. À medida que a escrita e. nesse sentido. Não se pretende negar que outras forças. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. O tato. a vista também não pode se "concentrar" nele. 9-11. o som incorpora. as Três Parcas e assim por diante. porque. pela impressão. sim. contrasta com a reflexão especular. é interessante. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. Índice). Aqui. como um alabast!o. tal como um fogo. um objeto translúcido. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. em vez de enfrentar o inimigo. exteriores. sem o molde mnemônico adequado de verbalização.) Uma fonte de luz. 65-67). De modo análogo. acima de tudo. como observou Merleau-Ponty (1961). constantemente recua e foge. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. além da mera utilidade mnemônica. sua relação com o tempo. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. ao passo que o som invade o ouvinte. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. pode ser interessante. de John Updike.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. pp. e assim é menos um interior. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. aberta. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. embora não seja uma fonte de luz. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. A profundidade pode ser percebida pela vista. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. ou cadeiras em um auditório. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. que fornece as ressonâncias vocais. típico do romance. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. por exemplo. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. mais profundamente. E. O som existe somente quando está desaparecendo. no lugar do herói. e sejam quais forem as outras forças. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. sua evanescência. (A reflexão difusa. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. Para testar o interior físico de um objeto como interior. que.de escalar . Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. A vista isola. de uma página impressa ou uma paisagem. a voz humana vem do interior do organismo humano. no entanto. as Três Graças. por fim. A visão chega a um ser . após cerca de três séculos de impressão. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. a uma distância. produzam figuras heróicas e agrupamentos. Porém. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. A visão disseca. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. as figuras não sobreviverão. Numa economia noética oral. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. Aqui. A visão situa o observador fora do que ele vê.

O conhecimento é. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. O auditório ideal. mas unificador. São conceitos fundados na existência. Com "interior" e "exterior". as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). que é definido por "dentro de". Numa cultura oral primária. sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b.). baseados na experiência que cada um tem de seu corpo.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. Ao contrário da visão . que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. por outro lado. não um fenômeno fragmentador. nem mesmo à possibilidade de um tal texto. '. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. A propósito. Para as culturas orais . implementada pela impressão. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". visualizada: a visão é um sentido dissecador). que me envolve. preciso girar meus olhos de um lado para outro. ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. o umbigo do mundo (Eliade 1958. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. girando no círculo tautológico. na qualidade de palavra falada. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. no som. O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. Quem diz "eu". 63. fundamentalmente. os seres humanos iriam. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. Na visão. reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. Podemos mergulhar no ouvir. um sentido unificador. 117-122. dentro de meu corpo). conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. e assim por diante. Quando ouço. 176-179. desse modo. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. aventureiros e peregrinos. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . 231-235 etc. como num atlas impresso moderno. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. na qual a palavra existe apenas no som. pp. de certa forma. Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". é um colocar junto. pp. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores".Ong 1967b. uma luta pela harmonia. A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. O homem é o umbilicus mundi. 228. no entanto. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". com o homem em seu centro. d o que a que envolve coisas impessoais. o cosmos é um evento contínuo. um estado interior. Sem harmonia. é harmonia. viajantes. que é definido por "entre". estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência.o som é. a psique não é sadia. embora conhecesse certamente muitos itinerantes. pp. a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. . 221). O mesmo vale para "exterior".o sentido da dissecação . ' .

os ouvintes normalmente formam uma unidade. Jesus. Lotman 1977). Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. como indivíduos. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. "A letra mata. Na cristandade.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. 14). com as preocupações fundamentais da existência. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. desse modo. uma representação textual. O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. consigo mesmos e com o orador.é uma abstração excessiva. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. O coletivo readership' . Na teologia trinitária. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. Eventualmente. que significa "palavra". porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. a Palavra de Deus. é espantosa (Ong 1967b. num som real ou imaginado. fundamentalmente um som. lemos na Carta aos Romanos 00:17). A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . "A fé vem pelos ouvidos". como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. mas um "sistema modelar secundário" (cf. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. o • Significativamente. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. todos. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. visual de uma palavra não é uma palavra real. Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. significa também "acontecimento" e. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita.) . o português não tem equivalente para readershíp. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). Em virtude de sua constituição física como som. O pensamento aninha-se na fala. a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. refere-se diretamente à palavra falada. 176-191). A escrita e a impressão isolam. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. como se fossem realmente ouvintes. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra.esta revista tem um readership de 2 milhões . Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". nas religiões mundiais mais abrangentes. mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. Record). um movimento no tempo. direta ou indiretamente. No entanto. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. A palavra falada é sempre um acontecimento. mas a falada. por exemplo. até mesmo em suas partes epistolares. Para pensar em leitores como um grupo unido. nada deixou por escrito. (N. a unidade do público é desfeita. O hebraico dabar. reais ou imaginadas. não escrevendo para eles. Quando um orador se dirige a um público.T. não em textos. como um "signo". o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). A mentalidade oral do texto bíblico. Na maioria das religiões. p. restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça.etimologicamente. pp. que nos deu a palavra "signo". se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. cujos significados. Signum.

grosseiro. esse signum não era uma palavra soletrada. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto. da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. indivisível. causados por distorções sensoriais. mas pelo vôo. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. pois a oralidade primária subsistia residualmente. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. Reduzido ao espaço.mas somente parece. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". efeitos que são brilhantemente fascinantes. 7). quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. ver Yates 1966. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. inexoravelmente. a análogos visuais. repito. sekw-. toda a experiência humana. fenômenos visuais imóveis. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. muito mais difícil. isto é. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. seguir)."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. é limitar nossa compreensão . que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. O tempo real absolutamente não tem divisões. mas também por vezes psicodélicos. como é representado num calendário. pesado. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. mudos. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. Ainda na Renascença européia. eram. ao tratar da internalização da tecnologia. O som é um evento no tempo. pois o tempo real. "objetivo" . . uma ao lado da outra. como uma águia. sem nenhuma parada ou divisão. Eram "signos". onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite.talvez incipiente em culturas orais. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. por exemplo. parece. alquimistas letrados. o mastro do barbeiro.embora realmente produza. Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. Embora os romanos conhecessem o alfabeto.a reduzir toda sensação e. Mas isso também falsifica o tempo. ao mesmo tempo. (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. algo mais. do que a "desconstrução" da literatura. leva-nos para a morte real. e se ele não é exato. p. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. num sentido em que as palavras não o são.que sugere evanescência.) De modo análogo. o tempo parece estar sob um controle maior . o ontem não estalou para o hoje. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. as três esferas do agiota. na verdade. (Sobre os rótulos iconográficos. tendiam a registrar neles não um nome escrito. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". elevando-o acima do mundo comum. e "o tempo caminha".

pela tecnologia da escrita. mas normalmente. mas da estruturação dessas capacidades. porque foi separado de seu autor. a escrita transformou a consciência humana. . Mais do que qualquer outra invenção individual.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. não apenas quando se ocupa da escrita. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. Sem a escrita. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). pp. 21-23. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais. direta ou indiretamente. como o oral. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado.

O pensamento filosoficamente analítico de Platão. A joniori. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. Atualmente. Em segundo lugar. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. A escrita. um produto manufaturado. objeta o Sócrates de Platão. Tecnologizada a palavra. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. enquanto o livro existir. os pais. ao saber que. e mais ainda a impressão. ela criou a crítica. Os textos são inerentemente contumazes. para tornar mais convincentes essas objeções. um texto escrito é basicamente inerte. Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. pp. podemos obter uma explicação. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. Fora dele. Em terceiro lugar. orais. A escrita enfraquece a mente. a escrita destrói a memória. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. se o fizermos a um texto. A escrita. em um mundo irreal. pois julgava-se ser ele a voz do deus. exceto as mesmas. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador.em vaticínios ou protecias. incluindo sua crítica à escrita. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. Como os computadores. Obviamente. assim como outras pessoas. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. fundamentalmente. o livro substitui a enunciação de uma fonte. no Fedra. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. As calculadoras enfraquecem a mente. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. É uma coisa. Como o oráculo ou o profeta. e muitas ficam angustiadas. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. é claro. possui algo dessa qualidade vática. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. para torná-Ias mais convincentes. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. A escrita. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). como se viu (Havelock 1963). Hieronimo Squarciafico. a escrita é passiva. fora de contexto. é inumana. diz Platão através de Sócrates. para tornar mais convincentes suas objeções. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. pp. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. 31-32). não a fonte. fazem-nas por meio da impressão. Na verdade. não obteremos nada. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. O mesmo. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". muitas . pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. artificial. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. Além disso. é dito dos computadores. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. ele as pôs por escrito.

Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. pincéis ou canetas. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. de certo modo. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. a mais drástica das três tecnologias. em qualquer cultura. de que na Biblioteca Bodleian."A letra mata.I) . mas o espírito dá vida" . desprovidas de todo calor. b um outro e assim por diante. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. Platão.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley.em que pressagia a própria morte . seu afastamento do mundo da vida cotidiana.30. A flor morta. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. coisificada. 230-271). peles de animais. Em pippapasses. pp. sua rígida fixidez visual. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. "ver". Clanchy (1979. a quem ele expulsara de sua República). Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. um certo pictograma significará uma certa palavra específica.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos.) . de 2 Coríntios 3:6 . imóveis. ou reação exagerada. 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. parte de seu próprio processo reflexivo. em Oxford.da do mundo da velha vida cotidiana oral. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. embora. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. A escrita é. ou registro escrito. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. ou a representará um certo fonema. "visível" ou "vídeo". Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. não são interativas. pp. encontrável em dicionários impressos de citações. As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. móvel. tiras de madeira. calorosa. é claro. No entanto. Voltaremos a essa questão posteriormente. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". individualmente interativa (representada pelos poetas. único lugar em que as palavras faladas podem existir. A escrita. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). a redução do som dinâmico a um espaço mudo. e muito mais. é o equivalente psíquico do texto verbal. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). é claro. como tal. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. A fala completa a vida consciente. superfícies cuidadosamente preparadas. isto é. porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. e de que ela destrói a memória. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. outrora viva. mas isoladas. Não há como escrever "naturalmente". tardia. O termo idea. "forma". estão inteiramente acima e além dela. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. As idéias platônicas são mudas. oral. conscientes. hostil. "cada livro é teu epitáfio". como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. Ao contrário da linguagem natural. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. e além dela. assim como tintas. a escrita é inteiramente artificial. com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade.

de Morton Subotnik. por exemplo. isto é. mas um código não é desenhável. Mas. de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer. é altamente desumanizante. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. A orquestra moderna. com recursos de força . poderia dizer. E assim por diante. na verdade. mas também da distância. sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. o aprendizado de uma habilidade tecnológica. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio.c. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. isto é. ou verdadeira escrita. em representações de coisas. na verdade. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. Os desenhos representam objetos. Um órgão é uma máquina enorme. e mais ainda quando afetas à palavra.novamente um paradoxo . fileiras de seixos. foles. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. O desenho de um homem. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). As tecnologias são artificiais. Até mesmo quando é pictográfico. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. mais do que qualquer outra.bombas. uma parte psicológica de si mesmos. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. pp. uma ferramenta. não rebaixa a vida humana. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. Tais transformações podem ser enaltecedoras. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. Como outras criações artificiais e. isto é. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. Porém. que conhecemos. é a representação de uma elocução. ou aides-mémoire. mas .inteiramente exteriores a seu operador. Para viver e compreender plenamente.a artificialidade é natural aos seres humanos. obviamente. Um violino é um instrumento. não consiste em meros desenhos. um registro escrito é mais do que desenhos. A escrita. pelo contrário. à oralidade -. em última análise. necessitamos não apenas da proximidade.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. transformações interiores da consciência. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. humanamente compreensível.) Um registro escrito. As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. mas. O primeiro registro escrito. Isso exige anos de "prática". mas elogiá-Ia. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. para compreender o que ela é . é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. interiores. sim. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. intJnsificar sua vida interior. Obviamente. tal como entendido aqui. adequadamente interiorizada. no sentido estrito da palavra. Os códigos. 141 e 168). ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. A escrita aumenta a consciência. acentua-a. (Diringer 1953. geradores elétricos . Gelb 1963). feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. no sentido de uma escrita genuína. é resultado de alta tecnologia. A tecnologia. ampliar o espírito humano. usando um dispositivo mecânico. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. E vários dispositivos de registro. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. Para conseguir tal expressão. O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. que especificam exatamente como usar as ferramentas. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano.

o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. mas totalmente fechados. 50 d. o primeiro de todos os registros conhecidos (c. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. da mesma regiào que as bulas. pp. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. o asteca. (datas aproximadas segundo Diringer 1962).o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. o da visão. o registro do vale do Indo. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). pequenos. seria "escrita". podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. .usar a escrita para produzir literatura . os hieroglíficos egípcios. 3000 a. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. como no sistema desenvolvido pelos vai. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. ou às vezes. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem. originou-se. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas.. Diringer 1960. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. talvez. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica.digamos. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . 3000-2400 a. indicando que ()~ documento foi inteiramente lido.. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. Usar a escrita para criações imaginativas. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas.faz e à qual atribui um sentido.. isto é.C. ocos.Wilson 1975. pelo menos em parte. sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto.. se não a totalidade. o chinês. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. 3500 a. Contudo. pois o primeiro registro cuneiforme. de um sistema de registro de transações econômicas. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas.indicavam. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente.c. indicando que deve ser lido até o fim. Até mesmo com o alfabeto. sete entalhes . o contexto extratextual às vezes é necessário. Os registros escritos têm antecedentes complexos. O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. interpretável apenas por aquele que os faz. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica.c. de forma a incluir qualquer marcação semiótica. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. A escrita. Desse modo. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. ao uso de sinais. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos.c. gradativamente. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). os símbolos do lado de fora da bula . ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . não quando a mera marcação semiótica foi imaginada. mas somente em casos excepcionais . ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). o "Linear B" minóico ou micênico. dentro da bula. 3500 a. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. 1400 d.C.digamos. Se isso é o que se entende por escrita.c. Assim.c. A maioria. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína.). em seu sentido comum. 1200 a. sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. Não é um mero apêndice da fala. banaliza seu significado. 1500 a. Existem estágios intermediários. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. em um nível ainda mais elementar. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. Em alguns sistemas codificados.c. (talvez sob alguma influência do cuneiforme). o maia. o que representavam . Se anoto em um documento: read.

desenhos de um moinho [mil/l. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. algo como um francês. A comunicação pictográfica.no sentido mais específico história do registro. Nenhum chinês ou sinólogo conhece. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. mutuamente incompreensíveis. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. freqüentemente. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). O chinês é o maior. um luba.inglês sole .) Algumas línguas são escritas em silabários. incapazes de compreender o que os outros dizem. mas não às palavras "primeiro" e "segundo". Desse modo. no pictograma chinês. 3 e assim por diante. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. o que 1. Todos os sistemas pictográficos. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). mas a palavra "floresta". mas estabelecido por código: por exemplo. 2. 3. 3 e assim por diante estão. até mesmo naquela época. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. arrola 40. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. Indubitavelmente. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. ou soul [almal associada a "corpo". o mandarim. em 1716 da nossa era. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. A perda para a literatura será colossal. Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. Mas.de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. sole no sentido de "apenas". ou já conheceu. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. podem compreender a escrita. Uma espécie é o ideograma. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. 2. 3 não são. p. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos. ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. um caminho [walkl e uma chave [kryl. poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). todos eles. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. como aparece aqui. Em um sentido especial. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. para "criança" [dzal. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. requerem uma espantosa quantidade de símbolos. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. que agora está sendo ensinado em toda parte. As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. de certo modo. numerais como 1. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). como uma letra do alfabeto.545 caracteres. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). 2. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. o significado pretendido não fica inteiramente claro. o . nessa ordem. embora primorosamente estilizados. 2. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. 2. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. (Todavia. desse termo.

de uma forma ou de outra. na história do alfabeto hebraico. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". quando os pontos vocálicos são usados. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. Todavia. arábico. foram acrescentados a muitos textos.. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. mi. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. (Diringer 1962. talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. assim como outras línguas semíticas. . cinco outros para ma. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. As línguas organizam-se de diferentes maneiras. ke. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. que significa "não"). respectivamente.) Todos os alfabetos do mundo . 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). na verdade. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. à medida que lêem. O hebraico. ku. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. e é muito difícil de ler. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra. cirílico. mo. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. A letra aleph. Havelock 1963. 121-122. ki. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). "pontos" vocálicos. ela simplesmente representa o fonema [b]. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. para ka. do desenvolvimento senútifo original. não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. o sistema coreano é híbrido (além do hangul. Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. mais ou menos. grego. muitas vezes extremamente complexas. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . ugarítico. me.c. coreano . pronunciados a sua própria maneira). Posteriormente. Na verdade. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh". eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978.até o terceiro ano. o semítico do norte e o semítico do sul. na Libéria. p. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. No do vai. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos. discute as duas variantes do alfabeto original. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. ele usa caracteres chineses. Além disso.derivam.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. por exemplo. E israelenses e árabes modernos. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. malabarense. ko. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. pp. adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". mesclando dois ou mais princípios. mu e assim por diante. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. p. que se tornou nosso "a" romano. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. ideogramas. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". culturalmente ricas e poeticamente belas). outros rébus). em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus. um alfabeto genuíno. mas 2 mil anos depois dele. o de que foi inventado apenas uma vez. Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. até hoje não possuem letras para vogais. discordantes em quase tudo o mais. "claustro"). alguns ideogramas. tâmil. romano. sem dúvida. O fato mais notável sobre o alfabeto é. o cuneiforme.hebraico. ele usa caracteres chineses. Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. como nos registros u~arítico e coreano. 456). não é uma vogal. como o árabe. exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. embora. rébus e várias combinações.

como no exemplo fictício usado acima). com certeza. sobre bases neurofisiológicas. não obteremos "aroma". temos dois. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . tori. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes.r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. nem "amora" nem "aroma". sae. pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. pãjaro. que admitia a omissão de vogais na escrita. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. Era também "internacionalizante". como já explicamos anteriormente. da palavra. objetos mudos. "pássaro". mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. Constitui um registro democratizante. uccello. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. b mais a. semi-permanente. Mas o rébus (fonograma). Nos livros e jornais coreanos. Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. no entanto. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. A escrita de caracteres chineses. digamos. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. É talvez. Todo registro escrito representa as palavras como se. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). existe somente quando está desaparecendo. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. (Observou-se há pouco que. Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. não uma palavra. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. facilmente aprendido por qualquer pessoa. quando chego ao "-cendo". não reduz o som ao espaço. mas um som completamente diferente. de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. Vogel. O alfabeto. de algum modo. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. embora possa representar várias coisas. em componentes puramente espaciais.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. favorece o pensamento analítico. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. O som. Um desenho. Kerckhove (1981) sugeriu que. pois representa um objeto. Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". porém crucial. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. desse modo. por converter o som a uma forma visível. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". Parece que a estrutura da língua grega. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. elas fossem coisas. com vogais. sem dúvida. Rébus ou fonogramas. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. que uma palavra é uma coisa. igualmente. mais analíticas. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. o "desapare-" já acabou. Ele analisava o som de modo mais abstrato. de um pássaro. para os escolares israelenses. até o terceiro ano. O alfabeto implica que as questões são diferentes. como muitos outros sistemas de escrita. não um evento. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. Ele representa o som em si como uma coisa. quase total. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. marcas imóveis para a assimilação pela visão. Porém. abstrato. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico.

O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . conhecimentos de embarque. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. inici(l1mente. que são o mínimo exigido . Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado. p.B. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele). o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. que todos podem virtualmente ler. 16. diante da prevista resistência maciça.800 ban.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. p. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968.para ler a maior parte da literatura em coreano. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). caixas de papelão. Clamor girls são. recibos (Achebe 1961. práticos. O futbark. em 1443 d. ao passo que os 1. Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . 300-309). com a democratização maior da Coréia.encomendas. Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. 13). no lruCIO. como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b. Eckvall). uma realização magistral. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. alfabético ou outro. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. pp. ou caracteres chineses. ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. por meio de uma forma dialética escocesa. na realidade. referente ao aprendizado livresco. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês. pp. Até aquela época. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. Na cultura da antiga Grécia. Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras. . e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. foi comumente associado à magia. recibos etc.alfabeto. A escrita é muitas vezes considerada. Apenas no século XX.e. 15-16).além do alfabeto . Porém. pp. 201-203). A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e.todos coreanos que sabiam escrever . onde. 236). vulgares. ele o faz necessariamente. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. Milhares e milhares de coreanos . pp. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas. 113-114). abre caminho pela primeira vez na direção de uma . Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. garotas de gramática. citando R. Porém. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. 120-121). sociedade específica.. A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. p.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar.jornais. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. a recepção dessa façanha notável era previsível. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. pp. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista.

papiros (melhor do que a maioria das superfícies. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. os escribas possuíam vários tipos de estilete. ou. Mas. Como superfícies para a escrita. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. esse estágio foi superado. São Tomás de Aquino. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. quando ocorria. p. peles de animais (pergaminho. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. quando compunha por escrito. produzir um pensamento com a pena na mão. que escreveu seus próprios manuscritos. sobre "A tecnologia da escrita").C. p. Como ferramentas para escrever. Ainda era raro na Inglaterra do século XI e. folhas secas ou outros vegetais. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos. velino) desbastadas de gordura e pêlos. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. junta suas palavras no papel. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. na Europa. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. No ato físico de escrever. bastões de madeira (Clanchy 1979. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. 90). na Inglaterra do século XI. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. ele possuía blocos de barro molhado. evidentemente. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. era. Eadmer de Saint Albans.se é que algum o faz -. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). então. Ou então cascas de árvores.c. provavelmente por volta do século II a.. Nesse estágio. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). pela ordem. como na aquarela. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. 218). do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. como o Mali. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. manufaturado na China.. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. Havelock e Herschell 1978). o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. 88-115. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . Durante a Idade Média. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. pp. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. comumente na Ásia Oriental. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. Compor à medida que se escreve. cf. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia).de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. particularmente em composições breves. De modo semelhante. Goody 1968b). muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. p. ou um construtor naval para fazer um barco. até mesmo então. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. Não existia papel. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. Nesse estágio de profissionalização da escrita.

"pessoas de idade. a idade de herdeiros feudais. mas por objetos simbólicos (como uma faca. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). Voltaremos a falar (isto é. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. sábias e maduras. p. 235-236). elaborada por Clanchy. do nascimento de Cristo. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. 238). Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. 230). de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. 231. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer.pensamento baseado na oralidade. o Conde Warrenne exibiu não uma carta. De fato. 232-233). porém a história cuidadosa. Clanchy chama a atenção 0979. Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. de bom testemunho". mas "uma espada antiga e enferrujada". conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. p. relógios de parede e relógios de pulso. o Conquistador. mas não a haviam interiorizado o suficiente. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. As culturas mais antigas. presa ao documento por uma correia de pergaminho . provavelmente por diversos motivos. como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. Em 1127. não (isso. 25). pp. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. todos vivemos. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. em uma moldura de tempo computado abstratamente. ela pode ainda não lhe dar muito valor. por exemplo. pp. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos.Clanchy 1979. especialmente em um tribunal. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. que conheciam a escrita. À primeira vista. atualmente. p. Antes do uso de documentos. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. Por volta de 1130. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. pp. 236-241). devemos lembrar. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). No período estudado. pp. argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. imposto por milhares de calendários impressos. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. Na Inglaterra do século XII. . Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. p. 24). ao passo que os textos. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. Cada jurado jurou que. todos os dias. até mesmo em um meio administrativo.

As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. o Confessor. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. dos quais o calendário é um dos exemplos. salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. encontramos uma seqüência de "gerou". Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . Além disso. como gerador e como gerado). faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. pp.um fato que. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. A oralidade não conhece listas. No texto da Torá. "gerando"). 44 são certamente falsificadas. 233). p.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. que começam por volta de 3500 a. Goody (1977. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. "Os falsificadores". de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. em sua maior parte.não um registro de contas objetivo. E." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. "A verdade lembrada era . Partindo de Quibrote-Ataavá. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. Elas eram identificáveis por sua aparência. 233). paradoxalmente. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos.contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. muito velha (cf. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. Clanchy 1979. sublinha Clanchy.. A lei consuetudinária. Partindo de Hazerote. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal". uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. as pessoas não se sentiam situadas. eles acamparam em Quibrote-Ataavá.461-879) . 31-34). que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. flexível e recente" (Clanchy 1979. para a maioria das pessoas. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. a cada momento de suas vidas. acamparam em Ritmá . e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). É o domínio dos ancestrais. portanto. De fato. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. a escrita foi.. isto é.c.. nas culturas funcionalmente orais.. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes. Meujael gerou Metusael. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. jovem . mas estão fazendo algo. tabelas ou números. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. inacessível à consciência. de fato. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. p. Em vez de uma recitação de nomes. . A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido." e assim por muitos versos mais. os de escrita cuneiforme dos sumérios. acamparam em Hazerote. em certo sentido.. porque o passado mais remoto era. 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros.H. portanto.): "Partindo do deserto do Sinai. 249. as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas. desbastada de material não mais em uso. como facas ou espadas. qual a utilidade. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968. p. pp. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. A escrita torna possível tais aparatos. são registros de cálculos. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes). era automaticamente sempre atualizada e. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. citando P. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. como em um alinhamento militar. em uma economia de pensamento oral. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência. Sawyer).

mais precisamente. pp. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. em uma linha horizontal. como nos índices. de baixo para cima . uma linha indo para a direita. b. finalmente. A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo. Kerckhove 0981. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. A palavras. como em uma escrita bustrofédon. existencial. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). para o estilo stoichedon (linhas verticais) e. para indicar a seqüência.Não são percebidas como uma coisa. regiões do planeta. impossíveis de "examinar". 4950). quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. em vários registros em todo o mundo. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. para notas de roda pé. mas também "pés". A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. Em qualquer lugar do mundo. Os textos são coisas. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. na escrita grega antiga. ou todos esses modos ao mesmo tempo. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. para o movimento da direita para a esquerda. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. tipos de ventos e assim por diante). e até mesmo os poemas. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. pelo que se sabe. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. ou da direita para a esquerda. imobilizados no espaço visual. depois uma volta na ponta para a outra linha. As palavras faladas constituem sempre modificações . pp. mas nunca em lugar algum. e depois usada para a recuperação visual do material. vivo. nos primeiros tempos da cultura escrita. suas próprias leis de movimento e de estrutura. em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. são parte de um presente real. são antes enunciados que são ouvidos. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. Os textos. c e assim por diante. As tabelas. são antes "memória de canções cantadas". representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. As páginas não possuem apenas "cabeças". que vai da direita para a esquerda. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. o alfabeto. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. em seu hábitat natural. quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs.. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). é resultado não apenas da escrita. aos fonemas que codificam. oral. pp. vivos. mas como reconstituições de eventos no tempo.aos sons ou. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. Goody mostra em detalhes como. 307-318 e passim). vivo. ou de cima para baixo.externamente ou na imaginação .Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. Tudo isso constitui um mundo de ordem. porque não são apresentadas visualmente. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. a outro indivíduo real. ou indivíduos reais.

sem a impressão. as palavras estão sozinhas em um texto. Enquanto escrevo o presente livro. sem a escrita e.de uma situação que é mais do que verbal. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. não importa que o autor esteja vivo ou morto. finjo estar falando comigo mesmo. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. portanto. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. de certo modo. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. ao "escrever" algo. por outro. possa interromper minha solidão. resignado ou qualquer que seja. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. portanto. Elas nunca ocorrem sozinhas. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. na verdade. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. posso muito bem estar morto. na Idade Média. A tradição letrada. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. Em um texto. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. como os do Sócrates de Platão. De fato. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. mas também para o escritor. excitado. em um sussurro. calmo. uma "moldura histórica". para que o leitor possa imaginar um debate oral.animado.escritores de diários de angústias. Além disso. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. isto é. Em um texto. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz . cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. Nem poderia. Quando meu amigo ler minha carta. Escrever é uma operação solipsística. 53-81). o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. Estou escrevendo um livro que. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. em um contexto simplesmente de palavras. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. espero. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. será lido por centenas de milhares de pessoas. No entanto. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. Na linguagem falada. . posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. pp. o diário requer. ao qual ele deve se moldar.e realmente enchem . por exemplo. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. devo estar isolado de todos. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. De fato. adotada e adaptada por críticos habilidosos. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. A enunciação falada vem apenas dos vivos. ao compor um texto. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. irado. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. mas escrevendo-a. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. Eles apresentam um material filosófico em diálogos. mas elas não serão completas. Mais tarde. e em um diário. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . Para que um texto comunique sua mensagem. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas.

em qualquer situação possível. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. _ como nos provérbios. sem um ouvinte real. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. Com a escrita. sem entoação. quer sejam longas. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. na verdade. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. uma vez "proferidas". existencial. Não há mimese. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. postas na superfície. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. as correções podem ser tremendamente produtivas. pp. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. quer sejam breves e apotegmática~. Em uma cultura oral. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. no sentido de que se lê bem em voz alta. Portanto. em partes mais ou menos separadas. narrativa. apagadas. salvo ironicamente. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. de um tipo ficcional. A escrita é de fato a sementeira da ironia. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). O que Goody 0977. 272-302). a "grande. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. exteriorizadas. murmurante confusão" de William ]ames. textos escritos. expresso na forma de diálogo. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. não-analítica. o correspondente fluxo de pensamento. maldita. Apenas um leitor. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . ou então as evitamos totalmente. Por meio de um texto tratado quirograficamente. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. as palavras escritas refinam a análise. sem nenhum contexto . e o faz. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. Evidentemente. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. no sentido aristotélico. a tornar o falante muito pouco convincente. mas caótico. como na narrativa formal. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. sem expressão facial. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. oral. eliminar incoerências (Goody 1977. "linguandoas" de ponta a ponta. As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. Porém. podem ser eliminadas. pp. língua. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. na escrita. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. aqui.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. as palavras. de muitas das enunciações orais. nós as reduzimos a um mínimo. Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. o fluxo de palavras. Para nos fazermos entender sem gestos. 49-50). e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. pois os diálogos são. pois se exige mais das palavras individualmente. ela pode retroagir na fala. Porém. Todavia. Na escrita. tirando-a do contexto existencialmente rico. segmentos significativos. p. mudadas.

o judaísmo. políticos. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. com propriedade. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. 176. na Itália. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. 773-776). Todas elas possuem textos sagrados. na Alemanha. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. p. Basil Bernstein 0974. Muitas vezes. Analogamente. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. 50-71) chamou. no entanto. p. 15). e finalmente se tornou uma língua nacional. em sua essência. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. para uma elaboração plena. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. presente nas orações de Cícero. 134-135. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. Conquanto seja verdade que eles eram todos. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. como na Inglaterra. Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. 134) .. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. com o toscano. pp. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. escreVeU-OSposteriormente. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. respectivamente. operam funcionalmente. muito diferente dela própria. Como ressaltou Guxman 0970. tais como os conhecemos (Ong 1967b. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. como se viu (p. da impressão. carentes de significado pessoal premente. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. o código lingüístico restrito não funcionará. pp. à Bíblia ou ao Corão. pp.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. particularmente os gregos. dialetos regionais e/ou de classe. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. pp. 83). com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). "grafoleto". 56-57). Porém certas línguas. 181. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. é obra de uma mente letrada. mas "como contas em uma caixa" (1974. ou mais propriamente dialetos. Na Inglaterra. além de certas peculiaridades sintáticas. 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. religiosos ou outros. oralmente e por escrito. investiram enormemente na escrita. na Alemanha ou na Itália. Porém. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. descartou certas formas dialetais. o cristianismo e o islamismo. Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). pp. por motivos econômicos. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. como o pensamento e a expressão orais em geral. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. . não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. para construir o conhecimento filosófico e científico. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e.

porque não há nada "errado" com os outros dialetos. Nesse sentido. lexicógrafos e outros. pp. Mas Hirsch 0977. mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. assim como milhares de línguas estrangeiras. são interpretados no grafoleto. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. constituía um elemento menor na cultura . 136-137). Na Grécia Antiga. nenhum outro dialeto. e arrendondando os números.diferem da gramática do grafoleto. quando outros dialetos de uma dada língua . possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. foi trabalhado durante séculos. p. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. pp. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. 255-283). pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. C. ao que parece. 74-111). alemão ou italiano. para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. 108. É má pedagogia insistir nisso. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. Platão e Aristóteles. representada por Sócrates. pp. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. a fortíorí. É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. gramáticos.Um grafoleto moderno como o "inglês".e a afetam. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. primeiro e mais intensamente. Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954.S. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem. pp. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. depois pelos teóricos normativistas. Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. por exemplo em inglês. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. em um sentido profundo. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). À luz desse fato. os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. pois os outros dialetos do inglês. o estudo da "filosofia". a despeito de toda a fecundidade subseqüente. Onde existem grafoletos. A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. 43-50) vai mais além e diz que. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . impresso. O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. porém sua plenitude se deve à impressão. 60). de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. Porém. São a retórica acadêmica e o latim culto. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature.além do grafoleto . que é muito menor. 1-22.

nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!".grega. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". como sugere o infeliz destino de Sócrates. paradiastote ou distinetio. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição.antinomasia ou pronominatio. 56-87. Índice). menos analíticos. 147-187. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. procurando causas. A "arte" da retórica. Como Platão.. amizade etc. Desde pelo menos a época de Quintiliano. Durante séculos. Kennedy 1980. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. quer no número de seus praticantes. tais como definição. o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. à Era das Luzes (por exemplo. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. antes da escrita. pp. referiam-se aos "assentos" de argumentos. Murphy 1974.. os sofistas da Grécia do século V. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. mas que. produto da escrita. Howell1956. e a tradição filosófica. as novas estruturas quirográficas de pensamento. Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. As culturas orais. Lewis estava. etc. Com sua herança agonística.da Antiguidade Clássica. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito. foi. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. científico. Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. a amizade. não comportam "artes" dessa espécie organizada. a culpa de um acusado de crime. isto é. contrastes. definitiva senão totalmente. Os gregos homéricos e pré-homéricos. (Lanham 1968. quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro. Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. a retórica era algo maravilhoso. pp. pp. contrastes e tudo o mais. efeito. anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. 23-103). Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". Nesse sentido. como em geral os povos orais. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. como vimos. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. voltando as costas ao mundo oral. 1971) -.sobre qualquer assunto. As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . para seus primeiros descobridores ou inventores. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. Mas. A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. a guerra etc. em um sentido muito profundo. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". tal como a lealdade. C. passando pela Idade Média e pela Renascença. decadência. nunca competindo com a retórica. Howell1956. fórmulas) sobre vários tópicos . inconscientemente na verdade. embora dissesse respeito à linguagem falada.tais como lealdade. causa. -. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. Sonnino 1968) . da apresentação oral para a escrita). No primeiro. como as outras "artes". . o mal. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. isto é. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro). 1971. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. No segundo sentido. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . que explicava e sustentava a persuasão verbal. pp. efeitos. pareceria óbvio que. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado.S. 194-205).

C. por motivos econômicos ou outros. que muitas vezes possuíam formas diferentes. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. ao contrário dos indianos e dos chineses. pp. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. pp. No século XIX. 451. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. Até que um ou outro dialeto. ou o hochdeutseh. tanto no mundo mental quanto no extramental. com instrução baseada no latim. é essencialmente antitética (Durand 1960. título). Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. praticamente nenhuma teve tal treinamento. como causa. Não havia realmente outra alternativa. continuou em latim. a maioria deles nunca escrita até hoje. Porém. é claro. vernaculares. acadêmica. 119-148). espanhol. pp. 192-222. com ela. Não havia como traduzir as obras literárias. outrora uma . o finlandês e o turco. filosóficas. advogados. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos.C. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. O latim. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto.. mutuamente ininteligíveis. Da época medieval em diante. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. a escolaridade e. herdados do passado. médicos. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. como tantas desde 1600. como efeito ou ambos. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. de um modo ou de outro. está claro. catalão. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. na Inglaterra.. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. O latim culto foi um resultado direto da escrita. Oliver 1971).os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". 453-459). diplomatas e outros servidores públicos. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. científicas. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. na Alemanha). real embora muitas vezes vaga. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. Por volta de 700 d. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. ao passo que as escolas mais antigas. A retórica. mas nas mais novas. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. retórica. francês e outras línguas românicas. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. 1981. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. Da Antiguidade grega em diante. muito menos oratório. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. Entre cerca de 550 e 700 d.

de fato. como todas as línguas realmente em uso. 113-141. sempre têm. se é que o teria feito. estabelecer a objetividade. uma língua inteiramente controlada pela escrita. Durante esse período. no sentido restrito. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. por exemplo. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. vinculada ao sexo. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. estava vinculado ao sexo. em princípio . o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. era uma língua quirograficamente controlada. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. falado não somente nas salas de aula. mas o rhetor. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. como o latim culto. de modo paradoxal. pp. aprendidas na infância. Não havia usuários puramente orais. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. o árabe clássico. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. em um cenário tribal que era. 1981. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. A ciência moderna nasceu do solo latino. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo.embora. não usado pelas mães ao criar os filhos). aprendida fora do lar. A interação criou todos os tipos de resultados. além de sua proveniência clássica. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. Assim também seu vocabulário básico . A escrita. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. que era totalmente masculina . ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. o latim tornou-se o latim culto. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. Por um lado. outras línguas controladas quirograficamente. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. Baurnl 0980. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. mas também. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. o sânscrito e o chinês clássicos.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. Paradoxalmente. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. 119-48). pp. isolado da mais tenra infância. parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. pp. na verdade. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. juntamente com o grego bizantino. como acabamos de observar. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. 28-34). Em virtude de sua base na academia. Sugeriu-se (Ong 1977. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. Sem o latim culto. 264) chamou a atenção. como vimos anteriormente. Todas as línguas usadas para o discurso culto . o orador público. assim. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. mas sempre escrito da mesma maneira. Não obstante. em todas as demais dependências escolares. Por ordem dos estatutos escolares.ainda que nem sempre de fato -. p. A tradução era transformação. tornou-se assim uma língua escolar apenas. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. pp. o orator. eram controladas exclusivamente pela escrita. O latim havia sofrido um corte som-visão. um cenário de rito de puberdade masculino. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. todos sabiam também escrevêIa. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim.língua materna. oralmente. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. Durante mil anos. Despido de balbucios.

uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional. 144-256). os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. Por volta do século XVI. que não era aplicável à escrita. e mesmo muito depois. Atualmente. antíteses. da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. Os três Rs . O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". eclesiástico ou político. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. por esse motivo. Ainda aspirando à velha oralidade. os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. mas sempre pelo debate oral . tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. A própria retórica emigrou. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. Ahern 1982).reading. 53-87. estudantil. Crosby 1936. comumente com muitas variações. 'riting e 'rithmetics· -. 16. pp. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário.). estruturas formulares e lugares-comuns. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. declamatória. pp. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. Uma vez concluída. .T. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). pp. Porém. as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. pp. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. Na Antiguidade Clássica ocidental. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. "escrita" e "aritmética". Nelson 1976-1977. Em larga medida. gradativa mas inevitavelmente. 270 etc. Elas estavam também reduzindo a última. 146-172.) "leitura". numa forma popular. 23-47). gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. pp. estilo. 241-255). no entanto. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual. heróica. pp. relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). deu nova vida à oralidade. elocução (Howell 1956. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. no caso do árabe. nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. 1971. Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. mas também na escrita. à medida que o latim foi expulso. O célebre McGuJfey's readers. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b.atualmente são também línguas maternas (ou. fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. mas a leitura oral. livresca. do mundo oral para o quirográfico. 23-48). ritmo. ele também retornou à Antiguidade e. agonística. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". disposição. durante o século XIX (Balogh 1926). Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. Desde a Antiguidade Clássica. Durante o processo. jocosa. pp. memória e elocução). A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. comercial e doméstica. 20). isso significa meramente o estudo de como escrever com competência.

embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. Além disso. Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. Ibe printing press as an agent of change .Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão. embora não o único. Em um trabalho deste alcance.

pp. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. uma técnica de manufatura que. A audição. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. 215. foi a impressão. difundiu o conhecimento como nunca antes. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. sim. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. Os chineses tinham tipos móveis. Durante milhares de anos. embebendo-o novamente no mundo oral. Como o alfabeto. mais do que a visão. 1977).[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. como nos debates universitários medievais. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. por outro lado. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. às palavras que irão constituir. muito mais do que a escrita jamais fizera. coreanos e japoneses imprimem textos verbais." No Ocidente. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. a audição serve como garantia. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. A primeira linha de montagem. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). são nossa preocupação aqui. 1967b. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. chineses. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). 5). que realmente reificou a palavra e. mas de um tipo que produzia o livro impresso. Pelo menos até o século XII na Inglaterra. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. apenas caracteres basicamente pictográficos. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. isto é. de "ouvir" livros de contabilidade. Em fins de 1700. Porém. palavras inteiras. produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. A impressão sugere que as palavras são coisas. a atividade noética (Ong 1958b. permitiu a ascensão das ciências modernas e. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). Antes de meados de 1400. sapatos ou armas. 1971. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. Com o caractere tipográfico não é assim. durante a Renascença. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. não era do tipo que produz fogões. implementou a exploração européia do planeta. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". e não olhando. mas não o alfabeto. alterou a vida social e intelectual. 306-318). o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. tanto escrito quanto oral. pp. "A visão é muitas vezes enganadora. e desde o século VII ou VIII. . com ela. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. Anteriormente. e não a escrita. como unidades. e. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. em uma série de etapas fixas. mudou a vida em fanúlia e a política. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. Ahern 1981. Clanchy 0979. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. e referências lá citadas).

p. 154). que se iniciara com a escrita. e de uma forma que deve ser explicada. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. com hífens.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. ao processar o texto em busca de sentido. de longe. o "the" inicial é. Evidentemente. de sir Thomas Elyot. comumente dividem até mesmo palavras capitais. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. Por que o procedimento original. Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. os leitores comumente vocalizavam. e não a nossa. O controle da posição é tudo na impressão. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. Finalmente. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. Muito depois do desenvolvimento da impressão. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. presumivelmente mais "natural". meramente posto em movimento pela visão. parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). da qual a presente se desviou. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . a palavra mais proeminente. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. contudo. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. constitui a original. em culturas manuscritas altamente orais. Além disso. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. No entanto. As páginas de rosto do século XVI. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. em sua grande maioria. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. ver Steinberg 1974. essa prática. Nossas atitudes é que mudaram. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. Todo texto envolve a visão e o som. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. incluindo o nome do autor. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. impresso. diferentemente do que fazemos.

Os textos impressos parecem feitos à máquina. com caractere gravado .posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. especialmente os índices alfabéticos. "É assim que as coisas são" . ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. falada. como na caligrafia. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). A impressão é orientada para o consumidor. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. agentes literários. e em outros registros antigos. depois de usados. Essa leitura. 284-303). os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. As listas começam com a escrita. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo.o mais antigo dos processos. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. De um modo geral. silenciosa. são cuidadosamente reposicionados. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . Ele observa 0977. pp. todas alinhadas à direita. não humanos. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. encerrando a caixa firmemente em uma prensa. enfeitado. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente.c. da aparência do texto impresso. embora sejam incômodas para o leitor. Goody 0977. em última análise. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. pp. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. como muitas vezes ocorre em manuscritos. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. Não obstante. os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. pp. por sua vez. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. revisores e outros. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame.editores. favorece a leitura rápida. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. A impressão com caractere "a quente" (isto é. como de fato são. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. O controle tipográfico. no espaço visual. O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. A maior legibilidade. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. que beneficiam o copista. que. caracteristicamente. leitores de editoras. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. e não simplesmente escrito) de Derrida. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita.

A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. Acompanhando esse equipamento textual formular. "ovelhas apascentadas" etc. Clanchy 1979. assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. em virtude não de sua própria façanha. a serviço da oralidade. muitas vezes toscos e comumente não entendidos. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. No livro impresso. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. 86-87).a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. Um signo favorito era o "parágrafo". antes. efeito. Em 1286. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. ainda que copiados do mesmo ditado. sem nenhuma mudança de página. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. tinham a mesma sensação. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado.deuses. a recuperação visual não foi prioritária. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. p. pautas. 73). uma vez que em italiano e em latim. Nesse sentido. e não uma unidade do discurso. coisas dessemelhantes e assim por diante. com divisores· de palavras para separar itens de números. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas. até muito recentemente. 81-90. coisas relacionadas. baseado na oralidade. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. pelo primeiro som: por exemplo. na verdade. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. o intelecto. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes .. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos.ou. 85). embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . tais como causa. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. espacialmente organizado. (Os educadores no Ocidente. depois famílias de deuses. 28-29. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. visual. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. linhas cuneiformes e linhas alongadas. como os intitularíamos . mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. A indexação não valia o esforço. novamente. p. mas eram raros. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. por si mesmo. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979.) A escrita está aqui. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. Obviamente. porque Textor considera apropriado que. em uma obra ligada à poesia. como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. pp. Raramente o são (Daly 1967. que originalmente significava a marca 9[. pp. até mesmo em um índice alfabético impresso. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. Um novo mundo noético estava se moldando. mesmo na Europa do século XIII.gordos". Aqui. na enunciação oral. embora não fosse perfeita. pp. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. 169-172). Os índices alfabéticos ocorriam. Para a localização visual do material em um texto manuscrito. Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. pp. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. O índice alfabético é. 144). . quase nunca correspondem página por página.

o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. diferentemente dos livros manuscritos. implementou essas descrições expressas com precisão.). pp. em vez de uma página de rosto. ela foi fundamental para a sobrevivência entre. depois. chegam as páginas de rosto. como vimos. As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. e o livro impresso. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. carissime lector. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. Agora. librum quem scripset quidam de .. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. O mundo noético hipervisualizado resultan- . Com a impressão. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica.Nesse novo mundo. 31) chamou a atenção para o fato de que. 40-45). por exemplo." (Aqui está. Uma vez bem interiorizada a impressão. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. manuscrita.. uma "afirmação visual reproduzível com precisão". como objetos. uma elocução registrada (Ong 1958b. uma ocorrência no curso da conversação. Porém.Steinberg 1974. pois. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas. p. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. um livro de uma cultura pré-impressão. a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. Durante séculos. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. A herança oral está operando aqui. assim como a impressão. 14-16. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). 313). naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. como se vê nas Ivins 0953.. caríssimo leitor. a página de rosto (nova com a impressão . ficcional ou outra do que como. do que como um objeto. títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. pp. com a impressão. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. Desenhos técnicos feitos à mão. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. um objeto idêntico. eram duplicatas umas das outras. a tendência iconográfica ainda era forte. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. p. sendo um objeto marcado com letras. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual). caçadores e artesãos de muitos tipos. como mostrou Ivins 0953. e não com partes preexistentes. A observação exata não começa com a ciência moderna. páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. xilogravuras e. Do contrário. nos manuscritos medievais ocidentais. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. As páginas de rosto são rótulos. logo degeneraram em manuscritos. Ao mesmo tempo. anteriormente.. técnicas (inicialmente. 145-148). as histórias de Mwindo e assim por diante). As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. Muitas vezes. um livro que fulano escreveu sobre . O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes.

incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. 115-138). Já no início da era da impressão. p. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. mas. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . 65-66. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. clínica. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. sugerindo asas e um altar. mas também a literatura.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. sobre o gafanhoto. a era da Revolução Industrial. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. 61-96). De certo modo. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. d. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. p. 74-111). desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda.. isto é. A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. Eisenstein 0979. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. respectivamente. pp. ela ainda não consiste em mera imagem. não para o aspecto visual de objetos. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. Nº 276 0%8). próximas às descrições que surgem após a impressão e. mas não lidas em voz alta. as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão. As listas e as tabelas manuscritas. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. nos quais os versos. Em manuscritos. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. pp. pp. 80. de vários comprimentos. Havelock 1963. dão aos poemas uma forma visualizada. Cummings. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. na verdade.). mas também sobre a imaginação literária. O poema sem título de E. discutidas por Goody 0977. como é chamadoadquiriu um significado importante. 202 etc. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. Muito mais tarde. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável. . O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". 81. Em Tristam Shandy 0760-1767). alcançam a maturidade principalmente na era romântica.E.te era absolutamente novo. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. e com maior sofisticação. por exemplo. meticulosa. e não o verso. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. seja a unidade do poema. com seus espaços tipográficos."espaço em branco". pp. A poesia concreta é um gênero menor. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. o próprio espaço em uma folha impressa .

o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. mas da impressão. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. não o escrito. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. A desconstrução está antes atada à tipografia do que.um fato que. obviamente. fórmulas e temas dos quais todos se servem. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. de Jacques Derrida. A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. p. É esse o território de Derrida. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. embora ele se mova nele a sua própria maneira. a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. muitas vezes. a leitura tendera a ser uma atividade social. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. 383). muitas pessoas. possuem uma consciência aguda de que. O texto impresso. que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto). se ele se desvia desse uso tipográfico. é o texto em sua forma mais plena. Exatamente na época inicial da impressão. como ela muitas vezes parece afirmar. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. O antigo poet~ latino Marcial (i. uma pessoa lendo para outras em um grupo. Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. revelam as limitações construídas da palavra falada também. fOI consIderado "corrompido". "saqueador". meramente à escrita. por fim. "torturador". As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966). na cultura inicial da impressão. . p. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. portanto. mais ou menos diretos. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente.í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . Na cultura manuscrita e. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito.53.curiosidade . Como sugeriu Steiner 0967.9) usa a palavra plagíarius. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. Hartman (1981. contudo. hoje. paradoxalmente. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. formadas na velha ideologia. por isso mesmo.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. como se viu. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. oral. A poesia concreta não é produto da escrita. mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. para alguém que se apropria do escrito de um outro. paradigmática. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. O Webster's 1bird New International n. (Os professores de crianças de áreas pobres. isto é. ~ uso de todos os outros.e. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. Porém. "opressor". A impressão diminuiu. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura".

mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. aspecto visual e a mesma consistência física. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . separada de qualquer interlocutor. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. obtido de Henrique VIII. nesse sentido. As páginas de um jornal são normalmente cheias . do mesmo modo. que. Na teoria literária. No começo da era eletrônica. fora controlado pela escrita. e. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. A impressão. de algum modo auto-encerrados. por volta do século XVIII. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral.não ouvido. ao Formalismo e à Nova Crítica. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. desde a Antiguidade. no romance a partir da época de Jane Austen. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. A impressão. Evidentemente. produzindo uma enunciação. uma forma de caracteres tipográficos. assim como a obra analítico-filosófica ou científica. Significativamente. os manuscritos. Uma vez fechada. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. mas de um modo muito real. o texto não comporta mudanças (rasuras. especialmente na narrativa. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". Em 1557. A tipografia tornou a palavra um bem material. Com a impressão. de bom ou mau grado. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. como cada vez mais semelhantes a coisas. menos ausentes. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. do que os leitores dos escritos destinados à impressão. um "ícone verbal". a impressão dá origem. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. Ela pode dar a impressão. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. finalmente. foi formada em Londres a Stationer's Company. impessoais e religiosamente neutros. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. atingiu um estado de completude. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. completos. Antes da impressão. conscientes ou inconscientes. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. lacrada. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). e. por outro lado.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. e alcança seu auge nas histórias de detetive. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. um ícone é algo visto . Esse sentimento afeta as criações literárias. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. Ao contrário. sem que o queira e sutilmente. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. Os livros impressos repetiram uns os outros. Até a impressão. todas exatamente da mesma largura). As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. autônomo e indiferente a ataques.um tal privilegium em 1518. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física.

tudo na arte ficava claro e. Cada arte era. usava-se simultaneamente lógica. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. em um aspecto. .crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. 126-127. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. nas últimas décadas. Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si. muitas vezes de um tipo gnômico. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. uma unidade em si mesma. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas.30-31. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. 225-269. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente.ma~érias em um dado campo.se é que existiam . pp. originalmente orais. apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. uma maior distância entre o escritor e o leitor . adaptando-os. convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. como apontou Marshall MCLuhan 0962. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. aritmética etc. Quando. ao menos de um ponto de vista ideal. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. aritmética e tudo o mais. que. em si mesmo e na mente. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. mas também nas obras filosóficas e científicas. 144). separada das outras obras. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. Ao contrário. possui um arcabouço mental diferente.atormentavam os escritores. gramatica. trata dessa angústia do escritor moderno. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. Nas culturas manuscritas. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. Com o ponto de vista fixo. retórica. gramática. que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. tomando-os emprestado. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. impossíveis antes da escrita. por sua vez. e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". elas se tornaram uma espécie de choque. Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. pp. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. surgiu com a impressão. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram.). poucas dessas angústias acerca da influência . A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida.isto é. quando apresentada adequadamente. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. Além disso. em cada um dos manuais ramistas. A cultura impressa. Com a impressão. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . A obra de Harold Bloom. surgiram o catecismo e o "manual". Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. p. gramática. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". ao compor uma determinada passagem do discurso. Uma matéria curricular ou "arte". Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. Ainda atada à tradição comum do mundo oral. ~ própria arte estava completa e independente. ela deliberadamente criou textos de outros textos. partilhando as fórmulas e os temas comuns. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. em si mesma. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. 280). 135-136). inteiramente separada de qualquer outra. r~tonca.

Como a oralidade primária. alguns pontos precisam ser esclarecidos. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. informações de todo tipo. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. Porém. E. Finalmente. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . como indivíduo. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. da qual se ocupa este livro. ausência de preocupação). abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. que aumenta a entrega . é claro. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. um maior entendimento tácito. mas. Em nossa época de oralidade secundária. Além disso. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. 16-49. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. na verdade. porque alimenta um estilo novo. Não obstante o que algumas vezes se diz. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. mas evidentemente o transforma. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". o novo meio reforça o velho. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). deve ser socialmente perceptivo.a "aldeia global" de McLuhan. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. 284-303. 305-341). como se observou anteriormente. são ainda mais intensificados pelo computador. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. os povos orais tinham um espírito de grupo. em outro. decidimos que a espontaneidade é benéfica. 82-91). Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. Ao mesmo tempo. Além disso. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. De modo semelhante. com o telefone. pp. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. Assim. em seu favorecimento de um sentido comunal. conscientemente informal. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. produzindo-os cada vez mais. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela. um verdadeiro público. Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. pp. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. faz com que eles se voltem para dentro de si. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. o rádio.e. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita. nasceu o "público leitor" . a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. assim como para seu uso. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. pp. mediante a reflexão analítica. À diferença dos membros de uma cultura oral primária. 1977. obtidas e/ou processadas eletronicamente. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. O indivíduo sente que ele. Nesse momento. antes da escrita.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor.Ong 1971.

As outras talvez ouçam mais oratória. Porém.e tudo isso sem equipamento de amplificação. invisível. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. durante o verão escaldante de Illinois. obras filosóficas e científicas. discurso descritivo. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. T 6 MEMÓRIA ORAL. além da mudança oralidade-cultura escrita. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo. teatro.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . clara e verdadeiramente . cada um deles falando por uma hora e meia. para citar apenas alguns. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. desapareceu para sempre. pp.Sparks 1908. Nos debates LincolnDouglas de 1858. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. de certo modo. Obviamente. Porém. Esse tratamento da narrativa .importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. 189-190). desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). Assim.lírica. Desses. O primeiro orador dispôs de uma hora. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. de uma hora e meia. inaudível. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . 137-138. nascida da oralidade primária. ou pelo menos mais discursos. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. A oratória no velho estilo.mudanças na organização política. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. cuidadosamente ritmado. para os objetivos presentes. narrativa. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. O público está ausente. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. mesmo assim possui um enredo. que. os guerreiros . oratória (puramente oral. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. o controle rigoroso. outros acontecimentos na sociedade. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . intercâmbios culturais e muitos outros. Illinois. respectivamente . o segundo.pois isso é o que eles eram. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. acontecimentos religiosos. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. incorporar o teatro. Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. redundante. Ã narrativa podemos. não era essa a antiga oralidade. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja. historiografia e biografia.

Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. muitas vezes até as mais abstratas. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. A lírica tende a ser breve. psicológicos e estéticos e outros mais. a narrativa é. Em uma cultura escrita ou impressa. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. como sublinhou Havelock C1978a. Em um laboratório científico. assim. que podem ser relativamente extensas. 1963). Ele se aplica a uma situação específica e. na total ausência da escrita. Em primeiro lugar. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. tópica. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. A grande maioria das culturas orais . mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. Por trás de provérbios. apresentam apenas informações altamente especializadas. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. são breves. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. Em um certo sentido.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada.senão todas . aforismos. uma ocorrência ad hoc. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. especulações filosóficas e rituais religiosos. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. nas quais não existe texto.gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. em uma cultura oral. Máximas. em toda parte. isto é. Embora seja encontrada em todas as culturas. Com base na narração. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . com um atenção especial a complexos fatores sociais. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. as histórias sunjatas do antigo Mali. Nas culturas orais primárias. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. As fórmulas rituais. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. mas. cf. mais ou menos cientificamente abstratas. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. em certos aspectos. que podem ser extensas. ou ambas. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. Assim. no geral. em uma cultura oral primária. extensas. possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. usam histórias da ação humana para armazenar. A narrativa. significa formas passíveis de repetição. ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. encaixada no fluxo temporal. que são razoavelmente duradouras . provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. Em segundo lugar. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. enigmas. As genealogias. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. O mesmo ocorre com as outras formas.o que.

com começo. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa.pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . descritas no capítulo 3. o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. Assim. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . eleva-a a um clímax. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. não foi construído desse modo. após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. Na verdade. aprenderam cada vez mais a contar . muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. e é seguida por um final ou desenlace . O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . pp. dificilmente leva a sua justa avaliação. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. em uma cultura oral. Esse enredo. A antiga narrativa grega oral. desde o começo. Em sua Arte poética. Não obstante possa ser esse o caso. o poema épico. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente .salvo em trechos curtos . "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. no passado. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas.e. por motivos óbvios.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. A exegese do poema épico oral por letrados. não estava disponível sem a escrita. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. meio e fim (Aristóteles. como ela surgiu. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. do tamanho de um poema épico ou de um romance. mostra uma melhor compreensão do teatro. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. que. nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. ao As palavras de Milton mostram que ele. embora apresentado oralmente. especialmente quanto ao funcionamento da memória. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. muitas vezes detalhadamente. durante séculos.uma localização significativa para tal enredo. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. do que do poema épico.e. As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. Poética 1450b). 1451a e alhures). 148-149). o que. uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. uma vez que o teatro grego. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. na verdade. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando.

na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. em uma dada circunstância. Além disso. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet.pelo que sabemos. faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. é claro. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. no qual não existe narrador. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. mas porque eram forçados a isso. Por que toda narrativa longa. Na oportunidade seguinte. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. era mais ou menos episódica . entre outras coisas evidentemente. antes do início do século XIX. na ausência da escrita. Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. Por que razão esse enredo long. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry. Não tinham nenhuma escolha. em segundo. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas.o progressivo surge apenas com a escrita. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). ele poderia estar certo de que.tensão sempre crescente. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo.salientados. descoberta e reversão requintadamente metódica. e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. pp. Theodor Bergk. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. e. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. não todas . iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. e não a pirâmide de Freytag. em primeiro lugar. na vida manobra conscientemente planejada.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. nenhuma alternativa. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas.e o mais natural . e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. mas o procedimento original. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas . Não havia uma lista dos episódios nem.embora. o todo possui uma progressão. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. mas sem a escrita. final perfeitamente esclarecido. o poema épico não possui enredo. O ambiente mais amplo no . natural. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. 432-433). primeiramente no teatro. Sua excelência estava.

Não obstante. em seu conservadorismo.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. pela experiência atual. 176). "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. particularmente em seu caráter aditivo. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema.. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. protestou ele. ora em verso. Ele os recorda sempre de um modo diferente. para esse público específico. na medida em que guia o poeta oral. em uma seqüência cronológica perfeita. recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . E de fato. a memória. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. sua redundância ou copia e sua economia participativa. por extensão hipotética. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. p. registravam suas palavras. 216). Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. dois niangas e um belga. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. ele o processa da maneira tradicional. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. agregativo. Muito provavelmente. 14): nunca. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). enquanto três escribas. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. Já que insistem . muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. em suas numerosas notas. Fundamentalmente. com um ou outro acompanhamento coral. irá normalmente de início hesitar. desejam que ele cante (1975. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. 172-179). quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. em toda narrativa existe algum tipo de enredo. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. provocando assim renovadas solicitações até que. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. 216). p. por exemplo. ficamos totalmente encantados com a . "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos..eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. (Sabemos. Quando um bardo acrescenta novo material. nessa ocasião. finalmente. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. 174). como um artista. pois não existe tal coisa. conforme ele é aplicado à composição escrita. em diferentes aspectos. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. O po. p. Ao trabalhar com essa interação. Candi Rureke. ele narrou todas as histórias de Mwindo. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. Como resultado de uma seqüência de eventos. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. O poema épico oral (e. p. assim. p. A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. Evidentemente.recordando não um texto memorizado. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. e até mesmo para si próprio" (1975. pp. ora em prosa. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados.

tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag. Em virtude de um controle consciente crescente. como vimos. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. na narrativa como tal. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. como já se observou. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. Como vimos. embora o teatro fosse apresentado oralmente. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. mais tarde. à época de Safo (c. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. definida pelo fechamento. até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. p. em uma cultura oral. Hoje. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. de modo que o . revisão e outros tipos de manipulação. Paradoxalmente. o meio e o fim.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. em vez do velho enredo episódico oral. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag. Foi o primeiro gênero . quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. agora propriamente um "autor". Porém. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. de início. O teatro grego antigo. aquele que faz o texto. O mundo da impressão gerou o romance.c. Evidentemente.).e durante séculos o único . embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. 600 a. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. o texto exibe o início. A impressão. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. Porém. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. Fora do teatro. 221). a subordinação da voz ao episódio continuou forte. para livrar o enredo desse molde. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977. Sob o olhar do autor. desapareceu sob as vozes de seus personagens. Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. pp. pode trabalhar com base em notas. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. a escrita já estava estruturando a psique grega. 53-81).

realmente enganador. . O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. até o clímax e o final. não-fonológicas. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. e o final desfaz totalmente o emaranhado . Sherlock Holmes já imaginara tudo. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. cada um isolado em seu próprio mundo. porém abundantes em material impresso. depois. na mente de seu seguidor. Na história de detetive ideal. o código é em boa parte tipográfico. A narrativa estruturada piramidalmente. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. O protagonista do narrador oral. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. quando comparada com a velha narrativa oral. integralmente. A própria reflexividade da escrita . digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. como Thomas J. o Tom fones de Fielding. passando por Dom Quixote de Cervantes que. de outro modo. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. Não raro. e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. as quais. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). na expressão de Kahler (1973). em algum lugar. como se viu. Com os documentos. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. são incineradas. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. na mente de um dos personagens e. são impronunciáveis. antes de qualquer outro. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. iii). embora o texto seja manuscrito. no fim da história. p. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. tudo o mais se ajusta. publicado em 1841. Um escritor de história de detetive é. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. de um modo requintado. como as Aventuras de Pickwick. "A letra mata. em primeiro lugar. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade.narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). o mistério da pessoa de Aspern. misturando seus textos com "poemas longos. As "histórias de detetive" chinesas. mas também de sinais de pontuação. Em O escaravelho de ouro (1843).reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. têm algo em comum com a narrativa de Poe. ouvintes. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). Uma vez solucionado o problema textual. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. E. seria inacreditavelmente precoce -. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. caracterizado por suas explorações exteriores. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). especialmente o leitor. composto não somente de letras do alfabeto. Farrell ressaltou uma vez para mim.cada detalhe da história revela-se crucial e. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. A "inflexão interior da narrativa". Posteriormente. se esfuma. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. que não possui uma organização fechada tão meticulosa. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. é exemplificada aqui com notável clareza. alcança seu auge na história de detetive. mas para leitores. Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand.

Agave. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. mas como um constituinte da ação humana. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". no fim. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. Em torno de Ulisses (ou. como vimos. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. Quando se estrutura em memórias e ecos. originário do romance. Scholes e Kellogg 0966. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. 46-54) _. Oposto ao "redondo" é o "plano". Watt 0967. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. Brer Rabbit ou a aranha anansi). coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. pp.o detetive.M. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. O surgimento do personagem redondo. domésticos. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. caracteristicamente letrada . o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . surgem em um mundo dominado pela escrita. ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. classicamente urdida. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. em torno de Nestor. o personagem plano. Nas últimas décadas. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. a tradição teatral grega. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. A história compactamente organizada. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . com a passagem do tempo. na verdade. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam. o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. p. As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu.para empregar o termo de E. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé.A escrita. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. em outras culturas. e esse fato é expresso simbolicamente quando. a impressão fizeram com a velha economia noética. ao contrário. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). . posteriormente. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". isto é. dependeu de um grande número de evoluções. resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. mas. Forster 0974. que agem de modos à primeira vista inesperados. que podem desabrochar no romance. pp. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e.

interiorizado. Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. assim também. Heartfree. na mesma época. e até mesmo por vezes Jane Austen.19-2l). de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino". A escrita e a impressão. a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). 461).assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. e. personagens abstratos. como em Kafka. nos católicos.TJ •• "Pândega". Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. "antiquado". O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). de alta tecnologia. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. a síntese de personagens-tipos. observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados.) . Desde Freud. na maioria das vezes. Allworthy ou Square. e nas peças cômicas do século XVII. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. de um tipo inacessível ao povos orais. que. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média. (N. eletrônicas. isto é.· As culturas posteriores. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. Defoe. enquanto simultaneamente a transforma. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. Miller e Johnson 0938. após o advento da era romântica. p. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano. Dos mundos privados por elas gerados.já encontrado em Defoe. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente. "nobre". e os atribui à formação calvinista de Defoe. "livre de ligações amorosas".T. em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. e principalmente o psicanalítico. como vimos. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. pp. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos. ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). que se servem de virtudes e vícios abstratos . citados por Watt.ainda não foi contada. De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. (N. fosse uma atividade partilhada). concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. o entendimento psicológico.de motivação profundamente interiorizada. quando. na verdade. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". Porém. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. não como Aquiles. A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. em certos aspectos. A história dos personagens-tipos . as culturas escritas podem na verdade gerar. como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. e atinge seu auge no romance. obscuro. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. após a chegada da impressão. como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson.personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -. De fato. os personagens "redondos" do romance clássico. nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. Richardson. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores.

organizada para preservar a "linha" de descendência. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes .o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. a tecnologia avançada. Muito pelo contrário. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. de afirmações mais ou menos hipotéticas. exigia-se a organização textual da consciência. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. posteriormente. apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica). também romancistas. incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. Em ambos os casos. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. Apresentarei a questão na forma de teoremas. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. A enorme quantidade de conhecimentos históricos. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. Porém. psicológicos e outros mais. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito.significativo. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . pois é impossível abrangê-Ios integralmente. Hawkes . mas também do presente. Mas. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. na verdade . ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita.mas somente alguns. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. e assim por diante. impensável em uma cultura oral. da impressão). a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. Porém. mesmo razoavelmente. Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

177-205). um texto. Nas universidades de Oxford e Cambridge. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. ainda que complexo e eruditamente compreendido. p. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. está ipso facto relacionado a todos os tempos. colocado por seu autor em um determinado tempo. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. mais livremente oral. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. pela engenhosidade. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). até então. a Nova Crítica estava em gestação . às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse).para o autor. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos. desde o início. nos anos 30 e 40. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. 22-34). Os estudos de textos.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. Nessas condições. pp. durante mais de um milênio. . que aspiram a esse meio aristocrático. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes .embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. e fundado no estudo da retórica. desenvolvido na era romântica. como vimos. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. Tillyard 1958). Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. pp. vernacular. pp. a saber. isto é. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. reportado ao mundo do leitor . inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . embora perspicaz. que eu saiba. As implicações são enormes. um texto literário em latim.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. ocasional e muitas vezes amadorística. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. era extra-acadêmica. O latim. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. pp. dessa perspectiva. 155). O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo.Hawkes 1977. Nos anos 30. em parte porque. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. Nunca. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. e não mais uma língua materna. para ter sentido deve ser interpretado. A crítica anterior de obras vernáculas. Roland Barthes (Hawkes 1977. sua psicologia. A Nova Crítica. A própria Nova Crítica.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais.

a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada.não conseguem. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. Porém. improvisação ad hoc). originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). p. Tzvetan Todorov. na antiga narrativa grega de proveniência oral. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. na verdade.T A análise estruturalista. embora os temas o façam. de certo modo (Peabody 1975. como evidenciou Peabody 0975. A composição oral trabalha com "núcleos informativos". por exemplo. 179). são perseguidos por distrações. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). 109). xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. pp.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. Roland Barthes. Lord e particularmente Havelock e Peabody. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . pp. nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. como esses. as estruturas binárias. Pode haver conexões sutis. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si. p."Homero se distrai". 179. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . p. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). de Lévi-Strauss. especializam-se em textos e. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. pp. Lord 1960. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista. Cohen 0977. Os declamadores. como. muitas vezes cruciais. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. que derivam em grande parte da tradição husserliana. treinado em técnicas de digressão e de flashback. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. De modo análogo. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. explicar por que uma história é uma história. Além disso. O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". Greimas. e não em explicar o passado em seus próprios termos. morfema etc. Hawkes 1977. Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista.uma especialização significativa. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. Estudos sobre a oralidade. O "fio" narrativo direto. embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. 235. Esses críticos-filósofos. por exemplo. tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. que não se adaptam ao padrão binário.todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador). 235 e passim). quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). particularmente . assim. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. apóiam-se . principalmente AJ. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. em Pierre Macherey (978). 457-464.

no Pedra e na Sétima Cana. isso não quer dizer que. mas era isso que ocorria. pacientemente analíticos. Todorov. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. especialmente no caso de PIarão. segundo os textualistas. Julia Kristeva e outros). à maneira de um tubo condutor. agregativo. Culler 0975. Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. Uma vez que não se refere a algo. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. pp.ousam mencionar a comunicação eletrônica). de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". verboso. assim. na República. como agora podemos perceber. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. da imitação. calorosamente humano. Em sua forma mais extrema. de modo claro e . visualista. prolongadamente seqüenciais.Si' em exemplos específicos. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. Além disso.um mundo antipático ao mundo analítico. rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. Platão podia formular seu fonocentrismo. Por um lado. p. também objetos deste livro. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. 74). Contudo. elas próprias. mas uma realização totalmente diferente. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. na verdade . expulsa oS poetas. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. Ix). Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". como os denominei aqui. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. tal como as colocam os textualistas. pela primeira vez. O resultado final. quando.quando muito . isto é. A não seja nada. Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". portanto. Jacques Derrida (1976. ou estruturalistas. que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral. disperso. p. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. usam a linguagem de forma representacional.e inevitavelmente -. Paradoxalmente. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. porque A não é B. ela não se refere a nada . é fonocêntrico. portanto. e sua estrutura não é a do mundo extramental.ou não significa nada. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. Por outro. todos provenientes do romance do século XIX. na verdade. incluindo o seu próprio . mnemônico. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. p. para Derrida. como ele os chama. que. ele o faz. é que a literatura . Poucos duvidarão. tradicionalista. a própria linguagem .Ong 1967b. pp. participativo . o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. como mostra Havelock. A linguagem é uma estrutura. redundante. abstrato. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados.momento em que os processos mentais. Derrida denuncia essa metafísica da presença. como observa o tradutor de Macherey (1978. 252). imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. Em virtude dessa insistência. Sollers. que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. exato. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente.e. e mostra que. porque representam o antigo mundo oral. por outro lado. T No entanto. 241-254) discute a obra de muitos textualistas. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo.

não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. 203-204). o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. textual. e não com as presenças de "idéias" reais. p. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". method. A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida.. como ponto de partida e modelo para o pensamento. no século XVI (Ong 1958b). Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. Mnemosine. que eu saiba. uma espécie de realismo grosseiro. A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. "Se o pensamento é para nós. no rIÚnimo. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. Porém. uma correspondência literal grosseira entre conceito. As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia". palavra e referente. Sem o textualismo..não podemos descartar os textos. e não Hefaístos. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. diria (escreveria) eu. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. . o texto é fundamentalmente pretexto . Os textos são um fundo falso. de ofuscação refinada . chamei sua atitude não de logocentrismo. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. Os textualistas. Essa tese reside em mostrar que. como se o texto fosse um sistema fechado. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. hoje. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. and the decay o/ dialogue [Ramus. Na sua dialética ou lógica. Em Ramus. p. Como propõe Hartman (1981. Geoffrey H. de todas as ideologias. Hartman chamou a atenção para a ausência. que moldam nossos processos mentais. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. 32). uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras.embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. método e o declínio do diálogo) (1958b. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão. por brilhante e de certo modo útil que seja. ainda está estranhamente limitada ao texto. pp. é a mãe das Musas. pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. filósofo e reformador do ensino francês. esta é a mais limitada ao texto. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. mediante uma implicação inevitável. historicamente isolada. Linguagem e pensamento. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". que nunca chegava realmente à palavra falada. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . mas tomava o texto impresso. Na verdade. então deveríamos T compreender o fundamento . cada um à sua própria maneira. discutível. e não o enunciado oral. mas podemos compreender suas deficiências. 35). Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. a oralidade não pode sequer ser identificada.. pelo menos as nossas línguas ocidentais. L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. sem a oralidade. mas de "epistemologia corpuscular". para os antigos gregos. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. acrítica. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. se todas as implicações num poema forem examinadas." Ou. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. nasciam da memória.que pode ser extremamente excitante. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. em qualquer das exposições de Derrida. p. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. 66). As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão.

dentro de certas subculturas. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. a mesma coisa que numa cultura escrita. numa cultura oral. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos.por exemplo.P. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . Contudo. Para se adaptarem a elas. e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972. como já se observou. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. falante e ouvinte estão presentes. até a cultura escrita de alto grau. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. promessa. afirmação. passando pela oralidade residual. protestar. um diante do outro. Se fossem. cumprimento. . Stanley Fish. Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. por exemplo. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). ameaçar. Michel Riffaterre e outros. convencimento ou encorajamento). Grice. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida.L.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. Austin. ordenar. cumprimentar. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. como a oralidade primária. John R. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. Até mesmo atualmente. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. Winifred B. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. da oralidade primária. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. no entanto. poderiam revelar que prometer. Uma outra abordagem da literatura. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. na comunicação oral. assim como outros atos ilocutórios não significam. de produzir uma estrutura de palavras). particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. Searle e H. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). Norman Holland. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. assim como importantes implicações teóricas. além de incluir seu conceito de "implicatura". David Bleich. asseverar. p. Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. tais como medo. Até onde sei. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. ao passo que. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. 400). essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. responder.

Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. É muito provável que um estudo. Atualmente. Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. como Lívio. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. A sociologia. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. assim como a de outros. um tipo especial de produto essencialmente humano. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador.isto é. A existência da filosofia. A descoberta crítica do eu. depende da escrita. sentiu esses efeitos de forma menos forte. até o momento. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. os estudos bíblicos tornaram- . como a Arte retórica de Aristóteles). a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. incorporada aos próprios processos mentais. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). Em suma. desassistida. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. nuançada de forma mais complexa. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. A filosofia. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. seriam impossíveis. destituídas do conceito de "justiça" como tal. como vimos. de sua condição de produto tecnológico . pois. embora escrita. A própria lógica surge da tecnologia da escrita.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. mas também da impressão: sem essas tecnologias. em termos de fatos "aumentados". deveria dar-se conta. passamos para a história da consciência. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. aguda e duplamente crítica. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. no sentido de que a mente as produz por si mesma. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. criticamente. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. através dos séculos. ao que parece. Por que meios? Tanto quanto sei. a filosofia . é resultado não apenas da escrita. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. em seu início. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. A antropologia e a lingüística. a história.

se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens". resistem à cultura escrita. Evoluções na produção de alimentos. e nunca foi. por exemplo. Ia pensée sauvage. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. publicadas posteriormente. Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos. (Alguns indivíduos. 15-16). sugerindo um viés quirográfico. A principal obra de Kelber. A afirmação . e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. menos ofensivo e mais positivo. Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. porém essencialmente limitadoras. mas de correlação.de Lévi-Strauss (1966. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . como outros estudos textuais. 1983). A ligação não é uma questão de reducionismo. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". ou está tomando. nas práticas educativas. a impressão) a causa única de todas as mudanças. p. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. nos meios de transporte. Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. pp. são pesados. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. constitui ainda um atributo negativo. nas habilidades tecnológicas. . para mostrar que não o somos. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. a Odisséia. mas são em número cada vez menor. aborda de forma direta e de frente. não apenas em conversas informais ou de salão. como notou Werner Kelber 0980. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. os estudos bíblicos. no comércio. dessas abordagens bem-intencionadas. O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. A oralidade não é um ideal. contudo. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. Mas.muito citada . Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". "Sem escrita". a oralidade não deve ser menosprezada. apontando uma ausência ou uma deficiência. mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. na organização familiar. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. para não falar de "inferior".primeira edição francesa. Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. na organização política. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. é claro.) No entanto. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. nas instituições sociais. 1962). Os termos "primitivo" e "selvagem". pela primeira vez. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. Tbe oral and the written gospel. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. Tbe mind ofprimitive man (922). citada repetidas vezes neste livro. Numa série de conferências feitas no rádio.

"O . Por isso. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. Por isso. O modelo "mídia" não é. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. chamado "mente". intersubjetivo. isolado de pessoas reais. Para falar. Em segundo lugar. Minha mente é uma caixa. Durante todo o tempo. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. ou de outras inúmeras formas. preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. nas quais a fala está mais orientada para a atuação. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. É esse o paradoxo da comunicação humana.) Tenho de perceber algo na mente do outro. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. Na comunicação humana real. Para formular o que quer que seja. pelo menos de maneira vaga. que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. algum receptor deve estar presente. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor.vida humana. assim como quando se escreve. A comunicação humana nunca possui mão única. por uma troca de olhares. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). do contrário não se produzirá um texto: portanto. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . Porém. devo ter outra pessoa . ela não apenas exige uma resposta. muito provavelmente todas . Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. Porém. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. para uma maneira de fazer algo para alguém. muitas vezes de forma muito profunda. Em primeiro lugar. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo.foram elas próprias afetadas. porém. a fim de iniciar minha mensagem. e ele precisa estar dentro de minha mente. a "informação" passa para a outra. por seu turno. essas evoluções. ouvinte) está presente quando os textos nascem.já "em mente". codifico a unidade (isto é. nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. na verdade. à primeira vista. para ninguém. o escritor invoca uma pessoa fictícia . o texto escrito parece. Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". assim como das outras formas de comunicação humana. ser uma rua de informação de mão única. No modelo do meio. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. com o que meu discurso possa se relacionar. A comunicação humana. das possíveis respostas que eu poderia prever. algo entre duas outras coisas). Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. Mas quando se fala. evitou-se o termo "mídia". o título desvirtuado do livro de McLuhan. Para falar. Retiro dela uma unidade de "informação". difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. verbal ou não. íntimo. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. A comunicação é intersubjetiva. afetaram essa mudança. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. pois nenhum receptor (leitor. o remetente deve estar não apenas na posição de remetente.ou a outras pessoas. tornando-o irreconhecível.e. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. a fim de que possa ocorrer.ou outras pessoas .ou várias. assim como muitas delas. em sua grande maioria . mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. de um lugar para outro. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. isto é. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. De uma ponta do tubo. na maior parte deste livro.

a Bíblia. Desenvolvimentos mais longos . Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. exprimindo-as de forma elaborada. mas também como a Palavra de Deus. até mesmo a hebraica. Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. A escrita eleva a consciência. no ensinamento cristão. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. elaboradamente expressa. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. ser único e não duplicável. a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. Ésquilo. A escrita introduz divisão e alienação. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. a Bíblia.a intertextualidade. pessoais. que redimiu do pecado a humanidade. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. No ensinamento cristão. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. O processo é complexo e repleto de incertezas. qualquer receptor real está normalmente ausente . a consciência nunca alcançaria sem a escrita. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. que se torna visível em Kant. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. por conseguinte. o Corão. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. pp. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu. mas também uma unidade maior. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. Porém. pois. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. na qual ninguém nasce. Contudo. Nesse ensinamento. é conhecida não somente como o Filho. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . segundo parece. as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas.embora não necessariamente de sua separação . a maioria das quais jamais se conhecerá. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. 54-81). Devo conhecer a tradição . Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). se assim quiserem .do contrário . Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente. Para um escritor. profundamente pessoal. seu Filho. atinge as profundezas da psique. na qual. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. central em Fichte. No entanto. Onto e filogeneticamente. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. Ele não o escreve.

mais do que em qualquer outro escrito. como enciclopédias. A fim de evitar um número excessivo de indicações. Além das obras citadas no texto. . esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. muitas obras pioneiras. por algum motivo. Deus é um autor. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa. mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. acrescentamos comentários. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. julgou-se necessário. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. Nos casos em que.humanos. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. mas inclui algumas em outras línguas. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. as culturas africanas).

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37-38. Moses 176 Hajnal. Nathaniel 177 Haymes. 188 Haugen. 35. 14. Stéphane 147 Mallery. 95. 38. 104 Corão 122. 15 La Fayette. 71-74. 101. Robert Hans van 168 Gumperz. Einar 14. William 18. 105 Gibran. David 99. !'vIaurice 85 Miller. 176-177 Neumann.M. 26. 132-133 Husserl. 109-110. Júlio 166 Creed. 89 Lowry. 177 Cícero. 175-176. 198 . 123 Hadas. 160161 Horner. 127 Leach. Elizabeth 135. 60 Hartman.150. 146. James 39. Andrew 26 Lanham. 184-185. 170 Kafka. Thomas 56. 61-62. John William 76 Johnson. Georg Wilhelm Friedrich 193. 141. 187. 169. John 160-161 Murasaki Shikibu. 32. Lucien 61.S. Obiechina. C. 199 Kaltmann.M. 29 Durand. 184-185 Hawthorne. 143 Defoe. Munro E. Michael 176 Daly. 122 Clanchy. 185 Hopkins. 128 Lord. Garrick 15 lVIaranda. 37-38. 196 McPherson. Immanuel 199 Kazantzakis. Robert W. 110-114. Jack (john Rankine) 14. 35. 99 Lévi-Strauss. István 177 Hardouin. Francis P. Geoffrey 119 Chaytor. Norman 191 Holoka. 194 Lewis. 81 Joyce. 29 Elyot. James J 126 Mwindo. 147 Curschmann. Elli Kbngãs 14 Maranda. Gilbert 128 Dykema. Nora Kershaw 19 Chafe. William M. M. 74-75. 104 Douglas. Soren 199 Kiparsky. 60. 199 Cormier. 185-188. John Miles 14. 177 Macherey. Claude 39. 160. 191 Descartes. 83. 78. Erich 168. Jacob 26 Grimm. Wallace L. 171 Kennedy. Geoffrey 148. Robert 159. Edmund 60 Leakey. Julian 39-40 Johnson. 39. François 28 Hegel. 184-185 Lotman. 16.56. 121. James 26 Meggitt. Alexander Romanovich 58. 123 Havelock. Charles 132. 155. 18 Cortázar. 60 Edmonson. 179 Frye. 37 Cronkite. Wilhelm 26 Gulik. Perry 172 Milton.35.R. 50. Franz 173 Kahler. Winston 52. 37 Homero (poemas homéricos. Ruth 17. H. 105-106. 156 Düntzer. 64. Patrick 179 Eurípedes 151. !vlichel 185 Freud. 16. Gerhard 146. Henry 169 James.L. Wolfgang 176. 97. 56 Ésquilo 198 Essien. Walter 140 Crosby. Thomas H. 34. Robert C. 146 Eliade. Johann Gottlieb 199 Fielding. 144. 100.T. Antoine 163 Merleau-Ponty. 171. G. 94 Champagne. E.E. René 86 Dickens. 178. épico 32. 38. 194 Emmanuel 55 Isidore 15. 81. M. A. 109 36 Faik-Nzuji.B. Edward R. David 60 Henrique VIII da Inglaterra 150 Herbert. Ben 172 Jousse. Eric A. Jacques 185 Lang. L10yd s. 170 Foucault. 97. 38. James P. O'Connor. 162. Joseph c. Hermann 193 Guxman. 172 Finnegan. Gustave 174 Foley. 171. Talmi 48 Goldin. 20. 148. 69 Lyly. Stanley 191 Flaubert. John H. 153. 55. 45. Marcel 29-30. 185 Cole. 58-59. 124. 165. Michael 65. 14. 143 Cohen. Karl 149 Eadmer de Canterbury Eckvall. 136.P.75-76 Fish. 192 Hawkes. H. 137. Daniell68. 187. 185 Grice. 37 Malinowski. AJ. Marshall 14-15. 198 Henige. 76. Werner 194 Kellogg. 26 Holland. Bronislaw 42. Richard E.. 52. Kahlil 36 Givón. Catherine 14 Michael Patrick 14. 26-28. Terence 152. 114-116. 121. 165 Nashe. Stephen A.D. Abraham 156 Lívio (Tito Lívio) 192 L1oyd. 37. 177 Nelson. Clémentine 50 Farrell. 176 Hédelin. 45-46. Jonathan 187 Culley. Pierre 185-186 Mackay. Ndewura 59-60 James. Henry 168. JE. 54. 194-195 Lévy-Bruhl. ThomasJ. Albert B. 93. 190 Grimm. 176 Forster. 179 Femandez. 180 McLuhan. 109-110. 57. Desidério 25. 177 Culler. 125 Hockett. Francis James 26 Churchill. 172 Derrida. Eugene 38 Erasmo. 180-182. Ignace 99. 194 Cummings. E. 145 Jakpa. épico grego) 10. 163. Robert P. Pierre 14 Marcial (Marcus Valerius Martialis) 149 Mateene. Roland A. 121-122. 191 Ivins Jr. John 177 Macaulay. Richard A. Okpewho. 168 Diringer. sirIsaac 131 O'Connor. Gerard Manley 146 Horácio (Quintus Horatius Flaccus) 96. 33. 5354. Paul 79 Knox. 125-126 Lincoln. 141-142. 163. 15 Eduardo I da Inglaterra 113 Eisenstein. 136. James 65 Fichte. E.E. R. 36. 79. 101. Martin 95 Luria. 137. 51. Murray 19. 16 Chaucer.120. Julia 187 Kroeber. 14-15. Jacques 89. Thomas Babington 52.Chadwick. Madame de 163 Lacan. 165. lady 163 Murphy. Erich 199 Newton. 82 Mallarmé. Nikos 178 Kelber. Mervyn 109 Meillet. 91. C. Hannah 14 Kant. Sigmund 173 Fritschi. 14 Gunkel. wilbur SamueI126-127. George A. Marco Túlio 27. Ian 102 Magoun. Winifred Bryan 190 Howell. 184. sir Thomas 138 Eoyang. George 147 Hesíodo 162 Hirsch. 38. 137.48. Henry John 14 Child. Raymond J. 126 Kierkegaard. Jurij 16. Frederick 18 Goody. Vicesimus 25 Kristeva. Kahombo C. 158. 146 Greimas. Edmund 185 Iser. padre Jean 28 Harms. Ruth 132. Northrop 22 Gelb. Mircea 87 Ellendt. 189 Miller. William 120 Jaynes. 172 Jonson.

]ohn R. 93-94. Peter 59 Opland. 30-31. 186 Rureke. 185-186. 119. A. Richard S. 162 Wilamowitz-Moellendorff. 165. Edgar AlIan 163. 54. 27-30. 37 Subotnik.114.71 Peabody. 170 Rosenberg. 75 Oppenheim. 180-181 Rudedge. 123 Ong. Hieronimo 95 Steinberg. B. Thomas 26 Peters. Mary Louise 190 Propp. 144 Steiner. Deborah 36 Textor. 179 Steme. 42 Sapir. 26 Vaughan. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. 20. 182 Todorov. Anne Amory 61. 46. 27. Harold 81 Schmandt-Besserat. 171 Scribner. Lev 61 Watt. William Riley 182 Parry. Robert 159. Godfrey 59 Wilson. 59. Geoffrey 14. 177. 36. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. Edward 0.188. lady 163 Sidney. Robert 28 127 Tambiah. William C. 32-33.Olson. Sylvia 65. 187 Toelken. Emst 26 Pynchon. 68-69. 168-169 Potter. ]000 84 Usener. 94-97. Friedrich August 28 Wood.198 Opie. Ulrich von 163 Wilks. ]oel 75-78 Shikibu. Hermann 163 . Louis 79 Richardson. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers. Phillippe 185. Mary Ellen 147 Soooino. Morton 98 Sweet. Edmund 178 Squarciafico. 184-185 Percy. 122. 38. loannes Revisius 143 Thackeray. 14-15. 171-172 Whitman. 184 Parry.. 49. 169-170. Henry 96 Vico. 147. 120. 15 Smollett. Ferdinand de 13 Sawyer. Adam 15. Cedric M. Tzvetan 185. 125-126. 121. 140. Malcolm 124 Richardson. 106.80. lona Archibald 59 Opie. 29-30. Monica 59 Wolf. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker. 136-137.W. 37 Sherzer.H. Stephen 182 Pratt. 104 Searle.100 Wilson. 163 Parry. 190 Sejong. S. 149.H. 114 Scheub. Edwin Erle 156 Spenser. 112. lvor 110 Wilson. E. 188 Tannen.191. 143. 126-128. Paul 191 Riffaterre. Andrew H ~Sl 162-166.182-183. 109 153. Rei 108 Shakespeare. 179. 167.109. 119. Thomas 173 Pyson. 110. sir Philip 177 Siertsema. 51.M. S. P. J. 172. Candi 57. 153-155. Lee Ann 127 Sparks. 87. Denise 101 Scholes. Waiter J. George 136. 34-35. 33-34. William 172 Shannon. Bruce 38 Rousseau. 187-188 Poe. 163. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. 138. Edward 26 Saussure. 96. lan 54. Laurence 147 Stokoe ]r. 100. 130-133. 36. 117-118. 36. Samue1 172 Ricoeur. Benjamim A.58-59. 18. Henry 14 Vachek. 15 Stoltz. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. 42-43. 187 Solt.]. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. Platão. 37. Milman 14. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. Michaell91 Robbe-Grillet. Tobias George 168 Sócrates 94-95. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. Berkley 72. ]effrey 56. ]ean-]acques 91. Alain 166. Murasaki. 121. David R.

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