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Walter Ong - Oralidade e Cultura Escrita

Walter Ong - Oralidade e Cultura Escrita

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tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

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13

25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

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175 201 219

e.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. por definição. na ftlosofia e na ciência . têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. Ou.Nos últimos anos. que eram dados como certos. o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . antes. uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. em primeiro lugar. . Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura. estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. não são inteiramente inerentes à existência humana como tal.estranha e por vezes extravagante para nós . O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. o tema é. em segundo. As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes. o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela.

para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. em um estágio posterior. Portanto. depois. caracteres chineses. do rádio e da televisão. reflexão árdua e afirmações cautelosas.vasto mesmo -. e a cultura eletrônica. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos".000-50. e inicialmente apenas em certos grupos. em vez disso. que se apóia tanto na escrita como na impressão. o esclarecimento não ocorre facilmente. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. Estas. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. silabário japonês. Nesse quadro diacrônico. como o rad~o e a televisão via satélite. é claro. Nós . O Roma sapiens existe há cerca de 30. Não há "escola" de oralidade e cultura escrita. em questões relevantes. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento. a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. mas. salvo como uma variante de um universo letrado. passado e presente. como na Índia. contudo.leitores de livros como este . pela comparação entre períodos sucessivos. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. embora também seja dada alguma atenção. ou algo equivalente ao formalismo. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. Porém. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. As questões não são apenas profundas e complexas. em todas as ciências humanas e sociais. estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão.000 anos. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. a oralidade dos telefones.000 anos atrás. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". O mais antigo registro escrito data de apenas 6. econômicas. Isso requer conhecimento amplo . políticas. Wj. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. no Sudeste Asiático ou na Coréia). É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. que leva a escrita a um novo patamar. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. ela também envolve a impressão. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. mas também a cultura impressa. escritas) que coexistem num dado período. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente.o. à nova crítica. cuja existência depende da escrita e da impressão. Universidade de Saint Louis . tornando-se letrada muito mais tarde em sua história. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. religiosas entre outras. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita.

surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. Antropólogos. e não como transformadora da verbalização (ibidem). Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. possui ao mesmo tempo "C . 33). chamara a atenção para a primazia do discurso oral. a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica.. p. a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. Desde Saussure. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais. o pai da lingüística moderna.) utilidade. assim como para a tendência predominante. o modo como a linguagem está enraizada no . observou.. C. isto é. Ferdinand de Saussure 0857-1913).1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas. que sustenta toda comunicação verbal. até mesmo entre estudiosos. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral.) defeitos e perigos" 0975. A escrita. sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais.

meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. McLuhan (962). num sentido profundo. diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). Ainda hoje. o som articulado. Stokoe 1972). mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. mas. Todavia. mas nos estudos literários. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . No entanto. a linguagem. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. olfato e especialmente visão. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. tem importância capital. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . que. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). por enquanto.faladas no curso da história humana. Por mais rica que seja a linguagem gestual. mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) .a gestual. 332).concluído por Albert B. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária.assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita.som. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita.e a maioria jamais foi escrita. Não existem.1-9). Ong 0958b. Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. Mallery 1972. abordaram os modos como a oralidade primária. 1967b). sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. Lord depois da morte prematura de Parry . as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita. Não apenas a comunicação. Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. Okpewho 1979 etc. pp. Havelock 1963. Lord 1960. Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. O livro de Jack Goody. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita.). já muito antes (945). Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. de todas as milhares de línguas . eles têm uma linguagem. Chaytor. Um contemporâneo de Saussure. O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. Na realidade. que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz. se tanto.talvez dezenas de milhares . Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. bibliografia). fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. por exemplo). na maioria das vezes. A oralidade básica da linguagem é constante. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. Onde quer que existam seres humanos. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. Chafe (982). Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. Porém. se essa afirmação é verdadeira. McLuhan 1962. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. descritiva ou cultural.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. assim como audição (Ong 1967b. recentemente. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. pp. Contudo. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry. em certos aspectos. Havelock e outros. no mundo sonoro (Siertsema 1955). Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras. . paladar. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. 323. Haugen (966). assemelham-se às línguas humanas (inglês.

reestrutura o pensamento e. pp. apesar das raízes orais de toda verbalização. Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. Quando o estudo. desde os mais antigos estágios da consciência. repetindo o que ouvem. estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. 43-48). A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. malaio. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. Os seres humanos. durante séculos e até épocas muito recentes. O estudo da linguagem. Nos quatro cantos do mundo. No entanto. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. ver também Champagne 1977-1978). "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de .). a linguagem falada. mandarim. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. No Ocidente. a espacialização da palavra. dependente de um sistema primário anterior. nesse processo. acerca de seus poderes. no sentido estrito de análise seqüencial ampla. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. em voz alta ou na imaginação. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. porém não "estudam". que constitui um tipo de aprendizado. Mas o exame abstratamente seqüencial. aprendem ouvindo. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras.e na maioria das vezes existiu . o estudo científico e literário da linguagem e da literatura.sânscrito. pp. 21. mas também centenas de milhares de significados passados. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. pp. A escrita. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. 48-61. entre os antigos gregos. a palavra techne rhetorike. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. shoshone etc. Todos os textos escritos devem. pelo tirocínio. hábitat natural da linguagem. Todo pensamento. das quais se conhecem não apenas os significados presentes. Porém. quando muito. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. mina. possuem e praticam uma grande sabedoria. a palavra falada ainda subsiste e vive. inclusive nas culturas orais primárias. amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. No grego original. por exemplo -. 1-7). converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966.caçando com caçadores experientes. rejeitou a oralidade. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral.sem qualquer escrita. muito tempo antes do surgimento da escrita. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. se torna possível com a interiorização da escrita. aprendem muito. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. seus perigos. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. para comunicar seus significados. o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. não afetadas por qualquer tipo de escrita. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. a não ser nas últimas décadas. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. comum a culturas de alta tecnologia. mas diretamente da consciência. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. sua beleza. A expressão oral pode existir . Hirsh 1977. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. Eles aprendem pela prática . assimilando outros materiais formulares. nas culturas orais primárias. mas nunca a escrita sem a oralidade. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. de algum modo. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida.

contudo. os provérbios. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. pp. as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos.falar. a escrita. pp. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. Criou-se a impressão de que. passim). Desse modo. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. muitas culturas e subculturas. letra do alfabeto). salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. até mesmo num meio de alta tecnologia. Possuímos o termo "literatura". mas consagrou-a.Ong 1967b. na Arte retórica de Aristóteles -. permaneceu. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). pelo rádio. destinadas à recepção direta da superfície grafada. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). no fundo. Cormier 1974. praticamente não existe. Contudo.por exemplo. Proferido o discurso. sem referência. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . Como observado anteriormente. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. para todos os efeitos. 58-63. como "arte" ou ciência refletida. até mesmo o da escrita (Ong 1967b. Nem todos. Ahern 1982). Ong 1971. referente a uma herança puramente oral. não levou a oralidade a um encolhimento. vezes passaram a presumir. pp. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. Rhetorike~ ou retórica. um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia.para não dizer menos desfavorável . designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. a cultura oral primária. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . à escrita. os discursos . Atualmente. mas como textos escritos. as preces. e que as formas artísticas orais eram. praticamente como o paradigma de todo discurso.literatura inglesa. Porém. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". 56-58). organizada . literatura infantil -. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. Desse modo. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. Bauml1980. ou outras produções orais. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas. os estudiosos muitas . na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. em diferentes graus. adotaram essas suposições. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. muito embora. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. no sentido restrito. Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. desde o início. consciente ou inconsciente.da arte oral como tal. 27-28). com freqüência irrefletidamente. o que durante séculos. Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. de litera. simplesmente textos. Porém. o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . uma vez que todas as culturas C . Desde a metade do século XVI. como as histórias orais tradicionais. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. • . Goldin 1973. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. Acresce que. a escrita acabava produzindo composições somente escritas.

olhos. tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. talvez de forma obscura. sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . 60 segundos. digamos. mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas".pondo o carro na frente dos bois -. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais. mesmo quando nada têm a ver com ela. Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita. a começar assim. exceto como alguma variante da escrita. Na verdade. mas tão somente ao som. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". Uma pessoa pertencente à cultura escrita. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. sem causar uma distorção desastrosa. em vez de gasolina como fonte de energia. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. todos os pontos em que diferem. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. Porém. mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. Ele discorrerá sobre cavalos. isto é. além disso . explicando a leitores altamente motorizados. p. Conseqüentemente . Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. em vez de uma cobertura de tinta. algo chamado pêlo. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". feno. 16) que o termo "literatura". tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. Estamos. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. Em vez de rodas.e provavelmente sempre . quando usado inadvertidamente também causa problemas .como veremos detalhada mente mais adiante . "escrita oral". que nunca viram um cavalo. É claro que se pode tentar fazer isso. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. que tende a absorver outras.subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. A escrita. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. de trás para diante .embora com uma freqüência menor hoje -. Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. embora destinado originalmente a obras escritas. As palavras escritas são resíduos. e assim por diante. Não é possível.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. terá alguma imagem. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. mas de "automóvel". a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais. os cavalos serão apenas o que não são.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. No fim. quando instada a pensar na palavra "contudo". sem se reportar a alguma inscrição. como ocorre na tradição oral. ao menos vaga.

rbapsoidein. "Texto". desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. quando necessário. no oral. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. o sentido mais comum do termo epos. hoje. ainda que não tão evidentes. felizmente. O discurso oral tem sido geralmente considerado. que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. na verdade. que desejam ardentemente a cultura escrita. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. é. na verdade. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. o que elas efetivamente são.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967). o termo "literatura oral" está perdendo terreno. Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. por mais que se tente o contrário. É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. os dicionários são fundamentais. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. Além disso. assim. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. 248-250. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. da filosofia. e portanto está firmemente apoiada no vocal. Na realidade. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. Porém. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. a perífrases explicativas . pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. Contudo. sentidas como "vocalizações". "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". Neste livro. Em um mundo lingüístico desse tipo. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. ainda assim.iguais. As apresentações orais seriam. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. sem a escrita. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. pp. Hoje. "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . A cultura escrita. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. em termos absolutos. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita."formas artísticas puramente orais". a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura.o "sistema modelar primário" . as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais. Mas. como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz". Nesse sentido. como veremos. regras gramaticais escritas. mas também da história. wekw-. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. de alto valor artístico e humano. 293-303). "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. aos provocados pelo termo "literatura oral". novamente. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). mais compa. embora. como tecer ou alinhavar . Porém. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. cuja raiz significa "tecer". até mesmo em ambientes orais.

Felizmente. continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. embora seja significativo que.. a cultura escrita . mas de outros escritos. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia").forçosamente um estudo letrado. até mesmo destrua sua memória . "Registrar por escrito . embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível." Pessoas de cultura escrita. no mínimo. o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. Devemos morrer para continuar a viver. até certo ponto. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . a menos que seja cuidadosamente monitorada. a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral. Ela pode também resgatar sua memória.busca. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10).cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. da Idade Média e da época de Erasmo em diante. verificou e combinou muitos provérbios. . aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente.é também infinitamente adaptável. e não uma apresentação oral. Muitos séculos antes de Cristo. ditos. atingir.. ou seu equivalente grego Eclesiastes. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. na cultura oCidental pelo menos. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro .

centenas de colecionadores. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. C.notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica". ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia.) Os homens de letras. como fazem Edward Sapir. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . 34). Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. Freqüentemente. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. e não lastimável. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. porque conhecia a escrita. p. embora. no entanto. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. nehhuma outra parte. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. Mais do que qualquer estudioso anterior. dando-lhe nova dignidade. estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. consciente ou inconsciente. com diversas misturas de visões fecundas. Hockett e Leonard Bloornfield. de forma mais ou menos direta.especialmente J. desinformação e preconceito. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. Desde o início. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. da Antiguidade até o presente. Desde então. as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. p. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual.O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. trabalharam com partes da tradição oral. O Círculo Lingüística de Praga . Durante mais de dois milênios. na Antiguidade Clássica ocidental. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. ou semelhante à oral. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. os irmãos Grimm. ou talvez por causa delas. Vachek e Ernst Pulgram . Cícero considerava como sendo ela própria um texto). o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. feita por Lang e outros. ou quase oral. Para explicar sua admitida superioridade. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia. Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. (Ver Adam Parry 1971. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. Em . como os mais exemplares. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. e a demonstração. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. No início do nosso século agora já perto do fim. 77).

de 1795. pelos unitaristas. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. Murko reconhecera a ausência de memória exata. Jean-Jacques Rousseau (1821. diplomata e arqueólogo inglês. pp. criações de todo um povo. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . considera um problema a mensagem numa tábula que. além disso. começou a formar suas próprias opiniões. muitas vezes literatos bem-intencionados. Ellendt e H. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. François Hédelin. até sua morte prematura em 1935. argumentando. fora antecipada na obra de ]. Mais importante. Surpreendentemente. padre jesuíta e erudito. O filho de Parry. 99-101). Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. em leu Prolegomena. o falecido Adam Parry 0971. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. 163-164). no início dos anos 20. O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). Com efeito. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). xix). Marcel Jousse. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento.uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. no tempo de Pisístrato. p. Düntzer. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. no Livro VI da Ilíada. na poesia oral de tais culturas. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. Rousseau. Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. Porém. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. No século XVII. pp. e M. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. mas necessariamente a criação de um só homem. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. contudo. palavra por palavra. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. como observa Adam Parry 0971. pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. Eles foram seguidos. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. dos anos 20 em diante. ainda estudante. Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. de certa forma. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. O axioma fundamental que dirige seu pensamento.E. Belerofonte leva para o rei da Lícia. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. xiv-xvii). o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. inevitavelmente. ix-lxii) . Robert Wood (c. pp. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. pp. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. 1717-1771). Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry.

o poeta perfeito deveria ser . tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. no entanto. mas não quanto às expressões. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. contrariavam esse pressuposto. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. não deveriam usar materiais pré-fabricados. 1977. 147-148. p. assim como outras. 166. A estrutura geral poderia ser sua. A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. 261-263. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. pensava-s~. relacionado apenas ao "gênio" (isto é. era visto como tolerável apenas em iniciantes. apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). pp. no começo dos anos 20. Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. também o estavam influenciando. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. pp. pois. 335-336). até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. Para o romântico radical. pp. 30. Certas práticas. O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . como veremos. Porém. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa".absorvendo sua cultura oral. Ora. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). de um modo ou de outro. deveria. Pouco depois de Pope. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. 85-86. todavia. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. 77. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. dos poetas latinos clássicos. mas as peças já existiam. A visão de Parry. pp. xxii). O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais.diferentemente em cada narração. moldá-Ios a sua própria "natureza". O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. p. o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. juntamente comâs sílabas longas e curtas. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. Indubitavelmente. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . que haviam influenciado estudiosos anteriores. 1971. é óbvio que as necessidades métricas. xx). O Gradus fornecia frases ~pitéticas. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. Esse tipo de procedimento. e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. 178). Em sua forma aperfeiçoada. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. sugestões que pairavam no ar nessa época. era toda sua. ver Ong 1967b. Os poetas.lamentavelmente. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. é verdade. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês.

em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. Em vez de um criador. para nunca utilizar clichês. em princípio. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. rematadamente hábil. 115). Homero foi normalmente considerado perfeito.c. a espoliação dos vencidos. Este libertava a mente para um pensamento mais original. pareciam ser feitos de clichês.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). em boa medida com finalidades métricas. (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. por volta da época de Platão (427?-347 a.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. a saber. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça.ou. mas no texto escrito. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. (Rhys Carpenter. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos.como o próprio Deus. formulares. cada vez mais. De qualquer modo. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava". p. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. oide. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. amados por todos os poetas tradicionais. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato. pp. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores. Homero. o clichê. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados.. poeta épico nyanga. o qualificativo previsível . até certo ponto. Pois os letrados são educados. as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. mais abstrato. Era inútil negar o faio. fórmulas devastadoramente predizíveis. que nunca fora inexperiente.c. que os . apud Havelock 1963. canto). fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. costurar. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. por volta de 700-650 a. rhapsoidein. criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. tinha-se um operário de linha de montagem. 49).. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita . Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana.c. p. mais simplesmente. Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas.algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. O significado do termo grego "recitar". menos previsível era tudo o que houvesse no poema. agora conhecido.como o precoce Mwindo. uma vez adquirido. que podia voar apenas saído da casca . o conhecimento. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. o desafio. a reunião do exército. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. mas um grego especialmente construído pela prática. No entanto.adosteoricamente para desvalorizar.) A linguagem toda dos poemas homéricos. tais como a assembléia. não era um poeta iniciante nem medíocre. 68-98). segundo o consenso de séculos. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. Mas. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. . eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. eram obsoletos e contraproducentes. necessariamente.poetas transmitiam de um para outro. geração após geração. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. "costurar cantos" (rhaptein. no qual a fórmula ou o clichê. a frase pronta. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. a fórmula. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. por volta de 720-700 a.). por exemplo. Além disso. Na cultura oral. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. na llíada e na Odisséia. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula.

p. p. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia. 272). em Parry. filosofia depois de Platão defendeu era. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. p. 1. eletrônica ou de impressão. pp. E. ou a brevidade usual das próprias formulas. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. mumano de processar o conhecimento. a observação de Opland de . A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. mas. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. a despeito da inquietação de Platão. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. 33-65). 1). À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. profundamente interiorizada. xxviii. O conceito da fórmula. . Adam Parry 1971. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. n. XXXiii. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. 70) relata. p. p. na África Central e em outros lugares. elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. como agora sabemos. 18). reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. xxxiii. ainda que. p.1978. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. recompensa. como um modo mecânico.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. Adam Parry 1971. no conceito de Parry. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada.1978. na história humana. aparentemente um tanto surpreso. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. 11-18.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. sim. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. Bynum. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. direta.hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. exatamente. p. a madeira rachada . inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. as quais. "as noções de separação. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. Finnegan (1977. (Cf. existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. 145). no nível inconsciente e não no consciente. como veremos. a convencionalidade do estilo épico. e passim).embora. na verdade profundamente antagônico. de modo inteiramente genérico. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. pp. indiferente a perguntas e destruidor da memória . p. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. 13). Por toda parte. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. 1). n. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. A menos que indique claramente o contrário. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. em que a cultura escrita alfabética. U~ dos motivos para isso é que. no mais das vezes.

Anteriormente. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. Como se verá mais adiante. caixas dentro de caixas. mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. por exemplo. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. em toda parte. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. ainda no século XI. Preface to Plato (1%3). Os hábitos orais de pensamento e de expressão. A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. pp. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. Stolti' e Shannon 1976). Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita. o grego . Adam parry (1971. 218). mas nunca a interiorizaram completamente.que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor). Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . Na verdade. _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. em sua grande maioria. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária. na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. . somente com o movimento romântico.atacado e revisto quanto a alguns pormenores. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. Lord e Eric A. 490). Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . 23-47).poético ou não . atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. em sua grande maioria. p.Tannen 1980a). dois séculos mais tarde. necessariamente. Havelock. p. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. PIarão estava. Ao excluir os poetas de sua República. uma mimetização em manuscrito da atuação oral. da antropologia à história literária. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente.tenha s1d~ . um tipo de discurso . Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. A primeira poesia escrita.. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. segundo um de meus amigos libaneses. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. quando os poetas xhosas aprendem a escrever. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger.· de Havelock.êm sido p~oduZidos por Albert B.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. Embora o trabalho de Parry .a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início. parece ser de início. segundo a análise de Whitman. já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b. que vêem como originais ditos proverbiais que. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971. pp. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns.que. . tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. incluindo o uso predominante de elementos formulares. Clanchy relata como. o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês.

O alfabeto original. vozes que o hemisfério esquerdo . fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). Porém. analítico). em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. em sua obra magistral e judiciosa.que. Jack Goody (977) mostrou. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. seriam extremamente díspares . com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. xvü). Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). umas poucas conexões importantes já foram feitas. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. e da Antiguidade aos dias atuais. Numa obra mais recente. Joseph c. Ao introduzir vogais. Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. raramente . Por exemplo. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. Eu havia anteriormente sugerido (1967b. dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. demasiado loquazes para alguns leitores. Todavia. por meio da cultura escrita e da impressão. Lord e Havelock. Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. inventado pelos povos semíticos. consistia somente em consoantes e algumas semivogais. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. para a mídia eletrônica. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. oral-textual. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. do contrário. de modo convincente. Por exemplo. os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos . ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. x-xi. John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. Sua afirmação gnômica fundamental. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral". ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b . exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. pp. de executivos e do público informado de um modo geral. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). analítica e visual do impalpável mundo dos sons. A estas ele denominou "sondagens". mas também a outros. rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições.verdade. E outros estudos especializados estão agora surgindo. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. Recorrendo não somente a Parry. incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. "O meio é a mensagem". Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. p.quando muito .fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos.

do que a tradução "procurar" evidencia. (N. Em uma cultura oral primária.T. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. de preocupação com a vontade como tal. já não submetida ao domínio das "vozes". ou seja. de uma percepção de diferença entre passado e futuro . e ]aynes. (N. com efeito. das culturas orais intocadas pela escrita. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. Para ser breve. literalmente "procurar com os olhos". 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista.c.) . referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais. como quer o autor. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência.. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. é dividido em duas partes bem distintas. mas até mesmo nos dias de hoje. ou "bicameral" como ]aynes a descreve . As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a.falta de introspecção. Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes.) •• Look up something. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. e de outros que serão mencionados. isto é. como veremos. de audácia analítica. look up.c.processava em fala.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. o que certamente traz implicações maiores para o leitor.T. Esse período.

O fato de os povos orais comumente . 230-271). Se detiver o movimento do som.conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. A visão pode registrar o movimento. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais.) . mas o som possui uma relação especial com ele. logo. Não há como deter e possuir o som. a uma estabilização idêntica à do som. necessariamente portadoras de poder: para eles. pois. ausência absoluta de som.e talvez universalmente .especialmente a enunciação oral. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. na verdade. pp. portanto. faladas.T. Nesse sentido. embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977.) To lookfor them. Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. O som sempre exerce u~ poder. para examinar algo atentamente por meio da visão. como eventos e. estão mortas. Elas são sons. (N. somos simplesmente incapazes de compreender. O som existe apenas quando está deixando de existir. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. Malinowski 0923. não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos.T. Também não ca~sa surpresa que povos . a química e pôr em prática a engenharia química. eventos. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. mas. ** (N. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. dotada de um poder. Essa crença é. que mostra a subordinação à escrita). diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. Um oscilograma é silencioso. Sem a escrita.e muito provavelmente em todo o mundo . Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. * Cal! them back. 470-481) salientou que. "lá". por exemplo. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. pp. Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos."reevocá-Ias"*. mumente . ou uma cultura não muito distante da oralidade primária. num sentido radical. as palavras reais. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. pelo menos inconscien~emente. mas. Toda sensação ocorre no tempo.teria nenhum significado concebível. pois não constituem aç~~s. cheirar. em uma superfície plana. Um caçador pode ver um búfalo. as palavras em si não possuem uma presença visual. Não têm sede. recal! them. se ouve . uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923.é "dinâmico". d todo som . São ocorrências. As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. nem mesmo uma trajetória. 111-138).um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. nem rastro (uma metáfora visual. preferimos mantê-Io imóvel. Ele existe fora do mundo sonoro. ela favorece a imobilidade. Quando pronuncio a palavra "permanência". Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. 451. Na realidade. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. Poder-se-ia "evocá-Ias" . A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente.julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. no momento em que chego a "-nência". Em segundo lugar. que vem de dentro os organismos vivos . entre os povos "primitivos" (orais). As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. Muitas vezes. não tenho nada . pr~fenda e. não.apenas silêncio. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. b u ao. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. mas pode também registrar a imobilidade. Toda sensação ocorre no tempo. até mesmo morto. 223-126). as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas. pp. Ele não é apenas perecível. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. pp.

294-296). a re~ei~ão.Numa cultura oral. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. processo de respiração.à comunicação. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação . Como ela retém. em uma cultura oral. consistindo. por si sós. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. como . recuperar uma complicada série de asserções. com muito poucas exceções . quando fundado na oralidade. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos.ou em outra forma mnemônica. a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . Hesíodo. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. 87-96. possam recordar. muitas vezes ritmicamente equilibradas. como apoios mnemônicos. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita." "Errar é humano. pp. ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. sim. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado. mas também da história da Revolução Americana. pois o ritmo auxilia na recordação. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que." "O robusto carvalho. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. fortel~ente rítmicos. moldados para uma pronta repetição oral.. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos." "A tristeza é melhor do que o riso. em altteraçoes e assonâncias." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope.. a delícia do marinheiro. 294-301). digamos. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente. 131-132. equilibrados. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida." Fixas. "A videira aderente. não há nada fora do pensador. O pensamento deve surgir em padrões. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. por sua vez. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. poderia uma solução longa. mas. de forma a VIr prontamente ao espírito. perdoar é divino. "Vermelho pela manhã. Numa cultura oral primária. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. e portanto também no hebraico antigo. em umas poucas centenas de palavras. A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. o "ajudante" do herói e assim por diante). cada uma de suas proposições e provas. de que modo. 97-98. analítica. fosse relativamente complexa. O pensamento prolongado. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais.icologicamente." "Dividir para conquistar. realmente. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). em expressões epitéticas ou outras expressões formulares.. o duel_o. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. Entre os antigos gregos. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- . Sabemos o que podemos recordar. Antes de mais nada. para posterior recordação. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. por si sós. tende ~ ser altamente rítmico.quando muito -. isto é. não queremos dizer que temos na mente. pp. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. . As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. o alerta do marinheiro. Uma cultura oral não possui textos. a fim de que "saibam". vermelha à noite. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. assim como funcionam. mas também os processos mentais. Podemos recordá-Ias. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das. em repetições ou antíteses. até mesmo p. e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. nesse momento.

da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . que. pois é nelas que consiste. conseqüentemente. é um texto. quando os falantes refletem.). não-mnemônicos. Elas formam a substância do próprio pensamento. na verdade. Numa cultura oral. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . uma vez terminado. provérbios. Sem elas. este é impossível em qualquer forma extensa. são constantes. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. tal como o seria com o auxílio da escrita. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. ao fazê-Io. não-padronizados. com grande inteligência e requinte. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. em si mesmos. porém preserva . determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado.sas. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. p. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. embora complexo. Porém. pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. além de sua estilização formular.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. o modo como a experiência é intelectualmente organizada. determinando o modo como . Numa cultura orall. a própria lei está encerrada em adágios formulares.e. que não constituem meros adornos jurídicos. O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. mas são. orais. um modo fixo de processar os dados da experiência.em livros de adágios. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". baseado diretamente na tradição oral ibo. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. de Havelock. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. Nas culturas orais. 5). Em uma cultura 9~. Não seria um conhecimento confiável. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. mas simplesmente um pensamento momentâneo. Numa cultura oral primária. Esse é um dos motivos por que. ainda que isso fosse possível. seria uma perda de tempo. na África Ocidental. Isso vale para as culturas orais em geral. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. na realidade. podem ser "procuradas". um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978. a lei. mas ilustrativo. mas nas culturas orais não são eventuais. Contudo. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo.isto é. para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. pois esse pensamento. Obviamente. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico. Preface to Plato (1963). as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente.

como sugeriu Givón (1979). quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . Um dos muitos indícios de um alto . constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. E Deus disse: Faça-se a luz. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e".uma visível padronização oral. incompreensíveis para os ouvintes). As nações orais preferem. dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. mas o carvalho robusto. e houve luz. uns anos atrás.inimigo do povo. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. E a terra era erma e vazia. capitalistas fomentadores da guerra -. termos. e até mesmo exótica. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. quando Deus criou os céus e a terra. A versão Douay (1610). os clichês nas acusações políticas . As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. e a ela sucedeu a manhã . e ele dividiu a luz das trevas. As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . Então Deus disse: "Seja feita a luz". Assim. para a relação de algumas fitas). de certa forma independentemente da gramática. E Deus viu que a luz era boa. A New American o traduz por "e". frases ou orações paralelos. Em todo o mundo. como eram as fórmulas . mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. e houve noite e manhã um dia. Em culturas orais ou com um alto resíduo oral. Ele lhes parece natural e normal. Nove "e" introdutórios. o No começo. pp. "quando". em desenvolvimento. "assim" ou "enquanto". Em muitas das culturas de baixa tecnologia. a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. não o soldado. mas o soldado valente. Deus viu como era boa a luz. E a luz se fez. mas a bela princesa. e às trevas. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite".o primeiro dia.Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. Deus criou o céu e a terra. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. e as trevas cobriam a superfície das profundezas.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era.ainda que em vias de desaparecimento . ambos mergulhados num período composto. tais como termos. Noite. não a princesa. E ele chamou à Luz Dia. O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. arcaica. o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. 188-212). incluindo a que produziu a Bíblia. Dois "e" introdutórios. Assim chegou a noite. Deus então separou a luz das trevas. mas agrupamentos de totalidades. epítetos. frases ou orações antitéticos. em muitos aspectos. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. segue de perto. e as trevas cobriam o abismo. que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. especialmente no discurso formal. não o carvalho. enquanto um forte vento varria as águas. 1980b. "então". produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. a terra era um vasto deserto informe.

princesas ou carvalhos." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. construída pela tecnologia da escrita. 245). podemos inferi-lo pelo "mas também .". A psique pode controlar a tensão. Não há nada para o que retroceder fora da mente. No estilo oral. No discurso oral.. Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. puramente ad boe. um processo muito lento . pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. a análise . oral] totaliza" (1966. Convém ao falante dizer a mesma coisa. no Zaire. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. Portanto. deixavam que ela semeasse seus escritos. Se deixarmos passar o "não apenas . 101). mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. mas o faz para demonstrar que eles o são. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. Com a escrita. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). em parte porque a escrita à mão é.) Nas culturas orais. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. Uma cultura oral pode. mesmo que em virtude de problemas acústicos. Por conseguinte. duas ou três vezes. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento.. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou. por exemplo.isto é. Uma expressão formular.constitui um procedimento altamente arriscado. "a mente selvagem (isto é. O pensamento requer algum tipo de continuidade. a situação é diferente. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. A redundância. a redundância atinge dimensões excepcionais. até mesmo epítetos opostos. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. mantendo . princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. como na conversa de tambores africana. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. para manter intacto o agregativo. soldados são sempre valentes. compreende cada palavra que um falante pronuncia. ou algo equivalente. fisicamente. com efeito. mantinham a velha redundância em seus discursos e. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977. embora a pausa possa ser benéfica. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. é preferível repetir algo. A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. requer a escrita.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". o pensamento fragmentado . o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. por força do hábito. perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. ver Faik-Nzuji 1970. os oradores públicos ainda à época de. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. deve permanecer intacta. a repetição do já dito. Por conseguinte.. a mente deve avançar mais lentamente. sempre disponível em fragmentos inscritos na página. uma vez cristalizada. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. p. p. dentre uma multidão ouvinte. O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. William Jennings Bryan 0860-1925). Sem um sistema de escrita.. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa.em média. redundantes. Nem todo mundo. a hesitação é sempre prejudicial.

sim. a escrita .e mais ainda a impressão tipográfica . inventam novos santuários e. Os retóricos chamariam a isso copia. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. De fato. em sua época . o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. muitas vezes intensamente. Porém.também mudam nas culturas orais. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. desse modo. As culturas orais. Por uma espécie de lapso. Porém. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. isto é. 13-14).se possível engenhosamente. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . de seu esforço de memorização e. de certo modo. mas na administração de uma interação especial com sua audiência. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. o excesso. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. não carecem de originalidade própria. como Goody os intitula 0977. Eles raramente se tanto . desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. 254-305).e. pp. pelo fato de tomar para si funções conservadoras. repetidor do passado. uma situação singular. 232). que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida.são propagandeados de forma explícita por sua novidade.deprecia as figuras do sábio ancião. p. pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. deve-se dar à história. com estes. com elas. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. assimilando o mundo estranho. inibe o experimento intelectual. são.a cada narração. evidentemente. à interação imediata. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. a loquacidade. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. Durante a Idade Média e a Renascença. novos universos conceituais. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias.i. 30) -. Todavia. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. oralmente composto.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. Obviamente. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. que. haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. pp. conhecida. os escritos de Winston Churchill (1874-1965). pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. de uma maneira única. compreensivelmente. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. desnaturar até mesmo o humano. isto é. Porém. As culturas orais estimulam a fluência. de um certo modo. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. objetivo. 29-30). a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. a escrita é conservadora a seu próprio modo. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. mente. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. muito freqüentemente. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. de seres humanos. quando as curas são raras. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. como também soam. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. Logo depois de seu surgimento. p. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. As práticas religiosas . pp. Na tradição oral.

O dozens não é uma briga real. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. 234. no Beowulf. até mesmo em culturas de alta tecnologia). do mesmo modo. joning. independente. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47). Obiechina 1975). Criados numa cultura predominantemente oral. Na narrativa. e que Ora. p. com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. os livros VIII e X rivalizariam. sounding ou outros nomes. Representações de violência físita crua. mas uma forma de arte. isto é. por exemplo. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. . em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. em todos os contos medievais europeus. até mesmo em culturas quirográficas. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . remadores. Comande o nauio um dos chefes do exército. no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979.mais de 400 versos . 32). Não somente no uso que se faz do conhecimento. De belas faces.divisões políticas em uma lista abstrata. é comum depararmos. 176-180). A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. com base na observação e na prática. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. com apenas um mínimo de explicação verbal. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. no mínimo. Na llíada. em grande medida. convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. 258). a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. neutra.senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. que não constitui uma lista neutra. inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. mas também na celebração do comportamento físico. reunamos. que eram cruciais na cultura homérica. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. são extremamente raros e sempre toscos. na Bíblia. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. nos embates entre personagens. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. pp. na verdade. Uma cultura oral. e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada .141-144. 28-29. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. 1972). A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. Característicos das sociedades orais em todo o mundo. certos jovens negros nos Estados Unidos. As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. sem perda de tempo. Na última metade do segundo livro. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). Goody e Watt 1968. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. pp.Ong 1967b. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia.

pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". estabelece condições para a "objetividade".um mago. agonístico oral. e. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. veja que eu já estou prosseguindo". "Aqui estou para enterrar César. estão des-oralizando-o num texto. 145-146). empática. Opland 1975). como uma reação encerrada na reação comunal. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. a despeito dos ataques feitos a ela. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. dos vilões e dos heróis. da virtude e do vício. de modo que. Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. distanciando-se das meramente exteriores. obviamente. por intermédio dele. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. Platão excluíra os poetas de sua República. finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. desse modo. 197-233). e sobretudo. com o herói Mwindo. p. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. já muito estudados (Finnegan 1970. transcrevendo-o. Lidando com um outro cenário oral primário. sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963.\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. de presunção e de afetação ridícula.e. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. portanto. residualmente oral. A ligação entre narrador. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. eventualmente. mais de 2 mil anos depois. uma feiticeira . A escrita separa o conhecedor do conhecido e. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. A narrativa literária. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. envolvida na dinâmica de troca sonora. pp. antes. mas. e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII.tanto as atrações quanto. não para falar em seu louvor". na "alma" comunal. aumentam as hostilidades. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas. Porém. Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. os antagonismos. em vez de causas físicas. as relações interpessoais são mantidas em tons extremos . o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . Voltaremos a essa questão posteriormente. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. escriba!" ou "ó escriba. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. do bem e do mal. Elas sobrevivem nas baladas medievais. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). de seus ouvintes. comunal com o conhecido (Havelock 1963.ii. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. "deixar-se levar por ele". pp. Porém. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado. o declamador do poema épico. aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima.79). Sob a influência da escrita. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. . o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. à medida que se aproxima do romance sério.

em Gana. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. desapareceram da experiência diária lokele. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. como literatos. como pai de sete filhos. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. à época em que os . portanto. no entanto. 94-95). elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. tais como o poema épico. A memória do antigo significado de antigos termos. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. p. Goody e Watt (1968. entre os lokele no leste do Zaire. tem uma certa durabilidade. pp. pp. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. desse modo. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. as formas arcaicas são correntes. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. falada. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. como num dicionário. 41-42. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. conservam algumas palavras. Goody e Watt (1968. 31-34). e o termo que permanece ficou vazio. Nos últimos anos. 29) chamam de "ratificação semântica direta". É verdade que as formas artísticas orais. mediante o uso corrente. entre o povo tiv da Nigéria. tal como usados. sempre ocorre. p. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). em outras palavras. até mesmo em culturas de alta tecnologia. 48-99). conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. tal como ela ocorre em textos datáveis. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. podem ser registrados em definições formais. já não reconhecidos. que. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. isto é. Assim. o fundador do estado de Gonja. pp. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. vivida. em que a palavra real.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. que não é. Os tambores africanos. pp. ilimitada. embora a palavra tenha sido conservada. isto é. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. pp. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. inflexões vocais. Ong 1977. descobriu-se que. mas inclui também gestos. por exemplo. nessa época também. Sessenta anos depois. expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. também. em disputas jurídicas). não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. embora limitadas à atividade poética. que não consiste meramente. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora.

nos tempos modernos. Henige (1980. p. se todo pensamento conceitual é assim. Nestes últimos mitos. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. observa que o "modo oral. na União Soviética. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. isso se aplica aos bashu. extraída e distanciada . 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. que. como cita erroneamente Luria 1976. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais. as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. 248. duas das sete divisões haviam desaparecido. de modo algum "abstrato". Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974.. Todavia. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. 157) chamou a atenção para o fato de que. que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). mas pode ser aplicado a qualquer árvore. tendeu normalmente a desaparecer. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. A seu ver.R. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. sensível. e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. pp. mas constitui uma abstração. 178) acha que se aplica aos bobangi. operacionais. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. na opinião de Claude Lévi-Strauss. p. n. durante 1931 e 1932. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. de A. As culturas orais estimulam o triunfalismo. p. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. 247. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem.mitos de estado foram novamente registrados. como Franz Boas (não George Boas. p. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". 33.. simplesmente ele próprio. assim como Harms (1980. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. Beidelman. Além disso. Luria. que possuem um mínimo de abstração. 25-26. 255). n. O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. 8). I de uma realidade individual. Edmund Leach e outros. p. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. até certo ponto abstrato. T. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" .O. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. Packard (1980. faziam questão desse contato em seus mitos. uma por anexação a uma outra divisão. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é.

)."pensamento situacional" -. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. machadinha. 14). Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos. relógio ou lua. Alunos de cursos para professores. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. 56). Um círculo seria chamado de prato. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. do contrário. não respostas tiradas da vida real.um jogo intelectual estranho. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. porta. mas em termos de situações práticas . mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. por outro lado. mas. à exceção da tora. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. Quando lhe dizem que o martelo. plataforma de secagem de damasco. tora. um quadrado seria chamado de espelho. na verdade. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. quadrados. respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim.. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal." Por outro lado. pp. p. quadrados etc. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita . sim. Se tiver de tirar um deles. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. o relato de Luria gira claramente. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. Mas. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. mas usavam um conjunto diferente de categorias. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. jogo fora a machadinha. p. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. 32-39). Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. peneira. 74). como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. a serra e a machadinha são todos ferramentas. em oposição aos fundados no quirográfico. Estes não eram líderes em suas sociedades. nunca abstratamente como círculos. serra. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. Entre as descobertas de Luria. . como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. Desse modo. a tara não é uma ferramenta). p. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. com certo grau de cultura escrita. triângulos e assim por diante 0976. não podemos construir nada" Cibid. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos. com objetos concretos. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. balde. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. casa. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais.

Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. 108-1(9). Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. todos os ursos são brancos.. e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. embora com a predominância do último. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. fixo. em sua interpretação de dadas afirmações. A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais . mas tendem. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. se a resposta surge dessa forma. não tinha interesse. eles deveriam ser todos brancos" (1976. Apresentada a série machado. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. mas depois reconsiderou e acrescentou. . "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. 54-55). sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. Para resolvê-Io. p. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. era fútil (1976. pp. que parecem ter julgado desinteressantes. 114). eles nunca os compreendiam completamente e. não minha. O ouro é um metal precioso. assim como em outras formas. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . para além das próprias palavras do enigma. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles. isolado. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. Por outro lado. 67). Nunca vi outros . Vi um urso negro. O enigma pertence ao mundo oral. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. onde há neve. 18 anos). desse modo. Porém. 34 anos) (1976.. retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. p. como um texto. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. sobre a cor de um urso polar? Além disso. pp. um dirigente de uma fazenda coletiva. de 45 anos. Em suma.o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. tora. a saber. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). À luz desse conhecimento. a ir além das afirmações em si. no estágio apenas inicial de alfabetização. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês.Um trabalhador de 56 anos. Em determinados momentos de suas discussões. 72). Metais preciosos não enferrnjam. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. que deveria completar a série serra. p. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. o categorial. antes. muitas vezes profundamente inconsciente. não era importante." É sua responsabilidade. num estágio apenas inicial de alfabetização. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. No extremo norte. num silogismo. machadinha.. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). "Metal precioso enferruja. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata.." "Somente um animal voador. na vida prática. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. a respeito da espiga. foice. p. encerrado. espiga. Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. 104). p. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas.

o vapor dá potência à máquina . Um outro homem.4) No trabalho de campo realizado por Luria. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. todavia. um teto para sombra e uma máquina. Numa viagem." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. seja examinado e descrito. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. deve haver. Mas para ir direto ao assunto.esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. o eu. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. de gênio forte. mas são típicos. Eu mesmo não posso dizer nada. não está centrada na descrição da aparência visual . como é seu caráter. Usa fogo e vapor. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. Mas a falta de familiaridade . "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. 87). p. 86). não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. analfabeto.. Por outro lado. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta.é muito veloz. não precisam que eu lhes explique". p." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. situacional 0976. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir . "Tente me explicar o que é uma álVore. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. Exige isolamento do eu. Sua definição. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro. vai descobrir. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. 148). Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. de 30 anos. p. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo.''' O respondente enumera algumas características. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. ninguém nos respeitaria" (1976. de 22 anos 0976. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional. Não sei se há água num carro." Mais situações exteriores. também precisa de fogo" 0976. as pessoas são diferentes calmas. Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. Perguntou-se a um homem de 38 anos. mas no fim retoma à experiência individual. p. encontraram resistência. Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão. fez uma tentativa de definir um carro. os pedidos de definições dos objetos. até mesmo os mais concretos. 90). Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. "Bem." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. p.. olmo. 15). p. álamo. Mas a água não é suficiente." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. mas é uma definição em termos de suas operações. diz: "É feito numa fábrica. respondeu um camponês analfabeto. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. um camponês de 36 anos. não de dentro. 150): "Que tipo de pessoa é você. Embora ele não estivesse bem informado. ou às vezes sua memória não é boa. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos.

A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. pp. 1978). os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. 4). não apenas das culturas orais. p. no Ocidente.e muitas vezes tiveram -. mas do pensamento formado pelo texto. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . a seu próprio modo. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. categorização abstrata. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. de modo rigoroso. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. contudo. mas o indivíduo oral não conhece as regras. p. reflexivo. uma "consciência moderna". As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. "Vamos observar um pouco como ele dança. associadas ao uso de textos e. mas dentro de contextos operacionais." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. milhares de anos após a invenção da escrita. 61). Elas são legítimas. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. pelo menos no que diz respeito a esse caso. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. Essas perguntas estão ausentes. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. respondeu a Carrington 0974. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. tal como a dos sujeitos de Luria. Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. a menos que soubessem escrever. Será um jogo? É claro que é um jogo. definições ou até mesmo descrições abrangentes. organizam. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. Gladwin 0970. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. ou auto-análise articulada. os analfabetos podem ter tido . O pensamento oral. não porque os considerem "inteligentes". pode ser bastante sofisticado e. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. em diferentes graus.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. no Pacífico Sul. Até poucas gerações atrás. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. processos de raciocínio formalmente lógico. por exemplo. respeitam seus navegadores. Um habitante da África Central. mas tão somente porque são bons navegadores. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. p. Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. Terão ouvido. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. na verdade. Mas isso não é um enigma. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . isto é. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. isto é. mas também das escritas. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. é claro. na verdade. 53-76).

Eles sabem muito bem que.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. para Ulisses. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. Porém. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. in Pany 1971). compreensivelmente. grupos de palavras para lidar com material tradicional. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. Parry 0928. mas agregativas. de algum modo. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. As seqüências longas que eles produzem. Heitor. tais como as genealogias. na ausência da escrita. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. Atena ou ApoIo. Para compreender como elas o fazem. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. um trunfo valorizado nas culturas orais. que seus processos mentais são "toscos". inteligentes e belas. Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. Como vimos no capítulo 2. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976.tal como. No passado. Como tal repetição poderia ser verificada antes . com êxito. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. o empurrão fará com que ele se mova. 51). os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. uma vez que. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. nos poemas homéricos. é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. por exemplo. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. à condição de que lidasse com material tradicional. segundo seu próprio modelo textual literal. do fisiológico ao psicológico e ao ético. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. p. mas de fórmulas. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. Desse modo. Numa cultura letrada. À primeira vista. no entanto. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. p. assim como para os outros personagens. sem memorização literal. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. não são analíticas. se empurrarmos com força um objeto móbil. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. em qualquer sentido simplista . e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. deveriam ser essencialmente composições escritas. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. Porém. por exemplo. 156). Com esse vocabulário hexâmetro. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". memorizaram-nas literalmente com base em textos. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização.

e/ou ao público. Na sua essência. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. p. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. coisa ou ação. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. Na verdade. eram métricos e formulares. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. embora metricamente regulares. Na memorização de um texto escrito. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. é claro. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. pertencem a uma tradição claramente identificável. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. Porém. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. até pelo mesmo poeta. Seus poemas narrativos. na verdade. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente.. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. indivíduo. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. revela que. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução.é analfabeta. Como se observou anteriormente. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. pp. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. diferirá visivelmente de um para outro. como os de Homero. assim como os temas. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. ou o "alinhavamento" de narrativas. Quando recorda e reconta a história. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. dependendo da reação do público. durante meses e anos. p. e a "rapsodização" do poeta. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. Basicamente. assim como sua utilização. As fórmulas sofrem alguma variação. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . 216). A originalidade não consiste em introduzir novo material. única. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. Com base nessas entrevistas e na observação direta. 17). Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. Uma comparação entre as canções gravadas.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975.e. 20-29). que nada têm a ver com textos. porém. tempo para "se emprenhar" da história. no entanto. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. essa natureza. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. o material. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. os melhores . embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . os temas e as fórmulas.

é dierética. p. onde a Invocação ao Bagre. verifica-se que são sempre diferentes. 1976). que.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. as reproduções da mvocaçao. 28). por Lord na Iugoslávia. pp. é "algo que todo mundo 'sabe"'. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. recitações pelo mesmo indivíduo. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". ou para um tema. ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. no entanto. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. não são absolutamente estáveis. ver Foley 1979). francês. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. 78. de modo muito mais detalhado. um "pedaço" de discurso. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem.. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. pp. em . cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. O que conseguem? ~a maioria das vezes. p. como o pal-Noss. até mesmo no caso . sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. parece ser algo textual. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). pelo menos 60% em relação às outras versões. português e outras línguas (ver Foley 1980b). um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. separada do fluxo discursivo. na África do Sul. Opland 0976. também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. p. Em 1970. 28). como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". 118-119) relata como. Na verdade. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. o mínimo. na costa panamenha. assim como as de outros (Opland 1975. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. verso por verso e palavra por palavra. como interpreta Lord 0960. "Palavra por palavra e verso por verso". a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. separativa. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. Há muito tempo (960). de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. o ouvinte toma o refrão. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. p. como Goody. Um é o da verbalização ritual entre os canas. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. Todavia.o entre _os cristãos. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. p. Todavia. ou para uma unidade rítmica de uma canção. Ou não? Talvez sejam 28. 76-82). Goody 0977. ou fazem somente com dificuldade. e pronuncia-se a frase inicial da invocação. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. isto é. a outros especialistas como ele. relatado por Joel Sherzer (1982). Goody (1977. não parecem ter uma exatidão literal maior. entr~ os lodagaa do norte de Gana. Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. p. quando se conhece a hngua." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui. As descobertas de Goody. Por J exemplo. 27). mundo. p. ou para uma elocução.) Significativamente. 114) registra esforços reais. aqui como em qualquer outra parte. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. Em todo o .~ alemão. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. Sherzer . Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. Se não se pode escrever. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. segundo os padrões de uma cultura escnta. mas a juntá-Ias.

aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . como mostrou . por um dado período de tempo. e alguns interlúdios puramente instrumentais.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. na verdade. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. com base em Finnegan 1977. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. Novamente. p. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. ver também Johnson 1979a). O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. fonema por fonema. não equivalentes a seu próprio exemplo. como já indicamos. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. a música estabiliza inteiramente o texto. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. omitindo o material intermediário. se é que não a aumenta. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. p. mas também sintáticas. mas constróem uma composição em particular. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. 3. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. métricas. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). Um é da poesia clássica somali. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. como os feitos pelo h01110ioteleuton . Indubitavelmente. Evidentemente. ainda existente porém em declínio. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. que. porém notável. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. n. uma década ou mais) ainda está por ser investigado.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. que começam ainda muito novos. portanto. à que aprendem a própria gramática" 0979b. Em certas partes. rapsódico. Isto é. Novamente. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. 148). Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. trata-se de composição formular. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . desacompanhadas de instrumentos.não totalmente invariável. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. 118. na qual uma narrativa oral. Às vezes. não literal. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. senão idêntica. nas suas próprias recitações. embora eles próprios façam. mudanças das quais não se dão conta. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente.e. com algumas poucas partes em "voz pura". No caso da poesia oral somali. é entoada com música. palavra por palavra. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. trabalhando com um mestre oral.

A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. a estrutura formular . ou gurus. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976. pp. Louis Renou. surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. pp. Com efeito. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos.a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. oral.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . Chafe (982)."). freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas.. Porém. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963).se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963. Porém. 25-26 . Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965). um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. sugere que a linguagem ritual. poderiam surgir outras tantas variações. as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções. Tais afirmações. "Fazei-o em minha memória". na boca de um outro professor igualmente capaz. as palavras "Este é o meu corpo .ser estabilizado palavra por palavra. e Rutledge sugere em seu trabalho . A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual. Os professores brâmanes. e isso através de muitas gerações? Afirmações. p. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. tudo indica que. ou de 1954 (Bright 1981). este é o cálice de meu sangue . fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. com certeza.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. tratando especificamente da língua sêneca. inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. pp.para não falar da totalidade dos hinos das coleções ." Em suma.. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. nas culturas orais em geral. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel. como vimos. nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. 99-100). assim como outras relativas à "memorização" oral. especialmente em rituais. provavelmente em completa independência de quaisquer textos. Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem. palavra por palavra. Meras declarações. Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. os textos védicos . até mesmo em seus rituais textualizados. Os Vedas são coleções extensas e antigas.têm uma história complexa e muitas variantes. Os exemplos literais de Sherzer são rituais. é "flexível" ou variável).. Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral. Sem um texto.e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) .#26 . 164). possam geralmente julgar "fixo" um uso que. conservam um alto grau de resíduo oral . de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. como poderia um determinado hino . até mesmo no ritual. de que as reproduções são idênticas.. De fato. Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus.c. tanto quanto sei. na verdade. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento.isto é. deliberadas ou não.Lord. podem ser totalmente contrárias aos fatos. mas com um conteúdo. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva .e notas. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. no entanto. ao cumprir sua instrução (isto é. . O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. comparada à coloquial.. 83-84). disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19).

como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. Como se observou (p. isto é. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. mas milhares de cópias podem permanecer. do que ao objeto. Peabody 0975. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. disse ela. (Ver também Lord 1960. ou dançar. pp.. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. . O Talmude.e temática dos Vedas. A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". mas natural e até mesmo inevitável. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. Ela conhecia a história. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. nunca existe num contexto puramente verbal. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. A palavra oral. Outros povos manipulam contas em cordões. completamente. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras". como eu mesmo testemunhei. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. como ocorre com a palavra escrita. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes. p. Quando o mercado para um livro impresso decresce. existencial. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. e minha fórmula não era a que esperava. fazendo um beicinho. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". não obstante seja um texto. as prensas param de rolar. também o faz a própria genealogia. 60). Na verbalização oral.) A esses casos. particularmente a pública. e significativamente menos do contato não-verbal. 220-222. culturas nas quais. literal ou não. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. Por exemplo.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. É preciso fazer a ressalva. que tinham algum conhecimento da escrita. elementos temáticos e mnemânica oral. visível até mesmo em traduções. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. como já observamos. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). Os narradores narram o que o público deseja ou permite. Havelock 1978a. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. tais como a gesticulação. que sempre envolve o corpo. Finalmente. Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. e portanto da interação humana. As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. por si só. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). Em todos os casos. frontispício. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. Reformulei a narrativa. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. Biebuyck e Mateene 1971. p. 173). no entanto.

seu epíteto usual). perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. Assim. . é freqüentemente desviado. descobre que. Ao contrário.como um grupo intimamente ligado. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). A comunicação oral agrupa as pessoas. é uma série de manobras verbais (e somáticas). um duelo polido. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. como agonístico e. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas.. ao passo que os letrados o interiorizam. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. amok. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. Qualquer nativo de Cork. que muitas vezes os leva a um ato violento. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. o imensamente perverso lobo. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. na Irlanda. Em culturas orais. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. pp. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. Kábútwakénda. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. Dirigiu-se a ele. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. está relacionada ao estilo de vida agonístico. uma disputa de talentos. que ele percebe . memoráveis e geralmente notórias. Um professor que fala a sua classe. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica. o furioso Aquiles. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. Para garantir peso e memorabilidade. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema.aninham as percepções. 451. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. isto é. 470-481). nesse aspecto. indivíduos cujas façanhas são notáveis. lida com todas as perguntas desse modo. A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". Nunca baixe sua guarda oral. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. Desse modo. o indivíduo do sudeste da Ásia. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. zam o comportamento esquizóide. uma operação de agonística oral. por sua vez.. ao contrário de obter realmente uma resposta. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica.e que percebe a si própria . com seu enorme resíduo oral. ele fez algo. segundo a mitologia. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. A natureza não estabelece "fatos". bateu com a mão na parede do edifício. Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes".* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. o astuto Ulisses. Nas culturas orais primárias.

A profundidade pode ser percebida pela vista. Para testar o interior físico de um objeto como interior. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. De modo análogo. em vez de enfrentar o inimigo. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. pp. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. A vista isola. exteriores. e assim é menos um interior. no lugar do herói. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. contrasta com a reflexão especular. um objeto translúcido. Índice). mais profundamente. aberta. nesse sentido. ou cadeiras em um auditório. embora não seja uma fonte de luz. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. porque. sim. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. como observou Merleau-Ponty (1961). O som existe somente quando está desaparecendo. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. E. as figuras não sobreviverão. no entanto. constantemente recua e foge. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. é interessante. a vista também não pode se "concentrar" nele. A visão situa o observador fora do que ele vê. O tato. pode ser interessante. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. 65-67). A visão chega a um ser . por exemplo. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. típico do romance. o som incorpora. sua relação com o tempo. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. À medida que a escrita e. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. Aqui. a uma distância. (A reflexão difusa. que. a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. após cerca de três séculos de impressão. as Três Parcas e assim por diante. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. Numa economia noética oral. sua evanescência. de uma página impressa ou uma paisagem. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. acima de tudo. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. Não se pretende negar que outras forças. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. pela impressão. de John Updike. tal como um fogo. produzam figuras heróicas e agrupamentos.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. a voz humana vem do interior do organismo humano. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. como um alabast!o. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. que fornece as ressonâncias vocais. Porém. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. por fim. 9-11. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". além da mera utilidade mnemônica. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. Aqui. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. as Três Graças. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. e sejam quais forem as outras forças. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. de um espelho. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966.) Uma fonte de luz. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. as paredes que ela percebe são ainda superfícies.de escalar . ao passo que o som invade o ouvinte. A visão disseca.

Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. mas unificador. dentro de meu corpo). as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. pp. Na visão. embora conhecesse certamente muitos itinerantes. fundamentalmente. 231-235 etc. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. desse modo. A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. de certa forma. na qualidade de palavra falada. Numa cultura oral primária. Para as culturas orais . '. A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. O mesmo vale para "exterior". a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. que é definido por "dentro de". pp. é harmonia. com o homem em seu centro. O conhecimento é. 176-179. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". São conceitos fundados na existência. Ao contrário da visão .). . que me envolve. os seres humanos iriam. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. um estado interior. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos.Ong 1967b. aventureiros e peregrinos. implementada pela impressão. na qual a palavra existe apenas no som. O auditório ideal. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. pp. uma luta pela harmonia.o som é. conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. por outro lado. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. A propósito. 228. e assim por diante. no entanto. Quem diz "eu". como num atlas impresso moderno. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". Com "interior" e "exterior". a psique não é sadia. 63. o umbigo do mundo (Eliade 1958. nem mesmo à possibilidade de um tal texto. mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". Quando ouço. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. Podemos mergulhar no ouvir. ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. d o que a que envolve coisas impessoais. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. visualizada: a visão é um sentido dissecador). Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . preciso girar meus olhos de um lado para outro. baseados na experiência que cada um tem de seu corpo. O homem é o umbilicus mundi. um sentido unificador. que é definido por "entre". girando no círculo tautológico. Sem harmonia. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como. ' . 117-122. A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. não um fenômeno fragmentador. o cosmos é um evento contínuo. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. no som. 221).o sentido da dissecação . Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. é um colocar junto. O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. viajantes.

Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. o português não tem equivalente para readershíp. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. como um "signo". Jesus. como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. por exemplo. porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. Eventualmente. No entanto. A palavra falada é sempre um acontecimento. lemos na Carta aos Romanos 00:17). é espantosa (Ong 1967b. se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). como indivíduos. que nos deu a palavra "signo". O pensamento aninha-se na fala. a unidade do público é desfeita. num som real ou imaginado. nas religiões mundiais mais abrangentes. mas a falada. fundamentalmente um som. Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". Record). a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. significa também "acontecimento" e. 176-191).T. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. 14). o • Significativamente. Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). Na teologia trinitária.é uma abstração excessiva. consigo mesmos e com o orador.esta revista tem um readership de 2 milhões . uma representação textual. que significa "palavra". todos.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. A escrita e a impressão isolam. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. O coletivo readership' . desse modo. pp. O hebraico dabar. refere-se diretamente à palavra falada. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". Quando um orador se dirige a um público. (N. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. mas um "sistema modelar secundário" (cf.) . Signum. Em virtude de sua constituição física como som. visual de uma palavra não é uma palavra real. Para pensar em leitores como um grupo unido. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. até mesmo em suas partes epistolares. A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. como se fossem realmente ouvintes. Na cristandade. reais ou imaginadas. com as preocupações fundamentais da existência.etimologicamente. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. Na maioria das religiões. restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. p. A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. Lotman 1977). um movimento no tempo. O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. não em textos. direta ou indiretamente. os ouvintes normalmente formam uma unidade. A mentalidade oral do texto bíblico. a Palavra de Deus. cujos significados. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. "A fé vem pelos ouvidos". uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. nada deixou por escrito. "A letra mata. não escrevendo para eles. mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais.

Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. e se ele não é exato. o ontem não estalou para o hoje. parece. num sentido em que as palavras não o são. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. ao tratar da internalização da tecnologia.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". ao mesmo tempo. isto é. do que a "desconstrução" da literatura. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. algo mais. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. alquimistas letrados. pois a oralidade primária subsistia residualmente. mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. efeitos que são brilhantemente fascinantes.mas somente parece. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto. que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. como uma águia. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . indivisível. quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. O som é um evento no tempo. ver Yates 1966. mudos. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. Reduzido ao espaço. muito mais difícil.) De modo análogo. mas também por vezes psicodélicos. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". causados por distorções sensoriais. Ainda na Renascença européia. esse signum não era uma palavra soletrada. o mastro do barbeiro. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . eram. uma ao lado da outra. sem nenhuma parada ou divisão. Eram "signos". Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". e "o tempo caminha". p. (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. fenômenos visuais imóveis. toda a experiência humana.embora realmente produza. as três esferas do agiota. por exemplo. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. o tempo parece estar sob um controle maior . . quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. grosseiro. (Sobre os rótulos iconográficos. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. leva-nos para a morte real.talvez incipiente em culturas orais. Mas isso também falsifica o tempo. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. sekw-. tendiam a registrar neles não um nome escrito. mas pelo vôo."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. O tempo real absolutamente não tem divisões. elevando-o acima do mundo comum. 7). Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. Embora os romanos conhecessem o alfabeto.a reduzir toda sensação e. é limitar nossa compreensão . inexoravelmente. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. pesado. repito. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. pois o tempo real. a análogos visuais. como é representado num calendário.que sugere evanescência. "objetivo" . na verdade. mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. seguir).

a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. Sem a escrita. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. 21-23. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. não apenas quando se ocupa da escrita. Mais do que qualquer outra invenção individual. pp. . a escrita transformou a consciência humana. porque foi separado de seu autor. como o oral. direta ou indiretamente. mas normalmente. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). mas da estruturação dessas capacidades. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. pela tecnologia da escrita.

Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. incluindo sua crítica à escrita. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. e muitas ficam angustiadas. para torná-Ias mais convincentes. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. artificial.em vaticínios ou protecias. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. um texto escrito é basicamente inerte. fazem-nas por meio da impressão. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. em um mundo irreal. O mesmo. Hieronimo Squarciafico. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. no Fedra. As calculadoras enfraquecem a mente. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. A escrita. podemos obter uma explicação. fundamentalmente. é claro. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. os pais. é dito dos computadores. não obteremos nada. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". objeta o Sócrates de Platão. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. Em segundo lugar. enquanto o livro existir. possui algo dessa qualidade vática. a escrita destrói a memória. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. assim como outras pessoas. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. Em terceiro lugar. para tornar mais convincentes suas objeções. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. fora de contexto. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. a escrita é passiva. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. se o fizermos a um texto. Na verdade. Como os computadores. orais. Fora dele. A escrita. Atualmente. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações. É uma coisa. é inumana. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. como se viu (Havelock 1963). o livro substitui a enunciação de uma fonte. ao saber que. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). pois julgava-se ser ele a voz do deus. A joniori. ela criou a crítica. A escrita enfraquece a mente. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. pp. A escrita. Tecnologizada a palavra. Obviamente. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. para tornar mais convincentes essas objeções. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. Além disso. muitas . Os textos são inerentemente contumazes. não a fonte. pp. diz Platão através de Sócrates. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. 31-32). e mais ainda a impressão. ele as pôs por escrito. Como o oráculo ou o profeta. exceto as mesmas. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. um produto manufaturado.

mas o espírito dá vida" . em Oxford. coisificada. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. a mais drástica das três tecnologias. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. Platão. embora. é claro. e de que ela destrói a memória. como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. e além dela. Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. imóveis. ou a representará um certo fonema.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley."A letra mata. Não há como escrever "naturalmente".30. A fala completa a vida consciente. não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. Em pippapasses. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. pp. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos. peles de animais. seu afastamento do mundo da vida cotidiana. Clanchy (1979. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. hostil. a escrita é inteiramente artificial. tiras de madeira. ou registro escrito. As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. "ver". "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. A escrita. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. a redução do som dinâmico a um espaço mudo.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. conscientes. outrora viva. 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. de certo modo. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". encontrável em dicionários impressos de citações. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. 230-271). oral. de 2 Coríntios 3:6 . parte de seu próprio processo reflexivo. "forma". sua rígida fixidez visual. A flor morta. A escrita é. superfícies cuidadosamente preparadas. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. em qualquer cultura. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. pp. pincéis ou canetas. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. a quem ele expulsara de sua República). um certo pictograma significará uma certa palavra específica. móvel. assim como tintas. estão inteiramente acima e além dela. É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). "visível" ou "vídeo". Voltaremos a essa questão posteriormente. O termo idea. individualmente interativa (representada pelos poetas. Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. ou reação exagerada.I) . O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. Ao contrário da linguagem natural. No entanto.em que pressagia a própria morte . desprovidas de todo calor. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação.) . isto é. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. é claro. tardia. único lugar em que as palavras faladas podem existir. não são interativas. como tal.da do mundo da velha vida cotidiana oral. é o equivalente psíquico do texto verbal. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". b um outro e assim por diante. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). de que na Biblioteca Bodleian. As idéias platônicas são mudas. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. e muito mais. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. mas isoladas. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. calorosa. "cada livro é teu epitáfio". porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes.

no sentido de uma escrita genuína.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. isto é. à oralidade -. e mais ainda quando afetas à palavra. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. pelo contrário. o aprendizado de uma habilidade tecnológica.c. mas . a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo. ampliar o espírito humano. Até mesmo quando é pictográfico. humanamente compreensível. que conhecemos. Os códigos. foles. interiores. (Diringer 1953. ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. Gelb 1963). Um órgão é uma máquina enorme. Os desenhos representam objetos. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. adequadamente interiorizada. mas elogiá-Ia. isto é. que especificam exatamente como usar as ferramentas. na verdade.inteiramente exteriores a seu operador. um registro escrito é mais do que desenhos. O primeiro registro escrito. sim. ou aides-mémoire. usando um dispositivo mecânico. mais do que qualquer outra. isto é. pp. em última análise. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. necessitamos não apenas da proximidade. transformações interiores da consciência. A orquestra moderna. mas. mas um código não é desenhável. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. Porém. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. na verdade. não consiste em meros desenhos. poderia dizer. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. E assim por diante. Para conseguir tal expressão.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia.) Um registro escrito. no sentido estrito da palavra. Como outras criações artificiais e. com recursos de força . De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. fileiras de seixos. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. por exemplo. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. intJnsificar sua vida interior. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). mas também da distância.bombas. 141 e 168). não rebaixa a vida humana. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. O desenho de um homem. Um violino é um instrumento. obviamente. uma ferramenta. Isso exige anos de "prática". As tecnologias são artificiais. A escrita aumenta a consciência. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. é resultado de alta tecnologia. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio.a artificialidade é natural aos seres humanos. Tais transformações podem ser enaltecedoras. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. Para viver e compreender plenamente. de Morton Subotnik. A escrita.novamente um paradoxo . é a representação de uma elocução. acentua-a. ou verdadeira escrita. feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. E vários dispositivos de registro. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. é altamente desumanizante. sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. para compreender o que ela é . em representações de coisas. Obviamente. tal como entendido aqui. Mas. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. geradores elétricos . uma parte psicológica de si mesmos. A tecnologia. O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer.

Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. 1500 a.C. o asteca. seria "escrita". Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . de forma a incluir qualquer marcação semiótica.c. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios. sete entalhes . A escrita. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita. o contexto extratextual às vezes é necessário.c.). não quando a mera marcação semiótica foi imaginada. Se anoto em um documento: read. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. .indicavam.Wilson 1975. 3000 a. gradativamente. Os registros escritos têm antecedentes complexos. pequenos. isto é. mas totalmente fechados. indicando que ()~ documento foi inteiramente lido.usar a escrita para produzir literatura . 3500 a.c. os símbolos do lado de fora da bula . um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. A maioria. ocos. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. o primeiro de todos os registros conhecidos (c.c. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas. ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). Usar a escrita para criações imaginativas. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. Assim. pois o primeiro registro cuneiforme. em um nível ainda mais elementar. de um sistema de registro de transações econômicas. Não é um mero apêndice da fala..c. o registro do vale do Indo. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico. Se isso é o que se entende por escrita. Desse modo.o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos..digamos. 50 d. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. Contudo. Em alguns sistemas codificados. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos.c. os hieroglíficos egípcios. o "Linear B" minóico ou micênico.C. o chinês. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem.. ou às vezes. em seu sentido comum. ao uso de sinais. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. como no sistema desenvolvido pelos vai. talvez. 3000-2400 a. (datas aproximadas segundo Diringer 1962). dentro da bula. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. 1200 a. 3500 a.. originou-se.faz e à qual atribui um sentido. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. mas somente em casos excepcionais . Até mesmo com o alfabeto. se não a totalidade. sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. interpretável apenas por aquele que os faz.digamos. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. o que representavam . de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos. banaliza seu significado. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. da mesma regiào que as bulas. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. indicando que deve ser lido até o fim. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. o maia. (talvez sob alguma influência do cuneiforme). sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto. Diringer 1960. o da visão. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. Existem estágios intermediários. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). 1400 d. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica. pelo menos em parte. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). pp. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas.

os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. p. ou já conheceu. ou soul [almal associada a "corpo". que agora está sendo ensinado em toda parte. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. Uma espécie é o ideograma. A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos. em 1716 da nossa era. de certo modo.inglês sole . os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. para "criança" [dzal. 3 e assim por diante estão. Em um sentido especial. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. o mandarim. Nenhum chinês ou sinólogo conhece. A perda para a literatura será colossal. incapazes de compreender o que os outros dizem. como aparece aqui. o que 1. 3. arrola 40. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". o significado pretendido não fica inteiramente claro. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. um luba. no pictograma chinês. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). 3 não são. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. 2. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". O chinês é o maior. desse termo. 2. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. nessa ordem. (Todavia. 2. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. desenhos de um moinho [mil/l. mas a palavra "floresta". desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. embora primorosamente estilizados. até mesmo naquela época. 2. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. poderiam representar a palavra "Mi/waukee").no sentido mais específico história do registro. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. mas não às palavras "primeiro" e "segundo". 2. o . não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. podem compreender a escrita. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. sole no sentido de "apenas". requerem uma espantosa quantidade de símbolos. Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. A comunicação pictográfica. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. freqüentemente. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus.de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. todos eles. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). mas estabelecido por código: por exemplo.) Algumas línguas são escritas em silabários. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. Desse modo. Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. numerais como 1. um caminho [walkl e uma chave [kryl. As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. Indubitavelmente. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . Mas. mutuamente incompreensíveis. como uma letra do alfabeto.545 caracteres. algo como um francês. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. Todos os sistemas pictográficos. 3 e assim por diante. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês.

não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. ideogramas. pp. romano. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. por exemplo. ele usa caracteres chineses. como o árabe. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". culturalmente ricas e poeticamente belas). até hoje não possuem letras para vogais. No do vai. ugarítico. e é muito difícil de ler. mu e assim por diante. tâmil. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh". o de que foi inventado apenas uma vez. muitas vezes extremamente complexas. quando os pontos vocálicos são usados. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. . mesclando dois ou mais princípios. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". As línguas organizam-se de diferentes maneiras. cinco outros para ma. malabarense. que significa "não"). ki. 121-122.hebraico. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. não é uma vogal. ele usa caracteres chineses. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. Posteriormente. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. o sistema coreano é híbrido (além do hangul. exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. mas 2 mil anos depois dele. coreano . e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. O fato mais notável sobre o alfabeto é.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. de uma forma ou de outra. arábico. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados.. pronunciados a sua própria maneira). ke. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. discute as duas variantes do alfabeto original. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. "pontos" vocálicos. mi. que se tornou nosso "a" romano. A letra aleph. como nos registros u~arítico e coreano. na história do alfabeto hebraico. embora. O hebraico. ko. na Libéria. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. cirílico. outros rébus). eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. (Diringer 1962. mo. assim como outras línguas semíticas. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos.) Todos os alfabetos do mundo . me. p. mais ou menos. ela simplesmente representa o fonema [b]. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. discordantes em quase tudo o mais. em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus. ku. rébus e várias combinações. à medida que lêem. o cuneiforme. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um.até o terceiro ano. Havelock 1963. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). alguns ideogramas. sem dúvida. E israelenses e árabes modernos. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. um alfabeto genuíno.derivam. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . o semítico do norte e o semítico do sul. na verdade. grego. foram acrescentados a muitos textos. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. p. para ka. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. Além disso. do desenvolvimento senútifo original. respectivamente. Todavia.c. 456). Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). "claustro"). Na verdade. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas.

mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. desse modo. que uma palavra é uma coisa. não um evento. quase total. Todo registro escrito representa as palavras como se. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. Vogel. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. elas fossem coisas. temos dois. Kerckhove (1981) sugeriu que. mais analíticas. Nos livros e jornais coreanos. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. A escrita de caracteres chineses. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. não obteremos "aroma". da palavra. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. O alfabeto implica que as questões são diferentes. Constitui um registro democratizante. pois representa um objeto. igualmente. existe somente quando está desaparecendo. com vogais. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. favorece o pensamento analítico. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. O alfabeto. tori. pãjaro. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. por converter o som a uma forma visível. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". abstrato. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. Porém. "pássaro". Mas o rébus (fonograma). no entanto. até o terceiro ano. sae. digamos. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar).r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. semi-permanente. porém crucial. (Observou-se há pouco que. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. que admitia a omissão de vogais na escrita. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. sobre bases neurofisiológicas. O som. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. facilmente aprendido por qualquer pessoa. Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. de um pássaro. para os escolares israelenses. Ele analisava o som de modo mais abstrato. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. como muitos outros sistemas de escrita. de algum modo. como no exemplo fictício usado acima). embora possa representar várias coisas. o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. Ele representa o som em si como uma coisa. não reduz o som ao espaço. É talvez. nem "amora" nem "aroma". todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . o "desapare-" já acabou. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". mas um som completamente diferente. em componentes puramente espaciais. marcas imóveis para a assimilação pela visão. b mais a. como já explicamos anteriormente. sem dúvida. Um desenho. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). objetos mudos. uccello. não uma palavra. quando chego ao "-cendo". é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. com certeza. Parece que a estrutura da língua grega. Era também "internacionalizante". O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. Rébus ou fonogramas.

jornais. e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. Apenas no século XX. 300-309). 13). em 1443 d. .alfabeto. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado. a recepção dessa façanha notável era previsível. pp. Porém. uma realização magistral. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. 15-16). práticos. diante da prevista resistência maciça. foi comumente associado à magia. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. vulgares. p. caixas de papelão. A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. Na cultura da antiga Grécia.800 ban. pp. Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. abre caminho pela primeira vez na direção de uma .encomendas. ao passo que os 1. O futbark. conhecimentos de embarque.além do alfabeto . sociedade específica. como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong.e. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. 201-203). pp. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. ou caracteres chineses.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar. onde. p. Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. por meio de uma forma dialética escocesa. mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês. p. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. recibos etc. pp. ele o faz necessariamente. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. garotas de gramática. Porém. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental.todos coreanos que sabiam escrever . A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968. no lruCIO. ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas.. Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. pp. que todos podem virtualmente ler. na realidade. A escrita é muitas vezes considerada. inici(l1mente. 120-121). 113-114). O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . Milhares e milhares de coreanos . referente ao aprendizado livresco. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele). exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). Eckvall). 16. com a democratização maior da Coréia. 236).para ler a maior parte da literatura em coreano. recibos (Achebe 1961. citando R.B. que são o mínimo exigido . Até aquela época. Clamor girls são. alfabético ou outro. Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia.

e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. 90). na Europa.de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. pp. peles de animais (pergaminho. Como ferramentas para escrever. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. ou um construtor naval para fazer um barco. ele possuía blocos de barro molhado. velino) desbastadas de gordura e pêlos. Durante a Idade Média. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. como na aquarela. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. No ato físico de escrever. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. então.C. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização).. esse estágio foi superado. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . Mas. na Inglaterra do século XI. p. Ainda era raro na Inglaterra do século XI e. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. São Tomás de Aquino. do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. p. Nesse estágio. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . papiros (melhor do que a maioria das superfícies. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. De modo semelhante. quando ocorria. produzir um pensamento com a pena na mão. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. Não existia papel. pela ordem. que escreveu seus próprios manuscritos. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos.. Goody 1968b). cf. Havelock e Herschell 1978). 88-115. algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil. Nesse estágio de profissionalização da escrita. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. manufaturado na China. comumente na Ásia Oriental. Eadmer de Saint Albans. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. 218). ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. evidentemente. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). ou. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. era. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). como o Mali. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. Ou então cascas de árvores. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. particularmente em composições breves. Compor à medida que se escreve. bastões de madeira (Clanchy 1979. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. provavelmente por volta do século II a. quando compunha por escrito. até mesmo então.c. junta suas palavras no papel. mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). folhas secas ou outros vegetais.se é que algum o faz -. sobre "A tecnologia da escrita"). Como superfícies para a escrita. p. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. os escribas possuíam vários tipos de estilete.

não (isso. p. Voltaremos a falar (isto é. À primeira vista. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. de bom testemunho". ela pode ainda não lhe dar muito valor. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. p. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. Por volta de 1130. de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. p. mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. 236-241).pensamento baseado na oralidade. pp. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. 230). sábias e maduras. a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. porém a história cuidadosa. 235-236). ao passo que os textos. devemos lembrar. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). Em 1127. pp. mas por objetos simbólicos (como uma faca. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. No período estudado. 25). em uma moldura de tempo computado abstratamente. a idade de herdeiros feudais. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. até mesmo em um meio administrativo. Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. Na Inglaterra do século XII. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. o Conde Warrenne exibiu não uma carta. presa ao documento por uma correia de pergaminho . mas não a haviam interiorizado o suficiente. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. relógios de parede e relógios de pulso. como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". 238). Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. Clanchy chama a atenção 0979. imposto por milhares de calendários impressos. atualmente. 232-233). o Conquistador.Clanchy 1979. que conheciam a escrita. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. mas "uma espada antiga e enferrujada". todos os dias. do nascimento de Cristo. . Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. 24). 231. provavelmente por diversos motivos. pp. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. especialmente em um tribunal. todos vivemos. as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. p. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. De fato. por exemplo. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. "pessoas de idade. Cada jurado jurou que. O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. elaborada por Clanchy. Antes do uso de documentos. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). pp. As culturas mais antigas.

52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros.não um registro de contas objetivo. a escrita foi. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. de fato. mas estão fazendo algo. uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. em sua maior parte. 233). portanto. muito velha (cf. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. "A verdade lembrada era . porque o passado mais remoto era. Goody (1977.H. para a maioria das pessoas. De fato. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. em uma economia de pensamento oral. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. Elas eram identificáveis por sua aparência. nas culturas funcionalmente orais. como gerador e como gerado). Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). sublinha Clanchy. qual a utilidade.. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968.um fato que. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!. . as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas. paradoxalmente. tabelas ou números. 31-34). Meujael gerou Metusael. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. as pessoas não se sentiam situadas. No texto da Torá. o Confessor. acamparam em Hazerote. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . acamparam em Ritmá . eles acamparam em Quibrote-Ataavá. que começam por volta de 3500 a. 44 são certamente falsificadas. p. É o domínio dos ancestrais.. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. inacessível à consciência.461-879) . A escrita torna possível tais aparatos. A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. jovem . Partindo de Hazerote. encontramos uma seqüência de "gerou". como em um alinhamento militar. pp. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. "gerando")." e assim por muitos versos mais. Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. isto é. Clanchy 1979.. como facas ou espadas. os de escrita cuneiforme dos sumérios. A lei consuetudinária. Sawyer). Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. Em vez de uma recitação de nomes. faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e.contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes).): "Partindo do deserto do Sinai. de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados.c. era automaticamente sempre atualizada e. pp. E. citando P. 249. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos.. desbastada de material não mais em uso. 233). p. "Os falsificadores". Além disso. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. A oralidade não conhece listas. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. são registros de cálculos.. dos quais o calendário é um dos exemplos. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal". flexível e recente" (Clanchy 1979. em certo sentido. portanto. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. a cada momento de suas vidas. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael. p. Partindo de Quibrote-Ataavá. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes.

e depois usada para a recuperação visual do material. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. Os textos são coisas. de baixo para cima .Não são percebidas como uma coisa. impossíveis de "examinar". em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. e até mesmo os poemas. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). depois uma volta na ponta para a outra linha. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. em seu hábitat natural. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. o alfabeto. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. b. suas próprias leis de movimento e de estrutura. representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. para indicar a seqüência. pp. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. uma linha indo para a direita. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. é resultado não apenas da escrita. eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. ou indivíduos reais. ou todos esses modos ao mesmo tempo. Goody mostra em detalhes como. aos fonemas que codificam. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. existencial. para o movimento da direita para a esquerda. são parte de um presente real. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . As palavras faladas constituem sempre modificações . são antes enunciados que são ouvidos. em uma linha horizontal. nos primeiros tempos da cultura escrita. 307-318 e passim). mais precisamente. As páginas não possuem apenas "cabeças". como nos índices.Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. oral. quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput.aos sons ou. pelo que se sabe. regiões do planeta. Tudo isso constitui um mundo de ordem. mas também "pés". Kerckhove 0981. porque não são apresentadas visualmente. ou da direita para a esquerda. A palavras. na escrita grega antiga. tipos de ventos e assim por diante). A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. vivo.. mas nunca em lugar algum. Em qualquer lugar do mundo. 4950). vivos. como em uma escrita bustrofédon. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. para o estilo stoichedon (linhas verticais) e.externamente ou na imaginação . quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. pp. mas como reconstituições de eventos no tempo. As tabelas. ou de cima para baixo. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. finalmente. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. para notas de roda pé. A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real. são antes "memória de canções cantadas". que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. vivo. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. pp. a outro indivíduo real. em vários registros em todo o mundo. que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço. Os textos. c e assim por diante. imobilizados no espaço visual. que vai da direita para a esquerda. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo.

Escrever é uma operação solipsística. Quando meu amigo ler minha carta. o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. para que o leitor possa imaginar um debate oral. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). No entanto. as palavras estão sozinhas em um texto. excitado. 53-81). até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. De fato.de uma situação que é mais do que verbal. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. posso muito bem estar morto. na Idade Média. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco.e realmente enchem . ao qual ele deve se moldar. por exemplo. portanto. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. Eles apresentam um material filosófico em diálogos. uma "moldura histórica". Elas nunca ocorrem sozinhas. Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. sem a escrita e. isto é. Para que um texto comunique sua mensagem. . uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz . Em um texto. Na linguagem falada. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. na verdade.escritores de diários de angústias. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. finjo estar falando comigo mesmo. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. ao "escrever" algo. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. De fato. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. A tradição letrada. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. Mais tarde. ao compor um texto. espero. mas também para o escritor. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . será lido por centenas de milhares de pessoas. Enquanto escrevo o presente livro. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. como os do Sócrates de Platão. calmo. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. o diário requer. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. Além disso. devo estar isolado de todos. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte.animado. Nem poderia. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. irado. em um sussurro. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. e em um diário. resignado ou qualquer que seja. por outro. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. pp. mas elas não serão completas. Em um texto. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. possa interromper minha solidão. sem a impressão. não importa que o autor esteja vivo ou morto. mas escrevendo-a. portanto. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. adotada e adaptada por críticos habilidosos. em um contexto simplesmente de palavras. A enunciação falada vem apenas dos vivos. Estou escrevendo um livro que. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. de certo modo.

nós as reduzimos a um mínimo. ela pode retroagir na fala. segmentos significativos. Apenas um leitor. como na narrativa formal. "linguandoas" de ponta a ponta. 49-50). Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. apagadas. oral. ou então as evitamos totalmente. quer sejam longas. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. sem um ouvinte real. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). murmurante confusão" de William ]ames. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. 272-302). aqui. sem expressão facial. p. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos. As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. sem entoação. narrativa. as palavras. uma vez "proferidas". A escrita é de fato a sementeira da ironia. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. Com a escrita. na verdade. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". tirando-a do contexto existencialmente rico. expresso na forma de diálogo. Porém. na escrita. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. o correspondente fluxo de pensamento. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. no sentido aristotélico.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. em partes mais ou menos separadas. Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. pois se exige mais das palavras individualmente. a tornar o falante muito pouco convincente. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. no sentido de que se lê bem em voz alta. Evidentemente. de muitas das enunciações orais. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. O que Goody 0977. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. o fluxo de palavras. _ como nos provérbios. Na escrita. salvo ironicamente. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. Portanto. Para nos fazermos entender sem gestos. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. Porém. Por meio de um texto tratado quirograficamente. não-analítica. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. eliminar incoerências (Goody 1977. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. mas caótico. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. mudadas. em qualquer situação possível. língua. de um tipo ficcional. a "grande. pp. as palavras escritas refinam a análise. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. pp. maldita. postas na superfície. Não há mimese. as correções podem ser tremendamente produtivas. quer sejam breves e apotegmática~. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. sem nenhum contexto . Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. textos escritos. existencial. Todavia. pois os diálogos são. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). exteriorizadas. Em uma cultura oral. podem ser eliminadas. e o faz.

Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. 773-776). seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. 176. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. é obra de uma mente letrada. na Itália. como se viu (p. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. 50-71) chamou. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. operam funcionalmente. no entanto. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. 15). 134-135. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. 134) . Todas elas possuem textos sagrados. Como ressaltou Guxman 0970. o cristianismo e o islamismo. Muitas vezes. dialetos regionais e/ou de classe.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. respectivamente. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. p. descartou certas formas dialetais. 83). 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. por motivos econômicos. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. Conquanto seja verdade que eles eram todos. p.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. da impressão. para uma elaboração plena. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". pp. Basil Bernstein 0974. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. particularmente os gregos. o judaísmo. "grafoleto". Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. com propriedade. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. o código lingüístico restrito não funcionará. ou mais propriamente dialetos. mas "como contas em uma caixa" (1974. à Bíblia ou ao Corão. na Alemanha. presente nas orações de Cícero. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. . 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. tais como os conhecemos (Ong 1967b. Analogamente. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. para construir o conhecimento filosófico e científico. 181. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. além de certas peculiaridades sintáticas. na Alemanha ou na Itália. como o pensamento e a expressão orais em geral. escreVeU-OSposteriormente. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. pp. pp. investiram enormemente na escrita. não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. Na Inglaterra. carentes de significado pessoal premente. e finalmente se tornou uma língua nacional. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. muito diferente dela própria. Porém. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. pp. religiosos ou outros. pp. como na Inglaterra. oralmente e por escrito. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. com o toscano. em sua essência.. políticos. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. 56-57). com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). Porém certas línguas.

em um sentido profundo. É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary.Um grafoleto moderno como o "inglês". 60). os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. a despeito de toda a fecundidade subseqüente. Nesse sentido. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. assim como milhares de línguas estrangeiras.além do grafoleto .diferem da gramática do grafoleto. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. por exemplo em inglês. gramáticos. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. lexicógrafos e outros. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. Porém. 74-111). pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. quando outros dialetos de uma dada língua . pp. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. representada por Sócrates. 108. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. 1-22. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. Platão e Aristóteles. porque não há nada "errado" com os outros dialetos. porém sua plenitude se deve à impressão. são interpretados no grafoleto. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem.S. foi trabalhado durante séculos. Na Grécia Antiga. 136-137). Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. alemão ou italiano. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. pp. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. Onde existem grafoletos. 255-283). O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. ao que parece. À luz desse fato. que é muito menor. constituía um elemento menor na cultura . o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. e arrendondando os números. a fortíorí. apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. impresso. O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. São a retórica acadêmica e o latim culto. primeiro e mais intensamente. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. Mas Hirsch 0977. C. É má pedagogia insistir nisso. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. o estudo da "filosofia". à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto.e a afetam. pp. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. 43-50) vai mais além e diz que. pp. depois pelos teóricos normativistas. pois os outros dialetos do inglês. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. nenhum outro dialeto. p.

147-187. Mas. a amizade. como em geral os povos orais. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. No primeiro. Índice). embora dissesse respeito à linguagem falada. passando pela Idade Média e pela Renascença. nunca competindo com a retórica. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". tais como definição. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. e a tradição filosófica.antinomasia ou pronominatio. científico. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. Howell1956. 1971) -. Lewis estava. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. Nesse sentido. como sugere o infeliz destino de Sócrates.tais como lealdade. 194-205). Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro. como vimos. Durante séculos. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. foi. . efeitos. como as outras "artes". efeito. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. voltando as costas ao mundo oral. As culturas orais. Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. inconscientemente na verdade. isto é. Murphy 1974. No segundo sentido. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". à Era das Luzes (por exemplo. quer no número de seus praticantes. Kennedy 1980. o mal. 1971. decadência.. amizade etc. Os gregos homéricos e pré-homéricos. considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. os sofistas da Grécia do século V. produto da escrita. mas que. contrastes. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. as novas estruturas quirográficas de pensamento. procurando causas. em um sentido muito profundo..provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!". A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. -. anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto.grega. menos analíticos. 56-87. paradiastote ou distinetio. Howell1956. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. não comportam "artes" dessa espécie organizada. pp. a retórica era algo maravilhoso. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito.da Antiguidade Clássica. o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. pp. a guerra etc. pareceria óbvio que. da apresentação oral para a escrita). A "arte" da retórica. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". referiam-se aos "assentos" de argumentos. isto é. para seus primeiros descobridores ou inventores. pp. As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . a culpa de um acusado de crime. definitiva senão totalmente. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido. do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. Com sua herança agonística. Desde pelo menos a época de Quintiliano. (Lanham 1968. pp. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. etc. antes da escrita. C. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . causa. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado. 23-103). Sonnino 1968) . As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. fórmulas) sobre vários tópicos .sobre qualquer assunto. contrastes e tudo o mais. Como Platão.S. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro). tal como a lealdade. que explicava e sustentava a persuasão verbal.

ou o hochdeutseh. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. médicos. tanto no mundo mental quanto no extramental. como tantas desde 1600. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. Porém. a escolaridade e.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". espanhol. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. pp. Não havia realmente outra alternativa. científicas. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. Não havia como traduzir as obras literárias. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). muito menos oratório. 1981. A retórica. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. como efeito ou ambos. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966. que muitas vezes possuíam formas diferentes. outrora uma . acadêmica. retórica. Por volta de 700 d. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. pp. Oliver 1971). No século XIX. advogados. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. título). línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola.C. herdados do passado. está claro. é claro. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. Entre cerca de 550 e 700 d. pp. 192-222. catalão. é essencialmente antitética (Durand 1960. mas nas mais novas. O latim. ao passo que as escolas mais antigas. com instrução baseada no latim.C. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. praticamente nenhuma teve tal treinamento. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. como causa. por motivos econômicos ou outros. a maioria deles nunca escrita até hoje. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. o finlandês e o turco. filosóficas. ao contrário dos indianos e dos chineses. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. na Inglaterra. Da época medieval em diante. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. 119-148). As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. de um modo ou de outro. O latim culto foi um resultado direto da escrita. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. diplomatas e outros servidores públicos. Até que um ou outro dialeto. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. 453-459). 451.. Da Antiguidade grega em diante. real embora muitas vezes vaga. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. vernaculares. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. mutuamente ininteligíveis. francês e outras línguas românicas. na Alemanha).. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. continuou em latim. com ela. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais.

Baurnl 0980. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é.língua materna. em um cenário tribal que era. Despido de balbucios.ainda que nem sempre de fato -. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. Sem o latim culto. em todas as demais dependências escolares. 119-48). juntamente com o grego bizantino. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. Por um lado. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. Em virtude de sua base na academia. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. o árabe clássico. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. eram controladas exclusivamente pela escrita. ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. Não obstante. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. Paradoxalmente. 264) chamou a atenção. vinculada ao sexo. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. além de sua proveniência clássica. mas o rhetor. sempre têm. A interação criou todos os tipos de resultados. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. como o latim culto. Sugeriu-se (Ong 1977. A ciência moderna nasceu do solo latino. mas sempre escrito da mesma maneira. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. na verdade. outras línguas controladas quirograficamente. como vimos anteriormente. era uma língua quirograficamente controlada. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. Durante esse período. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. de modo paradoxal. o latim tornou-se o latim culto. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. mas também. uma língua inteiramente controlada pela escrita. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. como acabamos de observar. O latim havia sofrido um corte som-visão. um cenário de rito de puberdade masculino. por exemplo. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. o orador público. aprendida fora do lar. não usado pelas mães ao criar os filhos). isolado da mais tenra infância. Durante mil anos. tornou-se assim uma língua escolar apenas. 28-34).embora. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. de fato. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. 113-141. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. Assim também seu vocabulário básico . Por ordem dos estatutos escolares. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. assim. aprendidas na infância. pp. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. 1981. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. pp. A tradução era transformação. Não havia usuários puramente orais. no sentido restrito. em princípio . se é que o teria feito. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. como todas as línguas realmente em uso. todos sabiam também escrevêIa. que era totalmente masculina . para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. oralmente. o sânscrito e o chinês clássicos. Todas as línguas usadas para o discurso culto . p. falado não somente nas salas de aula. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. estava vinculado ao sexo. pp. pp. estabelecer a objetividade. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. A escrita. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. o orator.com exceções raras o bastante para ser descartadas -.

). pp. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. 146-172. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. estruturas formulares e lugares-comuns. pp. 144-256). O célebre McGuJfey's readers. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. eclesiástico ou político. gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. pp. Elas estavam também reduzindo a última. tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e.) "leitura". deu nova vida à oralidade. 270 etc. no entanto. declamatória. à medida que o latim foi expulso. antíteses. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual.atualmente são também línguas maternas (ou. nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. do mundo oral para o quirográfico. pp. agonística. Uma vez concluída. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. que não era aplicável à escrita. durante o século XIX (Balogh 1926). Ainda aspirando à velha oralidade. Os três Rs . os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. Crosby 1936. comumente com muitas variações. 53-87. numa forma popular. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". A própria retórica emigrou. pp. O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional.reading. Atualmente. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. Em larga medida.T. 23-47). Na Antiguidade Clássica ocidental. 241-255). mas sempre pelo debate oral . Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. por esse motivo. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. 'riting e 'rithmetics· -. livresca. 1971. no caso do árabe. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. ele também retornou à Antiguidade e. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. mas a leitura oral. Por volta do século XVI. Desde a Antiguidade Clássica. memória e elocução). elocução (Howell 1956. ritmo. "escrita" e "aritmética". 16. 23-48). as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. Durante o processo. Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. gradativa mas inevitavelmente. heróica. 20). e mesmo muito depois. Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. pp. mas também na escrita. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. jocosa. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. Ahern 1982). estilo. disposição. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). Nelson 1976-1977. estudantil. A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. . relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. pp. comercial e doméstica. a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. Porém.

Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. Além disso. Ibe printing press as an agent of change . muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. Em um trabalho deste alcance. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. embora não o único. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão.Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão.

embebendo-o novamente no mundo oral. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. mas não o alfabeto. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. mudou a vida em fanúlia e a política. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. pp. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. Durante milhares de anos. muito mais do que a escrita jamais fizera. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". como nos debates universitários medievais. e. Como o alfabeto. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). a audição serve como garantia. foi a impressão. chineses. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. mais do que a visão. não era do tipo que produz fogões. por outro lado. A audição. sapatos ou armas. com ela. e referências lá citadas). porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. pp. permitiu a ascensão das ciências modernas e. apenas caracteres basicamente pictográficos. palavras inteiras. tanto escrito quanto oral. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. alterou a vida social e intelectual. produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. Em fins de 1700. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). Porém. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. como unidades.[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). mas de um tipo que produzia o livro impresso." No Ocidente. 215. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. Antes de meados de 1400. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. 306-318). Ahern 1981. . Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. A primeira linha de montagem. 1977). que realmente reificou a palavra e. Clanchy 0979. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. implementou a exploração européia do planeta. uma técnica de manufatura que. Pelo menos até o século XII na Inglaterra. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. e desde o século VII ou VIII. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. de "ouvir" livros de contabilidade. e não olhando. sim. 5). 1971. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. "A visão é muitas vezes enganadora. são nossa preocupação aqui. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. e não a escrita. a atividade noética (Ong 1958b. Com o caractere tipográfico não é assim. A impressão sugere que as palavras são coisas. 1967b. em uma série de etapas fixas. às palavras que irão constituir. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. durante a Renascença. isto é. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. Anteriormente. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). Os chineses tinham tipos móveis. difundiu o conhecimento como nunca antes.

O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. de longe. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. em sua grande maioria. ao processar o texto em busca de sentido. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. Evidentemente. essa prática. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. O controle da posição é tudo na impressão. Por que o procedimento original. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. contudo. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. Todo texto envolve a visão e o som. da qual a presente se desviou. o "the" inicial é. 154). parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. constitui a original. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. que se iniciara com a escrita. os leitores comumente vocalizavam. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. meramente posto em movimento pela visão. diferentemente do que fazemos. No entanto. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. e não a nossa. As páginas de rosto do século XVI. Finalmente. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. e de uma forma que deve ser explicada. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. a palavra mais proeminente. ver Steinberg 1974. Nossas atitudes é que mudaram. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . presumivelmente mais "natural". Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. p. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. de sir Thomas Elyot. incluindo o nome do autor. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. com hífens. impresso. Além disso. em culturas manuscritas altamente orais. comumente dividem até mesmo palavras capitais. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. Muito depois do desenvolvimento da impressão. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1.

depois de usados. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. Ele observa 0977. Os textos impressos parecem feitos à máquina. Essa leitura. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. falada. pp. não humanos. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente. que beneficiam o copista. são cuidadosamente reposicionados. da aparência do texto impresso. silenciosa. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. revisores e outros. que. em última análise. agentes literários.c. como de fato são. leitores de editoras. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. embora sejam incômodas para o leitor.editores. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. De um modo geral. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. por sua vez. A maior legibilidade. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). como muitas vezes ocorre em manuscritos.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. enfeitado. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. com caractere gravado . a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . e não simplesmente escrito) de Derrida. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos.o mais antigo dos processos. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. Não obstante. especialmente os índices alfabéticos. pp. afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. O controle tipográfico. caracteristicamente. como na caligrafia. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. e em outros registros antigos. A impressão com caractere "a quente" (isto é. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. pp. favorece a leitura rápida. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. 284-303). encerrando a caixa firmemente em uma prensa. A impressão é orientada para o consumidor. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. no espaço visual. Goody 0977. As listas começam com a escrita. "É assim que as coisas são" . todas alinhadas à direita.

81-90. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. até muito recentemente. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . pelo primeiro som: por exemplo. 144). efeito. 73). listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. A indexação não valia o esforço. Clanchy 1979. Aqui. No livro impresso. sem nenhuma mudança de página. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. porque Textor considera apropriado que. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967.. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes . quase nunca correspondem página por página. antes.gordos". ainda que copiados do mesmo ditado. Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. embora não fosse perfeita. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. p. Em 1286. 28-29.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. Obviamente. A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. até mesmo em um índice alfabético impresso. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. mas eram raros. linhas cuneiformes e linhas alongadas. na verdade. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. como os intitularíamos . p. Um signo favorito era o "parágrafo". 169-172). que originalmente significava a marca 9[. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. muitas vezes toscos e comumente não entendidos. "ovelhas apascentadas" etc. pp. um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. tinham a mesma sensação. Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . Os índices alfabéticos ocorriam. assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. 86-87). 85). uma vez que em italiano e em latim. Um novo mundo noético estava se moldando. por si mesmo. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. a serviço da oralidade.deuses. e não uma unidade do discurso.ou. Raramente o são (Daly 1967. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. pautas. a recuperação visual não foi prioritária. pp. depois famílias de deuses. novamente. pp. coisas relacionadas. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. visual. baseado na oralidade. o intelecto. em uma obra ligada à poesia. com divisores· de palavras para separar itens de números. mesmo na Europa do século XIII. tais como causa. Acompanhando esse equipamento textual formular. O índice alfabético é. na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes.a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). Para a localização visual do material em um texto manuscrito. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". (Os educadores no Ocidente. como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. . na enunciação oral. espacialmente organizado. em virtude não de sua própria façanha. pp. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. coisas dessemelhantes e assim por diante. Nesse sentido. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto.) A escrita está aqui.

Muitas vezes. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. Do contrário. com a impressão. Uma vez bem interiorizada a impressão." (Aqui está. um livro que fulano escreveu sobre . como vimos. As páginas de rosto são rótulos. carissime lector. caríssimo leitor. caçadores e artesãos de muitos tipos. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica. A observação exata não começa com a ciência moderna. depois. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. O mundo noético hipervisualizado resultan- . uma "afirmação visual reproduzível com precisão". 313). 145-148).). Essa situação favoreceu o uso de rótulos. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. e não com partes preexistentes. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. um objeto idêntico.Steinberg 1974. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. librum quem scripset quidam de . uma ocorrência no curso da conversação. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas. Durante séculos. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. como objetos. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). Porém. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. sendo um objeto marcado com letras. As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente.. 31) chamou a atenção para o fato de que. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). a página de rosto (nova com a impressão . 40-45). as histórias de Mwindo e assim por diante). títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. 14-16. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. em vez de uma página de rosto. como mostrou Ivins 0953. pp. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. implementou essas descrições expressas com precisão. e o livro impresso. diferentemente dos livros manuscritos. a tendência iconográfica ainda era forte. uma elocução registrada (Ong 1958b.. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. Com a impressão. logo degeneraram em manuscritos. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. A herança oral está operando aqui.. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. manuscrita. anteriormente. pp. chegam as páginas de rosto. Ao mesmo tempo. nos manuscritos medievais ocidentais. O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. ela foi fundamental para a sobrevivência entre. um livro de uma cultura pré-impressão. ficcional ou outra do que como. Agora. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. Desenhos técnicos feitos à mão. do que como um objeto. técnicas (inicialmente. assim como a impressão. xilogravuras e. a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. por exemplo. pois. eram duplicatas umas das outras. como se vê nas Ivins 0953. p.Nesse novo mundo. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes.. p. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual).

mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. Muito mais tarde. d. desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. De certo modo. mas também sobre a imaginação literária. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. isto é. na verdade. o próprio espaço em uma folha impressa . a era da Revolução Industrial. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. por exemplo.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. Eisenstein 0979. 81. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. p. sobre o gafanhoto. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. pp. A poesia concreta é um gênero menor. nos quais os versos. ela ainda não consiste em mera imagem. . Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. Cummings. 61-96). Nº 276 0%8). de vários comprimentos. mas também a literatura. p. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável.E. pp. 202 etc. e não o verso. 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. As listas e as tabelas manuscritas.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. 80. não para o aspecto visual de objetos. pp. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. próximas às descrições que surgem após a impressão e. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico.te era absolutamente novo. discutidas por Goody 0977. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. meticulosa. dão aos poemas uma forma visualizada. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. com seus espaços tipográficos. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. Em manuscritos. e com maior sofisticação. seja a unidade do poema. 115-138). clínica. O poema sem título de E.. respectivamente. Em Tristam Shandy 0760-1767). mas. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. pp."espaço em branco". sugerindo asas e um altar. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. mas não lidas em voz alta. Já no início da era da impressão. como é chamadoadquiriu um significado importante. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. alcançam a maturidade principalmente na era romântica. 74-111). Havelock 1963. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b.). O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. 65-66.

mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. paradigmática. 383). que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". meramente à escrita. A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. ~ uso de todos os outros. A impressão diminuiu. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. O antigo poet~ latino Marcial (i.um fato que. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. Exatamente na época inicial da impressão. a leitura tendera a ser uma atividade social. p. para alguém que se apropria do escrito de um outro. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. fórmulas e temas dos quais todos se servem. contudo. uma pessoa lendo para outras em um grupo. obviamente. (Os professores de crianças de áreas pobres. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. na cultura inicial da impressão.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto).53. . Hartman (1981. por isso mesmo. "torturador". formadas na velha ideologia. revelam as limitações construídas da palavra falada também. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. muitas vezes. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. paradoxalmente. Porém. fOI consIderado "corrompido". imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". como ela muitas vezes parece afirmar. "opressor". A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. é o texto em sua forma mais plena. "saqueador". Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. possuem uma consciência aguda de que. de Jacques Derrida.í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . como se viu. Como sugeriu Steiner 0967. A desconstrução está antes atada à tipografia do que. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. portanto. mas da impressão. p. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. não o escrito. por fim. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. oral. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). O Webster's 1bird New International n. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. É esse o território de Derrida. a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. Na cultura manuscrita e. A poesia concreta não é produto da escrita. mais ou menos diretos.curiosidade . Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás.9) usa a palavra plagíarius. isto é. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. hoje. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966).e. embora ele se mova nele a sua própria maneira. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. O texto impresso. se ele se desvia desse uso tipográfico. muitas pessoas.

Na teoria literária. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. do mesmo modo. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral. nesse sentido. todas exatamente da mesma largura). atingiu um estado de completude. Em 1557. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. e.um tal privilegium em 1518. Esse sentimento afeta as criações literárias. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. Ao contrário. A impressão. aspecto visual e a mesma consistência física. produzindo uma enunciação. do que os leitores dos escritos destinados à impressão. Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. lacrada. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. como cada vez mais semelhantes a coisas. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). por outro lado. especialmente na narrativa. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. um ícone é algo visto . foi formada em Londres a Stationer's Company. completos. autônomo e indiferente a ataques. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. obtido de Henrique VIII. sem que o queira e sutilmente. Até a impressão. finalmente. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. no romance a partir da época de Jane Austen. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. Ela pode dar a impressão. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. e. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. ao Formalismo e à Nova Crítica. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. Significativamente. um "ícone verbal". Evidentemente. a impressão dá origem. mas de um modo muito real. os manuscritos. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. o texto não comporta mudanças (rasuras. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. No começo da era eletrônica.não ouvido. por volta do século XVIII. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. de algum modo auto-encerrados. Com a impressão. desde a Antiguidade. A impressão. menos ausentes. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. conscientes ou inconscientes. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. que. e alcança seu auge nas histórias de detetive. fora controlado pela escrita. uma forma de caracteres tipográficos. Uma vez fechada. Os livros impressos repetiram uns os outros. assim como a obra analítico-filosófica ou científica. A tipografia tornou a palavra um bem material. Antes da impressão. de bom ou mau grado. As páginas de um jornal são normalmente cheias . ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. impessoais e religiosamente neutros. separada de qualquer interlocutor. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito.

tomando-os emprestado. mas também nas obras filosóficas e científicas. . 144). nas últimas décadas. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. Uma matéria curricular ou "arte". Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. impossíveis antes da escrita. tudo na arte ficava claro e. Quando. Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram. pp. o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. usava-se simultaneamente lógica. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. 280). aritmética e tudo o mais. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. em cada um dos manuais ramistas. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. ela deliberadamente criou textos de outros textos. pp. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. Nas culturas manuscritas. Com a impressão. poucas dessas angústias acerca da influência . A obra de Harold Bloom. apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". gramática.). ao compor uma determinada passagem do discurso. r~tonca.ma~érias em um dado campo. possui um arcabouço mental diferente. que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. muitas vezes de um tipo gnômico. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. p. que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. separada das outras obras. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". em um aspecto. 135-136). originalmente orais. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. inteiramente separada de qualquer outra. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si. ~ própria arte estava completa e independente. partilhando as fórmulas e os temas comuns. Com o ponto de vista fixo. 225-269. adaptando-os. como apontou Marshall MCLuhan 0962. em si mesmo e na mente. aritmética etc. ao menos de um ponto de vista ideal. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior.se é que existiam . Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. gramática. gramatica. surgiram o catecismo e o "manual". Ao contrário. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. por sua vez. Além disso. uma unidade em si mesma.atormentavam os escritores. A cultura impressa. elas se tornaram uma espécie de choque. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. trata dessa angústia do escritor moderno. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. em si mesma. as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. retórica. quando apresentada adequadamente. Ainda atada à tradição comum do mundo oral. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. uma maior distância entre o escritor e o leitor . Cada arte era. surgiu com a impressão. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. 126-127. que.30-31.isto é.

abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. mediante a reflexão analítica. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. o rádio. um verdadeiro público. deve ser socialmente perceptivo. seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. produzindo-os cada vez mais. que aumenta a entrega . Além disso. como se observou anteriormente. obtidas e/ou processadas eletronicamente. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. antes da escrita.e. são ainda mais intensificados pelo computador. como indivíduo. Além disso. um maior entendimento tácito. O indivíduo sente que ele. assim como para seu uso. com o telefone. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. os povos orais tinham um espírito de grupo. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. mas. 305-341). informações de todo tipo. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". em seu favorecimento de um sentido comunal. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). Não obstante o que algumas vezes se diz. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. 16-49. conscientemente informal. À diferença dos membros de uma cultura oral primária. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. pp. em outro. Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. da qual se ocupa este livro. Finalmente. o novo meio reforça o velho. nasceu o "público leitor" . alguns pontos precisam ser esclarecidos. pp. 82-91). pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. porque alimenta um estilo novo. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela. Ao mesmo tempo. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. Nesse momento. na verdade. Em nossa época de oralidade secundária. pp. 284-303. Porém. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita.Ong 1971. E. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. faz com que eles se voltem para dentro de si.a "aldeia global" de McLuhan. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. Assim. ausência de preocupação). 1977. De modo semelhante. mas evidentemente o transforma. Como a oralidade primária. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. decidimos que a espontaneidade é benéfica. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. é claro. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades.

pois isso é o que eles eram. acontecimentos religiosos. A oratória no velho estilo. Ã narrativa podemos. os guerreiros . o segundo. para os objetivos presentes. oratória (puramente oral. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. narrativa. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. durante o verão escaldante de Illinois. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. O primeiro orador dispôs de uma hora. intercâmbios culturais e muitos outros. Porém. de certo modo. Esse tratamento da narrativa . nascida da oralidade primária. clara e verdadeiramente . Nos debates LincolnDouglas de 1858. desapareceu para sempre. teatro. mesmo assim possui um enredo. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. para citar apenas alguns. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. 189-190). o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. Assim. respectivamente . Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. pp. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. Desses. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. cuidadosamente ritmado. Obviamente. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . cada um deles falando por uma hora e meia. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada.e tudo isso sem equipamento de amplificação.Sparks 1908. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. inaudível. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . outros acontecimentos na sociedade. historiografia e biografia. de uma hora e meia. T 6 MEMÓRIA ORAL. não era essa a antiga oralidade. além da mudança oralidade-cultura escrita.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna.lírica. invisível. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. discurso descritivo. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. que. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. As outras talvez ouçam mais oratória. O público está ausente. redundante. Porém. o controle rigoroso. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. 137-138. ou pelo menos mais discursos. Illinois. obras filosóficas e científicas.mudanças na organização política. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. incorporar o teatro. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo.

as histórias sunjatas do antigo Mali. Embora seja encontrada em todas as culturas. Em primeiro lugar. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. que podem ser relativamente extensas. Em um certo sentido. ou ambas.gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. no geral. Por trás de provérbios. apresentam apenas informações altamente especializadas. em uma cultura oral. Assim. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. Nas culturas orais primárias. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. A lírica tende a ser breve. nas quais não existe texto. ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. 1963). As genealogias. em certos aspectos. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. A grande maioria das culturas orais . as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral.senão todas . possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. A narrativa. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . que são razoavelmente duradouras . mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. uma ocorrência ad hoc. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. encaixada no fluxo temporal. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. muitas vezes até as mais abstratas. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. mas. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. tópica. que podem ser extensas. assim. cf. aforismos. como sublinhou Havelock C1978a. Máximas. com um atenção especial a complexos fatores sociais. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. usam histórias da ação humana para armazenar.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. são breves. isto é. enigmas. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. O mesmo ocorre com as outras formas. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. Ele se aplica a uma situação específica e. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. significa formas passíveis de repetição. na total ausência da escrita. extensas. mais ou menos cientificamente abstratas. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. a narrativa é. especulações filosóficas e rituais religiosos. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. Com base na narração.o que. Em um laboratório científico. em toda parte. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. As fórmulas rituais. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. em uma cultura oral primária. psicológicos e estéticos e outros mais. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. Em segundo lugar. Em uma cultura escrita ou impressa.

o que. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. Em sua Arte poética. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) .pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. do tamanho de um poema épico ou de um romance. "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". eleva-a a um clímax. e é seguida por um final ou desenlace . que.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. Poética 1450b). especialmente quanto ao funcionamento da memória. ao As palavras de Milton mostram que ele. Na verdade. Esse enredo. pp. A exegese do poema épico oral por letrados. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. embora apresentado oralmente. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. com começo. desde o começo. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado. Não obstante possa ser esse o caso. A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. muitas vezes detalhadamente. embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. 1451a e alhures). uma vez que o teatro grego. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. durante séculos. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. aprenderam cada vez mais a contar . após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. no passado. A antiga narrativa grega oral. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. mostra uma melhor compreensão do teatro. o poema épico. 148-149).e. Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa. nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. descritas no capítulo 3. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. não foi construído desse modo.uma localização significativa para tal enredo. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. meio e fim (Aristóteles. dificilmente leva a sua justa avaliação. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral".salvo em trechos curtos . não estava disponível sem a escrita. em uma cultura oral. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca .e. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. como ela surgiu. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. por motivos óbvios. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . Assim. do que do poema épico. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. na verdade. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação".

Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . descoberta e reversão requintadamente metódica. na vida manobra conscientemente planejada. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975).podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. Por que toda narrativa longa. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta. em primeiro lugar. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. Não tinham nenhuma escolha. mas o procedimento original. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. Não havia uma lista dos episódios nem.e o mais natural . os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos.pelo que sabemos. 432-433). na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. e. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. Na oportunidade seguinte. final perfeitamente esclarecido. e não a pirâmide de Freytag. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. nenhuma alternativa. Além disso. Theodor Bergk. em segundo. pp. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. no qual não existe narrador. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. antes do início do século XIX.o progressivo surge apenas com a escrita. Sua excelência estava. na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . O ambiente mais amplo no . O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. na ausência da escrita. não todas . faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha.embora. primeiramente no teatro. era mais ou menos episódica . em uma dada circunstância.tensão sempre crescente. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas. é claro.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. o poema épico não possui enredo. e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. Por que razão esse enredo long.salientados. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. mas porque eram forçados a isso. ele poderia estar certo de que. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo. natural. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas . Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. o todo possui uma progressão. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. entre outras coisas evidentemente. mas sem a escrita.

Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. p. pela experiência atual. por exemplo. Não obstante. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. com um ou outro acompanhamento coral. em seu conservadorismo. (Sabemos. 176). ele narrou todas as histórias de Mwindo.eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos. p. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. particularmente em seu caráter aditivo. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. em suas numerosas notas. assim. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). como um artista. Ele os recorda sempre de um modo diferente. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. Quando um bardo acrescenta novo material.recordando não um texto memorizado. E de fato. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. ele o processa da maneira tradicional. conforme ele é aplicado à composição escrita. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. finalmente. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . enquanto três escribas. por extensão hipotética. 14): nunca. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. ora em prosa. irá normalmente de início hesitar. dois niangas e um belga. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. nessa ocasião. 172-179). muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. O poema épico oral (e. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. Candi Rureke. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. O po. Fundamentalmente. 216). Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. p. Já que insistem . Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados. quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. 174). pois não existe tal coisa. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira. Ao trabalhar com essa interação. protestou ele. Evidentemente. e até mesmo para si próprio" (1975. Muito provavelmente. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. ora em verso. provocando assim renovadas solicitações até que. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. p.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. registravam suas palavras. p. para esse público específico. a memória. Como resultado de uma seqüência de eventos. recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. pp. desejam que ele cante (1975. em toda narrativa existe algum tipo de enredo. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene.. agregativo.. na medida em que guia o poeta oral. em diferentes aspectos. ficamos totalmente encantados com a . A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. em uma seqüência cronológica perfeita. sua redundância ou copia e sua economia participativa. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. 216). Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias.

como vimos. O mundo da impressão gerou o romance. O teatro grego antigo. o meio e o fim. Porém. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. de modo que o . agora propriamente um "autor". a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. o texto exibe o início. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. Em virtude de um controle consciente crescente. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. Hoje. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. definida pelo fechamento.c. 53-81). e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. a escrita já estava estruturando a psique grega. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. Sob o olhar do autor. à época de Safo (c. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. pp. 221). Foi o primeiro gênero . na narrativa como tal. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. Porém. revisão e outros tipos de manipulação. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. 600 a. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977. até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. embora o teatro fosse apresentado oralmente.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag.e durante séculos o único . Fora do teatro. p. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. em uma cultura oral. Evidentemente. como já se observou. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. a subordinação da voz ao episódio continuou forte. Paradoxalmente. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. desapareceu sob as vozes de seus personagens. de início. em vez do velho enredo episódico oral. pode trabalhar com base em notas. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo.). para livrar o enredo desse molde. Como vimos. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. aquele que faz o texto. mais tarde. A impressão. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo.

realmente enganador.cada detalhe da história revela-se crucial e. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. Uma vez solucionado o problema textual. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade. iii). p. A própria reflexividade da escrita . O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. embora o texto seja manuscrito. Com os documentos. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. As "histórias de detetive" chinesas. tudo o mais se ajusta. antes de qualquer outro. A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. o Tom fones de Fielding. depois. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. de um modo requintado. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). as quais. . alcança seu auge na história de detetive. mas para leitores. na expressão de Kahler (1973). cada um isolado em seu próprio mundo. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. "A letra mata. A narrativa estruturada piramidalmente. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. quando comparada com a velha narrativa oral.narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). mas também de sinais de pontuação.reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. seria inacreditavelmente precoce -. como se viu. em algum lugar. misturando seus textos com "poemas longos. a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. até o clímax e o final. A "inflexão interior da narrativa". Em O escaravelho de ouro (1843). como as Aventuras de Pickwick. de outro modo. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. publicado em 1841. Farrell ressaltou uma vez para mim. E. o mistério da pessoa de Aspern. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. não-fonológicas. Posteriormente. composto não somente de letras do alfabeto. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. e o final desfaz totalmente o emaranhado . O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. como Thomas J. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. ouvintes. na mente de seu seguidor. o código é em boa parte tipográfico. Na história de detetive ideal. são incineradas. se esfuma. O protagonista do narrador oral. Não raro. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. é exemplificada aqui com notável clareza. em primeiro lugar. porém abundantes em material impresso. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. que não possui uma organização fechada tão meticulosa. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. no fim da história. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. passando por Dom Quixote de Cervantes que. são impronunciáveis. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. caracterizado por suas explorações exteriores. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. integralmente. Sherlock Holmes já imaginara tudo. especialmente o leitor. Um escritor de história de detetive é. têm algo em comum com a narrativa de Poe. na mente de um dos personagens e.

classicamente urdida. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. pp. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. caracteristicamente letrada . ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . como vimos. A história compactamente organizada. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. e esse fato é expresso simbolicamente quando.para empregar o termo de E.M.o detetive. o personagem plano. o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. em torno de Nestor. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. . Watt 0967. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. 46-54) _. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. a impressão fizeram com a velha economia noética. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu. isto é. mas como um constituinte da ação humana. Scholes e Kellogg 0966. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. que podem desabrochar no romance. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. com a passagem do tempo. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. na verdade. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. pp. a tradição teatral grega. O surgimento do personagem redondo. Nas últimas décadas. Oposto ao "redondo" é o "plano". demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. domésticos. Em torno de Ulisses (ou. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. dependeu de um grande número de evoluções. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". que agem de modos à primeira vista inesperados. Quando se estrutura em memórias e ecos. Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. p. em outras culturas. ao contrário.A escrita. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam. o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. originário do romance. Forster 0974. Brer Rabbit ou a aranha anansi). surgem em um mundo dominado pela escrita. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. Agave. mas. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. no fim. posteriormente. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos".

observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". o entendimento psicológico. 461). como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. que. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos.personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -. "livre de ligações amorosas". Desde Freud. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. em certos aspectos. das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). de alta tecnologia. após o advento da era romântica. na maioria das vezes. Allworthy ou Square. de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. Porém. Richardson.) . enquanto simultaneamente a transforma. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). na mesma época.de motivação profundamente interiorizada. (N. interiorizado. A história dos personagens-tipos . em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. na verdade. isto é. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. e principalmente o psicanalítico. que se servem de virtudes e vícios abstratos .19-2l). citados por Watt. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. Defoe. como em Kafka. (N. e nas peças cômicas do século XVII. as culturas escritas podem na verdade gerar.T. Heartfree. Dos mundos privados por elas gerados. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). eletrônicas. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. A escrita e a impressão. Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967. Miller e Johnson 0938. personagens abstratos. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. assim também. e os atribui à formação calvinista de Defoe. A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. os personagens "redondos" do romance clássico. p. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano. e. obscuro. "nobre". O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino".ainda não foi contada. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular.TJ •• "Pândega". Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado.assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . "antiquado". nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . De fato.já encontrado em Defoe. a síntese de personagens-tipos. e atinge seu auge no romance. fosse uma atividade partilhada). não como Aquiles. e até mesmo por vezes Jane Austen. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. de um tipo inacessível ao povos orais. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson. após a chegada da impressão. quando.· As culturas posteriores. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. nos católicos. como vimos. pp. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura.

assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. psicológicos e outros mais. apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica). Porém. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. Em ambos os casos.significativo.mas somente alguns. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. da impressão). como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. organizada para preservar a "linha" de descendência. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . Porém. ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . pois é impossível abrangê-Ios integralmente. impensável em uma cultura oral. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. Apresentarei a questão na forma de teoremas. Mas. na verdade . mas também do presente. mesmo razoavelmente. A enorme quantidade de conhecimentos históricos. posteriormente. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. Muito pelo contrário. exigia-se a organização textual da consciência. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. Hawkes . também romancistas. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. de afirmações mais ou menos hipotéticas.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. a tecnologia avançada. e assim por diante.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. até então. está ipso facto relacionado a todos os tempos. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). pela engenhosidade. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . era extra-acadêmica. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. isto é. que eu saiba. como vimos. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. Tillyard 1958). de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. em parte porque. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. ocasional e muitas vezes amadorística. pp. tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. colocado por seu autor em um determinado tempo. A Nova Crítica. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. . O latim. Roland Barthes (Hawkes 1977. durante mais de um milênio. pp. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo. para ter sentido deve ser interpretado.para o autor. um texto literário em latim.Hawkes 1977. desenvolvido na era romântica. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. e fundado no estudo da retórica. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. desde o início. 155). às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse). Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. ainda que complexo e eruditamente compreendido. e não mais uma língua materna. a Nova Crítica estava em gestação .T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. dessa perspectiva. mais livremente oral. um texto. Nessas condições. reportado ao mundo do leitor . embora perspicaz. vernacular. 22-34). sua psicologia. As implicações são enormes. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937.embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. A própria Nova Crítica. que aspiram a esse meio aristocrático. A crítica anterior de obras vernáculas. Os estudos de textos. Nos anos 30. 177-205). Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. Nunca.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. p. pp. nos anos 30 e 40. Nas universidades de Oxford e Cambridge. a saber. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . pp. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação.

Roland Barthes. tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. Porém. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . e não em explicar o passado em seus próprios termos. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada.todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador). pp. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas.T A análise estruturalista. 235 e passim). Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. Lord e particularmente Havelock e Peabody. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. de certo modo (Peabody 1975. Lord 1960. O "fio" narrativo direto. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". 179). p. na verdade. Os declamadores. apóiam-se ."Homero se distrai". morfema etc. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. Greimas.uma especialização significativa. Além disso. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. Hawkes 1977. 179.não conseguem. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. Cohen 0977. muitas vezes cruciais. improvisação ad hoc). ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. de Lévi-Strauss. De modo análogo. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). as estruturas binárias. que não se adaptam ao padrão binário.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. 235. pp. treinado em técnicas de digressão e de flashback. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo. que derivam em grande parte da tradição husserliana. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. A composição oral trabalha com "núcleos informativos". p. como. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista. que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . na antiga narrativa grega de proveniência oral. por exemplo. por exemplo. explicar por que uma história é uma história. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). assim. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. particularmente . e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. Esses críticos-filósofos. 109). Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . pp. é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). 457-464. Pode haver conexões sutis. Estudos sobre a oralidade. em Pierre Macherey (978). como esses. como evidenciou Peabody 0975. xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. Tzvetan Todorov. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. são perseguidos por distrações. p. principalmente AJ. embora os temas o façam. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). especializam-se em textos e. nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si.

T No entanto. porque A não é B.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. A não seja nada.quando muito . quando. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas.Ong 1967b. a própria linguagem . p. visualista. Ix). Julia Kristeva e outros). pacientemente analíticos. isto é. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. ele o faz. como ele os chama.e. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. Em sua forma mais extrema. no Pedra e na Sétima Cana.Si' em exemplos específicos. porque representam o antigo mundo oral. Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". elas próprias. como mostra Havelock. também objetos deste livro. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. Derrida denuncia essa metafísica da presença.ousam mencionar a comunicação eletrônica). é fonocêntrico. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. na República. prolongadamente seqüenciais. exato. como observa o tradutor de Macherey (1978. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral. pela primeira vez. Contudo. todos provenientes do romance do século XIX. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. de modo claro e . A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". agregativo. Por um lado. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente. Platão podia formular seu fonocentrismo. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto.momento em que os processos mentais. é que a literatura . na verdade .um mundo antipático ao mundo analítico. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. expulsa oS poetas. mas era isso que ocorria. pp. A linguagem é uma estrutura. participativo . pp. na verdade. Jacques Derrida (1976. mas uma realização totalmente diferente. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. calorosamente humano. o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. e mostra que. mnemônico. usam a linguagem de forma representacional. isso não quer dizer que. Além disso. Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. segundo os textualistas. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. disperso. que. redundante. para Derrida. Em virtude dessa insistência. tal como as colocam os textualistas. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. Paradoxalmente. da imitação. portanto. ela não se refere a nada . incluindo o seu próprio . assim. Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . p. imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. e sua estrutura não é a do mundo extramental. O resultado final. Culler 0975. Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". como os denominei aqui. p. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. abstrato. por outro lado.ou não significa nada. ou estruturalistas. verboso. 252). que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique. Uma vez que não se refere a algo. Por outro. Poucos duvidarão. 74). sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. portanto. 241-254) discute a obra de muitos textualistas. especialmente no caso de PIarão. rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. Todorov.e inevitavelmente -. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. à maneira de um tubo condutor. os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . como agora podemos perceber. tradicionalista. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. Sollers.

historicamente isolada. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. Sem o textualismo. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. em qualquer das exposições de Derrida. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. mas de "epistemologia corpuscular". no rIÚnimo. Mnemosine. Linguagem e pensamento. Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. hoje. Porém. se todas as implicações num poema forem examinadas. e não o enunciado oral. . As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão. esta é a mais limitada ao texto. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. mediante uma implicação inevitável.embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. Como propõe Hartman (1981. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . p. que moldam nossos processos mentais. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. a oralidade não pode sequer ser identificada. Na sua dialética ou lógica.. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. pelo menos as nossas línguas ocidentais. até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. Essa tese reside em mostrar que. de todas as ideologias.não podemos descartar os textos. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. p. como se o texto fosse um sistema fechado.. é a mãe das Musas. que nunca chegava realmente à palavra falada. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. p. Os textualistas. que eu saiba.. por brilhante e de certo modo útil que seja. Hartman chamou a atenção para a ausência. L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. discutível. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão. Geoffrey H. Os textos são um fundo falso. filósofo e reformador do ensino francês. chamei sua atitude não de logocentrismo. pp. ainda está estranhamente limitada ao texto. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. diria (escreveria) eu. o texto é fundamentalmente pretexto . 35). de ofuscação refinada .que pode ser extremamente excitante. uma correspondência literal grosseira entre conceito. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". 203-204). mas tomava o texto impresso. e não com as presenças de "idéias" reais. pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. método e o declínio do diálogo) (1958b. mas podemos compreender suas deficiências. como ponto de partida e modelo para o pensamento. acrítica. no século XVI (Ong 1958b). o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo. e não Hefaístos. method. A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. então deveríamos T compreender o fundamento . Na verdade. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. cada um à sua própria maneira. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. and the decay o/ dialogue [Ramus. nasciam da memória. sem a oralidade." Ou. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. "Se o pensamento é para nós. Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia". Em Ramus. textual. uma espécie de realismo grosseiro. 66). palavra e referente. para os antigos gregos. 32).

asseverar. Michel Riffaterre e outros. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. numa cultura oral. As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. um diante do outro. responder.por exemplo. da oralidade primária. David Bleich. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. além de incluir seu conceito de "implicatura". essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. falante e ouvinte estão presentes. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. como a oralidade primária. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972.L. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. na comunicação oral. Contudo. passando pela oralidade residual. . utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. dentro de certas subculturas.P. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. protestar. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. de produzir uma estrutura de palavras). Para se adaptarem a elas. tais como medo. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. Uma outra abordagem da literatura. Norman Holland. até a cultura escrita de alto grau. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. Stanley Fish. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . afirmação. que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. ao passo que. Winifred B. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. Até mesmo atualmente. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. ameaçar. assim como outros atos ilocutórios não significam. convencimento ou encorajamento). a mesma coisa que numa cultura escrita. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". Searle e H.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. no entanto. John R. assim como importantes implicações teóricas. poderiam revelar que prometer. 400). Se fossem. promessa. como já se observou. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser. cumprimentar. Austin. Grice. ordenar. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. p. Até onde sei. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. por exemplo. cumprimento.

é resultado não apenas da escrita. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. Atualmente. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. passamos para a história da consciência. A existência da filosofia. pois. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. A filosofia. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. A sociologia. O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral. em seu início. a história. de sua condição de produto tecnológico . foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. desassistida. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. assim como a de outros. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. criticamente. deveria dar-se conta. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. Em suma. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa.isto é. ao que parece. em termos de fatos "aumentados". como Lívio.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. no sentido de que a mente as produz por si mesma. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. embora escrita. nuançada de forma mais complexa. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. através dos séculos. os estudos bíblicos tornaram- . A antropologia e a lingüística. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. destituídas do conceito de "justiça" como tal. até o momento. a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. mas também da impressão: sem essas tecnologias. depende da escrita. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. aguda e duplamente crítica. incorporada aos próprios processos mentais. A descoberta crítica do eu. seriam impossíveis. Por que meios? Tanto quanto sei. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. um tipo especial de produto essencialmente humano. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. como a Arte retórica de Aristóteles). Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. como vimos. É muito provável que um estudo. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. a filosofia . Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. sentiu esses efeitos de forma menos forte.

muito citada . A ligação não é uma questão de reducionismo. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. contudo. nas instituições sociais.) No entanto. A oralidade não é um ideal. mas são em número cada vez menor. Mas. como outros estudos textuais. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". Tbe oral and the written gospel. Os termos "primitivo" e "selvagem". (Alguns indivíduos. 1962). Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos.primeira edição francesa. A afirmação . A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. Numa série de conferências feitas no rádio. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . nas habilidades tecnológicas. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. como notou Werner Kelber 0980. pp. pela primeira vez. Ia pensée sauvage.de Lévi-Strauss (1966. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita.se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. são pesados. a oralidade não deve ser menosprezada. ou está tomando. Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. A principal obra de Kelber. 1983). Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. Tbe mind ofprimitive man (922). apontando uma ausência ou uma deficiência. não apenas em conversas informais ou de salão. resistem à cultura escrita. aborda de forma direta e de frente. por exemplo. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. citada repetidas vezes neste livro. para não falar de "inferior". mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. a Odisséia. . para mostrar que não o somos. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. a impressão) a causa única de todas as mudanças. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. no comércio. p. porém essencialmente limitadoras. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. 15-16). mas de correlação. sugerindo um viés quirográfico. e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. constitui ainda um atributo negativo. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. e nunca foi. dessas abordagens bem-intencionadas. é claro. Evoluções na produção de alimentos. nas práticas educativas. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". na organização familiar. "Sem escrita". publicadas posteriormente. menos ofensivo e mais positivo. na organização política. os estudos bíblicos. Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. nos meios de transporte. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens".

a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. por seu turno. Minha mente é uma caixa. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. Na comunicação humana real. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). No modelo do meio. ela não apenas exige uma resposta. Por isso. tornando-o irreconhecível.já "em mente". a fim de iniciar minha mensagem. Porém. do contrário não se produzirá um texto: portanto. assim como muitas delas. nas quais a fala está mais orientada para a atuação. das possíveis respostas que eu poderia prever. A comunicação humana nunca possui mão única. muito provavelmente todas . Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. íntimo. Para falar. por uma troca de olhares. porém. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas.e. muitas vezes de forma muito profunda.ou outras pessoas . em sua grande maioria . o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. algum receptor deve estar presente. Mas quando se fala. na verdade. Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. A comunicação humana. verbal ou não. O modelo "mídia" não é. isolado de pessoas reais. É esse o paradoxo da comunicação humana. pelo menos de maneira vaga. devo ter outra pessoa .ou várias.foram elas próprias afetadas. para uma maneira de fazer algo para alguém. à primeira vista. ou de outras inúmeras formas. nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. intersubjetivo. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. "O . o texto escrito parece. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. a "informação" passa para a outra. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. algo entre duas outras coisas). Retiro dela uma unidade de "informação". evitou-se o termo "mídia". Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". para ninguém. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. Em primeiro lugar. assim como das outras formas de comunicação humana.vida humana. isto é. de um lugar para outro. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. e ele precisa estar dentro de minha mente. na maior parte deste livro. ser uma rua de informação de mão única.ou a outras pessoas. A comunicação é intersubjetiva. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. Durante todo o tempo. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente.) Tenho de perceber algo na mente do outro. o escritor invoca uma pessoa fictícia . ouvinte) está presente quando os textos nascem. essas evoluções. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. Por isso. com o que meu discurso possa se relacionar. Para falar. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. assim como quando se escreve. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. afetaram essa mudança. pois nenhum receptor (leitor. o título desvirtuado do livro de McLuhan. Para formular o que quer que seja. Em segundo lugar. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. chamado "mente". De uma ponta do tubo. codifico a unidade (isto é. a fim de que possa ocorrer. Porém.

mas também como a Palavra de Deus. até mesmo a hebraica. Para um escritor. no ensinamento cristão. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. segundo parece. pp. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. A escrita eleva a consciência. Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente. qualquer receptor real está normalmente ausente . Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. Nesse ensinamento. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. se assim quiserem .do contrário . as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. o Corão. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. Ele não o escreve. Onto e filogeneticamente. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. a maioria das quais jamais se conhecerá. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes.a intertextualidade. No entanto. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. Contudo.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). é conhecida não somente como o Filho. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. ser único e não duplicável. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io. exprimindo-as de forma elaborada. Devo conhecer a tradição . O processo é complexo e repleto de incertezas. pessoais. por conseguinte. Porém.embora não necessariamente de sua separação . 54-81). atinge as profundezas da psique. A escrita introduz divisão e alienação. na qual ninguém nasce. Desenvolvimentos mais longos . imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. na qual. pois. o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. a Bíblia. mas também uma unidade maior. No ensinamento cristão. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. Ésquilo. profundamente pessoal. que se torna visível em Kant. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. central em Fichte. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. seu Filho. a consciência nunca alcançaria sem a escrita. a Bíblia. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. elaboradamente expressa. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. que redimiu do pecado a humanidade.

. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. muitas obras pioneiras. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa. mais do que em qualquer outro escrito. A fim de evitar um número excessivo de indicações. como enciclopédias. julgou-se necessário. as culturas africanas). mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. por algum motivo. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. mas inclui algumas em outras línguas. Nos casos em que.humanos. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. Deus é um autor. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. acrescentamos comentários. Além das obras citadas no texto.

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