tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

9
13

25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

93
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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

157
175 201 219

.estranha e por vezes extravagante para nós . As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes. Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura. O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . em primeiro lugar. uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro. por definição.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. não são inteiramente inerentes à existência humana como tal. em segundo.Nos últimos anos. têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita.e. o tema é. Ou. antes. o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. na ftlosofia e na ciência . que eram dados como certos. estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana.

O Roma sapiens existe há cerca de 30.o. estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. Estas. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. silabário japonês. passado e presente. Portanto. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. em questões relevantes. embora também seja dada alguma atenção. políticas. que leva a escrita a um novo patamar.000-50. como o rad~o e a televisão via satélite. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. Nesse quadro diacrônico. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica.leitores de livros como este . Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. em um estágio posterior. e inicialmente apenas em certos grupos. em todas as ciências humanas e sociais. cuja existência depende da escrita e da impressão. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". e a cultura eletrônica. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. religiosas entre outras. ela também envolve a impressão. em vez disso. ou algo equivalente ao formalismo. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. Porém. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. que se apóia tanto na escrita como na impressão.000 anos atrás. Universidade de Saint Louis . econômicas. do rádio e da televisão. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. escritas) que coexistem num dado período. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos". mas. caracteres chineses. Nós . Não há "escola" de oralidade e cultura escrita.000 anos. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. reflexão árdua e afirmações cautelosas.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. contudo. no Sudeste Asiático ou na Coréia). Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. como na Índia. salvo como uma variante de um universo letrado. Wj. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. As questões não são apenas profundas e complexas. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. depois. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. Isso requer conhecimento amplo . à nova crítica. a oralidade dos telefones. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. é claro. o esclarecimento não ocorre facilmente.vasto mesmo -. pela comparação entre períodos sucessivos. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. mas também a cultura impressa. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos.

p. até mesmo entre estudiosos. sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. possui ao mesmo tempo "C . Antropólogos. observou. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história.) defeitos e perigos" 0975. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais. e não como transformadora da verbalização (ibidem). a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. A escrita. que sustenta toda comunicação verbal..) utilidade. 33).. isto é. C. surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. assim como para a tendência predominante. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral.1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas. Ferdinand de Saussure 0857-1913). a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. o pai da lingüística moderna. Desde Saussure. chamara a atenção para a primazia do discurso oral. o modo como a linguagem está enraizada no .

Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . Stokoe 1972). perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. Havelock e outros.1-9). num sentido profundo. No entanto. . Ong 0958b. as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem.concluído por Albert B. se essa afirmação é verdadeira. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. se tanto.assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita. Okpewho 1979 etc. A oralidade básica da linguagem é constante. diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). por enquanto. fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. Lord depois da morte prematura de Parry .a gestual. Por mais rica que seja a linguagem gestual. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). McLuhan 1962. recentemente. 1967b). a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. olfato e especialmente visão. McLuhan (962). mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . o inglês Hemy Sweet 0845-1912). a linguagem é tão esmagadoramente oral que. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. Não existem. Não apenas a comunicação. na maioria das vezes. Ainda hoje. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. no mundo sonoro (Siertsema 1955).e a maioria jamais foi escrita. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry. Lord 1960. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia .faladas no curso da história humana. Contudo. Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. em certos aspectos. mas. já muito antes (945). Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. 323. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. eles têm uma linguagem. Porém. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. O livro de Jack Goody. a linguagem. Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras. Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. 332). Na realidade. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita. abordaram os modos como a oralidade primária. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. pp. meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. Havelock 1963. tem importância capital. Um contemporâneo de Saussure. Haugen (966). bibliografia). Chafe (982). não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. Onde quer que existam seres humanos. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária. o som articulado. Mallery 1972. Todavia. Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. assim como audição (Ong 1967b.som. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais .). que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz.talvez dezenas de milhares . Chaytor. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. que. paladar. mas nos estudos literários. assemelham-se às línguas humanas (inglês. por exemplo). descritiva ou cultural. de todas as milhares de línguas . O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. pp. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) .

assimilando outros materiais formulares. hábitat natural da linguagem. Porém. dependente de um sistema primário anterior. Todo pensamento. desde os mais antigos estágios da consciência. a palavra falada ainda subsiste e vive. No grego original. ver também Champagne 1977-1978). No Ocidente. comum a culturas de alta tecnologia.e na maioria das vezes existiu . Os seres humanos. quando muito. uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. pelo tirocínio. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. de algum modo. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. muito tempo antes do surgimento da escrita.). mandarim. 21. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. acerca de seus poderes. Hirsh 1977. não afetadas por qualquer tipo de escrita. inclusive nas culturas orais primárias. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita.sem qualquer escrita. das quais se conhecem não apenas os significados presentes. mas nunca a escrita sem a oralidade.caçando com caçadores experientes. se torna possível com a interiorização da escrita. a palavra techne rhetorike. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral. O estudo da linguagem. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. porém não "estudam". Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. Mas o exame abstratamente seqüencial. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. pp. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. 43-48). para comunicar seus significados. Eles aprendem pela prática . A escrita nunca pode prescindir da oralidade. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. durante séculos e até épocas muito recentes. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. Nos quatro cantos do mundo. entre os antigos gregos. o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. Todos os textos escritos devem. mas também centenas de milhares de significados passados. A expressão oral pode existir . 48-61. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. 1-7). no sentido estrito de análise seqüencial ampla. sua beleza. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. mina. Quando o estudo. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. apesar das raízes orais de toda verbalização. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. A escrita. que constitui um tipo de aprendizado. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. shoshone etc. aprendem muito. malaio.sânscrito. pp. pp. a espacialização da palavra. repetindo o que ouvem. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. reestrutura o pensamento e. aprendem ouvindo. a linguagem falada. mas diretamente da consciência. rejeitou a oralidade. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. No entanto. a não ser nas últimas décadas. em voz alta ou na imaginação. nas culturas orais primárias. possuem e praticam uma grande sabedoria. seus perigos. nesse processo. por exemplo -. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre.

58-63. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. passim). como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). destinadas à recepção direta da superfície grafada. Desde a metade do século XVI. Atualmente. literatura infantil -. à escrita. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. como "arte" ou ciência refletida. mas como textos escritos. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. organizada . pp. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. as preces. contudo. na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. no sentido restrito. referente a uma herança puramente oral. como as histórias orais tradicionais. Criou-se a impressão de que. uma vez que todas as culturas C . até mesmo o da escrita (Ong 1967b. consciente ou inconsciente. Ong 1971. pelo rádio. Proferido o discurso.Ong 1967b. desde o início. pp. o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. os provérbios. sem referência. permaneceu. os discursos . A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. os estudiosos muitas . possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. de litera. muito embora. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). Rhetorike~ ou retórica. para todos os efeitos. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. mas consagrou-a. Nem todos. designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. 27-28). ou outras produções orais. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. e que as formas artísticas orais eram. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. vezes passaram a presumir. em diferentes graus. Bauml1980. a escrita.para não dizer menos desfavorável . Desse modo. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. letra do alfabeto). pp. É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura.falar. Possuímos o termo "literatura". 56-58). as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. a cultura oral primária. Porém. Desse modo. Contudo. Ahern 1982). na Arte retórica de Aristóteles -. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . Porém.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas.por exemplo. Como observado anteriormente. com freqüência irrefletidamente. praticamente como o paradigma de todo discurso. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". • . Cormier 1974. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos.literatura inglesa. o que durante séculos. Goldin 1973. Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. não levou a oralidade a um encolhimento. praticamente não existe. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. simplesmente textos. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . no fundo. até mesmo num meio de alta tecnologia. Acresce que. muitas culturas e subculturas. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. a escrita acabava produzindo composições somente escritas. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. adotaram essas suposições.da arte oral como tal.

olhos. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. embora destinado originalmente a obras escritas. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". Estamos. feno.embora com uma freqüência menor hoje -. a começar assim. algo chamado pêlo. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. todos os pontos em que diferem. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. Na verdade. explicando a leitores altamente motorizados. que nunca viram um cavalo. mas de "automóvel". em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. e assim por diante. As palavras escritas são resíduos. tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. em vez de gasolina como fonte de energia. que tende a absorver outras. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. Conseqüentemente . Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. Em vez de rodas. p. ao menos vaga. sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". em vez de uma cobertura de tinta. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. Ele discorrerá sobre cavalos. "escrita oral". terá alguma imagem. Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . mesmo quando nada têm a ver com ela.e provavelmente sempre . de trás para diante . além disso . digamos. exceto como alguma variante da escrita. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais.subsistem de algum modo nos significados subseqüentes.como veremos detalhada mente mais adiante . quando instada a pensar na palavra "contudo". Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. sem se reportar a alguma inscrição. 60 segundos. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). talvez de forma obscura. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita.pondo o carro na frente dos bois -. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. isto é. como ocorre na tradição oral. No fim. Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". quando usado inadvertidamente também causa problemas . sem causar uma distorção desastrosa. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. A escrita. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. É claro que se pode tentar fazer isso. os cavalos serão apenas o que não são. mas tão somente ao som. Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. Não é possível. Uma pessoa pertencente à cultura escrita. 16) que o termo "literatura". Em virtude dessa primazia da cultura escrita. Porém. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais.

hoje. ainda assim. em termos absolutos. desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador. 248-250. novamente. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. mais compa. mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. os dicionários são fundamentais. wekw-. As apresentações orais seriam. Porém. Neste livro. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. Além disso. até mesmo em ambientes orais. Nesse sentido. cuja raiz significa "tecer". "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. regras gramaticais escritas. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. felizmente. a perífrases explicativas .iguais. o termo "literatura oral" está perdendo terreno. pp. 293-303). ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. sentidas como "vocalizações". Em um mundo lingüístico desse tipo. Mas. o que elas efetivamente são. caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967). sem a escrita. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. o sentido mais comum do termo epos. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. por mais que se tente o contrário.o "sistema modelar primário" . Porém. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . Hoje. pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. "Texto". a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". aos provocados pelo termo "literatura oral". "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. A cultura escrita. no oral. Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. que desejam ardentemente a cultura escrita. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. quando necessário. que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. mas também da história. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. e portanto está firmemente apoiada no vocal. como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz". Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. na verdade. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. O discurso oral tem sido geralmente considerado. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. ainda que não tão evidentes. assim. da filosofia.rbapsoidein. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. embora. Contudo. Na realidade. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. de alto valor artístico e humano. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). como veremos. como tecer ou alinhavar ."formas artísticas puramente orais". Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. na verdade. é. careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais.

ou seu equivalente grego Eclesiastes.é também infinitamente adaptável. Ela pode também resgatar sua memória. mas de outros escritos. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10). Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . "Registrar por escrito . da Idade Média e da época de Erasmo em diante. embora seja significativo que. dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles.forçosamente um estudo letrado. Felizmente. Devemos morrer para continuar a viver. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. a cultura escrita . verificou e combinou muitos provérbios. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro .não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio. a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível. atingir. até certo ponto.cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia")." Pessoas de cultura escrita. ditos.busca. a menos que seja cuidadosamente monitorada.. continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. Muitos séculos antes de Cristo. o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente. embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). e não uma apresentação oral. no mínimo. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas.. na cultura oCidental pelo menos. até mesmo destrua sua memória . .

Desde então. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra.especialmente J. O Círculo Lingüística de Praga . nehhuma outra parte. de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. embora. as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. trabalharam com partes da tradição oral.) Os homens de letras. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. Em . estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. na Antiguidade Clássica ocidental. o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. Vachek e Ernst Pulgram . até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. Freqüentemente. Hockett e Leonard Bloornfield. p. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. p. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. da Antiguidade até o presente. ou quase oral.O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. Durante mais de dois milênios. como fazem Edward Sapir. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia. ou talvez por causa delas. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. feita por Lang e outros. e não lastimável. Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. Cícero considerava como sendo ela própria um texto). A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero.notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. Para explicar sua admitida superioridade. cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. (Ver Adam Parry 1971. e a demonstração. ou semelhante à oral. No início do nosso século agora já perto do fim. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. C. Desde o início. 77). centenas de colecionadores. porque conhecia a escrita. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. no entanto. 34). com diversas misturas de visões fecundas. como os mais exemplares. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. Mais do que qualquer estudioso anterior. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. dando-lhe nova dignidade.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. desinformação e preconceito. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. os irmãos Grimm. de forma mais ou menos direta. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica". consciente ou inconsciente.

Com efeito. o falecido Adam Parry 0971. Porém. Murko reconhecera a ausência de memória exata. Surpreendentemente. padre jesuíta e erudito. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. 1717-1771). mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). começou a formar suas próprias opiniões. Düntzer. mas necessariamente a criação de um só homem. diplomata e arqueólogo inglês. O axioma fundamental que dirige seu pensamento. François Hédelin.uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. dos anos 20 em diante. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. xix). Jean-Jacques Rousseau (1821. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. pp. Rousseau. O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. O filho de Parry. p. fora antecipada na obra de ]. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). Marcel Jousse. pp. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). no tempo de Pisístrato. muitas vezes literatos bem-intencionados. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. Ellendt e H. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. 99-101). Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. de certa forma. em leu Prolegomena. pp. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. xiv-xvii). Belerofonte leva para o rei da Lícia. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. pp. inevitavelmente. no início dos anos 20. como observa Adam Parry 0971. no Livro VI da Ilíada. argumentando. pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. até sua morte prematura em 1935. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. e M. ix-lxii) . mas que os poemas épicos homéricos constituíam. Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. devotos inseguros que lutavam com dificuldades.E. ainda estudante. pelos unitaristas. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). Eles foram seguidos. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. além disso. Robert Wood (c. de 1795. No século XVII. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. contudo. palavra por palavra. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. Mais importante. na poesia oral de tais culturas. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. 163-164). criações de todo um povo. considera um problema a mensagem numa tábula que. Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros.

A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. 178). "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. Esse tipo de procedimento. O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. era toda sua. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). pensava-s~. A estrutura geral poderia ser sua. pp.absorvendo sua cultura oral. A visão de Parry. 1977. 77. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. todavia. juntamente comâs sílabas longas e curtas. Certas práticas. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. o poeta perfeito deveria ser . Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. p. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. é óbvio que as necessidades métricas. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. 147-148. que haviam influenciado estudiosos anteriores. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. relacionado apenas ao "gênio" (isto é. o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. xx). no entanto. contrariavam esse pressuposto. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. pp. moldá-Ios a sua própria "natureza". Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . Para o romântico radical. pois. 166. não deveriam usar materiais pré-fabricados. Os poetas. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". dos poetas latinos clássicos. pp. assim como outras. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. 335-336). O Gradus fornecia frases ~pitéticas.diferentemente em cada narração. mas as peças já existiam. a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. deveria. Porém. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. como veremos. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. Ora. 261-263. xxii). sugestões que pairavam no ar nessa época. ver Ong 1967b. mas não quanto às expressões. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. p. era visto como tolerável apenas em iniciantes. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. 85-86. pp. Em sua forma aperfeiçoada. 30. Pouco depois de Pope. é verdade. também o estavam influenciando. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. 1971. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. de um modo ou de outro. Indubitavelmente. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa".lamentavelmente. no começo dos anos 20.

criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. tinha-se um operário de linha de montagem. segundo o consenso de séculos. por volta de 700-650 a. Este libertava a mente para um pensamento mais original. Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores.). Homero foi normalmente considerado perfeito. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. fórmulas devastadoramente predizíveis. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. tais como a assembléia... No entanto. Em vez de um criador.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. uma vez adquirido. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. o desafio. 49). 115). (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram.c. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. o qualificativo previsível . cada vez mais. costurar. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). por volta de 720-700 a. 68-98). uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita . Homero. Mas. Além disso. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato. Na cultura oral. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. "costurar cantos" (rhaptein. na llíada e na Odisséia. mais abstrato. Pois os letrados são educados.poetas transmitiam de um para outro. (Rhys Carpenter. a saber. Era inútil negar o faio. canto).algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. pareciam ser feitos de clichês. formulares. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. que nunca fora inexperiente. não era um poeta iniciante nem medíocre. o conhecimento. que podia voar apenas saído da casca . tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas.adosteoricamente para desvalorizar. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava".ou. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas.c. De qualquer modo. apud Havelock 1963. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. o clichê. para nunca utilizar clichês. eram obsoletos e contraproducentes. em boa medida com finalidades métricas. poeta épico nyanga. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. p. a espoliação dos vencidos. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. rematadamente hábil. por volta da época de Platão (427?-347 a. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. por exemplo. amados por todos os poetas tradicionais. até certo ponto.como o próprio Deus. agora conhecido. O significado do termo grego "recitar". no qual a fórmula ou o clichê. em princípio. rhapsoidein. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. necessariamente. a frase pronta.) A linguagem toda dos poemas homéricos. menos previsível era tudo o que houvesse no poema. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. geração após geração. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. oide. que os . mas um grego especialmente construído pela prática. a reunião do exército. mais simplesmente. p. fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. .c.como o precoce Mwindo. a fórmula. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. pp. (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. mas no texto escrito. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores.

sim. p. 33-65). xxviii.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. U~ dos motivos para isso é que. filosofia depois de Platão defendeu era. na história humana. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível .hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. Adam Parry 1971. elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. 13). Bynum. as quais. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. 145). O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. 1. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. 1). a madeira rachada . como um modo mecânico. na verdade profundamente antagônico. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. mumano de processar o conhecimento. 70) relata. À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. como agora sabemos. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. "as noções de separação. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. 18). E. Por toda parte. n. 1). mas. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. . p. de modo inteiramente genérico. p. O conceito da fórmula. a observação de Opland de . profundamente interiorizada. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. pp. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. em que a cultura escrita alfabética. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. ainda que. no nível inconsciente e não no consciente. em Parry. no mais das vezes. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. a convencionalidade do estilo épico. n.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. 11-18. p. XXXiii. direta. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é.embora. e passim).1978. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. p. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . 272). de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. na África Central e em outros lugares. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. A menos que indique claramente o contrário. (Cf. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. indiferente a perguntas e destruidor da memória .1978. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. como veremos. no conceito de Parry. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. Adam Parry 1971. eletrônica ou de impressão. a despeito da inquietação de Platão. aparentemente um tanto surpreso. exatamente. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. xxxiii. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia. ou a brevidade usual das próprias formulas. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. p. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E. pp. p. Finnegan (1977. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. recompensa. p.

Lord e Eric A. da antropologia à história literária. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. em toda parte. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. Na verdade. Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger.. o grego .tenha s1d~ . ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. pp. 23-47). necessariamente. por exemplo. ainda no século XI. o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. . _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns.que. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária. somente com o movimento romântico. incluindo o uso predominante de elementos formulares. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor.êm sido p~oduZidos por Albert B. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . em sua grande maioria. A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b.· de Havelock. Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. segundo um de meus amigos libaneses. mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971.atacado e revisto quanto a alguns pormenores. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente. dois séculos mais tarde. 218). na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. p. atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. p.Tannen 1980a). Stolti' e Shannon 1976). como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. Os hábitos orais de pensamento e de expressão. Anteriormente. . Embora o trabalho de Parry . seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. pp. Adam parry (1971. PIarão estava. Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . Ao excluir os poetas de sua República. Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. segundo a análise de Whitman. 490).que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor). mas nunca a interiorizaram completamente. uma mimetização em manuscrito da atuação oral. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. caixas dentro de caixas. quando os poetas xhosas aprendem a escrever.a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início. Clanchy relata como. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. A primeira poesia escrita. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. Havelock. parece ser de início. em sua grande maioria. tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. Como se verá mais adiante.poético ou não . Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. que vêem como originais ditos proverbiais que. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. um tipo de discurso . Preface to Plato (1%3).

fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). A estas ele denominou "sondagens". incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. do contrário. de executivos e do público informado de um modo geral. E outros estudos especializados estão agora surgindo. de modo convincente.quando muito . John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral". para a mídia eletrônica. raramente . os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). Joseph c. vozes que o hemisfério esquerdo .que. analítico). incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b . mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. Recorrendo não somente a Parry. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos. Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. consistia somente em consoantes e algumas semivogais. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. seriam extremamente díspares . em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. por meio da cultura escrita e da impressão. pp.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). mas também a outros. Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. Ao introduzir vogais. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. Lord e Havelock. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). Por exemplo. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. xvü). ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". p. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos . Por exemplo. A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. em sua obra magistral e judiciosa. Jack Goody (977) mostrou. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. O alfabeto original. Numa obra mais recente. demasiado loquazes para alguns leitores. x-xi. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. Sua afirmação gnômica fundamental. "O meio é a mensagem".verdade. dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. Porém. Todavia. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. Eu havia anteriormente sugerido (1967b.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições. e da Antiguidade aos dias atuais. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. inventado pelos povos semíticos. de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. oral-textual. umas poucas conexões importantes já foram feitas.

isto é. das culturas orais intocadas pela escrita. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. o que certamente traz implicações maiores para o leitor.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. look up. do que a tradução "procurar" evidencia. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. e ]aynes. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais. 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. de preocupação com a vontade como tal. já não submetida ao domínio das "vozes". Para ser breve. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. de uma percepção de diferença entre passado e futuro .) •• Look up something. acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. ou seja. Em uma cultura oral primária. Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo. de audácia analítica. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. literalmente "procurar com os olhos". ou "bicameral" como ]aynes a descreve . (N.processava em fala.T. com efeito. mas até mesmo nos dias de hoje. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a.falta de introspecção. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela.T. (N. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência.. é dividido em duas partes bem distintas. e de outros que serão mencionados. como quer o autor.c. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original.) . Esse período. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. como veremos. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a.c.

T. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. eventos. que mostra a subordinação à escrita).) To lookfor them. sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte.é "dinâmico". As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. pois. embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. Não há como deter e possuir o som.conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. nem rastro (uma metáfora visual. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. 451. entre os povos "primitivos" (orais). necessariamente portadoras de poder: para eles. 223-126). Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos. O som existe apenas quando está deixando de existir. que vem de dentro os organismos vivos . Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. "lá".teria nenhum significado concebível. Poder-se-ia "evocá-Ias" . pr~fenda e. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. Também não ca~sa surpresa que povos . etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. no momento em que chego a "-nência". ou uma cultura não muito distante da oralidade primária.T. não. mas o som possui uma relação especial com ele. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. Na realidade. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. logo. d todo som . Não têm sede. Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. São ocorrências. pelo menos inconscien~emente. mas. Quando pronuncio a palavra "permanência". Essa crença é. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. não tenho nada . Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". Elas são sons. 111-138). mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente. Um oscilograma é silencioso. pois não constituem aç~~s. preferimos mantê-Io imóvel. faladas. para examinar algo atentamente por meio da visão. como eventos e.julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. Muitas vezes. Toda sensação ocorre no tempo. b u ao. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. se ouve . não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". * Cal! them back.apenas silêncio. Malinowski 0923. em uma superfície plana. pp. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. pp. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. Ele existe fora do mundo sonoro. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. O fato de os povos orais comumente . Sem a escrita.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. 470-481) salientou que. cheirar. mumente . por exemplo. dotada de um poder. pp. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. nem mesmo uma trajetória. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. mas. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos. num sentido radical. a uma estabilização idêntica à do som. as palavras reais. O som sempre exerce u~ poder.especialmente a enunciação oral. a química e pôr em prática a engenharia química. estão mortas. pp. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. A visão pode registrar o movimento."reevocá-Ias"*. as palavras em si não possuem uma presença visual. As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. Se detiver o movimento do som. 230-271). ausência absoluta de som. Nesse sentido. Toda sensação ocorre no tempo. (N. até mesmo morto.e muito provavelmente em todo o mundo . mas pode também registrar a imobilidade. Em segundo lugar. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923.e talvez universalmente . portanto. A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. Ele não é apenas perecível. ela favorece a imobilidade. as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas.) . ** (N. Um caçador pode ver um búfalo. somos simplesmente incapazes de compreender. recal! them. na verdade.

O pensamento deve surgir em padrões. o duel_o. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. perdoar é divino. Numa cultura oral primária. como . de forma a VIr prontamente ao espírito. ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. Como ela retém. o "ajudante" do herói e assim por diante). O pensamento prolongado. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado." "Errar é humano.à comunicação. 294-301). As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita. por si sós. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida.. fortel~ente rítmicos. fosse relativamente complexa. e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. nesse momento. digamos. mas também da história da Revolução Americana. 131-132." "A tristeza é melhor do que o riso.294-296). equilibrados. a delícia do marinheiro. Uma cultura oral não possui textos. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia.quando muito -. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- . até mesmo p. para posterior recordação. em umas poucas centenas de palavras. e portanto também no hebraico antigo. Antes de mais nada. em altteraçoes e assonâncias. mas também os processos mentais.. Hesíodo.icologicamente. moldados para uma pronta repetição oral. como apoios mnemônicos. Podemos recordá-Ias." "O robusto carvalho. possam recordar." "Dividir para conquistar. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana.. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. 97-98. "A videira aderente. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. com muito poucas exceções . pp. tende ~ ser altamente rítmico. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . mas. o alerta do marinheiro. em repetições ou antíteses. por sua vez. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. consistindo. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. em uma cultura oral. em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. analítica. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos. vermelha à noite. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. . isto é. muitas vezes ritmicamente equilibradas. Sabemos o que podemos recordar. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente. Entre os antigos gregos. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. de que modo. a fim de que "saibam". não queremos dizer que temos na mente. quando fundado na oralidade. recuperar uma complicada série de asserções. processo de respiração. pois o ritmo auxilia na recordação. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. "Vermelho pela manhã." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope. poderia uma solução longa. realmente. assim como funcionam. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. não há nada fora do pensador. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação ." Fixas. a re~ei~ão. a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. cada uma de suas proposições e provas. sim. por si sós. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das.ou em outra forma mnemônica.Numa cultura oral. pp. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. 87-96.

O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . além de sua estilização formular.em livros de adágios. Não seria um conhecimento confiável. a lei.isto é. Elas formam a substância do próprio pensamento. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. Isso vale para as culturas orais em geral. mas nas culturas orais não são eventuais. mas são. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". um modo fixo de processar os dados da experiência. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. Esse é um dos motivos por que. Sem elas. baseado diretamente na tradição oral ibo. porém preserva . Obviamente. pois é nelas que consiste.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo. Numa cultura orall. quando os falantes refletem. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. na realidade. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. o modo como a experiência é intelectualmente organizada. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). 5). Contudo. da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. determinando o modo como . Porém. ao fazê-Io. este é impossível em qualquer forma extensa. embora complexo.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. Numa cultura oral. não-mnemônicos. provérbios. são constantes.). com grande inteligência e requinte.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. mas simplesmente um pensamento momentâneo. uma vez terminado. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . em si mesmos. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. mas ilustrativo. para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. na verdade. Nas culturas orais. orais. é um texto. na África Ocidental. que. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. tal como o seria com o auxílio da escrita. que não constituem meros adornos jurídicos. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. pois esse pensamento. não-padronizados. conseqüentemente. podem ser "procuradas". assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. ainda que isso fosse possível. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. de Havelock. o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5.sas. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. a própria lei está encerrada em adágios formulares. seria uma perda de tempo. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. p. Numa cultura oral primária. Em uma cultura 9~. Preface to Plato (1963). no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula.e. um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978.

mas o soldado valente.o primeiro dia. "então". mas agrupamentos de totalidades. Em todo o mundo. As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. frases ou orações paralelos. Em culturas orais ou com um alto resíduo oral.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. como sugeriu Givón (1979). e as trevas cobriam o abismo. Deus viu como era boa a luz. E Deus disse: Faça-se a luz. a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite". quando Deus criou os céus e a terra. a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. e a ela sucedeu a manhã . e ele dividiu a luz das trevas. de certa forma independentemente da gramática. Noite. 1980b. enquanto um forte vento varria as águas. tais como termos. Um dos muitos indícios de um alto . capitalistas fomentadores da guerra -. uns anos atrás. em desenvolvimento. para a relação de algumas fitas). não a princesa. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. incompreensíveis para os ouvintes). Em muitas das culturas de baixa tecnologia. termos. As nações orais preferem. E Deus viu que a luz era boa. a terra era um vasto deserto informe. "assim" ou "enquanto". O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. Assim. ambos mergulhados num período composto. segue de perto. dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. A New American o traduz por "e". e até mesmo exótica. e às trevas. e houve noite e manhã um dia. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia.inimigo do povo. Assim chegou a noite.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. Nove "e" introdutórios.ainda que em vias de desaparecimento . epítetos. E a luz se fez. os clichês nas acusações políticas . E a terra era erma e vazia. uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. e houve luz. pp. Então Deus disse: "Seja feita a luz". frases ou orações antitéticos. Deus então separou a luz das trevas. E ele chamou à Luz Dia. "quando". constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. mas o carvalho robusto. e as trevas cobriam a superfície das profundezas. não o soldado. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso).Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas.uma visível padronização oral. mas a bela princesa. arcaica. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. incluindo a que produziu a Bíblia. 188-212). As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra. especialmente no discurso formal. Deus criou o céu e a terra. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. o No começo. não o carvalho. Dois "e" introdutórios. Ele lhes parece natural e normal. produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. A versão Douay (1610). como eram as fórmulas . em muitos aspectos.

ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa. p.. ver Faik-Nzuji 1970. uma vez cristalizada. puramente ad boe. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. A redundância. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. a situação é diferente. Uma expressão formular. Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. William Jennings Bryan 0860-1925). as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. em parte porque a escrita à mão é. a repetição do já dito." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. mas o faz para demonstrar que eles o são. Por conseguinte. perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos.. 101). A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. requer a escrita. o pensamento fragmentado . Portanto.em média. Se deixarmos passar o "não apenas . Por conseguinte. até mesmo epítetos opostos. que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. no Zaire. O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. Com a escrita.isto é. mesmo que em virtude de problemas acústicos. a mente deve avançar mais lentamente. mantinham a velha redundância em seus discursos e. por força do hábito. 245). A psique pode controlar a tensão. para manter intacto o agregativo. deve permanecer intacta. a hesitação é sempre prejudicial. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais.) Nas culturas orais. O pensamento requer algum tipo de continuidade. dentre uma multidão ouvinte. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. Sem um sistema de escrita. deixavam que ela semeasse seus escritos. fisicamente. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. compreende cada palavra que um falante pronuncia. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. a redundância atinge dimensões excepcionais. Não há nada para o que retroceder fora da mente. a análise . Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão.. Nem todo mundo. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. um processo muito lento . e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. por exemplo. os oradores públicos ainda à época de. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. soldados são sempre valentes. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. mantendo . pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. ou algo equivalente. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. podemos inferi-lo pelo "mas também . O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. redundantes. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977. duas ou três vezes.constitui um procedimento altamente arriscado. princesas ou carvalhos.. oral] totaliza" (1966. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. construída pela tecnologia da escrita.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". "a mente selvagem (isto é. embora a pausa possa ser benéfica. Convém ao falante dizer a mesma coisa. como na conversa de tambores africana. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. Uma cultura oral pode.". No estilo oral. No discurso oral. sempre disponível em fragmentos inscritos na página. com efeito. é preferível repetir algo. p.

muitas vezes intensamente. são. e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. Porém. que. o excesso. com estes. mas na administração de uma interação especial com sua audiência. desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias. As culturas orais. As culturas orais estimulam a fluência. Porém. deve-se dar à história. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. em sua época . de certo modo. isto é. 29-30). de seres humanos. As práticas religiosas .também mudam nas culturas orais.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. inventam novos santuários e. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele.e mais ainda a impressão tipográfica . permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral.são propagandeados de forma explícita por sua novidade. os escritos de Winston Churchill (1874-1965). assimilando o mundo estranho. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. 232). de uma maneira única. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. como Goody os intitula 0977. pp. evidentemente. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. objetivo. pelo fato de tomar para si funções conservadoras.se possível engenhosamente. De fato. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. Na tradição oral. 13-14). uma situação singular. 254-305).e. a loquacidade. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. muito freqüentemente. quando as curas são raras. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. Logo depois de seu surgimento. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. Os retóricos chamariam a isso copia.i. isto é.a cada narração. pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. 30) -. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. a escrita é conservadora a seu próprio modo. p. desnaturar até mesmo o humano. pp. de seu esforço de memorização e. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. Por uma espécie de lapso. mente. que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. desse modo.deprecia as figuras do sábio ancião. como também soam. inibe o experimento intelectual. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . Porém. pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. compreensivelmente. conhecida. à interação imediata. sim. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. pp. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. oralmente composto. Eles raramente se tanto . Durante a Idade Média e a Renascença. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. de um certo modo. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. novos universos conceituais. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. não carecem de originalidade própria. repetidor do passado. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. Obviamente. Todavia. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. com elas. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . p. a escrita .

As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta.divisões políticas em uma lista abstrata. que não constitui uma lista neutra. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. 234.141-144. mas uma forma de arte. com apenas um mínimo de explicação verbal. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. Na narrativa. isto é. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. pp. em grande medida. por exemplo. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. do mesmo modo. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. nos embates entre personagens. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). reunamos. Goody e Watt 1968. convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. 28-29.Ong 1967b. O dozens não é uma briga real. os livros VIII e X rivalizariam. 176-180). 258). p. Uma cultura oral. De belas faces. independente. mas também na celebração do comportamento físico. Na última metade do segundo livro.mais de 400 versos . até mesmo em culturas quirográficas. sem perda de tempo. remadores. Representações de violência físita crua. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. 1972). com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. pp. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47). seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. no Beowulf. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. Comande o nauio um dos chefes do exército. Característicos das sociedades orais em todo o mundo. com base na observação e na prática. que eram cruciais na cultura homérica. no mínimo. inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. são extremamente raros e sempre toscos. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada . 32). Na llíada. certos jovens negros nos Estados Unidos. no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. em todos os contos medievais europeus. neutra. joning.senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. e que Ora. sounding ou outros nomes. até mesmo em culturas de alta tecnologia). Obiechina 1975). Criados numa cultura predominantemente oral. na Bíblia. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. . na verdade. é comum depararmos. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. Não somente no uso que se faz do conhecimento.

público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. dos vilões e dos heróis. Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. do bem e do mal. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. estão des-oralizando-o num texto. as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. Porém. 145-146). pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. as relações interpessoais são mantidas em tons extremos .79). assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. p.tanto as atrações quanto. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. . transcrevendo-o. o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. veja que eu já estou prosseguindo". Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. Porém. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. comunal com o conhecido (Havelock 1963. Sob a influência da escrita. por intermédio dele. A narrativa literária. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. pp. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado.\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita.ii. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. desse modo. aumentam as hostilidades. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. antes. estabelece condições para a "objetividade". e sobretudo. "Aqui estou para enterrar César. Platão excluíra os poetas de sua República. escriba!" ou "ó escriba. agonístico oral. mais de 2 mil anos depois. já muito estudados (Finnegan 1970. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". A ligação entre narrador. A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". mas. distanciando-se das meramente exteriores. Opland 1975). como uma reação encerrada na reação comunal. 197-233). em vez de causas físicas. à medida que se aproxima do romance sério. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. "deixar-se levar por ele". da virtude e do vício. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. eventualmente. uma feiticeira . obviamente. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. Voltaremos a essa questão posteriormente. aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima.um mago. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. o declamador do poema épico. não para falar em seu louvor". de seus ouvintes. finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. na "alma" comunal. empática. sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. envolvida na dinâmica de troca sonora. da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. Lidando com um outro cenário oral primário. portanto. e. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. A escrita separa o conhecedor do conhecido e. pp. os antagonismos. residualmente oral.e. de modo que. com o herói Mwindo. a despeito dos ataques feitos a ela. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. Elas sobrevivem nas baladas medievais. de presunção e de afetação ridícula. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas.

As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora. nessa época também. as formas arcaicas são correntes. isto é. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. 41-42. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. pp. É verdade que as formas artísticas orais. desapareceram da experiência diária lokele. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. podem ser registrados em definições formais. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. inflexões vocais. em Gana. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. vivida. como literatos. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. à época em que os . embora a palavra tenha sido conservada. embora limitadas à atividade poética. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. Goody e Watt (1968. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. Ong 1977. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. tais como o poema épico. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. isto é. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. pp. falada. 31-34). 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. Os tambores africanos. 94-95). 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. Assim.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. em outras palavras. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. p. mediante o uso corrente. em disputas jurídicas). Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. descobriu-se que. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. 48-99). O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. tal como ela ocorre em textos datáveis. Sessenta anos depois. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. como pai de sete filhos. A memória do antigo significado de antigos termos. entre o povo tiv da Nigéria. pp. que não consiste meramente. também. até mesmo em culturas de alta tecnologia. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. o fundador do estado de Gonja. pp. 29) chamam de "ratificação semântica direta". sempre ocorre. desse modo. já não reconhecidos. por exemplo. em que a palavra real. conservam algumas palavras. mas inclui também gestos. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. ilimitada. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. no entanto. Nos últimos anos. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. p. tal como usados. portanto. como num dicionário. entre os lokele no leste do Zaire. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. e o termo que permanece ficou vazio. que não é. que. expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. tem uma certa durabilidade. Goody e Watt (1968. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. pp.

até certo ponto abstrato. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). duas das sete divisões haviam desaparecido. extraída e distanciada . I de uma realidade individual. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". 8). à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. 248. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. 178) acha que se aplica aos bobangi. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. Henige (1980. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. Nestes últimos mitos. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. isso se aplica aos bashu. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974.R. p.. de modo algum "abstrato". e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. As culturas orais estimulam o triunfalismo. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. p. Beidelman. Packard (1980. T. que possuem um mínimo de abstração. assim como Harms (1980.mitos de estado foram novamente registrados. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. como cita erroneamente Luria 1976. Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. p. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. uma por anexação a uma outra divisão. 33. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais. p. operacionais. simplesmente ele próprio. A seu ver. mas constitui uma abstração. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. 157) chamou a atenção para o fato de que. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. na União Soviética. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". observa que o "modo oral. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. 255). e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem.O. faziam questão desse contato em seus mitos. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. 25-26. pp. sensível. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. na opinião de Claude Lévi-Strauss. Edmund Leach e outros. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. como Franz Boas (não George Boas. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . tendeu normalmente a desaparecer. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. n. se todo pensamento conceitual é assim. Luria. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. nos tempos modernos. que. 247. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". durante 1931 e 1932. n. de A. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. Além disso.. Todavia. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. p.

respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. triângulos e assim por diante 0976.. mas. por outro lado. serra. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. Um círculo seria chamado de prato. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. à exceção da tora. relógio ou lua. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. quadrados. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. 32-39). Se tiver de tirar um deles. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. p. casa. do contrário. plataforma de secagem de damasco. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. um quadrado seria chamado de espelho. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. a serra e a machadinha são todos ferramentas. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. 14). e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. tora. p. sim. Quando lhe dizem que o martelo.). a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. balde. 74). Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. p.um jogo intelectual estranho. na verdade. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. Estes não eram líderes em suas sociedades. Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. Mas. mas usavam um conjunto diferente de categorias. 56). mas em termos de situações práticas . e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. a tara não é uma ferramenta). pp. não respostas tiradas da vida real. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita . mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. Alunos de cursos para professores. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. peneira. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos."pensamento situacional" -. porta. não podemos construir nada" Cibid. o relato de Luria gira claramente. Entre as descobertas de Luria. Desse modo. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos." Por outro lado. jogo fora a machadinha. nunca abstratamente como círculos. quadrados etc. . com certo grau de cultura escrita. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. com objetos concretos. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim. machadinha. em oposição aos fundados no quirográfico. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral.

" 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. num silogismo. fixo." "Somente um animal voador. sobre a cor de um urso polar? Além disso. o categorial. Por outro lado. Para resolvê-Io. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. 54-55). 108-1(9). um dirigente de uma fazenda coletiva. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles. era fútil (1976. A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. não minha. 114). como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. antes. eles deveriam ser todos brancos" (1976. muitas vezes profundamente inconsciente. p. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. O ouro é um metal precioso. como um texto. a ir além das afirmações em si. À luz desse conhecimento. Apresentada a série machado. pp. p. foice. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. machadinha. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. . todos os ursos são brancos. assim como em outras formas. embora com a predominância do último. encerrado. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. isolado. Nunca vi outros . para além das próprias palavras do enigma. Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá.o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. tora. p. Vi um urso negro. não era importante.Um trabalhador de 56 anos. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. p. pp. Metais preciosos não enferrnjam. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais ." É sua responsabilidade.. mas depois reconsiderou e acrescentou. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. O enigma pertence ao mundo oral. se a resposta surge dessa forma.. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. a saber. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. Porém. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. mas tendem. 34 anos) (1976.. em sua interpretação de dadas afirmações. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. Em determinados momentos de suas discussões. 72). mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas. desse modo. num estágio apenas inicial de alfabetização. 18 anos). 104). O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial.. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. de 45 anos. p. No extremo norte. a respeito da espiga. onde há neve. que parecem ter julgado desinteressantes. eles nunca os compreendiam completamente e. Em suma. não tinha interesse. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. "Metal precioso enferruja. que deveria completar a série serra. espiga. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. na vida prática. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. 67). no estágio apenas inicial de alfabetização.

Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. diz: "É feito numa fábrica. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. Mas a falta de familiaridade . "Tente me explicar o que é uma álVore. analfabeto. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era. ninguém nos respeitaria" (1976.esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. 15). p. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. como é seu caráter. mas no fim retoma à experiência individual. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. mas são típicos." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. todavia. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. p. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. Não sei se há água num carro. de 22 anos 0976. Usa fogo e vapor. não de dentro. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir .. um camponês de 36 anos. respondeu um camponês analfabeto.é muito veloz. Um outro homem. 86). Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. 150): "Que tipo de pessoa é você." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. seja examinado e descrito.o vapor dá potência à máquina . uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro. de gênio forte. Mas para ir direto ao assunto. p. não está centrada na descrição da aparência visual . A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional. ou às vezes sua memória não é boa." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. vai descobrir." Mais situações exteriores. encontraram resistência. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. álamo.. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . um teto para sombra e uma máquina. as pessoas são diferentes calmas. Sua definição. de 30 anos. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros. Numa viagem. p. Mas a água não é suficiente. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. deve haver. Embora ele não estivesse bem informado. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for.''' O respondente enumera algumas características. 90). Por outro lado.4) No trabalho de campo realizado por Luria. p. Exige isolamento do eu. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. também precisa de fogo" 0976. p. fez uma tentativa de definir um carro. 148). não precisam que eu lhes explique". Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. mas é uma definição em termos de suas operações. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. 87). não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. "Bem. o eu. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. Eu mesmo não posso dizer nada. olmo. Perguntou-se a um homem de 38 anos. situacional 0976. até mesmo os mais concretos." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. os pedidos de definições dos objetos. "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas.

mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. é claro. isto é. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. no Ocidente. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. pelo menos no que diz respeito a esse caso. mas do pensamento formado pelo texto. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. em diferentes graus. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. "Vamos observar um pouco como ele dança. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. não porque os considerem "inteligentes". na verdade. associadas ao uso de textos e.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. Um habitante da África Central. milhares de anos após a invenção da escrita. categorização abstrata. 61). Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. tal como a dos sujeitos de Luria. contudo. respeitam seus navegadores. p. pode ser bastante sofisticado e. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. Será um jogo? É claro que é um jogo. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. 53-76). a menos que soubessem escrever. 1978). Gladwin 0970. a seu próprio modo. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. Até poucas gerações atrás. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. mas o indivíduo oral não conhece as regras. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger.e muitas vezes tiveram -. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias ." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. na verdade. Essas perguntas estão ausentes. no Pacífico Sul. os analfabetos podem ter tido . organizam. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. definições ou até mesmo descrições abrangentes. reflexivo. As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. Mas isso não é um enigma. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. 4). ou auto-análise articulada. p. podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. pp. não apenas das culturas orais. O pensamento oral. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. respondeu a Carrington 0974. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. p. de modo rigoroso. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . Elas são legítimas. mas tão somente porque são bons navegadores. mas dentro de contextos operacionais. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. por exemplo. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. processos de raciocínio formalmente lógico. uma "consciência moderna". Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. Terão ouvido. isto é. mas também das escritas.

os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. 156). As seqüências longas que eles produzem. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. compreensivelmente. Heitor. com êxito. Como vimos no capítulo 2. p. que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. não são analíticas. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. para Ulisses. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. por exemplo. grupos de palavras para lidar com material tradicional. à condição de que lidasse com material tradicional. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo.tal como.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. de algum modo. inteligentes e belas. Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. sem memorização literal. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. No passado. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. segundo seu próprio modelo textual literal. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. nos poemas homéricos. in Pany 1971). assim como para os outros personagens. o empurrão fará com que ele se mova. deveriam ser essencialmente composições escritas. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. por exemplo. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. do fisiológico ao psicológico e ao ético. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. Atena ou ApoIo. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. Parry 0928. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. Como tal repetição poderia ser verificada antes . as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. que seus processos mentais são "toscos". Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. tais como as genealogias. Desse modo. uma vez que. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. Eles sabem muito bem que. À primeira vista. em qualquer sentido simplista . um trunfo valorizado nas culturas orais. Porém. Para compreender como elas o fazem. p. mas agregativas. Com esse vocabulário hexâmetro. na ausência da escrita. se empurrarmos com força um objeto móbil. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. 51). no entanto. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. Porém. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. Numa cultura letrada. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. mas de fórmulas. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. memorizaram-nas literalmente com base em textos.

diferirá visivelmente de um para outro. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. p. que nada têm a ver com textos. Quando recorda e reconta a história. mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975. e/ou ao público. sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. tempo para "se emprenhar" da história. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. assim como os temas. eram métricos e formulares.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. os melhores . Porém. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. Seus poemas narrativos. A originalidade não consiste em introduzir novo material. durante meses e anos. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. ou o "alinhavamento" de narrativas. 17). no entanto. p. indivíduo. Na sua essência. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. é claro. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. essa natureza. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis.. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. Como se observou anteriormente. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. Com base nessas entrevistas e na observação direta. os temas e as fórmulas. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. coisa ou ação. revela que. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. 20-29). Na verdade. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. Uma comparação entre as canções gravadas. As fórmulas sofrem alguma variação. porém. o material. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. e a "rapsodização" do poeta. 216). assim como sua utilização. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. Na memorização de um texto escrito. única. até pelo mesmo poeta. na verdade. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. embora metricamente regulares. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. pp. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação.e. dependendo da reação do público. como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. Certos torneios de frases serão idiossincráticos.é analfabeta. pertencem a uma tradição claramente identificável. como os de Homero. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. Basicamente. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que.

português e outras línguas (ver Foley 1980b). p. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). recitações pelo mesmo indivíduo. o mínimo. Goody 0977. "Palavra por palavra e verso por verso". p. aqui como em qualquer outra parte. Na verdade. pp. como Goody. pelo menos 60% em relação às outras versões. 28). (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. Sherzer . A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. Todavia. em . 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. na África do Sul. relatado por Joel Sherzer (1982). quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. p. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. que. Em todo o . verso por verso e palavra por palavra. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. p.. na costa panamenha. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem. francês. Opland 0976. 78.~ alemão. parece ser algo textual. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. p. por Lord na Iugoslávia. 1976). 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. Há muito tempo (960). 118-119) relata como. p.o entre _os cristãos. Se não se pode escrever.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. como interpreta Lord 0960. até mesmo no caso . segundo os padrões de uma cultura escnta. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator.) Significativamente. é "algo que todo mundo 'sabe"'. um "pedaço" de discurso. ver Foley 1979). Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). quando se conhece a hngua. Por J exemplo. sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. 114) registra esforços reais. como o pal-Noss. Um é o da verbalização ritual entre os canas. ou para uma unidade rítmica de uma canção. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". não parecem ter uma exatidão literal maior. Ou não? Talvez sejam 28. separativa. é dierética. mas a juntá-Ias. Goody (1977. o ouvinte toma o refrão. no entanto. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. de modo muito mais detalhado. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. a outros especialistas como ele. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". e pronuncia-se a frase inicial da invocação. verifica-se que são sempre diferentes. entr~ os lodagaa do norte de Gana. 76-82). as reproduções da mvocaçao. onde a Invocação ao Bagre. não são absolutamente estáveis. ou para uma elocução. assim como as de outros (Opland 1975. O que conseguem? ~a maioria das vezes. mundo. separada do fluxo discursivo. Em 1970. pp. não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. p. 28). a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. ou para um tema. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. ou fazem somente com dificuldade. 27). Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. As descobertas de Goody. isto é. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. Todavia. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui.

aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . na qual uma narrativa oral. com algumas poucas partes em "voz pura".um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. a música estabiliza inteiramente o texto. Novamente. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. como os feitos pelo h01110ioteleuton . 118. nas suas próprias recitações. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum. Novamente. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. se é que não a aumenta.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. mudanças das quais não se dão conta. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. 148). trata-se de composição formular. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. 3. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. Um é da poesia clássica somali. mas constróem uma composição em particular. que. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). ver também Johnson 1979a). à que aprendem a própria gramática" 0979b. Indubitavelmente. e alguns interlúdios puramente instrumentais. é entoada com música. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. com base em Finnegan 1977. p. fonema por fonema. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. Evidentemente. No caso da poesia oral somali. ainda existente porém em declínio. embora eles próprios façam. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . p.não totalmente invariável. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. métricas. na verdade.e. por um dado período de tempo. não equivalentes a seu próprio exemplo. como mostrou . desacompanhadas de instrumentos. omitindo o material intermediário. rapsódico. trabalhando com um mestre oral. portanto. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. não literal. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. como já indicamos. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. Em certas partes. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. porém notável. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. Às vezes. mas também sintáticas. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. Isto é. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. palavra por palavra. senão idêntica. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. que começam ainda muito novos. n.

Tais afirmações. na verdade. comparada à coloquial. Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia. as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções. Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem. sugere que a linguagem ritual.isto é. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976.. com certeza. até mesmo em seus rituais textualizados. tanto quanto sei. Porém. inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. é "flexível" ou variável). provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. 25-26 . disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19). a estrutura formular . as palavras "Este é o meu corpo . conservam um alto grau de resíduo oral . "Fazei-o em minha memória". De fato. Porém.se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. possam geralmente julgar "fixo" um uso que. assim como outras relativas à "memorização" oral. freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. Louis Renou. como poderia um determinado hino . palavra por palavra. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. Chafe (982). O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível.ser estabilizado palavra por palavra.e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . de que as reproduções são idênticas.para não falar da totalidade dos hinos das coleções . os textos védicos . e isso através de muitas gerações? Afirmações. 83-84). deliberadas ou não. 99-100). Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral.#26 ."). Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus. 164). surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . ao cumprir sua instrução (isto é. poderiam surgir outras tantas variações. oral. tudo indica que. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. Os exemplos literais de Sherzer são rituais. Com efeito. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual. na boca de um outro professor igualmente capaz. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos. especialmente em rituais. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. mas com um conteúdo.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . . e Rutledge sugere em seu trabalho . como vimos... de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. ou de 1954 (Bright 1981).e notas. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963). nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. tratando especificamente da língua sêneca. fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. Os Vedas são coleções extensas e antigas. provavelmente em completa independência de quaisquer textos.têm uma história complexa e muitas variantes." Em suma.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. até mesmo no ritual. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus.Lord. Os professores brâmanes. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. pp. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva . cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963.c.. pp.. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. ou gurus. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965). O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente.a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. no entanto. Sem um texto. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. p. nas culturas orais em geral. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal. A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. este é o cálice de meu sangue . pp. podem ser totalmente contrárias aos fatos. Meras declarações.

Reformulei a narrativa. A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. 173). Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". também o faz a própria genealogia. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). tais como a gesticulação. mas natural e até mesmo inevitável. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. e portanto da interação humana. como já observamos. isto é. 60). . que sempre envolve o corpo. Finalmente. p. como eu mesmo testemunhei. não obstante seja um texto. A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". É preciso fazer a ressalva. Ela conhecia a história.. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). p.) A esses casos. Peabody 0975. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. fazendo um beicinho. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. por si só. Por exemplo. elementos temáticos e mnemânica oral. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. e significativamente menos do contato não-verbal. como ocorre com a palavra escrita. Os narradores narram o que o público deseja ou permite. existencial. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. Outros povos manipulam contas em cordões. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. particularmente a pública. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . Na verbalização oral. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). Havelock 1978a. 220-222. como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. pp. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". Como se observou (p. mas milhares de cópias podem permanecer. que tinham algum conhecimento da escrita. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). ou dançar. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. no entanto. disse ela. completamente. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). visível até mesmo em traduções. nunca existe num contexto puramente verbal.e temática dos Vedas. culturas nas quais. A palavra oral. frontispício. as prensas param de rolar. Em todos os casos. literal ou não. e minha fórmula não era a que esperava. Biebuyck e Mateene 1971. do que ao objeto. Quando o mercado para um livro impresso decresce. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. O Talmude. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. (Ver também Lord 1960. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras".

Assim. que ele percebe .. lida com todas as perguntas desse modo. Nunca baixe sua guarda oral. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. com seu enorme resíduo oral. ao passo que os letrados o interiorizam. Qualquer nativo de Cork. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. por sua vez. Nas culturas orais primárias. é uma série de manobras verbais (e somáticas). indivíduos cujas façanhas são notáveis. ao contrário de obter realmente uma resposta. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". zam o comportamento esquizóide. figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. bateu com a mão na parede do edifício. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica).como um grupo intimamente ligado. Ao contrário. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. isto é. nesse aspecto. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. Dirigiu-se a ele. perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. A comunicação oral agrupa as pessoas. na Irlanda. seu epíteto usual). que muitas vezes os leva a um ato violento. o furioso Aquiles. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. segundo a mitologia. Desse modo. o indivíduo do sudeste da Ásia. A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. um duelo polido. A natureza não estabelece "fatos".e que percebe a si própria . ele fez algo. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. 470-481). uma disputa de talentos. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. uma operação de agonística oral. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. memoráveis e geralmente notórias. Um professor que fala a sua classe. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma.* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. é freqüentemente desviado. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. amok. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual.aninham as percepções. 451. As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. Kábútwakénda. Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica.. o imensamente perverso lobo. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. o astuto Ulisses. descobre que. pp. . Em culturas orais. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. Para garantir peso e memorabilidade. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. como agonístico e. está relacionada ao estilo de vida agonístico.

A vista isola. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. no entanto. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. as Três Graças. ou cadeiras em um auditório. porque. sim. a voz humana vem do interior do organismo humano. a vista também não pode se "concentrar" nele. mais profundamente. sua evanescência. nesse sentido. as Três Parcas e assim por diante. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. pode ser interessante. um objeto translúcido. de um espelho. as figuras não sobreviverão. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. Para testar o interior físico de um objeto como interior. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. como um alabast!o. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". que. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. À medida que a escrita e. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. produzam figuras heróicas e agrupamentos. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. De modo análogo. Índice). contrasta com a reflexão especular. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. A visão chega a um ser . por exemplo. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. que fornece as ressonâncias vocais. pp. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. de uma página impressa ou uma paisagem. Porém. 9-11. O tato. e sejam quais forem as outras forças. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. Numa economia noética oral. como observou Merleau-Ponty (1961). Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. A profundidade pode ser percebida pela vista. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. de John Updike. a uma distância. sua relação com o tempo. O som existe somente quando está desaparecendo. em vez de enfrentar o inimigo. típico do romance. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. A visão disseca.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. no lugar do herói. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. constantemente recua e foge. o som incorpora. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. pela impressão. E. aberta. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. Aqui. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. embora não seja uma fonte de luz. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças.) Uma fonte de luz. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. A visão situa o observador fora do que ele vê. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. tal como um fogo. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. é interessante. exteriores. por fim. acima de tudo. e assim é menos um interior. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. após cerca de três séculos de impressão. ao passo que o som invade o ouvinte. além da mera utilidade mnemônica. (A reflexão difusa. Não se pretende negar que outras forças. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos.de escalar . 65-67). Aqui.

mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. O auditório ideal. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. d o que a que envolve coisas impessoais. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. os seres humanos iriam. que é definido por "dentro de". pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. O conhecimento é. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. por outro lado. visualizada: a visão é um sentido dissecador). Ao contrário da visão . as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). nem mesmo à possibilidade de um tal texto. embora conhecesse certamente muitos itinerantes. pp. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". O que é "eu" para mim é apenas "você" para você.). sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. um sentido unificador. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. Sem harmonia. A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. e assim por diante. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. Quem diz "eu". Quando ouço. como num atlas impresso moderno. mas unificador.o sentido da dissecação . mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. dentro de meu corpo). A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". fundamentalmente. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". um estado interior. o umbigo do mundo (Eliade 1958. desse modo. A propósito. na qual a palavra existe apenas no som. com o homem em seu centro. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. O homem é o umbilicus mundi. '. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. o cosmos é um evento contínuo. preciso girar meus olhos de um lado para outro. 176-179. no entanto. 221). é harmonia. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. Na visão. baseados na experiência que cada um tem de seu corpo.Ong 1967b. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. girando no círculo tautológico. a psique não é sadia. pp. não um fenômeno fragmentador. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como.o som é. . uma luta pela harmonia. de certa forma. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". O mesmo vale para "exterior". O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. que é definido por "entre". no som.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. implementada pela impressão. que me envolve. Numa cultura oral primária. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . Com "interior" e "exterior". 63. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. 117-122. aventureiros e peregrinos. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. pp. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. Para as culturas orais . Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. viajantes. Podemos mergulhar no ouvir. ' . A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. é um colocar junto. 231-235 etc. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. 228. na qualidade de palavra falada. São conceitos fundados na existência.

direta ou indiretamente. Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público".Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. reais ou imaginadas. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. nada deixou por escrito. como indivíduos. A palavra falada é sempre um acontecimento. cujos significados. significa também "acontecimento" e. O coletivo readership' . restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. visual de uma palavra não é uma palavra real. a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. (N. até mesmo em suas partes epistolares. lemos na Carta aos Romanos 00:17). a unidade do público é desfeita. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. a Palavra de Deus. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. por exemplo. o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. um movimento no tempo. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. Na cristandade. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". Para pensar em leitores como um grupo unido. Na teologia trinitária. 176-191). fundamentalmente um som. Record). o • Significativamente. com as preocupações fundamentais da existência. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. refere-se diretamente à palavra falada. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. Lotman 1977). os ouvintes normalmente formam uma unidade.T. O hebraico dabar. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. Em virtude de sua constituição física como som. é espantosa (Ong 1967b. mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. uma representação textual. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. p. "A fé vem pelos ouvidos". "A letra mata.etimologicamente. Jesus. Na maioria das religiões.esta revista tem um readership de 2 milhões . nas religiões mundiais mais abrangentes. Quando um orador se dirige a um público. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. consigo mesmos e com o orador. pp. como um "signo". Eventualmente. Signum. que nos deu a palavra "signo". mas a falada. A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. desse modo. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. num som real ou imaginado. No entanto. A mentalidade oral do texto bíblico. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. A escrita e a impressão isolam. não escrevendo para eles. como se fossem realmente ouvintes. como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. mas um "sistema modelar secundário" (cf.é uma abstração excessiva. que significa "palavra". Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. não em textos. O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. O pensamento aninha-se na fala. o português não tem equivalente para readershíp. todos.) . 14).

reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas.que sugere evanescência. seguir). uma ao lado da outra. Ainda na Renascença européia. num sentido em que as palavras não o são. isto é. mudos.embora realmente produza. tendiam a registrar neles não um nome escrito. esse signum não era uma palavra soletrada. e "o tempo caminha". pesado. alquimistas letrados.) De modo análogo. Reduzido ao espaço. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. as três esferas do agiota. sekw-. Eram "signos". ao tratar da internalização da tecnologia. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". o mastro do barbeiro. (Sobre os rótulos iconográficos.a reduzir toda sensação e. sem nenhuma parada ou divisão. O som é um evento no tempo. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. parece. o tempo parece estar sob um controle maior . que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. elevando-o acima do mundo comum. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . a análogos visuais. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. como uma águia. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. na verdade. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". 7). quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. como é representado num calendário. "objetivo" . Embora os romanos conhecessem o alfabeto.mas somente parece. efeitos que são brilhantemente fascinantes. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . mas também por vezes psicodélicos. fenômenos visuais imóveis. por exemplo. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. O tempo real absolutamente não tem divisões. ."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. ver Yates 1966. e se ele não é exato. muito mais difícil. pois a oralidade primária subsistia residualmente. leva-nos para a morte real. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . algo mais. do que a "desconstrução" da literatura. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. eram. inexoravelmente. grosseiro. Mas isso também falsifica o tempo. ao mesmo tempo. repito. mas pelo vôo. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. o ontem não estalou para o hoje. toda a experiência humana. pois o tempo real. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. causados por distorções sensoriais. Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. indivisível.talvez incipiente em culturas orais. é limitar nossa compreensão . Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. p.

direta ou indiretamente. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. mas da estruturação dessas capacidades. . porque foi separado de seu autor. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. Mais do que qualquer outra invenção individual. não apenas quando se ocupa da escrita. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). pp. pela tecnologia da escrita. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. a escrita transformou a consciência humana. Sem a escrita. mas normalmente. como o oral. 21-23.

rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. o livro substitui a enunciação de uma fonte. a escrita é passiva. podemos obter uma explicação. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade.em vaticínios ou protecias. não obteremos nada. Obviamente. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. pois julgava-se ser ele a voz do deus. A escrita. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. como se viu (Havelock 1963). que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. fora de contexto. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. e mais ainda a impressão. assim como outras pessoas. possui algo dessa qualidade vática. os pais. em um mundo irreal. pp. Além disso. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). objeta o Sócrates de Platão. Fora dele. para torná-Ias mais convincentes. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações. incluindo sua crítica à escrita. Em terceiro lugar. A escrita. Como o oráculo ou o profeta. Em segundo lugar. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. Tecnologizada a palavra. fazem-nas por meio da impressão. exceto as mesmas. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. Na verdade. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. não a fonte. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. As calculadoras enfraquecem a mente. Como os computadores. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. ele as pôs por escrito. Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. Hieronimo Squarciafico. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. para tornar mais convincentes essas objeções. ela criou a crítica. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. A escrita enfraquece a mente. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. artificial. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. orais. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. enquanto o livro existir. é inumana. Os textos são inerentemente contumazes. um texto escrito é basicamente inerte. É uma coisa. fundamentalmente. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. se o fizermos a um texto. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. pp. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. é dito dos computadores. ao saber que. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". muitas . é claro. no Fedra. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. O mesmo. A joniori. diz Platão através de Sócrates. para tornar mais convincentes suas objeções. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. A escrita. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. e muitas ficam angustiadas. Atualmente. a escrita destrói a memória. um produto manufaturado. 31-32).

com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva."A letra mata. hostil. desprovidas de todo calor. a redução do som dinâmico a um espaço mudo. é o equivalente psíquico do texto verbal. único lugar em que as palavras faladas podem existir.30. imóveis. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente.em que pressagia a própria morte . peles de animais. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. de que na Biblioteca Bodleian. calorosa. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. e muito mais. individualmente interativa (representada pelos poetas. mas o espírito dá vida" . estão inteiramente acima e além dela. tardia. não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. A escrita. e de que ela destrói a memória. de 2 Coríntios 3:6 . Não há como escrever "naturalmente". encontrável em dicionários impressos de citações. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. "forma". do indivíduo letrado à oralidade subsistente. 230-271). ou registro escrito. Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. pp. No entanto.) . Platão. é claro. oral. ou reação exagerada. O termo idea. assim como tintas. a mais drástica das três tecnologias. é claro. Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. outrora viva. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. de certo modo. A flor morta. Clanchy (1979. "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas".até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley. embora. a quem ele expulsara de sua República). garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977.da do mundo da velha vida cotidiana oral. pincéis ou canetas. "cada livro é teu epitáfio". um certo pictograma significará uma certa palavra específica. conscientes. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. isto é. A fala completa a vida consciente. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. em Oxford. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. Em pippapasses. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. b um outro e assim por diante. coisificada. "ver". É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. parte de seu próprio processo reflexivo. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. e além dela. A escrita é. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. Voltaremos a essa questão posteriormente. As idéias platônicas são mudas. superfícies cuidadosamente preparadas. pp. "visível" ou "vídeo". absorvendo-a tão completamente em nós mesmos. ou a representará um certo fonema. como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. não são interativas. seu afastamento do mundo da vida cotidiana. Ao contrário da linguagem natural. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. sua rígida fixidez visual. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". como tal. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". em qualquer cultura.I) . a escrita é inteiramente artificial. mas isoladas. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. móvel. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. tiras de madeira.

As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. Até mesmo quando é pictográfico. que conhecemos. ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano. por exemplo. sim. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. é a representação de uma elocução. usando um dispositivo mecânico. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. ou verdadeira escrita. intJnsificar sua vida interior. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso.c. isto é. Obviamente. no sentido de uma escrita genuína. ampliar o espírito humano. na verdade. que especificam exatamente como usar as ferramentas. tal como entendido aqui. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). mas elogiá-Ia. O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979.bombas.novamente um paradoxo . A escrita aumenta a consciência. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . Os desenhos representam objetos. é altamente desumanizante. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio. mas. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. mas . Um órgão é uma máquina enorme. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. (Diringer 1953. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que.) Um registro escrito. feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. obviamente. em representações de coisas. no sentido estrito da palavra. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. Para viver e compreender plenamente. um registro escrito é mais do que desenhos. uma parte psicológica de si mesmos. ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. Os códigos. O primeiro registro escrito. o aprendizado de uma habilidade tecnológica. à oralidade -. O desenho de um homem. na verdade. Porém. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. E vários dispositivos de registro. As tecnologias são artificiais. A escrita. e mais ainda quando afetas à palavra. não consiste em meros desenhos. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. pelo contrário.inteiramente exteriores a seu operador. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo. pp. geradores elétricos . de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer. Mas. Tais transformações podem ser enaltecedoras. Um violino é um instrumento. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. humanamente compreensível. Como outras criações artificiais e. fileiras de seixos. é resultado de alta tecnologia. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. mas também da distância. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. Gelb 1963).o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. Isso exige anos de "prática". com recursos de força .a artificialidade é natural aos seres humanos. não rebaixa a vida humana. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. de Morton Subotnik. foles. ou aides-mémoire. poderia dizer. isto é. para compreender o que ela é . salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. 141 e 168). sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. mas um código não é desenhável. acentua-a. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. Para conseguir tal expressão. E assim por diante. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. A orquestra moderna. mais do que qualquer outra. adequadamente interiorizada. em última análise. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. A tecnologia. isto é. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. transformações interiores da consciência. necessitamos não apenas da proximidade. uma ferramenta. interiores.

indicando que ()~ documento foi inteiramente lido. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. originou-se. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. 3500 a.c.c.digamos.c. 1500 a. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita.usar a escrita para produzir literatura .c. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. Se isso é o que se entende por escrita. pp. pequenos. Os registros escritos têm antecedentes complexos. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . da mesma regiào que as bulas.C.C. ocos. . Em alguns sistemas codificados. 1200 a. Desse modo. o contexto extratextual às vezes é necessário. talvez. os hieroglíficos egípcios. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. Existem estágios intermediários. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. seria "escrita". isto é. o "Linear B" minóico ou micênico. A maioria.indicavam. o maia. Usar a escrita para criações imaginativas.c.). pelo menos em parte. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. o asteca. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. em seu sentido comum. de forma a incluir qualquer marcação semiótica. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas. como no sistema desenvolvido pelos vai.o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. o da visão. Se anoto em um documento: read. em um nível ainda mais elementar. o registro do vale do Indo. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos.. o chinês. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl. pois o primeiro registro cuneiforme. 3000 a. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico. não quando a mera marcação semiótica foi imaginada. (talvez sob alguma influência do cuneiforme).. gradativamente. (datas aproximadas segundo Diringer 1962). Não é um mero apêndice da fala. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. se não a totalidade. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas.faz e à qual atribui um sentido. ou às vezes. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. 3000-2400 a. Até mesmo com o alfabeto. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . Assim. 3500 a. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica.. banaliza seu significado. A escrita. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios. Contudo. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem.. 50 d. o primeiro de todos os registros conhecidos (c. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. de um sistema de registro de transações econômicas. mas somente em casos excepcionais . Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. sete entalhes . sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto. ao uso de sinais. os símbolos do lado de fora da bula . mas totalmente fechados.Wilson 1975. interpretável apenas por aquele que os faz. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. 1400 d. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita.c. o que representavam . indicando que deve ser lido até o fim. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. Diringer 1960. dentro da bula.digamos.

desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. mutuamente incompreensíveis. freqüentemente. As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. até mesmo naquela época. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. 2. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. 2. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. O chinês é o maior. A perda para a literatura será colossal. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). que agora está sendo ensinado em toda parte.no sentido mais específico história do registro. 3 não são. Todos os sistemas pictográficos. nessa ordem. A comunicação pictográfica. Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). em 1716 da nossa era. requerem uma espantosa quantidade de símbolos. 3 e assim por diante estão. embora primorosamente estilizados. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. 2. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. todos eles. o que 1. poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). mas não às palavras "primeiro" e "segundo". Uma espécie é o ideograma. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. de certo modo. 2. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. mas estabelecido por código: por exemplo. arrola 40. desse termo.inglês sole . 3. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. incapazes de compreender o que os outros dizem. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. o significado pretendido não fica inteiramente claro. (Todavia. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". Desse modo. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. no pictograma chinês. ou soul [almal associada a "corpo". A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos. Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. como aparece aqui. desenhos de um moinho [mil/l. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. mas a palavra "floresta". podem compreender a escrita. como uma letra do alfabeto. sole no sentido de "apenas". Indubitavelmente. Mas. o . para "criança" [dzal. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l.de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. um caminho [walkl e uma chave [kryl. p. numerais como 1. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). 3 e assim por diante. algo como um francês. o mandarim. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. um luba. Em um sentido especial. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. 2. Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos.) Algumas línguas são escritas em silabários. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. Nenhum chinês ou sinólogo conhece.545 caracteres. ou já conheceu. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato.

ele usa caracteres chineses. Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. na Libéria. um alfabeto genuíno.hebraico. talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. arábico. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. outros rébus). alguns ideogramas. muitas vezes extremamente complexas. "pontos" vocálicos.até o terceiro ano. 121-122. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. na história do alfabeto hebraico. Na verdade. (Diringer 1962. grego. ideogramas. o de que foi inventado apenas uma vez. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. embora. 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. sem dúvida. não é uma vogal. ke. ko. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you.. E israelenses e árabes modernos. Havelock 1963. ele usa caracteres chineses. Além disso. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. foram acrescentados a muitos textos. tâmil. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. do desenvolvimento senútifo original. ku. Posteriormente. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. rébus e várias combinações. ki. A letra aleph. mi. "claustro"). p. O fato mais notável sobre o alfabeto é. não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos. em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus.) Todos os alfabetos do mundo . Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. que significa "não"). assim como outras línguas semíticas. pp. O hebraico. quando os pontos vocálicos são usados. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh".derivam. exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . mas 2 mil anos depois dele. discute as duas variantes do alfabeto original. o cuneiforme. No do vai. respectivamente. pronunciados a sua própria maneira). sem grupos consonantais (como em "perspicácia". cinco outros para ma. por exemplo. o semítico do norte e o semítico do sul.c. . malabarense. mesclando dois ou mais princípios. me. eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). que se tornou nosso "a" romano. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. culturalmente ricas e poeticamente belas). As línguas organizam-se de diferentes maneiras. Todavia. como nos registros u~arítico e coreano. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). o sistema coreano é híbrido (além do hangul. até hoje não possuem letras para vogais. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. mais ou menos. de uma forma ou de outra. mo. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. coreano . ugarítico. ela simplesmente representa o fonema [b]. adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. e é muito difícil de ler. 456). para ka. na verdade. romano. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. mu e assim por diante. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados. p. à medida que lêem. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra. como o árabe. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. cirílico. Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. discordantes em quase tudo o mais.

o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. mas um som completamente diferente. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. Era também "internacionalizante". abstrato. Nos livros e jornais coreanos. Porém. marcas imóveis para a assimilação pela visão. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. para os escolares israelenses. Mas o rébus (fonograma). Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. Parece que a estrutura da língua grega. semi-permanente. com certeza. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. sobre bases neurofisiológicas. pois representa um objeto. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. o "desapare-" já acabou. mais analíticas. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. existe somente quando está desaparecendo. Todo registro escrito representa as palavras como se. "pássaro". que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". O som. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. sae. tori. da palavra. favorece o pensamento analítico. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. digamos. Ele representa o som em si como uma coisa. Kerckhove (1981) sugeriu que. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. como no exemplo fictício usado acima). quase total. Ele analisava o som de modo mais abstrato. de um pássaro. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. não uma palavra. mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. não obteremos "aroma". transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. facilmente aprendido por qualquer pessoa. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. elas fossem coisas. Um desenho. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. sem dúvida. O alfabeto implica que as questões são diferentes. (Observou-se há pouco que. Rébus ou fonogramas.r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. temos dois. em componentes puramente espaciais. não reduz o som ao espaço. objetos mudos. pãjaro. com vogais. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. desse modo. quando chego ao "-cendo". como muitos outros sistemas de escrita. que uma palavra é uma coisa. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. como já explicamos anteriormente. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. nem "amora" nem "aroma". o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. não um evento. O alfabeto. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. embora possa representar várias coisas. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. no entanto. uccello. É talvez. que admitia a omissão de vogais na escrita. b mais a. porém crucial. Constitui um registro democratizante. A escrita de caracteres chineses. por converter o som a uma forma visível. até o terceiro ano. Vogel. igualmente. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. de algum modo.

pp. vulgares. Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. caixas de papelão. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. onde. práticos. 236). sociedade específica. mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras. .800 ban. p. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. ou caracteres chineses. Na cultura da antiga Grécia. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas. Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . recibos (Achebe 1961. Eckvall). A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. Apenas no século XX. O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . p. Porém.alfabeto.. ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. 300-309). Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. com a democratização maior da Coréia. no lruCIO.todos coreanos que sabiam escrever . e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. em 1443 d.para ler a maior parte da literatura em coreano. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. 120-121). a recepção dessa façanha notável era previsível. ao passo que os 1. 16. Milhares e milhares de coreanos . inici(l1mente.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. 201-203). O futbark.e. abre caminho pela primeira vez na direção de uma . na realidade. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. que todos podem virtualmente ler. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). conhecimentos de embarque. recibos etc. diante da prevista resistência maciça. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. pp. alfabético ou outro. 13). pp. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente.jornais. por meio de uma forma dialética escocesa. Porém. 113-114).B. garotas de gramática. Clamor girls são. A escrita é muitas vezes considerada. Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês. p. pp. não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária.além do alfabeto .encomendas. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. foi comumente associado à magia. 15-16). sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. que são o mínimo exigido . Até aquela época. uma realização magistral. pp. referente ao aprendizado livresco. citando R. ele o faz necessariamente. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele). como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b.

e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. p. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. então. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). p. bastões de madeira (Clanchy 1979. na Inglaterra do século XI. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. Eadmer de Saint Albans. folhas secas ou outros vegetais. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. na Europa. como o Mali. quando ocorria. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . produzir um pensamento com a pena na mão. esse estágio foi superado. Mas. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. papiros (melhor do que a maioria das superfícies. De modo semelhante. Compor à medida que se escreve. Havelock e Herschell 1978). mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). Goody 1968b). o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. pela ordem. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. os escribas possuíam vários tipos de estilete. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. No ato físico de escrever. velino) desbastadas de gordura e pêlos. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. como na aquarela. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. 218). do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). Como ferramentas para escrever. ele possuía blocos de barro molhado. p. Não existia papel. Nesse estágio. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. Nesse estágio de profissionalização da escrita. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil.c. comumente na Ásia Oriental. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo.de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. era. particularmente em composições breves. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. manufaturado na China. Ainda era raro na Inglaterra do século XI e.. Ou então cascas de árvores. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos. Como superfícies para a escrita. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. até mesmo então. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel.. evidentemente. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. 90). mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. junta suas palavras no papel. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). Durante a Idade Média. cf. quando compunha por escrito. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. pp. 88-115. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. ou. ou um construtor naval para fazer um barco. que escreveu seus próprios manuscritos.C. algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. provavelmente por volta do século II a. São Tomás de Aquino.se é que algum o faz -. sobre "A tecnologia da escrita"). peles de animais (pergaminho. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta .

Na Inglaterra do século XII. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. mas por objetos simbólicos (como uma faca. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). não (isso. Em 1127. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. especialmente em um tribunal. p. 24). pp. imposto por milhares de calendários impressos. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. 236-241). porém a história cuidadosa. relógios de parede e relógios de pulso. . 232-233). argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. devemos lembrar. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). do nascimento de Cristo.Clanchy 1979. as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. 235-236). todos vivemos. a idade de herdeiros feudais. conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. pp. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. Clanchy chama a atenção 0979. mas não a haviam interiorizado o suficiente. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos. Antes do uso de documentos. como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude".pensamento baseado na oralidade. atualmente. Cada jurado jurou que. O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. As culturas mais antigas. pp. sábias e maduras. mas "uma espada antiga e enferrujada". De fato. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. até mesmo em um meio administrativo. Voltaremos a falar (isto é. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. p. No período estudado. Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. pp. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). o Conde Warrenne exibiu não uma carta. "pessoas de idade. de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. por exemplo. p. 238). Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. Por volta de 1130. ela pode ainda não lhe dar muito valor. À primeira vista. p. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. em uma moldura de tempo computado abstratamente. 25). que conheciam a escrita. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. 231. presa ao documento por uma correia de pergaminho . provavelmente por diversos motivos. elaborada por Clanchy. o Conquistador. ao passo que os textos. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. todos os dias. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. 230). a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. de bom testemunho".

mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas.. a escrita foi. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael.461-879) . Partindo de Hazerote. jovem . p. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. A oralidade não conhece listas. isto é. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. Além disso. sublinha Clanchy. que começam por volta de 3500 a. "A verdade lembrada era ." e assim por muitos versos mais. para a maioria das pessoas. era automaticamente sempre atualizada e. No texto da Torá. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. muito velha (cf. 233).. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes). Sawyer). Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. acamparam em Hazerote. Elas eram identificáveis por sua aparência. são registros de cálculos. porque o passado mais remoto era.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. portanto. Meujael gerou Metusael. e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados. "Os falsificadores". Em vez de uma recitação de nomes. 44 são certamente falsificadas. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). nas culturas funcionalmente orais. mas estão fazendo algo. portanto. tabelas ou números. em certo sentido.. Goody (1977. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. como gerador e como gerado). apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra. A lei consuetudinária. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. citando P. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. encontramos uma seqüência de "gerou". desbastada de material não mais em uso. as pessoas não se sentiam situadas. 31-34).. Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente .H. A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. É o domínio dos ancestrais. Clanchy 1979. A escrita torna possível tais aparatos.): "Partindo do deserto do Sinai. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal". 233). "gerando"). faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. De fato. como em um alinhamento militar. dos quais o calendário é um dos exemplos. os de escrita cuneiforme dos sumérios. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968. como facas ou espadas. uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. pp. qual a utilidade. p. inacessível à consciência. em uma economia de pensamento oral. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!.c. p. de fato.um fato que. Partindo de Quibrote-Ataavá. eles acamparam em Quibrote-Ataavá. em sua maior parte. E. de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real.contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. pp. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente.não um registro de contas objetivo. flexível e recente" (Clanchy 1979. paradoxalmente. 249. . 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros. o Confessor. a cada momento de suas vidas.. acamparam em Ritmá . as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas.

mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. mais precisamente. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. As tabelas. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. para o movimento da direita para a esquerda. pp. A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada.. pp. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. em seu hábitat natural.Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. para notas de roda pé. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). Em qualquer lugar do mundo. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. em uma linha horizontal. finalmente. A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . nos primeiros tempos da cultura escrita. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. ou indivíduos reais. em vários registros em todo o mundo. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. As páginas não possuem apenas "cabeças". é resultado não apenas da escrita. suas próprias leis de movimento e de estrutura. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. Goody mostra em detalhes como. 307-318 e passim). ou da direita para a esquerda. Tudo isso constitui um mundo de ordem. tipos de ventos e assim por diante). o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço.aos sons ou. mas nunca em lugar algum. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. são antes "memória de canções cantadas". para o movimento definitivo da esquerda para a direita. que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. são antes enunciados que são ouvidos. oral. uma linha indo para a direita. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. porque não são apresentadas visualmente. Kerckhove 0981. c e assim por diante. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). como em uma escrita bustrofédon. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria.Não são percebidas como uma coisa. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. a outro indivíduo real. para o estilo stoichedon (linhas verticais) e. e até mesmo os poemas. pp. para indicar a seqüência. são parte de um presente real. aos fonemas que codificam. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. como nos índices. Os textos. A palavras. vivo. As palavras faladas constituem sempre modificações . b. mas também "pés". na escrita grega antiga. que vai da direita para a esquerda. o alfabeto. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". pelo que se sabe. Os textos são coisas. de baixo para cima . vivos. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. impossíveis de "examinar". 4950). A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real.externamente ou na imaginação . vivo. mas como reconstituições de eventos no tempo. existencial. regiões do planeta. eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. ou de cima para baixo. representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. e depois usada para a recuperação visual do material. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. depois uma volta na ponta para a outra linha. ou todos esses modos ao mesmo tempo. imobilizados no espaço visual. quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante.

o diário requer. uma "moldura histórica". Escrever é uma operação solipsística. Estou escrevendo um livro que. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. Na linguagem falada. espero. na Idade Média. adotada e adaptada por críticos habilidosos. excitado. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. sem a escrita e.animado. pp. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. ao compor um texto. De fato. na verdade.e realmente enchem . E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. Além disso. Enquanto escrevo o presente livro. A enunciação falada vem apenas dos vivos. posso muito bem estar morto. Mais tarde. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. De fato. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. mas escrevendo-a. ao qual ele deve se moldar. Eles apresentam um material filosófico em diálogos. calmo. Quando meu amigo ler minha carta. Em um texto. uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz .escritores de diários de angústias. as palavras estão sozinhas em um texto. em um contexto simplesmente de palavras. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. Em um texto. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. para que o leitor possa imaginar um debate oral. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. resignado ou qualquer que seja. Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. Nem poderia. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. finjo estar falando comigo mesmo. isto é. o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. sem a impressão. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. não importa que o autor esteja vivo ou morto. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. ao "escrever" algo. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. . devo estar isolado de todos. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. portanto. No entanto. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. portanto. mas elas não serão completas. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. mas também para o escritor. por exemplo. A tradição letrada. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. 53-81). Para que um texto comunique sua mensagem.de uma situação que é mais do que verbal. de certo modo. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. em um sussurro. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. Elas nunca ocorrem sozinhas. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. como os do Sócrates de Platão. será lido por centenas de milhares de pessoas. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. por outro. irado. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. possa interromper minha solidão. e em um diário.

postas na superfície. pp. sem entoação. não-analítica. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. Porém. na verdade. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. de muitas das enunciações orais. exteriorizadas. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. 49-50). de um tipo ficcional. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. salvo ironicamente. _ como nos provérbios. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. as correções podem ser tremendamente produtivas. ou então as evitamos totalmente. sem um ouvinte real. a tornar o falante muito pouco convincente. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. sem nenhum contexto . apagadas. aqui. segmentos significativos. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. narrativa. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". ela pode retroagir na fala. na escrita. p. quer sejam longas. Apenas um leitor. Para nos fazermos entender sem gestos. A escrita é de fato a sementeira da ironia. "linguandoas" de ponta a ponta. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. mudadas. Por meio de um texto tratado quirograficamente. 272-302). Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. língua. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. as palavras. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. sem expressão facial. quer sejam breves e apotegmática~. maldita. como na narrativa formal. podem ser eliminadas. Com a escrita. pp. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. tirando-a do contexto existencialmente rico. pois se exige mais das palavras individualmente. expresso na forma de diálogo. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. murmurante confusão" de William ]ames. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. as palavras escritas refinam a análise. O que Goody 0977. o correspondente fluxo de pensamento. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. nós as reduzimos a um mínimo. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. no sentido aristotélico. Porém. Evidentemente. textos escritos. Todavia.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . eliminar incoerências (Goody 1977. no sentido de que se lê bem em voz alta. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. Em uma cultura oral. Na escrita. oral. pois os diálogos são. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. uma vez "proferidas". O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. Não há mimese. em partes mais ou menos separadas. Portanto. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. e o faz. mas caótico. o fluxo de palavras. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). a "grande. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. existencial. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. em qualquer situação possível.

escreVeU-OSposteriormente. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. com o toscano. 50-71) chamou. mas "como contas em uma caixa" (1974. Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). pp. o judaísmo. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. carentes de significado pessoal premente. investiram enormemente na escrita. Basil Bernstein 0974. 134) . oralmente e por escrito. pp. e finalmente se tornou uma língua nacional. . operam funcionalmente. 181. para construir o conhecimento filosófico e científico. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. pp. além de certas peculiaridades sintáticas. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. no entanto. Como ressaltou Guxman 0970. presente nas orações de Cícero. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. 773-776). a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. 56-57)..reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. na Alemanha. como o pensamento e a expressão orais em geral. Muitas vezes. na Alemanha ou na Itália. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. em sua essência. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. 134-135. à Bíblia ou ao Corão. como se viu (p. 83). na Itália. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. Analogamente. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. é obra de uma mente letrada. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. p. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. para uma elaboração plena. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. 176. ou mais propriamente dialetos. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. "grafoleto". respectivamente. o cristianismo e o islamismo. Porém. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. da impressão. políticos. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. por motivos econômicos. Na Inglaterra. p. muito diferente dela própria. com propriedade. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. 15). Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. Conquanto seja verdade que eles eram todos. particularmente os gregos. pp. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. como na Inglaterra. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. Porém certas línguas. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. Todas elas possuem textos sagrados. pp. dialetos regionais e/ou de classe. 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). tais como os conhecemos (Ong 1967b. o código lingüístico restrito não funcionará. descartou certas formas dialetais. religiosos ou outros. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala.

Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. porém sua plenitude se deve à impressão. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. 136-137). podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. pp. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. pp. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). Onde existem grafoletos.diferem da gramática do grafoleto. É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. a despeito de toda a fecundidade subseqüente. para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. 108. gramáticos. assim como milhares de línguas estrangeiras. É má pedagogia insistir nisso. e arrendondando os números. 60). são interpretados no grafoleto. possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. nenhum outro dialeto. quando outros dialetos de uma dada língua . porque não há nada "errado" com os outros dialetos. Na Grécia Antiga. primeiro e mais intensamente. C. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. que é muito menor. À luz desse fato. 255-283). 74-111). 1-22. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. alemão ou italiano. Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. Mas Hirsch 0977.S. foi trabalhado durante séculos. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. lexicógrafos e outros. depois pelos teóricos normativistas. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . pois os outros dialetos do inglês. Porém.e a afetam. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. p.Um grafoleto moderno como o "inglês". em um sentido profundo. Nesse sentido. ao que parece. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. pp. impresso. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. por exemplo em inglês. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. 43-50) vai mais além e diz que. os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. São a retórica acadêmica e o latim culto. pp. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. Platão e Aristóteles. a fortíorí. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. o estudo da "filosofia". Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui.além do grafoleto . mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. representada por Sócrates. apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. constituía um elemento menor na cultura . A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente.

Desde pelo menos a época de Quintiliano. Nesse sentido. como vimos. produto da escrita. tal como a lealdade. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. decadência. que explicava e sustentava a persuasão verbal. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". efeitos. referiam-se aos "assentos" de argumentos. considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. A "arte" da retórica. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. Os gregos homéricos e pré-homéricos. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado. efeito. em um sentido muito profundo. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. pp.da Antiguidade Clássica. . Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. etc. Com sua herança agonística. fórmulas) sobre vários tópicos . da apresentação oral para a escrita). pareceria óbvio que. para seus primeiros descobridores ou inventores.sobre qualquer assunto. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. foi. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. as novas estruturas quirográficas de pensamento. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. contrastes e tudo o mais. científico. contrastes. 1971. Como Platão. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção".tais como lealdade. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido. As culturas orais. menos analíticos. Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. mas que. o mal.antinomasia ou pronominatio.. C. 56-87. quer no número de seus praticantes. anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. causa. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. Mas. pp.grega. 194-205). -. antes da escrita. nunca competindo com a retórica. Murphy 1974. 23-103). Índice). a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. tais como definição. como em geral os povos orais. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. como sugere o infeliz destino de Sócrates. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. embora dissesse respeito à linguagem falada. A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). 1971) -. isto é. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. Howell1956. No primeiro. Sonnino 1968) . voltando as costas ao mundo oral.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!". os sofistas da Grécia do século V. procurando causas.. inconscientemente na verdade. isto é. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro. não comportam "artes" dessa espécie organizada. paradiastote ou distinetio. 147-187. pp. como as outras "artes". Howell1956. a retórica era algo maravilhoso. No segundo sentido. a amizade.S. à Era das Luzes (por exemplo. passando pela Idade Média e pela Renascença. Lewis estava. definitiva senão totalmente. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". Durante séculos. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. a culpa de um acusado de crime. (Lanham 1968. Kennedy 1980. e a tradição filosófica. Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. pp. a guerra etc. amizade etc. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro).

Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. científicas. Da Antiguidade grega em diante. catalão. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. real embora muitas vezes vaga. é essencialmente antitética (Durand 1960. pp. O latim culto foi um resultado direto da escrita. vernaculares.. 1981. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. Porém. 192-222. o finlandês e o turco. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. como efeito ou ambos. continuou em latim. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. que muitas vezes possuíam formas diferentes. 451. herdados do passado. A retórica. No século XIX. na Inglaterra. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. Oliver 1971). as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. tanto no mundo mental quanto no extramental. médicos. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. mutuamente ininteligíveis. Não havia como traduzir as obras literárias. espanhol. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. Entre cerca de 550 e 700 d. como tantas desde 1600. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). com instrução baseada no latim. 453-459). outrora uma . que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. é claro. ao passo que as escolas mais antigas. Da época medieval em diante. por motivos econômicos ou outros. filosóficas. a maioria deles nunca escrita até hoje. de um modo ou de outro. com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. como causa. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. a escolaridade e. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. Não havia realmente outra alternativa. título). Por volta de 700 d. pp. O latim. diplomatas e outros servidores públicos.. retórica. pp. Até que um ou outro dialeto. ao contrário dos indianos e dos chineses. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos".C. advogados. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. acadêmica. muito menos oratório. está claro. com ela.C. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. 119-148). praticamente nenhuma teve tal treinamento. ou o hochdeutseh. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. na Alemanha). mas nas mais novas. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. francês e outras línguas românicas.

o árabe clássico. um cenário de rito de puberdade masculino. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. de fato. isolado da mais tenra infância. Por um lado. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. além de sua proveniência clássica. outras línguas controladas quirograficamente. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. por exemplo. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. pp. em todas as demais dependências escolares. o orator. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. todos sabiam também escrevêIa. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. Todas as línguas usadas para o discurso culto . o orador público. mas o rhetor. Em virtude de sua base na academia. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. se é que o teria feito. 264) chamou a atenção. o latim tornou-se o latim culto. Não obstante. sempre têm. não usado pelas mães ao criar os filhos). Paradoxalmente. o sânscrito e o chinês clássicos. como o latim culto. no sentido restrito. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. A ciência moderna nasceu do solo latino. 119-48). parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. Sem o latim culto. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. em um cenário tribal que era. Durante mil anos. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. tornou-se assim uma língua escolar apenas. Despido de balbucios. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. como todas as línguas realmente em uso. falado não somente nas salas de aula. na verdade.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. Sugeriu-se (Ong 1977. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. pp. 113-141. pp. mas também. p. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. O latim havia sofrido um corte som-visão. A tradução era transformação. uma língua inteiramente controlada pela escrita. 28-34). pp. juntamente com o grego bizantino. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. que era totalmente masculina . a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. oralmente. como vimos anteriormente. A escrita. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. estabelecer a objetividade. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. Durante esse período. eram controladas exclusivamente pela escrita. 1981. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. aprendida fora do lar. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é.ainda que nem sempre de fato -. estava vinculado ao sexo. ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. em princípio . o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. Não havia usuários puramente orais. como acabamos de observar. mas sempre escrito da mesma maneira. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. de modo paradoxal. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. A interação criou todos os tipos de resultados. Por ordem dos estatutos escolares. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. Assim também seu vocabulário básico . desenvolveram-se na Europa e na Ásia. era uma língua quirograficamente controlada. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos.língua materna. vinculada ao sexo. Baurnl 0980. assim. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita.embora. aprendidas na infância. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas.

carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". 146-172. fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. e mesmo muito depois. que não era aplicável à escrita. deu nova vida à oralidade. ele também retornou à Antiguidade e. Por volta do século XVI. da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. Nelson 1976-1977. jocosa.reading. Em larga medida. numa forma popular. no caso do árabe. memória e elocução). a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou.T. pp. 'riting e 'rithmetics· -. gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. agonística. 144-256). as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. disposição. Uma vez concluída. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b.) "leitura". Os três Rs . A própria retórica emigrou. livresca. estilo. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". heróica. durante o século XIX (Balogh 1926). Desde a Antiguidade Clássica. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. O célebre McGuJfey's readers. elocução (Howell 1956. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). Porém. Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. 270 etc. pp. nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. 20). . Ainda aspirando à velha oralidade. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. pp. Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. Na Antiguidade Clássica ocidental. Elas estavam também reduzindo a última. gradativa mas inevitavelmente. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. 53-87. 23-48). mas sempre pelo debate oral . Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. mas também na escrita. 241-255). ritmo. declamatória. pp. antíteses. os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). Crosby 1936. Durante o processo. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. eclesiástico ou político. do mundo oral para o quirográfico. estruturas formulares e lugares-comuns. comumente com muitas variações. A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo.atualmente são também línguas maternas (ou. pp. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. 1971. pp. à medida que o latim foi expulso. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. no entanto. pp.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. Atualmente. comercial e doméstica. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. mas a leitura oral. 16. estudantil. Ahern 1982). os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. 23-47). as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional. por esse motivo. "escrita" e "aritmética".).

Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. Em um trabalho deste alcance. embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. Ibe printing press as an agent of change . Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. embora não o único. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. Além disso. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão.Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita.

5). muito mais do que a escrita jamais fizera. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. sapatos ou armas. com ela. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. e não a escrita. . implementou a exploração européia do planeta. e. mas de um tipo que produzia o livro impresso. porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. a atividade noética (Ong 1958b. na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. não era do tipo que produz fogões. mudou a vida em fanúlia e a política. embebendo-o novamente no mundo oral. Anteriormente. Em fins de 1700.[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). Pelo menos até o século XII na Inglaterra. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. mas não o alfabeto. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. a audição serve como garantia. A primeira linha de montagem. pp. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. de "ouvir" livros de contabilidade. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. foi a impressão. apenas caracteres basicamente pictográficos. por outro lado. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. como nos debates universitários medievais. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. palavras inteiras. às palavras que irão constituir. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. A audição. Ahern 1981. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. 215. 1977). "A visão é muitas vezes enganadora. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. uma técnica de manufatura que. durante a Renascença. e não olhando. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". são nossa preocupação aqui. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. permitiu a ascensão das ciências modernas e. Clanchy 0979. Durante milhares de anos. 1967b. A impressão sugere que as palavras são coisas. Antes de meados de 1400. Os chineses tinham tipos móveis. e desde o século VII ou VIII. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. como unidades. em uma série de etapas fixas. Porém. Com o caractere tipográfico não é assim. tanto escrito quanto oral. sim. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. mais do que a visão. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. chineses. pp. difundiu o conhecimento como nunca antes. produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. e referências lá citadas). isto é. que realmente reificou a palavra e. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. 1971. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. alterou a vida social e intelectual. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. Como o alfabeto. 306-318). até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo." No Ocidente. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras.

incluindo o nome do autor. O controle da posição é tudo na impressão. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. 154). essa prática. que se iniciara com a escrita. diferentemente do que fazemos. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. meramente posto em movimento pela visão. Muito depois do desenvolvimento da impressão. de sir Thomas Elyot. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. No entanto. Por que o procedimento original. e de uma forma que deve ser explicada. de longe. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. da qual a presente se desviou. contudo. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. ver Steinberg 1974. Evidentemente. os leitores comumente vocalizavam. Nossas atitudes é que mudaram. Todo texto envolve a visão e o som. Finalmente. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. p. Além disso. o "the" inicial é. Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. em sua grande maioria. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. comumente dividem até mesmo palavras capitais. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. presumivelmente mais "natural". e não a nossa. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. com hífens. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. ao processar o texto em busca de sentido. constitui a original. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. impresso. em culturas manuscritas altamente orais. As páginas de rosto do século XVI. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. a palavra mais proeminente. parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos).As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos.

Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. Goody 0977.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. todas alinhadas à direita. no espaço visual. silenciosa. O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. e em outros registros antigos. agentes literários. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. A maior legibilidade. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. Essa leitura. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. que beneficiam o copista. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. especialmente os índices alfabéticos. A impressão com caractere "a quente" (isto é. que. A impressão é orientada para o consumidor. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. depois de usados. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. como de fato são. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. embora sejam incômodas para o leitor. De um modo geral. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. O controle tipográfico. os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. como na caligrafia. Os textos impressos parecem feitos à máquina. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. enfeitado. favorece a leitura rápida. Ele observa 0977.c. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. com caractere gravado . de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. falada. pp.editores. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. como muitas vezes ocorre em manuscritos. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. leitores de editoras. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. revisores e outros. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. da aparência do texto impresso. por sua vez. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. pp. "É assim que as coisas são" . caracteristicamente. Não obstante. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame. pp. em última análise. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. encerrando a caixa firmemente em uma prensa. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. As listas começam com a escrita. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. não humanos. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador.o mais antigo dos processos. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. 284-303). são cuidadosamente reposicionados. e não simplesmente escrito) de Derrida. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares.

novamente. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. (Os educadores no Ocidente. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. muitas vezes toscos e comumente não entendidos. pautas. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. pelo primeiro som: por exemplo. A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. Os índices alfabéticos ocorriam. visual. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. pp. 144). Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. e não uma unidade do discurso. até mesmo em um índice alfabético impresso. na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. Para a localização visual do material em um texto manuscrito. Obviamente. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. Em 1286. 85). tais como causa. 81-90. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes. quase nunca correspondem página por página. p. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. baseado na oralidade. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. 73). em uma obra ligada à poesia. ainda que copiados do mesmo ditado. que originalmente significava a marca 9[. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes . Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. mas eram raros. porque Textor considera apropriado que. Clanchy 1979. coisas dessemelhantes e assim por diante. a recuperação visual não foi prioritária. 169-172). . sem nenhuma mudança de página. linhas cuneiformes e linhas alongadas. espacialmente organizado. em virtude não de sua própria façanha.ou. coisas relacionadas. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. efeito. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. pp.deuses. uma vez que em italiano e em latim. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". mesmo na Europa do século XIII.) A escrita está aqui. na enunciação oral. mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. o intelecto. assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. "ovelhas apascentadas" etc. tinham a mesma sensação. depois famílias de deuses. como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas.a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). p. a serviço da oralidade. A indexação não valia o esforço. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. Raramente o são (Daly 1967. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. na verdade. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . Aqui. antes. Um signo favorito era o "parágrafo". listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. Acompanhando esse equipamento textual formular. Um novo mundo noético estava se moldando.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. até muito recentemente. por si mesmo. 86-87). pp. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. pp. No livro impresso. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. 28-29. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. embora não fosse perfeita.gordos". O índice alfabético é. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. como os intitularíamos . Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. com divisores· de palavras para separar itens de números. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado.. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. Nesse sentido. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium.

ela foi fundamental para a sobrevivência entre.. ficcional ou outra do que como. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas.Steinberg 1974. Desenhos técnicos feitos à mão. logo degeneraram em manuscritos. Porém. como vimos. e não com partes preexistentes. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. a tendência iconográfica ainda era forte. Agora. 40-45). embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. 313). p. um livro que fulano escreveu sobre . uma "afirmação visual reproduzível com precisão". apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. como se vê nas Ivins 0953. 14-16. e o livro impresso. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. 31) chamou a atenção para o fato de que. como objetos.. Ao mesmo tempo. assim como a impressão. Com a impressão. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. como mostrou Ivins 0953. títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. Muitas vezes. pois. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa." (Aqui está. 145-148). gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). carissime lector. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. anteriormente. sendo um objeto marcado com letras. as histórias de Mwindo e assim por diante). A observação exata não começa com a ciência moderna. O mundo noético hipervisualizado resultan- . a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. com a impressão. depois. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. Do contrário. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. Uma vez bem interiorizada a impressão. As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. As páginas de rosto são rótulos. duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa.Nesse novo mundo.. um livro de uma cultura pré-impressão. um objeto idêntico. técnicas (inicialmente. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. implementou essas descrições expressas com precisão. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. Durante séculos. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). uma elocução registrada (Ong 1958b. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. por exemplo. nos manuscritos medievais ocidentais. em vez de uma página de rosto. librum quem scripset quidam de . exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes.). pp. eram duplicatas umas das outras. páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. pp. manuscrita. O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. chegam as páginas de rosto. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica. xilogravuras e. caríssimo leitor. p. caçadores e artesãos de muitos tipos. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual). O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. uma ocorrência no curso da conversação. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. do que como um objeto. A herança oral está operando aqui. a página de rosto (nova com a impressão .. diferentemente dos livros manuscritos.

clínica. 61-96). O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. 80. p. mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. mas também sobre a imaginação literária. e não o verso. sobre o gafanhoto.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. O poema sem título de E. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. mas não lidas em voz alta. sugerindo asas e um altar. ela ainda não consiste em mera imagem. pp. A poesia concreta é um gênero menor. Cummings. respectivamente. como é chamadoadquiriu um significado importante. 202 etc. 115-138). meticulosa. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". nos quais os versos. A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. Nº 276 0%8). desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. mas também a literatura. Muito mais tarde. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. p. e com maior sofisticação. na verdade. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. mas. incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. Em manuscritos. pp. dão aos poemas uma forma visualizada. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. 65-66. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável. pp. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . por exemplo. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. Já no início da era da impressão. De certo modo. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto.te era absolutamente novo. o próprio espaço em uma folha impressa .. Eisenstein 0979. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. Em Tristam Shandy 0760-1767). As listas e as tabelas manuscritas. 81. d. próximas às descrições que surgem após a impressão e. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página.). se as relações espaciais forem extremamente complicadas."espaço em branco". 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. não para o aspecto visual de objetos. . de vários comprimentos. com seus espaços tipográficos. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. 74-111). isto é. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. seja a unidade do poema. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. discutidas por Goody 0977. alcançam a maturidade principalmente na era romântica.E. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. a era da Revolução Industrial. Havelock 1963. pp.

53. embora ele se mova nele a sua própria maneira. ~ uso de todos os outros. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. isto é. 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. É esse o território de Derrida. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. possuem uma consciência aguda de que. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". Exatamente na época inicial da impressão. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. "saqueador". a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. 383). formadas na velha ideologia. revelam as limitações construídas da palavra falada também. A impressão diminuiu. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. por isso mesmo. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. portanto. (Os professores de crianças de áreas pobres. para alguém que se apropria do escrito de um outro. paradigmática. muitas pessoas. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. fOI consIderado "corrompido". A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. é o texto em sua forma mais plena. que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. O Webster's 1bird New International n.um fato que. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. O antigo poet~ latino Marcial (i. a leitura tendera a ser uma atividade social. fórmulas e temas dos quais todos se servem. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. se ele se desvia desse uso tipográfico. hoje. A desconstrução está antes atada à tipografia do que. oral. Porém. O texto impresso. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. "torturador". contudo. Como sugeriu Steiner 0967. mais ou menos diretos.e. .9) usa a palavra plagíarius. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. Hartman (1981. por fim. na cultura inicial da impressão. como ela muitas vezes parece afirmar. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966). Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. muitas vezes. "opressor". que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto).í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . mas da impressão. uma pessoa lendo para outras em um grupo. meramente à escrita. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento.curiosidade . p. A poesia concreta não é produto da escrita. paradoxalmente. não o escrito. Na cultura manuscrita e. p.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. como se viu. de Jacques Derrida. obviamente.

do que os leitores dos escritos destinados à impressão. por volta do século XVIII. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. aspecto visual e a mesma consistência física. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. Em 1557. obtido de Henrique VIII. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. um ícone é algo visto . A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. No começo da era eletrônica. Significativamente. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. A impressão. e alcança seu auge nas histórias de detetive. A tipografia tornou a palavra um bem material. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. completos. Ao contrário.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. Ela pode dar a impressão. por outro lado. especialmente na narrativa. Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. um "ícone verbal". para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. Com a impressão. atingiu um estado de completude. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. As páginas de um jornal são normalmente cheias . no romance a partir da época de Jane Austen. lacrada. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. Uma vez fechada. As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. uma forma de caracteres tipográficos. o texto não comporta mudanças (rasuras. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. Antes da impressão.não ouvido. desde a Antiguidade. ao Formalismo e à Nova Crítica. finalmente. todas exatamente da mesma largura). situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. Evidentemente. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. Até a impressão. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. impessoais e religiosamente neutros. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. e. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. Na teoria literária. mas de um modo muito real. menos ausentes. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. conscientes ou inconscientes. foi formada em Londres a Stationer's Company. A impressão. de algum modo auto-encerrados. do mesmo modo. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. como cada vez mais semelhantes a coisas. fora controlado pela escrita. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". sem que o queira e sutilmente. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. de bom ou mau grado. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). Os livros impressos repetiram uns os outros. que. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. nesse sentido. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. Esse sentimento afeta as criações literárias. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama.um tal privilegium em 1518. separada de qualquer interlocutor. a impressão dá origem. e. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . autônomo e indiferente a ataques. produzindo uma enunciação. assim como a obra analítico-filosófica ou científica. os manuscritos. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo.

as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. originalmente orais. . surgiu com a impressão. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. pp. usava-se simultaneamente lógica. 144). como apontou Marshall MCLuhan 0962. que. p. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. Com o ponto de vista fixo. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. muitas vezes de um tipo gnômico. Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). impossíveis antes da escrita. Além disso. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. possui um arcabouço mental diferente. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. quando apresentada adequadamente.atormentavam os escritores. 135-136). surgiram o catecismo e o "manual". apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. aritmética etc. partilhando as fórmulas e os temas comuns. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. tomando-os emprestado. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. em cada um dos manuais ramistas. ao compor uma determinada passagem do discurso. r~tonca. gramática. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. ~ própria arte estava completa e independente. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. ao menos de um ponto de vista ideal. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. separada das outras obras. Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si. por sua vez. A cultura impressa. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. em si mesma. Ao contrário. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa.isto é. tudo na arte ficava claro e. em um aspecto. 126-127. uma maior distância entre o escritor e o leitor . nas últimas décadas.30-31. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. uma unidade em si mesma. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. retórica. gramatica.se é que existiam . adaptando-os. Nas culturas manuscritas. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. Cada arte era. pp. e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. Quando. em si mesmo e na mente. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. A obra de Harold Bloom. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. mas também nas obras filosóficas e científicas. convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. aritmética e tudo o mais. ela deliberadamente criou textos de outros textos. trata dessa angústia do escritor moderno.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. 225-269. Com a impressão. poucas dessas angústias acerca da influência . Ainda atada à tradição comum do mundo oral. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. gramática. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente.ma~érias em um dado campo. elas se tornaram uma espécie de choque. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. Uma matéria curricular ou "arte". memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ .). inteiramente separada de qualquer outra. 280).

pp. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. produzindo-os cada vez mais. alguns pontos precisam ser esclarecidos. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária .a "aldeia global" de McLuhan. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. 1977. 305-341). antes da escrita. ausência de preocupação). O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. Finalmente. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. é claro. pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. deve ser socialmente perceptivo. mediante a reflexão analítica. o rádio. Não obstante o que algumas vezes se diz. a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. Nesse momento. abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. 284-303. Porém. nasceu o "público leitor" . mas. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). que aumenta a entrega . Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. Em nossa época de oralidade secundária. O indivíduo sente que ele. À diferença dos membros de uma cultura oral primária. são ainda mais intensificados pelo computador. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. um verdadeiro público.Ong 1971. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela. E. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. porque alimenta um estilo novo. um maior entendimento tácito. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. como indivíduo. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. os povos orais tinham um espírito de grupo. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita. informações de todo tipo. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. faz com que eles se voltem para dentro de si. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. da qual se ocupa este livro. De modo semelhante. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. em outro. com o telefone. Além disso. o novo meio reforça o velho. mas evidentemente o transforma. Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia.e. 82-91). Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. assim como para seu uso. Além disso. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. pp. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. como se observou anteriormente. Assim. em seu favorecimento de um sentido comunal. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. 16-49. conscientemente informal. obtidas e/ou processadas eletronicamente. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. Como a oralidade primária. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. Ao mesmo tempo. pp. na verdade. decidimos que a espontaneidade é benéfica.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária".

e tudo isso sem equipamento de amplificação. mesmo assim possui um enredo. T 6 MEMÓRIA ORAL. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . o controle rigoroso. Nos debates LincolnDouglas de 1858. clara e verdadeiramente . As outras talvez ouçam mais oratória. Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. 137-138. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. cuidadosamente ritmado. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. redundante. para os objetivos presentes. obras filosóficas e científicas. de uma hora e meia. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. o segundo. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. que. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo.Sparks 1908. A oratória no velho estilo. acontecimentos religiosos. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. de certo modo. desapareceu para sempre. Assim. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). discurso descritivo. Ã narrativa podemos. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. narrativa. os guerreiros . respectivamente . A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. intercâmbios culturais e muitos outros. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja. Illinois. O público está ausente. O primeiro orador dispôs de uma hora. teatro. para citar apenas alguns. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias.mudanças na organização política. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além.lírica. ou pelo menos mais discursos. incorporar o teatro. oratória (puramente oral. durante o verão escaldante de Illinois.pois isso é o que eles eram. pp. além da mudança oralidade-cultura escrita. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . não era essa a antiga oralidade. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. cada um deles falando por uma hora e meia. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . invisível. Porém. Porém. Desses. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. 189-190). essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. historiografia e biografia. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. nascida da oralidade primária. Esse tratamento da narrativa . Obviamente. outros acontecimentos na sociedade. inaudível. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada.

ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram. a narrativa é. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações.gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. Máximas. 1963). as histórias sunjatas do antigo Mali. A narrativa. são breves. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. As genealogias. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. enigmas. isto é. possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas.senão todas . as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. em uma cultura oral primária. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. que são razoavelmente duradouras . Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. A lírica tende a ser breve. O mesmo ocorre com as outras formas.o que. ou ambas. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. nas quais não existe texto. usam histórias da ação humana para armazenar. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. tópica. extensas. psicológicos e estéticos e outros mais. Em um certo sentido. Ele se aplica a uma situação específica e. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. assim. As fórmulas rituais. Assim. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. que podem ser extensas. Em um laboratório científico. com um atenção especial a complexos fatores sociais. Com base na narração. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. Em primeiro lugar. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. Em segundo lugar. Por trás de provérbios. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. Em uma cultura escrita ou impressa. encaixada no fluxo temporal. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. A grande maioria das culturas orais . as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. Embora seja encontrada em todas as culturas. em certos aspectos. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. na total ausência da escrita. significa formas passíveis de repetição. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. mais ou menos cientificamente abstratas. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. mas. apresentam apenas informações altamente especializadas. no geral. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . Nas culturas orais primárias. em toda parte. que podem ser relativamente extensas. cf. muitas vezes até as mais abstratas. aforismos. uma ocorrência ad hoc. em uma cultura oral. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. como sublinhou Havelock C1978a. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. especulações filosóficas e rituais religiosos.

com começo.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. Esse enredo.salvo em trechos curtos .uma localização significativa para tal enredo.pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. especialmente quanto ao funcionamento da memória. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". aprenderam cada vez mais a contar . 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . que. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. Não obstante possa ser esse o caso. Poética 1450b). durante séculos. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. não foi construído desse modo. nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal. "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". mostra uma melhor compreensão do teatro. Em sua Arte poética. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . A exegese do poema épico oral por letrados. não estava disponível sem a escrita. meio e fim (Aristóteles. eleva-a a um clímax. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. Na verdade. o poema épico. em uma cultura oral. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas. desde o começo. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. uma vez que o teatro grego. no passado. o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. por motivos óbvios. o que.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". na verdade.e. do tamanho de um poema épico ou de um romance. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. do que do poema épico. ao As palavras de Milton mostram que ele. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. descritas no capítulo 3. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa. e é seguida por um final ou desenlace . Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. 1451a e alhures). muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. muitas vezes detalhadamente. como ela surgiu. após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. pp. uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. 148-149).e. embora apresentado oralmente. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. dificilmente leva a sua justa avaliação. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. Assim. A antiga narrativa grega oral. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo.

em primeiro lugar. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. não todas . e não a pirâmide de Freytag. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . pp. Por que razão esse enredo long.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. na ausência da escrita. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry.embora. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). na vida manobra conscientemente planejada. o todo possui uma progressão. e. O ambiente mais amplo no . Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. mas porque eram forçados a isso. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta. era mais ou menos episódica . mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. Não tinham nenhuma escolha. na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos. Por que toda narrativa longa. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista.salientados. mas sem a escrita. em uma dada circunstância. entre outras coisas evidentemente. e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. Sua excelência estava. Não havia uma lista dos episódios nem.o progressivo surge apenas com a escrita. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo. Theodor Bergk. nenhuma alternativa. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. primeiramente no teatro. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas . 432-433).e o mais natural . antes do início do século XIX. faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. natural. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. no qual não existe narrador. iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. Na oportunidade seguinte. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. é claro. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas.pelo que sabemos. mas o procedimento original. final perfeitamente esclarecido. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. ele poderia estar certo de que. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. o poema épico não possui enredo. descoberta e reversão requintadamente metódica. em segundo. e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. Além disso.tensão sempre crescente. sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita.

p. e até mesmo para si próprio" (1975. 174). finalmente. ora em prosa. irá normalmente de início hesitar. por exemplo. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. com um ou outro acompanhamento coral.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). 176). muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados. Fundamentalmente. Quando um bardo acrescenta novo material. pela experiência atual. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. na medida em que guia o poeta oral. em suas numerosas notas. assim. a memória. como um artista. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. Como resultado de uma seqüência de eventos. E de fato. agregativo. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos. p. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. ele narrou todas as histórias de Mwindo. Candi Rureke. desejam que ele cante (1975. particularmente em seu caráter aditivo. para esse público específico. Ele os recorda sempre de um modo diferente. quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. pp.. Não obstante. Muito provavelmente. inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . ele o processa da maneira tradicional. ficamos totalmente encantados com a . outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. Já que insistem . provocando assim renovadas solicitações até que. 216). ora em verso. 172-179). à narrativa oral em culturas de todo o mundo. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). a situação no fim é subseqüente ao que era no início. em diferentes aspectos. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. p. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. enquanto três escribas. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. O poema épico oral (e. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. Evidentemente. dois niangas e um belga. recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. pois não existe tal coisa. por extensão hipotética. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. em seu conservadorismo. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. p. 14): nunca. 216). O po. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. sua redundância ou copia e sua economia participativa. A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. protestou ele. registravam suas palavras. em uma seqüência cronológica perfeita.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. (Sabemos. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. em toda narrativa existe algum tipo de enredo.recordando não um texto memorizado. "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira.eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. conforme ele é aplicado à composição escrita. p. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. Ao trabalhar com essa interação.. nessa ocasião. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke.

Fora do teatro. Hoje. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. para livrar o enredo desse molde. à época de Safo (c. Sob o olhar do autor. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. a subordinação da voz ao episódio continuou forte. p.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag. A impressão. Porém. pp. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. de modo que o . Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. o texto exibe o início. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. revisão e outros tipos de manipulação. e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. Evidentemente. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. a escrita já estava estruturando a psique grega. 53-81). em uma cultura oral. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. 600 a. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. O teatro grego antigo. Porém. Como vimos. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita.c. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. mais tarde. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. como já se observou. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. de início. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag.). aquele que faz o texto. Foi o primeiro gênero . imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. Paradoxalmente. embora o teatro fosse apresentado oralmente. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977. em vez do velho enredo episódico oral. na narrativa como tal.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. pode trabalhar com base em notas. definida pelo fechamento. Em virtude de um controle consciente crescente. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. O mundo da impressão gerou o romance. até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. como vimos. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. 221). agora propriamente um "autor". desapareceu sob as vozes de seus personagens. o meio e o fim. a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso.e durante séculos o único .

não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. antes de qualquer outro. como Thomas J. o código é em boa parte tipográfico. na mente de seu seguidor. Posteriormente. p. Farrell ressaltou uma vez para mim. seria inacreditavelmente precoce -. porém abundantes em material impresso. a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. Na história de detetive ideal. caracterizado por suas explorações exteriores. . tudo o mais se ajusta. mas para leitores. Com os documentos. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. em primeiro lugar. A "inflexão interior da narrativa". o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. ouvintes. o Tom fones de Fielding. é exemplificada aqui com notável clareza. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. Em O escaravelho de ouro (1843). O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. em algum lugar. e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. as quais. Sherlock Holmes já imaginara tudo. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. são incineradas. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. que não possui uma organização fechada tão meticulosa. As "histórias de detetive" chinesas. têm algo em comum com a narrativa de Poe. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. são impronunciáveis. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. integralmente. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. O protagonista do narrador oral. Um escritor de história de detetive é. "A letra mata. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. mas também de sinais de pontuação. de um modo requintado. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). embora o texto seja manuscrito. cada um isolado em seu próprio mundo. até o clímax e o final. E. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. A própria reflexividade da escrita .reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. composto não somente de letras do alfabeto. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. o mistério da pessoa de Aspern. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. passando por Dom Quixote de Cervantes que. se esfuma. de outro modo. e o final desfaz totalmente o emaranhado . quando comparada com a velha narrativa oral. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. publicado em 1841. na mente de um dos personagens e. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. como as Aventuras de Pickwick. Uma vez solucionado o problema textual. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. depois. Não raro.cada detalhe da história revela-se crucial e. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. na expressão de Kahler (1973). iii).narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). como se viu. misturando seus textos com "poemas longos. realmente enganador. A narrativa estruturada piramidalmente. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. não-fonológicas. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. alcança seu auge na história de detetive. no fim da história. especialmente o leitor.

Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. posteriormente. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. mas como um constituinte da ação humana. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. com a passagem do tempo. Scholes e Kellogg 0966. A história compactamente organizada. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu. pp.M. classicamente urdida. e esse fato é expresso simbolicamente quando. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. na verdade. Forster 0974. a tradição teatral grega. que podem desabrochar no romance. 46-54) _. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. Watt 0967. a impressão fizeram com a velha economia noética. ao contrário.para empregar o termo de E. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . Brer Rabbit ou a aranha anansi). Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". como vimos. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. o personagem plano. em outras culturas. O surgimento do personagem redondo. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. dependeu de um grande número de evoluções. Quando se estrutura em memórias e ecos. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam.A escrita. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. Nas últimas décadas. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. Agave. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". Em torno de Ulisses (ou. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e.o detetive. caracteristicamente letrada . como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. em torno de Nestor. resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. mas. p. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. surgem em um mundo dominado pela escrita. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. domésticos. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . Oposto ao "redondo" é o "plano". o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. que agem de modos à primeira vista inesperados. originário do romance. isto é. demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. no fim. pp. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. . o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas.

como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson. o entendimento psicológico. Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . como vimos. Desde Freud. (N. e principalmente o psicanalítico. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". Allworthy ou Square. fosse uma atividade partilhada). isto é. na verdade. na mesma época. personagens abstratos. após o advento da era romântica. 461). O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. a síntese de personagens-tipos. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. quando. assim também. como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. e. de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. obscuro. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. citados por Watt. A história dos personagens-tipos . O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. na maioria das vezes.já encontrado em Defoe. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. as culturas escritas podem na verdade gerar. e até mesmo por vezes Jane Austen. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos. e atinge seu auge no romance. De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. os personagens "redondos" do romance clássico. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. e os atribui à formação calvinista de Defoe. em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. "livre de ligações amorosas".personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino". em certos aspectos.TJ •• "Pândega". enquanto simultaneamente a transforma. Defoe.· As culturas posteriores. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971).de motivação profundamente interiorizada. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente. Porém. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. (N. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano. nos católicos. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes.) . que se servem de virtudes e vícios abstratos . de um tipo inacessível ao povos orais. eletrônicas. e nas peças cômicas do século XVII. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. pp. observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". Elas absorvem a psique no pensamento concentrado.ainda não foi contada. p. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. A escrita e a impressão. como em Kafka. de alta tecnologia. "nobre".assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . "antiquado". após a chegada da impressão. Dos mundos privados por elas gerados. que. Heartfree. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. Miller e Johnson 0938. pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. Richardson. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média. Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. não como Aquiles. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967.T. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. interiorizado. ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). De fato.19-2l). exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo.

Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. mas também do presente. essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. organizada para preservar a "linha" de descendência. e assim por diante. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. Porém. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. também romancistas. Hawkes . incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. psicológicos e outros mais. mesmo razoavelmente. impensável em uma cultura oral. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. a tecnologia avançada. na verdade . ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. Porém. Em ambos os casos. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. A enorme quantidade de conhecimentos históricos. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. Apresentarei a questão na forma de teoremas. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. Muito pelo contrário. pois é impossível abrangê-Ios integralmente. da impressão). Mas. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. exigia-se a organização textual da consciência.mas somente alguns. de afirmações mais ou menos hipotéticas. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica).significativo. posteriormente.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. Nas universidades de Oxford e Cambridge. de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). um texto. pp. nos anos 30 e 40. 22-34). mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior.para o autor. A Nova Crítica. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. 177-205). comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna.Hawkes 1977. O latim. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. vernacular. colocado por seu autor em um determinado tempo. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. embora perspicaz. está ipso facto relacionado a todos os tempos. 155). que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. p. e fundado no estudo da retórica.embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. Tillyard 1958). em parte porque. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos. ainda que complexo e eruditamente compreendido. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. A crítica anterior de obras vernáculas. Os estudos de textos. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. pp. isto é. sua psicologia. a Nova Crítica estava em gestação . que aspiram a esse meio aristocrático. que eu saiba. pela engenhosidade. Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. e não mais uma língua materna. às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse). os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. Nos anos 30. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. dessa perspectiva. desde o início. mais livremente oral. Roland Barthes (Hawkes 1977. como vimos. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. ocasional e muitas vezes amadorística. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. um texto literário em latim. A própria Nova Crítica. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. para ter sentido deve ser interpretado. desenvolvido na era romântica. As implicações são enormes.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. reportado ao mundo do leitor . a saber. durante mais de um milênio. Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . pp. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. até então. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo. Nessas condições. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. . Nunca. era extra-acadêmica. pp.

Esses críticos-filósofos. p. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. Lord e particularmente Havelock e Peabody."Homero se distrai". Lord 1960. 179). 179. que derivam em grande parte da tradição husserliana. xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. em Pierre Macherey (978). Além disso. tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. por exemplo. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos.T A análise estruturalista. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada. Os declamadores. Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry.uma especialização significativa.todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador). assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. particularmente . como esses. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. de Lévi-Strauss. é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). Roland Barthes. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. de certo modo (Peabody 1975. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . por exemplo. O "fio" narrativo direto. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). A composição oral trabalha com "núcleos informativos". nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. as estruturas binárias. De modo análogo. Estudos sobre a oralidade. na antiga narrativa grega de proveniência oral. muitas vezes cruciais. 235 e passim). Hawkes 1977. p. p.não conseguem. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). Tzvetan Todorov. que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". pp. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. Pode haver conexões sutis. 109). 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. embora os temas o façam. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . Porém. especializam-se em textos e. são perseguidos por distrações. explicar por que uma história é uma história. 457-464. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). morfema etc. principalmente AJ. e não em explicar o passado em seus próprios termos. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. como evidenciou Peabody 0975. na verdade. treinado em técnicas de digressão e de flashback. como. pp. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. Cohen 0977. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . Greimas. apóiam-se . 235. ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. que não se adaptam ao padrão binário. improvisação ad hoc). pp. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. assim.

ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. como ele os chama. Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. usam a linguagem de forma representacional. calorosamente humano. porque A não é B. que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique. Além disso. por outro lado. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. Sollers. visualista. Por outro. especialmente no caso de PIarão. Poucos duvidarão. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. como agora podemos perceber.Si' em exemplos específicos. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. mas era isso que ocorria. portanto. como os denominei aqui. Derrida denuncia essa metafísica da presença. assim. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. segundo os textualistas. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral. na verdade. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. abstrato. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. p. da imitação. Platão podia formular seu fonocentrismo. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. Contudo.e inevitavelmente -. também objetos deste livro. 74). Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". 241-254) discute a obra de muitos textualistas. e sua estrutura não é a do mundo extramental. Todorov. na República. isso não quer dizer que. ou estruturalistas. quando. Em sua forma mais extrema. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. todos provenientes do romance do século XIX. exato. porque representam o antigo mundo oral. e mostra que. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . mas uma realização totalmente diferente. à maneira de um tubo condutor.momento em que os processos mentais. disperso. mnemônico. ela não se refere a nada . agregativo. pela primeira vez. Julia Kristeva e outros).ou não significa nada. Paradoxalmente. elas próprias. p. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. Ix). A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. incluindo o seu próprio . Em virtude dessa insistência. a própria linguagem .ousam mencionar a comunicação eletrônica). PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. T No entanto. pp.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. Uma vez que não se refere a algo. pp. o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. Jacques Derrida (1976. como observa o tradutor de Macherey (1978. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados.Ong 1967b. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente. participativo . rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. O resultado final. verboso. prolongadamente seqüenciais. é que a literatura . pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas. de modo claro e . redundante. como mostra Havelock.e. expulsa oS poetas.um mundo antipático ao mundo analítico. é fonocêntrico. Por um lado. ele o faz. p.quando muito . que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. portanto. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. no Pedra e na Sétima Cana. tal como as colocam os textualistas. A não seja nada. na verdade . Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. 252). para Derrida. A linguagem é uma estrutura. essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. que. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". tradicionalista. isto é. Culler 0975. pacientemente analíticos.

Mnemosine. chamei sua atitude não de logocentrismo. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. ainda está estranhamente limitada ao texto. se todas as implicações num poema forem examinadas. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. Na sua dialética ou lógica. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. Como propõe Hartman (1981. filósofo e reformador do ensino francês. Os textualistas. Essa tese reside em mostrar que. mediante uma implicação inevitável. e não o enunciado oral. Hartman chamou a atenção para a ausência. pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. and the decay o/ dialogue [Ramus. method. que moldam nossos processos mentais. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". uma correspondência literal grosseira entre conceito. historicamente isolada. Os textos são um fundo falso. p. As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia". então deveríamos T compreender o fundamento . discutível. Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável. atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. mas tomava o texto impresso. em qualquer das exposições de Derrida. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). é a mãe das Musas. As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão.que pode ser extremamente excitante. uma espécie de realismo grosseiro. nasciam da memória. por brilhante e de certo modo útil que seja. o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo.não podemos descartar os textos. pp. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. que eu saiba. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. de ofuscação refinada . mas podemos compreender suas deficiências. método e o declínio do diálogo) (1958b.. textual. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. Sem o textualismo. . a oralidade não pode sequer ser identificada. "Se o pensamento é para nós. L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". o texto é fundamentalmente pretexto . pelo menos as nossas línguas ocidentais. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma.. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. Na verdade. diria (escreveria) eu. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. p. para os antigos gregos. 32). como ponto de partida e modelo para o pensamento. p. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. cada um à sua própria maneira. Porém. que nunca chegava realmente à palavra falada. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido.. como se o texto fosse um sistema fechado." Ou. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. sem a oralidade. acrítica. de todas as ideologias. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. Geoffrey H. Linguagem e pensamento. até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. mas de "epistemologia corpuscular". A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. hoje.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. 66). A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. no rIÚnimo.embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. 203-204). e não Hefaístos. Em Ramus. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". esta é a mais limitada ao texto. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. 35). Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. e não com as presenças de "idéias" reais. no século XVI (Ong 1958b). palavra e referente.

cumprimento. promessa.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. da oralidade primária. ameaçar. Norman Holland. como já se observou. tais como medo. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. cumprimentar. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. falante e ouvinte estão presentes. Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. ao passo que. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. numa cultura oral. Winifred B. Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. assim como outros atos ilocutórios não significam. p. utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. assim como importantes implicações teóricas. asseverar. Stanley Fish. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . Até mesmo atualmente. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. Se fossem. que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. um diante do outro. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. passando pela oralidade residual.P. Grice.por exemplo. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). convencimento ou encorajamento). de produzir uma estrutura de palavras). protestar. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". poderiam revelar que prometer. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. como a oralidade primária. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. por exemplo. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). responder. 400). Michel Riffaterre e outros. na comunicação oral. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. ordenar. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. Para se adaptarem a elas. Searle e H. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. no entanto. afirmação. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas.L. As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. Austin. John R. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. a mesma coisa que numa cultura escrita. . Até onde sei. além de incluir seu conceito de "implicatura". É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. dentro de certas subculturas. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. David Bleich. Uma outra abordagem da literatura. Contudo. até a cultura escrita de alto grau. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone).

como a Arte retórica de Aristóteles).Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. aguda e duplamente crítica. A antropologia e a lingüística. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. A filosofia. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. A existência da filosofia.isto é. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. passamos para a história da consciência. A sociologia. embora escrita. através dos séculos. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. em termos de fatos "aumentados". a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. A descoberta crítica do eu. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. assim como a de outros. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). sentiu esses efeitos de forma menos forte. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. os estudos bíblicos tornaram- . ao que parece. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. como vimos. seriam impossíveis. é resultado não apenas da escrita. Em suma. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. Atualmente. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. um tipo especial de produto essencialmente humano. a história. criticamente. de sua condição de produto tecnológico . no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. até o momento. depende da escrita. desassistida. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. É muito provável que um estudo. em seu início. O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral. mas também da impressão: sem essas tecnologias. como Lívio. nuançada de forma mais complexa. a filosofia . a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. destituídas do conceito de "justiça" como tal. pois. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. incorporada aos próprios processos mentais. deveria dar-se conta. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. Por que meios? Tanto quanto sei. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. no sentido de que a mente as produz por si mesma. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas.

Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. Mas. nas habilidades tecnológicas. . Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. Numa série de conferências feitas no rádio. dessas abordagens bem-intencionadas. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW.se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . sugerindo um viés quirográfico. mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. Tbe mind ofprimitive man (922). p. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. na organização política. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. constitui ainda um atributo negativo. a oralidade não deve ser menosprezada. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. nos meios de transporte. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita".primeira edição francesa. e nunca foi. citada repetidas vezes neste livro. pp. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. porém essencialmente limitadoras. são pesados. Os termos "primitivo" e "selvagem". por exemplo.muito citada . como notou Werner Kelber 0980. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. Ia pensée sauvage. O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. 15-16). Tbe oral and the written gospel. Evoluções na produção de alimentos. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. contudo. 1983). É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. mas são em número cada vez menor. não apenas em conversas informais ou de salão.) No entanto. resistem à cultura escrita. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. (Alguns indivíduos. aborda de forma direta e de frente. mas de correlação. no comércio. a Odisséia. "Sem escrita". Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. os estudos bíblicos. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". ou está tomando. nas práticas educativas. na organização familiar. A ligação não é uma questão de reducionismo. A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos. publicadas posteriormente. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. a impressão) a causa única de todas as mudanças.de Lévi-Strauss (1966. pela primeira vez. 1962). apontando uma ausência ou uma deficiência. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. para não falar de "inferior". nas instituições sociais. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. é claro. e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens". como outros estudos textuais. menos ofensivo e mais positivo. A principal obra de Kelber. A afirmação . para mostrar que não o somos. A oralidade não é um ideal.

Para falar. No modelo do meio. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. Em segundo lugar. Retiro dela uma unidade de "informação". nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. Porém. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. A comunicação humana. Mas quando se fala. isolado de pessoas reais. afetaram essa mudança. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. Por isso. evitou-se o termo "mídia". Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". muitas vezes de forma muito profunda. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . nas quais a fala está mais orientada para a atuação.foram elas próprias afetadas. verbal ou não. Na comunicação humana real. com o que meu discurso possa se relacionar. pelo menos de maneira vaga. A comunicação é intersubjetiva. o título desvirtuado do livro de McLuhan. assim como das outras formas de comunicação humana. pois nenhum receptor (leitor. na maior parte deste livro. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. "O . íntimo. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana.vida humana. Para falar.já "em mente".ou outras pessoas . de um lugar para outro. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. essas evoluções. o texto escrito parece. na verdade. Em primeiro lugar. intersubjetivo. codifico a unidade (isto é. A comunicação humana nunca possui mão única.e. muito provavelmente todas . ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. tornando-o irreconhecível.ou várias. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. em sua grande maioria . que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. a fim de iniciar minha mensagem. por uma troca de olhares. preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. É esse o paradoxo da comunicação humana. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. ou de outras inúmeras formas. algo entre duas outras coisas). por seu turno. chamado "mente". Durante todo o tempo. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. isto é. ouvinte) está presente quando os textos nascem. difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. do contrário não se produzirá um texto: portanto. assim como quando se escreve.ou a outras pessoas. O modelo "mídia" não é. ela não apenas exige uma resposta. ser uma rua de informação de mão única. algum receptor deve estar presente. para ninguém. o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. porém. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). a "informação" passa para a outra. para uma maneira de fazer algo para alguém. Minha mente é uma caixa.) Tenho de perceber algo na mente do outro. Porém. devo ter outra pessoa . à primeira vista. das possíveis respostas que eu poderia prever. o escritor invoca uma pessoa fictícia . Por isso. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. De uma ponta do tubo. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. e ele precisa estar dentro de minha mente. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. a fim de que possa ocorrer. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. Para formular o que quer que seja. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. assim como muitas delas.

Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). a Bíblia. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. na qual. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. Nesse ensinamento. mas também como a Palavra de Deus. pessoais. a maioria das quais jamais se conhecerá. profundamente pessoal. Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. a consciência nunca alcançaria sem a escrita. pois. o Corão. por conseguinte. elaboradamente expressa. mas também uma unidade maior. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. qualquer receptor real está normalmente ausente . A escrita eleva a consciência. central em Fichte. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. que se torna visível em Kant. Devo conhecer a tradição . Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. 54-81). a Bíblia.do contrário . exprimindo-as de forma elaborada. no ensinamento cristão.a intertextualidade. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. Onto e filogeneticamente. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. atinge as profundezas da psique. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. é conhecida não somente como o Filho. e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente. A escrita introduz divisão e alienação. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. Para um escritor. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. Contudo. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu. Porém. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. Ésquilo. ser único e não duplicável. No entanto. segundo parece. até mesmo a hebraica. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. Ele não o escreve. se assim quiserem .embora não necessariamente de sua separação . Desenvolvimentos mais longos . as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. O processo é complexo e repleto de incertezas. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. na qual ninguém nasce. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. No ensinamento cristão. pp. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. seu Filho. que redimiu do pecado a humanidade.

Deus é um autor. como enciclopédias. Nos casos em que. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. mas inclui algumas em outras línguas. muitas obras pioneiras. A fim de evitar um número excessivo de indicações.humanos. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. por algum motivo. mais do que em qualquer outro escrito. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. as culturas africanas). não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. . A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. julgou-se necessário. acrescentamos comentários. Além das obras citadas no texto.

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Northrop 22 Gelb. Ian 102 Magoun. JE. Bronislaw 42. sir Thomas 138 Eoyang. 192 Hawkes. 145 Jakpa. 29 Elyot. 109-110. 26-28. Terence 152. Georg Wilhelm Friedrich 193. 137. E.E. 91. sirIsaac 131 O'Connor. 37 Malinowski. 177 Culler. 58-59. Julia 187 Kroeber. 121. Garrick 15 lVIaranda. Perry 172 Milton. Clémentine 50 Farrell. Nathaniel 177 Haymes. 180 McLuhan. 18 Cortázar. C. ThomasJ. Vicesimus 25 Kristeva. 79. 52. 172 Derrida. 148. Norman 191 Holoka. 163. 32. 37-38. Henry 168. John H. 104 Douglas. E. Ruth 17. Franz 173 Kahler. Jack (john Rankine) 14. Marcel 29-30. 14. 38. 35. Thomas H. 16 Chaucer. 114-116. Daniell68. 169. Nikos 178 Kelber. René 86 Dickens.M. Jonathan 187 Culley. 137. 45-46. 29 Durand. 163. 194-195 Lévy-Bruhl. 160. Richard A. 180-182. William 18. 172 Jonson. Okpewho. Charles 132. Robert W. 37 Homero (poemas homéricos. 125 Hockett. 170 Foucault.L. 199 Kaltmann. Martin 95 Luria. 93. Michael 65. James J 126 Mwindo. 179 Frye. George 147 Hesíodo 162 Hirsch. 57. Winifred Bryan 190 Howell. Eric A. 121. 171.75-76 Fish. Edmund 185 Iser. Gerard Manley 146 Horácio (Quintus Horatius Flaccus) 96. 16. Robert P. 74-75. 26 Holland. Stéphane 147 Mallery. 124. 177 Nelson. 60. Antoine 163 Merleau-Ponty. Marshall 14-15. Geoffrey 119 Chaytor. Robert Hans van 168 Gumperz. H. 37-38. 143 Defoe. 194 Cummings. E. 105-106. R. 184-185 Hawthorne. 94 Champagne. 15 Eduardo I da Inglaterra 113 Eisenstein. 34. Edmund 60 Leakey. Madame de 163 Lacan. Ignace 99. Mervyn 109 Meillet. 82 Mallarmé. 194 Emmanuel 55 Isidore 15. 190 Grimm. William 120 Jaynes. 184-185. Ben 172 Jousse. Munro E. AJ. François 28 Hegel. 105 Gibran. Soren 199 Kiparsky. Hermann 193 Guxman. Wilhelm 26 Gulik.150. Eugene 38 Erasmo. 20. M. Elli Kbngãs 14 Maranda. 165. Walter 140 Crosby. 101. 194 Lewis. 185 Grice. Einar 14. Marco Túlio 27.M. 97.R. 127 Leach. 39. 187. 125-126 Lincoln. Pierre 185-186 Mackay. 89 Lowry. 26. 54. Catherine 14 Michael Patrick 14. Wolfgang 176. 56 Ésquilo 198 Essien. 170 Kafka.56. Albert B. Talmi 48 Goldin. 71-74. 136. Henry 169 James. Abraham 156 Lívio (Tito Lívio) 192 L1oyd. Paul 79 Knox. 64. 158. H.48. 128 Lord. Nora Kershaw 19 Chafe. Jacques 185 Lang. Francis James 26 Churchill. Murray 19. 45. 51. 16. Jacques 89.S. 141. 171 Kennedy. Ndewura 59-60 James.B. Desidério 25. Gustave 174 Foley. L10yd s. 50. 160161 Horner. 189 Miller. Karl 149 Eadmer de Canterbury Eckvall. 165. 109-110. 185-188. 60 Hartman. David 60 Henrique VIII da Inglaterra 150 Herbert. Immanuel 199 Kazantzakis.Chadwick. Michael 176 Daly. 37 Cronkite. Elizabeth 135. Robert 159. O'Connor. Gerhard 146. Gilbert 128 Dykema. 38. 97. 162. Francis P. Stanley 191 Flaubert. Frederick 18 Goody. 99 Lévi-Strauss. James 65 Fichte. 198 Henige. 14-15. Andrew 26 Lanham.P. Kahlil 36 Givón. Thomas 56. 123 Hadas. 100. 191 Descartes. 155. 177 Cícero. 38. George A. 172 Finnegan. 55. 33. 184. 61-62. Kahombo C. 147 Curschmann. M. Patrick 179 Eurípedes 151. 143 Cohen. 156 Düntzer. 168 Diringer. 38. 136. 14 Gunkel. 95. 101. Robert C. Sigmund 173 Fritschi. Stephen A.35. 14. István 177 Hardouin. !vlichel 185 Freud. 179 Femandez. 78. 81 Joyce. Lucien 61. 153. William M. Thomas Babington 52. 35. 176-177 Neumann. 199 Cormier. 175-176. 196 McPherson. Pierre 14 Marcial (Marcus Valerius Martialis) 149 Mateene. Ruth 132. 177 Macherey. John Miles 14. Raymond J. 187. Erich 199 Newton. 198 . Werner 194 Kellogg. Erich 168. 121-122. Joseph c. 144. A. James 39. 176 Hédelin. John 177 Macaulay. 104 Corão 122. 81. 146 Greimas. Richard E. Wallace L. 110-114. 126 Kierkegaard. 137. Henry John 14 Child. Júlio 166 Creed. Roland A. James P. 122 Clanchy. C. Hannah 14 Kant. 5354. Johann Gottlieb 199 Fielding. Moses 176 Hajnal. 37. !'vIaurice 85 Miller.. Claude 39. John 160-161 Murasaki Shikibu. 146 Eliade. padre Jean 28 Harms. John William 76 Johnson.D. Jurij 16. Obiechina. 178. 76. 15 La Fayette.120. 176 Forster. 83. 184-185 Lotman. 191 Ivins Jr. 185 Cole. 60 Edmonson. 132-133 Husserl. 69 Lyly. wilbur SamueI126-127. 185 Hopkins. 146. Mircea 87 Ellendt. James 26 Meggitt. Alexander Romanovich 58. épico grego) 10. David 99. Julian 39-40 Johnson. 123 Havelock. 171. 141-142. Jacob 26 Grimm. 36.T. lady 163 Murphy. épico 32. Edward R. 188 Haugen. Winston 52. 165 Nashe.E. G. Geoffrey 148. 109 36 Faik-Nzuji.

Olson. Sylvia 65.H. 122. 184 Parry. George 136. Robert 159.114. 37 Sherzer. 42-43. Rei 108 Shakespeare. Deborah 36 Textor. sir Philip 177 Siertsema.H. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. 46.58-59. 147. 110. 68-69. Edgar AlIan 163. Anne Amory 61. 184-185 Percy.100 Wilson. Waiter J. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. lady 163 Sidney. Samue1 172 Ricoeur. Lee Ann 127 Sparks. Tobias George 168 Sócrates 94-95. 130-133. 42 Sapir. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. Geoffrey 14. 187 Solt. Murasaki. Phillippe 185. E. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. 168-169 Potter. lvor 110 Wilson. 18. Adam 15. 123 Ong. ]effrey 56. 14-15. 120. Andrew H ~Sl 162-166. 171 Scribner. William C. 33-34.182-183. Morton 98 Sweet.]. Peter 59 Opland. lona Archibald 59 Opie. Monica 59 Wolf. Michaell91 Robbe-Grillet. ]oel 75-78 Shikibu. 37 Subotnik.109. J. 29-30. 119. 96. 172.W. Hieronimo 95 Steinberg. 125-126. 26 Vaughan.191. P. David R. A. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker. William 172 Shannon. 36.71 Peabody. 126-128. Milman 14. 34-35. ]000 84 Usener. Edwin Erle 156 Spenser. 149. Denise 101 Scholes. Thomas 26 Peters. B. Paul 191 Riffaterre. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. 51. 187 Toelken. 75 Oppenheim. 94-97. 136-137. 27. ]ohn R. 171-172 Whitman. 20. Candi 57.80. 87. Friedrich August 28 Wood. 163 Parry. 93-94. 54. S. Richard S. 138. 36. Hermann 163 . 165. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. 169-170. 121. Emst 26 Pynchon. 49. 163. 59.198 Opie. 112. 190 Sejong. 15 Stoltz. Ferdinand de 13 Sawyer. Mary Louise 190 Propp. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers. Platão. 15 Smollett. Alain 166. 153-155. 187-188 Poe. Louis 79 Richardson.. 170 Rosenberg. 117-118. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard. Laurence 147 Stokoe ]r. 104 Searle. 162 Wilamowitz-Moellendorff. Malcolm 124 Richardson. 27-30. 109 153. 100. 179 Steme. Henry 14 Vachek. 36. 177. Robert 28 127 Tambiah. Benjamim A. 140. 185-186. Godfrey 59 Wilson. 121. Lev 61 Watt. 186 Rureke. 30-31. ]ean-]acques 91. loannes Revisius 143 Thackeray. 32-33. 188 Tannen. 106. 114 Scheub. Edward 0. lan 54. 144 Steiner. 179. 143. Bruce 38 Rousseau. Cedric M. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. Thomas 173 Pyson. 37. Edward 26 Saussure. Ulrich von 163 Wilks. 182 Todorov. Henry 96 Vico. Edmund 178 Squarciafico. Stephen 182 Pratt. Harold 81 Schmandt-Besserat. 180-181 Rudedge. 38. 167. S. Berkley 72. Tzvetan 185.188. 119. William Riley 182 Parry. Mary Ellen 147 Soooino.M.

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