tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

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25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

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175 201 219

Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. que eram dados como certos. O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. antes. não são inteiramente inerentes à existência humana como tal.e. .Nos últimos anos. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. na ftlosofia e na ciência . o tema é.estranha e por vezes extravagante para nós . o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. por definição. Ou. Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura. em segundo. o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro. têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita. As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. em primeiro lugar.

no Sudeste Asiático ou na Coréia). Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes. Estas. do rádio e da televisão. Nesse quadro diacrônico. caracteres chineses. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. pela comparação entre períodos sucessivos. depois. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. Nós . As questões não são apenas profundas e complexas. Portanto. em um estágio posterior.vasto mesmo -. e inicialmente apenas em certos grupos. religiosas entre outras. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. o esclarecimento não ocorre facilmente. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. políticas. ela também envolve a impressão. passado e presente. econômicas. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. reflexão árdua e afirmações cautelosas. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita. silabário japonês. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento.000-50. Universidade de Saint Louis . Não há "escola" de oralidade e cultura escrita.leitores de livros como este . que leva a escrita a um novo patamar.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. ou algo equivalente ao formalismo. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. é claro. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. Isso requer conhecimento amplo . em questões relevantes. O Roma sapiens existe há cerca de 30. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. mas. contudo. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. como na Índia. cuja existência depende da escrita e da impressão. embora também seja dada alguma atenção.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. à nova crítica. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. Porém. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. e a cultura eletrônica.o. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história.000 anos.000 anos atrás. como o rad~o e a televisão via satélite. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. mas também a cultura impressa. a oralidade dos telefones. que se apóia tanto na escrita como na impressão. em vez disso. em todas as ciências humanas e sociais. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos". apenas indiretamente dizem respeito a este livro. Wj. salvo como uma variante de um universo letrado. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. escritas) que coexistem num dado período.

. C. isto é. p. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral. 33).1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas.) utilidade. chamara a atenção para a primazia do discurso oral.. sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. Ferdinand de Saussure 0857-1913). o modo como a linguagem está enraizada no . surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. que sustenta toda comunicação verbal. Antropólogos. o pai da lingüística moderna. e não como transformadora da verbalização (ibidem). assim como para a tendência predominante. a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. até mesmo entre estudiosos. possui ao mesmo tempo "C . a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. observou.) defeitos e perigos" 0975. Desde Saussure. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais. A escrita.

Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . assemelham-se às línguas humanas (inglês. mas. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. Ainda hoje. Por mais rica que seja a linguagem gestual.). enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. no mundo sonoro (Siertsema 1955). Chaytor.faladas no curso da história humana. Ong 0958b. McLuhan 1962. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . 332). Não apenas a comunicação. perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. pp. Haugen (966). as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. eles têm uma linguagem. em certos aspectos. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. na maioria das vezes. que. recentemente. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . Todavia. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. o som articulado. bibliografia). mas nos estudos literários. Lord depois da morte prematura de Parry . abordaram os modos como a oralidade primária. que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz. Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . descritiva ou cultural. Não existem. fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. 1967b). mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita.1-9).assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral.concluído por Albert B. No entanto. por enquanto. se tanto. Mallery 1972. Na realidade. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). Okpewho 1979 etc. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. O livro de Jack Goody. assim como audição (Ong 1967b. paladar. Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983. num sentido profundo. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. Stokoe 1972). McLuhan (962). 323.som. Lord 1960. tem importância capital. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. a linguagem. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) . Contudo. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. já muito antes (945).a gestual. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. de todas as milhares de línguas . diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980).talvez dezenas de milhares . Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry. Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. por exemplo).e a maioria jamais foi escrita. pp. Onde quer que existam seres humanos. Havelock 1963. olfato e especialmente visão. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. Um contemporâneo de Saussure. Chafe (982). se essa afirmação é verdadeira. Porém. Havelock e outros. . a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. A oralidade básica da linguagem é constante. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita.

amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. pelo tirocínio. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. Todos os textos escritos devem. seus perigos. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. pp. assimilando outros materiais formulares. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. por exemplo -. pp. estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. aprendem muito. repetindo o que ouvem. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. porém não "estudam". em voz alta ou na imaginação. durante séculos e até épocas muito recentes. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. 1-7). A expressão oral pode existir .caçando com caçadores experientes. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. a espacialização da palavra. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. a palavra techne rhetorike. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. a não ser nas últimas décadas. mina. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. no sentido estrito de análise seqüencial ampla. A escrita. a linguagem falada. No grego original. rejeitou a oralidade. Quando o estudo. Os seres humanos. inclusive nas culturas orais primárias. 48-61.e na maioria das vezes existiu . apesar das raízes orais de toda verbalização. nesse processo. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. se torna possível com a interiorização da escrita. Eles aprendem pela prática . não afetadas por qualquer tipo de escrita. dependente de um sistema primário anterior. O estudo da linguagem. a palavra falada ainda subsiste e vive. quando muito. os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. entre os antigos gregos. mandarim. Hirsh 1977. shoshone etc. para comunicar seus significados. mas também centenas de milhares de significados passados. pp.sem qualquer escrita. possuem e praticam uma grande sabedoria. aprendem ouvindo. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. mas diretamente da consciência. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida. de algum modo. desde os mais antigos estágios da consciência. uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. nas culturas orais primárias. ver também Champagne 1977-1978). hábitat natural da linguagem. comum a culturas de alta tecnologia. muito tempo antes do surgimento da escrita. No Ocidente. Nos quatro cantos do mundo. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. 21. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. acerca de seus poderes. Todo pensamento. Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. que constitui um tipo de aprendizado. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". 43-48). Porém. No entanto. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. mas nunca a escrita sem a oralidade.sânscrito.). o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. das quais se conhecem não apenas os significados presentes. sua beleza. Mas o exame abstratamente seqüencial. reestrutura o pensamento e. malaio.

Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. Ong 1971. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). Desse modo. como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. Como observado anteriormente. de litera. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. mas consagrou-a.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. praticamente como o paradigma de todo discurso. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. uma vez que todas as culturas C . os discursos . 58-63. 27-28). Proferido o discurso. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. Acresce que.falar. destinadas à recepção direta da superfície grafada. • . vezes passaram a presumir. simplesmente textos. literatura infantil -. Desde a metade do século XVI. 56-58). letra do alfabeto). além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos. ou outras produções orais. designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. Desse modo. Bauml1980. muitas culturas e subculturas. Atualmente. passim). pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas.para não dizer menos desfavorável . adotaram essas suposições. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. pp. para todos os efeitos. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940.da arte oral como tal. até mesmo num meio de alta tecnologia. na Arte retórica de Aristóteles -. pp. a escrita acabava produzindo composições somente escritas. em diferentes graus. pelo rádio. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica.Ong 1967b. Contudo. mas como textos escritos. até mesmo o da escrita (Ong 1967b.por exemplo. Ahern 1982). o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . os estudiosos muitas . como as histórias orais tradicionais. Rhetorike~ ou retórica. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. a cultura oral primária. permaneceu.literatura inglesa. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. pp. o que durante séculos. os provérbios. sem referência. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . Nem todos. as preces. desde o início. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". como "arte" ou ciência refletida. com freqüência irrefletidamente. na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. praticamente não existe. consciente ou inconsciente. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. referente a uma herança puramente oral. as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. no sentido restrito. no fundo. Criou-se a impressão de que. e que as formas artísticas orais eram. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. Porém. não levou a oralidade a um encolhimento. um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. contudo. Cormier 1974. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. Goldin 1973. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. Porém. organizada . a escrita.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. Possuímos o termo "literatura". muito embora. à escrita. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas).

e provavelmente sempre . os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. isto é. Em vez de rodas. parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. A escrita. Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. Conseqüentemente . tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". Não é possível. algo chamado pêlo. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais.pondo o carro na frente dos bois -. exceto como alguma variante da escrita. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). mas de "automóvel". que tende a absorver outras. os cavalos serão apenas o que não são. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. ao menos vaga. O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. feno. além disso . Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. embora destinado originalmente a obras escritas. Uma pessoa pertencente à cultura escrita. todos os pontos em que diferem. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. como ocorre na tradição oral. "escrita oral". mas tão somente ao som. Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. sem se reportar a alguma inscrição. As palavras escritas são resíduos. descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino.embora com uma freqüência menor hoje -. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. digamos. quando usado inadvertidamente também causa problemas . Estamos.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. sem causar uma distorção desastrosa. mesmo quando nada têm a ver com ela. sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo.como veremos detalhada mente mais adiante . mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". que nunca viram um cavalo. 60 segundos. a começar assim. 16) que o termo "literatura". tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente .subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". É claro que se pode tentar fazer isso. quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). olhos. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. em vez de gasolina como fonte de energia. e assim por diante. No fim. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. talvez de forma obscura. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. p. Porém. explicando a leitores altamente motorizados. Ele discorrerá sobre cavalos. quando instada a pensar na palavra "contudo". Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. Na verdade. de trás para diante . terá alguma imagem. em vez de uma cobertura de tinta. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário.

desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador. embora. Na realidade. Contudo. pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. hoje. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. sentidas como "vocalizações". que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. é. o sentido mais comum do termo epos. ainda que não tão evidentes. Porém. que desejam ardentemente a cultura escrita. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. regras gramaticais escritas. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária.iguais. ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. As apresentações orais seriam. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. Mas. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". de alto valor artístico e humano. aos provocados pelo termo "literatura oral". Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. a perífrases explicativas . "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. mas também da história. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. na verdade. na verdade. Neste livro. "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade ."formas artísticas puramente orais". 293-303). "Texto". caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. como tecer ou alinhavar . da filosofia. Porém. assim. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. Nesse sentido. O discurso oral tem sido geralmente considerado. 248-250. Além disso. Hoje. A cultura escrita.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. em termos absolutos.rbapsoidein. o que elas efetivamente são. quando necessário. as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas. Em um mundo lingüístico desse tipo. mais compa. novamente. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). os dicionários são fundamentais. como veremos. e portanto está firmemente apoiada no vocal. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. cuja raiz significa "tecer". pp. por mais que se tente o contrário. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. o termo "literatura oral" está perdendo terreno. felizmente. ainda assim. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. até mesmo em ambientes orais. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967).como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz".o "sistema modelar primário" . no oral. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. wekw-. "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. sem a escrita.

a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral. até certo ponto.busca.cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. ditos. continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . a cultura escrita . Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro . verificou e combinou muitos provérbios. ou seu equivalente grego Eclesiastes. no mínimo.é também infinitamente adaptável. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10). mas de outros escritos. aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio. a menos que seja cuidadosamente monitorada. Muitos séculos antes de Cristo.forçosamente um estudo letrado. Ela pode também resgatar sua memória. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. até mesmo destrua sua memória . na cultura oCidental pelo menos. embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). e não uma apresentação oral.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível. atingir. embora seja significativo que." Pessoas de cultura escrita.. "Registrar por escrito . dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia"). Devemos morrer para continuar a viver.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. .. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas. da Idade Média e da época de Erasmo em diante. Felizmente.

como fazem Edward Sapir. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica". na Antiguidade Clássica ocidental. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia.especialmente J. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. os irmãos Grimm.O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. Freqüentemente. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. Hockett e Leonard Bloornfield. o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . ou semelhante à oral. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual. dando-lhe nova dignidade. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. Desde então. (Ver Adam Parry 1971. porque conhecia a escrita. p. da Antiguidade até o presente. no entanto. de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. Em . as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. O Círculo Lingüística de Praga . C. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. No início do nosso século agora já perto do fim. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. 34). ou talvez por causa delas. de forma mais ou menos direta.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. trabalharam com partes da tradição oral. consciente ou inconsciente. com diversas misturas de visões fecundas. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. desinformação e preconceito. centenas de colecionadores. Durante mais de dois milênios. Desde o início. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977.notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada.) Os homens de letras. estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. p. ou quase oral. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. embora. Mais do que qualquer estudioso anterior. como os mais exemplares. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. feita por Lang e outros. Cícero considerava como sendo ela própria um texto). cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. e não lastimável. Para explicar sua admitida superioridade. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. nehhuma outra parte. 77). Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. Vachek e Ernst Pulgram . e a demonstração. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras.

palavra por palavra. O axioma fundamental que dirige seu pensamento. Eles foram seguidos. Rousseau. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. pp. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. Düntzer. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). e M. Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. além disso. Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. considera um problema a mensagem numa tábula que. o falecido Adam Parry 0971. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. em leu Prolegomena. dos anos 20 em diante. ix-lxii) . Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. contudo. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. de 1795. Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. ainda estudante. muitas vezes literatos bem-intencionados. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. xiv-xvii). pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. 99-101). inevitavelmente. padre jesuíta e erudito. pp. acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. xix). como observa Adam Parry 0971. começou a formar suas próprias opiniões. argumentando. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). Robert Wood (c. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. no Livro VI da Ilíada. criações de todo um povo. na poesia oral de tais culturas. Com efeito. no início dos anos 20. Porém. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. Surpreendentemente. pp. mas necessariamente a criação de um só homem. iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). p. 1717-1771). Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. de certa forma. diplomata e arqueólogo inglês. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. O filho de Parry. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). no tempo de Pisístrato. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. Marcel Jousse. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. Belerofonte leva para o rei da Lícia. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. pelos unitaristas. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. François Hédelin. Mais importante. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. pp. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento. Jean-Jacques Rousseau (1821. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. até sua morte prematura em 1935. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. Murko reconhecera a ausência de memória exata.E. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. No século XVII. 163-164).uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. Ellendt e H. fora antecipada na obra de ].

a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). contrariavam esse pressuposto. pp. 1977.lamentavelmente. O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. ver Ong 1967b. mas não quanto às expressões. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. 166. era toda sua. 77. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. Em sua forma aperfeiçoada. também o estavam influenciando. moldá-Ios a sua própria "natureza". Porém. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. no começo dos anos 20. Indubitavelmente. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. xx). O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . A visão de Parry. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. pp.diferentemente em cada narração. pensava-s~. O Gradus fornecia frases ~pitéticas. Certas práticas. relacionado apenas ao "gênio" (isto é. dos poetas latinos clássicos. p. 147-148. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa". Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. de um modo ou de outro. era visto como tolerável apenas em iniciantes. todavia. 261-263. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. Os poetas. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. pp. A estrutura geral poderia ser sua. deveria. pois. 30. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. não deveriam usar materiais pré-fabricados. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971. juntamente comâs sílabas longas e curtas. 335-336). Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. é óbvio que as necessidades métricas. mas as peças já existiam. é verdade. assim como outras. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. sugestões que pairavam no ar nessa época. o poeta perfeito deveria ser . 178). 85-86. Pouco depois de Pope. como veremos. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. xxii). Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. Ora. apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928).absorvendo sua cultura oral. pp. p. no entanto. que haviam influenciado estudiosos anteriores. Esse tipo de procedimento. Para o romântico radical. 1971. e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas.

cada vez mais. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. no qual a fórmula ou o clichê. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas.. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. amados por todos os poetas tradicionais. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas.poetas transmitiam de um para outro. 49). foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. Pois os letrados são educados. a fórmula. o qualificativo previsível . costurar. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. não era um poeta iniciante nem medíocre. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos.como o precoce Mwindo. Este libertava a mente para um pensamento mais original. fórmulas devastadoramente predizíveis. Homero foi normalmente considerado perfeito. o clichê. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. necessariamente.). p. em boa medida com finalidades métricas. De qualquer modo. criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava".ou. que nunca fora inexperiente. Em vez de um criador. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. tais como a assembléia. até certo ponto. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. formulares. Na cultura oral. No entanto. uma vez adquirido.c.) A linguagem toda dos poemas homéricos. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. 115). (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. o desafio.c.algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita .como o próprio Deus. segundo o consenso de séculos. mas no texto escrito. . (Rhys Carpenter. na llíada e na Odisséia. mas um grego especialmente construído pela prática. que podia voar apenas saído da casca . Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. a reunião do exército. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores.c.adosteoricamente para desvalorizar. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça.. Homero. em princípio. agora conhecido.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). apud Havelock 1963. rematadamente hábil. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. o conhecimento. tinha-se um operário de linha de montagem. para nunca utilizar clichês. a saber. Era inútil negar o faio. poeta épico nyanga. "costurar cantos" (rhaptein. mais simplesmente. que os . por exemplo. p. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. O significado do termo grego "recitar". por volta de 720-700 a. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula. rhapsoidein. Mas. geração após geração. pp. por volta de 700-650 a. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. canto). a espoliação dos vencidos. a frase pronta. menos previsível era tudo o que houvesse no poema. mais abstrato. por volta da época de Platão (427?-347 a. oide. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. pareciam ser feitos de clichês. 68-98). eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. Além disso. eram obsoletos e contraproducentes.

hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. Bynum. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. 70) relata. A menos que indique claramente o contrário. filosofia depois de Platão defendeu era. O conceito da fórmula. na verdade profundamente antagônico. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. e passim). aparentemente um tanto surpreso. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. exatamente. p. eletrônica ou de impressão. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. como veremos. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. mumano de processar o conhecimento. Finnegan (1977. na história humana. p. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . indiferente a perguntas e destruidor da memória . 1). existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. a convencionalidade do estilo épico. E. p. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto.1978. 1. xxviii. a madeira rachada . ainda que. elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. no nível inconsciente e não no consciente. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. direta. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. xxxiii. XXXiii. as quais. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. no conceito de Parry. p. n. 18). U~ dos motivos para isso é que. na África Central e em outros lugares. em Parry. O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. "as noções de separação. 33-65). reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. p. ou a brevidade usual das próprias formulas. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. n. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. 145). profundamente interiorizada. sim. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. recompensa. p. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . mas. Por toda parte. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. Adam Parry 1971. de modo inteiramente genérico. À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. . pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. p. no mais das vezes. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. (Cf. 1). p. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia.embora. pp. como agora sabemos.1978. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. a despeito da inquietação de Platão. 272). em que a cultura escrita alfabética. pp. 11-18. Adam Parry 1971. a observação de Opland de . ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. como um modo mecânico. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. 13).

Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita. necessariamente. . em sua grande maioria. Clanchy relata como. Adam parry (1971. Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. quando os poetas xhosas aprendem a escrever. pp. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971. uma mimetização em manuscrito da atuação oral. Preface to Plato (1%3). _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável.. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . Os hábitos orais de pensamento e de expressão. em sua grande maioria. p. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). parece ser de início. ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Lord e Eric A. Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. pp. um tipo de discurso . 23-47). principalmente Robert Creed e Jess Bessinger. A primeira poesia escrita. Como se verá mais adiante. incluindo o uso predominante de elementos formulares. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. da antropologia à história literária. ainda no século XI. somente com o movimento romântico. Stolti' e Shannon 1976). na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida.atacado e revisto quanto a alguns pormenores.· de Havelock. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. por exemplo. Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou .que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. segundo a análise de Whitman. p.tenha s1d~ .que. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. Embora o trabalho de Parry .Tannen 1980a). em toda parte. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. 218). mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica.êm sido p~oduZidos por Albert B. dois séculos mais tarde. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. 490). o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. o grego . Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. Anteriormente. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. mas nunca a interiorizaram completamente. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. Na verdade. A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos.que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor). segundo um de meus amigos libaneses. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. . que vêem como originais ditos proverbiais que. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. PIarão estava.a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b.poético ou não . Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. Havelock. caixas dentro de caixas. Ao excluir os poetas de sua República.

podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita.fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. demasiado loquazes para alguns leitores. de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. pp. A estas ele denominou "sondagens". "O meio é a mensagem". os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. E outros estudos especializados estão agora surgindo. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. analítico). John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral". x-xi. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. xvü).que. Jack Goody (977) mostrou. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. vozes que o hemisfério esquerdo . umas poucas conexões importantes já foram feitas. Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). p. Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. mas também a outros. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. Por exemplo. Lord e Havelock. Numa obra mais recente.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. por meio da cultura escrita e da impressão. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. de modo convincente. Eu havia anteriormente sugerido (1967b. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). Recorrendo não somente a Parry. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. e da Antiguidade aos dias atuais. em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas.verdade. Sua afirmação gnômica fundamental. Ao introduzir vogais. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos. de executivos e do público informado de um modo geral. O alfabeto original. raramente . do contrário. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. inventado pelos povos semíticos. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). para a mídia eletrônica. em sua obra magistral e judiciosa. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. consistia somente em consoantes e algumas semivogais. Todavia. Por exemplo. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. oral-textual. Joseph c. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos .quando muito . seriam extremamente díspares . ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b . Porém. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições.

3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. e ]aynes.) •• Look up something.T. isto é. mas até mesmo nos dias de hoje.) . não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais. literalmente "procurar com os olhos". ou "bicameral" como ]aynes a descreve . urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. de audácia analítica. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. look up. das culturas orais intocadas pela escrita. (N. (N.. Para ser breve. Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes. Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo. Em uma cultura oral primária. de preocupação com a vontade como tal.processava em fala. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a. como quer o autor. é dividido em duas partes bem distintas.c.falta de introspecção. o que certamente traz implicações maiores para o leitor. de uma percepção de diferença entre passado e futuro . ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. já não submetida ao domínio das "vozes". acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original.T. do que a tradução "procurar" evidencia. com efeito. Esse período. como veremos.c. ou seja. e de outros que serão mencionados.

) . Sem a escrita. as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas.é "dinâmico". As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. Se detiver o movimento do som. entre os povos "primitivos" (orais). Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". b u ao. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. Essa crença é. ** (N. a uma estabilização idêntica à do som.conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. Nesse sentido. pp. sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. Toda sensação ocorre no tempo. 223-126).T.e talvez universalmente . Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. (N. Muitas vezes.e muito provavelmente em todo o mundo . logo. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. mas pode também registrar a imobilidade. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. pp. d todo som . O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. Toda sensação ocorre no tempo. para examinar algo atentamente por meio da visão. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. Na realidade.especialmente a enunciação oral. somos simplesmente incapazes de compreender."reevocá-Ias"*. Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos. O som existe apenas quando está deixando de existir. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos. por exemplo. Um caçador pode ver um búfalo. nem mesmo uma trajetória. não tenho nada . etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. recal! them. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. Malinowski 0923. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. portanto. mas o som possui uma relação especial com ele. pelo menos inconscien~emente. pp. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. 111-138). * Cal! them back. Um oscilograma é silencioso. mumente . pois. Em segundo lugar. na verdade. as palavras reais. necessariamente portadoras de poder: para eles. ou uma cultura não muito distante da oralidade primária. que vem de dentro os organismos vivos . Poder-se-ia "evocá-Ias" . como eventos e. até mesmo morto. 470-481) salientou que. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. São ocorrências. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. mas. não. ela favorece a imobilidade. O fato de os povos orais comumente . se ouve . num sentido radical. eventos. a química e pôr em prática a engenharia química.apenas silêncio. embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. estão mortas. não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. O som sempre exerce u~ poder. dotada de um poder. ausência absoluta de som. preferimos mantê-Io imóvel.) To lookfor them.julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. nem rastro (uma metáfora visual. Não têm sede. 451. Quando pronuncio a palavra "permanência". mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. Também não ca~sa surpresa que povos . mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente.T. cheirar. faladas. pois não constituem aç~~s. Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. em uma superfície plana. 230-271). Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923. pp. mas. Não há como deter e possuir o som. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. no momento em que chego a "-nência". "lá". Ele existe fora do mundo sonoro. A visão pode registrar o movimento. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. as palavras em si não possuem uma presença visual. Elas são sons.teria nenhum significado concebível. Ele não é apenas perecível. que mostra a subordinação à escrita). pr~fenda e. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes.

ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. nesse momento. fortel~ente rítmicos. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. recuperar uma complicada série de asserções.294-296). e portanto também no hebraico antigo.. mas." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. para posterior recordação. a delícia do marinheiro. o "ajudante" do herói e assim por diante). a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. 87-96. As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. por si sós. 97-98. em umas poucas centenas de palavras. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. como apoios mnemônicos. em uma cultura oral. moldados para uma pronta repetição oral. mas também os processos mentais. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. "Vermelho pela manhã.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado. por sua vez. assim como funcionam. Uma cultura oral não possui textos. como . em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. analítica. pp. de que modo. o duel_o. vermelha à noite. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. O pensamento prolongado. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- .. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos. mas também da história da Revolução Americana.. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das. digamos. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. sim. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida.icologicamente." "Errar é humano. até mesmo p. pois o ritmo auxilia na recordação. quando fundado na oralidade. com muito poucas exceções . A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação ." Fixas. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que. pp. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. de forma a VIr prontamente ao espírito.quando muito -. 294-301). equilibrados. poderia uma solução longa.Numa cultura oral. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente. em repetições ou antíteses." "A tristeza é melhor do que o riso. consistindo.à comunicação. processo de respiração. a re~ei~ão. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita. cada uma de suas proposições e provas." "Dividir para conquistar. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . não há nada fora do pensador. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. Como ela retém. por si sós. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. o alerta do marinheiro. "A videira aderente. . O pensamento deve surgir em padrões. Sabemos o que podemos recordar. Numa cultura oral primária. em altteraçoes e assonâncias. Antes de mais nada. fosse relativamente complexa. muitas vezes ritmicamente equilibradas." "O robusto carvalho.ou em outra forma mnemônica. tende ~ ser altamente rítmico. possam recordar. Hesíodo. 131-132. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. realmente. Entre os antigos gregos. isto é. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. Podemos recordá-Ias. não queremos dizer que temos na mente. perdoar é divino. a fim de que "saibam".

As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. a lei. quando os falantes refletem. mas nas culturas orais não são eventuais. Contudo. na realidade. este é impossível em qualquer forma extensa. o modo como a experiência é intelectualmente organizada. em si mesmos. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. Preface to Plato (1963). um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978.). sobre as situações nas quais se acham envolvidos. p. ainda que isso fosse possível. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. porém preserva . Não seria um conhecimento confiável. Numa cultura oral. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. baseado diretamente na tradição oral ibo. Numa cultura oral primária. de Havelock.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . ao fazê-Io. Nas culturas orais. O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade. provérbios. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico.e. Porém. não-mnemônicos. pois esse pensamento.isto é. embora complexo. seria uma perda de tempo. na verdade. Isso vale para as culturas orais em geral. tal como o seria com o auxílio da escrita. para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . com grande inteligência e requinte. um modo fixo de processar os dados da experiência. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. a própria lei está encerrada em adágios formulares. podem ser "procuradas". pois é nelas que consiste. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. Obviamente.sas. são constantes. pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. Numa cultura orall. orais.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. mas são. Esse é um dos motivos por que. mas simplesmente um pensamento momentâneo. além de sua estilização formular. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. na África Ocidental. no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. que. 5). o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5. mas ilustrativo. da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. determinando o modo como . conseqüentemente. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. Elas formam a substância do próprio pensamento. não-padronizados.em livros de adágios. é um texto. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. que não constituem meros adornos jurídicos. Em uma cultura 9~. uma vez terminado.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. Sem elas.

especialmente no discurso formal. a terra era um vasto deserto informe.inimigo do povo. Deus viu como era boa a luz. e houve noite e manhã um dia. capitalistas fomentadores da guerra -. Então Deus disse: "Seja feita a luz". a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. uns anos atrás. e as trevas cobriam o abismo. epítetos. Em muitas das culturas de baixa tecnologia. segue de perto. 1980b. "quando".Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. arcaica. como eram as fórmulas . E ele chamou à Luz Dia. e ele dividiu a luz das trevas. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". enquanto um forte vento varria as águas. uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. o No começo. 188-212). como sugeriu Givón (1979). mas agrupamentos de totalidades. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite". As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . e houve luz.uma visível padronização oral. e às trevas. frases ou orações antitéticos. termos. E a luz se fez. Noite. E Deus viu que a luz era boa. e as trevas cobriam a superfície das profundezas. O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. de certa forma independentemente da gramática. Assim.o primeiro dia. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. A New American o traduz por "e". e a ela sucedeu a manhã . em desenvolvimento. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. não o soldado. Deus criou o céu e a terra. Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra. pp. em muitos aspectos. o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. quando Deus criou os céus e a terra. Dois "e" introdutórios. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. Em todo o mundo. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. incompreensíveis para os ouvintes). Assim chegou a noite. Ele lhes parece natural e normal. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. mas o soldado valente. os clichês nas acusações políticas . mas a bela princesa. incluindo a que produziu a Bíblia. As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. ambos mergulhados num período composto. não o carvalho. para a relação de algumas fitas). mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. não a princesa. As nações orais preferem. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. E Deus disse: Faça-se a luz. tais como termos. Um dos muitos indícios de um alto . e até mesmo exótica. Deus então separou a luz das trevas. "assim" ou "enquanto".ainda que em vias de desaparecimento . Em culturas orais ou com um alto resíduo oral. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. Nove "e" introdutórios.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. frases ou orações paralelos. E a terra era erma e vazia. Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. "então". que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. A versão Douay (1610). dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. mas o carvalho robusto.

". "a mente selvagem (isto é. Sem um sistema de escrita. mesmo que em virtude de problemas acústicos. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa. deve permanecer intacta. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). a situação é diferente. duas ou três vezes. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. mantendo . p. mantinham a velha redundância em seus discursos e. a análise . Uma cultura oral pode. como na conversa de tambores africana. Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. requer a escrita. no Zaire.isto é. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. a repetição do já dito.em média. mas o faz para demonstrar que eles o são. Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. Com a escrita." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. oral] totaliza" (1966. deixavam que ela semeasse seus escritos. construída pela tecnologia da escrita. No estilo oral. os oradores públicos ainda à época de. uma vez cristalizada. compreende cada palavra que um falante pronuncia. A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. A redundância. ou algo equivalente. por exemplo. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou. William Jennings Bryan 0860-1925). Se deixarmos passar o "não apenas . com efeito. em parte porque a escrita à mão é. O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. podemos inferi-lo pelo "mas também . Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. até mesmo epítetos opostos. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. o pensamento fragmentado . A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. um processo muito lento . Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. p. Nem todo mundo. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977.. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. No discurso oral. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. A psique pode controlar a tensão. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. soldados são sempre valentes.constitui um procedimento altamente arriscado. Portanto..homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. para manter intacto o agregativo. por força do hábito. Convém ao falante dizer a mesma coisa. O pensamento requer algum tipo de continuidade. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. é preferível repetir algo. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. a mente deve avançar mais lentamente. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. princesas ou carvalhos. redundantes. Não há nada para o que retroceder fora da mente. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora.) Nas culturas orais. a hesitação é sempre prejudicial. puramente ad boe. sempre disponível em fragmentos inscritos na página. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. ver Faik-Nzuji 1970. Uma expressão formular. a redundância atinge dimensões excepcionais. Por conseguinte. embora a pausa possa ser benéfica. dentre uma multidão ouvinte. 101).. o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. Por conseguinte. 245).. fisicamente.

uma situação singular. e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. de seu esforço de memorização e. conhecida. à interação imediata. que. inventam novos santuários e. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. mente. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. são. em sua época . mas na administração de uma interação especial com sua audiência. que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. pp. p. sim. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais.também mudam nas culturas orais.e mais ainda a impressão tipográfica . Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. de uma maneira única. isto é. evidentemente. como Goody os intitula 0977. pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. com estes. repetidor do passado. Porém. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. Por uma espécie de lapso. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. de seres humanos. não carecem de originalidade própria. 232). Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. o excesso. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. 29-30). Durante a Idade Média e a Renascença. pelo fato de tomar para si funções conservadoras. 254-305). pp. pp. isto é. Eles raramente se tanto . novos universos conceituais. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. 13-14). oralmente composto. a escrita . haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele.i. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . muitas vezes intensamente. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. As práticas religiosas . é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias.são propagandeados de forma explícita por sua novidade.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. de um certo modo.a cada narração. Na tradição oral. Obviamente. muito freqüentemente. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. de certo modo.e. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. Porém. desnaturar até mesmo o humano.se possível engenhosamente. 30) -. objetivo. Porém. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. a escrita é conservadora a seu próprio modo. De fato. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . compreensivelmente. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. As culturas orais.deprecia as figuras do sábio ancião. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. a loquacidade. Logo depois de seu surgimento. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. os escritos de Winston Churchill (1874-1965). desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. quando as curas são raras. assimilando o mundo estranho. com elas. p. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. como também soam. deve-se dar à história. pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. Os retóricos chamariam a isso copia. Todavia. As culturas orais estimulam a fluência. inibe o experimento intelectual. desse modo.

p. 258). Criados numa cultura predominantemente oral. Na llíada.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. Na narrativa. O dozens não é uma briga real. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais.mais de 400 versos . que eram cruciais na cultura homérica. pp. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. e que Ora.141-144. no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. . com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. os livros VIII e X rivalizariam. O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. Representações de violência físita crua. em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . Na última metade do segundo livro. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47).senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. isto é. joning. na Bíblia. 234. Característicos das sociedades orais em todo o mundo. A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. que não constitui uma lista neutra. pp. sounding ou outros nomes. convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. é comum depararmos. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . em todos os contos medievais europeus. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. sem perda de tempo. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. mas também na celebração do comportamento físico. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. De belas faces. do mesmo modo. na verdade. com base na observação e na prática. independente. Não somente no uso que se faz do conhecimento. por exemplo. mas uma forma de arte. Uma cultura oral. com apenas um mínimo de explicação verbal. com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. no Beowulf. são extremamente raros e sempre toscos. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física.divisões políticas em uma lista abstrata. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções.Ong 1967b. Goody e Watt 1968. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. 32). neutra. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. até mesmo em culturas de alta tecnologia). como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. reunamos. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. 28-29. 176-180). em grande medida. 1972). As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada . Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. Comande o nauio um dos chefes do exército. nos embates entre personagens. no mínimo. Obiechina 1975). certos jovens negros nos Estados Unidos. inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. até mesmo em culturas quirográficas. remadores. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968.

estabelece condições para a "objetividade". e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. Sob a influência da escrita. de presunção e de afetação ridícula. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. à medida que se aproxima do romance sério. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. agonístico oral. Lidando com um outro cenário oral primário. o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. com o herói Mwindo.e. em vez de causas físicas. comunal com o conhecido (Havelock 1963. pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. eventualmente. a despeito dos ataques feitos a ela. pp. mais de 2 mil anos depois. do bem e do mal. sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. e. . finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. já muito estudados (Finnegan 1970. da virtude e do vício. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). p. Opland 1975). aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima. estão des-oralizando-o num texto. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade.um mago. não para falar em seu louvor". envolvida na dinâmica de troca sonora. 145-146). residualmente oral. Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. como uma reação encerrada na reação comunal. obviamente. dos vilões e dos heróis. pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . distanciando-se das meramente exteriores. Elas sobrevivem nas baladas medievais. Voltaremos a essa questão posteriormente. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. transcrevendo-o. da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. por intermédio dele. antes. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. Porém. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. Platão excluíra os poetas de sua República.79). exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. Porém. uma feiticeira . as relações interpessoais são mantidas em tons extremos .\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. pp. A ligação entre narrador. A narrativa literária. de seus ouvintes. desse modo. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. A escrita separa o conhecedor do conhecido e. 197-233). uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. escriba!" ou "ó escriba. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado. os antagonismos. empática. de modo que. veja que eu já estou prosseguindo". as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. mas. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral.tanto as atrações quanto. "Aqui estou para enterrar César. "deixar-se levar por ele". portanto. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". aumentam as hostilidades. o declamador do poema épico. e sobretudo.ii. na "alma" comunal. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas.

Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. conservam algumas palavras. expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. nessa época também. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. já não reconhecidos. 48-99). como num dicionário. A memória do antigo significado de antigos termos. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. Goody e Watt (1968. entre os lokele no leste do Zaire. as formas arcaicas são correntes. tem uma certa durabilidade. Os tambores africanos. inflexões vocais. pp. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. em disputas jurídicas). Os significados da palavra nascem continuamente do presente. 94-95). as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. descobriu-se que. que. tais como o poema épico. até mesmo em culturas de alta tecnologia. pp. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. vivida. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. por exemplo. também. Assim. pp. embora a palavra tenha sido conservada. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. pp. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). mas inclui também gestos. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. 29) chamam de "ratificação semântica direta". conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. 41-42. ilimitada. desapareceram da experiência diária lokele. à época em que os . p. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. sempre ocorre. 31-34). e o termo que permanece ficou vazio. tal como ela ocorre em textos datáveis. podem ser registrados em definições formais. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. mediante o uso corrente.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. no entanto. como pai de sete filhos. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. Goody e Watt (1968. que não consiste meramente. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. portanto. que não é. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. isto é. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. embora limitadas à atividade poética. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. desse modo. o fundador do estado de Gonja. pp. em outras palavras. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. Sessenta anos depois. Ong 1977. tal como usados. Nos últimos anos. p. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. falada. entre o povo tiv da Nigéria. em Gana. isto é. como literatos. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. em que a palavra real. É verdade que as formas artísticas orais. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora.

Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. assim como Harms (1980. de modo algum "abstrato".. Packard (1980.mitos de estado foram novamente registrados. que. T. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. Nestes últimos mitos. que possuem um mínimo de abstração. na opinião de Claude Lévi-Strauss. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado. extraída e distanciada . As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. 247. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. As culturas orais estimulam o triunfalismo. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. p. Edmund Leach e outros. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. 8). Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais. sensível. duas das sete divisões haviam desaparecido. 33. Além disso. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. como cita erroneamente Luria 1976. de A. p. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. Beidelman. 25-26. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. 255). observa que o "modo oral. A seu ver. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). até certo ponto abstrato. nos tempos modernos. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. simplesmente ele próprio. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. 178) acha que se aplica aos bobangi. uma por anexação a uma outra divisão. operacionais. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". 157) chamou a atenção para o fato de que. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas.R. que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. mas constitui uma abstração. se todo pensamento conceitual é assim. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . 248. como Franz Boas (não George Boas. I de uma realidade individual. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. Henige (1980. p. p. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. na União Soviética. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". isso se aplica aos bashu. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais.O. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. faziam questão desse contato em seus mitos. tendeu normalmente a desaparecer. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. pp. durante 1931 e 1932. Todavia. n. e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. n. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. Luria.. p. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974.

32-39). o relato de Luria gira claramente. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. quadrados etc. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. pp. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim.um jogo intelectual estranho. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. quadrados. do contrário. balde. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. casa. respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. 74). identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos. mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. Mas. Se tiver de tirar um deles. não respostas tiradas da vida real. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. tora. porta. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. mas em termos de situações práticas . 56). Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. Estes não eram líderes em suas sociedades. Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. Desse modo. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos. machadinha. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. sim. Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. mas. 14). triângulos e assim por diante 0976. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. jogo fora a machadinha.. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. p. Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. não podemos construir nada" Cibid. relógio ou lua. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. em oposição aos fundados no quirográfico. plataforma de secagem de damasco. a tara não é uma ferramenta). afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. Entre as descobertas de Luria. a serra e a machadinha são todos ferramentas. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. Quando lhe dizem que o martelo. com certo grau de cultura escrita. . em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. mas usavam um conjunto diferente de categorias. Alunos de cursos para professores. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. à exceção da tora." Por outro lado. na verdade. serra. Um círculo seria chamado de prato."pensamento situacional" -. e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. por outro lado.). um quadrado seria chamado de espelho. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. com objetos concretos. nunca abstratamente como círculos. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. p. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. peneira. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. p. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita .

seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais ." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. Apresentada a série machado. 34 anos) (1976. mas tendem. não era importante. p. a respeito da espiga. a saber. machadinha. como um texto. p. num silogismo. todos os ursos são brancos. retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. 104). o categorial." "Somente um animal voador. mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. isolado. Em determinados momentos de suas discussões. 67). e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível.. 108-1(9). Nunca vi outros . eles nunca os compreendiam completamente e. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. onde há neve. p. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. que deveria completar a série serra. encerrado. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. pp. muitas vezes profundamente inconsciente. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. no estágio apenas inicial de alfabetização." É sua responsabilidade. de 45 anos. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. embora com a predominância do último. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. não tinha interesse. A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). a ir além das afirmações em si. em sua interpretação de dadas afirmações. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . espiga. 18 anos). Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. era fútil (1976. na vida prática. para além das próprias palavras do enigma. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. assim como em outras formas. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. desse modo. Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. Em suma.. pp. Para resolvê-Io. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores.o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. eles deveriam ser todos brancos" (1976. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -.. p. "Metal precioso enferruja. Por outro lado. . 54-55). sobre a cor de um urso polar? Além disso. O enigma pertence ao mundo oral. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). um dirigente de uma fazenda coletiva. Vi um urso negro. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles.. que parecem ter julgado desinteressantes. À luz desse conhecimento. O ouro é um metal precioso. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. fixo. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. antes. tora. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. foice. não minha. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. 72). Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. 114). mas depois reconsiderou e acrescentou. No extremo norte. Metais preciosos não enferrnjam. p. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. num estágio apenas inicial de alfabetização.Um trabalhador de 56 anos. se a resposta surge dessa forma. Porém.

" "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore.é muito veloz." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. Perguntou-se a um homem de 38 anos. Usa fogo e vapor. até mesmo os mais concretos. as pessoas são diferentes calmas. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. não de dentro. de 30 anos. respondeu um camponês analfabeto.o vapor dá potência à máquina . em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. 86). olmo. mas no fim retoma à experiência individual. de 22 anos 0976. deve haver. 87). os pedidos de definições dos objetos. encontraram resistência. Eu mesmo não posso dizer nada.. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. mas são típicos. 15). p. todavia. 150): "Que tipo de pessoa é você. Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. diz: "É feito numa fábrica.. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. Embora ele não estivesse bem informado. "Bem. ninguém nos respeitaria" (1976. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros. p. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. seja examinado e descrito. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. vai descobrir. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir . Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. p. Por outro lado. Um outro homem. mas é uma definição em termos de suas operações. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente .4) No trabalho de campo realizado por Luria. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for. um teto para sombra e uma máquina. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. p." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. Mas a falta de familiaridade . Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. fez uma tentativa de definir um carro. também precisa de fogo" 0976. situacional 0976. Exige isolamento do eu. p. Numa viagem. Não sei se há água num carro. não precisam que eu lhes explique".esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. p. 148). analfabeto. Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. Sua definição. Mas a água não é suficiente. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. o eu.''' O respondente enumera algumas características. um camponês de 36 anos. ou às vezes sua memória não é boa. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. Mas para ir direto ao assunto. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era." Mais situações exteriores. "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. 90). "Tente me explicar o que é uma álVore. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. não está centrada na descrição da aparência visual . álamo. como é seu caráter. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. de gênio forte.

mas dentro de contextos operacionais. Mas isso não é um enigma. mas o indivíduo oral não conhece as regras. de modo rigoroso.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. O pensamento oral. pode ser bastante sofisticado e. em diferentes graus. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. organizam. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. é claro. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. tal como a dos sujeitos de Luria. A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. processos de raciocínio formalmente lógico. associadas ao uso de textos e. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. a menos que soubessem escrever.e muitas vezes tiveram -. Será um jogo? É claro que é um jogo. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. milhares de anos após a invenção da escrita. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. pelo menos no que diz respeito a esse caso. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. p. mas também das escritas. os analfabetos podem ter tido .a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. Essas perguntas estão ausentes. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. p. mas do pensamento formado pelo texto. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. uma "consciência moderna". Gladwin 0970. podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . mas tão somente porque são bons navegadores. no Ocidente. não porque os considerem "inteligentes". não apenas das culturas orais. respeitam seus navegadores. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. contudo. isto é. a seu próprio modo. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. categorização abstrata. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. 53-76). Terão ouvido. 61). Até poucas gerações atrás. ou auto-análise articulada. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. definições ou até mesmo descrições abrangentes." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. pp. Elas são legítimas. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. 4). 1978). por exemplo. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. isto é. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. no Pacífico Sul. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. na verdade. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. respondeu a Carrington 0974. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. reflexivo. os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. "Vamos observar um pouco como ele dança. na verdade. Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. Um habitante da África Central. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. p.

de algum modo. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. 51). à condição de que lidasse com material tradicional. com êxito. Porém.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. segundo seu próprio modelo textual literal. memorizaram-nas literalmente com base em textos. Eles sabem muito bem que. por exemplo. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. As seqüências longas que eles produzem. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. Como tal repetição poderia ser verificada antes . Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. no entanto. Com esse vocabulário hexâmetro. mas agregativas. p. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. À primeira vista. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. sem memorização literal. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. na ausência da escrita. uma vez que. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". assim como para os outros personagens. um trunfo valorizado nas culturas orais. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. in Pany 1971). inteligentes e belas. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. Heitor. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. p.tal como. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. mas de fórmulas. grupos de palavras para lidar com material tradicional. do fisiológico ao psicológico e ao ético. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. para Ulisses. por exemplo. Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. Numa cultura letrada. o empurrão fará com que ele se mova. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. Parry 0928. se empurrarmos com força um objeto móbil. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. compreensivelmente. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. Desse modo. os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. 156). não são analíticas. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. tais como as genealogias. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. Porém. Atena ou ApoIo. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. em qualquer sentido simplista . qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. Para compreender como elas o fazem. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. que seus processos mentais são "toscos". que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. No passado. deveriam ser essencialmente composições escritas. nos poemas homéricos. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. Como vimos no capítulo 2.

assim como de outros fatores sociais e psicológicos. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. Na sua essência. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. porém. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. tempo para "se emprenhar" da história. Como se observou anteriormente. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. até pelo mesmo poeta. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. pp. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. os temas e as fórmulas. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. As fórmulas sofrem alguma variação.é analfabeta. que nada têm a ver com textos. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo.. essa natureza. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. A originalidade não consiste em introduzir novo material. no entanto. Com base nessas entrevistas e na observação direta. ou o "alinhavamento" de narrativas. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. diferirá visivelmente de um para outro. e a "rapsodização" do poeta. Na verdade. o material. durante meses e anos. Quando recorda e reconta a história. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. 216). sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente.e. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. assim como sua utilização. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. p. Seus poemas narrativos. é claro. indivíduo. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. única. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. assim como os temas. e/ou ao público. dependendo da reação do público. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975. coisa ou ação. Basicamente. Uma comparação entre as canções gravadas. Na memorização de um texto escrito. revela que. Porém. na verdade. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. p. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. 20-29). sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. eram métricos e formulares. os melhores . como os de Homero. pertencem a uma tradição claramente identificável. 17). embora metricamente regulares.

um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. Sherzer . quando se conhece a hngua. Em 1970. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. O que conseguem? ~a maioria das vezes. pelo menos 60% em relação às outras versões. em . não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. p. quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. Todavia.o entre _os cristãos. Opland 0976. como interpreta Lord 0960. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. não são absolutamente estáveis. é "algo que todo mundo 'sabe"'. e pronuncia-se a frase inicial da invocação. Um é o da verbalização ritual entre os canas. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". não parecem ter uma exatidão literal maior. Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. 76-82). p. um "pedaço" de discurso. assim como as de outros (Opland 1975. p. isto é. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. ver Foley 1979). verso por verso e palavra por palavra. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. Por J exemplo. "Palavra por palavra e verso por verso". francês. também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. a outros especialistas como ele. Na verdade. verifica-se que são sempre diferentes. parece ser algo textual. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. que. 27). Goody (1977. português e outras línguas (ver Foley 1980b). Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). 28). 1976). de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais.~ alemão. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. ou para um tema. a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. 28). ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). ou fazem somente com dificuldade. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita.. segundo os padrões de uma cultura escnta. aqui como em qualquer outra parte. p. como Goody. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. de modo muito mais detalhado.) Significativamente. recitações pelo mesmo indivíduo. mas a juntá-Ias. Em todo o . Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". 114) registra esforços reais. p. as reproduções da mvocaçao. Goody 0977. onde a Invocação ao Bagre. o mínimo. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui. 118-119) relata como. separativa. pp. sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. Há muito tempo (960). Se não se pode escrever. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. As descobertas de Goody. Ou não? Talvez sejam 28. ou para uma elocução. mundo. por Lord na Iugoslávia. na África do Sul. entr~ os lodagaa do norte de Gana. na costa panamenha. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. p. ou para uma unidade rítmica de uma canção. separada do fluxo discursivo. relatado por Joel Sherzer (1982). o ouvinte toma o refrão. é dierética. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem. 78. como o pal-Noss. p. até mesmo no caso . Todavia. no entanto. pp.

Indubitavelmente. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. como já indicamos. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. trabalhando com um mestre oral. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. não literal. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. mas também sintáticas. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. embora eles próprios façam. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . é entoada com música. à que aprendem a própria gramática" 0979b. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. trata-se de composição formular. Isto é. senão idêntica. porém notável. com base em Finnegan 1977. nas suas próprias recitações. a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. por um dado período de tempo. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. como os feitos pelo h01110ioteleuton . omitindo o material intermediário. ainda existente porém em declínio. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. se é que não a aumenta. fonema por fonema. que. com algumas poucas partes em "voz pura". p. rapsódico. No caso da poesia oral somali. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. na verdade. ver também Johnson 1979a). que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. 118. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. n. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. como mostrou . Um é da poesia clássica somali. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas.e. na qual uma narrativa oral. desacompanhadas de instrumentos. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. Às vezes. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. Novamente. Novamente. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. que começam ainda muito novos. Em certas partes. Evidentemente. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum.não totalmente invariável. p. 148). mas constróem uma composição em particular. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. mudanças das quais não se dão conta. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. portanto. e alguns interlúdios puramente instrumentais. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. métricas. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. a música estabiliza inteiramente o texto. 3. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . não equivalentes a seu próprio exemplo. palavra por palavra.

deliberadas ou não. disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19). Louis Renou. Porém. na boca de um outro professor igualmente capaz.para não falar da totalidade dos hinos das coleções . as palavras "Este é o meu corpo . de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. De fato. tanto quanto sei. Tais afirmações. p. provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. até mesmo em seus rituais textualizados.#26 . e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. 164). Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus.. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual.ser estabilizado palavra por palavra.. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976.e notas. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . a estrutura formular . 99-100). nas culturas orais em geral. mas com um conteúdo. assim como outras relativas à "memorização" oral. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. como vimos.c. Porém. como poderia um determinado hino . Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. 25-26 . este é o cálice de meu sangue .e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . palavra por palavra. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963). inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva . fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções.. Chafe (982). pp.. Sem um texto. podem ser totalmente contrárias aos fatos.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. tratando especificamente da língua sêneca. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos. Os Vedas são coleções extensas e antigas. e isso através de muitas gerações? Afirmações. freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. ou gurus.se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. até mesmo no ritual. tudo indica que. Os exemplos literais de Sherzer são rituais. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. conservam um alto grau de resíduo oral . Meras declarações.a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais.isto é. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. pp. Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965).Lord. Com efeito. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. "Fazei-o em minha memória". Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia. pp. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. de que as reproduções são idênticas. ou de 1954 (Bright 1981). provavelmente em completa independência de quaisquer textos. Os professores brâmanes. comparada à coloquial."). e Rutledge sugere em seu trabalho . O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. especialmente em rituais. na verdade. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento. 83-84). Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral. ao cumprir sua instrução (isto é. oral.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. com certeza." Em suma. no entanto. . poderiam surgir outras tantas variações.. surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. os textos védicos . Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem.têm uma história complexa e muitas variantes. sugere que a linguagem ritual. é "flexível" ou variável). possam geralmente julgar "fixo" um uso que.

nunca existe num contexto puramente verbal. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. também o faz a própria genealogia. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). como ocorre com a palavra escrita. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). Peabody 0975. Reformulei a narrativa. como eu mesmo testemunhei. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". Ela conhecia a história. Por exemplo. disse ela. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras". Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. 220-222. frontispício. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". e portanto da interação humana. particularmente a pública. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. 60). e minha fórmula não era a que esperava. Havelock 1978a. elementos temáticos e mnemânica oral. Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. tais como a gesticulação. por si só. A palavra oral. O Talmude. fazendo um beicinho. A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. não obstante seja um texto. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. que sempre envolve o corpo. Biebuyck e Mateene 1971. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. . as prensas param de rolar. no entanto. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). Outros povos manipulam contas em cordões. existencial. É preciso fazer a ressalva. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. do que ao objeto. literal ou não. (Ver também Lord 1960.) A esses casos. mas milhares de cópias podem permanecer. culturas nas quais. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. 173). de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. ou dançar. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. pp. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. Finalmente. Como se observou (p. visível até mesmo em traduções. como já observamos. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares.. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). completamente. Em todos os casos. que tinham algum conhecimento da escrita. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. isto é. p. p. Os narradores narram o que o público deseja ou permite. Na verbalização oral. como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. e significativamente menos do contato não-verbal. Quando o mercado para um livro impresso decresce.e temática dos Vedas. mas natural e até mesmo inevitável.

a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. por sua vez. seu epíteto usual). que muitas vezes os leva a um ato violento. . Para garantir peso e memorabilidade. 451. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. está relacionada ao estilo de vida agonístico. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. ao passo que os letrados o interiorizam. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. Em culturas orais. ao contrário de obter realmente uma resposta. o astuto Ulisses. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. segundo a mitologia. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. descobre que. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. o furioso Aquiles. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. um duelo polido. como agonístico e. Desse modo.e que percebe a si própria . que ele percebe . na Irlanda. é freqüentemente desviado. com seu enorme resíduo oral. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. o imensamente perverso lobo. bateu com a mão na parede do edifício. é uma série de manobras verbais (e somáticas). figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. Um professor que fala a sua classe. Ao contrário. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. Nas culturas orais primárias. amok. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk.aninham as percepções. A comunicação oral agrupa as pessoas. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. lida com todas as perguntas desse modo. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. isto é. Assim. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. indivíduos cujas façanhas são notáveis. Kábútwakénda. o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . o indivíduo do sudeste da Ásia. memoráveis e geralmente notórias. ele fez algo. A natureza não estabelece "fatos".como um grupo intimamente ligado. uma disputa de talentos. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. nesse aspecto.* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. uma operação de agonística oral.. Dirigiu-se a ele. Qualquer nativo de Cork. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). 470-481). A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. zam o comportamento esquizóide. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. pp.. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. Nunca baixe sua guarda oral.

A visão disseca. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. além da mera utilidade mnemônica.) Uma fonte de luz. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. no entanto. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. nesse sentido. embora não seja uma fonte de luz. E. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. sua relação com o tempo. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. Para testar o interior físico de um objeto como interior. pela impressão. no lugar do herói. que fornece as ressonâncias vocais. sua evanescência. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. constantemente recua e foge. um objeto translúcido. O som existe somente quando está desaparecendo. Índice). A visão situa o observador fora do que ele vê. típico do romance. como observou Merleau-Ponty (1961). como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. Numa economia noética oral. como um alabast!o.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. (A reflexão difusa. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. de um espelho. as figuras não sobreviverão. mais profundamente. o som incorpora. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. a voz humana vem do interior do organismo humano. sim. 65-67). Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". por fim. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. e sejam quais forem as outras forças. A profundidade pode ser percebida pela vista. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento.de escalar . ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. A vista isola. pp. De modo análogo. exteriores. O tato. Aqui. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. ou cadeiras em um auditório. À medida que a escrita e. em vez de enfrentar o inimigo. aberta. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. 9-11. tal como um fogo. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. Não se pretende negar que outras forças. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. produzam figuras heróicas e agrupamentos. ao passo que o som invade o ouvinte. A visão chega a um ser . a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. Porém. pode ser interessante. as Três Parcas e assim por diante. contrasta com a reflexão especular. de John Updike. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. de uma página impressa ou uma paisagem. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. a uma distância. Aqui. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. porque. é interessante. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. a vista também não pode se "concentrar" nele. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. e assim é menos um interior. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. que. acima de tudo. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. após cerca de três séculos de impressão. por exemplo. as Três Graças.

um sentido unificador. a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". visualizada: a visão é um sentido dissecador). o umbigo do mundo (Eliade 1958. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. pp. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). Podemos mergulhar no ouvir. que é definido por "dentro de". 63. 221). mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como. Quem diz "eu". e assim por diante. que me envolve. nem mesmo à possibilidade de um tal texto. mas unificador. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". A propósito. estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. aventureiros e peregrinos. o cosmos é um evento contínuo.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. baseados na experiência que cada um tem de seu corpo. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. ' . d o que a que envolve coisas impessoais. pp. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. 176-179. Na visão. dentro de meu corpo). a psique não é sadia. Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. no som. pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. uma luta pela harmonia. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. não um fenômeno fragmentador. como num atlas impresso moderno. Numa cultura oral primária.o som é. Sem harmonia. O auditório ideal. Quando ouço. O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. no entanto. Com "interior" e "exterior". mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. Para as culturas orais . ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. '. fundamentalmente. O homem é o umbilicus mundi. A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. viajantes. 231-235 etc. na qual a palavra existe apenas no som. desse modo. por outro lado. 228. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. que é definido por "entre". com o homem em seu centro. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . . O conhecimento é.Ong 1967b. Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais.o sentido da dissecação . girando no círculo tautológico. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. um estado interior. é harmonia. na qualidade de palavra falada. conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. implementada pela impressão. O mesmo vale para "exterior". A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. São conceitos fundados na existência. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. de certa forma. pp. Ao contrário da visão . que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". os seres humanos iriam. embora conhecesse certamente muitos itinerantes. reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. 117-122. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. é um colocar junto. preciso girar meus olhos de um lado para outro.).

restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. 176-191). fundamentalmente um som. a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. Na maioria das religiões. A palavra falada é sempre um acontecimento. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita.etimologicamente. desse modo. não escrevendo para eles. 14). Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. por exemplo. não em textos. reais ou imaginadas. Signum. como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. Na cristandade. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual .esta revista tem um readership de 2 milhões . Na teologia trinitária. visual de uma palavra não é uma palavra real. "A fé vem pelos ouvidos". Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. A mentalidade oral do texto bíblico. se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. é espantosa (Ong 1967b. todos. que significa "palavra". que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. (N. a Palavra de Deus. Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. significa também "acontecimento" e. refere-se diretamente à palavra falada.) . Em virtude de sua constituição física como som. consigo mesmos e com o orador. como um "signo". como se fossem realmente ouvintes. Jesus. a unidade do público é desfeita. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. mas um "sistema modelar secundário" (cf. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. nas religiões mundiais mais abrangentes. o • Significativamente. os ouvintes normalmente formam uma unidade. direta ou indiretamente. o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). com as preocupações fundamentais da existência. lemos na Carta aos Romanos 00:17). Lotman 1977). O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. como indivíduos. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. nada deixou por escrito. No entanto. Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". uma representação textual. Record). o português não tem equivalente para readershíp. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. Quando um orador se dirige a um público. que nos deu a palavra "signo". O hebraico dabar. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. p. pp.T. O coletivo readership' . cujos significados. mas a falada. O pensamento aninha-se na fala. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. até mesmo em suas partes epistolares. um movimento no tempo. Eventualmente. "A letra mata. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. Para pensar em leitores como um grupo unido. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. num som real ou imaginado.é uma abstração excessiva. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. A escrita e a impressão isolam. A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16).

. como é representado num calendário. mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. grosseiro. O som é um evento no tempo. seguir).mas somente parece. causados por distorções sensoriais. leva-nos para a morte real. repito. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto. o tempo parece estar sob um controle maior . eram. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica.a reduzir toda sensação e. toda a experiência humana. elevando-o acima do mundo comum. e "o tempo caminha". "objetivo" . ao tratar da internalização da tecnologia. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . parece. tendiam a registrar neles não um nome escrito. efeitos que são brilhantemente fascinantes. as três esferas do agiota. por exemplo. pois a oralidade primária subsistia residualmente. da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. na verdade. mas pelo vôo. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. do que a "desconstrução" da literatura. reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". como uma águia. quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. pois o tempo real. pesado. algo mais.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". o mastro do barbeiro. (Sobre os rótulos iconográficos. Ainda na Renascença européia. ao mesmo tempo. sem nenhuma parada ou divisão. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. muito mais difícil. esse signum não era uma palavra soletrada. e se ele não é exato. p.embora realmente produza. 7). quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. Mas isso também falsifica o tempo."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. Reduzido ao espaço. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". é limitar nossa compreensão . A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. sekw-. Embora os romanos conhecessem o alfabeto. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. mas também por vezes psicodélicos. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. num sentido em que as palavras não o são. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. inexoravelmente. ver Yates 1966. indivisível.que sugere evanescência. Eram "signos". (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. o ontem não estalou para o hoje. Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . a análogos visuais. uma ao lado da outra. Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos".) De modo análogo.talvez incipiente em culturas orais. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. O tempo real absolutamente não tem divisões. fenômenos visuais imóveis. mudos. isto é. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. alquimistas letrados.

o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais. pp. mas da estruturação dessas capacidades. direta ou indiretamente. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). não apenas quando se ocupa da escrita. mas normalmente. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. 21-23. porque foi separado de seu autor. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. Mais do que qualquer outra invenção individual. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. como o oral. pela tecnologia da escrita. a escrita transformou a consciência humana.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. Sem a escrita. .

A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. incluindo sua crítica à escrita. As calculadoras enfraquecem a mente. ele as pôs por escrito. diz Platão através de Sócrates. a escrita é passiva. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. é inumana. não a fonte. se o fizermos a um texto. Além disso. pois julgava-se ser ele a voz do deus. Em segundo lugar. podemos obter uma explicação. A escrita. é dito dos computadores. assim como outras pessoas. Hieronimo Squarciafico. Obviamente. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). quem realmente "disse" ou escreveu o livro. Os textos são inerentemente contumazes. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. em um mundo irreal. Fora dele. no Fedra. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações. um texto escrito é basicamente inerte. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. A escrita. possui algo dessa qualidade vática. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. fazem-nas por meio da impressão. fora de contexto. É uma coisa. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. Na verdade. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. objeta o Sócrates de Platão. Como os computadores. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. o livro substitui a enunciação de uma fonte. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. 31-32). orais. para tornar mais convincentes suas objeções. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". O mesmo. não obteremos nada. enquanto o livro existir. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. fundamentalmente. para tornar mais convincentes essas objeções. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. ao saber que. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal.em vaticínios ou protecias. A escrita. é claro. Tecnologizada a palavra. pp. os pais. artificial. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. e muitas ficam angustiadas. como se viu (Havelock 1963). ela criou a crítica. Atualmente. a escrita destrói a memória. A joniori. exceto as mesmas. para torná-Ias mais convincentes. um produto manufaturado. Como o oráculo ou o profeta. muitas . Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. pp. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. Em terceiro lugar. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). e mais ainda a impressão. A escrita enfraquece a mente.

A escrita. A fala completa a vida consciente. hostil. "forma". Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita."A letra mata. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. outrora viva. É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). Platão. A escrita é. isto é. e muito mais. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. "cada livro é teu epitáfio". Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. "ver". tardia.da do mundo da velha vida cotidiana oral. b um outro e assim por diante.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley. ou a representará um certo fonema. imóveis. desprovidas de todo calor. sua rígida fixidez visual. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. único lugar em que as palavras faladas podem existir. e de que ela destrói a memória.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. é claro. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. e além dela. Clanchy (1979. como tal. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo.I) . Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. No entanto. individualmente interativa (representada pelos poetas. em Oxford. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. não são interativas. oral. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). mas o espírito dá vida" . a redução do som dinâmico a um espaço mudo. coisificada. em qualquer cultura. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. estão inteiramente acima e além dela. peles de animais. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. ou registro escrito. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". superfícies cuidadosamente preparadas. de certo modo. móvel. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". de que na Biblioteca Bodleian. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente. assim como tintas. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos. mas isoladas. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. pp. ou reação exagerada. conscientes. a escrita é inteiramente artificial. 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. Não há como escrever "naturalmente". não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. embora. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. a mais drástica das três tecnologias. encontrável em dicionários impressos de citações. "visível" ou "vídeo". O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. Em pippapasses. porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. é claro. A flor morta. 230-271). de 2 Coríntios 3:6 . parte de seu próprio processo reflexivo. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. tiras de madeira. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas.30. Ao contrário da linguagem natural.) .em que pressagia a própria morte . de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". um certo pictograma significará uma certa palavra específica. é o equivalente psíquico do texto verbal. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. seu afastamento do mundo da vida cotidiana. a quem ele expulsara de sua República). calorosa. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. Voltaremos a essa questão posteriormente. com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. O termo idea. pincéis ou canetas. As idéias platônicas são mudas. pp.

em última análise. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. mas elogiá-Ia. Até mesmo quando é pictográfico. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. é altamente desumanizante.) Um registro escrito. ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. no sentido estrito da palavra. Tais transformações podem ser enaltecedoras. E vários dispositivos de registro. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. necessitamos não apenas da proximidade. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . no sentido de uma escrita genuína. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. por exemplo. feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. mas também da distância. Os desenhos representam objetos.novamente um paradoxo . E assim por diante. é a representação de uma elocução. pp. mas . outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). o aprendizado de uma habilidade tecnológica. (Diringer 1953. ou verdadeira escrita. na verdade. Os códigos. fileiras de seixos. obviamente. O primeiro registro escrito. não rebaixa a vida humana. que conhecemos. A escrita aumenta a consciência. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. ampliar o espírito humano. não consiste em meros desenhos. A escrita. de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer.inteiramente exteriores a seu operador.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. isto é. tal como entendido aqui. poderia dizer. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. à oralidade -. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. que especificam exatamente como usar as ferramentas. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. Gelb 1963). O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. As tecnologias são artificiais. intJnsificar sua vida interior. uma parte psicológica de si mesmos. de Morton Subotnik. Porém. Mas. geradores elétricos . foles. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. é resultado de alta tecnologia. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. mas um código não é desenhável. isto é. para compreender o que ela é . Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo. ou aides-mémoire. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. A orquestra moderna. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. Isso exige anos de "prática". Para conseguir tal expressão. na verdade. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. A tecnologia. Para viver e compreender plenamente. acentua-a. com recursos de força . usando um dispositivo mecânico. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. uma ferramenta. sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. Obviamente. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. O desenho de um homem. mais do que qualquer outra. 141 e 168).a artificialidade é natural aos seres humanos. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. transformações interiores da consciência. um registro escrito é mais do que desenhos. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. em representações de coisas. mas.bombas. adequadamente interiorizada. e mais ainda quando afetas à palavra.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. Um violino é um instrumento. As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. humanamente compreensível. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. sim.c. isto é. Um órgão é uma máquina enorme. interiores. pelo contrário. Como outras criações artificiais e. ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano.

Se anoto em um documento: read. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. pp. Assim. A escrita. pequenos. Usar a escrita para criações imaginativas. (datas aproximadas segundo Diringer 1962).indicavam. Os registros escritos têm antecedentes complexos. sete entalhes . A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. de forma a incluir qualquer marcação semiótica. indicando que deve ser lido até o fim. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. em um nível ainda mais elementar. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas. Em alguns sistemas codificados.. isto é. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem. se não a totalidade. .. seria "escrita". Contudo. 3000 a. sua antiguidade talvez seja comparável à da fala.o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. (talvez sob alguma influência do cuneiforme).digamos. talvez. Até mesmo com o alfabeto.. ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed).c. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita.faz e à qual atribui um sentido.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. mas totalmente fechados. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. A maioria. de um sistema de registro de transações econômicas. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. 1400 d.c. 1200 a. 1500 a. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. pois o primeiro registro cuneiforme. ou às vezes.usar a escrita para produzir literatura . isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. o da visão. o asteca. interpretável apenas por aquele que os faz.c. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios. indicando que ()~ documento foi inteiramente lido. o chinês. 50 d. O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. em seu sentido comum. Desse modo. os hieroglíficos egípcios. Diringer 1960. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. Não é um mero apêndice da fala. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas. não quando a mera marcação semiótica foi imaginada. 3000-2400 a. gradativamente. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . o primeiro de todos os registros conhecidos (c. ao uso de sinais.Wilson 1975. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. os símbolos do lado de fora da bula .c. sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto. Se isso é o que se entende por escrita. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra.C. banaliza seu significado. pelo menos em parte. o registro do vale do Indo.c.). Existem estágios intermediários. da mesma regiào que as bulas. originou-se. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl.digamos. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. o "Linear B" minóico ou micênico. mas somente em casos excepcionais . 3500 a. 3500 a. o que representavam . dentro da bula. ocos. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos. o contexto extratextual às vezes é necessário.C. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica. o maia. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953.c. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. como no sistema desenvolvido pelos vai..

Uma espécie é o ideograma. Em um sentido especial. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. Nenhum chinês ou sinólogo conhece. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . mas não às palavras "primeiro" e "segundo". os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). como aparece aqui. mutuamente incompreensíveis.inglês sole . Desse modo. um luba. para "criança" [dzal. o . 3. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. em 1716 da nossa era. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. ou já conheceu. de certo modo. ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. o mandarim. (Todavia. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. 2. um caminho [walkl e uma chave [kryl. até mesmo naquela época. Indubitavelmente. desenhos de um moinho [mil/l. As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). 2. o significado pretendido não fica inteiramente claro. podem compreender a escrita. Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. 3 e assim por diante estão. Todos os sistemas pictográficos. desse termo. sole no sentido de "apenas". mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. Mas. 2. que agora está sendo ensinado em toda parte. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. algo como um francês. nessa ordem. o que 1. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. 2. A perda para a literatura será colossal. freqüentemente.) Algumas línguas são escritas em silabários. ou soul [almal associada a "corpo". O chinês é o maior. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. mas estabelecido por código: por exemplo. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). arrola 40. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". numerais como 1. 3 e assim por diante. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. 2. desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. no pictograma chinês. incapazes de compreender o que os outros dizem.no sentido mais específico história do registro. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. todos eles. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978.545 caracteres. requerem uma espantosa quantidade de símbolos. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho).de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. mas a palavra "floresta". embora primorosamente estilizados. 3 não são. Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. A comunicação pictográfica. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. p. como uma letra do alfabeto.

outros rébus). que significa "não"). discute as duas variantes do alfabeto original. "pontos" vocálicos. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). não é uma vogal. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. ela simplesmente representa o fonema [b]. malabarense. respectivamente. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . "claustro"). como nos registros u~arítico e coreano.hebraico. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. o de que foi inventado apenas uma vez. talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. para ka. p. 456). mas 2 mil anos depois dele.até o terceiro ano. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". o cuneiforme. 121-122. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh". coreano . muitas vezes extremamente complexas. mi. ki. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. Na verdade. na Libéria. de uma forma ou de outra. mo. alguns ideogramas.) Todos os alfabetos do mundo . talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. romano. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha).. (Diringer 1962. não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. por exemplo. ku. foram acrescentados a muitos textos. até hoje não possuem letras para vogais. ele usa caracteres chineses. me. sem dúvida.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. culturalmente ricas e poeticamente belas). Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. à medida que lêem. pronunciados a sua própria maneira). Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. Além disso. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. No do vai. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. arábico. O fato mais notável sobre o alfabeto é. que se tornou nosso "a" romano. e é muito difícil de ler. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". cinco outros para ma. ke. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando.c. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra.derivam. mais ou menos. p. Havelock 1963. embora. pp. A letra aleph. ele usa caracteres chineses. ugarítico. ideogramas. mu e assim por diante. As línguas organizam-se de diferentes maneiras. mesclando dois ou mais princípios. grego. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. na história do alfabeto hebraico. assim como outras línguas semíticas. discordantes em quase tudo o mais. Todavia. Posteriormente. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. ko. como o árabe. rébus e várias combinações. na verdade. . do desenvolvimento senútifo original. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. o sistema coreano é híbrido (além do hangul. em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus. tâmil. um alfabeto genuíno. cirílico. E israelenses e árabes modernos. quando os pontos vocálicos são usados. o semítico do norte e o semítico do sul. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados. O hebraico.

ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). uccello. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. digamos. que uma palavra é uma coisa. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. igualmente. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. de um pássaro. Ele analisava o som de modo mais abstrato. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. Porém. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. Parece que a estrutura da língua grega.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender.r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. favorece o pensamento analítico. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. mais analíticas. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. Rébus ou fonogramas. É talvez. quase total. o "desapare-" já acabou. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. sem dúvida. Era também "internacionalizante". pãjaro. facilmente aprendido por qualquer pessoa. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . não uma palavra. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. para os escolares israelenses. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. abstrato. pois representa um objeto. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. não um evento. O som. O alfabeto implica que as questões são diferentes. por converter o som a uma forma visível. "pássaro". que admitia a omissão de vogais na escrita. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. desse modo. Um desenho. porém crucial. pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. sae. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. Todo registro escrito representa as palavras como se. como no exemplo fictício usado acima). O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). elas fossem coisas. tori. b mais a. existe somente quando está desaparecendo. O alfabeto. marcas imóveis para a assimilação pela visão. (Observou-se há pouco que. Nos livros e jornais coreanos. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. Mas o rébus (fonograma). com vogais. Vogel. como muitos outros sistemas de escrita. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. não obteremos "aroma". quando chego ao "-cendo". da palavra. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. no entanto. semi-permanente. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. não reduz o som ao espaço. objetos mudos. A escrita de caracteres chineses. até o terceiro ano. de algum modo. Ele representa o som em si como uma coisa. como já explicamos anteriormente. com certeza. em componentes puramente espaciais. sobre bases neurofisiológicas. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. embora possa representar várias coisas. nem "amora" nem "aroma". mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. mas um som completamente diferente. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. Constitui um registro democratizante. Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. temos dois. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. Kerckhove (1981) sugeriu que.

Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. . ao passo que os 1. foi comumente associado à magia.jornais. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado.encomendas. ele o faz necessariamente. p. 236). sociedade específica. pp. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. Apenas no século XX. Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . Eckvall). Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. inici(l1mente.todos coreanos que sabiam escrever . e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo.. recibos (Achebe 1961. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. 201-203). p. O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho .B. não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. pp. A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. ou caracteres chineses. Até aquela época. garotas de gramática. O futbark. 16. Porém. pp. Milhares e milhares de coreanos . Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. pp. no lruCIO. 113-114). ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). alfabético ou outro. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar. referente ao aprendizado livresco. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. onde. com a democratização maior da Coréia. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. 15-16). citando R.e. abre caminho pela primeira vez na direção de uma . vulgares. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. na realidade. ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. 120-121). Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. uma realização magistral. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. Porém. como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968.800 ban. p. conhecimentos de embarque. caixas de papelão.alfabeto. que são o mínimo exigido . diante da prevista resistência maciça. que todos podem virtualmente ler. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. A escrita é muitas vezes considerada.para ler a maior parte da literatura em coreano. A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. Na cultura da antiga Grécia. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. a recepção dessa façanha notável era previsível. 13). Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. recibos etc. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. 300-309). pp. em 1443 d. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele).além do alfabeto . por meio de uma forma dialética escocesa. Clamor girls são. práticos. mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas.

95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. cf. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. p. provavelmente por volta do século II a. 88-115. e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. Nesse estágio. Não existia papel. p. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. 90). "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. evidentemente. particularmente em composições breves. Eadmer de Saint Albans. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . junta suas palavras no papel. sobre "A tecnologia da escrita"). papiros (melhor do que a maioria das superfícies. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. ele possuía blocos de barro molhado. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). pela ordem. Como superfícies para a escrita.C. Havelock e Herschell 1978). Compor à medida que se escreve. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. pp. ou. era. 218). Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos. então.c. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). ou um construtor naval para fazer um barco. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. na Europa. comumente na Ásia Oriental. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. Durante a Idade Média. p. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. peles de animais (pergaminho.se é que algum o faz -. como o Mali. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. Como ferramentas para escrever. até mesmo então. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento.. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. folhas secas ou outros vegetais. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. No ato físico de escrever. mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). Goody 1968b). Ainda era raro na Inglaterra do século XI e. esse estágio foi superado. quando compunha por escrito. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. De modo semelhante. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz.de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. como na aquarela. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. produzir um pensamento com a pena na mão. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. quando ocorria. manufaturado na China. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. Nesse estágio de profissionalização da escrita. Ou então cascas de árvores. São Tomás de Aquino. que escreveu seus próprios manuscritos. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. bastões de madeira (Clanchy 1979. os escribas possuíam vários tipos de estilete. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. Mas.. na Inglaterra do século XI. do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. velino) desbastadas de gordura e pêlos.

Voltaremos a falar (isto é. "pessoas de idade. mas por objetos simbólicos (como uma faca. pp. Na Inglaterra do século XII. não (isso. 238). as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. 235-236). Por volta de 1130. por exemplo. 25). 24). todos os dias. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. À primeira vista. De fato. em uma moldura de tempo computado abstratamente. até mesmo em um meio administrativo. atualmente. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. As culturas mais antigas. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. de bom testemunho". Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. 230). pp. a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. ela pode ainda não lhe dar muito valor. 236-241). mas "uma espada antiga e enferrujada". 232-233). Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. porém a história cuidadosa. Cada jurado jurou que.pensamento baseado na oralidade. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos. ao passo que os textos. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. p. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos.Clanchy 1979. presa ao documento por uma correia de pergaminho . p. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). imposto por milhares de calendários impressos. sábias e maduras. . mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. relógios de parede e relógios de pulso. pp. Em 1127. especialmente em um tribunal. Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. devemos lembrar. o Conde Warrenne exibiu não uma carta. pp. elaborada por Clanchy. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". o Conquistador. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). mas não a haviam interiorizado o suficiente. Clanchy chama a atenção 0979. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. a idade de herdeiros feudais. p. 231. p. que conheciam a escrita. Antes do uso de documentos. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. do nascimento de Cristo. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. No período estudado. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). provavelmente por diversos motivos. as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. todos vivemos.

um fato que. o Confessor. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael.. desbastada de material não mais em uso. os de escrita cuneiforme dos sumérios. Goody (1977. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. em certo sentido. muito velha (cf. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. 233). a cada momento de suas vidas. 31-34). de fato.. A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. Elas eram identificáveis por sua aparência. encontramos uma seqüência de "gerou". e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados. que começam por volta de 3500 a. Em vez de uma recitação de nomes.não um registro de contas objetivo. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. Além disso. tabelas ou números. "gerando"). não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal".c. como em um alinhamento militar. em uma economia de pensamento oral. porque o passado mais remoto era. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. "A verdade lembrada era . era automaticamente sempre atualizada e. p. portanto. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. como facas ou espadas. a escrita foi. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. De fato. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. flexível e recente" (Clanchy 1979. as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas. A escrita torna possível tais aparatos. No texto da Torá. são registros de cálculos. E. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes). as pessoas não se sentiam situadas. acamparam em Hazerote. p.. A lei consuetudinária. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes.. sublinha Clanchy. como gerador e como gerado). Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. em sua maior parte. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos. pp. 249. p. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. para a maioria das pessoas. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. "Os falsificadores". mas estão fazendo algo.461-879) .contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. paradoxalmente. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. qual a utilidade. portanto. 233). Clanchy 1979. Meujael gerou Metusael. pp.H. 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros. 44 são certamente falsificadas. isto é.. Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. eles acamparam em Quibrote-Ataavá." e assim por muitos versos mais. jovem . faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. citando P. . Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. dos quais o calendário é um dos exemplos. Sawyer). Partindo de Hazerote. acamparam em Ritmá . salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. Partindo de Quibrote-Ataavá.): "Partindo do deserto do Sinai. A oralidade não conhece listas. É o domínio dos ancestrais. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). nas culturas funcionalmente orais. inacessível à consciência.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão.

quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. são antes "memória de canções cantadas". A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real. para o movimento da direita para a esquerda. c e assim por diante. imobilizados no espaço visual. pelo que se sabe. pp. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente.aos sons ou. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". b. o alfabeto. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. como nos índices. regiões do planeta. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). em seu hábitat natural. ou todos esses modos ao mesmo tempo. a outro indivíduo real. para indicar a seqüência. mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. Em qualquer lugar do mundo. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. de baixo para cima . ou de cima para baixo. Goody mostra em detalhes como. Kerckhove 0981. representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. ou indivíduos reais. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. para notas de roda pé. pp. A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. Os textos são coisas. oral. vivo. depois uma volta na ponta para a outra linha. como em uma escrita bustrofédon. na escrita grega antiga. As tabelas. eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. são parte de um presente real. tipos de ventos e assim por diante). quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. aos fonemas que codificam. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo. pp. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. são antes enunciados que são ouvidos. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). Tudo isso constitui um mundo de ordem. e depois usada para a recuperação visual do material. é resultado não apenas da escrita. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. 4950). que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço. mas nunca em lugar algum. mais precisamente. 307-318 e passim). em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. Os textos. A palavras.Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. suas próprias leis de movimento e de estrutura. uma linha indo para a direita. e até mesmo os poemas. que vai da direita para a esquerda. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam.. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. As palavras faladas constituem sempre modificações .Não são percebidas como uma coisa. As páginas não possuem apenas "cabeças". para o estilo stoichedon (linhas verticais) e.externamente ou na imaginação . mas como reconstituições de eventos no tempo. existencial. em vários registros em todo o mundo. impossíveis de "examinar". finalmente. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. nos primeiros tempos da cultura escrita. mas também "pés". porque não são apresentadas visualmente. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . vivos. ou da direita para a esquerda. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. em uma linha horizontal. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. vivo.

Eles apresentam um material filosófico em diálogos. na Idade Média. em um contexto simplesmente de palavras. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. espero. portanto. o diário requer. Estou escrevendo um livro que. devo estar isolado de todos. será lido por centenas de milhares de pessoas. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. ao compor um texto.escritores de diários de angústias. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . 53-81). finjo estar falando comigo mesmo. o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. de certo modo. Em um texto. posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. ao qual ele deve se moldar. na verdade. mas escrevendo-a. calmo. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. uma "moldura histórica". mas elas não serão completas. isto é. adotada e adaptada por críticos habilidosos. Enquanto escrevo o presente livro. . Nem poderia. Em um texto. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. Elas nunca ocorrem sozinhas. Para que um texto comunique sua mensagem. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar.animado. sem a impressão. uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz . A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. irado. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. não importa que o autor esteja vivo ou morto. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. como os do Sócrates de Platão. as palavras estão sozinhas em um texto. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. mas também para o escritor. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. portanto. excitado. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. pp.de uma situação que é mais do que verbal. por exemplo. A enunciação falada vem apenas dos vivos. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. De fato. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. Mais tarde. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. ao "escrever" algo. resignado ou qualquer que seja. possa interromper minha solidão. Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. sem a escrita e. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. e em um diário.e realmente enchem . ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. No entanto. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. A tradição letrada. Quando meu amigo ler minha carta. em um sussurro. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. Além disso. Na linguagem falada. por outro. De fato. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. Escrever é uma operação solipsística. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. posso muito bem estar morto. para que o leitor possa imaginar um debate oral.

O que Goody 0977. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. "linguandoas" de ponta a ponta. maldita.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). no sentido de que se lê bem em voz alta. A escrita é de fato a sementeira da ironia. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. Todavia. de um tipo ficcional. e o faz. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. salvo ironicamente. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". segmentos significativos. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. sem nenhum contexto . a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). as palavras escritas refinam a análise. Porém. aqui. Por meio de um texto tratado quirograficamente. em qualquer situação possível. tirando-a do contexto existencialmente rico. língua. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. a tornar o falante muito pouco convincente. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . o fluxo de palavras. Para nos fazermos entender sem gestos. como na narrativa formal. a "grande. as palavras. Portanto. mas caótico. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. eliminar incoerências (Goody 1977. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. 272-302). A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. narrativa. _ como nos provérbios. ou então as evitamos totalmente. nós as reduzimos a um mínimo. textos escritos. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. pp. Com a escrita. p. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. na escrita. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. Apenas um leitor. A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. apagadas. e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. na verdade. Na escrita. sem entoação. pois se exige mais das palavras individualmente. as correções podem ser tremendamente produtivas. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. quer sejam longas. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. postas na superfície. pois os diálogos são. murmurante confusão" de William ]ames. Evidentemente. Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. sem um ouvinte real. Não há mimese. em partes mais ou menos separadas. ela pode retroagir na fala. pp. não-analítica. existencial. quer sejam breves e apotegmática~. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. oral. de muitas das enunciações orais. uma vez "proferidas". Porém. exteriorizadas. podem ser eliminadas. 49-50). mudadas. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. expresso na forma de diálogo. no sentido aristotélico. o correspondente fluxo de pensamento. sem expressão facial. Em uma cultura oral. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos.

para uma elaboração plena. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. p. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. 134) . Conquanto seja verdade que eles eram todos.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. com propriedade. por motivos econômicos. na Alemanha ou na Itália. particularmente os gregos. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. Na Inglaterra. carentes de significado pessoal premente. Porém. oralmente e por escrito. Muitas vezes. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. o cristianismo e o islamismo. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. na Itália. o judaísmo. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. Porém certas línguas. investiram enormemente na escrita. Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. pp. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. 56-57). pp. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. da impressão. escreVeU-OSposteriormente. como se viu (p. 50-71) chamou. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. como na Inglaterra. pp. respectivamente. "grafoleto". para construir o conhecimento filosófico e científico. com o toscano. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. tais como os conhecemos (Ong 1967b. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. políticos. 773-776). Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". 83). presente nas orações de Cícero. no entanto. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. p. mas "como contas em uma caixa" (1974. 15). dialetos regionais e/ou de classe.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. é obra de uma mente letrada. pp.. com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). o código lingüístico restrito não funcionará. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. Basil Bernstein 0974. pp. . Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. 176. não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. Todas elas possuem textos sagrados. Como ressaltou Guxman 0970. operam funcionalmente. 181. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. na Alemanha. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. à Bíblia ou ao Corão. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. descartou certas formas dialetais. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. muito diferente dela própria. ou mais propriamente dialetos. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. religiosos ou outros. em sua essência. como o pensamento e a expressão orais em geral. além de certas peculiaridades sintáticas. O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. e finalmente se tornou uma língua nacional. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. 134-135. Analogamente.

apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. 74-111). A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. pp. porém sua plenitude se deve à impressão.e a afetam. são interpretados no grafoleto. 43-50) vai mais além e diz que. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. e arrendondando os números. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem. Porém. representada por Sócrates. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. pp. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. 1-22. o estudo da "filosofia". para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. À luz desse fato. Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. por exemplo em inglês.diferem da gramática do grafoleto. Nesse sentido. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. 136-137). p. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. foi trabalhado durante séculos. Mas Hirsch 0977. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. a fortíorí. primeiro e mais intensamente. gramáticos. lexicógrafos e outros. O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. pp. Onde existem grafoletos. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. Na Grécia Antiga. pp.além do grafoleto . As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. 60). e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. C. nenhum outro dialeto.S. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). É má pedagogia insistir nisso. Platão e Aristóteles. assim como milhares de línguas estrangeiras. Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. constituía um elemento menor na cultura . pois os outros dialetos do inglês.Um grafoleto moderno como o "inglês". mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. alemão ou italiano. 255-283). É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. 108. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. quando outros dialetos de uma dada língua . a despeito de toda a fecundidade subseqüente. em um sentido profundo. que é muito menor. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. depois pelos teóricos normativistas. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. porque não há nada "errado" com os outros dialetos. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. ao que parece. impresso. São a retórica acadêmica e o latim culto.

efeitos. anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. da apresentação oral para a escrita). pp. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". Nesse sentido. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. como as outras "artes". as novas estruturas quirográficas de pensamento. pp. paradiastote ou distinetio. Como Platão.. Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. Lewis estava. Durante séculos. a retórica era algo maravilhoso. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. referiam-se aos "assentos" de argumentos. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). Os gregos homéricos e pré-homéricos. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. Kennedy 1980.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!".. quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. 23-103). pareceria óbvio que. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. como em geral os povos orais. a amizade. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. como sugere o infeliz destino de Sócrates.grega. passando pela Idade Média e pela Renascença. pp. -. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. científico. etc. procurando causas. para seus primeiros descobridores ou inventores. nunca competindo com a retórica. Howell1956. tal como a lealdade. Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. voltando as costas ao mundo oral. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. 56-87. à Era das Luzes (por exemplo. menos analíticos. decadência. amizade etc. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito. Desde pelo menos a época de Quintiliano. As culturas orais. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido.S. 147-187. A "arte" da retórica. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro. antes da escrita. As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . Howell1956. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. fórmulas) sobre vários tópicos . . o mal. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim .antinomasia ou pronominatio. Com sua herança agonística. inconscientemente na verdade. causa.tais como lealdade. definitiva senão totalmente. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro). mas que. em um sentido muito profundo. não comportam "artes" dessa espécie organizada. No segundo sentido. efeito. produto da escrita. A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. Índice). os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. C. (Lanham 1968. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. tais como definição. os sofistas da Grécia do século V. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. que explicava e sustentava a persuasão verbal. No primeiro. foi. contrastes. quer no número de seus praticantes. 1971) -. como vimos. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". pp. e a tradição filosófica. Murphy 1974. contrastes e tudo o mais. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. Sonnino 1968) . embora dissesse respeito à linguagem falada. isto é. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. a culpa de um acusado de crime. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado. isto é. 1971. Mas. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado.da Antiguidade Clássica. 194-205).sobre qualquer assunto. a guerra etc.

119-148). A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. científicas. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. a maioria deles nunca escrita até hoje. ao contrário dos indianos e dos chineses. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. médicos. na Alemanha). mas nas mais novas. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. 192-222. como efeito ou ambos. Da época medieval em diante. vernaculares. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. outrora uma . A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). a escolaridade e. mutuamente ininteligíveis. acadêmica.C. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. por motivos econômicos ou outros. diplomatas e outros servidores públicos. como causa. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. filosóficas. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. pp. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. Até que um ou outro dialeto. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. Oliver 1971).C. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. na Inglaterra. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. continuou em latim. está claro. retórica. O latim culto foi um resultado direto da escrita. catalão. é claro. Por volta de 700 d. ao passo que as escolas mais antigas. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. francês e outras línguas românicas. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. advogados. herdados do passado.. como tantas desde 1600. de um modo ou de outro. A retórica. Não havia como traduzir as obras literárias. No século XIX.. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. Da Antiguidade grega em diante. muito menos oratório. o finlandês e o turco. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. Não havia realmente outra alternativa. com instrução baseada no latim. com ela.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". espanhol. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. 453-459). título). O latim. pp. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. tanto no mundo mental quanto no extramental. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966. 451. Porém. 1981. que muitas vezes possuíam formas diferentes. real embora muitas vezes vaga. ou o hochdeutseh. Entre cerca de 550 e 700 d. praticamente nenhuma teve tal treinamento. pp. é essencialmente antitética (Durand 1960. línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica.

comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. o latim tornou-se o latim culto. p. Paradoxalmente. assim. em princípio . o orator. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. 119-48). Sem o latim culto. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. mas também.embora. era uma língua quirograficamente controlada. estabelecer a objetividade. um cenário de rito de puberdade masculino. eram controladas exclusivamente pela escrita. se é que o teria feito. mas o rhetor. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. o sânscrito e o chinês clássicos. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. além de sua proveniência clássica. isolado da mais tenra infância.língua materna. Não havia usuários puramente orais. Por ordem dos estatutos escolares. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. Sugeriu-se (Ong 1977. no sentido restrito. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. 264) chamou a atenção. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. 28-34). Despido de balbucios. juntamente com o grego bizantino. aprendida fora do lar. como todas as línguas realmente em uso. A tradução era transformação. Todas as línguas usadas para o discurso culto .ainda que nem sempre de fato -. Durante mil anos. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. falado não somente nas salas de aula. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. 113-141. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. o árabe clássico. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. em um cenário tribal que era. Assim também seu vocabulário básico . Em virtude de sua base na academia. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. O latim havia sofrido um corte som-visão. mas sempre escrito da mesma maneira. A escrita. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. pp. aprendidas na infância. A ciência moderna nasceu do solo latino. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. uma língua inteiramente controlada pela escrita. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. como o latim culto. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é. outras línguas controladas quirograficamente. vinculada ao sexo. estava vinculado ao sexo. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. A interação criou todos os tipos de resultados. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. Baurnl 0980. tornou-se assim uma língua escolar apenas. o orador público. Não obstante. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. na verdade. 1981. ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. pp. não usado pelas mães ao criar os filhos). oralmente. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. sempre têm. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. como vimos anteriormente. Durante esse período. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. de modo paradoxal. pp.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. por exemplo. em todas as demais dependências escolares. de fato. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. como acabamos de observar. pp. todos sabiam também escrevêIa. Por um lado. que era totalmente masculina .

tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. Porém. A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. 23-48). de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. pp. estruturas formulares e lugares-comuns. estudantil. declamatória. disposição. 270 etc. os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. 241-255). Na Antiguidade Clássica ocidental. Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. "escrita" e "aritmética". 53-87. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". 144-256). no entanto. 'riting e 'rithmetics· -. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. Uma vez concluída. . 23-47). ele também retornou à Antiguidade e. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. Crosby 1936. e mesmo muito depois. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. 146-172. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. O célebre McGuJfey's readers. Durante o processo.atualmente são também línguas maternas (ou. pp. 16. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. à medida que o latim foi expulso. a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. pp. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual. gradativa mas inevitavelmente.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. ritmo.T. Atualmente. Em larga medida. antíteses. pp.). relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". Nelson 1976-1977. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. que não era aplicável à escrita. os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. pp. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. Por volta do século XVI. mas também na escrita. deu nova vida à oralidade. pp. estilo. carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. jocosa. mas sempre pelo debate oral . nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. elocução (Howell 1956.) "leitura". A própria retórica emigrou. 20). admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. durante o século XIX (Balogh 1926). no caso do árabe. Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. comercial e doméstica. livresca. agonística. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. memória e elocução). heróica. por esse motivo. numa forma popular. Desde a Antiguidade Clássica. pp. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. do mundo oral para o quirográfico. mas a leitura oral. comumente com muitas variações. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. Elas estavam também reduzindo a última. Ahern 1982). Ainda aspirando à velha oralidade. as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. eclesiástico ou político. Os três Rs . que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional.reading. 1971. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral.

aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão. embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. Em um trabalho deste alcance. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras.Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão. embora não o único. Ibe printing press as an agent of change . Além disso. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual.

sim. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. Em fins de 1700. Com o caractere tipográfico não é assim. porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. isto é. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). a audição serve como garantia. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. de "ouvir" livros de contabilidade. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. uma técnica de manufatura que. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. . As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. mas não o alfabeto. embebendo-o novamente no mundo oral. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. e não olhando. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. durante a Renascença. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. pp. mais do que a visão. 5). Pelo menos até o século XII na Inglaterra. 306-318). A impressão sugere que as palavras são coisas.[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). A audição. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. e desde o século VII ou VIII. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. como unidades. alterou a vida social e intelectual. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. a atividade noética (Ong 1958b. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. às palavras que irão constituir. Clanchy 0979. produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. pp. mas de um tipo que produzia o livro impresso. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. 1977). muito mais do que a escrita jamais fizera. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. e não a escrita. que realmente reificou a palavra e. com ela. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. 1967b. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. sapatos ou armas. tanto escrito quanto oral. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. e referências lá citadas). difundiu o conhecimento como nunca antes. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. Durante milhares de anos. chineses. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. não era do tipo que produz fogões. 215. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. Ahern 1981. mudou a vida em fanúlia e a política. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. como nos debates universitários medievais. palavras inteiras. e. por outro lado. "A visão é muitas vezes enganadora. Os chineses tinham tipos móveis. em uma série de etapas fixas. Porém. 1971. Anteriormente. Como o alfabeto. na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. foi a impressão. permitiu a ascensão das ciências modernas e." No Ocidente. são nossa preocupação aqui. implementou a exploração européia do planeta. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. Antes de meados de 1400. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. apenas caracteres basicamente pictográficos. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). A primeira linha de montagem.

e não a nossa. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. ao processar o texto em busca de sentido. impresso. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. com hífens. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. meramente posto em movimento pela visão. Além disso. contudo. Nossas atitudes é que mudaram. As páginas de rosto do século XVI. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. O controle da posição é tudo na impressão. Todo texto envolve a visão e o som. Muito depois do desenvolvimento da impressão. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. que se iniciara com a escrita. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. em culturas manuscritas altamente orais. Finalmente. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. presumivelmente mais "natural". parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). de longe. constitui a original. de sir Thomas Elyot. comumente dividem até mesmo palavras capitais. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. 154). publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. Por que o procedimento original. os leitores comumente vocalizavam. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. No entanto. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. da qual a presente se desviou. Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. e de uma forma que deve ser explicada. diferentemente do que fazemos. incluindo o nome do autor. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. a palavra mais proeminente. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. o "the" inicial é. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. em sua grande maioria. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. ver Steinberg 1974. Evidentemente. p. essa prática. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui.

A maior legibilidade. Os textos impressos parecem feitos à máquina. todas alinhadas à direita.o mais antigo dos processos. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. A impressão é orientada para o consumidor. com caractere gravado . A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. no espaço visual. falada. O controle tipográfico. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). agentes literários. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. e em outros registros antigos. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. por sua vez. pp. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. em última análise. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. favorece a leitura rápida. Ele observa 0977. que. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. não humanos.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. Essa leitura. que beneficiam o copista. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. como na caligrafia. embora sejam incômodas para o leitor. caracteristicamente. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. como muitas vezes ocorre em manuscritos. revisores e outros. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. pp.editores. 284-303). leitores de editoras. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. como de fato são. Não obstante. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. especialmente os índices alfabéticos. De um modo geral. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. As listas começam com a escrita. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes.c. A impressão com caractere "a quente" (isto é. enfeitado. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. silenciosa. os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. encerrando a caixa firmemente em uma prensa. depois de usados. pp. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. Goody 0977. e não simplesmente escrito) de Derrida. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. da aparência do texto impresso. "É assim que as coisas são" . afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. são cuidadosamente reposicionados. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa.

pp. Para a localização visual do material em um texto manuscrito.. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. "ovelhas apascentadas" etc. na enunciação oral.a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). espacialmente organizado.gordos". Em 1286. antes. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. até muito recentemente. efeito. depois famílias de deuses. Um signo favorito era o "parágrafo". a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. pautas. coisas dessemelhantes e assim por diante. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. com divisores· de palavras para separar itens de números. tinham a mesma sensação. (Os educadores no Ocidente. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. Clanchy 1979. linhas cuneiformes e linhas alongadas. a recuperação visual não foi prioritária. ainda que copiados do mesmo ditado. pelo primeiro som: por exemplo. o intelecto. baseado na oralidade. sem nenhuma mudança de página. pp. Nesse sentido. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. até mesmo em um índice alfabético impresso. mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. Os índices alfabéticos ocorriam. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. mesmo na Europa do século XIII. em uma obra ligada à poesia. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. 81-90. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . por si mesmo. embora não fosse perfeita. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado.) A escrita está aqui. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas.ou. Raramente o são (Daly 1967. tais como causa. porque Textor considera apropriado que. 144). O índice alfabético é. coisas relacionadas. na verdade. No livro impresso. 85).deuses. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. e não uma unidade do discurso. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. 73). mas eram raros. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. quase nunca correspondem página por página. um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. Aqui. Um novo mundo noético estava se moldando. p. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. que originalmente significava a marca 9[. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. pp. p. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. A indexação não valia o esforço. 86-87). mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes . novamente. como os intitularíamos . esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. em virtude não de sua própria façanha. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. pp.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. uma vez que em italiano e em latim. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. visual. . Obviamente. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. 169-172). na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. Acompanhando esse equipamento textual formular. a serviço da oralidade. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes. 28-29. A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. muitas vezes toscos e comumente não entendidos.

As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. caçadores e artesãos de muitos tipos. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). 14-16. e o livro impresso. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. ficcional ou outra do que como. pp.. 40-45). As páginas de rosto são rótulos. diferentemente dos livros manuscritos. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. manuscrita. depois. anteriormente. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. do que como um objeto. a página de rosto (nova com a impressão .." (Aqui está. Desenhos técnicos feitos à mão. pp. títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto.Steinberg 1974. e não com partes preexistentes.. Uma vez bem interiorizada a impressão. por exemplo. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. como se vê nas Ivins 0953. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. como vimos.Nesse novo mundo. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica. A observação exata não começa com a ciência moderna. um livro de uma cultura pré-impressão. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. chegam as páginas de rosto. a tendência iconográfica ainda era forte. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. xilogravuras e. Durante séculos. 145-148). uma elocução registrada (Ong 1958b. assim como a impressão. implementou essas descrições expressas com precisão. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas. O mundo noético hipervisualizado resultan- . um livro que fulano escreveu sobre . Do contrário. A herança oral está operando aqui. como objetos. librum quem scripset quidam de . Ao mesmo tempo. logo degeneraram em manuscritos. pois. Muitas vezes. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual). páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. uma "afirmação visual reproduzível com precisão". com a impressão. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. carissime lector. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. 31) chamou a atenção para o fato de que. Porém. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. técnicas (inicialmente. Com a impressão. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. eram duplicatas umas das outras. p. O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. um objeto idêntico. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa").). duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. p. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. sendo um objeto marcado com letras. como mostrou Ivins 0953. 313). nos manuscritos medievais ocidentais. ela foi fundamental para a sobrevivência entre.. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. em vez de uma página de rosto. caríssimo leitor. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. uma ocorrência no curso da conversação. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes. Agora. a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. as histórias de Mwindo e assim por diante).

Nº 276 0%8). não para o aspecto visual de objetos. 65-66. incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. pp. 202 etc.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". a era da Revolução Industrial.. sugerindo asas e um altar. 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. e não o verso. dão aos poemas uma forma visualizada. Em manuscritos. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. Já no início da era da impressão. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável.te era absolutamente novo.E. As listas e as tabelas manuscritas. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. sobre o gafanhoto. 61-96). discutidas por Goody 0977. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. clínica. d. pp. 115-138). as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. pp. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. A poesia concreta é um gênero menor. mas. Em Tristam Shandy 0760-1767). cenas ou pessoas (Fritschi 1981. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. e com maior sofisticação. isto é. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. mas não lidas em voz alta. p.). até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. O poema sem título de E. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. por exemplo. alcançam a maturidade principalmente na era romântica. com seus espaços tipográficos. na verdade. seja a unidade do poema. De certo modo. respectivamente.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. meticulosa. Eisenstein 0979. 80. como é chamadoadquiriu um significado importante. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. mas também a literatura. Havelock 1963. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. 81. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. ."espaço em branco". podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. ela ainda não consiste em mera imagem. de vários comprimentos. o próprio espaço em uma folha impressa . mas também sobre a imaginação literária. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. Muito mais tarde. próximas às descrições que surgem após a impressão e. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. nos quais os versos. mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. 74-111). Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. pp. Cummings. p.

Exatamente na época inicial da impressão. A desconstrução está antes atada à tipografia do que. Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. A impressão diminuiu. uma pessoa lendo para outras em um grupo. paradigmática. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966).) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. "torturador". embora ele se mova nele a sua própria maneira. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. p. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto). hoje. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. "saqueador". O Webster's 1bird New International n. Na cultura manuscrita e. ~ uso de todos os outros. possuem uma consciência aguda de que. mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem.53.9) usa a palavra plagíarius. por isso mesmo. isto é. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. para alguém que se apropria do escrito de um outro. a leitura tendera a ser uma atividade social. 383). como ela muitas vezes parece afirmar. fOI consIderado "corrompido". A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os).curiosidade . . meramente à escrita. (Os professores de crianças de áreas pobres. por fim. A poesia concreta não é produto da escrita. mas da impressão. não o escrito. O antigo poet~ latino Marcial (i. p. A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. mais ou menos diretos. na cultura inicial da impressão.í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . formadas na velha ideologia. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. Porém. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. contudo. Hartman (1981. A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. obviamente. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". É esse o território de Derrida. Como sugeriu Steiner 0967. "opressor". muitas vezes. portanto.e. oral. O texto impresso. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. de Jacques Derrida. a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. se ele se desvia desse uso tipográfico. 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. como se viu. paradoxalmente. muitas pessoas. revelam as limitações construídas da palavra falada também. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. fórmulas e temas dos quais todos se servem.um fato que. é o texto em sua forma mais plena. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia.

uma forma de caracteres tipográficos. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo. desde a Antiguidade. Uma vez fechada. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. Antes da impressão. nesse sentido. A impressão. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes).não ouvido. por volta do século XVIII. A impressão. completos. separada de qualquer interlocutor. Com a impressão. impessoais e religiosamente neutros. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. sem que o queira e sutilmente. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. Em 1557. especialmente na narrativa. ao Formalismo e à Nova Crítica. por outro lado. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. Ela pode dar a impressão. produzindo uma enunciação. todas exatamente da mesma largura). o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. e. menos ausentes. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. Ao contrário. Esse sentimento afeta as criações literárias. Os livros impressos repetiram uns os outros. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. Até a impressão. um "ícone verbal". dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. o texto não comporta mudanças (rasuras. um ícone é algo visto . do que os leitores dos escritos destinados à impressão. obtido de Henrique VIII. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. aspecto visual e a mesma consistência física. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. do mesmo modo. A tipografia tornou a palavra um bem material. Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. foi formada em Londres a Stationer's Company. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . conscientes ou inconscientes. de bom ou mau grado. assim como a obra analítico-filosófica ou científica. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. a impressão dá origem. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. de algum modo auto-encerrados. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. autônomo e indiferente a ataques.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. As páginas de um jornal são normalmente cheias . atingiu um estado de completude. os manuscritos. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. No começo da era eletrônica. e alcança seu auge nas histórias de detetive. no romance a partir da época de Jane Austen.um tal privilegium em 1518. fora controlado pela escrita. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. e. Significativamente. como cada vez mais semelhantes a coisas. Na teoria literária. que. mas de um modo muito real. finalmente. lacrada. Evidentemente.

ao menos de um ponto de vista ideal.isto é. elas se tornaram uma espécie de choque.). Cada arte era. e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. 225-269. A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. ~ própria arte estava completa e independente. uma unidade em si mesma. 144).atormentavam os escritores. o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. A obra de Harold Bloom. ao compor uma determinada passagem do discurso. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. trata dessa angústia do escritor moderno. nas últimas décadas. gramática. pp. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". surgiu com a impressão. . Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. em cada um dos manuais ramistas. ela deliberadamente criou textos de outros textos. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. tomando-os emprestado. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. pp. Nas culturas manuscritas. separada das outras obras. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . p. como apontou Marshall MCLuhan 0962. apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. r~tonca. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. Ainda atada à tradição comum do mundo oral.se é que existiam . embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. gramatica. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. Quando. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. aritmética e tudo o mais. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". em si mesma. as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. retórica. quando apresentada adequadamente. tudo na arte ficava claro e. partilhando as fórmulas e os temas comuns. 280). Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si.30-31. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente. Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. originalmente orais. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. mas também nas obras filosóficas e científicas.ma~érias em um dado campo. 126-127. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. A cultura impressa. por sua vez. aritmética etc. usava-se simultaneamente lógica. Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. muitas vezes de um tipo gnômico. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. Com o ponto de vista fixo. gramática. em um aspecto. 135-136). era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. uma maior distância entre o escritor e o leitor . possui um arcabouço mental diferente. Ao contrário. Além disso. poucas dessas angústias acerca da influência . que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. que. Uma matéria curricular ou "arte". Com a impressão. Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". impossíveis antes da escrita. adaptando-os. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. em si mesmo e na mente. inteiramente separada de qualquer outra. surgiram o catecismo e o "manual".

a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. o novo meio reforça o velho. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . em outro. Em nossa época de oralidade secundária. alguns pontos precisam ser esclarecidos. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. nasceu o "público leitor" . 1977. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. conscientemente informal. obtidas e/ou processadas eletronicamente. um maior entendimento tácito. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. decidimos que a espontaneidade é benéfica. mas. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. Assim. é claro. com o telefone. Não obstante o que algumas vezes se diz. seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. porque alimenta um estilo novo. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". Finalmente. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. faz com que eles se voltem para dentro de si. assim como para seu uso. 305-341). Além disso.a "aldeia global" de McLuhan. 16-49. pp. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. na verdade. 82-91). À diferença dos membros de uma cultura oral primária. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. como se observou anteriormente. como indivíduo. mediante a reflexão analítica. produzindo-os cada vez mais. um verdadeiro público. deve ser socialmente perceptivo. ausência de preocupação). Porém. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. os povos orais tinham um espírito de grupo. Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. são ainda mais intensificados pelo computador. pp. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares.e. Nesse momento. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. antes da escrita. mas evidentemente o transforma. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. E. Ao mesmo tempo. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. De modo semelhante.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. O indivíduo sente que ele. o rádio. pp. que aumenta a entrega . O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. em seu favorecimento de um sentido comunal. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos.Ong 1971. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. 284-303. informações de todo tipo. abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. da qual se ocupa este livro. Além disso. Como a oralidade primária. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela.

historiografia e biografia. Nos debates LincolnDouglas de 1858. O primeiro orador dispôs de uma hora. obras filosóficas e científicas. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. Esse tratamento da narrativa . Illinois. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. Porém. desapareceu para sempre. cuidadosamente ritmado. redundante. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. o controle rigoroso. durante o verão escaldante de Illinois. Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade.e tudo isso sem equipamento de amplificação. para os objetivos presentes. pp. que. Porém. narrativa. de certo modo. cada um deles falando por uma hora e meia. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . outros acontecimentos na sociedade.lírica. Desses. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. A oratória no velho estilo. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. de uma hora e meia. Ã narrativa podemos. 137-138. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . 189-190). invisível. clara e verdadeiramente . além da mudança oralidade-cultura escrita. Obviamente.pois isso é o que eles eram. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. ou pelo menos mais discursos. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. intercâmbios culturais e muitos outros. discurso descritivo. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. As outras talvez ouçam mais oratória. os guerreiros . o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. nascida da oralidade primária. inaudível.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. incorporar o teatro. O público está ausente. para citar apenas alguns. respectivamente . mesmo assim possui um enredo.Sparks 1908. não era essa a antiga oralidade. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo.mudanças na organização política. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão).defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. T 6 MEMÓRIA ORAL. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . teatro. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. oratória (puramente oral. acontecimentos religiosos. o segundo. Assim.

porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. que podem ser relativamente extensas. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. aforismos. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. na total ausência da escrita. que podem ser extensas. enigmas. cf. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. psicológicos e estéticos e outros mais. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. a narrativa é. Ele se aplica a uma situação específica e. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. que são razoavelmente duradouras . O mesmo ocorre com as outras formas. uma ocorrência ad hoc. em certos aspectos. Por trás de provérbios. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. significa formas passíveis de repetição. mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. em uma cultura oral. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. Com base na narração. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. Máximas. As fórmulas rituais. encaixada no fluxo temporal. A narrativa. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram. com um atenção especial a complexos fatores sociais. nas quais não existe texto. as histórias sunjatas do antigo Mali. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. Em uma cultura escrita ou impressa. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. Em segundo lugar.gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. mais ou menos cientificamente abstratas. Assim. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. Embora seja encontrada em todas as culturas. em toda parte. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. muitas vezes até as mais abstratas. possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. tópica. usam histórias da ação humana para armazenar. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. apresentam apenas informações altamente especializadas. Em primeiro lugar. mas. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. A grande maioria das culturas orais . em uma cultura oral primária.o que. extensas. isto é. As genealogias. A lírica tende a ser breve. Em um laboratório científico.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. especulações filosóficas e rituais religiosos. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. são breves. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. assim. Em um certo sentido. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. como sublinhou Havelock C1978a. ou ambas. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. 1963). no geral.senão todas . Nas culturas orais primárias.

A exegese do poema épico oral por letrados. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . dificilmente leva a sua justa avaliação. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. pp. A antiga narrativa grega oral. que. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas.e. Esse enredo. especialmente quanto ao funcionamento da memória. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. desde o começo. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". descritas no capítulo 3. mostra uma melhor compreensão do teatro. 1451a e alhures). imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. não estava disponível sem a escrita. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. Em sua Arte poética. 148-149).diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". do tamanho de um poema épico ou de um romance. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal. o que. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. em uma cultura oral. "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. Não obstante possa ser esse o caso. uma vez que o teatro grego. eleva-a a um clímax. como ela surgiu. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. e é seguida por um final ou desenlace . o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. Na verdade. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. embora apresentado oralmente. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. meio e fim (Aristóteles. Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa. durante séculos. com começo. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado. Assim.e. por motivos óbvios. A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. não foi construído desse modo. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. Poética 1450b). do que do poema épico.uma localização significativa para tal enredo. o poema épico. aprenderam cada vez mais a contar .salvo em trechos curtos . no passado.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo".pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. na verdade. uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. muitas vezes detalhadamente. ao As palavras de Milton mostram que ele.

e não a pirâmide de Freytag. primeiramente no teatro. mas porque eram forçados a isso. no qual não existe narrador. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . mas sem a escrita. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. em uma dada circunstância. Theodor Bergk. pp. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry. 432-433).tensão sempre crescente. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. e.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. ele poderia estar certo de que. na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo .pelo que sabemos. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. na ausência da escrita.salientados. em segundo. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. era mais ou menos episódica . O ambiente mais amplo no . certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. Por que toda narrativa longa. os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. Além disso. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. Não havia uma lista dos episódios nem. Sua excelência estava. Na oportunidade seguinte. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. natural. nenhuma alternativa. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res.e o mais natural . o poema épico não possui enredo. é claro. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. Não tinham nenhuma escolha. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. o todo possui uma progressão. final perfeitamente esclarecido. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas .embora. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. descoberta e reversão requintadamente metódica. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. na vida manobra conscientemente planejada. em primeiro lugar. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. entre outras coisas evidentemente. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. mas o procedimento original. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas. antes do início do século XIX. não todas . na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. Por que razão esse enredo long.o progressivo surge apenas com a escrita. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita.

inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. 174).recordando não um texto memorizado. por exemplo. Ele os recorda sempre de um modo diferente. Evidentemente. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. 216). "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. particularmente em seu caráter aditivo. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. enquanto três escribas. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. Ao trabalhar com essa interação.eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. 176). Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. Quando um bardo acrescenta novo material. pp. quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. dois niangas e um belga. conforme ele é aplicado à composição escrita. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. 172-179). nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. 216). em toda narrativa existe algum tipo de enredo. Como resultado de uma seqüência de eventos. nessa ocasião. provocando assim renovadas solicitações até que. registravam suas palavras. irá normalmente de início hesitar. Candi Rureke. p. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. por extensão hipotética.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. em diferentes aspectos. Fundamentalmente. p. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. ficamos totalmente encantados com a . ele narrou todas as histórias de Mwindo. assim. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. agregativo. em seu conservadorismo. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). p. E de fato. pois não existe tal coisa. como um artista. ora em prosa. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. desejam que ele cante (1975. e até mesmo para si próprio" (1975. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. protestou ele. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. finalmente.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. Muito provavelmente. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. O po. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975.. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. Já que insistem . na medida em que guia o poeta oral. sua redundância ou copia e sua economia participativa. (Sabemos. p. para esse público específico. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. em uma seqüência cronológica perfeita. com um ou outro acompanhamento coral. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. p. ele o processa da maneira tradicional. muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. ora em verso. 14): nunca. a memória. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos.. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. pela experiência atual. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. em suas numerosas notas. Não obstante. O poema épico oral (e. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados.

definida pelo fechamento. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. pode trabalhar com base em notas. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. em vez do velho enredo episódico oral. para livrar o enredo desse molde. O teatro grego antigo. Como vimos.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag. à época de Safo (c. 53-81). Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. Foi o primeiro gênero . como já se observou. mais tarde. a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. embora o teatro fosse apresentado oralmente. 221). a subordinação da voz ao episódio continuou forte. na narrativa como tal. pp. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor.c. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. como vimos. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. Evidentemente. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. a escrita já estava estruturando a psique grega. Porém. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada.e durante séculos o único . Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. o meio e o fim. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. aquele que faz o texto. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. o texto exibe o início. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. Sob o olhar do autor. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. revisão e outros tipos de manipulação. de modo que o . Hoje. Paradoxalmente. em uma cultura oral. p. 600 a. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. Em virtude de um controle consciente crescente. e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. O mundo da impressão gerou o romance. de início. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro.). Fora do teatro. A impressão. desapareceu sob as vozes de seus personagens. agora propriamente um "autor". Porém.

o código é em boa parte tipográfico. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. que não possui uma organização fechada tão meticulosa. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. composto não somente de letras do alfabeto. porém abundantes em material impresso. em primeiro lugar. Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. A narrativa estruturada piramidalmente. O protagonista do narrador oral. iii). foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. Uma vez solucionado o problema textual. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. têm algo em comum com a narrativa de Poe. em algum lugar. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). cada um isolado em seu próprio mundo. Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. e o final desfaz totalmente o emaranhado . como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. seria inacreditavelmente precoce -. antes de qualquer outro. As "histórias de detetive" chinesas.cada detalhe da história revela-se crucial e. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. até o clímax e o final. A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. Na história de detetive ideal. o mistério da pessoa de Aspern. depois. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. A "inflexão interior da narrativa". na expressão de Kahler (1973). na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive.reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). caracterizado por suas explorações exteriores. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. embora o texto seja manuscrito. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. publicado em 1841. como as Aventuras de Pickwick. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos.narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. as quais. de um modo requintado. . alcança seu auge na história de detetive. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. misturando seus textos com "poemas longos. "A letra mata. tudo o mais se ajusta. mas para leitores. A própria reflexividade da escrita . são impronunciáveis. O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. na mente de seu seguidor. Farrell ressaltou uma vez para mim. p. E. o Tom fones de Fielding. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. especialmente o leitor. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. na mente de um dos personagens e. Posteriormente. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). realmente enganador. mas também de sinais de pontuação. não-fonológicas. Sherlock Holmes já imaginara tudo. integralmente. são incineradas. Em O escaravelho de ouro (1843). como se viu. e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. quando comparada com a velha narrativa oral. como Thomas J. passando por Dom Quixote de Cervantes que. Um escritor de história de detetive é. de outro modo. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). ouvintes. se esfuma. Com os documentos. Não raro. no fim da história. é exemplificada aqui com notável clareza. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto.

A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. O surgimento do personagem redondo. isto é. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. e esse fato é expresso simbolicamente quando. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). classicamente urdida.M. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. em torno de Nestor. Brer Rabbit ou a aranha anansi). dependeu de um grande número de evoluções. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita.A escrita. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. Quando se estrutura em memórias e ecos. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. o personagem plano. a impressão fizeram com a velha economia noética. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam. com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. Scholes e Kellogg 0966. caracteristicamente letrada . demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. Forster 0974. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante.o detetive. originário do romance. pp. que agem de modos à primeira vista inesperados. p. Agave. A história compactamente organizada. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e. mas como um constituinte da ação humana. como vimos. mas. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. Watt 0967. ao contrário. com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. na verdade. o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . 46-54) _.para empregar o termo de E. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. com a passagem do tempo. surgem em um mundo dominado pela escrita. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. que podem desabrochar no romance. posteriormente. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. pp. em outras culturas. a tradição teatral grega. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. . Em torno de Ulisses (ou. no fim. domésticos. Oposto ao "redondo" é o "plano". Nas últimas décadas.

O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado. que se servem de virtudes e vícios abstratos . citados por Watt. das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). 461). Heartfree. De fato. Porém. personagens abstratos. eletrônicas. nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. de alta tecnologia. (N. A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967.assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson.19-2l). Dos mundos privados por elas gerados. quando. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. após a chegada da impressão. na verdade. a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. e nas peças cômicas do século XVII. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX.TJ •• "Pândega". (N. Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano. o entendimento psicológico. em certos aspectos. a síntese de personagens-tipos. "nobre". fosse uma atividade partilhada). as culturas escritas podem na verdade gerar. pp. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. não como Aquiles. e os atribui à formação calvinista de Defoe. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. A escrita e a impressão. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. de um tipo inacessível ao povos orais.) . A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos.de motivação profundamente interiorizada. como vimos. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente.ainda não foi contada. os personagens "redondos" do romance clássico. e até mesmo por vezes Jane Austen. Miller e Johnson 0938. na maioria das vezes. "livre de ligações amorosas". que. e atinge seu auge no romance. Desde Freud. p. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média. de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. nos católicos. assim também. e principalmente o psicanalítico.já encontrado em Defoe. Richardson. A história dos personagens-tipos . após o advento da era romântica. Allworthy ou Square. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. interiorizado. e. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. isto é. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino". pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. enquanto simultaneamente a transforma.T. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". como em Kafka. Defoe. obscuro.· As culturas posteriores. na mesma época. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. "antiquado". o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare.personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -.

mesmo razoavelmente. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. na verdade . da impressão). A enorme quantidade de conhecimentos históricos. impensável em uma cultura oral. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão.significativo. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. Hawkes . essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. psicológicos e outros mais. Apresentarei a questão na forma de teoremas. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . pois é impossível abrangê-Ios integralmente. organizada para preservar a "linha" de descendência. Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. mas também do presente. exigia-se a organização textual da consciência. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. posteriormente. Em ambos os casos. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. e assim por diante.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. também romancistas. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. Mas. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica).mas somente alguns. a tecnologia avançada. ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita. Porém. de afirmações mais ou menos hipotéticas. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. Muito pelo contrário. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. Porém.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

a saber. era extra-acadêmica. vernacular. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. Tillyard 1958). durante mais de um milênio. Nessas condições. que eu saiba. Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. pela engenhosidade. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. pp. pp. dessa perspectiva. 155). como vimos. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. p.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. Nunca. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. isto é.para o autor. nos anos 30 e 40. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. Nas universidades de Oxford e Cambridge. Os estudos de textos. Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. A crítica anterior de obras vernáculas. até então. ocasional e muitas vezes amadorística. colocado por seu autor em um determinado tempo. Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse). e não mais uma língua materna. embora perspicaz. pp. A própria Nova Crítica. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). desde o início. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. e fundado no estudo da retórica. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. Roland Barthes (Hawkes 1977.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. A Nova Crítica. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. desenvolvido na era romântica. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. mais livremente oral. um texto. pp.Hawkes 1977. a Nova Crítica estava em gestação . tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. sua psicologia. 177-205). nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos. em parte porque. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo. um texto literário em latim. para ter sentido deve ser interpretado. está ipso facto relacionado a todos os tempos. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. Nos anos 30. as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. que aspiram a esse meio aristocrático. . ainda que complexo e eruditamente compreendido. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas.embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . O latim. reportado ao mundo do leitor . 22-34). As implicações são enormes.

morfema etc. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . em Pierre Macherey (978). De modo análogo. Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. Hawkes 1977. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. A composição oral trabalha com "núcleos informativos". pp. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. Estudos sobre a oralidade. ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. Lord 1960. treinado em técnicas de digressão e de flashback. p. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). Pode haver conexões sutis. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977)."Homero se distrai". tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. são perseguidos por distrações. muitas vezes cruciais. embora os temas o façam. Esses críticos-filósofos. na antiga narrativa grega de proveniência oral. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. apóiam-se . A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento".não conseguem. como. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . Tzvetan Todorov. Porém. Além disso. de Lévi-Strauss.T A análise estruturalista. assim. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). 235. embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. explicar por que uma história é uma história. O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". que não se adaptam ao padrão binário. na verdade. Greimas. 109). a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. O "fio" narrativo direto. pp. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. principalmente AJ. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. p.todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador). 235 e passim). p. como esses. 179. Roland Barthes. as estruturas binárias. improvisação ad hoc). pp. Lord e particularmente Havelock e Peabody. e não em explicar o passado em seus próprios termos. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . 179). que derivam em grande parte da tradição husserliana. é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista.uma especialização significativa. Os declamadores. especializam-se em textos e. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. Cohen 0977. 457-464. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. de certo modo (Peabody 1975. como evidenciou Peabody 0975. por exemplo. por exemplo. particularmente .

Platão podia formular seu fonocentrismo. especialmente no caso de PIarão. a própria linguagem . p. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. quando. abstrato. também objetos deste livro. é que a literatura . Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. A não seja nada. mas era isso que ocorria. na República. 241-254) discute a obra de muitos textualistas.momento em que os processos mentais. prolongadamente seqüenciais. agregativo. porque A não é B. exato. usam a linguagem de forma representacional. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados. Contudo. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. Julia Kristeva e outros). Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral. à maneira de um tubo condutor. T No entanto. verboso. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. visualista. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. de modo claro e . expulsa oS poetas. Em sua forma mais extrema.ou não significa nada. elas próprias. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. tal como as colocam os textualistas. calorosamente humano. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. Derrida denuncia essa metafísica da presença. por outro lado. O resultado final. para Derrida. tradicionalista. todos provenientes do romance do século XIX. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. Jacques Derrida (1976. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique.e inevitavelmente -. participativo . assim. Além disso. disperso. como os denominei aqui. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e.e. Culler 0975. Ix). pela primeira vez. da imitação. no Pedra e na Sétima Cana. que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. 252). Sollers. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . Por um lado. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. Poucos duvidarão. que. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. incluindo o seu próprio . pp. Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. e mostra que. isso não quer dizer que. é fonocêntrico. p. na verdade. isto é. ou estruturalistas. redundante. ela não se refere a nada .Ong 1967b. imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. Paradoxalmente. Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. na verdade . os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . pp.ousam mencionar a comunicação eletrônica).não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. ele o faz. Em virtude dessa insistência. como observa o tradutor de Macherey (1978. segundo os textualistas. portanto. portanto. mnemônico. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. pacientemente analíticos. Todorov. como ele os chama. Uma vez que não se refere a algo. e sua estrutura não é a do mundo extramental. A linguagem é uma estrutura. como mostra Havelock. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. 74). rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada.quando muito . Por outro. p. como agora podemos perceber. mas uma realização totalmente diferente. porque representam o antigo mundo oral.Si' em exemplos específicos.um mundo antipático ao mundo analítico.

uma correspondência literal grosseira entre conceito. atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. Na sua dialética ou lógica. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. . que nunca chegava realmente à palavra falada. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. 32). mediante uma implicação inevitável. p. Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. Mnemosine. Sem o textualismo. chamei sua atitude não de logocentrismo. que eu saiba. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. Os textos são um fundo falso. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". como se o texto fosse um sistema fechado. como ponto de partida e modelo para o pensamento. filósofo e reformador do ensino francês. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. Em Ramus. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. que moldam nossos processos mentais. method. pp.que pode ser extremamente excitante.. As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia".. método e o declínio do diálogo) (1958b.não podemos descartar os textos. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. Na verdade. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. ainda está estranhamente limitada ao texto. 203-204). de ofuscação refinada . é a mãe das Musas. Essa tese reside em mostrar que. textual. 66). até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. então deveríamos T compreender o fundamento . o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão. mas de "epistemologia corpuscular". L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". Porém. pelo menos as nossas línguas ocidentais. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. e não Hefaístos. 35). Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. em qualquer das exposições de Derrida. discutível. no século XVI (Ong 1958b). nasciam da memória. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. Os textualistas. mas tomava o texto impresso. and the decay o/ dialogue [Ramus." Ou. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". por brilhante e de certo modo útil que seja. hoje. se todas as implicações num poema forem examinadas. o texto é fundamentalmente pretexto . uma espécie de realismo grosseiro. e não o enunciado oral.. acrítica. "Se o pensamento é para nós. Hartman chamou a atenção para a ausência. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. mas podemos compreender suas deficiências.embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. historicamente isolada. Linguagem e pensamento. sem a oralidade. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. Como propõe Hartman (1981. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. p. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. a oralidade não pode sequer ser identificada. de todas as ideologias. palavra e referente. cada um à sua própria maneira. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). e não com as presenças de "idéias" reais. o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo. As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão. Geoffrey H. esta é a mais limitada ao texto. A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. no rIÚnimo. para os antigos gregos. p. diria (escreveria) eu.

ordenar. a mesma coisa que numa cultura escrita. Michel Riffaterre e outros. David Bleich. poderiam revelar que prometer. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). . Searle e H. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. como a oralidade primária. Para se adaptarem a elas. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser.por exemplo. responder. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. Contudo. promessa. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. passando pela oralidade residual. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. falante e ouvinte estão presentes. protestar.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. 400). Uma outra abordagem da literatura. Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. Até mesmo atualmente. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). assim como outros atos ilocutórios não significam. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . afirmação.L. de produzir uma estrutura de palavras). A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. Winifred B. utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. um diante do outro. no entanto. além de incluir seu conceito de "implicatura". por exemplo. Stanley Fish. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. ao passo que. como já se observou. na comunicação oral. Norman Holland. asseverar. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. p. particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). ameaçar. e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. até a cultura escrita de alto grau. É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. dentro de certas subculturas. tais como medo.P. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). Austin. assim como importantes implicações teóricas. Se fossem. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". numa cultura oral. Até onde sei. cumprimento. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. John R. Grice. da oralidade primária. cumprimentar. convencimento ou encorajamento).

e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. os estudos bíblicos tornaram- . mas também da impressão: sem essas tecnologias. através dos séculos. A filosofia. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados.isto é. aguda e duplamente crítica. nuançada de forma mais complexa. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. de sua condição de produto tecnológico . a filosofia . como vimos. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. como Lívio. destituídas do conceito de "justiça" como tal. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). Por que meios? Tanto quanto sei. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. sentiu esses efeitos de forma menos forte. ao que parece. a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. passamos para a história da consciência. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. até o momento. É muito provável que um estudo. em seu início. a história. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. A descoberta crítica do eu. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. incorporada aos próprios processos mentais. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. A sociologia. embora escrita. seriam impossíveis. criticamente. é resultado não apenas da escrita. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. A existência da filosofia. desassistida. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. assim como a de outros.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. A antropologia e a lingüística. O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral. pois. depende da escrita. Em suma. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. em termos de fatos "aumentados". como a Arte retórica de Aristóteles). Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. deveria dar-se conta. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. um tipo especial de produto essencialmente humano. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. Atualmente. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. no sentido de que a mente as produz por si mesma.

aborda de forma direta e de frente. pp. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. porém essencialmente limitadoras. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. Numa série de conferências feitas no rádio. (Alguns indivíduos. sugerindo um viés quirográfico. Mas. constitui ainda um atributo negativo. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. resistem à cultura escrita. "Sem escrita". menos ofensivo e mais positivo. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. Tbe oral and the written gospel. nos meios de transporte. contudo.) No entanto. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. 15-16). à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. A oralidade não é um ideal. Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. na organização familiar. como notou Werner Kelber 0980. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". mas de correlação. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. os estudos bíblicos. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. Evoluções na produção de alimentos. Tbe mind ofprimitive man (922). mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. ou está tomando. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. dessas abordagens bem-intencionadas. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. no comércio. a oralidade não deve ser menosprezada. mas são em número cada vez menor. para não falar de "inferior". a Odisséia. apontando uma ausência ou uma deficiência. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária.muito citada . Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. e nunca foi. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". A ligação não é uma questão de reducionismo. nas práticas educativas.de Lévi-Strauss (1966. e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens". . são pesados. nas habilidades tecnológicas. A afirmação . é claro. publicadas posteriormente. não apenas em conversas informais ou de salão.primeira edição francesa. 1962). citada repetidas vezes neste livro.se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). a impressão) a causa única de todas as mudanças. como outros estudos textuais. por exemplo. A principal obra de Kelber. pela primeira vez. p. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. nas instituições sociais. O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. na organização política. 1983). Os termos "primitivo" e "selvagem". Ia pensée sauvage. para mostrar que não o somos.

que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. No modelo do meio. A comunicação humana. muito provavelmente todas . Retiro dela uma unidade de "informação". na verdade. das possíveis respostas que eu poderia prever. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. chamado "mente". Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. e ele precisa estar dentro de minha mente. ou de outras inúmeras formas. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . Porém. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio.ou outras pessoas . isolado de pessoas reais. para ninguém. na maior parte deste livro. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. a "informação" passa para a outra. Para falar. Em primeiro lugar. assim como das outras formas de comunicação humana. pelo menos de maneira vaga. algo entre duas outras coisas). Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente.vida humana. Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. porém. afetaram essa mudança. verbal ou não. pois nenhum receptor (leitor. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. assim como quando se escreve. De uma ponta do tubo. O modelo "mídia" não é. do contrário não se produzirá um texto: portanto. Durante todo o tempo. ser uma rua de informação de mão única. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. ela não apenas exige uma resposta. tornando-o irreconhecível. ouvinte) está presente quando os textos nascem. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. codifico a unidade (isto é. "O . lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). devo ter outra pessoa . a fim de iniciar minha mensagem. Por isso.ou várias. Para falar. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. Mas quando se fala. Por isso. intersubjetivo. muitas vezes de forma muito profunda. a fim de que possa ocorrer. A comunicação humana nunca possui mão única. isto é. difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. o texto escrito parece. o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. por seu turno. Para formular o que quer que seja.) Tenho de perceber algo na mente do outro. por uma troca de olhares. Porém. o escritor invoca uma pessoa fictícia . à primeira vista.ou a outras pessoas. de um lugar para outro. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. Minha mente é uma caixa. íntimo. para uma maneira de fazer algo para alguém. evitou-se o termo "mídia". com o que meu discurso possa se relacionar. Na comunicação humana real. algum receptor deve estar presente. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. É esse o paradoxo da comunicação humana. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. o título desvirtuado do livro de McLuhan. em sua grande maioria . nas quais a fala está mais orientada para a atuação. A comunicação é intersubjetiva. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. assim como muitas delas. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados.foram elas próprias afetadas. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. Em segundo lugar.já "em mente".e. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. essas evoluções.

a intertextualidade. no ensinamento cristão. central em Fichte. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. que se torna visível em Kant. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. Ele não o escreve. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. a consciência nunca alcançaria sem a escrita.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. se assim quiserem . A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. Nesse ensinamento. pois. pessoais. seu Filho. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). ser único e não duplicável. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. No entanto. até mesmo a hebraica. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. que redimiu do pecado a humanidade. Devo conhecer a tradição . mas também como a Palavra de Deus. O processo é complexo e repleto de incertezas. No ensinamento cristão. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. a maioria das quais jamais se conhecerá. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. A escrita eleva a consciência. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. Para um escritor. na qual ninguém nasce. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. exprimindo-as de forma elaborada. a Bíblia. profundamente pessoal. segundo parece.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. 54-81). Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente.do contrário . Porém.embora não necessariamente de sua separação . da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. a Bíblia. mas também uma unidade maior. Desenvolvimentos mais longos . é conhecida não somente como o Filho. as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. Contudo. o Corão. a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu. o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. Onto e filogeneticamente. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. qualquer receptor real está normalmente ausente . Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. Ésquilo. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. A escrita introduz divisão e alienação. elaboradamente expressa. atinge as profundezas da psique. por conseguinte. na qual. pp. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io.

A fim de evitar um número excessivo de indicações. Nos casos em que. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. Além das obras citadas no texto. por algum motivo. mais do que em qualquer outro escrito. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. julgou-se necessário. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. como enciclopédias.humanos. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. . as culturas africanas). mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. acrescentamos comentários. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. Deus é um autor. mas inclui algumas em outras línguas. muitas obras pioneiras. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa.

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Murasaki. 14-15. Henry 96 Vico. 36. Mary Ellen 147 Soooino. 144 Steiner. Alain 166. 188 Tannen.198 Opie. Edward 0. 182 Todorov. Robert 28 127 Tambiah. ]effrey 56. 147.188. 68-69. 33-34. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. 121. 172. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. 110. 46. 143.W. Adam 15. 96. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. 27-30. S. Edgar AlIan 163. William 172 Shannon. 87. 179. 93-94. Godfrey 59 Wilson. George 136. 121. Edwin Erle 156 Spenser. 163 Parry. Thomas 173 Pyson. 165. 20. 140. 190 Sejong. Louis 79 Richardson. 100. Deborah 36 Textor. Tobias George 168 Sócrates 94-95. 163. 187 Toelken.Olson. 126-128. 187 Solt. Waiter J. William C. Lev 61 Watt. 32-33. ]oel 75-78 Shikibu. Morton 98 Sweet. 187-188 Poe. 130-133. Henry 14 Vachek. B. Geoffrey 14. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. 18. Candi 57. Harold 81 Schmandt-Besserat. Paul 191 Riffaterre. 168-169 Potter. Ferdinand de 13 Sawyer. William Riley 182 Parry. 27.. Tzvetan 185. 169-170. 122. 75 Oppenheim. Emst 26 Pynchon. 37. Malcolm 124 Richardson. loannes Revisius 143 Thackeray. sir Philip 177 Siertsema. ]000 84 Usener. 106. 180-181 Rudedge. Monica 59 Wolf. 49. Mary Louise 190 Propp. Friedrich August 28 Wood. Hieronimo 95 Steinberg. 15 Smollett. Denise 101 Scholes. J.58-59. 114 Scheub. Edmund 178 Squarciafico.H. 186 Rureke. Rei 108 Shakespeare. 170 Rosenberg. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. 136-137. Thomas 26 Peters.M. Peter 59 Opland. Richard S. lan 54. P. 42 Sapir. lvor 110 Wilson. 138. Lee Ann 127 Sparks. 162 Wilamowitz-Moellendorff.109. A. 177. 184 Parry. 37 Subotnik. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard. lady 163 Sidney. 38. Platão. 26 Vaughan. 29-30. E. Stephen 182 Pratt. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. Bruce 38 Rousseau. Berkley 72. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers. 184-185 Percy. 117-118. Milman 14. Edward 26 Saussure. Hermann 163 . 30-31. Andrew H ~Sl 162-166. 149. Sylvia 65. Phillippe 185. 123 Ong. lona Archibald 59 Opie.80. Laurence 147 Stokoe ]r. 42-43. 59. 51. 167. Samue1 172 Ricoeur. 171-172 Whitman. ]ohn R. ]ean-]acques 91. 153-155. 185-186. 120. Anne Amory 61. 37 Sherzer. 119. 112. 15 Stoltz.71 Peabody. 54. 104 Searle. 179 Steme. 36. David R. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker.100 Wilson. 109 153. 119.182-183. 125-126.191. 94-97. Robert 159. Benjamim A. Ulrich von 163 Wilks. S.]. 34-35.H.114. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. Michaell91 Robbe-Grillet. Cedric M. 171 Scribner. 36.

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