tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

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25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

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175 201 219

o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita.e. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. por definição.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. antes. têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita. em segundo. na ftlosofia e na ciência . não são inteiramente inerentes à existência humana como tal. uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro.Nos últimos anos. que eram dados como certos.estranha e por vezes extravagante para nós . As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. em primeiro lugar. o tema é. Ou. o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. . Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura.

políticas. é claro. que leva a escrita a um novo patamar. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. no Sudeste Asiático ou na Coréia). pela comparação entre períodos sucessivos. escritas) que coexistem num dado período. As questões não são apenas profundas e complexas.vasto mesmo -.000-50. Nesse quadro diacrônico. depois. O Roma sapiens existe há cerca de 30. reflexão árdua e afirmações cautelosas.000 anos atrás. passado e presente. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. como na Índia. Não há "escola" de oralidade e cultura escrita. mas. e inicialmente apenas em certos grupos. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. embora também seja dada alguma atenção.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. Universidade de Saint Louis . registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. do rádio e da televisão. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. como o rad~o e a televisão via satélite.o. mas também a cultura impressa. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. Nós . Wj. Porém. em questões relevantes. Isso requer conhecimento amplo . em um estágio posterior. a oralidade dos telefones. em todas as ciências humanas e sociais. cuja existência depende da escrita e da impressão. religiosas entre outras. a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. à nova crítica. Portanto. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo. que se apóia tanto na escrita como na impressão. estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita. e a cultura eletrônica. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos". Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. ela também envolve a impressão. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. silabário japonês. econômicas. contudo. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento. ou algo equivalente ao formalismo. em vez disso. Estas.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária".leitores de livros como este . A mudança da oralidade para a cultura escrita e. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. caracteres chineses.000 anos. o esclarecimento não ocorre facilmente. salvo como uma variante de um universo letrado. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme.

o modo como a linguagem está enraizada no ... p.1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas. a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. C. A escrita. Ferdinand de Saussure 0857-1913).) defeitos e perigos" 0975. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais. 33). assim como para a tendência predominante. e não como transformadora da verbalização (ibidem). até mesmo entre estudiosos. isto é.) utilidade. Antropólogos. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. o pai da lingüística moderna. Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral. chamara a atenção para a primazia do discurso oral. surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. Desde Saussure. observou. a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. possui ao mesmo tempo "C . sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. que sustenta toda comunicação verbal.

Na realidade. Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983. num sentido profundo. McLuhan 1962. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. 323. Um contemporâneo de Saussure. que. fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. O livro de Jack Goody. Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais.e a maioria jamais foi escrita. Lord depois da morte prematura de Parry . de todas as milhares de línguas . eles têm uma linguagem. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) . se essa afirmação é verdadeira. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . McLuhan (962). Por mais rica que seja a linguagem gestual. por enquanto. centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . em certos aspectos. Chaytor. a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita. mas. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971).a gestual. mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. pp. se tanto. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. Okpewho 1979 etc. . Todavia. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita. assim como audição (Ong 1967b. Havelock 1963. a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. assemelham-se às línguas humanas (inglês. Ong 0958b. Chafe (982). Porém. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . o som articulado. na maioria das vezes. no mundo sonoro (Siertsema 1955). descritiva ou cultural.1-9). Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -. Mallery 1972. por exemplo).e complementados pelo estudo posterior de Eric A. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras. recentemente. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. Lord 1960. Não apenas a comunicação. já muito antes (945). diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). Havelock e outros. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. 1967b). bibliografia). mas nos estudos literários. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. Onde quer que existam seres humanos. paladar. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. No entanto. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária. Haugen (966).). O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. Não existem.concluído por Albert B. tem importância capital. olfato e especialmente visão. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. a linguagem. Ainda hoje. 332).talvez dezenas de milhares . meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. Contudo.som. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. pp.assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. abordaram os modos como a oralidade primária. Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. A oralidade básica da linguagem é constante.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. Stokoe 1972).faladas no curso da história humana. O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz.

a espacialização da palavra. em voz alta ou na imaginação. mina. mas diretamente da consciência. não afetadas por qualquer tipo de escrita. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". shoshone etc. das quais se conhecem não apenas os significados presentes. reestrutura o pensamento e. hábitat natural da linguagem. Nos quatro cantos do mundo.sânscrito. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma.sem qualquer escrita. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida. A escrita. 21. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. de algum modo. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. a palavra falada ainda subsiste e vive. comum a culturas de alta tecnologia. sua beleza. pp. 48-61.). dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. muito tempo antes do surgimento da escrita.caçando com caçadores experientes. Mas o exame abstratamente seqüencial. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. mandarim. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. a não ser nas últimas décadas. Eles aprendem pela prática . a palavra techne rhetorike.e na maioria das vezes existiu . nesse processo. mas também centenas de milhares de significados passados. uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. Quando o estudo. repetindo o que ouvem. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. ver também Champagne 1977-1978). 1-7). os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral. no sentido estrito de análise seqüencial ampla. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. aprendem muito. a linguagem falada. Porém. 43-48). rejeitou a oralidade. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. dependente de um sistema primário anterior. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. aprendem ouvindo. desde os mais antigos estágios da consciência. O estudo da linguagem. quando muito. que constitui um tipo de aprendizado. por exemplo -. mas nunca a escrita sem a oralidade. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. para comunicar seus significados. pp. entre os antigos gregos. durante séculos e até épocas muito recentes. Todo pensamento. seus perigos. nas culturas orais primárias. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. A expressão oral pode existir . o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. se torna possível com a interiorização da escrita. Os seres humanos. Hirsh 1977. Todos os textos escritos devem. assimilando outros materiais formulares. malaio. a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. pp. No entanto. acerca de seus poderes. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. possuem e praticam uma grande sabedoria. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. pelo tirocínio. No grego original. No Ocidente. inclusive nas culturas orais primárias. apesar das raízes orais de toda verbalização. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. porém não "estudam". As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes.

desde o início. as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. Nem todos. Desse modo. Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos. praticamente não existe. na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. consciente ou inconsciente. pelo rádio. Porém. vezes passaram a presumir. pp. passim). permaneceu. mas como textos escritos. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. até mesmo num meio de alta tecnologia. e que as formas artísticas orais eram. à escrita. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . Criou-se a impressão de que. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas. até mesmo o da escrita (Ong 1967b. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. em diferentes graus. Rhetorike~ ou retórica. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. Possuímos o termo "literatura". Como observado anteriormente.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente.da arte oral como tal.por exemplo. 58-63. pp. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. a escrita. organizada . não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. de litera. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória". referente a uma herança puramente oral. Desse modo. ou outras produções orais. É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia.Ong 1967b. com freqüência irrefletidamente. Proferido o discurso.geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum.falar. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. Cormier 1974. sem referência. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. muito embora. contudo. como "arte" ou ciência refletida. muitas culturas e subculturas. como as histórias orais tradicionais. o que durante séculos. o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas.para não dizer menos desfavorável . Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. a escrita acabava produzindo composições somente escritas. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. os provérbios. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). Acresce que.literatura inglesa. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. Porém. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. 27-28). destinadas à recepção direta da superfície grafada. as preces. Bauml1980. os discursos . Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. • . simplesmente textos. os estudiosos muitas . no sentido restrito. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. Goldin 1973. pp. letra do alfabeto). literatura infantil -. 56-58). não levou a oralidade a um encolhimento. na Arte retórica de Aristóteles -. Desde a metade do século XVI. Atualmente. uma vez que todas as culturas C . a cultura oral primária. no fundo. adotaram essas suposições. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. praticamente como o paradigma de todo discurso. para todos os efeitos. Contudo. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . Ahern 1982). Ong 1971. mas consagrou-a.

descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. É claro que se pode tentar fazer isso. Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. Conseqüentemente . parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais. mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. sem se reportar a alguma inscrição. em vez de uma cobertura de tinta. quase todos nós (aqueles que lêem textos como este). que nunca viram um cavalo. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. p. Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral". além disso . No fim. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". mas de "automóvel". os cavalos serão apenas o que não são. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada.Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. Porém. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". 60 segundos. todos os pontos em que diferem. feno. em vez de gasolina como fonte de energia.como veremos detalhada mente mais adiante . Estamos. "escrita oral". tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. Na verdade. que tende a absorver outras. quando instada a pensar na palavra "contudo". algo chamado pêlo. exceto como alguma variante da escrita.constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". e assim por diante. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. quando usado inadvertidamente também causa problemas . O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. ao menos vaga. de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. terá alguma imagem. mesmo quando nada têm a ver com ela. Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. Não é possível. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros.pondo o carro na frente dos bois -. até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. como ocorre na tradição oral. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. olhos. Ele discorrerá sobre cavalos. 16) que o termo "literatura". a começar assim. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada.e provavelmente sempre .subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. digamos. isto é. Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. embora destinado originalmente a obras escritas. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. talvez de forma obscura. Uma pessoa pertencente à cultura escrita. sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias.embora com uma freqüência menor hoje -. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. Em vez de rodas. As palavras escritas são resíduos. de trás para diante . explicando a leitores altamente motorizados. A escrita. mas tão somente ao som. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. sem causar uma distorção desastrosa. tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis.

pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. como tecer ou alinhavar . as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. felizmente. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. aos provocados pelo termo "literatura oral". "Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. wekw-. a perífrases explicativas . Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. embora. Hoje. como veremos. que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. no oral. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. na verdade. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). em termos absolutos.rbapsoidein. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. na verdade. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. 293-303). não é capaz de outras criações belas e impressionantes. por mais que se tente o contrário. caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. As apresentações orais seriam. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. O discurso oral tem sido geralmente considerado. até mesmo em ambientes orais.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais. Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita. ainda que não tão evidentes. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. que desejam ardentemente a cultura escrita. 248-250. de alto valor artístico e humano. mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz". o que elas efetivamente são. quando necessário. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. A cultura escrita. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. Além disso. é. desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador.o "sistema modelar primário" . pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. novamente. Nesse sentido. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. Porém. "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. mas também da história. pp. Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. cuja raiz significa "tecer".iguais. assim. hoje. os dicionários são fundamentais.tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". Contudo. Porém. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. o termo "literatura oral" está perdendo terreno. Neste livro. e portanto está firmemente apoiada no vocal. Em um mundo lingüístico desse tipo. ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967). sentidas como "vocalizações". da filosofia. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita. Na realidade. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. o sentido mais comum do termo epos. mais compa. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. sem a escrita. Mas. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. ainda assim. "Texto". regras gramaticais escritas."formas artísticas puramente orais".

dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles. atingir. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10).. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro . Muitos séculos antes de Cristo.. Felizmente. até certo ponto. . e não uma apresentação oral.cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. ditos. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia"). a cultura escrita . até mesmo destrua sua memória . na cultura oCidental pelo menos. aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível. "Registrar por escrito . a menos que seja cuidadosamente monitorada. embora seja significativo que. o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. mas de outros escritos. Ela pode também resgatar sua memória.busca. no mínimo. da Idade Média e da época de Erasmo em diante.é também infinitamente adaptável." Pessoas de cultura escrita. embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade). a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral. ou seu equivalente grego Eclesiastes. Devemos morrer para continuar a viver.forçosamente um estudo letrado. verificou e combinou muitos provérbios. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas.

o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. consciente ou inconsciente. Desde então. Cícero considerava como sendo ela própria um texto). o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. Vachek e Ernst Pulgram . estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior.) Os homens de letras. dando-lhe nova dignidade.notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. nehhuma outra parte. Em . fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. No início do nosso século agora já perto do fim. no entanto. da Antiguidade até o presente. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. os irmãos Grimm. C. e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. Mais do que qualquer estudioso anterior. as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. p. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. desinformação e preconceito. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica". ou semelhante à oral. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. ou talvez por causa delas. 77). feita por Lang e outros. Desde o início. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. trabalharam com partes da tradição oral. O Círculo Lingüística de Praga . como os mais exemplares. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. centenas de colecionadores. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. p. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. de forma mais ou menos direta. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. (Ver Adam Parry 1971. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. Freqüentemente. e a demonstração. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. Hockett e Leonard Bloornfield.especialmente J. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia. Durante mais de dois milênios. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. na Antiguidade Clássica ocidental. porque conhecia a escrita. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. 34). com diversas misturas de visões fecundas. ou quase oral. como fazem Edward Sapir. e não lastimável.O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. embora. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. Para explicar sua admitida superioridade. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia.

Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. palavra por palavra. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. além disso.uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. de certa forma. ix-lxii) . Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). considera um problema a mensagem numa tábula que. pelos unitaristas. Murko reconhecera a ausência de memória exata. O axioma fundamental que dirige seu pensamento. O filho de Parry. Robert Wood (c. no tempo de Pisístrato. Eles foram seguidos. Rousseau. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. Jean-Jacques Rousseau (1821. Belerofonte leva para o rei da Lícia. padre jesuíta e erudito. Düntzer. dos anos 20 em diante. até sua morte prematura em 1935. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. 1717-1771). fora antecipada na obra de ]. ainda estudante. e M. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. Ellendt e H. pp. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. Porém. Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. pp. Marcel Jousse. criações de todo um povo. xix). que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. de 1795. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento. no início dos anos 20. pp. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. em leu Prolegomena. argumentando. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. Com efeito. François Hédelin. na poesia oral de tais culturas. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). como observa Adam Parry 0971. acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. muitas vezes literatos bem-intencionados. inevitavelmente. mas necessariamente a criação de um só homem. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. Surpreendentemente. Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. 99-101). esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . 163-164). Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. começou a formar suas próprias opiniões. Mais importante. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift.E. o falecido Adam Parry 0971. diplomata e arqueólogo inglês. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. p. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. pp. no Livro VI da Ilíada. Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. No século XVII. contudo. xiv-xvii).

os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. Indubitavelmente. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita.absorvendo sua cultura oral. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. Os poetas. apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. assim como outras. a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. pp. O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. Certas práticas. relacionado apenas ao "gênio" (isto é. 85-86. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. xxii). p. era visto como tolerável apenas em iniciantes. pp. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. p. 147-148. pois. pp. A estrutura geral poderia ser sua. era toda sua. que haviam influenciado estudiosos anteriores.lamentavelmente. moldá-Ios a sua própria "natureza". 261-263. Em sua forma aperfeiçoada. no entanto. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. é óbvio que as necessidades métricas. Esse tipo de procedimento. Pouco depois de Pope. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. 30. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. o poeta perfeito deveria ser . de um modo ou de outro. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. todavia. como veremos. Para o romântico radical. mas as peças já existiam. Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. 166.diferentemente em cada narração. juntamente comâs sílabas longas e curtas. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. é verdade. contrariavam esse pressuposto. 335-336). ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. 178). quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . não deveriam usar materiais pré-fabricados. deveria. e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. Ora. A visão de Parry. mas não quanto às expressões. 77. pensava-s~. pp. 1971. sugestões que pairavam no ar nessa época. xx). a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. no começo dos anos 20. também o estavam influenciando. Porém. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa". até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. dos poetas latinos clássicos. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. ver Ong 1967b. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. O Gradus fornecia frases ~pitéticas. o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. 1977.

p. mais simplesmente. cada vez mais. formulares. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias. na llíada e na Odisséia. até certo ponto. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico.c. apud Havelock 1963.c. Na cultura oral. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato. pareciam ser feitos de clichês. que podia voar apenas saído da casca . criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. menos previsível era tudo o que houvesse no poema.ou. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. por volta de 700-650 a. Em vez de um criador. Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula.como o precoce Mwindo. Homero foi normalmente considerado perfeito. fórmulas devastadoramente predizíveis. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. para nunca utilizar clichês.c. (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. costurar. No entanto. 115). mas um grego especialmente construído pela prática. 49). a espoliação dos vencidos. geração após geração. em princípio. uma vez adquirido. oide. eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente. De qualquer modo. tinha-se um operário de linha de montagem. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. 68-98).. por volta de 720-700 a. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento. Mas. Este libertava a mente para um pensamento mais original. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto. não era um poeta iniciante nem medíocre. que nunca fora inexperiente.poetas transmitiam de um para outro. por exemplo. no qual a fórmula ou o clichê. rematadamente hábil.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). Como conviver com o fato de que os poemas homéricos. tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita .algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas. pp. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça..como o próprio Deus. Era inútil negar o faio. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. Além disso. a reunião do exército. O significado do termo grego "recitar". Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas. "costurar cantos" (rhaptein. necessariamente. agora conhecido. mas no texto escrito. a fórmula. mais abstrato. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. Homero. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. o qualificativo previsível . eram obsoletos e contraproducentes. (Rhys Carpenter. segundo o consenso de séculos. por volta da época de Platão (427?-347 a.).adosteoricamente para desvalorizar. amados por todos os poetas tradicionais. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos. a frase pronta. o clichê. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores. rhapsoidein. em boa medida com finalidades métricas. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos. p. Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava". canto).) A linguagem toda dos poemas homéricos. as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. poeta épico nyanga. Pois os letrados são educados. tais como a assembléia.) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. . que os . o conhecimento. a saber. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. o desafio.

na África Central e em outros lugares. sim. p.hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . Adam Parry 1971. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E. como um modo mecânico.1978. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia. 1). Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . em Parry. p. O conceito da fórmula. 145). a convencionalidade do estilo épico. 1). mumano de processar o conhecimento. "as noções de separação. aparentemente um tanto surpreso. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. na história humana. recompensa. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. Bynum. 13). na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. p. na verdade profundamente antagônico. n. 272). eletrônica ou de impressão. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. exatamente. Adam Parry 1971.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. p. xxviii. indiferente a perguntas e destruidor da memória . O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. no nível inconsciente e não no consciente. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. 33-65). resultou do estudo do verso hexâmetro grego. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. Finnegan (1977. ou a brevidade usual das próprias formulas. (Cf. A menos que indique claramente o contrário. de modo inteiramente genérico. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. p. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. . existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. mas. 1. E. como veremos. as quais. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960. direta. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. profundamente interiorizada. pp. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. p. Por toda parte. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. filosofia depois de Platão defendeu era. xxxiii. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. 11-18. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. a madeira rachada . a observação de Opland de . U~ dos motivos para isso é que. a despeito da inquietação de Platão. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. ainda que. p. 70) relata. no mais das vezes. como agora sabemos.1978. p. 18). elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. em que a cultura escrita alfabética. no conceito de Parry. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. n. pp.embora. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente. XXXiii. e passim).

Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita. Como se verá mais adiante. ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979. necessariamente.Tannen 1980a). Adam parry (1971. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. 218). A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. p. 490). relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. uma mimetização em manuscrito da atuação oral.atacado e revisto quanto a alguns pormenores. Lord e Eric A. Preface to Plato (1%3). o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. p. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. incluindo o uso predominante de elementos formulares. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária. da antropologia à história literária. pp. Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. Embora o trabalho de Parry . Eles foram efetivamente eliminados do inglês. já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b. por exemplo. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger. que vêem como originais ditos proverbiais que. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular. mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. caixas dentro de caixas. em sua grande maioria. em toda parte.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. em sua grande maioria. somente com o movimento romântico. o grego . dois séculos mais tarde. Stolti' e Shannon 1976). Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. Os hábitos orais de pensamento e de expressão. na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. . tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo.que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor).a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . PIarão estava. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. Anteriormente. Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos. Havelock.. Ao excluir os poetas de sua República. atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. parece ser de início. os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns. segundo um de meus amigos libaneses. cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971.tenha s1d~ . _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. A primeira poesia escrita.que. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . pp. Clanchy relata como. Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). segundo a análise de Whitman. mas nunca a interiorizaram completamente.poético ou não .êm sido p~oduZidos por Albert B. 23-47).· de Havelock. ainda no século XI. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. quando os poetas xhosas aprendem a escrever. um tipo de discurso . Na verdade. .

"O meio é a mensagem". Jack Goody (977) mostrou. demasiado loquazes para alguns leitores. Todavia. Numa obra mais recente. O alfabeto original. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. p.verdade. Por exemplo. Por exemplo. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). Sua afirmação gnômica fundamental. se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. mas também a outros. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. do contrário. Joseph c. Recorrendo não somente a Parry. vozes que o hemisfério esquerdo . os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. Eu havia anteriormente sugerido (1967b.que. Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). em sua obra magistral e judiciosa. mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. Ao introduzir vogais. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos . de executivos e do público informado de um modo geral. por meio da cultura escrita e da impressão. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade.quando muito . Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. de modo convincente. Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. para a mídia eletrônica. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral". 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. analítico). raramente .reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições. seriam extremamente díspares .fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. Porém. e da Antiguidade aos dias atuais.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. pp. dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. oral-textual. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. Lord e Havelock. umas poucas conexões importantes já foram feitas. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses. A estas ele denominou "sondagens". Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. x-xi. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. consistia somente em consoantes e algumas semivogais. xvü). inventado pelos povos semíticos. E outros estudos especializados estão agora surgindo. incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b .

c. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. das culturas orais intocadas pela escrita.) •• Look up something.) . é dividido em duas partes bem distintas. e ]aynes.falta de introspecção. 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. com efeito.T. como quer o autor. look up.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. já não submetida ao domínio das "vozes".processava em fala. de uma percepção de diferença entre passado e futuro . Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes.c. como veremos.T. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original.. Para ser breve. de audácia analítica. ou "bicameral" como ]aynes a descreve . Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo. Em uma cultura oral primária. mas até mesmo nos dias de hoje. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a. de preocupação com a vontade como tal. (N. do que a tradução "procurar" evidencia. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a. o que certamente traz implicações maiores para o leitor. (N. Esse período. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. ou seja. referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. e de outros que serão mencionados. literalmente "procurar com os olhos". A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. isto é.

As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta. dotada de um poder. Poder-se-ia "evocá-Ias" . não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. pp. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer.) To lookfor them. na verdade.é "dinâmico". as palavras em si não possuem uma presença visual. estão mortas. Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. para examinar algo atentamente por meio da visão. mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. 230-271). que mostra a subordinação à escrita).e muito provavelmente em todo o mundo . não.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. nem rastro (uma metáfora visual. As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. a uma estabilização idêntica à do som.T. eventos. portanto. Nesse sentido. mas. (N. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. preferimos mantê-Io imóvel. A visão pode registrar o movimento. pr~fenda e. Essa crença é. convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b. Sem a escrita. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. * Cal! them back. recal! them. nem mesmo uma trajetória. Também não ca~sa surpresa que povos . Muitas vezes. somos simplesmente incapazes de compreender. Malinowski 0923. São ocorrências. a química e pôr em prática a engenharia química. b u ao. pelo menos inconscien~emente. Toda sensação ocorre no tempo. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. mas pode também registrar a imobilidade. entre os povos "primitivos" (orais). sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. Quando pronuncio a palavra "permanência".especialmente a enunciação oral. que vem de dentro os organismos vivos . 451. 223-126). Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". por exemplo. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos. necessariamente portadoras de poder: para eles. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. as palavras reais. etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. em uma superfície plana. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923.julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. pois. Toda sensação ocorre no tempo. mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente. "lá". as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas. ausência absoluta de som. mas. cheirar. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto. Se detiver o movimento do som. Ele existe fora do mundo sonoro. pp. Na realidade. Um caçador pode ver um búfalo. logo. Não têm sede. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. como eventos e.e talvez universalmente . A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. se ouve . Um oscilograma é silencioso.T. Em segundo lugar. 470-481) salientou que. Ele não é apenas perecível. pois não constituem aç~~s. O som existe apenas quando está deixando de existir. ** (N. faladas. Não há como deter e possuir o som. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. mumente . num sentido radical. pp. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. 111-138). Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. O fato de os povos orais comumente . no momento em que chego a "-nência".conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. ou uma cultura não muito distante da oralidade primária.) . não tenho nada . Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos. O som sempre exerce u~ poder. Elas são sons. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. pp. até mesmo morto. ela favorece a imobilidade.teria nenhum significado concebível. d todo som .apenas silêncio. mas o som possui uma relação especial com ele."reevocá-Ias"*.

em umas poucas centenas de palavras. As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. digamos.e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado. sim. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida. o "ajudante" do herói e assim por diante). o alerta do marinheiro. nesse momento. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- ." "O robusto carvalho. de que modo. de forma a VIr prontamente ao espírito." "Errar é humano. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. em repetições ou antíteses. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. em uma cultura oral. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. fosse relativamente complexa. As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita.quando muito -. com muito poucas exceções . O pensamento deve surgir em padrões. Hesíodo. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. até mesmo p. não há nada fora do pensador. por sua vez. mas.Numa cultura oral. Como ela retém." "A tristeza é melhor do que o riso. quando fundado na oralidade. para posterior recordação.à comunicação. 131-132. tende ~ ser altamente rítmico. muitas vezes ritmicamente equilibradas. mas também da história da Revolução Americana. em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. perdoar é divino. cada uma de suas proposições e provas. poderia uma solução longa. processo de respiração. consistindo. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. moldados para uma pronta repetição oral. em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia. Entre os antigos gregos. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963. equilibrados. e portanto também no hebraico antigo. "A videira aderente. mas também os processos mentais. 294-301). para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . O pensamento prolongado. recuperar uma complicada série de asserções. Uma cultura oral não possui textos. 97-98.icologicamente. Sabemos o que podemos recordar.. pp. por si sós. Antes de mais nada." "Dividir para conquistar. como . a delícia do marinheiro. assim como funcionam. pois o ritmo auxilia na recordação.. a fim de que "saibam". Podemos recordá-Ias. por si sós. 87-96. como apoios mnemônicos. possam recordar. . A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope. a re~ei~ão. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS.ou em outra forma mnemônica. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. isto é. Numa cultura oral primária. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das.294-296). e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. não queremos dizer que temos na mente." Fixas.. fortel~ente rítmicos. realmente. pp. analítica. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação . ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. em altteraçoes e assonâncias. "Vermelho pela manhã. o duel_o. vermelha à noite.

de Havelock. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . este é impossível em qualquer forma extensa. um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978. orais. Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. conseqüentemente.sas. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico. que. Não seria um conhecimento confiável. não-padronizados. porém preserva . o modo como a experiência é intelectualmente organizada. em si mesmos. quando os falantes refletem. Em uma cultura 9~. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. é um texto. no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. Isso vale para as culturas orais em geral.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). Numa cultura oral primária. O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade. mas simplesmente um pensamento momentâneo. para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. mas ilustrativo. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. Elas formam a substância do próprio pensamento. Sem elas. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. Porém. um modo fixo de processar os dados da experiência. Numa cultura orall. o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. Contudo.em livros de adágios. seria uma perda de tempo. além de sua estilização formular. na verdade. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares.). ao fazê-Io. não-mnemônicos. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. determinando o modo como . pois esse pensamento. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. ainda que isso fosse possível. a lei. mas são. com grande inteligência e requinte.isto é. pois é nelas que consiste. embora complexo. Preface to Plato (1963). Nas culturas orais. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. a própria lei está encerrada em adágios formulares. são constantes. Obviamente. p. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. podem ser "procuradas". embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". na realidade. pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. Esse é um dos motivos por que. uma vez terminado. 5). da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. Numa cultura oral. que não constituem meros adornos jurídicos. mas nas culturas orais não são eventuais. na África Ocidental.e. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. baseado diretamente na tradição oral ibo. provérbios. tal como o seria com o auxílio da escrita. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita.

a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. para a relação de algumas fitas). para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. e até mesmo exótica. e às trevas. Assim chegou a noite. Deus viu como era boa a luz. incluindo a que produziu a Bíblia.ainda que em vias de desaparecimento . Deus criou o céu e a terra. Nove "e" introdutórios. não a princesa. e houve luz. Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal. Em muitas das culturas de baixa tecnologia. As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. "quando". o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. e a ela sucedeu a manhã . Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. e as trevas cobriam o abismo. o No começo. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. enquanto um forte vento varria as águas. não o carvalho. especialmente no discurso formal. A versão Douay (1610). e as trevas cobriam a superfície das profundezas.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. a terra era um vasto deserto informe. os clichês nas acusações políticas . em desenvolvimento. E Deus disse: Faça-se a luz. Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. "assim" ou "enquanto". não o soldado. termos. Em culturas orais ou com um alto resíduo oral. uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória. como sugeriu Givón (1979). As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . arcaica. tais como termos. As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). e ele dividiu a luz das trevas. produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. como eram as fórmulas . 188-212). mas o carvalho robusto. E ele chamou à Luz Dia.resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. Dois "e" introdutórios. Ele lhes parece natural e normal. O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. e houve noite e manhã um dia. Deus então separou a luz das trevas. 1980b. E a terra era erma e vazia. em muitos aspectos. podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. segue de perto. mas o soldado valente. dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. epítetos. Em todo o mundo. de certa forma independentemente da gramática. A New American o traduz por "e". incompreensíveis para os ouvintes).inimigo do povo. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. As nações orais preferem. E Deus viu que a luz era boa. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . mas a bela princesa. a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. Um dos muitos indícios de um alto . E a luz se fez. Noite. "então". constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. pp. capitalistas fomentadores da guerra -. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". uns anos atrás.Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. mas agrupamentos de totalidades. frases ou orações paralelos. Assim. quando Deus criou os céus e a terra.uma visível padronização oral. ambos mergulhados num período composto. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite".o primeiro dia. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. Então Deus disse: "Seja feita a luz". frases ou orações antitéticos.

Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. Uma cultura oral pode. oral] totaliza" (1966. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. mantendo . os oradores públicos ainda à época de. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. 101). A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa. Sem um sistema de escrita. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. construída pela tecnologia da escrita.. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. sempre disponível em fragmentos inscritos na página.em média. mantinham a velha redundância em seus discursos e. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas. A psique pode controlar a tensão. p.isto é. perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. requer a escrita. No estilo oral. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. podemos inferi-lo pelo "mas também . Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. 245). Por conseguinte. um processo muito lento . ou algo equivalente.. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais.". com efeito. é preferível repetir algo. mas o faz para demonstrar que eles o são. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. O pensamento requer algum tipo de continuidade. ver Faik-Nzuji 1970. Nem todo mundo. William Jennings Bryan 0860-1925). O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. dentre uma multidão ouvinte. A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. deve permanecer intacta. mesmo que em virtude de problemas acústicos.constitui um procedimento altamente arriscado. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou. a mente deve avançar mais lentamente. Não há nada para o que retroceder fora da mente. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. deixavam que ela semeasse seus escritos. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. a redundância atinge dimensões excepcionais. para manter intacto o agregativo. Portanto. p.. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977.) Nas culturas orais. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. por força do hábito. como na conversa de tambores africana. Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. por exemplo. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. uma vez cristalizada. o pensamento fragmentado . Com a escrita.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". no Zaire. em parte porque a escrita à mão é. soldados são sempre valentes. Convém ao falante dizer a mesma coisa." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. Se deixarmos passar o "não apenas .. até mesmo epítetos opostos. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). Por conseguinte. fisicamente. mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. princesas ou carvalhos. compreende cada palavra que um falante pronuncia. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. a hesitação é sempre prejudicial. duas ou três vezes. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. No discurso oral. redundantes. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento. Uma expressão formular. puramente ad boe. A redundância. pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. a repetição do já dito. a situação é diferente. "a mente selvagem (isto é. a análise . embora a pausa possa ser benéfica.

se possível engenhosamente. uma situação singular. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . Por uma espécie de lapso. como Goody os intitula 0977. pp. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. mente.i. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. 232). a loquacidade. Porém. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. pp. a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. pp. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. compreensivelmente. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. isto é. como também soam. baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. mas na administração de uma interação especial com sua audiência. com elas. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. p. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. que. Os retóricos chamariam a isso copia. Todavia. oralmente composto. Porém. de seu esforço de memorização e. p. 30) -. de seres humanos. de um certo modo. a escrita . pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. Durante a Idade Média e a Renascença. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. sim. de certo modo. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io. em sua época . o excesso. com estes. novos universos conceituais. conhecida. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. a escrita é conservadora a seu próprio modo. tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. são. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. Na tradição oral.são propagandeados de forma explícita por sua novidade. inventam novos santuários e. Porém. Eles raramente se tanto . Obviamente. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . desnaturar até mesmo o humano. e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. As culturas orais. inibe o experimento intelectual. muito freqüentemente. Logo depois de seu surgimento. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. repetidor do passado. 29-30).e mais ainda a impressão tipográfica . objetivo. de uma maneira única. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. evidentemente. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. As práticas religiosas . desse modo. 254-305). pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. As culturas orais estimulam a fluência. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. pelo fato de tomar para si funções conservadoras. os escritos de Winston Churchill (1874-1965).deprecia as figuras do sábio ancião. à interação imediata. assimilando o mundo estranho. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. 13-14).a cada narração. isto é. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. muitas vezes intensamente. deve-se dar à história.também mudam nas culturas orais. não carecem de originalidade própria.e. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. De fato. quando as curas são raras.

Na llíada.Ong 1967b. que não constitui uma lista neutra. é comum depararmos. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste. Na narrativa. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. certos jovens negros nos Estados Unidos. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. pp. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. neutra. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47).senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. até mesmo em culturas quirográficas. por exemplo. O dozens não é uma briga real. do mesmo modo. p. fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. mas também na celebração do comportamento físico. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. são extremamente raros e sempre toscos. no mínimo. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). na Bíblia. Não somente no uso que se faz do conhecimento. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. Obiechina 1975). no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. os livros VIII e X rivalizariam. e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada . no Beowulf. 32). joning. e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. e que Ora. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. pp. com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. mas uma forma de arte. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. 1972). independente. que eram cruciais na cultura homérica. 28-29.141-144. em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . Característicos das sociedades orais em todo o mundo. com base na observação e na prática. Representações de violência físita crua. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. Goody e Watt 1968. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . Comande o nauio um dos chefes do exército. Criados numa cultura predominantemente oral. 234.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. De belas faces. em todos os contos medievais europeus. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. Uma cultura oral. nos embates entre personagens. sem perda de tempo. até mesmo em culturas de alta tecnologia). .mais de 400 versos . convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. com apenas um mínimo de explicação verbal. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. isto é. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. reunamos.divisões políticas em uma lista abstrata. Na última metade do segundo livro. 176-180). com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. sounding ou outros nomes. em grande medida. como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. remadores. O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é. na verdade. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. 258).

pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". Platão excluíra os poetas de sua República. desse modo. A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". aumentam as hostilidades. obviamente. diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte.um mago. A ligação entre narrador. residualmente oral. à medida que se aproxima do romance sério. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. Sob a influência da escrita. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. do bem e do mal. e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. Opland 1975). envolvida na dinâmica de troca sonora. mas. finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. como uma reação encerrada na reação comunal. uma feiticeira . no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. estabelece condições para a "objetividade". Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. em vez de causas físicas. por intermédio dele. Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. e. Voltaremos a essa questão posteriormente. agonístico oral. Porém. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. da virtude e do vício. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade.79). da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. veja que eu já estou prosseguindo". e sobretudo. antes.e. o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói. estão des-oralizando-o num texto. mais de 2 mil anos depois. "Aqui estou para enterrar César. Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. transcrevendo-o. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke. Porém. eventualmente. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. pp. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado.ii. com o herói Mwindo. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. o declamador do poema épico. pp.tanto as atrações quanto. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual.\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. empática. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. p. não para falar em seu louvor". em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas. a despeito dos ataques feitos a ela. "deixar-se levar por ele". . pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. de seus ouvintes. portanto. de modo que. A escrita separa o conhecedor do conhecido e. as relações interpessoais são mantidas em tons extremos . Lidando com um outro cenário oral primário. na "alma" comunal. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. dos vilões e dos heróis. comunal com o conhecido (Havelock 1963. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima. de presunção e de afetação ridícula. distanciando-se das meramente exteriores. escriba!" ou "ó escriba. os antagonismos. já muito estudados (Finnegan 1970. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). 197-233). sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. A narrativa literária. 145-146). Elas sobrevivem nas baladas medievais.

Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. Goody e Watt (1968. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. podem ser registrados em definições formais. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. entre os lokele no leste do Zaire. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. pp. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. descobriu-se que. pp. inflexões vocais. tal como ela ocorre em textos datáveis. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. em que a palavra real. Os tambores africanos. Goody e Watt (1968. embora limitadas à atividade poética. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. mediante o uso corrente. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. até mesmo em culturas de alta tecnologia. que. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. sempre ocorre. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. p. tem uma certa durabilidade. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. 94-95). elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. isto é. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. embora a palavra tenha sido conservada. como literatos. desapareceram da experiência diária lokele. no entanto. conservam algumas palavras.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. É verdade que as formas artísticas orais. em disputas jurídicas). Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. tal como usados. 41-42. Nos últimos anos. as formas arcaicas são correntes. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. entre o povo tiv da Nigéria. como num dicionário. já não reconhecidos. em Gana. que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. portanto. 29) chamam de "ratificação semântica direta". As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. p. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora. que não consiste meramente. Sessenta anos depois. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. desse modo. tais como o poema épico. A memória do antigo significado de antigos termos. 48-99). 31-34). que não é. por exemplo. nessa época também. à época em que os . pp. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. também. o fundador do estado de Gonja. pp. mas inclui também gestos. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. em outras palavras. Ong 1977. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães. cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. ilimitada. falada. e o termo que permanece ficou vazio. isto é. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. como pai de sete filhos. pp. vivida. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. Assim.

Todavia. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. durante 1931 e 1932. sensível. 8). de A. operacionais. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática.. 157) chamou a atenção para o fato de que. Além disso. nos tempos modernos. duas das sete divisões haviam desaparecido. mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. uma por anexação a uma outra divisão. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente". as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado. p. 247.R. na opinião de Claude Lévi-Strauss. mas constitui uma abstração. que possuem um mínimo de abstração. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. p. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. I de uma realidade individual. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. n. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". pp. observa que o "modo oral. p. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. simplesmente ele próprio. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. As culturas orais estimulam o triunfalismo. e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. Henige (1980. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. extraída e distanciada . faziam questão desse contato em seus mitos. 25-26. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. Nestes últimos mitos. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. como Franz Boas (não George Boas. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. na União Soviética. 33. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. Beidelman. que. assim como Harms (1980. 255).mitos de estado foram novamente registrados. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. A seu ver.O. 248. n. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974. p. alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros. T. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais.. Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. tendeu normalmente a desaparecer. de modo algum "abstrato". 178) acha que se aplica aos bobangi. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. isso se aplica aos bashu. até certo ponto abstrato. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. se todo pensamento conceitual é assim. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). Edmund Leach e outros. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. p. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. como cita erroneamente Luria 1976. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. Luria. Packard (1980. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia.

e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. 32-39). com objetos concretos. mas.. Estes não eram líderes em suas sociedades. sim. Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. não respostas tiradas da vida real. p.). 56). Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. na verdade. quadrados. machadinha. p. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim. todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. mas usavam um conjunto diferente de categorias. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. jogo fora a machadinha. mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos. 14). 74). Desse modo. Mas. a serra e a machadinha são todos ferramentas. pp. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. plataforma de secagem de damasco. Quando lhe dizem que o martelo. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. serra. à exceção da tora. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita ."pensamento situacional" -. nunca abstratamente como círculos. a tara não é uma ferramenta). Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. peneira. um quadrado seria chamado de espelho. p. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. relógio ou lua. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. por outro lado. o relato de Luria gira claramente. porta. não podemos construir nada" Cibid." Por outro lado. respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. do contrário. Alunos de cursos para professores. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. Entre as descobertas de Luria. Um círculo seria chamado de prato. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. mas em termos de situações práticas .um jogo intelectual estranho. casa. Se tiver de tirar um deles. . tora. em oposição aos fundados no quirográfico. quadrados etc. com certo grau de cultura escrita. balde. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. triângulos e assim por diante 0976. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos.

Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. p. não tinha interesse. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923. "Metal precioso enferruja. que parecem ter julgado desinteressantes. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. antes. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. o categorial." É sua responsabilidade. num silogismo. não era importante. a ir além das afirmações em si. isolado. na vida prática. No extremo norte. machadinha. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. a saber. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. se a resposta surge dessa forma. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. mas tendem. de 45 anos. 108-1(9)." "Somente um animal voador. 72). A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. Metais preciosos não enferrnjam. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. Apresentada a série machado. 104). James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas.Um trabalhador de 56 anos. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei. encerrado. Em suma. p. eles deveriam ser todos brancos" (1976. eles nunca os compreendiam completamente e. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. em sua interpretação de dadas afirmações. p. fixo. para além das próprias palavras do enigma. mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas. pp. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. não minha. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. 34 anos) (1976. 114). pp. desse modo. no estágio apenas inicial de alfabetização. p. Algumas tinturas de cultura escrita levam longe. todos os ursos são brancos. tora. À luz desse conhecimento. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. 54-55).. como um texto. Para resolvê-Io. 18 anos). 67). foice. era fútil (1976.. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. um dirigente de uma fazenda coletiva. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. O enigma pertence ao mundo oral. mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'. muitas vezes profundamente inconsciente. embora com a predominância do último. Por outro lado. retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. que deveria completar a série serra. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . Vi um urso negro. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais).. sobre a cor de um urso polar? Além disso. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. .o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. espiga. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. mas depois reconsiderou e acrescentou. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. O ouro é um metal precioso. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. a respeito da espiga. Em determinados momentos de suas discussões. Nunca vi outros . Porém. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. onde há neve. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais ." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. assim como em outras formas.. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. num estágio apenas inicial de alfabetização. p.

eles podem lhe dizer algo a meu respeito. as pessoas são diferentes calmas.o vapor dá potência à máquina . Eu mesmo não posso dizer nada. Numa viagem. 90). Usa fogo e vapor. 86). 150): "Que tipo de pessoa é você. p. respondeu um camponês analfabeto. também precisa de fogo" 0976." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. não de dentro. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. Mas a água não é suficiente. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. p. Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas.esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. 87). Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. Embora ele não estivesse bem informado. Por outro lado.4) No trabalho de campo realizado por Luria. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976. vai descobrir. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era. de 22 anos 0976. como é seu caráter. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. o eu. seja examinado e descrito. "Tente me explicar o que é uma álVore. p." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. os pedidos de definições dos objetos. até mesmo os mais concretos. deve haver. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. ninguém nos respeitaria" (1976." Mais situações exteriores. Mas a falta de familiaridade . "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. olmo. fez uma tentativa de definir um carro. não está centrada na descrição da aparência visual . p. p. 15).''' O respondente enumera algumas características." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. Mas para ir direto ao assunto. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. todavia. mas no fim retoma à experiência individual. encontraram resistência. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. 148). analfabeto." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. p. não precisam que eu lhes explique". Exige isolamento do eu. Um outro homem.. um camponês de 36 anos. Sua definição. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for.é muito veloz.. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir . Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão. álamo. Perguntou-se a um homem de 38 anos. ou às vezes sua memória não é boa. mas é uma definição em termos de suas operações. um teto para sombra e uma máquina. de gênio forte. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. situacional 0976. diz: "É feito numa fábrica. mas são típicos. Não sei se há água num carro. Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro. "Bem." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. de 30 anos. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo.

são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. p. mas tão somente porque são bons navegadores. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. 53-76). associadas ao uso de textos e. 4). Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. mas dentro de contextos operacionais. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . não porque os considerem "inteligentes". Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. uma "consciência moderna". que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. "Vamos observar um pouco como ele dança. O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. respondeu a Carrington 0974. O pensamento oral. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. pp. isto é. na verdade. pode ser bastante sofisticado e. os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. a menos que soubessem escrever. na verdade. pelo menos no que diz respeito a esse caso. mas também das escritas. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. tal como a dos sujeitos de Luria. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. Gladwin 0970. por exemplo. processos de raciocínio formalmente lógico. é claro. os analfabetos podem ter tido . não apenas das culturas orais. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. Elas são legítimas. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. categorização abstrata. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. p. Até poucas gerações atrás. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. 61). no Pacífico Sul. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. reflexivo. respeitam seus navegadores.e muitas vezes tiveram -. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. ou auto-análise articulada. mas o indivíduo oral não conhece as regras. A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. de modo rigoroso. Terão ouvido." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. no Ocidente. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. milhares de anos após a invenção da escrita. Essas perguntas estão ausentes. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento. mas também falam segundo os padrões da cultura escrita. definições ou até mesmo descrições abrangentes. em diferentes graus.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. contudo. Mas isso não é um enigma. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. a seu próprio modo. organizam. Será um jogo? É claro que é um jogo. isto é. 1978). podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. p. Um habitante da África Central. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. mas do pensamento formado pelo texto. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita.

p. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. Numa cultura letrada. Porém. in Pany 1971). Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. No passado. que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. À primeira vista. Atena ou ApoIo. um trunfo valorizado nas culturas orais. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. inteligentes e belas. uma vez que. assim como para os outros personagens. nos poemas homéricos. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. não são analíticas. por exemplo. p. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. Parry 0928. 156). Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. mas de fórmulas. memorizaram-nas literalmente com base em textos. mas agregativas. Com esse vocabulário hexâmetro. será necessário discutir algumas das operações da memória oral.tal como. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais. ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. se empurrarmos com força um objeto móbil. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. em qualquer sentido simplista . Desse modo. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. Como vimos no capítulo 2. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. do fisiológico ao psicológico e ao ético. para Ulisses. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. que seus processos mentais são "toscos". Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. 51). essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. segundo seu próprio modelo textual literal. Porém. à condição de que lidasse com material tradicional. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. na ausência da escrita. Heitor. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. Eles sabem muito bem que. por exemplo. O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. sem memorização literal. As seqüências longas que eles produzem. com êxito. no entanto. o empurrão fará com que ele se mova. Como tal repetição poderia ser verificada antes . tais como as genealogias. deveriam ser essencialmente composições escritas. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. Para compreender como elas o fazem. grupos de palavras para lidar com material tradicional. é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. compreensivelmente. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. de algum modo. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971.

As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. Seus poemas narrativos. embora metricamente regulares. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. coisa ou ação. Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. Com base nessas entrevistas e na observação direta. 17). A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. os temas e as fórmulas. pp. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. Como se observou anteriormente. é claro. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente. essa natureza. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico.. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. Na memorização de um texto escrito. no entanto. o material. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. na verdade. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. ou o "alinhavamento" de narrativas. e a "rapsodização" do poeta. a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. dependendo da reação do público.é analfabeta. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. que nada têm a ver com textos. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. única. revela que. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. Porém. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. Quando recorda e reconta a história. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. durante meses e anos. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. Na sua essência. indivíduo. e/ou ao público. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. Basicamente. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . até pelo mesmo poeta. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975. porém. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica. os melhores . Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. 216). como os de Homero. assim como sua utilização. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. p.e. não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. eram métricos e formulares. como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. assim como os temas.uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. Na verdade. p. pertencem a uma tradição claramente identificável. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. A originalidade não consiste em introduzir novo material. diferirá visivelmente de um para outro. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. As fórmulas sofrem alguma variação. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. tempo para "se emprenhar" da história. Uma comparação entre as canções gravadas. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. 20-29).

de modo muito mais detalhado. de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. Um é o da verbalização ritual entre os canas. mas a juntá-Ias. ou para uma elocução. 28). Se não se pode escrever. pp. p. assim como as de outros (Opland 1975. ver Foley 1979). as reproduções da mvocaçao. 27). pp. 1976). Há muito tempo (960). a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. ou para uma unidade rítmica de uma canção. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. onde a Invocação ao Bagre. 78. ou para um tema. a outros especialistas como ele. ou fazem somente com dificuldade. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. Sherzer . é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. e pronuncia-se a frase inicial da invocação. francês. Todavia. quando se conhece a hngua. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. entr~ os lodagaa do norte de Gana. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. não parecem ter uma exatidão literal maior. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. separada do fluxo discursivo. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral. p. Em todo o . p. é "algo que todo mundo 'sabe"'.~ alemão. português e outras línguas (ver Foley 1980b). por Lord na Iugoslávia. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem. verso por verso e palavra por palavra. relatado por Joel Sherzer (1982).. As descobertas de Goody. na África do Sul. sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. que era especialista em ritos de puberdade de meninas. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. recitações pelo mesmo indivíduo. no entanto.o entre _os cristãos. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. segundo os padrões de uma cultura escnta. não são absolutamente estáveis. um "pedaço" de discurso. quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). verifica-se que são sempre diferentes. é dierética. até mesmo no caso . Ou não? Talvez sejam 28. Por J exemplo. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. separativa. Goody 0977. Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. Opland 0976. Na verdade. não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. Goody (1977. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. em . 118-119) relata como. ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). p. 114) registra esforços reais. "Palavra por palavra e verso por verso". pelo menos 60% em relação às outras versões. que." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. como interpreta Lord 0960. p. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. p. mundo. também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. parece ser algo textual. p. como Goody. um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. na costa panamenha.) Significativamente. O que conseguem? ~a maioria das vezes. 76-82). o ouvinte toma o refrão. o mínimo. como o pal-Noss. 28). Em 1970. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras". isto é. Todavia. aqui como em qualquer outra parte.

que. por um dado período de tempo. Novamente. e alguns interlúdios puramente instrumentais. 118. aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . mas constróem uma composição em particular. mudanças das quais não se dão conta. Às vezes. trata-se de composição formular. fonema por fonema. p. nas suas próprias recitações. No caso da poesia oral somali. com algumas poucas partes em "voz pura". parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . não equivalentes a seu próprio exemplo. como já indicamos. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. se é que não a aumenta. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. não literal.e. como os feitos pelo h01110ioteleuton . Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. portanto. como mostrou . Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. que começam ainda muito novos. embora eles próprios façam. na verdade. Novamente. n. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). Isto é. de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. omitindo o material intermediário.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. porém notável. Um é da poesia clássica somali. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. é entoada com música. senão idêntica. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. 148). p. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. ver também Johnson 1979a). Indubitavelmente. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. mas também sintáticas. trabalhando com um mestre oral. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. na qual uma narrativa oral. 3.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. rapsódico.não totalmente invariável. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. palavra por palavra. com base em Finnegan 1977. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. à que aprendem a própria gramática" 0979b. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. a música estabiliza inteiramente o texto. métricas. Evidentemente. Em certas partes. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. ainda existente porém em declínio. desacompanhadas de instrumentos. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições.

. provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. 83-84). possam geralmente julgar "fixo" um uso que.#26 . Porém.. . embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel.se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. no entanto. pp. a estrutura formular . Os Vedas são coleções extensas e antigas. O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. deliberadas ou não. Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus. De fato.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente .isto é. tratando especificamente da língua sêneca." Em suma. provavelmente em completa independência de quaisquer textos. A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa.a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação. Sem um texto. e Rutledge sugere em seu trabalho . nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. especialmente em rituais. surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . 99-100). sugere que a linguagem ritual. 164). as palavras "Este é o meu corpo . Os exemplos literais de Sherzer são rituais. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. conservam um alto grau de resíduo oral . assim como outras relativas à "memorização" oral.ser estabilizado palavra por palavra. Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem. como vimos. tanto quanto sei. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. pp.e notas. inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal.. Chafe (982). ao cumprir sua instrução (isto é. "Fazei-o em minha memória".. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual..Lord. e isso através de muitas gerações? Afirmações. na verdade. até mesmo em seus rituais textualizados. de que as reproduções são idênticas. Os professores brâmanes. Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965).e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19). nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord.têm uma história complexa e muitas variantes.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. mas com um conteúdo. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. nas culturas orais em geral. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963). tudo indica que. as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976. Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. como poderia um determinado hino . comparada à coloquial.c. ou de 1954 (Bright 1981). freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963. Tais afirmações. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. Porém. Com efeito. Meras declarações. é "flexível" ou variável). Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia. Louis Renou."). pp. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva . podem ser totalmente contrárias aos fatos. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. palavra por palavra. com certeza.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. poderiam surgir outras tantas variações. p. 25-26 . até mesmo no ritual. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos. os textos védicos . oral.para não falar da totalidade dos hinos das coleções . este é o cálice de meu sangue . na boca de um outro professor igualmente capaz. ou gurus. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento.

frontispício. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras".e temática dos Vedas. culturas nas quais. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). Peabody 0975. completamente. Os narradores narram o que o público deseja ou permite. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. Por exemplo. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). Outros povos manipulam contas em cordões. Em todos os casos. elementos temáticos e mnemânica oral. Finalmente. e significativamente menos do contato não-verbal. particularmente a pública. 173). visível até mesmo em traduções. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. 220-222. A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. p. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. . 60). as prensas param de rolar. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). por si só. Reformulei a narrativa. A palavra oral. podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. Quando o mercado para um livro impresso decresce. O Talmude. ou dançar. no entanto. existencial. ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. Havelock 1978a. A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". mas natural e até mesmo inevitável. pp. como já observamos. como eu mesmo testemunhei. que tinham algum conhecimento da escrita. mas milhares de cópias podem permanecer. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. p.) A esses casos. literal ou não. é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. isto é. nunca existe num contexto puramente verbal. Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. (Ver também Lord 1960. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. Como se observou (p. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. É preciso fazer a ressalva. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". Ela conhecia a história. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. disse ela.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". do que ao objeto. Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra. não obstante seja um texto. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. que sempre envolve o corpo. fazendo um beicinho.. e minha fórmula não era a que esperava. Biebuyck e Mateene 1971. Na verbalização oral. como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. como ocorre com a palavra escrita. também o faz a própria genealogia. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. e portanto da interação humana. tais como a gesticulação.

Um professor que fala a sua classe. um duelo polido. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. isto é. perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. A natureza não estabelece "fatos". Qualquer nativo de Cork. Dirigiu-se a ele. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. bateu com a mão na parede do edifício. ele fez algo. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. Assim. é uma série de manobras verbais (e somáticas). nesse aspecto. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. na Irlanda. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio. como agonístico e. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. Para garantir peso e memorabilidade. pp. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais.aninham as percepções. o imensamente perverso lobo. o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . está relacionada ao estilo de vida agonístico. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. Nas culturas orais primárias.como um grupo intimamente ligado. que ele percebe .. lida com todas as perguntas desse modo. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado. Nunca baixe sua guarda oral. uma disputa de talentos. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. Kábútwakénda. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo.* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. 451. indivíduos cujas façanhas são notáveis. zam o comportamento esquizóide. figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. que muitas vezes os leva a um ato violento. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. Ao contrário. . o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". memoráveis e geralmente notórias.. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. amok. Em culturas orais. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. segundo a mitologia. por sua vez. A comunicação oral agrupa as pessoas. uma operação de agonística oral. ao contrário de obter realmente uma resposta. seu epíteto usual). A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". o furioso Aquiles. o indivíduo do sudeste da Ásia. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). ao passo que os letrados o interiorizam. com seu enorme resíduo oral.e que percebe a si própria . como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. é freqüentemente desviado. o astuto Ulisses. 470-481). A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. Desse modo. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. descobre que.

A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. 9-11. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. um objeto translúcido. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. é interessante. e sejam quais forem as outras forças. que fornece as ressonâncias vocais. A visão situa o observador fora do que ele vê. de uma página impressa ou uma paisagem. de John Updike. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. 65-67). À medida que a escrita e. as Três Parcas e assim por diante. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. as figuras não sobreviverão. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. Aqui. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". De modo análogo. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. além da mera utilidade mnemônica. tal como um fogo. Porém. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. de um espelho. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. Índice). E. Não se pretende negar que outras forças. A profundidade pode ser percebida pela vista. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. após cerca de três séculos de impressão. sim. as Três Graças. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. ao passo que o som invade o ouvinte. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade.de escalar . Aqui. ou cadeiras em um auditório. como observou Merleau-Ponty (1961). no entanto. A vista isola. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. o som incorpora. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. O tato. porque. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. contrasta com a reflexão especular.) Uma fonte de luz. nesse sentido. e assim é menos um interior. pela impressão. a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. constantemente recua e foge. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. exteriores. acima de tudo. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. como um alabast!o. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. pp. O som existe somente quando está desaparecendo. Para testar o interior físico de um objeto como interior. a vista também não pode se "concentrar" nele. típico do romance. a voz humana vem do interior do organismo humano. A visão chega a um ser . por fim. por exemplo. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. em vez de enfrentar o inimigo. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. sua evanescência. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. (A reflexão difusa. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. ou numa parede para saber se é oca ou sólida. pode ser interessante. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. A visão disseca. aberta. a uma distância. Numa economia noética oral. que. sua relação com o tempo. produzam figuras heróicas e agrupamentos. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. no lugar do herói. mais profundamente. embora não seja uma fonte de luz. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias.

implementada pela impressão. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. 117-122. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". aventureiros e peregrinos. os seres humanos iriam. no entanto. Com "interior" e "exterior". Ao contrário da visão .o som é. '. uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". preciso girar meus olhos de um lado para outro. um estado interior.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. com o homem em seu centro. . ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. 176-179. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. pp. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como. fundamentalmente. girando no círculo tautológico. o umbigo do mundo (Eliade 1958. viajantes. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os. conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. baseados na experiência que cada um tem de seu corpo. 221). a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. 231-235 etc. pp. O auditório ideal. Na visão. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. que é definido por "dentro de". sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. como num atlas impresso moderno. que me envolve. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". A propósito. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. desse modo. São conceitos fundados na existência. a psique não é sadia.o sentido da dissecação . Podemos mergulhar no ouvir. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. na qualidade de palavra falada. de certa forma. uma luta pela harmonia. e assim por diante. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. dentro de meu corpo). Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. nem mesmo à possibilidade de um tal texto. é harmonia. Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. 228. O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. 63. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. O homem é o umbilicus mundi.Ong 1967b. Quando ouço. Numa cultura oral primária. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". Sem harmonia. as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). embora conhecesse certamente muitos itinerantes. não um fenômeno fragmentador. estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. visualizada: a visão é um sentido dissecador). mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. mas unificador. que é definido por "entre". pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. Quem diz "eu". o cosmos é um evento contínuo. Para as culturas orais . dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita.). ' . É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. na qual a palavra existe apenas no som. O mesmo vale para "exterior". no som. A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". por outro lado. é um colocar junto. pp. O conhecimento é. d o que a que envolve coisas impessoais. um sentido unificador. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer.

O hebraico dabar. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. Na maioria das religiões. uma representação textual. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. p. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. o português não tem equivalente para readershíp. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. é espantosa (Ong 1967b. refere-se diretamente à palavra falada. que nos deu a palavra "signo". e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. A escrita e a impressão isolam. A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. direta ou indiretamente. Lotman 1977). a Palavra de Deus. Eventualmente. Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. mas um "sistema modelar secundário" (cf. desse modo. nada deixou por escrito. No entanto. os ouvintes normalmente formam uma unidade. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura. porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. significa também "acontecimento" e. o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). pp. O coletivo readership' . como se fossem realmente ouvintes.T. nas religiões mundiais mais abrangentes. consigo mesmos e com o orador. como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. A palavra falada é sempre um acontecimento.etimologicamente. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. até mesmo em suas partes epistolares. Record). um movimento no tempo. A mentalidade oral do texto bíblico. lemos na Carta aos Romanos 00:17). não escrevendo para eles. mas a falada.esta revista tem um readership de 2 milhões . a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. cujos significados. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. com as preocupações fundamentais da existência. reais ou imaginadas. 176-191). visual de uma palavra não é uma palavra real. como indivíduos. Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. 14). a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. Signum. O pensamento aninha-se na fala. (N. que significa "palavra". restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. todos. o • Significativamente. por exemplo. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. Jesus. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". fundamentalmente um som. mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. Na cristandade. como um "signo". "A fé vem pelos ouvidos". A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional.é uma abstração excessiva. não em textos. Quando um orador se dirige a um público. Para pensar em leitores como um grupo unido. num som real ou imaginado.) . Na teologia trinitária. a unidade do público é desfeita. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . "A letra mata. Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. Em virtude de sua constituição física como som. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976.

elevando-o acima do mundo comum. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . e "o tempo caminha". quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. mudos. a análogos visuais. algo mais. o mastro do barbeiro. como uma águia. Eram "signos". isto é. muito mais difícil. ao mesmo tempo. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. Embora os romanos conhecessem o alfabeto. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. toda a experiência humana. (Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. o ontem não estalou para o hoje. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. . pesado. na verdade.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. "objetivo" . mas também por vezes psicodélicos. repito. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. esse signum não era uma palavra soletrada. do que a "desconstrução" da literatura. mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. ao tratar da internalização da tecnologia."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. mas pelo vôo. leva-nos para a morte real.talvez incipiente em culturas orais. eram. (Sobre os rótulos iconográficos. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" . da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. 7). sekw-. e se ele não é exato. como é representado num calendário. O tempo real absolutamente não tem divisões. que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. é limitar nossa compreensão .mas somente parece. ver Yates 1966. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. O som é um evento no tempo. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". Ainda na Renascença européia. fenômenos visuais imóveis. quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias.embora realmente produza. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. seguir). Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. efeitos que são brilhantemente fascinantes. alquimistas letrados. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . pois a oralidade primária subsistia residualmente. sem nenhuma parada ou divisão. parece. p. o tempo parece estar sob um controle maior . as três esferas do agiota. pois o tempo real. Mas isso também falsifica o tempo. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas.a reduzir toda sensação e. tendiam a registrar neles não um nome escrito. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. grosseiro. inexoravelmente.que sugere evanescência. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis.) De modo análogo. Reduzido ao espaço. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. uma ao lado da outra. causados por distorções sensoriais. por exemplo. num sentido em que as palavras não o são. indivisível. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto.

não apenas quando se ocupa da escrita. 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). a escrita transformou a consciência humana.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. mas normalmente. porque foi separado de seu autor. como o oral. Mais do que qualquer outra invenção individual. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. 21-23. mas da estruturação dessas capacidades. direta ou indiretamente. pp. pela tecnologia da escrita. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. Sem a escrita. .

como mostrou brilhantemente Havelock (1963). um texto escrito é basicamente inerte. podemos obter uma explicação. em um mundo irreal. É uma coisa. Fora dele. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. O mesmo. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". como se viu (Havelock 1963). o livro substitui a enunciação de uma fonte. artificial. A escrita. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. no Fedra. exceto as mesmas. Tecnologizada a palavra. ele as pôs por escrito. orais. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. se o fizermos a um texto. enquanto o livro existir. possui algo dessa qualidade vática. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. não a fonte. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. não obteremos nada. 31-32). também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. pp. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. é dito dos computadores. As calculadoras enfraquecem a mente. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. pois julgava-se ser ele a voz do deus. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. os pais. A escrita. ao saber que. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. Hieronimo Squarciafico. para tornar mais convincentes suas objeções. a escrita destrói a memória. é inumana. Além disso. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. Na verdade. Como o oráculo ou o profeta. ela criou a crítica. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. e muitas ficam angustiadas. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. muitas . incluindo sua crítica à escrita. e mais ainda a impressão. a escrita é passiva. Obviamente.em vaticínios ou protecias. para torná-Ias mais convincentes. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. pp. objeta o Sócrates de Platão. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. A escrita. A escrita enfraquece a mente. um produto manufaturado. Em segundo lugar. para tornar mais convincentes essas objeções. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. Como os computadores. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. é claro. Os textos são inerentemente contumazes. Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. fora de contexto. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. diz Platão através de Sócrates. fundamentalmente. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. fazem-nas por meio da impressão. Atualmente. assim como outras pessoas. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. A joniori. Em terceiro lugar. a impressão está sujeita a essas mesmas acusações.

"forma". é claro. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. sua rígida fixidez visual. mas o espírito dá vida" . porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. e de que ela destrói a memória. em Oxford. Clanchy (1979. ou registro escrito. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos.em que pressagia a própria morte . a escrita é inteiramente artificial. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. é o equivalente psíquico do texto verbal. A fala completa a vida consciente. desprovidas de todo calor. "ver". A escrita é. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. parte de seu próprio processo reflexivo.e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley.30. No entanto. não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana. mas isoladas. ou a representará um certo fonema. a mais drástica das três tecnologias. como tal. "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. a quem ele expulsara de sua República). tardia. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente.) . isto é. O termo idea. encontrável em dicionários impressos de citações. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. móvel. a redução do som dinâmico a um espaço mudo. oral. e muito mais. assim como tintas. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. superfícies cuidadosamente preparadas. Em pippapasses. de certo modo. ou reação exagerada. pincéis ou canetas. Platão. com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. um certo pictograma significará uma certa palavra específica. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador.da do mundo da velha vida cotidiana oral. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". único lugar em que as palavras faladas podem existir.I) . como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. outrora viva. seu afastamento do mundo da vida cotidiana. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. Voltaremos a essa questão posteriormente. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. A flor morta. pp. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). A escrita. individualmente interativa (representada pelos poetas. "visível" ou "vídeo". calorosa. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. 230-271). Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. b um outro e assim por diante. embora. tiras de madeira. "cada livro é teu epitáfio". hostil. 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. Ao contrário da linguagem natural. As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. é claro. de que na Biblioteca Bodleian. de 2 Coríntios 3:6 . As idéias platônicas são mudas. não são interativas. imóveis. em qualquer cultura. pp."A letra mata. e além dela. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. Não há como escrever "naturalmente". estão inteiramente acima e além dela. É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). conscientes. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. peles de animais. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. coisificada. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos.

de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer. que especificam exatamente como usar as ferramentas. mais do que qualquer outra. Obviamente. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. Como outras criações artificiais e. Porém. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade.) Um registro escrito. de Morton Subotnik.Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. em representações de coisas. foles. E vários dispositivos de registro. e mais ainda quando afetas à palavra. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. na verdade. 141 e 168). sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. pelo contrário. O primeiro registro escrito.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. isto é. ampliar o espírito humano. Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. Para viver e compreender plenamente. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. Um violino é um instrumento. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio.novamente um paradoxo . à oralidade -. isto é. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. transformações interiores da consciência. Isso exige anos de "prática". interiores. isto é. é a representação de uma elocução. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. acentua-a. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. ou aides-mémoire. geradores elétricos . que conhecemos. As tecnologias são artificiais. para compreender o que ela é . ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano. Os desenhos representam objetos. Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. Um órgão é uma máquina enorme. usando um dispositivo mecânico. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. A escrita. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). mas também da distância. não rebaixa a vida humana. Até mesmo quando é pictográfico. é resultado de alta tecnologia. em última análise. (Diringer 1953. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. na verdade. necessitamos não apenas da proximidade. é altamente desumanizante. sim. mas elogiá-Ia. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. A escrita aumenta a consciência. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. Tais transformações podem ser enaltecedoras. mas . uma ferramenta. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno.inteiramente exteriores a seu operador. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados. intJnsificar sua vida interior. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. mas. poderia dizer. Para conseguir tal expressão. ou verdadeira escrita. Os códigos. O desenho de um homem. Mas. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. no sentido de uma escrita genuína. uma parte psicológica de si mesmos. Gelb 1963). As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. com recursos de força . humanamente compreensível. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. não consiste em meros desenhos. A orquestra moderna. um registro escrito é mais do que desenhos. por exemplo. adequadamente interiorizada. o aprendizado de uma habilidade tecnológica. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. tal como entendido aqui. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. obviamente.a artificialidade é natural aos seres humanos. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. no sentido estrito da palavra. Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza. fileiras de seixos.bombas. A tecnologia. pp. mas um código não é desenhável. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. E assim por diante.c.

indicando que ()~ documento foi inteiramente lido. 1400 d. Em alguns sistemas codificados. pelo menos em parte. 50 d. como no sistema desenvolvido pelos vai.. em um nível ainda mais elementar. sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. de forma a incluir qualquer marcação semiótica.c. em seu sentido comum. Os registros escritos têm antecedentes complexos. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. o contexto extratextual às vezes é necessário. Assim.indicavam. ocos. ao uso de sinais.C. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos. o registro do vale do Indo. de um sistema de registro de transações econômicas.digamos. o que representavam .c.). Se anoto em um documento: read. Usar a escrita para criações imaginativas.. Não é um mero apêndice da fala. A maioria. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico. o maia. isto é.C.c. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. 3500 a. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. gradativamente. os hieroglíficos egípcios. os símbolos do lado de fora da bula . Existem estágios intermediários. o da visão. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita. da mesma regiào que as bulas.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. Diringer 1960.. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica. O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978). o asteca. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. (talvez sob alguma influência do cuneiforme). banaliza seu significado. serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. pequenos. sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens.o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. 3000-2400 a. pois o primeiro registro cuneiforme. o primeiro de todos os registros conhecidos (c.digamos. dentro da bula. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. 3500 a. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas. interpretável apenas por aquele que os faz.faz e à qual atribui um sentido. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. mas totalmente fechados. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. Desse modo. seria "escrita". as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. o "Linear B" minóico ou micênico.c. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. Se isso é o que se entende por escrita.c. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). se não a totalidade. ou às vezes. originou-se. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral.c. 1500 a. pp. 1200 a. o chinês. sete entalhes .Wilson 1975. . Contudo. 3000 a. (datas aproximadas segundo Diringer 1962). Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação . A escrita. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos. Até mesmo com o alfabeto.. mas somente em casos excepcionais . as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. não quando a mera marcação semiótica foi imaginada. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl.usar a escrita para produzir literatura . ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. talvez. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. indicando que deve ser lido até o fim.

ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire. como uma letra do alfabeto. 3 e assim por diante. O chinês é o maior. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. o significado pretendido não fica inteiramente claro. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . ou soul [almal associada a "corpo". algo como um francês. um caminho [walkl e uma chave [kryl. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. que agora está sendo ensinado em toda parte. 2. desse termo. A comunicação pictográfica. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. embora primorosamente estilizados. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. 2. Mas. Uma espécie é o ideograma. 2. As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. Todos os sistemas pictográficos. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". um luba. sole no sentido de "apenas". (Todavia. mas a palavra "floresta". requerem uma espantosa quantidade de símbolos. como aparece aqui. o mandarim. o . Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. em 1716 da nossa era. p. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. A perda para a literatura será colossal. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1.de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha]. nessa ordem. mutuamente incompreensíveis.no sentido mais específico história do registro. desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. podem compreender a escrita. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. freqüentemente. Em um sentido especial.) Algumas línguas são escritas em silabários. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). mas estabelecido por código: por exemplo. Indubitavelmente. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". desenhos de um moinho [mil/l. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. 3. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. arrola 40. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. incapazes de compreender o que os outros dizem. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. Desse modo. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. 3 e assim por diante estão. um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. até mesmo naquela época.545 caracteres. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica.inglês sole . Nenhum chinês ou sinólogo conhece. 2. o que 1. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). numerais como 1. ou já conheceu. no pictograma chinês. para "criança" [dzal. de certo modo. 3 não são. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. todos eles. 2. Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. mas não às palavras "primeiro" e "segundo".

parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. ideogramas. ke. o semítico do norte e o semítico do sul. 456). na verdade. embora. rébus e várias combinações. As línguas organizam-se de diferentes maneiras. ela simplesmente representa o fonema [b]. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. ku. assim como outras línguas semíticas. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. ki. por exemplo. alguns ideogramas. do desenvolvimento senútifo original. cinco outros para ma. arábico. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). de uma forma ou de outra. "pontos" vocálicos.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra. foram acrescentados a muitos textos. romano. malabarense. exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. Posteriormente. No do vai. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. Havelock 1963. Todavia. em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus. respectivamente. na história do alfabeto hebraico. sem dúvida. mi. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. ko. mesclando dois ou mais princípios. não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som. o sistema coreano é híbrido (além do hangul. tâmil. não é uma vogal. 121-122. pp. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). cirílico. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. outros rébus). ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. Além disso. discute as duas variantes do alfabeto original. (Diringer 1962. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos. culturalmente ricas e poeticamente belas).. o cuneiforme. como nos registros u~arítico e coreano. Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. pronunciados a sua própria maneira).c. O fato mais notável sobre o alfabeto é. e é muito difícil de ler.derivam. ugarítico. mas 2 mil anos depois dele. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. mu e assim por diante. Na verdade. Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade.hebraico. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". para ka. um alfabeto genuíno. muitas vezes extremamente complexas. eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). ele usa caracteres chineses. como o árabe. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". mo. até hoje não possuem letras para vogais. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. mais ou menos. A letra aleph. o de que foi inventado apenas uma vez. me. 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. ele usa caracteres chineses.) Todos os alfabetos do mundo . E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. coreano . Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. que se tornou nosso "a" romano. E israelenses e árabes modernos. que significa "não"). quando os pontos vocálicos são usados. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização .até o terceiro ano. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. na Libéria. p. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. . grego. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh". discordantes em quase tudo o mais. talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. O hebraico. à medida que lêem. adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". p. "claustro").

r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. Nos livros e jornais coreanos.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. não um evento. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. elas fossem coisas. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. sobre bases neurofisiológicas. Rébus ou fonogramas. Ele representa o som em si como uma coisa. mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. O alfabeto implica que as questões são diferentes. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. não uma palavra. A escrita de caracteres chineses. para os escolares israelenses. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. mais analíticas. Todo registro escrito representa as palavras como se. Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. O som. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. marcas imóveis para a assimilação pela visão. não obteremos "aroma". desse modo. Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). no entanto. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". (Observou-se há pouco que. que uma palavra é uma coisa. por converter o som a uma forma visível. de algum modo. É talvez. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. tori. O alfabeto. pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. Parece que a estrutura da língua grega. quase total. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. em componentes puramente espaciais. mas um som completamente diferente. sem dúvida. objetos mudos. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. pãjaro. digamos. nem "amora" nem "aroma". Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. quando chego ao "-cendo". até o terceiro ano. "pássaro". Um desenho. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. que admitia a omissão de vogais na escrita. de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. Vogel. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. como já explicamos anteriormente. A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. igualmente. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. Mas o rébus (fonograma). que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. não reduz o som ao espaço. com certeza. de um pássaro. embora possa representar várias coisas. o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. semi-permanente. temos dois. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. b mais a. Porém. favorece o pensamento analítico. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. com vogais. porém crucial. facilmente aprendido por qualquer pessoa. pois representa um objeto. Constitui um registro democratizante. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. uccello. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). como muitos outros sistemas de escrita. como no exemplo fictício usado acima). A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. existe somente quando está desaparecendo. Kerckhove (1981) sugeriu que. Ele analisava o som de modo mais abstrato. Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. abstrato. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. o "desapare-" já acabou. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . da palavra. Era também "internacionalizante". sae.

além do alfabeto . Porém. Na cultura da antiga Grécia. 201-203). por meio de uma forma dialética escocesa. pp. recibos (Achebe 1961. sociedade específica. Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês.para ler a maior parte da literatura em coreano.alfabeto. p. conhecimentos de embarque. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. . citando R. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). p. Milhares e milhares de coreanos . ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele).todos coreanos que sabiam escrever . mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras.encomendas.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. pp. Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. abre caminho pela primeira vez na direção de uma . diante da prevista resistência maciça. ou caracteres chineses.. Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. 120-121). virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. 13). ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval. A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos.B. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. ao passo que os 1. com a democratização maior da Coréia. garotas de gramática. vulgares. recibos etc. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968.e. pp. Clamor girls são. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas. na realidade. Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. Eckvall). na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968. 236). 113-114).que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar. Porém. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. 15-16). Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. p. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. O futbark. Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . que todos podem virtualmente ler.800 ban. como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b. pp. a recepção dessa façanha notável era previsível. alfabético ou outro. Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. onde. 300-309). práticos. A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968. 16. foi comumente associado à magia. que são o mínimo exigido . ele o faz necessariamente. uma realização magistral. caixas de papelão. no lruCIO. Até aquela época. A escrita é muitas vezes considerada.jornais. pp. O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. inici(l1mente. em 1443 d. não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. Apenas no século XX. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. referente ao aprendizado livresco. emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a.

Como superfícies para a escrita. até mesmo então.c. Ou então cascas de árvores. 90). 218). os autores muito freqüentemente empregavam escribas. sobre "A tecnologia da escrita"). p. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. provavelmente por volta do século II a. Como ferramentas para escrever. Durante a Idade Média. penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. era. velino) desbastadas de gordura e pêlos. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil.C. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. então. algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. ou um construtor naval para fazer um barco. cf. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. ou. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. Compor à medida que se escreve. na Inglaterra do século XI. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do . pp. como na aquarela. como o Mali. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. evidentemente.. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). na Europa. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. folhas secas ou outros vegetais. Não existia papel. p. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). No ato físico de escrever. quando ocorria. quando compunha por escrito. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. Havelock e Herschell 1978). Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. particularmente em composições breves. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. os escribas possuíam vários tipos de estilete. bastões de madeira (Clanchy 1979. esse estágio foi superado. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). p. Nesse estágio. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. Ainda era raro na Inglaterra do século XI e. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. São Tomás de Aquino. papiros (melhor do que a maioria das superfícies. comumente na Ásia Oriental. produzir um pensamento com a pena na mão. que escreveu seus próprios manuscritos. 88-115. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. manufaturado na China. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. Nesse estágio de profissionalização da escrita. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. junta suas palavras no papel. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada. Eadmer de Saint Albans. ele possuía blocos de barro molhado. peles de animais (pergaminho. pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca.se é que algum o faz -. Mas. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. pela ordem..de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. De modo semelhante. Goody 1968b).

p. ao passo que os textos. que conheciam a escrita. Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. "pessoas de idade. 236-241). O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. No período estudado. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. não (isso. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. 232-233). As culturas mais antigas. mas "uma espada antiga e enferrujada". argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. ela pode ainda não lhe dar muito valor. Cada jurado jurou que. Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos. Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. Clanchy chama a atenção 0979.Clanchy 1979. em uma moldura de tempo computado abstratamente. relógios de parede e relógios de pulso. conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. . de bom testemunho". as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. mas por objetos simbólicos (como uma faca. 231. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. 25). pp. Antes do uso de documentos. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). do nascimento de Cristo. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. todos vivemos. 24). provavelmente por diversos motivos. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. o Conquistador. Voltaremos a falar (isto é. Por volta de 1130. Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. 235-236). o Conde Warrenne exibiu não uma carta. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. À primeira vista. Em 1127. p.pensamento baseado na oralidade. todos os dias. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. especialmente em um tribunal. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. sábias e maduras. presa ao documento por uma correia de pergaminho . elaborada por Clanchy. por exemplo. Na Inglaterra do século XII. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. atualmente. mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. pp. p. a idade de herdeiros feudais. devemos lembrar. p. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". 238). porém a história cuidadosa. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. pp. mas não a haviam interiorizado o suficiente. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). pp. De fato. imposto por milhares de calendários impressos. até mesmo em um meio administrativo. 230).

uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. inacessível à consciência. Elas eram identificáveis por sua aparência. tabelas ou números. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. mas estão fazendo algo. É o domínio dos ancestrais..Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. Meujael gerou Metusael. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens.não um registro de contas objetivo. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes). porque o passado mais remoto era. "gerando"). que começam por volta de 3500 a. De fato.c. Sawyer). As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. Partindo de Hazerote. 233). inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!. 44 são certamente falsificadas. "Os falsificadores". citando P. paradoxalmente. em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes. 249. de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. a cada momento de suas vidas. E. que em si mesma não é um terreno especificado em itens.um fato que. A escrita torna possível tais aparatos. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos. 31-34). jovem . e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados. salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. isto é. "A verdade lembrada era . A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). como em um alinhamento militar. de fato. dos quais o calendário é um dos exemplos. pp. como facas ou espadas. em uma economia de pensamento oral. qual a utilidade. Em vez de uma recitação de nomes. A lei consuetudinária. p. No texto da Torá. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência. faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. p. são registros de cálculos. as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas. era automaticamente sempre atualizada e. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. desbastada de material não mais em uso. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra.H. A oralidade não conhece listas. 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros. como gerador e como gerado). 233).): "Partindo do deserto do Sinai. Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. em certo sentido. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael. pp." e assim por muitos versos mais. sublinha Clanchy. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. para a maioria das pessoas. Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . o Confessor. Além disso. portanto. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. nas culturas funcionalmente orais. Partindo de Quibrote-Ataavá.. a escrita foi. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968. os de escrita cuneiforme dos sumérios. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas.. as pessoas não se sentiam situadas. muito velha (cf. eles acamparam em Quibrote-Ataavá. em sua maior parte. portanto. acamparam em Hazerote. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. . acamparam em Ritmá .contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. p. flexível e recente" (Clanchy 1979. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. Clanchy 1979. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal".461-879) .. encontramos uma seqüência de "gerou". Goody (1977..

ou indivíduos reais. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. Tudo isso constitui um mundo de ordem. suas próprias leis de movimento e de estrutura. são antes enunciados que são ouvidos. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. Kerckhove 0981. pp. nem mesmo as genealogias são "registros" de dados. impossíveis de "examinar". tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. como em uma escrita bustrofédon. representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. como nos índices. 307-318 e passim). A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. em uma linha horizontal.Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. a outro indivíduo real. são parte de um presente real. aos fonemas que codificam. As tabelas. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. Goody mostra em detalhes como. pp. c e assim por diante. vivo. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. Em qualquer lugar do mundo. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. As páginas não possuem apenas "cabeças". em seu hábitat natural.. vivo. que significa "cabeça" (como a do corpo humano). de baixo para cima . Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. para notas de roda pé. uma linha indo para a direita. na escrita grega antiga. que vai da direita para a esquerda.externamente ou na imaginação . depois uma volta na ponta para a outra linha. mais precisamente. são antes "memória de canções cantadas". mas como reconstituições de eventos no tempo. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo. para indicar a seqüência. em vários registros em todo o mundo. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". ou de cima para baixo. oral. imobilizados no espaço visual. Os textos são coisas. Os textos. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. b. As palavras faladas constituem sempre modificações . regiões do planeta. nos primeiros tempos da cultura escrita. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. pp. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. mas também "pés". porque não são apresentadas visualmente. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço.Não são percebidas como uma coisa. quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real. A palavras. para o estilo stoichedon (linhas verticais) e. o alfabeto. eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. ou da direita para a esquerda. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. existencial. mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. tipos de ventos e assim por diante). ou todos esses modos ao mesmo tempo. eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. 4950). e depois usada para a recuperação visual do material. é resultado não apenas da escrita. mas nunca em lugar algum. para o movimento da direita para a esquerda. finalmente.aos sons ou. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). vivos. pelo que se sabe. e até mesmo os poemas.

Nem poderia. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. Na linguagem falada. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. finjo estar falando comigo mesmo. o diário requer. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. Além disso. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. No entanto. Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. espero. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz . pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. ao compor um texto. Mais tarde. pp. portanto.escritores de diários de angústias. adotada e adaptada por críticos habilidosos. irado. A enunciação falada vem apenas dos vivos. Quando meu amigo ler minha carta. posso muito bem estar morto. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém.de uma situação que é mais do que verbal. Em um texto.e realmente enchem . o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. na Idade Média. possa interromper minha solidão. Estou escrevendo um livro que. por exemplo. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. . os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. A tradição letrada. "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. sem a impressão. por outro. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. as palavras estão sozinhas em um texto. Elas nunca ocorrem sozinhas. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. para que o leitor possa imaginar um debate oral. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. ao qual ele deve se moldar. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. uma "moldura histórica". em um contexto simplesmente de palavras. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. devo estar isolado de todos. ao "escrever" algo. mas escrevendo-a. De fato. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. isto é. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. Escrever é uma operação solipsística. será lido por centenas de milhares de pessoas. de certo modo. Eles apresentam um material filosófico em diálogos. calmo. De fato. Enquanto escrevo o presente livro. sem a escrita e. como os do Sócrates de Platão. Para que um texto comunique sua mensagem. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher .animado. em um sussurro. O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. mas elas não serão completas. e em um diário. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. mas também para o escritor. excitado. Em um texto. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. portanto. resignado ou qualquer que seja. não importa que o autor esteja vivo ou morto. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. 53-81). na verdade.

que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. como na narrativa formal. o fluxo de palavras. quer sejam longas. Todavia. a tornar o falante muito pouco convincente. _ como nos provérbios. sem um ouvinte real. as correções podem ser tremendamente produtivas. murmurante confusão" de William ]ames. sem entoação. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. pp. ou então as evitamos totalmente. em qualquer situação possível. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. segmentos significativos. quer sejam breves e apotegmática~. as palavras escritas refinam a análise. sem expressão facial. não-analítica. e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. p. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos. Não há mimese. oral. exteriorizadas. Com a escrita. mudadas. existencial. na verdade. Evidentemente. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. eliminar incoerências (Goody 1977. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. Portanto. A escrita é de fato a sementeira da ironia. expresso na forma de diálogo. pois os diálogos são. tirando-a do contexto existencialmente rico. Apenas um leitor. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. ela pode retroagir na fala. e o faz. Finnegan 's Wake foi composto em escrita. pois se exige mais das palavras individualmente. a "grande. As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. nós as reduzimos a um mínimo. uma vez "proferidas". o correspondente fluxo de pensamento. narrativa. no sentido aristotélico. O que Goody 0977. de um tipo ficcional. salvo ironicamente. Para nos fazermos entender sem gestos. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . Na escrita. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". no sentido de que se lê bem em voz alta.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. de muitas das enunciações orais. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. as palavras. maldita. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. Em uma cultura oral. 49-50). postas na superfície. Por meio de um texto tratado quirograficamente.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. pp. apagadas. sem nenhum contexto . Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. na escrita. podem ser eliminadas. textos escritos. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica. 272-302). os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. aqui. Porém. em partes mais ou menos separadas. "linguandoas" de ponta a ponta. Porém. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. mas caótico. língua. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a).

Muitas vezes. à Bíblia ou ao Corão. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. como na Inglaterra. descartou certas formas dialetais. 181. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. Porém certas línguas. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. 134) . "grafoleto". p.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. pp. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. Como ressaltou Guxman 0970. Na Inglaterra. investiram enormemente na escrita. Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. operam funcionalmente. além de certas peculiaridades sintáticas. o cristianismo e o islamismo. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". 176. respectivamente. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. na Alemanha. 56-57). p. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. para uma elaboração plena. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. escreVeU-OSposteriormente. o judaísmo. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. com o toscano. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. pp. 134-135. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. 15).. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. pp. Porém. 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. tais como os conhecemos (Ong 1967b. 83). em sua essência. na Alemanha ou na Itália. . políticos. na Itália. com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). 773-776). como se viu (p.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. presente nas orações de Cícero. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. no entanto. muito diferente dela própria. religiosos ou outros. Todas elas possuem textos sagrados. Basil Bernstein 0974. onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. Conquanto seja verdade que eles eram todos. 50-71) chamou. ou mais propriamente dialetos. o código lingüístico restrito não funcionará. particularmente os gregos. e finalmente se tornou uma língua nacional. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. mas "como contas em uma caixa" (1974. da impressão. como o pensamento e a expressão orais em geral. pp. pp. para construir o conhecimento filosófico e científico. oralmente e por escrito. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. carentes de significado pessoal premente. é obra de uma mente letrada. com propriedade. Analogamente. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. dialetos regionais e/ou de classe. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. por motivos econômicos.

pois os outros dialetos do inglês. O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. alemão ou italiano. Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua. 60). C. que é muito menor. É má pedagogia insistir nisso. porque não há nada "errado" com os outros dialetos. p. depois pelos teóricos normativistas. os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. Nesse sentido. 136-137). As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. São a retórica acadêmica e o latim culto. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. a despeito de toda a fecundidade subseqüente. em um sentido profundo. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. 1-22. Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. e arrendondando os números. o estudo da "filosofia". Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. assim como milhares de línguas estrangeiras. nenhum outro dialeto.e a afetam.além do grafoleto . O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência.diferem da gramática do grafoleto. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem. quando outros dialetos de uma dada língua . O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. Onde existem grafoletos. foi trabalhado durante séculos. 108. ao que parece. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. constituía um elemento menor na cultura . para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. À luz desse fato. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. 255-283). pp. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas.S. pp.Um grafoleto moderno como o "inglês". Mas Hirsch 0977. Platão e Aristóteles. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. por exemplo em inglês. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. impresso. 74-111). lexicógrafos e outros. A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. pp. primeiro e mais intensamente. possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. gramáticos. são interpretados no grafoleto. mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. a fortíorí. porém sua plenitude se deve à impressão. Porém. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. pp. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. 43-50) vai mais além e diz que. Na Grécia Antiga. pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. representada por Sócrates. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais.

até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. 23-103). 1971. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro). Durante séculos. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. 147-187. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963). anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . Sonnino 1968) . e a tradição filosófica. 1971) -. antes da escrita. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles. decadência. tal como a lealdade. causa. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. da apresentação oral para a escrita). a retórica era algo maravilhoso. como as outras "artes". Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro.grega. A "arte" da retórica. voltando as costas ao mundo oral. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa. quer no número de seus praticantes. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. o mal. -. as novas estruturas quirográficas de pensamento. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. produto da escrita. Murphy 1974. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado. do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io.da Antiguidade Clássica. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. Os gregos homéricos e pré-homéricos. em um sentido muito profundo. Com sua herança agonística. Mas.S. . Desde pelo menos a época de Quintiliano.sobre qualquer assunto. foi. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . nunca competindo com a retórica. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito.tais como lealdade. Lewis estava. inconscientemente na verdade. o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição. C. A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. Howell1956. não comportam "artes" dessa espécie organizada.. a amizade. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . referiam-se aos "assentos" de argumentos. amizade etc. como sugere o infeliz destino de Sócrates. passando pela Idade Média e pela Renascença. etc. que explicava e sustentava a persuasão verbal. efeitos. As culturas orais. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. a culpa de um acusado de crime. pp. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. científico. fórmulas) sobre vários tópicos . (Lanham 1968. mas que. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. contrastes e tudo o mais. No segundo sentido. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. à Era das Luzes (por exemplo. No primeiro.antinomasia ou pronominatio. embora dissesse respeito à linguagem falada. efeito. Como Platão. pareceria óbvio que. isto é.. pp. Nesse sentido. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido. como vimos. pp. paradiastote ou distinetio. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. procurando causas. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". Howell1956. quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. para seus primeiros descobridores ou inventores. 194-205). Índice). considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. pp. menos analíticos. tais como definição. contrastes. Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. como em geral os povos orais. 56-87. isto é.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!". Kennedy 1980. a guerra etc. definitiva senão totalmente. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. os sofistas da Grécia do século V.

Oliver 1971). é essencialmente antitética (Durand 1960. francês e outras línguas românicas. como efeito ou ambos. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. médicos. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. 1981. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. ou o hochdeutseh. com instrução baseada no latim. 119-148). por motivos econômicos ou outros. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. Entre cerca de 550 e 700 d.. com ela. herdados do passado. ao passo que as escolas mais antigas. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. outrora uma . 453-459). os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. 192-222. acadêmica. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. está claro. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano. Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino. retórica. Não havia realmente outra alternativa.C. que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. mutuamente ininteligíveis. filosóficas. No século XIX. vernaculares. como tantas desde 1600. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. pp. Porém. advogados. tanto no mundo mental quanto no extramental.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. A retórica. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675.. pp. Da Antiguidade grega em diante. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. pp. muito menos oratório. praticamente nenhuma teve tal treinamento. a maioria deles nunca escrita até hoje. catalão. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. mas nas mais novas. médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. é claro. Da época medieval em diante. continuou em latim. científicas. Não havia como traduzir as obras literárias. espanhol. o finlandês e o turco. 451. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. como causa.C. real embora muitas vezes vaga. que muitas vezes possuíam formas diferentes. ao contrário dos indianos e dos chineses. Até que um ou outro dialeto. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. a escolaridade e. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. título). Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. Por volta de 700 d. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. O latim culto foi um resultado direto da escrita. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). diplomatas e outros servidores públicos. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. O latim. na Inglaterra. na Alemanha). de um modo ou de outro. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos.

Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. A ciência moderna nasceu do solo latino. pp. 264) chamou a atenção. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. sempre têm. como vimos anteriormente. Por ordem dos estatutos escolares. Por um lado. o orador público. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. juntamente com o grego bizantino. não usado pelas mães ao criar os filhos). ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. isolado da mais tenra infância. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. o latim tornou-se o latim culto. estava vinculado ao sexo. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. de modo paradoxal. como todas as línguas realmente em uso. se é que o teria feito. era uma língua quirograficamente controlada. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. oralmente. A escrita. A interação criou todos os tipos de resultados.embora. pp. todos sabiam também escrevêIa. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. estabelecer a objetividade. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. Durante esse período. como acabamos de observar. na verdade. um cenário de rito de puberdade masculino. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. aprendida fora do lar. mas sempre escrito da mesma maneira. Em virtude de sua base na academia. de fato. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. o árabe clássico. p. como o latim culto. pp. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna.ainda que nem sempre de fato -. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. em todas as demais dependências escolares. além de sua proveniência clássica. Durante mil anos. Todas as línguas usadas para o discurso culto . serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. pp. 1981. vinculada ao sexo. mas o rhetor. Despido de balbucios. por exemplo. Não obstante. tornou-se assim uma língua escolar apenas. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. Paradoxalmente. em um cenário tribal que era. o sânscrito e o chinês clássicos. o orator. assim. eram controladas exclusivamente pela escrita. aprendidas na infância. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. O latim havia sofrido um corte som-visão. Sem o latim culto. em princípio . Não havia usuários puramente orais. que era totalmente masculina . outras línguas controladas quirograficamente. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. 28-34). Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. 119-48). A tradução era transformação. falado não somente nas salas de aula. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. no sentido restrito. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. 113-141. mas também. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. Sugeriu-se (Ong 1977. Assim também seu vocabulário básico . Baurnl 0980. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral.língua materna. uma língua inteiramente controlada pela escrita.

no caso do árabe. gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. memória e elocução). Porém. eclesiástico ou político. Os três Rs . ele também retornou à Antiguidade e. numa forma popular. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. pp. as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. mas sempre pelo debate oral . estudantil. livresca. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. O célebre McGuJfey's readers. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. comercial e doméstica.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. agonística. Desde a Antiguidade Clássica. Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. "escrita" e "aritmética". jocosa. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. Uma vez concluída. Ainda aspirando à velha oralidade. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. que não era aplicável à escrita. pp. Durante o processo. mas a leitura oral. Atualmente.).reading. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". e mesmo muito depois. mas também na escrita. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual.atualmente são também línguas maternas (ou. estruturas formulares e lugares-comuns. Por volta do século XVI. 144-256). que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. Ahern 1982). 146-172. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. ritmo. durante o século XIX (Balogh 1926). deu nova vida à oralidade. elocução (Howell 1956. declamatória. os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. 1971. relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). disposição. Crosby 1936. estilo. nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. heróica. 23-47). no entanto. por esse motivo. a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. comumente com muitas variações. pp. pp. Nelson 1976-1977. à medida que o latim foi expulso. 16.T. 270 etc. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. pp. O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. 23-48). da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. 241-255). ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional. os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. pp. Elas estavam também reduzindo a última. . Em larga medida. antíteses. do mundo oral para o quirográfico. A própria retórica emigrou. 20). Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. 53-87.) "leitura". Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso. gradativa mas inevitavelmente. 'riting e 'rithmetics· -. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. pp. Na Antiguidade Clássica ocidental. quando os currículos registram a retórica como uma matéria.

não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. Além disso. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. Em um trabalho deste alcance. embora não o único. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão.Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. Ibe printing press as an agent of change .

produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. durante a Renascença. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. Em fins de 1700. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. que realmente reificou a palavra e. chineses. A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. Com o caractere tipográfico não é assim. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. sim. assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. pp. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. e não olhando. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. A primeira linha de montagem. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. sapatos ou armas. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). Durante milhares de anos. 5). porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. às palavras que irão constituir. . Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. apenas caracteres basicamente pictográficos. e desde o século VII ou VIII. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. permitiu a ascensão das ciências modernas e. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. 215. e referências lá citadas). a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. Porém. mudou a vida em fanúlia e a política. Ahern 1981. uma técnica de manufatura que. Anteriormente. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. 1971. 1977). pp. e. como unidades. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. difundiu o conhecimento como nunca antes. mais do que a visão. embebendo-o novamente no mundo oral. palavras inteiras. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. A audição. A impressão sugere que as palavras são coisas. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal." No Ocidente. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. em uma série de etapas fixas. "A visão é muitas vezes enganadora. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. isto é. não era do tipo que produz fogões. por outro lado. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. 1967b. 306-318). de "ouvir" livros de contabilidade. a atividade noética (Ong 1958b. Pelo menos até o século XII na Inglaterra. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. Os chineses tinham tipos móveis. Clanchy 0979. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". como nos debates universitários medievais. implementou a exploração européia do planeta. muito mais do que a escrita jamais fizera. Como o alfabeto. tanto escrito quanto oral. mas de um tipo que produzia o livro impresso. foi a impressão. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. são nossa preocupação aqui. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. Antes de meados de 1400. a audição serve como garantia.[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. com ela. e não a escrita. alterou a vida social e intelectual. mas não o alfabeto. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV.

o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. em sua grande maioria. meramente posto em movimento pela visão. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. impresso. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. o "the" inicial é. de sir Thomas Elyot. Muito depois do desenvolvimento da impressão. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. ver Steinberg 1974. da qual a presente se desviou. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. a palavra mais proeminente. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. Finalmente. As páginas de rosto do século XVI. Por que o procedimento original.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. incluindo o nome do autor. e não a nossa. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. ao processar o texto em busca de sentido. com hífens. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. Além disso. presumivelmente mais "natural". contudo. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. O controle da posição é tudo na impressão. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. Nossas atitudes é que mudaram. de longe. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. No entanto. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. p. essa prática. diferentemente do que fazemos. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . constitui a original. Evidentemente. 154). mas destrói nosso sentido atual de textualidade. parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). que se iniciara com a escrita. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. os leitores comumente vocalizavam. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. em culturas manuscritas altamente orais. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. comumente dividem até mesmo palavras capitais. Todo texto envolve a visão e o som. e de uma forma que deve ser explicada.

O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. As listas começam com a escrita. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). A cultura manuscrita é orientada para o produtor. que beneficiam o copista. são cuidadosamente reposicionados.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. depois de usados. "É assim que as coisas são" . no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. pp. favorece a leitura rápida. como muitas vezes ocorre em manuscritos. e não simplesmente escrito) de Derrida. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. Goody 0977. em última análise. pp. Ele observa 0977. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor.editores. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. caracteristicamente. falada. encerrando a caixa firmemente em uma prensa.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. Essa leitura. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame. embora sejam incômodas para o leitor. A maior legibilidade. Não obstante. A impressão com caractere "a quente" (isto é. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. leitores de editoras. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas.o mais antigo dos processos.c. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. com caractere gravado . Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. Os textos impressos parecem feitos à máquina. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. da aparência do texto impresso. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. enfeitado. 284-303). A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . como na caligrafia. silenciosa. revisores e outros. pp. De um modo geral. especialmente os índices alfabéticos. por sua vez. A impressão é orientada para o consumidor. não humanos. como de fato são. agentes literários. que. O controle tipográfico. no espaço visual. todas alinhadas à direita. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. e em outros registros antigos.

como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas. pp. a recuperação visual não foi prioritária. 28-29. com divisores· de palavras para separar itens de números.. Raramente o são (Daly 1967. que originalmente significava a marca 9[. o intelecto. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. 86-87). um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. Acompanhando esse equipamento textual formular. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. visual. listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado. Clanchy 1979. Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. na verdade. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. Um signo favorito era o "parágrafo". p. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. Um novo mundo noético estava se moldando. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. 169-172). 73). assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. ainda que copiados do mesmo ditado. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas.) A escrita está aqui. sem nenhuma mudança de página. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas. porque Textor considera apropriado que. A indexação não valia o esforço. depois famílias de deuses. efeito. Para a localização visual do material em um texto manuscrito. As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. Obviamente. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. Aqui. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. e não uma unidade do discurso. em uma obra ligada à poesia. tinham a mesma sensação.ou. pp. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. baseado na oralidade. pp. novamente. (Os educadores no Ocidente. O índice alfabético é. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. mas eram raros. até muito recentemente. No livro impresso. Nesse sentido. quase nunca correspondem página por página. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum. pautas. na enunciação oral. mesmo na Europa do século XIII. a serviço da oralidade. em virtude não de sua própria façanha.deuses. "ovelhas apascentadas" etc. na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. uma vez que em italiano e em latim. pelo primeiro som: por exemplo. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. Os índices alfabéticos ocorriam.a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa).gordos". sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. coisas relacionadas. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas. até mesmo em um índice alfabético impresso. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes . Em 1286. de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. pp. 144). espacialmente organizado. embora não fosse perfeita. coisas dessemelhantes e assim por diante. por si mesmo. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . tais como causa. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. p. linhas cuneiformes e linhas alongadas. como os intitularíamos . muitas vezes toscos e comumente não entendidos. 85). antes. A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava. 81-90. . os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos.

a página de rosto (nova com a impressão . O mundo noético hipervisualizado resultan- . a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. a tendência iconográfica ainda era forte. 40-45). p. As páginas de rosto são rótulos. xilogravuras e. chegam as páginas de rosto. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. 145-148). pp. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. um livro que fulano escreveu sobre . manuscrita. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário.Nesse novo mundo. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia. librum quem scripset quidam de . sendo um objeto marcado com letras. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica.). ela foi fundamental para a sobrevivência entre. anteriormente. uma elocução registrada (Ong 1958b. pp. p. títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. Durante séculos. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. um objeto idêntico. Uma vez bem interiorizada a impressão. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. uma ocorrência no curso da conversação. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. 14-16. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. caçadores e artesãos de muitos tipos. eram duplicatas umas das outras. O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. Porém. caríssimo leitor. carissime lector. depois.. As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. ficcional ou outra do que como. implementou essas descrições expressas com precisão. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma.Steinberg 1974. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. uma "afirmação visual reproduzível com precisão". com a impressão. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. como objetos. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. um livro de uma cultura pré-impressão." (Aqui está. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes. do que como um objeto.. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual). um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. Muitas vezes. em vez de uma página de rosto. 313). nos manuscritos medievais ocidentais. como se vê nas Ivins 0953. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas.. assim como a impressão. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. diferentemente dos livros manuscritos. Ao mesmo tempo. logo degeneraram em manuscritos. como vimos. Desenhos técnicos feitos à mão. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. 31) chamou a atenção para o fato de que. A observação exata não começa com a ciência moderna. A herança oral está operando aqui. e o livro impresso. páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). pois. as histórias de Mwindo e assim por diante). duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. Com a impressão. como mostrou Ivins 0953.. Agora. por exemplo. e não com partes preexistentes. técnicas (inicialmente. Do contrário. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo.

202 etc. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável. e não o verso. pp. d. pp.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. p. A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas.. com seus espaços tipográficos. alcançam a maturidade principalmente na era romântica. O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. ela ainda não consiste em mera imagem. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. Já no início da era da impressão. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . Eisenstein 0979. dão aos poemas uma forma visualizada. o próprio espaço em uma folha impressa . clínica. a era da Revolução Industrial. mas. por exemplo. Em Tristam Shandy 0760-1767). desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página.E."espaço em branco". as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. na verdade. p. 65-66. não para o aspecto visual de objetos. pp. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. de vários comprimentos. Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. meticulosa. Havelock 1963. 81. discutidas por Goody 0977. 115-138). e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. respectivamente. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. seja a unidade do poema. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. e com maior sofisticação. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. pp. Cummings. como é chamadoadquiriu um significado importante. O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. Nº 276 0%8). Muito mais tarde. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. nos quais os versos. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. 74-111). isto é. sugerindo asas e um altar. A poesia concreta é um gênero menor. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. 61-96). As listas e as tabelas manuscritas. tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. 80. . mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. O poema sem título de E. Em manuscritos.te era absolutamente novo. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. mas também a literatura. próximas às descrições que surgem após a impressão e. De certo modo. mas não lidas em voz alta. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. sobre o gafanhoto. incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão.). mas também sobre a imaginação literária. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa.

revelam as limitações construídas da palavra falada também. "saqueador". como ela muitas vezes parece afirmar. hoje. fórmulas e temas dos quais todos se servem. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. na cultura inicial da impressão. não o escrito. a leitura tendera a ser uma atividade social. É esse o território de Derrida. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. meramente à escrita. por fim. Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. (Os professores de crianças de áreas pobres. Como sugeriu Steiner 0967. que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto). A impressão diminuiu. por isso mesmo. O texto impresso.53. possuem uma consciência aguda de que. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. Hartman (1981. Porém. p. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. A poesia concreta não é produto da escrita. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. muitas vezes. "opressor". oral. mais ou menos diretos.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras.í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. 383). os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". obviamente. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. formadas na velha ideologia. como se viu. uma pessoa lendo para outras em um grupo. a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. ~ uso de todos os outros.e. O Webster's 1bird New International n. se ele se desvia desse uso tipográfico. .um fato que. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. "torturador".curiosidade . mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. paradoxalmente. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. isto é. de Jacques Derrida. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. portanto. Exatamente na época inicial da impressão. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. contudo. embora ele se mova nele a sua própria maneira. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. paradigmática. para alguém que se apropria do escrito de um outro. Na cultura manuscrita e. p.9) usa a palavra plagíarius. A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. é o texto em sua forma mais plena. muitas pessoas. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966). mas da impressão. fOI consIderado "corrompido". O antigo poet~ latino Marcial (i. A desconstrução está antes atada à tipografia do que.

com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. todas exatamente da mesma largura). encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. Ao contrário. separada de qualquer interlocutor. os manuscritos. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. fora controlado pela escrita. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. nesse sentido. no romance a partir da época de Jane Austen. uma forma de caracteres tipográficos. Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. Significativamente. As páginas de um jornal são normalmente cheias . Ela pode dar a impressão. mas de um modo muito real. e. completos. que. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. do mesmo modo. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". A impressão. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. obtido de Henrique VIII. e alcança seu auge nas histórias de detetive. por outro lado. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. por volta do século XVIII. finalmente. sem que o queira e sutilmente. e. do que os leitores dos escritos destinados à impressão. especialmente na narrativa. foi formada em Londres a Stationer's Company. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. Até a impressão. Na teoria literária. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. autônomo e indiferente a ataques.um tal privilegium em 1518. de algum modo auto-encerrados. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. um "ícone verbal". desde a Antiguidade. de bom ou mau grado. aspecto visual e a mesma consistência física. como cada vez mais semelhantes a coisas.não ouvido. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. Esse sentimento afeta as criações literárias. de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. atingiu um estado de completude. ao Formalismo e à Nova Crítica. Uma vez fechada. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. A tipografia tornou a palavra um bem material. a impressão dá origem. Com a impressão. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento. A impressão. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. o texto não comporta mudanças (rasuras. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. No começo da era eletrônica. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. um ícone é algo visto . assim como a obra analítico-filosófica ou científica. conscientes ou inconscientes. impessoais e religiosamente neutros. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. produzindo uma enunciação. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. Em 1557. As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. lacrada. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. menos ausentes. Os livros impressos repetiram uns os outros. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. Evidentemente. Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. Antes da impressão.

30-31. tomando-os emprestado. pp. Uma matéria curricular ou "arte". e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. retórica. poucas dessas angústias acerca da influência . as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. Cada arte era. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. uma maior distância entre o escritor e o leitor . adaptando-os. trata dessa angústia do escritor moderno. A obra de Harold Bloom. gramatica. ao compor uma determinada passagem do discurso. surgiu com a impressão. originalmente orais. não obstante os elaborasse em formas literárias novas. por sua vez. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. em si mesma. A cultura impressa. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. aritmética e tudo o mais. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. em si mesmo e na mente. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . impossíveis antes da escrita. angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. p. ela deliberadamente criou textos de outros textos. em um aspecto.). segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada. Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. partilhando as fórmulas e os temas comuns. que.ma~érias em um dado campo. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. 225-269. uma unidade em si mesma. A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. 126-127. Nas culturas manuscritas. convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. usava-se simultaneamente lógica. Além disso. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. Com a impressão. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. ~ própria arte estava completa e independente. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. . ao menos de um ponto de vista ideal. gramática. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram. nas últimas décadas. Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". Ao contrário. pp. separada das outras obras. r~tonca. Quando.se é que existiam . 135-136). Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente.isto é. que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras.atormentavam os escritores. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. tudo na arte ficava claro e. 144). Com o ponto de vista fixo. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. possui um arcabouço mental diferente. muitas vezes de um tipo gnômico. inteiramente separada de qualquer outra. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. quando apresentada adequadamente. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade". A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . como apontou Marshall MCLuhan 0962. A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. 280). apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. em cada um dos manuais ramistas. elas se tornaram uma espécie de choque. aritmética etc. mas também nas obras filosóficas e científicas. gramática. surgiram o catecismo e o "manual". preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente. Ainda atada à tradição comum do mundo oral. Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si.

uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. Porém. obtidas e/ou processadas eletronicamente. Finalmente. é claro. seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. ausência de preocupação). nasceu o "público leitor" . O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). com o telefone. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. alguns pontos precisam ser esclarecidos. As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. antes da escrita. abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. pp. Não obstante o que algumas vezes se diz. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". um maior entendimento tácito. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. como indivíduo. como se observou anteriormente. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. os povos orais tinham um espírito de grupo. em seu favorecimento de um sentido comunal. Como a oralidade primária. 305-341). Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. são ainda mais intensificados pelo computador. faz com que eles se voltem para dentro de si. conscientemente informal. 16-49. decidimos que a espontaneidade é benéfica. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. De modo semelhante. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. Além disso. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. o rádio. 284-303. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. O indivíduo sente que ele. o novo meio reforça o velho. a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. produzindo-os cada vez mais. pp. mas evidentemente o transforma. na verdade. Além disso. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. E.Ong 1971. mas. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . Ao mesmo tempo. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. em outro. mediante a reflexão analítica. informações de todo tipo. Em nossa época de oralidade secundária. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela.e. Nesse momento. porque alimenta um estilo novo. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea. 1977. 82-91). Assim. um verdadeiro público. pp. da qual se ocupa este livro.a "aldeia global" de McLuhan. assim como para seu uso. deve ser socialmente perceptivo. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. que aumenta a entrega . À diferença dos membros de uma cultura oral primária.

além da mudança oralidade-cultura escrita. Nos debates LincolnDouglas de 1858.e tudo isso sem equipamento de amplificação. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. para os objetivos presentes. As outras talvez ouçam mais oratória. ou pelo menos mais discursos. historiografia e biografia. intercâmbios culturais e muitos outros. ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . discurso descritivo.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. desapareceu para sempre. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. pp. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. Desses.mudanças na organização política. Porém.Sparks 1908. Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. os guerreiros . Porém. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). oratória (puramente oral. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. Assim. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. cada um deles falando por uma hora e meia. cuidadosamente ritmado. redundante. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. incorporar o teatro. de uma hora e meia. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. A oratória no velho estilo. O público está ausente. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. Ã narrativa podemos. outros acontecimentos na sociedade.lírica. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa. O primeiro orador dispôs de uma hora. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja. teatro. respectivamente . Esse tratamento da narrativa . inaudível. obras filosóficas e científicas. altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. T 6 MEMÓRIA ORAL. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás. que. acontecimentos religiosos. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. o controle rigoroso. narrativa. de certo modo. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. 137-138. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . nascida da oralidade primária. não era essa a antiga oralidade. Illinois. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . 189-190). invisível. mesmo assim possui um enredo. para citar apenas alguns. durante o verão escaldante de Illinois. o segundo. Obviamente.pois isso é o que eles eram. clara e verdadeiramente .

possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas . Em um laboratório científico. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. O mesmo ocorre com as outras formas. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. ou ambas. em uma cultura oral. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. Por trás de provérbios.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. A narrativa. em uma cultura oral primária. são breves. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. As genealogias. psicológicos e estéticos e outros mais. na total ausência da escrita. nas quais não existe texto. enigmas. Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. em certos aspectos. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. com um atenção especial a complexos fatores sociais. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas. as histórias sunjatas do antigo Mali. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. que podem ser extensas. mais ou menos cientificamente abstratas. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. uma ocorrência ad hoc. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. Em uma cultura escrita ou impressa. ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. Ele se aplica a uma situação específica e. A lírica tende a ser breve. Máximas. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. mas. Com base na narração. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram.senão todas . A grande maioria das culturas orais .gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. Em primeiro lugar. especulações filosóficas e rituais religiosos. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. extensas. encaixada no fluxo temporal. Embora seja encontrada em todas as culturas. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. no geral. muitas vezes até as mais abstratas. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. que são razoavelmente duradouras . assim. tópica. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. Em um certo sentido. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante.o que. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. Em segundo lugar. que podem ser relativamente extensas. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. 1963). apresentam apenas informações altamente especializadas. significa formas passíveis de repetição. Nas culturas orais primárias. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. como sublinhou Havelock C1978a. isto é. Assim. cf. As fórmulas rituais. a narrativa é. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. usam histórias da ação humana para armazenar. em toda parte. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. aforismos.

Em sua Arte poética.e. ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado. não foi construído desse modo. "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . em uma cultura oral. o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. no passado. A exegese do poema épico oral por letrados. foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . com começo. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. 1451a e alhures). na verdade. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. uma vez que o teatro grego. que. não estava disponível sem a escrita. por motivos óbvios. especialmente quanto ao funcionamento da memória. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. muitas vezes detalhadamente. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que.e. o que. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971.uma localização significativa para tal enredo.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. eleva-a a um clímax. As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. pp. desde o começo. Poética 1450b). embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. Esse enredo. meio e fim (Aristóteles. descritas no capítulo 3. mostra uma melhor compreensão do teatro. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica. aprenderam cada vez mais a contar . Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal.salvo em trechos curtos . nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. 148-149). uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. ao As palavras de Milton mostram que ele. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. Não obstante possa ser esse o caso. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. do tamanho de um poema épico ou de um romance. Na verdade. após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas.pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. Assim. embora apresentado oralmente. durante séculos. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". dificilmente leva a sua justa avaliação. do que do poema épico. o poema épico. Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. A antiga narrativa grega oral. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa. como ela surgiu. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico. e é seguida por um final ou desenlace .

faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. primeiramente no teatro.salientados. mas sem a escrita. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. era mais ou menos episódica . o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo.pelo que sabemos. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. na ausência da escrita. os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos.o progressivo surge apenas com a escrita.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. é claro. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. Na oportunidade seguinte. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas. Theodor Bergk. O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente. e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. em uma dada circunstância. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo. final perfeitamente esclarecido. sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. no qual não existe narrador. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). 432-433). natural. em primeiro lugar. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. o poema épico não possui enredo. Por que razão esse enredo long. descoberta e reversão requintadamente metódica. pp. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. não todas . na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . Além disso. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. Não tinham nenhuma escolha. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. o todo possui uma progressão. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. entre outras coisas evidentemente. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. em segundo. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas .tensão sempre crescente. antes do início do século XIX. ele poderia estar certo de que.e o mais natural . inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa).embora. Sua excelência estava. O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. Não havia uma lista dos episódios nem. iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada. mas o procedimento original. e não a pirâmide de Freytag. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. O ambiente mais amplo no . Por que toda narrativa longa. na vida manobra conscientemente planejada. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. nenhuma alternativa. e. mas porque eram forçados a isso.

por extensão hipotética. Fundamentalmente. "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975. p. inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. 14): nunca.. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. na medida em que guia o poeta oral. O po. e até mesmo para si próprio" (1975. enquanto três escribas.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. dois niangas e um belga. desejam que ele cante (1975. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. como um artista. p. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. ficamos totalmente encantados com a . O poema épico oral (e. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. em seu conservadorismo. para esse público específico. quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo. por exemplo. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. 176). Já que insistem . provocando assim renovadas solicitações até que. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. Não obstante. O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). Ao trabalhar com essa interação. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. em toda narrativa existe algum tipo de enredo. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. em diferentes aspectos. a memória. nessa ocasião. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos. 216). protestou ele. E de fato. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. ele o processa da maneira tradicional. Como resultado de uma seqüência de eventos. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo). pp. em uma seqüência cronológica perfeita. Candi Rureke. recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. Ele os recorda sempre de um modo diferente. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. p. 216). particularmente em seu caráter aditivo. Quando um bardo acrescenta novo material. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. sua redundância ou copia e sua economia participativa. ora em prosa. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. 172-179).") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor.. finalmente.recordando não um texto memorizado. 174). p. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. (Sabemos. com um ou outro acompanhamento coral. conforme ele é aplicado à composição escrita. muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. agregativo. p. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. registravam suas palavras. ele narrou todas as histórias de Mwindo. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . ora em verso. assim. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. em suas numerosas notas.eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira. Evidentemente. A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. pela experiência atual. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. irá normalmente de início hesitar. pois não existe tal coisa. Muito provavelmente.

revisão e outros tipos de manipulação. Em virtude de um controle consciente crescente. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. Evidentemente. O teatro grego antigo. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. pp. Porém. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. como já se observou. Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. agora propriamente um "autor". Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977. na narrativa como tal. o meio e o fim. Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes.c. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. o texto exibe o início.e durante séculos o único . como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. A impressão. pode trabalhar com base em notas. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. embora o teatro fosse apresentado oralmente. como vimos. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. em uma cultura oral. em vez do velho enredo episódico oral. a escrita já estava estruturando a psique grega. Porém. de início. mais tarde. definida pelo fechamento.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial.). É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. Fora do teatro. O mundo da impressão gerou o romance. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. desapareceu sob as vozes de seus personagens. à época de Safo (c. Hoje. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. 221). Paradoxalmente. e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. para livrar o enredo desse molde. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão.a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag. p. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. de modo que o . aquele que faz o texto. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. 53-81). Sob o olhar do autor. a subordinação da voz ao episódio continuou forte. Como vimos. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. 600 a. Foi o primeiro gênero .

e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. têm algo em comum com a narrativa de Poe. mas também de sinais de pontuação. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. As "histórias de detetive" chinesas. A própria reflexividade da escrita . Posteriormente. composto não somente de letras do alfabeto. embora o texto seja manuscrito. no fim da história. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. A "inflexão interior da narrativa". Não raro. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. depois. e o final desfaz totalmente o emaranhado . até o clímax e o final. que não possui uma organização fechada tão meticulosa. alcança seu auge na história de detetive. as quais. como Thomas J. são impronunciáveis. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. mas nunca atingiram sua concisão progressiva. na mente de um dos personagens e. seria inacreditavelmente precoce -. não-fonológicas. p. ouvintes. "A letra mata. o código é em boa parte tipográfico. na expressão de Kahler (1973). E. como as Aventuras de Pickwick. Farrell ressaltou uma vez para mim. o Tom fones de Fielding. Uma vez solucionado o problema textual. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). cada um isolado em seu próprio mundo.cada detalhe da história revela-se crucial e. O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. Com os documentos. publicado em 1841. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. Um escritor de história de detetive é. caracterizado por suas explorações exteriores. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva. Na história de detetive ideal. passando por Dom Quixote de Cervantes que. quando comparada com a velha narrativa oral. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. realmente enganador. O protagonista do narrador oral. Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. o mistério da pessoa de Aspern. misturando seus textos com "poemas longos. de um modo requintado. se esfuma. A narrativa estruturada piramidalmente. na mente de seu seguidor. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. em algum lugar. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. Sherlock Holmes já imaginara tudo. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. porém abundantes em material impresso. O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". . são incineradas. antes de qualquer outro. integralmente. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade.reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. é exemplificada aqui com notável clareza. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. iii).narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). como se viu. de outro modo. tudo o mais se ajusta. especialmente o leitor. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. mas para leitores. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. em primeiro lugar. Em O escaravelho de ouro (1843).

46-54) _. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). a impressão fizeram com a velha economia noética. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. que agem de modos à primeira vista inesperados. como vimos. Nas últimas décadas. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. em torno de Nestor. Brer Rabbit ou a aranha anansi). com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas.para empregar o termo de E. p. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. Scholes e Kellogg 0966. O surgimento do personagem redondo. originário do romance. São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. ao contrário. resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. o personagem plano. Forster 0974. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. A história compactamente organizada. com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. a tradição teatral grega. Quando se estrutura em memórias e ecos. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. 165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica. Oposto ao "redondo" é o "plano".o detetive. pp. caracteristicamente letrada . Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. em outras culturas. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. na verdade. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . isto é. com a passagem do tempo.M. pp. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . no fim. mas como um constituinte da ação humana.A escrita. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. domésticos. Agave. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e. dependeu de um grande número de evoluções. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. Watt 0967. o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. Em torno de Ulisses (ou. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce. surgem em um mundo dominado pela escrita. posteriormente. mas. que podem desabrochar no romance. classicamente urdida. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". . e esse fato é expresso simbolicamente quando. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero.

Miller e Johnson 0938. isto é. que. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson. quando. Richardson. Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967. (N. como em Kafka. como vimos. "nobre". concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. e os atribui à formação calvinista de Defoe. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos. após o advento da era romântica. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. "livre de ligações amorosas". De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga. Dos mundos privados por elas gerados. interiorizado.assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano.) . É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. após a chegada da impressão. e principalmente o psicanalítico. p. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. De fato. assim também. as culturas escritas podem na verdade gerar. A escrita e a impressão. pp. o entendimento psicológico. Desde Freud. O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado.TJ •• "Pândega". Heartfree. como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. "antiquado". observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. citados por Watt. Defoe. em certos aspectos. de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. Allworthy ou Square. Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. na mesma época. Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média.T. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. que se servem de virtudes e vícios abstratos . O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. na verdade. de alta tecnologia. não como Aquiles. a síntese de personagens-tipos. nos católicos. (N. Porém. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. de um tipo inacessível ao povos orais. e.· As culturas posteriores.já encontrado em Defoe. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente. e até mesmo por vezes Jane Austen. e atinge seu auge no romance.ainda não foi contada. obscuro. A história dos personagens-tipos .de motivação profundamente interiorizada. personagens abstratos. enquanto simultaneamente a transforma. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. e nas peças cômicas do século XVII. na maioria das vezes. provocada pela escrita e intensificada pela impressão.personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. 461). A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. eletrônicas. os personagens "redondos" do romance clássico. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino".19-2l). ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897). O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. fosse uma atividade partilhada). Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. em que sua intensificação está claramente ligada à escrita.

A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. A enorme quantidade de conhecimentos históricos. de afirmações mais ou menos hipotéticas. organizada para preservar a "linha" de descendência. na verdade . impensável em uma cultura oral. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica. posteriormente. incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. da impressão). Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. pois é impossível abrangê-Ios integralmente.significativo. Mas. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. Porém. Apresentarei a questão na forma de teoremas. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. mesmo razoavelmente. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente. a tecnologia avançada. também romancistas. embora evidentemente outras forças estivessem em ação .mas somente alguns. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. e assim por diante. Em ambos os casos. mas também do presente. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. Muito pelo contrário. Hawkes . Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. Porém. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica). exigia-se a organização textual da consciência. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita. psicológicos e outros mais.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. pp. Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. que aspiram a esse meio aristocrático. dessa perspectiva.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. desenvolvido na era romântica. como vimos. em parte porque. 177-205). Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. p. 22-34). tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. Roland Barthes (Hawkes 1977. que eu saiba. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. O latim. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. As implicações são enormes. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). . A crítica anterior de obras vernáculas. o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. sua psicologia. pp. Nos anos 30. Nunca. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . e fundado no estudo da retórica. desde o início. isto é. A própria Nova Crítica.Hawkes 1977. ainda que complexo e eruditamente compreendido. está ipso facto relacionado a todos os tempos. mais livremente oral. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. A Nova Crítica. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. vernacular. um texto literário em latim. durante mais de um milênio. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. pp. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna. para ter sentido deve ser interpretado. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. embora perspicaz. até então. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. a saber. pp. pela engenhosidade. um texto. ocasional e muitas vezes amadorística. 155).embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. Os estudos de textos. reportado ao mundo do leitor . Nas universidades de Oxford e Cambridge. as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. Tillyard 1958). era extra-acadêmica. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse).para o autor. a Nova Crítica estava em gestação . colocado por seu autor em um determinado tempo. de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. e não mais uma língua materna. Nessas condições. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. nos anos 30 e 40.

179). 457-464. particularmente . Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. como esses. tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. pp. assim. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . na antiga narrativa grega de proveniência oral. são perseguidos por distrações. Além disso. a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo. Lord e particularmente Havelock e Peabody. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. morfema etc. Os declamadores. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. as estruturas binárias. principalmente AJ. que derivam em grande parte da tradição husserliana. não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". 235. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada. p. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. 109).todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador). que não se adaptam ao padrão binário. pp. embora os temas o façam. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). A composição oral trabalha com "núcleos informativos". De modo análogo.porém não exclusivamente os declamadores de poesia. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. em Pierre Macherey (978). especializam-se em textos e. p. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas).não conseguem. Cohen 0977. Pode haver conexões sutis. Roland Barthes. ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). por exemplo. O "fio" narrativo direto. pp. como. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . Tzvetan Todorov. treinado em técnicas de digressão e de flashback. 235 e passim)."Homero se distrai". Porém. por exemplo.uma especialização significativa. p. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. apóiam-se . Lord 1960. Greimas. de certo modo (Peabody 1975. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. de Lévi-Strauss. improvisação ad hoc). como evidenciou Peabody 0975. embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. muitas vezes cruciais. explicar por que uma história é uma história. 179.T A análise estruturalista. Estudos sobre a oralidade. O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". Hawkes 1977. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si. um termo muito apreciado na semiótica estruturalista. xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. e não em explicar o passado em seus próprios termos. na verdade. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. Esses críticos-filósofos. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo.

Todorov. Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral. tal como as colocam os textualistas. 252). da imitação. p. A linguagem é uma estrutura. especialmente no caso de PIarão. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". exato.ou não significa nada. Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. como observa o tradutor de Macherey (1978. 241-254) discute a obra de muitos textualistas. para Derrida. Paradoxalmente. pp. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. Julia Kristeva e outros). pp. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. redundante. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . como mostra Havelock. expulsa oS poetas. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. Em sua forma mais extrema. os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . incluindo o seu próprio . ou estruturalistas. Jacques Derrida (1976. é fonocêntrico. verboso. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". ela não se refere a nada . o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. Além disso. na verdade.ousam mencionar a comunicação eletrônica).e inevitavelmente -. A não seja nada. mas uma realização totalmente diferente. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego.quando muito . o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental. Culler 0975. Por outro.Ong 1967b. Platão podia formular seu fonocentrismo. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. pacientemente analíticos.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. usam a linguagem de forma representacional. que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. abstrato. pela primeira vez. isto é. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. assim. porque representam o antigo mundo oral. Poucos duvidarão. a própria linguagem . Contudo. segundo os textualistas. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. calorosamente humano. Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão.e. tradicionalista. visualista. Uma vez que não se refere a algo. como os denominei aqui. quando. Por um lado. isso não quer dizer que. disperso. Em virtude dessa insistência. como ele os chama. portanto. também objetos deste livro. prolongadamente seqüenciais. p. que. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. no Pedra e na Sétima Cana. mnemônico.Si' em exemplos específicos. O resultado final. ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. agregativo. todos provenientes do romance do século XIX. por outro lado. Sollers. e mostra que. porque A não é B. participativo . é que a literatura . Derrida denuncia essa metafísica da presença. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados. de modo claro e . imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. ele o faz. 74). na República. T No entanto. à maneira de um tubo condutor. p. Ix). e sua estrutura não é a do mundo extramental. portanto. elas próprias. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita. como agora podemos perceber.um mundo antipático ao mundo analítico. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente.momento em que os processos mentais. na verdade . mas era isso que ocorria.

cada um à sua própria maneira. 35). Os textos são um fundo falso. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. por brilhante e de certo modo útil que seja. Essa tese reside em mostrar que. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados.. e não com as presenças de "idéias" reais. mas de "epistemologia corpuscular". sem a oralidade. método e o declínio do diálogo) (1958b. como ponto de partida e modelo para o pensamento. de todas as ideologias. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. textual. L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. Na verdade.embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. chamei sua atitude não de logocentrismo. filósofo e reformador do ensino francês." Ou. Geoffrey H. A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. Mnemosine. o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo. Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável. ainda está estranhamente limitada ao texto.. uma correspondência literal grosseira entre conceito. como se o texto fosse um sistema fechado. and the decay o/ dialogue [Ramus.não podemos descartar os textos. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. nasciam da memória. historicamente isolada. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). então deveríamos T compreender o fundamento . 66). atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. 203-204). no rIÚnimo. discutível. o texto é fundamentalmente pretexto . pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. esta é a mais limitada ao texto. p. diria (escreveria) eu. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. p.. que moldam nossos processos mentais. de ofuscação refinada . mediante uma implicação inevitável. hoje. no século XVI (Ong 1958b). e não o enunciado oral. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. mas tomava o texto impresso. para os antigos gregos. method. 32). uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. Porém. e não Hefaístos. Sem o textualismo. Em Ramus. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. a oralidade não pode sequer ser identificada. Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. em qualquer das exposições de Derrida. palavra e referente. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. Na sua dialética ou lógica. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". pelo menos as nossas línguas ocidentais. Linguagem e pensamento. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . Como propõe Hartman (1981. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. acrítica. Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. se todas as implicações num poema forem examinadas. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. que eu saiba. .#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia".que pode ser extremamente excitante. "Se o pensamento é para nós. que nunca chegava realmente à palavra falada. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. Hartman chamou a atenção para a ausência. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. mas podemos compreender suas deficiências. p. pp. A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui. As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão. Os textualistas. uma espécie de realismo grosseiro. é a mãe das Musas. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão.

passando pela oralidade residual. um diante do outro. particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. Grice. essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. de produzir uma estrutura de palavras). Michel Riffaterre e outros. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. além de incluir seu conceito de "implicatura". afirmação. assim como importantes implicações teóricas. Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. John R. ao passo que. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. ameaçar. p. Até onde sei. no entanto. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. asseverar. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. como já se observou. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. Austin. convencimento ou encorajamento). protestar. 400). até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos. ordenar. Stanley Fish. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. até a cultura escrita de alto grau. poderiam revelar que prometer. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. Para se adaptarem a elas. David Bleich. Uma outra abordagem da literatura. como a oralidade primária. da oralidade primária.por exemplo. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. por exemplo. a mesma coisa que numa cultura escrita. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte.P. dentro de certas subculturas. Contudo. Winifred B. Norman Holland. promessa. que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. cumprimentar. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . Searle e H. numa cultura oral. É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser. falante e ouvinte estão presentes. tais como medo. assim como outros atos ilocutórios não significam. cumprimento. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). Se fossem. utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. . Até mesmo atualmente.L. na comunicação oral. responder.

Atualmente.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. nuançada de forma mais complexa. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. É muito provável que um estudo. em termos de fatos "aumentados". à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos. criticamente. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. sentiu esses efeitos de forma menos forte. passamos para a história da consciência. mas também da impressão: sem essas tecnologias. como a Arte retórica de Aristóteles). assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. Em suma. incorporada aos próprios processos mentais. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. A descoberta crítica do eu. A filosofia. como Lívio. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. A sociologia. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. embora escrita. até o momento. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. destituídas do conceito de "justiça" como tal. desassistida. como vimos. assim como a de outros. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. a filosofia . O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral. no sentido de que a mente as produz por si mesma. em seu início. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. é resultado não apenas da escrita. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. pois. os estudos bíblicos tornaram- . Por que meios? Tanto quanto sei. através dos séculos. A antropologia e a lingüística. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. a história. ao que parece. deveria dar-se conta. um tipo especial de produto essencialmente humano. na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. aguda e duplamente crítica. de sua condição de produto tecnológico . seriam impossíveis. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito.isto é. A existência da filosofia. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. depende da escrita.

Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens".primeira edição francesa. Mas. os estudos bíblicos. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. a Odisséia. é claro. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita.se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). 15-16). na organização familiar. pp.muito citada . A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. mas são em número cada vez menor. Os termos "primitivo" e "selvagem". no comércio. Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. nas práticas educativas.) No entanto. por exemplo. (Alguns indivíduos. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. 1983). Tbe mind ofprimitive man (922). sugerindo um viés quirográfico. como outros estudos textuais. "Sem escrita". O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral. mas de correlação. apontando uma ausência ou uma deficiência. dessas abordagens bem-intencionadas. nas instituições sociais. Evoluções na produção de alimentos. menos ofensivo e mais positivo. resistem à cultura escrita. pela primeira vez. não apenas em conversas informais ou de salão.de Lévi-Strauss (1966. como notou Werner Kelber 0980. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. A principal obra de Kelber. p. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. na organização política. Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. . citada repetidas vezes neste livro. Ia pensée sauvage. mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". 1962). nos meios de transporte. e nunca foi. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. a oralidade não deve ser menosprezada. Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. constitui ainda um atributo negativo. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa. A oralidade não é um ideal. ou está tomando. aborda de forma direta e de frente. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. A ligação não é uma questão de reducionismo. para não falar de "inferior". 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". Numa série de conferências feitas no rádio. Tbe oral and the written gospel. porém essencialmente limitadoras. para mostrar que não o somos. A afirmação . a impressão) a causa única de todas as mudanças. são pesados. publicadas posteriormente. contudo. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 . nas habilidades tecnológicas.

muito provavelmente todas . devo ter outra pessoa .já "em mente". evitou-se o termo "mídia". Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. Para falar. muitas vezes de forma muito profunda.ou várias. um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação.ou outras pessoas . Minha mente é uma caixa. do contrário não se produzirá um texto: portanto. chamado "mente". A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. ser uma rua de informação de mão única.e. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. pois nenhum receptor (leitor. com o que meu discurso possa se relacionar. para uma maneira de fazer algo para alguém. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. íntimo. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. o título desvirtuado do livro de McLuhan. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. nas quais a fala está mais orientada para a atuação. das possíveis respostas que eu poderia prever. Em segundo lugar. ela não apenas exige uma resposta. essas evoluções. por uma troca de olhares. assim como das outras formas de comunicação humana. O modelo "mídia" não é. porém. na verdade. Para formular o que quer que seja. Retiro dela uma unidade de "informação". difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. É esse o paradoxo da comunicação humana. em sua grande maioria .vida humana. Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. a fim de que possa ocorrer. No modelo do meio. ouvinte) está presente quando os textos nascem. a "informação" passa para a outra. assim como muitas delas. ou de outras inúmeras formas. Porém. o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. A comunicação humana nunca possui mão única. verbal ou não. preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. o escritor invoca uma pessoa fictícia . por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. De uma ponta do tubo. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. A comunicação humana. à primeira vista. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais. de um lugar para outro. Para falar. Na comunicação humana real. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. isolado de pessoas reais.) Tenho de perceber algo na mente do outro. codifico a unidade (isto é. Durante todo o tempo. nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. Por isso. devemos nos dirigir a uma outra pessoa . Mas quando se fala. a fim de iniciar minha mensagem. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. afetaram essa mudança. algo entre duas outras coisas). e ele precisa estar dentro de minha mente. assim como quando se escreve. Por isso. intersubjetivo. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. tornando-o irreconhecível. "O . isto é. na maior parte deste livro. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. algum receptor deve estar presente. Porém. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. Em primeiro lugar. o texto escrito parece. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). por seu turno. A comunicação é intersubjetiva. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando. pelo menos de maneira vaga. para ninguém.foram elas próprias afetadas.ou a outras pessoas.

Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. a maioria das quais jamais se conhecerá. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. No entanto. e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. Contudo. elaboradamente expressa. pessoais. Onto e filogeneticamente. O processo é complexo e repleto de incertezas. A escrita introduz divisão e alienação.a intertextualidade. que se torna visível em Kant. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. Devo conhecer a tradição . o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. ser único e não duplicável. a consciência nunca alcançaria sem a escrita. profundamente pessoal. mas também uma unidade maior. na qual. segundo parece. pp. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io. pois. a Bíblia. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. mas também como a Palavra de Deus. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. o Corão. Para um escritor. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. na qual ninguém nasce. a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. Ele não o escreve.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. por conseguinte.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. que redimiu do pecado a humanidade. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. A escrita eleva a consciência. central em Fichte. 54-81). exprimindo-as de forma elaborada. atinge as profundezas da psique. Desenvolvimentos mais longos . qualquer receptor real está normalmente ausente . Ésquilo. No ensinamento cristão. no ensinamento cristão. até mesmo a hebraica. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada. Porém. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). Nesse ensinamento.do contrário . se assim quiserem . é conhecida não somente como o Filho. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano.embora não necessariamente de sua separação . a Bíblia. seu Filho.

não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. acrescentamos comentários. como enciclopédias. as culturas africanas). Além das obras citadas no texto. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. muitas obras pioneiras. Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa.humanos. . mas inclui algumas em outras línguas. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. Nos casos em que. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá. julgou-se necessário. por algum motivo. Deus é um autor. A fim de evitar um número excessivo de indicações. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. mais do que em qualquer outro escrito.

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Berkley 72. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. Tobias George 168 Sócrates 94-95. William C. Geoffrey 14. David R. 15 Smollett. Edwin Erle 156 Spenser. Platão. 100. Peter 59 Opland. 37. 136-137. 185-186. 147. S. 177. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers. 51. 190 Sejong. 46. 49. Edgar AlIan 163. 109 153. 182 Todorov. 187 Toelken. 27-30. A. 153-155. William 172 Shannon. Lev 61 Watt.188. 187-188 Poe.198 Opie. sir Philip 177 Siertsema. 87. lvor 110 Wilson. Alain 166. Ferdinand de 13 Sawyer. Samue1 172 Ricoeur.]. 188 Tannen. Candi 57. 170 Rosenberg.80.W. 29-30. Henry 14 Vachek. 75 Oppenheim. 186 Rureke. Mary Ellen 147 Soooino. Denise 101 Scholes. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard.182-183. lan 54.Olson. 15 Stoltz. 104 Searle. Godfrey 59 Wilson. 20. ]ohn R.H. S. 184 Parry. Adam 15. 32-33. Thomas 173 Pyson. 168-169 Potter. 36. 169-170. Rei 108 Shakespeare. 172. Robert 159. Phillippe 185. Emst 26 Pynchon.M. 179 Steme. 180-181 Rudedge. 120. 123 Ong. Benjamim A. 117-118. ]oel 75-78 Shikibu. 162 Wilamowitz-Moellendorff. 126-128. Harold 81 Schmandt-Besserat.109. 184-185 Percy. 68-69. 163 Parry.100 Wilson. Hermann 163 . 26 Vaughan. 18. 171-172 Whitman. 59. Cedric M. 110. 121. Andrew H ~Sl 162-166. 38. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. Morton 98 Sweet. Richard S. 121. 37 Subotnik. Thomas 26 Peters. 122. 140. E. 165. Sylvia 65. 34-35. 36. B. Michaell91 Robbe-Grillet.71 Peabody. 27. Waiter J. ]effrey 56. Edmund 178 Squarciafico. J. 187 Solt. 149. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker. 42-43. ]000 84 Usener. 106. Henry 96 Vico.191. 54. Laurence 147 Stokoe ]r. 119. 96. 171 Scribner.H. loannes Revisius 143 Thackeray..58-59. Milman 14. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. Monica 59 Wolf.114. Hieronimo 95 Steinberg. Robert 28 127 Tambiah. lady 163 Sidney. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. 93-94. 125-126. Paul 191 Riffaterre. Friedrich August 28 Wood. Tzvetan 185. Ulrich von 163 Wilks. ]ean-]acques 91. Malcolm 124 Richardson. Stephen 182 Pratt. Louis 79 Richardson. Lee Ann 127 Sparks. lona Archibald 59 Opie. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. 163. 37 Sherzer. Bruce 38 Rousseau. 112. 94-97. 144 Steiner. 167. Murasaki. 119. 36. William Riley 182 Parry. 143. 138. Edward 26 Saussure. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. 114 Scheub. Mary Louise 190 Propp. George 136. P. 130-133. Anne Amory 61. 33-34. Edward 0. 30-31. 14-15. Deborah 36 Textor. 179. 42 Sapir.