tradução

Enid Abreu Dobránszky

ORALIDADE

E CULTURA ESCRITA DA PALAVRA

A TECNOLOGlZAÇÃO

Título original em inglês: Orali/y & literacy:
The technologizing
o(

the word

© Methuen & Co. Ltd, 1982 reeditado pela Routledge, 1988
Tradução: Enid Abreu Dobránszky Capa: Femando Comacchia Copidesque: Mônica Saddy Marlins Revisão: Liliane Moreira Santos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Cimara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Ong, Walter J. Oralidade e cultura escrita: A tecnologização da palavra I Walter Ong ; tradução Enid Abreu Dobránszky. - Campinas, SP : Papirus, 1998.

CDD-302.224 Indices para catálogo sistemático:

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DIREITOS RESERVADOS PARA A LíNGUA PORTUGUESA: © M.R. Comacchia Livraria e Editora LIda. - Papirus Editora Matriz - Fones: (019) 272-4500 e 272-4534 - Fax: (019) 272-7578 E·mail: papirus@lexxa.com.br - C.P. 736 - CEP 13001-970 Campinas - Filial- Fone: (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil.

AGRADECIMENTOS Anthony C. Da/y e Claude Pavur foram amáveis o bastante para ler e comentar os rascunhos deste livro e por esse trabalho o autor lhes agradece.

INTRODUÇÃO 1. A ORALIDADE DA LINGUAGEM 2. A DESCOBERTA MODERNA DAS CULTURAS ORAIS PRIMÁRIAs

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25 41

3. SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE
4. A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA 5. IMPRESSÃO, ESPAÇO E FECHAMENTO

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6. MEMÓRIA ORAL, ENREDO E CARACTERIZAÇÃO
7. ALGUNS TEOREMAS BIBLIOGRAFIA ÍNDICE ONOMÁSTICO

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175 201 219

As implicações das novas descobertas têm sido surpreendentes.e.Nos últimos anos. o pensamento e a expressão na cultura escrita no que diz respeito a seu nascimento na oralidade e a sua relação com ela. na ftlosofia e na ciência . estão intimamente familiarizados com a cultura escrita. o pensamento e sua expressão verbal na cultura oral . têm-se descoberto certas diferenças básicas entre as maneiras de lidar com o conhecimento e a verbalização em culturas orais primárias (culturas que ignoram completamente a escrita) e em culturas profundamente afetadas pelo uso da escrita. Tivemos de proceder a uma revisão do nosso entendimento da identidade humana. não são inteiramente inerentes à existência humana como tal. por definição. . antes.e até mesmo do discurso oral entre pessoas pertencentes à cultura escrita -. que eram dados como certos. Ou. o tema é. em primeiro lugar.estranha e por vezes extravagante para nós . em segundo. O tema deste livro são as diferenças entre oralidade e cultura escrita. eles surgiram em virtude dos recursos que a tecnologia da escrita proporciona à consciência humana. Muitos dos aspectos do pensamento e da expressão na literatura. uma vez que os leitores deste ou de qualquer livro.

o. pela comparação entre períodos sucessivos. Foi com esta última que se iniciou a cultura escrita. salvo como uma variante de um universo letrado. registro maia e assim por diante) e ocupou-se do alfabeto tal como é usado no Ocidente (o alfabeto é também conhecido no Oriente. Estas. A mudança da oralidade para a cultura escrita e. Portanto. escritas) que coexistem num dado período. depois. que se apóia tanto na escrita como na impressão. O Roma sapiens existe há cerca de 30. para o processamento eletrônico envolve estruturas sociais. O conhecimento dos contrastes e das relações entre oralidade e cultura escrita normalmente não gera lealdades fervorosas a teorias. Universidade de Saint Louis . Wj.estamos tão imersos na cultura escrita que encontramos muita dificuldade em conceber um universo oral de comunicação ou de pensamento. É útil abordar a oralidade e a cultura escrita de modo sincrônico. O estudo dia crônico da oralidade e da cultura escrita e dos vários estágios na evolução de uma para outra estabelece um quadro de referência no qual é possível entender melhor não apenas a primitiva cultura oral e a subseqüente cultura escrita.leitores de livros como este . cuja existência depende da escrita e da impressão. no Sudeste Asiático ou na Coréia). religiosas entre outras. Quase todo o trabalho de comparação entre culturas orais e culturas quirográficas realizado até agora concentrou-se mais nas diferenças entre oralidade e escrita alfabética do que entre oralidade e outros sistemas de escrita (cuneiforme. Não há "escola" de oralidade e cultura escrita. e a cultura eletrônica. silabário japonês. é claro. tornando-se letrada muito mais tarde em sua história.000 anos atrás.000 anos. Nesse quadro diacrônico. Mas é absolutamente essencial abordá-Ias também diacrônica ou historicamente. apenas indiretamente dizem respeito a este livro. e abrir novos caminhos Ele se concentra nas relações entre oralidade e escrita. A sociedade humana primeiramente se formou com a ajuda do discurso oral. O mais antigo registro escrito data de apenas 6. que leva a escrita a um novo patamar. políticas. contudo. Um tratamento exaustivo demandaria muitos volumes. em questões relevantes. a oralidade dos telefones. embora também seja dada alguma atenção. As questões não são apenas profundas e complexas. o esclarecimento não ocorre facilmente. ao estruturalismo ou ao desconstrucionismo.vasto mesmo -. econômicas. do rádio e da televisão. passado e presente. Compreender as relações entre oralidade e cultura escrita e as implicações dessas relações não é uma questão de psico-história ou de fenomenologia presentes. A era eletrônica é também uma era de "oralidade secundária". mas também a cultura impressa. embora a consciência da relação entre oralidade e cultura escrita possa afetar o que é feito tanto nestas quanto em muitas outras "escolas" ou "movimentos". como na Índia. Nós . a outros registros além do alfabeto e a outras culturas além da ocidental. em vez disso. este livro cobre tanto a impressão quanto a escrita e contém igualmente algumas men?õ~s ao processamento eletrônico da palavra e do pensamento.o tema deste livro não é nenhuma "escola" de interpretação. em um estágio posterior.000-50. Este livro tentará superar um pouco nossos preconceitos para a compreensão. elas também envolvem nossos próprios preconceitos. ela também envolve a impressão. ou algo equivalente ao formalismo. caracteres chineses. Nossa compreensão das diferenças entre orahdade e cultura escrita não pôde se desenvolver antes da era eletrônica. em todas as ciências humanas e sociais. como o rad~o e a televisão via satélite. Homero e televisão podem se esclarecer mutuamente. Aqui a discussão seguirá as principais linhas do conhecimento acadêmico existente. Os contrastes entre a mídia eletrônica e a impressão aguçaram nossa percepção do contraste anterior entre escrita e oralidade. que trata preferencialmente das diferenças de "mentalidade" entre culturas orais e escritas. Este livro se ocupará de um número razoável desses aspectos. reflexão árdua e afirmações cautelosas. Isso requer conhecimento amplo . estimula a reflexão sobre aspectos da condição humana que são numerosos demais para permitir algum dia um arrolamento completo. à nova crítica. e inicialmente apenas em certos grupos. Porém. pela comparação entre culturas orais e culturas quirográficas (ou seja. mas.

a lingüística desenvolveu estudos extremamente complexos sobre fonêmica. até mesmo entre estudiosos. Antropólogos.1 A ORALIDADE DA LINGUAGEM Há algumas décadas. na existência humana antes que a escrita permitisse registros verbais.) utilidade. Ferdinand de Saussure 0857-1913). Ele ainda a considerava como uma espécie de complemento do discurso oral. surgiu entre os estudiosos uma nova perspectiva acerca do caráter 2@1 da linguagem e de algumas implicações mais profundas dos contrastes entre oralidade e escrita. observou.) defeitos e perigos" 0975. o pai da lingüística moderna. possui ao mesmo tempo "C . 33). sociólogos e psicólogos relataram trabalhos de campo em sociedades orais. chamara a atenção para a primazia do discurso oral. C. Desde Saussure. e não como transformadora da verbalização (ibidem). assim como para a tendência predominante.. A escrita. Historiadores culturais mergulharam cada vez mais na pré-história. o modo como a linguagem está enraizada no . a pensar na escrita como a forma básica da linguagem. que sustenta toda comunicação verbal. isto é. p..

talvez dezenas de milhares . Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras. até mesmo quando usadas por surdos de nascença (Kroeber 1972. 323. 7be domestication qf the savage mind [A domesticação da mente selvagem] (977) . Ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. a das pessoas que desconhecem inteiramente a escrita. por exemplo). tem importância capital. Antes de abordar pormenorizadamente as descobertas de Parry.1-9). Os estruturalistas analisaram detalhadamente a tradição oral. recentemente.que comumente incluem um contexto de palavras em que está situada a imagem. em seus aspectos teóricos ou em estudos de campo. assim como audição (Ong 1967b. Stokoe 1972). pp. Okpewho 1979 etc. o inglês Hemy Sweet 0845-1912). Onde quer que existam seres humanos. Lord 1960. Algumas comunicações não-orais são extremamente ricas . centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-Ias.a gestual. paladar. Chafe (982). em certos aspectos. iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milman Parry 0902-1935) sobre o texto da llíada e da Odisséia . Porém. Por mais rica que seja a linguagem gestual. McLuhan (962). Não existem. Publicações em lingüística aplicada e sociolingüística que tratam dos contrastes entre oralidade e cultura escrita.assim como a coletânea organizada anteriormente por ele de estudos seus e de outros autores. apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson 1971. Não nos ocupamos aqui das chamadas "linguagens" de computador. mas. que comparam a linguagem escrita e a linguagem falada de pessoas que sabem ler e escrever (Gumperz. enfatizara anteriormente que as palavras são feitas não de letras. a linguagem é tão esmagadoramente oral que. não obstante toda a atenção dada aos sons da fala. A oralidade abordada prioritariamente aqui é a oralidade primária. o som articulado. Havelock 1963. Não são essas as diferenças de que o presente estudo se ocupa. meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Haugen (966). bibliografia). eles têm uma linguagem. que. Todavia. Todos nós ouvimos dizer que uma imagem vale mil palavras.faladas no curso da história humana. já muito antes (945). Um contemporâneo de Saussure. e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. as escolas de lingüística modernas até muito recentemente apenas de passagem. 332). Literacy in 'fraditional societies [Cultura escrita em sociedades tradicionais] (968) -.concluído por Albert B. mas de unidades sonoras funcionais ou fonemas. pp.). Não apenas a comunicação. fazendo uso de todos os seus sentidos: tato. fornece preciosas descrições e análises de mudanças em estruturas mentais e sociais características do uso da escrita. no mundo sonoro (Siertsema 1955). perguntando por que os c d ' estudiosos adquiriram uma percepção nova acerca do problema o cara ter oral da linguagem. assemelham-se às línguas humanas (inglês. mas o próprio pensamento estão relacionados de forma absolutamente especial ao som. No entanto. olfato e especialmente visão. Ong 0958b. A oralidade básica da linguagem é constante. mas nos estudos literários. somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura . Contudo. diferenciam-se da cultura escrita (Sampson 1980). Tannen 0980a) e outros fornecem ainda outros dados e outras análises lingüísticas e culturais. Havelock e outros. O maior alerta para o contraste entre modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística. Ainda hoje. Lord depois da morte prematura de Parry . a oralidade de culturas não afetadas pela cultura escrita. descritiva ou cultural. se tanto. Existe uma grande quantidade de obras acerca das diferenças entre a linguagem escrita e a falada. as linguagens de sinais sofisticadas constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral. onvém estabelecer aqui o quadro da questão. . na maioria das vezes. 1967b). Na realidade. sem contrastá-Ia explicitamente com textos escritos (Maranda e Maranda 1971). O levantamento altamente especializado de Foley 0980b) inclui uma bibliografia extensa. num sentido profundo. a lingüística aplicada e a sacio lingüística têm se ocupado cada vez mais da comparação entre a dinâmica da verbalização oral primária e a da verbalização escrita. Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes. Mallery 1972.som. Kaltmann e O'Connor 1982 ou 1983. O livro de Jack Goody. por enquanto.e complementados pelo estudo posterior de Eric A. abordaram os modos como a oralidade primária. de todas as milhares de línguas . McLuhan 1962. Chaytor. citam regularmente essas obras e outras relacionadas a elas (Parry 1971. se essa afirmação é verdadeira.e a maioria jamais foi escrita. por que ela é feita com palavras? Porque uma imagem vale mil palavras apenas em certas condições especiais . a linguagem.

a despeito dos mundos maravilhosos que a escrita abre. uma das primeiras coisas que os letrados freqüentemente estudam é a própria linguagem e seus usos. assimilando outros materiais formulares. que constitui um tipo de aprendizado. se torna possível com a interiorização da escrita. o mais abrangente tema de estudos em toda a cultura ocidental por 2 mil anos. reestrutura o pensamento e. O grafoleto conhecido como inglês padrão coloca à disposição do usuário um vocabulário registrado de pelo menos um milhão e meio de pala~''Tas. Mas o exame abstratamente seqüencial. a espacialização da palavra. Porém. inclusive nas culturas orais primárias. As "regras" de gramática nas línguas humanas são usadas antes. A escrita. pp. No Ocidente. entre os antigos gregos. a palavra techne rhetorike. A expressão oral pode existir . pp. e apenas com dificuldade e nunca de modo integral. "arte do discurso" (comumente abreviada como rhetorike) referia-se fundamentalmente ao ato de . os provérbios são ricos de observações acerca desse espantoso fenômeno humano do discurso na sua forma original oral.e na maioria das vezes existiu . seus perigos. mina. possuem e praticam uma grande sabedoria. aprendem ouvindo. durante séculos e até épocas muito recentes. As regras da linguagem de computador ("gramática") são estabelecidas antes e usadas depois. sua beleza. Apenas recentemente fomos tomados de impaciência diante de nossa insensibilidade nessa questão (Finnegan 1977. A escrita nunca pode prescindir da oralidade. converte determinados dialetos em "grafoletos" (Haugen 1966. Um grafoleto é uma língua transdialética formada por uma prática acentuada da escrita. a fascinação apresentou-se na formação da vasta e rigorosamente elaborada arte da retórica. dominando profundamente provérbios e modos de combiná-Ios e recombiná-Ios. aprendem muito. dependente de um sistema primário anterior. concentrou-se mais nos textos escritos do que na oralidade por um motivo facilmente identificável: a relação do próprio estudo com a escrita. No grego original.sânscrito. classificatório e explicativo dos fenômenos ou de verdades estabelecidas é impossível sem a escrita e a leitura. Adaptando um termo usado com finalidades um tanto diferentes por Jurij Lotman (1977. Todo pensamento. Os seres humanos. mas nunca a escrita sem a oralidade. shoshone etc. 1-7). Os textos exigiram atenção de um modo tão ditatorial que as criações orais tenderam a ser consideradas geralmente como variantes de produções escritas ou. Eles aprendem pela prática . malaio. pp. 21. nas culturas orais primárias. nesse processo. Quando o estudo. Todos os textos escritos devem. A mesma fascinação pelo discurso oral continua inalterada séculos depois de a escrita ter sido posta em uso. sílaba por sílaba na leitura lenta ou de modo superficial na leitura rápida. O estudo da linguagem. No entanto.caçando com caçadores experientes.). Hirsh 1977. podemos denominar a escrita um "sistema modelar secundário". 48-61. mas diretamente da consciência. participando de um tipo de retrospecção coletiva não pelo estudo no sentido restrito. A fala é inseparável da nossa consciência e tem fascinado os seres humanos. Esta confere a um grafoleto um poder muito maior do que o possuído por um dialeto puramente oral. "Ler" um texto significa convertê-Io em som. muito tempo antes do surgimento da escrita. podem ser abstraídas do uso e estabelecidas explicitamente em palavras. Um dialeto simplesmente oral terá comumente recursos de apenas alguns milhares de palavras. porém delas diferem total e irrevogavelmente pelo fato de que não se originam do inconsciente. das quais se conhecem não apenas os significados presentes. por exemplo -. estar direta ou indiretamente relacionados ao mundo sonoro. amplia quase ilimitadamente a potencialidade da linguagem. mas também centenas de milhares de significados passados. não afetadas por qualquer tipo de escrita. a linguagem falada. para comunicar seus significados. o estudo científico e literário da linguagem e da literatura. pelo tirocínio. hábitat natural da linguagem. a não ser nas últimas décadas. desde os mais antigos estágios da consciência. sob um rigoroso escrutínio acadêmico. é de certo modo analítico: ele divide seu material em vários componentes. e seus usuários não terão virtualmente nenhum conhecimento da história semântica real de qualquer uma dessas palavras. repetindo o que ouvem. acerca de seus poderes. a palavra falada ainda subsiste e vive. mandarim. comum a culturas de alta tecnologia. porém não "estudam". ver também Champagne 1977-1978). em voz alta ou na imaginação.sem qualquer escrita. além de trazer à tona reflexões importantes sobre si mesma. 43-48). rejeitou a oralidade. Nos quatro cantos do mundo. de algum modo. no sentido estrito de análise seqüencial ampla. quando muito. apesar das raízes orais de toda verbalização.

mas como textos escritos. os estudiosos muitas . sem referência. as expressões formulares (Chadwick 1932-1940. distintas do discurso (governado por regras retóricas escritas). um corpo seqüencialmente ordenado de explicações que mostrava como e por que a oratória produzia seus vários efeitos específicos e poderia tornar-se capaz de fazê-Io. ou outras produções orais. até mesmo os discursos compostos oralmente eram estudados não como discursos. adotaram essas suposições. no sentido restrito. significava basicamente ato de falar em público" ou "oratória".literatura inglesa. Desse modo. pp. • .geralmente depois de proferidos e muitas vezes muito tempo depois (na Antiguidade não era comum. Desde a metade do século XVI. a não ser no caso de oradores excepcionalmente incompetentes. até mesmo num meio de alta tecnologia. vezes passaram a presumir. em diferentes graus. os provérbios. com freqüência irrefletidamente. Proferido o discurso. preservam muito da estrutura mental da oralidade primária. como "arte" ou ciência refletida. permaneceu. desde o início.Ong 1967b.por exemplo. não permanecia nada sobre o que se pudesse trabalhar. Porém. Em virtude de sua atenção dirigida aos textos. Rhetorike~ ou retórica. à escrita. Atualmente. praticamente não existe. pela televisão ou por outros dispositivos eletrônicos. a cultura oral primária. de litera. A concentração do saber em textos teve conseqüênCias ideológicas. Possuímos o termo "literatura". Contudo. destinadas à recepção direta da superfície grafada. até mesmo nas culturas escritas e tipográficas. das histórias de Lívio à Divina comédia de Dante e muito depois disso (Nelson 1976-1977. Ong 1971. a escrita acabava produzindo composições somente escritas. Acresce que. referente a uma herança puramente oral. Desse modo. salvo o fato de não terem sido registradas por escrito. organizada . as formas artísticas orais eram fundamentalmente desajeitadas e indignas de estudo sério. letra do alfabeto). Como observado anteriormente. embora muitas delas fossem mais comumente ouvidas do que lidas silenciosamente. além da transcrição de apresentações orais tais como os discursos. 56-58).para não dizer menos desfavorável . os discursos . Isso não obstante o fato de não terem tido as formas artísticas orais desenvolvidas durante as dezenas de milhares de anos antes da escrita absolutamente nenhuma relação com ela. Criou-se a impressão de que.falar. Ahern 1982). praticamente como o paradigma de todo discurso. e que as formas artísticas orais eram. O que se usava para "estudar" era necessariamente os textos dos discursos que haviam sido escritos . muito embora. que essencialmente significa "escritos" (latim literatura. contudo. mas consagrou-a.ou quaisquer outras apresentações orais que eram estudados como parte da retórica dificilmente poderiam ser idênticos aos que eram apresentados oralmente. É "primária" por oposição à "oralidade secundária" da atual cultura de alta tecnologia.da arte oral como tal. uma vez que todas as culturas C . pois as composições verdadeiramente escritas surgiram como textos apenas. muitas culturas e subculturas. Nem todos. na Arte retórica de Aristóteles -. como as histórias orais tradicionais. para todos os efeitos. Cormier 1974. pp. Porém. o que durante séculos. simplesmente textos. pelo rádio. a retórica fosse e devesse "ser um produto da escrita. possibilitando a organização dos "princípios" ou constituintes da oratória em uma "arte" científica. como por exemplo as dos lakota simlX na América do Norte ou dos mandes na África Ocidental ou as dos gregos homéricos. Goldin 1973. designo como "oralidade primária" a ora lida de de uma cultura totalmente desprovida de qualquer conhecimento da escrita ou da impressão. até mesmo o da escrita (Ong 1967b. a escrita. adensou-se uma percepção das relações complexas entre escrita e fala (Cohen 1977). 27-28). 58-63. discursar seguindo um texto integral preparado antecipadamente . pp. na qual uma nova oralidade é alimentada pelo telefone. que a verbalização oral era essencialmente idêntica à escrita com a qual normalmente lidavam. Essas composições escritas obrigavam a uma atenção ainda maior aos textos. as preces. em conheClmento da escnta e sofreram alguns de seus efeitos. para abranger um -dado corpo de materiais escritos . o domínio inabalável da textualidade sobre o pensamento erudito evidencia-se no fato de que até hoje não se formularam conceitos que permitam uma compreensão satisfatória . consciente ou inconsciente. não levou a oralidade a um encolhimento. literatura infantil -. Bauml1980. no fundo. cuja existência e funcionamento dependem da escrita e da impressão. mas nenhum termo ou conceito comparavelmente satisfatório. passim).

constitui uma atividade particularmente preponderante e imperialista. quando instada a pensar na palavra "contudo". como ocorre na tradição oral. mas tão somente ao som. tudo que dela subsiste é seu potencial de ser narrada por certos seres humanos. Pensar na tradição oral ou numa herança de apresentações. quase todos nós (aqueles que lêem textos como este).pondo o carro na frente dos bois -. tão impregnados da cultura escrita que raramente nos sentimos à vontade numa situação em que a verbalização é tão pouco semelhante a alguma coisa. os cavalos serão apenas o que não são. a começar assim. Quando uma história oral contada e recontada não está sendo narrada. da palavra grafada e dificilmente seria capaz até mesmo de pensar na palavra "contudo" por.como veremos detalhada mente mais adiante .e provavelmente sempre . feno. As palavras escritas são resíduos. quando usado inadvertidamente também causa problemas . Na verdade. normalmente (e tenho uma forte suspeita de que isso sempre ocorre). Não é possível. mas de "automóvel". sem causar uma distorção desastrosa. No fim. Em vez de rodas. Muitos termos originalmente específicos foram generalizados dessa forma. embora destinado originalmente a obras escritas. a erudição produziu no passado conceitos monstruosos como "literatura oral". de trás para diante . Poder-se-ia argumentar (como Finnegan 1977. sem que estas sejam sutil mas irremediavelmente reduzidas a variantes da escrita.subsistem de algum modo nos significados subseqüentes. além disso . Esse termo decididamente absurdo permanece em circulação hoje. Em virtude dessa primazia da cultura escrita. a escrita tiranicamente as encerra para sempre num campo visual. em vez de uma cobertura de tinta. mesmo sem qualquer concurso das etimologias. em vez de faróis ou talvez espelhos retrovisores. tentando eliminar do conceito "automóvel sem rodas" qualquer idéia de "automóvel". de modo a revestir o termo de um significado puramente eqüino. apoiado na experiência direta que os leitores têm de automóveis. Embora o termo "pré-cultura escrita" em si seja útil e por vezes necessário. O título da grande Milman Parry Collection of Oral Literature [Coleção Milman Pany de Literatura Oral] da Universidade de Harvard constitui antes um monumento do tipo de percepção de uma geração anterior de estudiosos do que a visão de seus cura dores atuais. os automóveis sem rodas possuem grandes unhas chamadas cascos. que nunca viram um cavalo. todos os pontos em que diferem. Porém. e assim por diante. os conceitos habitualmente carregam consigo suas etimologias. olhos. digamos. A tradição oral não tem tais resíduos ou depósitos. p. mesmo quando nada têm a ver com ela. gêneros e estilos orais como "literatura oral" é pensar em cavalos como automóveis sem rodas. em vez de gasolina como fonte de energia. "escrita oral". até mesmo entre estudiosos cada vez mais plenamente conscientes de quão constrangedora se mostra nossa inabilidade para imaginar uma herança de materiais verbalmente organizados. exceto como alguma variante da escrita. A escrita. Por mais exata e completa que fosse essa descrição apofátiça. 16) que o termo "literatura". ao menos vaga.embora com uma freqüência menor hoje -. nunca se pode ter uma idéia clara das diferenças reais. algo chamado pêlo. talvez de forma obscura. mas sempre acentuada e até mesmo irrevogável. É claro que se pode tentar fazer isso. parece não haver nenhuma possibilidade de usar o termo "literatura" para abranger a tradição e a apresentação orais. isto é. os leitores motoristas que nunca viram um cavalo e que ouvem falar apenas de "automóveis sem rodas" certamente acabariam com um estranho conceito de cavalo. Estamos. O mesmo vale para aqueles que falam em termos de "literatura oral".Não é fácil imaginar a tradição puramente oral ou a oralidade primária de forma exata e significativa. Isso significa que essa pessoa não é capaz de recuperar inteiramente a percepção do que seja a palavra para os povos exclusivamente orais. Os elementos com os quais um termo é originalmente construído comumente . mas sempre se referindo a eles como "automóveis sem rodas". Imaginemos um tratado escrito sobre cavalos (para pessoas que nunca viram um cavalo) que inicie pelo conceito não de cavalo. foi simplesmente ampliado para abranger fenômenos afins como a narrativa oral tradicional em culturas desprovidas de contato com a escrita. terá alguma imagem. Embora as palavras estejam fundadas na linguagem falada. 60 segundos. sem se reportar a alguma inscrição. explicando a leitores altamente motorizados. Conseqüentemente . que tende a absorver outras. A escrita faz com que as "palavras" pareçam semelhantes às coisas porque pensamos nas palavras como as marcas visíveis que comunicam as palavras aos decodificadores: podemos ver e tocar tais "palavras" inscritas em textos e livros. Uma pessoa pertencente à cultura escrita. descrever um fenômeno primário começando por um fenômeno subseqüente secundário e comparando as diferenças. Ele discorrerá sobre cavalos.

"Vocalizações" parece possuir muitas associações concorrentes. pensar nas palavras como totalmente desvinculadas da escrita é uma tarefa simplesmente árdua demais. que desejam ardentemente a cultura escrita. iria de certa forma interferir num significado genérico atribuído a todas as criações orais. Contudo.como úm desvio anacrônico do "sistema modelar secundário" que o sucedeu. desvincular as palavras da escrita é psicologicamente ameaçador. careceríamos de um termo mais genérico que abrangesse tanto a arte puramente oral quanto a literatura. a consciência humana não pode atingir o ápice de suas potencialidades. que tem a mesma raiz proto-indo-européia. poesia épica (oral) (ver Bynum 1967)."formas artísticas puramente orais". está-se pensando em termos de uma analogia com a escrita. As palavras continuam vindo à mente na sua forma escrita. o que elas efetivamente são. ouvimos também menções ao "texto" de uma enunciação oral. eu certamente me esforçarei por mantê-Io à tona. até mesmo quando estudos lingüísticos ou antropológicos especializados possam exigi-Io. o sentido mais comum do termo epos. como tecer ou alinhavar . o termo "literatura oral" está perdendo terreno. o "texto" de uma narrativa apresentada por quem pertence a uma cultura oral primária representa um suporte anterior: o cavalo como um automóvel sem rodas. cuja raiz significa "tecer". ainda que não tão evidentes. Neste livro. por mais que se tente o contrário. pontuação e todo o aparato restante que transforma as palavras em algo que se pode percorrer com os olhos. na verdade. felizmente. as culturas orais produzem realizações verbais impressionantes e belas. pp. No vocabulário de quem pertence à cultura escrita.rbapsoidein. é. Porém. Nesse sentido. a oralidade precisa e está destinada a produzir a escrita. assim como tudo o que se situa entre ambas) e outras expressões semelhantes. wekw-. quando na cultura escrita se usa hoje o termo "texto" para fazer referência à apresentação oral. em termos absolutos. como se pode viver? Os usuários de um grafoleto como o inglês padrão têm acesso a vocabulários centenas de vezes maiores do que aqueles com que uma língua oral é capaz de lidar. a perífrases explicativas . mas que estão igualmente conscientes de que entrar no mundo . Admitida a enorme diferença entre fala e escrita. poderíamos nos referir a toda arte puramente oral como epos. "formas artísticas verbais" (que incluiriam tanto as formas orais quanto as compostas por escrito. na verdade. manterei um procedimento comum entre pessoas informadas e recorrerei. é imprescindível ao desenvolvimento não apenas da ciência. embora. não é capaz de outras criações belas e impressionantes. que já não são sequer possíveis quando a escrita se apodera da psique. que todas elas possuem gramáticas complexas e as desenvolveram sem nenhuma ajuda da escrita e que. ainda assim. Hoje. no oral. Para a maioria daqueles que pertencem a uma cultura escrita. os dicionários são fundamentais. da filosofia. mais compa. e portanto está firmemente apoiada no vocal. Juntamente com os termos "literatura oral" e "pré-cultura escrita". mas é bastante provável que eliminá-Io por completo seja uma batalha nunca inteiramente vencida. que não esteja ciente da enorme pletora de capacidades absolutamente inacessíveis sem a cultura escrita. A cultura escrita. como veremos.iguais. fora das culturas com tecnologia relativamente sofisticada. Dificilmente haverá uma cultura oral ou uma cultura predominantemente oral no mundo. que o aparato lexicográfico constitui um acréscimo muito tardio às línguas. "fazer rapsódias" significa basicamente em grego "alinhavar canções". mas também da história. sentidas como "vocalizações". "Pré-cultura escrita" apresenta a oralidade . O discurso oral tem sido geralmente considerado. pois a sensação de controle sobre a linguagem que se tem na cultura escrita está estreitamente ligada às transformações visuais da língua: sem dicionários. sem a escrita. Na realidade. caso alguém julgue o termo leve o bastante para ser lançado ao mar. novamente. aos provocados pelo termo "literatura oral". Além disso. que etlmologicamente se refere a letras (literae) do alfabeto. "Texto". regras gramaticais escritas. quando necessário. até mesmo em ambientes orais. de alto valor artístico e humano. Essa consciência é angustiante para pessoas enraizadas na oralidade primária. 248-250. É desconcertante lembrar que não existe dicionário na mente. Em um mundo lingüístico desse tipo. As apresentações orais seriam. assim. a maioria dos usuários das línguas sempre se arranjaram muito bem sem quaisquer transformações visuais do som vocal. hoje. 293-303).tível etimologicamente com a enunciação oral do que "literatura". como a palavra latina vox e seu equivalente em português "voz".o "sistema modelar primário" . à explicação da própria linguagem (incluindo a falada). Porém. o que se pode fazer para construir uma alternativa ao termo anacrônico e contraditório "liter~tura oral"? Adaptando uma proposta feita por Northrop Frye para a poesia épica em Ibe anatomy of criticism [Anatomia da crítica] 0957. Mas. ao entendimento analítico da literatura e de qualquer arte e.

busca. . a menos que seja cuidadosamente monitorada. Qoheleth procurou encontrar ditos agradáveis e registrar por escrito com exatidão os ditos verdadeiros" (Eclesiastes 12:9-10). "Registrar por escrito . da Idade Média e da época de Erasmo em diante. Qoheleth transmitiu conhecimento a seu povo e examinou cuidadosamente. continuaram a registrar por escrito ditos da tradição oral. Podemos usar a cultura escrita para reconstruir a consciência humana primitiva que não possuía nenhuma cultura escrita . até certo ponto.cheio de atrativos da cultura escrita significa deixar atrás de si boa parte do que é fascinante e profundamente amado no mundo oral anterior. e não uma apresentação oral. Essa reconstrução pode gerar uma compreensão melhor do que significou a cultura escrita para a conformação da consciência do homem em direção às culturas de alta tecnologia e no interior delas. mas de outros escritos.. dos compiladores de florilégios medievais a Erasmo 0466-1536) ou Vicesimus Knox (1752-1821) e mesmo depois deles. o autor pseudônimo do livro do Velho Testamento. na cultura oCidental pelo menos." Pessoas de cultura escrita. no mínimo. atingir. até mesmo destrua sua memória ..é também infinitamente adaptável. embora seja significativo que.não obstante devore seus próprios antecedentes orais e. a maioria dos compiladores selecionasse os "ditos" não diretamente de sua enunciação oral.pelo menos reconstruir essa consciência da melhor forma possível.forçosamente um estudo letrado. verificou e combinou muitos provérbios. Ela pode também resgatar sua memória. Muitos séculos antes de Cristo. a cultura escrita . ou seu equivalente grego Eclesiastes. ditos. aponta claramente para a tradição oral da qual provém seu escrito: "Além de ser sábio. 2 A DESCOBERTAMODERNA DAS CULTURASORAIS PRIMÁRIAs A nova perspectiva dos últimos tempos acerca da oralidade da linguagem teve antecedentes. Devemos morrer para continuar a viver. que aparece sob seu nom de plume hebreu Qoheleth ("orador de assembléia"). Felizmente. Essa compreensão tanto da oralidade quanto da cultura escrita é o que este livro . embora imperfeita (nunca podemos esquecer o presente que nos é familiar demais para permitir que nossas mentes reconstituam qualquer passado em sua total integridade).

Vachek e Ernst Pulgram . e Josefo até mesmo insinuou que Homero não sabia escrever. A "questão homérica" como tal surgiu da crítica erudita de Homero no século XIX. Para explicar sua admitida superioridade. No início do nosso século agora já perto do fim. e a demonstração. até mesmo quando eles contrariavam a visão estabelecida do que a poesia ou os poetas deveriam ser. ou Francis James Child 0825-1896) nos Estados Unidos. na Antiguidade Clássica ocidental. A despeito de suas novas concepções sobre a oralidade. mas talvez possamos segui-Io melhor na história da "questão homérica".O movimento romântico foi marcado pela preocupação com o passado distante e com a cultura popular. de forma mais ou menos direta. inibições profundas interferiram no nosso modo de ver os poemas homéricos como aquilo que realmente são. no entanto. estudiosos e leitores geralmente ainda se inclinavam a imputar à poesia primitiva qualidades que sua própria época julgava fundamentalmente apropriadas. porque conhecia a escrita. desinformação e preconceito. ou talvez por causa delas. C. Freqüentemente. da Antiguidade até o presente. (Ver Adam Parry 1971. as mais verdadeiros e os mais inspirados poemas seculares da herança ocidental. Desde o início. o que haveria de novo no nosso entendimento acerca da oralidade? O novo entendimento desenvolveu-se por diferentes caminhos. do qual nos valemos para a maior parte das páginas seguintes. A llíada e a Odisséia têm sido geralmente consideradas. Estudos anteriores haviam esboçado vagamente os de Parry pelo fato de que a adulação geral dos poemas homéricos muitas vezes fora acompanhada de alguma inquietação. e não lastimável. p. ao se concentrar antes nos universais lingüísticas do que nos fatores de desenvolvimento. Até mesmo quando o movimento romântico reinterpretou o "primitivo" como um estágio de cultura satisfatório. mas suas raízes se encontram já na Antiguidade Clássica. fazia-se presente Admitida uma já antiga perspectiva acerca da tradição oral entre pertencentes à cultura escrita. os irmãos Grimm. que alcançara sua maturidade juntamente com a crítica erudita da Bíblia. Mais do que qualquer estudioso anterior. Jacob 0785-1863) e Wilhelm 0786-1859) na Alemanha. ou semelhante à oral. Saussure mantém a opinião de que a escrita simplesmente representa a linguagem falada na forma visível 0975. mas o fez para argumentar que a cultura hebraica era superior à própria cultura grega antiga. como fazem Edward Sapir. tenha feito pouco uso dessa distinção (Goody 1977. Cícero sugeriu que o texto subsistente dos dois poemas homéricos era uma revisão feita por Pisístrato da obra de Homero (a qual.uma visão gerada muito naturalmente pelo viés quirográfico e tipográfico discutido no capítulo anterior. 77). de que culturas puramente orais podiam gerar formas artísticas verbais sofisticadas. Desde então. Lingüistas anteriores haviam resistido à idéia da distinção entre linguagem falada e escrita. com diversas misturas de visões fecundas. indivíduos pertencentes à cultura escrita dedicaram-se ao estudo de Homero. a começar por James Mcpherson (1736-1796) na Escócia.) Os homens de letras. Cícero considerava como sendo ela própria um texto).notou certa diferença entre a linguagem escrita e a falada. p. ou quase oral. centenas de colecionadores. Thomas Percy 0729-1811) na Inglaterra. Durante mais de dois milênios. consciente ou inconsciente. feita por Lang e outros. dando-lhe nova dignidade.especialmente J. Hockett e Leonard Bloornfield. o classicista americano Milman Parry 0902-1935) conseguiu superar esse chauvinismo cultural de modo a penetrar na poesia homérica "primitiva" nos próprios termos dela. 34). cada época tendeu a interpretá-Ias como tendo realizado melhor o que julgava estarem seus poetas fazendo ou aspirando a fazer. nehhuma outra parte. O Círculo Lingüística de Praga . Em . haviam manifestado vez por outra certa percepção de que a llíada e a Odisséia diferiam de outros poemas gregos e de que suas origens eram obscuras. trabalharam com partes da tradição oral. embora. os contrastes entre oralidade e cultura escrita ou os pontos cegos da mente inadvertidamente quirográfica ou tipográfica se mostram em um contexto tão rico. e não para tecer considerações sobre o estilo ou outros aspectos das obras homéricas. o erudito escocês Andrew Lang (1844-1912) e outros já haviam desacreditado consideravelmente a visão de que o folclore oral seria simplesmente escombros remanescentes de uma mitologia literária "mais elevada" . como os mais exemplares.

acreditava ser muito provável que Homero e seus contemporâneos entre os gregos não possuíssem escrita. que cuidadosamente identificou alguns dos sítios mencionados na Ilíada e na Odisséia. Surpreendentemente. iniciadas por Friedrich August Wolf (1759-1824). O axioma fundamental que dirige seu pensamento. No século XVII. Arnold van Gennep chamara a atenção para uma estruturação formular na poesia de culturas orais da época atual. François Hédelin. Essa opinião era mais ou menos predominante quando Parry. pp. o de Milman Parry nasceu de intuições tão profundas e seguras quanto difíceis de ser expressas. Abade de Aubignac e de Meimac (1604-1676). Mas não há provas de que os "sinais" da tábula que ordenavam a execução do próprio Belerofonte fossem realmente um manuscrito (ver adiante. atacou a Ilíada e a Odisséia como deficientes quanto ao enredo. foi aparentemente o primeiro cujas conjecturas mais se aproximaram daquilo que Parry finalmente demonstrou. Wood acreditava que Homero não era letrado e que o que lhe permitiu criar sua poesia foi o poder da memória. de 1795. em um sentido mais de polêmica retórica do que de verdadeiro conhecimento.E. citando o padre Hardouin (Adam Parry não menciona nenhum dos dois). argumentando. xiv-xvii). contudo. O século XIX presenciou o desenvolvimento das teorias homéricas dos chamados analistas. O filho de Parry. sem que nenhuma outra alternativa lhes ocorresse. Robert Wood (c. que sustentavam serem a Ilíada e a Odisséia tão bem estruturadas. Como a maior parte dos trabalhos intelectuais inovadores. pp. ix-lxii) . O erudito clássico Richard Bentley 0662-1742). em leu Prolegomena. criações de todo um povo. no Livro VI da Ilíada. como observa Adam Parry 0971. palavra por palavra. mas que os vários cantos que ele "escrevera" não haviam sido reunidos nos poemas épicos senão cerca de 500 anos depois. famoso por provar que as chamadas Epístolas de Fálaris eram espúrias e por indiretamente ocasionar a sátira antitipográfica de Swift. na narrativa homérica eles mais parecem uma espécie de ideogramas toscos. o falecido Adam Parry 0971. pp. da dissertação de mestrado na Universidade da Califórnia em Berkeley. até sua morte prematura em 1935. esboçou de modo esplêndido o fascinante desenvolvimento do pensamento de seu pai. devotos inseguros que lutavam com dificuldades. Wood sugere que a memória exercia um papel muito diferente na cultura oral daquele que exercia na cultura escrita. 163-164). Embora Wood não pudesse explicar exatamente como a mnemônica de Homero funcionava. Os analistas viam o texto da Ilíada e o da Odisséia como combinações de poemas ou fragmentos mais antigos e puseram-se a determinar mediante análise o que os segmentos eram e como haviam sido reunidos. Düntzer. além disso. Eles foram seguidos. no tempo de Pisístrato. 99-101).uma sensação de que havia algo de estranho nos poemas. ainda estudante. padre jesuíta e erudito. tão coerentes em sua caracterização e em geral tão bem-sucedidas como arte que não poderiam ser a obra de uma sucessão desorganizada de redatores. 1be battle ofthe books [A batalha dos livros). diplomata e arqueólogo inglês. Marcel Jousse. 1717-1771). Rousseau. inevitavelmente. Mais importante. O filósofo da história italiano Giambattista Vico (1668-1744) acreditava que não houvera nenhum Homero. ele efetivamente sugere que o ethos do verso homérico era antes popular do que culto. mas necessariamente a criação de um só homem. Porém. os analistas pressupunham que os segmentos reunidos fossem simplesmente textos. mas que os poemas épicos homéricos constituíam. considera um problema a mensagem numa tábula que. Murko reconhecera a ausência de memória exata. julgava que existira realmente um homem chamado Homero. Jean-Jacques Rousseau (1821. de certa forma. educado num meio camponês de resíduo oral na França e que passara a maior parte de sua vida adulta no Oriente Médio . fora antecipada na obra de ]. começou a formar suas próprias opiniões. Nem todos os elementos da visão total de Parry eram inteiramente novos. xix). Belerofonte leva para o rei da Lícia. pp. no início dos anos 20. muitas vezes literatos bem-intencionados. pelos unitaristas. Com efeito. e M. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro [oralmente composto)" nos poemas homéricos (Adam Parry 1971. na poesia oral de tais culturas. Outros elementos na intuição originária de Parry também haviam tido precursores. dos anos 20 em diante. pobres quanto à caracterização e ética e teologicamente indignas. que nunca houvera um Homero e que os poemas épicos atribuídos a ele nada mais eram do que coleções ou rapsódias escritas por outros. Ellendt e H. p.

diferentemente em cada narração. 1977. O poeta oral possuía um repertório abundante de epítetos diversificados o bastante para fornecer um epíteto para qualquer exigência métrica que pudesse sur# à medida que ele costurava sua história . é óbvio que as necessidades métricas. a obra de Jousse ainda não foi traduzida para o inglês. a fim de estabelecer uma explicação provável do que era a poesia homérica e de como as condições nas quais ela foi produzida a tornaram aquilo que veio a ser. é verdade. Em An essay on criticism [Um ensaio sobre a crítica] (1711). 335-336). determinam a seleção de vocábulos por qualquer poeta que componha segundo a métrica. particularmente o uso de dicionários de expressões que forneciam modos padronizados de dizer coisas para os que escreviam poesia latina pós-clássica. Se um poeta ecoasse fragmentos de poemas anteriores. dos poetas latinos clássicos. Os dicionários de expressões latinas atingiram seu apogeu principalmente depois que a invenção da impressão tornou as compilações facilmente multiplicáveis. Porém. todas convenientemente marcadas para a adequação métrica. pois. 77. os poetas orais não trabalham normalmente com base na memorização palavra por palavra de seu poema. Para o romântico radical. xx). a fim de que o aspirante a poeta pudesse montar um poema com base no Gradus assim como crianças podem montar uma estrutura com blocos. As culturas orais e as estruturas específicas que elas produziam. p. pensava-s~. mas não quanto às expressões. era visto como tolerável apenas em iniciantes. não deveriam usar materiais pré-fabricados. a descoberta de Parry poderia ser resumida da seguinte maneira: virtualmente. no entanto. todavia. pp. juntamente comâs sílabas longas e curtas. Essa descoberta era revolucionária nos círculos literários e teria imensas repercussões em toda parte na história cultura e psíquica. tal como são idealizados pelas culturas quirográficas e mais ainda por culturas tipográficas. 178). o poeta perfeito deveria ser . assim como outras. Em sua forma aperfeiçoada. também o estavam influenciando. todo traço distintivo da poesia homérica deve-se à economia imposta pelos métodos orais de composição. o poeta o fizesse de tal modo que os leitores achassem a idéia "nunca tão bem expressa".absorvendo sua cultura oral. que haviam influenciado estudiosos anteriores. ele aparentemente nem sequer tinha conhecimento da existência de qualquer dos estudiosos mencionados (Adam Parry 1971. Esse tipo de procedimento. a era romântica exigia uma originalidade ainda maior. A visão de Milman Parry incluiu e fundiu todas essas percepções e outras mais. Jousse (1925) intitulara-as verbomotrices ("verbomotoras" . Ora. Lugares-comuns poderiam ser tolerados quanto às idéias. mas as peças já existiam. xxii). apresentada em sua tese de doutorado em Paris (Milman Parry 1928). moldá-Ios a sua própria "natureza". Os poetas. 166. até mesmo no que fora antecipado por esses estudiosos anteriores. relacionado apenas ao "gênio" (isto é.lamentavelmente. A visão de Parry. Indubitavelmente. pp. Alexander Pope exigia que o "engenho" do poeta garantisse que. no começo dos anos 20. A adequação do epíteto homérico havia sido devota e flagrantemente exagerada. o pressuposto geral fora que os termos métricos apropriados de alguma forma apresentavam-se espontaneamente à imaginação poética de modo fluido e grandemente imprevisível. 85-86. quando tratasse do "que foi muitas vezes pensado". deveria. 147-148. a uma habilidade essencialmente inexplicáveD. Estes podem ser reconstruídos por um estudo detalhado do próprio verso quando nos desvencilhamos dos pressupostos sobre os processos de expressão e de pensamento arraigados na psique por gerações de cultura escrita. A estrutura geral poderia ser sua. O poeta competente deveria gerar suas próprias frases metricamente ajustadas. contrariavam esse pressuposto. p. Pouco depois de Pope. O Gradus fornecia frases ~pitéticas. pp. de um modo ou de outro. como veremos. 261-263. sugestões que pairavam no ar nessa época. estabelecera diferenças nítidas entre a composição oral dessas culturas e toda composição escrita. 30. 1971. era toda sua. ver Ong 1967b. pois quando ela inicialmente lhe surgiu. Quais são algumas das implicações mais profundas dessa descoberta e particularmente do uso que faz Parry do axioma anteriormente apontado. e continuaram a prosperar até o século XIX quando o Gradus ad Parnassum era muito utilizado por estudantes (Ong 1967b. O modo de exprimir a verdade aceita devia ser original. Certas práticas. pp. "a subordinação da escolha dos vocábulos e das formas vocabulares à forma do verso hexâmetro"? Düntzer havia observado que os epítetos homéricos usados para "vinho" eram todos metricamente diferentes e que o uso de um dado epíteto era determinado não tanto por seu significado preciso quanto pelas necessidades métricas da passagem na qual ele aparecia (Adam Parry 1971.

c. pareciam ser feitos de clichês. a espoliação dos vencidos. O significado do termo grego "recitar".como o próprio Deus. fundamentalmente (se não de modo totalmente consciente) porque se encontrava num novo mundo noético de feitio quirográfico. mas no texto escrito. mas os temas são infinitamente mais variados e menos impeditivos. necessariamente. . Um estudo detalhado do tipo do que Milman Pany estava fazendo mostrou que ele repetia fórmula após fórmula. o qualificativo previsível . a reunião do exército. menos previsível era tudo o que houvesse no poema.). criando ex nihilo: quanto melhor ele fosse. fórmulas devastadoramente predizíveis. (Traços de uma linguagem especial semelhante são reconhecíveis ainda hoje. de que os poemas homéricos valorizaram e de algum modo tiraram proveito daquilo que os leitores posteriores haviam sido treh-. mais simplesmente. tais como a assembléia. mas como uma linguagem gerada através dos anos por poetas épicos que utilizavam antigas expres- sõesiprontas que preservaram e/ou reelaboraram. pp. o desafio. A nova maneira de estocar conhecimento não estava em fórmulas mnemônicas. poeta épico nyanga. uma mudança se iniciara: os gregos finalmente haviam interiorizado a escrita .) Como poderia qualquer poesia tão imperturbavelmente formular. p. em princípio. que nunca fora inexperiente. por volta de 720-700 a. mas o mundo no ético oral ou o mundo do pensamento apoiava-se na constituição formular do pensamento.. costurar. Homero. mas um grego especialmente construído pela prática. p. até certo ponto. que os . eram essenciais à sabedoria e à administração eficiente.adosteoricamente para desvalorizar. no qual a fórmula ou o clichê. foi mais bem explicada não como uma superposição de vários textos. Um repertório de temas semelhantes é encontrado na narrativa oral e em outros discursos orais em todo o mundo. geração após geração. Em vez de um criador. De qualquer modo.ou. o clichê. por volta de 700-650 a. a frase pronta. os dois poemas épicos foram transpostos para o novo alfabeto grego. Apenas iniciantes ou poetas irremediavelmente medíocres utilizavam material pré-fabricado. Essa idéia era particularmente ameaçadora para letrados convictos.algo que levou muitos séculos após o desenvolvimento do alfabeto grego. "costurar cantos" (rhaptein. o conhecimento. Homero foi normalmente considerado perfeito. Como conviver com o fato de que os poemas homéricos.) A linguagem toda dos poemas homéricos. 115). tornou-se evidente que apenas uma fração mínima das palavras na llíada e na Odisséia não constituía parte de fórmulas e. Após terem sido modelados e remodelados nos séculos anteriores. Havelock mostra que Piatão excluiu os poetas de sua república ideal. uma vez adquirido.c. Além disso. amados por todos os poetas tradicionais. tornou-se ameaçador: Homero costurava partes pré-fabricadas. (Rhys Carpenter. cada vez mais. eram obsoletos e contraproducentes. Algumas dessas implicações mais amplas tiveram de esperar pelo t. segundo o consenso de séculos. Talvez fosse até mesmo um "gênio" nato. tinha-se um operário de linha de montagem.. para nunca utilizar clichês. as fórmulas padronizadas eram agrupadas em torno de temas igualmente padronizados. ou elementos muito semelhantes a eles? Sobretudo quando o trabalho de Parry progrediu e foi continuado por estudiosos posteriores. apud Havelock 1963. canto). 68-98). rhapsoidein. que podia voar apenas saído da casca . o "Pequenino-Recém-NascidoQue-Andava". agora conhecido.c. por exemplo. por volta da época de Platão (427?-347 a. No entanto. em boa medida com finalidades métricas. Mas. oide. a saber. Sua linguagem não era um grego que jamais tivesse sido falado na vida cotidiana. o escudo do herói e assim por diante (Lord 1960. em sua maioria constituída de partes pré-fabricadas. não era um poeta iniciante nem medíocre. Na cultura oral. 49). (A narrativa escrita e outros discursos escritos também utilizam temas. devia ser constantemente repetido ou se perderia: padrões de pensamento fixos. na llíada e na Odisséia.como o precoce Mwindo. formulares. Era inútil negar o faio. ser ainda tão boa? Milman Pany lidou com essa questão de modo direto e aberto.'abalho bastante minucioso feito posteriormente por Eric Havelock (1963). Este libertava a mente para um pensamento mais original. a fórmula. nas fórmulas características encontráveis no inglês usado nos contos de fadas. as primeiras composições longas a serem postas nesse alfabeto (Havelock 1963. rematadamente hábil. mais abstrato. agora começava a se revelar possível que ele tivesse um dicionário de expressões em sua cabeça. Pois os letrados são educados. Os gregos homéricos valorizavam os clichês porque não apenas os poetas.poetas transmitiam de um para outro. com sua curiosa mistura de peculiaridades eólias e jônicas antigas e tardias.

existe um estrato mais profundo de significado não imediatamente visível em sua definição da fórmula "um grupo de palavras que é regularmente empregado sob as mesmas condições métricas para exprimir uma determinada idéia essencial" (Adam Parry 1971. como agora sabemos. A atenção de Bynum para essas e outras "ficções elementares" distintivamente orais ajuda-nos a estabelecer distinções mais claras entre a organização da narrativa oral e a organização da narrativa quirotipográfica do que fora possível anteriormente. Esse estrato foi explorado de forma mais intensa por David E. mas que existe uma ampla base comum em todas as tradições que torna válido o conceito. n. xxxiii. mas. a despeito da inquietação de Platão. Bynum. as quais. na África Central e em outros lugares. tomarei "fórmula" e "formular" aqui como referentes. mumano de processar o conhecimento. p. de modo que a "idéia fundamental" não é passível de uma formulação clara. Bynum observa que "as 'idéias fundamentais' de Parry muito raramente constituem as unidades que a c~ncisão da definição de Parry. Adam Parry 1971. de modo inteiramente genérico. pela primeira se chocava diretamente com a oralidade. p. p. resultou do estudo do verso hexâmetro grego. Por toda parte. ou a banalidade da maioria das referências lexicais das fórmulas podem sugerir" (1978. da Antiguidade mesopotâmica e mediterrânea até a narrativa oral na moderna Iugoslávia. filosofia depois de Platão defendeu era. como veremos. 1. p.hmente formulares (repetidas com exatidão)" (cf. em 1be daemon in the wood [O demônio na florestal (1978. Tais distinções estarão presentes neste livro por motivos diferentes porém não distantes dos de Bynum. no mais das vezes. em que a cultura escrita alfabética. 145). reciprocidade" agrupam-se em torno de outra (a árvore seca. p. inevitavelmente surgiram várias discussões sobre como cercar expandir ou adaptar a definição (ver Adam Parry 1971. Os grupos constituem os princípios organizadores das fórmulas. e como ela funciona depende da tradição na qual ela é usada. U~ dos motivos para isso é que.) n O pensamento e a expressão formular orais percorrem as profundeza~ da consciência e do inconsciente e não desaparecem assim que alguem que a eles se habituou pega em uma caneta. na verdade profundamente antagônico. 1). no nível inconsciente e não no consciente. Elas mostram a Grécia homérica cultivando como virtude poética e noética aquilo que temos considerado um vício l e evidenciam que as relações entre a Grécia homérica e tudo o que . elas aparecem e reaparecem em grupos (em um dos exemplos de Bynum. p. A importância da antiga civilização grega para o mundo todo estava começando a se mostrar sob uma luz inteiramente nova: ela assinalava o ponto. em Parry. pp. a frases ou expressões (tais como provérbios) prontas. altas ároores assistem à comoção de uma aproximação de um guerreiro terrível . e passim). Adam Parry 1971. ainda que. . indiferente a perguntas e destruidor da memória . eletrônica ou de impressão. na época nem ele nem qualquer outra pessoa estava ou poderia estar explicitamente consciente de que era isso que estava ocorrendo. 70) relata. gratuidade e perigo inesperado" agrupam-se em torno de uma árvore (a árvore verdejante) e "as idéias de unificação. aparentemente um tanto surpreso. O livro notável de Bynum concentra-se em grande parte na ficção elementar que ele intitula "padrão duas árvores" e que identifica na narrativa oral e na iconografia a ela associada em todo o mundo. Finnegan (1977. profundamente interiorizada. A menos que indique claramente o contrário. (Cf. p. a convencionalidade do estilo épico. O conflito corroeu o próprio inconsciente de Platão. repetidas de modo mais ou menos exato em verso ou prosa. embora superficialmente amistoso e ininterrupto. 1).1978. ou a brevidade usual das próprias formulas. exatamente.Todas essas conclusões são perturbadoras para uma cultura ocidental que se identificara estreitamente com Homero como parte de uma Antiguidade grega idealizada. a observação de Opland de . n. xxviii. Foley (1980a) demonstrou que aquilo que uma fórmula oral é. 11-18. 272). À medida que outros trataram do conceito e o desenvolveram. realmente possuem uma função na cultura oral mais crucial e difusa do que qualquer outra que ela possa ter em uma cultura escrita. pois ele exprime sérias reservas ~o Pedra e em sua Sétima carta sobre a escrita. O conceito da fórmula. a madeira rachada . 33-65). como um modo mecânico. o pensamento filosófico propugnado por Platão dependesse inteiramente da escrita. XXXiii. recompensa. p. ~ Bynum faz uma distinção entre elementos "formulares" e "expressões esu. pp. Embora estas últimas caracterizem a poesia oral (Lord 1960.1978. E. 18). na história humana. no conceito de Parry. "as noções de separação. Não admira que as implicações neste caso resistissem a vir à tona durante muito tempo. 13). sim. direta. uma espécie de complexo ficcional reunido inteiramente no inconsciente.embora.

Whitman (1~58) logo as complementou quando audaciosamente apresentou . em sua grande maioria. A mente não tem inicialmente recursos propriamente quirográficos. pp. o grego . segundo um de meus amigos libaneses. somente com o movimento romântico. por exemplo.. Os hábitos orais de pensamento e de expressão. em toda parte. tais como a cultura árabe e algumas outras culturas mediterrâneas (por exemplo. estendeu as descobertas de Parry e Lord sobre a oralidade na narrativa épica oral a toda a cultura grega antiga oral e demonstrou de modo convincente. Apenas muito gradativamente a escrita torna-se composição escrita. Eadmer de Canterbury parece pensar em compor por escrito como "ditar a si próprio" (1979.êm sido p~oduZidos por Albert B. p. Anteriormente. porém sua mensagem central sobre a oralidade e suas implicações para as estruturas poéticas e para a estética causaram uma revolução benéfica nos estudos homéricos e também em outros. em sua grande maioria. que vêem como originais ditos proverbiais que.tenha s1d~ . incluindo o uso predominante de elementos formulares. sua poesia escrita é também caracterizada por um estilo formular.Tannen 1980a). Muitas culturas modernas que conheceram a escrita durante séculos.que inicialmente bloqueou toda compreensão real do que Parry estava d1zendo e que sua própria obra tornou agora obsoletos. Os estudiosos ainda estão elaborando e especificando as implicações mais amplas das descobertas e intúições de Parry. p. como os inícios da fllosofia grega esta~am estreitame~te ligados à reestruturação do pensamento produzida pela escrita. uma mimetização em manuscrito da atuação oral. Em rbe singeroftales [O cantor de histórias) (1960). parece ser de início. . Havelock. mantidos em uso em larga medida pelo ensino da velha retórica clássica. da antropologia à história literária. ainda no século XI. quando os poetas xhosas aprendem a escrever.· de Havelock. xliv-lxxx) descr~veu alguns dos efeitos imediatos da revolução provocada por seu paI. na Muitas das conclusões e ênfases de Milman Parry evidentemente foram um tanto modificadas por estudos subseqüentes (ver. mas nunca a interiorizaram completamente. 218). Lord levou adiante e ampliou o trabalho de Parry com uma argúcia convincente. Lord e Eric A.a Ilta~a como um poema estruturado pela tendência formular de repetlf no f1m de um episódio elementos do seu início. Preface to Plato (1%3). os habitantes de Beirute consideram lugares-comuns. Embora o trabalho de Parry .atacado e revisto quanto a alguns pormenores. Adam parry (1971.poético ou não . Francis Magoun e os que estudaram com ele e com Lord em Harvard.que. as poucas reaçoes contrarias a ele foram. seria totalmente surpreendente se eles pudessem fazer uso de qualquer outro estilo. caixas dentro de caixas. Kahlil Gibran tornou-se um profissional de êxito ao fornecer produtos formulares orais impressos a americanos de cultura escrita. ainda caracterizavam o estilo de quase todos os gêneros de prosa na Inglaterra dos Tudor. ainda se apóiam grandemente no pensamento e na expressão formulares. Ao excluir os poetas de sua República. PIarão estava. Eles foram efetivamente eliminados do inglês. Para entender a oralidade como oposta à cultura escrita contudo os mais significativos desenvolvimentos baseados em Parry . A primeira poesia escrita. 490). Clanchy relata como.que é construído sem uma sensação de que quem está escrevendo está realmente falando em voz alta (como os primeiros escritores podem bem ter feito ao compor). atualmente postas de lado como produtos da mentalidade quirotipográfica inadvertida. principalmente Robert Creed e Jess Bessinger. relatando extensos trabalhos de campo e uma grande quantidade de gravações de atuações orais por cantores épicos servo-croatas e de longas entrevistas com esses cantores. pp. um tipo de discurso . cerca de 2 mil anos depois da campanha de Platão contra os poetas orais (Ong 1971. Holoka (1973) e Haymes (1973) mencionaram muitas outras em s~as preciosas pesquisas bibliográficas. necessariamente. . _ Rabiscam-se em uma superfície palavras que se imagina dizer em voz alta em uma situação oral imaginável. o poema épico é construído como um quebra-cabeça chinês. Como se verá mais adiante. especialmente porque o estilo formular caracteriza não apenas a poesia como também mais ou menos todo pensamento e expressão na cultura oral primária. 23-47). Na verdade. segundo a análise de Whitman. dois séculos mais tarde. Stolti' e Shannon 1976). já estavam aplicando as idéias de Parry ao estudo da antiga poesia inglesa (Foley 1980b.

se a atenção a oposições refinadas entre oralidade e cultura escrita está crescendo em alguns círculos. de modo convincente. Em uma edição comemorativa em homenagem a Lord. Havelock atribui a ascendência do pensamento analítico grego à introdução de vogais no alfabeto pelos gregos. Os antropólogos foram ao âmago da questão da oralidade de modo mais direto. Bruce Rosenberg (970) estudou a sobrevivência da antiga oralidade nos pregadores populares americanos. Lord e Havelock. em favor da análise incisiva ou dissecação do mundo e do próprio pensamento permitida pela interiorização do alfabeto na psique grega. por meio da cultura escrita e da impressão. O alfabeto original. Numa obra mais recente. Essa conquista prenunciou e implementou suas conquistas intelectuais abstratas posteriores. Recorrendo não somente a Parry. ainda é relativamente rara em muitos campos nos quais ela poderia ser útil. mas também de pessoas que trabalhavam nos meios de comunicação de massa. oral-textual. para a mídia eletrônica. Sua afirmação gnômica fundamental. lbe epic in Africa [O poema épico na África] (979). mas que muitas vezes exibiam uma profunda perspicácia. A estas ele denominou "sondagens". raramente . Miller (1980) estuda a tradição e a história orais africanas. McLuhan atraiu a atenção não apenas de estudiosos (Eisenstein 1979. Eu havia anteriormente sugerido (1967b. chamando a atenção para a percepção precocemente aguda de James Joyce da polaridade audição-visão e relacionando a essa polaridade uma enorme quantidade de estudos acadêmicos .quando muito . incluindo aqueles que discordaram dele ou acreditavam fazê-Io. exprimiu sua consciência aguda da importância da mudança da oralidade. fazendo com que os poemas épicos africanos e gregos se iluminem mutuamente. ou da mente "selvagem" de Lévi~~trauSSpara o pensamento domesticado. podem ser explicadas de maneira mais econômica e convincente como mudanças da oralidade para vários estádios de cultura escrita. e da Antiguidade aos dias atuais. Todavia.citado por Goodya partir de uma reedição de 1974). dos Bá1cãs à Nigéria e ao Novo México. Ele geralmente se movia rapidamente de uma "sondagem" para outra. mas também a outros. x-xi. 1964) enfatizaram bastante as oposições audição-visão. os gregos atingiram um novo patamar de codificação abstrata. Os bem conhecidos estudos de Marshall McLuhan 0962. Eugene Eoyang (977) mostrou corno o fato de negligenciar a psicodinâmica da oralidade levou a concepções equivocadas sobre a narrativa chinesa primitiva. demasiado loquazes para alguns leitores. incluindo um de meus estudos iniciais a respeito do efeito da impressão sobre operações mentais no século XVI (Ong 1958b . Isidore Okpewho utiliza as intuições e análises de Parry (seguindo as elaborações efetuadas pelos estudos de Lord) para estudar as formas artísticas orais de culturas muito diferentes da européia. inventado pelos povos semíticos.reunidos pela vasta e eclética erudição de McLuhan e suas impressionantes intuições. Por exemplo. Jaynes distingue um estágio primitivo de consciência no qual o cérebro era fortemente "bicameral".fornecia qualquer explicação direta de tipo "linear" (isto é. xvü). A linha de estudos iniciada por Parry ainda está para ser associada a outros campos com os quais ela pode facilmente se ligar. Porém. E outros estudos especializados estão agora surgindo. Poucos provocaram um efeito tão estimulante quanto Marshall McLuhan sobre tantas mentes diversas. analítica e visual do impalpável mundo dos sons. Por exemplo. umas poucas conexões importantes já foram feitas. do contrário. seriam extremamente díspares .que. Joseph c. Jack Goody (977) mostrou. p.verdade. consistia somente em consoantes e algumas semivogais. analítico). em boa parte por causa do fascínio exercido por suas numerosas afirmações gnômicas ou oraculares. ou do chamado estado de consciência "pré-Iógico" para um outro cada vez mais "racional". pp. 189) que muitos dos contrastes freqüentemente feitos entre as visões "ocidentais" e as outras parecem estar resumidos a contrastes entre cultura escrita profundamente interiorizada e estados de consciência mais ou menos residualmente orais. John Miles Foley (1981) compilou novos estudos sobre a oralidade. rejeitando o primitivo estilo de pensar oral agregativo e paratático perpetuado em Homero. de que maneira mudanças até então rotuladas como mudanças da magia para a ciência. os estágios iniciais e tardios da consciência queJulianJaynes (977) descreve e relaciona a mudanças neurofisiológicas na mente bicameral poderiam também se prestar em boa medida a uma descrição mais simples e mais comprovável da mudança da oralidade para a cultura escrita. "O meio é a mensagem". Ao introduzir vogais. e outros autores coletados por Plaks (977) examinaram antecedentes formulares da narrativa chinesa literária. Zwettler tratou da poesia árabe clássica (977). em sua obra magistral e judiciosa. vozes que o hemisfério esquerdo . Origins of western literacy [Origens da cultura escrita ocidental] (976). de executivos e do público informado de um modo geral. com o hemisfério direito produzindo "vozes" incontroláveis atribuídas aos deuses.

c. é possível fazer algumas generalizações sobre a psicodinâmica das culturas orais primárias. e ]aynes. pela invenção do alfabeto por volta de 1500 a. ]aynes data a Odisséia de 100 anos depois da Ilíada e crê que o astuto Ulisses marca um avanço na mente autoconsciente moderna. quando o contexto assegurar um significado inequívoco. já não submetida ao domínio das "vozes". de uma percepção de diferença entre passado e futuro . acredita que a escrita contribuiu para a eliminação da bicameralidade original. ou seja. Esse período. do que a tradução "procurar" evidencia. 3 SOBRE A PSICODINÂMICA DA ORALIDADE Como resultado do estudo que acabamos de passar em revista. Essas "vozes" começaram a perder sua eficácia entre 2000 e 1000 a. Tente-se imaginar uma cultura na qual ninguém jamais "pr~curou" algo. literalmente "procurar com os olhos". Em uma cultura oral primária.e as características da psique nas culturas orais não apenas do passado. com efeito.) ..) •• Look up something. a expressão "procurar algo" é vazia: não • No original. urna cultura sem qualquer conhecimento da escrita ou sequer da possibilidad~ dela. isto é.processava em fala. Os efeitos dos estados de consciência orais são bizarros para a mente letrada e podem sugerir explicações complexas que possivelmente se revelarão inúteis. Seja qual for a aplicação que se faça das teorias de ]aynes. A llíada oferece a ele exemplos de bicameralidade em seus personagens desprovidos de autoconsciência. é dividido em duas partes bem distintas. das culturas orais intocadas pela escrita. e de outros que serão mencionados. de preocupação com a vontade como tal.c. (N. (N. como quer o autor. A bicameralidade pode significar simplesmente oralidade. As pessoas imersas na cultura escrita apenas com grande esforço conseguem imaginar como é urna cultura oral primária. como veremos. look up. de audácia analítica. A questão da oralidade e da bicameralidade talvez requeira maiores investigações. mas até mesmo nos dias de hoje. ou "bicameral" como ]aynes a descreve . referir-me-ei às culturas orais primárias simplesmente como culturas orais.falta de introspecção.T.T. não deixa de causar espanto a semelhança entre as características da psique primitiva. Para ser breve. o que certamente traz implicações maiores para o leitor.

Ele não é apenas perecível. Quando pronuncio a palavra "permanência". não tenho nada . Os povos orais comumente pensam que os nomes (um gênero. de palavras) são capazes de transmitir poder para outras coisas. pp. 223-126).T. Também não ca~sa surpresa que povos . pois. somos simplesmente incapazes de compreender.especialmente a enunciação oral. pp. b u ao. mas. recal! them. reduzimos o movimento a uma série de instantâneos a fim de ver melhor o que é o movimento. logo.é "dinâmico". embora passíveis de ressurreiçao dinâmica (Ong 1977. estão mortas. As exphcações sobre os nomes dados por Adão aos animais no Gênesis 2:20 geralmente atraem uma atenção condescendente para essa antiga crença presumivelmente exótica. Um oscilograma é silencioso.teria nenhum significado concebível. mas. Em segundo lugar.) . As nações orais não percebem um nome como uma etiqueta.) To lookfor them. Nesse sentido. mesmo que os objetos que elas representam sejam visuais. 470-481) salientou que. Não existe o equivalente de um instantâneo para o som. a sua percepção da palavra como necessariamente fala~a. que vem de dentro os organismos vivos .julgarem as palavras dotadas de uma potencialidade mágica está estreitamente ligado. Não há como deter e possuir o som. ausência absoluta de som. como eventos e. Porém não estão em lugar algum onde poderiam ser "procuradas"". Poder-se-ia "evocá-Ias" . Elas são sons. mas pode também registrar a imobilidade.apenas silêncio. ela favorece a imobilidade. para examinar algo atentamente por meio da visão. não.e talvez universalmente . A visão pode registrar o movimento. Um caçador pode ver um búfalo. a uma estabilização idêntica à do som. nem mesmo uma trajetória.conSiderem que as palavras oraiS co são dotadas de grande poder. que mostra a subordinação à escrita). mas é essencialmente evanescente e percebido como evanescente. Posso deter uma câmera cinematográfica e fixar um quadro na tela. Essas "coisas" não são tão prontamente associadas à magia. Representações escritas ou impressas de palavras podem ser rótulos. 230-271). pr~fenda e. preferimos mantê-Io imóvel. até mesmo morto. mumente . convém refletir sobre a natureza do próprio som como tal (Ong 1967b.um 'f I é melhor tomar cuidado: algo está acontecendo. embora tenha tido dificuldade em explicar a que estava se referindo (Sampson 1980.e muito provavelmente em todo o mundo . no momento em que chego a "-nência". não surpreende que o termo hebraico dabar signifique "palavra" e "evento". portanto. Não têm sede. entre os povos "primitivos" (orais).T. 451. muito menos exótica do que parece à primeira vista às nações quirográficas e tipográficas. na verdade. 111-138). Muitas vezes. sentir seu gosto e toca-Io quando o búfalo está completamente inerte. d todo som . pelo menos inconscien~emente. "lá". Sem a escrita. O som existe apenas quando está deixando de existir. São ocorrências. dotada de um poder. se ouve . pp. as palavras reais. pois não constituem aç~~s. etiquetas escritas ou impressas coladas imaginariamente no objeto nomeado. a química e pôr em prática a engenharia química. pp. as palavras tendem antes a ser assimiladas a coisas. Malinowski 0923. O mesmo ocorre com qualquer outro conhecimento intelectual. faladas. Toda sensação ocorre no tempo. mas o som possui uma relação especial com ele. O som sempre exerce u~ poder. as palavras em si não possuem uma presença visual. uma vez que a compreensão da psicodinâmica da oralidade era virtualmente inexistente em 1923. Os povos profundamente tipograficos esquecem-se de pensar nas palavras como primariamente orais. as nações quirográficas e tipográficas tendem a pensar nos nomes como rótulos."reevocá-Ias"*. * Cal! them back. Ele existe fora do mundo sonoro. eventos. A qualquer pessoa com uma noção do que sejam as palavras em uma cultura oral primária. (N. O fato de os povos orais comumente . mas nenhum outro campo sensorial resiste completamente a uma imobilização. ou uma cultura não muito distante da oralidade primária. cheirar. Essa crença é. num sentido radical. Se detiver o movimento do som. Toda sensação ocorre no tempo. nem rastro (uma metáfora visual. ** (N. necessariamente portadoras de poder: para eles. "perma-" desapareceu e tem de desaparecer. Para saber o que é uma cultura oral primária e qual a natureza de nosso problema em relação a uma cultura semelhante. geralmente a linguagem é um modo de ação e não simplesmente uma confirmação do pensamento. Na realidade. Antes de mais nada os nomes realmente dão aos seres humanos um poder sobre aquilo ~ue nomeiam: sem aprender um vasto suprimento de nomes. diferente da que existe em outros campos registrados na sensação humana. em uma superfície plana. por exemplo. pois não fazem idéia de um nome como algo que possa ser visto.

e retençao preciso exercê-Io segundo padrões mnemônicos." "Dividir para conquistar. Como ela reúne o material organizado para fins de recordação? É o mesmo que perguntar: "O que ela faz ou pode saber de uma forma organizada?" Suponhamos que uma pessoa. assim como funcionam.. pp. a redução das palavras a sons determina não apenas os modos de expressão. em expressões epitéticas ou outras expressões formulares. As fórmulas ajudam a implementar o discurso rítmico. que ocupou uma posição intermediária entre a Grécia homérica oral e a cultura escrita grega totalmente desenvolvida. moldados para uma pronta repetição oral. Antes de mais nada." "Expulsai a natureza e ela voltará a galope.ou em outra forma mnemônica. tentasse se concentrar em um problema particularmente complexo e finalmente conseguisse articular uma solução que. O pensamento deve surgir em padrões. fosse relativamente complexa. O pensamento apoiado em uma cultura oral está preso. fortel~ente rítmicos. como . em conjuntos temáticos padronizados (a assembléia. Como ela retém. e que são eles próprios modelados para a retenção e a :ápida recordação . processo de respiração. Quando dizemos que sabemos geometria euclidiana. Sabemos o que podemos recordar. isto é. equilibrados. vermelha à noite. 131-132. pp. digamos. gesticulação e simetria bilateral do corpo humano nos targums aramaicos e helênicos. perdoar é divino. para posterior recordação. o alerta do marinheiro.294-296). sim. mas também da história da Revolução Americana. quando fundado na oralidade. em p~overblos que sao constantemente ouvidos por todos. pois o ritmo auxilia na recordação. realmente. tende ~ ser altamente rítmico. por si sós. "A videira aderente. Podemos recordá-Ias. como expressões fixas que circulam pelas bocas e pelos ouvidos de todos. porque quando o rosto está triste o coração se torna mais sábio" (Eclesiastes 7:3). As reflexões e os ~etodo~ de memorização estão entrelaçados. a miscelânea de idéias nào pode ser preservada em notas rabisca- t se poderia trazer de novo à mente o que foi elaborado com das. a verbalização tão arduamente elaborada? Na ausência total de qualquer escrita. a fim de que "saibam".e da recuperação do pensamento cuidadosamente artIculado..icologicamente. 294-301). foi reunido e colocado a sua disposição pela escrita. consistindo. ou até mesmo da média de pontos no beisebol ou das leis de trânsito. o duel_o. expressões desse e de outros tipos podem ser ocasionalmente encontradas impres- . analítica.à comunicação. Esse é o caso não apenas da geometria euclidiana. . ser montada? É essencial que haja um interlocutor virtual: é difícil falar consigo mesmo durante horas consecutivas." "O robusto carvalho. Aides-mémoire tais como varas marcadas ou uma série de objetos cuidadosamente ordenados não irão. muitas vezes ritmicamente equilibradas. a re~ei~ão." "A tristeza é melhor do que o riso. Numa cultura oral primária. Jousse (978) demonstrou a íntima ligação entre padrões rítmicos orais. não queremos dizer que temos na mente. Uma cultura oral não possui textos. como apoios mnemônicos. a delícia do marinheiro. possam recordar. A mnemônica deve determmar ate mesmo a sintaxe (Havelock 1963. com muito poucas exceções . mas. 97-98. e portanto também no hebraico antigo. em umas poucas centenas de palavras. o "ajudante" do herói e assim por diante)." "Errar é humano. exprimiu um material semifilosófico nas formas poéticas formulares que o organizavam no interior da cultura oral da qual ele emergiu (Havelock 1963." Fixas. Mas como as pessoas recordam numa cultura oral? O conhecimento organizado que os indivíduos pertencentes à cultura escrita atualmente estudam. até mesmo nos casos em que não se apresente na forma de versos. por si sós. em altteraçoes e assonâncias. O teorema "sabemos o que podemos recordar" aplica-se também a uma cultura oral.quando muito -.Numa cultura oral. cada uma de suas proposições e provas. Hesíodo. que podemos rapidamente trazê-Ias à mente.. de que modo. até mesmo p. para resolver efetIvamente o pro~lema d~ . mas também os processos mentais. Mas até mesmo com um ouvinte que estimule o pensamento e dê apoio. poderia uma solução longa. nesse momento. recuperar uma complicada série de asserções. nenhum texto que lhe permita produzir a mesma linha de pensamento novamente ou até mesmo verificar se ele fez isso ou não. Entre os antigos gregos. não há nada fora do pensador. 87-96. em uma cultura oral. O pensamento prolongado. de forma a VIr prontamente ao espírito. em repetições ou antíteses. por sua vez. tanta dificuldade? A única resposta é: pensar p~nsamentos memoravelS. "Vermelho pela manhã.

Contudo. Numa cultura orall. na verdade. fornecem exemplos abundantes de padrões de pensamento de personagens educados oralmente que se movem mnemonicamente nesses sulcos instrumentalizados. pois o aprofundamento da compreensão do pensamento fundado na oralidade (e. com grande inteligência e requinte. Elas formam a substância do próprio pensamento. é um texto.isto é. na África Ocidental. a própria lei está encerrada em adágios formulares. baseado diretamente na tradição oral ibo. tal como o seria com o auxílio da escrita.o que não equivale à falsificação) pode efetivar sua recordação. maior é a probabilidade de que seja caracterizado por expressões fixas utilizadas com habilidade. são constantes. determinam evidentemente o tipo de pensamento que pode ser realizado. embora complexo. ainda que isso fosse possível. As fórmulas fixas altamente padronizadas e comunais das culturas orais cumprem algumas das finalidades da escrita em culturas quirográficas. refletir atentamente sobre algo em termos nãoformulares. da Grécia homérica às existentes atualmente em toda parte do planeta. embora algumas possam ser relativamente simples: o "caminho da baleia" do poeta do Beowulf é uma fórmula (metafórica) para o mar em um sentido diferente do termo "mar". que. Sem elas. mas simplesmente um pensamento momentâneo. Não seria um conhecimento confiável. Quanto mais complexo é o pensamento oralmente padronizado. Numa cultura oral. Nas culturas orais. pois esse pensamento. Esse é um dos motivos por que. mas nas culturas orais não são eventuais. que não constituem meros adornos jurídicos. podem ser "procuradas". o modo como a experiência é intelectualmente organizada. mas são. um modo fixo de processar os dados da experiência. quando os falantes refletem. Porém. conseqüentemente.a experiência e a reflexão são intelectualmente organizadas e atuando como dispositivo mnemônico de algum tipo.sas. Preface to Plato (1963). no sentido de que cada palavra e cada conceito expresso numa palavra constituem uma espécie de fórmula. assim como para outros sábios que viviam numa cultura com algum conhecimento da escrita. orais. em si mesmos. No longer at ease [Tranqüilidade perdida) (1961). na realidade. seria uma perda de tempo. Isso vale para as culturas orais em geral. sobre as situações nas quais se acham envolvidos. toda expressão e todo pensamento são até certo ponto formulares. pois é nelas que consiste. porém preserva . Numa cultura oral primária.). provérbios.e. no tipográfico e no eletrônico) requer mais estudos. uma vez terminado. e obras de ficção como o romance de Chinua Achebe. As características mencionadas aqui são algumas das que tornam o pensamento e a expressão fundados no oral diferentes daqueles que são fundados no quirográfico e no tipográfico . para um santo Agostinho de Hipona (354-430 d. ao fazê-Io. determinando o modo como .em livros de adágios. O conhecimento da base mnemônica do pensamento e da expressão em culturas orais primárias abre caminho para a compreensão de algumas outras características do pensamento e da expressão fundados na oralidade. Em uma cultura 9~. mas ilustrativo. não-mnemônicos. mas que ainda conservava um resíduo oral espantosamente sólido{ a memória tem uma importância tão grande quando tratam dos poderes do espírito. o pensamento a ser dos seguintes tipos: e a expressão tendem Um exemplo conhecido de estilo aditivo oral é a narrativa da criação no Gênesis 1:1-5. a compreensão do pensamento baseado no quirográfico. A verbalização da experiência (o que implica pelo menos alguma transformação . Esse inventário de características não se apresenta como exclusivo ou conclusivo. Obviamente.~EP~!:!~tlcia é intelectualizada mnemonicamente. p. este é impossível em qualquer forma extensa. a lei. as fórmulas que caracterizam a oralidade são mais elaboradas do que as palavras individualmente. nunca poderia ser recuperado com alguma eficácia. de Havelock. 5). não-padronizados. além de sua estilização formular. as características que devem parecer mais surpreendentes àqueles que foram criados em culturas baseadas na escrita e na tipografia. um juiz é muitas vezes chamado a articular conjuntos de provérbios relevantes dos quais ele pode obter decisões justas nos processos de litígios formais que deve julgar (Ong 1978.

Assim chegou a noite. incluindo a que produziu a Bíblia.ainda que em vias de desaparecimento . podemos encontrar na narrativa oral primária exemplos de estrutura aditiva. Um dos muitos indícios de um alto . a expressão oral está carregada de uma quantidade de epítetos e outras bagagens formulares que a cultura altamente escrita rejeita como pesados e tediosamente redundantes em virtude de seu peso agregativo (Ong 1977. o No começo. mas o soldado valente. E Deus disse: Faça-se a luz. a terra era um vasto deserto informe. constituem fundamentos formulares residuais dos processos orais de pensamento. E a terra era erma e vazia. Ela está mais próxima pelo fato de que traduz we ou wa sempre pela mesma palavra. "quando". A versão Douay (1610). "então". E a luz se fez. o original hebraico aditivo Cintermediado pela versão latina com base na qual Douay fez a sua): existen~iais que circundam o discurso oral e ajudam a determinar significado. Então Deus disse: "Seja feita a luz". dos quais possuímos um enorme estoque de fitas gravadas (ver Foley. especialmente no discurso formal. tais como termos. Nove "e" introdutórios. frases ou orações antitéticos. as pessoas não sentem esse tipo de expressão como tão arcaico ou exótico. produzida em uma cultura com um resíduo oral ainda forte. Deus criou o céu e a terra. de certa forma independentemente da gramática. Adaptada a sensibilidades mais moldadas pela escrita e pela tipografia. do mesmo modo que a versão New American nos parece natural e normal.essa fórmula epitética constitui uma estabilização obrigatória. Noite.inimigo do povo. e a ela sucedeu a manhã . não a princesa. A versão Douay traduz o hebraico we ou wa ("e") simplesmente por "e". que chocam os pertencentes a uma cultura altamente escrita por serem imponderados. Assim. os clichês nas acusações políticas . arcaica. a New American Bible (1970) faz a seguinte tradução: No início. Ele lhes parece natural e normal. para proporcionar um fluxo narrativo com a subordinação analítica e racional que caracteriza a escrita (Chafe 1982) e que parece mais natural em textos do século XX. Em muitas das culturas de baixa tecnologia. e às trevas. e houve luz. mas choca a sensibilidade atual pela sua aparência remota. As bases do pensamento e da expressão fundados na oralidade tendem a ser não tanto meras totalidades. "assim" ou "enquanto". uns anos atrás. incompreensíveis para os ouvintes). Em culturas orais ou com um alto resíduo oral. 1980b. O discurso escrito desenvolve uma gramática mais elaborada e fixa do que o discurso oral. frases ou orações paralelos. segue de perto. em desenvolvimento. e o espírito de Deus se movia sobre as águas. 188-212). mas o carvalho robusto. porque nele o significado depende mais da estrutura lingüística. E Deus viu que a luz era boa. não o soldado. epítetos. quando Deus criou os céus e a terra. Deus viu como era boa a luz. Deus chamou à luz "dia" e às trevas ele chamou "noite". Seria um erro pensar que a versão Douay está simplesmente "mais próxima" do original hoje do que a New American. quando a visitei) a insistência em falar da "Gloriosa Revolução de Outubro de 17" . As estruturas quirográficas levam mais em conta a sintaxe (organização do próprio discurso). e as trevas cobriam a superfície das profundezas. e até mesmo exótica. como eram as fórmulas .resíduo oral na cultura da União Soviética é (ou era. Dois "e" introdutórios. pp.Sherzer 1974 relata longas apresentações públicas orais entre os CImas. termos. não o carvalho. As estruturas orais muitas vezes consideram a pragmática (a conveniência do falante . e houve noite e manhã um dia. mas a bela princesa. em muitos aspectos. enquanto um forte vento varria as águas. e ele dividiu a luz das trevas. capitalistas fomentadores da guerra -. E ele chamou à Luz Dia. Deus então separou a luz das trevas. mas agrupamentos de totalidades. A New American o traduz por "e". ambos mergulhados num período composto. para a relação de algumas fitas). As nações orais preferem. como sugeriu Givón (1979).uma visível padronização oral. e as trevas cobriam o abismo. Em todo o mundo.o primeiro dia. uma vez que carece dos contextos normais inteiramente Essa característica está intimamente ligada às fórmulas como meio de aparelhar a memória.

em média. Requer-se em média por volta de oito vezes mais palavras para dizer algo pelos tambores do que na linguagem falada (Ong 1977. Convém ao falante dizer a mesma coisa. que lhe dá a oportunidade de alterar e reorganizar seus processos mais normais. fisicamente. deixavam que ela semeasse seus escritos. Eliminar a redundância numa escala significativa requer uma tecnologia que sirva de obstáculo ao tempo. oral] totaliza" (1966. perguntar num enigma por que os carvalhos são robustos. a princesa infeliz podem também fazer parte do equipamento. i perto ~o foco de atenção muito daquilo com que já se deparou. ou algo equivalente. Por conseguinte. com efeito. é preferível repetir algo. para manter intacto o agregativo. Retrocessos podem ser inteiramente ocasionais. ou como costumava ser "o glorioso Quatro de Julho" no resíduo oral comum até mesmo nos Estados Unidos do início do século XX. deve permanecer intacta. Com a escrita. a mente deve avançar mais lentamente.) Nas culturas orais. mas o faz para demonstrar que eles o são. No discurso oral. duas ou três vezes. puramente ad boe. a análise .". sempre disponível em fragmentos inscritos na página. A redundância é igualmente propiciada pelas condições físicas da expressão oral diante de um público vasto.. podemos inferi-lo pelo "mas também . até mesmo epítetos opostos. Em alguns tipos de substitutos acústicos da comunicação verbal oral. Por conseguinte. a redundância atinge dimensões excepcionais. "a mente selvagem (isto é. requer a escrita. ela é em um sentido profundo mais natural ao pensamento e à fala do que a linearidade parcimoniosa. p. a situação é diferente. 245)... princesas são sempre belas e carvalhos são sempre robustos. como na conversa de tambores africana. O pensamento e a fala parcimoniosamente lineares ou analíticos constituem uma criação artificial. (Para exemplos extraídos diretamente da cultura oral dos tubas. Portanto.. soldados são sempre valentes. Se a distração confunde ou oblitera da mente o contexto do qual emerge o material que estou lendo agora. o pensamento fragmentado . mantém tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa. as expressões tradicionais não devem ser desmontadas: foi trabalhoso mantê-Ias juntas por gerações e não existe nenhum lugar fora da mente onde se possa armazená-Ias. mantendo . compreende cada palavra que um falante pronuncia. A psique pode controlar a tensão. mas também estes são padronizados: o soldado fanfarrão. A escrita estabelece no texto uma "linha" de continuidade fora da mente. embora a pausa possa ser benéfica. A União Soviética ainda apresenta todo ano os epítetos oficiais para vários toei classiei da história soviética. construída pela tecnologia da escrita. Como sintetizou muito bem Lévi-Strauss. por exemplo. No estilo oral.homéricas epitéticas "sábio Nestor" ou "esperto Ulisses". os oradores públicos ainda à época de. 101). Uma expressão formular.constitui um procedimento altamente arriscado. em parte porque a escrita à mão é. cerca de um décimo da velocidade do discurso oral (Chafe 1982). o contexto pode ser recuperado passando-se novamente os olhos pelo texto de modo seletivo. O pensamento requer algum tipo de continuidade. a repetição do já dito. situação na qual ela é na verdade mais marcada do que na maioria das conversas face a face. Uma vez que a redundância caracteriza o pensamento e a fala orais. Uma cultura oral pode. princesas ou carvalhos. A necessidade que sente o orador de prosseguir enquanto está repassando em sua mente o que dizer em seguida também favorece a redundância. um processo muito lento . por força do hábito. pois a manifestação oral desapareceu tão logo foi pronunciada. p. William Jennings Bryan 0860-1925). Se deixarmos passar o "não apenas . ver Faik-Nzuji 1970. mesmo que em virtude de problemas acústicos. Não há nada para o que retroceder fora da mente. Sem um sistema de escrita. Isso não significa que não possa haver outros epítetos para soldados. Nem todo mundo. a hesitação é sempre prejudicial. redundantes. mantinham a velha redundância em seus discursos e. O que prevalece para epítetos prevalece igualmente para outras fórmulas." Até que a amplificação eletrônica reduzisse os problemas acústicos a um mínimo. que impõe algum tipo de tensão à psique ao impedir que a expressão recaia em seus padrões mais naturais. uma vez cristalizada. dentre uma multidão ouvinte. no Zaire. e de modo algum para questionar o atributo ou lançar dúvidas sobre ele. A mente concentra suas energias em avançar porque aquilo a que ela retrocede jaz imóvel diante de si. A redundância.isto é. a mente é forçada a seguir um padrão mais lento.

a cada narração. Essa necessidade estabelece uma conformação mental altamente tradicionalista ou conservadora. 13-14). Todavia. 254-305). como também soam. a escrita é conservadora a seu próprio modo. de um certo modo.deprecia as figuras do sábio ancião. são.e. Porém. o excesso. Durante a Idade Média e a Renascença. com elas. à interação imediata. Logo depois de seu surgimento. pois nas culturas orais o público deve ser levado a reagir. que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experiência vivida. pp. assimilando o mundo estranho. 30) -. deve-se dar à história. Pelo fato de armazenar o conhecimento fora da mente. os narradores também introduzem novos elementos em velhas histórias (Goody 1977. ser calculada com base na carga mnemônica que impõe à I Na ausência de categorias analíticas aperfeiçoadas. Enquanto a cultura sanciona um grande resíduo oral. 29-30). baseada na quantidade de memorização que os métodos educacionais da cultura exigem (Goody 1968a. quando as curas são raras. a escrita . As culturas orais. sim. a loquacidade. inibe o experimento intelectual. De fato. desapontados com os resultados práticos do culto em um dado santuário. uma situação singular. Porém. O conhecimento exige um grande esforço e é valioso. os escritos de Winston Churchill (1874-1965). objetivo. de uma maneira única. é preciso despender uma grande energia em dizer repetidas vezes o que foi aprendido arduamente através dos tempos. Uma cultura quirográfica (escrita) e sobretudo uma cultura tipográfica (impressa) pode distanciar e. Uma vez que numa cultura oral o conhecimento conceitual que não é reproduzido em voz alta logo desaparece. e a quantidade de repetições pode aumentar indefinidamente. Porém. haverá tantas variantes menores de um mito quantas forem as repetições dele. As culturas orais estimulam a fluência. a simplesmente parar de falar enquanto se está à procura da idéia seguinte. repetidor do passado. e a sociedade tem em alta conta aqueles anciãos e anciãs sábios que se especializam em conservá-Io.se possível engenhosamente. oralmente composto. muito freqüentemente. de seu esforço de memorização e. a "amplificação" incha muitas vezes os primeiros textos escritos. Poemas encomiásticos de líderes exigem um espírito empreendedor. mente.i. cosmologias e crenças profundamente enraizadas . p. evidentemente. as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento com uma referência mais ou menos próxima ao cotidiano da vida humana. p. Líderes fortes os "intelectuais" da sociedade oral. discriminando coisas como os nomes de líderes e as . isto é. de seres humanos. continuaram a fazê-lo depois de haver adaptado a retórica de uma arte de falar em público para uma arte de escrever. com estes. pois as velhas fórmulas e os velhos temas devem interagir com novas e muitas vezes complexas situações políticas. permitelhe que se volte para novas especulações (Havelock 1963. não carecem de originalidade própria. Eles raramente se tanto . tornando-os tediosamente redundantes segundo os padrões modernos. muitas vezes intensamente.também mudam nas culturas orais.o que ocorre até por volta da era romântica e mesmo depois -. as fórmulas e os temas são antes remodelados do que suplantados por novo material. desnaturar até mesmo o humano. Os retóricos chamariam a isso copia. que conhecem e podem contar as histórias dos tempos remotos. pelo fato de tomar para si funções conservadoras. pp. em favor de descobridores mais jovens de algo novo. esses novos universos e as outras mudanças que mostram uma certa originalidade surgem numa economia noética essencialmente formular e temática. A originalidade narrativa reside não na construção de novas histórias. mas na administração de uma interação especial com sua audiência. de certo modo. apresentados como conformes às tradições dos ancestrais. ela servia para imobilizar os códigos jurídicos na antiga Suméria (Oppenheim 1964. conhecida. permanece intensa na cultura ocidental uma preocupação com os copia. novos universos conceituais. Por uma espécie de lapso. compreensivelmente. Obviamente. 232). a oralidade residual de uma dada cultura quirográfica pode. As práticas religiosas . que. pp. o texto liberta a mente de tarefas conservadoras. desse modo. Thomas Babington Macaulay (1800-1859) é um dos muitos vitorianos loquazes cujas composições escritas pleonásticas ainda soam como um discurso exuberante. Na tradição oral.são propagandeados de forma explícita por sua novidade. como Goody os intitula 0977.e mais ainda a impressão tipográfica . inventam novos santuários e. em sua época . isto é.

e passaram a existir realmente apenas depois que a impressão foi consideravelmente interiorizada . Uma cultura oral. com o que mostram a televisão e o cinema mais sensacionalistas atuais em matéria de violência explícita e os ultrapassam em muito em pormenores requintadamente sangrentos o que pode ser menos repulsivo quando descrito verbalmente do que quando apresentado visualmente. pp. no mínimo. mas em formas como as encontradas na seguinte passagem da llíada i. em grande medida. Ao manter o conhecimento imerso na vida cotidiana. no Beowulf.que colige os nomes dos líderes gregos e as regiões que governavam. Na narrativa. e que Ora. não possui nada que corresponda aos manuais de regras práticas para o comércio (esses manuais. Provérbios e enigmas não são usados simplesmente para armazenar conhecimento. nos embates entre personagens. com apenas um mínimo de explicação verbal. remadores. Característicos das sociedades orais em todo o mundo. 'Ela separa aquele que conhece daquilo que é conhecido. no The Mwíndo Epic e em inúmeras outras histórias africanas (Okpewho 1979. por exemplo. a llíada apresenta o famoso catálogo dos navios . mas uma forma de arte.divisões políticas em uma lista abstrata. . Na última metade do segundo livro. até mesmo em culturas quirográficas. em que um oponente tenta sobrepujar o outro caluniando a mãe deste.141-144. na Bíblia. 28-29. Uma cultura oral não possui um veículo tão neutro como uma lista. como entre Davi e Golias (l Samuel 17:43-47). As culturas orais conhecem poucas estatísticas ou poucos fatos divorciados da atividade humana ou quase humana. O dozens não é uma briga real. pp. Criados numa cultura predominantemente oral. e as uítimas Logoponhamos a bordo e a donzela graciosa de Crise. A narrativa oral é muitas vezes caracterizada por uma descrição entusiástica da violência física. na verdade. seria encontrada não em qualquer descrição abstrata do tipo manual de instruções. os livros VIII e X rivalizariam. Os A cultura oral primária preocupa-se pouco em preservar o conhecimento de habilidades como um corpus abstrato. reunamos. apelativos recíprocos se encaixam numa designação específica em lingüística: jlyting (ou fliting). do mesmo modo. Obiechina 1975). 176-180). isto é. Não somente no uso que se faz do conhecimento. mas também na celebração do comportamento físico. que não constitui uma lista neutra. De belas faces. as culturas orais revelam-se agonisticamente programadas. independente. Goody e Watt 1968. a oralidade o situa dentro de um contexto de luta. Na llíada.mais de 400 versos . em que a descrição abstrata está encaixada numa narrativa que apresenta direções específicas para a ação humana ou relatos de atos específicos: Muitas das culturas orais ou residualmente orais . inteiramente desprovida de um contexto de ação humana. 234. 258). como as outras invectivas verbais estilizadas em outras culturas. até mesmo em culturas de alta tecnologia). com passagens em que eles alardeiam suas próprias façanha§ e/ou investem verbalmente contra um oponente: na llíada. 1972). que eram cruciais na cultura homérica. p. neutra.Ong 1967b. com base na observação e na prática. Comande o nauio um dos chefes do exército.senão todas impressionam as pessoas pertencentes a uma cultura escrita pelo tom extraordinariamente agonístico de seu desempenho verbal e certamente por seu estilo de vida. são extremamente raros e sempre toscos. sem perda de tempo. joning. mas um relato que descreve as relações pessoais (cf. é comum depararmos. convém a nau ligeira nas ondas divinas lançarmos. certos jovens negros nos Estados Unidos. Representações de violência físita crua. sounding ou outros nomes. O lugar normal e muito provavelmente o único na Grécia homérica no qual esse tipo de informação política podia ser encontrado numa forma verbalizada era numa narrativa ou numa genealogia. 32). fundamental em muitos poemas épicos orais e outros gêneros orais. no Caribe e em outros lugares participam do que é conhecido como dozens. A escrita alimenta abstrações que afastam o conhecimento da arena onde seres humanos lutam entre si. em todos os contos medievais europeus. mas num contexto global de ação humana: os nomes de pessoas e lugares aparecem envolvidos em feitos (Havelock 1963. mas para envolver as pessoas em um combate verbal e intelectual: dizer um provérbio ou um enigma desafia os ouvintes a superá-Io com um outro mais adequado ou oposto (Abrahams 1968. A maior articulação verbal de coisas como procedimentos de navegação. O comércio era aprendido empiricamente (assim como ainda o é.

e.79). . sentir-se identificado com Aquiles ou Ulisses (Havelock 1963. desse modo. envolvida na dinâmica de troca sonora. Mais empáticos e participativos do que objetivamente distanciados Para uma cultura oral. mas. aumentam as hostilidades. e então passa a fazer o elogio de César segundo os padrões retóricos do encômio. uma feiticeira . estabelece condições para a "objetividade". 145-146). aprender ou saber significa atingir uma identificação íntima. veja que eu já estou prosseguindo". exclama Marco Antônio em sua oração fúnebre no Júlio César de Shakespeare (v. o narrado r desliza para a primeira pessoa quando descreve as ações do herói.ii. estão des-oralizando-o num texto. as mostras de violência nas primitivas formas artísticas verbais. de presunção e de afetação ridícula. dos vilões e dos heróis. e sobretudo. como uma reação encerrada na reação comunal. do bem e do mal. Quando toda comunicação verbal deve ser feita diretamente pela voz. em vez de causas físicas. finalmente traz o foco da ação cada vez mais para as crises interiores. Porém. O outro lado das invectivas verbais ou dos vitupérios agonísticos nas culturas orais ou residualmente orais é a expressão exagerada de louvor que se encontra sempre associada à oralidade. mas já estão sendo ridicularizadas por Thomas Nashe em 7be unf0111tnate traveler [O viajante desafortunadoI (1594). da Antiguidade Clássica até fins do século XVIII. pode-se presumir que sejam o resultado da maldade individual de um outro ser humano . Porém.tanto as atrações quanto. os antagonismos. Na sensibilidade do narrado r e de seu público. "Aqui estou para enterrar César. em que ela foi institucionalizada pela "arte" da retórica e pela dialética de Sócrates e de Piatão a ela associadas. o declamador do poema épico. a despeito dos ataques feitos a ela. causa aos que pertencem a uma cultura altamente letrada uma impressão de falsidade. o herói da apresentação oral absorve no mundo oral até mesmo aqueles que. uma identificação que na realidade influi na gramática da narração. assim como em toda a tradição retórica ocidental residualmente oral. O elogio exagerado na antiga tradição retórica. à medida que se aproxima do romance sério. não para falar em seu louvor". de seus ouvintes. transcrevendo-o. A flinâmica agonística dos processos de pensamento e expressão orais foi fundamental para o desenvolvimento da cultura ocidental. 197-233). Uma vez que a doença ou a desgraça são causadas por alguma coisa. pp. Platão excluíra os poetas de sua República. Voltaremos a essa questão posteriormente. A narrativa literária. com o herói Mwindo. nos quais eram adestrados todos os escolares da Renascença e que Erasmo usou com tanta espirituosidade em seu Elogio da loucura. no sentido de um desprendimento ou distanciamento individual. o elogio está de acordo com o mundo altamente polarizado. na "alma" comunal. mais de 2 mil anos depois. pp. escriba!" ou "ó escriba. Sob a influência da escrita. distanciando-se das meramente exteriores. empática. e. residualmente oral. Elas sobrevivem nas baladas medievais. comunal com o conhecido (Havelock 1963. Ignorância das causas físicas de doenças ou desgraças também pode alimentar tensões individuais. pois estudá-Ios era essencialmente aprender a reagir com "alma". por intermédio dele. obviamente. Lidando com um outro cenário oral primário. já muito estudados (Finnegan 1970. A escrita separa o conhecedor do conhecido e. público e perso~ nagem é tão íntima que Rureke faz com que o próprio personagem épico Mwindo se dirija aos escribas que tomam nota de sua declamação: "Vamos. "deixar-se levar por ele". diminuem gradativamente ou se tornam marginais na literatura narrativa posterior. que forneceu à verbalização agonística oral uma base científica produzida com o auxílio da escrita. Opland 1975). A "objetividade" que Homero e outros declamadores decididamente possuem é aquela imposta pela expressão formular: a reação do indivíduo não é expressa como simplesmente individual ou "subjetiva". de modo que. 37) chamam a atenção para uma identificação forte e semelhante de Candi Rureke.um mago.\ subsistem em muitos dos primeiros produtos da cultura escrita. da virtude e do vício. antes. eventualmente. as relações interpessoais são mantidas em tons extremos . agonístico oral. A ligação entre narrador. Os sofrimentos físicos comuns e constantes da vida em muitas sociedades primitivas explicam em parte. portanto. Ela é bastante conhecida nos poemas orais de louvor na África atual. a violência nas formas artísticas orais também está ligada à própria estrutura da oralidade. os editores de 7be Mwindo Epic (1971. p.

que preservam as formas arcaicas em seu vocabulário especial. pp. inflexões vocais. o fundador do estado de Gonja. vivida. Os significados da palavra nascem continuamente do presente. 31-33) citam exemplos impressionantes da homeostase de culturas orais na transmissão de genealogias fornecidos por Laura Bohannan. como num dicionário. como literatos. como pai de sete filhos. tal como usados. mas cujo significado já não conhecem (Carrington 1974. as formas arcaicas são correntes. à época em que os . expressam-se em formas elaboradas que preservam certas palavras arcaicas que os executantes podem vocalizar. É verdade que as formas artísticas orais. isto é. Assim. As forças que governam a homeostase podem ser percebidas quando se reflete sobre a situação das palavras num cenário oral primário. sempre ocorre. 94-95). Nos últimos anos. tal como ela ocorre em textos datáveis. que. Fossem quais fossem as coisas a que essas palavras se referissem. 29) chamam de "ratificação semântica direta". desapareceram da experiência diária lokele. pelas situações da vida real em que a palavra é usada aqui e agora. Goody e Watt (1968. até mesmo em culturas de alta tecnologia. tais como o poema épico. Goody e Watt (1968. no entanto. pp. sabe-se que as palavras possuem camadas de significado. as genealogias de fato usadas oralmente na solução de disputas jurídicas divergem bastante das genealogias cuidadosamente registradas por escrito pelos ingleses 40 anos antes (em virtude de sua importância. em que a palavra real. pp. entre o povo tiv da Nigéria. Ong 1977. Os tambores africanos. possuem palavras semelhantes que perderam seus significados referenciais originais e constituem praticamente sílabas sem sentido. Muitos exemplos dessa sobrevivência de termos vazios podem ser encontrados em Opie e Opie (1952). cada um dos quais governava uma das sete divisões territoriais do estado. expressão facial e todo o cenário humano e existencial. desse modo. elas vivem preponderantemente num presente que se mantém em equilíbrio ou homeostase. QV'ando passam as gerações e o objeto ou a instituição a que se refere o mundo arcaico já não fazem parte da experiência presente. falada. As culturas orais obviamente não possuem dicionários e têm poucas discrepâncias semânticas. embora limitadas à atividade poética. A integridade do passado estava subordinada à integridade do presente. portanto. muitas das quais bastante irrelevantes em relação aos significados comuns atuais. Os versos ritmados e os jogos transmitidos oralmente de geração a geração de crianças. entre os lokele no leste do Zaire. mediante o uso corrente. mas o uso corrente dos poetas épicos comuns. descartando-se de memórias que já não são relevantes para esse presente. embora os significados passados obviamente tenham moldado o significado presente em muitos e diferentes aspectos. As palavras adquirem significados somente de seu hábitat real sempre constante. não o uso corrente de discursos cotidianos de aldeães.Ao contrário das sociedades de cultura escrita. por exemplo. tem uma certa durabilidade. também. em Gana. 33) relatam um caso ainda mais notavelmente específico de "amnésia estrutural" entre os gonja. nessa época também. O significado de cada palavra é controlado por aquilo que Goody e Watt (1968. p. podem ser registrados em definições formais. ilimitada. isto é. embora a palavra tenha sido conservada. conservam algumas palavras. A mente oral não está interessada em definições (Luria 1976. e o termo que permanece ficou vazio. Emrys Peters e Godfrey e Monica Wilson. as sociedades orais podem ser caracterizadas como homeostáticas (Goody e Watt 1968. A memória do antigo significado de antigos termos. em disputas jurídicas). pp. conseguem recuperar e comunicar os significados originais dos termos perdidos a seus usuários orais atuais. Os tiv posteriores afirmaram que estavam usando as mesmas genealogias de 40 anos antes e que os registros anteriormente escritos estavam errados. p. descobriu-se que. Os dicionários chamam a atenção para discrepâncias semânticas. O que ocorreu foi que as genealogias posteriores haviam sido adaptadas às relações sociais que haviam sofrido mudanças entre os tiv: eram as mesmas no sentido de que funcionavam do mesmo modo para regulamentar o mundo real. que não consiste meramente. que não é. 41-42. pp. As culturas tipográficas inventaram dicionários nos quais os vários significados de uma palavra. 48-99). em outras palavras. já não reconhecidos. Registros escritos feitos pelos ingleses na virada do século XX mostram que a tradição oral gOnja de então apresentava Ndewura ]akpa. Sessenta anos depois. Essas apresentações fazem parte da vida social cotidiana e. 31-34). mas inclui também gestos. seu significado é geralmente alterado ou simplesmente desaparece.

e traduzido para o inglês dois anos mais tarde. Henige (1980. Luria. mas a parte do passado sem nenhuma relevância visível para o presente havia simplesmente caído no esquecimento. os narradores orais hábeis deliberadamente variam suas narrativas tradicionais. porque faz parte de sua habilidade a capacidade de adaptação a novos públicos e a novas situações ou simplesmente de agradar. 8). de modo algum "abstrato". p.. Se ele conhece genealogias que já não são pedidas. e a outra em virtude de uma mudança de fronteira. Havelock (1978a) mostrou que os gregos pré-socráticos pensavam na justiça de modos antes operacionais do que formalmente conceituais. n. elas são descartadas de seu repertório e com o tempo desaparecem. 33. As culturas orais tendem a usar conceitos dentro de quadros de referência situacionais. O estudo de Luria proporciona uma compreensão mais adequada do funcionamento do pensamento fundado no oral do que as teorias de Lucien Lévy-BruW (1923). Os gonja ainda estavam em contato com seu passado. Existe uma vasta literatura sobre esse fenômeno. Um termo tão "concreto" como "árvore" não se refere simplesmente a uma árvore "concreta" específica. 157) chamou a atenção para o fato de que. observa que o "modo oral. 36) adaptará sua declamação ao elogio de seus empregadores. assim como Harms (1980. As genealogias dos vencedores políticos têm evidentemente mais possibilidade de sobreviver do que as dos vencidos. como Franz Boas (não George Boas. simplesmente ele próprio. uma abstração considerável com a qual os literatos traduziram o termo. à medida que as sociedades outrora orais se tornaram cada vez mais letradas. mas constitui uma abstração. Todavia. O livro de Luria foi publicado na sua edição original russa apenas em 1974. Além disso. no sentido de que se baseava antes em sistemas de crença do que na realidade prática. aplicado por Homero a Egisto: o epíteto significa não "irrepreensível". 247. que Todo pensamento conceitual é até certo ponto abstrato. que. mas pode ser aplicado a qualquer árvore. ao fazer um relato sobre as listas de reis de Ganda e de Myoro. se todo pensamento conceitual é assim. faziam questão desse contato em seus mitos. Nestes últimos mitos. isso se aplica aos bashu. pp. Cada objeto específico que intitulamos "árvore" é verdadeiramente "concreto". mas "belo-comoum-guerreiro-pronto-para -a-Iuta-é-belo" . sensível. que possuem um mínimo de abstração. 178) acha que se aplica aos bobangi. n. T. O presente impunha sua própria economia às lembranças passadas. Edmund Leach e outros. ele se refere a um conceito que não é desta ou daquela árvore. 255). alguns usos de conceitos são mais abstratos do que outros.O. Packard (1980. quarenta e dois anos após o término de sua pesquisa.mitos de estado foram novamente registrados. Nenhum estudo sobre o pensamento operacional é mais fecundo para nossos objetivos presentes do que Cognitive development: lts cultural and socialfoundations [O desenvolvimento cognitivo: Seus fundamentos culturais e sociais] (1976). As culturas orais estimulam o triunfalismo.R. Seguindo indicações do psicólogo soviético Lev Vygotsky. A seu ver. duas das sete divisões haviam desaparecido. e a falecida Anne Amory Parry (1973) afirmou o mesmo sobre o epíteto amymon. operacionais. até certo ponto abstrato. Luria realizou um vasto estudo de campo com indivíduos analfabetos (isto é. uma por anexação a uma outra divisão. Um griot da África Ocidental contratado por uma família real (Okpewho 1979. na União Soviética. nos tempos modernos. que permanecem próximos ao mundo cotidiano da vida humana. as tradições orais refletem antes valores culturais presentes do que uma curiosidade inútil sobre o passado. p. fundado no oral) "pré-Iógico" e mágico. p. Devemos atentar aqui para as implicações desse fato em relação às genealogias orais. I de uma realidade individual.. mas o termo que aplicamos ao objeto individual é em si mesmo abstrato. como cita erroneamente Luria 1976. ou do que as teorias propostas pelos oponentes de Lévy-Bruhl. 25-26. de A. 248. extraída e distanciada . que concluíra ser o pensamento "primitivo" (na verdade. p. Beidelman. Um griot da África Oriental ou outro genealogista oral recitará aquelas genealogias que seus ouvintes entendem. tendeu normalmente a desaparecer. Ndewura Jakpa tinha cinco Hlhos e não se mencionava nenhuma das outras duas divisões extintas. na opinião de Claude Lévi-Strauss. p. orais) e indivíduos com algum conhecimento da escrita nas regiões mais remotas do Usbequistão (a terra natal de Avicena) e Quirguízia. durante 1931 e 1932. permite que partes inconvenientes do passado sejam esquecidas" em virtude das "exigências de continuidade do presente".

quadrados etc. em oposição aos fundados no quirográfico. 56). todos os esforços tiveram como objetivo adaptar as perguntas aos sujeitos em seu próprio meio. Se tiver de tirar um deles. pp. pensa-se em aplicar a ferramenta a ela. serra. identificavam figuras geométricas por nomes categoricamente geométricos: círculos.). balde. Quando lhe perguntam por que uma outra pessoa rejeitara um item numa outra série de quatro que ele julgara pertencerem a uma mesma classe. triângulos e assim por diante 0976. Entre as descobertas de Luria. não podemos construir nada" Cibid. e seus dados se encaixam claramente nas classes dos processos noéticos fundados no oral. A serra irá serrar a tora e a machadinha irá cortá-Ia em pedacinhos. Ela não é tão boa para trabalhar quanto uma serra" 0976. e não codifica suas descobertas especificamente em termos de diferenças oralidade-cultura escrita. afirmava que os povos primitivos pensavam como nós. Haviam sido treinados para dar respostas escolares. sim. machadinha. um jovem de 18 anos que estudara numa escola de aldeia durante apenas dois anos. em torno das diferenças entre oralidade e cultura escrita. relógio ou lua. mas insistiu na correção da classificação quando foi contestado 0976. na verdade. um quadrado seria chamado de espelho. Luria chama explicitamente a atenção para esse fato) e mostram aquilo que o estudo mencionado e citado por Carothers (1959) também revela: um grau minimamente moderado de cultura escrita faz uma enorme diferença nos processos mentais. 14). mas em termos de situações práticas . tora. jogo fora a machadinha. com certo grau de cultura escrita. Os contrastes revelados entre os analfabetos (a grande maioria dos seus sujeitos) e os alfabetizados são visíveis e certamente significativos (muitas vezes. a serra e a machadinha são todos ferramentas. mas usavam um conjunto diferente de categorias. Quando lhe dizem que o martelo. mas mesmo se tivermos ferramentas ainda assim precisamos da madeira. mas temos todos os motivos para crer que possuíam um nível normal de compreensão e eram bastante representativos da cultura. 32-39). Alunos de cursos para professores. quadrados.um jogo intelectual estranho. como enigmas com os quais os sujeitos estavam familiarizados. e lhes pediram que agrupassem aqueles que eram semelhantes ou poderiam ser colocados num grupo ou designados por uma palavra. Uma série consistia em desenhos dos objetos martelo. a tara não é uma ferramenta). O sujeitos de Luria identificavam os desenhos como representações das coisas reais que conheciam. ele despreza a classe categorial e persiste no pensamento situacional: "Sim. Mas. a despeito da ancoragem rigorosamente marxista. 1) Sujeitos analfabetos identificavam figuras geométricas atribuindo-Ihes os nomes de objetos. respondeu: "Provavelmente esse tipo de pensamento está em seu sangue. Desse modo. peneira. Estes não eram líderes em suas sociedades. . como "a economia individualista não regulamentada centrada na agricultura" e "o início da coletivização" 0976. 74). Ele classifica os indivíduos entrevistados segundo uma escala que vai do analfabetismo a vários níveis de cultura escrita moderada. p. não respostas tiradas da vida real. do contrário. e não em manter a ferramenta longe daquilo para que foi feita . apresentando as perguntas para a pesquisa em si de modo informal. Luria ocupa-se até certo ponto de outras questões que não a das conseqüências imediatas da cultura escrita. por outro lado. Dentro de um quadro rigoroso de referência teórica marxista. com objetos concretos. não apenas classificou uma série análoga em termos categoriais. as seguintes podem ser apontadas como de especial interesse aqui: círculos ou quadrados abstratos. à exceção da tora. Luria e seus colegas reuniram dados durante longas conversas com sujeitos no ambiente informal de uma casa de chá. p. Quando se trabalha com ferramentas e se vê uma tara. mas. Nunca lidavam com 2) Apresentaram-se aos sujeitos desenhos de quatro objetos. p. o relato de Luria gira claramente. plataforma de secagem de damasco. sem atentar absolutamente para o fato de que a classificação "ferramenta" se aplicava a todos os objetos.. Os sujeitos analfabetos sempre pensavam no grupo não em termos categoriais (três ferramentas. três pertencentes a uma categoria e o quarto a uma outra. porta. casa."pensamento situacional" -. Um círculo seria chamado de prato." Por outro lado. Um camponês analfabeto de 25 anos: "São todos iguais. nunca abstratamente como círculos.

Por outro lado. Em suma. sobre a cor de um urso polar? Além disso. Nunca vi outros . foice. 34 anos) (1976. o categorial. Apresentada a série machado. Você descobre de que cor são os ursos olhando para eles. No extremo norte. Ele enfemJja ou não? Respostas típicas a essa indagação incluíram: "Metais preciosos enferrujam ou não? O ouro enferruja ou não?" (camponês. E por que seriam interessantes? O silogismo está relacionado ao pensamento. Ele aponta para o fato de que os indivíduos sem educação acadêmica não estão familiarizados com essa regra básica especial. Cada localidade tem seus próprios animais" (1976. não tinha interesse. antes. mas tendem. sai-se da seguinte forma: "A crer no que você diz. seus sujeitos analfabetos pareciam não operar absolutamente com procedimentos dedutivos formais . O enigma pertence ao mundo oral. O que nos lembra do relato de Malinowski (1923." É sua responsabilidade. p. como posso ter certeza de que você está certo quando diz que todos os ursos são brancos numa região coberta de neve? Quando o silogismo lhe é apresentado uma segunda vez. Quem alguma vez ouviu falar de raciocinar. ele completou a série com a serra "São todas ferramentas de agricultura" -. mas em questões práticas ninguém trabalha em termos de silogismos formalmente expressos. James Fernandez (1980) observou que um silogismo é auto-suficiente: suas conclusões derivam apenas de suas premissas. onde há neve. Para resolvê-Io. de 45 anos. Porém. p. p. 502) sobre como os "primitivos" (povos orais) possuem nomes para a fauna e a flora que são úteis em suas vidas. que parecem ter julgado desinteressantes. eles deveriam ser todos brancos" (1976. embora com a predominância do último. quando voltavam efetivamente a refletir sobre um problema por si mesmos. Luria tentou ensinar a sujeitos analfabetos alguns princípios de classificação abstrata. todos os ursos são brancos. a cultura escrita limitada do dirigente deixa-o mais à vontade no mundo da vida cotidiana interpessoal do que num mundo de puras abstrações: "A crer no que você diz . À luz desse conhecimento. "Você pode segá-Ia com a foice" (1976. Metais preciosos não enferrnjam. se a resposta surge dessa forma. espiga. para além das próprias palavras do enigma. e portanto fez de uma parte permanente de seus recursos noéticos o tipo de pensamento que a escrita alfabética tornou possível. Algumas tinturas de cultura escrita levam longe.. 114). mas apenas que eles não adaptariam seu pensamento a formas puramente lógicas. em sua interpretação de dadas afirmações. como se faz normalmente nas situações da vida real ou nos enigmas (comuns em todas as culturas orais). mas tratam as outras coisas da floresta como um fundo geral sem importância: "Isso é apenas 'mato'.. O ouro precioso enferruja" (camponês analfabeto. machadinha. desse modo. a ir além das afirmações em si. p. no estágio apenas inicial de alfabetização. 54-55)." 3) Sabemos que a lógica formal foi inventada pela cultura grega depois de ter interiorizado a tecnologia da escrita alfabética. Em determinados momentos de suas discussões. encerrado. Eu acrescentaria a observação de que o silogismo é. 108-1(9). não minha.. Referindo-se ao estudo de Michael Cole e Sylvia Scribner na Libéria (1973). pp. na vida prática. 67). ." "Somente um animal voador. num silogismo. pp. Vi um urso negro. que deveria completar a série serra. como um texto.Um trabalhador de 56 anos. muitas vezes profundamente inconsciente. eles nunca os compreendiam completamente e. misturou agrupamentos situacionais e categoriais. os experimentos de Luria com as reações dos analfabetos ao raciocínio formalmente silogístico e inferencial são particularmente esclarecedores. não era importante. um dirigente de uma fazenda coletiva. a respeito da espiga. Esse fato revela a base quirográfica da lógica. Estavam convencidos de que o pensamento diferente do situacional. fixo. é preciso esperteza: usa-se o conhecimento. tora.o que não significa que não soubessem pensar ou que seu pensamento não fosse governado pela lógica. 104). "Metal precioso enferruja. p. 72). retomavam ao situacional e não ao categorial (1976. O ouro é um metal precioso. era fútil (1976.. a saber. num estágio apenas inicial de alfabetização. Novaya Zemhla está no extremo norte e sempre há neve lá. "A crer no que você diz" parece indicar a percepção das estruturas formais intelectuais. mas depois reconsiderou e acrescentou. assim como em outras formas. isolado. 18 anos). A classificação abstrata não era inteiramente satisfatória. De que cor são os ursos?Eis uma resposta típica: "Não sei.

mas é uma definição em termos de suas operações. como é seu caráter. Poderíamos argumentar que as respostas não eram mais favoráveis porque os entrevistados não estavam acostumados a se ver diante desse tipo de perguntas. analfabeto. olmo. de 30 anos. eu lhes direi que ônibus têm quatro pernas. Numa viagem. 148). Mas a água não é suficiente. não precisam que eu lhes explique". Um outro homem. a quem se perguntou que tipo de pessoa ele era. 15). vai descobrir. Usa fogo e vapor.. "E quais são os seus defeitos?" "Este ano eu plantei um pood de trigo e estamos aos poucos corrigindo as deficiências. Mas a falta de familiaridade . Por que definir se um cenário da vida real é infinitamente mais satisfatório do que uma definição? Basicamente o camponês tinha razão. os pedidos de definições dos objetos. p. respondeu com uma franqueza tocante e cordial: "O que posso dizer sobre meu próprio coração? Como posso falar sobre meu caráter? Pergunte aos outros. O que você diria às pessoas [que um carro él?" "Se eu for." "Por que eu deveria fazê-Io? Todo mundo sabe o que é uma álVore. A auto-análise requer um certo desmantelamento do pensamento situacional." "Você está contente consigo mesmo ou gostaria de ser diferente?" "Seria bom se eu possuísse mais terra e pudesse plantar um pouco de trigo. de gênio forte. p. Primeiro temos de acender o fogo para que a água vire um vapor quente . Perguntou-se a um homem de 38 anos. até mesmo os mais concretos.é muito veloz.4) No trabalho de campo realizado por Luria. ninguém nos respeitaria" (1976. p. eu diria: 'Se você entrar num carro para dar uma volta. todavia. um trabalhador alfabetizado de uma fazenda coletiva. Não há como refutar o mundo da oralidade primária. era muito pobre e agora estou casado e tenho filhos. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos fornecidos por Luria. p. cadeiras em frente para as pessoas se sentarem. Por outro lado. encontraram resistência. p. "Bem. O que você pensa de si mesmo?" "Nós nos comportamos bem se fôssemos pessoas más. Embora ele não estivesse bem informado. um teto para sombra e uma máquina. p. fez uma tentativa de definir um carro. respondeu um camponês analfabeto. deve haver. Eu mesmo não posso dizer nada. 90). Não sei se há água num carro. uma • retirada do centro para longe de qualquer situação o suficiente para permitir que o centro.. um camponês de 36 anos.o vapor dá potência à máquina . o eu. Exige isolamento do eu. quais são suas boas qualidades e suas deficiências? Como você se descreveria?" "Eu cheguei aqui de Uch-Kurgan. não de dentro. situacional 0976.''' O respondente enumera algumas características. 5) Os analfabetos de Luria têm dificuldade em articular uma auto-análise. "Como você definiria uma álVore em duas palavras?" "Em duas palavras? Macieira. Sua definição. eles podem lhe dizer algo a meu respeito. em torno do qual gira todo o mundo vivido para cada indivíduo. oriundo de uma região de pastagens nas montanhas (1976.esse tipo de descrição está além da capacidade da mente oral-. também precisa de fogo" 0976." "Suponhamos que você vá a um lugar onde não haja carros. diz: "É feito numa fábrica. mas no fim retoma à experiência individual. 87). "Tente me explicar o que é uma álVore." As circunstâncias exteriores dominam a atenção. Tudo o que se pode fazer é afastar-se dele em direção à cultura escrita. mas são típicos. de 22 anos 0976. pode percorrer a distância que um cavalo levaria dez dias para cobrir . 150): "Que tipo de pessoa é você." O julgamento sobre um indivíduo vem de fora. 86). A auto-avaliação se ajustava à avaliação do grupo ("nós") e era então tratada em termos das expectativas dos outros. álamo. seja examinado e descrito. as pessoas são diferentes calmas. Luria fez suas perguntas somente depois de uma longa conversa sobre as características das pessoas e suas diferenças individuais 0976. ou às vezes sua memória não é boa. não importa o quão inteligentemente Luria os levasse a cenários semelhantes a enigmas. Mas para ir direto ao assunto." Mais situações exteriores. não está centrada na descrição da aparência visual .

mas também falam segundo os padrões da cultura escrita." As nações orais avaliam a inteligência não sob o aspecto presumido de testes maquinados em manuais. isto é. p. uma experiência direta do pensamento organizado segundo a cultura escrita da parte de outros. O pensamento oral. 1978). milhares de anos após a invenção da escrita. isto é. mas tão somente porque são bons navegadores. Indivíduos que interiorizaram a escrita não apenas escrevem. processos de raciocínio formalmente lógico.é exatamente o ponto principal: uma cultura oral simplesmente não lida com questões como figuras geométricas. "O que é uma árvore?" Ele está realmente esperando que eu responda a isso. que precisam ser muito inteligentes em virtude de sua arte complexa e rigorosa. mas do pensamento formado pelo texto. 53-76). os pertencentes à cultura escrita julgaram ingênua essa organização. As perguntas de Luria são perguntas de sala de aula. p. não respondendo à própria pergunta aparentemente insensata. As pessoas que fazem essas perguntas têm vivido com uma sucessão ininterrupta de tais questões desde a infância e não estão conscientes de que estão usando regras especiais. Elas são legítimas. categorização abstrata. pp. são semelhantes ou idênticas às perguntas de testes padronizados de inteligência. alguém ler composições escritas ou diálogos como os que somente pessoas pertencentes à cultura escrita podem manter. Mas isso não é um enigma. às habilidades intelectuais naturais de indivíduos de uma cultura fortemente oral. contudo. a menos que soubessem escrever. os analfabetos podem ter tido . p. associadas ao uso de textos e. Até poucas gerações atrás. mas dentro de contextos operacionais. pelo menos no que diz respeito a esse caso. a prática acadêmica exigiu que os estudantes "recitassem" em classe. Terão ouvido. no Ocidente. na verdade. em diferentes graus. Os promotores dos testes de inteligência devem convir que as perguntas de nossos testes comuns de inteligência são talhadas para um tipo especial de consciência. como muitos de seus respondentes claramente fizeram. Essas perguntas estão ausentes. mas o indivíduo oral não conhece as regras. tal como a dos sujeitos de Luria. profundamente condicionada pela cultura escrita e pela impressão (Berger. e talvez ainda na maior parte do mundo atualmente. a seu próprio modo. de modo rigoroso. Narradores navajos de histórias folclÓricas de animais podem dar explicações minuciosas das várias . organizam. pode ser bastante sofisticado e. Numa sociedade com algum grau de cultura escrita. quando ele e qualquer pessoa viu milhares de árvores? Posso lidar com enigmas. As questões em exames escritos passaram a ter um uso geral (no Ocidente) apenas muito depois que a impressão produzisse seus efeitos sobre a consciência. não porque os considerem "inteligentes". reflexivo. a quem se perguntou o que pensava do novo diretor da escola da aldeia. mas tentando avaliar o contexto enigmático como um todo (a mente oral totaliza): Para que ele está me fazendo essa pergunta tola? O que ele está tentando fazer? (Ver também Ong 1978. "Vamos observar um pouco como ele dança.e muitas vezes tiveram -. retomassem oralmente às afirmações do professor (fórmulas . O latim clássico não possui uma palavra para "exame" como o que "fazemos" hoje e no qual tentamos "passar" na escola. Um habitante da África Central. mas provêm de um mundo do qual o respondente oral não faz parte. construídas por indivíduos pertencentes à cultura escrita. ou auto-análise articulada. é claro. mas também das escritas. por exemplo. podem não ter um efeito perceptível sobre os analfabetos. O assédio a estudantes ou a qualquer outro indivíduo com questões analíticas desse tipo surge num estágio bastante tardio de textualidade. 4). Uma vez que a organização oral do pensamento não segue esses padrões. nenhum dos quais deriva simplesmente do próprio pensamento.a herança oral) que haviam memorizado nas exposições em classe ou nos manuais (Ong 1967b. no Pacífico Sul. 61). A escrita deve ser individualmente interiorizada para que possa influenciar os processos de pensamento. Será um jogo? É claro que é um jogo. Gladwin 0970. 219) observa que os habitantes da Ilha de Pulawat. respeitam seus navegadores. respondeu a Carrington 0974. De um indivíduo altamente inteligente de uma cultura oral ou residualmente oral deveríamos esperar normalmente que reagisse ao tipo de pergunta de Luria. na verdade. Um mérito do estudo de Luria é mostrar que tais contatos ligeiros com a organização do conhecimento própria da cultura escrita. As reações dos sujeitos indicam que talvez seja impossível montar um teste escrito ou mesmo um teste oral construído num cenário de cultura escrita que tivesse acesso. definições ou até mesmo descrições abrangentes. até mesmo sua expressão oral em padrões de pensamento e padrões verbais que não conheceriam. uma "consciência moderna". não apenas das culturas orais.

Heitor. se empurrarmos com força um objeto móbil. por exemplo. p. inteligentes e belas. por exemplo. A llíada e a Odisséia eram rigorosamente métricas. mas de fórmulas. Numa cultura letrada. de algum modo. no sentido de que os povos orais não compreendem relações causais. no entanto.implicações das histórias para uma compreensão de questões complexas da vida humana. com êxito. À primeira vista. tais como as genealogias.tal como. será necessário discutir algumas das operações da memória oral. deveriam ser essencialmente composições escritas. 156). que se conhecessem gravações sonoras não estava claro. Como poderia um cantor apresentar prontamente uma narrativa que consistisse de milhares de versos hexâmetros dactílicos. uma vez que. e estão perfeitamente conscientes de coisas como incongruências físicas (por exemplo. a menos que os tivesse memorizado palavra por palavra? Aqueles que pertencem à cultura escrita e são capazes de recitar obras métricas extensas prontamente. qualquer um deles devia ser apresentado dizendo algo. Ulisses é polymetís (astuto) não apenas porque tenha • A memória verbal é. Para compreender como elas o fazem. os estudos de Milman Parry e Albert Lord provaram novamente ser revolucionários. Parry demonstrou que a llíada e a Odisséía eram essencialmente criações orais. compreensivelmente. para Ulisses. os pertencentes à cultura escrita geralmente assumiam que a memorização oral numa cultura oral normalmente atingia o mesmo objetivo de repetição perfeitamente literal. em qualquer sentido simplista . p. na ausência da escrita. ele mostrou que os hexâmetros não eram simplesmente compostos de unidades vocabulares. Com esse vocabulário hexâmetro. a única maneira de testar a repetição literal de passagens longas seria a recitação simultânea das passagens por duas ou mais pessoas juntas. Eles sabem muito bem que. o poeta possuía epítetos e verbos que os adaptariam ao metro de forma exata quando. No passado. Mas o modo como a memória verbal funciona em formas artísticas orais é muito diferente daquele que os indivíduos pertencentes à cultura escrita do passado comumente imaginaram. assim como para os outros personagens. Metepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ou prosepbe polymetis Odysseus (falou o astuto Ulisses) ocorrem 72 vezes nos poemas (Milman Parry 1971. As pessoas pertencentes à cultura escrita contentavam-se simplesmente em admitir que a prodigiosa memória oral funcionava. ajustando cada fórmula a um verso hexâmetro. em virtude de os poemas homéricos mostrarem tanta habilidade. sem memorização literal. segundo seu próprio modelo textual literal. Atena ou ApoIo. fossem quais fossem as circunstâncias que determinaram seu registro pela escrita. mas agregativas. o empurrão fará com que ele se mova. coiotes com bolas de âmbar como olhos) e da necessidade de interpretar simbolicamente elementos das histórias (Toelken 1976. do fisiológico ao psicológico e ao ético. A verdade é que eles não podem organizar concatenações complicadas de causas do tipo analítico de seqüências lineares. as culturas orais podem produzir organizações de pensamento e de experiência incrivelmente complexas. memorizaram-nas literalmente com base em textos. nos poemas homéricos. Ao avaliar de modo mais realista a natureza da memória verbal nas culturas orais primárias. que seus processos mentais são "toscos". Porém. um trunfo valorizado nas culturas orais. Também não devemos imaginar que o pensamento fundado no oral seja "pré-lógico" ou "ilógico". não são analíticas. in Pany 1971). é o tipo de julgamento que durante séculos fez com que estudiosos afirmassem falsamente que. lançou os alicerces de uma nova abordagem que podia explicar tal execução. essa descoberta pareceria confirmar a hipótese de memorização literal. grupos de palavras para lidar com material tradicional. Porém. as quais somente podem ser construídas com o amemo de textos. Como vimos no capítulo 2. O poeta possuía um enorme vocabulário de frases postas em hexâmetros. Parry 0928. Como tal repetição poderia ser verificada antes . O estudo de Parry sobre os poemas homéricos concentrou-se na questão. à condição de que lidasse com material tradicional. Afirmar que os povos orais são fundamentalmente não inteligentes. As seqüências longas que eles produzem. Desse modo. 51). ele podia fabricar versos metrificados exatos em quantidade infinita. a memorização literal é geralmente feita com base em um texto ao qual o memorizador retoma tantas vezes quanto necessário para aperfeiçoar e testar o domínio daquela memorização. Recitações sucessivas não podiam ser confrontadas entre si. raramente se procuravam exemplos de recitação simultânea em culturas orais.

tempo para "se emprenhar" da história. As façanhas mnemônicas desses bardos orais são notáveis. O material fixo na memória do bardo é um veículo de temas e fórmulas com os quais todas as histórias são construídas de diferentes modos. sem que interferissem na linha narrativa ou no estilo do poema épico. Quando recorda e reconta a história. revela que. e/ou ao público. do estado de espírito do poeta ou da ocasião. assim como sua utilização. mas são "a recordação de canções cantadas" (Peabody 1975. Ele precisa de tempo para deixar que a história mergulhe em seu próprio estoque de temas e fórmulas. Como se observou anteriormente. em nenhum sentido literal da palavra ele "memorizou" a reprodução métrica da versão do outro cantor . Um poeta oral não está trabalhando com textos ou numa moldura textual. embora os cantores estejam conscientes de que dois diferentes . coisa ou ação. 20-29).uma versão que há muito tempo desapareceu no momento em que o novo cantor está meditando sobre a história para sua nova reprodução (Lord 1960. de modo que cada uma das versões metricamente regulares da mesma história diferisse quanto ao fraseado? Ou a história era dominada literalmente. mas eram costurados ou "rapsodiados" diferentemente em cada reprodução. a adequação desses e de outros epítetos homéricos foi ingenuamente exagerada. 216). não podiam ser gravados para uma prova conclusiva. como Lord descobriu: introduz em sua mente o conceito de um texto como controlador da narrativa e por isso interfere nos processos de composição oral. como os de Homero. O poeta possuía milhares de outras fórmulas métricas de funcionamento análogo. adiar sua recitação geralmente enfraquece sua lembrança. Os cantores orais realmente deslocavam as fórmulas. que nada têm a ver com textos. A originalidade não consiste em introduzir novo material. os temas e as fórmulas. a maioria das palavras na llíada e na Odisséia ocorrem como partes de fórmulas identificáveis. Seus poemas narrativos. agora na Parry Collection da Universidade de Harvard. construindo a enorme coleção de gravações orais dos poetas narrativos iugoslavos de nossa época. assim como os temas. A memória de canções dos poetas orais é ágil: "Não era raro" deparar com um bardo iugoslavo cantando "versos de 10 a 20 sílabas por minuto" (Lord 1960.. o material. As gravações das apresentações dos bardos do século XX foram complementadas com gravações de entrevistas com eles. indivíduo. Aprender a ler e escrever incapacita o poeta oral. Uma das descobertas mais reveladoras no estudo de Lord foi a de que. O estudo de Parry mostrou que fórmulas metricamente talhadas controlavam a composição do antigo épico grego e que as fórmulas podiam ser deslocadas muito facilmente. Na verdade. diferirá visivelmente de um para outro. uma prova decisiva estava disponível nos poetas narrativos vivos na Iugoslávia moderna.e. essa natureza. na verdade. de modo a ser reproduzida exatamente em cada apresentação? Uma vez que todos os poetas homéricos pré-textuais haviam morrido havia mais de 2 mil anos. mas em adaptar o material tradicional de modo eficaz a cada situação específica.é analfabeta. os melhores . durante meses e anos. que podiam se adaptar a suas diversas necessidades métricas praticamente qualquer situação. p. A maioria desses poetas narrativos eslavos do sul ainda vivos . Na sua essência. mas também porque sem o epíteto polymetis ele não podia ser prontamente metrificado. sabemos como os bardos aprendem: ouvindo. ou o "alinhavamento" de narrativas. é claro. pertencem a uma tradição claramente identificável. elas nunca eram cantadas duas vezes do mesmo modo. as mesmas fórmulas e os mesmos temas se repetiam. no entanto. Basicamente. única. Uma comparação entre as canções gravadas. dependendo da reação do público. país adjacente à antiga Grécia e que em parte sobrepunha-se a ela. embora seu verso métrico fosse diferente do antigo hexâmetro dactílico grego. Lord continuou e ampliou o trabalho de Parry. porém. Parry encontrou esses poetas compondo narrativas épicas orais para as quais não havia texto. As fórmulas sofrem alguma variação. eram métricos e formulares. até pelo mesmo poeta. Na memorização de um texto escrito. e a "rapsodização" do poeta. embora metricamente regulares. assim como de outros fatores sociais e psicológicos. mas diferem daquelas associadas à memorização de textos. pp. outros bardos que nunca cantam uma narrativa do mesmo modo duas vezes. Certos torneios de frases serão idiossincráticos. mas que usam repetidas vezes as fórmulas-padrão relativas aos temas-padrão. Os pertencentes à cultura escrita ficam comumente surpresos ao saber que o planejamento do bardo para repetir a história que ouviu apenas uma vez deve muitas vezes esperar um dia ou dois após ele tê-Ia ouvido. p. 17). Porém. Com base nessas entrevistas e na observação direta.

118-119) relata como. quando quiser e "exatamente igual daqui a 20 anos" (Lord 1960. pp. o ouvinte toma o refrão. O que conseguem? ~a maioria das vezes. As descobertas de Goody. que. relatado por Joel Sherzer (1982). corrigindo todos os erros que julga que se esteja cometendo. ou para uma elocução. Muitos casos de "memorização" de poesia oral citados como provas de "composição prévia" pelo poeta. separativa.o entre _os cristãos. também os executores orais atribuem tipos de realizações orais a alfabetizados. Sherzer . 114) registra esforços reais. cantores analfabetos na cultura altamente letrada da moderna Iugoslávia desenvolvem e manifestam posições em relação à escrita (Lord 1960. Lord mostrou a aplicabilidade da análise oral-formular ao inglês arcaico (Beowulj). até mesmo no caso . Em todo o . Opland 0976. tal como nos exemplos em Finnegan 0977. sobre a validade dessas comparações e o sentido discutível da "poesia oral" em Finnegan. mas a juntá-Ias. recitações pelo mesmo indivíduo. 76) e "um número muito maior de repetição verbal e verso por verso do que se poderia esperar da analogia iugoslava" 0977. ou para uma unidade rítmica de uma canção. na África do Sul. 27). aqui como em qualquer outra parte. Goody (1977. recriar uma canção longa depois de ouvi-Ia apenas uma vez. português e outras línguas (ver Foley 1980b). não parecem ter uma exatidão literal maior. p. A invocação consiste a?enas de "mais ou menos uma dúzia de versos" e. ou para um tema. ver Foley 1979). verifica-se que são sempre diferentes. 76-82). como Goody. "Verso" é obviamente um conceito textual e até mesmo o conceito de "palavra" como uma entidade discreta. como interpreta Lord 0960. assim como as de outros (Opland 1975. Em 1970. é dierética. pp. não são absolutamente estáveis. Finnegan afirma apenas "estreita semelhança em trechos que atingem uma repetição palavra por palavra" 0977. Se não se pode escrever.) Significativamente. entr~ os lodagaa do norte de Gana. é "algo que todo mundo 'sabe"'. e pronuncia-se a frase inicial da invocação. ou fazem somente com dificuldade. separada do fluxo discursivo. parece ser algo textual. Sherzer gravara uma fórmula longa e mágica de um rito da puberdade sendo ensinada por um homem.. p. embora as canções sejam versões reconhecíveis da mesma história. verso por verso e palavra por palavra. 1976). que era especialista em ritos de puberdade de meninas. p. as reproduções da mvocaçao. 28). 78. e outros mostraram diferentes modos pelos quais os métodos oral-formulares ajudam a explicar a composição oral ou residualmente oral da Idade Média européia. Todavia. p. é simplesmente um modo enfático de dizer "semelhante". 28). "Palavra por palavra e verso por verso". não possuir um termo pronto para "palavra" como um item isolado. Há muito tempo (960). isto é. por Lord na Iugoslávia. ou por indivíduos que irão cornglr quem recita quando a versão não corresponde a sua versão (corrente). p. quando suas supostas reproduções literais são gravadas e comparadas.cantores nunca cantam a mesma canção de modo idêntico. p. Todavia estudos recentes trouxeram à luz alguns exemplos de memorização I~teralmais exata entre povos orais. como o pal-Noss. em . de modo muito mais detalhado. a gravação mostra que a elocução da invocação pode variar de co nsideravelmente de uma recitação para outra. (Os antigos manuscritos tendem não a separar as palavras claramente umas das outras. pelo menos 60% em relação às outras versões. Assim como os pertencentes à cultura escrita atribuem tipos de realizações letradas aos executores orais. Um é o da verbalização ritual entre os canas. trabalhos de campo corroboraram e ampliaram o estudo feito por Parry e. a outros especialistas como ele. o mínimo. segundo os padrões de uma cultura escnta. Na verdade. na costa panamenha. p. Isso é exatamente o que os alfabetizados não são capazes de fazer. quando se conhece a hngua. "pára-raios" constitui uma palavra ou duas? A percepção de palavras individuais como itens significativamente discretos é alimentada pela escrita. Sessenta por cento de exatidão na memorização ganhariam uma nota muito baixa na aula de recitação de um texto ou na reprodução do texto de uma peça teatral por um ator. Ou não? Talvez sejam 28. Por J exemplo. Admiram a cultura escrita e acreditam que uma pessoa alfabetizada pode fazer ainda melhor o que eles fazem. de repetição literal e seus resultados: "Qualquer poeta na comunidade repetirá do poema que consta de meu teste limitado. 115) chamou a atenção para a possibilidade de uma linguagem inteiramente oral que possui um termo para discurso em geral.~ alemão. um cantor replicará que pode fazer sua própria versão de uma canção. francês. Goody 0977. onde a Invocação ao Bagre. no entanto. Todavia. mundo." Êxito e ambição dificilmente se igualam aqui. um "pedaço" de discurso. evidenciam que os povos orais às vezes tentam a repetição literal de poemas ou de outras formas artísticas orais. como em "Esta última frase consiste de 26 palavras".

métricas. a música estabiliza inteiramente o texto. que depois recitam eles próprios em público ou encarregam outro de fazê-lo. e alguns interlúdios puramente instrumentais. Novamente. palavra por palavra. apenas certas estruturas sintáticas específicas ocorrem nos versos dos poemas: em exemplos apresentados por Antinucci. Às vezes. p. com base em Finnegan 1977. Sherzer (982) também chama particularmente a atenção para o fato de que as enunciações nas quais pôde verificar uma recitação literal são construídas com elementos formulares análogos aos das apresentações orais do tipo comum. Com base em seu próprio trabalho de campo minucioso no Japão. Embora em todos esses exemplos a produção de poesia oral ou outra verbalização oral por uma memória conscientemente desenvolvida não seja idêntica à prática oral-formular da Grécia homérica ou da moderna Iugoslávia ou de inúmeras outras tradições. Novamente. como os feitos pelo h01110ioteleuton . rapsódico. fonema por fonema. mudanças das quais não se dão conta. embora eles próprios façam. uma década ou mais) ainda está por ser investigado. Indubitavelmente. o exemplo apresentado por ele é o de uma reprodução literal claramente bem-sucedida. 148). na qual uma narrativa oral. Eles não conseguem estabelecer quais são as regras métricas. Certos movimentos na narrativa são mais propensos a erros do que outros. mas em outras gera erros dos mesmos tipos encontrados nas cópias de manuscritos. John william Johnson observa que os poetas orais somalis "aprendem as regras da prosódia de uma maneira muito semelhante. que tem um padrão de escansão aparentemente mais complexo e rígido do que o do antigo poema épico grego. por um dado período de tempo. portanto. 1be tale of the Heike [O conto do Heikel. (Os exemplos citados por Sherzer 1982. Eric Rutledge (981) dá informações sobre uma tradição japonesa. Os mestres (não há nenhum vivo) encarregam-se de treinar seus aprendizes na recitação literal do cântico por meio de uma disciplina rigorosa durante vários anos e conseguem resultados notáveis. às vezes funcionam para efetuar uma certa adaptabilidade ou variação (embora os usuários dos elementos formulares. na verdade. dentro de qualquer grupo determinado de especialistas em fórmulas. No caso da poesia oral somali.um copista (ou executor oral) pula da ocorrência de uma frase final para uma outra ocorrência da mesma frase final. qual seria o grau de estabilidade da verbalização por um período de tempo qualquer (vários anos. n. mas por restrições lingüísticas ou musicais especiais. p. aperfeiçoou-se aqui a reprodução literal de um tipo . ainda existente porém em declínio. senão idêntica. cujos significados os mestres nem mesmo conhecem. Ele propõe que se pense num continuu111 entre o uso "fixo" e o "flexível" de elementos formulares. ver também Johnson 1979a). de modo que a linguagem não pode variar tão prontamente. Em certas partes. O segundo exemplo mostra como a música pode atuar como uma restrição para fixar uma narrativa literal oral. trata-se de composição formular. com algumas poucas partes em "voz pura". se é que não a aumenta.não totalmente invariável.e. apenas dois tipos de estruturas sintáticas em centenas de outros possíveis 0979. Francesco Antinucci mostrou que essa poesia possui não apenas restrições fonológicas. porém notável.) Dois outros exemplos comparáveis ao de Sherzer mostram a reprodução literal de material oral alimentada não por uma moldura ritual. os elementos formulares são arranjados de forma a tentar estabelecer uma uniformidade literal. são formulares a ponto de conter muitas palavras arcaicas.í retomou em 1979 com uma transcrição que havia feito da fórmula e descobriu que o mesmo homem podia repeti-Ia literalmente. assim como não conseguem estabelecer as regras da gramática somali. Embora esse autor não estabeleça o âmbito ou a duração da fórmula literal exata em questão. é entoada com música. Os poetas somalis não compõem e se apresentam normalmente ao mesmo tempo. não equivalentes a seu próprio exemplo. esse caso constitui mais um exemplo claro de memorização literal oral. omitindo o material intermediário. que começam ainda muito novos. Evidentemente. Isto é. que. como mostrou . trabalhando com um mestre oral. mas constróem uma composição em particular. mas também sintáticas. A narrativa e o acompanhamento musical são memorizados por aprendizes. pois as fórmulas nada mais são do que "restrições" e aqui estamos lidando com fórmulas sintáticas (que são também encontradas na economia dos poemas com que Pany e Lord trabalharam). à que aprendem a própria gramática" 0979b. Um é da poesia clássica somali. desacompanhadas de instrumentos. parecem todos discutíveis ~ na melhor das hipóteses . a memorização literal aparentemente não liberta inteiramente os processos noéticos orais da dependência de fórmulas. 3. como já indicamos. não literal. Rutledge (981) chama a atenção para o caráter formular do material presente nos cânticos Heike. 118. nas suas próprias recitações.

Os Vedas são coleções extensas e antigas. podem ser totalmente contrárias aos fatos. até mesmo no ritual. este é o cálice de meu sangue . conservam um alto grau de resíduo oral . especialmente em rituais. O mesmo ritual oral é apresentado repetidas vezes: não literalmente. ou de 1954 (Bright 1981). palavra por palavra. "Fazei-o em minha memória". assim como outras relativas à "memorização" oral. nem mesmo se dá conta dos tipos de indagações levantadas pela obra de Parry. mas com um conteúdo. De fato. 99-100).. um estilo e uma estrutura formular que permanecem constantes de execução para execução. e seus discípulos dedicam ~ntensos esforços à memorização literal.a variação que deve ser permitida nas datas possíveis mostra como são vagos os contatos de nossa época com os cenários originais nos quais se desenvolveram os hinos. 164). freqüentemente feitas por indivíduos pertencentes às culturas escritas. mas conservam um contato vivo com a oralidade primitiva .. possam geralmente julgar "fixo" um uso que. comparada à coloquial. na verdade.Lord.e notas.ser estabilizado palavra por palavra.. nunca foram avaliadas com referência às descobertas de Parry e de Lord. Os cristãos celebram a Eucaristia como seu ato fundamental de culto em virtude das instruções de Jesus. O que foi conservado? A primeira recitação de um poema por aquele que lhe deu origem? Como poderia ele repeti-Io palavra por palavra uma segunda vez e ter certeza de que o fizera? Uma versão produzida por um professor extremamente poderoso? Isso parece possível. antes que Parry completasse qualquer dos seus estudos. o célebre indólogo francês e tradutor do Rig-Veda. de que tais textos longos foram conservados literalmente através de gerações numa sociedade inteiramente oral já não podem ser admitidas sem verificação.isto é. poderiam surgir outras tantas variações. nas culturas orais em geral. a produção de sua própria versão mostra uma variabilidade na tradição e sugere que. na boca de um outro professor igualmente capaz..se é que houve um tal cenário para os Vedas inteiramente independente de textos. 83-84). Porém. tanto quanto sei. ou gurus. é semelhante à escrita pelo fato de que "possui uma estabilidade que a linguagem coloquial não possui. As referências típicas ainda citadas atualmente para comprovar a memo- rização literal dos Vedas datam de 1906 ou 1927 (Kiparsky 1976. Sem um texto.têm uma história complexa e muitas variantes. Os exemplos literais de Sherzer são rituais.nos quais baseamos nosso conhecimento dos Vedas atualmente . pp. tudo indica que. Meras declarações. não aparecem exatamente da mesma maneira nas duas vezes em que são citadas no Novo Testamento. os textos védicos . provavelmente compostas entre 1500 e 900 ou 500 a. . Chafe (982). A proposta de Sherzer é sem dúvida judiciosa. surgem indagações quanto aos modos como a memória dos Vedas realmente funcionava num cenário puramente oral . com certeza.que os cânticos Heike têm uma moldura ritualística. Com efeito. como poderia um determinado hino . provavelmente em completa independência de quaisquer textos. é "flexível" ou variável). as orações e as fórmulas litúrgicas que compõem essas coleções. A antiga Igreja cristã lembrava de forma pré-textual..e afirma explicitamente numa carta dirigida a mim (22 de janeiro de 1982) . disse Jesus na Última Ceia (Lucas 22:19). cruzando as palavras em diferentes padrões para garantir o domínio oral de suas posições umas em relação às outras (Basham 1963. até mesmo em seus rituais textualizados. 25-26 . no entanto. A memorização oral merece um estudo mais extenso e mais detalhado. como vimos. Não há dúvida de que a transmissão oral foi importante na história dos Vedas (Renou 1965. pp. deliberadas ou não. e isso através de muitas gerações? Afirmações. sugere que a linguagem ritual. e Rutledge sugere em seu trabalho . Em Tbe destiny of the Veda in India [O destino do Veda na Índia] (1965). inclusive naquelas exatas passagens de que deveria lembrar com maior freqüência. embora chegar a uma conclusão sobre a questão de ter este último padrão sido habitualmente usado antes que um texto houvesse sido desenvolvido pareça ser um problema insolúvel." Em suma.#26 . as palavras cruciais que os cristãos repetem como sendo as palavras de Jesus. oral. decididamente a grande maioria da recitação oral tende para a finalidade adaptável do continuum. Tais afirmações. feitas de boa fé por indivíduos pertencentes a culturas orais. de que as reproduções são idênticas. tratando especificamente da língua sêneca. a estrutura formular . ao cumprir sua instrução (isto é. Porém. Na esteira dos estudos recentes sobre memória oral.para não falar da totalidade dos hinos das coleções ."). as palavras "Este é o meu corpo . pp. Os professores brâmanes.a própria enunciação ritual muitas vezes não é tipicamente literal. antes dos de Lord (1960) e de Havelock (1963). Mesmo em culturas que conhecem a escrita e dela dependem. fatos que parecem sugerir que dificilmente se originaram de uma tradição oral absolutamente literal. Muitas vezes se menciona a memorização oral literal dos hinos vedas na Índia.c. p. Louis Renou.

e minha fórmula não era a que esperava. p. . A maioria das f descrições de bardos incluem instrumentos de corda ou tambores". Finalmente. indicar até que ponto sua proveniência é mais ou menos oral (ver Peabody 1975. p. Jousse (925) usava seu termo verbomoteur para se referir principalmente às culturas antigas hebraica e aramaica e outras adjacentes. É preciso fazer a ressalva. Havelock 1978a. particularmente a pública. muitas vezes elaborada e estilizada (Scheub 1977). existencial. como outros narradores orais devem ter feito muitas vezes. nunca existe num contexto puramente verbal. cedendo à exigência do público por aquilo que havia sido dito antes. fazendo um beicinho. completamente. Quando o mercado para um livro impresso decresce. Tais expectativas me foram impostas há alguns anos por uma de minhas sobrinhas. Por exemplo. por si só. mas permaneciam basicamente mais orais e orientadas pela palavra do que orientadas pelo objeto quanto a seu estilo de vida. (Ver também Lord 1960. como ocorre com a palavra escrita. 197) apontou que "em todas as partes do mundo e em todas as épocas (. isto é. 173).. e outras atividades corporais tais balançar para a frente ou para trás. e a percepção destes é em parte condicionada pelo estoque de palavras nos quais se . Os narradores narram o que o público deseja ou permite. "Ele soprou e bufou e bufou e soprou e soprou e soprou e bufou". A atividade corporal que acompanha a mera vocalização não é eventual ou arquitetada na comunicação oral. como já observamos. não obstante seja um texto. pp. Peabody 0975. elementos temáticos e mnemânica oral. Biebuyck e Mateene 1971. desenvolvimentos de ação e atitudes em relação a questões dependem significativamente mais do uso efetivo de palavras. disse ela. Na verbalização oral. mas milhares de cópias podem permanecer. Eu estava lhe contando a história dos "Três porquinhos": "Ele soprou e bufou e soprou e bufou e soprou e bufou". Em todos os casos.) A esses casos. as dos vencidos tendem a desaparecer (ou a se reformular). ou dançar. 60). Ela conhecia a história. que tinham algum conhecimento da escrita. uma menininha ainda pequena o bastante para preservar uma mentalidade claramente oral (embora infiltrada pela cultura escrita a sua volta). A palavra oral. a imobilidade absoluta é em si um gesto que impressiôna. mas natural e até mesmo inevitável. do que ao objeto. as genealogias dos vencedores tendem a sobreviver (a se aperfeiçoar). ao contrário do que ocorre nas culturas de alta tecnologia. Cathy empertigou-se diante da fórmula que usei. também o faz a própria genealogia. Reformulei a narrativa. relaciona-os a outras execuções orais conhecidas por nós e indica que exigem outros estudos relacionados ao que se descobriu recentemente sobre elementos formulares. frontispício. Como se observou (p. e significativamente menos do contato não-verbal. visível até mesmo em traduções. culturas nas quais. Boa parte da explicação anterior da oralidade pode ser usada para identificar o que pode ser chamado de culturas "verbomotoras". Estamos expandindo seu uso aqui para incluir todas as culturas que conservam resíduo oral suficiente para permanecer significativamente atentas mais à palavra.e temática dos Vedas. as prensas param de rolar. As palavras proferidas são sempre modificações de uma circunstância total. O Talmude. que sempre envolve o corpo. de que palavras e objetos nunca estão totalmente separados: as palavras representam objetos. é preciso observar que a memória oral difere significativamente da memória textual pelo fato de a memória oral possuir um componente altamente somático. no entanto. 220-222.) a composição tradicional foi associada à atividade manual. como eu mesmo testemunhei. ainda é vocalizado por judeus ortodoxos altamente orais em Israel com um balançar do dorso para a frente e para trás. a alta incidência de redundância ou sua ausência nos Vedas poderia. Os aborígines da Austrália e de outras regiões muitas vezes fazem figuras de cordão juntamente com suas canções. Quando o mercado para uma genealogia oral desaparece. muitas vezes predominantemente visual do mundo "objetivo" das coisas. Outros povos manipulam contas em cordões. a memorização oral está sujeita à variação proveniente de pressões sociais diretas. A interação com o público vivo pode interferir ativamente na estabilidade verbal: as expectativas do público podem contribuir para a fixação dos temas e das fórmulas. num contexto caracterizado por uma interação entre indivíduos (o tipo oral de contexto). podemos acrescentar outros exemplos de atividade manual. e portanto da interação humana. tais como a gesticulação. O trabalho de Peabody (975) já encoraja claramente tal estudo em sua análise das relações entre a tradição indo-européia mais antiga e a versificação grega. literal ou não.

nesse aspecto. Escrever e ler constituem atividades solitárias que atraem a psique para dentro de si mesma. não é?" Ele tratou a pergunta não como um pedido de informação. Comprar algo em um souk ou bazar do Oriente Médio não é uma simples transação econômica. o imensamente perverso lobo. como seria no Woolworth's e como uma cultura de alta tecnologia imaginaria que fosse na natureza das coisas. A oralidade primária alimenta as estruturas de personalidade que de certo modo são comunais e exteriorizadas. Em culturas orais. mas como algo que o perguntador estava lhe fazendo. mas por motivos muito mais fundamentais: organizar a experiência numa forma permanentemente memorável. 470-481). que ele percebe . um pedido de informação é comumente interpretado interativamente (Malinowski 1923. com seu enorme resíduo oral. Os letrados muitas vezes manifestam tendências (perda de contato com o meio ambiente) por um recolhimento em seu mundo de sonhos (sistematização onírica esquizofrênica). Qualquer nativo de Cork. segundo a mitologia. se pedir a ela para pegar seus manuais e ler uma determinada passagem. Um professor que fala a sua classe. Sempre responde a uma pergunta fazendo outra. perto do ombro do homem e perguntou: "É aqui o correio?" O homem não se deixou enganar. é freqüentemente desviado. Dirigiu-se a ele. um duelo polido. superestimar e certamente fazer um uso excessivo da retórica. as figuras heróicas tendem a constituir figuras-tipo: o sábio Nestor. A memória oral trabalha eficientemente com personagens "fortes". o astuto Ulisses. Ao contrário. o furioso Aquiles. como na narrativa de contos de fadas para crianças: a extraordinariamente inocente Chapeuzinho Vermelho. pp. zam o comportamento esquizóide. e menos introspectivas do que as comuns entre os pertencentes à cultura escrita. o indivíduo do sudeste da Ásia.. mas é construída segundo as necessidades dos processos noéticos orais. A natureza não estabelece "fatos". que muitas vezes os leva a um ato violento. memoráveis e geralmente notórias. Para garantir peso e memorabilidade. a unidade do grupo desaparecerá assim que cada indivíduo entrar em seu mundo privado.e que percebe a si própria . o caule incrivelmente longo do pé de feijão que João tem . uma região particularmente oral em um país em que todas as regiões conservam alto grau de oralidade residual. indivíduos cujas façanhas são notáveis. ao contrário de obter realmente uma resposta. figuras heróicas não por motivos românticos ou deliberadamente didáticos. a economia noética própria a ela gera figuras de tamanho descomunal. Um exemplo do contraste entre oralidade e cultura escrita. Nunca baixe sua guarda oral. seu epíteto usual). 451. amok. como agonístico e. àquele que lhe fazia uma pergunta para ver o que aconteceria. ele fez algo. descobre que. uma disputa de talentos. está relacionada ao estilo de vida agonístico..* A tradição heróica da cultura oral primária e da cultura escrita primitiva. ao passo que os letrados o interiorizam. nem mesmo os negócios são meramente negócios: são fundamentalmente retórica. Esse comportamento é freqüente o bastante para ter dado origem a termos especiais para designá-Io: o antigo guerreiro escandinavo fica berserk. encontra-se no relatório de # Carother (959) sobre a prova de que os povos orais comumente exteriori. os povos orais comumente manifestam suas tendências esquizóides por uma confusão exterior extrema. lida com todas as perguntas desse modo. Assim. A mesma economia mnemônica ou noética impõe-se ainda nos lugares em que as molduras orais persistem em culturas escritas. . As culturas que estamos aqui denominando verbomotoras provavelmente causam ao homem tecnológico a impressão de supervalorizar o próprio discurso. até mesmo à mutilação de si mesmos ou de outros. Desse modo. Personalidades apagadas não podem sobreviver na mnemônica oral. o competentíssimo Mwindo ("Pequenino-Recém-Nascido-Que-Andava". na Irlanda.como um grupo intimamente ligado. Nas culturas orais primárias. A comunicação oral agrupa as pessoas. Uma história esclarecedora é contada por um visitante ao condado de Cork. bateu com a mão na parede do edifício. eles somente surgem no interior de afirmações construí das por seres humanos para se referir à teia descosida da realidade a sua volta. Kábútwakénda.aninham as percepções. por sua vez. Olhou para seu inquiridor calmamente e com grande preocupação: "Você por acaso não estaria procurando um selo. uma operação de agonística oral. é uma série de manobras verbais (e somáticas). isto é. O visitante viu um habitante de Cork encostado no edifício do correio.

exteriores. que. Ao tratar de alguns aspectos da psicodinâmica da oralidade. 9-11. típico do romance. A situação nada tem a ver com uma suposta "perda de ideais". e assim é menos um interior. por exemplo. que fornece as ressonâncias vocais. ele destrói parcialmente a interioridade no próprio processo da percepção. Apenas Todos os sons registram as estruturas interiores do que quer que os produza. Se eu desejasse descobrir pelo tato se uma caixa está vazia ou cheia. Outras características do som também determinam ou influenciam a psicodinâmica oral. A visão situa o observador fora do que ele vê. produzam figuras heróicas e agrupamentos. 65-67). as Três Parcas e assim por diante. o som incorpora. Com o controle da informação e da memória originado pela escrita e. nenhum sentido funciona de modo tão eficaz quanto o som. mas é opticamente desconcertante: a vista não pode se "concentrar" em nada dentro do fogo. as paredes que ela percebe são ainda superfícies. O sentido humano da visão é mais adaptado à luz refletida difusamente pelas superfícies. um objeto translúcido. após cerca de três séculos de impressão. Aqui. obra à qual remeto o leitor interessado (1967b. é interessante. constantemente recua e foge. embora não seja uma fonte de luz. O som existe somente quando está desaparecendo. como um alabast!o. (A reflexão difusa. sua relação com o tempo. por fim. nesse sentido. À medida que a escrita e. A visão chega a um ser . a narrativa se constrói cada vez menos sobre figuras "fortes" até que. O paladar e o olfato não contribuem muito para registrar a interioridade ou a exterioridade. Índice). como observou Merleau-Ponty (1961). A vista isola. De modo análogo. ou Cérbero do que um cão com uma só cabeça (ver Yates 1966. sem o molde mnemônico adequado de verbalização. ela possa se mover confortavelmente no mundo da vida humana comum. as Três Graças. sim. pp.pois figuras não-humanas adquirem dimensões heróicas também. de um espelho. E. ou numa parede para saber se é oca ou sólida.de escalar . de John Updike. contrasta com a reflexão especular. não necessitamos de um herói no velho sentido para mobilizar o conhecimento na forma de histórias. de uma página impressa ou uma paisagem. teria de fazer um buraco para inserir uma mão ou um dedo: isso significa que a caixa está. Aqui. ou cadeiras em um auditório. Numa economia noética oral. O heróico e o maravilhoso haviam servido a uma função específica de organizar o conhecimento em um mundo oral. porque. no lugar do herói. tal como um fogo. a uma distância. Não se pretende negar que outras forças. a vista também não pode se "concentrar" nele. acima de tudo. encontramos finalmente até mesmo o anti-herói. sua evanescência. as figuras não sobreviverão. em vez de enfrentar o inimigo. Ou posso fazer uma moeda tinir para saber se é de prata ou de chumbo. pode ser interessante. a utilidade mnemônica constitui uma condição sine qua non. Agrupamentos numéricos formulares são também mnemonicamente úteis: os Sete Contra Tebas. figuras bizarras acrescentam um outro auxílio mnemônico: é mais fácil lembrar os CicIopes do que um monstro de dois olhos. a impressão gradativamente alteram as velhas estruturas noéticas orais. A principal dessas outras características é relação singular do som com a interioridade em comparação com os demais sentidos. mais profundamente. Porém. A audição pode registrar a interioridade sem violá-Ia. e sejam quais forem as outras forças. Um saxofone soa diferentemente de uma flauta: sua estrutura interna é diferente. A profundidade pode ser percebida pela vista. aberta. Essa relação é importante em virtude da interioridade da consciência e da própria comunicação humanas. ao passo que o som invade o ouvinte. ocupamo-nos até agora principalmente de uma característica do som em si. no entanto. a voz humana vem do interior do organismo humano. A teoria psicanalítica pode explicar boa parte dessas forças. como o protagonista de Rabbit rnn [O coelho fogel. resumidamente podemos tratar dessa questão aqui. O tato. Ela foi abordada por mim com maiores detalhes e maior profundidade em rbe presence of the word [A presença da palavra]. Para testar o interior físico de um objeto como interior.) Uma fonte de luz. Posso bater numa caixa para descobrir se está vazia ou cheia. além da mera utilidade mnemônica. Um violino cheio de concreto não soará como um violino normal. porém de forma muitíssimo agradável como uma série de superfícies: os troncos de árvores em um bosque. A vista não percebe um interior estritamente como um interior: dentro de um aposento. pela impressão. A visão disseca.

nem mesmo à possibilidade de um tal texto. Para as culturas orais . pensar essencialmente em algo que jaz fora de nossos olhos. no entanto. imediatamente: estou no centro do meu mundo auditivo. 176-179. e assim por diante. visualizada: a visão é um sentido dissecador).). aventureiros e peregrinos. desse modo. 221). estabelecendo-me em uma espécie de âmago da sensação e da existência. o cosmos é um evento contínuo. 63. que é definido por "dentro de". embora conhecesse certamente muitos itinerantes. sem qualquer referência a um texto visualmente perceptível e a uma consciência. que está tanto dentro de mim (não lhe peço para parar de cutucar meu corpo. O corpo é uma fronteira entre mim mesmo e tudo o mais. A interioridade e a harmonia são características da consciência humana. '. um ideal visual típico é a clareza e a distinção. estamos nos referindo a nossa própri~ percepção de nós mesmos: estou dentro daqui e tudo o mais está fora. apontamos para nossa própria experiência de corporalidade (Ong 1967b. ' . Somente após a escrita e a ampla convivência com mapas. O que é "eu" para mim é apenas "você" para você. girando no círculo tautológico. Quando ouço. que me envolve.o som é. que é definido por "entre". na qualidade de palavra falada. viajantes. uma luta pela harmonia. dentro de meu corpo). conhecida do indivíduo a partir de dentro e é inacessível a qualquer outro diretamente do interior. As tentativas de definição de "interior" e de "exterior" são inevitavelmente tautológicas: "interior" é definido por "in". com o homem em seu centro. que envolve as ações dos seres humanos e antropomórficos lfidivíduos mtenonza d os.humano de uma direção por vez: para olhar para um aposento ou uma paisagem. 228. um sentido unificador. fundamentalmente. mas para parar de me cutucar) quanto fora de mim (sinto a mim mesmo como.o sentido da dissecação . mas unificador. O mesmo vale para "exterior". baseados na experiência que cada um tem de seu corpo. de certa forma. no som. É l~almente mais conforme ao holismo conservador (o presente homeostático que deve ser mantido intacto. preciso girar meus olhos de um lado para outro. Podemos mergulhar no ouvir. com isso quer dizer algo diferente daquilo que o outro quer dizer. Quem diz "eu". d o que a que envolve coisas impessoais. não um fenômeno fragmentador. por outro lado. 231) e analisamos outros objetos com referência a essa experiência. (A campanha de Descartes pela clareza e pela distinção registrou uma intensificação da visão no sensório humano . implementada pela impressão. como num atlas impresso moderno. Na visão. um estado interior. A propósito. O homem é o umbilicus mundi. O antigo mundo oral conheceu poucos "exploradores". Pois o modo como a palavra é vivenciada é sempre importante na vida psíquica. 117-122. pp. ao pensar sobre o cosmos ou o universo ou o "mundo". os seres humanos iriam. o umbigo do mundo (Eliade 1958. Devemos observar que os conceitos "interior" e "exterior" são conceitos não-matemáticos e não podem ser diferenciados matematicamente. E esse "eu" incorpora a experiência em si "reunindo-a". 231-235 etc. Sem harmonia. as expressões formulares que devem ser mantidas intactas). Veremos que a maioria das características do pensamento e da ~x~ressão fundados no oral e discutida anteriormente neste capítulo está mtunamente relacionada à economia unificadora centralizadora interiorizadora do som tal como é percebido pelos 'seres humanos: Uma economia verbal dominada pelo som é mais conforme às tendências agregativas (harmonizadoras) do que às analíticas. reúno o som ao mesmo tempo de qualquer direção. Esse efeito de centramento do som é o que a reprodução sonora de alta-fidelidade explora com profunda sofisticação. mais conforme a uma certa organização humanística do conheci~ento. pp. Com "interior" e "exterior". uma vasta superfície ou reunião de superfícies (a visão apresenta superfícies) prontas para ser "exploradas". O que quero dizer com "interior" e "exterior" pode ser comunicado somente com referência à experiência da corporalidade. é um colocar junto. Numa cultura oral primária. A ação centralizadora do som (o campo sonoro não está espalhado diante de mim. dissecadoras (que viriam ~om a palavra inscrita. a fenomenologia do som penetra profundamente no sentimento de existência dos seres humanos. não há uma maneira análoga de mergulhar em si mesmo. na qual a palavra existe apenas no som.Ong 1967b. Quando falamos de "interior" e "exterior" mesmo no caso de objetos físicos. São conceitos fundados na existência. ao pensamento situacional do que ao pensamento abstrato. O auditório ideal. é harmonia. A consciência de cada indivíduo humano é totalmente interiorizada. mas a toda a minha volta) afeta o sentido humano do cosmos. . a psique não é sadia. pp. Ao contrário da visão . O conhecimento é.

O que o leitor está vendo nesta página não são palavras reais. cujos significados. completamente desprovido do repouso coisificante da palavra escrita ou impressa. nada deixou por escrito. a unidade do público é desfeita. embora soubesse ler e escrever (Lucas 4:16). a menos que seja usada por um ser humano consciente como uma pista para palavras soadas. a palavra falada agrupa os seres humanos de forma coesa. Deus Pai "fala" seu Filho: ele não o registra. Jesus. Os povos quirográficos e tipográficos julgam convincente pensar na palavra. a palavra falada origina-se do interior humano e revela seres humanos a outros seres humanos como interiores conscientes. a Segunda Pessoa da Divindade é a Palavra. Em virtude de sua constituição física como som. num som real ou imaginado. É impossível à escrita ser mais do que marcas em uma superfície. Pois sempre se pensa em Deus "falando" a seres humanos. Na cristandade. desse modo.Os denominadores usados aqui para descrever o mundo oral primário serão úteis novamente mais adiante para descrever o que aconteceu à consciência humana quando a escrita e a impressão reduziram o mundo oral-auricular a um mundo de páginas visualizadas. O coletivo readership' . refere-se diretamente à palavra falada. consigo mesmos e com o orador. precisamos voltar a chamá-Ios pelo nome de "público". como atualmente no Canadá ou na Bélgica ou em muitos países em desenvolvimento. Lotman 1977). o espírito [sopro no qual se move a palavra falada] dá vida" (2 Coríntios 3:6). reais ou imaginadas. a Bíblia é lida em voz alta em cerimõnias litúrgicas. A palavra falada é sempre um acontecimento. mas a falada. Jacques Derrida afirmou que "não existe signo lingüístico antes da escrita" 0976. todos. não escrevendo para eles. uma representação textual. 176-191). um movimento no tempo. visual de uma palavra não é uma palavra real. 14). Embora ela libere potenciais da palavra nunca vistos. que nos deu a palavra "signo". restabelecendo-se somente quando o discurso oral recomeça. fundamentalmente um som. como um "signo".) . porque "signo" se refere primordialmente a algo visualmente percebido. se com isso estivermos aludindo à referência oral do texto escrito. Na maioria das religiões. pp. significa também "acontecimento" e. os ouvintes normalmente formam uma unidade.é uma abstração excessiva. O pensamento aninha-se na fala. a palavra falada exerce uma função fundamental na vida cerimonial e devota. mas um "sistema modelar secundário" (cf. Record). "A letra mata. direta ou indiretamente. são adquiridos pela referência do símbolo visível ao mundo do som. lemos na Carta aos Romanos 00:17). A escrita e a impressão isolam. Mas também não existe um "signo" lingüístico depois da escrita. é espantosa (Ong 1967b.esta revista tem um readership de 2 milhões . Não há um nome ou um conceito coletivos para leitores que corresponda a "público". Para pensar em leitores como um grupo unido. por exemplo. Signum. que significa "palavra". mas símbolos codificados pelos quais um ser humano adequadamente informado pode evocar na sua consciência palavras reais. (N. não em textos. Eventualmente. como indivíduos. "A fé vem pelos ouvidos". Na teologia trinitária.T. nas religiões mundiais mais abrangentes.etimologicamente. com as preocupações fundamentais da existência. Quando um orador se dirige a um público. que precisa ser traduzido por uma perífrase: "número de leitores de uma publicação" (Webster. como se fossem realmente ouvintes. O hebraico dabar. No entanto. A força interiorizadora do mundo oral tem uma ligação especial com o sagrado. Se este pede ao público para ler um folheto que Ihes foi fornecido. significava o estandarte que uma unidade do exército romano portava para identificação visual . a Palavra de Deus. A palavra falada forma unidades em grande escala também: países nos quais se falam duas ou mais línguas diferentes muito provavelmente têm uma dificuldade maior em estabelecer ou manter a unidade nacional. uma tradição religiosa apoiada em textos pode continuar a legitimar a primazia do oral de muitas maneiras. até mesmo em suas partes epistolares. e o análogo humano para a Palavra aqui não é a palavra humana escrita. p. o • Significativamente. o português não tem equivalente para readershíp. produzem-se textos sagrados nos quais o sentido do sagrado está igualmente ligado à palavra escrita. A mentalidade oral do texto bíblico. assim que cada leitor penetra em seu próprio mundo privado da leitura.

(Não estou aqui negando que o reducionismo espacial seja imensamente útil e tecnologicamente necessário. quando usavam rótulos para seus frascos e suas caixas. tendiam a registrar neles não um nome escrito. O som é um evento no tempo. séculos após a invenção da escrita e até mesmo da impressão. é ininterruptamente contínuo: à meia-noite. p. pois a oralidade primária subsistia residualmente. grosseiro. alquimistas letrados. A percepção de nomes soletrados como rótulos ou etiquetas firmouse muito lentamente. o tempo parece estar sob um controle maior . Reduzido ao espaço. Mas isso também falsifica o tempo. pesado. Não é provável que o homem oral pense nas palavras como "signos". é limitar nossa compreensão . Mas tentar construir uma lógica da escrita sem investigar em profundidade a oralidade. Ou reduzimos o som ao registro escrito e ao mais radical de todos eles: o alfabeto. ao tratar da internalização da tecnologia. Ainda na Renascença européia. por exemplo. e se ele não é exato. mas claramente acentuada nas culturas quirográficas . parece. com os quais pode lidar um indivíduo surdo. da qual emergiu a escrita e na qual a escrita está permanente e inevitavelmente enraizada. leva-nos para a morte real. onde podemos fazê-Io aparecer dividido em unidades separadas. na verdade. O tempo é aparentemente domado quando o tratamos espacialmente num calendário ou no mostrador de um relógio. Eram "signos".) De modo análogo. do que a "desconstrução" da literatura.que sugere evanescência. como uma águia. e "o tempo caminha". repito. indivisível. (Sobre os rótulos iconográficos. como pode ser meia-noite? E não possuímos nenhuma vivência do hoje como sendo o dia seguinte a ontem. sekw-. que constitui uma forma impressionante de movimento e que liberta o voador. toda a experiência humana. causados por distorções sensoriais. algo mais. Libertar do preconceito quirográfico e tipográfico nossa compreensão da linguagem é provavelmente mais difícil do que qualquer um de nós possa imaginar. Os nomes ainda são palavras que se movimentaram através do tempo: esses símbolos imóveis. pois o tempo real. 7). Derrida está obviamente correto em rejeitar a convicção de que a escrita não é mais do que acidental com relação à palavra falada (Derrida 1976. como é representado num calendário. Ninguém pode encontrar o exato ponto da meia-noite. efeitos que são brilhantemente fascinantes. Voltaremos a esse problema no próximo capítulo. fenômenos visuais imóveis.mas somente parece. "objetivo" . muito mais difícil. Embora os romanos conhecessem o alfabeto. e os comerciantes identificavam suas lojas não com palavras escritas. poder e liberdade: as palavras estão constantemente se movimentando. mas com símbolos iconográficos como a hera para uma taverna. as três esferas do agiota. mas signos iconográficos como diferentes signos do zodíaco. num sentido em que as palavras não o são."objeto que se segue" (raiz proto-indo-européia. mas também por vezes psicodélicos. quero com isso somente dizer que suas realizações são intelectualmente limitadas e podem ser ilusórias. esse signum não era uma palavra soletrada. Ao objetar a Jean-Jacques Rousseau. o mastro do barbeiro. mas uma espécie de desenho ou imagem pictórica. inexoravelmente. que pode não ter nenhum conhecimento do que seja a experiência do som. o ontem não estalou para o hoje. reduzimos o som a padrões oscilográficos e a onBas de certos "comprimentos". O tempo real absolutamente não tem divisões.) Essas etiquetas ou rótulos absolutamente não nomeiam aquilo a que se referem: a palavra "hera" não é a palavra "taverna". . a análogos visuais. mas pelo vôo. seguir). Nossa complacência ao pensar nas palavras como signos se deve à tendência . eram. ver Yates 1966. sem nenhuma parada ou divisão. uma ao lado da outra. isto é.a reduzir toda sensação e. pois essa "desconstrução" permanece uma atividade literária. elevando-o acima do mundo comum.embora realmente produza. ao mesmo tempo. Homero refere-se a elas com o epíteto~padrão "palavras aladas" .talvez incipiente em culturas orais. a palavra "mastro" não é a palavra "barbeiro". mudos.

21-23. como o oral. mas normalmente. mas da estruturação dessas capacidades. porque foi separado de seu autor. pela tecnologia da escrita. A escrita estabelece o que tem sido chamado de linguagem "livre do contexto" (Hirsch 1977. discurso que não pode ser diretamente questionado ou contestado. Sem a escrita.4 A ESCRITA REESTRUTURA A CONSCIÊNCIA Um conhecimento mais profundo da oralidade primitiva ou primária permite-nos compreender melhor o novo mundo da escrita. pp. até mesmo quando está compondo seus pensamentos de forma oral. Mais do que qualquer outra invenção individual. a mente letrada não pensaria e não poderia pensar como pensa. o que ele verdadeiramente é e o que os seres humanos funcionalmente letrados realmente são: seres cujos processos de pensamento não nascem de capacidades meramente naturais. não apenas quando se ocupa da escrita. . 26) ou discurso "autônomo" (Olson 1980a). direta ou indiretamente. a escrita transformou a consciência humana.

a impressão está sujeita a essas mesmas acusações. A escrita. É também um dos motivos pelos quais se têm queimado livros. o livro substitui a enunciação de uma fonte. diz Platão através de Sócrates. um texto escrito é basicamente inerte. Depois de uma refutação absolutamente total e devastadora. Na verdade. temem que as calculadoras de bolso forneçam um recurso externo para o que deveria ser o recurso interno de tabuadas memorizadas. a impressão e o computador são todos meios de tecnologizar a palavra. toda a epistemologia de Platão era inconscientemente uma rejeição programa- A maioria das pessoas fica surpresa. as mesmas objeções feitas em geral aos computadores hoje foram feitas por Platão no Fedra (274-277) e na Sétima Cana em relação à escrita. é dito dos computadores. aliviam-na do trabalho que a mantém forte. se o fizermos a um texto. fazem-nas por meio da impressão. Além disso. Um texto que afirma que tudo que o mundo todo conhece é falso afirmará para sempre a falsidade. exceto as mesmas. pois pretende estabelecer fora da mente o que na realidade só pode estar na mente. possui algo dessa qualidade vática. artificial. que na verdade promoveu a impressão dos clássicos latinos. podemos obter uma explicação. É uma coisa. incluindo sua crítica à escrita. enquanto o livro existir. pois julgava-se ser ele a voz do deus. é inumana. também argumentou em 1477 que a "abundância de livros torna os homens menos atentos" (citado em Lowry 1979. Esse é um dos motivos pelos quais "diz o livro" é o equivalente popular de "é verdade". não há um meio convincente de criticar o que a tecnologia fez com ela sem o auxílio da mais alta tecnologia disponível. a nova tecnologia não é meramente usada para veicular a crítica: na verdade. o Sócrates de Platão também defende contra a escrita que a palavra escrita não pode se defender como a palavra natural falada: o discurso e o pensamento reais sempre existem fundamentalmente em um contexto de toma-Iá-dá-cá entre indivíduos reais. quem realmente "disse" ou escreveu o livro. e mais ainda a impressão. para os quais o próprio enunciador é considerado apenas o canal. a escrita destrói a memória. assim como outras pessoas. como se viu (Havelock 1963). não a fonte. pp. no Fedra. exatamente como um ponto fraco das opiniões contrárias à impressão está no fato de que seus proponentes. para tornar mais convincentes suas objeções. Não existe um meio de refutar diretamente um texto. ela criou a crítica. Como o oráculo ou o profeta. para torná-Ias mais convincentes. ele as pôs por escrito. e muitas ficam angustiadas. fundamentalmente. Fora dele. um produto manufaturado. 29-31): ela destrói a memória e enfraquece a mente ao aliviá-Ia do trabalho árduo (novamente a queixa contra o computador de bolso). A joniori. Aqueles que usam a escrita se tornarão desmemoriados e se apoiarão apenas em um recurso externo para aquilo de que carecem internamente. A escrita. A escrita enfraquece a mente. O autor poderia ser questionado somente se se tivesse acesso a ele. não obteremos nada. Obviamente. Tecnologizada a palavra. O pensamento filosoficamente analítico de Platão. O oráculo délfico não era responsável pelas enunciações oraculares. O mesmo. muitas . Como os computadores. Se pedirmos a um indivíduo para explicar esta ou aquela afirmação. Em terceiro lugar. como mostrou brilhantemente Havelock (1963). fora de contexto. só se tornou possível em virtude dos efeitos que a escrita estava começando a ter sobre os processos mentais. é claro. ao saber que. pp. ele diz exatamente a mesma coisa que antes. Em segundo lugar. A mesma fraqueza das posições contrárias ao computador está em que. Hieronimo Squarciafico. Aqueles que se perturbam com as apreensões de Platão quanto à escrita se sentirão ainda mais inquietos ao descobrir que a impressão criou receios semelhantes quando foi introduzi da pela primeira vez. a escrita é passiva. Os textos são inerentemente contumazes. para tornar mais convincentes essas objeções. em um mundo irreal. Atualmente. rebaixando o sábio em favor do compêndio de bolso. os pais. seus proponentes as articulam em artigos ou livros impressos a partir de fitas compostas em terminais de computador. As calculadoras enfraquecem a mente.em vaticínios ou protecias. outros viram a impressão como um nivelador bem-vindo: todos se tornam sábios (Lowry 1979. Um ponto fraco da opinião de Platão é que. A escrita. objeta o Sócrates de Platão. orais. 31-32).

em que pressagia a própria morte .e da referência de Horácio a seus três livros de Odes como um "monumento" (Odes iii. com a cooperação tanto consciente quanto inconsciente da sociedade. como muitas pessoas atualmente fazem em relação ao computador. é o equivalente psíquico do texto verbal. 230-271). oral. A forma platônica foi concebida por analogia à forma visível. As regras gramaticais vivem no inconsciente no sentido de que podemos saber como usá-Ias e até mesmo como construir outras novas sem ser capazes de definir o que elas são. tardia. hostil. exige o uso de ferramentas e outros equipamentos: estiletes. ou reação exagerada. desprovidas de todo calor. ou registro escrito. "visível" ou "vídeo". É também muito evidente em inúmeras referências à escrita (e/ou à impressão). 88-115) discute detalhadamente a questão no contexto medieval ocidental. Voltaremos a essa questão posteriormente. imóveis. de modo que até mesmo as ferramentas externas que ela usa para implementar seus procedimentos se tornam "internalizadas". mas isoladas. Clanchy (1979. uma vez que já se tenham aprendido as regras explícitas. difere da fala pelo fato de que não brota inevitavelmente do inconsciente. é claro. individualmente interativa (representada pelos poetas. O processo de registrar a linguagem falada é governado por regras conscientemente planejadas e inter-relacionadas: por exemplo. Um dos mais notáveis paradoxos inerentes à escrita é sua associação íntima com a morte. "forma". Não há como escrever "naturalmente"."A letra mata. "ver". móvel. julgamos difícil considerá-Ia uma tecnologia tal como aceitamos fazer com o computador. parte de seu próprio processo reflexivo. As idéias platônicas são mudas. Em virtude de termos hoje interiorizado a escrita. de uma forma que a era de Platão ainda não fizera (Havelock 1963). A flor morta.da do mundo da velha vida cotidiana oral. sua rígida fixidez visual. encontrável em dicionários impressos de citações. Ao contrário da linguagem natural. o afastamento da palavra em relação ao presente vivo. um certo pictograma significará uma certa palavra específica.até a afirmação de Henry Vaughan a sirThomas Bodley. mas o espírito dá vida" . de certo modo. calorosa.I) .30. b um outro e assim por diante. e de que ela destrói a memória. O termo idea. Em pippapasses. e muito mais. pincéis ou canetas. assim como tintas. tiras de madeira. ou a representará um certo fonema. (Não estou negando que a situação escritor-leitor criada pela escrita afete profundamente os processos inconscientes envolvidos na composição na escrita. a quem ele expulsara de sua República). de que na Biblioteca Bodleian. não se tinha dado totalmente conta das forças inconscientes que atuavam em sua psique para produzir essa reação. como tal. e além dela. O motivo para as complexidades torturantes aqui é obviamente que a inteligência é inexoravelmente reflexiva. de 2 Coríntios 3:6 . não são absolutamente partes do mundo cotidiano humano. Robert Browning chama a atenção para a prática ainda difundida de pressionar flores vivas até a morte entre as páginas de livros impressos. Essas considerações alertam para os paradoxos que cercam as relações entre a palavra falada original e todas as suas transformações tecnológicas. "faded yellow b/ossoms/twíxt page and page'. outrora viva. conscientes. Platão. a redução do som dinâmico a um espaço mudo. O paradoxo está no fato de que a mortalidade do texto. peles de animais. está fundado no visual e procede da mesma raiz que o latim video. Ela iniciou o que a impressão e os computadores apenas continuam. porém chega à consciência emanando das profundezas inconscientes. a escrita (e especialmente a alfabética) é uma tecnologia. único lugar em que as palavras faladas podem existir. em qualquer cultura. A escrita é. embora. do indivíduo letrado à oralidade subsistente. isto é. garante sua durabilidade e seu potencial para ser ressuscitado em contextos vivos ilimitados por um número potencialmente infinito de leitores vivos (Ong 1977. No entanto. estão inteiramente acima e além dela. A fala completa a vida consciente. a escrita é inteiramente artificial. assim como os derivados em língua portuguesa "visão". "cada livro é teu epitáfio". PIatão estava pensando na escrita como uma tecnologia externa. superfícies cuidadosamente preparadas. Em seu capítulo "A tecnologia da escrita". a mais drástica das três tecnologias. em Oxford. seu afastamento do mundo da vida cotidiana. absorvendo-a tão completamente em nós mesmos.) . não são interativas. é claro. pp. pp. coisificada. A escrita. A linguagem oral é completamente natural aos seres humanos no sentido de que todo ser humano que não seja fisiológica ou psicologicamente deficiente aprende a falar. Essa associação é insinuada na acusação de Platão de que a escrita é inumana.

feito da ferramenta ou da máquina uma segunda natureza.bombas. A tecnologia. mais do que qualquer outra. que conhecemos. mas elogiá-Ia. Gelb 1963).Dizer que a escrita é artificial não é condená-Ia. por exemplo. obviamente. O Homo sapiens está no planeta talvez há cerca de 50 mil anos (Leakey e Lewin 1979. Porém. A partitura de Beethoven para sua Quinta Sinfonia consiste em instruções muito precisas a técnicos altamente treinados. não consiste em meros desenhos. A alienação de um meio natural pode ser boa para nós e. para compreender o que ela é . poderia dizer. no sentido estrito da palavra. outros dispositivos de controle como o quipu dos incas (uma vara com cordas suspensas nas quais outras cordas eram atadas). Mas. ou em palavras ou em um contexto inteiramente humano. interiores. E vários dispositivos de registro. é em muitos aspectos fundamental para a vida humana plena. pp. haviam sido usados por várias sociedades: uma vara entalhada. o violinista ou o organista precisam ter interiorizado a tecnologia. tal como entendido aqui. De onde se julga virem os sons de um órgão? Ou os sons de um violino ou até mesmo de um apito? O fato é que. A orquestra moderna. é altamente desumanizante. um registro escrito é mais do que um auxílio mnemônico. O primeiro registro escrito.) Um registro escrito. O uso de uma tecnologia pode enriquecer a psique humana. de palavras que alguém diz ou se imagina que diz. não rebaixa a vida humana. (Se um código apropriado ou um conjunto de convenções são acrescentados.a artificialidade é natural aos seres humanos. Os desenhos representam objetos. intJnsificar sua vida interior. E assim por diante. humanamente compreensível. Como outras criações artificiais e. Tais transformações podem ser enaltecedoras. na verdade. adequadamente interiorizada. ou aides-mémoire. Isso exige anos de "prática". Staccato: toque a tecla e tire seu dedo imediatamente. uma casa e uma árvore por si mesmo nada diz. foi desenvolvido entre os sumérios na Mesopotâmia apenas por volta do ano 3500 a. mas também da distância. com recursos de força . Para viver e compreender plenamente. O desenho de um homem. no sentido de uma escrita genuína. precisam ser explicados por algo mais do que desenhos. isto é. o aprendizado de uma habilidade tecnológica. é a representação de uma elocução. que especificam exatamente como usar as ferramentas. em representações de coisas. isto é. um violinista ou um organista podem exprimir algo pungentemente humano que não pode ser expresso sem aquele dispositivo.c. (Diringer 1953. uma parte psicológica de si mesmos. uma ferramenta. necessitamos não apenas da proximidade. mas um código não é desenhável. geradores elétricos . Os seres humanos haviam desenhado durante incontáveis milênios antes disso. ampliar o espírito humano. e mais ainda quando afetas à palavra. Um órgão é uma máquina enorme. fileiras de seixos. foles. A escrita aumenta a consciência. A escrita é uma tecnologia ainda mais profundamente interiorizada do que a execução de um instrumento musical. é resultado de alta tecnologia. acentua-a. Essa adaptação de uma ferramenta a si próprio. A escrita. na verdade. foi um desenvolvimento muito tardio na história humana. Essa escrita alimenta a consciência como nenhuma outra ferramenta. isto é. Para conseguir tal expressão.o que significa compreendê-ia em relação a seu passado. salvo se auxiliado por um outro código não desenhável. a tecnologia que moldou e capacitou a atividade intelectual do homem moderno. Os códigos. mas. à oralidade -. ela é inestimável e de fato fundamental para a realização de potenciais humanos mais elevados. transformações interiores da consciência. Os musicólogos sabem muito bem que é inútil fazer objeção a composições eletrônicas como 1be wild bull. 141 e 168). usando um dispositivo mecânico. ou verdadeira escrita. Obviamente. As tecnologias não constituem meros auxílios exteriores. os calendários de "contagem do inverno" dos índios nativos das planícies norte-americanas e assim por diante. é possível considerar como "escrita" qualquer marca semiótica. de Morton Subotnik. Até mesmo quando é pictográfico. mas . pelo contrário. um registro escrito é mais do que desenhos. em última análise. Um violino é um instrumento. sob a alegação de que os sons provêm de um dispositivo mecânico. de aprendizado de como obrigar a ferramenta a fazer o que ela pode fazer. qualquer marca visível ou perceptível que um indivíduo . Legato: não tire seus dedos de uma tecla até que tenha tocado a seguinte. sim. o fato de que ela é uma tecnologia deve ser encarado com honestidade. As tecnologias são artificiais.novamente um paradoxo .inteiramente exteriores a seu operador.

O controle mais estrito de todos é o realizado pelo alfabeto. mas somente em casos excepcionais . pp. indicando que ()~ documento foi inteiramente lido. Entalhes em varas e outros aides-mémoire levam à escrita. pelo menos em parte. as investigações sobre a escrita que a tomam como qualquer marca visível ou perceptível com um sentido atribuído funde a escrita com o puro comportamento biológico.. Sugeriu-se que o registro cuneiforme dos sumérios. 50 d. seria "escrita".. o registro do vale do Indo. A escrita. os hieroglíficos egípcios.Wilson 1975. A urbanização forneceu o incentivo para desenvolver a manutenção de registros. Diringer 1960. usando-se sinais de barro encerrados em recipientes ou bulas semelhantes a vagens. interpretável apenas por aquele que os faz.C. pequenos. Contudo. Se isso é o que se entende por escrita. Usar a escrita para criações imaginativas. ao uso de sinais. 3500 a. o da visão. talvez. se não a totalidade. sete pequenos artefatos de barro inconfundivelmente moldados para representar vacas. Os registros escritos têm antecedentes complexos. Os verdadeiros sistemas de escrita podem se desenvolver e geralmente se desenvolvem. 3000-2400 a. quaisquer que tenham sido seus antecedentes exatos. Em alguns sistemas codificados. em seu sentido comum. pois o primeiro registro cuneiforme. o que representavam . Até mesmo com o alfabeto. isso poderia ser um particípio passado (pronunciado para rimar com red). sua antiguidade talvez seja comparável à da fala. o primeiro de todos os registros conhecidos (c.C.digamos.faz e à qual atribui um sentido.como se as palavras fossem sempre proferidas em conexào com seus significados concretos. ela transforma tanto a fala quanto o pensamento. Existem estágios intermediários.c. podem implementar a produção de estruturas e referências ainda mais notáveis. as marcações codificadas visíveis envolvem palavras na íntegra. Em virtude de mover a fala do mundo oral-auricular para um novo mundo sensorial. banaliza seu significado. Se anoto em um documento: read. de um uso mais tosco de auxt1ios mnemônicos. como no sistema desenvolvido pelos vai. dos registros remonta direta ou indiretamente a alguma espécie de escrita pictórica. 3000 a. o asteca. ovelhas ou outras coisas ainda não decifráveis . serviam a objetivos econômicos e administrativos práticos nas sociedades urbanas. da mesma regiào que as bulas. (datas aproximadas segundo Diringer 1962). sistema por meio do qual um escritor pôde determinar as exatas palavra: que o leitor iria gerar a partir do texto.c. ou poderia ser um imperativo (pronunciado para rimar com reed). Assim. A entrada crítica e singular em novos mundos do conhecimento foi realizada dentro da consciência humana. indicando que deve ser lido até o fim. mas não reestruturam o mundo da vida cotidiana humana como o faz a escrita genuína. ou às vezes. o contexto extratextual às vezes é necessário. Gelb 1963): o cuneiforme mesopotâmico.c.. o chinês.c. (talvez sob alguma influência do cuneiforme). o maia. ocos. A moldura econômica desse uso pré-quirográfico de sinais poderia ajudar a associá-Ios à escrita.c. Com a escrita ou registro escrito tomados nesse sentido amplo. gradativamente. Desse modo. 1200 a. É isso que comumente entendemo~ hoje por escrita no seu sentido claramente definido. como as palavras falaqas têm sido usadas em contos ou na lírica. de forma a incluir qualquer marcação semiótica. 3500 a. de modo que estruturas e referências notavelmente complexas evoluídas em som podem ser registradas visualmente. mas quando um sistema codificado de marcas visíveis foi inventadÇl. foi e é a mais importante de todas as invenções humanas. dentro da bula.c. Muitos registros escritos em todo o mundo foram desenvolvidos independentemente uns dos outros (Diringer 1953. com identificações no lado de fora representando os sinais de dentro (Schmandt-Besserat 1978).). Não é um mero apêndice da fala. . um simples arranhão em uma rocha ou um entalhe em uma vara. originou-se. ultrapassando em muito as potencialidades da enunciação oral. embora até mesmo ele nunca seja inteiramente perfeito em todos os casos.usar a escrita para produzir literatura . isto é. o "Linear B" minóico ou micênico. 228-229) se torna "escrita"? Usar o termo "escrita" nesse sentido ampliado. 1500 a. o escritor pode prever apenas aproximadamente o que o leitor irá ler. Quando uma pegada ou um depósito de fezes ou urina (usado por muitas espécies de animais para comunicação .o quanto dependerá do grau de adaptação do alfabeto a uma dada língua. na Libéria (Scribner e Cole 1978) ou até mesmo nos antigos hieróglifos egípcios. sete entalhes . de um sistema de registro de transações econômicas. os símbolos do lado de fora da bula .digamos. em um nível ainda mais elementar. A maioria. 1400 d.indicavam. não quando a mera marcação semiótica foi imaginada.. mas totalmente fechados.

como uma letra do alfabeto. memorando que ajudava a determinar previamente como esses desenhos específicos se relacionavam. 2. mas não tanto quanto o número de caracteres (mais de 40 mil) que um datilógrafo chinês teria de dominar. 3 são ideogramas interlingüísticos (embora não sejam pictogramas): representam o mesmo conceito. 2. Todos os sistemas pictográficos. ou soul [almal associada a "corpo". mas a palavra "floresta". p. o que 1. um vietnamita e um inglês saberem o que cada um quer dizer com os numerais arábicos 1. como aparece aqui. mas apenas de modo mediato: o som é designado não por um signo codificado abstrato. mas estabelecido por código: por exemplo. Uma vez que aqui o símbolo representa fundamentalmente um som. que os tornam certamente o mais complexo sistema de escrita que o mundo jamais conheceu. os registros desenvolvem outras espécies de símbolos. mas não reconhecerem o numeral se pronunciado por um dos outros. como a encontrada entre os índios americanos e muitos outros (Mackay 1978. antes ligados diretamente ao conceito do que à palavra: as palavras para 1 ("um") e 2 ("dois") relacionam-se aos conceitos "1Q" e "2Q". em 1716 da nossa era. um caminho [walkl e uma chave [kryl. ou já conheceu. no qual o significado é um conceito não diretamente representado pelo desenho. ou podem ser equipados com um código que Ihes permita representar palavras mais ou menos exatamente específicas em diferentes relações gramaticais entre si. 3 e assim por diante. desse termo. até mesmo naquela época. os caracteres chineses são fundamentalmente desenhos. A palavra falada para "mulher" é [nJ-l. 2. de certo modo. Escritores de chinês relacionam-se com sua língua de modo muito diferente dos falantes de chinês que não sabem escrever. embora basicamente possuidoras da mesma estrutura). ocorreu bem mais tarde na Os desenhos podem servir simplesmente como aides-mémoire.inglês sole . Em um sentido especial.de um pé poderia representar em inglês também o peixe chamado sole [solha].no sentido mais específico história do registro. 3 não são. 32) não se desenvolveu em verdadeiro registro porque o código permaneceu demasiado vago. A escrita de caracteres chineses é ainda hoje basicamente composta de desenhos.) Algumas línguas são escritas em silabários. até mesmo no caso dos ideogramas e dos rébus. um desenho estilizado de duas árvores não representa as palavras "duas árvores". Lêem diferentes sons pelo mesmo caractere (desenho). para "criança" [dzal. Mas. O chinês é o maior. Indubitavelmente. requerem uma espantosa quantidade de símbolos. A perda para a literatura será colossal. o . Tornar-se suficientemente versado no sistema de escrita chinês leva normalmente cerca de 20 anos. desenhos estilizados de uma mulher e uma criança lado a lado representam a palavra "bom" e assim por diante. nos quais cada signo representa uma consoante e um som vocálico seguinte. Dos pictogramas (o desenho de uma árvore representa a palavra para árvore). Uma espécie é o ideograma. nessa ordem.545 caracteres. no pictograma chinês. todos eles. mais complexo e mais rico deles: o dicionário K'anghsi de chinês. não precisa ter nenhuma relação com a etimologia fonológica. Um tal registro exige tempo e é fundamentalmente elitista. podem compreender a escrita. mas desenhos estilizados e codificados por meios complexos. mutuamente incompreensíveis. arrola 40. poderiam representar a palavra "Mi/waukee"). Poucos chineses que escrevem sabem escrever todas as palavras chinesas faladas que podem compreender. mas não o mesmo som em línguas que possuem palavras inteiramente diferentes para 1. sole no sentido de "apenas". As representações pictográficas de vários objetos serviam como uma espécie de memorando alegórico para grupos que estavam lidando com certos assuntos restritos. (Todavia. os caracteres serão substituídos pelo alfabeto romano logo que o povo da República Popular da China domine a mesma língua chinesa ("dialeto"). A comunicação pictográfica. mas por um desenho de uma das várias coisas que o próprio som significa. Desse modo. 2. 3 e assim por diante estão. Uma outra esp~cie de pictograma é a escrita rébus (o desenho da sola . incapazes de compreender o que os outros dizem. E até mesmo dentro do léxico de uma dada língua os signos 1. Uma vantagem do sistema basicamente pictográfico é que os indivíduos que falam diferentes "dialetos" chineses (línguas chinesas realmente diferentes. 3. um luba. desenhos de um moinho [mil/l. embora primorosamente estilizados. Nenhum chinês ou sinólogo conhece. o significado pretendido não fica inteiramente claro. 2. mas não às palavras "primeiro" e "segundo". um rébus é uma espécie de fonograma (som-símbolo). algo como um francês. para "bom" [haul: a etimologia pictográfica. que agora está sendo ensinado em toda parte. o mandarim. numerais como 1. freqüentemente.

ele usa caracteres chineses. pp. como o árabe. foram acrescentados a muitos textos. Todavia. O hebraico. tâmil. o semítico do norte e o semítico do sul. escreveríamos e imprimiríamos "cnsnts" em vez de "consoantes". exatamente como as vogais são acrescentadas às nossas consoantes. romano. w) levou alguns lingüistas (Gelb 1963. até hoje não possuem letras para vogais. assim como outras línguas semíticas. a própria escrita de caracteres chineses é híbrida (pictogramas mesclados.até o terceiro ano. grego. rébus e várias combinações. que se tornou nosso "a" romano. . ugarítico.derivam. por exemplo. Muitos sistemas de escrita são na verdade sistemas lubridos. E até mesmo a escrita alfabética se torna híbrida quando escreve 1 em vez de um. e é muito difícil de ler. para ka. mu e assim por diante. O sistema japonês é híbrido (além do silabário. o desenho físico das letras nem sempre possa ser relaciOnado ao desenho senútico. ku. um alfabeto genuíno. ao qual o leitor deve acrescentar qualquer som vocálico exigido pela palavra ou pelo contexto. eles são acrescentados às letras (acima ou abaixo da linha). 129) a chamar de silabário ou talvez um silabário não vocalizado ou "reduzido" o que outros lingüistas chamam de alfabeto hebraico. As línguas organizam-se de diferentes maneiras. o antigo sistema hieroglífico egípcio era híbrido (alguns símbolos eram pictogramas. que representa uma oclusiva glotal (o som entre dois sons vocálicos no português "ãh-ãh".hebraico. 121-122. mo. Esse modo de escrever apenas com consoantes e semiconsoantes (y como em you. ele usa caracteres chineses. na verdade. O fato mais notável sobre o alfabeto é.c. cirílico. mas 2 mil anos depois dele. Havelock 1963. e as senúticas são constituídas de tal modo que facilitam a leitura quando as palavras são escritas apenas com consoantes. Na verdade. quando os pontos vocálicos são usados. Ele foi criado por um povo semítico ou por povos semíticos por volta de 1500 a. na mesma área geográfica onde surgiu o primeiro de todos os registros escritos. discute as duas variantes do alfabeto original. que são na verdade formas de [i] e lu]: se tivéssemos de seguir o costume hebraico em português. mesclando dois ou mais princípios. geralmente concordam que ambas são letras escritas em um alfabeto. Posteriormente. parece um tanto inadequado pensar na letra hebraica beth (b) como uma sílaba quando. me. mais ou menos. na Libéria. Um jornal ou livro hebraico ainda hoje imprimem apenas consoantes (e as chamadas semivogais [j] e [w]. A escrita fornece apenas uma espécie de mapa para a elocução que registra.silabário japonês katakana tem cinco símbolos separados. culturalmente ricas e poeticamente belas). não existe uma correspondência plena entre os símbolos visuais e as unidades de som.) Todos os alfabetos do mundo . p. simples e facilmente complementam com as vogais adequadas. discordantes em quase tudo o mais. (Diringer 1962. ko. talvez a maioria dos sistemas de escrita que não o alfabeto seja até certo ponto lubrida. "pontos" vocálicos. talvez o mais eficiente de todos os alfabetos. pronunciados a sua própria maneira). o de que foi inventado apenas uma vez. parece no mínimo indiscutível pensar no registro escrito semítico simplesmente como um alfabeto de consoantes (e semivogais) que os leitores. de uma forma ou de outra. sem dúvida. outros rébus). A letra aleph. Alguns silabários são menos desenvolvidos do que o japonês. pronunciados a sua própria maneira não-chinesa). E israelenses e árabes modernos. à medida que lêem. do desenvolvimento senútifo original. mi. até mesmo para um escriba hábil (Scribner e Cole 1978. 456). Para uma compreensão do desenvolvimento da escrita a partir da oralidade. na história do alfabeto hebraico. Ocorre que a língua japonesa é constituída de tal modo que pode utilizar um registro silabário: suas palavras são compostas de partes que consistem sempre de um som consonantal seguido de um som vocálico (n funciona como uma semi-sílaba). o cuneiforme. alguns ideogramas. o inglês [assim como o português] não poderia ser eficazmente arranjado em um silabário. ke. que significa "não"). adaptada pelos antigos gregos para indicar a vogal "alfa". muitas vezes extremamente complexas. ki. p. Com suas muitas espécies de sílabas e seus freqüentes grupos consonantais. "claustro"). malabarense. No do vai. sem grupos consonantais (como em "perspicácia". o sistema coreano é híbrido (além do hangul. coreano . em virtude da tendência que têm os registros escritos em começar com pictogramas e se desenvolver para ideogramas e rébus.. freqüentemente para crianças muito pequenas em fase de alfabetização . embora. ideogramas. arábico. não é uma vogal. respectivamente. Além disso. como nos registros u~arítico e coreano. pontinhos e hífens abaixo ou acima das letras para indicar a vogal adequada. mas uma consoante no hebraico e em outroS alfabetos semíticos. ela simplesmente representa o fonema [b]. cinco outros para ma.

Vogel.) O alfabeto grego foi democratizante no sentido de que era fácil para qualquer um aprender. os "pontos" vocálicos precisam ser acrescentados ao registro hebraico tradicional. mais analíticas. perdeu toda a ligação com as coisas como coisas. mais do que quaisquer outros sistemas de escrita. Uma criança poderia aprender o alfabeto grego ainda muito pequena e com vocabulário limitado. favorece o pensamento analítico. objetos mudos. para os escolares israelenses. com certeza. com vogais. é intrinsecamente elitista: dominá-Ia completamente exige um ócio prolongado. todos os sinais públicos são sempre escritos apenas no . semi-permanente. porém crucial. b mais a. Essa realização grega de analisar abstratamente o indefinível mundo do som em equivalentes visuais (não de modo perfeito. existe somente quando está desaparecendo. nem "amora" nem "aroma". o "desapare-" já acabou. não um evento. O alfabeto fonético inventado pelos antigos semitas e aperfeiçoado pelos antigos gregos é. Será o equivalente de qualquer quantidade de palavras. quase total. Todo registro escrito representa as palavras como se. tori. de algum modo. "pássaro". A escrita semítica estava ainda muito imersa no mundo da vida cotidiana não textual. abstrato. O alfabeto. que ela está presente imediatamente e que pode ser cortada em pedacinhos que podem até mesmo ser escritos para a frente e pronunciados para trás: "amora" pode ser pronunciada "aroma". o alfabeto inteiramente fonético estimula a atividade do hemisfério esquerdo do cérebro e. Constitui um registro democratizante. dependendo da língua usada para interpretá-Io: oiseau. ainda é um desenho de uma das coisas que ele representa. mais manipuláveis do que um silabário: em vez de um símbolo para o som ba. o menos estético de todos os principais sistemas de escrita: pode ser posto em bela caligrafia. por converter o som a uma forma visível.r Após tudo o que se disse sobre o alfabeto semítico. Mas o rébus (fonograma). Podia ser usado para escrever ou ler palavras até mesmo em línguas que não se conhecia (salvo por algumas imprecisões devidas a diferenças fonológicas entre línguas). como já explicamos anteriormente. o mais adaptável de todos os sistemas de escrita. reduzindo o som diretamente a equivalentes espaciais e a unidades menores. como muitos outros sistemas de escrita. da palavra. O leitor da escrita semítica precisava lançar mão de dados tanto textuais quanto não textuais: precisava conhecer a língua que estava lendo para saber que vogais colocar entre as consoantes. pois representa um objeto. mas um som completamente diferente. não obstante derivar provavelmente de pictogramas. A escrita de caracteres chineses. o fato de que não estava baseada em um sistema como o semítico. uccello. facilmente aprendido por qualquer pessoa. fica muito claro que os gregos fizeram algo de grande importância psicológica quando desenvolveram o primeiro alfabeto completo. Se gravarmos em uma fita a palavra "anl0ra" e a tocarmos para trás. Ele representa o som em si como uma coisa. Ele analisava o som de modo mais abstrato. como no exemplo fictício usado acima). embora possa representar várias coisas. pelo fato de que fornecia um meio de lidar até mesmo com línguas estrangeiras. de um pássaro. sae. sem dúvida. Kerckhove (1981) sugeriu que. igualmente. Havelock (1976) acredita que essa transformação crucial. N:lb posso ter presente uma palavra inteira ao mesmo tempo: ao dizer "desaparecendo". pois o alfabeto opera mais diretamente sobre o som como som do que os outros registros escritos. Rébus ou fonogramas. não uma palavra. marcas imóveis para a assimilação pela visão. O som. elas fossem coisas. em componentes puramente espaciais. temos dois. não reduz o som ao espaço. O alfabeto implica que as questões são diferentes. Nos livros e jornais coreanos. desse modo. até o terceiro ano. (Observou-se há pouco que. que uma palavra é uma coisa. A qualidade democratizante do alfabeto pode ser percebida na Coréia do Sul. Um desenho. o texto é uma mescla de palavras soletradas alfabeticamente e de centenas de diferentes caracteres chineses. que admitia a omissão de vogais na escrita. É talvez. acabou sendo talvez uma vantagem intelectual acidental. sobre bases neurofisiológicas. pãjaro. O alfabeto vocálico grego estava mais distante daquele mundo (como as idéias de Platão iriam estar). Porém. no entanto. mas nunca tão refinada quanto os caracteres chineses. em português] de um pé representando soul [alma] em referência ao corpo. transformando o mundo evanescente do som no mundo espacial mudo. Era também "internacionalizante". mas na verdade pleno) tanto pressagiou quanto implementou suas outras explorações analíticas. A razão de o alfabeto ter sido inventado tão tarde e apenas uma vez pode ser entendida se refletirmos sobre a natureza do som. digamos. quando chego ao "-cendo". de sonora para visual deu à antiga cultura grega sua ascendência intelectual sobre outras culturas antigas. que ocorrem irregularmente em algumas escritas pictográficas. não obteremos "aroma". representam o som de uma palavra pelo desenho de uma outra (a sole [sola. Parece que a estrutura da língua grega.

A cultura escrita pode estar restrita a grupos especiais como o clero (Tambiah 1968.alfabeto. o rei Sejong da dinastia Yi decretou que um alfabeto deveria ser inventado para o coreano. pp. que todos podem virtualmente ler. que são o mínimo exigido . Porém.encomendas. Os monges tibetanos costumavam sentar-se nas margens de riachos "imprimindo páginas de encantamento e de fórmulas na superfície da água com blocos de madeira" (Goody 1968a. alfabético ou outro. 236). pp.para ler a maior parte da literatura em coreano. 201-203). A literatura séria era elitista e desejava ser conhecida como elitista. 16. Os escritores "sérios" continuaram a usar a escrita de caracteres chineses que haviam treinado tão arduamente. uma realização magistral. diante da prevista resistência maciça.. como um instrumento de poder secreto e mágico (Goody 1968b. citando R. Porém. ao passo que os 1.haviam passado ou estavam passando a melhor parte de suas vidas aprendendo a dominar a complicada quirografia sino-coreana. conhecimentos de embarque.além do alfabeto .todos coreanos que sabiam escrever . ou de fazer girar rodas de orações que sustentam textos que não podem ler (Goody 1968a. virtualmente perfeita na sua adaptação à fonologia coreana e esteticamente destinada a produzir um registro alfabético com algo da aparência de um texto em caracteres chineses. Clamor girls são. 13). mas podem também ser apreciados simplesmente em virtude da maravilhosa durabilidade que conferem às palavras.que sabem que existem em operações de embarque são instrumentos mágicos para fazer com que navios e carregamentos cheguem pelo mar. com a democratização maior da Coréia. Milhares e milhares de coreanos . Eckvall).e. práticos. A acomodação do alfabeto a uma dada língua geralmente demanda muitos anos ou muitas gerações. recibos (Achebe 1961. o coreano havia sido escrito apenas em caracteres chineses. acabou por significar conhecimento oculto ou mágico e. vulgares. referente ao aprendizado livresco.800 ban. Apenas no século XX. Os textos podem dar a impressão de possuir valor religioso intrínseco: os iletrados tiram proveito do ato de esfregar o livro em suas frontes. uma língua não inteiramente relacionada ao chinês (embora possua muitas palavras de empréstimo do chinês. pp. em 1443 d. recibos etc.B. Até aquela época. no lruCIO. ele o faz necessariamente. Havelock descobre um padrão geral Quando um registro plenamente formado de qualquer tipo. garotas de gramática. na realidade. O alfabeto foi usado apenas para objetivos não acadêmicos. ou caracteres chineses. uma vez que é dominado nos primeiros anos da escola fundamental. pp. onde. na esperança de que aquele carregamento apareça para dele tomarem posse e fazerem uso (Meggitt 1968.jornais. o alfabeto realmente alcançou sua atual (ainda não total) ascendência. A comissão de sábios de Sejong terminara o alfabeto coreano em três anos. 300-309). Fragmentos de escrita são usados como amuletos mágicos (Goody 1968b. Seria pouco provável que saudassem um novo sistema de escrita que tornaria obsoletas suas habilidades arduamente adquiridas. O futbark. abre caminho pela primeira vez na direção de uma . Os ainda florescentes "cultos de carregamento" em algumas ilhas do Pacífico Sul são bem conhecidos: iletrados ou semiletrados julgam que os documentos comerciais . Traços dessa atitude inicial em relação à escrita ainda podem ser vistos na etimologia: a grammarye ou gramática do inglês médio. p. caixas de papelão. inici(l1mente. a recepção dessa façanha notável era previsível. em setores restritos e com diferentes resultados e implicações. 120-121). Talvez a realização isolada mais notável da história do alfabeto tenha ocorrido na Coréia. sociedade específica. foi comumente associado à magia. a maioria é tão coreanizada que se torna incompreensível para qualquer chinês). Algumas sociedades de cultura escrita limitada consideram a escrita perigosa para o leitor desavisado. Na cultura da antiga Grécia. primorosamente trabalhados para se adequar ao vocabulário do coreano (e interagir com ele). pp. a dinastia Yi era poderosa e o decreto de Sejong. não são comumente dominados na sua totalidade antes do fim da escola secundária. por meio de uma forma dialética escocesa. e criam vários rituais pela manipulação de textos escritos. O romancista nigeriano Chinua Achebe descreve como em uma aldeia ibo o único homem que sabia escrever acumulou em sua casa todo pedaço de material impresso que encontrava em seu caminho . . emergiu no nosso atual vocabulário inglês como glamor (poder de encantamento). p. 113-114). p. Tudo lhe parecia extraordinário demais para ser jogado fora. A escrita é muitas vezes considerada. sugere que ele possuía estruturas de ego igualmente poderosas. exigem uma figura semelhante a um guru para servir de mediador entre o leitor e o texto (Goody e Watt 1968. 15-16). ou alfabeto TÚnico da Europa Setentrional medieval.

Ainda era raro na Inglaterra do século XI e.c. São Tomás de Aquino. papiros (melhor do que a maioria das superfícies. freqüentemente reprocessadas pela raspagem de um texto anterior (palimpsestos). penas de g~nso que tinham de ser corta~as e apontadas repetidas vezes com o que amda chamamos de pen knife. ou. comumente na Ásia Oriental. embora possam ser excepcionalmente conscientes dos efeitos sonoros das palavras. manufaturado na China. De modo semelhante. 218). algo praticado até certo ponto desde a Antiguidade. ele declara sua posição e finalmente responde às objeções. mas o estado da tecnologia da escrita também o faz. Goody 1968b). produzir um pensamento com a pena na mão. podia ser feito em uma moldura psicológica tão oral que nos é difícil imaginá-lo. o papel foi produzido pela primeira vez na Europa apenas no século XII. na qual o autor compõe um texto que é exatamente um texto.. 88-115. cera derramada sobre mesas de madeira muitas vezes dobradas para formar um díptico usado em um cint~ (essas tabuletas de cera eram usadas para notas e a cera era polida repetidas vezes para reutilização). bastões de madeira (Clanchy 1979.de cultura escrita restrita aplicável a muitas outras culturas: logo após a introdução da escrita. um antigo poeta escreveria um poema imaginando-se declamando-o para um público. a escrita é um comércio praticado por profissionais que são contratados para escrever uma carta ou um documento. peles de animais (pergaminho. Como superfícies para a escrita. sentia que estava ditando a si mesmo (Clanchy 1979. Exigiam-se habilidades mecânicas para trabalhar com esse material de escrita. particularmente em composições breves.se é que algum o faz -. quando compunha por escrito. os autores muito freqüentemente empregavam escribas. Poucos romancistas hoje escrevem um romance imaginando-se declamando-o em voz alta . como o Mali. Em vez do papel de superfície uniforme fabricado em máquinas e das canetas esferográficas relativamente duráveis. como na aquarela. No ato físico de escrever.C. Tintas fluidas eram misturadas de várias maneiras e preparadas para uso em chifres ocos de bois (tintefros de chifre) ou em outros recipientes sólidos. 90). sobre "A tecnologia da escrita"). mas ainda áspero para os padrões de alta tecnologia). Não havia papelarias de esquina vendendo blocos de papel. 95) e outras superfícies de madeira e de pedra de vários tipos. ele possuía blocos de barro molhado. então. p. As propriedades físicas do material escrito inicial estimularam a permanência da cultura tribal (ver Clanchy 1979. O papel tornou a escrita fisicamente mais fácil. da Idade Média até o século XX (Wilks 1968. pp. quando a escrita foi finalmente difundida entre a população grega e interiorizada o suficiente para afetar os processos mentais de um modo geral (Havelock 1963). e difundido pelos árabes no Oriente Médio por volta do século VIII d. Apenas por volta da época de Platão na Grécia antiga. pela ordem. esse estágio foi superado. era. Nesse estágio de profissionalização da escrita. evidentemente. Eadmer de Saint Albans. velino) desbastadas de gordura e pêlos. Isso confere ao pensamento contornos diferentes daqueles do .. Mas. pincéis (particularmente na Ásia Oriental) ou vários outros instrumentos para riscar superfícies ou espalhar tintas. que escreveu seus próprios manuscritos. do mesmo modo que se contrata um pedreiro para construir uma casa. organiza sua Summa theologiae em um formato quase oral: cada seção ou "questão" começa com uma recitação de objeções contra a posição que assumirá Aquino. "o corpo todo trabalha" (Clanchy 1979. Nesse estágio. na Europa. p. junta suas palavras no papel. mas isso se tornou mais comum em relação à composição literária ou outras composições mais longas em diferentes épocas nas diversas culturas. os escribas possuíam vários tipos de estilete. Ou então cascas de árvores. provavelmente por volta do século II a. muitas vezes amaciadas com pedra-pomes e branqueadas com giz. Durante a Idade Média. cf. Havelock e Herschell 1978). pincéis eram molhados e esfregados em blocos cobertos de tinta seca. na Inglaterra do século XI. folhas secas ou outros vegetais. p. diz o inglês medieval Orderic Vitalis. Compor à medida que se escreve. Hábitos mentais há muito existentes de pensar em voz alta favorecem o ditado. O alto grau de cultura escrita alimenta a composição verdadeiramente escrita. não há mais necessidade de que um indivíduo saiba ler e escrever do que de dominar outra atividade comercial qualquer. Era esse o estado de coisas nos reinados da África Ocidental. ou um construtor naval para fazer um barco. Como ferramentas para escrever. desenvolve-se um "ofício de escrita" (Havelock 1963. até mesmo então. mais de três séculos depois da introdução do alfabeto grego. quando ocorria. o escritor antigo possuía um equipamento tecnológico mais rebelde. Não existia papel. e nem todos os "escritores" as tinham no grau adequado para uma composição demorada.

como "recebi de meus ancestrais e vi e ouvi em minha juventude". Os próprios documentos escritos eram muitas vezes autenticados não por escrito. Cada jurado jurou que. para resolver uma disputa relativa à destinação dos impostos devidos no porto de Sandwich (se deveriam ir para a Abadia de Santo Agostinho em Canterbury ou para Christ Church). As antigas escrituras de transferência de terra na Inglaterra não eram originalmente nem mesmo datadas 0979. 21-22) para ~ fato de que a história é um tanto discutível em virtude de algumas incoerências. escrever) mais adiante sobre os efeitos da cultura escrita nos processos mentais. mas "uma espada antiga e enferrujada". atualmente. Até mesmo depois do Domesday Book (1085-1086) e o resultante aumento de documentação escrita. 232-233). . não (isso. até mesmo em um meio administrativo. pp. devemos lembrar. p. mas não seria uma presunção datar um documento secular como os papas datavam os seus? Nas culturas de alta tecnologia. Um letrado de hoje geralmente dá como certo que os registros escritos têm mais força do que as palavras faladas como prova de um estado de coisas há muito existente. o Conquistador. porém a história cuidadosa. p. mas não a haviam interiorizado o suficiente. o Conde Warrenne exibiu não uma carta. muitas vezes davam como certo exatamente o oposto. relógios de parede e relógios de pulso. selecionou-se um júri de doze homens de Dover e doze de Sandwich. De fato. 25). imposto por milhares de calendários impressos. em uma moldura de tempo computado abstratamente. ao passo que os textos. a história do conde Warrenne mostra como o estado mental oral ainda persistia: diante dos juízes encarregados dos procedimentos determinados pelo estatuto Quo Warranto. Em 1127. e muito mais tarde na Inglaterra do que na Itália (Clanchy 1979.pensamento baseado na oralidade. À primeira vista. Clanchy sugere que o mais profundo deles era provavelmente que "a datação exigia que o escriba expressasse sua opinião sobre seu lugar no tempo" 0979. 236-241). Muito tempo depois de uma cultura ter começado a usar a escrita. No período estudado. não havia relógios de parede ou relógios de pulso ou calendários de mesa. o testemunho oral coletivo era comumente usado para estabelecer. Thomas de Muschamps transferiu sua propriedade de Hetherslaw aos monges de Durham oferecendo sua espada sobre um altar (Clanchy 1979. elaborada por Clanchy. do nascimento de Cristo. mas observa também que sua persistência testemunha um estado mental mais antigo. para tomar a Inglaterra pela espada e que ele defenderia suas terras com a espada. todos os dias. os objetos simbólicos por si sós podiam servir como instrumentos de transferência de propriedade. argumentando que seus ancestrais haviam chegado com Guilherme. provavelmente por diversos motivos. pp. Clanchy chama a atenção 0979. 231. pp. a idade de herdeiros feudais. p. por exemplo. As culturas mais antigas. "pessoas de idade. Que ponto? Ele deveria localizar esse documento por referência à criação do mundo? À Crucificação? Ao nascimento de Cristo? Os papas datavam assim os seus documentos.Clanchy 1979. As pessoas precisavam ser convencidas de que a escrita aperfeiçoava os métodos orais o bastante para compensar todos os custos e as técnicas difíceis que ela envolvia. presa ao documento por uma correia de pergaminho . 235-236). Métodos notariais de autenticar documentos tentam construir mecanismos de autenticação por documentos escritos. Eles estavam lembrando publicamente o que outros antes deles haviam lembrado. p. as testemunhas eram mais confiáveis do que os textos. mas os métodos notariais se desenvolvem tarde nas culturas letradas. no reinado de Eduardo I (entre 1272 e 1306). as taxas pertenciam a Christ Church (Clanchy 1979. Voltaremos a falar (isto é. pp. sábias e maduras. O grau de crédito atribuído a registros escritos indubitavelmente variou de cultura para cultura. porque podiam ser questionadas e defender suas afirmações. 230). ela pode ainda não lhe dar muito valor. Por volta de 1130. todos vivemos. de exemplos do uso da escrita para objetivos administrativos práticos na Inglaterra dos séculos XI e XII (979) fornece uma amostra instrutiva de quanto a oralidade podia se prolongar na presença da escrita. de bom testemunho". Antes do uso de documentos. o que requeria que escolhesse um ponto de referência. Clanchy descobre que "os documentos não inspiram confiança imediatamente" (Clanchy 1979. mas por objetos simbólicos (como uma faca. especialmente em um tribunal. 238). conhecedor do valor testemunhal de prendas simbólicas. que conheciam a escrita. 24). era exatamente uma das objeções de Platão à escrita). Na Inglaterra do século XII.

A maioria das pessoas não sabia nem mesmo tentava descobrir em que ano havia nascido. um ritmo de que careceria uma mera seqüência de nomes).): "Partindo do deserto do Sinai. Metusael gerou Lameque" (Gênesis 4:18). porque o passado mais remoto era. . eles acamparam em Quibrote-Ataavá. 233). Parece improvável que a maioria das pessoas na Europa Ocidental medieval ou até mesmo renascentista estivessem comumente conscientes do número do ano calendário corrente . Elas eram identificáveis por sua aparência. faz com que a lei consuetudinária pareça inevitável e. qual a utilidade. as escrituras eram indubitavelmente associadas de algum modo a prendas simbólicas.contado a partir do nascimento de Cristo ou de qualquer outro ponto no passado. que em si mesma não é um terreno especificado em itens. No texto da Torá. para a maioria das pessoas. A escrita torna possível tais aparatos. acamparam em Ritmá . A lei consuetudinária. As culturas orais primárias comumente situam seus equivalentes de registros em narrativas. que registrou por escrito formas de pensamento ainda basicamente orais. portanto.. "A verdade lembrada era . como facas ou espadas. como no catálogo dos barcos e dos chefes na llíada Cii. o Confessor. Em uma cultura sem jornais ou outro tipo de material correntemente datado para ser impingido à consciência. mas uma exposição operacional em uma história sobre uma guerra. a escrita foi. em qualquer tipo de tempo computado abstratamente. 44 são certamente falsificadas. De fato.. dos quais o calendário é um dos exemplos. Meujael gerou Metusael. mas eram "peritos entrincheirados no centro da cultura literária e intelectual do século XI!. de afirmações do que alguém fez: "Irade gerou Meujael.. "Os falsificadores".H. portanto.não um registro de contas objetivo. e parcialmente da tendência oral para antes narrar do que simplesmente justapor (os indivíduos não são imobilizados.um fato que. encontramos uma seqüência de "gerou". em uma economia de pensamento oral. Goody (1977. são registros de cálculos. isto é. nas culturas funcionalmente orais. paradoxalmente. "gerando"). desbastada de material não mais em uso. citando P. em sua maior parte. mas estão fazendo algo. jovem . flexível e recente" (Clanchy 1979. mas provêm de uma sensibilidade e de uma tradição oralmente constituídas. o equivalente da geografia (estabelecendo a relação de um lugar com outro) é posto em uma narrativa de ação formular (Números 33: 16 ss. Por que estariam? A indecisão quanto a partir de que ponto computar o tempo atestava as trivialidades da questão. pp. E. os de escrita cuneiforme dos sumérios. p." e assim por muitos versos mais. as pessoas não se sentiam situadas.." Das 164 escrituras ainda existentes de Eduardo. inventada em boa medida para fazer coisas como registros: a grande maioria dos escritos mais antigos que conhecemos. como em um alinhamento militar. Os erros verificáveis resultantes dos procedimentos econômicos e jurídicos ainda radicalmente orais que Clanchy cita eram mínimos. uma fonte ressonante de consciência renovadora da existência presente. muito velha (cf. inacessível à consciência.Antes que a escrita fosse profundamente interiorizada pela impressão. 249. sublinha Clanchy. de saber o ano calendário corrente? O número do calendário abstrato não estaria relacionado a nada na vida real. pp. A oralidade não conhece listas. Além disso. não constituíam "desvios ocasionais nas periferias da prática legal". salpicado de "fatos" ou informações verificáveis e discutidas. de fato. tabelas ou números. como gerador e como gerado). Esse tipo de acumulação deriva parcialmente da tendência oral para explorar o equilíbrio (a recorrência de sujeito-predicado-objeto cria um ritmo que auxilia na recordação. as escrituras eram com muita freqüência forjadas para se assemelhar ao que um tribunal (embora equivocadamente) achava que devia parecer (Clanchy 1979. questões do passado sem qualquer relevância presente comumente caíam no esquecimento. 31-34). em parte da tendência oral para a redundância (cada indivíduo é mencionado duas vezes. 52-111) examinou detalhadamente a importância noética de tabelas e registros. Essas passagens bíblicas obviamente são registros escritos. Até mesmo as genealogias dessa tradição de moldura oral são na verdade comumente narrativas. apenas 64 com certeza genuínas e o resto não se sabe em qual dos casos se encontra.461-879) . acamparam em Hazerote. Partindo de Quibrote-Ataavá. Em vez de uma recitação de nomes.c. É o domínio dos ancestrais. Como vimos em exemplos de Gana e da Nigéria modernas (Goody e Watt 1968. Clanchy 1979.. Sawyer). em certo sentido. a cada momento de suas vidas. p. p. 233). Partindo de Hazerote. As pessoas cuja visão de mundo foi formada por uma cultura escrita elevada têm a necessidade de lembrar que. era automaticamente sempre atualizada e. o passado não é percebido como um terreno especificado em itens. que começam por volta de 3500 a.

para o movimento da direita para a esquerda. As tabelas. vivo.. impossíveis de "examinar". pp. tipos de ventos e assim por diante). nem mesmo as genealogias são "registros" de dados.externamente ou na imaginação . que não tem como operar com "cabeçalhos" ou com linearidade verbal. ou da direita para a esquerda. que vai da direita para a esquerda. imobilizados no espaço visual. em vários registros em todo o mundo. são antes "memória de canções cantadas". em seu hábitat natural. suas próprias leis de movimento e de estrutura. Embora se refiram a sons e não tenham sentido até que possam ser relacionadas . totalmente diferente de tudo o que existe na sensibilidade oral. Kerckhove 0981. existencial. O uso extensivo de registros e particularmente de tabelas. 4950). mas também "pés". eles na verdade deformam o mundo mental no qual os mitos têm sua própria existência. e depois usada para a recuperação visual do material. para o movimento definitivo da esquerda para a direita. nos primeiros tempos da cultura escrita. Os textos são coisas. como nos índices. Registros do tipo discutido por Goody são obviamente úteis quando estamos conscientes da distorção que eles inevitavelmente criam. é posto a serviço imediato do estabelecimento das novas seqüências definidas espacialmente: os itens são marcados com a. quando os antropólogos expõem em uma superfície escrita ou impressa registros de vários itens encontrados em mitos orais (clãs. Fazem-se referências ao que está "acima" e "abaixo" em um texto. para notas de roda pé. regiões do planeta.Não são percebidas como uma coisa. que ordenam elementos de pensamento não simplesmente em uma linha de categoria. Em qualquer lugar do mundo. e até mesmo os poemas. A palavras. Em uma cultura oral primária ou em uma cultura com forte resíduo oral. a outro indivíduo real. Seqüências oralmente apresentadas são sempre ocorrências no tempo.aos sons ou. são antes enunciados que são ouvidos. As páginas não possuem apenas "cabeças". que significa "cabeça" (como a do corpo humano). mas simultaneamente em ordens horizontais e entrecruzadas. Eles introduzem um gosto por "cabeçalhos" em acumulação de conhecimento: "capítulo" deriva do latim caput. uma linha indo para a direita. é resultado não apenas da escrita. Os textos. ou todos esses modos ao mesmo tempo. c e assim por diante. tão comum em nossas culturas de alta tecnologia. Goody mostra em detalhes como. são parte de um presente real. as palavras escritas estão isoladas do contexto pleno no qual as palavras faladas nascem. aos fonemas que codificam. sendo as letras invertidas segundo a direção da linha). sujeitos ao que Goody chama de "esquadrinhamento retrospectivo" (1977. A enunciação oral é dirigida por um indivíduo real.Os textos assimilam a enunciação ao ~rpo humano. A satisfação proporcionada pelos mitos é essencialmente não "coerente" numa forma tabular. como em uma escrita bustrofédon. A importância do vertical e do horizontal em textos merece um estudo sério. que implementa o uso de tabelas diagramáticas fixas de palavras e outros usos informativos do espaço neutro muito além de qualquer coisa factível em qualquer cultura escrita. 10-11) sugere que o desenvolvimento do hemisfério esquerdo do cérebro governou a tendência. O alfabeto como uma simples seqüência de letras constitui uma ponte importante entre a mnemônica oral e a mnemônica letrada: geralmente a seqüência das letras do alfabeto é memorizada oralmente. Tudo isso constitui um mundo de ordem. porque não são apresentadas visualmente. quando o que se quer dizer são várias páginas atrás ou adiante. pelo que se sabe. na escrita grega antiga. ou indivíduos reais. para o estilo stoichedon (linhas verticais) e. pp. para indicar a seqüência. b. mas nunca em lugar algum. o alfabeto. representam uma moldura de pensamento ainda mais distante do que os registros em relação aos processos noéticos que devem representar. são lidos diferentemente da esquerda para a direita. pp. 307-318 e passim). vivos. para o movimento bustrofédon (padrão "arado de boi". mais precisamente. finalmente. ou de cima para baixo. o implacavelmente eficiente redutor do som ao espaço. em um tempo específico em um cenário real que inclui sempre muito mais do que meras palavras. depois uma volta na ponta para a outra linha. mas da profunda interiorização da impressão (Ong 1958b. em uma linha horizontal. oral. de baixo para cima . eram compostos com a primeira letra da primeira palavra de versos sucessivos seguindo a ordem do alfabeto. A situação das palavras em um texto é muito diferente da sua situação na linguagem falada. mas como reconstituições de eventos no tempo. A apresentação visual do material verbalizado no espaço possui sua própria economia. As palavras faladas constituem sempre modificações . vivo.

o máximo de ficcionalização do enunciador e do destinatário. Mas quem está falando com quem em Orgulho epreconceito ou em O vermelho e o negro. Nem poderia.escritores de diários de angústias. Mais tarde. Quando meu amigo ler minha carta. Em um texto. Até mesmo em um diário pessoal dirigido a mim mesmo preciso construir uma ficção de destinatário. finjo estar falando comigo mesmo. e em um diário. mas elas não serão completas. O atores gastam horas decidindo como realmente pronunciar as palavras do texto que está diante deles. geralmente requerem que a voz se eleve um pouco. Os modos como os leitores são imaginados constituem o lado inferior da história literária. por exemplo. A maioria dos livros existentes hoje foi escrita por pessoas que estão agora mortas. aquele que produz a enunciação escrita está igualmente sozinho. devo estar isolado de todos. . "O público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. uma "moldura histórica". Enquanto escrevo o presente livro. até mesmo as palavras carecem de suas qualidades __ plenamente fonéticas. E para qual "eu" estou eu escrevendo? Eu mesmo hoje? Para o eu que penso que serei daqui a dez anos? Como espero ser então? Para mim mesmo como me imagino ou espero que os outros me imaginem? Perguntas como essas podem encher . O contexto extratextual está ausente não apenas para os leitores. posso muito bem estar morto. O diário pessoal constitui uma forma literária muito tardia. A tradição letrada. de certo modo. No entanto. O memorialista já não pode conviver com sua ficção. ao "escrever" algo. irado. resignado ou qualquer que seja. os quais o leitor pode imaginar estar ouvindo por acaso. possa interromper minha solidão. na Idade Média. O escritor precisa construir um papel ao qual leitores ausentes e muitas vezes desconhecidos possam se moldar. espero. De fato. portanto. ou em Adam Bedé? Os romancistas do século XIX salmodiam conscientemente "caro leitor" repetidas vezes para lembrar que não estão contando uma história. incluindo indivíduos que irão presumivelmente ler o livro. será lido por centenas de milhares de pessoas. em um contexto simplesmente de palavras. para que o leitor possa fingir ser um dos membros do grupo ouvinte. por outro. ao compor um texto.animado. calmo. excitado. as palavras estão sozinhas em um texto. isto é. adotada e adaptada por críticos habilidosos. Para que um texto comunique sua mensagem. não importa que o autor esteja vivo ou morto. cujo cume é a história dos gêneros e o tratamento do personagem e do enredo. em um sussurro. Mas eu nunca falo realmente comigo mesmo desse modo. A escrita é sempre uma espécie de imitação de conversa. Boccaccio e Chaucer fornecerão ao leitor grupos fictícios de homens e mulheres contando histórias uns para os outros. A falta de um contexto verificável é o que torna a escrita normalmente uma atividade tão mais angustiante do que a apresentação oral para um público real. como os do Sócrates de Platão. mas escrevendo-a. Além disso. O tipo de devaneios solipsísticos verbalizados que ele implica são um produto da consciência moldada pela cultura impressa. sem a escrita e. pode também prover algumas pistas extratextuais para as entoações. os escritos apresentarão textos filosóficos e teológicos na forma objeção-e-resposta. pp. Na linguagem falada. 53-81). Ou os episódios devem ser imaginados como episódios contados a um público ao vivo em dias sucessivos. A psicodinâmica da escrita amadureceu muito lentamente na narrativa. portanto. mas também para o escritor. De fato. sem a impressão. a pontuação pode sinalizar um tom de forma mínima: um ponto de interrogação ou uma vírgula. para que o leitor possa imaginar um debate oral. A enunciação falada vem apenas dos vivos.de uma situação que é mais do que verbal. uma palavra deve ter esta ou aquela entoação ou tom de voz .e realmente enchem . Eles apresentam um material filosófico em diálogos. na verdade. Em um texto. de modo que tanto o autor quanto o leitor estão tendo dificuldades em se situar. na verdade desconhecida até o século XVII (Boerner 1969). Uma determinada passagem poderia ser pronunciada por um ator em um brado. Escrever é uma operação solipsística. o diário requer. Os escritos antigos fornecem ao leitor auxílios visíveis para que se situe imaginativamente. Até mesmo ao escrever a um amigo íntimo preciso construir uma ficção de estado de espírito para ele. Elas nunca ocorrem sozinhas. É impossível pronunciar uma palavra oralmente sem qualquer entoação. posso estar em um estado de espírito totalmente diferente do momento em que a escrevi. e muitas vezes levam à interrupção dos diários. Estou escrevendo um livro que. deixo um aviso de que estou "fora" durante horas e dias para que ninguém. O leitor precisa também construir uma ficção para o escritor. ao qual ele deve se moldar.

e temos de fazer com que nossa linguagem funcione de modo a se tornar dara apenas por si. de um tipo ficcional. eles se movem dialeticamente em direção ao esclarecimento analítico de questões que Sócrates e PIatão haviam herdado na forma mais "totalizada". Porém. Por meio de um texto tratado quirograficamente. na verdade. _ como nos provérbios. Havelock tratou do movimento que PIatão levou ao ponto crítico. apagadas. que é imaginável apenas em virtude da escrita e da impressão que o precederam. aqui. postas na superfície.a etimologia aqui é reveladora: g/ossa. no sentido de que se lê bem em voz alta. O que Goody 0977. Alguns fazem cursos em universidades para aprender como se imaginar à /a ]oyce. eliminar incoerências (Goody 1977. Em uma cultura oral. oral. sem nenhum contexto . Na escrita. como na narrativa formal. 1970) julga característicos dos padrões mentais "primitivos" ou "selvagens" podem ser vistos aqui como conseqüência da situação noética oral. Não existe um equivalente para isso em uma apresentação oral. quer sejam longas. pois os diálogos são. Em Tbe greek concept of justice: From its shadow in Homer to its substance in P/ato [O conceito grego de justiça: De sua obscuridade em Homero a sua solidez em Platão] (1978a). e o faz. A maioria dos leitores de inglês não poderá ou não desejará se tornar o tipo especial de leitor exigido por ]oyce. maldita. em partes mais ou menos separadas. 49-50). nenhum meio de apagar uma palavra falada: as correções não removem uma frase infeliz ou um erro. Com a escrita. sem um ouvinte real. a sabedoria tem a ver com um contexto social total e relativamente infrangível. exteriorizadas. língua. em qualquer situação possível. não-analítica. a voz e seus ouvintes não cabem em qualquer cenário de vida real imaginável. os copia defendidos na Europa pelos retóricos da Antiguidade Clássica até a Renascença. o fluxo de palavras. de muitas das enunciações orais. mas para a impressão: com sua ortografia e seus usos idiossincráticos. no sentido aristotélico. A objetividade analítica com que PIatão o distanciamento que a escrita realiza desenvolve um novo tipo de exatidão na verbalização. sua excepcional precisão se deve aos efeitos da escrita sobre os processos noéticos. a tornar o falante muito pouco convincente. mas apenas no cenário imaginativo de Finnegan 's Wake. seria virtualmente impossível multiplicá-Io de modo exato em cópias manuscritas. uma vez "proferidas". Todavia. quer sejam breves e apotegmática~. textos escritos. temos de prever cuidadosamente todos os significados possíveis que uma afirmação possa ter para qualquer leitor possível. 272-302). p. escolher palavras com uma seletividade refletida que investe o pensamento e as palavras de novos poderes discriminatórios. O brico/age ou o remendo que Lévi-Strauss (1966. elas meramente complementam-nos com negativa e remendo. Apenas um leitor.E como o leitor deve se imaginar diante de Finnegan 's Wak&. as palavras escritas refinam a análise. a "grande. mas caótico. pois se exige mais das palavras individualmente. "linguandoas" de ponta a ponta. narrativa. A necessidade desse cuidado excepcional transforma a escrita no trabalho angustiante que geralmente é. Embora o pensamento de Platão seja expresso na forma de diálogo. As correções em apresentações orais tendem a ser contraproducentes. e quanto mais durar a tradição escrita (e impressa). Finnegan 's Wake foi composto em escrita. ela pode retroagir na fala. Evidentemente. segmentos significativos. as palavras. Portanto. salvo ironicamente. murmurante confusão" de William ]ames. 128) chama de "esquadrinhamento retrospectivo" torna possível. tirando-a do contexto existencialmente rico. sem entoação. Embora o texto de ]oyce seja muito oral. o correspondente fluxo de pensamento. existencial. Porém. pp. expresso na forma de diálogo. mudadas. toda linguagem e todo pensamento são até certo ponto analíticos: eles decompõem o denso continuum da experiência. as correções podem ser tremendamente produtivas. A escrita é de fato a sementeira da ironia. mais forte será o desenvolvimento irônico (Ong 1971. A linguagem e o pensamento tratados oralmente não são conhecidos por sua exatidão analítica. pois como poderá o leitor saber se foram feitas? Evidentemente. ou então as evitamos totalmente. pp. na escrita. tendem a lidar com as discrepâncias mediante glosas abundantes . As apresentações orais podem ser impressionantes em sua grandiloqüência e sua sabedoria comunal. nós as reduzimos a um mínimo. sem expressão facial. podem ser eliminadas. Para nos fazermos entender sem gestos. Não há mimese. uma vez interiorizada a busca quirográfica inicial de precisão e exatidão analítica.

mas também do eu interior com o qual o mundo objetivo é comparado. 137-138) foram obra de mentes afiadas por textos escritos e pela leitura e comentário de textos. A escrita e a impressão criam tipos especiais de dialetos. e finalmente se tornou uma língua nacional. pp. é absolutamente necessário um código lingüístico elaborado. particularmente os gregos. religiosos ou outros. O grupo encontrado por Bernstein usando esse código pertencia às seis principais escolas públicas que fornecem a mais intensiva educação em leitura e escrita na Grã-Bretanha 0974. e sua religião deixou de se estabelecer nos recessos da psique que a escrita lhes abrira. Muitas vezes. como se viu (p.reconhecidamente o modo formular e acumulativo da cultura oral. Os antigos gregos e romanos conheciam a escrita e a usavam. mas "como contas em uma caixa" (1974. 176. para uma elaboração plena. seu status como línguas nacionais quirograficamente controladas tornou-os espécies de dialetos ou línguas diferentes daqueles que não são escritos em larga escala. pp. Na Inglaterra. Os debates orais refinadamente analíticos nas universidades medievais e na tradição escolástica posterior até o século atual (Ong 1981. Ela se tornou apenas um recurso literário elegante e arcaico para escritores como Ovídio e uma moldura para práticas exteriores. Walt Wolfram (972) havia apontado anteriormente distinções como as de Bernstein entre o inglês dos negros norte-americanos e o inglês norte-americano padrão. A origem e o uso do código lingüístico restrito evidentemente são em grande parte orais e. p. presente nas orações de Cícero. 773-776).. Os códigos lingüísticos "restrito" e "elaborado" de Bernstein poderiam ser reintitulados "de base oral" e "de base textual". Ao separar o conhecedor do conhecido (Havelock 1963). ou mais propriamente dialetos. Analogamente. no entanto. isso aconteceu com o dialeto da classe alta londrina. para construir o conhecimento filosófico e científico. A esse tipo de linguagem estabelecida escrita Haugen 0966. Basil Bernstein 0974. desenvolveu várias camadas de vocabulário com base em fontes absolutamente não-dialetais. tais como os conhecemos (Ong 1967b. por motivos econômicos. respectivamente. A maioria das línguas nunca foi posta em escrita. 15). onde se encontra uma grande quantidade de dialetos. não criaram textos sagrados comparáveis aos Vedas. o cristianismo e o islamismo. investiram enormemente na escrita. 134) . com propriedade. com o alto alemão (o alemão das regiões montanhosas do sul). A escrita desenvolve códigos em uma linguagem diferente dos códigos orais na mesma língua. pp. Sua expressão possui um ar de fórmula e encadeia pensamentos não em uma subordinação cuidadosa. a objetividade letal nas questões e nas fraquezas dos adversários. o código lingüístico restrito não funcionará. 50-71) chamou. uma língua escrita nacional teve de ser isolada da base dialetal original. próximos ao mundo da vida humana cotidiana: o grupo que Bernstein encontrou usando esse código era composto de meninos mensageiros sem nenhuma escolaridade. da impressão. carentes de significado pessoal premente. Conquanto seja verdade que eles eram todos. embora saibamos que Cícero não compôs seus discursos por escrito antes de proferi-los. abrindo a psique como nunca antes ao mundo objetivo externo. pp. além de certas peculiaridades sintáticas. 56-57). na Itália. oralmente e por escrito. como na Inglaterra. é obra de uma mente letrada. com o toscano. dialetos regionais e/ou de classe. muito diferente dela própria. O código lingüístico restrito pode ser pelo menos tão expressivo e exato quanto o código elaborado em contextos que são familiares e compartilhados pelo falante e pelo ouvinte. Porém. na Alemanha. operam funcionalmente. na Alemanha ou na Itália. a escrita permite uma articulação crescente da introspecção. ao passo que a escrita concentra o significado na própria linguagem.tratou do conceito abstrato de justiça não pode ser encontrada em nenhuma das culturas puramente orais conhecidas. "grafoleto". descartou certas formas dialetais. A escrita torna possíveis as grandes religiões introspectivas como o budismo. à Bíblia ou ao Corão. Como ressaltou Guxman 0970. . em sua essência. 181. Todas elas possuem textos sagrados. como o pensamento e a expressão orais em geral. 83). Porém certas línguas. Para lidar com o não familiar de modo expressivo e exato. pp. um dialeto regional desenvolveu-se quirograficamente mais do que os outros. O código elaborado é formado com o auxílio obrigatório da escrita e. 197-198) distingue o "código lingüístico restrito" ou a "linguagem pública" dos dialetos ingleses das classes baixas na Grã-Bretanha e o "código lingüístico elaborado" ou a "linguagem privada" dos dialetos das classes média e alta. políticos. p. Olson (977) mostrou como a oralidade relega o significado em grande parte ao contexto. 134-135. escreVeU-OSposteriormente. o judaísmo.

e a afetam. não faz nenhuma diferença se os falantes de um outro dialeto aprendem ou não o grafoleto. C. p. constituía um elemento menor na cultura . O Webster's Thírd New International Díctionary (971) afirma em seu Prefácio que poderia ter "multiplicado muitas vezes" as 450 mil palavras que realmente inclui. o grafoleto inclui todos os outros dialetos: ele os explica de uma maneira que eles mesmos não poderiam fazer. 74-111). nenhum outro dialeto. que é muito menor. em um sentido profundo. Foi registrado maciçamente em escrita e impressão e agora em computadores. e o fato de que o grafoleto seja escrito ou. possui algo remotamente semelhante aos recursos do grafoleto. ao que parece. 136-137). 43-50) vai mais além e diz que.Um grafoleto moderno como o "inglês". são interpretados no grafoleto. quando outros dialetos de uma dada língua . os lingüistas hoje comumente insistem em que todos os dialetos são iguais no sentido de que nenhum possui uma gramática intrinsecamente mais "correta" do que a dos outros. porém sua plenitude se deve à impressão. apesar de sua extraordinária relevância para a cultura em todas as épocas. O grafoleto traz as marcas de milhares de mentes que o usaram para compartilhar entre si sua consciência. Lewis honra a magnitude da questão ao se recusar a tratar dela. 60).S. a fortíorí. Mas Hirsch 0977. 1-22. eles não são não agramaticais: estão simplesmente usando uma gramática diferente. As bases sensoriais do próprio conceito de ordem são em boa parte visuais (Ong 1967b. Dicionários como esses estão a anos-luz do mundo das culturas orais. pp. Em seu terceiro volume da Oxford hístory of Englísh líterature. assim como milhares de línguas estrangeiras. por exemplo em inglês. primeiro e mais intensamente. representada por Sócrates. Dois grandes desenvolvimentos especiais no Ocidente derivam da interação da escrita e da oralidade . São a retórica acadêmica e o latim culto. Na Grécia Antiga. pp. de forma que os que possuem competência no grafoleto atualmente podem estabelecer facilmente contato não apenas com milhares de outras pessoas. mas enquanto a impressão não esteve bem estabelecida não houve dicionários que tentassem computar de forma generalizada e abrangente as palavras em uso em qualquer língua.além do grafoleto . pois os recursos de um grafoleto moderno estão disponíveis em grande parte por meio dos dicionários. impresso. podemos entender que os editores têm em mãos um registro de cerca de um milhão e meio de palavras usadas em impressão em inglês. gramáticos. Onde existem grafoletos. a despeito de toda a fecundidade subseqüente. 255-283). alemão ou italiano. depois pelos teóricos normativistas. Há registros limitados de palavras de vários tipos desde muito cedo na história da escrita (Goody 1977. à exclusão da gramática e do uso de outros dialetos. A riqueza léxica dos grafoletos começa com a escrita. o estudo da "filosofia". pois a língua é uma estrutura e é impossível usar a língua sem uma gramática. O estudo da retórica dominante em todas as culturas ocidentais até aquela época havia começado como o núcleo da educação e da cultura gregas antigas. porque não há nada "errado" com os outros dialetos. favorece a idéia de lhe atribuir um poder normativo especial para manter a língua em ordem.diferem da gramática do grafoleto. e arrendondando os números. Lewis observou que "a retórica constitui o maior obstáculo entre nós e nossos antepassados" 0954. mas também com o pensamento do passado de séculos atrás. que possui recursos de uma ordem de magnitude inteiramente diferente. pois os outros dialetos do inglês. foi trabalhado durante séculos. pela chancelaria de Henrique V (Richardson 1980). É fácil entender por que é assim se pensarmos no que significaria fazer até mesmo umas poucas dúzias de cópias relativamente precisas do Webster's Thírd ou mesmo do Webster's New Collegíate Díctionary. Nesse sentido. pp. lexicógrafos e outros. Admitindo-se que "multiplicado muitas vezes" deva significar pelo menos três vezes. É má pedagogia insistir nisso. Nada ilustra de modo mais impressionante como a escrita e a impressão alteram os estados de consciência. pelo menos até a era romântica (Ong 1971. para usar o termo que é comumente usado para referir a esse grafoleto. Nele foi forjado um vasto vocabulário de uma ordem de magnitude impossível para uma língua oral. As línguas e os dialetos orais podem se arranjar com uma pequena fração desse número. À luz desse fato. a gramática e o uso "corretos" são popularmente interpretados como a gramática e o uso do próprio grafoleto. Porém. 108. Platão e Aristóteles. pp.

efeito. As pessoas de uma cultura de alta tecnologia que se tornam conscientes da vasta literatura do passado que trata da retórica . As culturas orais. científico. como vimos. em um sentido muito profundo. 1971) -. 194-205). decadência.provavelmente reagirão com um "Que perda de tempo!". Kennedy 1980. anti-categoria ou aceusatio eoneertativa etc. Howell1956. Isso se mostra claramente no ensino retórico dos "lugares" (Ong 1967b. Índice). referiam-se aos "assentos" de argumentos. pp. 147-187. à Era das Luzes (por exemplo. isto é. contrastes. No primeiro. causa. etc. C.sobre qualquer assunto. a amizade. 1971. da vasta e complicada terminologia para classificar centenas de figuras de linguagem em grego e em latim . que explicava e sustentava a persuasão verbal. 56-87. dever-se-ia sempre encontrar algo para dizer definindo. paradiastote ou distinetio. 23-103). menos analíticos. Os gregos homéricos e pré-homéricos. produto da escrita. o mal. quer em seus efeitos sociais imediatos (Marrou 1956. isto é. Esses cabeçalhos podem ser intitulados "lugares-comuns analíticos". os sofistas da Grécia do século V. amizade etc. a culpa de um acusado de crime. como em geral os povos orais. o ensino retórico assumia que o objetivo de praticamente todo discurso era demonstrar ou refutar uma questão contra alguma oposição.da Antiguidade Clássica. . considerados como "cabeçalhos" abstratos no debate atual. Ninguém podia ou pode simplesmente recitar de improviso um tratado como a Arte retórica de Aristóteles. Como Platão. pp. O desenvolvimento de um tema era visto como um processo de "invenção". pareceria óbvio que. até a era romântica (quando o ímpeto retórico foi desviado. nunca competindo com a retórica. a um corpo dé princípios seqüencialmente organizado. Howell1956. os toei eommunes foram tomado em dois sentidos diferentes. mas que. Com sua herança agonística. O rhetor grego provém da mesma raiz que o latim orator e significa falante público. tais como definição.tais como lealdade. efeitos. a tradição retórica representasse o velho mundo oral. quer no número de seus praticantes. tal como a lealdade. Nesse sentido. Lewis estava. Mas. fórmulas) sobre vários tópicos . Quando se desejasse desenvolver uma "prova" deveríamos dizer simplesmente desenvolver uma linha de pensamento . da apresentação oral para a escrita). A retórica reteve muito da velha tendência oral para o pensamento e a expressão basicamente agonísticos e formulares. Murphy 1974. contrastes e tudo o mais. As produções orais longas seguem padrões mais acumulativos. como sugere o infeliz destino de Sócrates. pp. um comprometimento explícito ou até mesmo implícito com o estudo e a prática formais da retórica constituem um indício do montante de oralidade primária residual em uma dada cultura (Ong 1971. a apresentação oral eficaz e muitas vezes pomposa.grega. os toei eommunes ou lugares-comuns referiam-se a coleções de ditos (na verdade. Essa "arte" é apresentada na Arte retórica (teehne rhetorike) de Aristóteles.S. a guerra etc. pp. voltando as costas ao mundo oral. as novas estruturas quirográficas de pensamento. e a tradição filosófica.antinomasia ou pronominatio. para seus primeiros descobridores ou inventores. como as outras "artes". (Lanham 1968. toei em latim) e eram muitas vezes chamados toei eommunes ou lugares-comuns quando se julgava que fornecessem argumentos comuns a todo e qualquer assunto. A retórica estava na raiz da arte de falar em público. nunca se poderia ter sido preparada ou explicada de modo tão refletido. A "arte" da retórica. Desde pelo menos a época de Quintiliano. -. de encontrar no estoque de argumentos que outros sempre haviam explorado os que eram aplicáveis ao caso. do interesse universal e obsessivo pelo assunto durante as eras e da quantidade de tempo despendido em estudá-Io. No segundo sentido. definitiva senão totalmente. não comportam "artes" dessa espécie organizada. Sonnino 1968) . passando pela Idade Média e pela Renascença. a retórica era algo maravilhoso. praticavam o falar em público com grande habilidade muito depois que suas habilidades foram reduzidas a uma "arte". embora dissesse respeito à linguagem falada. Ela fornecia uma lógica racional para o que lhes era mais caro.. algo que havia sido uma parte distintivamente humana da existência humana durante séculos. Durante séculos. que poderiam caber na composição do próprio discurso oral ou escrito. foi. procurando causas. inconscientemente na verdade. como alguém em uma cultura oral deveria fazer se esse tipo de entendimento devesse ser implementado. da comunicação oral para a persuasão (retórica forense e deliberativa) ou para a exposição. antes da escrita.. semelhanças e assim por diante (a claSSificação variava em tamanho de um autor para outro). Esses argumentos eram considerados alojados ou "assentados" (termo de Quintiliano) nos "lugares" Ctopoi em grego. Nas perspectivas desenvolvidas por Havelock (963).

Oliver 1971). médicas ou teológicas ensinadas em escolas e universidades para a multidão de vernáculos orais. a única política prática era ensinar latim à quantidade limitada de meninos que iam à escola. pp. catalão. na Inglaterra. O latim culto foi um resultado direto da escrita. é claro. como efeito ou ambos. 453-459). como causa. 192-222. Não havia realmente outra alternativa. médicos. 119-148). com uma notável exceção: o estilo literário de mulheres autoras. retórica. real embora muitas vezes vaga. o finlandês e o turco. Da Antiguidade grega em diante. inteligível talvez para alguns de seus bisavós. O desenvolvimento da vasta tradlçao retórica foi característico do Ocidente e estava relacionado. 1981. que ensinavam retórica e todos os outros assuntos em latim. muito menos oratório. que tinha muito a ver com a ascensão do romance. Das mulheres que se tornaram escritoras publicadas. com ela. acadêmica. Por volta de 700 d. outrora uma . Sua língua falada se afastara demasiadamente de suas origens. A oratória tem raízes profundamente agonísticas (Ong 19~7_b. pp. Não havia como traduzir as obras literárias. mantinham viva a velha tendência oral para o pensamento e a expressão feitos essencialmente de material formular ou eram fixos de outra maneira. como tantas desde 1600. está claro. entre populações talvez a apenas 50 milhas umas das outras. que muitas vezes possuíam formas diferentes. A Europa era um pântano de centenas de línguas e dialetos. por motivos econômicos ou outros. As mulheres escritoras eram sem dúvida alguma influenciadas por obras que haviam lido e que provinham da tradição de fundamento latino.os toei eommunes podem ser intitulados "lugares-comuns cumulativos". línguas que não pertenciam ao grupo indo-europeu como o magiar. herdados do passado. às vezes compostos de 50 a 80 pessoas que exerciam atividades de tamanho considerável (Markham 1675. mutuamente ininteligíveis. 451.C. mas essa educação não era adquirida em instituições acadêmicas. diplomatas e outros servidores públicos. na Alemanha). O latim. continuou em latim. de um modo ou de outro. Quando começaram a freqüentar escolas em certa quantidade durante o século XVII. O segundo grande desenvolvimento no Ocidente que afetou a interação entre escrita e oralidade foi o latim culto. Tanto os lugares-comuns analíticos quanto os cumulativos. a escolaridade e. tanto no mundo mental quanto no extramental.. Estas possuíam uma orientação prática para o comércio e outras ocupações. filosóficas. Até que um ou outro dialeto. as meninas não entraram em escolas de latim de primeira linha. estavam se introduzindo na Europa Ocidental. que em si mesma era parte integrante da enorme arte da retórica.. pois o orador fala diante de adversários pelo menos implícitos. espanhol. à tendência entre os gregos e seus epígonos culturais a maximizar as oposições. título). francês e outras línguas românicas.C. é essencialmente antitética (Durand 1960. advogados. os falantes desses rebentos do latim já não conseguiam entender o velho latim escrito. praticamente nenhuma teve tal treinamento. mas nas mais novas. de que a oratória constituía o paradigma de toda expressão verbal e manteve o tom agonístico do discurso extremamente alto pelos padrões atuais. vernaculares. eram para aqueles que aspiravam a ser clérigos. As tribos falantes de inúmeros dialetos germânicos e eslavos e outros ainda mais exóticos. a maioria deles nunca escrita até hoje. Entre cerca de 550 e 700 d. ao passo que as escolas mais antigas. No século XIX. a predominância da retórica no conhecimento acadêmico criou em todo o mundo letrado uma impressão. Da época medieval em diante. a maior parte do discurso oficial da Igreja ou do Estado. mas elas próprias se exprimiam normalmente em um tom diferente. A própria poesia foi freqüentemente absorvida pela oratória epidêitica e considerada intimamente relacionada basicamente ao encômio ou à censura (como muito da poesia oral e até mesmo escrita é ainda hoje). que programaticamente os minimizam (Lloyd 1966. pp. tornou-se dominante o bastante para ganhar adeptos até mesmo de outras regiões dialetais (como o dialeto do leste das Midlands. ou o hochdeutseh. A retórica. a maior parte do estilo literário em todo o Ocidente foi formada pela retórica acadêmica. com instrução baseada no latim. Porém. a educação de meninas foi muitas vezes intensa e produziu administradoras de negócios domésticos eficientes. científicas. Dizer isso não é explicar toda a doutrina complexa. ao contrário dos indianos e dos chineses. o latim falado como vernáculo em várias regiões da Europa se desenvolveu em várias formas antigas de italiano.

Baurnl 0980. Durante esse período. onde populações letradas de tamanho considerável desejavam compartilhar de uma herança intelectual comum. Paradoxalmente. sempre têm. uma língua inteiramente controlada pela escrita. como vimos anteriormente. Decididamente contemporâneos do latim culto eram o hebraico rabínico. o latim culto constituiu um exemplo impressionante do poder da escrita para isolar o discurso e da produtividade sem paralelo desse isolamento. Elas nunca constituíam primeiras línguas para nenhum indivíduo. pp. incorporasse milhares de novas palavras ao correr dos séculos. o árabe clássico. era uma língua quirograficamente controlada. p. uma sexta língua culta de modo muito menos definido. o sânscrito e o chinês clássicos. haviam-nas aprendido inicialmente pelo uso da escrita. Mas o controle quirográfico do latim culto não impediu sua aliança com a oralidade. Ele não tinha nenhuma vinculação direta com o inconsciente de qualquer pessoa do tipo que as línguas maternas. em princípio . mas sempre escrito da mesma maneira. eram controladas exclusivamente pela escrita. Durante mil anos. isolado da mais tenra infância. O latim havia sofrido um corte som-visão. o orator. a textualidade que mantinha o latim enraizado na Antiguidade Clássica justamente o mantinha também enraizado na oralidade. o orador público. aprendida fora do lar. mas também. falado não somente nas salas de aula. A interação criou todos os tipos de resultados. parte do castigo físico e de outros tipos de opressão deliberadamente impostos (Ong 1971. pois o grego vernacular mantinha um contato estreito com ela (Ong 1977. outras línguas controladas quirograficamente. o latim culto teve uma outra característica em comum com a retórica. pp. 113-141. serve para separar e distanciar o conhecedor do conhecido e. Dos milhares que a falaram durante os 1400 anos seguintes. na qual a língua tem suas raízes mais profundamente psíquicas. de modo paradoxal. 1981. ao passo que os novos vernáculos românicos haviam se desenvolvido do latim como as línguas sempre haviam feito. Essas línguas' já não existem e é difícil hoje perceber seu antigo poder. assim. que era totalmente masculina . Não há como simplesmente "traduzir" uma língua como o latim culto em línguas como as vernáculas. como o latim culto. parece que a ciência moderna teria aberto caminho com uma dificuldade muito maior. desenvolveram-se na Europa e na Ásia. 24-29) que o latim culto causa uma objetividade ainda maior pelo fato de fixar o conhecimento em um meio isolado das profundezas carregadas de emoção de uma língua materna. reduzindo assim a interferência do mundo da vida humana cotidiana e permitindo o mundo refinadamente abstrato da escolástica medieval e da nova ciência matemática moderna que se seguiu à experiência escolástica. comumente tanto escreviam quanto elaboravam seu pensamento abstrato em latim. A ciência moderna nasceu do solo latino. Todas essas línguas cultas já não estavam em uso como línguas maternas (isto é. Não obstante. 264) chamou a atenção. para alguns dos efeitos quando as metáforas de um latim conscientemente metafórico eram transferi das para línguas maternas menos metaforizadas. A escrita. uma língua escrita e falada apenas por pessoas do sexo masculino. estabelecer a objetividade.embora. pois o ideal clássico de educação havia sido produzir não o escritor competente. juntamente com o grego bizantino.ainda que nem sempre de fato -.língua materna. pp. um cenário de rito de puberdade masculino. pp. como todas as línguas realmente em uso.com exceções raras o bastante para ser descartadas -. em um cenário tribal que era. nunca uma primeira língua para nenhum de seus usuários. A gramática do latim culto provinha desse mundo oral. e os vários vernáculos (línguas maternas) está ainda longe de ser inteiramente entendida. 28-34). o latim culto estava relacionado com a oralidade e com a cultura escrita. todos sabiam também escrevêIa. Assim também seu vocabulário básico . não usado pelas mães ao criar os filhos). de fato. embora talvez maiores no caso do chinês clássico do que nos demais) e eram faladas apenas por aqueles que sabiam escrevê-Ias e que. Por ordem dos estatutos escolares. pois os filósofos e cientistas até a época de Newton. por exemplo. na verdade. como acabamos de observar. Todas as línguas usadas para o discurso culto . aprendidas na infância. se é que o teria feito. o latim tornou-se o latim culto. em todas as demais dependências escolares. pronunciado em toda a Europa de modos muitas vezes mutuamente ininteligíveis. Despido de balbucios. Não havia usuários puramente orais. além de sua proveniência clássica. faladas apenas por pessoas do sexo masculino (com poucas exceções. 119-48). estava vinculado ao sexo. Sem o latim culto. Sugeriu-se (Ong 1977. A interação entre essa língua controlada quirograficamente. oralmente. no sentido restrito. Por um lado. Em virtude de sua base na academia. A tradução era transformação. tornou-se assim uma língua escolar apenas. vinculada ao sexo. mas o rhetor.

Durante o processo. quando os currículos registram a retórica como uma matéria. Em larga medida. O McGuJfey's especializava-se em passagens tiradas da literatura "centradas no som". que havia geralmente preparado os jovens no passado para o ensino e o serviço público profissional.reading. Na Antiguidade Clássica ocidental. 241-255). A própria retórica emigrou. estão cada vez mais absorvendo línguas maternas). mas sempre pelo debate oral . da Antiguidade até épocas muito recentes (Balogh 1926. no caso do árabe. as habilidades verbais aprendidas na retórica foram praticadas não apenas na oratória. deu nova vida à oralidade. Crosby 1936. isso significa meramente o estudo de como escrever com competência. 270 etc. o século XIX desenvolveu disputas de "elocução". nunca testavam o conhecimento ou a perícia intelectual pela escrita. do mundo oral para o quirográfico. jocosa. os professores faziam preleções sobre textos nas universidades e. no entanto. eclesiástico ou político. e mesmo muito depois. 144-256). gradativamente se sobrepuseram à educação tradicionalmente fundada na oralidade. à medida que o latim foi expulso. relacionadas com grandes heróis (personagens orais "fortes"). declamatória. ritmo. comumente com muitas variações. Os três Rs . os manuais de retórica estavam comumente omitindo a quarta memória -. 23-47). 20). Porém. Ahern 1982). A Idade Média usava os textos muito mais do que a Grécia e a Roma antigas. as mulheres entraram cada vez em maior número na academia. Elas estavam também reduzindo a última. 16. mas também na escrita. 53-87. numa forma popular. . usando uma cuidadosa habilidade para memorizar os textos literalmente e recitálos de modo que soassem como produções orais de improviso (Howell 1971. Ainda aspirando à velha oralidade. ninguém conscientemente lançou um programa para dar essa nova orientação à retórica: a "arte" simplesmente seguiu a tendência da consciência de uma economia oral para uma economia escrita. de que foram publicadas nos • Literalmente: (N. pp. pp. Embora o humanismo renascentista tenha inventado a erudição textual moderna e presidido ao desenvolvimento da impressão tipográfica. estilo. que também passou a ter uma orientação cada vez mais comercial (Ong 1967b. Nada mostra de modo mais convincente do que esse desaparecimento da língua controlada quirograficamente como a escrita está perdendo seu antigo monopólio de poder (embora não sua importância) no mundo atual. heróica. "escrita" e "aritmética". pp. e a prática da leitura de texto em voz alta continuou. elocução (Howell 1956. durante o século XIX (Balogh 1926). gradativa mas inevitavelmente. que tentavam dar a textos impressos um ar primitivo. Essa prática influenciou fortemente o estilo literário. Desde a Antiguidade Clássica. agonística. tinha como objetivo a terapêutica de leitura para aperfeiçoar não a leitura com vistas à compreensão que idealizamos hoje. pp.) "leitura". Elas forneciam inúmeros exercícios de pronúncia oral e de respiração (Lynn 1973. Por volta do século XVI. antíteses. Como sugerem as relações paradoxais da oralidade e da cultura escrita na retórica e no latim culto. O célebre McGuJfey's readers. pp. ele também retornou à Antiguidade e. O estilo inglês no período Tudor (Ong 1971. mas a leitura oral. Assim também os estilos literários da Europa Ocidental em geral. que representavam uma educação essencialmente não-retórica. Uma vez concluída. 1971. 146-172. comercial e doméstica. carregou um forte resíduo oral em seu uso de epítetos. a transição da oralidade para a cultura escrita foi lenta (Ong 1967b. estruturas formulares e lugares-comuns. Dickens lia excertos de seus romances no palanque de orador. disposição.). a retórica já não era a matéria predominante que fora outrora: a educação já não podia ser descrita como fundamentalmente retórica como no passado. 'riting e 'rithmetics· -. Estados Unidos cerca de 120 milhões de cópias entre 1836 e 1920. das cinco partes tradicionais da retórica (invenção. fizeram essas mudanças com explicações especiosas ou nenhuma explicação. memória e elocução). estudantil. Nelson 1976-1977. admitia-se pacificamente que um texto escrito de qualquer valor devia e merecia ser lido em voz alta. que não era aplicável à escrita.T. A tendência foi concluída antes que se desse conta disso.uma prática que continuou de modo decrescente até o século XIX e que hoje ainda sobrevive residualmente na defesa de teses de doutorado nos lugares cada vez mais raros onde essa prática ainda subsiste. pp. livresca.atualmente são também línguas maternas (ou. Atualmente. pp. por esse motivo. 23-48).

embora todos os efeitos da impressão não se reduzam a seus efeitos sobre o uso do espaço visual. Ibe printing press as an agent of change .Embora este livro se ocupe principalmente da cultura oral e das mudanças no pensamento e na expressão introduzi das pela escrita. mas também a relação da impressão com a oralidade ainda residual na escrita e na cultura tipográfica inicial. Além disso. ele deve fazer breves considerações sobre a impressão. Uma vez que o desvio da fala para a escrita constitui essencialmente um desvio do universo sonoro para o espaço visual. Até mesmo uma leitura superficial dos dois volumes de Elizabeth Eisenstein. não há nem mesmo como enumerar todos os efeitos da impressão. aqui os efeitos da impressão no uso do espaço visual podem constituir o foco de atenção central. muitos dos outros efeitos decididamente se relacionam a esse uso de várias maneiras. Esse foco revela não apenas a relação entre a impressão e a escrita. Em um trabalho deste alcance. pois esta tanto reforça quanto transforma os efeitos da escrita sobre o pensamento e a expressão. embora não o único.

na leitura de textos literários e de outros textos para grupos (Crosby 1936. Apesar das afirmações de muitos semiólogos estruturalistas. difundiu o conhecimento como nunca antes. 1967b. Eisenstein explica em detalhes como a impressão fez da Renascença italiana uma Renascença européia permanente. tanto escrito quanto oral. Marshall MCLuhan chamou a atenção para muitos dos modos mais sutis pelos quais a impressão afetou a consciência. o desenvolvimento crucial na história global da impressão foi a invenção da impressão de caracteres alfabéticos tipográficos na Europa do século XV. mudou a vida em fanúlia e a política. como George Steiner também fez em Language and silence [Linguagem e silêncio] (1967) e como tentei fazer em outros trabalhos (Ong 1958b. e desde o século VII ou VIII. como unidades. fazendo-se com que fossem lidos em voz alta. chineses. dominara o antigo mundo noético de maneira significativa. os seres humanos vêm imprimindo desenhos em superfícies gravadas de diferentes maneiras. Em 1be Gutenberg galaxy [A galáxia de Gutenberg] (962) e Understanding media [Entendendo a mídia] (964). embebendo-o novamente no mundo oral. Antes de meados de 1400. A audição. sapatos ou armas. Os chineses tinham tipos móveis. Durante milhares de anos. foi a impressão. 215. A cultura manuscrita no Ocidente permaneceu sempre marginalmente oral. muito mais do que a escrita jamais fizera. alterou a vida social e intelectual. como ela implementou a Reforma protestante e reorientou a prática religiosa católica. pp. mas não o alfabeto. 1971. apenas caracteres basicamente pictográficos. mais do que a visão. Ambrósio de Milão captou o espírito anterior em seu Comentário sobre Lucas (iv. mas de um tipo que produzia o livro impresso. como afetou o desenvolvimento do capitalismo moderno. em uma série de etapas fixas. como nos debates universitários medievais. na qual cada letra era gravada em uma peça separada de metal. O material escrito era subsidiário da audição de maneiras que nos parecem hoje estranhas. 5). torna extremamente evidente como os efeitos específicos da impressão têm sido diversificados e imensos. coreanos e japoneses imprimem textos verbais. As palavras são compostas de unidades (tipos) que preexistem. e não a escrita. 306-318). assinalou uma ruptura psicológica de primeira ordem. não era do tipo que produz fogões. pp. porém os tipos móveis não portavam caracteres separados. A escrita servia em geral para reciclar o conhecimento. Com o caractere tipográfico não é assim. embora o que um contador realmente faça atualmente seja um exame visual. às palavras que irão constituir. implementou a exploração européia do planeta. Ahern 1981. Porém. a atividade noética (Ong 1958b. que realmente reificou a palavra e. são nossa preocupação aqui. os povos residualmente orais podiam entender melhor até mesmo os números ouvindo. a audição serve como garantia. palavras inteiras. uma técnica de manufatura que. e não olhando. sim. A impressão de caracteres tipográficos alfabéticos. Mas as letras usadas na escrita não existem anteriormente ao texto em que OCorrem. durante a Renascença. inicialmente em blocos de madeira gravados em relevo (Carter 1955). com ela. A primeira linha de montagem. e referências lá citadas). A escrita alfabética fragmentara a palavra em equivalentes espaciais de unidades fonológicas (em princípio. a impressão de caracteres tipográficos alfabéticos foi inventada uma só vez (Ong 1967b. a verificação de cálculos financeiros escritos ainda era feita auricularmente. Esses efeitos mais sutis da impressão sobre a consciência." No Ocidente. Clanchy 0979. embora as letras nunca resultassem em indicadores totalmente fonológicos). produz objetos complexos idênticos compostos de partes substituíveis. Nelson 1976-1977) e na leitura em voz alta até mesmo quando se estava lendo para si próprio. de "ouvir" livros de contabilidade. Como o alfabeto. até mesmo muito depois que a escrita estivesse profundamente interiorizada. e. a oração foi a mais ensinada de todas as produções verbais e permaneceu implicitamente o paradigma básico de todo discurso. 183) descreve a prática e chama a atenção para o fato de que ela ainda está inscrita em nosso vocabulário: ainda hoje falamos de "auditoria". .[A prensa tipográfica como agente de mudança] (1979). por outro lado. Pelo menos até o século XII na Inglaterra. Anteriormente. Ela embutiu profundamente a própria palavra no processo de manufatura e transformou-a em uma espécie de produto. tornou a cultura escrita universal um objetivo sério. 1977). isto é. a revolução industrial aplicou à outra manufatura as técnicas de substituição de partes com que os impressores haviam trabalhado durante 300 anos. os coreanos e os turcos uigur tinham tanto o alfabeto quanto o tipo móvel. permitiu a ascensão das ciências modernas e. "A visão é muitas vezes enganadora. Em fins de 1700. mais do que os efeitos sociais imediatamente observáveis. A impressão sugere que as palavras são coisas.

constitui a original. Finalmente. com hífens. mas a impressão encerra as palavras em uma posição nesse espaço. e isso também auxiliava a fixar o material na memória. mas destrói nosso sentido atual de textualidade. O resultado é muitas vezes esteticamente agradável como objeto visual. embora ele fosse finalmente desgastado pela impressão. e de uma forma que deve ser explicada. presumivelmente mais "natural". de longe. Se nos percebêssemos como leitores que ouvem palavras. em sua grande maioria. parece errado? Porque sentimos as palavras impressas diante de nós como unidades visuais (não obstante as vocalizemos pelo menos na imaginação quando lemos). Os manuscritos não eram fáceis de ler segundo padrões tipográficos posteriores. "Compor" o caractere manualmente (a forma original de composição tipográfica consiste em . p. ver Steinberg 1974. publicado em Londres por Thomas Berthelet em 1534 (figura 1. ao passo que a época inicial da impressão ainda a sentia como um processo acústico. ao processar o texto em busca de sentido. liam lentamente em voz alta ou solto voce mesmo quando sozinhos. a verbalização que se encontrava até mesmo em textos escritos conservava a padronização mnemânica que levava à recordação imediata. e o que os leitores encontravam em manuscritos tendiam a confiar pelo menos de certo modo à memória. Nossas atitudes é que mudaram. Localizar novamente um material em um manuscrito nem sempre era fácil. Muito depois do desenvolvimento da impressão. da qual a presente se desviou. em culturas manuscritas altamente orais. 154). As páginas de rosto do século XVI. Além disso. que muitas vezes nos parecem extremamente erráticas em sua desatenção às unidades visuais. e não a nossa. diferentemente do que fazemos. Evidentemente. como na edição de 7be boke named the gouernour [O livro chamado o Governadon. No entanto. o processamento auditivo continuou durante algum tempo a dominar o texto visível. apresentando a primeira parte de uma palavra em uma linha em tipo grande e a última parte em tipo menor. o "the" inicial é. Por que o procedimento original. comumente dividem até mesmo palavras capitais. Mas sentimos a leitura como uma atividade visual que fornece pistas sonoras. a palavra mais proeminente. impresso. Todo texto envolve a visão e o som. mas não podia se desenvolver apenas com o apoio da escrita. meramente posto em movimento pela visão. de sir Thomas Elyot. contudo. Palavras sem importância podem ser vistas em caracteres enormes: na página de rosto mostrada aqui. A memorização era encorajada e facilitada também pelo fato de que. A impressão situa as palavras no espaço de maneira muito mais inexorável do que a escrita jamais fizera. o século XVI estava se concentrando menos na visão da palavra e mais em seu som. que se iniciara com a escrita. A predominância da audição pode ser vista de modo notável em coisas como as primeiras páginas de rosto impressas. A escrita move as palavras do mundo do som para um mundo do espaço visual. a impressão substituiu a prolongada predominância da audição no mundo do pensamento e da expressão pelo predomínio da visão. que diferença faria se o texto visível permanecesse em sua condição visualmente estética? Devemos lembrar que os manuscritos anteriores à impressão comumente grafavam as palavras juntas ou mantinham espaços mínimos entre elas. incluindo o nome do autor.As culturas manuscritas permaneceram em geral oral-auriculares até mesmo na recuperação de material preservado em textos. essa prática. O controle da posição é tudo na impressão. os leitores comumente vocalizavam.

silenciosa. todas alinhadas à direita. os leitores captam uma sensação da palavra-no-espaço muito diferente daquela comunicada pela escrita. A escrita reconstituíra a palavra originalmente oral. Os efeitos da maior legibilidade da impressão são enormes. e em outros registros antigos. caracteristicamente. Goody 0977. A impressão encerrou a palavra no espaço de modo mais definitivo. O controle tipográfico. não humanos. 284-303). embora sejam incômodas para o leitor. A maior legibilidade. em última análise. depois de usados. A composição no linotipo consiste em usar uma máquina para posicionar as matrizes separadas em linhas individuais de modo que uma linha de tipo pode ser moldada com base nas matrizes adequadamente posicionadas. favorece a leitura rápida. leitores de editoras. que. especialmente os índices alfabéticos. que beneficiam o copista. impressiona mais por sua nitidez e inevitabilidade: as linhas perfeitamente regulares. falada. Podemos ver isso em desenvolvimentos como as listas. A maioria dos leitores obviamente não está consciente de toda essa locomoção que produziu o texto impresso. Esse é um mundo que insiste em fatos frios. os textos impressos são muito mais fáceis de ler do que os manuscritos. Os manuscritos medievais estão cheios de abreviações. como na caligrafia.posicionar manualmente caracteres tipográficos pré-formados. Tanto antes como depois do escrutínio de tais pessoas. A impressão é orientada para o consumidor. Ele observa 0977. da aparência do texto impresso. O controle quirográfico do espaço tende a ser ornamental. revisores e outros. afixando e apertando a forma na prensa e pressionando a forma do tipo fortemente na superfície do papel em contato com a mesa de prensa. Os textos impressos parecem feitos à máquina. A revista Visible Language (inicialmente chamada journal ofTypographic Research) publica muitos artigos que contribuem para esse exame. 74-111) discutiu o uso de listas no registro ugarítico por volta de 1300 a. Poucas obras longas em prosa das culturas manuscritas podiam passar por um escrutínio editorial como as obras originais hoje passam: elas não estão organizadas para uma rápida assimilação com base na página impressa. enfeitado. cada coisa surgindo de modo visualmente uniforme e sem a ajuda de linhas-mestras ou bordas traçadas à régua. favorece uma relação diferente entre o leitor e a voz autoral do texto e requer diferentes estilos de escrita. e não simplesmente escrito) de Derrida. em uma linha de desenvolvimento que vai desde o ramismo até a poesia concreta e a logomaquia do texto (caracteristicamente impresso. ainda amplamente usado) requer o encerramento do tipo em uma posição absolutamente rígida na caixa. agentes literários. A cultura manuscrita é orientada para o produtor. como muitas vezes ocorre em manuscritos.o mais antigo dos processos. no espaço visual. uma vez que as cópias individuais de uma obra representam um investimento muito menor de tempo: umas poucas horas gastas na produção de um texto mais legível imediatamente aperfeiçoará milhares e milhares de cópias. uma vez que cada cópia individual de uma obra representa um grande dispêndio de tempo por parte de um copista individualmente.a vinheta televisiva de Walter Cronkite provém do mundo da impressão. são cuidadosamente reposicionados.c. pp. como de fato são. 87-88) que a informação das listas está abstraída da situação social na qual estivera encerrada ("garotos . pp. pp. Os efeitos da impressão sobre o pensamento e o estilo ainda estão por ser detalhadamente examinados. redistribuídos para utilização futura em seus próprios compartimentos (letras maiúsculas ou "caixa alta" nos compartimentos superiores e letras minúsculas ou "caixa baixa" nos compartimentos inferiores). De um modo geral. A impressão envolve muitas pessoas além do autor na produção de uma obra . Essa leitura. encerrando a caixa firmemente em uma prensa.editores. no uso de desenhos impressos de todos os tipos para veicular informações e no uso de espaço tipográfico abstrato para interagir geometricamente com palavras impressas. de uma magnitude virtualmente desconhecida em uma cultura manuscrita. a escrita destinada à impressão muitas vezes requer revisões exaustivas pelo autor. por sua vez. no uso das palavras (em vez de signos iconográficos) para rótulos. "É assim que as coisas são" . Não obstante. A impressão com caractere "a quente" (isto é. A composição em um terminal de computador ou processador de textos posiciona os padrões eletrônicos (letras) previamente programados no computador. As listas começam com a escrita. que subjaz à oralidade secundária da televisão (Ong 1971. com caractere gravado .

de modo a tornar o material mais imediatamente recuperável por meio de sua organização espacial. pautas. como o espaço era utilizado ao se fazer essa~ listas.) A escrita está aqui. em virtude não de sua própria façanha. Os exemplos de Goody mostram o processamento relativamente sofisticado do material verbalizado em culturas quirográficas. esses indefinidos "lugares" psíquicos se tornaram localizados de modo bastante físico e visível. A indexação foi durante muito tempo apenas pela letra inicial . Aqui. "Halyzones" é arrolada sob a letra a. muitas vezes toscos e comumente não entendidos. coisas relacionadas. os signos pictóricos eram muitas vezes preferidos aos índices alfabéticos. tinham a mesma sensação. em uma obra latina publicada em 1506 em Roma. 73). quando por vezes um índice feito para um manuscrito era anexado. . efeito. (Os educadores no Ocidente.ou. A retórica fornecera os vários loei ou "lugares" cabeçalhos. novamente. a letra b não é pronunciada (discutido em Ong 1977. a serviço da oralidade.a menos que estejam sendo lidos a partir de uma lista escrita ou impressa). pelo primeiro som: por exemplo. 86-87). listas lexicais (as palavras' são arroladas em diversas ordens. Os manuscritos podem ser alfabeticamente indexados. linhas cuneiformes e linhas alongadas. sem quaisquer outras especificações) e também do contexto lingüístico (normalmente. Uma vez que dois manuscritos de uma dada obra. Para a localização visual do material em um texto manuscrito. porque Textor considera apropriado que. A indexação não valia o esforço. um cruzamento entre culturas auditivas e visuais. por si mesmo. as listas como tais "não possuem equivalente oral" 0977. como os intitularíamos . e não uma unidade do discurso. No livro impresso. 28-29. A recordação auditiva por meio da memorização era mais econômica. Os índices constituem o auge do desenvolvimento nesse aspecto. muitas vezes hierarquicamente pelo significado . 81-90. Nesse sentido. Os índices alfabéticos mostram de modo impressionante o desprendimento das palavras do discurso e seu encerramento no espaço tipográfico. pp. 169-172). os nomes não existem "flutuando" livremente como em listas. O índice alfabético é. com divisores· de palavras para separar itens de números. visual. embora não fosse perfeita. depois famílias de deuses.sob os quais diferentes "argumentos" podiam ser encontrados. p. Acompanhando esse equipamento textual formular. Os loei havia sido originalmente considerados vagamente como "lugares" da mente onde as idéias eram armazenadas. até mesmo a recuperação visual funciona auditivamente. "ovelhas apascentadas" etc. "Índice" é uma forma abreviada do original index loeorum ou index loeonnn eommunium. Raramente o são (Daly 1967. que originalmente significava a marca 9[. a recuperação visual não foi prioritária. sem nenhuma mudança de página. p. o deus da poesia deveria vir no alto da lista. mas da "graça de Deus operando em mim" (Daly 1967. embora obviamente as palavras escritas individualmente soem ao ouvido interior para comunicar seus sentidos. assim como ainda hoje a maioria dos educadores em todo o mundo. Além de listas administrativas ele discute igualmente listas de eventos. até mesmo em um índice alfabético impresso. em uma obra ligada à poesia. Um novo mundo noético estava se moldando. o indexador de 400 anos atrás simplesmente anotou em que páginas do texto este ou aquele loeus era explorado. que eram freqüentem ente memorizadas para recitação oral. na verdade. um compilador genovês podia se admirar com o catálogo alfabético que concebera. A cultura manuscrita ainda altamente oral sentia que o ato de escrever séries de coisas preparadas para recordação oral aperfeiçoava.gordos". o intelecto. Os índices alfabéticos ocorriam. cada manuscrito de uma dada obra normalmente requereria um índice separado. espacialmente organizado. a outro manuscrito com uma paginação diferente (Clanchy 1979. mesmo na Europa do século XIII. pp. tais como causa. pp. Em 1286. mas eram raros. "índice de lugares" ou "índice de lugares-comuns". até muito recentemente. Clanchy 1979. antes. 1518) coloca "Apoio" antes de todas as outras entradas sob a. quase nunca correspondem página por página. ainda que copiados do mesmo ditado. Os índices parecem ter sido apreciados às vezes mais por sua beleza e por seu mistério do que por sua utilidade. baseado na oralidade. uma vez que em italiano e em latim. na enunciação oral. coisas dessemelhantes e assim por diante. pp. Um signo favorito era o "parágrafo". Obviamente. em seguida servos dos deuses) e onomásticas egípcias ou listas de nomes.. 144). na forma como essas línguas são faladas pelos italianos. mas são encaixados em sentenças: raramente se ouve uma recitação oral de uma mera cadeia de nomes . A impressão desenvolve um uso muito mais sofisticado do espaço para a organização visual e para uma recuperação eficiente. O mundo personalizado oral ainda podia rejeitar o tratamento das palavras como coisas.deuses. Goody também chama a atenção para o modo ad boe inicialmente desajeitado. 85). As listas ordenam nomes de itens relacionados no mesmo espaço físico. O Specimen epitbetontm de Ioannes Ravisius Textor (Paris. lá arrolando o loeus e as páginas correspondentes no index loeorum.

anteriormente. um ramo de trevo branco copiado por uma sucessão de artistas que desconheciam o trevo branco real poderia terminar parecendo um aspargo. depois. caríssimo leitor. librum quem scripset quidam de . implementou essas descrições expressas com precisão. A cultura manuscrita conservara um sentimento do livro mais como uma espécie de elocução. Do contrário. p. uma "afirmação visual reproduzível com precisão". ficcional ou outra do que como. mesmo quando estes apresentavam o mesmo texto. embora a arte de imprimir desenhos em diferentes superfícies entalhadas fosse conhecida há séculos. as histórias de Mwindo e assim por diante). As impressões técnicas e a verbalização técnica reforçaram-se e aperfeiçoaram-se mutuamente. duas cópias de uma dada obra não apenas diziam a mesma coisa. como se vê nas Ivins 0953. Uma conseqüência da nova afirmação visual reproduzível foi a ciência moderna. Agora. Ao mesmo tempo. com a impressão. A herança oral está operando aqui. a tendência iconográfica ainda era forte. Porém. pois. o texto podia ser introduzido por uma observação dirigida ao leitor. carissime lector. nos manuscritos medievais ocidentais. diferentemente dos livros manuscritos. a produção manuscrita não era natural a essa manufatura. As impressões poderiam ter solucionado o problema em uma cultura manuscrita.. p. O que é distintivo da ciência moderna é a conjunção de observação exata e expressão exata: descrições expressas com precisão de objetos e processos complexos cuidadosamente observados. e o livro impresso. 40-45). Uma vez bem interiorizada a impressão. técnicas (inicialmente. e não com partes preexistentes. uma elocução registrada (Ong 1958b. gravuras em metal detalhadas de modo ainda mais preciso). páginas de rosto estampadas altamente emblemáticas que persistiram até 1660. a menos que fossem supervisionados por um perito no campo a que as ilustrações se referiam. em vez de uma página de rosto. um livro de uma cultura pré-impressão.. exatamente como uma conversação podia começar com uma observação de uma pessoa a outra: "Hic habes. Sem páginas de rosto e muitas vezes sem título. naturalmente tomou um rótulo marcado da mesma forma. 31) chamou a atenção para o fato de que. apenas depois do desenvolvimento dos caracteres tipográficos móveis em meados de 1400 usaram-se sistematicamente as impressões para veicular informações. como objetos. Entalhar um bloco de impressão de treva branco exato teria sido facilmente exeqüível muito antes da invenção da impressão com caracteres tipográficos e teria fornecido exatamente o necessário. Durante séculos. ela foi fundamental para a sobrevivência entre.. uma vez que a impressão fora praticada durante séculos para finalidades decorativas. Desenhos técnicos feitos à mão. manuscrita. 14-16. como mostrou Ivins 0953. Uma prensa podia imprimir uma "afirmação visual reproduzível com precisão" com tanta facilidade quanto uma forma construída com tipo. A disponibilidade de impressões cuidadosamente realizadas. logo degeneraram em manuscritos. O mundo noético hipervisualizado resultan- . 313). O texto verbal era reproduzido com partes preexistentes. As páginas de rosto são rótulos. Cada livro individual em uma edição impressa era fisicamente semelhante a outro. é normalmente catalogado por seu incipit (uma forma verbal latina que significa "começa"). chegam as páginas de rosto. pp. sendo um objeto marcado com letras. a página de rosto (nova com a impressão . assim como a impressão. um objeto idêntico. do que como um objeto. xilogravuras e. Essa situação favoreceu o uso de rótulos. por exemplo. como vimos.. um livro que fulano escreveu sobre . 145-148)." (Aqui está. Muitas vezes. embora as culturas orais obviamente possuam meios de se referir a histórias ou outras recitações tradicionais (as histórias das Guerras de Tróia.). títulos semelhantes a rótulos como esses não funcionam muito bem em culturas orais: Homero dificilmente teria começado uma recitação de episódios da llíada anunciando "A Ilíadd'. Elas atestam o sentimento do livro como uma espécie de coisa ou objeto. o livro assemelhava-se menos a uma elocução e mais a uma coisa. cheias de figuras alegóricas e outros desenhos não-verbais. pp. o livro era percebido mais como uma espécie de objeto que "continha" informação científica. uma ocorrência no curso da conversação. porque até mesmo os artistas habilidosos não entendiam a ilustração que estavam copiando. ou as primeiras palavras de seu texto (referir-se à Oração do Senhor como "pai-nosso" é referir-se a ela por seu incipit e prova uma certa oralidade residual).Steinberg 1974. Os manuscritos eram produzidos caligraficamente. Com a impressão. eram duplicatas umas das outras. A observação exata não começa com a ciência moderna.Nesse novo mundo. caçadores e artesãos de muitos tipos.

te era absolutamente novo. As listas e as tabelas manuscritas. e não o verso. mas também a posição exata das palavras na página e a relação espacial de umas com as outras. O novo mundo noético aberto pela afirmação visual reproduzível com precisão e a correspondente descrição verbal exata de uma realidade física afetaram não somente a ciência. seja a unidade do poema. como é chamadoadquiriu um significado importante. p. George Herbert explora o espaço tipográfico com vistas ao significado em seus poemas "Easter wings" e "The altar". discutidas por Goody 0977. essa espécie de poesia origina-se do mundo da impressão.). tabelas extremamente complexas surgem no ensino de assuntos acadêmicos (Ong 1958b. as complicações não sobreviverão aos caprichos de copistas sucessivos. 64) sugere como é difícil hoje imaginar culturas mais antigas nas quais poucas pessoas tivessem visto algum dia uma imagem fisicamente exata de qualquer coisa. De certo modo. 65-66. mas não lidas em voz alta. pp. na verdade.tudo isso para sugerir o vôo errático e opticamente vertiginoso de um gafanhoto até que ele finalmente se recomponha diretamente na folI1a de relva diante de nós.. ela ainda não consiste em mera imagem. Até mesmo quando a poesia concreta não pode ser lida. sugerindo o acaso que governa um lance de dados (o poema é reproduzido e discutido em Bruns 1974. A impressão pode reproduzir com total exatidão e em qualquer quantidade listas e tabelas infinitamente complexas. respectivamente. A poesia concreta é um gênero menor. Em Tristam Shandy 0760-1767). clínica. e_m relação aos fenômenos naturais encontrados. mas também a literatura.E.palavras e letras das quais algumas podem ser vistas. Já no início da era da impressão. Em manuscritos. mas das quais nenhuma pode ser apropriada sem alguma consciência do som verbal. d. alcançam a maturidade principalmente na era romântica. Os escritores antigos e medievais são simplesmente incapazes de produzir descrições expressas com precisão de objetos complexos. meticulosa. Cummings. Muito mais tarde. Eisenstein 0979. desintegra as palavras do texto e as espalha irregularmente sobre a página. O tratado de Vitrúvio sobre arquitetura é reconhecidamente vago. sobre o gafanhoto. Nenhuma prosa pré-romântica fornece a descrição minuciosa de paisagem enco~trada nos cadernos de Gerard Manley Hopkins (937) e nenhuma poeSIa pré-romântica procede com a atenção rigorosa. dão aos poemas uma forma visualizada. incluindo em seu livro páginas em branco para indicar sua má vontade em tratar de um assunto e convidar o leitor a preenchê-Ia. podem situar as palavras em relações mutuamente específicas. O espaço tipográfico age não só sobre a imaginação científica e filosófica. 81. Havelock 1963. pp. até que as últimas letras se juntem na palavra final "gafanhoto" . Os sons intuídos pelas letras devem estar presentes na imaginação. isto é. que leva diretamente ao mundo moderno e pós-moderno. A verbalização oral e residualmente oral dirigem sua atenção para a ação. Stéphane MalIarmé ordena que seu poema "Un coup de dés" seja composto com diferentes fontes e tamanhos de tipos com os versos espalhados de forma calculada nas páginas em uma espécie de queda livre tipográfica. O poema sem título de E. Os tipos de exatidão a que a longa tradição retórica visava não eram de um tipo visual-vocal. 115-138). nos quais os versos. na descnçao feita por Hopkins de um riacho precipitando-se em Inversnaid. Ela apresenta disposições visuais de letras e/ou palavras requintadamente complicadas ou requintadamente descomplicadas . próximas às descrições que surgem após a impressão e. Laurence Sterne usa o espaço tipográfico com extravagância calculada. Tanto quanto a biologia evolucionista de Darwin ou a física de Michelson. mas também sobre a imaginação literária. se as relações espaciais forem extremamente complicadas. p. . pp. não para o aspecto visual de objetos. a poesia concreta (Solt 1970) leva a um clímax a interação entre palavras sonoras e espaço tipográfico. e com maior sofisticação. com seus espaços tipográficos. O espaço em branco é tão essencial ao poema de Cummings que é totalmente impossível lê-lo em voz alta. sugerindo asas e um altar. 80. o próprio espaço em uma folha impressa . de vários comprimentos. esse tipo de estrutura visual seria apenas marginalmente viável. muitas vezes mera Em virtude do fato de que a superfície visual se tornara carregada de significado imposto e de que a impressão controlara não apenas quais palavras seriam escritas para formar um texto. 202 etc. a era da Revolução Industrial. cenas ou pessoas (Fritschi 1981. O espaço aqui é o equivalente do silêncio. 61-96). 74-111)."espaço em branco". Nº 276 0%8). O objetivo declarado de Mal1armé é "evitar a narrativa" e "espaçar" a leitura do poema de modo que a página. mas sua presença não é meramente auditiva: eles interagem com o espaço visual e cinesteticamente percebido que os circunda. mas. pp. que mostra alguns dos modos complexos pelos quais o espaço tipográfico está presente na psique. por exemplo.

um fato que. muitas pessoas. A impressão diminuiu. contudo. 383). A desconstrução está antes atada à tipografia do que. uma pessoa lendo para outras em um grupo. fórmulas e temas dos quais todos se servem. Porém. "opressor". A impressão produziu dicionários exaustivos e alimentou o desejo de legislar sobre a "correção" da linguagem. de Jacques Derrida. O texto impresso. A impressão constitui também um fator importante da percepção da privacidade pessoal que marca a sociedade moderna. É esse o território de Derrida.53. tanto pelo uso da análise matemática quanto pelo uso de diagramas e tabelas. Desde suas origens no século XVIII até poucas décadas atrás. como se viu. os dicionários de inglês tomaram como norma para a língua apenas o uso de escritores que produziram textos para impressão (e não exatamente to~os). Ela estimulou e tornou possível em grande escala a quantificação do conhecimento. a leitura tendera a ser uma atividade social. fazendo-a parecer estar radicada em algo escrito. torna necessário explicar a tendência a produzi-Ia. (Os professores de crianças de áreas pobres. mas da impressão.e. por fim. na cultura inicial da impressão.) A impressão criou uma nova percepção da propriedade privada das palavras. A poesia concreta joga com a dialética da palavra encerrada no espaço por oposição à palavra sonora. é o texto em sua forma mais plena. como ela muitas vezes parece afirmar. hoje. As imagens iconográficas são afins aos personagens "fortes" ou típiCOSdo discurso oral e estão associadas à retórica e às artes da memória de que o tratamento oral do conhecimento necessita (Yates 1966). a leitura privada requer um lar espaçoso o bastante para proporcionar um isolamento individual e tranqüilo. "saqueador". que nunca pode ser encerrada no espaço (todo texto é pretexto). Richard Pynson firmou Podemos arrolar indefinidamente efeitos adicionais. 35) propôs uma conexão entre a poesia concreta e a contínua logomaquia do texto. Exatamente na época inicial da impressão. para alguém que se apropria do escrito de um outro. formadas na velha ideologia. revelam as limitações construídas da palavra falada também. a despeito do fato de que as épocas iniciais da impressão tenham posto em circulação ilustrações iconográficas de um modo nunca visto antes. fOI consIderado "corrompido". p. que a impressão teve sobre a economia noética ou sobre a "mentalidade" do Ocidente. O antigo poet~ latino Marcial (i. isto é. A ligação é certamente real e merece uma atenção maior. obviamente. paradigmática. "torturador". p. freqüentemente se obtinha um decreto real ou prívílegíum. Esse desejo em grande parte nasceu de uma percepção da linguagem baseada no estudo do latim culto. que proibia a reimpressão de um livro por outros que não o editor original. muitas vezes. As línguas cultas textualizam a idéia de linguagem. Ela produziu livros menores e mais portáteis do que os que eram comuns na cultura manuscrita preparando psicologicamente o cenário para a leitura solitária em um cant~ tranqüilo e eventualmente para uma leitura completamente silenciosa. Hartman (1981. portanto. imediatamente expressaram por escrito ser essa impressionante realização lexicográfica (Dykema 1963) uma traição à língua "verdadeira" ou "pura". A tradição oral do lugar-comum ainda era forte. ela joga com as limitações absolutas da textualidade que. As pessoas em uma cultura oral primária podem nutrir algum senso de direito de propriedade sobre um poema. mas essa percepção é rara e geralmente enfraquecida pela partilha comum de conhecimento. não o escrito. não existe nenhuma palavra latina especial com o Significado exclusivo de "plagiador" ou "plágio". A impressão finalmente tirou a antiga arte da retórica (fundada na oralidade) do centro da educação acadêmica. Na cultura manuscrita e. se ele se desvia desse uso tipográfico. possuem uma consciência aguda de que. paradoxalmente. ~ uso de todos os outros. o maior motivo para um desempenho medíocre é que não há nenhum lugar em uma casa cheia de gente onde um menino ou uma menina possam estudar com proveito. O Webster's 1bird New International n.curiosidade . .í~tiOnary (961) foi a primeira grande obra lexicográfica a romper mtldamente com essa velha convenção tipográfica e citar como fontes para o uso pessoas que não escreveram para imprimir . meramente à escrita. Como sugeriu Steiner 0967. Com a escrita o ressentimento contra o plágio começa a se desenvolver. oral.9) usa a palavra plagíarius. embora ele se mova nele a sua própria maneira. mais ou menos diretos. o atrativo da iconografia no tratamento do conhecimento. por isso mesmo. A impressão estabeleceu o clima em que nasceram os dicionários. A poesia concreta não é produto da escrita.

Os leitores de manuscritos estão menos fechados ao autor. obtido de Henrique VIII. no romance a partir da época de Jane Austen. autônomo e indiferente a ataques. finalmente.não ouvido. exatamente como suas linhas são normalmente todas justificadas Cisto é. Ao isolar o pensamento em uma superfície escrita. impessoais e religiosamente neutros. Antes da impressão. Significativamente. um "ícone verbal". Elas ainda constituíam propriedade compartilhadas até certo ponto. A impressão. O velho mundo comunal oral fragmentara-se em propriedades livres privadamente reivindicadas. ao explorar o espaço visual para o tratamento do conhecimento. um ícone é algo visto . completos. o texto não comporta mudanças (rasuras. as palavras não eram exatamente propriedades privadas. porém vai ainda mais longe na sugestão de auto-encerramento.certos tipos de material impresso são chamados de "tapa-buracos" -. A impressão contribui para formas artísticas verbais mais estreitamente fechadas. mas de um modo muito real. atingiu um estado de completude. A impressão. As tragédias de Eurípedes eram textos compostos por escrito e então memorizados palavra por palavra para ser apresentados oralmente. do que os leitores dos escritos destinados à impressão. separada de qualquer interlocutor. produzindo uma enunciação. o enredo cerrado é transportado para a narrativa longa. desde a Antiguidade. Esse sentimento afeta as criações literárias. A correspondência verbal de cópias da mesma impressão pode ser verifica da sem nenhum recurso ao som. A impressão encerra o pensamento em milhares de cópias de uma obra com exatamente o mesmo . Em 1557. Evidentemente. ou feita uma chapa litográfica e a folha impressa. A impressão encorajou a mente a entender que seus bens estavam confinados em alguma espécie de espaço mental inerte. por volta do século XVIII. de algum modo auto-encerrados. de bom ou mau grado. uma sensação de que o que se encontra em um texto foi finalizado. a escrita apresenta a enunciação e o pensamento como livres de tudo o mais. As páginas de um jornal são normalmente cheias . do mesmo modo. a impressão dá origem. os manuscritos. o único fio de história longa linearmente traçado era o do drama. O texto impresso deve representar as palavras de um autor de forma definitiva ou "final". de que o material do qual o texto trata é analogamente completo ou coerente em si mesmo. Os livros impressos repetiram uns os outros. e. Permaneciam mais próximos do toma-Iá-dá-cá da expressão oral. assim como a obra analítico-filosófica ou científica. especialmente na narrativa.um tal privilegium em 1518. A tipografia tornou a palavra um bem material. com sua profunda convicção de que cada obra de arte verbal está encerrada em um mundo próprio. e alcança seu auge nas histórias de detetive. menos ausentes. ao retirar as palavras do mundo do som no qual haviam primeiramente se originado num intercâmbio humano ativo e ao bani-Ias definitivamente para a superfície visual. Na teoria literária. lacrada. Com a impressão. Ao contrário. inserções) tão prontamente quanto os textos escritos. O impulso da consciência humana para um maior individualismo foi bem servido pela impressão. uma forma de caracteres tipográficos. sem que o queira e sutilmente. mas simplesmente pela visão: um verificador Hinman irá sobrepor páginas correspondentes de duas cópias de um texto e assinalar variações para o examinador com uma luz intermitente. Joyce enfrentou as angústias da influência de modo direto e em Ulisses e Finnegan 's wake tentou repetir todo mundo de propósito. Até a impressão. como cada vez mais semelhantes a coisas. que. pois a impressão é satisfatória somente com uma conclusão. Ela pode dar a impressão. encorajou os seres humanos a julgar seus próprios recursos interiores. nesse sentido. por outro lado. aspecto visual e a mesma consistência física. todas exatamente da mesma largura). No começo da era eletrônica. situa a enunciação e o pensamento livres de tudo o mais. para vigiar os direitos de autores e editores tipográficos. ao Formalismo e à Nova Crítica. A cultura manus- A impressão favorece uma sensação de fechamento. dialogavam com o mundo exterior a suas próprias fronteiras. e. conscientes ou inconscientes. fora controlado pela escrita. A impressão é singularmente intolerante em relação à incompletude física. as modernas leis de direitos autorais estavam tomando forma por toda a Europa Ocidental. A sensação de fechamento ou de completude imposta pela impressão é por vezes flagrantemente física. Essas formas serão discutidas no próximo capítulo. com seus escólios ou comentários marginais (que muitas vezes foram introduzidos no texto em cópias subseqüentes). a própria escrita favorecia uma sensação de fechamento noético. foi formada em Londres a Stationer's Company. Uma vez fechada.

A impressão cria uma sensação de fechamento não apenas nas obras literárias. vendo suas origens e seus significados como independentes da influência exterior. Cada arte era. convidando a outras reflexões em virtude dos paradoxos envolvidos. Ramus relegara as dIfIculdades e as refutações de adversários a "conferências" (scholae) separadas sobre dialética. retórica. por sua vez. que adotavam definições e divisões fnas que ~e~avam a outras tantas definições e mais divisões. A impressão igualmente dá origem à moderna questão da intertextualidade. retórica e talvez outras artes também (Ong 1958b. o material podia ser apresentado em esquemas ou mapas dicotomizados e impressos que mostravam exatamente como o material era organizado espacialmente. adaptando-os. Uma matéria curricular ou "arte". pp. Com o ponto de vista fixo. nas últimas décadas. gramática.crita sentia que as obras de arte verbais estavam em contato mais estreito com o mundo oral e nunca fazia uma distinção muito convincente entre poesia e retórica. surgiram o catecismo e o "manual". 144). inteiramente separada de qualquer outra. A cultura manuscrita tomou como certa a textualidade. tomando-os emprestado. ~m correlato para a sensação de fechamento alimentada pela Impressao era o ponto de vista fixo. surgiram doutrinas da intertextualidade para se contrapor à estética isolacionista de uma cultura romântica impressa. Com a impressão. . não obstante os elaborasse em formas literárias novas. Os catecismos e os manuais apresentavam "fatos" ou seus equivalentes: afirmações categóricas. em si mesma. Um romancista escreve um romance porque esse tipo de organização textual da experiência lhe é familiar. partilhando as fórmulas e os temas comuns. era possível manter um tom fixo através de toda uma composição longa em prosa. impossíveis antes da escrita. Nas culturas manuscritas. e nas culturas orais não havia praticamente nenhuma. separada das outras obras. as afirmações memonzavels das culturas orais e das culturas manuscritas residualmente orais tendiam a ser de tipo proverbial. segundo o método ramista não envolvia quaisquer dificuldades (assim sustentavam os ramistas): s~ se definisse e dividisse da maneira apropriada.atormentavam os escritores. Peter Ramus 0515-1572) criou os paradigmas do gênero manual: ma~~al para ~irtualmente todos os assuntos de arte (dialética ou lógica. em cada um dos manuais ramistas. menos discursivos e menos argumentativos do que a maioria das apresentações anteriores de um determinado tema acadêmico. que é um conceito tão fundamental nos círculos fenomenológicos e críticos atualmente (Hawkes 1977. originalmente orais. embora as artes estivessem misturadas quando em "uso" . tudo na arte ficava claro e. O ponto de vista fixo e o tom fixo mostraram. Falaremos mais sobre o Formalismo e a Nova Crítica também no próximo capítulo.isto é. memorizáveis que diziam sem maiores rodeios e de modo abrangente como se ordena~ vam a~ . 280). Nem mesmo apareClam quaisquer difIculdades ou "adversários". angustiantemente conscientes da história literária e da intertextualidade defacto de suas próprias obras. até que cada uma das ultimas partes do assunto tivesse sido disseca da e ordenada. quando apresentada adequadamente. que. possui um arcabouço mental diferente. que possam estar inteiramente sob a "influência" de textos alheios. Ela tende a perceber uma obra como "fechada". Um manual ramista sobre um determinado tema não reconhecia nenhuma c?nexão ~om qu~l~uer coisa que lhe fosse exterior. Ao contrário. ela deliberadamente criou textos de outros textos. Ibe anxiety of influence [A angústia da influência] (973). mas também nas obras filosóficas e científicas. poucas dessas angústias acerca da influência . A cultura impressa. elas se tornaram uma espécie de choque. ao compor uma determinada passagem do discurso. A cultura impressa deu origem às noções românticas de "originalidade" e "criatividade".).se é que existiam . A intertextualidade refere-se a um lugar-comum literário e psicológico: um texto não pode ser criado com base na experiência vivida. uma unidade em si mesma. que separaram mais ainda uma obra individual das outras obras. r~tonca. preocupam-se com o fato de que possam não estar produzindo nada de realmente novo ou diferente. Eram ainda mais perturbadoras pelo fato de que os escritores modernos. Quando. muitas vezes de um tipo gnômico. gramática. como casas com espaços abertos intercalados são separadas umas das outras. surgiu com a impressão. 126-127.30-31. pp. aritmética e tudo o mais. 225-269. em um aspecto. trata dessa angústia do escritor moderno. como apontou Marshall MCLuhan 0962. Além disso. apresentando não tanto "fatos" quanto reflexões. em si mesmo e na mente. ~ própria arte estava completa e independente. Ainda atada à tradição comum do mundo oral. A obra de Harold Bloom. gramatica. 135-136).ma~érias em um dado campo. aritmética etc. ao menos de um ponto de vista ideal. uma maior distância entre o escritor e o leitor . p. Essas conferências ficavam fora da "arte" encerrada em si. usava-se simultaneamente lógica.

ausência de preocupação). seja um assunto vasto demais para ser tratado de maneira completa aqui. com o telefone. 82-91). em outro. o rádio. porque alimenta um estilo novo.a "aldeia global" de McLuhan. um maior entendimento tácito. Como a oralidade primária.uma clientela considerável de leitores desconhecidos pessoalmente do autor. assim como para seu uso. os dispositivos eletrônicos não estão eliminando os livros impressos. O indivíduo sente que ele. um verdadeiro público. Planejamos cuidadosamente nossos acontecimentos para estarmos seguros de que sejam inteiramente espontâneos. voltados para o exteripr porque são poucas as oportunidades para que se voltem para dentro de si. como se observou anteriormente. são ainda mais intensificados pelo computador. alguns pontos precisam ser esclarecidos. a oralidade secundária promove a espontaneidade porque. 16-49. porque nenhuma alternativa viável se apresentara. A oralidade secundária é extraordinariamente semelhante à primária. como indivíduo. O contraste entre a oratória no passado e no mundo de hoje ilumina consideravelmente o que existe entre a oralidade primária e a secundária. 305-341). As entrevistas gravadas eletronicamente produzem livros e artigos "falados" aos milhares. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente. uma vez que os povos tipográficos crêem que o intercâmbio o~al deve ser informal (os povos orais acreditam que ele deve normalmente ser formal. 1977. na verdade. a composição em terminais de computador está substituindo as formas mais antigas de composição tipográfica. Nesse momento. mediante a reflexão analítica. baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão. os povos orais tinham um espírito de grupo. pp. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória. conscientemente informal. de modo que logo virtualmente toda impressão será feita de um modo ou de outro com a ajuda de equipamento eletrônico. Ao mesmo tempo. O rádio e a televisão produziram personalidades políticas A transformação eletrônica da expressão verbal tanto aprofundou a espacialização da palavra iniciada pela escrita e intensificada pela impressão quanto trouxe a consciência a uma nova era de oralidade secundária. À diferença dos membros de uma cultura oral primária. Não obstante o que algumas vezes se diz. exatamente como a leitura de textos escritos ou impressos os transforma indivíduos. somos voltados para o exterior porque nos voltamos para nosso interior. pp. De modo semelhante. Embora a relação integral entre a palavra eletronicamente processada e a polaridade oralidade-cultura escrita. Porém. O escritor podia confiar que o leitor iria se ajustar (maior entendimento). deve ser socialmente perceptivo. o novo meio reforça o velho. obtidas e/ou processadas eletronicamente. O escritor podia seguir seu caminho sem maiores preocupações (maior distância. o processamento e a espacialização subseqüentes da palavra. mas. nasceu o "público leitor" . E. a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura oral primária . a televisão e diferentes tipos de registro sonoro. que :São essenciais para a manufatura e a operação do equipamento. onde a oralidade primária promove a espontaneidade porque a reflexão analítica efetuada pela escrita não está disponível. da qual se ocupa este livro. em seu favorecimento de um sentido comunal. faz com que eles se voltem para dentro de si. decidimos que a espontaneidade é benéfica. temos um espírito de grupo de modo autoconsciente e programático. livros e artigos que nunca foram impressos antes que a gravação se tornasse possível. é claro. T da palavra ao espaço e ao movimento (eletrônico) local e otimiza a seqüencialidade analítica ao torná-Ia virtualmente instantânea.Ong 1971. Além disso. Não havia necessidade de fazer de tudo uma sátira menipéia. uma mistura de diferentes pontos de vista e inflexões para diferentes sensibilidades. produzindo-os cada vez mais.e. Além disso. 284-303. que aumenta a entrega . pois ouvir as palavras faladas transforma os ouvintes em um grupo. informações de todo tipo. iniciados pela escrita e levados a uma nova ordem de intensidade pela impressão. Assim. pp. Finalmente. a secundária gerou um forte sentimento de grupo. mas evidentemente o transforma. mas capazes de lidar com certos pontos de vista mais ou menos estabelecidos. em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de fórmulas (Ong 1971. Em nossa época de oralidade secundária. e ao mesmo tempo notavelmente diferente dela. abrem caminho na impressão para a expansão do produto tipográfico. a tecnologia eletrônica levou-nos à era da "oralidade secundária". antes da escrita.

ajudam a determinar o desenvolvimento da narrativa através dos tempos . Nos debates LincolnDouglas de 1858.e tudo isso sem equipamento de amplificação. fazem apresentações breves e se envolvem em diálogos incisivos uns com os outros. acontecimentos religiosos. ou do estilo de vida oral e das estruturas de pensamento orais de que nasceu essa oratória. discurso descritivo. Apenas pessoas muito mais velhas atualmente podem se lembrar de como a oratória era quando ainda mantinha um contato vivo com suas raízes orais primárias. Os debatedores estavam roucos e fisicamente exaustos ao término de cada peleja. O primeiro orador dispôs de uma hora. Desses. T 6 MEMÓRIA ORAL. para os objetivos presentes. A oratória no velho estilo. historiografia e biografia.defrontaram-se muitas vezes ao ar livre. O público está ausente. As outras talvez ouçam mais oratória. o que elas ouvem lhes dará uma idéia muito pálida da velha oratória. Ã narrativa podemos. de uma hora e meia. inaudível. Obviamente. A rnídia eletrônica não tolera uma exibição de antagonismo aberto. de certo modo. o segundo. redundante. intercâmbios culturais e muitos outros. essa rnídia é totalmente dominada por um sentimento de fechamento que é herdeiro da impressão: uma exibição de hostilidade poderia romper o fechamento. para citar apenas alguns. Assim. desde a oratória quirograficamente organizada até a apresentação pública no estilo da televisão). Os debates presidenciais na televisão atualmente estão completamente fora desse mundo oral mais antigo. incorporar o teatro. e o primeiro novamente de meia hora de réplica . não era essa a antiga oralidade. além da mudança oralidade-cultura escrita. outros acontecimentos na sociedade. A mansidão elegante e letr4da é excessiva. cuidadosamente ritmado. Illinois. A oralidade primária se fez sentir no estilo agregativo. Não obstante sua aparência civilizada de espontaneidade. que. oratória (puramente oral. ENREDO E CARACTERIZAÇÃO A mudança da oralidade para a cultura escrita inscreve-se em muitos gêneros da arte verbal . respectivamente . altamente agonístico e no intenso intercâmbio entre orador e público. invisível. durante o verão escaldante de Illinois. ou pelo menos mais discursos. Os candidatos estão ocultos em pequenas cabines. incluindo acontecimentos nos outros gêneros verbais. Os candidatos se conformam à psicologia da rnídia. obras filosóficas e científicas. Porém. o gênero mais estudado na mudança oralidade-cultura escrita foi a narrativa.mudanças na organização política.Sparks 1908. mesmo assim possui um enredo. desapareceu para sempre. 137-138. clara e verdadeiramente .pois isso é o que eles eram. os guerreiros . pp. que recua da era pré-eletrônica até dois milênios atrás e muito mais além. de personalidades públicas importantes do que as pessoas ouviram comumente um século atrás.lírica. nascida da oralidade primária. Esse tratamento da narrativa . o controle rigoroso. cada um deles falando por uma hora e meia. Porém. embora apresente a ação sem linguagem narrativa. diante de um público extremamente participativo de até 12 ou 15 mil pessoas (em Ottawa e Freeport.importantes na qualidade de oradores de um público mais vasto do que jamais fora possível antes dos produtos da eletrônica moderna. a oralidade conquistou seu direito mais do que até então. nos quais qualquer aresta é deliberadamente aparada. 189-190). teatro. Será conveniente aqui examinar alguns estudos feitos sobre a narrativa para propor alguns insights mais recentes proporcionados pelos estudos oralidade-cultura escrita. narrativa.

significa formas passíveis de repetição. as histórias sunjatas do antigo Mali. A poesia lírica implica uma série de eventos nos quais a expressão da lírica está embutida ou à qual está relacionada. muitas vezes até as mais abstratas. desde as culturas orais primárias até a alta cultura escrita e o processamento eletrônico da informação. Máximas. desaparece do cenário humano para sempre com a própria situação. enigmas. 1963). Ele se aplica a uma situação específica e. ou parte de uma narrativa que seria apresentada em uma sessão. mas. Outra apresentação verbal extensa em uma cultura oral primária tende a ser tópica. em uma cultura oral. O mesmo ocorre com as outras formas. As culturas orais não podem gerar tais categorias e. os estudantes precisam "registrar" os experimentos. a narrativa é particularmente importante em culturas orais primárias porque pode abrigar uma grande parte do saber em formas sólidas. encaixada no fluxo temporal. são breves. precisam narrar o que fizeram e o que aconteceu quando o fizeram.não pretende reduzir toda causalidade à mudança oralidade-cultura escrita. Até mesmo por trás das abstrações da ciência está a narrativa das observações com base nas quais essas abstrações foram formuladas.o que. um discurso poderia ser tão sólido e extenso quanto uma narrativa importante. Em virtude de seu tamanho e de sua complexidade de cenários e ações. Embora seja encontrada em todas as culturas. em outras cultura caribenhas com alguma herança africana. A grande maioria das culturas orais . Em primeiro lugar. isto é. tópica. as histórias de Mwindo entre os niangas e assim por diante. que podem ser relativamente extensas. as histórias (de aranhas) anansis em Belize e A própria narrativa tem uma história. em certos aspectos. no geral. Em um certo sentido.senão todas . Desenvolver um enredo é um modo de lidar com esse fluxo. em virtude do modo como subjaz a tantas outras formas artísticas. extensas. As fórmulas rituais. mas tão-somente mostrar alguns dos efeitos que essa mudança produz. o texto une fisicamente tudo o que contém e permite recuperar qualquer tipo de organização de pensamento. ou ambas. na total ausência da escrita. orga~izar e comunicar boa parte do que sabem. em uma cultura oral primária. a presente exposição chamará a atenção apenas para algumas .gera narrativas ou séries de narrativas notáveis. As genealogias. A narrativa. que podem ser extensas. provérbios e assemelhados são evidentemente também duradouros. Nas culturas orais primárias. que são razoavelmente duradouras . com um atenção especial a complexos fatores sociais. a narrativa serve para unir o pensamento de modo mais compacto e permanente do que os outros gêneros. possuem na maioria das vezes um conteúdo especializado. usam histórias da ação humana para armazenar. Tudo isso para dizer que o conhecimento e o discurso nascem da experiência humana e que o modo básico de processar verbalmente essa experiência é explicar mais ou menos como ela nasce e existe. em toda parte. Scholes e Kellogg (966) estudaram e esquematizaram alguns dos modos pelos quais a narrativa ocidental evoluiu de algumas de suas origens orais até o presente. Em um laboratório científico. mais ou menos cientificamente abstratas. apresentam apenas informações altamente especializadas. uma ocorrência ad hoc. como sublinhou Havelock C1978a. A lírica tende a ser breve. assim. especulações filosóficas e rituais religiosos. psicológicos e estéticos e outros mais. Por trás de provérbios. jaz a memória da experiência humana disposta no tempo e submetida ao tratamento narrativo. não é possível submeter o conhecimento a categorias complexas. porém um discurso não é duradouro: não é normalmente repetido. Em uma cultura escrita ou impressa. tais como as histórias das guerras troianas entre os antigos gregos. a narrativa é a mais importante de todas as formas artísticas verbais. as histórias de coiotes entre diferentes populações nativas norte-americanas. constitui um gênero capital da arte verbal sempre presente. aforismos. mais amplamente funcional nas culturas orais primárias do que nas outras. Com base na narração. a narrativa é. Assim. Levando em conta as complexidades de toda a história da narrativa. cf. podem ser formuladas certas generalizações ou conclusões abstratas. nas quais não existe texto. as narrativas desse tipo são muitas vezes os repositórios mais amplos do saber de uma cultura oral. Em segundo lugar.

Ela não pode organizar nem mesmo narrativas mais curtas da maneira cuidadosa.pois esse padrão de enredo linear progressivo tem sido comparado ao atar e desatar de um nó. Horácio tinha em mente principalmente o descaso do poeta épico com a seqüência temporal. tinha um controle do tema e das causas que moviam sua ação de um modo que nenhum poeta oral poderia dominar. nas últimas décadas: foram constrangidos a depreciar. Aristóteles já estava pensando assim na sua Poética 04471448a. ao As palavras de Milton mostram que ele. no passado. imputandolhes um desvio consciente de uma organização que. Na verdade. requerem estruturas e procedimentos noéticos de um tipo que nos é bastante estranho e muito freqüentemente desdenhado.diferenças notáveis que separam a narrativa em um cenano cultural totalmente oral da narrativa escrita. 1451a e alhures). uma cultura oral não conhece um enredo linear progressivo extenso. especialmente quanto ao funcionamento da memória. Ele provavelmente tinha em mente também a concisão e o vigor de Homero (Brink 1971. Descrever a composição oral como variante de uma organização que ela não conhece e não pode conceber. embora as vidas reais possam fornecer material com o qual tal enredo possa ser construído mediante a eliminação brutal de tudo o que não seja uns poucos incidentes cuidadosamente . uma vez que o teatro grego. o poema épico. Não obstante possa ser esse o caso. que consiste muitas vezes em um reconhecimento ou outro incidente que cria uma peripeteia ou reverso da ação. Horácio escreve que o poeta épico "acelera a ação e joga o ouvinte no meio das coisas" (vv. dificilmente leva a sua justa avaliação. Poética 1450b). não estava disponível sem a escrita. do tamanho de um poema épico ou de um romance. Milton tinha em mente um enredo altamente organizado. As "coisas" em meio às quais a ação deve iniciar nunca . foi composto como um texto escrito e foi o primeiro gênero verbal do Ocidente . ele deliberadamente o desmembrou a fim de reunir novamente suas partes em um padrão anacrônico conscientemente planejado.e. mostra uma melhor compreensão do teatro. não foi construído desse modo. Como se julga uma apresentação oral uma variante da escrita. O poeta irá relatar uma situação e apenas muito mais tarde explicar. muitas vezes detalhadamente.foram ordenadas cronologicamente para construir um "enredo". Esse enredo. após ter proposto "resumidamente o tema todo" do poema e ter-se referido "à causa primeira" da queda de Adão. escrito e representado em sua própria cultura quirográfica.salvo em trechos curtos . em uma cultura oral. 221-222): Homero quer chegar imediatamente aonde "está a ação". descritas no capítulo 3. incessantemente progressiva com que os leitores de literatura há 200 anos. muitas vezes diagrama do como a "pirâmide de Freytag" Cistoé. "o Poema dirige-se rapidamente centro das coisas". durante séculos. do que do poema épico. As pessoas das culturas escritas e tipográficas atuais geralmente julgam a narrativa conscientemente inventada algo tipicamente planejado em um enredo linear progressivo. Um dos lugares em que as estruturas e os procedimentos mnemônicos se manifestam de modo mais extraordinário é seu efeito sobre o enredo narrativo. que. na verdade. desde o começo. A retenção e a recordação do conhecimento na cultura oral primária. assim também o enredo do poema épico oral é julgado uma variante do enredo construído na escrita do teatro. Assim. por motivos óbvios. embora apresentado oralmente. Em sua Arte poética. A exegese do poema épico oral por letrados. um aclive seguido por um declive): uma ação ascendente constrói a tensão. pp. A antiga narrativa grega oral. aprenderam cada vez mais a contar .e. em uma seqüência correspondente temporalmente à dos acontecimentos que estava narrando. o que. não é exatamente o que supomos ser caracteristicamente o enredo. com começo. como ela surgiu.uma localização significativa para tal enredo. A res de Horácio é um construto da cultura escrita. os poetas letrados eventualmente interpretavam o in media res de Horácio como algo que tornava o hysteron proteron obrigatório no poema épico. Essa exegese cheira ao mesmo viés quirográfico evidente no termo "literatura oral". Esse é o tipo de enredo que Aristóteles encontra no teatro (Poética 1451b-1452b) . John Milton explica no "Argumento" do Livro I de Paraíso perdido que. meio e fim (Aristóteles. e é seguida por um final ou desenlace . Não encontramos enredos lineares progressivos já prontos nas vidas das pessoas. 148-149). o único gênero verbal a ser inteiramente controlado pela escrita. produto de uma cultura oral há muito tempo extinta. comumente julgou que os poetas épicos orais fizessem o mesmo. eleva-a a um clímax.

O mapa da organização da llíada feito por Whitman (1965) propõe caixas dentro de caixas criadas pelas recorrências temáticas. Homero possuía um imenso repertório de episódios para alinhavar. Berkley Peabody proporcionou novas perspectivas quanto à relação entre memória e enredo em sua recente e extensa obra The winged Os poetas orais sentem uma dificuldade característica em pôr sua canção em movimento: a Teogonia de Hesíodo. Sua excelência estava. nenhuma alternativa. Se o poeta oral tentasse prosseguir em ordem cronológica rigorosa. Por que toda narrativa longa. e. entre outras coisas evidentemente. em todo o mundo (até mesmo o The tale of Genji de lady Murasaki Shikibu. Não havia uma lista dos episódios nem.podem ser encontradas em uma compreensão mais profunda da dinâmica da mudança oralidade-cultura escrita. O que fazia um bom poeta épico não era o domínio de um enredo linear progressivo que ele desconstruía por meio de um truque sofisticado chamado mergulhar seu ouvinte in media res. em primeiro lugar. em outros aspectos precoce)? Por que ninguém escrevera uma metódica história de detetive antes de 1841? Algumas respostas a essas perguntas . Se os episódios da llíada ou da Odisséia são reordenados em uma ordem cronológica estrita. mas também em obras de europeus anteriores como Antoine Meillet. vista principalmente através de Os trabalhos e os dias de Hesíodol (1975). os cha~ados "romances" eram todos mais ou menos episódicos.salientados. absolutamente nenhuma possibilidade de imaginar tal lista. faz três tentativas para prosseguir com o mesmo material (Peabody 1975. O enredo estrito para a narrativa longa surge com a escrita. assim como em parte da literatura cibernética e estruturalista. na posse de uma enorme habilidade para lidar com flashbacks e outras técnicas episódicas. Não tinham nenhuma escolha. descoberta e reversão requintadamente metódica. 432-433). O enredo linear progressivo atinge uma forma plena na história de detetive . na aceitação tácita do fato de que a estrutura episódica era o único modo . no qual não existe narrador. O ambiente mais amplo no . o poema épico não possui enredo. na ausência da escrita. iria abandonar este ou aquele episódio no ponto em que se encaixaria cronologicamente e teria de adiá-Io. o material em um poema épico não é o tipo de coisa que por si mesmo se preste facilmente a um enredo linear progressivo. final perfeitamente esclarecido. sem nenhum meio de organizá-Ios em uma ordem cronológica rigorosa. pp. embora La Princesse de eleves de Madame de La Fayette (1678) e alguns outros o sejam menos do que a maioria. certamente deixaria de fora outros episódios ou os colocaria na ordem cronológica errada.embora.pelo que sabemos. inevitável para um poeta oral abordar uma narrativa longa (explicações muito breves são talvez uma outra coisa). mas sem a escrita. revelando conexôes estreitas entre a métrica grega e as mé~ricas védicas avéstica e indiana e outras métricas sânscritas. Tendo ouvido talvez dezenas de cantores cantando centenas de canções de diferentes tamanhos sobre a guerra de Tróia.de imaginar uma narrativa extensa e de lidar com ela. mas porque eram forçados a isso. Os poetas orais geralmente mergulhavam o leitor in media res não em virtude de qualquer objetivo grandioso. com Os crimes da rua Morgue de Edgar Allan Poe. ele poderia estar certo de que. na vida manobra conscientemente planejada. Hermann Usener e Ulrich von WilamowitzMoellendorff. Por que razão esse enredo long. Ele situa a psicodinâmica do epos grego na tradição indo-européia. e não a pirâmide de Freytag. o todo possui uma progressão. se se lembrasse de inserir o episódio na ordem cronológica correta. natural. mas o procedimento original. primeiramente no teatro. A história completa de todos os acontecimentos inteira de Otelo seria totalmente enfadonha. em uma dada circunstância. Além disso. antes do início do século XIX. Considera-se comumente que a história de detetive começou em 1841.o progressivo surge apenas com a escrita. Lord e Havelock e outras a elas relacionadas. é claro. Se tomarmos o enredo linear progressivo como o paradigma do enredo. Começar no "meio das coisas" não constitui uma word: A study in the technique of ancient greek oral composition as seen principally through Hesiod's Works and Days [A palavra alada: Um estudo sobre a técnica da antiga composição grega oral. Na oportunidade seguinte. em segundo. na fronteira entre a apresentação oral e a composição escrita. não todas . e não se introduz na narrativa longa até mais de 2 mil anos mais tarde com os romances da época de Jane Austen? Anteriormente.e o mais natural . e ligaçôes entre a evolução do verso hexâmetro e os processos noéticos. Peabody apóia-se não somente nas obras de Parry. mas não a estrutura progressiva cerrada do teatro típico. Theodor Bergk.tensão sempre crescente. era mais ou menos episódica .

conforme ele é aplicado à composição escrita. e até mesmo para si próprio" (1975. como um artista. E de fato. No moderno Zaire (então República Democrática do Congo).eta se deterá na descrição do escudo do herói e perderá completamente o fio da narrativa. p. o público presente e as recordações que tem o cantor de canções cantadas. Como resultado de uma seqüência de eventos. Candi Rureke. finalmente. desejam que ele cante (1975. ficamos totalmente encantados com a . p. irá normalmente de início hesitar.") A canção oral (ou outra narrativa) é resultado da interação entre o cantor. diante de um público (um tanto variável) durante 12 dias. inesperadamente pressionado por um grupo a atuar. 14): nunca. 174). "A canção é a recordação de canções cantadas" (1975.. "Um cantor executa não uma transmissão de suas próprias intenções. Peabody traz à luz uma certa incompatibilidade entre o enredo linear (a pirâmide de Freytag) e a memória oral que os estudos anteriores não foram capazes de explicar. mas uma percepção do pensamento tradicional para seus ouvintes. pp. p. 172-179). O tratamento profundo dado por Peabody à memória situa sob uma nova luz muitas das características do pensamento e da expressão fundados na oralidade anteriormente discutidos aqui (no capítulo 3). A apresentação diária fatigou Rureke tanto psicológica quanto fisicamente. pela experiência atual. Ao trabalhar com essa interação. p. "Nosso próprio prazer em deliberadamente formar novos conceitos. o bardo é original e criativo sobre bases muito diferentes daquelas do escritor. Isso não se assemelha muito a escrever um romance ou um poema. sua redundância ou copia e sua economia participativa. para esse público específico. Em parte explicitamente e em parte implicitamente. à narrativa oral em culturas de todo o mundo. tenha estabelecido um relacionamento viável com seu público: "Está bem. a situação no fim é subseqüente ao que era no início. do que nas intenções conscientes do cantor em organizar ou dar um "enredo" à narrativa de uma certa maneira recordada (1975. Fundamentalmente. na medida em que guia o poeta oral. Não obstante. Peabody refere-se vez por outra a tradições e práticas norte-americanas nativas e outras não indoeuropéias. O poema épico oral (e. O po. O cantor não está comunicando uma "informação" no nosso sentido comum de "uma transmissão" de dados do cantor para os ouvintes. agregativo. Uma vez que ninguém jamais cantou as canções das guerras troianas. Como resultado de prévias negociações com Biebuyck e Mateene. recitados ou alinhavados à sua própria maneira nessa ocasião específica. 216).. Ele os recorda sempre de um modo diferente. 176). registravam suas palavras. particularmente em seu caráter aditivo. em diferentes aspectos. Na nossa cultura tipográfica e eletrônica. em seu conservadorismo. em toda narrativa existe algum tipo de enredo. muitas vezes tem pouco a ver com a apresentação linear estrita de acontecimentos em seqüência temporal. nem tampouco qualquer sucessão literal de palavras. Quando um bardo acrescenta novo material. nessa ocasião. nenhum Homero poderia jamais pensar em cantá-Ias daquela maneira.recordando não um texto memorizado. a memória. enquanto três escribas. e depois de 12 dias ele estava totalmente exausto. p. dois niangas e um belga. o cantor está recordando de um modo curiosamente público . quando solicitado a narrar todas as histórias do herói nianga Mwindo.qual Peabody situa suas conclusões sugere horizontes ainda mais vastos. em uma seqüência cronológica perfeita. alguém havia apresentado todos os episódios de Mwindo em seqüência. mas os temas e as fórmulas que ele ouviu outros cantores cantar. o que ele tem a dizer sobre o lugar do enredo e sobre questões correia tas na antiga canção narrativa grega se revelará aplicável. em suas numerosas notas. ora em verso. Já que insistem . 216). com um ou outro acompanhamento coral. assim. ficou atõnito (Biebuyck e Mateene 1971. outras formas de narrativa em culturas orais) nada tem a ver com a imaginação criativa no sentido moderno desse termo. por exemplo. ele narrou todas as histórias de Mwindo. novas abstrações e novos padrões imaginativos não deve ser atribuído ao cantor tradicional" (1975. Os objetivos dos bardos não estão moldados em termos de um enredo global rigoroso. provocando assim renovadas solicitações até que. (Sabemos. a narrativa trata da seqüência temporal de eventos e. Sabemos como essa apresentação foi obtida de Rureke. Muito provavelmente. ora em prosa. pois não existe tal coisa. protestou ele. O bardo está sempre envolvido em uma situação sobre a qual não possui um controle total: essas pessoas. por extensão hipotética. ele o processa da maneira tradicional. Evidentemente. Ele evidencia que o verdadeiro "pensamento" ou conteúdo do antigo epos oral grego reside antes nos padrões formulares e estróficos tradicionais lembrados.

a possuir caracteristicamente uma estrutura compacta do tipo da pirâmide de Freytag.). e essa seletividade é produzida como nunca antes o fora pela distância que a escrita estabelece entre expressão e vida real. imaginados ou reais (pois as Os efeitos da cultura escrita e. na narrativa como tal. p. pode trabalhar com base em notas. Porém. Não devemos esquecer que a estrutura episódica constituía o modo natural de dizer um enredo longo. O "autor" pode ler as histórias de outros na solidão. em uma cultura oral. o escritor pode submeter a inspiração inconsciente a um controle consciente muito maior do que o narrador oral. a subordinação da voz ao episódio continuou forte. O narra dor ocultou-se inteiramente no texto. ele foi composto antes da apresentação como texto escrito. Em virtude de um controle consciente crescente. a voz original do narrador oral empregou diversas formas novas quando se tornou a voz silenciosa do escritor. o texto exibe o início. como já se observou. Porém. 221). para livrar o enredo desse molde. que depois operou a ruptura definitiva com a estrutura episódica. Agrada-nos que a seqüência em relatos verbais seja exatamente paralela ao que vivenciamos ou planejamos vivenciar. o enredo desenvolve estruturas progressivas cada vez mais compactas. Como vimos. adquire uma sensibilidade para a expressão e para a organização excepcionalmente diferente daquela do artista oral diante de um público presente. a ordem cronológica no mundo ao qual se refere o discurso. à época de Safo (c. aquele que faz o texto. foi a primeira arte verbal ocidental a ser totalmente controlada pela escrita. como vimos. pp. de início. Fora do teatro. É significativo que a apresentação dramática careça de uma voz narrativa. embora o romance possa não ter sido sempre organizado de modo tão compacto em uma forma progressiva quanto muitas peças de teatro. em virtude de relatar uma experiência pessoal temporalmente vivida 0975. Paradoxalmente. uma vez que a experiência da vida real é mais semelhante a um encadeamento de episódios do que a uma pirâmide de Freytag. o efeito é claramente constrangedor: damo-nos conta da ausência do paralelismo normalmente esperado. Foi o primeiro gênero . até que a impressão surgisse e finalmente produzisse seus efeitos totais. Peabody chama a atenção para o fato de que ele foi precocemente explorado por Safo e dá a seus poemas sua modernidade singular. a escrita já estava estruturando a psique grega.correspondência exata entre a ordem linear de elementos no discurso e a ordem referencial. pode até mesmo esboçar uma história antes de escrevê-Ia. As palavras escritas estão disponíveis para reconsideração. tanto mecânica quanto psicologicamente encerrou as palavras no espaço e conseqüentemente estabeleceu um sentimento mais forte de fechamento do que a escrita poderia fazer. Hoje. da impressão sobre o delineamento da narrativa são grandes demais para ser tratados detalhadamente aqui. agora propriamente um "autor". 53-81). O teatro grego antigo. definida pelo fechamento. de modo que o .e durante séculos o único . Não obstante a inspiração continue a derivar de fontes inconscientes. como em O ano passado em Marienbad de Robbe-Grillet ou em O jogo de amarelinha de Julio Cortázar. Sob o olhar do autor. desapareceu sob as vozes de seus personagens. até que estejam finalmente prontas para ser publicadas. mais tarde. O mundo da impressão gerou o romance. Assim como a experiência em trabalhar com textos como textos traz uma maturidade. escritor é estimulado a julgar sua obra como uma unidade auto-suficiente e distinta. A narrativa oral não está muito preocupada com o paralelismo seqüencial exato entre a seqüência na narrativa e a seqüência em referentes extranarrativos. revisão e outros tipos de manipulação. em vez do velho enredo episódico oral. A impressão. Evidentemente. embora o teatro fosse apresentado oralmente. à medida que o distanciamento realizado pela escrita solicitou diversas ficcionalizações do leitor e do escritor descontextualizados (Ong 1977.c. quando a narrativa abandona ou distorce esse paralelismo. alguns dos efeitos mais gerais são esclarecidos quando consideramos a passagem da oralidade para a cultura escrita. Esse paralelismo se torna um objetivo central apenas quando a mente interioriza a cultura letrada. e a eliminação da voz narrativa parece ter sido fundamental. O romancista ocupava-se mais especificamente de um texto e menos de ouvintes. o meio e o fim. um narrador normal e naturalmente trabalhava em um molde episódico. Uma seletividade cuidadosa produz o enredo piramidal compacto. 600 a.

mas também de sinais de pontuação. As "histórias de detetive" chinesas.narrativas de aventuras em prosa eram muitas vezes escritas para ser lidas em voz alta). em algum lugar. A própria reflexividade da escrita . embora o texto seja manuscrito. cujas viagens serviam para reunir episódios e que sobreviveu dos romances de aventura medievais. e chegando até Defoe (Robinson Crusoé era um itinerante fracassado). O protagonista do narrador oral. Os enredos das histórias de detetive são profundamente internos. e deve constantemente lembrar-se de que a história não é para ouvintes. que não possui uma organização fechada tão meticulosa.cada detalhe da história revela-se crucial e. passando por Dom Quixote de Cervantes que. Posteriormente. E. é exemplificada aqui com notável clareza. iii). têm algo em comum com a narrativa de Poe. como se viu. as narrativas episódicas de Smollett e mesmo algumas de Dickens. Em O escaravelho de ouro (1843). mas nunca atingiram sua concisão progressiva. realmente enganador. alcança seu auge na história de detetive. o código escrito que interpreta o mapa que localiza o tesouro escondido. mais reflexivamente consciente do que os narradores épicos de Peabody. na mente de um dos personagens e. Essas marcas estão ainda mais distantes do mundo oral do que as letras do alfabeto: não obstante serem parte de um texto. como evidencia a própria teoria de Edgar Allan Poe. O fato de os romancistas do século XIX repetirem o "caro leitor" revela o problema de adaptação: o autor ainda tende a sentir uma audiência. que são mínimos ou inexistentes em manuscritos. Não raro. A "inflexão interior da narrativa". cada um isolado em seu próprio mundo. começando com Os crimes da rua Morgue de Poe. Mas sua posição ainda continuava um tanto incerta. assim como pelo isolamento do escritor em comparação com o executante oral favorece o desenvolvimento da consciência com base no inconsciente. o mistério da pessoa de Aspern. são incineradas. que começaram no século XVII e alcançaram maturidade nos séculos XVIII e XIX. na expressão de Kahler (1973). não-fonológicas. auto-suficiente em sua lógica interna silenciosa. na medida em que um fechamento total é geralmente realizado. Edgar Allan Poe não apenas situa a chave para a ação dentro da mente de Legrand. caracterizado por suas explorações exteriores. "A letra mata. quando comparada com a velha narrativa oral. na mente de seu seguidor. foi substituído pela consciência interior do protagonista tipográfico. se esfuma. A narrativa estruturada piramidalmente. de outro modo. O problema imediato que Legrand soluciona de pronto não é existencial (Onde está o tesouro?). como Thomas J. Isso é característico da história de detetive em comparação com a simples história de "mistério". variando esse mesmo tema em um tipo de história semelhante à de detetive. o código é em boa parte tipográfico. as quais. o Tom fones de Fielding. depois. porém abundantes em material impresso. composto não somente de letras do alfabeto. estendido para o leitor e os outros personagens fictícios. O apego de Dickens e de outros romancistas do século XIX à leitura declamatória de excertos de seus romances também revela a inclinação remanescente para o antigo mundo do narrador oral. o espírito vivifica" (2 Coríntios 3:6). a ação ascendente constrói inflexivelmente uma tensão quase intolerável. ouvintes. como as Aventuras de Pickwick. de um modo requintado. não lidas pelo homem que dedicara sua vida a procurá-Ias para descobrir que tipo de pessoa era Jeffrey Aspern realmente. Henry James cria em 1be Aspern papers (1888) um misterioso personagem central cuja identidade completa está encerrada em um esconderijo de suas cartas não publicadas. p. Com os documentos. Um escritor de história de detetive é.reforçada pela lentidão do processo de escrita em comparação com a apresentação oral. e o final desfaz totalmente o emaranhado . A influência da impressão na maximização da sensação de isolamento e fechamento é evidente. tudo o mais se ajusta. Farrell ressaltou uma vez para mim. digressões filosóficas e tudo o mais" (Gulik 1949. antes de qualquer outro. Sherlock Holmes já imaginara tudo. mas também apresenta como seu equivalente externo um texto. especialmente o leitor. em primeiro lugar. Um fantasma particularmente persistente desse mundo foi o herói itinerante. A textualidade se encarna nessa história de uma busca obsessiva. no fim da história. até o clímax e o final. Na história de detetive ideal. publicado em 1841. mas para leitores. seria inacreditavelmente precoce -. integralmente. misturando seus textos com "poemas longos. O que está dentro do texto e da mente constitui uma unidade completa. . são impronunciáveis. mas textual (Como este escrito deve ser interpretado?). Uma vez solucionado o problema textual. a história de detetive mostra certa ligação direta entre enredo e textualidade. o reconhecimento progressivo e a reversão liberam a tensão com uma rapidez explosiva.

165-177) sugerem influências como a tendência interiorizante no Velho Testamento e sua intensificação no Cristianismo. com sua forte sustentação no inconsciente (Peabody 1975). posteriormente. coerentes em termos da estrutura e da motivação complexas de que está dotado o personagem redondo. ao conhecimento relativo à sabedoria e assim por diante. Quando se estrutura em memórias e ecos. p. Mas os autores também sublinham que a ramificação dos traços de caráter individuais não foi aperfeiçoada antes que surgisse o romance. isto é. em torno de Nestor. 46-54) _. mas o Édipo de Sófocles e mais ainda Penteu.M. e esse fato é expresso simbolicamente quando. resulta tanto da consciência intensificada quanto a favorece. domésticos. Oposto ao "redondo" é o "plano". em outras culturas. a impressão fizeram com a velha economia noética. pp. mas como um constituinte da ação humana. Em torno de Ulisses (ou. pp. surgem em um mundo dominado pela escrita. Todos esses desenvolvimentos são inconcebíveis em culturas orais primárias e.para empregar o termo de E. aquele que "está cercado pela imprevisibilidade da vida". o leitor moderno entendeu a "caracterização" convincente na narrativa ou no drama como a produção do personagem "redondo" . ele o faz inevitavelmente de maneira autoconsciente . com a chegada do enredo perfeitamente piramidal na história de detetive. tornam o personagem redondo semelhante a uma "pessoa real". "forte" ou típico cede lugar a outros que se tornam cada vez mais "redondos". As primeiras aproximações que possuímos do personagem redondo estão nas tragédias gregas. . na verdade. originário do romance. Scholes e Kellogg 0966. Nas perspectivas da oralidade e da cultura escrita. a ação se vê concentrada na consciência do protagonista . a tradição teatral grega. é fundamentalmente uma atividade que aguça a consciência. A história compactamente organizada. no fim. que não pode oferecer personagens de qualquer outro tipo. que podem desabrochar no romance. Brer Rabbit ou a aranha anansi). Forster 0974. São variações impressionísticas e agonísticas das histórias com enredo que as precederam.A escrita. Sabemos agora que o personagem de tipo "forte" (ou "plano") deriva originalmente da narrativa oral primária. Nas últimas décadas. mas. caracteristicamente letrada . Watt 0967. com a passagem do tempo. que agem de modos à primeira vista inesperados. demasiado controlada pela consciência) pelo autor e pelo leitor. 75) chama a atenção para a "internalização da consciência" e para os hábitos introspectivos que produziram a tendência para o caráter humano À sua maneira. a história de enredo compacto foi desdenhada como muito "fácil" Cistoé. as tradições ovidianas e agostinianas de introspecção e a interiorização alimentada pelos contos medievais celtas e pela tradição do amor cortês. lhe dá o prazer de sempre cumprir suas expectativas. À medida que o discurso avança da oralidade primária para um controle quirográfico e tipográfico cada vez maior. o tipo de personagem que nunca surpreende o leitor. A complexidade de motivação e o desenvolvimento psicológico interno. A literatura de vanguarda agora é obrigada a desfazer o enredo de suas narrativas ou a obscurecê-Io. Ifigênia e Orestes nas tragédias de Eurípedes são incomparavelmente mais complexos e interiormente angustiados do que qualquer um dos personagens de Homero. aquilo com que estamos lidando é a crescente interiorização do mundo aberto pela escrita. ao contrário. dependeu de um grande número de evoluções. o personagem plano. Mas as histórias sem enredo da era eletrônica não constituem narrativas episódicas. com sua tendência para a introspecção cuidadosamente pormenorizada e as análises cuidadosamente construídas de estados de alma interiores e de suas relações seqüenciais internamente estruturadas. é possível referir-se ao conhecimento relativo à esperteza. o primeiro gênero verbal inteiramente controlado pela escrita. O surgimento do personagem redondo. como vimos. que sugerem as primeiras narrativas orais primárias. Uma explicação mais detalhada do surgimento do personagem "redondo" deve incluir o conhecimento do que a escrita e. Agave. classicamente urdida. O enredo narrativo agora traz a marca permanente da escrita e da tipografia. com a sua percepção do tempo não simplesmente como um molde. à medida que a cultura tipográfica se transmutou na eletrônica.o detetive. O personagem típico serve tanto para organizar o próprio enredo quanto para lidar com os elementos não-narrativos que ocorrem na narrativa. Elas ainda tratam fundamentalmente mais de líderes públicos do que de personagens comuns. como em O ciúme de Alain Robe-Grillet ou em Ulisses de ]ames ]oyce.

Dos mundos privados por elas gerados. mais "redondo" do que poderia ser na antiga literatura grega. o entendimento psicológico. apresentam virtudes e vícios superficialmente cobertos como personagens em enredos mais complexos. em certos aspectos. A escrita e a impressão não eliminam inteiramente o personagem plano.) . ainda produzem personagens-tipos em gêneros regressivos como nos faroestes ou em contextos de franca comicidade (no sentido moderno desse termo). Surgido primeiramente no antigo teatro grego quirograficamente controlado. enquanto simultaneamente a transforma. assim também.TJ •• "Pândega". os personagens "redondos" do romance clássico. (N. Elas absorvem a psique no pensamento concentrado. O Jol~yGreen Giant funciona muito bem nos textos publicitários porque o epíteto anti-heróico jolly" adverte os adultos de que não devem levar a sério esse deus tardio da fertilidade. são atividades solitárias (embora a leitura inicialmente.de motivação profundamente interiorizada.· As culturas posteriores. dão aos personagens nomes que os caracterizam: Lovelace. e atinge seu auge no romance. das Confissões de santo Agostinho à Autobiografia de santa Teresa de Lisieux 0873-1897).T. as culturas escritas podem na verdade gerar. os personagens estranhamente vazios que representam os estágios extremos da consciência. personagens abstratos. Heartfree. que. Defoe. O advento da escrita intensificou a interioridade alimentada pelo registro. não como Aquiles. e os atribui à formação calvinista de Defoe. Samuel Beckett ou Thomas Pynchon. como vimos. que se servem de virtudes e vícios abstratos . Fielding e outros roman- cistas do primeiro momento (Watt 1967. nasceu a sensibilidade para o personagem humano "redondo" . fosse uma atividade partilhada). a síntese de personagens-tipos. e. o personagem "redondo" evolui na época de Shakespeare. Miller e Johnson 0938. provocada pela escrita e intensificada pela impressão. Desde Freud. Existe algo de claramente calvinista no modo como os personagens introspectivos de Defoe se relacionam com o mundo secular. A influência da escrita e da impressão no ascetismo cristão clama por estudos. exatamente quando a penetração psicológica procura algum significado oculto mais profundo. De acordo com o princípio de que uma nova tecnologia da palavra reforça a antiga.personagens-tipos intensificados de um modo que somente a escrita pode fazer -. É provável que o desenvolvimento da penetração psicológica moderna siga paralelamente ao desenvolvimento do personagem no teatro e no romance. como em Kafka. "livre de ligações amorosas". quando. Freud vê os seres humanos reais como psicologicamente estruturados como o personagem dramático Édipo. na verdade. A escrita e a impressão. A história dos personagens-tipos . citados por Watt. observam que "praticamente todo puritano letrado mantinha algum tipo de diário". Esses personagens da era eletrônica seriam inconcebíveis. como um Édipo interpretado segundo o mundo dos romances do século XIX. após a chegada da impressão. concomitantemente a uma ênfase no exame de consciência. p. pp. e nas peças cômicas do século XVII.já encontrado em Defoe. a introspecção e a internalização cada vez maior da consciência marcam toda a história do ascetismo cristão. A era da impressão foi imediatamente marcada nos círculos puritanos pela defesa da interpretação privada e individual da Bíblia. de um tipo inacessível ao povos orais. porém altamente • Respectiva e literalmente: "libertino". como no Every man in his humor [Cada homem tem seu temperamento] ou no Volpone de Ben Jonson. produzem seus efeitos em virtude do contraste percebido em relação a seus antecedentes. Allworthy ou Square. e até mesmo por vezes Jane Austen. na mesma época. em que sua intensificação está claramente ligada à escrita. Porém. O desenvolvimento do personagem redondo atesta mudanças na consciência que vão além do mundo da literatura. não tivesse a narrativa passado por um estágio de personagem "redondo". interiorizado.19-2l). Richardson. de alta tecnologia. isto é. movido misteriosa porém invariavelmente por forças interiores. nos católicos.ainda não foi contada. 461). após o advento da era romântica. "antiquado". obscuro. ambos dependentes da inflexão para o interior da psique. pelo surgimento da confissão privada freqüente dos pecados. "nobre". na maioria das vezes. a impressão é mais plenamente interiorizada (Ong 1971). Estes ocorrem nas moralidades de fms da Idade Média. De fato.assim como seu complexo relacionamento com a tradição oral . Exatamente como a história sem enredo da era da impressão avançada ou eletrônica nasce do enredo clássico e produz seu efeito em virtude de uma percepção de que o enredo está oculto ou ausente. de toda a estrutura da personalidade tomou como modelo algo semelhante ao personagem "redondo" da ficção. eletrônicas. (N. e principalmente o psicanalítico.

Em ambos os casos. a ascensão da chamada fanulia "nuclear" ou "família afetiva" em lugar da família extensa. exigia-se a organização textual da consciência. Porém. Na medida em que a psicologia moderna e o personagem "redondo" da ficção representam para a consciência atual como é a existência humana. Mas. Isso não implica absolutamente uma crítica da percepção atual da existência humana.significativo. a tecnologia avançada. embora evidentemente outras forças estivessem em ação . apenas poderia ser acumulada mediante o uso da escrita e da impressão (e agora da eletrônica). mesmo razoavelmente. posteriormente. a percepção desta foi desenvolvida pela escrita e pela impressão. e assim por diante. Alguns desses teoremas focalizarão principalmente os modos como algumas das escolas atuais de interpretação literária e/ou filosóficas estão relacionadas à mudança da oralidade para a cultura escrita. como tampouco os personagens delineados em uma psicologia eficiente de "virtudes" e "vícios" concorrentes. O que se aprendeu recentemente sobre esse contraste continua a ampliar o entendimento não apenas do passado oral. O que sabemos delas recebe uma natureza moldada de forma absolutamente inacessível e . pois é impossível abrangê-Ios integralmente. libertando nossas mentes do texto e colocando sob novas perspectivas boa parte daquilo com que há muito tempo estamos familiarizados. psicológicos e outros mais. Personagens delineados por epítetos não se prestam muito à crítica psicanalítica.o afastamento em relação à terapia holista da "velha" medicina (pré-Pasteur) e a necessidade de um novo holismo· a democratização e privatização da cultura (elas próprias resultados da escrita e. 7 ALGUNS TEOREMAS Grande parte do estudo acerca do contraste entre oralidade e cultura escrita ainda está por ser feito. assim como gerar outros e complementá-los com novas idéias. A compreensão da psicologia "profunda" era impossível anteriormente pelos mesmos motivos pelos quais o personagem completamente "redondo" do romance do século XIX não era possível antes de sua época. A enorme quantidade de conhecimentos históricos. é salutar reconhecer que essa percepção depende das tecnologias da escrita e da impressão profundamente interiorizadas e que se tornaram parte de nossos próprios recursos psíquicos. organizada para preservar a "linha" de descendência. na verdade . da impressão). incitam o leitor a perceber um significado mais verdadeiro sob a superfície imperfeita ou enganadora que descrevem. de afirmações mais ou menos hipotéticas. sejam quais forem essas outras forças que atuam por trás do desenvolvimento da psicologia de profundidade. que liga mais intimamente entre si grupos maiores de pessoas. também romancistas. ligadas de diversos modos ao que já foi explicado neste livro sobre a ora lida de e a mudança da oralidade para a cultura escrita.mas somente alguns. o leitor deverá ser capaz de estender ainda mais os teoremas. Hawkes . Se os capítulos anteriores foram bem-sucedidos. de J ane Austen a Thackeray e Flaubert. A percepção fenomenológica da existência em nossa época é mais rica em sua reflexão consciente e articulada do que qualquer outra que a precedeu. Muito pelo contrário. Proporei aqui algumas novas perspectivas e novos modos de compreensão aparentemente mais interessantes . Porém. impensável em uma cultura oral. mas também do presente. essas tecnologias da palavra não produzem uma mera armazenagem do que sabemos. Apresentarei a questão na forma de teoremas. uma das mais influentes foi a nova percepção do mundo da vida humana cotidiana e da pessoa humana provocada pela escrita e pela impressão. que podem se introduzir na narrativa e na caracterização sofisticada atualmente.

(1977) estudou a maioria delas. Para comodidade do leitor, sempre que possível, serão feitas referências diretas a Hawkes, em cujo trabalho podem ser encontradas diversas fontes primárias.

A história literária começou - mas apenas começou - a explorar as possibilidades que os estudos sobre oralidade-cultura escrita lhe abrem. Estudos importantes relataram uma grande variedade de tradições específicas, abordando quer suas apresentações orais primárias, quer os elementos orais em seus textos literários. Foley (1980b) cita obras sobre o mito sumério, os salmos bíblicos, as diversas produções orais da África Ocidental e Central, a literatura medieval inglesa, francesa e alemã (ver Curschmann 1967), a bilina russa e a pregação popular americana. As listas de Haymes (1973) acrescentam estudos sobre as tradições ainu, turca e ainda outras. Porém, a história literária ainda continua a praticamente ignorar - por vezes inteiramente - os contrastes entre oralidade e cultura escrita, não obstante a importância dessas oposições no desenvolvimento dos gêneros, do enredo, da caracterização, das relações entre escritor e leitor (ver Iser 1978) e da ligação entre a literatura e as estruturas sociais, intelectuais e psíquicas. Os textos podem representar todo tipo de diferentes acomodações aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. No Ocidente, a cultura manuscrita esteve sempre na fronteira com o oral e, até mesmo depois da impressão, a textualidade apenas gradativamente atingiu a posição que tem hoje em culturas nas quais a leitura é predominantemente silenciosa. Ainda não admitimos inteiramente o fato de que, desde a Antiguidade até o século XVIII, muitos textos literários, mesmo quando compostos por escrito, destinavam-se comumente à recitação pública, inicialmente pelo próprio autor (Hadas 1954, p. 40; Nelson 1976-1977, p. 77). Ler em voz alta para a familia e para outros grupos pequenos ainda era comum no início do século XX, até que a cultura eletrônica reunisse as pessoas em volta do rádio e dos aparelhos de televisão e não de um membro real do grupo. A relação da literatura medieval com a oralidade é particularmente interessante, porque as pressões maiores da cultura escrita sobre a psique medieval foram geradas não apenas pela centralidade do texto bíblico (os

antigos gregos e romanos não tiveram textos sagrados, e suas religiões eram virtualmente desprovidas de teologia forma!), mas também pela nova e estranha mistura de oralidade (debates) e textualidade (comentários sobre obras escritas) na academia medieval (HajnaI1954). É provável que, em toda a Europa, a maioria dos escritores medievais mantivesse a prática clássica de escrever suas obras literárias para ser lidas em voz alta (Crosby 1936; Nelson 1976-1977; Ahern 1981). Isso contribuiu para reforçar o estilo sempre retórico, assim como a natureza do enredo e da composição dos personagens. A mesma prática persistiu de forma notável durante toda a Renascença. William Nelson (1976-1977, pp. 119-120) chama a atenção para a correção feita por Alamanni em seu Giron Cortese para torná-lo mais episódico e, assim, mais apropriado à leitura em grupo, como fora o bem-sucedido Orlando de Ariosto. Nelson avança uma hipótese de que o mesmo motivo obrigou sir Philip Sidney a revisar a Velha Arcádia para adaptá-Ia à apresentação oral. Ele também observa (1976-1977, p. 117) que, durante a Renascença, a prática da leitura oral leva os autores a se exprimir "como se pessoas reais ... os estivessem ouvindo" - não como as "hipóteses" a quem os autores atuais normalmente se dirigem. Daí o estilo de Rabelais e de Thomas Nashe. Dos estudos de Nelson, esse é o que melhor sublinha os mecanismos da oralidade e da cultura escrita na literatura inglesa da Idade Média até o século XIX e dá a entender o quanto ainda está por fazer nos estudos sobre as oposições entre oralidade e cultura escrita. Quem já avaliou o Euphues de Lyly como uma obra que deve ser lida em voz alta? O movimento romântico marca o início do fim da velha retórica fundada na oralidade (Ong 1971) e, no entanto, a oralidade ressoa, ora obstinada, ora desajeitadamente, no estilo dos primeiros escritores americanos como Hawthorne (Bayer 1980) - sem falar nos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América - e ecoa nitidamente da historiografia, de Thomas Babington Macaulay a Winston Churchill. Nesses escritores, a conceituação teatral e o estilo semi-oratório atestam a oralidade em vigor nas escolas britânicas. A história literária ainda está por examinar todas as implicações disso. Durante séculos, a mudança da ora lida de, passando pela escrita e pela impressão, para o processamento eletrônico da palavra, afetou

profundamente e, na realidade, determinou de um modo geral a evolução dos gêneros artísticos verbais e, ao mesmo tempo, é claro, os sucessivos modos de composição dos personagens e de construção do enredo. No Ocidente, por exemplo, o poema épico é básica e inevitavelmente uma forma oral. Os poemas épicos escritos e impressos, os chamados poemas épicos "artísticos", constituem imitações conscientes e arcaizantes de procedimentos exigidos pela psicodinâmica do modo oral de contar histórias - por exemplo, mergulhando já de início in media res, descrições formulares minuciosas de armaduras e de comportamento agonístico, outro desenvolvimento formular de outros temas orais. À medida que a oralidade decresce com a escrita e a impressão, o poema épico inevitavelmente muda de forma, não obstante as melhores intenções e os esforços do autor. O narrador da llíada e da Odisséia desaparece em meio às comunidades orais: ele nunca aparece como "eu". O escritor Virgílio inicia sua Eneida com "Arma, virumque cano", "Eu canto as armas e o varão". A carta de Spenser a sir Walter Raleigh apresentando Ibe faerie queene mostra que ele realmente julgava estar compondo uma obra como a de Homero; porém, a escrita e a impressão haviam decidido que não poderia fazê-Io. Com o tempo, o poema épico perde até mesmo a credibilidade imaginária: suas raízes na economia noética da cultura oral secam. O único modo de o século XVIII poder estabelecer uma relação séria com o poema épico é zombando dele na épica satírica, que prolifera. Depois disso, o poema épico na verdade está morto. A continuação da Odisséia por Kazantzakis constitui uma forma literária independente. Os romances de cavalaria medievais são produto da cultura quirográfica, criações de um novo gênero escrito fortemente apoiado nos modos de pensamento e de expressão orais, mas que não imita conscientemente formas orais mais antigas como fez a "arte" épica. As baladas populares, como as baladas da Fronteira entre ingleses e escoceses desenvolvem-se à margem da oralidade. O romance constitui claramente um gênero da impressão, profundamente interiorizado e de forte tendência à ironia. As atuais formas narrativas sem enredo fazem parte da era eletrônica, tortuosamente estruturadas em códigos enigmáticos (como computadores). E assim por diante. São esses alguns dos padrões globais. Qual a especificidade desses padrões, ninguém sabe ainda. Porém, seu estudo e sua compreensão lançarão luz não apenas sobre as formas

artísticas verbais do passado, mas também sobre provavelmente, até mesmo sobre as do futuro.

as do presente

e,

Uma grande lacuna na nossa compreensão da influência das mulheres sobre o gênero e o estilo literários poderia ser transposta ou eliminada mediante o exame da mudança oralidade-cultura escrita-impressão. Em um de nossos capítulos anteriores, observamos que as primeiras romancistas e escritoras de outros gêneros geralmente trabalhavam fora da tradição oral, simplesmente pelo fato de que as meninas não eram submetidas ao treinamento retórico fundado na oralidade, como o eram os meninos. O estilo das escritoras era nitidamente menos formalmente oral do que o dos escritores; todavia, nenhum dos estudos importantes, que eu saiba, examinou as conseqüências desse fato, que devem certamente ser enormes. Não há dúvida de que os estilos não retóricos característicos das escritoras contribuíram para tornar o romance o que ele é: mais semelhante a uma conversação do que a uma apresentação de tribuna. Steiner 0967, pp. 387-389) chamou a atenção para as origens do romance na vida ligada ao comércio. O caráter dessa atividade era fundamentalmente escrito, mas sua cultura escrita era vernacular, não enraizada na retórica latina. As escolas dos dissidentes, que treinavam para a vida mercantil, foram as primeiras a admitir meninas em suas salas de aula. Diversos tipos de oralidade residual, assim como a "oralidade escrita" da cultura oral secundária, gerados pelo rádio e pela televisão, estão à espera de um estudo aprofundado (Ong 1971, pp. 284-303; 1977, pp. 53-81). Alguns dos trabalhos mais interessantes sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita atualmente estão sendo feitos em estudos sobre a literatura da África Ocidental de língua inglesa dos dias de hoje (Fritschi 1981). Em um nível mais prático, nossa melhor compreensão da psicodinâmica da oralidade em relação à psicodinâmica da escrita está aperfeiçoando o ensino de habilidades na escrita, particularmente em culturas que atualmente se movem rapidamente de uma oralidade virtualmente total para a cultura escrita, como ocorre em muitas culturas africanas (Essien 1978) e em subculturas residualmente orais em sociedades nas quais predomina uma cultura totalmente escrita (Farrel1 1978a; 1978b), como nas subculturas urbanas negras ou latinas nos Estados Unidos.

J----------Dificilmente se poderia dizer que se trata de um ícone. No fim do poema épico, Rureke resume as mensagens da vida real que ele sente terem sido comunicadas pela história (1971, p. 144). A busca romântica da "poesia pura", alijada das preocupações da vida real, deriva da inclinação para a enunciação autônoma criada pela escrita e, sobretudo, pela tendência para o enclausuramento criado pela impressão. Nada revela de modo mais impressionante a ligação estreita, na maioria das vezes inconsciente, entre o movimento romântico e a tecnologia. O formalismo russo, um pouco anterior (Hawkes 1977, pp. 59-73), adotou praticamente a mesma posição que a Nova Crítica, embora as duas escolas tenham se desenvolvido independentemente uma da outra. Os formalistas deram muita importância à poesia como uma linguagem "de primeiro plano", uma linguagem que atrai a atenção para as próprias palavras, em suas relações mútuas dentro da clausura que é o poema, que possui seu próprio ser, autônomo, inerente. Os formalistas minimizam ou eliminam da crítica qualquer preocupação com a "mensagem", as "fontes", a "história" do poema, ou sua relação com a biografia de seu autor. Sem sombra de dúvida, eles estão igualmente limitados ao texto, concentram-se exclusivamente (e na maioria das vezes irrefletidamente) nos poemas compostos por escrito. Dizer que os Novos Críticos e os formalistas russos foram limitados pelo texto não significa menosprezá-Ios, uma vez que estavam, de fato, lidando com poemas que eram criações escritas. Além disso, dado o estado anterior da crítica, que se dedicara em grande parte à biografia e à psicologia do autor, em detrimento do texto, era justificável sua ênfase no texto. A crítica anterior surgira de uma tradição residualmente oral, retórica, e na verdade era inábil no tratamento do discurso autônomo, propriamente textual. Vista das perspectivas sugeri das pelos contrastes entre oralidade e cultura escrita, a mudança da crítica anterior para o formalismo e a Nova Crítica revela-se uma mudança de uma mentalidade residualmente oral (retórica, contextual) para outra textual-escrita (nãocontextual). Porém, a mentalidade textual-escrita era relativamente irrefletida, pois, não obstante os textos fossem autônomos, por oposição à expressão oral, basicamente nenhum texto pode se manter independentemente do mundo extratextual. Todo texto se constrói sobre um pretexto.

A mudança da oralidade para a cultura escrita elucida o significado da Nova Crítica (Hawkes 1977, pp. 151-156) como um exemplo privilegiado do pensamento preso ao texto. A Nova Crítica afirmou categoricamente a autonomia da produção individual na arte verbal escrita. A escrita, devemos lembrar, foi denominada "discurso autônomo" em oposição à apresentação oral, que nunca é autônoma, mas sempre enraizada na existência não-verbal. Os Novos Críticos assimilaram a obra artística verbal ao mundo material visual dos textos e não ao mundo de acontecimentos oral-auricular. Eles afirmaram insistentemente que o poema ou outras formas literárias devem ser vistos como objeto, como "ícone verbal". É difícil imaginar como esse modelo visual e tátil de um poema ou de outra criação verbal se aplicaria de modo convincente a uma apresentação oral, que, presume-se, poderia ser um poema genuíno. O som resiste à redução a um "objeto" ou a um "ícone" - ele constitui um acontecimento que se desenrola sempre no presente, como já vimos. Além disso, o divórcio entre o poema e o contexto seria difícil de imaginar numa cultura oral, na qual a originalidade da obra poética consiste no modo como este cantor ou narrador se relacionam com esta audiência neste momento. Embora ele seja de certa forma um acontecimento especial, distinto de outros tipos de acontecimentos, num cenário especial, seu objetivo e/ou resultado pouquíssimas vezes - quando muito são meramente estéticos: a apresentação de um poema épico oral, por exemplo, pode igualmente funcionar ao mesmo tempo como um ato de celebração, uma paideia ou educação dos jovens, um fator de fortalecimento da identidade do grupo, um meio de manter vivos todos os tipos de saber - histórico, biológico, zoológico, sociológico, venatório, náutico, religioso - e muitas coisas mais. Além disso, o narrador identifica-se caracteristicamente com os personagens com os quais lida e interage livremente com sua audiência real, que, a seu turno, por suas reações, contribui para determinar o que ele diz - a extensão e o estilo de sua narrativa. Na sua apresentação de Ibe Mwindo epic, Candi Rureke não apenas se dirige ele próprio à audiência, mas até mesmo o herói, Mwindo, dirige-se aos escribas que estão registrando por escrito a apresentação de Rureke, dizendo-Ihes que se apressem (Biebuyck e Mateene 1971).

tendia a ser opaco em comparação com um texto em língua materna. em parte porque. dessa perspectiva. 154-155) observou que qualquer interpretação de um texto deve mover-se para fora do texto. Roland Barthes (Hawkes 1977. Eles se especializam em textos marcados pelo ponto de vista tipográfico posterior. está ipso facto relacionado a todos os tempos. embora perspicaz. inacessíveis à consciência do autor ou de seus contemporâneos . colocado por seu autor em um determinado tempo. Não obstante estivesse ligado a uma mentalidade residualmente oral. como vimos. para ter sentido deve ser interpretado. O latim. um texto. A Nova Crítica nasceu igualmente de um outro realinhamento importante de influências da oralidade e da cultura escrita. A Nova Crítica. e não mais uma língua materna. vernacular. a primeira crítica vernacular importante da literatura em língua inglesa a se desenvolver num meio acadêmico (Ong 1962. nos anos 30 e 40. 177-205). nunca exploraram as implicações disso (Ong 1977. ainda que complexo e eruditamente compreendido. isto é. Dada a opacidade relativamente intrínseca dos textos latinos.embora não necessariamente ausente de seu subconsciente. o pano de fundo histórico e todos os aspectos exteriores que tanto aborreciam os defensores da Nova Crítica. A própria Nova Crítica. até então. . que aspiram a esse meio aristocrático. pp. Nas universidades de Oxford e Cambridge. 267-271) afirma que a auto-referência dos Novos Críticos provém do pensamento característico de uma classe social e é parasitária: ela identifica o significado "objetivo" do texto com algo que está na verdade fora dele. reportado ao mundo do leitor . Poderíamos descrever a situação da seguinte maneira: uma vez que um dado tempo sempre está situado no tempo como um todo. O estruturalismo semiótico e o desconstrucionismo.para o autor. 22-34). o que traz implicações que somente podem ser reveladas com a passagem do tempo.o que não significa ler caprichosamente ou sem nenhuma referência ao mundo do escritor. os textos haviam sofrido um escrutínio tão completo. e fundado no estudo da retórica. As implicações são enormes. um texto literário em latim. Nos anos 30. não fornecia um acesso direto ao inconsciente do tipo proporcionado por uma língua materna.T ! Todos os textos possuem suportes extratextuais. ocasional e muitas vezes amadorística. sua psicologia. pp. Nessas condições. nunca fora falada por alguém que não soubesse também escrevê-Ia. Não houvera uma "velha crítica" do inglês na academia. desenvolvido na era romântica. durante mais de mil anos foi uma língua quirograficamente controlada. mais constante e mais organizada do que a da crítica ocasional anterior das obras vernáculas. A crítica anterior de obras vernáculas. pp. 155). as interpretações que ela imagina serem comprovadas pela sofisticação. p.Hawkes 1977. às vésperas da era eletrônica (1844 marcou a demonstração bem-sucedida do telégrafo por Morse). durante mais de um milênio. de um modo geral absolutamente não tomam conhecimento de todos os diversos modos como os textos podem se relacionar com seu substrato oral. comprovadamente foi mais bem-sucedida entre as classes médias parasitárias. mais livremente oral. a fim de remetê-lo ao leitor: o texto não possui significado até que alguém o leia e. pp. escrito com base em uma mistura mais rica de elementos conscientes e inconscientes. o assunto apenas tomou um porte acadêmico considerável no início do século XX e no nível de graduação apenas após a Primeira Guerra Mundial (Parker 1967). Embora tenha havido uns poucos cursos esparsos sobre literatura inglesa nas faculdades e universidades por volta de 1850. pela engenhosidade.um produto secundário do novo estudo acadêmico do inglês. era extra-acadêmica. não surpreende que o comentário sobre o texto devesse se desviar em certa medida do texto em si. a Nova Crítica estava em gestação . Os estudos de textos. que eu saiba. pelo senso de tradição e equilíbrio do que é essencialmente uma aristocracia decadente (Hawkes 1977. a saber. pois o estudo acadêmico profissional de literatura estivera anteriormente restrito ao latim e a algumas obras gregas. tomou como alvo textos em língua inglesa e o fez principalmente num cenário acadêmico no qual as discussões podiam se desenvolver numa escala mais ampla. o estudo do inglês na graduação começou timidamente apenas em fins do século XIX e se tornou um assunto autônomo também apenas depois da Primeira Guerra Mundial (Pouer 1937. que ocorreu à medida que a academia se movia de uma base de latim culto quirograficamente controlada para uma outra. mas também porque um texto no vernáculo se relacionava de maneira diferente com o antigo mundo oral da infância da de um texto numa língua que. as partes recônditas da consciência haviam sido abertas pela psicologia profunda e a psique se voltara reflexivamente para si mesma como jamais fizera anteriormente. Tillyard 1958). Nunca. A crítica marxista (da qual deriva em parte Barthes . desde o início.

um termo muito apreciado na semiótica estruturalista. p. 179). embora esse fato não cause embaraços a um bom narrador. Philippe Sol1ers e ]acques Derrida. Tzvetan Todorov. Uma atenção a esses estudos teria acrescentado uma outra dimensão à análise estruturalista. e não em termos do tipo de enredo desenvolvido na narrativa escrita. Pode haver conexões sutis. Lord e particularmente Havelock e Peabody. A maioria dos textualistas revela pouca preocupação com continuidades históricas (que constituem igualmente continuidades psicológicas). O conhecimento crescente da psicodinâmica da oralidade e da cultura escrita também permeia o trabalho do grupo que podemos aqui denominar "textualista". por exemplo. especializam-se em textos e. em Pierre Macherey (978). Hawkes 1977. 32-58) concentrou-se em boa parte na narrativa oral e alcançou uma certa liberdade em relação aos preconceitos quirográficos e tipográficos ao subdividir a narrativa oral em termos binários abstratos. tal como desenvolvida por Claude LéviStrauss (1970. em textos escritos e principalmente nos textos tardios da era romântica . Esses críticos-filósofos. Roland Barthes. O "fio" narrativo direto. xxii) chamou a atenção para o fato de que a "arqueologia" de Foucault está interessada principalmente em corrigir as visões modernas. são perseguidos por distrações. na verdade. quando se tem em mente que essa era constitui reconhecidamente um marco no novo estado de consciência associado à interiorização nítida da impressão e à atrofia da antiga tradição retórica (Ong 1971 e 1977). Porém. com seu sistema de elementos contrastantes: fonema. do qual apenas o narrador habilidoso pode se livrar. 179. originário de Totemismo (963) e A mente se/vagem (966). 457-464. improvisação ad hoc). A composição oral trabalha com "núcleos informativos". explicar por que uma história é uma história. as estruturas binárias. ou mesmo a análise temática rígida que Propp (968) aplica aos contos populares. principalmente AJ. pp. apóiam-se .uma especialização significativa. de Lévi-Strauss. pp. Estudos sobre a oralidade. por exemplo. 235. Não é raro Homero ver-se em tais situações difíceis . é muito menos funcional na apresentação oral primária do que na composição escrita (ou na apresentação oral por pessoas influenciadas pela composição escrita). que muitas vezes é acusada de ser patentemente abstrata e tendenciosa . Cohen 0977.T A análise estruturalista. Os declamadores. e não em explicar o passado em seus próprios termos. pp.não conseguem. revelaram que a narrativa oral nem sempre é composta de forma a admitir uma análise binária estruturalista pronta. assim como Michel Foucault e ]acques Lacan (Hawkes 1977). de certo modo (Peabody 1975. morfema etc. 235 e passim). treinado em técnicas de digressão e de flashback. embora os temas o façam. A estrutura da narrativa oral de vez em quando malogra. Greimas. como evidenciou Peabody 0975. Uma palavra pode provocar uma cadeia de associações que o declamador segue até um beco sem saída. muitas vezes cruciais. por interessantes que sejam os padrões abstratos formados por elas. Os métodos de organização e de desorganização aqui não parecem ser uma questão de mero brico/age (obra do faz-tudo. e o binarismo é obtido pela omissão de outros elementos. assim. entre a estrutura do verso hexâmetro e as próprias formas do pensamento. A analogia fundamental de Lévi-Strauss para a narrativa é a língua em si. p. De modo análogo. p. Além disso. 109). nos quais as fórmulas "não revelam o grau de organização que comumente associamos ao pensamento". a semiótica e a teoria literária marxistas relacionadas ao estruturalismo e ao textualismo. Brico/age é o termo da cultura escrita para aquilo de que ela própria seria acusada se produzisse um poema no estilo oral.todas as estruturas discernidas revelam-se binárias (vivemos na era do computador).porém não exclusivamente os declamadores de poesia. a organização oral não é uma organização própria à cultura escrita formada de uma maneira improvisada. Lord 1960. que derivam em grande parte da tradição husserliana."Homero se distrai". não parecem explicar a pressão psicológica de uma narrativa . como esses. Ele e seus numerosos seguidores geralmente deram pouca ou nenhuma atenção à psicodinâmica específica da expressão oral revelada por Parry. particularmente . como. na antiga narrativa grega de proveniência oral. A habilidade para corrigir enganos de modo elegante e fazer com que pareçam não ser enganos é uma das coisas que separa os cantores experientes dos que põem tudo a perder (Peabody 1975. que não se adaptam ao padrão binário.

participativo . que a palavra supostamente capta e transmite através de uma espécie de tubo condutor à psique.não constitui absolutamente uma "representação" ou "expressão" de algo exterior a si mesma. Culler 0975. ela não se refere a nada . Uma vez que não se refere a algo. portanto. pp. calorosamente humano. na verdade. essa tendência pode assumir o seguinte aspecto: admite-se haver apenas uma correspondência exata entre as palavras faladas e as escritas (o que parece incluir a impressão. na República. 241-254) discute a obra de muitos textualistas. Além disso. pode-se ver que o tubo condutor foi anulado já anteriormente pelas palavras faladas. Derrida afirma categoricamente que a escrita "não constitui um complemento à palavra falada". Um dos principais pontos de partida dos textualistas foi Jean-Jacques Rousseau. sua preferência pela oralidade em detrimento da escrita.um mundo antipático ao mundo analítico. de modo claro e . pela primeira vez. 164-268 e passim) manteve um longo diálogo com Rousseau. visualista. como agora podemos perceber. Derrida está prestando um serviço bemvindo no mesmo campo varrido por Marshall McLuhan com sua famosa frase "O meio é a mensagem". à maneira de um tubo condutor. A não seja nada. Poucos duvidarão. isso não quer dizer que. isto é. 74). ele e outros prestaram um grande serviço ao minar os preconceitos quirográficos e tipográficos. e mostra que. para Derrida. Todorov. como conseqüência do fato de tomar o lagos ou a palavra sonora como primários e. p. porque representam o antigo mundo oral. não transmitem um mundo extramental de presença como através de um vidro transparente. Julia Kristeva e outros). portanto. pp. Ao romper com o que ele chama fonocentrismo e logocentrismo. elas próprias. os textualistas geralmente identificam a escrita à impressão e raramente . Não via sua antipatia aos poetas como uma antipatia à antiga economia noética oral.Si' em exemplos específicos. p. a própria linguagem . como mostra Havelock. o estudo recente sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita mencionado neste livro traz à luz complexidades maiores quanto às raízes do fonocentrismo e do logocentrismo. Em sua forma mais extrema. rebaixar a escrita em comparação com a linguagem falada. ou estruturalistas.Ong 1967b.quando muito . Por outro. p. também objetos deste livro. como ele os chama. O resultado final. Por um lado. por outro lado. ele rebaixa a escrita em favor da linguagem falada e. prolongadamente seqüenciais.e inevitavelmente -. todos provenientes do romance do século XIX. Derrida denuncia essa metafísica da presença. usam a linguagem de forma representacional. os estruturalistas (ou textualistas) que formaram o grupo Tel Quel em Paris (Barthes. assim. olhando retrospectivamente para a ruptura realizada pela escrita. Ele intitula o modelo do tubo condutor de "logocentrismo" e o diagnostica como derivado do "fonocentrismo". é fonocêntrico. Apoiado nessa suposição de correspondência exata. surgiram pela primeira vez em virtude dos meios pelos quais a cultura escrita possibilitava à mente o processamento de dados. PIarão sentia essa antipatia porque vivia na época em que o alfabeto. Paradoxalmente. no Pedra e na Sétima Cana. imóvel das "idéias" que PIarão estava anunciando. especialmente no caso de PIarão.momento em que os processos mentais. exato. tal como as colocam os textualistas. Contudo. incluindo o seu próprio . que não pode simplesmente transmitir sem alteração o que recebe da fala. mas era isso que ocorria. abstrato. na verdade . disperso. Platão podia formular seu fonocentrismo. da imitação. pacientemente analíticos. 252). e sua estrutura não é a do mundo extramental. como observa o tradutor de Macherey (1978. Ix). Numa variante do tema kantiano númeno-fenômeno (ele próprio relacionado à predominância da visão produzida pela escrita e confirmada pela impressão . verboso. quando. agregativo. apesar de negarem que a literatura seja representacional ou referencial. é que a literatura . ele o faz. A escrita anula o modelo do tubo condutor porque é possível provar que ela possui uma economia própria e. Sollers. redundante. porque A não é B.e. A linguagem é uma estrutura.ousam mencionar a comunicação eletrônica). expulsa oS poetas. mnemônico. de que hoje muitas pessoas realmente se apóiam num modelo logocêntrico quando pensam sobre os processos noéticos e de comunicação. o leitor ingênuo pressupõe a presença anterior de um referente extramental.ou não significa nada. que. A relação de PIarão com a oralidade era inteiramente ambígua. tradicionalista. como os denominei aqui. mas uma realização totalmente diferente. tornara-se interiorizado o bastante para afetar o pensamento grego. segundo os textualistas. pois "não desejavam afirmar que suas análises não fossem melhores do que qualquer outra" 0975. Em virtude dessa insistência. T No entanto. Jacques Derrida (1976.

a oralidade não pode sequer ser identificada. Elas não sentiam a linguagem como "estrutura". Sem o textualismo. 32).embora isso não signifique que o texto possa ser reduzido à oralidade. no século XVI (Ong 1958b). de todas as ideologias. Essa tese reside em mostrar que. A doutrina platônica das "idéias" sugere não ser esse o caso. que nunca chegava realmente à palavra falada. método e o declínio do diálogo) (1958b. Que esse fonocentrismo se traduza em logocentrismo e numa metafísica da "presença" é. 203-204). historicamente isolada. Porém. que eu saiba. pp. A ausência dessa explicação leva a crer que a crítica textualista da textualidade. acrítica. L'écriture e a oralidade são ambos "privilegiados". em qualquer das exposições de Derrida. mediante uma implicação inevitável. Linguagem e pensamento. Em Ramus. no rIÚnimo." Ou. de modo a formar um sistema fechado? Não existem e nunca existiram sistemas fechados. Os textualistas. diria (escreveria) eu. A ilusão de que a lógica seja um sistema fechado foi encorajada pela escrita e ainda mais pela impressão. atingindo seu auge na noética de Peter Ramus. não forneceram nenhuma descrição das origens históricas específicas do que denominam logocentrismo. e não com as presenças de "idéias" reais. method. Geoffrey H. é a mãe das Musas. filósofo e reformador do ensino francês. então deveríamos T compreender o fundamento . Ligar o logocentrismo ao fonocentrismo implica que o logocentrismo. . o textualismo é um tanto opaco e jogar com ele· pode ser uma forma de ocultismo.#----------~ f' eficiente apenas porque sabia escrever. da passagem do mundo da "imitação" (fundado na oralidade) para o mundo posterior da "disseminação" (fundado na impressão). de ofuscação refinada . Como propõe Hartman (1981. pelo menos as nossas línguas ocidentais. Na sua dialética ou lógica. textual..que pode ser extremamente excitante. mas podemos compreender suas deficiências. se todas as implicações num poema forem examinadas. como ponto de partida e modelo para o pensamento. esta é a mais limitada ao texto. por brilhante e de certo modo útil que seja. e não Hefaístos. p. As culturas orais dificilmente tinham esse tipo de ilusão. uma espécie de realismo grosseiro. 66). até mesmo naqueles momentos em que não traz informações relevantes. hoje. A "desconstrução" de textos literários surgiu da obra de textualistas como os mencionados aqui.. As "idéias" de Platão foram talvez a primeira "gramatologia". como se o texto fosse um sistema fechado. Mas é o que ocorre com o "estruturalismo". pois esta constitui a única fonte da qual a textualidade poderia surgir. é alimentado principalmente pela consideração da primazia do som. e não o enunciado oral. O que há de verdadeiro nessa obra pode muitas vezes ser representado de modo mais direto e mais convincente por um textualismo mais plenamente cognoscível . ainda está estranhamente limitada ao texto. Mnemosine. Mas por que deveriam todas as implicações sugeridas pela linguagem ser coerentes? O que leva alguém a crer que a linguagem pode ser estruturada de tal forma que seja perfeitamente coerente consigo mesma. Os desconstrucionistas gostam de sublinhar que "as línguas.. O fonocentrismo de Platão é textualmente planejado e textualmente defendido. uma vez que joga com os paradoxos da textualidade apenas. veremos que o poema não é inteiramente coerente em si mesmo. o texto é fundamentalmente pretexto . p. uma correspondência literal grosseira entre conceito. uma vez que nessa doutrina a psique lida apenas com sombras ou sombras de sombras. mas tomava o texto impresso. cada um à sua própria maneira. afirmam a lógica e ao mesmo tempo levam-na às últimas conseqüências" (Miller 1979. and the decay o/ dialogue [Ramus. 35). Os textos são um fundo falso. A única maneira de eliminar essa limitação seria por meio de uma compreensão histórica do que era a oralidade primária. o logocentrismo é encorajado pela textualidade e se torna mais acentuado assim que a textualidade quirográfica é reforçada pela impressão.não podemos descartar os textos. sem a oralidade. palavra e referente. A arquitetura não tinha a ver com a linguagem e o pensamento. Hartman chamou a atenção para a ausência. Na verdade. que moldam nossos processos mentais. nasciam da memória. discutível. p. Em seu Saving the text: Literature/Derridalphilosophy [Salvando o texto: Literatura/Derrida/filosofia) (1981. para os antigos gregos. Não a concebiam por analogia a um edifício ou qualquer outro objeto no espaço. Ramus fornece um exemplo de logocentrismo virtualmente insuperável. mas de "epistemologia corpuscular". A atração da obra dos desconstrucionistas e de outros textualistas mencionados anteriormente deriva em parte de uma cultura escrita historicamente irrefletida. chamei sua atitude não de logocentrismo. "Se o pensamento é para nós.

É evidente que na comunicação oral o princípio de cooperação e a implicatura terão orientações inteiramente diferentes daquelas mencionadas por eles. o "ilocutório" (que exprime um ambiente interativo entre enunciador e receptor . David Bleich. Parece óbvio que as teorias dos atos da fala e da recepção poderiam ser ampliadas e adaptadas a fim de lançar uma luz sobre o uso do rádio e da televisão (assim como do telefone). a mesma coisa que numa cultura escrita. promessa. dentro de certas subculturas. cumprimentar. ordenar. Essas tecnologias pertencem à era da oralidade secundária (uma oralidade não anterior à escrita e à impressão. na comunicação oral. falante e ouvinte estão presentes. 400). Searle e H. poderiam revelar que prometer. mas resultante e dependente da escrita e da impressão). numa cultura oral. John R. por exemplo. Grice. A teoria dos atos da fala distingue o ato "locutório" (o ato de produzir um enunciado. Até onde sei. Os leitores cujas normas e expectativas em relação ao discurso formal são dominadas por uma conformação mental residualmente oral se relacionam com o texto de um modo inteiramente diferente daquele próprio a leitores cuja percepção de estilo é radicalmente textual. como a oralidade primária. p. essas diferentes orientações nunca foram explicadas com detalhes. A crítica feita pela teoria da recepção está perfeitamente consciente de que a escrita e a leitura diferem da comunicação oral. asseverar. sugerem que o escritor sentia o leitor típico como mais próximo do ouvinte do velho estilo do que sente comumente ser a maioria dos leitores de hoje. As apóstrofes nervosas dos romancistas do século XIX ao "caro leitor". é a crítica feita pela teoria da recepção de Wolfgang Iser. particularmente atraente para os contrastes entre oralidade e cultura escrita. cumprimento. de produzir uma estrutura de palavras). Muitos daqueles que pertencem a uma cultura escrita com alto índice de resíduos orais sentem que isso não acontece: julgam que os povos orais. Austin. protestar. Para se adaptarem a elas. até a cultura escrita de alto grau. ameaçar. Uma outra abordagem da literatura. responder. Winifred B. da oralidade primária. que implicitamente governa o discurso ao prescrever que a contribuição de uma pessoa para uma conversação deve seguir a direção aceita da troca de discurso em que está envolvida. em termos de ausência: o leitor está normalmente ausente quando o escritor escreve. A teoria dos atos da fala poderia ser ampliada de forma a dar uma atenção maior à comunicação oral. As oportunidades para estudos mais extensos são aqui irrestritas e atraentes e possuem implicações práticas para o ensino tanto das habilidades de leitura quanto de escrita. convencimento ou encorajamento).L. como já se observou. no entanto. utilizada por Mary Louise Pratt (1977) numa tentativa de formular uma definição do discurso literário como tal. passando pela oralidade residual. jactância e assim por diante) e o "perlocutório" (o que produz efeitos pretendidos no ouvinte. até agora pouco se fez para compreender a teoria da recepção em termos do que agora se conhece acerca da evolução dos processos noéticos.por exemplo. Stanley Fish. Michel Riffaterre e outros. um diante do outro. Se fossem. afirmação.P. assim como importantes implicações teóricas. as teorias dos atos de fala e da recepção devem ser antes relacionadas à oralidade primária. Horner (1979) iniciou uma reflexão nessa linha ao sugerir que escrever uma "composição" como exercício acadêmico constitui um tipo especial de ato que ela denomina "atos de texto". e o escritor está normalmente ausente quando o leitor lê. . "A objetividade do texto é uma ilusão" (Fish 1972. A teoria inclui o "princípio de cooperação" de Grice. incluindo Jacques Derrida e Paul Ricoeur. Esse é apenas um indício do esclarecimento que os contrastes entre oralidade e cultura escrita poderiam proporcionar nos campos estudados pela teoria dos atos da fala.Duas outras abordagens especializadas da literatura convidam à reconsideração com respeito aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. tais como medo. ao passo que. nos Estados Unidos (e sem dúvida em outras sociedades de cultura escrita de algo grau em todo o planeta). Norman Holland. Até mesmo atualmente. são falsos e não cumprem promessas ou nào são sinceros em suas respostas a perguntas. assim como outros atos ilocutórios não significam. os leitores ainda agem numa moldura basicamente oral e tendem antes ao desempenho do que à informação (Ong 1978). Eles também se opõem vigorosamente contra a glorificação que faz a Nova Crítica do texto material. além de incluir seu conceito de "implicatura". que se refere a diversos tipos de cálculos que usamos para dar sentido ao que ouvimos. Uma delas nasceu da teoria dos atos da fala elaborada por ]. Contudo. mas também de modo a abordar de forma mais crítica a comunicação textual especificamente como tal.

mas com a ajuda de uma tecnologia que foi profundamente interiorizada. mas somente pela mente que se habituou à tecnologia da escrita e a interiorizou profundamente? O que essa necessidade intelectual específica tem a dizer acerca da relação da consciência com o universo exterior? E o que tem ela a dizer acerca das teorias marxistas. Os teoremas postos pela oralidade e pela cultura escrita desafiam os estudos bíblicos talvez mais do que qualquer outro campo do conhecimento. Mas de que modo estão as virtudes e os vícios que intrigam os pensadores antigos e medievais ligados aos personagens-tipos "fortes" da narrativa oral quando comparados à psicologização abstrata. como vimos. Que efeito teve a impressão sobre aquilo que a escrita criou? A resposta completa não pode ser meramente quantitativa. até o momento. seriam impossíveis. à medida que adequamos nossas conceituações à era do computador. Em suma. que escreveram para ser lidos em voz alta? Qual é a relação da historiografia renascentista e da oralidade embebida da retórica? A escrita criou a história. é resultado não apenas da escrita. A mente interage com o mundo material que a circunda de modo mais profundo e criativo do que até agora se pensava. através dos séculos. já sentiram seus efeitos e contribuíram muito para nosso conhecimento acerca da oralidade do ponto de vista de seus contrastes em relação à cultura escrita. O que o sentimento de clausura alimentado pela impressão tem a ver com o delineamento do relato histórico escrito. ao que parece. Estudos comparativos mais detalhados acerca da oralidade e da cultura escrita trariam novas luzes à filosofia. como a Arte retórica de Aristóteles). destituídas do conceito de "justiça" como tal. que uso se faz do fato de que o pensamento filosófico não pode ser levado adiante pela mente humana desassistida. um tipo especial de produto essencialmente humano. do ponto de vista do par oralidade-cultura escrita. mas também da impressão: sem essas tecnologias. deveria dar-se conta. Desde a crítica da forma de Hermann Gunkel (1862-1932). a moderna privatização do eu e a moderna autoconsciência. a filosofia . A sociologia. criticamente. no pensamento hegeliano ou no pensamento fenomenológico posterior? Indagações desse tipo podem ser respondidas apenas por estudos comparativos detalhados. incorporada aos próprios processos mentais. acerca do aparato conceitual da filosofia medieval revelaria que ela está menos fundada na oralidade do que a antiga filosofia grega e muito mais fundada na oralidade do que o pensamento hegeliano ou fenomenológico posterior. desassistida. A própria lógica surge da tecnologia da escrita. Havelock C1978a) mostrou como um conceito como o da justiça platônica se desenvolve sob a influência da escrita com base nas explicações avaliativas arcaicas dos atos humanos ("pensamento situacional" oraD. que se concentram em tecnologias como meios de produção e de alienação? A filosofia hegeliana e suas continuações estão abarrotadas de problemas ligados ao par oralidade-cultura escrita. Atualmente. que certamente lançariam uma luz sobre a natureza dos problemas filosóficos em diferentes épocas. aguda e duplamente crítica. Por que meios? Tanto quanto sei. a história. A filosofia. o estudo da Bíblia gerou o que talvez constitua o maior corpo de comentário textual do mundo. assim como de todas as ciências e as "artes" (estudos analíticos de normas. A existência da filosofia. nuançada de forma mais complexa. os estudos bíblicos tornaram- . em seu início. sentiu esses efeitos de forma menos forte. se a filosofia faz uma reflexão sobre sua própria natureza. de sua condição de produto tecnológico . na qual tanto se apóiam a fenomenologia de Hegel. A descoberta crítica do eu. depende da escrita.e com ela a história intelectual pouco uso fez dos estudos sobre a oralidade. assim como a de outros. A historiografia ainda está por senti-Ios: Como interpretar os antigos historiadores. a seleção dos tipos de tema que os historiadores usam para penetrar na teia descosida de acontecimentos a sua volta de modo que a história possa ser contada? Para acompanhar as estruturas agonísticas das antigas culturas orais. Essa mudança de foco está obviamente relacionada à tendência à interiorização da mentalidade quirográfica. embora escrita. passamos para a história da consciência. A antropologia e a lingüística.isto é. foi em grande parte a história das guerras e dos enfrentamentos políticos.Outros campos abertos aos estudos sobre oralidade e cultura escrita podem ser apenas mencionados aqui. É muito provável que um estudo. no sentido de que a mente as produz por si mesma. como Lívio. pois. em termos de fatos "aumentados". O pensamento analítico explicativo nasceu da sabedoria oral apenas gradativamente e talvez ainda esteja se despojando do resíduo oral.

Dizer que inúmeras mudanças na psique e na cultura estão ligadas à passagem da oralidade para a escrita não é fazer desta (e/ou de sua continuação. por exemplo. O'Connor (980) rompeu com a tendência dominante nessa questão ao reavaliar a estrutura do poema hebraico em termos de uma psicodinâmica genuinamente oral.muito citada . apontando uma ausência ou uma deficiência. porém essencialmente limitadoras. menos ofensivo e mais positivo. publicadas posteriormente. citada repetidas vezes neste livro. mas de correlação. é claro. Mas. mas também em estudos históricos e antropológicos sofisticados. É possível saber que os textos possuem fundamentos orais sem estar plenamente consciente do que é realmente a oralidade. (Alguns indivíduos. Lesfonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910) e das Conferências Lowell de Franz Boas. 245) de que "a mente selvagem totaliza" seria substituída por "a mente oral totaliza". Parece que uma avaliação em profundidade dos processos noéticos e de comunicação da oralidade primária poderia revelar aos estudos bíblicos aspectos mais complexos da compreensão textual e doutrinária. nas práticas educativas. Numa série de conferências feitas no rádio. nas instituições sociais. A ligação não é uma questão de reducionismo. para mostrar que não o somos. no comércio. aborda de forma direta e de frente. Tbe mind ofprimitive man (922). Tanto a oralidade quanto o desenvolvimento da cultura escrita baseado nela são necessários à evolução da consciência. A afirmação . nos meios de transporte. 15-16). . ou está tomando.se cada vez mais conscientes de especificidades como os elementos oral-formulares do texto (Cul1ey 1967). e nunca foi. para não falar de "inferior". O tratamento atual sugeriria o uso do termo "oral". mas nunca encontrei ou ouvi falar de uma cultura oral que não queira atingir a cultura escrita tão logo quanto possível. a Odisséia. nas habilidades tecnológicas. pp. não apenas em conversas informais ou de salão. como notou Werner Kelber 0980. As culturas orais atualmente valorizam suas tradições orais e se angustiam diante da perda dessas tradições. Abordá-Ia positivamente não é defendê-Ia como um estado permanente para qualquer cultura. Ninguém deseja ser chamado de primitivo ou selvagem. projetando a memória oral como uma variante da memória literal da cultura escrita e considerando o que foi preservado da tradição oral como um tipo de texto que está apenas à espera de um registro escrito. contudo. constitui ainda um atributo negativo. na organização política. Ele propõe que o termo "primitivo" seja substituído por "sem escrita". dessas abordagens bem-intencionadas. resistem à cultura escrita. p. A oralidade não é um ideal. o próprio LéviStrauss defendeu os "povos que geral e erradamente chamamos de 'primitivos'" contra a acusação comum de que suas mentes são de "qualidade mais grosseira" ou "fundamentalmente diferente" 0979. "Sem escrita". 1983). e é confortador aplicar esses termos de forma contrastante a outros povos. à luz dos estudos recentes sobre oralidade e cultura escrita. Uma das obras-chave no campo da antropologia das últimas décadas. tendem desavisadamente a moldar a noética e a economia verbal das culturas orais à cultura escrita. os estudos bíblicos. 1962). A mudança da oralidade para a escrita está intimamente entrelaçada com outros desenvolvimentos psíquicos e sociais além dos que já apontamos. sugerindo um viés quirográfico. uma compreensão mais positiva dos estados de consciência anteriores tomou o lugar. é a Mente selvagem de Claude Lévi-Strauss 0966 .de Lévi-Strauss (1966. a questão do que era verdadeiramente a tradição oral antes do surgimento dos textos escritos Sinópticos. A cultura escrita abre possibilidades à palavra e à existência humana de uma forma inimaginável sem a escrita. Os termos são de certo modo semelhantes ao termo "analfabeto": eles identificam um estado de coisas anterior de forma negativa.) No entanto. são pesados. na organização familiar. Estamos também pensando nos estudos anteriores de Lucien Lévy-BruW. Ela é capaz de produzir criações que estão fora do alcance dos que pertencem à cultura escrita. e em outras áreas da Os povos "civilizados" há muito tempo estabeleceram contrastes entre si e os povos "primitivos" ou "selvagens". a impressão) a causa única de todas as mudanças.primeira edição francesa. Tbe oral and the written gospel. mas são em número cada vez menor. Os termos "primitivo" e "selvagem". a oralidade não deve ser menosprezada. A principal obra de Kelber. Na atenção atualmente dada aos contrastes entre oralidade e cultura escrita. Tampouco a oralidade pode ser completamente erradicada: ler um texto o oraliza. Ia pensée sauvage. como outros estudos textuais. pela primeira vez. Evoluções na produção de alimentos.

a "informação" passa para a outra. tornando-o irreconhecível.ou a outras pessoas. íntimo. as culturas quirográficas vêem a fala como mais especificamente informal do que as culturas orais.foram elas próprias afetadas. A comunicação humana nunca possui mão única. a fim de que possa ocorrer. lbe medium is lhe massage [O meio é a massagem] (não exatamente a "mensagem"). pois nenhum receptor (leitor. porém. na verdade. o título desvirtuado do livro de McLuhan. isolado de pessoas reais. à primeira vista. De uma ponta do tubo. o texto escrito parece. devo ser capaz de fazer conjecturas sobre uma gama possível de respostas. nas quais a fala está mais orientada para a atuação. do contrário não se produzirá um texto: portanto.já "em mente". afetaram essa mudança. Ao tratar da "tecnologização" da palavra. Até mesmo para falar consigo próprio é preciso fingir que se é duas pessoas. "O . um exame mais atento mostra que essa semelhança é muito pequena e deforma o ato de comunicação. Posso estabelecer um contato talvez por meio de relacionamentos passados.) Tenho de perceber algo na mente do outro. pelo menos de maneira vaga.ou várias. por um acordo com uma terceira pessoa que uniu a mim e ao meu interlocutor. que é especificamente humana e que marca a capacidade que possuem os seres humanos para formar verdadeiras comunidades. Durante todo o tempo.ou outras pessoas . isto é. Em primeiro lugar. em sua grande maioria . por seu turno. pela mudança da oralidade para a cultura escrita e para seus estados posteriores. (As palavras são modificações de uma situação que é mais do que verbal. Mas quando se fala. É esse o paradoxo da comunicação humana. Por isso. muitas vezes de forma muito profunda.vida humana. o remetente deve estar não apenas na posição de remetente. algo entre duas outras coisas). e ele precisa estar dentro de minha mente. Pessoas lúcidas não vagueiam pelas florestas apenas falando a esmo. A disposição para viver com o modelo "mídia" de comunicação revela um condicionamento quirográfico. ela não apenas exige uma resposta. Em segundo lugar. de um lugar para outro. para ninguém. chamado "mente". ou de outras inúmeras formas. A comunicação é intersubjetiva. mas também na do receptor antes que ele possa enviar algo. ouvinte) está presente quando os textos nascem. a fim de iniciar minha mensagem. algum receptor deve estar presente. para uma maneira de fazer algo para alguém. Retiro dela uma unidade de "informação". nas quais as pessoas estabelecem entre si um sentimento de partilha. o escritor invoca uma pessoa fictícia . Porém. mas tem sua própria forma e seu próprio conteúdo moldados pela resposta prevista. O motivo para isso é que o termo pode dar uma falsa impressão da natureza da comunicação verbal. com o que meu discurso possa se relacionar. assim como quando se escreve. difere do modelo do "meio" de uma forma mais essencial pelo fato de requerer uma resposta prevista. evito enviar exatamente a mesma mensagem a um adulto e a uma criança pequena. Pensar num "meio" de comunicação ou nos "meios" de comunicação sugere que a comunicação seja um tubo condutor que transfere unidades de um material chamado "informação". Para falar. na qual alguém a decodifica (restabelece seu tamanho e forma naturais) e a coloca em seu próprio recipiente. a mensagem é transportada da posição do remetente para a do receptor. Isso não significa que eu esteja certo quando ao modo como o outro irá responder ao que digo. intersubjetivo. Preciso estar de certa forma dentro da mente do outro antecipadamente. das possíveis respostas que eu poderia prever. O modelo "mídia" não é. ser uma rua de informação de mão única. na maior parte deste livro. Por isso. devo ter outra pessoa . devemos nos dirigir a uma outra pessoa . Porém. ajusto-a ao tamanho e à forma do tubo condutor pelo qual ela irá transitar) e a coloco numa ponta do tubo (o meio. preciso já estar de alguma forma em comunicação com a mente à qual devo me dirigir antes de começar a falar. essas evoluções. Isso porque o que digo depende da realidade ou da fantasia com a qual sinto estar falando.e. evitou-se o termo "mídia". por uma troca de olhares. todas elas exercem seus papéis específicos e diferenciados. Não existe um modelo adequado no universo físico para essa operação da consciência. Esse modelo obviamente tem certa semelhança com a comunicação humana. Para falar. No modelo do meio. Minha mente é uma caixa. assim como muitas delas. Na comunicação humana real. codifico a unidade (isto é. A comunicação humana. verbal ou não. Para formular o que quer que seja. assim como das outras formas de comunicação humana. muito provavelmente todas .

no ensinamento cristão. mas também como a Palavra de Deus. Ele não o escreve. o ensinamento cristão também apresenta em seu núcleo a palavra escrita de Deus. da impressão e do processamento eletrônico da verbalização revelam com uma crescente clareza algumas das formas nas quais essa evolução foi tributária da escrita. Onto e filogeneticamente. até mesmo a hebraica. A interação entre oralidade e cultura escrita penetra nas preocupações e nas aspirações fundamentais do ser humano. pp. pois. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Tenho esperanças de que meu domínio da tradição seja suficiente para entrar nas mentes dos leitores deste livro. Erich Kahler descreve detalhadamente como a narrativa ocidental voltou-se cada vez mais para as crises íntimas. Mas não é impossível quando eu e os leitores estamos familiarizados com a tradição literária em que eles operam. que redimiu do pecado a humanidade.das estruturas de grupo nas quais cada pessoa está inevitavelmente inserida. é conhecida não somente como o Filho.na qual estou trabalhando para que possa criar para leitores reais papéis fictícios que eles sejam capazes de representar. é a palavra falada que pr~meiramente ilumina a consciência com a linguagem articulada.público do escritor é sempre uma ficção" (Ong 1977. na qual. Os estágios da consciência descritos segundo uma moldura junguiana por Erich Neumann em Tbe origins and history of consciousness (1954) dirigem-se para uma interioridade autoconsciente.a intertextualidade. imperiosa em Kierkegaard e penetrante nos existencialistas e personalistas do século xx. as oposições entre oralidade e cultura escrita são particularmente acentuadas. e é preciso que eles estejam dispostos a fazê-Io. Todas as tradições religiosas da humanidade têm origem remota no passado oral e é evidente que todas elas dão uma enorme importância à palavra falada. Devo conhecer a tradição . exprimindo-as de forma elaborada. Os estudos modernos acerca da mudança da oralidade para a cultura escrita e as conseqüências desta. pessoais. ser único e não duplicável. a maioria das quais jamais se conhecerá. revelam um crescimento semelhante na preocupação filosófica explícita com o eu. Desenvolvimentos mais longos . Nesse ensinamento. Ésquilo. a Bíblia. elaboradamente expressa. na qual ninguém nasce.do contrário . profundamente pessoal. e que estabelece laços entre os seres humanos na sociedade. A escrita introduz divisão e alienação.embora não necessariamente de sua separação . O processo é complexo e repleto de incertezas. a Bíblia. o Corão. o Deus Pai profere ou diz Sua Palavra. A autoconsciência é inseparável da humanidade: quem quer que diga "eu" possui uma percepção aguda de si mesmo. A evolução da consciência através da história humana é marcada pelo desenvolvimento de uma observação sistematizada do interior do indivíduo sob o aspecto de seu distanciamento . a reflexão e a observação ordenada do eu desenvolvemse lentamente. Não obstante ser humano signifique ser uma pessoa e. provavelmente mais do que em qualquer outra tradição religiosa. se assim quiserem . a consciência nunca alcançaria sem a escrita. mas também uma unidade maior. atinge as profundezas da psique. a pnmeira que divide o sujeito e o predicado e depois os relaciona entre si. No ensinamento cristão. qualquer receptor real está normalmente ausente . central em Fichte. por que escrever?) A "ficcionalização" de leitores é o que torna tão difícil a escrita. por conseguinte. Em Tbe inward turn of narrative [Ainflexão da narrativa] (1973). 54-81). desde seus autores' Desde pelo menos a época de Hegel. seu Filho. Os estágios de consciência altamente interiorizados nos quais o indivíduo está tão imerso inconscientemente nas estruturas de grupo são estágios que. Contudo. Porém. A interação entre a oralidade na qual todos os seres humanos nascem e a tecnologia da escrita. A própria Pessoa do Filho é constituída como a Palavra do Pai. A escrita eleva a consciência. as principais religiões do mundo também foram interiorizadas pela expansão de textos sagrados: os Vedas. segundo parece. Para um escritor. a percepção de que a consciência evolui tem sido cada vez maior. No entanto. Desenvolvimentos bruscos revelam seu crescimento: as crises nas peças de Eurípedes têm um caráter menor de expectativas sociais e maior de consciência interior do que as que se apresentam nas peças do tragediógrafo anterior. o desenvolvimento do conhecimento histórico tornou óbvio que o modo como uma pessoa se percebe no cosmos desenvolveu-se de uma maneira padronizada no correr dos séculos. Não é fácil se introduzir nas mentes de pessoas ausentes. Ela intensifica a percepção do eu e alimenta uma interação mais consciente entre as pessoas. que se torna visível em Kant.

Tal bibliografia não tem intenção de abranger toda a literatura em todos os campos nos quais a oralidade e a cultura escrita são objetos de interesse (por exemplo. Deus é um autor. não fornecemos referência sobre questões deste livro que possam ser facilmente comprovadas por fontes de referência comuns. Muitas das obras citadas aqui contêm bibliografias que levam a informações mais detalhadas sobre várias questões. mas tão somente arrolar algumas obras importantes que podem servir como introdução a campos de estudo principais. De que modo os dois sentidos da "palavra" de Deus estão relacionados um com o outro e com os seres humanos na história? Essa questão atrai as atenções hoje mais do que nunca. O mesmo ocorre com inúmeras outras questões envolvidas no que agora conhecemos acerca da oralidade e da cultura escrita. esta bibliografia arrola também algumas outras que o leitor poderá julgar particularmente úteis.humanos. acrescentamos comentários. as culturas africanas). Esta bibliografia está concentrada nas obras de língua inglesa. A maioria das principais obras sobre os contrastes entre oralidade e cultura escrita foi escrita em inglês. A dinâmica oralidade-cultura escrita penetra integralmente na moderna evolução da consciência em direção tanto a uma maior interiorização quanto a uma maior compreensão. Nos casos em que. A fim de evitar um número excessivo de indicações. muitas obras pioneiras. mas inclui algumas em outras línguas. julgou-se necessário. . Além das obras citadas no texto. mais do que em qualquer outro escrito. por algum motivo. como enciclopédias. por estudiosos dos Estados Unidos e Canadá.

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171-172 Whitman. 121. 138. 168-169 Potter. Thomas 26 Peters. Hieronimo 95 Steinberg. 36. 114 Scheub. 120. Adam 15. 106. 75 Oppenheim. Geoffrey 14. 144 Steiner. Henry 96 Vico. Benjamim A. Thomas 173 Pyson. sir Philip 177 Siertsema. Platão. Henry 14 Vachek.58-59. Harold 81 Schmandt-Besserat. Cedric M. Robert 159. 37. Emrys 59 Pisístrato 27 Plaks. 187-188 Poe. Leo 52 Orderic Vitalis 111 Ovídio (Publius Ovidius Naso) 122 Parker. 179 Steme. 100. P. Peter 59 Opland. 37 Subotnik. 34-35. 136-137.198 Opie. 119. 123 Ong. Barre 70 Tomás de Aquino 111 174 Updike. 180-181 Rudedge. 117-118. 87. Lev 61 Watt. 59. Peter (Pierre de Ia Ramée) Renou. Phillippe 185. Denise 101 Scholes. William C. Hermann 163 . Mary Ellen 147 Soooino. lvor 110 Wilson. 68-69. 182 Todorov. lona Archibald 59 Opie. 185-186. Edmund 178 Squarciafico. 184 Parry. 109 153. E. Mary Louise 190 Propp.Olson. ]000 84 Usener. William Riley 182 Parry.W. Edgar AlIan 163.191. William 172 Shannon. 18. Waiter J. 130-133. William Makepeace Thomas de Muschamps 113 Tillyard. 27. 163 Parry. S. Deborah 36 Textor. 125-126. 104 Searle. 188 Tannen. Tobias George 168 Sócrates 94-95.H. Alain 166. 140. ]ean-]acques 91. Sylvia 65. 26 Vaughan. 187 Toelken. Michaell91 Robbe-Grillet. Murasaki. 94-97. B. 49. 33-34. 37 Sherzer. Richard S. 20. 163. J. ]effrey 56. A. Morton 98 Sweet. ]oel 75-78 Shikibu. loannes Revisius 143 Thackeray. 54. Robert 28 127 Tambiah. 125-126 Sófocles 171 Sol1ers. 147. Anne Amory 61.M. Edward 26 Saussure. VIadimir lakovlevich 184 Pulgram. 30-31. 177. 15 Stoltz. 186 Rureke. 149. 170 Rosenberg. Ulrich von 163 Wilks. Lee Ann 127 Sparks. 126-128. S. 172. Giambattista 28 Virgílio (Publius Virgilius Maro) 178 Vitrúvio (Marcus Vitruvius Pollio) 146 Vygotsky. Berkley 72. 15 Smollett. 190 Sejong. Edward 0. George 136. 42 Sapir. 169-170. 121. 179. 187 Solt. lan 54. 171 Scribner.H. 162 Wilamowitz-Moellendorff. ]ohn R. David R. 46.80. Laurence 147 Stokoe ]r. 153-155. Monica 59 Wolf. 36. Candi 57.188. Andrew H ~Sl 162-166. 27-30. 29-30. 122. 42-43. 112. Edwin Erle 156 Spenser. Godfrey 59 Wilson. 14-15.]. Louis 79 Richardson. 38. lady 163 Sidney. Emst 26 Pynchon. 184-185 Percy. Rei 108 Shakespeare.114. Friedrich August 28 Wood. 110. Richard 149 Qohe1eth (Eclesiastes) 25 Quintiliano (~Iarcus Fabius Quintilianus) Ramus. Bruce 38 Rousseau.109. Stephen 182 Pratt. Milman 14. 32-33. 143. 96. 93-94. 36.71 Peabody.182-183. Ferdinand de 13 Sawyer. Samue1 172 Ricoeur.. Malcolm 124 Richardson. Tzvetan 185. 51. 119. 167. 165. Eric 76-78 Safo 166 Sampson. Paul 191 Riffaterre.100 Wilson.

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