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A Geografia Urbana no ensino médio

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A geogrAfiA urbAnA no ensino médio

Ricardo José Gontijo Azevedo
Doutorando do Programa de Pós Graduação em Geografia da UNESP/Rio Claro ricardogeop@yahoo.com.br

Fadel David Antonio Filho
Professor Adjunto (Livre-Docente) do Departamento de Geografia/IGCE/UNESP/Rio Claro fadeldaf@rc.unesp.br

Resumo: O presente artigo busca analisar como a Geografia Urbana é trabalhada no Ensino Médio. Através de uma perspectiva dialética foram aplicadas entrevistas com professores e analisados livros didáticos com o objetivo de compreender como determinados temas socioespaciais são abordados no estudo do espaço urbano. Observa-se que a temática urbana não é trabalhada em sua plenitude, uma vez que determinados temas, como a segregação espacial e a especulação imobiliária, não são contemplados na maior parte dos livros didáticos. A prática docente também é comprometida no trabalho com a temática urbana, já que a maioria dos professores usa somente aulas expositivas e o livro didático como instrumento de ensino. Ao final do trabalho são apresentadas algumas alternativas metodológicas que podem subsidiar o trabalho dos professores com a Geografia Urbana. Palavras-chave: Geografia Urbana. Ensino Médio. Ensino de Geografia.

Nesse contexto, o presente trabalho tem como objetivo principal analisar como a Geografia Urbana é tratada no Ensino Médio. O trabalho tem também como objetivos específicos: compreender como os professores de Geografia do Ensino Médio trabalham a temática urbana; identificar as lacunas deixadas pelos livros didáticos de Geografia destinados ao Ensino Médio no que tange à temática urbana; propor alternativas metodológicas para melhor compreensão do espaço urbano pelos alunos do Ensino Médio. Tento em vista a importância de uma boa formação dos alunos do Ensino Médio na temática urbana para uma gestão democrática das cidades, o presente trabalho justificase por se propor a analisar como a Geografia Urbana é tratada no Ensino Médio. Além disso, buscaremos o desenvolvimento de alternativas metodológicas para que o professor contemple a temática urbana em sua plenitude, através da abordagem de temas pouco observados nos livros didáticos, como a segregação socioespacial, a questão dos condomínios fechados, a especulação imobiliária e o papel do Estado como agente transformador do espaço urbano. Nesse contexto, o desenvolvimento do presente trabalho é importante por fomentar práticas pedagógicas que irão contribuir na formação do aluno em questões importantes e pouco abordadas na atualidade.

Metodologia
O presente trabalho é uma pesquisa qualitativa que busca analisar como o ensino da Geografia Urbana é realizado no Ensino Médio. A abordagem dialética mostra-se mais apropriada para compreensão da dinâmica político-pedagógica que envolve o ensino da Geografia, uma vez que se pretende elucidar as contradições entre o referencial teórico da temática urbana e sua prática em sala de aula. Para a realização do presente artigo foi realizada inicialmente a pesquisa e revisão bibliográfica acerca de temas pertinentes ao assunto abordado, como o contexto socioespacial das cidades e como o ensino de Geografia é tratado na contemporaneidade. Visando compreender como os professores trabalham em sala de aula com a temática urbana foram realizadas entrevistas semi-estruturadas com dez professores de Geografia do Ensino Médio, que lecionam na rede pública e/ou privada em Limeira-SP. Nas entrevistas, os professores foram questionados sobre como trabalham a Geografia Urbana em sala de aula, quais metodologias de ensino e recursos didáticos utilizam e quais conteúdos são trabalhados nessa temática. Posteriormente, foram analisados dez livros didáticos de Geografia dirigidos ao Ensino Médio com o objetivo de verificar como a questão urbana é abordada. Sendo um dos autores do presente trabalho professor de Geografia na rede pública de ensino, os livros didáticos foram utilizados levando em consideração a disponibilidade dos mesmos pelo autor, sem a intenção de selecioná-los de acordo com editoras ou autores. Os livros didáticos selecionados para análise foram:

Introdução
A Geografia Urbana é um eixo da ciência geográfica de fundamental importância para compreensão da realidade socioespacial das cidades. Através de uma sólida formação na temática urbana os alunos podem conceber o espaço urbano de forma crítica, elucidando contradições decorrentes de interesses particulares de determinadas classes sociais e agentes públicos. Somente através de ampla consciência da atuação dos agentes modeladores do espaço urbano é que poderemos conceber uma gestão democrática das cidades. Entretanto, percebe-se que a importância dessa temática é negligenciada pela maior parte dos livros didáticos, resultando numa abordagem do assunto de modo bastante superficial pelos professores do Ensino Médio. Temas como a segregação socioespacial, a especulação imobiliária promovida por diversos atores sociais, o surgimento dos “enclaves fortificados” também conhecidos por condomínios fechados, entre outros, são abordados de modo superficial pelos livros didáticos.

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Autores ALMEIDA, Lúcia Marina Alves; RIGOLIN, Tércio Barbosa FILIZOLA, Roberto GARCIA, Helio Carlos; GARAVELLO, Tito Marcio. KRAJEWSKI, Ângela Corrêa; GUIMARÃES, Raul Borges; RIBEIRO, Wagner Costa LUCCI, Elian Alabi; BRANCO, Anselmo Lazaro; MENDONÇA, Cláudio MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. MOREIRA, João Carlos; SENE, Eustáquio de. SILVA, Vagner Augusto da. TAMDJIAN, James Onnig; MENDES, Ivan Lazzari. TERRA, Lygia; COELHO, Marcos de Amorim.

Nome do livro Geografia geral e do Brasil Geografia Geografia: de olho no mundo do trabalho Geografia: pesquisa e ação Geografia Geral e do Brasil Geografia: a construção do mundo Geografia Geografia do Brasil e geral: povos e territórios Geografia geral e do Brasil: estudos para compreensão do espaço Geografia Geral e Geografia do Brasil: o espaço natural e socioeconômico

Editora Ática IBEP Scipione Moderna Saraiva Moderna Scipione

Ano 2005 2005 2005 2005 2005 2005 2005

a aprender). Só assim pode-se propiciar aos educandos que se tornem cidadãos plenos, agentes da história, sujeitos autônomos, críticos e criativos.

Escala 2005 Educacional FTD Moderna 2005 2005

Após a análise dos livros didáticos foram propostas algumas alternativas metodológicas para o trabalho da temática urbana com os alunos do Ensino Médio.

Cavalcanti (2002) ressalta em sua obra a importância de se estudar a temática urbana nos conteúdos de Geografia, por dois motivos distintos, um por se tratar de uma espacialidade específica com múltiplos aspectos e características próprias, outro como desenvolvimento de habilidades, valores e condutas para a vida cotidiana, contribuindo neste sentido para a formação da cidadania. Para a autora, o grande desafio na hora de elaborar as propostas de ensino consiste em traduzir pedagogicamente as novas formas de compreensão do espaço, para aproximar os alunos de um discurso que incorpore os avanços da Geografia nas últimas décadas. Sabemos que o estudo do espaço urbano passou ganhou novos significados nas últimas décadas com o surgimento da Geografia Crítica. Entretanto, observa-se que as aulas dessa temática continuam, em sua maioria, a ter um viés tradicional que acaba por legitimar aos interesses das classes dominantes. Muitos alunos não conseguem conceber o espaço urbano como produto de uma sociedade de classes, e que, portanto, carrega consigo as contradições inerentes à sociedade capitalista. Se considerarmos que a crítica de Lacoste (1977) sobre a Geografia que se ensina nas escolas de ensino fundamental e médio, temos de reconhecer que se trata de “uma espécie de cortina de fumaça que permite dissimular” uma outra Geografia, dita “dos estados-maiores”. Enquanto a primeira, a “Geografia dos professores” torna-se um saber sem aplicação prática, a “dos estados-maiores” entende o espaço como um poderoso instrumento de poder. Explica Lacoste (1977, p.31-32) que:
A geografia escolar que foi imposta a todos no fim do século XIX e cujo modelo continua a ser reproduzido ainda hoje, quaisquer que possam ter sido os progressos na produção de idéias científicas, encontra-se totalmente alheado de toda a prática. De todas as disciplinas ensinadas na escola ou no liceu, a geografia é, ainda hoje, a única que surge como um saber sem a mínima aplicação prática fora do sistema.

O ensino de geografia como instrumento de libertação
Vesentini (2006) considera que tanto a educação como o ensino, são ou podem ser, ao mesmo tempo, instrumentos de dominação e de libertação. Para o autor, o sistema escolar moderno foi construído por cima, através do Estado instrumentalizado pela burguesia como classe hegemônica. Assim, o sistema escolar foi e ainda é estratégico para a reprodução da sociedade capitalista. Nesse contexto, é fundamental que o professor trabalhe com os alunos temas pouco vistos nos livros didáticos de Geografia, como a questão social que estrutura a organização das cidades, com vistas a uma educação que objetiva a formação integral dos alunos, com pensamento autônomo e crítico diante das contradições verificadas na sociedade. Vesentini (2006, p. 25) salienta a esse respeito que:
Educar para a liberdade não é somente educar os outros, mas também a si mesmo, de forma permanente, aprendendo ao mesmo tempo que se ensina (ou melhor, que se leva os alunos

Considerando isso, há uma premente necessidade do professor de Geografia em inverter esse quadro, buscando meios para transformar o ensino de Geografia numa aplicação estratégica e ideológica que sirva para conscientizar o aluno em seu papel de cidadão. Se a preocupação fundamental de todo e qualquer ramo do saber humano é ou deve ser a sociedade, cada ciência em particular se ocupa de um dos seus aspectos. (SANTOS, 1978). No caso da Geografia, o espaço é seu objeto de estudo principal, seja ele o espaço urbano, o espaço rural ou o natural. No caso do espaço urbano, especificamente, Santos (1981, p. 173) explica que “a paisagem urbana pode ser definida como um conjunto de aspectos materiais, através dos quais a cidade se apresenta aos nossos olhos, ao mesmo tempo como entidade concreta e como organismo vivo.”

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Com base nisso podemos entender que dentro de uma mesma cidade há duas ou mais cidades. Isso é resultado da oposição entre níveis de vida e entre setores da atividade econômica, ou seja, das contradições entre as classes sociais. São exatamente essas contradições que ocorrem no espaço urbano que devem ser exploradas no ensino da Geografia sobre o tema. Acreditamos que o estudo da Geografia Urbana em sua plenitude deve focar os problemas surgidos com a fragmentação do espaço urbano, com o surgimento de bairros destinados às camadas sociais específicas, com a segregação socioespacial. Assim, os alunos podem ter uma visão crítica do ambiente que o cerca, contribuindo para a formação de cidadãos autônomos no pensar e agir, vislumbrando uma sociedade mais justa e democrática. Nesse sentido diversas propostas curriculares para o ensino de Geografia, destacam a importância do ensino da Geografia urbana para formação da cidadania. Nesse contexto destaca-se o que nos revela Cavalcanti (2002, p.47):
 O ensino de Geografia contribui para a formação da cidadania através da prática de construção e reconstrução de conhecimentos, habilidades, valores que ampliam a capacidade de crianças e jovens compreenderem o mundo em que vivem e atuam, numa escola organizada como um espaço aberto e vivo de culturas. O exercício da cidadania na sociedade atual, por sua vez, requer uma concepção, uma experiência, uma prática – comportamentos, hábitos, ações concretas – de cidade.

por um lado, uma forma disfarçada e, por outro, explícita de discriminação social imposta pela condição econômica a qualquer indivíduo no espaço urbano. Isto depende do contexto sócio-político, pois esta forma de distribuição de população urbana, baseada em aspectos econômicos, torna-se um fator importante para a separação existente entre os diferentes agrupamentos sociais que assumem, no espaço urbano, uma disposição bem definida.

Na visão de Cavalcanti (2002), a escola, ao escolher trabalhar a temática urbana, tem que fomentar atividades em que os alunos percebam a existência de diferentes imagens da cidade, tanto cotidianas como científicas, que podem se confrontar. Nas áreas urbanas, a produção do espaço certamente envolve uma infinidade de forças que contribuem para sua transformação ao longo do desenvolvimento de um modo produtivo. Nesse contexto, percebe-se que o sistema capitalista esteja associado às mais profundas modificações do espaço geográfico em toda sua existência. Sobre essas modificações, Corrêa (2005) considera que existem agentes sociais concretos que produzem e consomem o espaço. O autor identifica cinco agentes distintos, que são: os proprietários dos meios de produção; os proprietários fundiários; os promotores imobiliários; o Estado; e os grupos sociais excluídos. Ainda de acordo com a concepção do autor, a ação desses agentes não é neutra, refletindo assim os interesses do agente dominante. Para Correa (2003) a segregação espacial tem origem anterior ao surgimento do capitalismo, remontando ao período do aparecimento das cidades e classes sociais que a habitavam. Entretanto, com a ascensão do capitalismo a segregação torna-se mais acentuada à medida que o fracionamento das classes sociais se consolida. O caráter desigual do sistema econômico capitalista sugere que a segregação seja, para Santos (1979. p. 31),

Analisar, no presente momento histórico, a maneira como a Geografia Urbana é abordada nas aulas e nos livros didáticos pode contribuir para a formação de alunos críticos e conscientes na sociedade. Nesse sentido Vesentini (2006, p. 26) considera que: Procurar a todo custo evitar o comodismo intelectual e a burocratização das relações sociais e educacionais é uma das mais importantes tarefas para que o ensino não apenas reproduza as demandas de ampliação da modernidade, mas, principalmente, contribua para formar cidadãos críticos e, com isso, uma sociedade cada vez mais democrática e pluralista. É importante ressaltar que o professor deve colocar em prática os conhecimentos que aprendeu durante sua formação acadêmica juntamente com os conhecimentos prévios que cercam a vida dos alunos. Assim, a prática docente necessita estar intimamente relacionada ao cotidiano dos alunos e professores, aproximando a teoria com a realidade para que o processo de ensino-aprendizagem alcance o sucesso. Nesse contexto, Zanatta (2008, p.140) salienta que “estudar a Geografia de uma cidade é compreendê-la em suas particularidades, inserindo-a no mundo como um todo e estudar a geografia do mundo é procurar compreender as maneiras pelas quais os diferentes lugares se articulam.” Para o estudo das cidades, é fundamental que o professor aproxime a temática ao que é conhecido pelos alunos, relacionando a dinâmica socioespacial aos bairros, ruas, praças, o centro e a periferia, a cidade e o campo, as feiras e os shoppings centers. Valoriza-se assim o conceito de lugar, fundamental para a compreensão da realidade espacial. A temática urbana pode ser bem desenvolvida em sala de aula se a abordagem dialética é considerada. Assim, valoriza-se o conceito de (re) produção do espaço urbano, uma vez que o espaço é fruto das complexas relações sociais que nele se estabelece. A metodologia dialética permite a discussão e análise das contradições da sociedade capitalista expressas no espaço urbano, por exemplo, através da segregação socioespacial.

Resultados e discussão
A revisão bibliográfica possibilitou uma melhor compreensão do papel fundamental que a Geografia assume na formação dos alunos. Nesse sentido, a questão urbana emerge como possibilidade de participarmos de modo ativo na sociedade, através do desenvolvimento da cidadania e da compreensão dos problemas socioespaciais das cidades. Os temas urbanos nos livros didáticos analisados, com maior ou menor profundidade, referem-se principalmente à dinâmica geral do processo de urbanização decorrente da industrialização e do êxodo rural, bem como conceitos sobre redes e hierarquias urbanas, metropolização e sobre as cidades na economia global. Muitos são os livros que tratam dos

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problemas ambientais urbanos, como a questão da poluição atmosférica, formação de ilhas de calor, ocorrência de inversão térmica, chuva ácida e outros. O problema da ocupação desordenada em encostas, que favorecem deslizamentos de terras também está presente em boa parte dos livros, mas a questão social de ocupação dessas áreas irregulares não é abordada de modo satisfatório. Não é intenção do presente artigo classificar os livros didáticos. Assim, os livros foram analisados levando em consideração os conteúdos relacionados à temática urbana. Para tanto, os livros foram enumerados em ordem alfabética de autor, e foi realizada uma criteriosa verificação dos conteúdos relacionados à temática urbana, procurando encontrar conteúdos relacionados à dinâmica socioespacial presente nas cidades, considerados pelo autor como: segregação espacial, especulação imobiliária, moradias precárias / favelas, loteamentos periféricos, movimentos de ocupação e condomínios fechados. É válido considerar que para o livro receber a indicação de que trabalhou com determinado conteúdo foi necessário que nele estivesse explícita uma argumentação sólida e coerente sobre esses conteúdos, e não somente terem citado-os ou abordado-os de modo superficial. A análise permitiu verificar que os livros didáticos de Geografia do Ensino Médio não contemplam a temática urbana em sua plenitude. Assim, nenhum livro analisado contemplou totalmente os temas relacionados à problemática socioespacial das cidades. Observa-se que o conteúdo relacionado à temática das moradias precárias e/ou formação de favelas esteve presente em 90% dos livros analisados. O segundo conteúdo mais abordado nesse sentido refere-se à especulação imobiliária, presente em 40% dos livros analisados. O terceiro conteúdo observado foi a segregação espacial, presente em apenas 30% dos livros. Isso evidencia que existem muitas lacunas nos livros didáticos no que se refere à temática urbana. A tabela apresentada a seguir ilustra de modo mais claro a análise dos livros didáticos realizada.
Número do livro Conteúdo Segregação espacial Especulação imobiliária Moradias precárias / favelas Loteamentos periféricos Movimentos de ocupação Condomínios fechados Os conteúdos abordados em cada livro estão destacados na cor cinza. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

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Autores ALMEIDA, Lúcia Marina Alves; RIGOLIN, Tércio Barbosa FILIZOLA, Roberto GARCIA, Helio Carlos; GARAVELLO, Tito Marcio. KRAJEWSKI, Ângela Corrêa; GUIMARÃES, Raul Borges; RIBEIRO, Wagner Costa LUCCI, Elian Alabi; BRANCO, Anselmo Lazaro; MENDONÇA, Cláudio MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. MOREIRA, João Carlos; SENE, Eustáquio de. SILVA, Vagner Augusto da. TAMDJIAN, James Onnig; MENDES, Ivan Lazzari. TERRA, Lygia; COELHO, Marcos de Amorim.

Nome do livro Geografia geral e do Brasil Geografia

Editora Ática IBEP

Geografia: de olho no mundo do trabalho Scipione Geografia: pesquisa e ação Geografia Geral e do Brasil Geografia: a construção do mundo Geografia Geografia do Brasil e geral: povos e territórios Geografia geral e do Brasil: estudos para compreensão do espaço Geografia Geral e Geografia do Brasil: o espaço natural e socioeconômico Moderna Saraiva Moderna Scipione Escala Educacional FTD Moderna

Através da realização das entrevistas com dez professores de Geografia do Ensino Médio foi possível observar que a temática urbana é trabalhada parcialmente pela maior parte deles. Conceitos relacionados às desigualdades sociais impressas no espaço urbano não são trabalhados por todos. Observa-se que as metodologias de ensino da Geografia estão em grande parte dissociadas da realidade dos alunos, ainda com uma abordagem tradicional voltada principalmente para aulas expositivas sobre a temática urbana. Outro fato observado nas entrevistas foi que a maior parte dos professores utiliza somente o livro didático como instrumento de trabalho para abordar a temática urbana. Aulas que poderiam explorar o lugar de vivência dos alunos, com realização de visitas e trabalhos de campo pela cidade foram citadas somente por dois professores. Três professores afirmaram recorrer aos filmes e documentários para ilustrar a dinâmica urbana. Através da entrevista foi possível identificar que as metodologias de ensino praticadas nas escolas públicas e privadas são muito semelhantes no que se refere ao trabalho com a temática urbana. Os principais conteúdos considerados pelos professores como importantes para explicar a dinâmica urbana foram: o processo de urbanização (mundial e brasileiro), o êxodo rural, a rede urbana, a hierarquia urbana, o processo de formação das metrópoles, as cidades globais e megacidades, os problemas ambientais urbanos (principalmente relacionados ao clima) e a questão das favelas (para alguns professores).

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Observa-se que temas mais críticos e pouco observados nos livros didáticos, como segregação espacial, especulação imobiliária e loteamentos periféricos, não foram listados pela maior parte dos professores. Isso comprova o fato da maior parte dos professores utilizarem somente o livro didático como elemento para preparar suas aulas. Assim, observa-se que devido às lacunas deixadas na abordagem da questão urbana pelos livros didáticos, a aprendizagem dos alunos sobre a questão não se efetiva plenamente.

Enfim, existem muitos caminhos para que os professores possam trabalhar a temática urbana de modo satisfatório. Isso depende da realidade na qual o professor trabalha, da disponibilidade de recursos e do interesse da comunidade escolar em prover condições para que o trabalho se desenvolva. Assim, espera-se que os professores possam buscar constantemente maneiras para melhorar o processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e consciente de seus desafios.

Alternativas de Procedimentos Metodológicos
Tendo em vista os resultados do presente trabalho que mostraram uma lacuna na maneira como alguns temas socioespaciais são tratados na Geografia Urbana ministrada no Ensino Médio, espera-se que os professores possam utilizar diferentes metodologias para inserir essa temática em suas aulas de modo eficiente e satisfatório. Para tanto, pontuamos algumas alternativas metodológicas que podem complementar o trabalho da temática urbana. • A realização de trabalhos de campo é fundamental para que os alunos conheçam melhor a realidade socioespacial de sua cidade. Assim, os alunos são levados a visualizarem a existência de bairros destinados a diferentes grupos sociais, com melhor ou pior infra-estrutura e serviços urbanos. Eles devem conceber o espaço urbano como um produto social, e que, portanto, carrega consigo as contradições existentes na sociedade, como a segregação socioespacial. • Temas poucos explorados em sala de aula, como a questão dos condomínios fechados ou dos movimentos de ocupação, devem ser discutidos de modo que os alunos entendam a cidade como um local de disputa entre diferentes grupos sociais. Os debates em sala de aula são muito importantes para que os alunos possam expressar suas opiniões e se depararem com pontos de vista diferentes dos seus. • Considera-se também que pela Constituição Federal, todos devem ter acesso à moradia e à segurança, entre outros direitos. Entretanto, o Estado não garante esses direitos a todos os cidadãos. A discussão sobre o papel do Estado na organização do espaço urbano é um tema que pode gerar um bom debate em sala de aula. • As aulas se tornam dinâmicas quando o professor consegue diversificar suas metodologias de ensino. Assim, atividades diferenciadas e o uso de recursos como fotografias, músicas, filmes e documentários sobre a temática urbana possibilitam aos alunos entenderem melhor a complexidade socioespacial existente nas cidades.

Considerações finais
Através da realização do trabalho foi possível verificar que, em geral, alunos do Ensino Médio não recebem uma formação plenamente adequada na temática urbana. As desigualdades socioespaciais verificadas no espaço urbano são pouco abordadas em sala de aula, seja pelas lacunas deixadas pelos livros didáticos, seja por falta de uma maior consciência crítica dos professores. A análise dos livros didáticos permitiu observar que determinados agentes sociais procuram legitimar seus interesses. Assim, concordamos com a visão de Vesentini (2006), no qual afirma que o ensino serve tanto como instrumento de libertação como de dominação. Parece-nos que a realidade da questão urbana continua a ser mascarada nos livros didáticos, numa tentativa de ocultar os problemas e desigualdades socioespaciais. É de fundamental importância que os professores mudem suas práticas pedagógicas com o intuito de formar cidadãos mais críticos diante dos problemas que os cercam. Acreditamos que a Geografia assume um papel privilegiado nessa questão, por tratar de temas diretamente ligados à injusta realidade observada nas cidades brasileiras. Espera-se que novas pesquisas possam ser feitas no sentido de conscientizar a sociedade dos problemas que precisam ser superados. A começar por uma prática docente efetivamente comprometida com o bem-estar social, uma prática crítica e autônoma, livre de ideologias que visam legitimar interesses de grupos dominantes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARLOS, Ana Fani Alessandri. A cidade. São Paulo: Contexto, 1992. CASTROGIOVANNI, Antônio Carlos et al. (Org.). Geografia em sala de aula, práticas e reflexões. Porto Alegre: associação dos Geógrafos Brasileiros, Seção Porto Alegre, 1999.  CAVALCANTI, Lana de Souza. Geografia e práticas de ensino. Goiânia: Alternativa, 2002.  CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. 7ª ed. – São Paulo: Ática, 2003. _____. O espaço urbano. 4ª ed. - São Paulo: Ática, 2005.

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LACOSTE, Yves. A Geografia serve antes de mais nada para fazer a guerra. Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1977. OLIVA, Jaime Tadeu. Ensino de Geografia: um retardo desnecessário. In: CARLOS. Ana Fani Alessandri (org.) A Geografia na sala de aula. 8ª ed. São Paulo: Contexto, 2006. SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo:Hucitec/Edusp, 1978. _____. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1979. _____. Manual de Geografia Urbana. São Paulo: Hucitec, 1981. VESENTINI, José William. Educação e ensino da Geografia: instrumentos de dominação e/ou de libertação. In: CARLOS. Ana Fani Alessandri (org.) A Geografia na sala de aula. 8ª ed. São Paulo: Contexto, 2006. ZANATTA, Beatriz Aparecida. Concepção e práticas pedagógicas dos professores sobre o ensino de cidade. In: SOUZA, Vanilton Camilo de; ZANATTA, Beatriz Aparecida. (Orgs.). Formação de professores: reflexões do atual cenário sobre o ensino da Geografia. Goiânia: NEPEG, 2008.

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