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Teoria Geral Do Estado

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Teoria Geral do Estado

João Alberto Padoveze

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“Pois o homem, relativamente falando, é o mais corrompido e doentio de todos os animais, o mais perigosamente desviado de seus instintos – apesar disso tudo, com certeza, continua a ser o mais interessante!” (Nietsche) 1

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Índice 1) Introdução 1.1) Definições de Estado

2) A sociedade 2.1) A família 2.2) O clã 2.3) As tribos 2.3.1) Tribos de âmbito local 2.3.2) Tribos de âmbito regional ou mundial 2.3.3) Por quê tribos? 2.4) A cidade 2.5) Massa e identidade 3) O nascimento do Estado 3.1) Teorias da evolução natural 3.2) Teorias contratualistas 3.3) Teorias do uso da força 3.4) Teoria constitucionalista 3.5) Teoria histórica 3.6) Teoria dos três elementos 3.7) Teoria das causas econômicas ou patrimoniais 3.8) Análise das teorias de formação do Estado 3.9) Modos de nascimento do Estado

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3.9.1) Originário 3.9.2) Secundário 3.9.3) Derivado 3.10) A nação 3.11) A cidade-estado 3.12) O reino 3.13) O império 3.14) A república 4) Estados idealizados 4.1) Anarquia, de Bakunin 4.2) A República, de Platão 4.3) A Utopia, de Thomas More 4.4) Projeto Venus, Movimento Zeitgeist 4.5) A cidade do sol, de Tommazo Campanella 4.6) Oceana, de James Harrington 4.7) Daqui a cem anos, de Edward Bellamy 4.8) Walden II, de B.F.Skinner 4.9) As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift 4.10) A Cidade de Deus, de Santo Agostinho 4.11) Análise de alguns pontos das sociedades idealizadas 4.12) Distopias 5) Componentes do Estado 5.1) Povo 5.1.1) População

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5.2) Território 5.2.1) Componentes do território 5.2.2) Espaço geográfico 5.2.3) Espaço virtual 5.2.4) Espaço econômico 5.2.5) A mutabilidade do território 5.3) Governo 5.3.1) Formas ou regimes de governo 5.3.1.1) República 5.3.1.2) Monarquia 5.3.1.3) Diferenças entre república e monarquia 5.3.2) Sistemas de governo 5.3.2.1) Parlamentarismo 5.3.2.2) Presidencialismo 5.3.2.3) Constitucionalismo 5.3.2.4) Absolutismo 5.3.2.5) Anarquismo 5.4) Complexidade 5.4.1) Instituições 5.5) Soberania 5.5.1) Definições

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5.5.2) Titularidade do direito da soberania 5.5.3) Soberania e Estado 5.5.4) Soberania e sua composição 5.5.5) Soberania e sua manutenção 5.4.6) A soberania como um direito do Estado 5.5.7) Soberania e os tratados internacionais 5.5.8) Soberania e as empresas mundiais 5.5.9) Soberania, Moral, Ética e Estado 5.5.10) Soberania e poderes paralelos 5.5.11) Soberania e tecnologia 5.5.12) Soberania e saúde 5.5.13) Soberania e espaço 5.5.14) Soberania e informática 5.5.15) Soberania e nacionalismo 5.5.16) Soberania e cultura 5.5.17) Soberania e os blocos econômicos 5.5.18) A nova soberania 6) A educação e o Estado Democrático de Direito 6.1) Educação e seus conceitos 6.2) Educação e sua história no Brasil 6.3) A co-responsabilidade do Estado e da família 6.4) Educação e política 6.5) Educação informal 6.6) Educação e a criança 6.7) A educação e as velhas gerações 6.8) A educação e os educandos 6.9) A educação como fonte de soberania

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7) Poder 7.1) As forças do Estado sobre o indivíduo 7.2) Teoria da separação dos poderes 7.3) Poder executivo 7.4) Poder legislativo 7.5) Poder judiciário 7.6) Sistema de freios e contrapesos 7.7) Poder social sobre o Estado 8) Divisões do Estado 8.1) Por território 8.2) Por tipo de poder 8.3) Por área de interesse 9) A tirania 9.1) Introdução 9.2) Conceito 9.3) Absolutismo clássico 9.4) Fascismo 9.5) Nazismo 9.6) Teocracia 9.7) Stalinismo 9.8) Maoísmo 9.9) Castrismo 9.10) Varguismo 9.11) Repúblicas de bananas 9.12) Tecnocracia 10) A democracia

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10.1) Introdução 10.2) Conceito 10.3) História da democracia 10.4) Fundamentos da democracia 10.5) Tipos de democracia 10.6) A conquista do voto no Brasil 10.7) A regra da maioria 10.8) Tipos de voto 10.9) Qualidade do voto 11) Constituição 11.1) O Estado e a constituição 11.2) Tipos de constituição 11.3) Requisitos mínimos para uma constituição 12) O Estado como pessoa jurídica 13) Finalidade e funções do Estado 13.1) Finalidade do Estado 13.1.1) Teoria organicista 13.1.2) Teoria mecanicista 13.1.3) Teoria dos fins particulares objetivos 13.1.4) Teoria dos fins subjetivos 13.1.5) Teoria dos fins limitados 13.2) Funções do Estado 13.2.1) Governo

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13.2.2) Controle 13.2.3) Regulamentação 13.2.4) Auto-regulamentação 13.2.5) Manutenção da soberania 13.2.6) Único bem não disponível ao Estado 14) Objetivos da República Federal do Brasil 14.1) Construir uma sociedade livre, justa e solidaria 14.2) Garantir o desenvolvimento nacional 14.3) Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais 14.4) Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo, idade e quaisquer outras formas de discriminação 15) Estado democrático de direito 15.1) Responsabilidade do representante 15.2) Responsabilidade do representado 15.3) Nível de gerenciamento do Estado 16) Fundamentos do Estado Democrático de Direito brasileiro 16.1) Características do povo brasileiro 16.2) Cidadania 16.3) Dignidade da pessoa humana 16.4) Valores sociais do trabalho e da livre iniciativa

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16.5) Pluralismo político 17) Etapas da destruição do Estado Democrático de Direito 18) Como manter o Estado Democrático de Direito 18.1) Corrupção 18.2) Nepotismo 18.3) Paternalismo 18.3) Pequenos crimes 18.4) Laicismo 18.5) Neutralidade 18.6) O conforto obtido em detrimento da vontade de evoluir 18.7) Consciência política 18.8) A tecnologia e a possibilidade de participação 18.9) O Estado internacionalizado 19) Bibliografia 20) Notas

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Introdução
“Quem me recusa a proteção da lei empurra-me para os ermos em que habitam os selvagens, coloca nas minhas mãos a arma que irá me proteger.” (Heinrich Von Kleist, no seu livro Michael Koolhaas) O Estado parece-nos algo tão natural que quase não prestamos atenção a ele. Parece-nos até insípido o seu estudo, pois nossas relações de direitos e deveres para com ele são ensinadas ou são absorvidas desde nosso nascimento e por isso acreditamos que se trata de algo ligado a nós de forma congênita. Este pensamento logo se desfaz quando percebemos que estaremos a vida inteira sob suas condições. Grande parte do que somos deriva de seus ditames e regras. Nosso comportamento, parte de nossos sentimentos e crenças e até nossa consciência estão intimamente ligados aos seus preceitos e normas.

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visto que. estas sim. vida e morte. Este ciclo. A abrangência do Estado também não é eterna. entendendo que esta entidade deveria ter um fim maior. ou seja. outros foram mais além. Muitos pensadores se dedicaram ao estudo desta entidade buscando soluções para os problemas que permearam sua época. como qualquer criatura. sempre existirá. Impérios. Sempre existiu e. O ser humano. provavelmente. tem necessidade de uma escala hierárquica que consiga estabelecer padrões de convivência comuns a todos. Junto com eles desapareceram seus povos e suas identidades. reinados e países se dissiparam no tempo e outros tomaram seus lugares. a busca de um bem comum. Para mantê-lo e aprimorá-lo tem que se conhecer sua estrutura e sua adequação à sociedade que ele serve ou que deveria servir. Provavelmente. tem um ciclo de nascimento. como animal social. por si só. Estado e sociedade estão intimamente ligados.A entidade Estado é perene. caius_c 12 . As formas de que se revestem os Estados. são transitórias e mudam ao longo da história. Alguns se preocuparam apenas com o Estado em si e sua governabilidade. jamais teríamos evoluído até nossa presente forma se não existisse uma organização que amalgamasse seres com pensamentos tão distintos. já confere a necessidade de seu estudo. buscando uma forma idealizada para a relação Estado-cidadão.

na sua época. depois de tanto tempo. a fim de que. podemos entender que o atual significado da palavra Estado é bastante recente ou. Nem posso exprimir com que amor ele seria recebido em todas aquelas províncias que têm sofrido por essas invasões estrangeiras. sua realização como tal. pelo menos. estava dividido em cidades-estados. ou seja. Se considerarmos que a Alemanha foi unificada entre 1862 e 1890 por Otto Von Bismarck. um seu redentor.Uma das grandes preocupações de NIETSCHE foi com a inexistência de um governo central que desse uma identidade ao povo alemão. com que sede de vingança. com que obstinada fé. o qual. Quais portas se lhe fechariam? Quais povos lhe negariam obediência? Qual inveja se lhe oporia? Qual italiano lhe negaria o seu favor? A todos repugna este bárbaro domínio. a fim de que a Itália conheça. a vossa ilustre casa esta incumbência com aquele ânimo e com aquela esperança com que se abraçam as causas justas. ele acreditava que Lorenzo de Médici seria a pessoa ideal para isso – “Não se deve. com que piedade. povo e governo central. NICOLÓ MACHIAVELLI. esta pátria seja nobilitada. portanto. Tome. com que lágrimas. É a idéia de país baseada em territorialidade. deteve as mesmas preocupações em reunir cidadesestados dominadas por príncipes ou oligarquias sob um poder central. pois. deixar passar esta ocasião. sob sua insígnia.”2 caius_c 13 . Em sua exortação para procurar tomar a Itália e libertá-la das mãos dos bárbaros. assim como Nietsche. os princípios básicos do Estado.

por conseqüência.Machiavelli não conseguiu ver a realização de seu sonho pois morreu em 1527 e a unificação da Itália ocorreu somente entre 1815 e 1870. A reunião de feudos sob um governo central determinou o surgimento de uma mentalidade diferente. Na Idade Média. como Rosseau e Montesquieu. Dessa nova disposição surgiu o conceito atual de Estado. O fim da Idade Média marcou o início do conceito de país e. objetivando diminuir seu poder frente ao indivíduo e darlhe proteção. No Império romano. caius_c 14 . do próprio Estado. buscaram expor formas nas quais o Estado deveria se estabelecer. O sentimento de pertencer a uma cidade ou a um determinado local foi sendo suplantado por um mais abrangente que envolvia o país. no chamado Risorgimento. o termo Laender traduz a idéia de país e território. A busca por este equilíbrio se faz até hoje. que fez com que o cidadão passasse a ter novos sentimentos em relação à sua situação geográfica. igual a res publica dos romanos.3 Os povos germânicos adotaram o termo reich e staat. Definições de Estado Para os gregos. Outros. os vocábulos Imperium e Regnum passaram a exprimir a idéia de Estado. no auge de sua expansão. o termo civitas ou polis equivaliam a Estado.

ocupa um território definido e. sua lei maior é uma Constituição escrita. Podemos transpor o significado usual de estado.4 Explicação possível para o desuso da segunda palavra é que a forma republicana de governo praticamente inexistiu durante o período medieval. Para eles. que significa “estar firme”. 5 A palavra tornou-se de uso corrente através dos escritos de Maquiavel. sendo responsável pela organização e controle social. pois detém o monopólio legítimo do uso da força e da coerção. 67 ARISTÓTELES diz que o Estado é uma associação de homens com capacidade para suprir sua existência. DE CICCO e GONZAGA ensinam que a palavra Estado vem do verbo stare. que significa “situação” para o próprio conceito de Estado. social e juridicamente. que era usado para designar a ordem permanente da coisa pública e dos negócios de Estado na Roma antiga. Definem Estado com uma instituição organizada política. está relacionado etimologicamente com a palavra “estabilidade”. É dirigido por um governo soberano reconhecido interna e externamente.Estado é uma palavra polissêmica e seu significado atual surgiu por volta do século XVI. O desuso do segundo termo fez com que os escritores da Idade Média empregassem apenas o termo Status. visto que deriva de status reipublicae. que permanece até hoje.8 caius_c 15 . na maioria das vezes.

porque. 13 caius_c 16 . com o único fim de organizar o domínio do primeiro sobre o segundo e resguardar-se contra rebeliões internas e agressões externas. tal como o direito internacional estabelece. 9 OPPENHEIMER define o Estado como uma instituição social.MARX afirma que o Estado é o produto e a manifestação do antagonismo inconciliável das classes.11 GEORGES SCELLE ensina que o Estado é uma ordem jurídica imediatamente subordinada à ordem jurídica internacional. dotada das atribuições de regulamentar a quase-totalidade dos interesses gerais de uma coletividade política institucionalmente organizada e fixada sobre um território determinado. 10 DALLARI conceitua Estado como a ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território. o Estado é uma sociedade. 12 Para DARCY AZAMBUJA. E se denomina sociedade política. tendo sua organização determinada por normas do Direito Positivo. pois se constitui essencialmente de um grupo de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realizar um objetivo comum. é hierarquizada na forma de governantes e governados e tem uma finalidade própria: o bem público. que um grupo vitorioso impôs a um grupo vencido. e cujos governantes dispõem da competência maior.

17 KELSEN sintetiza o conceito de Estado como norma coativa normativa da conduta humana. que sucede a outras formas de organização política.14 HEGEL define o Estado como totalidade ética: a realidade da idéia ética. na sua manifesta qualidade do poder soberano. ação e coerção. como a corporação de um povo. juridicamente. evidente por si mesma. que cumpre o que sabe e como sabe. substancial. 16 JELLINEK apresenta o Estado. peculiar às sociedades civilizadas.QUINTÃO SOARES diz que o Estado apresentase com forma histórica de organização jurídica de poder. que pensa e conhece a si mesma. assente em um determinado território e dotada de um poder originário de mando.18 CARRÉ DE MALBERG diz que o Estado é uma comunidade de homens fixada sobre um território próprio e dotada de uma organização que emana para certo grupo estabelecido na relação com os seus membros um poder superior de mando. 15 KANT define o Estado apenas pelo seu ângulo jurídico ao concebê-lo como a reunião de uma multidão de homens vivendo sob as leis do Direito.19 caius_c 17 . o espírito ético enquanto vontade patente.

num determinado território. de um modo concentrado e organizado. 25 Estado é uma instituição organizada política.23 Segundo RANELLETTI. social e juridicamente. 21 HELLER explica que o Estado é uma unidade de dominação. visando o bem comum. ocupando um território definido. o Estado é uma institucionalização do poder e GURVITCH afirma que é o monopólio do poder. executa e aplica seu ordenamento jurídico. 20 Ele considera o Estado como uma coletividade que se caracteriza apenas por assinalada e duradoura diferenciação entre os fortes e fracos. onde os fortes monopolizam a força. dirigida por um governo que possui soberania caius_c 18 . que atua de modo contínuo com meios de poder próprio. independente no interior e no exterior.DUGUIT conceitua o Estado como uma força material irresistível.24 PEDRO SALVETTI NETO afirma que o Estado é a sociedade necessária em que se observa o exercício de um governo dotado de soberania a exercer seu poder sobre uma população. o Estado é um povo fixado num território e organizado sob um poder supremo originário de império.22 Para BURDEAU. limitada apenas pelo direito. para atua com ação unitária os seus próprios fins coletivos. onde cria. sendo delimitado no pessoal e territorial.

podemos dizer que sempre existiram em maior ou menor grau em todos os pontos da História. quando não de si próprio. Um Estado soberano é aquele que tem um governo. dá-se a impressão de que o Estado tem menos domínio sobre seu território e sua população. Embora estes efeitos inter-países sejam mais presentes atualmente. Essa é a mais difundida concepção de Estado.reconhecida interna e externamente. dando-se a impressão de que o objetivo de cada Estado se resume apenas em conseguir a supremacia sobre os demais. O Estado é a expressão máxima do desejo natural do homem de viver em uma sociedade organizada. O Estado é a organização dos padrões de liderança e comportamento dentro de determinado território. Pode parecer uma forte assertiva visto que o fenômeno conhecido como globalização tende a aproximar os povos em torno de parâmetros comuns que nem sempre são condizentes com sua vontade. não é necessário que exista a busca de um bem comum. um povo e um território. pode se dizer que sua mais forte característica é o domínio que tem sobre si mesmo. É o controle dos seus próprios elementos que o define. Sua existência pode estar atrelada a interesses pessoais ou oligárquicos. Ela está pontuada de povos dominadores e dominados. Em princípio. caius_c 19 . ou seja. O que define um Estado? Em primeiro plano.

O isolacionismo esbarra na falta de capacidade de qualquer Estado poder suprir todas as suas necessidades com seus próprios recursos. A rapidez das comunicações faz com que os efeitos das atividades humanas sejam sentidos por todos de forma mais rápida e abrupta.Chegamos em um estágio de interação tão grande que qualquer isolamento se torna praticamente impossível. produzem conseqüências que podem tornarem-se catastróficas para todos. Praticamente inexistem fatos locais que não se estendam a outros países. Atualmente. Com tal interação. mesmo em locais remotos. Guerras. existe dependência ou submissão entre países. Uma crise econômica em algum país gera reflexos rápidos sobre outros. o que é impossível. realmente. A poluição gerada por um país torna-se global e afeta todos. que o bater de asas de uma borboleta na Oceania provoca um furacão em New York. quase instantâneos. O “efeito borboleta” está cada vez mais presente no dia a dia. Dizer que um Estado é totalmente soberano é acreditar que existe alguma capacidade de se manter isolado dos demais. pode se dizer. Ele pode manter seus cidadãos insulados dentro de seu território e cortar grande parte da comunicação com outros caius_c 20 . se ele é constantemente afetado por situações que não lhes são exatamente próprias? Com certeza. como se pode falar de um Estado com domínio sobre si mesmo.

O Estado deixará de ser estático e às suas características que são povo. Estes recursos englobam.países mas. caius_c 21 . será a capacidade de rápida adaptação às mudanças sem perder suas características básicas. o próximo grande passo para a existência de um Estado. aqueles derivados da tecnologia e alinhamento político. antes. com formato diferente daquele que conhecemos até agora. território e governo. será acrescentada uma outra: a soberania virtual. Na realidade. o Estado propriamente dito. além dos materiais. necessita de recursos externos para manter-se como tal. Isto é o que definirá o Estado do futuro. que façamos um estudo sobre a sociedade. Para se entender o Estado é necessário.

sociedade é o agrupamento de pessoas que vivem em estado gregário. que significa "companheiro". Societas é derivado de socius. é ser social que determina consciência” (Karl Marx) dos seu seu sua A origem da palavra sociedade vem do latim societas. De acordo com o dicionário de AURÉLIO BUARQUE DE HOLLANDA. ao contrário. conjunto de pessoas que vivem em certa faixa de tempo e de espaço. O significado de sociedade está intimamente relacionado com aquilo que é social. seguindo normas comuns e que são unidas pelo sentimento de consciência do grupo. 26 DALMO DALLARI define sociedade como o produto da conjugação de um simples impulso caius_c 22 .A sociedade “Não é a consciência homens que determina o ser mas. grupo de indivíduos que vivem por vontade própria sob normas comuns. que pode ser traduzida como uma "associação amistosa com outros".

A funcionalista trata a sociedade como um sistema estável e equilibrado de elementos. e que é mantida graças ao consenso acerca de valores comuns. organizados de maneira estável e eficaz para realizar um fim comum e conhecido de todos. sendo a sociedade mantida em virtude da coação que alguns de seus membros exercem sobre outros. a sociedade pode ser compreendida como o conjunto de relações por intermédio das quais vários caius_c 23 . um tipo de sistema social contendo em si mesmo todos os pré-requisitos essenciais para a sua manutenção como sistema auto-sustentado. na condição de complexo de relações do homem com seus semelhantes. 28 JOLIVET caracteriza sociedade como uma união moral de seres racionais e livres. cada um deles contributivo para o funcionamento dela. 30 CHRISTIANO FRAGOSO expõe duas teorias: a funcionalista e a do conflito social. 29 PARSONS considera sociedade. que contribuem para o câmbio social. A teoria do conflito social se funda na idéia de que a sociedade é formada por elementos contraditórios em si e explosivos. Na interpretação organicista. 27 GIDDINGS diz que sociedade é uma coletividade de indivíduos reunidos e organizados par alcançar uma finalidade comum.31 QUINTÃO SOARES expõe duas interpretações: a organicista e a mecanicista.associativo natural e da cooperação da vontade humana.

32 DARCY AZAMBUJA enquadra o Estado como uma sociedade. 33 TOENNIES diz que sociedade é um grupo derivado de um acordo de vontades. a sociedade é um grupo derivado de um acordo de vontades formalizado por seus próprios membros. de forma ordenada. 34 DEL VECCHIO entende que sociedade é o conjunto de relações mediante as quais vários indivíduos vivem e atuam solidariamente em ordem a formar uma entidade nova e superior. Na interpretação mecanicista. o bem público. visando estabelecer entidade nova e superior. E se denomina sociedade política. tendo sua organização determinada por normas do Direito positivo. porque. um interesse comum impossível de obter-se pelos esforços isolados dos indivíduos. Savigny e Del Vecchio. Seus principais teóricos são Aristóteles. de membros que buscam. entrelaçados em vínculo associativos e imbuídos do mesmo interesse comum. mediante o vínculo associativo.indivíduos vivem e atuam solidariamente. sendo uma realidade intermediária. a sociedade é algo interposto entre o indivíduo e o Estado. que apenas será obtido pelo esforço de todos. 35 Para BONAVIDES. Platão Comte. é hierarquizada na forma de governantes e governados e tem uma finalidade própria. pois se constitui essencialmente de indivíduos unidos e organizados permanentemente para realizar um objetivo comum. como medida de valor. mais larga e caius_c 24 .

algumas vezes. tanto física como psicológica. de acordo com Freud. pode produzir doenças psíquicas e. Ele define sociedade com forma de coordenação das atividades humanas objetivando um determinado fim e regulada por um conjunto de normas. superior ao Estado. Nossa necessidade de interação social é tão grande que a sua falta. A solidão ou o isolamento social pode provocar doenças. Ele necessita dela para sua sobrevivência em todas as formas. extensivas ao próprio físico. A sociedade é resultante da atuação própria e exclusiva do homem. 37 Um animal social é aquele que vive em conjunto com os de sua espécie e onde existe um alto grau de interação entre seus membros.externa. O homem é um animal social. mesmo que detenham certa organização. Essa capacidade de viver em grupo permitiu que desenvolvêssemos morfologia própria. Os outros animais que vivem de forma gregária não se enquadram nesta definição. tecnologia e uma associação que extrapolaram os limites do mundo natural. Viver em sociedade é natural ao homem. 36 CELSO RIBEIRO BASTOS afirma que somente existem sociedades humanas. por sua própria iniciativa. Aquele que. Essa associação permite maiores possibilidades de sobrevivência individual. decide caius_c 25 . juntamente com a do grupo. porém inferior ainda ao indivíduo.

mesmo na abundância de todos os bens. os seres humanos que vivem distantes da sociedade são anormais. dentro de uma escala que varia da demência à santidade. quando se trata de homens que tem deficiências mentais e mala fortuna. somente o faz por questões próprias ou altruísticas. a leva a procurar o apoio comum. ao ouvi-las perguntam assim como de noite. quando se trata de homens virtuosos que buscam a perfeição espiritual. E. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.” 38 Como ARISTÓTELES sustenta. caius_c 26 .39 SÃO TOMÁS DE AQUINO afirma que o homem vive de forma solitária em três situações: excellentia naturae. a espécie humana não nasceu para o isolamento e para a vida errante.viver só. quando alguém é obrigado a viver de forma solitária por fato acidental. CÍCERO diz que “a primeira causa dessa agregação de uns homens a outros é menos a sua debilidade do que certo instinto de sociabilidade em todos inato. As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. 40 NIETSCHE fala do horror que os homens sentem a respeito dos solitários – “O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. mas com uma disposição que. coruptio naturae.

Ele se torna herói porque quebra paradigmas sociais. Este é um dos grandes paradoxos da sociedade: apesar de ela ser essencial para a sobrevivência do indivíduo. desejando mudá-la de alguma forma ou simplesmente por acreditar que a sua forma de ser e pensar deve ser imposta a todos. Pode se dizer que o herói não é sua figura física mas as idéias caius_c 27 . podemos exaltá-los como heróis. ela contraria a sua própria natureza social. a princípio. a sociedade tende a ser estática ou propensa a mudanças lentas. a maioria das mudanças que nela ocorre são frutos de um ou poucos indivíduos. influenciar comportamento de gerações e provocarem mudanças no planeta. ao mesmo tempo em que renegamos aqueles que vivem fora ou à margem da sociedade. ele luta contra a sociedade na qual vive. pelo simples fato de que ela busca uma acomodação pois os conflitos podem desagregá-la. é inegável que suas idéias podem atravessar séculos. Sua solidão caracteriza-se por não conseguir enquadrar-se dentro dos parâmetros comuns a todos. ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?” 41 Estamos tão imbuídos da idéia de que somos um ser social que não conseguimos nos imaginar sobrevivendo fora deste âmbito. Essa figura. é sempre solitária. O indivíduo quebra o pensamento hegemônico do grupo e altera seus pensamentos. deitados nas suas camas. Curiosamente. Em si. ou seja. Apesar da situação da maioria dos heróis nãomíticos ser desfavorável ao próprio indivíduo.quando.

tem poder suficiente para incutir alguns dos seus conceitos. Dependendo do alcance de suas idéias. criação e dissolução de grupos. Ele pode ser um grande produtor de cismas. Esta fusão. Não existe sociedade que seja homogênea. quando não aceitos. São suas idéias que fracionam a sociedade e a subdividem. embora não se torne grande em seu conjunto.que partem dele. Os adeptos de seu pensamento podem entrar em choque com os demais e. das dificuldades existentes em vivenciá-las ou por estar conforme apenas para determinados tipos de pessoas. pode ocorrer o nascimento de um grupo ou tribo. que. Quando aceitas paulatinamente ou se forem a expressão do sentimento geral. Um herói é o produtor de idéias que se alastram pelas camadas da população. que alteram. pois esta condição indica estaticidade. que conduz ao seu desaparecimento. faz parte da dinâmica complexa de uma sociedade. tendem a formar grupos divergentes daquele ao qual pertenciam. em outros grupos humanos. criam ou eliminam determinados comportamentos ou formas de pensar. Ele catalisa as pessoas ou as divide por conta de seu pensamento. caius_c 28 . suas idéias podem provocar a união de indivíduos dispersos em uma sociedade única ou unificar e uniformizar uma coletividade quando existe uma diversidade muito grande de pensamentos. no geral amenizados.

Esta forma também é chamada de conjugal. A família O termo “família” é derivado do latim “famulus”. pois considera apenas a família isolada da sociedade. Fundamentalmente a família tradicional é um grupo de pessoas ligadas por descendência a um ancestral comum. cada qual com um papel atribuído. no entanto. toda sociedade é composta por núcleos chamados família. No entanto. a família é um sistema social uno. termo criado na Roma Antiga para designar um novo grupo social que surgiu entre as tribos latinas. Esse conceito pode ser chamado de nuclear. A monoparental é aquela formada de pais únicos devido a fenômenos divórcio. mãe e filhos. consubstanciam o funcionamento do sistema como um todo. embora diferenciados. óbito. que. que engloba pai. composto por um grupo de indivíduos. que significa “escravo doméstico”. Segundo ATKINSON e MURRAY. e. ao serem introduzidas à agricultura e também escravidão legalizada.Por mais complexa que seja. 42 O primeiro conceito de família é o clássico. A família ampliada é aquela estruturada dentro de uma família nuclear à qual se acrescenta os caius_c 29 . abandono de lar ou outros fatores que reduzem a família conjugal. outras formas são consideradas como famílias.

Um dos fatores físicos é a neotenia. geralmente um par. O crânio do nascituro é feito de ossos moles e abertos para que possam dar espaço a um crescimento futuro de nosso cérebro. A família comunitária é aquela que se rege pelo princípio comunal onde existe uma relação muito forte entre os membros e onde existe a responsabilização de todos por todos. formando-se por pais. Existem outras formas de famílias denominadas alternativas que são as famílias comunitárias e as famílias homossexuais. netos e parentes com grande afinidade. vez ou outra pode incluir crianças adotadas ou filhos biológicos dos parceiros. e que. Podem ser físicos ou psicológicos. Neotenia é a retenção de características juvenis na forma adulta. As famílias homossexuais são formadas por indivíduos do mesmo sexo. filhos. não nos especializamos para um determinado estilo de vida.ascendentes e descendentes. ou seja. O ser humano é o animal que tem o maior período neotênico. Alguns fatores nos impelem naturalmente à formação da família. avós. Nosso cérebro nasce pequeno e expande-se à medida que crescemos. As pequenas tribos são exemplos típicos de famílias comunitárias onde todos procuram zelar pelo bem estar do próximo para que o mesmo lhe de reciprocidade. Isso caius_c 30 . Retemos características infantis que nos mantém anatomicamente generalistas.

Temos o maior período de amadurecimento conhecido entre os animais. Para os pais. uma dependência por grande período dos nossos pais mas podemos manter um padrão de conhecimento acima dos outros seres por causa dessa característica. é normal que o período se estenda por mais anos até estarem completamente amadurecidos para poderem enfrentarem o ambiente que os cerca. O nosso Estatuto da Criança e do Adolescente. Damos gradação a essa separação. teoricamente. exceto quando sofremos restrições de ordem física. esse processo significa despender grande quantidade de energia e tempo no processo de criação dos filhos. considera crianças os caius_c 31 .significa que não nos adaptamos a uma situação única ou determinada. mental ou social. É comum as leis estipularem idades-limite para vínculo jurídico dos filhos com seus pais. a partir dos dezoito somos considerados capazes de agir com responsabilidade própria. No Brasil. Os seres humanos amadurecem sexualmente por volta dos doze anos de idade e nossos ossos do crânio se fundem aos dezesseis. nossa capacidade de aprender não se reduz ao longo do tempo. Este processo nos confere maleabilidade para enfrentarmos ambientes distintos ou diferentes. Embora os seres humanos estejam aptos à reprodução por volta dos doze ou catorze anos e. estarem aptos a formar uma nova família. por lei somos capazes legalmente de certos atos aos dezesseis e. No entanto.

Embora não se possa caius_c 32 . A família é a primeira célula de uma sociedade. Variam desde a necessidade biológica de procriação. ainda existem os psicológicos. Essa longa relação entre pais e filhos promove uma base social que chamamos de família. que são inúmeros. por ter um período maior. visto que o número de mulheres é ligeiramente superior ao dos homens. que é a forma mais aceita pelas populações no mundo. A própria taxa de nascimento reflete isso. fatores culturais e sociais até os imperativos oriundos de nosso subconsciente. precisamos ter relacionamentos que perdurem através de determinado tempo e a família é a estrutura que mais adequada para isto. os adolescentes estão na faixa acima dos doze completos e abaixo dos 18 anos. Estes vínculos afetivos que temos. Ela também pode ser considerada com um fator de aglutinação social visto que. Como seres sociais. Acreditamos que a poliandria e a poligamia são padrões mais culturais do que genéticos. provavelmente. Além dos fatores materiais. ela nos favorece com uma capacidade maior de socialização.indivíduos com idade limite de doze anos incompletos. A neotenia não deve ser encarada apenas como um período prolongado no qual temos um espaço para um maior aprendizado. derivam da monogamia.

Estudos comprovam que existem mecanismos naturais que fazem com que os parceiros evitem consangüinidade. por mais primitivas que possam nos parecer. estabelecem regras para que exista uma convivência pacífica e que a reprodução é sempre compatibilizada através de determinadas normas. Essa teoria também esbarra no horror que temos do incesto. tem que existirem regras. existem regras de conduta que são de comum acordo a todos.afirmar que a monogamia esteja em nosso DNA. Percepções sensoriais inconscientes como cheiro e diagrama do rosto diminuem consideravelmente a probabilidade de incesto ou consangüinidade. BACHOFEN declarou que no início da família os seres humanos viviam em promiscuidade e que não existia nenhuma relação duradoura entre homem e mulher. Se este estado animal existiu foi muito antes do homem estabelecer-se como ser pensante. Alguns pensadores discordam que esta forma de casamento ou acasalamento esteve presente em toda nossa história. é obvio que sua manifestação é bem mais ampla. sendo que a descendência contava-se unicamente através da linha materna. Para que exista uma sociedade.43 Se levarmos em conta que todas as sociedades. obrigatoriamente. podemos excluir a consideração dos mesmos. No entanto. caius_c 33 . mesmo assim. É certo que algumas sociedades não estabeleceram ou não estabelecem uma distinção familiar da maneira como os europeizados vêem.

segundo ele. Para ele. Para ele a formação da família está relacionada com o longo período de lactância dos seres humanos e a dificuldade de obtenção de alimentos pela mãe. quando os homens introduziram o peixe em sua alimentação e aprenderam a usar o fogo e a fase superior que começa com a invenção do arco e flecha. a fase média é aquela em que. na qual os homens ainda viviam em árvores e começa a desenvolver uma linguagem articulada. MORGAN44 sobre o surgimento da família e da sociedade eram as mais corretas. BERTAND RUSSELL considera a família como o mais forte e mais instintivamente obrigatório dos grupos sociais. e passe à fase da civilização com a invenção da escrita alfabética e seu emprego para registros literários. existiam três fases bem distintas: estado selvagem. O desenvolvimento da família realiza-se paralelamente ao histórico. no Leste. O pai caius_c 34 . mas ele não oferece critérios tão conclusivos para a delimitação dos períodos. barbárie e civilização. a superior começa com a fundição do minério de ferro. em três etapas: inferior. O estado selvagem consistia. A fase inferior da barbárie tem início com a introdução da cerâmica. média. os homens iniciam a domesticação dos animais e no Oeste com a produção irrigada de hortaliças e emprego de tijolo cru nas construções.ENGELS acredita que as teorias de LEWIS H.

tenha sido base de uma sociedade. caius_c 35 . A família é um dos resultados da própria evolução do homem como animal pensante e consciente. o que implica em dizer que ela deva ser composta de várias famílias. produziria um amontoado de seres com características inferiores àquelas que a natureza dita como essenciais para manutenção e evolução das espécies. uma sociedade é composta por um número de seres que não permitam ou diminuam consideravelmente o perigo da endogamia. Portanto.seria o elemento provedor sobrevivência do grupo. Mesmo que fossem dois casais. Embora a família seja base da sociedade. É quase inconcebível que uma única família. o fantasma da endogamia ainda rondaria os seres e transformaria a espécie em algo não condizente com o que a realidade natural necessita. 45 necessário para a Podemos dizer que a família é um componente natural do homem face à sua necessidade física e social e que sua constituição pode ser datada dos tempos em que o homem se tornou um animal gregário. ao embarcar apenas um casal de cada espécie em sua arca. isso não quer dizer que a sociedade derivou única e exclusivamente de uma família. mesmo aquelas no sentido ampliado. O horror à endogamia faz parte de todas as espécies. Noé.

A característica básica do clã é o sentimento grupal reunido em torno de um ancestral considerado como comum. Ao fazer isso. A maioria dos clãs são exógamos. o brasão ou cota de armas é o elemento que liga as famílias em si. quando consiste de todos os descendentes de um ancestral maior. caius_c 36 . mesmo que seus membros não tenham parentescos. a identificação dos seus membros se dá através do sobrenome. bilaterais. o homem cria laços com outros agrupamentos familiares formando um clã. uma matriarca ou patriarca. A grosso modo. o que significa que não podem casar-se entre si e possui um líder oficial. tal como um chefe. Os clãs podem ser classificados como patrilineares ou matrilineares. de acordo com a sua vinculação masculina ou feminina. Não implica necessariamente em uma vinculação genética ou consangüínea. Algumas associações informais definem-se como clãs dentro de uma esfera econômica ou política. é a reunião de várias famílias através de casamentos de alguns de seus membros. ainda. Em algumas sociedades como a escocesa e a irlandesa.O clã O horror que representa a endogamia impele o homem à procura de uma miscigenação para fora de sua família. podendo ser. A união dos clãs forma a tribo. Em alguns lugares.

poderíamos dizer que uma tribo é um conjunto de pessoas que expressam uma mesma opinião e que agem e interagem com essa base. Conceitualmente. O homem é um animal social e não pode fugir das características que esse fato impõe. A sociedade está dentro de seus genes. para designar grupos indígenas ou. existe uma cultura que lhe é própria. caius_c 37 . O início da sociedade está na tribo e não na família. mais recentemente.Para FUSTEL DE COULANGES. Conceitualmente.46 As tribos O termo tribo é usado para definir agrupamentos sociais antes da formação do Estado. poderíamos dizer que uma tribo é um conjunto de pessoas que expressam uma mesma opinião e ou que agem e interagem dentro de uma cultura que lhes é própria. o Estado originou-se desses grupos. para designar. Ela é a primeira forma efetivamente social porque permite que seja expandida através da reprodução exógama ou da agregação de indivíduos de outras tribos. A forma expandida da tribo é a nação. Na sua forma mais primitiva. grupos dentro de uma sociedade ampla que tenham certos valores culturais diferentes dos demais. embora aquela seja composta por estas. Ela é o desenvolvimento social natural do homem na sua busca para a satisfação de seu instinto mais básico: viver em sociedade. também. provavelmente.

É uma nova forma de colonização que não necessita da utilização de exércitos como no período colonial. Exemplos clássicos de nações embutidas em países são as existentes na África. A cultura e os conceitos dessas sociedades são transmitidos continuamente para outras com o intuito de uma dominação cultural e social que favorece a dominação econômica. é de natureza mais econômica do que social.“A verdade é que onde nossos filmes caius_c 38 . surgiu a teoria de que o mundo se encaminharia para uma fase tribal onde todas as pessoas se conheceriam e se comunicariam entre si. advinda do conceito de aldeia global. O conceito de tribo ressurgiu de uma forma mais ampla quando os povos mais avançados tecnologicamente criaram o conceito de aldeia global ou globalização. A dita globalização.Atualmente as tribos ou nações se embutem em países e seguem suas regras. As tribos ricas usam desse conceito para manter os demais sob seu jugo. Durante o período de dominação colonial. Com o avanço das comunicações e da possibilidade de se ter notícias ou de se conectar instantaneamente a qualquer parte do mundo. os países da Europa repartiram o território africano entre si sem levar em consideração a miscelânea étnica e cultural existente entre os povos africanos. Um país é uma criação artificial do homem enquanto que uma nação se formou naturalmente ao longo da existência do homem. Como disse Franklin Delano Roosevelt .

podemos ver que. os mesmos explodiram e geraram países distintos. Com o enfraquecimento da dominação militar. Como dizia Machado de Assis. Caso clássico são os impérios macedônico e romano. Talvez possamos comparar um país a uma planária que se agiganta a tal ponto que é obrigada a se romper e nesse processo origina outro ser. crença e costume sejam iguais. mesmo que a língua.47 Na fase dourado do cinema como arte. Primeiro se vendem idéias e depois se vende o produto.48 Pensando no conceito de nações ou tribos dentro de países. gerando outras tribos cuja principal característica é a forma de pensamento. Esse processo pode esfacelar países. “Ao vencido. ódio ou compaixão. as batatas”. A dominação de outra tribo considerada inferior é feita através de conceitos. essa afirmação enfatizou o poder de mídia para o consumo através da inserção cultural alienígena em outra cultura. podemos dizer que se chega um ponto em que o próprio tamanho do país não permite que o pensamento seja único ou uniforme. Puro mercantilismo. O Norte e o Sul ainda são antagônicos em seus pensamentos e procederes. embora estejam vinculados entre si pelo caius_c 39 . Acreditando que as tribos foram assimilando ou conquistando outras até formarem países.chegam. vendemos nossos produtos”. cujas marcas iniciais eram as nações. mídia e aliciamento de membros da mesma. A Guerra Civil Americana é outro exemplo de esfacelamento a que está sujeito um país devido às suas diferenças culturais e sociais. ao vencedor. existem tribos que se formam dentro dessas.

que desapareceu em 1991. podem fazê-los derrogar às suas antigas origens. torná-los um emaranhado de tribos ou nações. a União Soviética não conseguiu sobreviver às diferenças culturais que regiam os povos. Podemos dizer que o país tem sua força presente em todas as instâncias mas que o poder das nações ou tribos. os homens tendem a concentrar-se em grupos pequenos que podemos afiançar que se tratam de modernas versões das tribos. composta de vários países. após surgirem conceitos como a Perestroika e a Glasnost. com a dominância russa. Por ser múltiplo por natureza e por tender a uma associação com aqueles que têm um pensamento similar. Todas as guerras civis são exemplos do tribalismo existente em países. até nos mais avançados. caius_c 40 . Acreditando que o poder das nações existe e pode fracionar países.processo que forma um país. a república se dividiu em dois países: a República Tcheca e a República Eslovaca. Outro exemplo é a antiga União Soviética. A antiga TchecoEslovaquia é outro exemplo onde podemos afiançar que o poder das tribos pode explodir uma aliança artificial que é um país. existente em todos eles. ou seja. a longo prazo. somos levados a acreditar que a diversidade atual. Mesmo com o regime do comunismo. Em 1993. pode suplantá-lo e fazê-lo retornar ao que deveria ser naturalmente.

se identificaram uns com os outros em seu ego. No entanto. Fãs de determinado cantor. radicais ou caius_c 41 . Algumas tribos têm poder suficiente para provocar mudanças ou alterar equilíbrios dentro do cenário mundial. 49 Nessa categoria podemos enquadrar as tribos voltadas para algumas formas de arte. surf. Algumas que se dedicam a esportes como skate. Algo desse tipo pode acontecer quando as diferenças são grandes o suficiente para provocarem essa divisão. conjunto musical ou tipo de música são as que mais representam esse tipo de tribo. Podemos classificar as tribos em dois tipos: a) As de âmbito local b) As de âmbito regional ou mundial Tribos de âmbito local FREUD define grupos como certo número de indivíduos que colocaram um só e mesmo objeto no lugar de seu ideal de ego e. Elas conseguem afetar o poder do próprio Estado. esportes ou formas alternativas de vida. consequentemente. banda. então podemos extrapolar o poder das tribos para o conjunto mundial. mesmo que o país não se esfacele. Se considerarmos o mundo com uma “aldeia global”.Isso não quer dizer que o surgimento de tribos esfacelaria naturalmente um país. as tribos podem provocar dissensões internas e o conseqüente enfraquecimento de um poder central.

liberdade e crenças esotéricas baseadas em pensamentos de Aleister Crowley. foi perseguido. acabou sendo apenas um propagador do uso de drogas na sociedade. Mesmo as idéias que sobreviveram ficaram restritas ao plano teórico ou de nenhuma ação. Movimentos como os da contra-cultura hippie tiveram seu apogeu durante a década de 60. principalmente nos Estados Unidos. este movimento foi reprimido e abafado. Seu maior lema “Paz e Amor”. Seu mentor.qualquer outro tipo também pertencem a esse tipo de tribo. Raul Seixas. cujo pensamento inicial era a formação de uma nova sociedade sustentada pela igualdade. crenças e um tipo de comportamento local. buscava um retorno à vida natural e adoção de filosofias orientais. Raul Seixas lançou o movimento chamado Sociedade Alternativa em 1971. que se 50 autodenominava a Grande Besta 666. preso e torturado pelo DOPS2 por essas idéias. Foi combatido pelo 1 2 1964-1985 Departamento de Ordem Social e Política. e terminaram conseguindo muito pouco daquilo que propunham ou que pretendiam transformar. Suas idéias sobre a Sociedade Alternativa ainda existem e são cultuadas mas representam um pensamento que não afeta o restante da sociedade pois são idéias. pois era visto como opositor do regime. Durante a ditadura militar1. terminando por exilar-se nos Estados Unidos. caius_c 42 . Promovido pela juventude americana rica e escolarizada que recusava as injustiças e desigualdades da sociedade.

O funk é derivado do hip hop. denunciando fatos e tomando atitudes contra aquilo que consideram atentatórios à sua pessoa. breakers e outros mais. Geralmente se espalha pela camada urbana mais pobre até atingir um tamanho em que a mídia o considera como algo a ser noticiado. Punk significa algo como madeira podre ou coisa ruim. Na década de 70 surgiram os punks. a proposta inicial do movimento era de ser um anteparo contra a burguesia. sua principal intenção era promover uma igualdade social ou chamar a atenção dos governos para a situação caótica das periferias. Quando caem no gosto da classe média ocorre sua adaptação e tendem a ser caius_c 43 . subúrbios e favelas. se rompeu e gerou outras tribos como o anarcopunk. Buscando uma forma de viver sem o Estado. Uma parte desses movimentos surge nas periferias como forma de chamar a atenção sobre sua situação social. Dividiu-se em outras tribos como os rappers. gangsta rappers. rapidamente. de maneira fraterna e libertária. Restrito às periferias e com poucos adeptos na classe média. Essa tribo. Provocou a criminalização das drogas que até então podiam ser vendidas e consumidas livremente.governo americano porque era contra o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Outro movimento foi o hip hop. Hip hop significa balançar os quadris no sentido de dançar. Nascido nas ruas. não sofreu repressões por parte do Estado. o capitalismo e o consumismo desenfreado.

No geral restam apenas breves conceitos que não determinam nenhum modo de vida a ser adotado pela geração seguinte. São expressões bem localizadas. São marcados por uma música e roupas típicas mas dificilmente vão alem disso. embora sejam marcadas com símbolos e exteriorizações. A grosso modo poderia se dizer que representa mais um gosto pessoal do que uma forma precisa de pensamento que induza a um comportamento. Adotou-se o nome de “tribos urbanas” para esse tipo de movimento. não afetam a sociedade em si. Praticamente. Frequentemente esses movimentos tribais fazem parte apenas de um estágio de vida da pessoa. Nesse ponto. pouco influindo na relação sociedade-Estado. sua proposta de mudanças deixa de ter valores e passa a ser apenas um elemento comercial. Muito localizado. O grau de comprometimento de seus adeptos com sua filosofia é mais voltado para o exterior do que para a sua fixação e propagação. caius_c 44 . geralmente. sua base é incipiente e vagamente filosófica. Geralmente esses movimentos tribais são ruidosos e podem até marcar uma época. o que determina um ciclo rápido em sua evolução e desaparecimento.menos agressivos. esse tipo de tribo procura promover reforma pessoal ou em determinados setores da sociedade. principalmente a juventude. e se esvai com o tempo. No entanto.

tabaco. no entanto. Outro tipo de cultura caius_c 45 . esta possibilidade pode acontecer quando esta geração estiver dentro dos âmbitos do poder. podem ter o poder de influir na sociedade e no Estado. Essa tecnologia produz plantas geneticamente modificadas que produzirão sementes estéreis. Quebrando uma promessa feita em 1999. a empresa está desenvolvendo a tecnologia Terminator para culturas não alimentícias como o algodão. No conceito de tribos podemos incluir também as grandes empresas que dominam uma fatia considerável de um determinado mercado. é sempre gradativa por conta de sua aceitação social. Tribos como o Greenpeace podem provocar mudanças no comportamento de vários países e até em suas leis. Tribos de âmbito mundial ou regional As tribos de âmbito mundial ou regional. Sua atuação faz com que governos e empresas adequem suas atividades de forma a produzir o menor dano possível ao meio ambiente. Possíveis mudanças dentro do Estado podem ocorrer se existir uma alteração efetiva de pensamento e comportamento social. De qualquer forma. principalmente em Estados totalitários. são vistos como perturbadores da ordem social e política. Como estas tribos geralmente se compõem de jovens. Um exemplo disso é a poderosa Monsanto. gramas e cultura farmacêutica.No entanto. devido à sua ostentação e idéias contrárias ou além de sua época.

O controle mundial de alimentos poderia estão nas mãos de apenas uma empresa. Transgênicos são plantas criadas em laboratório com técnicas da engenharia genética que permitem "cortar e colar" genes de um organismo para outro. Não há limite para esta técnica.modificada produzida pela mesma empresa são os transgênicos. o islamismo é uma das religiões com mais adeptos no planeta. mudando a forma do organismo e manipulando sua estrutura natural a fim de obter características específicas. Embora a maior parte de seus seguidores se encontrem nos países árabes do Oriente Médio e do norte da África. por exemplo. Se levarmos em conta alguns conceitos como a Jihad. é possível criar combinações nunca imaginadas como animais com plantas e bactérias. podemos imaginar que ainda estamos na Idade Média e que os cruzados foram substituídos pelos caius_c 46 . Outro tipo de tribo de âmbito mundial são as que têm crenças como elemento de ligação entre seus membros. podemos dizer que a religião muçulmana é a que provoca mais reflexões sobre o poder das crenças dentro do cenário mundial. Atualmente.51 Essas tecnologias podem tornar a agricultura mundial dependente de empresas como a Monsanto. Uma tribo conseguiria dominar governos. países e nações com apenas alguns elementos.

Com tendências ao gigantismo. existem duas grandes correntes. Crenças como o evangelicismo fundamentalista tendem a fazer com que seus adeptos neguem verdades científicas ou deixem de utilizar determinadas formas de tecnologia para somente manter seus membros sob controle. Outras tribos se formam dentro delas e disputam entre si o poder central. Algumas adquirem a forma de empresa. a sunita e a xiita.mujahid3. principalmente as chamadas “eletrônicas”. Essas tribos têm o poder e a vontade de arrebanhar para si o maior número possível de integrantes. 3 Aquele que faz o jihad caius_c 47 . que utilizam a fé de seus membros para benefício de alguns membros apenas. essas tribos incorrem no mesmo problema das grandes tribos. que produzem distorções na forma de expressão da fé e competem entre si para a tomada do poder central em alguns países.52 No caso do islamismo. Esta religião de paz é usada para promover ações que ferem seus próprios princípios. Geralmente elas acreditam que o gigantismo é a forma mais simples de sustentação. manutenção e ampliação de seu poder. Este conceito é usado para validar ataques terroristas ou ações contra pessoas ou países considerados inimigos.

a excomunhão de Miguel Cerulário e a Reforma. entre dissidentes seguidores de Miguel Cerulário e a instituição oficial. devido à cisão provocada por essa disputa. No momento que certa parcela dessa população aceita a nova idéia uma nova tribo se cria e se destaca da tribo inicial. quando Miguel Cerulário. sob o comando de Maomé II. podemos afirmar que uma grande tribo teve processos de rupturas que originaram outras tribos. foi excomungado pelo Papa Leão IX. Anterior à Martinho Lutero. promovida por Lutero. Um reflexo histórico dessa cisão foi a tomada de Constantinopla pelos turcos. podendo até se tornarem antagônicas. A Igreja Católica dividiu-se em duas partes depois que Martinho Lutero divulgou suas idéias. em 1054. Uma idéia diversa é apresentada. beneficiada com a ajuda de europeus. sua primeira intenção e sim a de reformar a Igreja como um todo. aceita e disseminada entre seus integrantes. o patriarca de Constantinopla. caius_c 48 . Antes da tomada da cidade pelos turcos.Exemplo de fracionamento de uma grande tribo é a Reforma. tendo como base uma disputa teológica acerca da Santíssima Trindade. a excomunhão de Henrique VIII. Levando em conta o Concilio de Nicéia. Constantinopla já tinha sido saqueada pelos cruzados em 1203. já tinha ocorrido um fracionamento na Igreja. Esse mesmo processo parece ser comum a toda grande tribo. embora isso não fosse. provavelmente.

Podemos considerar como tribos as etnias ou nações dentro de um país. acesso a alguns empregos e sua localização dentro das cidades ou do país era definida para evitar o menor contato possível com os brancos. Na África do Sul duas tribos se destacaram: os brancos e negros. século XX. uma província do sul . Tentou-se inclusive dividir o país para que a segregação fosse maior. Com uma constituição adotada em 1948 que promovia a separação racial (apartheid). Embora sejam controladas pelo poder estatal. sendo o primeiro presidente negro da África do Sul. Montenegro assegura ao país acesso ao mar Adriático. na forma de republiquetas. algumas vezes as diferenças são tantas que elas podem provocar mudanças ou rompimentos da ordem vigente. A maior parte das terras (87%) foi destinada aos brancos e 13% aos negros.com 80% da população albanesa. foi libertado e ganhou as eleições seguintes. Nelson Mandela. A República da Iugoslávia é formada por duas repúblicas: a Sérvia e Montenegro. essas tribos conviveram entre si com o mínimo de contato social e com prevalência da tribo dos brancos sobre a dos negros. Na década de 90. Muito direitos civis eram negados aos negros como o voto. Slobodan caius_c 49 . Kosovo reinvindica autonomia e a retirada das forças sérvias da região. Em 1990 essa lei foi abolida e seu principal adversário. apoiada por tropas da Otan. A sérvia administra as regiões da Volvodina .com forte presença húngara e do Kosovo.

os indivíduos buscam o ajustamento completo ao seu quadro. e uma guerra é deflagrada. seja diretamente ou através de artifícios. por isso. Sua capacidade econômica. ela a transforma em coerção. Elas ocorrem somente quando certo gigantismo apossa-se da tribo e a coerção torna-se fraca ou maleável a ponto de tornarem possíveis algumas mudanças. o berço do nacionalismo sérvio. não aceita a presença de tropas estrangeiras em Kosovo. provavelmente é mais dura do que em outro agrupamento social maior. mesmo que gradativas. O resto é história. Estas tribos têm grande influência no Estado. elas buscam tomar o poder. Por quê tribos? As mudanças sociais na tribo. A lei. Se não estão atreladas à governança.Milosevic. Países cuja miscelânea tribal é extremamente antagônica entre si correm riscos de esfacelamento. A tribo precisa da coesão para sobreviver e. Intimidados socialmente. caius_c 50 . dentro de uma tribo. em seu conceito clássico. social e política produzem efeitos dentro da estrutura estatal de tal ordem que provocam grandes alterações dentro da mesma. praticamente inexistem porque a coesão produz uma coerção social tão forte que impede que novos padrões sejam aceitos.

As grandes tribos têm uma tendência à anomia. Como exemplo.Se o ideal é um grande grupo que possa fazer frente a todo e qualquer outro grupo. Nossa capacidade social parece estar restrita à capacidade social de uma tribo. Para que essa ruptura não dê origem a um conflito. porque as grandes tribos se fracionam? Se o normal seria a associação de pessoas dentro de um ideal ou de uma forma de vida. Como os aglomerados humanos dispõem de uma seqüência de comando e dentro dessa seqüência existem privilégios. é fato que os que estão na escala inferior tentarão subir. por que existe essa constante separação de membros para a formação de outras tribos? A causa maior e mais provável é a ânsia de poder de alguns membros da tribo. a gerência do grupo somente é possível com a queda daqueles que estão acima ou com a formação de novo grupo. Como a escala se afina à medida que sobe. a tribo recém formada contém elementos parciais da tribo da qual se originou somados aos elementos que a distinguem da mesma. podemos citar a Igreja Anglicana que surgiu com o corte de relações com a Igreja caius_c 51 . existe uma ruptura entre seus membros. Quando a sociedade começa a ficar de um tamanho que escapa à nossa compressão e capacidade associativa. quando essa escala é interrompida. Podemos fazer a analogia com um filho que carrega características de seus pais mas se torna um ser diferente deles. quando ela se agiganta.

Em 1965 foi abolido o pluripartidarismo no Brasil. Imediatamente as tribos da Arena e MDB se dissolveram e se transformaram em uma série de outros partidos. da qual se declarou líder. O então papa Clemente VII. Como dizia Julio César: “Prefiro ser o primeiro em uma aldeia do que o segundo em Roma”. da situação e MDB.54 Isso foi visto por críticos como uma manobra do governo para impedir que a oposição obtivesse grandes vitórias eleitorais. pressionado pelo Imperador Carlos V. seja por conta da variedade de pensamento do ser humano. negou a dissolução do casamento do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão.53 Em 1979 o pluripartidarismo é instituído novamente. sua incapacidade de ir além do conceito tribal de convivência ou simplesmente pela ânsia de poder de alguns de seus membros formarem outras facções onde possam ser os líderes. caius_c 52 . criando-se apenas dois partidos: Arena. Henrique VIII rompeu relações com a Igreja Católica e fundou a Igreja Anglicana. Desejoso de um filho e com relações amorosas com Ana Bolena. o rei ignorou a proibição canônica que o impedia de se casar com ela. cada um com uma ideologia e comando próprio. da oposição. O gigantismo parece ser o ponto inicial para o fracionamento e a criação de novos grupos. Essa atitude valeu a ele a excomunhão em 1533.Católica com o rei Henrique VIII. como a que tinha ocorrido em 1974.

Pode-se argumentar que a multiplicidade faz parte do ser humano e é isso que faz com que os grandes grupos se fracionem e se transformem em novos grupos. Esta possibilidade existe em um Estado democrático por conta de uma possível aceitação destes ideais pelo fato de seus governantes terem sido empossados através de sufrágio. Realmente. É um ponto a considerar e sempre válido. o ser humano é múltiplo por natureza e quando não encontra um pensamento adequado ao seu. essa multiplicidade é contraditória em si. No entanto. A cidade A agricultura fixou o homem a terra e foi o primeiro passo para a criação das cidades. pela própria faina diária e pelo relativo distanciamento caius_c 53 . não legitima atos que ferem o princípio básico que é a busca do bem comum. o que daria legitimidade para seus atos. ele deveria ter condições de conviver adequadamente com outros grupos. Democracia deve ser entendida como um equilíbrio entre os diversos segmentos da sociedade. O uso do poder. mesmo que fossem divergentes de seus pensamentos. Para o Estado existe o risco de que uma tribo se aposse do poder e o utilize como fonte apenas de suas prerrogativas. No entanto. costuma se aproximar de pessoas com o mesmo pensamento e formar um novo grupo. pois se o ser humano é múltiplo. mesmo dentro daquilo que se entende por legalidade.

A cidade era uma confederação. essas povoações surgiram embasadas em alguma atividade econômica. sendo que algumas surgiram como ponto de parada ou apoio para comerciantes e exploradores.social e territorial em que vive o agricultor. FUSTEL DE COULANGES sustenta que a cidade não cresceu como um círculo que se estende. Outros podem ter surgido debaixo de uma propriedade patriarcal que admitiu a convivência de outras pessoas que não eram de seu círculo familiar. isso não seria suficiente para que ela se criasse por si. é que as cidades foram surgindo a partir de entrepostos comerciais ou pontos de trocas de mercadorias. de forma planejada. os clãs tentaram apossar-se de seu controle. baseada em uma religião comum. Ela nasceu. Essas povoações.55 O mais provável. Quando isso ocorreu. na qual os elementos familiares não subsistiam e nem os da tribo. Para isso se valeram da sua já estabelecida hierarquia patriarcal. Por não terem ainda uma estrutura de comando. Fratria é um termo antropológico para uma divisão de parentesco constituída por dois ou mais clãs distintos na Grécia pré-clássica. do agrupamento das tribos. sendo chamadas de cidades. podemos chamar esses agrupamentos de povoações. Cada tribo era constituída por várias fratrias. sendo obrigada a respeitar a independência religiosa e civil das tribos. se expandiram e tornaram-se centros econômicos. De qualquer forma. 4 caius_c 54 . das fratrias4 e das famílias.

57 As cidades. isso implicava em controle das normas e regras a vigorarem na cidade. passaram a ser regidas por leis diversas daquelas que atendiam os clãs ou tribos.56 MC ANDREW. A base psicológica para os sentimentos de nacionalidade e soberania nada mais é que o da territorialidade. Essas normas derivativas do poder patriarcal foram o prenúncio remoto do estabelecimento do Estado.baseada em cultos religiosos. o homem passou a ter sentimentos de posse sobre o mesmo. define este conceito como sendo a tentativa de influenciar e controlar as ações alheias através de reforço sobre uma área geográfica e sobre os objetos nela contidos. pois. nestes casos. caius_c 55 . citando Sack. Estabelecido em um local. Cada cidade circunscreveu um território por onde estendia seu domínio. Sendo um centro econômico. devido a sua maior complexidade. o que formou sentimentos como nacionalidade e soberania. o costume e a forma direta de autoridade eram suficientes para manterem as regras sociais. Isso originou o aparecimento das fortificações e do enclausuramento da população dentro de limites geográficos. Desse fato nasceram as fronteiras. Alem do controle econômico. as cidades passaram a ser vítimas de assédio por parte de outros povos.

cuja função principal era fazer com que essa autoridade fosse disseminada de forma eficaz entre todos. Massa e identidade Dentro da sociedade podemos considerar para efeito de estudo do Estado dois fenômenos: massa e identidade. porque produz submissão e induz ao cumprimento de determinações sem qualquer questionamento. Esta homogeneidade visa atender interesses da classe dominante. A massa assume uma identidade única. onde todos aqueles que a compõem pensam e comportam-se de maneira homogênea. É composta de êxtase face às demonstrações coletivas do Estado e subserviência aos caius_c 56 . onde a expressão da individualidade é considerada como afronta direta à sua estabilidade. A produção de um pensamento e comportamento único faz parte do controle que o Estado exerce sobre o indivíduo. Para que ela se estendesse a todos foi necessário criar as instituições. parte por causa da diversidade de culturas da população e parte por sua maior quantidade de pessoas. A massa ocorre porque não existem elementos de comparação. O seu tamanho já não permitia a aplicação direta da autoridade.Nelas o mando direto não era mais suficiente. Massa é uma sociedade que age de forma padronizada.

pois o indivíduo assume-se como caius_c 57 . A identidade registra uma coesão social parecida com a da massa. O elemento repressor que se acredita que deveria ser de exclusiva atribuição do Estado. Não são apenas os regimes totalitários que se beneficiam da massificação social. pode ser transformado em mal e inútil. enquanto que os segundos valem-se de formas mais avançadas de controle de pensamento. passa a fazer parte do indivíduo. A massa é facilmente controlável. Os objetos da crença podem ser mudados facilmente. A diferença principal entre os dois é que os métodos dos primeiros são mais diretos. Suas ações podem ser direcionadas de acordo com as pretensões do Estado. Ela não admite quebra de identidade e os infratores são punidos pelas distorções que apresente face a ela. quase divino e que seus integrantes são a expressão dessa divindade. A massa se vigia e se policia.seus ditames. quando se trata de perda de identidade social. pois a memória é sobreposta por novos conceitos que fazem perder o sentido dos antigos. Os ditos democráticos também utilizam esta forma de controle. pois ele passa a entender que seu uso lhe foi delegado pela classe governante. mesmo que sejam opostos entre si. notadamente através da mídia. O que antes era considerado bom e necessário. Ela acredita que o Estado é um ente superior.

Ela promove uma interação entre os mesmos de forma a atender os objetivos que lhes são comuns. sendo impingida através do raciocínio lógico e sentimentalização. É um controle que parte da premissa de que o sistema está racionalizado de forma construtiva e que seu entendimento é comum ao grupo. podendo provocar cisão permanente. O controle da identidade é feito através da aceitação pelo indivíduo daquilo que ele entende como adequado para si e para os demais. A identidade parte do princípio de que o indivíduo é construtor de seu meio social e que suas ações estão pautadas na busca de um bem social coesivo. Ela é considerada apenas como último recurso. Ela estabelece uma efetiva relação de direito-dever entre governantes e governados. A busca da homogeneidade é feita com base em acordos ou entendimentos. é o próprio grupo que usa sua força contra o indivíduo. caius_c 58 .parte do grupo. A identidade é a meta de um Estado democrático. inexistindo um confronto pessoal e sim de idéias. A repressão existe apenas quando a discordância de um foge da lógica racional do grupo. A principal diferença é que ele pode ser uma voz ativa interferente no comportamento ou pensamento dos demais. Nestes casos.

” (Bertrand Russel) 58 Existem muitas teorias sobre o aparecimento do Estado ou sua constituição. Diversos pensadores e filósofos tentaram descrever como teria sido sua formação. As principais teorias são: a) b) c) d) e) f) g) Evolução natural Contratualista Uso da força Constitucionalista Histórica Dos três elementos Das causas econômicas ou patrimoniais caius_c 59 .O nascimento do Estado “É inútil confiar-se na virtude de alguns indivíduos ou de grupos de indivíduos.

o Estado sobrepõe-se à família e a cada indivíduo. cuja função seria a de atender as necessidades diárias do indivíduo – os homo pyens5 ou homo capiens6. Fustel afirmava que o princípio constitutivo da família foi a religião e que esse elemento foi a primeira amálgama das cidades. sua lei inicial e elemento comum a todos. A união dos clãs gerou a cidade.59 A primeira sociedade constituída de muitas famílias foi o burgo. 63 5 6 Literalmente. obrigatoriamente.61 Na ordem natural.60 A sociedade formada por inúmeros burgos constituiu-se uma cidade completa. no qual um patriarca ou pai de família comanda os demais. Sua forma expandida é o clã. Para ARISTÓTELES houve uma evolução natural para constituição do Estado partindo da família. visto que o todo deve. que visava a utilidade comum. No entanto. ser posto antes da parte. que comem da mesma majedoura caius_c 60 . porém não diária. tirando o pão da mesma arca Literalmente.Teorias da evolução natural Alguns pensadores acreditaram ou acreditam que o Estado surgiu de maneira natural em função da reunião de famílias em torno de um objetivo comum. com todos os meios para se prover a si mesma.62 FUSTEL DE COULANGES diz que a família foi o primeiro embrião do Estado.

todavia.64 ROBERT LOWIE diz que o Estado é um germe.”66 caius_c 61 . cada família primitiva se ampliou dando origem ao Estado. Quando atingem certo grau de complexidade. em todas as sociedades humanas. garantindolhes assim uma segurança suficiente para que. mediante seu próprio labor e graças aos frutos da terra. é conferir toda sua força e poder a um homem. afirma que os homens deram-se conta do estado de anarquia em que viviam e abdicaram de parte de sua individualidade para a formação de uma hierarquia que pudesse instaurar a ordem.Para ROBERT FILMER. as quais. ou a uma assembléia de homens. por pluralidade de votos. uma potencialidade. que possa reduzir suas diversas vontades. O máximo elemento controlador dessa estrutura seria uma assembléia ou um homem – “A única maneira de instituir um tal poder comum. prescindem dele quando se mantém na forma simples e pouco desenvolvida. em seu livro Leviatã. THOMAS HOBBES. capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros. 65 Teorias contratualistas As teorias contratualistas partem do princípio de que existiu em alguma época remota um pacto entre os homens para formarem os Estados. a uma só vontade. o Estado se constitui de forma espontânea. possam alimentar-se e viver satisfeitos.

que não é senão um homem artificial. civitas caius_c 62 . a riqueza e prosperidade de todos os membros individuais são a força. pois dá vida e movimento ao corpo inteiro. ligados ao trono da soberania. para cuja proteção e defesa foi projetado. ou Cidade7.Para ele. são a memória. descrito assim: “Porque pela arte é criado aquele grande Leviatã a que se chama Estado. uma razão e uma vontade artificiais. e a guerra civil é a morte. GROTIUS acredita que foi por simpatia recíproca. embora de maior estatura e força do que o homem natural. a concórdia é a saúde. Por último. 7 Em latim. exceto os de pensar.”67 SPINOSA forma opinião de que os homens foram forçados a pôr termo ao estado de natureza em que viviam e fizeram um pacto entre si. falar e escrever. reunidas e unificadas assemelham-se àquele Fiat. os conselheiros. a recompensa e o castigo (pelos quais. juntas artificiais. E no qual a soberania é uma alma artificial. abdicando de todos os direitos. que fazem o mesmo no corpo natural. todas as juntas e membros são levados a cumprir seu dever) são os nervos. Salus Populi (a segurança do povo) é seu objetivo. ao Façamos o homem proferido por Deus na Criação. os magistrados e outros funcionários judiciais ou executivos. o Estado era um monstro artificial. os pactos e convenções mediante os quais as partes deste Corpo Político foram criadas. a justiça e as leis. através dos quais todas as coisas que necessita saber lhe são sugeridas. a sedição é a doença.

os arrastam. inicialmente.PUFFENDORF afirma que o Estado se estabeleceu por conta do receio dos homens maus pelos homens bons. GRUMPLOWICZ diz que o Estado é produto da subjugação de um grupo social pelo outro. Ora. com caius_c 63 . por sua resistência. também. de um contrato social. O Estado. – “Eu imagino os homens chegados ao ponto em que os obstáculos. senão formando. para se conservarem. prejudiciais à sua conservação no estado natural. foi uma forma de defesa constituída para que pudesse estabelecer uma paz social entre os indivíduos. uma soma de forças que possa arrastá-los sobre a resistência. mas apenas unir e dirigir as existentes. não lhes resta outro meio.68 JEAN JACQUES ROUSSEAU afirma.” 69 Teorias do uso da força As teorias do uso da força como criadora do Estado dizem que ele somente nasce com a anexação de grupos por outros e que esse conjunto que se forma passa a denominar-se Estado. por agregação. sobre as forças que podem ser empregadas por cada indivíduo a fim de se manter em tal estado. que os homens uniram-se para formar o Estado através de um pacto. como é impossível aos homens engendrar novas forças. e o gênero humano pereceria se não mudasse sua maneira de ser. Então esse estado primitivo não mais tem condições desubsistir. pô-los em movimento por um único móbil e fazê-los agir de comum acordo.

70 OPPENHEIMER expressa-se da mesma forma que Grumplovicz.71 Outros como LESTER WARD e CORNEJO aderem à essa idéia de que os Estados foram formados pela violência e dominação de um grupo sobre outro. Para ele o estado foi criado para regular as relações entre vencidos e vencedores. baseandose na idéia de que a coação seria necessária para que o homem tivesse uma atitude socialmente correta. Para CARRÉ DE MALBERG.73 Teoria constitucionalista Alguns autores têm uma visão essencialmente jurídica sobre a criação do Estado. O que determina a existência do Estado é o momento em que caius_c 64 . o Estado somente passa a existir quando se estabelece uma constituição ou lei maior que o rege. o Estado passa a existir quando constitui lei que seja para todos.72 Para PIOTR KROPOTKIN. reafirmando que nenhum Estado nasceu senão pela força. o Estado só apareceu quando as relações de propriedade dividiram a sociedade em classes reciprocamente hostis. O Estado impediria a hostilidade fazendo as classes pobres obedecerem as mais ricas. Para ele pouco importa o modo como o poder se formou ou como são designadas as pessoas que o exercem.estabelecimento de uma organização que permita essa dominação. Para eles. com conseqüente exploração econômica deste sobre o outro.

três são os modos pelos quais os Estados se formam. nascendo da população e do país. 3) Modo derivado é aquele em que a criação do Estado se dá pela influência externa ou de outros.75 Segundo ele. Teoria dos três elementos Essa teoria parte do princípio de que o Estado surgiu somente quando os povos se tornaram caius_c 65 . sem a preexistência de um Estado 2) Modo secundário é a formação do Estado pela união de outros Estados para a formação de um novo ou seu fracionamento para formar outros. Ela procura detectar.a coletividade estatal se organiza. exercendo o poder através de órgãos especializados. BLUNTSCHI afirma que a origem dos Estados pode ser estudada de duas maneiras: a primeira é através da sua história e a segunda é através da especulação sobre sua formação. de forma bastante particular. 74 Teoria histórica A teoria histórica não busca uma explicação geral para a formação do Estado. do ponto de visto histórico: 1) Modo originário é aquele em que a formação é totalmente nova. a origem de cada um deles.

sua constituição seria automática. um órgão de submisso de uma classe por outra. a civilização começou com a fixação do homem na terra. 76 Teoria das causas econômicas ou patrimoniais PLATÃO supõe que o Estado tenha sido formado para que os homens aproveitassem os benefícios da divisão do trabalho. é a criação de uma "ordem" que legalize e caius_c 66 . Sendo o Estado composto de povo. a posse gerou o poder e a propriedade gerou o Estado. o Estado é um órgão de dominação de classe. patrimonial. integrando-se as diferentes atividades profissionais. No instante em que todos os seus componentes estivessem presentes. portanto.O estabelecimento de famílias ou clãs dentro de um território permitiu que as relações se firmassem e que uma organização comum fosse criada. seria impossível que qualquer sociedade nômade estabelecesse uma organização que fosse além da família ou do clã.77 Para HELLER. 79 Para MARX. assim como as instituições. Visto desta forma. Segundo HAURIOU.78 PREUSS sustenta que a característica do Estado é a soberania territorial.sedentários. a origem do Estado seria sua própria definição. território e governo.

resolveram estabelecer um acordo entre si onde restringiram suas liberdades e concederam poderes sobre si para alguém que deveria cuidar do bem comum. com interesses econômicos contrários. por cima dela e dela se afastando cada vez mais. amortecendo a colisão das classes. ao contrário. para que essas classes antagônicas. e não arrancar às classes oprimidas os meios e processos de luta contra os opressores a cuja derrocada elas aspiram. sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade. a ordem é precisamente a conciliação das classes e não a submissão de uma classe por outra. É a confissão de que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna. Para os políticos da pequena burguesia. Essa força. para não viverem mais em seu estado natural. que sai da sociedade. caius_c 67 . não se entre devorassem e não devorassem a sociedade numa luta estéril. porém. atenuar a colisão significa conciliar. com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem".consolide essa submissão. Mas. Os homens.81 Análise das teorias de formação do Estado As teorias contratualistas parecem mais convidativas porque evocam sentimentos que julgamos comuns a todos.80 ENGELS diz que o Estado é um produto da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. ficando. é o Estado”. se dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-se.

vivendo em terra ocupada por outros e sem poder apropriar-se de nada. Aristóteles afirma que é um animal político e que. essa agregação social ainda está numa fase animal onde a reunião é feita apenas com propósitos de poder. Um dos fatores de sobrevivência do Homus sapiens foi usar a agregação social como forma de sobrepujar outros animais. por natureza. mas observava que através das gerações. O atual sentimento de grupo pode ser comparado aos das manadas: um animal social usa a manada para seu exclusivo beneficio. a falta de todo freio ao aumento das fortunas fez com que uns enriquecessem a custa de outros e que um pequeno número de famílias acumulasse riquezas. seria natural que os homens se reunissem sobre o comando de um só ou de uma assembléia. ensinado por Zaffaroni. ao tempo em que uma enorme massa foi ficando na indigência.” 82 O homem é.JEAN PAUL-MARAT8. Por conta dessa natural tendência em nos associarmos. Podemos dizer que o Homus sapiens. também. um animal social. Porém. aquele que não vive com outros homens é um ser superior ou vil. tem muitos elementos 8 1743-1793 caius_c 68 . no Homus sapiens. dominação ou pura sobrevivência. embora seja um animal social. acreditamos que. “admitia a tese contratualista afirmando que os homens se reuniram em sociedade para garantir-se seu direito.

sociopatas9. O seu comportamento passou a ser direcionado e dirigido pelas normas de conduta criadas para conter a natural agressividade do homem. parece até pueril. as classes dominantes se apropriaram das fórmulas do convívio social e as modificaram com o propósito de manterem as camadas sociais sob seu comando. pela coerção social. O conceito de viver em sociedade passou a ser definido como forma de dominação e isso deixou no inconsciente humano um paradoxo: para viver bem é preciso seguir as regras mas seguindo as regras ele se deixa subjugar pelas classes dominantes. ou seja. Para o Homus sapiens. Ao fazer isso. A partir do momento em que as tribos se expandiram. a sociedade funciona à base da coerção e não da coesão. O sentimento gregário existe como forma de defesa individual e não como elemento de agregação social. esse contrato social que determinaria posições de cada indivíduo dentro de uma sociedade na qual poucos levam todas as vantagens. sua sobrevivência física depende da manada e ele a usa para seus fins. As teorias de evolução natural de um núcleo básico – a família – para formas expandidas como o clã 9 Este termo não é reconhecido oficialmente pelas ciências do comportamento caius_c 69 . Posto isso. em grande parte. a coesão social foi substituída.

Apesar da família ser considerada como núcleo da sociedade. visto que era uma forma de avançar lentamente e com segurança através do interior de um país que desconheciam. isso era altamente significativo. Apesar de serem independentes. o que ampliava o poder político e territorial de suas criadoras. ela não é um agrupamento social visto que não pode se expandir alem dos limites de procriação do caius_c 70 . Em um mundo de cidades-estado. tornando-se. No Brasil. principalmente de comércio. ao acreditarmos que essa geração foi fruto de uniões de clãs em comum acordo. depois. É certo que as cidades nasceram como núcleos de necessidade social. sendo chamadas colônias. militares ou comerciantes. os bandeirantes utilizaram esse método com freqüência. visando apenas seu bem comum. caímos no mesmo problema que envolve os contratos sociais: a idealização de uma união através de acordos espontâneos entre os homens.e a associação destes para formar a cidade ou o Estado encerram as mesmas questões das teorias do contrato social. Fustel de Coulanges sustenta que as cidades gregas e romanas foram criadas a partir da necessidade de outra cidade ou de um grupo. As teorias da evolução natural esbarram em outros pontos que as tornam quase impraticáveis. mas. sua afinidade com a cidade-mãe as tornavam aliadas naturais. agrupamentos sociais efetivos. quando se mostraram seguras. A maioria das cidades nasceu como ponto de abastecimento para exploradores.

casal. tinham como única função prover o sustento da mesma. As teorias da força agradam aqueles que acreditam que o ser humano é um predador selvagem e que utiliza seus semelhantes para fins próprios. A questão é qual do patriarca desses clãs abdicaria de seus poderes totais até então. Há de se convir que uma guerra de anexação exige uma liderança que esteja embasada em um agrupamento social que tenha caius_c 71 . Essas teorias explicam a formação de impérios. apesar se fazerem parte do território de Esparta. é necessário que as partes não tenham consangüinidade. sendo vedada qualquer aproximação entre os seus. Um exemplo histórico muito claro é a subjugação dos messênios pelos espartanos que. A anexação de tribos ou clãs por outras através do uso da força implica em submissão ou escravidão da vencida e não sua integração ao meio social. O horror natural que temos do incesto impede que exista essa expansão. para converter-se em subordinado de outro. A diferença de população entre um e outro obrigou a extrema militarização de Esparta onde cada cidadão era um soldado e vivia sobre as regras rígidas do Estado. para que exista reprodução saudável. mas não a existência do Estado em si. junto com toda sua gente. A alternativa é que sejam buscados pares em outras famílias ou clãs distantes. Isso poderia ser um elemento que geraria fusão entre eles e que poderia ampliar-se em uma forma mais ampla de sociedade. O clã se depara com o mesmo problema porque.

limitando seus poderes e concedendo direitos aos seus nobres. As que assumem o Estado como concepção jurídica. admitem que ele somente é criado a partir do estabelecimento de uma constituição ou leis que gerenciem o território e o povo. com a assinatura da Magna Carta. As teorias históricas são condizentes para aqueles que desejam estudar a formação de determinado país ou Estado e que deseja ter um ponto qualitativo de transformação dessa sociedade. qualquer tribo é merecedora do título de Estado. 10 caius_c 72 . todos os Estados totalitários cuja linha mestra legal é a vontade de seu ditador. segundo alguns autores.10 por João Sem Terra. Se entendermos constituição como um conjunto de leis. mesmo que não sejam escritas. As constituições. como as entendemos. Esta carta foi a primeira força coercitiva do poder absoluto. Descartar-se-ia também. somente tiveram seu início. visto que todos os agrupamentos sociais dispõem de códigos de conduta e coerção. Elas não explicam a formação de modo geral do Estado em si Magna Carta Libertatum seu Concordiam inter regem Johannen at barones pro concessione libertatum ecclesiae et regni angliae (Grande carta das liberdades ou concórdia entre o Rei João e os Barões para a outorga das liberdades da Igreja e do rei inglês) . território e governo.os requisitos básicos que admitimos como essenciais à existência do Estado como povo. nessa idealização jurídica. em 1215. da Inglaterra.

pois elas. dispõem dessas qualidades. A teoria dos três elementos é bastante limitativa pois confere apenas as três qualidades essenciais do Estado que são povo. utilizado pelas classes economicamente dominantes para submeter o resto da população. que não explicam satisfatoriamente a formação do Estado. É mais uma regra para estudo do que uma teoria. sugerem que o Estado subsiste apenas como elemento controlador da população. de sentimentos classistas. os indivíduos da classe dirigente são escolhidos pelo povo. caius_c 73 . ocupando um território definido.mas apenas a de determinado país. exceto as nômades. na maioria. território e governo. nos remetem ao começo desse livro e procura na definição de Estado a busca pelos seus primórdios . Isso também nos remete ao problema de considerarmos uma tribo como um Estado. Todas essas teorias. dirigida por um governo que possui soberania reconhecida interna e externamente. Mesmo as que não estão.Estado é uma instituição organizada política. Supor que todo e qualquer Estado surgiu por conta da dominação de um grupo sobre o outro impediria qualquer tentativa de democracia. As que invocam a economia e a patrimonialidade como origem do Estado estão eivadas. social e juridicamente. visto que nesta forma de governo. Isto pode explicar a atuação do Estado mas não sua origem.

esse mando tem que ser exercido através de instituições prédefinidas. Modos de nascimento do Estado Os Estados têm um ciclo de nascimento. cuja função é compartimentalizar o Estado e distribuir suas funções. de forma atual. além dos seus três elementos básicos. Nas sociedades com baixa densidade populacional o mando é direto e imediato. a soberania e sua complexidade. A complexidade social é determinante para estabelecimento de instituições. visto que não poderia estender seus poderes à população de forma efetiva. cuja função é fazer com que ele flua até o comum cidadão. Um Estado moderno não sobreviveria sem elas. Talvez os elementos mais importantes que definam. É o sentimento materializado que amalgama todas as suas instituições para que trabalhem em torno de objetivos comuns ao mesmo tempo em que faz com que haja pouca ou nenhuma interferência de elementos estranhos a ele. vida e morte dentro da história.Provavelmente. a formação dos Estados ocorreu por diversas maneiras. Entende-se que eles podem caius_c 74 . não existindo necessidade de nenhuma outra forma para que o poder seja exercido. Nas sociedades mais densas. A soberania é o elemento que mantém coeso o conjunto do Estado face às pressões internas e externas. o Estado seja. sendo inútil buscar uma única teoria para explicá-la.

secundário e derivado. absorção por outro Estado. conquista. Modo originário O Estado nasce da própria sociedade. O catalisador destes elementos. é um líder carismático que consegue obter o poder através da confiança ou sujeição. Modo secundário Modo secundário é aquele em que o Estado nasce da união ou divisão de outros Estados.surgir dos seguintes modos: originário. 83 caius_c 75 . Existem elementos aglutinadores provenientes da população que se amoldam para formar o Estado. etc. Modo derivado É aquele que ocorre por força de movimentos exteriores tais como colonização. etc. normalmente. guerras. concessão dos direitos de soberania. como conseqüência da evolução natural da mesma. A extinção do Estado pode ocorrer através das variadas causas como desastres naturais.

Segundo definição de DARCY AZAMBUJA.84 MANCINI define nação como uma sociedade natural de homens. pelos interesses comuns e. uma nação pode ocupar ou não um território definido. usado para designar um povo unido por laços de língua. costumes e origem racial. 85 EDWARD MACNALL BURNS diz que nação é um conceito étnico. caius_c 76 . principalmente. origem costumes. na qual a unidade de território.87 HAURIOU define nação como um grupo humano no qual os indivíduos se sentem mutuamente unidos. por ideais e aspirações comuns. esse termo é utilizado como sinônimo de povo ou país. mas não possui o elemento soberania. muitas vezes. nação é um grupo de indivíduos que se sentem unidos pela origem comum. o conceito de nação como a manifestação de um povo através da História. língua e a comunhão de vida criaram a consciência social. por um passado comum ou pela crença num comum destino. Pode até ser usando metafórica ou comparativamente. 86 GONZAGA e DE CICCO traduzem. pois. em palavras simples.Nação Cumpre falar de nação. no entanto. Povo é entidade jurídica: nação é uma entidade moral no sentido rigoroso da palavra. seu significado é bastante diferente.

sua religião e parte de seus costumes. pelas nações industrializadas e que buscavam fontes de matéria-prima. cultural. os judeus espalharam-se por quase todos os países. A convivência de uma nação dentro de um Estado que não lhe seja próprio nem sempre foi pacífica. que pode ser histórico. e que desejam preservar suas características. Para ele. Uma identidade própria é sua principal característica. mantendo. fundado em 14 de maio de 1948. A nação pode estar embutida no Estado mesmo que não identifique-se com outros grupos existentes dentro dele. mão de obra barata caius_c 77 . no entanto. reunidos por conta de um aglutinante. O neocolonialismo. 89 Talvez o exemplo mais claro de nação seja a dos judeus antes da formação do Estado de Israel. iniciado na metade do século XIX.por laços tanto materiais como espirituais. bem como conscientes daquilo que os distingue dos indivíduos componentes de outros grupos nacionais. que foram elementos primordiais para manutenção de sua identidade como nação. 88 CELSO RIBEIRO BASTOS ensina que nação é um conjunto de seres humanos. Por conta disso. biológicos e outros. o conceito de nação está relacionado com a organização política do povo e sua personalidade jurídica. O fracasso da revolta de Bar Kokhba contra o império romano determinou a expulsão dos habitantes da região em 132 a.c.

Algumas nações. em 1994. Irã e Armênia. Segundo o relatório Povos Indígenas no Brasil. durante a Conferência de Berlim de 1885. então sob o governo de Saddam Hussein. Síria. Iraque. lançado no final de caius_c 78 . Estima-se que morreram quase um milhão de tutsis com golpes de machetes. em 2005. que eram a etnia predominante em Ruanda. existiam 488 terras indígenas demarcadas. matou cerca de cinco mil curdos. um ataque do exército do Iraque.e mercado para seus produtos. Em 1988. acredita-se que a nação curda é a etnia mais numerosa do planeta sem um Estado próprio. além de estupros generalizados contra as mulheres tutsis. são protegidas pelo Estado que as englobou. tribos e nações. Seu povo está dividido entre a Turquia. por serem juridicamente consideradas como parcialmente incapazes. facões importados da China. Etnias. Isso produziu revoltas contra essas nações dominantes ou contra governos estabelecidos por elas.41% do território brasileiro. que representavam 12. historicamente antagônicas entre si. dados pelos hutus. foram juntadas em países artificiais. com armas químicas. Azerbaijão. como as indígenas. outras 123 ainda estavam em processo de identificação e demarcação. Um dos mais tristemente célebres foi massacre dos tutsis pelos hutus. Atualmente. produziu a divisão da África. Extermínios e chacinas foram a tônica predominante desde então. distribuindo territórios e população entre si. Nesse período. No Brasil.

As contínuas guerras entre elas e as mudanças de alianças que se permitiam. A cidade-estado A cidade-estado foi a primeira forma efetiva de Estado como o conhecemos. território. soberania e complexidade estrutural. Historicamente não precisamos ir tão longe para encontrarmos cidades-estado. indicam o grau de governo próprio que cada uma dispunha.90 O fenômeno da nação deve ser entendido dentro de uma definição sociológica. Seria a forma mais básica de um Estado. a Itália estava pontilhada delas e a Alemanha foi palco dessa forma de governo até sua unificação. Mesmo habitadas por povos que falassem a mesma língua e tivessem os mesmos costumes.2006 pelo Instituto Socioambiental (ISA). embora sempre esteja submissa ao mesmo. Cabe uma ação por parte do Estado se o seu modus vivendi afronta o direito. Dispunha de povo. governo. Fatos que podem ter contribuído para a criação das cidades-estado foram a distância entre elas e seu caius_c 79 . Seus limites podem estar dentro do Estado como extrapolá-los. sua autonomia era evidente. Na Renascença. Seus costumes devem se encaixarem dentro da legislação para que tenham algum valor jurídico. As cidades-estado gregas são o exemplo mais claro. existiam 225 etnias no país.

Em 476 d.. As cidades decaíram e voltaram a ser postos de trocas ou de pequeno comércio. Além da baixa tecnologia empregada na agricultura. O reino Por reino devemos entender o Estado que abrange diversas cidades. Na Europa. Podemos considerá-lo como evolução das cidades-estado para a qualidade de país. e que tenha um povo e governo comum. A conquista ou unificação sobre uma mesma liderança originou os reinos. os vândalos saquearam Roma. abdicou do trono. o último imperador romano.. Em 455 d.C. estudos comprovam que o clima contribuiu para manter os alimentos escassos e população reduzida. Isso contribuiu para que o feudalismo fosse a caius_c 80 . No oeste. o declínio das cidades começou com a queda do Império Romano.domínio por oligarquias. Romulus Augustulus. Esses dois fatores impediriam que houvesse uma unificação natural entre elas e um único governo. parte da Europa retraiu-se para uma vida agrícola em volta dos castelos feudais. o império romano chegou ao fim. mas continuou no leste até o século XV. Com o fim do poder central. Para que isso ocorresse deveria existir uma liderança que fosse comum a elas ou que houvesse conquista de uma pela outra.C. de onde obtinham proteção em troca de servidão.

deu-se o que convencionou chamar-se de Renascimento desse período. 1299. tal fato repetiu-se. com direito a prefeito e magistrados. o gelo do inverno perdurou por toda a primavera e em 871. 1408. 1443. Muitas das cidades. 860. 1150. 1481 e 1491. como a peste negra e guerras prolongadas.92 Foi o retorno do velho conceito de cidadeestado grega.93 caius_c 81 . libertaram-se do jugo do senhor feudal através da luta armada ou pagamento. começaram a planejar uma forma de governo. como em 1315-1317. Na Inglaterra. O período de 1257-1258 caracterizou-se por chuvas abundantes em toda a Europa. 1306. que eram chamadas de burgos.provocando fome geral. 913. Essa situação vigorou até início da Idade Moderna. Os anos de 671. elaboravam leis e mantinham a cidade defendida. quando as cidades ressurgiram e assumiram seu papel de centro controlador da sociedade. 1225. 1205. 1435. Outros eventos. em 764. agora chamadas comunas. 1460. 764.91 No século XII. tiveram invernos frios e prolongados. 1074. passando a ser controlada pela burguesia florescente. 1282. Uma piora climática provocou períodos de fome. 1264.forma padrão de governo. 1423. Estas cidades independentes. fizeram a vida florescente das cidades retroceder. que estabeleciam tributos. que prejudicou as plantações. com a fase conhecida como Renascença. Um dos efeitos foi a renovação das cidades. 1458. 1465.

Em 732 d. considerado por alguns como o primeiro rei da Inglaterra. Este último reunificou novamente o reino mas. 839 d.C. dividiu-o entre Carlomano e Carlos Magno. nome pelo qual é conhecido o período que vai do século VIII a 1492. no entanto. embora seu título fosse de Bretwalda. com anexações de territórios e povos correlatos 11 12 668-741 d. Carlos Magno. como a Reconquista.. o Grande. com a morte de seu irmão Carlomano.C. que governou entre 871 e 899. Depois de sua morte. O título de rei surgiu com Alfredo. o conceito de país começou a existir. caius_c 82 . A unificação da França sob um único rei.Nesse período. o Conquistador. que pode ser traduzido como Sobressenhor da Bretanha. m. Em Portugal. Essa infraestrutura e padrão sobreviveram mesmo com a conquista da Inglaterra por Guilherme. Nêustria e Borgonha. em 1066. no entanto. durante o qual as terras invadidas pelos muçulmanos foram retomadas pelos cristãos. seu reino foi dividido entre seus filhos Carlomano e Pepino. esse período terminou em 1253. Esses países que se formaram ao longo do tempo.C. o Breve. ocorreu em 771. principalmente através de alguns fatos. impediu o avanço dos muçulmanos sobre a Europa ao vencer a batalha de Poitiers. O primeiro rei da Inglaterra considerado como tal foi Egbert de Wessex12. Carlos Martel11 expandiu seus domínios ao conquistar os reinos francos de Austrásia.

de forma pacífica. a Eslovênia. sob domínio da Espanha. carregando dentro de um mesmo reino povos distintos. Mesmo tendo um comando único. obtiveram sua independência. e que terminou em esfacelamento do Estado inicial. foram se fracionando ou então acabam enfrentando problemas para manutenção da unidade. através da organização ETA. Croácia. Aqueles que assim não procederam. A antiga Iugoslávia é exemplo de reino estabelecido com diferentes povos e diferentes culturas. A formação da Europa deu-se quase nessa forma. continua. ocorreu em 2006. Em 2006. o reino precisa de identificação entre seus habitantes para se firmar como entidade própria.sob o mesmo domínio são exemplos típicos de reinos. Um reino é a consolidação de uma cultura sobre um território debaixo de um mesmo governo. Macedônia e BósniaHerzegovina. Como exemplo. O império A diferença maior entre império e reino é que este procura manter uma territorialidade baseada em povos caius_c 83 . com a aglutinação de povos com a mesma identidade sob um mesmo comando. que luta por sua independência desde o século XIX. podemos citar o país basco. as tentativas para que essa região se torne independente. A renúncia ao movimento armado. No entanto.

por Qin Shi Huang Di. foi unificada no ano 221 a. que tomou para si o título de Primeiro Imperador da China. com registros que datam do século XVI a. Alguns deles situam-se em posição intermediária entre reino e império. O império é voraz. Ele conquista para poder obter todas as vantagens para si. a padronização dos sistemas de pesos. sistema legal e até largura de carroças. A China. moeda. Com o Japão não foi diferente. pelos mitológicos Rômulo e caius_c 84 .95 Essa unificação produziu um Estado central controlador de um povo cuja cultura era bastante homogênea. Isso termina por produzir um tratamento isonômico a todos. Sua força reside na violência física ou econômica.. o Império Romano é o exemplo mais antigo e conhecido de dominação. Fundada em 753 a.com identidade semelhante.C. que era composta de cidades-estado.. Sua unificação no século IV pelo clã Yamato transformou uma série de pequenos estados feudais espalhados pelas suas mais de três mil ilhas em um império nos moldes da China.94 Embora composta por etnias diferentes.. abolição dos sistemas legais próprios.C. que gera um sentimento de unidade. criação de províncias subordinadas ao Imperador.C. medida. produziu semelhanças entre a população e não diferenças. Não busca integração entre povos mas sua submissão. Embora tenha diversas dominações de acordo com o seu período histórico. etc.

Nos moldes de dominação física. Divisai em toda tentativa de formar. caso ele já se tenha formado. partiram em busca de territórios para si. HITLER expressa bem essa idéia de conquista em seu livro “Minha luta” – “Não tolereis jamais a formação de duas potências continentais na Europa. Juntamente com ela. através de conquistas que iniciaram-se na Itália. Durante o período vitoriano13. Espanha.. África e Ásia. não só um direito. teve uma expansão acelerada nos séculos III e II a. Itália e Japão. como um dever. Podemos considerar a Segunda Guerra como o ápice do neocolonialismo. Diligenciai para que a 13 1837-1901 caius_c 85 . a Inglaterra detinha sob seu jugo quase um quinto das terras do planeta. Alemanha. de. As nações do chamado Eixo. por todos os meios. e vede nisso. Japão e outros. sob a égide do neocolonialismo. uma segunda potência militar como um ataque contra a Alemanha. ou destruílo. esparramando-se pela Europa. França. um dos impérios mais recentes é o inglês. África e Oriente Médio.C. Estados Unidos.Remo. mesmo com o emprego de força armada. tentaram dominar militarmente aquilo que haviam repartido teoricamente entre si. mesmo que se trate de um Estado apenas capaz de se transformar em potência militar. com o intuito de buscar matériaprima e revender seus produtos industrializados. que era a Europa. Portugal. evitar a formação de um tal Estado. nas fronteiras alemãs.

na Grécia e Roma antiga. visto que surgiu uma forma melhor de subjugar os povos: pela econômica. como a Itália e Holanda. em território na Europa. A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas14 é o exemplo mais recente.força de nosso povo não se baseie em colônias e. retornou na forma greco-romana em alguns países. Na Europa. sempre como cidadeestado. A República Podemos considerar a república como um sistema de governo anômalo. de forma oligarquizada. o neocolonialismo sobrevive através desse novo meio. Depois da Segunda Guerra Mundial. visto que floresceu na antiguidade. existiu uma experiência republicana na Inglaterra sob o comando de Oliver 14 URSS caius_c 86 . No século XVII. a dominação militar deixou de ter grande importância. Foi composta pelos países pertencentes ao Antigo Império Russo e perdurou de 1922 a 1991. quando o comum era a forma tirânica. sim. Disfarçado de inúmeras formas. após a Idade Média. em sua maior parte. reinado ou império.”96 O império pode existir na forma de dominação militar-ideológica.

Deixou de existir em 26 de maio de 1805. Em 1880 o regime monárquico foi definitivamente abolido e a forma republicana de governo foi confirmada. A monarquia foi abolida e o país teve uma experiência republicana entre 1649 e 1653. iniciado em 1792 e findada com a tomada do poder por Napoleão em 1799. 15 16 1599-1658 09 de novembro. Neste ano. O alvorecer da República. não teve o apoio necessário da população e pereceu. Tornou-se novamente república após a queda de Benito Mussolini em 1945. A Itália teve um breve período republicano entre 1802 e 1805. A Terceira República foi proclamada em 1871. tendo como presidente Napoleão Bonaparte. A Segunda República. ao qual se atribui a condenação à morte do rei Carlos I e sua decapitação em janeiro de 1649. Cromwell dissolveu o parlamento e tomou o poder como um ditador. na forma como a conhecemos.Cromwell15. com a coroação de Napoleão Bonaparte como rei da Itália. quando transformou-se no Reino de Itália (1805-1814). depois da derrota da França na Guerra Francoprussiana. deu-se com a Independência Americana em 1783 e com a Revolução Francesa em 1789-1799. com o chamado “Golpe 18 de Brumário”16. no calendário gregoriano caius_c 87 . A França viveu três períodos republicanos distintos: a Primeira República. entre 1848 e 1851. quando foi instituído o consulado.

Outras eram apenas fachadas para a dominação neocolonialista. Muitas delas serviram apenas para disfarçar o regime oligárquico ou tirânico imposto aos povos. foi instaurada logo após a Primeira Guerra Mundial. que designou a maioria deles. foram instaladas algumas repúblicas após as guerras de independência. Com a reunificação das Alemanhas em 1990.97 Depois da Segunda Guerra. produziu o termo pejorativo “república de bananas”. ela adotou integralmente o regime republicano. em 1918. após a Queda do Muro de Berlim. a república foi instituída em 15 de novembro de 1899. A quantidade de revoltas. na Alemanha. dividida em Alemanha Ocidental e Oriental. caius_c 88 . Após inúmeros combates contra as forças monarquistas. Nas Américas do Sul e Central. quarteladas e mudanças de governos.A República de Weimar. Portugal pôs fim à monarquia em 05 de outubro de 1910. com a subida de Hitler ao poder. Da República de Weimar. no entanto. Ela retornou em 28 de maio de 1926. Esta primeira fase republicana durou pouco devido à instabilidade provocada pela falta de um governo que fosse consensual e que pudesse articularse entre a panacéia idealista que fervia na época. No Brasil. pelo Marechal Deodoro da Fonseca. as tropas republicanas conseguiram tomar o poder. restou sua constituição que serviu de base ou exemplo para as de outros países. assumiu a forma republicana naquela e comunista nesta. Sobreviveu até 1933.

Aristóteles e outros. Mesmo alguns absolutistas como Jean Bodin. Pedro II. teve de ser antecipado. Depuseram o Ministério e prenderam seu presidente. Deodoro iniciou o movimento que pôs fim ao regime imperial. que estava previsto para 20 de novembro de 1889. sob a presidência do conselheiro José Antônio Saraiva. No dia 14. Podemos considerar a forma republicana como uma conquista de idéias iniciadas por teóricos como Platão. Pensando que o objetivo dos revolucionários era apenas substituir o Ministério. em Roma. foi solenemente proclamada a República. podemos destacar Diderot. defendiam alguns de seus princípios. Afonso Celso de Assis Figueiredo. a fim de evitar conturbações políticas. divulgou-se a notícia (que posteriormente se revelou falsa) de que era iminente a prisão de Benjamin Constant Botelho de Magalhães e Deodoro da Fonseca. na Grécia antiga. No dia seguinte. Visconde de Ouro Preto. retornou ao Rio. o major Frederico Sólon Sampaio Ribeiro entregou a D. Por isso. O golpe militar. D. Os revoltosos ocuparam o quartel-general do Rio de Janeiro e depois o Ministério da Guerra. na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. o imperador tentou ainda organizar outro.que se tornou o primeiro presidente do país. Na França. Na tarde do mesmo dia 15. caius_c 89 . que estava em Petrópolis. na madrugada do dia 15 de novembro. Pedro II uma comunicação. assim como por Cícero. cientificando-o da proclamação do novo regime e solicitando sua partida para a Europa. na Idade Média.

Blanqui. Auguste Blanc e Augusto Comte. a República é fato recente na História humana e. de certa forma. caius_c 90 . visto que não existe na maioria dos países. dentro de uma sociedade que seja efetivamente voltada para o bem comum. disseminadas aos poucos através de uma sociedade que acreditava que os reis existiam por vontade divina. Podemos considerar que ela ainda está na sua infância. No entanto. Lamartine. Estas idéias. vieram apenas no encalço de um dos sentimentos mais básicos do ser humano que é viver em liberdade. Rousseau.Condorcet. ainda pode ser considerada como um regime incomum.

seu estudo nos fornece parâmetros para avaliarmos a necessidade humana de regulamentação social e. em pensamento. uma cidade.” – (Platão)98 Os Estados idealizados foram criados pela imaginação de autores que buscavam uma solução ou alternativa para os governos de sua época. Pode ser considerada. vistos no contrapostos. também. uma forma de não-governo. que foi relativamente difundida no final do século XIX e início do século XX. pois. também. ou melhor. No entanto. ZÉLIA GATTAI caius_c 91 . como uma forma de vida ou pensamento. Anarquia Anarquia também é considerada como uma forma de governo. dão uma boa visão dos governos das épocas em que viveram seus autores. cujos alicerces serão as nossas necessidades.Estados idealizados “Construamos. Nenhum deles se impôs por serem altamente idealizados.

17 1814-1876 caius_c 92 . Mas não deixo que me Imponham nem o sapateiro. Por tal ciência especial. seriam inerentes a todos. apelo para a autoridade dos sapateiros. se se trata de uma casa. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência. convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora. de um canal ou de uma ferrovia. Ele rejeita a idéia de um governo central. Essas leis. titulada.” O controle social. MIKHAIL BAKUNIN17 entende que o Estado é apenas uma forma de dominação imposta por uma classe sobre outra – “Numa palavra. visto que acredita que a liberdade individual é mais importante para os homens . toda autoridade e toda influência privilegiada. rejeitamos toda legislação. mesmo emanada do sufrágio universal.“Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento. consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. contra os interesses da imensa maioria subjugada”. seria a aceitação pelo indivíduo de leis que ele denomina como naturais. esses princípios.expôs de maneira singela esse pensamento em seu livro “Anarquistas. nem o arquiteto. seu caráter. reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. oficial e legal. nem o cientista. Quando se trata de botas. seu saber.99 Seu maior expoente foi Bakunin. dirijo-me a este ou àquele cientista. segundo ele. graças a Deus”.

Alguns de seus adeptos voltaram-se para a tomada dos governos baseados na premissa da violência. Como filosofia. o que aumentou a repressão contra os anarquistas. A República. Platão divide sua República em três classes: a dos artesãos. produzindo atentados e alguns assassinatos. Ele acredita que três virtudes são necessárias para a cidade: sabedoria. de Platão100 Escrita no século IV a. Todas elas seriam necessárias aos magistrados. coragem e moderação.C. o tema central de seu livro é a justiça. a dos guerreiros e a dos magistrados. coragem e moderação para os guardiães e moderação para o povo. Na forma de diálogo. uma república. cujo personagem central é Sócrates. Estes últimos seriam escolhidos entre os guerreiros mais sábios. caius_c 93 . a anarquia proposta por Bakunin e outros teóricos seja uma expressão de revolta do homem que quer libertar-se dos seus jugos e caminhar por suas próprias razões.Essa forma de viver sem um governo central é denominada anarquia.. comerciantes e lavradores. Por tratar-se de uma filosofia atentatória ao poder dos governos. talvez. constrói-se hipoteticamente uma cidade. foi reprimida e detratada por estes.

A primeira seria para que eles tivessem corpos saudáveis e a segunda para que pudessem ser pacíficos entre os seus.Uma quarta virtude. Para ele. ele propõe controle sobre a vitalidade da população através da eugenia. a baixeza e a feiúra na pintura dos seres vivos. Platão propõe que existam casamentos coletivos entre os guardiães e as melhores mulheres de sua República – “Todas as mulheres dos nossos guerreiros caius_c 94 . elas deveriam servir como fonte de exaltação e exemplo das virtudes para os cidadãos. . a justiça. faria parte da cidade como um todo. na arquitetura ou em qualquer outra arte?” De certa forma. Suas necessidades deveriam ser supridas pela cidade. a incontinência.“Mas bastará velar sobre os poetas e obrigá-los a não introduzirem nas suas criações senão a imagem do bom caráter? Não devemos vigiar também os outros artesãos e impedi-los de introduzirem o vício. Os que têm corpo enfermiço ele recomenda que se deixe morrer. principalmente os jovens. Para os guardiães seria necessário dar uma educação que englobasse ginástica e música. Eles não deveriam possuir nada que não fossem objetos próprios. Platão propõe controle sobre as obras escritas e faladas. Essa mentalidade se avança para o plano moral quando ele recomenda que os que têm alma perversa e sejam incorrigíveis sejam condenados à morte pelos juízes.

pertencerão a todos: nenhuma delas habitará em particular com nenhum deles. de Thomas More101 Thomas More ou Thomas Morus. Com o passar dos anos adquiriu o significado de algo extremamente idealizado e fantástico ou algo que desejamos e não poderemos alcançar.” A educação dos filhos dos guardiães será de responsabilidade de amas especiais e viverão dentro de um bairro específico. Ele acredita que ela definirá o caráter do cidadão e. Da mesma maneira. por extensão. os filhos serão comuns e os pais não conhecerão os seus filhos nem estes os seus pais. Assim sendo. Essa educação a ser ministrada é umas das grandes preocupações de Platão. publicou sua mais famosa obra em 1516. ela deve ser ministrada desde a infância para meninos e meninas. na sua forma latinizada. da sua República. pois seria a única maneira de propiciar tratamento justo para os cidadãos e satisfazer suas necessidades. A palavra utopia significa “lugar que não existe. Aqueles que forem julgados falhos de corpo ou caráter serão levados a paradeiro desconhecido e secreto. ele menciona que a Filosofia e as habilidades políticas deveriam convergir para aqueles que estivessem no poder. caius_c 95 . Utopia. Por fim.

O adultério era punido com a escravidão e a simples solicitação de qualquer favor sexual era considerada como estupro. caius_c 96 .Originalmente. no livro homônimo de Thomas More. pois os próprios cidadãos se defendiam nos tribunais. era uma comunidade que vivia em paz. Se a população de uma excedia o limite estabelecido. para aprovação recíproca. Não existiam guerras e. Todos tinham a obrigação. era uma sociedade que permitia a escravidão e a eutanásia. O primeiro passo para o casamento era mostrar a noiva nua para o noivo e vice-versa. No entanto. por pessoas de confiança. de trabalhar na agricultura por determinado período. seus habitantes mudavam-se para outras que pudessem comportá-los ou criavam uma nova. visto que eram grandes conhecedores das leis. independente do cargo. As cidades eram planificadas e tinham as mesmas dimensões. Seus governantes eram escolhidos por votação e ficavam por tempo determinado no cargo. dividia seus bens e tinham o mesmo padrão de vida. quando elas aconteciam. eles preferiam contratar mercenários ao invés de enviar seus cidadãos para a luta. Suas leis eram poucas e inexistiam advogados. pois se pretendia que o casamento fosse isento de qualquer engano.

que é um termo alemão que significa espírito da época ou espírito do tempo. independente do impacto social e ambiental. embora a maioria adotasse a crença em um deus único. visto que ele acredita que qualquer evolução humana seria impossível dentro de suas premissas. é apenas um “negócio”. O mundo. A mudança do atual sistema financeiro é o principal alvo do movimento. liderada por um grupo de indivíduos que gerenciam as grandes empresas e que controlam a mídia e os políticos. Projeto Venus 102 O Projeto Venus é a mudança de padrões da sociedade atual para uma de alta tecnologia. para eles. portanto. O lema principal destes corporatocratas é a maximização dos lucros. Para os adeptos. Faz parte do Movimento Zeitgeist. caius_c 97 . a quem denominavam pai. As crenças seriam outro impedimento para que o ser humano prospere. que propaga suas idéias através de CDs e pela internet. A religião era livre e cada um adorava seu deus particular.Os utopianos não assinavam tratados com nenhum outro país pois acreditavam que os príncipes pouco os respeitavam e. com economia baseada em recursos e não no sistema monetário. nenhum deles valia. o mundo atual não está sendo gerido por governos e sim por uma corporatocracia.

portanto. 2) Usar a internet como principal fonte de notícias. o ser humano não cometeria mais crimes e. 3) Boicote a toda instituição militar e nãoalistamento. Com o uso da tecnologia para solucionar os problemas humanos. fazendo com que ele voltasse todo seu potencial para a criação de melhorias para o bem comum. geotérmica. permitiria que o homem se libertasse das atividades perigosas ou destrutivas do intelecto. um sistema opressivo comandado pelas empresas. a divisão equitativa dos recursos e com a sobrevivência garantida.O uso intensivo de alta tecnologia e seu acesso por todas as pessoas. o movimento propõe que: 1) Sejam boicotadas todas as grandes instituições financeiras. Uso de energia limpa como eólica. por acreditar que a democracia que conhecemos é. 5) Rejeição ao atual sistema político. etc. visto que a mídia transmite somente aquilo que os corporatocratas desejam. a lei poderia ser extinta. 4) Boicote as companhias e formas de energia poluidoras. caius_c 98 . Para alcançar essa nova sociedade. solar. e 6) Juntar-se ao Movimento Zeitgeist. na realidade.

A Sapiência tem o governo de tudo que se relaciona com a paz e guerra. pois não há Estado. perto de Taprobana.”103 A cidade do sol. com autoridade absoluta. chamados Pon. Ele é auxiliado por outros três. Situava-se em uma planície sob a linha do equador. Sua cidade do sol era dividida em sete círculos circundados por muralhas. Sapiência e Amor. o Estado não faz nada. tanto no plano espiritual como temporal. A Potência preside os mestres da guerra e comanda os atletas. Hoh. Sua obra. Tommazo Campanella é considerado um dos mártires do livre pensamento. caius_c 99 . Sin e Mor. o que lhe valeu ter ficado preso por 26 anos. nomes que equivalem a Potência. é comparada às de Platão e Thomas More. A Cidade do Sol. O Amor é o responsável pela organização da reprodução. Durante sua vida foi perseguido. de Tommazo Campanella104 Nascido em 05 de setembro de 1568 e falecido em 1639.Uma sociedade justa e produtiva não precisaria de governos e o Estado seria extinto naturalmente – “Erradicado do mundo. hoje Ceilão. buscando a excelência da prole. também chamado de Metafísico. A cidade é governada por um sacerdote supremo. uma ilha do mar das Índias.

a privação da mesa comum.Os cidadãos vivem sobre o regime da comunhão de bens e das mulheres. pois. pelo tempo que o magistrado julgar necessário. quando os excessos são muito graves. certo que. presididos por magistrados que impedem que um tenha mais que outro – “jus naturale est id quod natura omnia animalia docuit. punem também com a morte. a desonra.51) Os habitantes chamam-se entre si de irmãos. A execução do condenado é feita pelo próprio povo. todas as coisas são comuns. em praça pública. Os crimes cometidos são julgados pela lei do talião. 18 "0 direito natural é aquele que a natureza ensina a todos os animais. Tanto os homens como as mulheres usam roupas iguais. Antes dessa idade.” (p. Os crimes de injúria são punidos de forma discreta ou aquele que se julga imerecedor pode prová-lo na guerra pública. adquirindo o nome de pais depois da idade de vinte e dois anos. por direito natural. cada um diz-se filho. embora existam mecanismos que atenuam o castigo. próprias para a guerra. a interdição ao templo." caius_c 100 . A pena mais comum é a privação da mesa comum e proibição de acesso às mulheres e outras honras. E. sendo que nos homens os joelhos são descobertos e nas mulheres as togas os encobrem. a proibição das mulheres. Os primeiros artífices são todos juízes e punem com o exílio.18 É. a pancada.

que são determinadas pelos magistrados. Os magistrados aproveitam essa oportunidade para definirem os casais que deverão procriar entre si. É uma modalidade de concúbito. A masturbação é vista como falha grave e para evitá-la permite-se relações sexuais com mulheres grávidas. são obrigados a conduzirem seus sapatos na cabeça caius_c 101 . tanto homens como mulheres.” (p. A ginástica é feita nos moldes da antiga Esparta e os atletas. é dividido de acordo com a capacidade física de cada sexo. Os mais aptos nos estudos são escolhidos para fazerem parte do corpo de magistrados. A reprodução é controlada. Todos devem conhecer as técnicas de agricultura. de acordo com a astrologia e a idade de cada um. a fazem nus. desde que aprovadas pelo Grande Doutor da medicina. 12) O trabalho. Os homens e mulheres unem-se de acordo com suas capacidades físicas. julgados hábeis somente porque descendem de príncipes ou são eleitos pela prepotência de um partido. Em um mundo governado por monarcas hereditários. embora possa ser comum. que preferis homens ignorantes. quando surpreendidos. no entanto. Tommazo lança um vitupério – “Estamos tão certos de que um sábio pode ter aptidões para o bom governo de uma república quanto vós. matronas e velhos mais idosos. pecuária e da guerra. que são escolhidos através de votação.A educação é dada para os dois sexos de forma igual. estéreis. mentais e espirituais. na qual só geram os melhores. Os homossexuais. em épocas próprias para geração.

Combatem aqueles que atentem contra a república. os solares fazem a guerra. a libertação dos aliados ou cessação da tirania. Admitem a metempsicose da alma apenas uma vez ou outra. será novamente admitido na sociedade. primeiro. Os solares são guerreiros. Acreditam na imortalidade da alma que.24) As leis do direito natural caius_c 102 . eles se tornam os defensores do direito natural e da religião. conforme sua vida na terra. a religião e a humanidade.durante dois dias. o que é quase impossível. de forma que. Os reincidentes podem ser condenados à pena capital. A astrologia é vista como forma de estabelecer ligação temporal e espiritual entre homem e céu. Os solares não costumam possuir encarregando-se. Não concedidos. por especial justiça de Deus. pondo-se-lhe nas mãos um bastão. e quem se mostrou desobediente é encerrado num recinto para ser devorado pelas feras. um sacerdote chamado Forense. como castigo. Os chefes militares solares que foram vencidos em batalha são infamados e o soldado que primeiro fugiu é condenado à morte. para que peça a eles a restituição da presa. servos. eles próprios das tarefas. se vencer os ursos e os leões que o guardam. ao sair do corpo é acompanhada pelos espíritos bons ou maus.” (p. enviando. Dessa forma. Ajudam seus vizinhos a livrarem-se de seus inimigos. – “É batido com vergas quem não socorre o amigo.

do qual as coisas são instrumentos. considerando o planeta como um organismo vivo – “Acreditam ser o mundo um grande animal. do sol e da terra. A luta de classes foi resolvida com a criação de um monopólio único que controla toda a indústria e comércio. de Edward Bellamy 105 O personagem central do livro de Bellamy. em relação a estas. Juliano West. caius_c 103 . vivendo nós no seu ventre como os vermes no nosso. porque.” (p. fomos criados com preciência e ordem. sob administração do povo. e. em relação a Deus. vai dormir no ano de 1887 e acorda em Boston no ano de 2000. tendo nascido e estando vivendo por acaso. a mãe-terra.são impostas às cidades subjugadas e seus filhos são educados na Cidade do Sol. Também. mas. mostra-se partidário da teoria de Gaia. por isso.36) Daqui a cem anos. Tomazzo acrescenta em sua Cidade do Sol alguma tecnologia inexistente como carroças com velas e mecanismos nas rodas que facilitam sua locomoção. a sociedade trabalha de forma justa. entendidas para outro escopo. não pertencemos à providência própria das estrelas. somos apenas uma sua amplificação. Não existindo mais a guerra de capitais e exploração do empregado. destinando-nos a um grande fim. mas somente à de Deus. três meses e onze dias depois. cento e treze anos.

através de corporações. O merecimento do salário é feito com base moral. arte. Os salários são pagos em forma de crédito. são abertas ao ingresso de todos. A produção é controlada pelo governo calculando-se as necessidades de consumo. Os que não podem trabalhar como os deficientes físicos ou velhos recebem o mesmo quinhão dos produtos. As pessoas têm que prestar serviços nas indústrias ou serviços intelectuais durante certo período da vida. A nação assumiu todas as responsabilidades pelo capital. porém. onde se adquire o produto e um armazém central remete o mesmo através de dutos pneumáticos. O general de cada corporação é eleito por sufrágio. sendo esse contingente chamado de exército industrial. música. nem partidos ou políticos. As pessoas executam serviços de acordo com suas aptidões naturais. o direito de nomear pessoas para os postos abaixo dele. não sendo vendáveis. A nação é o único patrão. tendo. tecnologia. As escolas de medicina. Aqueles que estão desclassificados para atuar no exército industrial e não tem habilitações especiais caius_c 104 .Os governos não têm mais poderes bélicos. teatro e instrução liberal. Os artigos. As lojas foram substituídas por armazéns de amostra. sendo que cada cidadão pode retirar nos armazéns aquilo que necessita. impedem a acumulação de bens pelo cidadão.

elas não dependem dos maridos para sua manutenção. não existe mais porque todos têm as mesmas oportunidades e comodidades. Os advogados não existem neste mundo de Bellamy e as leis são poucas. do que qualquer das causas caius_c 105 . O sistema financeiro foi abolido. estando sujeitas a uma disciplina diversa daquela que rege os homens no exército industrial. A competição profissional entre homens e mulheres inexiste. Existem ranços de eugenia na obra de Bellamy – “Mais importante. Os monopólios foram extintos. Não existindo mais compra e venda. a cobiça. não existindo dívidas ou juros. Bellamy. tendo ganho próprio. Os crimes são considerados atavismo. talvez. visto que o motivo maior. As nações trocam seus produtos através de secretarias. reservalhes trabalhos que julga de acordo com sua capacidade. No entanto. O desperdício de materiais e mão de obra foram eliminados. sendo que cada sexo compete somente entre si. sendo que o preço é único em todos os países.trabalham como atendentes ou em serviços que não exijam habilidades. Cada uma define sua necessidade à outra. não existe a necessidade de dinheiro. o que resultou em uma produção isenta de valores adicionais. acreditando que as mulheres são inferiores em força e inteligência aos homens.

Esse país imaginário era composto de 50 tribos. encontrará nele não só melhoramento físico. são baseados em desempenho físico e intelectual do casal. O governo era composto de duas câmaras. de James Harrington107 James Harrington19 editou Oceana em 1656. Os celibatários são aqueles considerados como inaptos para reprodução. As eleições eram anuais. Oceana era dirigida por uma aristocracia com poderes limitados. sendo que somente os chamados homens livres ou proprietários poderiam votar. as 19 (1611-1677) caius_c 106 . mas mental e moral. Uma delas era o senado composto por 300 proprietários que debatiam os temas e outra.que eu mencionei então. como tendentes a purificar a raça. sem embaraços. cada uma com dois mil membros. foi o efeito da seleção sexual. sobre a qualidade de duas ou três gerações sucessivas.” 106 Os casamentos. chamada de Tribo Prerrogativa votava nos mesmos. Os representantes de Oceana eram escolhidos por voto. Cada tribo era dividida em paróquias. Oceana. sendo que o voto era secreto. apesar de serem escolhas individuais. A educação era gratuita e compulsória para os homens. Suponho que quando fizer um estudo mais completo de nosso povo.

Grande teórico do behaviorismo. segundo ele. O número de horas trabalhadas é regulado pelo próprio indivíduo.eleições eram indiretas e os mandatos por tempo limitados. enquanto que sua proposta era para “todos. na sua obra. no que ele chama de engenharia comportamental. principalmente. Todos na comunidade devem envolver-se em trabalhos. Skinner. independente da idade. O trabalho físico é obrigatório mesmo para aqueles cujas funções são de caráter administrativas e mantido num nível mínimo por razões psicológicas. a obra de Thoreau era para “um”.Skinner108 Seu livro foi baseado na obra de Henry David Thoreau intitulada Walden ou A Vida nos Bosques. Walden II é uma fazenda coletivizada. Walden II. sua proposta para padrões aceitáveis caius_c 107 . visto que. social ou cultural. A riqueza pessoal inexiste. A sociedade idealizada por Skinner está baseada. A população passa a maior parte de seu tempo em barracões climatizados onde suas necessidades são supridas pela própria comunidade. que propunha soluções individuais e o afastamento da sociedade para a realização pessoal. adota algumas das soluções de Thoreau e acrescenta outras. O contato com o exterior é limitado e o dinheiro foi substituído por créditos ganhos por horas trabalhadas.F. de B.

A comunidade fornece os meios para sustento do casal e para a educação das crianças. logo o mesmo não tem impedimentos para contrair matrimônio na adolescência. as dificuldades vão sendo aumentadas de acordo com sua capacidade. social e psicológica. Procura-se suprimri a família como unidade econômica. desprovida de modismos. A pesquisa científica pura é relegada a segundo plano ao dar-se preferência para soluções advindas dos próprios usuários ou realizadores dos serviços. A educação ética é completada aos seis anos de idade e aos treze termina a supervisão contínua dos adultos e o controle de sua vida é transferido das autoridades para a própria criança e para outros membros da comunidade. mas procura-se limitar o número de filhos. As crianças são mantidas sob supervisão contínua dos adultos até os treze anos. A automação de atividades e uso de máquinas é considerada essencial para o bem estar do indivíduo. À medida que vão se ajustando. Neste período elas são ensinadas a controlarem emoções negativas através de um sistema de aborrecimentos e frustrações ao qual a criança é exposta. caius_c 108 .sociais deriva do condicionamento dado às pessoas desde seu nascimento. A procriação é incentivada logo após o surgimento da puberdade. A vida cultural na comunidade é intensa.

as demais são relatos onde a crítica de seu tempo se faz presente. que cuidam da política. apenas sanções. Possuidores de poucas paixões. criaturas semelhantes aos homens. sujos e indóceis. Em todas as sociedades que percorreu. são cavalos dotados de inteligência superior. principalmente em Lilipute. Ele acredita que as ações políticas não são eficazes . não se conseguirá usá-lo com mais sapiência que seus predecessores. que executam o trabalho destinado aos animais. revisam o trabalho dos Administradores e tem algumas funções judiciais. onde a falta de qualidade das pessoas e suas intrigas políticas as fazem pequenas. desconhecem caius_c 109 . As viagens de Gulliver. exceto a Terra dos Hyhnhnm. o trecho mais conhecido. grosseiros. habitantes de uma ilha. de Jonathan Swift 109 Jonathan Swift traz algumas distopias em seu livro. visto que sempre falam a verdade. peludos. Não existem punições para os transgressores. três homens e três mulheres.A comunidade é gerida por seis Planejadores. Os Hyhnhnm. Seu contraposto são os Yahoos.Mesmo que se consiga ganhar o poder. Os Hyhnhnm não possuem vocábulos para as palavras verdade ou mentira. É o retrato de seu tempo.

Não existem livros no país. sem dar a ela uma conotação trágica. Vivem em média setenta e cinco anos. O mesmo tipo de educação é dado aos dois sexos. Existe um sistema natural de casta onde os alazões brancos e cinzentos ficam em estado de servidão pois são considerados como inferiores aos baios castanhos. Pressentindo a morte. A história. Embora envelheçam não têm doenças. Encaram a morte como um fato de vida. costumam despedir-se de seus amigos e parentes. O divórcio e a separação são permitidos porém não são colocados em praticados. Apreciam poesia e gostam de declamar poemas. visto que seus habitantes não sabem ler. cinzentos ruços e pretos. A educação dos filhos é feita pelo casal. À mulher compete cuidar do corpo e da saúde enquanto que o pai deve atende ao espírito e razão.o significado de outras tantas palavras que os humanos tão usualmente usam. A castidade pré-nupcial é vista como fruto da razão e não de preconceito ou receio. caius_c 110 . tradição e cultura são transmitidas de geração em geração de forma oral. Os casais costumam ser fiéis por toda a vida. Os casamentos são regulados de acordo com as cores da pelagem e a conformação física dos pares.

onde se compara a que vivia sob a égide dos deuses greco-romanos e que a vive agora sob a do deus cristão. de Santo Agostinho 110 A Cidade de Deus. visto que entendem que seria impossível a um ser racional desobedecê-lo. situa-se me dois planos: o primeiro é a libertação interior do homem através da fé e da crença em Deus. ética e moral produz tal repugnância aos homens que Gulliver. de Santo Agostinho. para onde convergem deputados dos diferentes cantões. o segundo é daqueles que. A convivência com seres de elevado grau de racionalidade. não a vivenciam plenamente. caius_c 111 . é sua própria elevação aos céus. os que renegam a fé cristã.O governo do país é feito através de um sistema parecido com o parlamentarismo. que também tem dois planos: o primeiro compõe-se dos pagãos. embora cristãos. A Cidade de Deus contrapõe à Cidade dos Homens. ao retornar à Europa. por conta dessa fé. A Cidade de Deus. torna-se quase um misantropo. Estas dualidades estendem-se à cidade de Roma. o segundo. Os decretos da assembléia geral são chamados de exortação. Justifica-se sob o ponto de vista histórico o poder político-religioso dos papados. evitando contato com seus semelhantes. após a morte.

Constitui crença básica nestes autores que não se pode construir uma sociedade “perfeita” sem caius_c 112 . A solução não se encontra nos padrões no qual vive o autor mas fora deles. Ponto constantemente repetido nelas é a educação precoce das crianças ou condicionamento. Estabelece-se uma ponte entre aqueles que acreditavam em um Deus único e criador supremo. Provavelmente. ele acrescenta todos aqueles que viveram uma vida virtuosa. ao isolar a sociedade que julga perfeita. a forma de encarar sua própria sociedade e buscar alternativas para seus males ou suas deficiências é o que determina a criação das imaginárias cidades ou coletividades afastadas. É uma forma. com a religião cristã. de não contaminar o novo padrão com o antigo.Ele busca aproximar alguns filósofos antigos com as verdades de seu tempo. A Cidade de Deus situa-se mais no interior dos homens do que em outro lugar. Alem dos filósofos. no caso de Skinner. Existe uma justificativa para o poder temporal desde que ele seja usado para incremento desta fé. também. No caso do Projeto Vênus o que se busca é a instituição de um novo comportamento social dentro da própria sociedade que consiga alterar a atual estrutura. Análise de idealizadas alguns pontos das sociedades Inexistem soluções para grandes comunidades.

Existe. Em todas elas existe detalhamentos de como esta educação deve ser conduzida para que o indivíduo sem torne um ente produtivo para a sociedade. De maneira geral. ao contrário. de Platão. embora as considere inferiores. Ele acredita que deve ser ministrada a mesma educação para os dois sexos e que não se pode negar responsabilidades às mulheres. – “Conseqüentemente. ainda que em todas seja mais fraca do que o homem. Sempre existe um sistema de castas onde algumas predominam. as aptidões naturais estão igualmente distribuídas pelos dois sexos e é próprio da natureza que a mulher. assim como o homem. as responsabilidades e a responsabilização das classes dirigentes são sempre maiores do que as das demais. o controle das dirigentes pelas dirigidas. Um prelúdio para a emancipação da mulher encontra-se na República. As diferenças de classes parecem não ser possíveis de serem resolvidas em qualquer obra. meu amigo. não há nenhuma atividade que conceme à administração da cidade que seja própria da mulher enquanto mulher ou do homem enquanto homem. independentemente se eleitas ou não. Há sempre um prenúncio de um Estado Democrático de Direito em todas elas. no entanto. participe em todas as atividades. mesmo as da magistratura.” caius_c 113 .que seus elementos sejam educados para isso.

não existe nenhuma referência que estabeleça alguma diferença entres os sexos. a condição das mulheres varia do servilismo ao igualitarismo subserviente. mesmo a de Skinner. no caso de Thomas Morus. No Walden II elas compõem o quadro dirigente mas ainda são vistas da mesma forma que na época do autor. Neste caso. Algumas dessas sociedades “perfeitas”. A eugenia visa criar uma casta ou nova espécie humana que sobrepuje ou. quase desprovidas de autoridade. O Projeto Vênus vai mais além e acredita que a tecnologia possa substituir a própria lei pois todos os dispositivos devem ser programados para impedir infrações. dando ao homem condições e tempo para poder prosperar intelectualmente. caius_c 114 . No Projeto Vênus. O controle da prole está ligado ao uso dos recursos existentes na sociedade. Os autores crêem que esta é uma forma de minimizar o trabalho braçal ou bruto. Ponto comum é o uso ou a busca de alta tecnologia dentro das sociedades. Nenhum autor conseguiu vislumbrar a igualdade sexual em suas obras de forma efetivamente completa. fazer com que o padrão físico e mental de cada par seja compatível com o do outro.No entanto. talvez por ser mais recente. ou seja. parece óbvio que uma lei deva estar vigente para que todos os aparatos tecnológicos estejam dotados dessa capacidade. com mínimas iniciativas. sugerem que deva existir alguma forma de eugenia e controle da procriação e que isto é uma atribuição do governo.

a tecnologia é usada como ferramenta de controle. como o “Admirável mundo novo”20. Nelas. física. Em algumas. mental. Elas representam ou mostram o lado sombrio do Estado.Distopias Distopia significa “lugar mau”. ou seja. de instituições ou mesmo de corporações. a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma "utopia negativa". O gigantismo do Estado e seu total controle sobre o indivíduo é tema dominante nestas obras. a ideologia e a força são os recursos usados pelo Estado para manter seu domínio 20 1932 caius_c 115 . autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. o isolamento. o elemento controlador da sociedade é uma empresa ou algumas empresas. uso de drogas e condicionamento intenso. O homem é controlado em todas as suas formas. O uso da força e da propaganda maciça fazem parte deste controle. temor este representado nas assertivas do Projeto Vênus contra a corporatocracia. Este Estado poderoso pode controlar a população através da formação de castas biológicas. espiritual e socialmente. Uma distopia é o pensamento. São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo. e a sociedade mostra-se corruptível. caem-se as cortinas. A propaganda maciça. seja do Estado. Assim. de Aldous Huxley.

Na obra de H. como “O planeta dos macacos”24. que se conflitam. A união da violência do indivíduo e do Estado. mostra a opressão de um Estado totalitário. pacíficos e amáveis. Algumas delas. obrigadas a viverem em subterrâneos. contra o qual não existe possibilidade de luta e o uso de uma máquina oculta de repressão.Wells. e que tornam-se predadores dos elóis. de onde emergem raças distintas. A “Fazenda modelo”26. os macacos evoluem em inteligência e os homens degradam-se na escala evolutiva. é o tema dominante da “Laranja mecânica”23 de Anthony Burgess.na “Revolução dos bichos”21 e “1984”22. extrapolada através do uso de drogas. No romance “Não verás país nenhum”27. de Pierre Boulle.G. mostram mundos destruídos pelas guerras. e “A máquina do tempo”25. Na de Pierre Boulle.Wells. de George Orwell. de Ignácio de Loyola Brandão. 21 22 1945 1948 23 1962 24 1963 25 1895 26 1974 27 1981 caius_c 116 . enquanto que o resto da população tenta sobreviver com o pouco que resta. os morlocks evoluíram a partir das classes trabalhadores.G. de H. que evoluíram a partir das classes mais favorecidas e vivem na superfície. os escassos recursos são utilizados para manter a elite em um ambiente controlado e seguro. sujeita à violência do Estado. de Chico Buarque de Hollanda.

Enquanto que as utopias buscam a sociedade perfeita. a um novo degrau de civilização. aquela que irá tirar o homem de um estado de necessidade e o conduzirá. as distopias representam o medo do homem que acredita que a sociedade em que ele vive irá se deteriorar a tal ponto que o conduzirá a um mundo sem liberdade. geralmente através da moral e da criação de uma nova sociedade. regido por governos totalitários e sem a possibilidade de qualquer direito humano. caius_c 117 .

Um porteiro. dizia: "L'Anglaterre! Ah. com o mesmo tom patético. Shakespeare!" O porteiro continuou: "Monsieur le Représentant de l'Espagne"! E Victor Hugo: "L'Espagne! Ah. com a mesma convicção. pareceu vacilar. Goethe!" "Monsieur le Représentant de la Mésopotamie!". Victor Hugo. Mas logo se viu que o achara e que recobrara o domínio da situação. Cervantes!" O porteiro: "Monsieur le Représentant de L'Allemagne!" E Victor Hugo: "L'Allemagne! Ah. Efetivamente. com voz de dramático trêmulo. anunciava-os: "Monsieur le Représentant de l'Anglaterre!" E Victor Hugo. virando os olhos.Componentes do Estado “Os representantes das nações adiantavam-se ao público e apresentavam sua homenagem ao vate da França. respondeu à homenagem do rotundo caius_c 118 . que até então permanecera impertérrito e seguro de si mesmo. com voz estentórica.

que surge do domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. Povo Povo é uma palavra polissêmica. notadamente quando se trata de assemelhá-lo com país. A estes decidimos acrescentar soberania e complexidade. nação ou Estado. jurídico e sociológico. Soberania porque não tem sentido um Estado não ser autônomo ou ter capacidade para gerenciar seus elementos e complexidade porque ele tem necessidade de instituições para distribuir sua autoridade por entre a população. Seus significados muitas vezes se confundem e se sobrepõe. sendo que o elemento formal é o governo. 112 Outros autores admitem que os componentes materiais são povo e território. BONAVIDES traz três conceitos diferentes de povo: político. sendo que o material é o elemento humano. Vem do latim populu e do etrusco pupluna. os componentes do Estado são povo. território e governo.senhor dizendo: "La Mésopotamie! Ah. DUGUIT entende que o elemento formal é o poder político da sociedade. L'Humanité!"”111 Tradicionalmente. 113 caius_c 119 .

considerada sob o aspecto puramente jurídico.No conceito político.114 Para CELSO RIBEIRO BASTOS. É aquela parte da população capaz de participar. é o grupo humano de indivíduos sujeitos às mesmas leis. 115 FILOMENO define povo como a parcela da população de determinado Estado que com ele mantém caius_c 120 . povo é a expressão do conjunto de pessoas vinculadas de forma constitucional e estável a um determinado ordenamento jurídico. que se politizou. os cidadãos de um mesmo Estado. povo é o quadro humano sufragante. povo é o conjunto de pessoas que fazem parte do Estado. projetado historicamente no decurso de várias gerações e dotado de valores e aspirações comuns. Ele também conceitua povo como sendo o conjunto unido por um sentimento de nacionalidade. do processo democrático. povo é a população do Estado. existe uma equivalência do conceito de povo com o de nação. Do ponto de vista sociológico. gerada por alguma forma de identidade. Na definição de DARCY AZAMBUJA. dentro de um sistema variável de limitações. sendo que o que determina quem dele faz parte é o direito. através de eleições. que depende de cada país e época. Juridicamente. são os súditos. segundo Bonavides. O povo é compreendido como toa a continuidade do elemento humano.

estabelecendo com este um vínculo jurídico de caráter permanente. 120 Erroneamente. participando da formação da vontade do Estado e do exercício do poder soberano. povo é o conjunto de cidadãos que mantém necessariamente vínculos políticos e jurídicos. que compõem a sociedade. nas democracias atuais.”118 DALLARI conceitua povo como o conjunto de indivíduos que. inclusive. sua nacionalidade naquele Estado. dá-se à palavra povo o mesmo sentido de nação. sendo parte. povo é um dos componentes do Estado e. caius_c 121 . 119 CANOTILHO assinala que. 117 ROUSSEAU diz que os “associados. Ele também o define como o conjunto de cidadãos. isto é. e sujeitos. através de um momento jurídico. recebem coletivamente o nome de povo. interesses e representações de natureza política. cabendo-lhe a designação particular de cidadãos quando participam da atividade soberana. definida. Na realidade.vínculos de natureza política. Estado ou país. não pode ser confundido com o todo. se unem para constituir o Estado. e o Estado. 116 Para DE CICCO e GONZAGA. o povo deve ser entendido em sentido político. além dos de natureza jurídica. quando submetidos às leis do Estado. grupos de pessoas que agem segundo idéias.

sendo que estes eram totalmente destituídos de vontade própria e obrigados a trabalharem para seus senhores. aqueles que são obrigados a trabalhar para alguém são os servos e aqueles que trabalham para o público são mercenários e artesãos. estando acostumadas à carga. Os demais estão excluídos desta prerrogativa. talha30. praticamente só existiam duas classes: a nobreza e os servos. equipamentos e instalações de sua propriedade 29 28 caius_c 122 . Estes senhores feudais detinham o poder de cobrança de impostos e taxas que podiam ser de várias formas como a corvéia29. ARISTÓTELES define como cidadão aquele que tem capacidade para chegar à magistratura. Além 1585-1642 Trabalho gratuito ao senhor feudal durante três ou mais dias da semana 30 Tributo pago ao senhor feudal para custeio da defesa do feudo 31 Tributo pago ao senhor feudal para uso dos bens.Esse termo ainda tem certa conotação pejorativa quando figura como termo que define parte da população como aquela que não está vinculada ao poder ou que tem baixa capacidade econômica e ou cultural. estragam-se por um longo repouso muito mais do que com o trabalho”.122 Na Idade Média. banalidades31 e capitação32. O CARDEAL RICHELIEU28.121 Para ele. em seu testamento político. comparou o povo aos animais de carga – “É preciso compará-los às mulas que.

quando um exército esfarrapado. ocorrida entre 05 de maio de 1789 e 09 de novembro de 1799. como ocorreu com Luís XVI e sua esposa Maria Antonieta. promulgando uma constituição em 1791.dessas. em 1793. com poucas armas mas com muitos ideais. A Revolução Francesa salvou-se na Batalha de Valmy. Não se podia admitir. além de proclamar os ideais de liberdade. No entanto. ou seja. abolindo a servidão e os direitos feudais. A burguesia que tinha sido povo. os que não eram nobres. principalmente decapitá-los. deu-se por conta do crescimento econômico da burguesia. cantando a 32 Imposto pago por “cabeça” ao senhor feudal caius_c 123 . sob o jugo do mesmo senhor feudal. que as classes sociais mais baixas tivessem o poder de destronar reis e. fraternidade e igualdade. existia o pagamento de taxa da mão morta pelos filhos de um pai falecido. que culminou com a Revolução Francesa. passou a deter o poder econômico. na época. e apropriou-se do poder. que permitia que continuassem a trabalhar nas mesmas terras. principalmente por conta das novas tecnologias que começaram a surgir. existiu um forte combate a essa nova forma de governo na Europa. mal nutrido. A ascensão do povo ao poder. baseada nos ideais revolucionários.

que defendiam novas interpretações da economia e governos. agora eles estavam passando para as mãos da burguesia porque estes possuíam capital e iniciativa e não dependiam da posse de terra. os exércitos de Napoleão levaram consigo os ideais da Revolução Francesa. no Atlântico sul. que tinha sido o grande algoz dos monarquistas europeus. no mesmo ano dessa derrota. Junto com eles seguiram os do Iluminismo. alavancada pela invenção da máquina a vapor por James Watt. 33 Hino nacional da França caius_c 124 . em 1763: a Industrial. O trono francês. na Bélgica. agora vago. em 1804. proclamou-se imperador. a liberdade e a propriedade. Embutido. Se antes os meios de produção estavam restritos à existência de grandes propriedades nas mãos dos nobres. No entanto.Marselhesa33. foi exilado para a Ilha de Santa Helena. seguia a idéia de que o Estado deveria ser a garantia dos direitos humanos básicos como a vida. conseguiu derrotar uma coalizão antifrancesa em Verdun. Outra revolução estava em franca ascensão. Derrotado em 1815. na Batalha de Waterloo. onde morreu seis anos depois. com seus princípios racionais e progressistas. espalhandoos pela Europa. Os ideais democráticos quase pereceram quando Napoleão. em 1792. foi preenchido por Luís XVIII.

caius_c 125 . eram pequenos. Os aglomerados humanos. que detinham os meios de produção. tudo se produzia mas tudo se tinha que comprar. Nas cidades as duas passaram a coexistir por conta dos baixos salários pagos aos trabalhadores. com maquinários que podiam produzir quantidades nunca antes vistas. Na cidade. e o operariado. até então. os direitos humanos passaram a ser encarados como naturais ao homem e passiveis de serem exigidos daqueles que detinham os poderes. Antes não se questionava. os privilégios e a riqueza dos nobres ou a pobreza dos seus vassalos. permitindo controle maior sobre as pessoas. De repente. Ocorreu um fenômeno inédito na História humana: uma urbanização crescente por conta da mão de obra que se necessitava para estas novas indústrias.Necessitando de espaço suficiente apenas para montar fábricas. as cidades viram-se entulhadas de pessoas que mantinham-se em um nível de pobreza maior do que as do campo. que foi a nova denominação dada ao povo. As tensões entre as classes sociais tornaram-se mais amplas. No campo podia existir miséria mas dificilmente a fome. os burgueses tornaramse os novos detentores do poder econômico. ou muito pouco. A Revolução Industrial marcou o início de nova luta entre estes burgueses. no caso a burguesia. sem a repressão direta e com possibilidades de organizarem-se. Nas cidades.

o povo. existe o que se convencionou chamar de corporatocracia. caius_c 126 . um avanço para a aquisição dos direitos humanos e participação nos governos. com as novas idéias. em tese. ao mesmo tempo em que delegava ao Estado total poder sobre tudo que ele continha. No entanto. Resumindo. a possibilidade de escolha e alternância no poder daria ao povo a capacidade de gerir-se através de seus representantes. A aplicação dessas teorias em alguns países como a Rússia e Cuba terminaram por gerar uma nova classe social advinda desse povo e que passou a governar de forma oligárquica. parece estar sendo usado como ferramentas para um retorno do ser humano à escravidão. como o comunismo e socialismo. continua a ser apenas o elemento basal da sociedade que sustenta uma parcela privilegiada da população.Essa luta desencadeada por uma nova forma de opressão originou novas teorias. por não ter capacidade econômica ou cultural. em outra forma. principalmente os meios de produção. a urbanização e a tecnologia. Nos chamados países democráticos. que é o exercício do poder através de empresas possuidoras do poder econômico. O que se permitiu na Revolução Industrial. cuja pretensão era propiciar efetiva participação do povo no seu próprio gerenciamento.

Território A palavra território refere-se a uma área delimitada sob a posse de um animal. População é uma massa de dados enquanto que povo é um dos elementos que constituem o Estado.População População é um conceito demográfico e estatístico. É o número que determina as pessoas presentes dentro de um determinado local. mas todos compartilham da idéia de apropriação de uma parcela geográfica por um indivíduo ou uma coletividade. A população não tem vínculo com o Estado através da nacionalidade ou cidadania. em um momento específico. num dado tempo. Há vários sentidos figurados para a palavra território. O termo é empregado na política. e portanto país não se confunde com caius_c 127 . Em Estatística chama-se população ao conjunto de todos os valores que descrevem o fenômeno que interessa ao investigador. DARCY AZAMBUJA afirma que território é o país propriamente dito. na biologia e na psicologia. de uma organização ou de uma instituição. de uma pessoa ou grupo de pessoas. Em Sociologia define-se como um conjunto de pessoas adscritas a um determinado espaço.

do qual constitui apenas um elemento. além do solo no qual a população vive e produz. É nessa delimitação que será exercido o poder estatal. lindes. 123 Segundo STRECK e MORAIS.povo ou nação e não é sinônimo de Estado.É essencial compreender bem que o espaço é anterior ao território. 124 CASTILHOS GOUCOCHEA diz que “"a primeira divisa foi riscada no terreno pelo primeiro ser que compreendeu sua posição em face do semelhante mais próximo. 128 caius_c 128 . raias. homem ou entidade social" 125 MILTON SANTOS diz que a utilização do território pelo povo cria o espaço. da cidade à província e desta ao país. 126 CLAUDE RAFFESTIN diz o contrário . o território de um Estado é composto. à casa. à cidade. Tudo tem limites. Da propriedade individual passou à soberania coletiva. isto é. é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático em qualquer nível. cercas. muros ou designação outra que vise as caraterísticas das posses materiais. O território se forma a partir do espaço. de espaço aéreo e de uma estipulada extensão marítima. de alguém. 127 PAULO HENRIQUE FARIA NUNES afirma que território é todo e qualquer espaço caracterizado pela presença de um poder. de subsolo.

pois esta depende de um espaço certo. e seu conteúdo é determinado pelo que exige a instituição estatal. por simples razão lógica evidente. ocupado com exclusividade. não um direito em sentido subjetivo. mas que o território não chega a ser um componente do Estado mas apenas o espaço em que circunscreve a validade da ordem jurídica estatal. mas condição de sua existência.133 JELLINEK expressa que o direito do Estado ao território é apenas um reflexo da dominação sobre as pessoas.131 BURDEAU diz que se trata de um direito real institucional.134 O território só possui sentido jurídico quando permeado por uma organização política. o território não seria um elemento constitutivo do Estado. exercido diretamente sobre o solo.132 É o quadro natural dentro do qual os governantes exercem suas funções. sendo um direito reflexo. apenas partes da superfície terrestre.FILOMENO entende ser o território parte imprescindível para a existência do próprio Estado.130 KELSEN considera a delimitação territorial uma necessidade. pois sem indivíduos humanos não há território.129 Para DONATO DONATTI.136 caius_c 129 .135 RANELLETTI propõe a posição de que o território é o espaço dentro do qual o Estado exerce seu poder de império.

marítimo. tanto quanto a população e o governo. algumas partes do território não são caius_c 130 . onde o Estado submete ao seu direito sobre todos aqueles que se encontram em sua área de controle. No entanto. aéreo e diplomático. o locus onde se exerce o poder coercitivo estatal sobre os indivíduos humanos. fluvial. A primeira impressão quando se fala de território é de que se trata somente da geografia ocupada por um Estado. Dentro deste conceito cabe o poder jurisdicional que o Estado tem sobre ele. Componentes do território. É o chamado principio da territorialidade.138 QUINTÃO SOARES conceitua território estatal como a base espacial do poder jurisdicional do Estado.137 DE CICCO e GONZAGA definem território como a área compreendida nos espaços geográficos terrestre.139 Podemos definir território como espaço controlado por indivíduo ou entidade. isto. são condições sine qua non para a existência do Estado.QUEIROZ LIMA e SAHID MALUF asseveram que o território. virtual e econômico. em que o ordenamento jurídico tem coercitividade. Adotamos três formas de componentes do território: geográfico. O principio da extra-territorialidade ocorre por conta de situação onde existe influência do direito internacional. nos limites definidos pela lei.

Espaço geográfico Um dos componentes do território é a geografia do Estado. a extensão de suas águas territoriais é. No caso do Brasil. o Estado exerce seu poder sobre elas. com a invenção de artefatos de guerra que extrapolam essa distância. aeronaves e satélites. O espaço virtual traz como sua mais forte característica a nova mídia que se instaurou depois da invenção da internet e outros meios de comunicação. ilhas e outros acidentes geográficos. Obviamente. Antigamente. por isso convencionou-se que a distância era a de um tiro de canhão.geográficas como navios. cuja extensão controlada é particular de cada país. como mísseis intercontinentais. sendo que existe o poder jurisdicional sobre eles. Embora tenha que seguir as regras do país onde se instalam. litoral e mares. todavia. rios. O componente econômico do território é espaço em que o Estado mantém domínio sobre a circulação e produção de bens e que pode estar bem distante geograficamente do país ao qual pertence efetivamente. Outros territórios como embaixadas situam-se dentro de outros países e. os grupos econômicos estão sujeitos ao poder jurisdicional de seu Estado original. Quando é o caso. Nela estão inclusas a superfície terrestre. entendia-se que a delimitação do mar envolvia possibilidades de sua defesa. lagos. essa convenção foi abandonada. caius_c 131 . que correspondia a três milhas.

exceto na área de defesa e política externa. S. O. Colônias e países subjugados também são territórios daquele que exerce a soberania. O e 53o. também é aplicada a Macau. entre os meridianos 28o. sintetizada pela máxima “um país. A fórmula administrativa de Hong Kong. No entanto. de duzentas milhas. a ilha. o Brasil aderiu ao Tratado da Antártida. Pontos destacados da geografia de um país que são regidos pelas leis deste fazem parte de seu governo e. em 01 de julho de 1997. cuja principal função é servir como esteio para expedições científicas brasileiras neste continente. foi transferida para a China em caius_c 132 . podendo chegar a 100 durante o verão. Em 1975. Depois de passar cento e cinqüenta e seis anos sob o domínio britânico. Sua população é de 48 pessoas no inverno. portanto. voltou a fazer parte da China continental. Um exemplo que foge um pouco a esta regra é o caso de Hong Kong. continuando a ser um porto livre e um centro financeiro internacional. Colônia portuguesa na Ásia desde o século XVI. geografia delimitante o espaço aéreo. Inclui-se nessa Exceção a ser considerada é o território controlado pelo Brasil na Antártida. ela tem um alto grau de autonomia. instalando a Base Antártica Ferraz de Vasconcelos.atualmente. também são territórios. situado abaixo do paralelo 60o. dois sistemas”. como desfruta do status de Região Administrativa Especial.

uma conquista que se estabeleceria apenas com bases científicas. isso não impede que exista um domínio do país sobre eles. Outros pontos também são considerados territórios como as embaixadas. que é muito utilizado hoje em dia pela sociedade civil.20 de dezembro de 1999. a maioria com objetivos militares. Uma discussão que poderia ser levada adiante é sobre a quebra de soberania dos países através do uso de satélites por outros. que fornecem coordenadas acuradas de localização geográfica aos portadores de terminais manuais com antenas para captar o sinal dos mesmos34. Outro exemplo de satélite militar. navios. parecia ser. Isto nos leva a pensar que o território pode não ser fixo. são os satélites de posicionamento global. Macau manterá o mesmo grau de autonomia de Hong Kong até 2049. Existindo o argumento que são apenas artefatos ou que as naves são transitórias. Consta que 75% dos satélites lançados a partir de 1957 foram com essa finalidade. A corrida espacial iniciada com o lançamento do satélite russo Sputnik. que vasculham todas as regiões do planeta. ou para o comum das pessoas. Uma estação orbital tripulada é um bom exemplo de território móvel. em 1957 e consagrada pela chega do homem na lua em 1969. aeronaves. etc. no início. que pode ter certa mobilidade física. Com 34 Global Positioning System –GPS caius_c 133 . Uma nave espacial ou um satélite giram ao redor da Terra e ainda são territórios do país ao qual pertencem.

onde se veda. Continuado pelo presidente Bill Clinton e George W. perdeu suas pretensões com o término da chamada “Guerra Fria” e o fim da União Soviética. Bush. não poderá ser objeto de apropriação nacional por reivindicação de soberania. concebido em 1983 pelo então presidente Ronald Reagan.” caius_c 134 .grande potencial econômico e militar dos satélites. as armas no espaço exterior. Por se tratar de um sistema de detecção e informação. que diz – “Os Estados Partes neste Tratado comprometem-se a não colocar em órbita à volta da Terra quaisquer objetos transportando armas nucleares ou quaisquer outras espécies de armas de destruição maciça. ocupação ou qualquer outro processo. esse projeto não contraria o artigo IV do chamado Tratado do Espaço Exterior. a apropriação de qualquer corpo celeste – “O espaço exterior. cujo objetivo inicial era fornecer um “escudo de proteção” para os Estados Unidos. incluindo a Lua e outros corpos celestes. dissolvida oficialmente em 26 de dezembro de 1991. o chamado IDE (Iniciativa de Defesa Estratégica). contra o lançamento de mísseis balísticos intercontinentais. ou continua sendo. batizado de “Guerras nas Estrelas” pela mídia.” Essa preocupação com o uso do espaço exterior como base para dominação de países está expressa no mesmo tratado. uso. sua utilização mais comum é dentro destas duas áreas. em seu artigo II. O sonho das pretensões militares espaciais foi. a não instalar tais armas nos corpos celestes e a não manter. em tese. sob quaisquer formas.

Exemplo típico são as contas bancárias onde as transações são eletrônicas e o papel-moeda. Antigas instituições como cheques estão desaparecendo ou tendo uso restrito devido a este tipo de transação. inexiste. os conceitos territoriais deverão ser revistos. esse tratado impede a expansão territorial dos países para o espaço exterior. À primeira vista pode-se acreditar que trata-se apenas de veiculação de mídia e interação entre pessoas.Desde que cumprido. No entanto. o “dinheiro vivo”. são territórios do mesmo. Os artefatos lançados. tripulados ou não. É um território que depende de tecnologia mas ultrapassa fronteiras. fazendo com que a administração de possíveis bases instaladas em corpos celestes esteja sob orientação internacional. Sua versão mais popular é a internet. que é o nome genérico para essa ligação entre computadores.Provavelmente. O espaço sideral não é território específico de nenhum país. transformando-os em promessas de bens. o território virtual está tornando-se substituto de bens. portanto. em um futuro não muito distante. Espaço virtual Outro componente atual do território é o chamado espaço virtual que poderia ser definido como o mundo onde as pessoas interagem através da rede mundial de computadores. estão sob a jurisdição do país que o lançou. caius_c 135 .

O Movimento Zeitgeist afirma que 3% do suprimento monetário existe em moeda física. Os outros 97% existem somente nos computadores.140 É certo que se todos fossem sacar suas reservas ao mesmo tempo, nenhum banco teria o lastro suficiente para transformar a promessa de bens em bem efetivo. Os governos tentam controlar o conteúdo da internet através de bloqueios a sites que consideram como inadequados ou restringindo a captação de sinais. Os países islâmicos, ditatoriais, Cuba, China e outros, mantém controle quase que absoluto dessas informações virtuais. Este controle é desafiado por especialistas denominado hackers35, que conseguem acesso quase ilimitado dentro da rede. O lado negro dessa tribo, especialistas denominados crackers36, é a invasão em sistemas financeiros e disseminação de vírus. Neste território, a perda de privacidade do indivíduo está tornando-se um fator de preocupação. Além das informações espontâneas deixadas pelos usuários em blogs, sites, comunidades e formulários, aventa-se a possibilidade de que informações possam ser obtidas pelos governos através de programas de rastreio de informações. Dizem que um programa chamado Echelon pode capturar e analisar qualquer chamada telefônica, e-mail ou transmissão de fax e telex em qualquer parte do planeta, não importando o meio de transmissão utilizado. As mensagens podem ser
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Literalmente, decifradores Literalmente, quebradores

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minuciosamente examinadas à procura de palavraschave. Qualquer mensagem que contenha uma dessas palavras é automaticamente gravada e transcrita para posterior exame.141 O cruzamento de informações eletrônicas obtidas de forma legal pelos governos e instituições produz um perfil do indivíduo que pode ser usado para fins diversos. Tornou-se comum a venda de listas com informações pessoais ou empresarias. Estas informações legais aliadas às que são obtidas de forma ilícita podem produzir um controle do indivíduo pelo Estado ou por instituições igual ao retratado nas distopias. Por outro lado, a expressão individual nunca esteve tão presente em outra mídia, além da diversidade de informações. O rápido acesso a elas está dando um novo impulso ao intercâmbio cultural e as pessoas estão se comunicando mais. Isto pode produzir uma aproximação entre indivíduos e a quebra das barreiras culturais, sociais e políticas, aproximando efetivamente as populações do conceito de globalização social. O controle desse território virtual, tão volátil, está mais em mãos de empresas do que de governos propriamente dito. Na área de comunicações, estabeleceu-se uma verdadeira corporatocracia, onde as empresas do ramo, todas gigantes, estabeleceram seu domínio. Este, segundo SÉRGIO MATTOS, é concedido pelo Estado aos meios de comunicação como forma de pressão e controle. A ajuda oficial pode ser a

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concessão de rádios ou televisões, isenção de impostos e empréstimos obtidos junto aos bancos oficiais.142 Na digressão acima existe uma pergunta: por quê um espaço que não é físico, com controle dividido, pode ser chamado de território? A resposta é simples: é uma região habitada por pessoas ou, pelo menos, por suas projeções eletrônicas. Nas regiões mais cosmopolitas e onde existem facilidades para obtenção de tecnologia, o uso da rede de comunicações é uma necessidade. Esse mundo virtual que era apenas uma diversão ou brinquedo quando foi disseminada, por volta de 1990, ganhou importância fenomenal ao se transformar em um meio de transmissão de bens pelo comum cidadão. Sua importância econômica está se tornando tamanha que não estar presente neste mundo virtual é transformar-se naquelas criaturas superiores ou inferiores que São Thomas de Aquino e Aristóteles dizem poderem se transformar aqueles que vivem em completa solidão ou fora de uma sociedade. Espaço econômico JOHN ADAMS dizia – “Existem dois modos de conquistar e escravizar uma nação: uma é pela espada e a outra é pelas dívidas”.143 Os países projetam seu domínio sobre outros territórios através de suas empresas. A dependência econômica de um país faz com que sua soberania inexista ou seja tão tênue que impeça que existam medidas que lhes seja apenas de proveito próprio. Isso

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faz com que seu espaço físico ou sua geografia não lhe pertença mais. Não tendo mais poderes sobre seu espaço físico, seu território controlado passa a pertencer àquele que o domina. A expressão mais comum desse poderio é através do neocolonialismo, ou seja, desovar produtos industrializados em troca de matéria-prima e/ou mão de obra barata. Nessa transação, os países industrializados pagam pouco e vendem caro, gerando grandes dívidas aos não ou pouco industrializados países, geralmente os fornecedores de seus materiais básicos. Um produto, hoje em dia, é composto de partes que são produzidas em países diversos. Essas partes, a maioria, são feitas em países que fornecem mão de obra barata, com matéria-prima de outros países que as vendem barato. A montagem do produto final pode ser feita no país de origem ou em outro. A vantagem, além da econômica, é que ninguém, exceto a matriz, tem tecnologia suficiente para produzir o produto por inteiro, que termina por ser vendido a outros países, incluindo aqueles que produziram suas partes ou forneceram sua matéria-prima. A vantagem para o país que produz as partes é aparente porque cria empregos e aumenta sua exportação. No entanto, a compra do produto acabado provoca uma diferença na balança comercial entre os dois países, obrigando o produtor a contrair dívidas.

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O exemplo acima é a mais clássica e disseminada das formas econômicas para dominação de um país pelo outro e conseqüente controle de seu território. Outra prática é a eliminação das indústrias locais para fornecimento dos produtos que elas fabricavam. Um exemplo recente é o que se convencionou chamar de “salaula”, que, em uma língua nativa africana, significa algo como “roupa do homem branco morto”. 144 O processo da salaula começa com doação de roupas usadas, principalmente nos Estados Unidos e Europa, aos templos religiosos ou instituições de caridade. Essas doações são vendidas para intermediários que as estocam até formarem um lote. Esses lotes são comprados, geralmente por hindus, nos Estados Unidos, e embarcados em navios até a Europa onde se completa a carga. Depois, o navio parte para países africanos como Zâmbia, onde a carga é vendida para atacadistas locais. Esses atacadistas dividem a carga em fardos, revendendo-os para atacadistas menores que, por fim, vendem os fardos para varejistas locais. Essa prática, a salaula, extinguiu as indústrias têxteis de vários países africanos, visto que a competição tornou-se impossível. Uma roupa usada nos Estados Unidos ou Europa é quase nova e seu custo aos primeiros adquirentes, no caso templos religiosos e instituições de caridade, é zero, continuando baixo em todas as etapas da comercialização, inclusive para o

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consumidor final, que, por causa de seu baixo poder aquisitivo, não se importa muito com o fato de serem roupas usadas. Outra prática econômica de dominação é a transformação do mercado de determinado produto em feudo empresarial. De Beers é uma empresa de origem sul-africana sediada em Antuérpia, na Bélgica, que controla grande parte do comércio mundial de diamantes. Os diamantes formam-se em algum lugar no interior da terra e são expelidos, através de vulcões, dentro de rochas chamadas kimberlitos. Quando estas alcançam a superfície sofrem processos de erosão e liberam os diamantes. Alguns deles são carregados por águas correntes e terminam em riachos ou rios, onde são encontrados. Outros são minerados dentro da própria camada de kimberlito. Descobrindo onde existem vulcões extintos e kimberlitos, é possível determinar com relativa precisão, através de satélites, as regiões onde possam existir diamantes. Isso implica em dizer que não é uma pedra preciosa tão rara que justifique seu preço final. Se o preço está relacionado com demanda e procura, deverse-ia acreditar que seria um produto barato. Empresas como a De Beers, principalmente, mantém a raridade do produto através da compra de toda e qualquer oferta de pedra bruta do mercado, liberando a venda da pedra em formato de jóia de acordo com a demanda do mercado. Na realidade, essas empresas produzem a escassez no mercado,

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apesar de estarem com estoques altíssimos do produto. É um dos grandes monopólios do mundo. A lógica é simples: se eu não comprar outros comprarão e eu perco meu negócio. Esse poderio econômico estendeu-se às regiões conflituosas onde os diamantes foram, e ainda são em alguns casos, elementos chaves para manutenção de exércitos. A África foi o continente mais sacrificado por essa política de monopólio. Ela possui minas de diamante espalhadas por quinze de seus 53 países. Ela é responsável pela produção de 50% das pedras consumidas no mundo, um mercado que movimenta cerca de 50 bilhões de dólares por ano. Em doze desses países produtores, como nos casos da África do Sul, Namíbia e Botsuana, os diamantes são um produto de exportação como outro qualquer. Não exercem nenhum efeito negativo sobre a sociedade. Em três países, no entanto, pode-se afirmar que a pedra já matou, indiretamente, mais de 1 milhão de pessoas nas últimas duas décadas. Angola, Congo e Serra Leoa foram os países cujas guerras foram financiadas pelos diamantes, que foram chamados de “diamantes sujos” ou “diamantes de sangue”. Nestes lugares, companhias mineradoras ou seus intermediários estimulam o prosseguimento dos combates fornecendo armas e mercenários. Em alguns casos apóiam governos; em outros dão suporte a grupos guerrilheiros. A recompensa é o acesso fácil aos garimpos de diamante. Apenas como forma de ilustrar o interesse das grandes empresas, observe-se o seguinte

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cálculo: um garimpeiro africano ganha em torno de 800 dólares por um diamante de boa qualidade, pesando 2 quilates. Se bem lapidado, ele pode ser vendido por 10.000 dólares em uma joalheria de Nova York, com um lucro de 1.150%.145 Dominação econômica implica em controle de território, seja efetuado diretamente através de governos ou os dissimulados através de empresas. Quando todos os recursos indiretos falham, recorre-se aos diretos. A invasão do Iraque constitui-se exemplo clássico e recente do que o poderio militar pode substituir o poder econômico quando esse falhar. Calcula-se que suas reservas de petróleo podem chegar a 200 bilhões de barris. Este potencial pode tornar esse país o segundo maior produtor do mundo, atrás da Arábia Saudita e na frente do Irã. Estas reservas tornam o país essencial para a manutenção da economia. 146 Uma das desculpas para sua invasão foram os ataques de 11 de setembro de 2001, quando quatro aviões comerciais foram seqüestrados, sendo que dois deles colidiram com as torres do World Trade Center, em Manhattan, Nova York. O terceiro avião foi lançado contra o Pentágono, no Condado de Arlington, Vírginia. Os destroços do quarto avião foram encontrados em Shanksville, Pensilvânia, o que fez supor que os tripulantes e passageiros entraram em luta contra os seqüestradores.

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Os ataques foram atribuídos á organização terrorista Al-Qaeda. Alegou-se que Saddam Hussein, então presidente, teria financiado ou colaborado com os ataques, além de fabricar e estocar armas químicas. Sua malfadada invasão ao Kuwait em 1990 transformouo em vilão mundial e sua recusa em aceitar tutela dos países dependentes de seu petróleo fez dele o principal objetivo na Operação Iraque Livre em 2003, quando exércitos de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiram o Iraque, depuseram o governo e enforcaram Saddam Hussein. Como de vê pelo exposto acima, o poder econômico, na maioria dos casos, é uma das principais formas de manter domínio sobre determinado território. As grandes empresas e seus governos são aliados e valem-se um do outro para desempenhar o papel de dominador de outras nações. A mutabilidade do território HERÁCLITO DE ÉFESO37 dizia que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrarmos pela segunda vez, não serão as mesmas águas que estarão lá, e a mesma pessoa já será diferente. CÍCERO diz que "Nenhum povo teria pátria se tivesse de devolver o que usurpou” 147

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540 a.C. - 470 a.C (datas aproximadas)

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O princípio da mutabilidade também se aplica ao território. Por mais que a geografia permaneça, o poder dentro dela se transfere para diversos povos de acordo com o caminhar da História. Algumas vezes, a própria geografia se altera, produzindo extinção de povos ou mudança de identidade para aqueles que sobreviveram. Conquistas, acordos, vendas, desaparecimento de povos por motivos diversos e toda uma gama de acontecimentos, às vezes até naturais, fazem com que o poder exercido dentro de um determinado território se modifique. Existe uma máxima – utis possidetis – que diz que a terra é de quem a ocupa, sendo assim, não restam dúvidas que o território, na sua variável controle, se modifica ao longo da linha do tempo. No Brasil, podemos citar o estado do Acre como exemplo dessa mutabilidade. Ele pertenceu ao governo boliviano até início do século XX. Porém, sua população era predominantemente brasileira e constituía-se em território quase independente. Em 1899, a Bolívia tentou reafirmar sua soberania sobre o território, provocando revoltas dos brasileiros e confrontos na região fronteiriça, gerando o episódio que ficou conhecido com “A Questão do Acre”. Em 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis, o Brasil incorporou-o definitivamente. O território passou para o domínio brasileiro em troca do pagamento de dois milhões de libras esterlinas, de terras de Mato Grosso e do acordo de construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Este tema foi retratado de forma deliciosa e folhetinesca

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por Márcio de Souza, em seu livro “Galvez, o imperador do Acre.” 148 Governo Governo vem do grego kubernao, parte superior do leme de um navio que serve para dirigi-lo. Em português, cana de leme ou timão. Para ARISTÓTELES, governo é a autoridade suprema do Estado. Ele entendia que as palavras Constituição e Governo queriam dizer a mesma coisa.
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ROUSSEAU diz que governo é um corpo intermediário estabelecido entre os súditos e o soberano para sua mútua correspondência, encarregado da execução das leis e da manutenção da liberdade, tanto civil como política. Acrescenta que é o exercício legítimo do poder executivo, príncipe ou magistrado, o homem ou o corpo incumbido desta administração. 150 Para FILOMENO, governo nada mais é do que o conjunto dos órgãos do Estado que colocam em prática as deliberações dos órgãos legislativos. É a face visível do Estado, e expressão de sua própria soberania, enquanto poder supremo existente nos limites de seu território. Ele ainda o conceitua como a organização necessária para o exercício do poder político do Estado.
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ressalvando que “existe uma segunda acepção do termo governo.152 Para GERALDO DE MESQUITA JUNIOR.153 LÚCIO LEVI define governo como o “conjunto de pessoas que exercem o poder político e que determinam a orientação política de uma determinada sociedade”. têm o exercício do poder. o governo constitui um aspecto do Estado”. Neste sentido. organizações e lideranças responsáveis pela administração pública e pela direção dos Estados. em seu sentido mais amplo. mas o complexo dos órgãos que. é todo mecanismo de direção e controle das mais diversas instituições e organizações. O conceito de governo pouco varia no entendimento de diversos autores.155 Governo pode ser entendido como o conjunto de instituições. institucionalmente. 154 De acordo com cartilha da Receita Federal. através de poderes delegados pelo povo. governo. Podemos definir governo como a forma institucionalizada do poder de autoridade de caius_c 147 . mais própria da realidade do Estado moderno. governo é o conjunto de órgãos responsáveis pela realização da administração pública. sendo que alguns deles nem o conceituam. a qual não indica apenas o conjunto de pessoas que detêm o poder de governar.DE CICCO e GONZAGA entendem o governo como sendo o conjunto ordenado das funções do Estado que deve garantir a ordem jurídica.

segundo ele. aristocracia e república. mais ou menos iguais entre si. eram eleitos conjuntamente. e se teve uma aristocracia. em nome de um bem comum. em riqueza. existem três formas de monarquia.uma sociedade. Um homem era eminente em poder. cuja característica principal seria o descompromisso com o bem público ou coletivo. guardaram em comum a administração suprema. em crédito. seria aquela que combinasse as três formas legítimas de governo. aristocracia e república. e formaram uma democracia. e o Estado se torna monárquico. e que menos se tinham afastado do estado de natureza. A tirania aproveitaria apenas ao monarca. superavam todos os outros. a oligarquia apenas aos ricos e nobres e a demagogia apenas aos pobres. A degeneração desses três regimes é a tirania.” 156 Para ARISTÓTELES. é o gerenciamento das coisas e pessoas. monarquia. em virtude. a forma de governo foi estabelecida em função de um momento histórico: “As diversas formas de governo tiram a sua origem das diferenças mais ou menos grandes que se encontraram entre os particulares no momento da instituição. Genericamente. ou seja. Aqueles cuja fortuna ou talentos eram menos desproporcionados. de modo que assegurassem os direitos e deveres. A melhor forma de governo. Se muitos. Formas ou regimes de governo Para ROUSSEAU. Independente do regime caius_c 148 . só ele foi eleito magistrado. a oligarquia e a demagogia.

segundo ele. de um único homem. enquanto que a república é um poder plural. 158 CICERO acrescenta às formas de governo enumeradas por Aristóteles. basta a idéia que os homens menos instruídos têm deles. três fatos: "o governo republicano caius_c 149 . Para descobrir sua natureza. 159 MAQUIAVEL acreditava que somente existiria dois tipos de Estado: repúblicas e principados. o que ele chama de forma mista. sendo a veneração de Deus substituída pela de ídolos. em que o clero governa no interesse próprio.” Os principados é o poder singular. 160 MONTESQUIEU definia os governos pelo que ele chamava de natureza . da aristocracia e da democracia através de instituições como o senado aristocrático ou câmara democrática. de várias pessoas. 157 BLUNTSCHLI acrescenta à classificação de Aristóteles a teocracia ou ideocracia. pois todos eram considerados como iguais perante a lei. A forma corrupta seria a clerocracia ou idolocracia. o monárquico e o despótico. os governantes deveriam prestar contas aos governados. Suponho três definições.Existem três espécies de governo: o republicano. foram e são ou repúblicas ou principados.adotado. – “Todos os Estados. ou melhor. que é a redução dos poderes da monarquia. todos os governos que tiveram e têm autoridade sobre os homens. A república. abrangeria a aristocracia e a democracia. que é a forma de governo cujo poder emana de Deus.

impõe tudo por força de sua vontade e de seus caprichos". estando subordinados a uma ordem jurídica que devem obedecer sem restrições. quanto à organização. cidadãos que participam da criação e concordam com a ordem jurídica vigente. Quanto às origens. AZAMBUJA adota a mesma corrente de Dallari acrescentando a análise de RODOLPHE LAUN das formas de governo de acordo com origem. depois da Segunda Guerra Mundial estaria sendo extinta ou subsistindo de forma constitucionalista e com limitações. no despótico. sendo substituída gradativamente pela forma 162 republicana. ou apenas uma parte do povo. o indivíduo não participa das decisões do governo. o monárquico.161 DALLARI adota a corrente mais nova que entende que somente existem dois tipos de governos: república e monarquia. A democracia implica sujeitos politicamente livres. possui o poder soberano.163 KELSEN define duas formas de governo: a autocracia e a democracia.164 caius_c 150 . Na autocracia. um só. os governos seriam democráticos ou de dominação. organização e ao exercício. A monarquia. sem lei e sem regra. os governos seriam de fato ou de direito e quanto ao exercício seriam absolutos ou constitucionais. mas através de leis fixas e estabelecidas. aquele onde um só governa.é aquele no qual o povo em seu conjunto. ao passo que.

existe vitaliciedade no cargo mas não hereditariedade. A representativa é aquela em que o poder máximo do Estado é eleito através de votos pelo povo. Só pode ser monarca com seus sufrágios. também. o povo em conjunto possui o poder soberano. O povo. sob certos aspectos. pode ser transmitido por vontade do antigo líder. na democracia. Para MONTESQUIEU república e democracia são sinônimos. tanto na forma direta como indireta. sob outros.“Quando. vitalícia e/ou hereditária. sendo. cujo significado literal é “coisa pública”. Ele considera a expressão do povo através do voto como qualidade fundamental deste tipo de governo .Preferimos o entendimento de que existem duas formas de governo: a representativa e a nãorepresentativa. é. é súdito. Dentro da categoria das não-representativas estão aquelas em que as eleições para a escolha do líder supremo são realizadas por único partido político. pelo partido dominante ou pela cúpula do partido. A principal característica é a necessidade da renovação do poder concedido ou dos elementos que exercem o poder pelo voto do povo. A não-representativa é aquela em que não existe anuência expressa do povo através do voto. o monarca. geralmente. trata-se de uma democracia. O poder. que são suas vontades. Nesta categoria. A vontade caius_c 151 . República República vem do latim “Res publica”. na república. na maioria das vezes.

”165 CÍCERO.do soberano é o próprio soberano. acrescenta que o Estado deve ser governado pelo povo. começou o Africano. executivo e judiciário. Logo. considerando tal. .” 166 DALLARI também afirma que república e democracia são sinônimos. mas a reunião que tem seu fundamento no consentimento jurídico e na utilidade comum.”167 Para RUI BARBOSA. república é a forma de governo onde existem três poderes constitucionais: legislativo. em seu livro “Da República”. embasado em leis e com objetivos comuns a todos – “É pois. não todos os homens de qualquer modo congregados. 169 caius_c 152 .a República coisa do povo. eletividade e responsabilidade política do chefe de governo. . as leis que estabelecem o direito de sufrágio são fundamentais neste governo. tem um sentido muito próximo do significado de democracia. estabelece que nem sempre o povo participaria do governo. considerando isso como uma possibilidade. que é a forma de governo que se opõe à monarquia.168 QUINTÃO SOARES adota a qualificação de república como regime de governo que tem as seguintes características: temporiariedade. uma vez que indica a possibilidade de participação no povo no governo. Destarte.“A república. Os dois primeiros derivariam de eleição popular.

170 AZAMBUJA adota. exceções.172 caius_c 153 . referindo-se ao território governado pelo monarca. tanto da chefia do governo como do Estado. O uso moderno da palavra monarca é geralmente usada para se referir a um sistema hereditário tradicional de governo. que pode ser traduzida como “um líder ou chefe” e. Segundo o Dicionário Houaiss. sendo que monarquias eletivas são consideradas. a palavra foi sendo utilizada para designar outras formas de governo. nominalmente absoluto. refere-se a uma divisão administrativa da Grécia. uma palavra parônima a "monarquia" é nomarquia. a eletividade e temporariedade do chefe de Estado como as principais características da república. Em seu uso moderno. através de eleição com respaldo popular. que vem do grego nomarkhía ("nome" e "governo"). também. Monarquia A palavra monarca vem do grego monarkhia.DE CICCO e GONZAGA adotam o conceito da temporariedade do exercício das funções executivas. no geral.171 O conceito que melhor define a república é aquele que constitui como sua característica principal a transitoriedade da permanência no poder de indivíduo ou grupo. posteriormente do latim monarchìa. como a ditadura. Com o tempo. referindo-se a um soberano único.

Ele acrescenta que é o regime onde se tem a figura de um monarca a exercitar funções executadas. hereditariedade e irresponsabilidade. Se assim não fosse. vitaliciedade e unicidade como as principais características da monarquia. de forma limitada ou não. Diferenças entre república e monarquia Nas monarquias o cargo de chefe do Estado é hereditário e vitalício. uma diarquia. as características fundamentais da monarquia são: vitaliciedade. Segundo DALLARI. nas repúblicas é eletivo e temporário. uma vez que o órgão supremo de poder não é mais o indivíduo só. seria uma oligarquia ou. Essa definição. A unicidade se deve ao fato que somente uma pessoa pode ser considerada como monarca.174 Podemos adotar hereditariedade.Na definição clássica. segundo AZAMBUJA. no sentido de esta ter o mando sobre determinado grupo de outras pessoas perante as quais se impõe. no mínimo. de uma pessoa física. não se aplicaria aos estados modernos. monarquia é a forma de governo em que o poder está nas mãos de um indivíduo.173 FILOMENO conceitua como governo de apenas uma pessoa. O monarca governa durante sua vida ou enquanto tiver condições de fazê-lo e sua escolha se faz simplesmente pela linha caius_c 154 .

depois de Deus. intransferível. devendo dar explicações sobre elas ao povo e às instituições. 175 Ainda de acordo com DALLARI. O trono do rei seria o trono do próprio Deus. pois são a temporariedade. que os príncipes caius_c 155 .176 Deve-se acrescentar à monarquia mais uma característica que historicamente lhe conferiu legalidade: sua constituição divina. que o poder dos reis era concedido por Deus e.) Nada havendo de maior sobre a terra. as características da república são opostas às da monarquia. a segunda é que existiria uma relação entre o tratamento dispensado ao Estado e ao seu filho e sucessor. Em nosso entendimento. eletividade e responsabilidade.. Dizia-se. portanto.177 JEAN BODIN assim escreveu “(. fruto da dignidade da casa real.. A primeira razão é considerar que a monarquia seria a forma mais natural de governo e que se perpetua por si própria. JACQUES-BÉNIGNE BOSSUET apresentou três razoes para justificar o direito divino dos reis.de sucessão. ou ainda alguns dizem. Os cargos são temporários e preenchidos através de votação e o chefe de Estado responde por suas ações. a irresponsabilização do monarca somente caberia em uma monarquia absolutista. a terceira seria a obediência natural dos súditos. O caráter da irresponsabilidade conferelhe a faculdade de não ter que explicar seus atos a ninguém.

caius_c 156 . é necessário lembrar-se de sua qualidade. a fim de respeitar-lhes e reverenciar-lhes a majestade com toda obediência. Em outras eras ou mesmo hoje em alguns países. de Quem ele é a imagem na terra. O sistema republicano contém um ingrediente que estremece as relações Estado-cidadão periodicamente: a mudança de governo e das diretrizes. pois quem despreza seu príncipe soberano despreza a Deus. “O rebelado arremetia com a ordem constituída porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido. e sendo por Ele estabelecidos como seus representantes para governarem outros homens. esse pensamento que predominou no Brasil após a proclamação da república e que determinou a extirpação de Canudos. onde existiam ou existem impossibilidade de ascensão social ou mudanças no estilo de vida.”178 EUCLIDES DA CUNHA mostra em seu livro “Os sertões”.soberanos. considerada como um foco de insurgência restaurativa da monarquia.”179 Esta forma de enxergar a monarquia como um atributo de Deus é um conceito cármico. Prenunciava-o a República — pecado mortal de um povo — heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do anticristo. a fim de sentir e falar deles com toda a honra. principalmente contra o governo. a forma mais prática de atribuir essas limitações ao ser humano para poder controlá-lo é estigmatizar de que tudo não passa de vontade divina e contra a qual não se deve rebelar.

Uma república é um perpétuo renovar de intenções e ações. A república exige politização do indivíduo. Ele tem que escolher e posicionar-se dentro das opções que lhes são oferecidas ou criar outras quando julgar que estas não lhes satisfazem. A rebelião é a única forma de impor-se ao seu governante. Não basta ele apenas se administrar. No Brasil. Além disso. Em uma monarquia clássica. o indivíduo tem que adquirir uma consciência social e tornar-se cidadão por conta de suas próprias afirmações. exige um esforço maior da população ao exigir-se dela que promova as mudanças de governo no tempo exigido pela lei. Na república. em 21 de abril de 1993 foi feito um plebiscito sobre o regime e o sistema de governo.Cada novo governante está imbuído de predisposições pessoais e das do seu partido. Esta necessidade de adaptar-se a cada nova mudança de governo parece assustar aqueles que defendem a monarquia. ele tem o dever e o direito de participar da governança. O povo manteve o regime republicano e o sistema presidencialista. participação popular restringese a um eterno aceitar o que lhe é imposto. caius_c 157 . Este eterno fruir é o que torna a república um sistema de governo passível de evolução. o que implica em confrontar as do governo anterior e fazer mudanças que julga necessário. As hipóteses aventadas foram a monarquia parlamentar e a república e os sistemas parlamentarista e presidencialista.

neste sistema de governo. ao contrário do que ocorre no presidencialismo. Parlamentarismo Seu nome deriva da palavra francesa parler. uma separação nítida entre os poderes Executivo e Legislativo. e do povo. existindo. em que participaram representantes da nobreza. Este apoio costuma ser expresso por meio de um voto de confiança. Estes sistemas de governo tanto cabem no regime republicano como no monárquico. em 1211. na prática. O sistema parlamentarista ou parlamentarismo é um sistema de governo no qual o poder Executivo depende do apoio direto ou indireto do parlamento para ser constituído e para governar. Não há. Considera-se as Cortes em Portugal como tendo sido as antecessoras de um verdadeiro parlamento. do clero. todas as variações possíveis. As primeiras Cortes realizadas em Portugal foram as Cortes de Coimbra.Sistemas de governo Entende-se como sistema de governo a tipificação das relações entre as instituições políticas enquanto que a forma de governo se refere aos seus aspectos macros de organização. QUINTÂO SOARES conceitua-o como forma de regime representativo dentro do qual a direção dos negócios públicos pertence ao parlamento e ao chefe de caius_c 158 . que significa falar.

181 DALLARI expõe como principais características a distinção entre Chefe de Estado e Chefe de Governo. com base nas relações estreitas de dois poderes. o regime parlamentar “repousa essencialmente sobre a igualdade dos dois órgãos do Estado. o Parlamento e o Governo.182 ADERSON DE MENEZES define parlamentarismo como o tipo de governo representativo que.184 caius_c 159 . mediante as técnicas da responsabilidade política do gabinete e da dissolução parlamentar.Estado. 183 Para DUGUIT. coloca o executivo sob confiança do legislativo e conduz a vida estatal equilibrada. chefia do governo com responsabilidade política e possibilidade de dissolução do parlamento para realização de novas eleições. onde o rei é o chefe de Estado e o primeiro-ministro é o chefe do governo. sua íntima colaboração em toda atividade do Estado e na ação que exercem um sobre o outro para se limitarem reciprocamente”. 180 DE CICCO e GONZAGA caracterizam este sistema como aquele em que a figura do Chefe de Estado se diferencia da figura do Chefe do Governo. por intermédio de um gabinete responsável perante a representação nacional. Isto permite sua utilização nos regimes monárquicos.

considerada como solução para o vácuo de poder deixado pela renúncia de Jânio Quadros e a investidura de seu vice-presidente João Goulart38. Este sistema de governo perdurou até o final do Segundo Império. O Brasil teve duas experiências parlamentaristas. alternavam-se no poder. Esta possibilidade permite que ele seja removido rapidamente do cargo ou permaneça nele pelo tempo que durar a confiança que se deposita nele. Este parlamento podia ser dissolvido pelo Imperador a qualquer momento. o da colaboração entre os dois poderes. quando o primeiro-ministro julgar oportuno que uma nova eleição lhe dê maioria. outorgada por Dom Pedro I. portanto. de efetiva representatividade. Foi mais um 38 Também conhecido por Jango caius_c 160 . quando ficou estabelecido que os legítimos detentores da soberania nacional eram o imperador e o parlamento. A segunda experiência foi entre 1961 a 1963. do chefe de Estado e da população. Existe a possibilidade de dissolução do parlamento.Este sistema tem três princípios básicos: a igualdade entre o executivo e o legislativo. A primeira foi implantada pela Constituição de 1824. e a reciprocidade de ação de cada um desses poderes sobre o outro. denominado Assembléia Geral. Dois partidos. carecendo. O cargo do primeiro-ministro pode ser ocupado enquanto ele tiver a confiança do parlamento. o liberal e o conservador.

sua colaboração entre si e sua limitação recíproca. pois dividiu as funções do Executivo entre os membros do Conselho de Ministros. ordinariamente. Presidencialismo O presidencialismo reúne em uma só pessoa o chefe de Estado e o chefe do governo. AZAMBUJA caracteriza o presidencialismo pela independência dos poderes. O Poder Executivo é exercido de maneira autônoma pelo Presidente da República. a chefia é unipessoal.185 DALLARI indica as seguintes características do presidencialismo: o presidente da república é chefe do Estado e chefe do governo. b) caius_c 161 .sistema semi-presidencialista do que parlamentarista. que atua como chefe do Estado e do Executivo. não respondendo. O Presidente da República é eleito para mandato determinado. perante o Poder Legislativo. a escolha é através de voto e por prazo determinado.186 DE CICCO e GONZAGA enumeram as seguintes características do presidencialismo:187 a) A chefia de governo e a chefia de Estado ficam concentradas nas mãos de uma única pessoa: o Presidente da República. sendo que o presidente tem poder de veto.

não pode ser dissolvido por convocação de eleições gerais pelo Poder Executivo. que livremente os escolhe e demite. entregues a pessoas da confiança do presidente. ao enfeixar as funções de chefe de Estado e de governo. de igual forma.c) d) e) O Presidente da República possui ampla liberdade para formação de seu ministério. sendo inviável em uma monarquia. O exercício do comando supremo das forças armadas. 188 QUINTÃO SOARES conceitua presidencialismo como o sistema político representativo no qual a direção dos negócios públicos se concentra no órgão unipessoal do Presidente da República. os encargos presidenciais abrangem sumariamente:189 a) A chefia da administração. A chefia de governo deve ter poder de veto e ser legitimada por vontade popular. A direção e orientação da política exterior com atribuições de celebrar b) c) caius_c 162 . BONAVIDES assinala que a responsabilidade do presidente é penal e não política. Para ele. responsáveis perante este. ele responde por crime de responsabilidade no exercício da competência constitucional. e É compatível apenas com República. O Parlamento. através de ministérios e serviços públicos federais.

"constitucionalismo é a teoria que ergue o princípio do governo limitado indispensável à garantia dos direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade. que define a estrutura governamental. debaixo das ressalvas do controle exercido pelo poder legislativo. O conceito de constitucionalismo transporta. um claro juízo de valor. ninguém deve estar acima das leis. uma teoria normativa da política. declarar guerra e fazer paz."190 DALLARI afirma que três grandes objetivos resultaram no constitucionalismo: a afirmação da supremacia do indivíduo. Por princípio. caius_c 163 .tratados e convenções. Constitucionalismo Segundo definição de CANOTILHO. 191 Não se considera o constitucionalismo como uma forma de governo e sim o uso de leis de cunho geral. o constitucionalismo moderno representará uma técnica específica de limitação do poder com fins garantísticos. tal como a teoria da democracia ou a teoria do liberalismo. É. no fundo. assim. a necessidade de limitação de poder dos governantes e a crença na racionalização do poder. seus poderes e suas limitações. nos termos estatuídos pela Constituição. geralmente uma constituição. Neste sentido.

O que o consagra nesta classificação é a efetiva subordinação do indivíduo e do Estado às leis. Absolutismo Absolutismo é a concentração de todos os poderes do Estado em uma só pessoa. que tipifica a concentração de poderes no Estado absolutista e o pensamento daquele que o detém. independente de outro órgão. Pode-se dizer que ele foi o regime predominante em toda a História humana . seja ele judicial. O absolutismo é uma teoria política que defende que uma pessoa (em geral.A simples presença de uma Constituição ou leis formalizadas equivalentes em determinado Estado não conduz necessariamente à sua classificação como constitucionalista. legislativo. um monarca) deve deter um poder absoluto.Em muitos casos ele assumiu a identidade do seu máximo governante. o culto à personalidade foi 39 40 O Estado sou eu 1638-1715 caius_c 164 . isto é. O absolutismo compreende ou compreendeu muitas formas. L`Etat c`est moi39 é uma célebre frase atribuída ao rei Luis XIV40 da França. no apogeu do Estado absolutista. Em outros. religioso ou eleitoral.

instalado e a identificação do regime derivou-se do nome do próprio governante. é uma filosofia política que engloba teorias e ações que visem a eliminação de todas as formas de governo compulsório. Anarquismo Anarquismo vem do grego anarkhos. anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita. e que os verdadeiros interesses da sociedade – quaisquer que sejam os grupos. defendendo tipos de organizações horizontais e libertárias. ou seja. BAKUNIN. Uma das visões do senso comum sobre o tema é o que se denomina por "anomia". na realidade. Existe em torno desta questão um debate acerca da necessidade ou não de uma moral anarquista. uma mentira. Está claro que todos os chamados interesses gerais que o Estado deveria representar são de fato uma abstração. anarquia significa ausência de coerção. De um modo geral. ausência de leis. considerado o maior expoente do anarquismo. ou se a natureza humana bastaria por si só na manutenção pacífica das relações. Para os anarquistas. vocifera contra a opressão do Estado face aos seus cidadãos: “É óbvio que a liberdade não será restituída à humanidade. organizações sociais ou indivíduos que a compõem – só serão satisfeitos quando os Estados não mais existirem. não são nada mais que a caius_c 165 . que significa "sem governantes". uma ficção. e não ausência de ordem. Estes interesses.

um vasto cemitério no qual. em 1922. No município de Palmeiras. comunas. As greves de 1917. as partes e o todo. Entre 1909 e 1919 são criadas escolas para trabalhadores nos moldes da doutrina. O Estado é um enorme matadouro. trazido pelos imigrantes europeus. o anarquismo chegou por volta de 1850.”192 No Brasil. interático e interretroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto.negação total e contínua dos interesses reais das regiões. Complexidade Para EDGAR MORIN complexus significa o que foi tecido junto. de fato. as partes entre si. 193 caius_c 166 . 1918 e 1919 foram comandadas por eles. o movimento perdeu força e deixou de ter alguma representatividade política. sob a sombra e o pretexto de abstração. Por isso. há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo e há um tecido interdependente. chegou a ser estabelecida a Colônia Cecília por imigrantes italianos. entre 1890 e 1893. o todo e as partes. no Paraná. no Rio de Janeiro. Com a fundação do Partido Comunista. associações e da grande maioria dos indivíduos submetidos ao Estado. regida pelos princípios anarquistas. todas as reais aspirações e forças ativas de um país deixaram-se enterrar generosa e pacificamente. a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade. Em 1906 é organizado o Congresso Operário. . que define práticas de ação anarquista.

Nas sociedades simples não existe a necessidade da figura do Estado. O que pode ser totalmente dispensável em uma sociedade pode ser de vital premência em outra. via de regra. Com o crescimento demográfico. As necessidades do indivíduo e da própria comunidade são prontamente apresentadas e as soluções. Com mando direito e fácil recepção da autoridade pelo indivíduo. são rápidas e facilmente assimiláveis. que implica necessariamente em um território maior para sua acomodação. um sistema mais complexo seria incoerente e até inaceitável. Dentro da evolução de uma sociedade simples para uma mais complexa. Neste momento é que deve surgir o Estado para nortear a vida dentro da sociedade. Esta complexidade é proporcional ao número de cidadãos. novas necessidades vão surgindo e algumas terminam por se tornarem básicas. caius_c 167 . Se mantivéssemos outras e excluíssemos esta. a sociedade seria apenas uma tribo. Sem uma linha mestra para alinhavar os pensamentos do indivíduo e os da comunidade. As necessidades básicas do indivíduo são as mesmas dentro de uma sociedade simples ou complexa mas apresentam formas distintas para sua satisfação.Complexidade é uma das características do Estado. apenas a figura de um dirigente ou um conselho. as linhas de comunicação entre os que governam e os que são governados tornam-se frágeis e quase inaudíveis. emerge uma ruptura e inicia-se um processo anômico.

caius_c 168 . três delas são consideradas como principais: legislativo. Apesar do poder do Estado ser uno e indivisível. No entanto. ideologias e outras. Esta complexidade proveniente da natureza da própria sociedade obriga que o mando não consiga ser direto. existe a necessidade de que ele flua através de órgãos ou instituições para que surta efeito até o comum cidadão. edifícios. etc. contingente de pessoas.O Estado é complexo por sua própria natureza. executivo e judiciário. As materiais são compostas pela estrutura física onde o poder do Estado é centralizado tais como prédios. Sua principal característica é a observação de preceitos pela comunidade que os considera como forma de conduta pessoal e coletiva. Instituições Instituições são as estruturas do Estado criadas para disseminação do seu poder. Formais são aquelas que induzem comportamentos como leis. costumes. Podem ser escritas ou não. Elas podem ser de dois tipos: materiais e formais. A não aderência aos seus pressupostos pode provocar sanções sociais ou estatais. Sua composição varia de acordo com o regime ou sistema político. Inclui-se nesta categoria a estrutura de poder.

o executivo governa e a judiciário regula o equilíbrio entre os poderes. Bodin acreditava que o poder soberano dos príncipes e reis era delegado diretamente por Deus a eles. pois. na sua forma mais abrangente. sancionadas pela força. Significa. nunca internacional. Como República leia-se Estado. exclusivo e auto-determinante de dar ordens incontrastáveis. a soberania advém do poder que se origina do povo – “somente a vontade geral tem possibilidade de dirigir as forças do Estado. isto é.195 Para JEAN-JACQUES ROUSSEAU. se a oposição dos interesses particulares tomou necessário o estabelecimento das sociedades. o bem comum. chegando a dizer que soberania é só interna. Estado e sociedade. O primeiro a estabelecer uma definição para soberania foi JEAN BODIN que diz que “soberania é o poder perpétuo de uma República”. foi a conciliação desses mesmos interesses que a tornou caius_c 169 . Estas três instituições dispõem de ramificações suficientes para que seu poder atinja todos os segmentos sociais. segundo o fim de sua instituição. 194 SAMPAIO DORIA define soberania como o poder supremo.Cada uma delas tem uma função: o legislativo faz as leis. aquilo ou aquele que está acima de outros. Soberania A palavra soberania vem do latim medieval superanus e era aplicada a todos que estavam no alto de uma ordem qualquer.

um decreto. não pode ser representado a não ser por si mesmo. indivisível.196 O pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus membros. em texto de 1922.possível”. o que equivale a propor para o Estado. jamais se pode alienar. não porém a vontade. é perfeitamente possível transmitir o poder. se chama soberania. que outra coisa não sendo a soberania senão o exercício da vontade geral. indelegável. perpétua e poder supremo. que nada mais é senão um ser coletivo. no segundo.” 200 caius_c 170 . dirigido pela vontade geral. e que o soberano. Para ele a soberania era inalienável e indivisível – “Digo. soberania é poder que emana da nação ou da sociedade representada por aqueles que atuam em seu nome. no máximo. ou apenas de uma de suas partes. e esse poder é aquele que. a fonte de todo direito e de toda lei. irrevogável. é a vontade do corpo do povo. a soberania é indivisível. porque a vontade é geral. a soberania é uma.” – “Pela mesma razão que a torna alienável. não passa de uma vontade particular ou um ato de magistratura: é. pois. 198 Para EMMANUEL J. No primeiro caso.”197 Para JEAN BODIN. chamado “Teologia Política” define: “É soberano aquele que decide sobre situação excepcional”. essa vontade declarada constitui um ato de soberania e faz lei. SIÉYÈS. 199 CARL SCHMITT. ou não o é.

A primeira dita que os caius_c 171 . em si mesma. quando. Titularidade do direito da soberania As tentativas de legitimação da soberania originaram doutrinas teocráticas e democráticas. é ela. a soberania é conceito histórico e relativo. um conjunto autônomo de princípios jurídicos. Aparece então o Estado como portador de uma vontade suprema e soberania .a suprema potestas. de regras e institutos sociais e políticos justificadores do poder nacional. todos baseados na origem divina. 201 De acordo com ROSEMIRO PEREIRA LEAL. Externamente. As teocráticas estabeleceram três princípios. a rigor. soberania é declarada como princípio ou fundamento necessariamente vinculado ao Estado. a soberania é apenas qualidade do poder. É a exteriorização da sua vontade de comandar seu próprio destino.Para GISELE LEITE. ainda que considerado como elemento essencial do Estado conforme Jellinek que se preocupa com a soberania sob prisma do direito internacional como um dado essencial constitutivo do Estado. 202 Podemos definir soberania como a capacidade gerencial de cada país. A soberania interna fixa a noção de predomínio que o ordenamento estatal exerce em certo território e numa determinada população sobre os demais ordenamentos sociais. que a organização estatal poderá ostentar ou deixar de ostentar.

não cabendo. As democráticas estabelecem que o titular do direito da soberania é o povo e o Estado. povo e Nação formam uma só entidade. a da investidura providencial. compreendida como um ser abstrato e personificado. não existe possibilidade de contestação ou insubmissão a ele. Neste caso. pois isto significa blasfêmia ou sacrilégio. caius_c 172 . A terceira. mas o investido nele mantém sua condição humana. onde cada fração de soberania individual é componente do todo. A soberania nasce como um sentimento inicial derivado da posse de um território ou de alguma coisa. dotado de vontade própria. A doutrina da soberania popular funda-se sobre a igualdade política dos cidadãos. o que seria uma heresia. superior às vontades individuais.governantes são seres divinos e o seu poder foi dado diretamente por Deus. a condição de governante é dada por Deus. A segunda. admite que apenas a origem do poder é divina. permitindo eventual participação dos governados na escolha dos governantes. Soberania. Em todas elas reside a vinculação do poder dos homens com o poder divino. também. ocorre uma investidura de poder por um elemento superior aos homens. A doutrina da soberania nacional estabelece que a Nação é a depositária única e exclusiva da autoridade soberana. Soberania e Estado A soberania nasce da necessidade humana de definir limites de posses para si ou para um grupo. nenhuma insubmissão contra ele. o governante é o próprio deusvivo.

toma para si e se julga apto a cuidar. novos componentes são agregados ou modificados. de acordo com a evolução das relações entre os países. tanto físicos como ideais. nas suas caius_c 173 . Como limites territoriais podemos estabelecer a definição clara de todos os componentes da soberania em si. Indo um pouco mais além. Não se deve confundir limites territoriais com limites geográficos pois aqueles vão muito alem desses. a soberania toma outra forma mais abrangente: soma-se ao sentimento de posse a capacidade de mantê-lo sob seu domínio. a cada dia.na sua fase inicial. é tudo aquilo que o ser humano. O espaço soberano não é imutável pois. Partindo desse sentimento inicial. quer seja para sua própria sobrevivência ou como forma de situar-se dentro de um espaço que julgue seu. a soberania fica apenas no plano das idéias. Sem essa capacidade de domínio. como indivíduo ou como grupo. A soberania se transforma na capacidade de administração de um espaço sem a interferência de elementos estranhos. Ao sentimento de soberania soma-se o espaço que se determina como pertencente ao grupo em todas as suas formas. a soberania se transforma na forma ideal de ter sob uma jurisdição todos os elementos que compõe esse espaço soberano que considera como essencial para a sobrevivência do grupo. O espaço soberano é composto de um limite territorial e de todos os elementos dentro dele.

o Estado terá que se valer de seus elementos para manter o domínio sobre o espaço caius_c 174 . A soberania tem duas formas: a) a do Estado b) a do indivíduo. um de seus componentes é sua própria reafirmação constante. A soberania tem que ser reafirmada constantemente. Quem não reafirma sua soberania. o Estado precisa ter forças suficientes para manter a jurisdição sobre o espaço soberano. Quando o Estado é desvinculado de seu povo. como podemos reafirmá-la constantemente? A resposta vem das condições dos sentimentos que julgamos necessário manter.mais diversas formas. perde-a rapidamente. Sendo um sentimento. O espaço soberano é aquele que se toma como idéia a partir do sentimento de soberania e os limites territoriais são a definição desse espaço. por isso. essa tarefa pode se transformar em sua exclusiva competência. É igual aos sentimentos familiares ou de amizade que precisamos renovar constantemente. Sempre ela se vê ameaçada por diversos fatores e. Para poder existir. As pretensões que temos com relação a ela não são inertes. dando demonstrações efetivas para que não se solapem ou desapareçam. Não tendo apoio do povo. Um Estado que se mantenha apenas pela repressão não terá apoio efetivo de seu povo.

Nesse ponto. A soberania parte de um sentimento individual e se completa quando atinge a maioria dos elementos do povo que o tem na mesma forma. ocorre uma transformação nesse último: o indivíduo toma a forma de cidadão. até preferirá que o Estado que o oprime seja deposto. Existindo uma reciprocidade de cuidados entre o Estado e o indivíduo. algumas vezes. o próprio indivíduo encarrega-se da manutenção da soberania juntamente com o Estado. a) A soberania própria restringe-se aos elementos que compõe seu universo individual e sobre o qual tem domínio. b) A coletiva é aquela em que o indivíduo adere ao conceito estatal de soberania. Um indivíduo tem dois tipos de soberania: a própria e a coletiva. Um povo sem o sentimento de soberania é um povo que tenderá a desaparecer através de sua pura e simples extinção ou através de sua assimilação por um povo invasor. Tomando a forma de cidadão.soberano. um povo reprimido pelo seu próprio Estado não se importará quando sua soberania estiver ameaçada por outros povos e. as mesmas. praticamente. Como regra geral. Em um Estado sintonizado com as necessidades de seu povo. o Estado torna maior sua função de cuidar dos cidadãos e os caius_c 175 . na esperança que aqueles que o derrubaram façam com que sua vida seja melhor. os conflitos entre Estado e cidadão tornam-se menores e as necessidades de um e de outro passam a ser.

O cidadão deve ao Estado na mesma proporção em que o Estado deve para o cidadão. Nenhum Estado tem sentido se não foi estabelecido com base em uma reciprocidade.a soberania econômica . Sendo a formalização da Constituição a positivação dos ideais de uma sociedade. ela transforma-se na formadora dos limites territoriais que deseja para a sua soberania e do seu cidadão. O Estado deve servir e não superar-se em forma além daquilo que o cidadão deseja para si e para a sociedade. Preservando a soberania do Estado e do cidadão. O Estado não é um objeto. Podemos até dizer que um Estado nesse estágio se transforma em um “grupo familiar ideal” onde cada um cuida de outro para que todos ganhem mais com o esforço coletivo.a soberania cultural caius_c 176 .a soberania militar . O Estado não é de ninguém. Soberania e sua composição A soberania é composta de vários elementos. Para que seja completa existe a necessidade dela se manter igualmente nas três formas abaixo: .cidadãos cuidam para que o coletivo que o Estado administre seja mais ameno. estabelece-se a preservação dos próprios direitos e deveres formalizados pela Constituição. O Estado é humano.

Mesmo que alguns países não a detenham por si próprio. Com o potencial de destruição em massa que dispomos. os demais países procuram abafar esses focos para que eles não se transformem em algo que os atinja. Pontos de conflitos interferem na economia e estabilidade política mundial. embora nesse caso esteja mais vinculado a uma dominação militar do que manutenção da soberania propriamente dita. Os pontos de conflitos existentes são aqueles que existem desde tempos remotos e os que surgem são prontamente reprimidos pelos órgãos internacionais.Por princípio. podendo alastrar-se para outros países. Outros países se preservam através da neutralidade como a Suíça ou com pactos de não agressão. É certo que alguns países como os Estados Unidos e Inglaterra mantêm entre si uma cooperação nesse sentido. podemos dizer que a soberania militar é a mais fácil de ser mantida. Assim sendo. essa soberania militar pode ser ampliada através de tratados como os da Otan ou do antigo Pacto de Varsóvia. como o Japão. A necessidade da manutenção da paz vai alem dela própria. Historicamente estamos em um período em que as invasões militares são relativamente pequenas em relação ao passado. a probabilidade da extinção da espécie humana por ela própria torna-se maior quando explode um conflito. Por vezes. caius_c 177 . essa soberania militar pode ser delegada a outros governos ou órgãos mundiais.

podemos dizer que o maior fator de dominação econômica partirá das empresas gigantescas que estão se formando. Esse fenômeno surgiu a partir da intensa inovação tecnológica. Mercosul e outros. Apesar desses grupos econômicos formados por países. O nível de compra de empresas ou formação de grupos econômicos está em seu nível mais alto e isso determinará a economia mundial e a soberania de cada país. Por soberania cultural devemos entender a forma de comportamentos. Os grupos econômicos estão dominando o planeta e se imiscuindo na administração dos Estados. e poderá. a longo prazo. A soberania economia estará vinculada à capacidade que o país tem de se manter economicamente viável. Torna-se mais difícil a cada dia uma empresa manter-se sem essa união com outras. independente ou autosuficiente. O país que não conseguir manter sua soberania econômica estará fadado ao insucesso como nação e terminará por ser administrado por essas companhias ou pelos seus países de origem. determinar a forma econômica como o mundo deverá se comportar.A soberania econômica. Outro ponto foi a criação de grupos econômicos como a União Européia. A rede mundial de computadores foi um dos pontos mais fortes dessa nova fórmula de convivência mundial. Nafta. principalmente nas informações. atualmente. idéias e ideais sob os quais um grupo se une e se identifica. está bastante vinculada à dita “globalização”. A cultura é o primeiro dos caius_c 178 .

Essas teorias propiciaram invasões em países árabes e a colocação de governos subordinados aos seus interesses nos países sul-americanos. A soberania cultural é o primeiro ponto a ser atacado pelos grupos econômicos. Um povo que descarta sua cultura em função de uma cultura externa sentir-se-á mais identificado com a cultura invasora do que com sua própria. Aculturando-se o povo. fazem parte desses ideais ou idéias que procuram manter a dominação econômica e cultural de outros povos em benefício de outro. Para se vender é necessário que o produto seja aceito e para que isso aconteça é necessário que o povo o tome como necessário ou fundamental para sua sobrevivência ou apenas para sentir-se conjugado com o coletivo. caius_c 179 . frontalmente contra os interesses dos seus próprios povos. Perdendo sua identidade cultural. podemos citar a teoria americana que considera a América do Sul como seu “quintal” e os países árabes como “fornecedores de petróleo”. Como exemplo. A famosa “Doutrina Monroe” e o “Plano Marshall”. conduzidas pelas idéias do “Destino Manifesto”. o Estado deixa de ter as funções precípuas das quais deveria se compor e transforma-se apenas em um elemento da dominação externa que deveria combater.elementos que define um povo como Nação. visto que os laços existentes são comuns a todos e todos os entendem como necessários para sua própria existência. o país se tornará apenas uma extensão daquele que o aculturou.

de 1789. Sendo adequado. A capacidade de um Estado em manter sua soberania é o que determina sua duração. no seu parágrafo 3º. diz: “O princípio de toda soberania reside essencialmente na Nação. da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 caius_c 180 . pode exercer autoridade que aquela não emane expressamente. o Estado se transforma no pólo positivo que se conjuga com o cidadão para manter a energia vital dos quais os dois se nutrem.A não manutenção da soberania gera uma subcultura voltada aos interesses daqueles que impingem a própria sobre outros povos e conseqüente dependência econômica. Nenhuma corporação. através da relação democrática entre eles: 41 Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III). de 1948. expõe a necessidade da soberania do indivíduo e do Estado.. Sendo fraco. Soberania e sua manutenção A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. nenhum indivíduo. o Estado se perderá e ao seu povo. O elemento – soberania territorial – é conseqüência da manutenção das três soberanias citadas acima.” A Declaração Universal dos Direitos Humanos41. no seu artigo XXI.

especificamente distinto dos poderes dos Estados nacionais. Em tese. A própria Organização das Nações Unidas reflete a preocupação com seu poder soberano sobre as nações no seu art. define o seguinte:204 Artigo 1. A de Portugal. sendo uma Declaração Universal dos Direitos Humanos e não atingindo determinados países. diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. A vontade do povo será a base da autoridade do governo. em seus princípios fundamentais. esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas. baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade caius_c 181 .1.Portugal é uma República soberana.” 203 A preocupação com a soberania do Estado e do indivíduo encontra-se expressa em muitas constituições. pode se entender que não existe o reconhecimento daqueles que tem este tipo de governo como um Estado efetivo. 493.º . 3. Essa declaração exclui os governos autocráticos pois estes não têm sua legitimidade baseada na vontade do cidadão. por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto. por sufrágio universal. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país. onde diz que “O poder internacional é autônomo e soberano.

reside no povo.Esta Constitución garantiza el pleno ejercicio de los derechos políticos. igual. El sufragio es universal. con arreglo al principio de la soberanía popular y de las leyes que se dicten en consecuencia.. caius_c 182 .A República Portuguesa é um Estado de direito democrático.popular e empenhada na construção de uma sociedade livre.Las declaraciones.1. no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes. Na Constituição argentina declara-se também sua capacidade soberana e a origem da mesma:205 Artículo 33.. baseado na soberania popular. A soberania. derechos y garantías que enumera la Constitución. justa e solidária. que a exerce segundo as formas previstas na Constituição. una e indivisível.º . pero que nacen del principio de la soberanía del pueblo y de la forma republicana de gobierno. visando a realização da democracia econômica. social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa. Artículo 37. Artigo 3. no pluralismo de expressão e organização política democráticas. Artigo 2. secreto y obligatorio.º . no serán entendidos como negación de otros derechos y garantías no enumerados.

el Libertador. Son derechos irrenunciables de la Nación la independeicia. na sua parte I. Sociais e Econômicos do Estado: Artículo 3.De la Soberania . del cual dimana todo el poder del Estado.. dos direitos. A Constitución de la República Bolivariana de Venezuela. conforme con lo dispuesto en esta Constitución. que la ejerce. assim diz. Fundamentos Políticos. la soberania. dos deveres e das garantias. caius_c 183 . en la doctrina de Simón Bolívar. La República Bolivariana de Venezuela es irrevocablemente libre e independiente y fundamenta su patrimonio moral y sus valores de libertad. en la forma y según las normas fijadas por la Constitución y las leyes. assim define: Artículo 2 . em suas declarações fundamentais. la integridad territorial y la autodeterminacion nacional.En la República de Cuba la soberanía reside en el pueblo. no seu Capítulo I. Ese poder es ejercido directamente o por medio de las Asambleas del Poder Popular y demás órganos del Estado que de ellas se derivan. Título I. Princípios Fundamentales.En la República del Paraguay y la soberanía reside en el pueblo.A Constituição de Cuba. Titulo I. atualizada em 2002. igualdad. A Constituição do Paraguai de 1992. la inmunidad. diz:206 Artículo 1. la libertad. justicia y paz internacional.

por las autoridades que esta Constitución establece. Ningún sector del pueblo ni indivíduo alguno puede atribuirse su ejercicio. caius_c 184 . Su ejercicio se realiza por el pueblo a través del plebiscito y de elecciones periódicas y.A Constituição do Chile estabelece suas bases soberanas::207 Artículo 5º . Todo o poder emana do povo. Parágrafo único.o pluralismo político. también. nos termos desta Constituição. 1º A República Federativa do Brasil. constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I .a soberania. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. diz: Art. IV .-La soberanía reside esencialmente en la Nación. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. A Constituição do Brasil de 1988. II . dos princípios fundamentais.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.a cidadania. no seu Título I.a dignidade da pessoa humana. III . V .

pois lhe permite a participação apenas na escolha de seus representantes e não lhe dá nenhum poder para retirá-los da administração do Estado quando a confiança do voto que lhe deu for abalada por infrações caius_c 185 . ou seja. o conceito de soberania do povo. o Estado fundamenta-se sobre a soberania. sem ela o Estado não existiria como tal. conforme disposto na Constituição Federal de 1988. o conceito de soberania está vinculado a uma forma democrática de Estado pois assegura que nenhum indivíduo pode exercer-la por si só em conformidade com o disposto na Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão de 1789. sendo que a sua competência é do Congresso Nacional e da União. Na do Chile existe o conceito de que a soberania está na Nação e é exercida pelo povo através de plebiscitos e eleições. No entanto. O Estado mantém o cidadão e o cidadão promove o Estado. Essa preocupação expressa pelos países nas suas constituições em manter sua soberania é a forma de situar-se como elemento controlador de seu espaço através do Estado e tendo como base o seu próprio povo. e ao povo cabe a sua expressão apenas através do voto. Neste caso. na Constituição. a soberania é de responsabilidade do povo que a exerce através dos governos. fere o próprio conceito da soberania em si. Argentina e Paraguai. No Brasil. Portugal.Entre as constituições de Cuba. conforme disposto em suas constituições.

A partir do momento em que a damos para outro.da lei. Existe uma limitação da soberania do indivíduo em contraposição à soberania do Estado. Quando o cidadão passa a fazer parte do Estado. partem do próprio Estado e. mas complementares e justapostas. A soberania do indivíduo é limitada pelo próprio Estado e existe uma separação forte entre as duas partes: de um lado o indivíduo e de outro o Estado. O correto seria que a soberania do Estado e do cidadão não fossem separadas. pois não lhe confere nenhum poder alem desse. como se fossem dois quadros transparentes que ao serem colocados um sobre o outro determinassem a real imagem. Não se pode outorgar sua própria soberania a outro e isso a elimina naturalmente. Essa aparente soberania do indivíduo em relação à eleição de seus representantes. visto que outorga apenas parte de poderes ao cidadão enquanto que lhe dá plenos poderes quando o mesmo passa a fazer parte da máquina estatal. Os mecanismos que existem. podem se tornam ineficazes no controle dos representantes do caius_c 186 . na verdade tolhe a própria. como as CPIs. É como se essa transmigração lhe desse poderes que não pudessem ser tirados ou lhe dessem privilégios além daquilo que a lei permite. por isso. ambas estão claramente definidas e situadas dentro de um espaço em que não se completam. ou seja. nós a deixamos de ter. ele passa a ter prerrogativas que não teria se fosse um comum. É uma separação de corpos que inviabiliza os principais conceitos da própria democracia.

Como as exigências são grandes para se firmar como iniciativa popular. caius_c 187 . onde. Essa interpelação do cidadão frente ao seu eleito reforçaria os laços que os ligaram durante as eleições. quando esses não tiverem a atuação conveniente.povo. alínea III. pode ser posta em votação na Câmara dos Deputados alguma lei vinda diretamente do povo. É algo um tanto vago visto que o povo não tem poderes e nem força. Seria a forma de cobrar os políticos pela sua atuação. Partindo dessas duas responsabilidades sobre a soberania: a do povo e do Estado. pois os delega ao Estado para que o exerça em nome dele. visto que sua composição é feita pelos próprios parlamentares. Para que a soberania do povo seja mantida é necessário a criação de canais judiciais para interpelação dos políticos pelo indivíduo. essa forma de soberania se torna inócua. podemos dizer que a mesma pode existir de três formas: a) A soberania exercida pelo povo b) A soberania exercida pelo Estado c) A soberania exercida em conjunto pelo Estado e pelo povo A soberania exercida pelo povo restringe-se apenas àquela em que o mesmo protege-se e aos seus direitos frente ao seu próprio governo. A única abertura que existe é no artigo 14. nos termos da lei.

Ao usar energia e capacidade para manter-se. efetivamente. Como o Estado dispõe de aparelhagem própria. o Estado torna-se apenas a propriedade de alguns. existe uma distância entre povo e Estado na maioria dos países. ele não a usa para o benefício da Nação. o conceito de soberania atende apenas à manutenção de uma classe no poder dentro de um território. Deixando de ser Estado. O argumento de que a composição do Estado é feito a partir do povo é acadêmico. pois passam a considerar esses como uma posse sua e se dão ao direito de usá-los como lhes caius_c 188 . Um Estado totalitário é um desperdício e um retrocesso. Tornando-se uma propriedade privada. pois sua concepção de governo o afasta da população e a oprime para que não ocorram revoltas ou a própria derrubada dos governantes.A soberania exercida pelo Estado é a mais comum. Não beneficiando a Nação. Com a opressão do próprio povo. pois. O Estado precisa se manter soberano para que as oligarquias regentes continuem a ter as vantagens do poder. é certo que somente o mesmo teria condições de manter a própria soberania. ele deixa de ser Estado. ele sujeita-se os ditames comerciais pelos quais se regem as propriedades privadas. pois somente ele dispõe de órgãos especializados para isso. Nos países totalitários somente existe essa condição. Esse mesmo pensamento pode ser usado com os Estados que desrespeitam a soberania de outros Estados.

Um Estado que admite outro como sua propriedade perde o direito de ser Estado e passa a ter a mesma condição deste. Um Estado democrático de direito ainda é um ideal distante. Mesmo nos países dito democráticos existe um distanciamento entre o Estado e o povo.convém. Neste estágio. Podemos até dizer que o Estado se tornar em um Status Magnus. divergindo totalmente daqueles que existem atualmente. Uma idéia que parta de um oposicionista jamais vingará por melhor que seja. Um Estado somente se torna soberano quando está sintonizado com seu povo e a ele se dedica. visto que sua implantação favorecerá politicamente a este. o cidadão passa a utilizar o Estado em benefício próprio e do grupo que está representando. o Estado atinge sua real dimensão que é a de cuidar do povo que representa. A partir do momento em que é eleito. o conceito de Estado passa a ser outro. deixando de atuar para aqueles a quem realmente deveria. Exemplos típicos são a concessão de orçamentos especiais para determinados setores da sociedade ou para determinadas regiões onde se espera um resultado político. onde a sua existência está totalmente vinculada a caius_c 189 . Cuidando do povo que o representa. Nesse estágio. existe a reciprocidade: o cidadão passa a encarar o Estado como seu benfeitor e usa das formas que lhe cabe para solidarizar-se com esse Estado. A soberania exercida em conjunto pelo Estado e pelo povo seria a ideal.

ele se mantém graças a ela e sua contínua reafirmação. Enquanto direito. Países com economias fracas ou pobres terão dificuldades na manutenção de sua soberania. a soberania está diretamente ligada à economia e seu reflexo sobre o bem estar do cidadão. A soberania como um direito do Estado Exercer a soberania é dever do Estado e é também seu pleno direito. a existência do Estado está ligada diretamente ao seu exercício. somente existe quando as condições lhes são favoráveis. são concorrentes e a existência de um determina a de outro. na sua forma de Justiça. caius_c 190 . O próprio Direito. ela é exercida pelo povo e/ou pelo Estado. sua função básica de proteger direitos e distribuir deveres é inexistente. Sendo assim. Sendo um dever. Alem dessa reciprocidade entre Estado-cidadão.satisfação das necessidades do cidadão em conjunto com as suas próprias. seu uso restringe-se à manutenção do Estado e não lhe confere o grau que deve ter. Embora o Estado tenha inicialmente nascido a partir de um sentimento de soberania. Em países totalitários ou imperialistas. Dependendo da forma política na qual o Estado situa-se. não existindo um Estado sem uma soberania e não existindo a soberania se o Estado e/ou povo não a exercer.

Costuma-se dar o nome de imperialismo a essa negação do direito à soberania às nações. os povos organizados em forma de Estado sempre negaram esse direito às Nações.Retirando o direito à soberania de um Estado. negou totalmente esses direito às nações Indígenas que habitavam o seu atual território e em cima dessa negação à sua soberania. “defesa da democracia” ou “pela paz mundial”. Se a vontade de outros prevalece sobre o Estado. Em caius_c 191 . XIX e XX. a Nação. mesmo que os motivos alegados para isso tenham sido de “ordem humanitária”. Perdendo a autonomia. o Estado não teria o próprio direito de se afirmar como tal. podemos ver mais claramente isso. durante a época de sua formação como o país que conhecemos. como a África. o Estado deixa de ter jurisdição sobre seus limites e conseqüentemente deixa de ter as qualidades necessárias para ser um Estado. vendo-as apenas como elos fracos e tomando-as sob sua jurisdição. Quando não constituída na forma de Estado. dizimou-as e lhes tomou seus territórios. Sem o direito à soberania. Podemos considerar a Invasão do Iraque em 2003 como negação de sua soberania. onde as nações européias e os Estados Unidos. dividiram continentes. no conceito que conhecemos. ele torna-se apenas um território onde a vontade de outros prevalece. não tem esse direito. No século XVIII. Os Estados Unidos. então ele deixa de ser autônomo. entre si e consideraram as Nações como parte de seu próprio Estado. Historicamente.

2006 iniciou um debate a respeito da balcanização do Iraque. segundo Bonavides. ou seja. Nos Bálcãs. que conseguiu recuperar sua soberania antes nas mãos dos Estados Unidos. de acordo com a etnia curda e as divisões muçulmanas xiitas e sunitas. que deve ter um primado sobre a ordem nacional. Soberania e os tratados internacionais Os conceitos de soberania são vistos com suspeição. no entanto. sua divisão em três Estados. um Estado que perde sua soberania tende a desaparecer como Estado. isso deveria ocorrer em outras regiões como o país Basco e Irlanda do Norte. essa separação trouxe alguma paz à região. Como se vê. cujos desejos de autonomia geraram a formação de grupos ditos terroristas que lutam ou lutaram pela sua própria soberania. Inglaterra e Rússia. sua divisão em países. segundo alguns especialistas. transformaria em governáveis as regiões. Em tese. então. ou. Já separados naturalmente dentro do território iraquiano. o contrário com a reunificação das Coréias como já aconteceu com a Alemanha. a formação de um Estado xiita. com a maior parte do petróleo iraquiano em seu território. pois existe uma necessidade de criar uma ordem internacional. favoreceria um Irã atômico que aumentaria sua influência na região e um Curdistão que poderia querer tomar parte do território turco onde vive uma parcela da população curda. como muito já aconteceu na história das Nações. 208 caius_c 192 .

Os tratados internacionais. tornam-se parte integrante da lei. Em um mundo ideal. representam uma extensão da própria soberania aos países signatários. como o Protocolo de Kyoto42. Embora a legislação de cada país reflita os valores de sua cultura. os tratados internacionais teriam o poder de nivelar as legislações vigentes em todos os países e poderiam gerar uma efetiva aldeia global. Alguns tratados internacionais. Melhor analisados. quando aprovados pelo Congresso Nacional. longe de serem uma intromissão ou uma forma de ingerência na soberania. procuram estender responsabilidades e 42 1997 caius_c 193 . esses valores primordiais são aqueles derivados da própria essência do ser humano. visto que se pode atuar através deles nos mesmos. na realidade. Sendo lei. Se existisse uma mentalidade mundial progressista e futurista. unificando-os em forma de lei. não existe ingerência de outros Estados na soberania visto que os tratados internacionais. as leis teriam o poder de unificar os Estados dentro de uma mesma ordem onde existiria um equilíbrio das relações e onde as necessidades humanas fossem supridas. passam a valer na sua própria forma. os tratados internacionais são o consenso do que todo país considera como valores primordiais. Embora a recíproca seja verdadeira.

em suas muitas formas. em cada Casa do Congresso Nacional. No Brasil. cada país pode ter certeza de que sua soberania.obrigações para a comunidade internacional de necessidades mundiais que refletem as de cada país. tentasse tomar uma medida que julgasse necessária para o mundo todo. Se apenas um país. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. isoladamente. serão equivalentes às emendas constitucionais. será adaptada conjuntamente com a de outros.Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. onde as conseqüências serão de todos e não apenas de um. As soberanias se amoldam em defesa de um bem comum à comunidade internacional. Dos Direitos e Garantias Fundamentais. Título II. Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos 43 caius_c 194 . Estendendo a necessidade para todos. por três quintos dos votos dos respectivos membros. § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados. a recepção dos tratados internacionais está inserida dentro da Constituição Federal de 1988. Capítulo I. em dois turnos. onde diz que: § 2º . essa por si teria pouco ou nenhum efeito. no seu artigo 5º. procurando uma solução de um problema que afeta a todos. alínea LXXVIII43.

A ministra Rosa Maria Weber observou em seu voto que a Partners of the Americas insistiu na tese da incompetência da Justiça do Trabalho. afastou a argumentação. No entanto. o recurso de revista para o TST foi “trancado” pelo TRT. Da mesma forma. em 24 de outubro de 2006.§ 4º O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão. mas a relatora do agravo. além de condenar a ONG ao pagamento de diversas verbas trabalhistas. Esta recorreu ao Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região44 mas não obteve sucesso. ao argumento 44 Distrito Federal e Tocantis caius_c 195 . levando-a a entrar com agravo de instrumento. a soberania nacional deve prevalecer quando não existe um tratado internacional sobre determinado assunto. A Vara do Trabalho reconheceu a existência de vínculo de emprego e determinou a anotação do contrato de trabalho na carteira da trabalhadora. diz que “a Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho negou provimento ao agravo de instrumento da organização não-governamental norte-americana Partners of the Americas contra decisão que reconheceu o vínculo de emprego de uma ex-diretora. Uma notícia veiculada pelo Tribunal Superior do Trabalho. A ONG alegava a incompetência da Justiça do Trabalho para julgar a matéria. ministra Rosa Maria Weber.

De acordo com o TRT e a Vara do Trabalho.de que “não existe fundamento e condição legal que lhe atribua competência sob essa jurisdição”. Ressaltou. porém. ainda. o domicílio do empregador não é importante para fins de fixação da competência nacional. caius_c 196 . conforme prevê a Súmula 270 do TST”. que. podemos dizer que parte da economia mundial é dirigida por 45 AIRR 306/2003-010-10-40. que o TST já firmou entendimento ”no sentido de que.4. não havendo ressalvas. A relatora destacou. “ao contrário do sustentado pela Partners of Americas. a relação jurídica trabalhista é regida pelas leis vigentes no país da prestação de serviços. no caso. razão pela qual a legislação nacional a ele se aplica. ou seja. 45 Soberania e as empresas mundiais Alem dos países ou blocos econômicos. a controvérsia deve ser resolvida com base na ‘lex loci executionis’. a competência da Justiça Trabalhista brasileira. havendo conflito de leis trabalhistas no espaço. conforme o artigo 114 da Constituição Federal e o artigo 651 da CLT. “o contrato sob exame foi firmado em território nacional e nele executado. é inafastável” porque. já que as partes não ajustaram cláusula em sentido contrário”.

das Existe uma tendência para a criação de conglomerados através de fusões e aquisições de empresas. a união de pequenas empresas para compra unificada de produtos visando barateamento. a compra do Banespa pelo Santander.grandes empresas que se estendem alem nacionalidades e regem os destinos do mundo. O número de fusões e aquisições no Brasil cresceu 46% de janeiro a setembro de 2006 em relação ao mesmo período de 2005.209 A formação de conglomerados não é um fenômeno brasileiro e sim mundial. das 264 transações envolvendo aquisição de controle ou compra de participação minoritária. A compra de empresa por outras. segundo relatório da consultoria PricewaterhouseCoopers46. O levantamento mostrou que. 43% foram lideradas por estrangeiros. indica que a pequena empresa solitária ficará restrita aos limiares da economia onde não exista interesse das grandes empresas. como as de supermercados. a do BankBoston pelo Itaú ou a compra da canadense Inco pela 46 PwC caius_c 197 . a formação de redes de empresas dentro de um mesmo ramo. a tomada do controle acionário. Como casos típicos podemos citar a Ambev brasileira que controla grande parte do mercado brasileiro de cerveja. deixando apenas os espaços alternativos para as pequenas empresas. sendo 203 aquisições e controle. Foram realizadas 286 transações. conforme a mesma fonte. No ano de 2005 foram realizados 49% a mais de transações em relação a 2004.

Em parte. no final. Se levarmos em conta sua teoria. isso se explica pela necessidade de um enorme capital que somente essas empresas detêm. poderíamos concluir que o controle dos meios de produção deveria ter um órgão regulador mundial visto que ele extrapola o próprio Estado. existiria apenas uma empresa. O gigantismo das empresas sempre gera uma necessidade de favorecimento político para os setores que domina. o que justificaria o domínio estatal sobre os meios de produção. se eleito.Companhia Vale do Rio Doce. que a transformou na segunda maior empresa do ramo em 2006. essa necessidade de gigantismo e açambarcamento dos mercados deriva da necessidade de eliminação ou diminuição da concorrência. Esse favorecimento. Setores cruciais como os de energia. se traduz através dos lobbys existentes no Congresso Nacional e no financiamento de campanhas políticas onde o candidato. comunicações e financeiro são dominados por gigantes do setor que não dão espaço para outras empresas. Marx dizia que as empresas assumiriam o controle umas das outras e que. nos países democráticos. ficará caius_c 198 . Essa necessidade econômica de gigantismo das empresas extrapola os limites territoriais dos seus países de origem e visa estabelecer padrões políticos e legais para sua sustentabilidade e hegemonia. O que ele não deve ter imaginado é que as empresas sairiam dos limites dos seus próprios países. Em parte.

A ordem econômica. muitas vezes em contradição com as necessidades do país e de seu próprio povo. tem por fim assegurar a todos existência digna. observados os seguintes princípios: caius_c 199 .sob a tutela das empresas e de seus interesses. alem dos econômicos. Título VII. independente de ser legal ou não. a soberania do país fica ameaçada pelos interesses dessas empresas cujos objetivos. estão próximos aos objetivos de hegemonia de seus países de origem. A partir desse instante. 170. Para contrapor essa forma de domínio. Embora seja legal o financiamento de candidatos pelas empresas. Da Ordem Econômica e Financeira. é difícil imaginar que eles não irão trabalhar apenas em função delas. conforme os ditames da justiça social. sempre financiaram candidatos ás eleições. Favorece-se uma empresa em detrimento de uma sociedade. Há de se convir que as empresas. A única vantagem na legalização e na demonstração de gastos encontrase na transparência e na informação dada. Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica: Art. Uma parte da política e da legislação acaba se transformando em favorecimento de empresas. fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. Isso pode gerar a criação de leis que favoreçam apenas essas empresas. o que amplia os seus domínios. Capítulo I. a legislação brasileira procura manter sua soberania econômica através da Constituição Federal de 1988. Menos mal.

defesa do consumidor.tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. II . VI . livre concorrência. independentemente de autorização de órgãos públicos. A lei no.defesa do meio ambiente. orientada pelos ditames constitucionais de liberdade de iniciativa. Parágrafo único. salvo nos casos previstos em lei. defesa dos consumidores e repressão ao abuso do poder econômico. VIII .Da Finalidade: Art.propriedade privada. V . 1º Esta lei dispõe sobre a prevenção e a repressão às infrações contra a ordem econômica.I .busca do pleno emprego. IX .livre concorrência. VII .redução das desigualdades regionais e sociais. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica. no seu Título I . IV . define os crimes contra a economia e estabelece responsabilidades. função social da propriedade. de 11 de junho de 1994.função social da propriedade. caius_c 200 . inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação.Das Disposições Gerais.soberania nacional. Capítulo I . 8884. III .

As empresas devem estar enquadradas dentro da lei e não lhes serem superiores. a consciência do consumo de produtos de determinada empresa devem estar ligados à própria caius_c 201 . onde os diversos setores da sociedade se obrigariam a conter os excessos ditados por essas empresas. Em uma sociedade determinada a fazer prevalecer sua soberania. negando-lhes o domínio econômico sobre o mercado que atuam. como órgãos competentes para regularem as relações que as empresas devem ter perante a sociedade. O Capítulo III. A lei sem aplicação efetiva é apenas uma nulidade. Cabe. No entanto.Parágrafo único. o produto não existe e. junto com a Secretária de Desenvolvimento Econômico. Para que exista um produto é obrigatório que exista seu consumo. Sem consumo. estabelece o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. sem produto. antes da lei. A coletividade é a titular dos bens jurídicos protegidos por esta lei. a empresa não existe. mais conhecido como Cade. somente a lei não consegue conter os abusos econômicos nos quais o Estado perde parte de sua soberania. uma forma pluralista de defesa contra os poderes econômicos que interferem na soberania. Devemos notar bem esse parágrafo único que confere às empresas um cunho social e considera suas funções como bens jurídicos da comunidade. As leis são uma forma de manutenção da soberania ao evitar que grupos econômicos estabeleçam poderes alem daquilo que lhes são próprios.

tudo se confundia: a Moral. Nas pequenas comunidades. o produto torna-se nocivo à própria sociedade que o consome. Essa ética deveria se compor. Ética e Direito A Ética. determinantes de sua composição e atuação. A Moral surgiu antes do Direito. Podemos afirmar que um novo elemento deveria ser acrescentado aos produtos ou serviços que uma empresa oferece: a ética. a Moral e o Direito também são elementos componentes da soberania visto que elas fornecem padrões que vão alem da lei e que se constituem formas de pensamento e comportamento da sociedade. dentro do conceito de qualidade do produto. Um cidadão que adquire algo dessas empresas contribuirá para que inexista uma vontade da empresa em submeter-se à soberania do povo e do Estado. Aqueles que são produzidos com condições de trabalho aviltantes. o Direito e o Costume. Uma empresa sem ética produz falta de ética. Moral. Sem ela. Os povos de caius_c 202 . deveriam ser excluídos do próprio mercado através de leis. É certo supor que as pequenas tribos ou comunidades não precisassem de leis ordenadas visto que a pequena complexidade de suas relações não necessitasse nada alem daquilo que o costume ditava. Soberania. a forma e as condições em que ele é produzido. modificação nociva ou destruição do meio ambiente ou contrário àquilo que se entende como dentro da legalidade.ética da empresa.

Pode-se dizer que o Direito passa a ter necessidade de existir no momento em que as relações sociais tornam-se complexas e onde a Moral e o Costume já não têm a mesma força coercitiva e coesiva. Diria que nesse instante é uma maneira de ver formas de se caius_c 203 . A Moral é individual mas o Costume é coletivo. Nesse instante. A Moral é própria e cada um a tem como entende. A Moral por si só é egoísta visto que parte da premissa central do indivíduo. A Moral é o primeiro olhar crítico para essa convivência social onde o indivíduo julga a forma como deseja que sua parte que lhe cabe dentro daquela sociedade lhe seja dada. Nesse instante de seu nascimento. a Moral de cada um amalgama-se com a de outros e transforma-se no primeiro estágio da lei que é o Costume. onde prevalece a lei da Moral e do Costume.agora que têm poucos integrantes ainda não tem a necessidade de focarem-se no que costumamos chamar de Direito. podemos citar os povos da Amazônia e os Aborígines da Austrália. para se chegar ao Costume é necessário que a de cada um molde-se junto com as de outros em uma única forma para que se transforme em algo de uso coletivo. no entanto. Sendo animais sociais temos que ter parâmetros que regulem nossa convivência. a Moral não é repressora. é apenas uma forma de situar-se dentro de um contexto social. A Moral é um passo precioso para que o indivíduo integre-se na comunidade. Como exemplos típicos.

caius_c 204 . Quando a Moral inicial do indivíduo entra em choque com a Moral de outro. o mesmo pode ser utilizado até sua exaustão para evitar esse desmoronamento social. Sendo o Costume uma forma de coesão social porque antecipa ou resolve conflitos. a coletividade evita transformá-lo para que a paz social não seja danificada. Solidificando-se.obter alguma vantagem ou nivelamento para si dentro do grupo social. o Costume passa a exercer força sobre o próprio indivíduo. nos estágios iniciais da civilização como a entendemos. Por analogia. Essa nova moral ao entrar em conflito com outras. A Moral Média da Coletividade passa a influenciar a própria moral de cada um. passa a existir um meio termo ou uma miscelânea de ambas de onde se origina o Costume. Esse processo pode durar longos períodos em uma coletividade visto que o Costume arraiga-se na mesma. Esse processo ocorre nas pequenas comunidades onde todos se conhecem e cada um depende de outro para sua sobrevivência. Mesmo que o Costume passe a confrontar-se com uma nova Moral. passa a exigir um novo Costume. podemos dizer que a Moral faz parte da nossa própria sobrevivência como espécie. Costume é a média coletiva da Moral dos indivíduos. Sendo uma média é de supor que ela não atenda todos os requisitos da Moral Inicial e o indivíduo passe a mesclar a Moral Inicial com a Moral Média Coletiva e extrair dela uma nova Moral.

A partir do momento em que a comunidade começa a crescer e seus membros tornam-se mais distantes ou naquele momento em que a divisão do trabalho faz com que cada um passe a exercer funções diferentes de outros e onde necessite do produto do trabalho de outros. o Costume arraiga-se com mais firmeza e passa a ter uma maior força social coercitiva e coesiva. as forças coesivas caius_c 205 . o Costume ainda tem essa função. O Direito nasce de uma ruptura da ordem social. O distanciamento dos indivíduos dentro de uma comunidade tem que produzir uma nova força que torne branda as relações sociais e onde os choques entre indivíduos possam ser solucionados através de regras. de uma ocorrência natural ou humana que provoque alterações sociais ou então da própria informação advinda de um mundo globalizado onde as interações sociais são rápidas. Quando a Moral do indivíduo passa a conflitar com a Moral Média da Coletividade e conseqüentemente com o Costume. Pode-se dizer que a Informação hoje em dia é um grande transformador da sociedade visto que ela circula com mais rapidez e as comparações entre as relações sociais entre os povos são mais imediatas. Até esse momento. Essa ruptura pode advir de uma população maior. O Direito e o Costume de um povo são colocados em frente à de outro e isso conduz a pensamentos que podem gerar um novo conceito na Moral Inicial do indivíduo o que provoca o inevitável choque com a Moral Média Coletiva e a necessidade de alterações no Costume e no Direito.

De certa forma podemos dizer que Moral. o Direito isenta-se da individualidade e firma-se como uma força coercitiva onde a visão pessoal deixa de ter a importância que tem na Moral e Costume. Entre a Moral e o Direito. encaixa-se a Ética que poderíamos classificar como um Costume Ordenado. Enquanto a Moral e o Costume são mais frágeis na sua aplicação. sua aplicabilidade é de responsabilidade do Estado. No entanto. O Direito é a melhor média da aplicação dos reguladores das relações sociais. Sendo média é de supor que não atenda todos os requisitos individuais e possa gerar sentimentos que conduzam à negação de sua importância. Sendo um órgão que paira acima do cidadão. O crescimento do Direito como forma reguladora das relações sociais tem relação direta com a caius_c 206 . Essa melhor forma toma emprestadas as noções que a Moral e o Costume impõem e conjuga um novo quadro de relações e obrigações entre os indivíduos. A Ética é a transformação positiva da moral que atende as necessidades de determinado grupo. o sentimento inicial de negação do Direito é contrabalançado com o sentimento de que seu uso parte de um elemento que todos julgam aptos a aplicá-lo o que supera a inconformidade do cidadão com relação a ele.e coercitivas caem e começa a existir a necessidade de uma melhor forma para solução dos conflitos. Costume e Direito estão ligados ao número de pessoas de uma comunidade e sua complexidade nas relações sociais.

gerando descrença em relação às leis que ele aplica. apenas formas reguladoras da sociedade. é dever do Estado antecipar um resultado e fazer com que a sociedade se conduza para a realização dele. o Direito ainda pode ser visto como um elemento transformador da sociedade. Embora o cidadão não sinta a necessidade de cuidar dessa área. dentro de um Estado voltado às aspirações de seu povo. é a forma mais concreta e prática dos elementos reguladores e transformadores da sociedade. Um Estado desvinculado das aspirações coletivas é um estado fraco ou tirânico.credibilidade do Estado. Na outra forma. Nesse caso. Existindo descrença. Como exemplo. as leis podem parecer ao cidadão apenas elementos de controle ou de impedimento para uma boa convivência social. Alem de seu poder regulador. O Direito. O Direito na sua forma de Justiça somente existe nessa situação. ou seja. as leis são vistas pelo cidadão como realmente elas deveriam ser. Quando o Estado é forte e voltado para as aspirações sociais. o cidadão volta-se para o Costume ou a Moral onde as relações são mais brandas e de comum acordo. o Direito transforma o cidadão em um refém do Estado. caius_c 207 . apenas. podemos citar as normas reguladoras do meio ambiente. Uma norma que atenda às necessidades de um ideal gera comportamentos voltados para esse ideal e conduz o cidadão e a Nação a ele.

Em São Paulo destaca-se o PCC (Primeiro Comando da Capital) e sua onda de atentados em 2006.210 Existem quatro etapas do controle do Estado por grupos de narcotraficantes: 211 a) A primeira é quando os traficantes demonstram seu poder através da capacidade de gerar pânico. que poderia caminhar junto ou não com a primeira. onde as quadrilhas tomam tal vulto que chegam a estender seus poderes junto à população. O Rio de Janeiro também é um exemplo de poderes paralelos ao governo. que mostrou a fragilidade do governo de então. então. sendo que um deles é o que se convenciona chamar de crime organizado. competir com eles na administração de um país como é o caso da Colômbia e das FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) ou do Cartel de Medellín que teve seu apogeu com Pablo Escobar. mesmo que seja por algumas horas b) A segunda etapa. que transpõe barreiras nacionais e pode até estender-se aos governos dos povos ou.Soberania e poderes paralelos Existem alguns poderes paralelos que podem afetar a soberania de um povo. onde um de seus maiores exemplos é o narcotráfico. seria a capacidade dos traficantes de corromper autoridades e não apenas policiais ou seguranças das prisões. terror e deixar as autoridades sem ação. caius_c 208 .

quando o presidente Evo Morales. a soberania se enfraquece na mesma proporção dessa incapacidade. tentam assumir o controle dessa modalidade de crime. uma análise mais detalhada revela que. Se à primeira vista parece apenas um problema policial. aumentou de 12 para 15 mil de hectares a superfície do cultivo legal de coca. ele deixa de ser soberano e passa a ser apenas um mau administrador. Ao mesmo tempo em que o Estado procura manter sua soberania ao anunciar o controle sobre a caius_c 209 . visando combater a pobreza existente na região de Yungas. dando a ele uma forma legal como a anunciada em 22 de setembro de 2006. d) A quarta etapa seria a dúvida da sociedade em relação ao Estado e sua capacidade de resolver o problema. Nesse caso existe um contra-senso porque o destino final desse cultivo é invariavelmente a produção de cocaína e seu uso como droga. em La Paz. existindo incapacidade do Estado em gerenciar as atividades de seu território e incapacidade em reprimir ações que agridem a sociedade como um todo. Se o Estado não se torna capaz de jurisdicionar seu território de acordo com as suas propostas. Alguns países como a Bolívia.c) A terceira etapa seria a divisão da sociedade em relação à forma de combate a esses grupos.

com certeza. o Estado passa a ser mais eficiente. como impostos. deriva da guerra de caius_c 210 . o terrorismo como um poder paralelo. derivam da própria condição humana e.produção de narcóticos. também. podendo obter para si recursos oriundos da produção e comércio dos mesmos. o Estado retira o poder dos narcotraficantes e os enquadram dentro da lei. ao assumir o controle. existiu em todas as sociedades. No entanto. nas quais se incluem o álcool e o tabaco. milenarmente. Sendo parte da sociedade. o que asseguraria uma nova forma de paz social. Uma forma do Estado manter sua soberania é tomar para si todo o controle da produção e do uso de narcóticos. é necessário que o Estado acabe com sua própria hipocrisia. ao lhe dar condições legais de cultivo. Provavelmente. e a prostituição. Podemos citar. A partir do momento em que Estado determinasse a legalidade nas formas da lei. ele aumenta a força do narcotráfico. Isso. Enquadrando-os dentro da lei. os poderes paralelos diminuiriam e a soberania do Estado seria mais acentuada. seu controle deveria ser feito pelo Estado. fere suscetibilidades em muitos setores da sociedade que acreditam que o Estado deva combater esse tipo de coisa. Em muitos aspectos de nossa sociedade. Alguns elementos que julgamos indignos em nossa sociedade como o consumo de drogas em todas as suas formas. O controle oficial dos usuários daria a eles um tratamento mais digno á sua condição de doentes.

o Estado começa a se inviabilizar como tal. conseguiram ajudar as forças de libertação no que se convencionou chamar de Resistência. na maioria muçulmanos e netos de imigrantes vindos do norte da África. em 2006. quando a caius_c 211 . onde um grupo menor tenta obter vantagens através do uso de táticas de surpresas e não confrontação direta.guerrilhas. em suas várias formas. os distúrbios provocados pelos moradores dos bairros carentes. onde o desemprego tem taxas de 40%. predominantemente urbana e ligada a alvos civis. No entanto. grande parte da vitória conseguida contra os Estados Unidos foi através da Guerra de Resistência ou Guerrilha. Na França. como um poder paralelo ao Estado quando se conseguem organizar ou quando provocam distúrbios na sociedade. principalmente em Clichy-sous-Bois. no início da Guerra da Independência. A França e a Iugoslávia. Na Guerra do Vietnã. Sua função atualmente é demonstrar a incapacidade dos governos e lhes tirar o domínio sobre seu território através do descrédito que suas ações conferem aos mesmos. o que lhes confere absoluta ilegalidade e repulsa. o terrorismo assumiu uma nova forma. Podemos considerar os excluídos. durante a II Guerra Mundial. Muitos países conseguiram sua independência através do uso da guerrilha como Israel e Estados Unidos. Cuba talvez seja o exemplo mais clássico da derrubada de um governo por guerrilheiros e Che Guevara tornou-se símbolo da luta armada de pequenos grupos contra governos totalitários. Como a soberania é um sentimento que confere poderes práticos ao Estado. ao deixar de tê-la.

Essa desatenção com o cidadão e suas necessidades. Partindo de uma necessidade ou ideal. com as ruas de seus bairros povoadas de desempregados. embora tenham base na discriminação. às vezes na ilegalidade da atuação do Estado. pequenos criminosos e traficantes. e a caius_c 212 . a desatenção no que se refere à Reforma Agrária e a vagarosidade com que a conduz propicia movimentos como o MST (Movimento dos SemTerra). sua reação contra ele se faz e o Estado passa a debater-se em uma luta interna que não deveria existir se existisse atenção por parte. Sem terem nenhuma representação na Assembléia Nacional. Esses movimentos. na desatenção. No Brasil. produzem um poder paralelo ao próprio Estado e podem acabar em puro banditismo. suas alternativas se tornam muito poucas. Desses movimentos surgem lideranças que usam a confrontação com o Estado como forma de obter aquilo que propuseram como suas necessidades. os movimentos agigantam-se e podem gerar tal antagonismo contra o Estado que passam a se valer de meios não lícitos para se firmarem ou para obterem aquilo que desejam. provoca o surgimento de movimentos imbuídos de algum ideal e que congrega uma parcela da população identificada com esses movimentos. ou outras formas de como se sentem atingidos. como a Máfia. sem perspectiva de um futuro.média nacional é de 10%. são exemplos típicos do que a discriminação pode provocar em termos de confrontação entre cidadão e Estado. Muitas organizações criminosas. PCC. Considerando-se como deserdados da atenção do Estado.

Algumas dessas organizações ainda têm o agravante de usarem o próprio Estado como forma de se manterem.Yakuza. é ele quem determina ou não sua legalidade. Suas prerrogativas de pacificação social deveriam ir alem do fato acontecido ou acontecendo e estabelecer suas bases antes que elas lhe sejam exigidas de forma contestatória à sua legitimidade. O Estado deveria se ver sempre como solução e nunca como causador de problemas. Um Estado que tenha uma boa solução mas que demore em apresentá-la de forma concreta no tempo adequado. Um Estado que queira manter sua soberania através da paz interna precisa constantemente avaliar as necessidades dos cidadãos e procurar atendê-las na forma mais adequada e no tempo mais correto. visto que o Estado pode esperar mas o cidadão não pode. transforma a solução em um problema. Nesses casos ocorre um fenômeno estranho pois o Estado se alia à criminalidade e lhe confere proteção quando não lhe dá maiores vantagens. surgiram a partir das necessidades não atendidas pelo Estado ou na discriminação deste com relação a determinadas partes da população. A inserção de alguns de seus membros ou simpatizantes na estrutura do Estado lhes confere poderes que o próprio Estado não tem. caius_c 213 . Sendo o cidadão detentor da soberania que legitima o Estado.

caius_c 214 . ele passa. Em uma democracia. na sua forma. quando não se organiza de forma a mudar sua estrutura. devido a esse confronto. Esse descrédito do cidadão em relação ao Estado.O próprio Estado se nega a soberania quando não atende as necessidades dos cidadãos ou não os capacita para que eles atendam por si próprios suas necessidades. Às vezes. o inverso nunca pode ocorrer. Quando o cidadão se desacredita do Estado. Não tendo um Estado que satisfaça suas necessidades. o Estado nunca pode desacreditar do cidadão. ou seja. pela própria natureza humana a acreditar em outras coisas que nem sempre são as mais adequadas para o conjunto Estado-cidadão. o cidadão passa a valer de todas as maneiras possíveis para ludibriá-lo. ela de deteriora ou desaparece quando um dos dois ou ambos não a reafirmam ou não a determinam constantemente. a Revolução Cubana e a Revolução Russa são exemplos claros de que uma forma de governo pode ser mudada por causa da insatisfação do cidadão em relação ao tratamento que o Estado lhe dispensa. Sendo a soberania um conjunto que existe somente através de um vínculo entre cidadão e Estado. O esfacelamento da União Soviética e sua entrada no capitalismo também é exemplo do não atendimento das necessidades do cidadão pelo Estado. torna-os conflitantes e confrontantes. A Revolução Francesa. a própria existência do Estado se torna ameaçada.

Embora raras. geralmente sem avaliar os riscos que isso conduz. O totalmente diferente é a maneira que se acredita como solução e isso conduz à transformação da forma do Estado em outra. onde se abandona aquilo que não presta para aquilo que nos convém. as revoluções paulatinas. Toda revolução é boa e a promessa de uma nova vida também mas uma mudança radical sempre gera problemas que não existiam antes ou se pode esquecer de que algumas formas de sustentação social podem ainda ser válidas mesmo em frente a uma nova situação. os problemas advindos de uma revolução total são superados mais pela esperança de uma melhor vida do que pela própria revolução em si. conseguindo uma adesão quase que total da população para a mudança a que se propõe. são mais eficazes e caius_c 215 . colocando uma mudança radical como forma de superação dos problemas existentes. Geralmente. Geralmente. essas mudanças de formas de governo oriundas da insatisfação popular sempre tem um ponto em comum: o uso dela em função de alguma ideologia. Geralmente essa ideologia é oposta à forma daquela que compõe o Estado naquele momento. Uma ruptura da forma de governo é a negação do que existia antes e dada como totalmente inválida para o cidadão e a validação de que o novo será sempre melhor do que o antigo simplesmente pelo fato de ser algo a ser experimentado. Determinado grupo canaliza essa insatisfação para determinados ideais. Essa oposição total é a forma de tentar se desvincular totalmente da situação com a promessa de outra completamente diferente.

produtivas pois não criam vácuos entre o Estado e o cidadão mas apenas complementam o seu indissolúvel binômio pois promove adaptações mais facilmente absorvidas do que aquelas detonadas por uma ruptura brusca da forma de governo. precisa se basear no velho e nem tudo que é velho é ruim. O novo. em Cuba. As bruscas mudanças de forma de governo provocam um período em que o Estado encontra-se desorganizado e sujeito a possíveis ameaças à sua soberania. recém-implantado. apoiados pela Máfia. quando 1. O que mais assusta outros países com essas rupturas bruscas de forma de governo é a possibilidade 47 Agência de Inteligência Americana caius_c 216 . O mais comum nessas situações é que o Estado se feche e se transforme em uma comunidade isolada das influências de outros países. como ocorreu na madrugada de 17 de abril de 1961. para ser bom. na tentativa de derrubar o governo de Fidel Castro.500 exilados cubanos organizados e armados pela CIA47 e. dizem. Normalmente é um período tenso pois a comunidade internacional ainda não tem os parâmetros pelos quais o país irá se reger e nem sabe como será o relacionamento com essa nova forma de governo. Esse período pode ser confundido como um desgoverno e pode propiciar tentativas de derrubar essa nova forma de governo através de sanções econômicas ou pela pura e simples invasão militar. desembarcaram na Baía dos Porcos. Esse período é necessário para a soberania se reafirme nos moldes da nova forma de governo.

independente de serem totalitários ou não. Isso definia o critério de aceitação da nova forma de governo pelos pólos opostos liderados pela Rússia e pelos Estados Unidos. Até o esfacelamento da União Soviética. está na ideologia com a qual a nova forma de governo se identifica. e. a princípio. mesmo que sejam totalitárias. Novas formas de governo que se dizem democráticas. principalmente na América Latina e África. Aqueles que fecham sua economia ou tentam se tornar independentes economicamente são os que sofrerão retaliações. a aceitação ou não da nova forma de governo está vinculada à atuação de sua economia em relação a outros países. no entanto. Nisso existe um contra-senso pois muitas dessas mudanças que aconteceram. com a instalação de governos militares. são as que a comunidade europeuamericana trata como bem vindas.de que essa nova forma de governo não esteja em sintonia com aquilo que a comunidade internacional julgue boa para si. foram de caráter totalitário como as ocorridas na década de 70 na Argentina e Brasil. os países se definiam como democráticos ou comunistas. caius_c 217 . Por que a comunidade internacional ratifica algumas rupturas de governo enquanto que em outras ela parte para uma retaliação militar ou econômica? A resposta. No entanto. elas foram saudadas pela comunidade internacional europeu-americana como adequadas.

Aqueles que cuja nova forma de governo é apenas uma troca de oligarquias governantes e que não tem qualquer pretensão de liberação econômica. O ideal seria a pulverização dos tipos de classe dentro da sociedade. Nos estados totalitários geralmente existem apenas duas classes: a dos governantes e governados. O próprio governo se dificulta em função do atendimento insuficiente necessário àqueles que pouco possuem quando não os ignoram totalmente. As grandes distâncias entre as classes sociais geram problemas. o Estado deixa de atender um requisito básico para sua existência e não pode ser considerado como tal. visto que rege apenas a riqueza. eximindo-se das suas responsabilidades face à maioria da população. Essa distância econômica e social gera acomodação ou ódio. Sociedades onde existe uma pequena parcela rica e a imensa maioria pobre ou com graduações acentuadas entre uma classe e outra. Onde existe apenas duas classes: pobres e ricos existe naturalmente uma confrontação entre elas. Não existindo essa interação. onde existissem muitas outras entre a pobreza e a riqueza pois isso daria a população uma maior mobilidade social. são os que têm aceitação imediata. Nos caius_c 218 . não se confraternizam. essa discrepância leva ao isolamento de parcelas da sociedade do seu próprio governo. Por si só. Onde existem possibilidades de mudanças de uma classe para a outra através do esforço próprio do cidadão existe a esperança de mudanças de seu padrão de vida.

Uma forma de dominação de classes pôde ser vista na Arábia Saudita onde o uso das antenas parabólicas foi proibido após a Guerra do Golfo. essas se completam através da existência de inúmeras classes econômicas e sociais intermediárias. Essa camada domina as demais que não tem essa possibilidade. Aliás. Podemos dizer que essa camada tecnológica divide-se de duas formas: a primeira no relacionamento entre países e a segunda com a formação de classes dominantes dentro do próprio país. Sem uma caius_c 219 . Hoje existe aquilo que se chama de excluídos eletrônicos. Existe uma camada mundial da população que se encontra em estado privilegiado devido as prerrogativas reais de uso de tecnologia.Estados claramente democráticos. e esse deve estar distribuído da melhor forma para a população. comida e abrigo. Esses foram proibidos de recebê-las ou mantê-las em sua posse. Esses ainda se encontram no mesmo estado que nossos ancestrais que moravam em cavernas com o agravante de saberem que outros povos vivem em melhor situação do que eles. Alguns povos ainda vivem em estado quase natural e outros estão em tal estado de pobreza que seria ridículo tentar dar a eles tecnologia se lhes faltam água. Não existe soberania sem capital. Soberania e tecnologia A tecnologia não está presente em todos os lugares. uma das grandes preocupações dos dominantes sauditas eram as revistas levadas pelos soldados americanos ao seu país.

França. Inglaterra. Índia. Atualmente somos reféns dos países que detém tecnologia nuclear. Embora o centro de fabricação e pesquisas esteja disseminado em outras partes do planeta. Exemplos clássicos são o Vietnã. Países como Estados Unidos usam e abusam do poder da tecnologia para manterem sua dominação em face ao resto do mundo. deu aos Estados Unidos a primazia militar sobre outros povos. Comum é a invasão de outros países com pretextos estranhos quando se sabe que o mesmo não dispõe de poderio militar para uma defesa eficaz. No entanto podemos salientar que a tecnologia por si só não garante domínio militar. Paquistão. A quantidade existente de armas nucleares poderia destruir o planeta diversas vezes. Se imaginarmos um conflito entre árabes e israelenses onde esses últimos estejam sendo invadidos e a ponto caius_c 220 .integração com outras culturas fica mais fácil um governo manter seu poder através dos valores de uma cultura que não se pode questionar. o Afeganistão e o Iraque onde a resistência humana suplantou o domínio pela tecnologia. como os chamados tigres asiáticos. Um ponto a mais para o espírito humano. Outros países como a Rússia. Desenvolvida e usada como arma nuclear durante a Segunda Guerra Mundial. a manutenção de poderio militar com base em uma tecnologia pelos Estados Unidos gera um domínio sobre os demais. É inegável que qualquer um deles as usará em caso de invasão. Israel e outros conseguiram domínio sobre essa tecnologia e também produziram esse tipo de arma.

a 400 quilômetros do litoral. Delmiro reuniu especialistas de diversas áreas no distrito de Pedras. Isso obviamente gera um desequilíbrio em balanças comerciais em países que precisam importar esses produtos.de perder a guerra. Exemplo clássico é o de Delmiro Gouveia. com certeza haverá uso dessas armas para evitar uma derrota ou para destruir o inimigo conjuntamente. no extremo oeste de Alagoas. que compreendia em explorar a cachoeira de Paulo Afonso para gerar energia elétrica caius_c 221 . Em 1909 ou 1910. Os países pobres que não dispõe de recursos tecnológicos cada dia se vêem mais endividados por causa desse desnível tecnológico. O empreendimento organizado pelo cearense Delmiro Gouveia. município de Água Branca. Seria uma catástrofe total. o impedimento de uso de tecnologia por alguns povos é descaradamente aberto. para a construção da primeira hidrelétrica brasileira. Países com alto nível de tecnologia conseguem produzir bens a um preço mais baixo e de forma mais rápida. Pior que a dominação militar produzida pela tecnologia é a dominação econômica ditada pela própria tecnologia. A questão no caso dessas armas é que seus efeitos não se limitam ao local de ação pois nuvens radioativas se espalharão sobre outras partes do planeta e povos que nada teriam a ver com esse conflito sofrerão os efeitos desse uso. no Brasil. imagine uma com o uso de armas nucleares. Se a guerra por si só já afeta outros povos que não fazem parte dela. Algumas vezes.

de São Paulo. registrou no Chile e Argentina a marca Estrela. O empreendimento passou a conflitar com os interesses dos ingleses. o que forçou o produto brasileiro a ter seus rótulos trocados. Em 1929 a Machine Cotton comprou as Linhas Estrela e em 1930 providenciou para que todo equipamento da empresa fosse desmontado e jogado na cachoeira de Paulo Afonso. O que definiu a falência das Linhas Estrelas foi o dumping praticado pela Machine Cotton que passou a vender seu produto pela metade do preço que alcançavam na Inglaterra. A Machine Cotton. inglesa. Em 1926 foi aprovada uma lei que defendia o produto nacional quintuplicando o valor da taxa de importação sobre linhas de coser. Apesar de ter caius_c 222 . a construção da hidrelétrica teve início apenas para abastecer uma fábrica de linhas. Como o projeto não foi aprovado. Depois de forçar sua desvalorização. a Machine Cotton dava aos comerciantes um bônus semestral no valor de 5% das vendas totais. Depois de sua morte. que era a marca das linhas produzidas por Delmiro Gouveia.para abastecer o Recife. visto que eles detinham o quase monopólio de exportação de produtos têxteis para o Brasil. A Machine Cotton propôs a compra total ou parcial da empresa de Delmiro Gouveia e foi recusada. que se tornou sua subsidiária. Delmiro Gouveia foi assassinado em circunstâncias nunca esclarecidas. Alem de uma comissão. Em 1917. os comerciantes passaram a ser chantageados para não venderem as linhas da marca Estrela. Dois anos depois a lei foi revogada. A Machine Cotton passou a retirar esse bônus dos brasileiros que compravam as linhas Estrelas clandestinamente. a Machine Cotton comprou as ações das Linhas Estrela.

que vive em conflito com as comunidades internacionais. mesmo aqueles que julgamos mais fracos economicamente. fato esse impedido pela própria Constituição Brasileira. Desenvolver tecnologia é um processo caro e ter acesso a uma tecnologia tira o poder de quem a desenvolveu.ocorrido à quase um século. alegando uma necessidade de controle sobre o urânio enriquecido para evitar seu desvio para fabricação de armas nucleares. que gerou uma crise na produção de energia elétrica através das usinas termoelétricas que utilizam o gás como combustível. caius_c 223 . Essa crise foi superada através de um acordo entre a Petrobras e a Bolívia em outubro do mesmo ano mas deixou marcas no que concerne à dependência do Brasil em relação aos outros países. procurando reduzir a dependência causada pela crise do gás em 2006. A Agência Internacional de Energia Atômica tentou repetidas vezes ter acesso total às dependências da fábrica de Resende. parece bem atual. Esse acesso total permitiria o conhecimento de toda a tecnologia brasileira para construção de usinas atômicas. De certa forma podemos fazer uma comparação entre Delmiro Gouveia e o atual programa nuclear brasileiro. devido à estatização das instalações da Petrobras na Bolívia. O programa nuclear brasileiro prevê a construção de mais sete usinas nucleares até 2025. embora as táticas contemporâneas sejam mais discretas e mais eficazes.

Muito provavelmente. Aqueles que não a possuem viverão como sempre viveram ou serão obrigados a importar produtos que não conseguem produzir. Importando produtos. O domínio das diferentes tecnologias. provavelmente. depois a usamos para nos defendermos de outras tribos. seus danos ambientais são maiores do que essas últimas. mas sim de desenvolver e usar uma energia que se mostra necessária no mundo inteiro. depois para a dominação militar e agora a usamos para todas as formas de dominação seja militar. reafirma a soberania do país em todos os campos. no curto prazo. em todas as áreas. a tecnologia parece estar fadada a mau uso. existirá uma bipolaridade entre os países: os que possuem alta tecnologia e os que não a possuem. econômica ou cultural. Em nosso estado primitivo a usamos para nos defender de outros animais. Não se trata de estar dentro do chamado “clube atômico”. caius_c 224 . sua balança comercial terá déficits o que pode ser traduzido como dependência econômica e conseqüente perda de soberania. A multipolaridade econômica que se acredita viver com a formação de blocos econômicos.Atualmente. estará restrita ao domínio da tecnologia. na realidade. Usada para dominação de diferentes formas. as hidrelétricas são mais caras que as usinas atômicas e.

Sendo retrato de uma população de sua época. criado por Monteiro Lobato. A saúde da população está diretamente ligada à sua produtividade. Um cidadão saudável produz melhor e muito mais do que um cidadão não saudável. trata-se de um exercício de soberania ao afirmar que a saúde dos cidadãos deve ser distribuída não em função de suas rendas mas sim de suas necessidades. a afirmação está clara no que caius_c 225 . O personagem Jeca Tatu212. Contrariando essas aspirações e necessidades. o Direito deixa de ser o próprio e passa a ser apenas um estorvo e sendo estorvo deve ser encarado como tal. Sendo assim. Trata-se da democratização de uma tecnologia que ficava apenas nas mãos de algumas empresas sendo que a necessidade de seu uso por outras é devida à própria natureza do produto. À primeira vista parece uma agressão às pesquisas desenvolvidas pelas empresas e seus direitos de patente. anunciou a quebra de patente do remédio Nelfivanir que fazia parte de um coquetel antiaids.Soberania e saúde Em 22 de agosto de 2001. afirma ele. O Direito somente existe se não contraria as aspirações e necessidades de um povo. “Jeca Tatu não é assim. Essa medida possibilitou o surgimento de outras quebras de patente. o então ministro da saúde José Serra. enfatizava essa necessidade ao ser mostrado como um ser sem vontade criado pelas más condições sanitárias em que vivia. o Estado precisa cuidar para que as necessidades básicas da saúde sejam atendidas e satisfeitas. ele está assim”. No entanto.

Art. 6o São direitos sociais a educação. mesmo que isso contrarie algumas proteções dadas a produtos farmacêuticos oriundos de outros países mas cuja necessidade seja maior do que a prevalência dos direitos da empresa sobre eles. da União. o Estado deve zelar para que a saúde seja uma forma de manutenção e aquisição de sua soberania. 23. Sendo a saúde uma prioridade do cidadão. do Distrito Federal e dos Municípios: II . A própria Constituição de 1988. 23º. a saúde. Não existindo uma compreensão dessas caius_c 226 . a Constituição dá as competências na área da saúde: Art. a proteção à maternidade e à infância.concerne ao seu estado. o trabalho. no art. a assistência aos desamparados. É competência comum da União. dos Estados. dos Direitos Sociais. no seu Capitulo II. da proteção e garantia das pessoas portadoras de deficiência. na forma desta Constituição..cuidar da saúde e assistência pública. confere como direito a saúde no seu artigo 6º. Sendo um direito social e de competência comum. visto que não é irreversível mas sim totalmente solucionável. a segurança. No Capítulo II. o seu direito supera o direito das empresas. a moradia. a previdência social. o lazer.

Soberania e o espaço Como poder paralelo podemos citar.br. Conforme publicado no site www. diz o texto. mas a notícia veio à tona recentemente em reportagem publicada pelo Washington Post. A nova política foi assinada por Bush há mais de um mês.empresas com relação à facilitação do uso desses medicamentos pela população. Informação significa tecnologia. os Estados Unidos precisam dispor de caius_c 227 . o Estado deve fazer prevalecer sua soberania.ig. economia e tudo o que afeta a vida dos cidadãos e do Estado. 13:35 18/10: ”As provisões fazem parte da primeira revisão da política espacial americana em quase dez anos. Apesar de não ter sido anunciada ao público. partes desclassificadas da decisão foram publicadas na página da Agência de Políticas Científica e Tecnológica na internet. uma forma ainda restrita mas que futuramente será de grande importância na definição de soberania: satélites e conquista do espaço. "Com o objetivo de proporcionar conhecimento. Satélites significam informação e informação é o elemento essencial que define e definirá o estabelecimento da soberania de cada país. Afetando a vida e forma. "A liberdade de ação no espaço é importante para os Estados Unidos como potência aérea e marítima". Agência Estado.com. seu uso e o poder de gerenciá-la definirá o próprio Estado e sua soberania. também. descoberta e prosperidade econômica e de reforçar a segurança nacional. em 19 de outubro de 2006.

da União. capacidades e liberdade de ação no espaço. porta-voz do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. funcionais e eficazes". dissuadir ou impedir outros países de interferir nesses direitos ou de desenvolver a capacidade de fazê-lo. Segundo o governo americano. A nova política defende que os EUA tenham direito de trânsito sem interferência pelo espaço e afirma que Washington considerará qualquer interferência deliberada como um "desrespeito a seus direitos". defendeu a nova política. "Em conformidade com essa política. que adversários façam uso de capacidades especiais hostis aos interesses nacionais dos Estados Unidos". se necessário.” Esse pensamento sintetiza a importância que o espaço tem para a manutenção da soberania. e negar. alegando que os desafios e as ameaças aos EUA mudaram ao longo da última década e que a política espacial estava desatualizada.capacidades especiais robustas. art. os EUA reivindicam direito à autodefesa e à proteção de seus interesses e bens no espaço. No Capitulo II. 20. os Estados Unidos irão: preservar seus direitos. responder a interferências. adotar as medidas necessárias para proteger sua capacidade espacial. os bens definidos pela União não explicitam o espaço como algo seu e as leis internacionais que regem o assunto são claras ao estabelecer que o caius_c 228 . da Constituição Federal de 1988. afirma o texto. Frederick Jones. prossegue Bush na ordem. A Casa Branca esclareceu que a nova política determinada por Bush em nenhum momento fala sobre o desenvolvimento ou envio de armas para uso no espaço sideral.

32 .Compete ao Comando da Aeronáutica VII . onde se define que: "Poder Aeroespacial é a capacidade resultante da integração dos recursos de que dispõe a nação para a utilização do espaço aéreo e do espaço exterior. IX . 32. 48 O Decreto 3080 de 10 de junho de 1999. inciso XXVIII. confere competência ao Comando da Aeronáutica para pesquisa e desenvolvimento aeroespacial Art. quer como instrumento de ação política e militar. estabelece-se a competência privativa da União sobre legislação aeroespacial.espaço não pode constituir território de nenhum país. Esta essa competência é atribuída ao Comando da Aeronáutica. através do decreto 3080. quer como fator de desenvolvimento econômico e social. visando conquistar e manter os Objetivos Nacionais”. de no seu Capítulo II. Na Constituição de 1988. artigo 22.incentivar e realizar atividades de pesquisas e desenvolvimento relacionadas com as atividades aeroespaciais. 48 Escola Superior de Guerra caius_c 229 . no seu art.estimular a indústria aeroespacial.

Pergunte-se: um satélite militar em órbita não é uma ameaça à soberania de um país? Um satélite que colhe informações sobre um país e não as transmite para ele próprio. ao disseminar seu uso e fazer com que ele seja natural na sociedade. criou o Programa Nacional de Informática na Educação. não dá informações privilegiadas para outros. 522. demonstrando a preocupação do Estado em oferecer uma base de informática para o cidadão em geral. atualmente. não poderá ser soberano sem uma base tecnológica e. afinal? O Espaço é de quem o conquista ou pode ser dividido como a Antártida o foi. de 09 de abril de 1997. sem definições claras quanto ao uso da informática. Soberania e informática Um Estado. A Portaria MEC n. dominará o planeta? Deixo as questões em aberto para que se pense sobre elas a respeito de sua influência sobre os direitos de soberania de um Estado. dentro dessa base. com base no interesse de cada país? Quem dominar o espaço. Embora essa preocupação seja de âmbito mais profissional e social. visto que é praticamente impossível viver sem seu uso. que as podem usar contra o próprio país? A criação de estações espaciais não expande a soberania dos países ao próprio espaço? O seu uso se restringirá somente para fins científicos e pacíficos? As estações espaciais não são o primeiro passo para uma conquista do próprio espaço? O espaço é de quem. ela confere condições caius_c 230 .

observado o disposto nesta Lei. a lei 11871. e parágrafo 2º.maiores para o Estado exercer sua soberania sobre esse ponto. Em contraposição. A proteção dos direitos do autor: Art. de 19 de dezembro de 2002. § 4º Os direitos atribuídos por esta Lei ficam assegurados aos estrangeiros domiciliados no exterior. A lei 9609. no seu artigo 2º. expressa a preocupação na utilização de softwares livres de restrição: caius_c 231 . aos brasileiros e estrangeiros domiciliados no Brasil. direitos equivalentes. e dá outras providências. desde que o país de origem do programa conceda. No seu capítulo II. da sua criação. do Rio Grande do Sul. contados a partir de 1º de janeiro do ano subseqüente ao da sua publicação ou. dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programa de computador. na ausência desta. 2º O regime de proteção à propriedade intelectual de programa de computador é o conferido às obras literárias pela legislação de direitos autorais e conexos vigentes no País. ela garante. sua comercialização no país. de 19 de fevereiro de 1998. § 2º Fica assegurada a tutela dos direitos relativos a programa de computador pelo prazo de cinqüenta anos.

expressamente.As licenças de programas abertos a serem utilizados pelo Estado deverão. § 1º . utilização ou alteração de suas características originais. autárquica e fundacional do Estado do Rio Grande do Sul. livres de restrições proprietárias quanto a sua cessão. alteração e distribuição. 1º .Não poderão ser utilizados programas cujas licenças: I . 2º .impliquem em qualquer forma de discriminação a pessoas ou grupos. assim como os órgãos autônomos e empresas sob o controle do Estado utilizarão preferencialmente em seus sistemas e equipamentos de informática programas abertos.Art.A administração pública direta.Entende-se por programa aberto aquele cuja licença de propriedade industrial ou intelectual não restrinja sob nenhum aspecto a sua cessão. indireta. Parágrafo único . Art. assim como a livre distribuição destes nos mesmos termos da licença do programa original. permitindo a alteração parcial ou total do programa para seu aperfeiçoamento ou adequação. permitir modificações e trabalhos derivados. II . distribuição. assegurando ao usuário acesso irrestrito e sem custos adicionais ao seu código fonte.sejam específicas para determinado produto impossibilitando que programas derivados deste tenham caius_c 232 .

a mesma garantia de utilização, alteração e distribuição; e III - restrinjam outros programas distribuídos conjuntamente. A informática se baseia em dois elementos: equipamento e programa. Sem este último, o equipamento é inútil. A preocupação do governo do Rio Grande do Sul é afirmar sua independência em relação às empresas elaboradoras de programas, principalmente os operacionais como o Windows. Algumas empresas gigantes do setor procuram se tornar mais gigantes. A IBM comprou a Palisades Technology Partners, para incluir na sua linha de produtos softwares usados por credores hipotecários – empresas especializadas em financiamento imobiliário. A lista de clientes da Palisades inclui as dez maiores empresas do setor.213 Outras como a Microsoft detém grande parte do mercado dos programas operacionais, mesmo que sofram a concorrência de programas abertos como o Linux. A criação do próprio Linux é uma tentativa de dar, às pessoas em geral e ao Estado, liberdade no que se refere às necessidades do uso de sistemas operacionais. Tendo a liberdade de escolha, teremos soberania. O uso da rede mundial de computadores está transformando as sociedades e as formas como elas se conduzem. Alem de um instrumento, a informática é um elemento modificador de comportamentos devido a

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gama de informações instantâneas que ela contém e às facilidades que ela traz às pessoas. Em 23 de novembro de 2001, trinta países assinaram a Convenção de Budapeste, cujo objetivo é o de combater a criminalidade na Internet. O acordo se tornou um pouco controvertido devido à possibilidade de uma eventual utilização abusiva de dados pessoais. Esse acordo foi um dos passos para regular as atividades da Internet e seu controle pelos países signatários, através da filtragem de conteúdo, e criação de legislação específica para combater esses crimes que alguns denominam como cibercrimes. Essas duas preocupações, a de conter o cibercrime e a independência com relação aos produtores de programas operacionais ou de sistemas, mostram claramente que o uso da informática extrapola os limites territoriais dos países e afetam sua soberania através do uso virtual das comunicações, ao mesmo tempo em que insere seu uso como forma de soberania de Estado. Soberania e nacionalismo O nacionalismo nasceu da identificação de um povo em relação a outro. Sua origem remonta à Grécia Clássica, onde as cidades-estado impunham a si própria uma identificação. Seria a imposição de uma personalidade estatal em face à outra.

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Depois da queda do Império Romano, começou o processo de formação de países e isso gerou uma nova onda de nacionalismo como forma demonstrativa da soberania exercida por determinado povo sobre determinada região. Durante os séculos XVII e XVIII, ocorreu uma redefinição de fronteiras na Europa e a acentuação do conceito de nacionalismo. No século XIX e XX, o nacionalismo extremou-se a tal ponto que justificou a pretensão colonizadora de muitos países e algumas guerras como a Segunda em que a Alemanha procurou manter sobre seu domínio o que ela chamava de “espaço vital” , ou seja, as regiões da Europa que continham os produtos, minerais ou qualquer outra coisa que julgasse necessária para sua manutenção. O curioso nessa época é que Alemanha, Itália e Japão “fatiaram” o mundo de acordo com suas pretensões hegemônicas e a base para justificá-la foi o nacionalismo, onde as qualidades auto-atribuídas de seus povos eram superiores às de qualquer outro povo o que justificava a partilha em função de suas necessidades como nações. Durante a Guerra Fria, o nacionalismo fundiu-se e formou dois grandes adversários como pólos reguladores do mundo: os Estados Unidos e a União Soviética. O nacionalismo exacerbado ficou definido em duas ideologias: a democracia e o comunismo. As justificavas para qualquer intervenção ou ingerência na soberania de outros povos eram a “salvação do mundo livre” ou a “luta contra o imperialismo capitalista”.

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Após a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, símbolo mais claro da falência do sistema comunista, o nacionalismo voltou na sua antiga forma, com cada povo tentando ser ele próprio como a Alemanha assim o fizera com sua reunificação. Restando apenas os Estados Unidos como hegemon, o nacionalismo americano se transformou na mesma justificativa dada pelos países do Eixo, na Segunda Guerra Mundial, para ter sob seu domínio o “espaço vital” que necessitaria para sobreviver como nação, com o agravante de que esse espaço vital é o mundo inteiro. As demais nações, segundo esse pensamento, têm que orbitar em torno desse país. Mas o tempo dos impérios parece estar fadado a ter um fim. Uma única nação não consegue mais controlar todas as demais. O custo dessa dominação é alto demais, embora os lucros pareçam, à primeira vista, extremamente vultosos. A criação dos blocos econômicos, substituindo o antigo nacionalismo e modificando a soberania dos países, foi a melhor resposta européia contra essa hegemonia americana. Não se trata mais de um confronto em dois ou mais países mas de um confronto entre um país e um bloco econômico fortalecido e dono do mesmo poder de fogo. Embora, atualmente exista um equilíbrio, os sinais da balança comercial americana parecem estar dando mostras que sua economia já não tem a mesma força que em outros tempos e da União Européia, desde que consiga manter-se unida, tem uma estabilidade maior que a americana.

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Se partirmos do princípio que o mundo se dividirá em blocos econômicos, pergunta-se qual a necessidade de um nacionalismo, sendo que o seu entendimento sempre parece ser o da xenofobia e o da justificativa para exercer domínios? A resposta é simples: embora existam blocos econômicos, cada país mantém suas próprias afirmações e não as nega em função desses blocos. A personalidade de cada país se mantém mesmo que esteja aliado a outros por causa de um objetivo. Nacionalismo vem de nacionalidade e é a identificação do ser humano com o país ou Nação ao qual pertence. Esse sentimento sempre foi usado como forma de sustentação de governos ou para suas pretensões hegemônicas e ainda o é. No entanto, como tudo o mais, o sentimento do nacionalismo tem seu lado bom quando usado de forma correta pois é ele que traduz as formas como a população se comportará diante de afirmações de outros países em sua soberania. As poucas tentativas, no Brasil, para firmar-se uma nacionalidade própria e compatível com o país foram infrutíferas ou estavam imbuídas de idéias fascistas como o Movimento Integralista49. As movimentações culturais como as promovidas por Monteiro Lobato, Mario de Andrade e Oswald de Andrade tornaram-se mais curiosidades do que uma forma de mostrar a necessidade de um nacionalismo.
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1932-1937

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Heróis ou anti-heróis, como Macunaíma e Jeca Tatu, ao invés de se firmarem como símbolos do que não deveríamos ser, tornaram-se espelhos do que deveríamos ser: pobres, raquíticos, sem futuro e sobrevivendo apenas devido às malícias naturais que possuímos. Quando Macunaíma214 foi definido como um “herói sem caráter”, provavelmente, Mário de Andrade quis fazer referência não só às suas habilidades de resolver problemas sem levar em conta alguma ética ou moral mas também como um espelho do povo brasileiro com relação à sua identidade, ou seja, uma pessoa sem características definidas, pois o herói nasce índio negro, em uma tribo distante, vai para a cidade grande, vira branco e se metamorfoseia em inseto, peixe e pato, de acordo com as circunstâncias. Se levarmos mais a fundo, a própria composição do povo brasileiro de sua época, cheia de imigrantes que ainda mantinham seus traços e ligações sentimentais com seu país de origem, mais os naturais da terra perdidos em distantes regiões e com culturas próprias, se daria a impressão de uma não-uniformidade do povo brasileiro como uma Nação. Sendo heterogêneo, a sua capacidade de ter um pensamento único como Nação estaria comprometida. A Semana da Arte Moderna, em 1922, foi uma forma de tentar dar um rosto a uma Nação que ainda não o tinha. A esse rosto podemos dar o nome de nacionalismo. Nos chamados “anos de chumbo” fomentou-se uma campanha nacionalista cuja finalidade era a repressão de movimentos contrários ao próprio governo.

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A famosa campanha “Brasil: ame-o ou deixe-o” é seu maior exemplo. Nessa fase de nossa história ocorreu o inverso que o governo pretendia pois a campanha nacionalista identificou-se com o regime militar e como uma forma de repressão aos grupos que atuavam em prol de um regime democrático. Até então existia uma mentalidade nacionalista onde as pessoas, independentemente do lado em que estavam, acreditavam que estavam fazendo algo em prol do país. A partir desse momento, a identificação nacionalista passou a traduzir uma identificação com o regime militar e passou a ser renegada pela população em geral. O governo militar proibiu as manifestações nacionalistas assim como os desfiles de 07 de setembro usando a epidemia de meningite de 1972 a 1975 como desculpa para evitar as aglomerações. Na realidade, embora parecesse de cunho sanitário, foi uma forma de evitar que existissem passeatas ou outras formas públicas de manifestação contra o governo. Após o período militar, restou pouco do nacionalismo em si. Os planos econômicos como Bresser, Verão I, Verão II, Cruzado, etc, falharam nas suas tentativas de conseguir uma estabilidade econômica e produziram apenas uma necessidade de sobrevivência na população, que a afastaram da vida política. Mesmo a campanha de impedimento de Collor, em 1992, não conseguiu introduzir novamente o sentimento nacionalista no povo, embora existisse uma relativa participação popular. Saindo de um regime militar e de uma relativa estabilidade econômica, mesmo

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que forçada, a população viu-se novamente com carência de produtos e empregos e isso gerou um retrocesso político no país, com o desinteresse cada mais acentuado da população. Os períodos econômicos conturbados que seguiram-se até uma estabilização da economia no governo de Fernando Henrique Cardoso, através do chamado Plano real, iniciado em 1993 quando ainda era Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, produziram uma amorfia e um desinteresse pela política em si e pela condução do Estado. O Estado voltou a ser uma entidade desligada do povo e tornou-se algo distante de uma realidade. Esse desinteresse já vinha sendo fomentado pelos regimes militares e manifestou-se mais abruptamente com as crises econômicas. A importação de crenças arrivistas, vindas principalmente dos Estados Unidos, também contribuiu para esse distanciamento político, visto que pregavam uma nova visão baseada na obtenção de vantagens apenas através da fé individual e não através de atos voltados para a coletividade. Com esse quadro, o próprio governo deixou de fomentar sentimentos nacionalistas, temendo que os mesmos conduzissem a população a atitudes como as registradas no governo de Fernando Collor, que o conduziram à retirada da presidência. Historicamente, podemos dizer que o nacionalismo começou a deixar de existir em 1970, com as campanhas promovidas pelo governo militar, reforçou-se com a crise econômica de 1973, causada pelo petróleo, e com os planos

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econômicos dos governos Sarney, Collor, sendo gradativamente sendo eliminado até os dias de hoje. Como crédito, podemos dizer que a ditadura de Vargas foi o único período em que se tentou concretizar uma mentalidade nacional através da criação de empresas nacionais, como a Petrobras, para a exploração de recursos naturais e com a fomentação de idéias nacionalistas. Sem ter uma mentalidade nacionalista própria que fomenta e mantém a soberania, o Brasil ainda vive das idéias de outros e seu povo e economia sempre orbitam em torno de algum ideal não próprio. Não se trata daquele nacionalismo exagerado que cheira a xenofobia mas sim de se ter um sentimento que traduza nossa herança cultural e se reproduza na nossa independência. Soberania e cultura Dois grandes elementos fazem com que a soberania decaia de sua forma primitiva e assuma outras: a formação de blocos econômicos e a invasão cultural. A invasão cultural é um problema mais subcutâneo e está ligado à mentalidade colonizada que ainda temos. Historicamente, nossa mentalidade esteve ligada às metrópoles que nos dominaram. Até a fase da independência éramos portugueses, no I Império

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éramos franceses, no II Império éramos ingleses e atualmente somos americanos. Esta invasão é um passo primordial para a submissão dos países aos outros. Existindo submissão, inexiste a soberania. Conforme frase de Daniel Azevedo Marques “Povo sem cultura é povo sem liberdade”.215 Acrescente a esta o dito de Fidel Castro: “¿Cómo puede haber democracia si no hay cultura, si no hay educación?”. 216 Cultura não é apenas o uso das tradições legadas ou da produção de material próprio mas um estilo de vida. A cultura é a forma na qual os povos se encaixam como nações e da qual depende sua forma de pensar. Sem uma forma própria de pensamento, os povos tendem a adotar outros que lhes são alienígenas e essa adoção termina em submissão àqueles a quem ela pertence. Essa preocupação na Constituição de 1988 estende-se aos demais países da América Latina, no seu art. 4º. Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações. No art. 5º., a Constituição estabelece direitos ao cidadão quanto à dilapidação do patrimônio cultural

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promovida pelo próprio Estado, dando a ele possibilidade de impedir qualquer degradação.

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LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência; A preservação da cultura é de competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, conforme art. 23. Sendo de competência do Estado e sendo dado ao cidadão o direito de propor ação contra o próprio Estado quando este se descuida desse dever, é certo que deveria existir uma abrangência maior no que concerne à proteção da cultura, que é dada no Capítulo III , Da Educação, da Cultura e do Desporto, Seção II: Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. A própria língua é fator cultural determinante. Temos que ser poliglotas mas não podemos esquecer nossa forma mais comum de expressão. A apropriação de palavras e expressões sem o devido aportuguesamento ou sem antes a verificação de um

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Uma cultura própria absorve aquilo que julga adequada para si. O primeiro passo para a perda da soberania de um Estado é sua submissão cultural e. ocupam o espaço destinado àqueles que deveriam ser dos nacionais. idéias e outros.correlato em nossa língua contribui para que ela seja desvalorizada e por extensão nossa própria cultura. Objetos culturais alienígenas como filmes. Ter cultura própria não significa renegar aquilo que outros países produzem de bom. Duas políticas: a caius_c 244 . sabedor disso. A colocação de nomes estrangeiros em empresas é indício claro de que essa tendência à desculturização é extremamente forte e por que acaba gerando um aculturamento de um país dominador. livros. Soberania e os blocos econômicos A formação de grupos econômicos surgiu a partir da dissolução do bloco soviético e o estabelecimento de uma economia americana mundial. podendo ou não dar-lhe uma nova faceta que a transforme em um produto próprio. o próprio Estado tem que fazer com que ela não exista. é certo supor que uma cultura sobrepõe-se à outra e lhe tira as formas que deveria produzir em um modo de vida própria. Como na física básica existe o conceito de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.

principalmente na execução de reformas na economia e indústria soviética. visto que a economia e o sistema comunista da União Soviética estavam apresentando sintomas de falência. as reticências com relação a uma reforma na agricultura. No entanto. Um dos pontos chaves da política era a contenção de gastos na defesa nacional com a desocupação do Afeganistão. A Perestroika tinha conotação de reestruturação econômica. a indisposição dos membros do Partido Comunista em aceitar reformas e outros. A Glasnost tinha como meta uma política de liberdade de expressão. devido a motivos diversos como o insucesso na promoção da criação de empresas privadas e semi-privadas. reconstrução caius_c 245 . transparência Literalmente. No entanto. a União Soviética desmantelou-se como um bloco político e econômico. a União Soviética deixou de ser o principal oponente dos Estados Unidos e cedeu a primazia mundial para esse país. 50 51 Literalmente. Depois da adoção dessas políticas. a redução de armamentos em conjunto com os Estados Unidos e a não interferência em países comunistas.glasnost50 e a perestroika51 foram as que detonaram a antiga União Soviética. essa política ajudou a provocar uma onda de nacionalismo nos diversos países e etnias componentes do bloco soviético e promoveu a separação política do grupo soviético.

a Europa estabeleceu-se como o principal oponente econômico dos Estados Unidos.A União Européia. o Mercosul cambaleia devido às diferenças ainda não resolvidas e a falta de apoio às economias em crise como a da Argentina em 2002. Uruguai. como bloco econômico. O principal objetivo da União Européia foi formar um bloco econômico através de uma moeda única. Argentina. entrando em vigor em 01 de novembro de 1993. O euro foi uma de suas principais criações. em 01 de maio de 2006. Venezuela. Paraguai. Ao contrário dos países europeus cuja forte economia propicia uma união efetiva e a utilização de uma moeda única. a União Européia passou a comportar-se como um imenso país. Com uma base econômica firmada. Ao estabelecer uma moeda única. O Mercosul nasceu em 01 de 1995 com a união aduaneira dos países membros: Brasil. nasceu a partir da Comunidade Econômica Européia e Comunidade Européia. uma política aduaneira válida para seus membros. o euro. Bolívia e Chile. a partir de janeiro de 2002. A crise brasileiro-boliviana relacionada à nacionalização do gasoduto construído pela Petrobras. O Mercosul não se firmou como um bloco econômico. rompendo antigas barreiras tarifárias e políticas conjuntas no setor pesqueiro. reflete bem as diferenças que impedem o crescimento do Mercosul como um bloco econômico caius_c 246 . comercial e de transporte. Outros blocos surgiram como o Mercosul e o Nafta. embora tenha facilitado o comércio e as relações entre os países.

visando eliminar as barreiras alfandegárias entre os três países. O Nafta ou Tratado Norte-Americano de Livre Comércio. Suas portas estão abertas para os países sul-americanos que quisessem aderir a ele. México e Estados Unidos da América como bloco econômico foi firmado em 01 de 1994. foi ampliada para os limites do bloco econômico. também surgiu como forma de enfrentar a União Européia. Contribuem para seu lento desenvolvimento o próprio tratado que o rege. A união do Canadá. A soberania inicial que existia nos limites de cada país. A diferença primordial entre a União Européia é a adoção de uma moeda única e a união de seus países componentes como um todo enquanto que os demais blocos ainda estão limitados à eliminação das barreiras alfandegárias e poucas formas de união. pois dificulta a aprovação e aplicação de leis. Podemos dizer que cada país passou a contar com duas formas de soberania: a) A própria b) A do bloco econômico A soberania própria foi modificada e tornou-se mais tênue em função das necessidades do bloco caius_c 247 .capaz de enfrentar a União Européia e o Nafta. Os países da União Européia deixaram de lado alguns antigos conceitos de soberania e adotaram outros como forma de se manterem enquanto que os demais blocos ainda se prendem aos antigos conceitos.

Isso explica em grande parte o motivo pelo qual um país atenua os conceitos de soberania e assume uma nova forma de manutenção de sua individualidade. se priva de alguns direitos e assume outros deveres em função de sua organização social através do Estado. podemos dizer que antes de um Contrato de Submissão é necessário um Contrato de Associação. criando-se assim um Pacto Social. Um país como a França ou a Inglaterra continua com os mesmo princípios que existiam como países únicos mas adaptaram sua forma de controle soberano aos padrões do bloco econômico. Citando o próprio. a soberania do bloco econômico passa a ter uma necessidade de maior força. Uma torna-se tênue para que a outra se fortaleça. onde o indivíduo.econômico mas nem por isso deixa de existir. Para manter essa coesão. a soberania do bloco econômico tornou-se mais rígida devido à necessidade de coesão entre os distintos países e suas diferentes culturas. Podemos dizer que a União Européia aderiu ao conceito do Contrato Social de Rousseau. Se esse princípio é tão claro e fácil. O Estado deixa de ser opressor e passa a ser o elemento chave da agregação social e da promoção do homem como indivíduo e ser social. A soma das soberanias próprias é bem menor do que a soberania do bloco econômico. Em contrapartida. por que não o adotamos em nosso Mercosul? A resposta é complexa mas pode ser parcialmente respondida com a própria caius_c 248 . no caso países.

a política e economia dos países sul-americanos eram direcionadas pelos países europeus. No Brasil. tanto na esfera latina como na mundial. A idéia de exploração desenfreada. ainda perdura na “mente nacional”. Os nacionais ainda mantêm os mesmos pensamentos de seus colonizadores onde o principal era o enriquecimento rápido e fácil e conseqüente retorno ao seu país de origem. a independência política e econômica dos países latinos e a união dos povos como objetivos de formar blocos para a discussão de problemas políticos e econômicos. foi um idealista que propôs uma integração continental com as Conferências Pan-americanas. Guatemala.história mundial e da América Latina. em 1826. Simon Bolívar. Até o final da Segunda Guerra Mundial. Um dos motivos históricos é a própria formação da América Latina em si nos seus primórdios onde ela era vista apenas como uma fonte de recursos para os países europeus. México. a influência da Inglaterra perdurou até a entrada de caius_c 249 . somente compareceram os governos da Colômbia. baseada nas teses colonialistas dos países europeus e Estados Unidos. O Brasil não compareceu à conferência. conhecido como El Libertador. sem o mando das metrópoles da época. notadamente Espanha e Portugal. No entanto. Peru e Estados Unidos. A separação da América Latina em dois blocos também contribui para essa dificuldade de adoção de uma mentalidade voltada para as nações que a compõe. Seu objetivo era promover liberdade para as nações.

Getulio Vargas no poder e o início da guerra. Afeganistão em 2001. embora sem êxito. El Salvador em 1921. No Brasil. Honduras em 1924. afrontando as normas do Direito Internacional. A partir da queda de Getúlio e do fim da guerra. os Estados Unidos. ajudada pelo crescimento econômico promovido por Getulio. intervenção no Chile em 1973 e assassinato de Salvador Allende. suprimindo soberanias ou simplesmente anexando territórios como o Texas. onde caius_c 250 . criou uma série de empresas estatais visando preservar e explorar as riquezas nacionais como o petróleo e ferro e tentou firmou um conceito de Nação que ainda não existe no país. século XX. Nesse período. O Haiti foi invadido em 1914. Embora sua aparente filosofia fosse a de promover a paz mundial. Guatemala em 1954. essa política é uma forma de manter as portas abertas dos países para sua economia. Cuba em 1961. em 1846. Vietnã em 1964. Granada em 1983. política essa que já vinha sendo utilizada desde há muito tempo em outros países. são muitos: em 1921 invadiram a Republica Dominicana e novamente em 1963. com o fornecimento de armas para os “contras”. através dessa política. Panamá em 1989. e a Califórnia do mesmo México. passaram a adotar a política do “Big Stick” ou “grande porrete” no Brasil. Os exemplos dessa afronta às soberanias. destaca-se a revolução de 1964. Nicarágua em 1926 e na década de 80. uma onda nacionalista. Iraque em 2003. na realidade. fortalecidos pela destruição da Europa e pela sua indústria crescente e não atingida pela guerra. durante a Guerra da Anexação.

Com esse histórico de invasões americanas e européias. Embora os Estados Unidos seja o exemplo mais atual que temos na supressão pura e simples das soberanias. na sua melhor fase. a Itália. pela americana. quando não usaram de recursos militares para isso. a Bélgica. metal essencial para novas tecnologias. Excetuando o breve período de Getulio Vargas. A perda da soberania não é militar mas econômica e cultural. O domínio é feito através de outras formas mais sutis mas muito mais eficientes. praticamente dominaram os demais países ou continentes com suas políticas. No entanto. alguns países como a Inglaterra. não podemos descartar esse tipo de intervenção visto que o Brasil dispõe de dois elementos essenciais para a vida futura: o maior volume de água doce do planeta e a maior reserva de nióbio do planeta. caius_c 251 . que teve seu auge durante a época vitoriana no que concerne ao uso de outros países para fins próprios.existiu uma nítida participação americana no evento através do embaixador de então Lincoln Gordon. A resposta basicamente encontra-se no alinhamento de nossos sucessivos governos com a política desses países e a submissão econômica a eles. a França. a Holanda e outros. podemos perguntar por que o Brasil ainda não sofreu uma intervenção militar desses países. praticamente o Brasil se viu dominado por políticas Européias e. depois.

existiram quatro ameaças militares à soberania brasileira: a) A Invasão Holandesa em 1621 e 1630.Apesar de acreditarmos que nossa história seja feita apenas de bons momentos pois não a estudamos a fundo. c) O conflito Brasil-Inglaterra no II Império. sua invasão constituiu uma ameaça à sua soberania como território português.Historicamente. podemos citar as seguintes ameaças internas: caius_c 252 . a sua existência como território português ou como uma colônia o fazia parte integrante de uma nacionalidade. com a Bolívia. pelas tropas paraguaias. com a questão Christie. A soberania sempre esteve ameaçada em mais de um momento histórico. resolvida com a compra da área pelo Brasil. o Brasil passou por inúmeros períodos tumultuados onde se poderia fracionar a federação e onde sempre existiu uma possibilidade real de esquartejamento do país. com invasão da província do Mato Grosso em 1864. em 1861 d) A crise do Acre em 1902. Assim sendo. Embora a invasão holandesa se tenha dado em um período em que inexistia um país chamado Brasil. devido a movimentos militaristas. Alem das ameaças externas. imortalizada no livro do Visconde Taunay “A retirada da Laguna”. na Bahia e Pernambuco b) A Guerra do Paraguai.

podemos dizer que algumas regiões como o Centro-Oeste que teve um impulso nas décadas de 80 e 90 do século XX e o desenvolvimento de algumas regiões do nordeste através do plantio irrigado. caius_c 253 . No entanto. Provavelmente. a Farroupilha (1835-1845) b) A Revolução de 1932. Suas premissas principais são as de que o Brasil é um país que “não deu certo” e que as riquezas do sul e sudeste são usadas para a manutenção dos estados mais pobres da região norte e nordeste.a) As revoltas durante II Império. essas idéias vieram da Revolução Farroupilha. e mantiveramse como idéia distorcida entre a população. de predominância européia. de 1835 a 1845. a Balaiada (1831 a 1841). Movimento como “O Sul é o meu país” ganharam sua força durante certo período mas foram contidos através de uma repressão contra seus membros. Essa idéia torna-se vaga e transfere o desenvolvimento de cada região para a esfera da “vontade política”. com seu caráter separatista Também podemos acrescentar como forma de dissolução da soberania nacional os movimentos separatistas atuais dos estados do sul. do ponto de vista econômico. diverge da de outros estados. aliadas ao fato de que a origem da população. como a Cabanagem (1835 a 1840). eles existem como idéia. a Sabinada (1837 a 1838. invalidam a premissa de que o sul e sudeste sustentariam economicamente outras regiões em prejuízo das próprias. Embora sejam sufocados.

visto que a manutenção de florestas começa a se tornar um bom negócio.O mercado de crédito de carbono. Atualmente. a dependência econômica pode acentuarse mais. podemos considerar os seguintes obstáculos à manutenção da soberania nacional: a) Dependência econômica de outros países b) Invasão cultural Se o Mercosul fosse algo mais concreto e as economias que o compõe conseguissem equiparar-se para o seu funcionamento. pode ser uma fonte de renda para os estados amazônicos ou para outros. e sua administração pelo Banco Mundial. será em um futuro bem distante. caius_c 254 . Se algo desse tipo ocorrer. Aliando-se isso a uma exploração da região de forma sustentável de sua biodiversidade. Sendo assim. nascido através do Protocolo de Kyoto em 1997. existe uma forte tendência a não concretização do Mercosul como um elemento igual à União Européia. Como existe muita discrepância entre as economias. A fórmula mais simples para um enfrentamento econômico é o desenvolvimento de uma tecnologia superior em todos os aspectos e a insubmissão cultural. cai por terra a teoria separatista sobre a sustentação econômica de outras regiões pelo sul e sudeste. visto que se trata da luta de um país contra blocos econômicos fortes que tradicionalmente sempre dominaram a América do Sul. a dependência econômica com relação a outros blocos econômicos seria menor.

podemos dizer que a educação será parte integrante desse sentimento de soberania. O Estado tem que retornar aos seus primórdios e dar aos cidadãos o sentimento de Nação que é caius_c 255 . surja uma forma concreta de estabelecimento dessa soberania. estão produzindo um desafio no que concerne à manutenção da soberania pelos países. A soberania está se tornando virtual e cada vez mais retornando ao seu antigo modo como sentimento. Essa abertura de portas significa que existe uma troca onde se pode perder ou ganhar. Os pontos citados como a globalização. Aqueles que o faziam.A nova soberania Podemos dizer que a soberania como a conhecemos está se extinguindo. como a China. Sendo um sentimento. dependendo da forma como os países se conduzem. passaram a sentir as necessidades de estarem participando desse evento e abriram suas portas para outros países. A necessidade do uso da educação para firmar esse sentimento e lhe dar contornos reais é básica e deve ser fomentada primordialmente pelo Estado. ele deve ser trabalhado para que. a partir dele. tecnologia. formação de tribos. Como primeiro passo. invasão cultural. Não adianta fechar-se às tendências mundiais ou ignorá-las pois nenhum país consegue isolar-se em um mundo globalizado. internet. formação de blocos econômicos.

superior ao Estado visto que esse é apenas a organização das formas como a Nação deve se conduzir enquanto que esta é a expressão máxima da forma como o cidadão sente-se integrado em uma sociedade que lhe é própria. caius_c 256 .

antes de mais nada. se ela tocar nas raízes da ignorância ou alguém lucrar com ela. Mas. De volta a estaca ZERO. a proliferação de uma cultura. a alta auto-estima de uma nação. a autoestima. É uma linha quase invisível.A educação e o Estado Democrático de Direito “Independência é uma prioridade absoluta na vida de uma nação. caius_c 257 . E. diz que a alma não leva outra coisa para o Hades alem de sua educação e seu modo de vida – “Ao chegar ao Hades. o orgulho de um povo. nada feito. em seu livro Fédon. nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação. a gente deveria tentar entender o que “independência” significa. Como aquela que o bandeirinha indica que o cara estava no impedimento depois que a torcida berrava GOOOOOOLLLLLLL !” (Gerald 217 Thomas) Educação e seus conceitos PLATÃO.

Uma de suas bases é a alfabetização e conscientização política de jovens e adultos. Na sua Pedagogia de Autonomia.218 justamente. onde se justificam mudanças radicais a partir de situações radicais de opressão. a educação nunca é neutra e sim.219 Sua Pedagogia da Libertação tem conotações políticas iguais às de LEONARDO BOFF e sua Teologia da Libertação. diz que educação é uma prática social e também política cujas ferramentas são constituídas pelos elementos simbólicos produzidos pela subjetividade e mediados pelos instrumentos culturais. sua ação se dará caius_c 258 . sempre. 220 PAULO FREIRE adota o sistema socrático onde a pergunta promove a própria resposta e valoriza o pensamento crítico. o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá. A Teologia da Libertação está inserida na última fase do pensamento ocidental onde se valoriza a história. ao que se diz.221 ANTONIO JOAQUIM SEVERINO. existem propostas de práticas pedagógicas necessárias à educação como forma de construir a autonomia de ser do educando. Como tal. a cultura e a diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus.” De acordo com PAULO FREIRE. na sua Filosofia da Educação – Construindo a Cidadania. valorizando e respeitando sua cultura e seu acervo de conhecimentos empíricos junto à individualidade. política.

”. pois advém da sociedade capital. O seu parágrafo 2º diz que deve “se vincular à prática do trabalho e à prática social. Da Lei 9394.mais diretamente sobre os aspectos simbólicos da existência humana. Para ele. de 29 de dezembro de 1996. restringem-se apenas à formação profissional do cidadão e não da formação do cidadão em si. no que concerne à educação. 222 Para KARL MARX. Os conceitos definidos como responsabilidade do Estado. a escola como parte integrante de uma sociedade burguesa seria incapaz de se transformar em uma instituição antagônica à dinâmica social à qual está vinculada. no que tange à sua abrangência: “A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar.223 No caput do artigo 1º. O termo educação deveria ser ampliado para “formação de cidadãos”. caius_c 259 . pois não basta apenas um desenvolvimento profissional para que um indivíduo se torne um membro adequado para uma sociedade. no trabalho. a escola é uma instituição burguesa. nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”. No artigo 2º reafirma que é dever do Estado e da família. nas instituições de ensino e pesquisa . na convivência humana. existe a seguinte definição de educação.

mas também e talvez em primeiro lugar. qualquer texto ou palavra será entendido de forma diversa por várias pessoas. uma história será sentida em algum ponto e transmitida no seu total em relação a esse ponto. “as políticas educativas são um processo de enriquecimento dos conhecimentos. do saber-fazer. A dimensão que queremos dar a um país é a dimensão que damos aos elementos humanos que o compõe.De acordo com o Relatório da Unesco da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. Isso é comum e normal. Para que isso ocorra é necessário que tenhamos uma educação que nos permita isso. é imprescindível que tenhamos dentro de nós as várias formas de se ver o mesmo objeto. Um país é um resumo de seus próprios cidadãos. caius_c 260 . grupos e nações. Qualquer objeto nunca é visto como real. na realidade é a construção de um novo objeto a partir do próprio. Um peixe dentro da água. da relação entre indivíduos. É próprio do ser humano dar interpretações a algo que vê. como uma via privilegiada de construção da própria pessoa. A interpretação. Uma educação baseada somente na formação profissional cria apenas operadores de máquinas. devido à refração. Vivemos de interpretações e elas nunca são o reflexo real de um objeto mas apenas como uma forma que imaginamos. no entanto. ouve ou sente. nunca estará no real local que o vemos.” 224 Um país é a dimensão do seu próprio povo.

mantinham cursos de Letras e Filosofia. onde se estudava Teologia e Ciências Sagradas. Ilhéus. a educação formal sempre se restringiu às classes dominantes da sociedade. sendo autor da Arte da Gramática das línguas mais usadas na costa brasileira. esteve nas mãos da Companhia de Jesus. Para afastar os índios dos interesses dos colonizadores. No Brasil. Um dos primeiros educadores foi José de Anchieta. a educação. os jesuítas fundaram as missões. junto com o governador Tomé de Souza e comandados pelo Padre Manoel da Nóbrega. existiam cinco escolas de instrução elementar em Porto Seguro. Em 1570. Embora tenham existido núcleos de escolarização em todas as fases da história. Espírito Santo e São Paulo de Piratininga. onde eram catequizados e orientados ao trabalho agrícola. Pernambuco e Bahia. inicialmente. onde a necessidade de mão de obra especializada gerou a educação pública. Essa educação estava mais vinculada à formação de profissionais que a indústria exigia. São Vicente. Os jesuítas. os jesuítas. caius_c 261 . ela sempre esteve restrita a alguns poucos privilegiados. alem de três colégios no Rio de Janeiro. Ela passou a ser estendida às outras classes a partir da Revolução Industrial. Os jesuítas fundaram a primeira escola elementar em Salvador no mesmo ano.Educação e sua história no Brasil Historicamente. que chegaram aqui em março de 1549. alem de se dedicarem à alfabetização e ao ensino religioso.

Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Em 1824. Em 1827. geralmente.Gramática Latina. Lógica. seguiu-se o que se convencionou chamar de Período Pombalino. declara-se como gratuita para todos os cidadãos a escola primária. a primeira constituição brasileira é outorgada e no seu artigo 179. alem da Diretoria de Estudos. um Ato Adicional à Constituição dispõe que as províncias passariam a ser responsáveis pela caius_c 262 . até serem expulsos pelo Marques de Pombal. Nesse período. na França. Em 1834. Os jesuítas permanecerem como mentores da educação brasileira. criou as aulas régias de Latim. Moral. onde suprimia as escolas jesuíticas. Retórica. em contraposição ao Período Jesuítico. Grego e Retórica. na Europa. Humanidades. um projeto de lei propõe a criação de pedagogias em todas as cidades e vilas. Através do Alvará de 1750. os que pretendiam seguir profissões liberais iam estudar. onde a escola servia os interesses da Fé. Entre 1760 e 1808. Portugal ou na Universidade de Montpellier. Metafísica. em Coimbra. propondo uma seleção para professores e a abertura das escolas para as meninas. com a educação direcionada para servir aos interesses do Estado. em 1759.

retomou a orientação positivista.A Reforma de Carlos Maximiliano. em 1915. .A Reforma Rivadávia Correa. surge a primeira escola normal do país em Niterói. que tinha como princípios a gratuidade.A reforma de Benjamin Constant. Em 1835. com o Brasil saindo da agrariedade e procurando uma industrialização.A Reforma João Luiz Alves introduz a cadeira de Moral e Cívica com a intenção de conter os protestos contra o então presidente Arthur Bernardes.Em 1930 foi criado o Ministério da Educação . reoficiliza o ensino no Brasil. existiram quatro reformas do sistema escolar brasileiro:225 . de 1911. . pregando a liberdade de ensino. o governo organiza o ensino secundário e as universidades brasileiras caius_c 263 . a liberdade e laicidade do ensino. Entre 1889 e 1929.Em 1931. Entre 1930 e 1936. transferindo os exames de admissão ao ensino superior para as faculdades.administração do ensino primário e secundário. ocorreram outras reformas:226 . . a abolição do diploma em troca de um certificado de assistência e aproveitamento.

O Decreto 19.Em 1934 a nova Constituição dispõe. .. dispõe sobre a organização do ensino secundário. . de 14 de abril. .852. de 11 de abril. redigido por Fernando de Azevedo.890.O Decreto 19. devendo ser ministrada pela família e pelos Poderes Públicos.241. . caius_c 264 .O Decreto 19.Em 1932 é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. organiza o ensino comercial. . de 11 de abril.O Decreto 19. . consolida as disposições sobre o ensino secundário. institui o Estatuto das Universidades Brasileiras que dispõe sobre a organização do ensino superior no Brasil.851. de 11 de abril. de 30 de julho.158.O Decreto 21. e regulamenta a profissão de contador. dispõe sobre a organização da Universidade do Rio de Janeiro. cria o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais de Educação . de 18 de abril. .Em 1934 é criada a Universidade de São Paulo. pela primeira vez.850. que a educação é direito de todos.O Decreto 20.

regulamenta o ensino secundário. .073. caius_c 265 .O Decreto-lei 4. que prevê uma preparação de uma maior especialização da mão de obra em função das novas predisposições industriais do país.. . dando preferência às atividades manuais em detrimento às intelectuais.Em 1935 é criada a Universidade do Distrito Federal .É outorgada uma nova Constituição em 10 de novembro de 1937. e a constituição enfatiza o ensino prévocacional e profissional. Entre 1937 e 1945 ocorrem novas mudanças devidas ao Estado Novo. através das Leis Orgânicas de Ensino: . cria o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAI.O Decreto-lei 4.048. regulamenta o ensino industrial.O Decreto-lei 4. período em que Getulio Vargas permaneceu como ditador. de 9 de abril. são reformados alguns ramos do ensino. de 30 de janeiro. em uma época em que a Alemanha tentava o domínio militar da Europa. . .244. Em 1942.A gratuidade e obrigatoriedade do ensino são mantidas. de 22 de janeiro.

Em 1946 o então Ministro Raul Leitão da Cunha regulamenta o Ensino Primário e o Ensino Normal caius_c 266 . . regulamenta o ensino comercial (SENAC). de 7 de novembro. No período de 1946 a 1963. uma escola de aprendizagem destinada à formação profissional de seus aprendizes. O ensino ficou composto por cinco anos de curso primário. atingindo também o setor de transportes.984.O Decreto-lei 4. quatro de curso ginasial e três de colegial.. . das comunicações e da pesca.O Decreto-lei 6. amplia o âmbito do SENAI. . compele que as empresas oficiais com mais de cem empregados a manter. .O Decreto-lei 4. adota-se uma nova constituição mais liberal e democrática que determina a obrigatoriedade de se cumprir o ensino primário e dá competência à União para legislar sobre as diretrizes e bases da educação.O Decreto-lei 4. de 21 de novembro. dispõe sobre a obrigatoriedade dos estabelecimentos industriais empregarem um total de 8% correspondente ao número de operários e matriculá-los nas escolas do SENAI.141. por conta própria. de 16 de julho.436. de 28 de dezembro de 1943.481.

inicia uma campanha de alfabetização ("De Pé no Chão Também se Aprende a Ler"). propunha-se a alfabetizar em 40 horas adultos analfabetos. que elimina o monopólio estatal sobre a educação.Em 1952. São criados também os Conselhos Estaduais de Educação. . é inaugurado o Centro Popular de Educação (Centro Educacional Carneiro Ribeiro). no Estado de Pernambuco. na cidade de Tiriri. Estado do Ceará. em Fortaleza.024. caius_c 267 .Em 1950. logo depois.Em 1962 é criado o Conselho Federal de Educação.Em 1953 é criado o Ministério da Educação e Cultura..Em 1961 a Prefeitura Municipal de Natal. criada pelo pernambucano Paulo Freire. A experiência teve início na cidade de Angicos. . . dando início a idéia de escola-classe e escola-parque. no Rio Grande do Norte. o educador Lauro de Oliveira Lima inicia uma didática baseada nas teorias científicas de Jean Piaget. em 20 de dezembro de 1961. A técnica didática. no Estado do Rio Grande do Norte. em Salvador. Este substitui o Conselho Nacional de Educação. no Estado da Bahia. . .Foi promulgada a Lei 4. e.

em 1961.Ainda em 1962 é criado o Plano Nacional de Educação e o Programa Nacional de Alfabetização. No período da abertura política entre 1986 e 2001. A característica mais marcante desta Lei era tentar dar a formação educacional um cunho profissionalizante.024. sob o pretexto de que as propostas eram "comunizantes e subversivas". extinto depois por denúncias de corrupção.Foi criado o Movimento Brasileiro de Alfabetização – Mobral. com o planejamento. um golpe militar aborta todas as iniciativas de se revolucionar a educação brasileira.A criação da Universidade de Brasília. . Em 1996 é aprovada a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação. a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. pelo Ministério da Educação e Cultura. valendo. o rendimento do aluno durante o curso de 2o grau. do fim do exame vestibular. caius_c 268 . dando uma ênfase política à Educação e um sentido mais amplo. Em 1964. Em 1971 é instituída a Lei 4.. inclusive. . permitiu vislumbrar uma nova proposta universitária. as discussões sobre uma forma democrática e aberta de ensino voltaram à tona. para o ingresso na Universidade.

etc. Todos os passos dados pela Educação originaram-se da forma como o país situava-se política e economicamente no momento. se escolhe a forma econômica pela qual ele pretende se conduzir e quando se escolhe a forma econômica. a Educação sempre se moldou por dois fatores: a) Políticos b) Econômicos Os dois motivos são concorrentes e correlatos. Quando se escolhe uma forma política para um país. um se molda ao outro. visto que não existia a necessidade de caius_c 269 . Como não podia deixar de ser. Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Programa de Avaliação Institucional (PAIUB). Um não existe sem o outro. a escola preocupou-se apenas em dar os rudimentos aos seus alunos. Durante o período essencialmente agrário do país que vai até 1930. ela deságua no modo de condução do país que é a política.Em 1990 é lançado o projeto de construção de Centros Integrados de Apoio à Criança . em todo o Brasil. Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB). foram criados muitos programas de ensino como Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF).CIACs. Depois da queda do regime militar.

ela sempre esteve voltada para a manutenção dos governos. em nenhum momento ela se preocupou com a formação de cidadãos efetivamente. respectivamente. Entre 1930 e 1945 inicia-se um processo de industrialização promovida principalmente pelo governo Getulio Vargas. formada pelos industriais e comerciantes. Em todos esses períodos. Uma nova classe social expande-se: a classe burguesa. Os exemplos mais típicos são o Senai e o Senac cujos objetivos são a formação de profissionais para a indústria e comércio. Mesmo que tenha existido alguma formação política nas escolas. ou seja. a Educação ainda tem as bases capitalistas desse período.uma mão de obra especializada. caius_c 270 . No entanto. Com a entrada de capitais estrangeiros no país. voltou-se apenas para a formação de profissionais. a partir de 1958/1960 e instalação de multinacionais enfocadas no novo capitalismo que surgiu no período pós-guerra nos EUA. O período pós 1960 transforma a escola em um centro de formação voltado não só para a indústria mas também para outras áreas como a financeira. passou a existir uma necessidade maior de profissionais voltados para a indústria. a Educação acompanhou a economia e a política adotada pelos governos. substituindo as antigas oligarquias monoculturistas no governo. Embora tenha evoluído bastante. o que perdura até agora. ampliando as necessidades da Educação para a formação de profissionais adequados à industrialização.

Seção I. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. da Educação. A formação do indivíduo está vinculada às pretensões políticas do Estado. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. Ao Estado cabe estabelecer as formas. vigiar e proteger a educação e à família cabe o dever de fazer com que seus membros a tenham. quaisquer que sejam. ela sempre foi influenciada pela política da época e considerada como forma de manutenção dos grupos no poder. dar os elementos necessários. o Estado se estabelecer como detentor da educação. além de fornecer parâmetros adequados para que a criança possa conviver adequadamente no meio social. Da Educação. Educação e política Como se vê na história da educação brasileira.A co-responsabilidade do Estado e da Família na Educação No Capítulo III. direito de todos e dever do Estado e da família. 205. da Cultura e do Desporto. junto com a família: Art. A Constituição define a educação como um “direito de todos” e atribui ao Estado e à família o dever de efetivá-la junto à população. Isso não teria nenhum problema se a educação não caius_c 271 . seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A educação.

como ainda é. diferente daquilo que o cidadão almeja como ideal para si próprio. Partindo do princípio de que o cidadão é a base do Estado e que sua educação é o reflexo da própria condição do Estado. exceto após sua eleição para cargos. A Educação é ponto inicial para a formação do cidadão e conseqüente fôrma na qual Estado irá se moldar. não se irá querer que outros grupos ou tribos lhe retirem o poder.fosse usada. na composição do Estado. a Educação ainda seria usada como instrumento político e assim deve ser. da crítica e da participação efetiva. O objetivo é moldar a pessoa às características do Estado e não o de lhe dar bases para promover o próprio Estado através do uso do contraditório. Embora o exemplo mais claro disso esteja nos Estados totalitários. para dar ao indivíduo a dimensão que o Estado quer ter de si próprio. podemos transpor essa idéia para os ditos Estados democráticos pois ainda não se chegou a uma plenitude no que se refere à participação do cidadão dentro do Estado. Um cidadão está imbuído da caius_c 272 . onde se desvirtua sua fase inicial democrática e onde existe uma transformação para a oligarquia. por que não dar ao cidadão uma educação compatível com um Status Magnus? Por que não dar a educação adequada para que se formem as bases para um Estado diferenciado onde as relações entre as partes sejam adequadas a uma forma mais efetiva de convivência entre cidadão e poder? A resposta está. como sempre. Mesmo que ainda assim o fosse. Se grupos ou tribos se apossam de sua gerência.

Após seu estabelecimento na administração do Estado. A soberania popular se restringe ao voto e conseqüente eleição de seus representantes. a representação dada pelo cidadão se desvirtua após a eleição e os ideais que se perseguia através de uma representação. isso seria uma forma prática de condução da democracia visto que se todos participassem da administração do Estado o mesmo implodiria por causa do excesso de mando. Embora representado. sua mentalidade. A própria Constituição Brasileira confere fundamento ao Estado na soberania. em tese. no seu componente político. por força de si próprio. deveria dar ao cidadão o conhecimento e a prática necessária caius_c 273 . se transforma e assume a forma oligárquica. apesar de ter uma base democrática. No entanto. Nesse instante. das circunstâncias ou daqueles que o rodeiam. É o momento em que a representação popular deixa de existir e consequentemente a soberania do cidadão. reconfiguram-se nos ideais que o partido assume como seus ou dos quais precisa para sobreviver ou agigantarse dentro do Estado.democracia até sua eleição para algum cargo governamental. Teoricamente. o cidadão deixa de ter poderes ao entregá-los para aqueles que foram eleitos. o Estado assume o papel de pequenos grupos comandarem outros para benefício de si próprios ou dos seus. da condução do próprio Estado. A Educação. onde ele detém poderes sobre si próprio e sobre os elementos que o compõe. o que a alija.

Educação informal Alem da educação formal. devem existir alguns parâmetros básicos para a condução dessas idéias. é justo que se tenha liberdade de expressão e que as diferentes visões das diferentes situações devam ser de acesso a todos. o indivíduo sofre outras influências na sua educação. cujo dever é da família e do Estado. através do grupo e da mídia. Essa forma de soberania é o que se costuma chamar de exercício da cidadania. a maioria da população tem na televisão seu principal veículo de informação. lazer e cultura. Não se trata de auto-censura ou da censura propriamente dita mas de concepções maiores das quais outras devem derivar. ao mesmo tempo em que lhe deveria dar todas as formas possíveis de condução para a manutenção de sua soberania e por conseqüência a do próprio Estado. Como somos animais visuais. Em um país democrático. Estatisticamente. A democracia se faz com a diversidade. Os costumes do grupo influem fortemente na educação do cidadão e a mídia veicula idéias que nem sempre estão de acordo com as pretensões de um Estado Democrático de Direito.para que ele pudesse exercer com seriedade sua atual soberania que consiste no voto e eleição de seus representantes. que deveria ser a forma de como o cidadão atua dentro da sociedade e na relação sua com o Estado. a televisão se caius_c 274 . No entanto.

A principal. Sua influência é tão grande que um estudo publicado na revista científica The Lancet. é a família. Os pesquisadores afirmaram que o planejamento familiar brasileira formou-se a partir desse hábito de assistir telenovelas e sua identificação com os personagens e que essa tendência ocorreu sem nenhuma intervenção governamental. é certo que deveriam se dotarem de parâmetros que produzissem efeitos sociais benéficos. se não analisados adequadamente. mesmo que não o sejam.227 Todos os veículos de informação podem ser considerados como educadores ou maus educadores. Como forma melhor de comunicação. ela pode transmitir formas de pensamentos e comportamentos que.mostra como a fonte mais adequada para uma interação social na sociedade em que o indivíduo vive. Alem dos veículos de comunicação em massa ainda existem outras formas de educação informal. em 31 de outubro de 2006. Isso não nega aos veículos o princípio do contraditório que faz parte do próprio conceito de democracia. Tendo essa potencialidade. com certeza. podem ser considerados como corretos. visto que é dela que caius_c 275 . garante que a família brasileira passou a ter menos integrantes a partir da popularidade das telenovelas que retratam a vida em famílias pequenas. Os próprios produtores deveriam estar imbuídos de princípios que estivessem de acordo com aqueles que a sociedade precisa ter e procurassem se manter dentro deles.

caius_c 276 . ela sustentará os indivíduos durante sua vida inteira. os núcleos familiares foram as bases dos primeiros Estados na sua formação. historicamente. Famílias mal formadas ou estremecidas. A família é a primeira formadora dos costumes. servindo de comparação para as novas interações que ele passa a sofrer. produzem formas distorcidas de se ver a realidade que nos cerca. base de todo Direito. geralmente. Famílias estruturadas transmitem a solidez da qual se constituiu aos seus membros. as novas interações. A Constituição se preocupa com esse fato ao transmitir o dever da Educação à família. O grupo restrito da família deixa de ter a importância que tinha e passa a se constituir apenas como base para novas relações. e de que a sociedade é composta desses núcleos. Sendo uma base forte. o indivíduo se confronta com as diversas realidades que outros indivíduos ou grupos lhes apresentam. Saindo do âmbito familiar. podemos afirmar que uma família é uma réplica em miniatura do próprio Estado e que o Estado deveria assumir isso como parte integrante de sua própria existência ao encarar os seus componentes como próximos e se basear nas relações que tomamos como ideais para o convívio. Sendo fraca ou distorcida. Se considerarmos que.obtemos os primeiros conceitos sobre nossa condução como indivíduos. independente de seu conteúdo. passarão a dominar o comportamento e as idéias do indivíduo. A família é o primeiro elo na socialização do cidadão e sua integração vivencial.

os exterminaria. ao contrário dos povos europeus. Um inverno rigoroso cujas provisões não tivessem sido previamente administradas nas outras estações. As mais comuns são: a) b) c) d) Teoria da tropicalidade Teoria da mentalidade colonizada Teoria da multiplicidade de raças Teoria da docilidade do povo brasileiro A teoria da tropicalidade reza que os povos tropicais são naturalmente preguiçosos porque a natureza tropical lhes dá tudo que necessitam e por isso. também fazem parte dessa educação informal. favorece a natureza e a abundancia está sempre presente o que elimina a necessidade de planejamento ou trabalho para caius_c 277 . De acordo com essa teoria. com estações menos definidas ou apenas com duas estações: a das águas e das secas. Nos países tropicais. produzidas a partir das necessidades dos países colonizadores de afirmarem sua superioridade como povos. Elas induzem a um pensamento pré-fabricado por outros povos e assumidas como próprias. reforçando condutas e modo de vida. eles não necessitam de grandes esforços para obterem o necessário para sua sobrevivência.Teorias estranhas. São como lendas urbanas transmitidas através das gerações e cujas origens se perderam no tempo. as estações definidas do clima europeu teriam dado a eles um estilo de vida e uma compleição física e mental necessária que os fariam trabalharem de acordo com elas e que sem esse trabalho eles não conseguiriam sobreviver.

Ao mesmo tempo em que desejam voltar à sua terra. preferindo a morte à prisão. pela natural rebeldia de nossos indígenas em relação ao trabalho escravo imposto a eles pelos europeus. A teoria da mentalidade colonizada deve ter tido origem nas esperanças dos portugueses de virem ao Brasil para enriquecerem e depois voltarem para seu país de origem. capturado e sendo levado para o cativeiro em uma canoa. Presumo que essa teoria foi inspirada. o homem tropical precisa apenas estender a mão para tirar seu sustento da natureza. Dizem que as águas do Rio Negro não se misturam às do Solimões como protesto pela sua morte. A escravidão negra começou a partir do pressuposto de que os da terra não serviam para o trabalho braçal forçado. onde uma pesquisa caius_c 278 .sobreviver. Uma das lendas do Amazonas conta a história de Ajuricaba. Essa teoria também engloba o conceito de que as altas temperaturas dos trópicos favoreceriam uma natural preguiça no ser humano. Essa necessidade de liberdade foi assumida como má índole para o trabalho pelos seus conquistadores. mais históricas. Essa visão de um Brasil colônia de enriquecimento fácil ainda podia ser notada nas décadas de 30 e 40 do século XX. em parte. O povo português tem outras características. De acordo com essa teoria. um chefe indígena que. que é a da miscigenação fácil e sua adaptabilidade aos países para os quais migram. Dizem que o saudosismo está presente em todas as almas lusitanas e que a sua pátria é seu único lar. atirou-se ao rio e afogou-se. dificilmente o fazem pois se adaptam ao país onde estão.

não produz um pensamento único e isso acarreta distorções nas formas como a população age face às necessidades nacionais. Essa oligarquia vinculada à outra Nação assumiu como prática própria aquela ditada pelos seus dominadores. A teoria da multiplicidade de raças diz que no Brasil a heterogeneidade da sua população devido às diferentes etnias.mostrou que. O produto nacional indicava a qualidade do país em relação aos outros. por mais estabelecidos que estivessem aqui. à falta de incentivo e proteção à indústria nacional. A visão colonizadora dos antigos portugueses ou dos novos impérios transferiu-se para os governantes e transformou-se junto à população em uma individualidade que impede a união para fins voltados para a sociedade. ainda existia a perspectiva de um retorno ao seu país de origem. quando os produtos brasileiros eram inferiores aos importados devido. No Brasil colônia os governantes eram portugueses. Essa teoria produziu outra: a da exploração dos governantes em cima dos governados. considerando-se a si mesmos como elementos dominadores e dando ao resto da população a pecha de simples explorados. principalmente. O exemplo mais típico que usam nessa argumentação é a caius_c 279 . Essa teoria foi reforçada com o atrelamento da economia do Brasil Imperial à Inglaterra e depois com dominância americana após a Segunda Guerra Mundial. nos períodos que seguiram até a era de Getulio Vargas eram submissos aos ingleses e depois da Segunda Guerra aos americanos.

produzindo um fenômeno que é a individualidade e a incapacidade de acreditar nas camadas que governam o país. Isso originou a assertiva de que o “brasileiro é um povo fácil de se governar”. Essa característica é passada pelas gerações através dessas caius_c 280 . onde ele se relacionaria econômica ou politicamente com aqueles com quem tivesse um envolvimento emocional. ao mesmo tempo em que ele não se considera como parte de sua sociedade e termine por usá-la apenas como forma de ascensão social. social e camarada. Presumo que parte dessa teoria se deva ao fato do brasileiro ser naturalmente cortês e nas premissas de Sergio Buarque de Holanda. Essas teorias esdrúxulas e sem sentido são usadas como argumentos como explicação para a aparente inércia da população em relação à atuação de seus governos e são transmitidas informalmente.homogeneidade da população japonesa e seu pensamento único. A teoria da docilidade do povo brasileiro vem da sua natural diversidade e de sua capacidade de aceitação e convivência com outros povos. que definiu a identidade brasileira resultante da colonização portuguesa voltada para a afetividade em suas relações sociais do Brasil Colônia. Dizem que o Japão do pós-guerra somente conseguiu se reerguer devido à aparente unicidade étnica o que lhes deu a vantagem de um pensamento único voltado para a recuperação de seu país. Isso transforma o brasileiro em um ser cortês.

onde existiram poucos conflitos e a maioria foi resolvida de forma quase pacífica. conforme tão bem descrito por Euclides da Cunha. atrás de uma rocha. com ideais apenas dele. as mudanças de pensamento são quase nulas. deficiente ou inexistente. no seu livro “Os sertões” e que despende sua energia apenas nos momentos de luta.teorias estranhas à sua própria índole e o transforma em um ser individualista. que espera na mira dormida. sua vítima passar. O brasileiro não é um soldado: ele é um guerrilheiro solitário. Com pouca tecnologia e descrente de um poder estatal. Nos países onde a educação formal é fraca. A Educação formal faz da inverdade histórica um motivo para que a população seja indiferente aos seus governos e acentuem sua individualidade. Ainda subsiste em sua mente a forma comportamental da colônia onde os da terra eram obrigados a reverenciar seus governantes alienígenas para não perecer ao mesmo tempo em que procurava tirar para si o melhor proveito. Essa aparente aceitação do poder que recai sobre si lhe vale a fama de ser passivo frente aos seus governantes. Mas a história brasileira está recheada de eventos que contradizem frontalmente essa afirmativa sobre sua passividade e que não lhe é mostrada na educação formal. A educação informal é arraigada nos caius_c 281 . Ele evita confrontos diretos mas que não se esquiva de uma luta onde seu rosto não apareça. O que lhe mostram é a imagem de um país com história serena. ele se faz valer por si mesmo e procura atingir apenas os objetivos que se atribuiu.

Essa educação aliada ao bombardeio contínuo de uma mídia faz com que ela tenha tamanha força que nem sempre é superada pela educação formal. . artística e jornalística.preferência a finalidades educativas. artísticas. conforme percentuais estabelecidos em lei. .promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação. O Estado é responsável pelo que circula na mídia simplesmente porque a concessão desses serviços é dada pelo próprio Estado. da Comunicação Social. culturais e informativas. No entanto. caius_c 282 . Os princípios das programações das emissoras serão os seguintes: . o Estado tem o poder de regular o conteúdo através do § 3º do mesmo artigo e no artigo 221. Os interesses da mídia são predominantemente econômicos e políticos. apesar de não poder existir censura. conforme disposto na Constituição de 1988. no seu Capítulo V. Se não existe um interesse governamental em fazer com que ela se torne uma forma de educação voltada para os interesses da comunidade. quando uma não está aliada à outra.regionalização da produção cultural. ela atuará como elemento amortizador de mentalidades e produtora de individualidades.costumes e se transmite antes da formal através da família. embora a censura seja vedada.

tanto formal como informal. então. Essa visão somente pode ser inserida através da Educação. ao brasileiro para se afirmar como uma única Nação? A primeira. O brasileiro precisa passar a se ver como realmente é e essa visão de si próprio lhe dará espaço para uma visão social. diferente de todos os outros. surgiriam naturalmente da comunidade. já imbuídos de uma mentalidade social. com certeza. Isso faz que seja de sua responsabilidade o conteúdo transmitido por esses meios.respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família. Embora os meios de comunicação sejam de propriedade privada. O que falta. mas o primeiro líder seria especial. Parece difícil que surja um líder com uma mentalidade social dentro de uma sociedade individualista. já que é naturalmente disposto a isso. Sua aparente individualidade é a forma que encontrou para se proteger física e mentalmente de seus governos. o Estado se outorga o direito de regular suas programações e conceder concessões. Realmente é difícil. Os demais. Essa identificação seria caius_c 283 . A segunda é o surgimento de líderes que estejam voltados para a totalidade do Brasil e não apenas para seus grupos. Esse líder teria que ter necessariamente um governante cujos anseios fossem derivados diretamente do povo. de tal forma que desmistifique essa índole atribuída errônea e historicamente a ele. é visão de sua essencialidade social..

pela própria estrutura do ser humano. Toda criança tem um tendência natural ao egoísmo que precisa ser modificada através da Educação. Com o desligamento sucessivo da influência da família. principalmente através da educação que recebe formalmente e cuja competência é do Estado. o indivíduo passa a ter outras. Educação e a criança O desligamento da criança de seu núcleo familiar é cada vez mais precoce. gera a extrema individualidade e. Nessa fase. se deixada à solta. uma criança passa a sofrer influência de uma educação formal a partir dos seus três anos quando ingressa no Jardim da Infância. Seria o exercício da soberania do cidadão em conjunto com a soberania do Estado. as afirmativas da Nação passariam a ser do próprio cidadão. A terceira fase e definitiva seria a formação de uma mentalidade única voltada para o social. em casos extremos. Com um período histórico de crença em seus líderes. Essa naturalidade. o que o transformaria em um Status Magnus. a sociopatia. Idealmente. ainda existe uma forte ligação com os elos fabricados dentro de si pela família. A educação consiste em três partes: caius_c 284 .a primeira base para o crédito a lhe ser dado ao mesmo tempo em que lhe concederia a legalidade para sua atuação.

nada mais natural que assim o façam. Sendo dever do Estado e da família e sendo essas instituições as mais adequadas para essa imposição. ela tomará como adequado o conceito de manada. visto que por si só o indivíduo não a adquiriria. Seriamos o equivalente a um peixe dentro de um cardume ou um gnu dentro de sua manada. estaríamos juntos apenas como forma de proteção e não como forma de uma mútua convivência ideal. Existe a necessidade da imposição da educação por parte de uma instituição que esteja acima do indivíduo. Apesar de sermos animais sociais. A criança é naturalmente egoísta e o mundo gira em torno de si própria. isso não nos dá o conceito natural de vivência social. quando necessário. a educação é caius_c 285 . Se a deixarmos por conta sem a necessária educação.a) A socialização do indivíduo b) A manutenção do modus vivendi da sociedade c) Fornecimento de parâmetros para que o indivíduo se modifique e a própria sociedade. depois procura formar sua própria. sem nos dar a consciência real do que deveria ser viver em sociedade. Essa naturalidade apenas nos agrupa e nos mantém juntos. onde o grupo existe apenas para que o indivíduo possa dele se aproveitar e usa-lo apenas em benefício próprio. Sendo a família uma entidade natural na qual o indivíduo nasce e cresce e. ou seja. A primeira fase da educação é nos fornecer sociabilidade e retirar de nós o natural egoísmo com o qual nascemos.

Uma sociedade é a extensão de um acordo coletivo aprendido. sua condução e sua aplicação.transmitida da mesma base natural da qual ela se constitui. A segunda fase é de responsabilidade maior do Estado que deve formalizar a condução da educação e dar a ela uma simultaneidade na qual todos se identifiquem naquele tempo e espaço como parte de um grupo estável ao mesmo tempo em que uniformiza o conjunto de conhecimentos e comportamentos que todos deveriam ter. A educação familiar não tem esse poder de uniformizar a educação visto que uma diverge da outra em muitos pontos. teríamos uma pane no sistema social pois a cada momento teríamos que fazer acordos com nossos semelhantes e isso tiraria a capacidade de sabermos antecipadamente como deveríamos nos comportar ou agir em relação a outrem. e nos quais nos baseamos para nossos comportamentos. As gerações se sucedem dentro desse núcleo e transmitem-na como uma herança. geralmente através da família. A segunda base da educação é a de manter as formas pelas quais nós nos identificamos e pelas quais nos conduzimos. Se pensarmos em uma sociedade onde cada um tem suas próprias formas de se conduzir. Essa uniformização da educação pode esconder duas formas de manutenção de Estados totalitários: caius_c 286 . Ao Estado compete uniformizar as formas da educação. Uma sociedade precisa ter padrões próprios e de conhecimento de todos.

ao ser diferente de um para outro. No máximo. uniformizando e dando uma base ideológica única. nega-se o dever de protegê-lo como algo que não seja seu. O desnível gera indiferenças ou revoltas no indivíduo. o Estado nega a educação completa ou apenas dá parte dela no que se refere ao profissionalismo. na forma de comportarse ou nas oportunidades que possa ou queira vir a ter. O desnível da educação afeta a própria soberania do Estado ao dar bases distintas para o cidadão situarse dentro da sociedade. A soberania do cidadão caius_c 287 . a sua intenção é a formação de mão de obra especializada. b) Modernamente. os Estados totalitários com base marxista desvirtuada valeram-se da educação para sua afirmação como Estado. Ao escusar-se do direito de defender o Estado como se fosse sua extensão. por conseqüência. a soberania do próprio Estado pode ser ameaçada pois ela parte primeiramente do sentimento do cidadão em relação à Nação.a) A não-educação como forma dos Estados totalitários se manterem. Sendo a educação um conjunto de conhecimentos que dá condições sociais para o cidadão. gerará distorções do modo de pensar. podendo provocar a negação do Estado como seu condutor e. Partindo da premissa básica de que quanto mais o cidadão é desinformado mais ele deixa se conduzir ou aceita as pretensões dos grupos que compõe o governo.

È o conceito de tese-antítesesíntese de Marx aplicado à forma de condução da sociedade. Uma das máximas das teorias de evolução é aquela em que diz que perece aquele que não se adapta. Sendo a sociedade um reflexo do indivíduo e sendo o indivíduo o próprio reflexo da sociedade. buscando formas que darão um melhor contorno à sociedade em que vive. os dois devem estar preparados para usar caius_c 288 . onde uma situação concreta é analisada e conduzida de forma abstrata até se chegar a um novo conceito que passa a ser adotado. Com a sociedade também é assim: a sociedade que não sabe adaptar-se desaparece como tal. A complementaridade também cabe nessa base. Esse novo conceito é válido até o instante em que é novamente analisado gerando um novo conceito e assim sucessivamente. A terceira base é aquela em que a educação fornece condições para que o indivíduo use daquilo que aprendeu. compare com as atuais necessidades e tente promover mudanças próprias ou da sociedade em que vive. Essas duas bases da educação são inerentes a toda sociedade: primeiro socializamos o indivíduo e depois damos a ele as bases sociais de comportamento. O ensino das formas de se conduzir ao contraditório ou à complementaridade é básico para que existam mudanças ou adaptações. onde novos conceitos vão sendo trazidos para dentro do conjunto pelo qual o indivíduo e a sociedade se regem.dentro do Estado é a base e o reforço da soberania do próprio Estado no que concerne às ameaças a ela.

é certo dizer que a educação dita o contexto sobre o qual a sociedade age e o Estado atua. Qualquer mudança que ocorra na sua forma. visto que essas mudanças são válidas apenas para as novas gerações. Se o Estado quer progredir como tal deve fazer com que o cidadão tenha a capacidade de avaliação da situação e tenha habilidade em fazer com que ela perdure ou se transforme de acordo com as necessidades. ou seja. A velocidade com que o mundo se conduz exige que os caius_c 289 . necessárias para progredirem Sendo o Estado o regulador das ações sociais. no mínimo.das formas conjuntamente. um Estado que espera vinte anos para que novas idéias comecem a surtir efeitos é um Estado que está fadado a perder sua soberania ou a perecer simplesmente visto que o tempo espera cada vez menos os retardatários. Hoje em dia. qualquer reforma que temos na Educação somente terá reflexos. A educação é a essência do indivíduo e da sua transformação para o estágio de cidadão. daqui a 20 anos. ela tem início apenas nos cidadãos que estão na idade adequada. Um Estado com cidadãos inertes terá a mesma qualidade. A educação e as velhas gerações Um dos grandes problemas da educação é a perda de gerações. o que a transforma na própria essência da sociedade.

quando necessário. O eterno aprendizado faz parte da arte de ser um educador. A educação e os educadores Não existiria a educação se não existissem os educadores. o educador na forma ideal sempre tem que estar um passo adiante de seus educandos. Não se trata de um retorno aos bancos escolares de todo e qualquer cidadão em uma reforma educacional completa mas da veiculação através de outras fontes da síntese de como ela se conduz e que de ao cidadão as informações necessárias para que todas as gerações possam se integrar no mesmo movimento. conferindo a ele o conhecimento e a aptidão necessária para que possa construir-se e aos que o cercam. sob quaisquer das formas.Estados tenham uma maior capacidade de adaptação às formas como se faz presente. Educação não se resume aos bancos escolares mas sim sobre uma gama vasta de informações que produzem uma forma de agir e pensar em cada cidadão. No entanto. caius_c 290 . quando aquilo que lhe é apresentado não lhe convém. Por educadores podemos entender aquele que transmite o seu conhecimento a outros. Uma Educação Reformadora precisa incutir capacidade de raciocínio e discernimento no cidadão de modo que ele tenha condições de avaliar e agir.

na sua Filosofia da Educação – Construindo a Cidadania.A educação formal e informal tem uma influência preponderante sobre a atuação do cidadão sobre sua vida futura. isso pode levar a vida dela para uma espécie de buraco negro de onde ela não escapará. onde não deixará nenhum legado e da qual se lembrará apenas nos seus momentos amargos de derrota. Por menos que se queira “traumatizar” uma criança ou queira que ela tenha um começo de vida “feliz e alegre”. Existe uma diferença muito grande em parecer bom e ser bom efetivamente. sabendo que ele terá que suportar muito alem disso. Nem sempre as atitudes que temos para com uma pessoa podem ser consideradas “boas” mas os reflexos dessa atitude geram coisas boas. por onde a criança passará. é negar a ele o direito da própria sobrevivência. os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. Uma escola que não dá as condições necessárias para que a criança se desenvolva e faça com que ela tenha um desenvolvimento. diz que o conjunto de produtos de representações simbólicas e de procedimentos apresentados pelos homens que não são decorrentes da atuação direta das caius_c 291 . ANTONIO JOAQUIM SEVERINO. Não dispensar um treinamento duro e exaustivo para um soldado. Na percepção individual ou coletiva da identidade. será uma escola vã. onde se lamentará por não ter tido a instrução necessária para poder sobreviver por si própria. a cultura exerce papel primacial para delimitar as diversas personalidades.

onde o conhecimento distorcido se transforma em algo negativo para a sociedade. Isto refletiria. sendo a produção de novos conhecimentos e técnicas produto direto da interposição de culturas diferenciadas com o somatório daquilo que anteriormente existia. Idéias erradas promovem comportamentos errados. a globalização que se verificava já em fins do século XX tenderia a uniformizar os grupos culturais.forças mecânicas da natureza constitui o que se chama de cultura. Idéias corretas dão o melhor nível sobre o qual se baseiam as relações sociais. São elas que determinam o comportamento. 228 Para o teórico MILTON SANTOS. A cultura é a forma primeva na qual a sociedade se acorda e sobre a qual os pensamentos caius_c 292 . Para ele. o conhecimento e saber se renovam do choque de culturas. na perda de identidade. em seu livro “As viagens de Gulliver” descreve bem essa situação quando aporta em Lapúcia e Balnibarbo. O mundo é feito de idéias. enquanto gerador de novas técnicas e sua geração original.230 Como cultura não devemos apenas ver as diferentes manifestações da sociedade ou sua forma de conduzir. ainda. Jonathan Swift. 229 A inserção de padrões errados no comportamento ou na mente das pessoas e seu uso generalizado fazem com que se tome como certo aquilo que é errado. podendo ir até ao plano individual. primeiro das coletividades. e logicamente uma das conseqüências seria o fim da produção cultural.

A Educação como fonte de soberania À primeira vista. A educação. Sua função principal é dar aos cidadãos as melhores ferramentas possíveis para estimular sua participação dentro de uma sociedade.dos indivíduos gravitam. a Educação deveria estar desvinculada da política vigente do Estado. no entanto. toda educação é política. É certo que toda educação influi na economia do cidadão e do Estado. buscando que ele faça o melhor para si e para a sociedade da qual participa. em função dos analfabetos e desprofissionalizados. A cultura deve ser vista como a introspecção das formas de condução da sociedade. A Educação não conseguirá resolver todos os problemas do cidadão e também não é sua função precípua. se transforma em comportamento e isso determina a cultura de cada país. Apesar de ser um dever do Estado. A Educação não deve buscar apenas a formação profissional ou tentar moldar cidadãos anuentes com a formação política do Estado. pode parecer que a educação deveria ser dada apenas como forma de se alfabetizar e dar condições de ganho à população através de uma profissão. caius_c 293 . A Educação deveria ser usada para moldar o próprio Estado e não ser usada para conformar a população dentro dos parâmetros que o Estado estabeleceu para si. em suas diferentes formas.

A Educação forma a soberania do cidadão e. por extensão. Moral e Ética deveriam ser matérias constantes no mesmo currículo pois são bases do Direito e por conseqüência caius_c 294 . a do próprio Estado. onde se fornece ao indivíduo todas as possibilidades para que ele se torne um cidadão ao mesmo tempo em que lhe imbui a capacidade crítica tão necessária à manutenção ou transformação da sociedade. Esse estudo paulatino seria a forma mais adequada de fixação das convenções do país. direitos e deveres na mente do cidadão. Para se ter soberania é necessário que a Educação seja vista como um todo. Algumas matérias deveriam ser introduzidas no currículo escolar como Constituição. onde se ensina e se dá condições para o cidadão de ter uma profissão condizente com as necessidades de mercado. estudos sobre Moral. Como ser cidadão de um país se eu não conheço as linhas mestras de sua condução? Esse estudo seria a base dos conceitos a serem adquiridos sobre soberania e cidadania. b) Princípios de cidadania. A Constituição deveria ser dada em doses homeopáticas em todos os anos até o colegial. Ética e História. onde o cidadão sinta-se como parte do Estado e o Estado se reconheça como espelho da Nação que ele administra.A Educação deveria basear-se em dois princípios: a) Princípios econômicos ou de mercado.

Não reprovar alunos pelo simples fato que isso se torna oneroso para o Estado ou apenas para cumprir metas estabelecidas pelo Estado ou pela comunidade internacional. deveria existir uma mudança na matéria História. Não se trata de campanhas de marketing mas sim de um ensino informal ministrado de forma que aja compreensão e aceitação. dando ênfase ao seu lado crítico e formando-a de modo que saibamos o que somos. de onde viemos e para onde queremos ir. gera apenas uma mentalidade subdesenvolvida nas duas partes onde uma se exime de se dar da melhor forma como educador e a outra parte se escusa de receber conhecimentos que serão essenciais para sua sobrevivência como profissional ou cidadão. o ensino formal dessas deveria ser configurado de modo a ser veiculado pela mídia nas suas diferentes formas para que atinjam a todos. porque algumas teorias esdrúxulas sobre educação afirmam que não se deve exigir muito dos educandos. então. Acreditar que o mínimo de esforço pode produzir bons resultados é negar que o ser humano necessita do árduo trabalho para poder se promover e confundir as mentes com caius_c 295 . Não devemos esquecer que uma educação somente existe quando se tem o empenho dos educandos e educadores. Por último. ou. Para que não existam perdas de gerações.das obrigações e deveres do cidadão não somente sob as penas da lei mas na forma de transferir para o íntimo de cada um a necessidade de pensar e se comportar tendo como referência um padrão aceitável por todos.

ideais e de um modo de vida que julgamos necessário à nossa própria pessoa. Quem quer governar um país precisa saber como fazê-lo. deveria existir uma Escola para Políticos.noções de que fazer pouco lhe trará algum benefício pessoal. Sendo um sentimento e tendo suas qualidades. o Estado não está agredindo-a ou lhe negando qualquer direito. Ao se reprovar uma criança em determinada matéria. Não se trata apenas da defesa de um território mas sim da defesa de idéias. O que existe é a necessidade de conceituação de uma nova soberania. Os políticos seriam mais produtivos e mais voltados à sua própria Nação se a entendessem como parte de si mesmo e se vissem como substrato da cidadania e da soberania. onde se deve ter o conhecimento para poder exercê-la. ela seria etérea se não fosse uma necessidade como caius_c 296 . Não existe uma fragilização da soberania por causa das mudanças que ocorrem no mundo e que nos atingem nas suas mais diferentes formas. O Estado precisa de pessoas preparadas para ocupar os cargos que detém e esses devem estar preenchidos com o que temos de melhor em material humano. o Estado está dando a ela mais uma chance de aprender aquilo que ela não conseguiu da primeira vez. Por último. A soberania estará cada dia mais virtual e com mais parâmetros do que tinha até hoje. A Política deveria ser uma carreira como as demais. Pelo contrário. com reprovação e aprovação igual a todas as demais.

se reforça nas suas pretensões. O único processo que pode incutir esse sentimento de soberania é a Educação. O Estado se torna o promotor e o mentor desse sentimento e repassa à família através de seus próprios membros. caius_c 297 . a responsabilidade do Estado no que se refere à Educação passa a ser total e o dever que a família tem com relação à educação passa a ser o compromisso de vigiar seus membros no que concerne à aquisição dessa Educação. o cidadão passa a ter consciência das pretensões do Estado. a soberania não se fragiliza e. Mesmo que a educação seja um dever do Estado e da família. Com o devido processo educativo. Ao padronizar a educação. Dessa forma.fundamento no modo de nos conduzir. O sentimento de soberania define nossas pretensões sobre a forma na qual queremos nos moldar. o Estado influi na Educação que a família dará aos seus membros. sim. Com a educação adequada. ela deve ser imbuída dentro de nós desde as primeiras idades para que permaneça como elemento chave da composição de um cidadão. O Estado fornece a Educação e a família assegura que seus membros a terão. aquele tem a força necessária para padronizar a educação e dar os contornos necessários a ela. Sendo um sentimento. Se for incutida desde nossos primeiros momentos. que são o espelho de suas próprias como cidadão. o sentimento de soberania torna-se referência para todos os nossos atos.

Sem ela. Com ela podemos ser o que quisermos. caius_c 298 . deixamos de ser humanos.Afinal. qual seria a sua maior premissa? A principal premissa da soberania é a liberdade. Há de se seguir adiante como nunca se seguiu antes. qual o lucro da soberania? Se necessitamos tanto dela.

Poder "Não é o poder que corrompe o homem. conservando-a unida." (Ulisses Guimarães) SALVETTI NETO define poder como a imposição real e unilateral de uma vontade. Deriva da própria natureza das coisas e não poderia ter sua causa primária senão na inteligência e vontade suprema de Deus. coesa e solidária. O homem é que corrompe o poder. natureza integrativa do poder estatal. A força é o poder de fato enquanto que a competência é o poder de direito.capacidade de auto-organização.232 BONAVIDES diz que o poder representa sumariamente aquela energia básica que anima a existência de uma comunidade humana num determinado território. unidade caius_c 299 .231 AZAMBUJA adota a posição de Duguit ao explicitar o poder e a autoridade como expressões de ordem que reina no mundo físico e moral. Ele entende que a força e a competência se entrelaçam. Suas características principais são a imperatividade.

Esta forma de liderança surgiu quando os homens se tornaram predadores de grandes animais.e indivisibilidade do poder. No entanto. Isto explica-se pelo simples fato que existe a necessidade. Entende-se que em um estado primitivo de racionalidade. princípio da legalidade e legitimidade e a soberania. Essa força. 234 Para CELSO RIBEIRO BASTOS. 233 AFONSO ARINOS define poder como a faculdade de tomar decisões em nome da coletividade. a princípio. os grupos eram pequenos e familiares. 235 Poder é a força pela qual o Estado afirma-se sobre o indivíduo. para se caius_c 300 . Entende-se que a individualidade em grupos de animais herbívoros é maior do que em carnívoros. exercendo funções de coordenação e coesão. Nestes primórdios. Tudo pertence ao Estado. O poder político nasceu junto com os grupos humanos. o poder somente existe através de uma única liderança que se mantém pela força bruta. o poder é intrínseco a toda forma de organização. ele próprio pode regulamentar sua ingerência sobre os cidadãos. É um fenômeno social e bilateral porque decorre da união de duas ou mais vontades. é total. O Estado detém todas as prerrogativas sobre o cidadão e o submete de acordo com seu regime e forma de governo.

Predadores que abatem pequenas presas. principalmente. o grupo serve como suporte para sua sobrevivência. A sobrevivência pela caça e o medo da morte deram início ao poder político. não necessitam da cooperação do grupo. da morte. Quando o homem passou a ter consciência de si e. surgiu uma segunda forma de liderança: o xamanismo. por sentir que deveria existir um ente que regulasse as relações humanas e por acreditar que existia algo superior ao próprio homem nesta condição. Ao poder temporal do líder do grupo juntou-se o poder espiritual do xamã. A liderança que era algo adquirido através de atributos pessoais foi substituída pelo estamento. Esta convivência histórica e biológica com estas formas de liderança. Neste caso. elas se tornaram explicações para muitos dos problemas que afligiam o homem primitivo. Por não mais poder viver de outra forma que não fosse em social. mesmo que sejam sociais. Ambos passaram a regrar a vida social e individual do homem. buscou-se no espiritual o conforto necessário para sua mente. caius_c 301 . A servidão natural foi reforçada através da criação de castas pelos indivíduos dominantes. produziu uma natural servidão no homem comum.abater grandes presas. de uma cooperação ligada através de uma forte liderança. Sem poder explicar os fenômenos naturais e com medo de sua temporalidade. Mesmo que as respostas não fossem exatas ou claras. o homem passou a aceitar naturalmente o poder político.

também. Esta expansão quebrou a hegemonia econômica e política destes poucos grupos. ela formou novos grupos que passaram a disputar. A associação direta do controle dos meios de produção e do poder político por uma elite foi amenizada quando passou a existir a produção em massa. Ocorreu uma democratização dos meios de produção e isto permitiu que eles se expandissem. através da força associada com a submissão cultivada através dos estamentos. Com a industrialização os liames estamentais foram se afrouxando. que eram controlados por elementos que também detinham o poder político. permitindo mobilidade social. favorecendo a classe dominante. quase sempre. No entanto.Este congelamento da posição social do indivíduo promoveu uma distância muito grande entre os dominados e dominadores. o uso do poder político deu-se. Os dominados passaram a ter que desempenhar as funções para a própria sobrevivência ao mesmo tempo em que tinham que manter a classe dominante no poder. A relação que era essencial para a sobrevivência de ambos desaprumou-se na balança. Isto permitiu que os equipamentos se barateassem e pudessem ser adquiridos por pessoas que não estavam ligados diretamente a esta oligarquia.o caius_c 302 . Até a Revolução Industrial. A partir deste ponto o poder formou-se pelo domínio dos meios de produção.

Seus paradigmas são revistos para que seu uso retorne a uma de suas condições mais primevas: o bem comum. tem que se entender que ele muda de mãos constantemente. dentro desta forma de governo. passa a ser controlado e suas atribuições mudam. A efetiva democracia e o Estado Democrático de Direito tiveram seu início quando a mobilidade social passou a integrar o cotidiano do indivíduo. As forças do Estado sobre o indivíduo O Estado exerce duas forças sobre o indivíduo: a) Opressiva caius_c 303 . a submissão ao poder político se faz pela racionalidade e pela lógica do direito. atualmente. o poder político passou a ser algo que poderia ser partilhado. No Estado Democrático de Direito. O cidadão tem a exata compreensão das forças que controlam a sociedade e direciona-as para obtenção dos melhores resultados para si próprio e aqueles que o rodeiam. dentro de um sistema regulador de seu uso. de acordo com a capacidade ou rapacidade das empresas ou grupos financeiros. nunca pela coerção. Assim. Quando se fala de poder econômico. O poder controla ao mesmo tempo em que é controlado.poder. por conta da própria democratização dos meios de produção. O poder. O poder deixou de ser objeto exclusivo de alguns para se tornar algo acessível a todos.

236 Esta força opressiva determina apenas deveres ao indivíduo e as sanções para quem não os observa. Um Estado democrático estabelece um padrão para que as partes se beneficiem da convivência mútua. a diferença entre as forças liberativa e opressiva determinará em qual ponto o Estado situa-se entre estes dois pólos. Quando ele faz isso. inclusive.b) Liberativa A força opressiva é aquela cujo domínio sobre o cidadão é total. permitindo algumas para o indivíduo apenas quando ele pode auferir maiores ganhos. Para ele. Estas duas forças atuam sobre a liberdade do indivíduo. a democracia estaria no meio dos dois. o Estado é o único detentor legal do uso da força. concede direitos para o cidadão que pode. usá-los contra o próprio Estado. Em tese. Um Estado autoritário entende que todas as vantagens têm que ser para si.237 A força liberativa é aquela em que o Estado estabelece padrões de vivência para o indivíduo de forma aceitável pela sociedade. Isso também estabelece o grau de controle que o próprio Estado exerce sobre si. É o poder ilimitado sobre o indivíduo. MAX WEBER afirma que o Estado é uma associação política institucionalizada e especializada em dominação. caius_c 304 . Se considerarmos que o mais alto grau de falta de liberdade é o autoritarismo estatal e o mais alto grau de liberdade do cidadão é a anomia.

esta assertiva estaria correta. Em um país autocrático. mas a do indivíduo que governa e para quem exerce a sua arte. é com vista ao que é vantajoso e conveniente para esse indivíduo que diz tudo o que diz e faz tudo o que faz. onde se entende que existem vantagens dentro dessa obediência.O poder atua de duas maneiras: a primeira é a própria força do Estado sobre o indivíduo. seja qual for a natureza da sua autoridade. que engloba todas as formas de policiamento e repressão. Em um país democrático. na medida em que é governante. não objetiva e não ordena a sua própria vantagem.239 O poder que o Estado exerce sobre o indivíduo pode ser de várias formas. cujo objetivo é manter os diversos poderes em igualdade para que nenhum possa sobrepor-se ao outro e para que um exerça poder de polícia sobre o outro. Qualquer vantagem que o governante possa ter seria seu pagamento pelos serviços que estaria prestando aos governados. a segunda é a própria disposição do indivíduo em submeter-se a ele. ou seja. caius_c 305 . existe um equilíbrio entre as várias formas. o que pode incluir a violência. ele usa de todos os seus meios para se fazer obedecido.” 238 Se considerarmos que uma das funções primordiais do Estado é o benefício do cidadão e que o equilíbrio das forças opressiva e liberativa é forma pela qual ele a exerce. PLATÃO faz uma assertiva temerária ao dizer que “nenhum governante. o poder exercido é o da opressão.

Seus membros eram soldados em condições de servir o exército. As principais funções do Senado eram: propor novas leis e fiscalizar as ações dos reis. temia o que se chamava de tirania. dois reis eram eleitos para governarem a cidade. submetia-se a fiscalização da Assembléia Curial e do Senado. vindo de duas famílias distintas. Para evitá-la. caius_c 306 . Esta forma de governo chama-se diarquia52. aclamar o rei. chefe militar e religioso. 52 Governo de duas pessoas. que não pode ser considerada como um ideal de democracia. ARISTOTELES distinguiu a assembléia-geral. A Assembléia Curial era composta de cidadãos agrupados em cúrias. A Assembléia tinha como principais funções: eleger altos funcionários. O rei era juiz. Seus motivos eram simples: suprimir o poder absoluto de uma só pessoa e ter um governo contínuo. A idéia de separação dos poderes é antiga. Roma foi governada por rei. aprovar ou rejeitar leis. senado e Assembléia Curial. o corpo de magistrados e o corpo judiciário. caso um dos reis viesse a faltar. O senado era um conselho formado por cidadãos idosos.Teoria da separação dos poderes Mesmo Esparta. 240 Durante a monarquia. responsáveis pela chefia das grandes famílias. No desempenho de usas funções. que possuíam iguais poderes. Ágidas e Euripôntidas.

ou o mesmo corpo dos principais. e todas as transações com todas as pessoas e comunidades que estão fora da comunidade civil. o de executar as resoluções públicas e o de julgar os crimes ou as querelas entre os particulares. A ele competia prescrever as leis de modo a serem utilizadas como poder coercitivo da comunidade civil para sua preservação e de seus membros. ligas e alianças. Ele garantiria a execução das leis à medida que fossem feitas e durante sua validade. No seu conceito. executivo e judiciário. e adequar a lei a sua vontade. sendo auxiliado pelos outros. Seus representantes reunir-se-iam periodicamente e apenas quando necessário.“não convém que as mesmas pessoas que detêm o poder de legislar tenham também em suas mãos o poder de executar as leis. ou dos nobres. Ele diz que “tudo estaria perdido se o mesmo homem. tanto no momento de fazêla quanto no ato de sua execução.”242 caius_c 307 . executivo e federativo.JOHN LOCKE estipulou que deveriam existir três poderes: legislativo.”241 O poder executivo seria permanente e exercido pelo rei. Para evitar que esse poder se tornasse absoluto. o legislativo teria a máxima prerrogativa. ou do povo exercesse os três poderes: o de fazer as leis. pois elas poderiam se isentar da obediência às leis que fizeram. não poderia exercer outras funções . contrários à finalidade da sociedade e do governo. O poder federativo teria a competência para fazer a guerra e a paz. Foi MONTESQUIEU quem definiu a separação clássica entre legislativo. e ela teria interesses distintos daqueles do resto da comunidade.

“Toda sociedade na qual a garantia dos direitos não está assegurada. A separação dos poderes é a garantia técnica e jurídica do Estado liberal.Ensina ALEXANDRE DE MORAES que a separação de poderes é essencial. em todas as suas nuances. que a constituição offerece. Os Poderes Políticos reconhecidos pela Constituição do Império do Brazil são quatro: o Poder caius_c 308 . de autoritarismo. e harmonia dos Poderes Políticos é o princípio conservador dos Direitos dos Cidadãos. sendo transformada em dogma pelo art. onde se diz: Art. o poder judiciário está subordinado ao Executivo. 9. de modo geral. No Brasil. tornando-se princípio fundamental da organização política liberal. o conceito da separação de poderes já está imbuído na Constituição Outorgada de 1824. A idéia de separação de poderes tem origem nos ideais democráticos. nem a separação de poderes estabelecida não tem constituição. de 1789: .” 243 Em alguns países. A concentração de poderes em uma só pessoa ou em uma só instituição gera aquilo que chamamos. embora tenha autonomia. 16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. A Divisão. 10. Art. e o mais seguro meio de fazer effectivas as garantias.

que “são Poderes da União. A de 1937. em seu artigo 2o. O Poder Moderador. 244 As Constituições de 1889. 1967 e 1969 consagram o princípio da tripartição dos poderes. promove. 1946. pois considera o Presidente da República como autoridade máxima do país. Este sistema é o que convencionou chamar-se de freios e contrapesos.Legislativo.. caius_c 309 . 1934. além da redução de atuação absoluta de cada deles. A distribuição de poderes diversos entre entidades ou pessoas distintas. Cabe ressaltar que ela define o Ministério Público como órgão autônomo face aos três poderes. desde que sejam autônomos. o fecho da abóbada. uma necessária interação para que o Estado possa exercer suas funções. seria destinado a estabelecer o equilíbrio entre os demais poderes e exercido pelo Imperador. independentes e harmônicos entre si. o Legislativo. onde cada força equilibra a outra. o Poder Executivo e o Poder Judicial. ainda. ou. ou melhor. o Poder Moderador. teorizado por Benjamin Constant. o Executivo e o Judiciário”. outorgada por Getúlio Vargas silencia-se sobre o assunto. seria a chave de toda organização política. a cúpula do governo. Esta tripartição dos poderes mantém-se na Constituição Federal de 1988 onde se estabelece.

administrativa. O mesmo ocorre com os Tribunais de Contas. cada um deles detém as mesmas características. governo. 245 caius_c 310 . visto que. histórico. o respeito aos direitos humanos. Sendo subdivisões do poder total. que lhe permite proteger. entendem que existem outras modalidades de poderes. ou jurisdição. não podem pertencer a nenhum dos poderes tradicionais para exercer com eficiência sua função fiscalizadora. governo. como MAGALHÃES. os poderes deveriam ser divididos em funções: legislativa. o meio ambiente. especialmente porque sua função preponderante é a de fiscalização e proteção da democracia e dos direitos fundamentais e não de legislação. etc. todos carregam em seu bojo as forças opressivas e liberativas que. aliadas à necessária interação. Para ele. fiscalizar o respeito à lei e à Constituição. O termo médio pretende ser a melhor resposta para os problemas sociais ou estatais e busca evitar as soluções extremadas. jurisdicional. que embora necessitem nova forma de escolha de seus membros para que assumam este novo status. administração. e logo. transformam em termo médio as vontades de cada um.Estas subdivisões é a forma atual mais adequada para um Estado democrático. alguns órgãos não estão subordinados a nenhum deles. O Ministério Público não pode estar vinculado a nenhum dos poderes tradicionais. como o Ministério Público e os Tribunais de Contas O Ministério Público tem uma autonomia especial. simbólica e fiscalização. o patrimônio publico. os direitos fundamentais da pessoa. constitucional. Alguns autores. ou seja. no Brasil.

No caso da União. auxiliado pelos seus Ministros de Estado. às vezes. Constituição Federal de 1988. poder executivo é o poder do Estado que.O poder executivo. inserindo o poder de veto ao Executivo como forma de participação no processo legislativo. nos moldes da constituição de um país. os poderes podem exercer funções de outros. caius_c 311 . cumprindo fielmente as ordenações legais. É o que cumpre ou faz cumprir aquilo que foi determinado como sendo de alguma vantagem para a sociedade e/ou Estado. o poder executivo é exercido pelo Presidente da República. deve participar da legislação com sua faculdade de impedir. além de seus secretários.53 Esse conceito é estendido aos estados e municípios. sem o que ele seria logo despojado de suas prerrogativas. como já dissemos. Apesar de serem separados. Mas se o poder legislativo participar da execução o poder executivo estará igualmente perdido.Poder executivo De acordo com a Enciclopédia Pastoralis. nas pessoas do governador e prefeito.246 Poder executivo é aquele onde se concentra a função administrativa do Estado. Montesquieu já previra isso em seu Espírito das Leis. possui a atribuição de governar o povo e administrar os interesses públicos. Se o monarca 53 Artigo 76. Ao poder legislativo não caberia nenhuma atuação sobre o Executivo .

Contudo. o Executivo obtém o poder de legislar através das medidas provisórias. em geral. Eterna fonte de debates. no entanto. o veto presidencial poderá ser derrubado pelo voto da maioria absoluta dos Deputados e Senadores reunidos em sessão conjunta. sua força de lei permanece durante o tempo em que esteve vigente. Mesmo não sendo aprovada após esse período. Poder legislativo As principais funções do poder legislativo são: elaboração das leis e fiscalização dos atos da União. Não sendo convertidas em lei dentro de sessenta dias poderão ser prorrogados. poderá vetá-lo total ou parcialmente. Mas. não haveria mais liberdade.participasse da legislação com poder de decidir. além do poder de veto e sanção.247 No Brasil. mediante votação secreta. que participe da legislação para se defender. como é necessário. é preciso que tome parte nela com a faculdade de impedir. As leis têm uma hierarquia onde a Constituição caius_c 312 . com força de lei. as medidas provisórias podem ser adotadas pelo executivo. embora deva submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. O poder de veto é uma prerrogativa do sistema de controle mútuo entre os Poderes: quando o Presidente considerar um Projeto de Lei aprovado pelo Congresso Nacional como inconstitucional ou contrário ao interesse público.

Ministros do Supremo Tribunal Federal. Entre as atribuições privativas da Câmara dos Deputados referentes à função de fiscalização exercida pelo Poder Legislativo em relação ao Poder Executivo. encontram-se entre suas atribuições privativas as de processar e julgar o Presidente e o Vice-Presidente da República . que formam o Congresso Nacional. Entende-se hoje que os poderes são iguais. Essa organização é denominada bicameralismo. Os demais dele derivariam e estariam a ele subordinado. o poder principal era o legislativo. podemos citar as seguintes: autorizar. a instalação de processo contra o Presidente e o Vice-Presidente da República e os Ministros de Estado. Ministros de Estado. Comandantes das Forças Armadas. a expressão máxima deste poder constitui-se da Câmara dos Deputados e Senado. por dois terços de seus membros. Já no Senado Federal. quando não apresentadas ao Congresso Nacional dentro de sessenta dias após a abertura da sessão legislativa. aprovar operações caius_c 313 . ProcuradorGeral da República e Advogado-Geral da União nos casos de crime de responsabilidade. proceder à tomada de contas do Presidente da República.248 No Brasil. estaduais e municipais. Para LOCKE.predomina. harmônicos e independentes entre si. Os segmentos do poder legislativos são federais.

A função de controle da constitucionalidade das leis. ne procedat iudex ex officio. a superioridade do Judiciário sobre o Legislativo ou caius_c 314 . o judiciário somente pode atuar quando provocado. ou seja. Um dos princípios básicos do poder judiciário é sua imparcialidade. ou seja. Ao Judiciário cabe a defesa da Constituição e das instituições democráticas. ele somente pode atuar dentro de determinado território e função. nas suas mais variadas formas. basicamente. enquanto que o Senado atua em favor dos estados. o da inércia. Poder judiciário Ao poder judiciário compete julgar os conflitos de acordo com as leis elaboradas pelo poder legislativo. ou seja. é que a Câmara dos Deputados cuida dos interesses do cidadão. Distrito Federal e Municípios. dos atos da Administração e das políticas públicas. Cabe ao poder judiciário aplicar a lei – que é abstrata. Esta também deriva do conceito de imparcialidade.de empréstimo externo da União. genérica e impessoal – a um caso específico. Outra característica básica do judiciário é a jurisdicionalidade. não reflete. ele não pode favorecer nenhuma das partes do conflito. Desse princípio deriva outro. ou seja. Estados. O que distingue um de outro. o juiz não procede de ofício. contudo. dentre outras.

ainda ele tem alguns poderes que alguns classificam como legislativos. Isso pode gerar um engessamento nas decisões monocráticas. como a promulgação de súmulas vinculantes. porém. nas suas mais variadas formas. O Superior Tribunal Federal é o órgão que busca a manutenção das leis dentro dos princípios constitucionais. é regra que o STF defina sua conformidade com a Constituição Federal.Executivo. outros poderes e o próprio Judiciário podem ser partes de um litígio. Neste controle. Entende-se que as leis devem estar coadunadas com um suporte fático e quando se extrapola o entendimento além do constitucional. sobre as leis e atos administrativos. que definem julgamentos para casos padrões. Cabendo ao Judiciário apenas o julgamento. 54 Checks and balances caius_c 315 . A própria criação das leis ou ela em si podem ser confrontadas com estes princípios. este entendimento padrão pode ser questionado se existir uma nova visão jurisprudencial sobre o assunto. Sistema de freios e contrapesos54 O sistema de freios e contrapesos nada mais é do que o controle que os poderes exercem sobre si. mas a supremacia da Constituição. Trata-se mais de um entendimento que busca desafogar o Judiciário de casos repetitivos cujas sentenças já estão sacramentadas.

de consentimento. submetendo-o a um crivo de legitimidade e de legalidade. 249 O controle de cooperação é o que se perfaz pela co-participação obrigatória de um poder no exercício de função de outro. Pela fiscalização. DIOGO DE FIGUEIREDO MOREIRA NETO entende que existem os seguintes controles: de cooperação. exame e sindicância dos atos de um poder por outro. o poder interferente tem a possibilidade de intervir no desempenho de uma função típica do poder interferido. aqui entendido é tanto o exercício como o resultado de funções específicas que destinam-se a realizar a contenção do poder do Estado. o poder interferente satisfaz a uma condição constitucional de eficácia ou de exequibilidade de ato do poder interferido. O controle de fiscalização é o que se exerce pelo desempenho de funções de vigilância. com a finalidade de assegurar-lhe a legalidade ou a legitimidade do resultado por ambos visado. o poder interferente tem a atribuição constitucional de acompanhar e de formar conhecimento caius_c 316 . de fiscalização e de correção.A idéia de controle. Pelo consentimento. Pela cooperação. dentro do quadro constitucional que lhe for adscrito. seja qual for sua manifestação. O controle de consentimento é o que se realiza pelo desempenho de funções atributivas de eficácia ou de exeqüibilidade a atos de outro poder.

Entende-se que a separação de poderes não pode ser encarada como uma divisão do poder estatal. é necessário que seja revisto. devendo ser compreendida como funções do mesmo. A ingerência de um poder sobre o outro deve ser o suficiente para que cada um deles esteja sob a supervisão de outro ao mesmo tempo em que não provoque engessamento na atuação de cada um deles. Esta inserção na lei deve atribuir explicitamente a competência de cada poder sobre o outro e quais as formas em que ela pode se manifestar. O controle de correção é o que se exerce pelo desempenho de funções atribuídas a um poder de sustar ou desfazer atos praticados por outro. ou de desfazer. Quando afeta a efetividade ou eficácia torna-se lesivo ao próprio produto. Um controle somente é efetivo quando propicia garantia de qualidade. atos do poder interferido que venham a ser considerados carentes de legalidade ou de legitimidade.da prática funcional do poder interferido. Pela correção pode-se suspender a execução. Para que existam estes controles de um poder sobre o outro. é imprescindível a normatividade em lei. eliminando desvios. no momento em que o controle passa a afetá-lo. caius_c 317 . Como o produto dos poderes é o bem comum. com a finalidade de verificar a ocorrência de ilegalidade ou ilegitimidade em sua atuação.

distribuíssem comida para caius_c 318 . Embora emanem de setores da sociedade. guiada por seus líderes carismáticos.Poder social sobre o Estado Poder social sobre o Estado é aquele que emana da sociedade e que tem a capacidade de influenciar sua conduta. Devemos desconsiderar desta definição aquele que é exercido pelos grupos de pressão sem apoio popular. estabilidade ou alterar a forma de governo. onde o povo foi fator fundamental para o sucesso das mesmas e onde ocorreram mudanças de regime. se o rei Luiz XVI e o czar Nicolau II cedessem em alguns pontos. Provavelmente. por conta das vicissitudes que o povo está passando. não refletem necessariamente a vontade popular. a falta de credibilidade do governo atual e o aparecimento de líderes carismáticos que possuem uma base ideológica fundamentalista. Esta forma de poder emerge. e um governo fraco e repressivo. Exemplos claros são a Revolução Russa de 1917 e a Revolução Francesa de 1789. Sua forma mais radical é a revolução com apoio popular. Ele pode produzir modificações. como fome e perspectiva zero. podendo até alterar a forma de governo do Estado. Este entende que precisa demonstrar força para manter-se e provoca confrontos e conflitos que aumentam a resistência contra si. Ocorre um antagonismo crescente entre a massa popular. geralmente.

as Revoluções Francesa e Russa não teriam acontecido. 55 1869 . Ele existe em países onde cujos governos mantêm a confiança dos cidadãos. a vontade popular é que a estrutura do Estado não se altere.o povo e lhe desse alguma perspectiva. Ela deriva de uma insatisfação política que espraia-se entre a população de forma quase subcutânea até provocar atos que demonstram o repúdio social ao regime. Sua ocorrência é mais manifesta onde a sociedade é politizada e existe um alto padrão de vida. A ditadura militar imposta no Brasil em 1964 foi sendo derrotada aos poucos através de uma campanha sistemática que formou uma opinião popular contrária até chegar a um ponto onde a mudança de regime se fez necessária. ele conseguiu unir temporariamente as diversas facções políticas e religiosas para obter a independência de seu país. atinge um clímax onde o Estado não encontra outra alternativa a não ser aceitar mudanças em sua estrutura. O poder social pode se manifestar de forma a manter o sistema de regime. Menos espetacular mas com os mesmo resultados é a força social que se manifesta aos poucos e. num crescendo.1948 caius_c 319 . A independência da Índia. é um forte exemplo do poder social sobre o Estado. pois qualquer mudança pode diminuir as expectativas do indivíduo. Nestes casos. Através da desobediência civil e de uma ideologia fundamentalista pacifista. promovida por Mahatma Gandhi55.

porque influem na legislação do país. na interpretação da lei vigente ou no tratamento que se dá a inúmeras situações que envolvem a relação cidadão-Estado. caius_c 320 .As mudanças de costumes podem ser consideradas como poder social.

Divisões do Estado “O primeiro que. Mesmo em Estados absolutistas e tirânicos. caius_c 321 . tendo cercado um terreno.” (Rousseau) 250 Partindo do princípio que o Estado tem como uma de suas características a complexidade. no tipo de poder e na área de interesse. geralmente. foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Estas divisões. existe a necessidade de fazer com que o poder emanado do ponto máximo flua para todas as camadas da população. é comum que ele subdivida-se para poder melhor administrar. se lembrou de dizer: Isto é meu. e encontrou pessoas bastante simples para o acreditar. onde existe uma centralização de poder. são feitas com base no território.

sem ferir a soberania dos estados. necessitando de uma organização permanente. territórios e províncias. no caso o Poder Federal. As mais extensas são os estados.251 caius_c 322 . Esta independência face ao Estado ou Poder Federal pode ser inserida nas duas formas mais comuns: a federação e a confederação. além de outras finalidades que podem ser pactuadas. A palavra federação vem do latim foederatione que significa aliança ou união. Foi recebida na língua portuguesa através do Frances fédération. JELLINEK definiu confederação com a união permanente e contratual de Estados independentes que se unem com o objetivo de defender a território da confederação e assegurar a paz inter.Divisão por território As divisões por território são as mais comuns. que se obrigam a exercer em comum certas funções ou exercê-las em casos determinados. elas partem do princípio da administração por região. O estado é uma unidade funcional políticoadministrativa que detém relativa independência em face ao Estado. Geralmente. Traduzem-se como divisões ou subdivisões do Poder Executivo.

JOSÉ ADELINO MALTEZ entende que a confederação é uma mera associação de governos que instituem um órgão central que é encarregado da política de segurança e da política externa. Nas federações o Estado detém o poder supremo. embora detenham autonomia na sua administração. O federalismo é definido. com os poderes exclusivamente concentrados na União. que seriam. na qual o poder central seria nulo ou fraco. em última instância. Por sua vez. estando os demais sujeitos ao poder central. 253 IVO COSER ensina que “a definição contemporânea de federalismo o apresenta como um sistema de governo no qual o poder é dividido entre o governo central e os governos regionais. na primeira. a fonte da soberania. que perdem a soberania em favor da União Federal. sendo que o centro não pode mudar a divisão de poderes entre o governo central e os subsidiários. 252 AZAMBUJA define federação com um Estado formado pela união de vários estados. em sua acepção positiva. e uma confederação. como um meiotermo entre um governo unitário. a confederação é caracterizada como uma aliança entre Estados independentes. O governo central não poderia aplicar as leis sobre os cidadãos sem a aprovação dos Estados. A diferença essencial entre federação e confederação é que. o governo central possui poder sobre os cidadãos dos Estados ou províncias que compõem a caius_c 323 . sendo marcado processualmente pela regra da unanimidade e pela existência de veto de cada estado.

os estados-membros podem ter algum poder para celebrar tratados internacionais. no segundo. os estados-membros participam dos processos que regem as políticas válidas para toda a organização federal. Na confederação pode existir o direito de secessão dos estados-membros enquanto que na federação a união é perpétua. 255 Em um Estado Democrático de Direito entende-se que a solução dos problemas deve partir das unidades básicas. Isso confere maior rapidez e benefícios para o cidadão. desde que em observância à constituição federal. por maior que seja a sua autonomia interna. Quando o problema extrapola a caius_c 324 . Cabe assinalar que os estados federados ou confederados não dispõem de soberania externa. 254 As diferenças mais marcantes entre Federação e Confederação são as derivadas do domínio que o poder central exerce sobre os estados membros. pois existe um contato direto entre estes dois entes.União sem que essa ação tenha de ser acordada pelos Estados”. os municípios. Somente o Estado dispõe desta prerrogativa. Eventualmente. desde que não contrariem a política federal. principalmente nas confederações. eles podem estabelecer uma ordem constitucional própria. No primeiro. GEORGES SCELLE dispõe dois princípios capitais do sistema federativo: a lei da participação e a lei da autonomia.

podendo ser considerada apenas como uma jurisdição. território e província. concentrando-se mais nos municípios e não dispõe de constituição própria. 56 Abaixo do estado. Territórios são unidades administrativas sem poder de decisão. Sua autonomia é relativamente baixa. territórios e províncias são macros divisões do espaço geográfico cujo objetivo é melhor controle da administração central para disseminação do poder que se origina do Estado. A palavra tem origem provável no latim pro vicere. Entre os antigos romanos. o Estado é a entidade que deve se colocar em ação. Os estados. caius_c 325 . na Inglaterra shire. vem a divisão em municípios. Estando além de sua jurisdição. porém. era a 56 Nos EUA. legislativo e judiciário estão presentes. As províncias seguem o mesmo padrão do território com a ressalva de que sua vinculação com o poder central é direta. cabe ao Estado-membro a autoridade para resolvê-lo.municipalidade. a Irlanda e o Reino Unido. county. que significa respectivamente “em nome de” e “controlar ou dominar”. Os poderes executivo. Em alguns países ainda existe a subdivisão em condados. são da alçada da entidade que o controla. como os Estados Unidos. Estão subordinados diretamente ao poder central ou a algum estado. usada habitualmente como uma divisão administrativa.

como em Portugal. tendo certa autonomia administrativa e órgãos políticoadministrativos próprios. No Brasil. diferente dos demais poderes. Divisão por tipo de poder O Estado pode ser dividido por tipo de poder. sua divisão pode extrapolar a territorialidade e adotar critérios próprios para sua atuação. Explica-se isto pelo fato de que os mesmos estão obrigatoriamente presentes em todos eles e nas cidades que os compõe. ele tem que ser provocado para atuar face a um conflito. ou seja. No Brasil. suas vilas e uma extensão geográfica limitada por outros. comarca é uma divisão judiciária que designa um território específico que delimita a competência de juiz ou Juízo de primeira instância. Uma das características do Poder Judiciário é a sua inércia. O município é dotado de personalidade jurídica. Os estados são as divisões dos Poderes Executivo e Legislativo. Sendo assim. O município engloba uma cidade. o órgão administrativo máximo é a prefeitura e o legislativo é a câmara municipal. Esta característica dá-lhe jurisdição ou poder sobre a matéria do conflito e não sobre a população em si. Também pode ser denominado concelho. caius_c 326 . Esta presença é que consolida a autonomia dos mesmos dentro de parâmetros estabelecidos.cidade que tinha o privilégio de se governar segundo suas próprias leis.

os Tribunais de Justiça são aqueles que detém poder jurisdicional sobre os Juízos. etc. criminal. Além destes. Dentro das comarcas e dos juízos existem as varas que são o território de competência da prestação jurisdicional por tipo. podemos citar varas de infância. juizados especiais. podendo manter ou criar uma territorialidade própria. O Superior Tribunal de Justiça é um dos órgãos máximos do Poder Judiciário no Brasil. É onde se pode recorrer das sentenças proferidas por juízes de primeira instância. de família. caius_c 327 . Os Tribunais de Justiça são órgãos colegiados constituídos de juízes de segunda instância. O Superior Tribunal Federal é responsável pelo julgamento das matérias constitucionais. denominados desembargadores. cível. A divisão do Poder Judiciário é feita por matéria. O agrupamento de comarcas é a circunscrição e sua divisão é o distrito judiciário. os especializados na Justiça Militar e na Justiça Eleitoral. ainda existem os Tribunais Regionais do Trabalho. Como exemplo. Dentro do sistema judiciário. Sua função precípua é zelar pela uniformidade de interpretações da legislação federal brasileira.podendo ultrapassar os limites de um município e englobar outros.

quando criada em 1969 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. que pode englobar apenas parcela distribuída da população dentro de uma faixa pré-concebida. estas áreas podem extrapolar a comum divisão executiva e legislativa dos Estados. Usualmente são órgãos criados para o fim que distribuem a competência de seu território. No entanto. Igual ao Poder Judiciário. norte e centro-oeste.Divisão por área de interesse O Estado também pode ser dividido por áreas de interesse econômicas ou tributárias. devido às disparidades econômicas entre eles. A divisão em regiões econômicas do Brasil é um exemplo desta divisão por área de interesse: sul. cuja função principal deveria ser a de promover o desenvolvimento econômico da Região Nordeste. Esta divisão. nordeste. sudeste. principalmente. porque abrangem extensões delimitadas por objeto. 57 58 Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste. levou em conta. tentou-se fomentar a igualdade através da atuação de órgãos como a nascida SUDENE57 e recriada com o nome de ADENE58 em 2002. Dentro destas áreas de interesse pode existir uma união de vários municípios ou Estados para administração de um bem comum. as condições geográficas. como no caso de rios e bacias hidrográficas. Agência de Desenvolvimento do Nordeste caius_c 328 .

suas leis e seu modo de vida desde que não ofensivos à Constituição. no conceito de divisão por área de interesse. do capítulo II da Lei 6001. de 19 de dezembro de 1973. as reservas e terras indígenas. com este não se confunde por ser um órgão predominantemente fiscalizador. não estando vinculado a nenhum órgão. também. conforme § 2o. que são territórios tutelados pela União. Embora tenha fortes vínculos com o Poder Judiciário.Cabe. visto que sua competência é nacional e sua autonomia é própria. onde se permite que as tribos mantenham suas tradições. Podemos acrescentar o Ministério Público como divisão do poder do Estado por área de interesse. caius_c 329 .

as formas democráticas são a exceção. A tirania engloba muitas facetas mas o que predomina é a concentração de poder em uma única pessoa e negação de direitos aos que estão abaixo dela.A tirania “Tu serás sempre. e capaz de tudo!” (Ésquilo)256 Introdução Na tirania. Não há garantias de direito e as leis são ditadas como forma de proteção ao Estado. existindo um forte estado policial. sendo que a liberdade de expressão é reprimida. Toda e qualquer instituição estatal foi criada para controle do Estado sobre o mesmo. ó Poder. o cidadão é refém do Estado. A tirania e suas diferentes facetas é regra na condução do Estado. existe uma minoria privilegiada agregada ao tirano que o auxilia no exercício do poder. destituído de piedade. não cabendo quase nenhuma proteção para aqueles que não se submetem aos seus ditames. Geralmente. caius_c 330 .

na época. aquele que domina com a paixão da ambição e aquele que rouba os bens dos súditos.1349 caius_c 331 . Conceito ARISTÓTELES considera a tirania como uma forma degenerada de governo. onde o poder é controlado por uma só pessoa. Perante Deus.259 59 1275/1280 . As espécies são múltiplas. o que não rege pela justiça. Para Aristóteles. como uma instituição abusiva ao povo. aquele que não governou segundo a vontade do Senhor. Este controle do poder por uma só pessoa não era visto. 258 Para ALVARO PAIS59. aquele que não possui justamente o poder. tirano é aquele que é o dono da força. o tirano é o fugitivo da face do Senhor.257 Este conceito. que entendia que a democracia e a oligarquia eram as formas mais corretas para o exercício do poder. o uso deste por uma só pessoa configurava uma aberração. ainda não tinha conotação pejorativa atual. necessariamente. aquele que fez opressões e mortes e o apóstata daquilo que devia fazer a seus irmãos. aquele que edificou uma torre que o Senhor detestou. aquele que quer ser temido e busca os interesses pessoais. cabendo definições próprias para cada uma pois tem formas específicas onde se instala. o que oprime.Estabelecemos a tirania como gênero de governo onde não existe o poder de escolha dos governantes pelos governados. aquele que transgrediu a lei da natureza. mas o usurpa.

chamou o México de “a ditadura perfeita”.262 Absolutismo clássico O absolutismo clássico é aquele em que um soberano único engloba todos os poderes.MAQUIAVEL não questiona sobre a ilicitude da tirania. que governou o país de forma ininterrupta de 1929 a 2000. Em 1990. do México. Como exemplo podemos citar o Partido Revolucionário Institucional (PRI). seria a forma mais prática para estabelecimento do poder. Para ele. Esta maioria entende que não cabem direitos ou formas de proteção para aqueles que não pertencem ao seu grupo. Este soberano ascende ao trono por conta de hereditariedade ou direito consangüíneo. que visa exclusivamente o interesse do governante em prejuízo dos interesses dos governados. 60 1806-1873 caius_c 332 . 261 Para AZAMBUJA. a tirania é um mau governo. o escritor peruano Mario Vargas Llosa. que ele chamou de “tirania da maioria”. quando os interesses das minorias são relevados por uma maioria eleitoral. desejoso de ter uma Itália unificada.260 JOHN STUART MILL60 entende que pode existir tirania dentro da democracia.

o direito pública esgota-se num único preceito jurídico. inclusive. As Ordenações Afonsinas comparam os crimes de lesa-majestade com a hanseníase : -“Lesa-majestade quer dizer traição cometida contra a pessoa do Rei. As próprias aves levar-te-iam o sentido deles. o que o torna imune a qualquer crítica ou interferência de outras pessoas. após o enforcamento de Tiradentes. um dos religiosos falou. que é tão grave e abominável crime. O absolutismo clássico está imbuído da premissa de que a realeza deriva da vontade de Deus. caius_c 333 . ou seu Real Estado. 63 O rei não pode estar errado. que estabelece um direito ilimitado para administrar.Segundo MERKL. Ele denominou esta forma de governo de Estado de Polícia. e 61 62 O que agrada ao rei tem força de lei O rei não pode estar errado. pela população. 64 Não atraiçoes teu rei nem em pensamento. no sentido de que o rei nunca erra. tomando um tema do Eclesiastes264 – in cogitatione tua regi ne detrahas. pois seus atos se colocam acima de qualquer ordenamento jurídico. no sentido de que o rei nunca erra.64 Esse pensamento traduz a aceitação tácita da palavra do rei como forma de lei. Este conceito de divinização da realeza está disseminado. estruturado sobre princípios segundo os quais quod regi placuit lex est61. A história conta que.263 O rei não pode ser submetido aos tribunais. quias aves coeli portabunt vocem tuam. the king can do no wrong62. le roi ne peut mal faire63.

que o comparavam à lepra. e empece ainda aos descendentes de quem a tem. Estas qualidades são transmitidas aos descendentes via hereditariedade. porque assim como esta enfermidade enche todo o corpo. o conceito estendeu-se a qualquer forma de governo ou liderança totalitária. Posteriormente.”265 Basicamente. Fascismo O conceito de fascismo. A supremacia de um sobre outros deriva de um poder superior que exerce sua escolha pró um indivíduo. estabelecendo um padrão de divinização para todas gerações. profanas ou as consideradas sagradas. e aos que ele conversam. sempre trazem a figura do “escolhido” que é aquele que regerá determinado povo ou Estado. posto que não tenham culpa. As literaturas. dirigido por um único indivíduo. sem nunca mais se poder curar. Esta “escolha” é sempre feita por entidade superior ao “escolhido”. entende-se que a realeza é divina porque a escolha do governante via hereditariedade somente é possível por graça de Deus. e empece e infama os que de sua linha descendem. pelo que é apartado da comunicação da gente: assim o erro de traição condena o que a comete. a princípio. é o de um Estado controlado por corporações regidas pelo Estado. que vislumbra nele as qualidades necessárias para exercer liderança. Popularmente. costuma designar caius_c 334 .que os antigos Sabedores tanto estranharam.

pessoa que autoridade. três condições eram necessárias: a) Um partido único b) Um Estado totalitário c) Um período de altíssima tensão ideal Por período de altíssima tensão ideal deve-se entender a repressão interna aos dissidentes e conquistas territoriais externas. em vista do desenvolvimento da riqueza. além das Corporações que seriam instituições estatais para controle da economia – “O corporativismo é uma economia disciplinada e portanto. sob a égide do Estado. As corporações são definidas como instrumentos que. controlada. Um caius_c 335 . tenta impor-se somente através de Para BENITO MUSSOLINI o Estado deveria ser dirigido por um ditador. O partido único é derivado da necessidade existente em todo Estado totalitário de manter sua supremacia sem oposição. realiza a disciplina integral. da força política e do bem estar do povo. pois não se pode pensar em uma disciplina sem o devido controle. orgânica e unitária das forças produtoras. O número delas pode variar em conformidade com as necessidades do Estado.”266 Para que o corporativismo fosse aplicado. Sua idéia de Estado Corporativista englobava três instituições: O Grande Conselho e as Milícias que atuariam no plano político.

como superior a todas as outras). que em alemão significa o "condutor"." 267 caius_c 336 . Além das características fascistas (totalitarismo. não se discute a autoridade do governo. militarismo. e de que estarei pronto como um corajoso soldado a arriscar minha vida a qualquer momento por este juramento. culto da personalidade e repressão violenta). O Estado. Sua característica mais marcante foi a submissão total à personalidade do Führer. o nazismo defendia também o anti-semitismo e o racismo (considerava a raça ariana. Nazismo O nazismo foi um regime político instaurado em 1934 na Alemanha por Adolfo Hitler e que se inspirava no fascismo italiano de Mussolini mas levado a um grau mais extremo. Todo e qualquer integrante das forças armadas era obrigado a fazer o seguinte juramento: “Faço perante Deus este sagrado juramento de que renderei incondicional obediência a Adolf Hitler. "guia". o Führer do povo e do Reich alemão. de que os alemães seriam os melhores representantes. "líder" ou "chefe" e que deriva do verbo führen “para conduzir”. é intervencionista em todas as áreas. Atualmente.Conselho Nacional de Corporações substitui as casas legislativas como fonte de leis. imperialismo. no fascismo. principalmente a econômica. o termo nazismo é utilizado para designar todos os ideais racistas e nacionalistas violentos. No plano político. supremo comandante das forças armadas. nacionalismo.

Convém destacar que muito de suas idéias foram adaptadas ou reescritas de maneira a servirem como caius_c 337 . No começo do século XX era largamente utilizado em muitas partes do mundo. tem uma história bastante antiga na Europa. Ele fez uma conexão entre estes achados e antigos vasos germânicos. Entre os nórdicos. quando descobriu esta imagem no antigo sítio em que localizara a cidade de Tróia. Gibur. 269 Para referendar este regime foram utilizados elementos filosóficos. aparecendo em artefatos de culturas européias pré-cristãs. adotando a suástica como símbolo a "identidade ariana" .Componentes místicos também foram acrescentados a este regime.268 Os nazistas utilizaram-se destas idéias. Ela reapareceu num reconhecido trabalho arqueológico de Heinrich Schliemann. A própria suástica. seu símbolo mais visível e lembrado. desde os primórdios dos movimentos chamados "völkisch".conceito este referendado por teóricos como Alfred Rosenberg.grupos originários do norte europeu. considerado como amuleto de sorte e sucesso. sendo então associada com as migrações ancestrais dos povos "proto-indo-europeus" dos Arianos. principalmente os de Niestche. unindo os antigos germânicos às culturas gregas e védicas. a suástica está associada a uma Runa. associando-a às raças nórdicas . ou Gebo. e teorizou que a suástica era um "significativo símbolo religioso de nossos remotos ancestrais".

O racismo e o anti-semitismo foram responsáveis pelo chamado Holocausto. também. cuja função seria a de governar os demais povos. já confere a ela seu caráter nãodemocrático. portanto. onde se buscou estabelecer um padrão de raça. onde milhões de judeus e integrantes de grupos considerados como inferiores foram sistematicamente eliminados. Isso imputa a estas leis um caráter nãoadaptativo às modificações que ocorrem na sociedade. caius_c 338 .base para o mesmo. tentando captar as atenções dos dirigentes nazistas para si. com biótipos elencados. Prevaleceu. A teocracia não permite liberdade de escolha no quesito religião. por si só. As crenças incluem dogmas que não costumam ser alterados pois são considerados como advindos de entidades superiores ao homem e. A lei maior na teocracia são os ditames contidos em algum livro. Isso. considerado sagrado. e todas as leis que derivam dela tem que ser adequadas à religiosidade contida na mesma. Teocracia Pode parecer estranho incluir a teocracia nos regimes totalitários mas isso tem razões de ser. a idéia da eugenia. inquestionáveis. dita ariana. Dizem que uma de suas filhas foi a principal modificadora de seus escritos.

Essa rigidez impede que novos conceitos sobre direitos ou deveres. Cabe. justificando uma natural submissão ao homem através de elementos contidos em livros sagrados. principalmente os relativos aos direitos humanos. Grande parte desses livros. desde o físico até o espiritual. que regem a lei e a religiosidade. foi escrita em épocas remotas. onde as pessoas estão fadadas a um destino previamente traçado por conta de caius_c 339 . como exemplo. em alguns casos. Comum nessa forma de governo é o estabelecimento de oligarquias surgidas entre aqueles que são detentores do direito de serem intermediários entre o homem e seu deus. o estabelecimento de um governante supremo que tem o poder de comandar todos os aspectos do homem. os elementos jovens da sociedade não são capazes de decidirem seus destinos. Algumas não fornecem suporte para aqueles que adentraram demais na idade. Muitas crenças e religiões estabelecem castas ou hierarquias com base em sexo. idade e outros. Naquelas em que se estabelecem castas. e sua configuração não lhes confere a atualidade que exige-se nas leis. a imobilidade social é determinada pelo nascimento. Não existe a possibilidade de questionamento dos governantes pelo simples fato de que sua palavra é derivada de uma ordem divina que se estende a todos. é tolhida por muitas delas. sejam protegidos pelo Estado. cor. Esse determinismo social. Em outras. A liberdade feminina.

Isso exclui a possibilidade de que suas determinações sejam baseadas em situações que não sejam de fato. em 1924. cuja prevalência se deu pela violência e opressão. para “Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional e Colônias” caius_c 340 . isenta o Estado de qualquer tratamento igualitário. No Estado Democrático de Direito. expurgando os membros do partido que pudessem fazer-lhe qualquer oposição. Sua regra básica era o envio dos dissidentes aos campos de concentração localizados na Sibéria.nascimento ou outro qualquer. Stalin65. Existe maior adaptabilidade dos meios para se conseguir os fins. Diferentemente do modelo maoísta. não existia possibilidades de retratação ou reincorporação aos quadros do governo ou do partido. não privilegia nenhuma instituição que possa tomar seu controle. Stalin apossou-se do poder. Após a morte deste. ao contrário. O Estado laico. em russo. Stalinismo O stalinismo surgiu adaptando as teses de Lênin para um Estado totalitário. Seu fautor. a busca pelo bem comum supera todas as barreiras criadas pelas crenças ou religiões. denominados gulags66. 65 66 1878-1953 Abreviatura. fazia parte do staff comunista russo subordinado à Lênin. que também serviam para punição de crimes comuns.

Essa forma ideológica de comunismo deu-se inicialmente nos meios industriais de produção. Uma hierarquia rígida estabeleceu-se. Os fuzis AK-47. Parte deste impulso industrial surgiu para impedir a tomada da Rússia pelos nazistas. em grande parte. após a derrocada nazista na Batalha de Stalingrado que permitiu o avanço das tropas caius_c 341 . tornaram-se a arma de fogo mais usada em combates no mundo inteiro e símbolo de povos em luta. aliadas a formas rápidas de produção. a simplicidade e o baixo custo. serviu de apoio ao totalitarismo. inspirado nas teorias de Marx e implantado por Lênin. para o avanço sobre a Alemanha nazista e para a manutenção dos estados controlados pela União Soviética. dando subsídios para implantação de um estado policial. estendendo-se depois para os campos com a coletivização das propriedades. com estabelecimento de fábricas de armas e munições onde as principais características dos produtos eram a resistência.O comunismo. onde somente os membros do partido poderiam ter acesso às estruturas governamentais onde qualquer ascensão ou promoção somente poder-se-ia dar através do consentimento político. Uma burocracia centralizada foi implantada com duas finalidades: controle dos cidadãos e emperramento de qualquer atividade que pudesse se voltar contra o Estado. produzidos a partir de 1947. O avanço do stalinismo deu-se durante a Segunda Guerra Mundial. Tornaramse famosos seus tanques T-34 produzido a partir de 1940 que foram responsáveis.

russas até Berlim. instalou-se o que se chamou de Guerra Fria. Alguns Estados liberados. embora a realidade tenha mostrado que era apenas uma nova forma de domínio colonialista." Seu sucessor. principalmente atômicas. em seu livro “Arquipélago Gulag”271. Este período foi magistralmente retratado por George Orwell em seu livro “A Revolução dos Bichos”270 e o terror existente nos gulags por Alexander Soljenítsin. não ter recordado tudo. não me ter apercebido de tudo. A União Soviética foi uma barreira de países criados para a proteção da Rússia contra seus inimigos representados pelos Estados Unidos e pela democracia européia. entre 1928 e 1953."Dedico este livro a todos quantos a vida não chegou para o relatar. cuja dedicatória já evoca o sofrimento contido em suas páginas . O pós-guerra trouxe uma nova divisão do mundo. onde as disputas eram travadas em países do terceiro mundo. O stalinismo durou enquanto Stalin se manteve no poder. 67 1894-1971 caius_c 342 . Que eles me perdoem não ter visto tudo. entre comunismo e capitalismo. Por força do equilíbrio de armas. que entendia-se como ideológica. foram anexados como parte da então chamada União Soviética e tiveram que assumir uma posição subserviente ao poder emanado por Moscou. Nikita Serguêievitch Khrushchov67 abrandou o regime mas manteve o estado de Guerra Fria e a divisão política do mundo. como a Polônia e Ucrânia.

A China isolou-se tanto política como ideologicamente de outros países. caius_c 343 . sem pretensões hegemônicas. Depois de estabelecido. Seu governo embasado em uma nova ideologia. O fechamento de suas fronteiras contribuiu para que fosse encarada apenas como um gigante inerte. Esta coletivização provocou uma grande fome e mortandade por conta da desorganização de seu implemento. estrangulando as cidades e forçando sua rendição. Desde princípio surgiu o principal foco do comunismo chinês que era o controle absoluto dos campos através da coletivização supervisionada pelo governo.Maoismo No pensamento de Lênin a tomada do poder deveria dar-se pela violência através de uma guerra civil. O maoísmo partiu do princípio que o primeiro passo seria a tomada do poder nos campos. estava distante da praticada pela Rússia e sua fraca produção industrial neste período não representava ameaça aos países capitalistas. O esvaziamento das cidades impediu que um número suficiente de pessoas pudesse ser reunido para promover grandes manifestações ou possíveis revoltas. Este modelo serviu para outros países asiáticos em suas lutas. o governo poderia implantar uma política comunista. agora denominada marxismo-leninismo-maoismo.

A Revolução Cultural da China69. Um dos resultados da Revolução Cultural foi a quase extinção dos cursos superiores na China. coletivizaram o campo. Mao Tse Tung68 iniciou o que se chamou de Revolução Cultural. tomaram fábricas. durante a Segunda Guerra Mundial. expurgaram membros do partido considerados como reacionários ao mesmo tempo em que eliminaram toda e qualquer resistência ao sistema de governo.A China. Os dissidentes eram reeducados em campos especiais e poderiam retornar ao partido desde que fossem considerados como efetivamente adeptos do sistema. Tendo em mãos o Livro Vermelho que sintetizava os pensamentos do seu líder Mao Tse Tung. primouse por tentar manter a pureza ideológica de seu regime. levou milhares de jovens a iniciar um movimento cujo objetivo era manter o fervor revolucionário e um estado constante de luta e superação. basicamente da Guarda Vermelha. ao contrário da União Soviética. ocorrida entre 1966 e 1967. estes jovens. Acreditando que a pureza ideológica era essencial para que o regime implantado fosse consolidado. 68 69 1893-1976 Também chamada Grande Revolução Proletária ou Desabrochar das Cem Flores caius_c 344 . O caso mais célebre é o do imperador Puh Yuh que foi “reeducado” e terminou seus dias como jardineiro. Puh Yuh foi conivente ou aliado dos japoneses quando de sua invasão da Manchúria.

Após a morte de Mao Tse Tung. Castrismo Ousamos dizer que o castrismo somente existiu por conta de dois fatores: o primeiro foi a recusa americana em apoiar um governo comunista que acabara de depor Fulgêncio Batista. a China entrou em um processo de industrialização que a tornou uma das maiores potência econômicas da atualidade. a ideologia maoísmo abrandou-se e pode-se dizer que se tornou meramente decorativa dentro do governo chinês. tornou-se um pólo exportador de produtos cuja concorrência afetou os países de primeiro mundo. Mais flexível e menos isolada. um ditador aliado. Com as reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978. após a fuga de Batista de Cuba. Sua missão de propagar a revolução pelo continente sul-americano foi frustrada pela sua morte nas selvas bolivianas. e o segundo foi a mitificação da Revolução Cubana através da morte de um de seus líderes: Che Guevara. Che Guevara70 tornou-se símbolo de rebeldia e sua figura ainda é estampada em camisetas de grupos que se consideram inovadores ou rebeldes. Fidel Castro tornou-se ditador cubano em 01 de janeiro de 1959. derrotado pela guerrilha que se iniciara no final de 1956. 70 1928-1967 caius_c 345 .

por conta de suas pesquisas. a Revolução Cubana lastreou-se pela produção de açúcar. não se pode dizer que ocorreram mortes por fome como na Rússia ou China. Muitos conseguiram mas muitos pereceram. era considerada como impossível pois poderiam contaminar o sistema com idéias adquiridas em outros países. Sua pequena população e território foram essenciais para manter o controle estatal sobre os mesmos. como a medicina. para eles. Carente de muitos recursos. Embargada economicamente pelos países capitalistas. caius_c 346 . seu capital passou a vir de Moscou. extração de cobre e um controlado turismo. A volta.Por conta de seu pequeno território e indústria incipiente. Os cidadãos que desejavam alguma forma de liberdade e um padrão de vida maior puseram-se em barcos e tentaram cobrir a distância que os separavam de Miami. Politicamente existiu forte repressão contra os dissidentes. de quem se tornou aliada. junto com desenvolvimento de esportes. Cuba chegou a tornar-se ponto de referência. A educação técnica dos cidadãos foi uma das grandes preocupações do governo. sua maior fonte de divisas. As olimpíadas sempre foram a principal vitrine para a propaganda do regime castrista. Em algumas áreas.

embora sirva 71 1882-1954 caius_c 347 . e tentou confirmar-se legalmente com a edição da Constituição outorgada de 1937. os salários controlados pelo governo. As poucas tentativas. Sua ascensão ao poder deu-se através de um golpe de estado em 1930. A permanência de Getúlio Vargas71 no poder deveu-se em grande parte ao populismo. foi outro foco de resistência rapidamente debelado. existiu pequena resistência à sua permanência no poder. estão sendo feitas. foram liberados e tentativas de aproximação com seu principal inimigo. na maioria exíguos. Neste período foram criadas empresas estatais para controlar a produção de matéria prima de base.Depois da saída de Fidel Castro do poder. Varguismo O varguismo nasceu em um período em que as ditaduras eram comuns na America do Sul e mundo em geral. como o petróleo e o aço. Assim como a China e a Rússia. liderada por São Paulo. foram prontamente abafadas. como a insurreição integralista. Cuba parece estar destinada a ingressar no mundo capitalista. os Estados Unidos. A Revolução Constitucionalista de 1932. e a ascensão de seu irmão Raul Castro. Por conta disto. A Consolidação das Leis do Trabalho surgiu neste período mais como forma de manter o operariado ao lado do governo do que para proteção do trabalhador propriamente dito. em 31 de julho de 2006.

em seu livro “Memórias do cárcere”. que visava produzir mão de obra para a indústria que florescia. com a deposição de Getulio Vargas. Ao mesmo tempo em que as leis favoreciam o crescimento da indústria e a proteção do trabalhador. stalinismo e varguismo primaram-se pela forma como o Estado apoderou-se da economia. O posicionamento do Brasil ao lado dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial foi mais uma forma de obter recursos financeiros do que ideológica propriamente dita. subitamente. Países com fraca economia viram-se. o que lhes valeu apoio caius_c 348 . ampliando o poder executivo. O regime durou até o final da Segunda Grande Guerra. também. dotados de fábricas e empregos.para isto. Graciliano Ramos. nazismo. que serviram para alavancar a indústria em um país que era essencialmente agrário. Foi um período de repressão aos opositores do regime. outras buscavam restringir o poder legislativo ao máximo. Temeroso que o Brasil juntasse forças com o Eixo – Alemanha. à educação. O varguismo buscou dar impulso. dando um impulso rápido à industrialização. Itália e Japão -. os Estados Unidos despejou dólares no país. sintetiza as agruras pelas quais passaram os dissidentes neste período. O fascismo. criando um sistema escolar onde predominava o estudo técnico.

da população. Governo. enquanto que o castrismo e o maoísmo tentaram instilar um novo pensamento político à população. O fascismo. Todos eles. embora embasado nas teorias marxista-leninistas. O nível de brutalidade contra a população variou em cada regime mas existiu em todos eles. menos ideológico. o que caius_c 349 . ditador e ideologia se fundiram em um só elemento. Marca registrada de todos eles foi a repressão política e a supressão das liberdades individuais e coletivas. forjou-se pela dominação pura e simples dos países satélites. imprimiram aos regimes as imagens de seus ditadores. O castrismo e maoísmo buscaram na produção agrícola e coletivização das propriedades o elemento chave para sua manutenção como regime por conta da necessidade de suprir-se de alimentos em virtude de seu isolacionismo. Repúblicas de bananas Repúblicas de bananas é o termo genérico que designou países da América do Sul e Central assolados por contínuas quarteladas e golpes militares. O stalinismo. primou-se mais pela brutalidade aos opositores do regime do que pela conversão aos seus princípios. O nazismo buscou em mitos antigos e simbologia extensa a confirmação da superioridade da raça ariana e seu destino como dominadora de outros povos. O termo bananas foi usado como forma pejorativa para designar um único produto que estes países exportavam. no entanto.

por exemplo. 72 1862-1910 caius_c 350 . A "República das Bananas" original era Honduras. porque todas se arvoravam como democracias embora fossem manifestadamente tiranias. de 1904. O termo república.qualificava a incipiente economia destes países. pseudônimo de William Sidney Porter72. pois o governo daquele país não cortara nos impostos em favor da companhia. onde o termo apareceu devido à forte presença das empresas United Fruit Company e Standard Fruit. juntamente com sua insignificância econômica e política não lhes valiam qualquer intervenção ou interferência por conta de outros países. 272 A rapidez da mudança de governos em função destes golpes militares e a brutalidade contínua contra a população foi elemento comum nestas republiquetas. A United Fruit Company. que dominavam o importante setor da exportação de bananas. A expressão foi criada por O. em 1910. neste caso. Exemplo disso foi quando. um barco partiu de New Orleans rumo a Honduras com o objetivo de instalar um novo presidente pela força. humorista e cronista americano. Henry. em seu livro de contos Cabbages and Kings. O novo presidente empossado permitiu que a empresa ficasse livre de pagar impostos durante 25 anos. é também pejorativo. nunca escondeu que queria se meter na política . Seu alinhamento com os Estados Unidos.mesmo através do uso da força.

por volta do início do século XIX. Ele propôs. Embora menos visíveis. estas formas “repúblicas” ainda persistem por todo o planeta. literalmente. Estas repúblicas tiveram seu início com a libertação dos países da América do Sul e Central da tutela espanhola. liderados por algum político ou militar do próprio país. Seu apogeu deu-se nos períodos da Guerra Fria. após a invasão napoleônica da península ibérica. A primeira manifestação da tecnocracia é atribuída ao sociólogo francês Claude-Henri de Rouvroy. a substituição da política pela ciência da produção. de 1814. tendem a superar o poder político ao invés de apoiar suas atividades. em 1808. que. conde de Saint-Simon73. Esta independência propiciou o aparecimento de elementos que tentaram apossar-se e manter-se no poder através do uso indiscriminado da violência. governo dos técnicos. Tecnocracia Tecnocracia significa. eram contratados mercenários. Vez ou outra. pelo controle dos meios de produção. geralmente por multinacionais que tinham interesse em controlar alguma riqueza local. em Réorganisation de la Société Européenne. insuflado ou utilizado por alguns dos seus graduados. o 73 de 1760-1825 caius_c 351 . diminuindo à medida que os governos foram se tornando mais democráticos e mais estáveis.A ascensão ao poder se dava com o uso do próprio exército regular do país.

Como tal. 274 Este modelo que buscava o bem estar do homem através da ciência foi desvirtuado. A tecnocracia é aplicada de forma subcutânea nos governos. Leva-se em conta a obtenção dos resultados. e que todos teriam um padrão de vida elevado. o que justifica qualquer dano colateral que possa ocorrer. caius_c 352 . 273 Em sua proposição original. que ficaria a cargo de máquinas. existindo uma insensibilidade com relação a prejuízos que possam acontecer dentro da sociedade. Uma de suas características é sua invisibilidade dentro do sistema. Claude-Henri acreditava que uma pessoa trabalharia duas horas por dia. no máximo. Sua atuação se dá através de grupos inseridos em outros. éticos e sociais. buscava-se um modelo científico que aliviaria o homem de sua carga de trabalho. Atualmente ela pode ser entendida como um governo de técnicos que busca soluções sem considerar aspectos morais."governo dos homens" pela "administração das coisas". ela não existe como um regime. seja totalitário ou democrático. Reveste-se da aplicação de teorias científicas para justificar seus atos. ela pode facilmente se embutir em qualquer forma de governo.

Existe insídia na tecnocracia. Por conta disso. Geralmente. apenas quer espaço livre para sua atividade. caius_c 353 . Sua proposição final não é a busca do poder em si. suas verdades são quase inquestionáveis pois não existem elementos para comparação. Compõem-se de grandes técnicos. embora seja quase desconhecida do grande público. essas pessoas são reconhecidas como parte da vanguarda em sua especialidade.Ela é formada por uma elite intelectualizada que goza de respeito em seu meio. Ela se apresenta em múltiplas formas ou se mascara sob outras. não precisa transcender ou aparecer. brilhantes cientistas e excelentes pesquisadores. quer apenas firmar suas vontades.

. Vi batalhas e ouvi três vezes seis. assim.. umas. que chamam simplesmente de povo. Este 74 Coriolano. só pelos vossos votos fiz muitas coisas. velei por vossos votos. Vossos votos. de William Shakespeare.” (Shakespeare)74 Introdução Coriolano. Desejara ser cônsul. Como logo vestido. o herói oligárquico de Shakespeare. recebi duas dúzias de feridas. senhores. é a expressão do desprezo que as classes dominantes têm pelas outras.Eis outros votos que nos chegam. que faço — grande bobo! — pedindo a Pedro e a João o voto estulto? . pequenas. Bem. outras. grandes. cena III caius_c 354 . ou mais.A democracia “Que votos agradáveis! Antes morrer de fome. por vossos votos. alarvemente. do que ter de pedir a tanta gente quanto já nos pertence. Foi por vossos votos que eu combati. os vossos votos. como se a palavra tivesse cunho pejorativo.

significa governo do povo. BENJAMIN CONSTANT escreve que o sistema representativo outra coisa não é senão uma caius_c 355 . Os conceitos absolutistas ou não-democráticos provêm do que se pode chamar de “razão animal”. Uma das bases que define a supremacia de uma classe sobre a outra é a organização. As dominantes sempre são organizadas. Esta razão impõe a supremacia do mais forte sobre o mais fraco. Implica sempre em desproporção no gozo de resultados. e talvez continue. mesmo naqueles que existiu ou existe alguma pecha democrática. De forma ampla. na forma física ou baseada nas espertezas. O que difere a democracia de outros regimes é a capacidade que existe dentro do povo de poder manifestar-se contra aqueles que possam oprimi-lo. possuem líderes esparsos que sempre são suprimidos se mostram algum poder de reunir os demais sob um objetivo comum. As dominadas. Conceito O termo democracia vem do grego demo. que significa povo e kracia. dispondo de estruturas que mantém as demais sob seu jugo. na maioria de todos os governos. quando muito. que significa governo.pensamento foi predominante. de forma organizada e legal e dispondo de recursos para tal.

Nos períodos de guerra ou revolução. um conceito histórico. mediante a qual a nação incumbe alguns indivíduos de fazerem aquilo que ela não pode ou não quer fazer por si mesma. também.279 AZAMBUJA a define como o regime em que o povo se governa a si mesmo. 276 De acordo com QUINTÃO SOARES. pois contempla uma estrutura de poder construída de baixo para cima. que deseja que seus interesses sejam defendidos e que nem sempre tem tempo de defendê-los por si mesma. em distintos momentos históricos.organização.277 Para DALLARI. 275 Para KELSEN. bem como a exigência de organização e funcionamento do Estado tendo em vista a proteção destes valores. 278 Para GUY-GRAND. é. quer por meio de funcionários eleitos por ele para administrar os caius_c 356 . a democracia é um equilíbrio entre os direitos da pessoa e os direitos da sociedade. quer diretamente. ela deve ser suprimida para garantir a salvação pública. Para ele é uma procuração dada a certo número de pessoas pela massa do povo. no entanto. a democracia é sobretudo um caminho: o da progressão para a liberdade. a idéia moderna de um Estado democrático implica na afirmação de certos valores fundamentais da pessoa humana. entre a liberdade e a soberania. localizada na soberania popular.

Se assim não fosse. 280 Para MARX. em um governo comunista. pois se existe a necessidade de controle deve também existir um espaço para atuação dos representantes sem interferência direta. Existem acessos e possibilidades de intervenção mas existem burocracias e outras barreiras que os impedem.negócios públicos e fazer as leis de acordo com a opinião geral. O próprio conceito de igualdade entre os cidadãos ainda não se firmou na prática. não existiria a caius_c 357 . o Estado é pré-requisito necessário à emancipação humana para ganhar e ampliar direitos políticos dentro do Estado e através dele. dando-lhes tratamento adequado para que se nivelem social e politicamente é tarefa contínua que conduzirá ao Estado Democrático de Direito. Sopesar as diferenças individuais e grupais. 282 Deve-se entender. Para ele. o conceito de democracia seria o de igualdade entre as classes ou sua ausência e não sua forma de governo. O quanto de poder do povo sobre seu governo ainda não se definiu completamente. até o momento. 281 BOBBIO afirma que a democracia é um produto da luta da classe trabalhadora pelo poder. usando seu poder para estender a democracia para outras instituições. LENIN e ENGELS. Ainda tem que se medir a governabilidade em face dessa intervenção. no entanto. que o conceito de democracia é utópico e não se aplica totalmente aos governos.

definindo a estrutura interna de cada cidade-estado.283 Neste período. 77 Cidade caius_c 358 .C. passaram a fazer parte da estrutura governamental de algumas cidades. iniciou-se a formação da polis77. os princípios da democracia. que se estabeleceram na Grécia no chamado período pré-homérico75. a democracia surgiu como forma de limitação de poder entre as oligarquias. Entre 800 a 500 a. filho de Deucalião e Pirra. O quanto das ações dos representantes face às aspirações de seus representados também é assunto que deveria estar melhor normatizado. como aqueus. jônios. na crença de que descendiam do deus Heleno. eólios. dórios. advinda de costumes dos povos indo-arianos. na sua forma antiga. da indústria e do processo de urbanização. É neste período que vários modelos de polis vão se constituindo. pois sua organização de clãs fundamentava-se.C. No período Arcaico76. História da democracia Provavelmente.necessidade de eleição dos mesmos. pois somente parte da população tinha o direito de ser 75 76 Entre 1900 e 1100 a. do comércio. Esta forma de governo era oligarquizada. no que concerne à mística. Estas populações invasoras são em geral conhecidas como "helênicas". com a expansão da divisão do trabalho.

FUSTEL DE COULANGES assim descreve a vida de um cidadão ateniense. isto é. ou uma lei que deve ser modificada. Ora. Outro dia é convocado para a assembléia da tribo: trata-se de regulamentar uma festa religiosa. Se se engana. Este direito. a reunião é longa e ele não vai apenas para votar: chegando pela manhã) tem de ficar até uma hora avançada do dia para ouvir os oradores.cidadão. Os interesses individuais estão unidos inseparavelmente ao interesse do Estado. neste período – “Vede como se passa a vida de um ateniense. Três vezes por mês. ou de nomear chefes ou juízes. e que em cada voto arrisca a fortuna e a vida. ora é um imposto que deve ser criado. Esse voto é para ele um negócio dos mais sérios. e que devia aplicar toda sua atenção para caius_c 359 . ou de examinar as despesas. deve assistir à assembléia geral do povo. ou o de seus filhos. era derivado da família e dos bens que possuía. não havia cidadão que não soubesse que um dos seus participaria da mesma. nem leviano. ora se trata de nomear chefes políticos ou militares. geralmente. ou de promulgar decretos. ora deve votar sobre a guerra. sabe que logo sofrerá as conseqüências. No dia em que se decidiu a malograda expedição da Sicília. O homem não pode ser nem indiferente. Não pode votar se não chegou no princípio da reunião. regularmente. Um dia é chamado à assembléia de seu demo. sabendo que terá de dar seu sangue. e não tem direito de faltar. aqueles a quem seu interesse e sua vida vão ser confiados por um ano. onde deve deliberar a respeito dos interesses religiosos ou financeiros dessa pequena associação. e se não ouviu todos os discursos.

deixando muito pouco tempo para os trabalhos pessoais e a vida doméstica. ele podia ser magistrado da cidade. era heliasta. era o mesmo que ocupar quase toda uma existência. seu tempo na paz. O dever do cidadão limitava-se ao voto. Havia absoluta necessidade de reflexão e de esclarecimento. recebendo os depoimentos dos magistrados. Por isso Aristóteles dizia. respondendo aos embaixadores estrangeiros. ocupado em ouvir os advogados e em aplicar as leis. Tais eram as exigências da democracia.avaliar todas as vantagens e perigos que semelhante guerra poderia trazer. Enfim. com muita justiça. arconte. porque um desastre para a pátria representava para cada cidadão diminuição de sua dignidade pessoal. O cidadão. astínomo. examinando todos os casos que deviam ser submetidos ao povo. Dava-lhe seu sangue na guerra. Talvez não houvesse cidadão que não fosse chamado duas vezes na vida para fazer parte do Senado dos Quinhentos. fazendo-os prestar contas. da manhã à noite. Quando chegava sua vez. redigindo as instruções dos embaixadores atenienses. de sua riqueza. juiz. em média. Cada dois anos. Não era livre de deixar de lado os negócios públicos para se dedicar com mais caius_c 360 . sentava-se todos os dias. pertencia inteiramente ao Estado. isto é. se a sorte ou o sufrágio o designasse para esses cargos. e passava todo esse ano nos tribunais. de sua segurança. e preparando todos os decretos. ele se tornava magistrado do demo ou da tribo. então. como o funcionário público de nossos dias. que o homem que tinha necessidade de trabalhar para viver não podia ser cidadão. estratego. durante um ano. Vê-se que era trabalhoso ser cidadão de um Estado democrático.

ela devia ou perecer ou se corromper”. A democracia não podia durar senão sob a condição do trabalho incessante de todos os cidadãos. Este termo. devia negligenciar a estes para trabalhar em proveito da cidade. Temendo a tirania. A admiração dos gregos pela oratória. quando não condenados ao ostracismo. a quem havia vencido. sendo que os bens daquele que era expulso ficavam para a cidade. os que se destacavam eram alijados do poder. vencedor da Batalha de Salamina78. Literalmente. Os homens passavam a vida a se governar. fez com que fosse comum a demagogia79. onde o cidadão buscava alcançar seus objetivos através do convencimento de outros. 78 79 480 a.C. é usada no contexto de condução do povo a uma falsa situação.284 Um dos grandes problemas da democracia clássica grega foi a impossibilidade de formação de grandes líderes. Por pouco que o zelo se afrouxasse. atualmente. Esta punição implicava em exílio por dez anos. que foi condenado ao ostracismo e depois acusado de alta traição. a arte de conduzir o povo caius_c 361 . Um exemplo clássico é o de Temístocles. Antes. Ele terminou por encontrar refúgio entre os persas.cuidado aos negócios particulares. Isto propiciava o aparecimento de líderes fugazes que combatiam aqueles que se destacavam ou queriam apenas seu próprio benefício.

Tarquínio. quando Esparta. era oligarquizada. perdurando durante o período de 509 a.C. O conceito de democracia foi absorvido pelos romanos. Foi deposto por uma revolta patrícia em 509 a. no governo. caius_c 362 . sendo que somente os primeiros tinham direitos de gerenciamento de Roma. era ainda copiado pelo filho Sexto Tarquínio. tinha o mesmo formato da democracia ateniense.C.C. o orgulhoso Tarquínio eliminou ou desterrou todos os que eram partidários de Sérvio Túlio e confiscou os bens de famílias poderosas. que equivalia em grego a "tirano".C até 27 a. na célebre Batalha de Queronéia. Conta o historiador romano Tito Lívio que. A população era dividida entre patrícios e plebeus. e extinguiu-se com a tomada de Atenas por Felipe II. recebendo o título pelo qual ficou conhecido na história: "o Soberbo". ou seja. vitoriosa. muito odiado entre os romanos. Tarquínio. na forma de república. da Macedônia. Ela nasceu de um conflito entre o último rei romano. colocou seus aliados no poder. isto é. que se apaixonou pela bela e casta Lucrécia. filha de um influente aristocrata e já casada com um 80 431 a 404 a.A democracia grega clássica teve seu mais forte abalo durante a Guerra do Peloponeso80. embora calcada nos ideais democráticos.C. Segundo a lenda. e a aristocracia. o Orgulhoso. em 338 a. sob um despotismo indisfarçável. A república romana.

Tibério apresentou uma proposta de reforma agrária. Neste período. depois que derrotou seu rival Marco Antonio na batalha naval de Àccio81. obrigando-a ao adultério. existiram conflitos entre as classes patrícia e plebéia. 81 31 a. depois de se inteirarem dos fatos. Caio Graco. eleitos tribunos da plebe em 133 e 123 a. por conta da exploração que esta última sofria e da quase inexistência de direitos para ela.C.C caius_c 363 . não foi muito diferente do de seu irmão. Seu fim deu-se com a ascensão de Otávio Augusto ao poder. inspirado na concepção de democracia ateniense. no entanto.. Lucrécia. na costa da Grécia. Em 27 a. em resposta suicidou-se. levando-o a cometer suicídio. causando uma forte reação por parte da aristocracia patrícia. pois uma nova repressão aristocrática pôs fim às idéias reformistas. As disputas pelo poder político em Roma tiveram início com as propostas de reforma apresentadas pelos irmãos Tibério e Caio Graco. em seguida. procurou transferir as decisões políticas da esfera exclusiva do senado para a Assembléia popular.C. encerrando o ciclo da república romana. a população de Roma. respectivamente. Seu destino. à rebelião.notável patrício. destronando Tarquínio e instalando a República. levando seus familiares e. recebeu o título de imperador. que mandou assassiná-lo juntamente com muitos de seus seguidores.

Durante o governo de Sila. deixando a cidade totalmente desprotegida e à mercê de possíveis invasores. Este conflito entre classes promoveu a primeira greve registrada da história.C. predominava a força da elite conservadora e Sila tornou-se ditador da República. chefe do partido popular . desta feita liderada por Catilina. cargo exercido exclusivamente por plebeus para defender os interesses de classe.e Sila representante do senado . na história da política republicana. em 494 a.expressava a intensificação das lutas políticas. quando os plebeus retiraram-se para o Monte Sagrado e ameaçaram formar ali uma nova república. por conta de sua total falta de direitos. criando-se então os Tribuno da Plebe. a medida que o ditador limitava o poder dos tribunos da plebe.O conflito entre os anseios da camada popular e dos membros da aristocracia prossegue. o qual representava os interesses desta camada social. senador de grande prestígio popular. Após a morte dos irmãos Graco. o cônsul Cícero denunciou a conspiração de Catilina. a disputa entre Mário . a aristocracia consolidava seu poder. No entanto. acusando-o de tentar um golpe de estado e transformando-o em inimigo de Roma. Os plebeus responderam prontamente através de uma nova revolta.cônsul da República.285 caius_c 364 . Mais uma vez. Os patrícios foram obrigados a ceder.

000. ao longo de toda a Via Apia.C a 70 a. que conduziu um exército de rebeldes que chegou a ter quase 100.No período republicano ocorreu a famosa Revolta dos Escravos82.. Estas revoltas populares ou de escravos somente existiram porque o conceito de república estava permeado por outros como liberdade. Embora a democracia seja o “governo do povo”. gladiador de origem trácia. deu lugar ao Império Romano. podemos dizer que ela começou a existir a partir do 82 73 a. Elas somente se dariam quando a sobrevivência física e coletiva estivesse sob séria ameaça.C. Foi derrotado pelo cônsul Crasso. caminho que conduzia a Roma.000 ex-escravos. Os conceitos de república e democracia foram relegados ao esquecimento até a Renascença. por volta de 6. entremeada de guerras civis e lutas de classes. refloresceu a classe dos burgueses. que perdurou até 476 d. Neste período. que mandou crucificar os sobreviventes. no lado oriental. representatividade e possibilidade de ascensão social. fechado e de castas definidas. não existiriam ideais suficientes para que prosperassem. caius_c 365 .C. que passaram a ter poder econômico e nenhum poder político. A República Romana. liderada por Spartacus ou Espártaco. no lado ocidental e até 1453. Dentro de um governo autoritário.

vinda do povo. Na democracia grega clássica e na República Romana. juntamente com os imediatos. Embora fosse patrocinado pelo Estado e subordinado a ele. à política e à moral. A prosperidade da burguesia firmou-se com o advento do Mercantilismo.momento em que começou a formação de um poder econômico advindo de uma classe que não pertencia à nobreza e que não tinha privilégios de sangue. caso não mostrassem 83 O gancho invisível: a organização econômica desconhecida dos piratas caius_c 366 . que buscava uma progressiva autonomia da economia frente à religião. visto que eram responsáveis pela logística e distribuição dos saques. A Renascença propiciou o aparecimento dessa nova classe. no caso. os burgueses. que os primeiros sintomas da moderna democracia surgiram nos navios piratas que tiveram sua época áurea no Caribe entre 1670 a 1730. que contribuíam para evitar a concentração dos poderes em uma só pessoa. professor da Universidade George Mason. essa forma de economia exigia investimentos que se buscava junto aos detentores de capital. PETER LEESON. os detentores do poder político eram os aqueles que tinham o poder econômico. diz em seu The Invisible Hook: The Hidden Economics of Pirates83. Segundo ele. e que passou a exigir direitos de gerência na administração do Estado por conta de seus próprios interesses. ocorrido entre o século XV e XVIII. Qualquer um deles podia ser deposto e substituído. os capitães piratas eram eleitos pela tripulação.

Ambas foram frutos de uma burguesia crescente aliada aos novos ideais que surgiram com o Iluminismo.com direito a um quinhão do butim e um voto nas enquetes. Também se fixava prêmios por bravura e indenizações para os feridos. A Independência Americana cometeu a maior heresia que se achava possível: a instalação de um governo que não fosse hereditário ou sucessório e cujos governantes eram eleitos pelo povo. 286 Dois grandes fatores contribuíram para firmar um novo conceito de democracia: a Revolução Francesa em 1789 e a Independência dos Estados Unidos em 1783. A Revolução Francesa afrontou diretamente os princípios dos regimes monárquicos. Todos recebiam tratamento de igual para igual . levaram os governos monárquicos a considerarem que essa caius_c 367 . o povo. Provavelmente. Os navios chegavam a ter até um quarto de tripulantes negros e eram indiferentes a homossexuais. que também previa como os butins seriam repartidos. quebrando os paradigmas existentes até então.serviço. concluindo que precisavam estabelecer parâmetros que igualassem as classes sociais para se resguardarem em seus tronos. a insignificância política dos Estados Unidos. As regras que regeriam a tripulação eram acertadas antes do embarque e os infratores eram punidos de acordo com este código. na época. aliada ao fato de estar do outro lado do oceano. As cabeças coroadas da Europa passaram a temer aqueles a quem mais desprezavam.

Esta parceria. Nesta fase. onde a busca do lucro a qualquer preço foi o tom maior. onde o poder econômico das empresas junta-se ao poder político do Estado. Essa prosperidade burguesa foi acentuada com a Revolução Industrial e com a introdução dos conceitos capitalistas. Buscando a conquista de novos territórios a oeste. com capital próprio e sem vínculos com o governo. A parceria entre empresas e Estado produziu um lucro excessivo concentrado nas mãos de poucos ao mesmo tempo em que relegava a classe produtora a uma miséria construída na base da exploração e no pagamento de ínfimos salários.democracia que nascia não lhes era adversária ou conflitante com seus interesses. As grandes empresas deixaram de ser subordinadas ao Estado e passaram a ser parceiras do mesmo. Estes processos criaram uma nova classe burguesa: a dos empresários que. o Estado deixou de ser patrocinador das empreitadas para tornar-se captador de lucros e interventor nas situações que desfavorecessem as atividades econômicas. ainda perdura na maioria das democracias até hoje. a livre iniciativa foi incentivada a ponto de estabelecer uma nova forma econômica: o capitalismo. amealharam grandes fortunas. que antes se concentrava na costa leste ou nas treze colônias iniciais. para os territórios a oeste. A descoberta de ouro na Califórnia deu início a um deslocamento maciço da população. Deu início a uma luta caius_c 368 .

que convencionou-se chamar de Luta de Classes. Entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. O Plano Marshall. onde a população empregada vivia em condições quase que de pura sobrevivência.pelos direitos. cujas economias tinham sido arrasadas. A luta de classes. A prosperidade dos Estados Unidos. buscando um nivelamento econômico entre elas. onde os governos se propunham a cuidar das camadas da população da mesma forma. Após a Segunda Guerra Mundial. com seu parque industrial intacto por não ter tido ataques durante a guerra. levou a crer que os ideais democráticos dos governos nada mais eram do que uma nova forma de tirania onde uma classe privilegiada economicamente detinha o poder de exploração sobre as demais. pregavam a autotutela do cidadão e seu desvinculo com o Estado. levou-o a tornar-se mentor econômico e político dos países europeus. dando início à novos pensamentos que criticavam os regimes dos governos e propunha novas formas sociais como o comunismo e o socialismo. forneceu subsídios aos países europeus para sua reconstrução. os conceitos democráticos foram confrontados com os autoritários que surgiam. O contraposto para os ideais democráticos eram os do autoritarismo. fascismo e o comunismo. como Bakunin. iniciado pela Revolução Russa de 1917. Alguns extremistas. o conceito de democracia foi confrontado com o do comunismo. como o nazismo. criado em julho de 1947. caius_c 369 .

Neste período. o conceito de democracia e capitalismo estiveram estreitamente ligados. Criou-se. os campos de batalha foram transferidos para outros países como Vietnã. cada um acreditando que o outro queria ou poderia ter um poder que se tornasse mundial. Laos. Alguns deles foram divididos por conta dessas ideologias. Esta fase. ao norte. Por estarem em condições de se destruírem mutuamente. não permitiu que nenhum dos países sob seu controle aderisse ao plano. governante supremo da União Soviética. então. detentores dos ideais democráticos e capitalistas. caius_c 370 . dando ao vulgo a impressão que eram apenas um.Josef Stalin. e a União Soviética. aliados pelo inimigo comum que era a Alemanha nazista. foi um confronto entre os Estados Unidos. pois considerava-o como uma forma expansionista americana que poderia redundar em destruição do sistema de governo soviético. onde o paralelo 38 tornou-se a fronteira entre duas diferentes formas de governo. gerando conflitos em inúmeros deles. conhecida como Guerra Fria. como a Coréia. que propagava a sua revolução comunista ao mundo como forma mais aceitável de governo. tornaram-se desconfiados uns em relação a outros. Antes. etc. um campo de batalha político que estendeu-se a todos os países. no sul patrocinada pelos Estados Unidos. por conta do arsenal nuclear de cada um. Afeganistão. pela União Soviética. e.

durante treze dias. Taiwan e dos países europeus. Coréia. e o então primeiro-ministro Nikita Kruchev. John Kennedy. O então presidente dos Estados Unidos.O ápice de confrontação. deu-se com a instalação de mísseis intercontinentais em Cuba. 84 1962 caius_c 371 . desencadeou ameaças de guerra nuclear e. O confronto ideológico democracia-comunismo terminou com a dissolução da União Soviética e a reunificação dos lados ocidental e oriental da Alemanha. de onde poderiam atingir facilmente os Estados Unidos. além da retirada dos mísseis da Turquia. conhecido como Crise dos Mísseis de Cuba84 ou Crise Caribenha. Alguns historiadores acreditam que foi uma jogada política de Kruchev para. O sistema estatal de controle econômico do comunismo não teve condições de suportar sozinho o enorme investimento que era necessário para que se produzissem bens que pudessem competir nesse novo mercado. chegaram a um acordo onde os mísseis em Cuba seriam retirados pela União Soviética e os mísseis instalados na Turquia seriam desativados pelos Estados Unidos. onde ela poderia se tornar direta. Pode se dizer que parte desse confronto foi vencida pela produção de avançadas tecnologias que permitiu o restabelecimento de economias como a do Japão. conseguir benesses econômicas para a União Soviética. O episódio. em geral. o mundo esteve à beira de possível holocausto mundial.

Essa corrida econômica. A criação da União Européia. criaram dois paradoxos: o primeiro foi o agigantamento das companhias com conseqüente influência sob os governos locais e o outro foi a adesão de países considerados fechados. O desenvolvimento das comunicações e o crescimento desmedido de algumas empresas. As rivalidades ideológicas parecem estar resumidas. como a China. em 1992. O enfraquecimento da disputa entre capitalismocomunismo e democracia-autoritarismo trouxe novos concorrentes aos mercados mundiais.Os conceitos de globalização foram o golpe final neste confronto ideológico-econômico. apenas à tomada de mercados pelas empresas. ao novo processo. caius_c 372 . Fica mais barato dominar um país economicamente pelas empresas do que militarmente por um governo. Os conceitos de globalização criados inicialmente para popularizar a idéia de uma economia mundial sob o domínio de empresas. hoje em dia. ainda não terminada. A busca de matérias-primas se dá onde ela é mais barata. que agora não tem mais restrições ideológicas. sem a necessidade de dominação territorial. Os exércitos parecem ter-se tornados obsoletos nesta nova forma de dominação econômica. permitem que as partes de um produto ou o próprio produto sejam feitas em qualquer país onde o custo é menor. foi uma forma de estabelecer um equilíbrio entre as economias européias e as demais. começou a inverter a esfera de influência econômica dos países. principalmente a dos Estados Unidos.

A opinião da maioria deve ser o objetivo a ser perseguido. Para ele. Uma reflexão filosófica. livre da metafísica e da religião. baseada na ciência. A decisão sobre o valor social a ser posto em prática deve ficar a cargo dos indivíduos atuantes na realidade política. A única justificação da democracia que se pode permitir uma filosofia relativista. identifica duas situações adversas à democracia: uma visão tecnocrática de um lado e uma postura indiferente do outro. o exame da base filosófica da democracia não deve objetivar constituir-se em uma justificação absoluta da democracia. A primeira reduz-a a um ritual mecânico de caius_c 373 . a democracia consiste na igualdade segundo os números e não de acordo com o mérito. 287 Para KELSEN. é incapaz de reconhecer um valor social qualquer à exclusão de outro. apud Voltaire Schilling. A democracia encontra seu fundamento apenas na hipótese de se entender que a liberdade e a igualdade são os valores que devem ser postos em prática. seria então. A democracia. um governo dos pobres e a eles dirigido. por conta de seu maior número. é uma justificação funcional. em tal regime.288 BOBBIO. os pobres seriam mais poderosos que os ricos. A democracia justifica-se por ser a forma de governo mais funcionalmente ajustada a realizar os valores liberdade e igualdade.Fundamentos da democracia Para ARISTÓTELES.

Estar sempre em transformação. Ela somente se desenvolve onde os direitos de liberdade têm sido reconhecidos por uma constituição. ao dizer que podia ser eleito qualquer um. . sempre igual a sim mesmo. e se move através de leis caius_c 374 . enquanto que a outra. 289 Para ele. a democracia tem como fundamentos: . . . e só ao direito cabe limitar o poder.O centro da atenção da democracia repousa numa concepção individualista da sociedade.sucessivas eleições.É um regime que define o bom governo como aquele age em função do bem comum e não do seu exclusivo interesse. Somente o poder cria o direito.Trata-se de um conjunto de regras que estabelece quem está autorizado a tomar decisões coletivas e quais são os seus procedimentos. O seu estado natural é a dinâmica. . enquanto que no despotismo predomina a estática.Baseia-se na regra de que a democracia é o regime da maioria e que o Estado Liberal é o suposto histórico-jurídico do Estado Democrático. . a desqualificava.O direito e o poder são duas faces da mesma moeda.

Considera um governo excessivamente paternal como negativo. Impor caius_c 375 . enquanto pessoa. Os dois primeiros se justificam como direitos do homem a estarem presentes em qualquer democracia.290 Para QUINTÃO SOARES. .estabelecidas. para ele. o que certificaria a universalidade de oportunidades. O mercado. de acordo com critérios estabelecidos e de conhecimento geral. e não por determinações arbitrárias. O mercado é uma rede que estabelece uma conexão tensão entre o princípio da justiça e da cidadania. O fundamento básico da democracia é o voto. claras para todas. a democracia moderna se propõe a proteger a liberdade do indivíduo. cidadania e mercado. É poder dado ao povo de renovar seus governantes. a representatividade política da maioria. estabelecendo os mecanismos da 291 representação política e limites ao poder estatal. O cidadão pode acessar o mercado e estabelecer transações econômicas elementares ou complexas. representa um valor importante na massificação da democracia econômica. mesmo dentro de uma sociedade desigual. Aqueles que não estiverem dentro das relações de mercado não são capazes de exercício da plena cidadania. insistindo que a democracia é um governo de leis por excelência BRENO RODRIGO DE MESSIAS LEITE diz que os fundamentos da moderna democracia são justiça.

existe a pressuposição de que a representatividade será maior devido ao fato de que os eleitores serão em maior número e. presume-se que os representantes eleitos pelo povo terão capacidade maior para elegerem aqueles que preencherão os cargos mais elevados. o presidente é eleito por um Colégio Eleitoral formado por 538 delegados. Nos Estados Unidos. O hiato existente entre Estado e povo diminui consideravelmente visto que um tem poder sobre o outro. A Constituição Americana. existirá uma gama maior de opiniões a favor dos candidatos. No Brasil. portanto. Democracia indireta é aquela onde o povo escolhe alguns representantes que irão eleger outros para os cargos mais elevados. na sua 12a. o presidente da República é eleito diretamente pelo povo. Emenda. Tipos de democracia De forma geral. Democracia direta é aquela em os cidadãos elegem diretamente os representantes do legislativo e executivo. Estes delegados é que são eleitos pela população. permite que o presidente seja escolhido pela caius_c 376 . também chamada de representativa. Na direta.limites ao poder do Estado é decorrente dessa própria capacidade de eleição. existem dois tipos de democracia: a direta e a indireta. deve-se buscar satisfazer as necessidades da população de acordo com a capacidade do mesmo. Na indireta. Sendo o povo o objeto primordial do Estado.

e Officiaes Militares. III. Os menores de vinte e cinco annos. Estes eleitores tinham que ser qualificados e não ter os impedimentos constantes em seus artigos 92 e 94: Art. salvo se servirem Officios publicos. pelo Senado dos Estados Unidos da America. os quais elegiam os representantes da nação. sufrágio é o poder que se reconhece a certo número de pessoas de participar direta ou indiretamente na soberania. e Clerigos de Ordens Sacras. Os criados de servir. em “assembléias paroquiais”. isto é. na gerência da vida pública. nos quaes se não comprehendem os casados. 292 A Constituição Outorgada de 1824. caso nenhum candidato obtenha mais de 270 votos. e primeiros caixeiros das casas de caius_c 377 . O vice é escolhido. A conquista do voto no Brasil Conforme definição de BONAVIDES. os Bachares Formados. I. em cuja classe não entram os Guardalivros. que forem maiores de vinte e um annos. II. 92. Os filhos familias. que estiverem na companhia de seus pais.Câmara dos Representantes dos Estados Unidos. então. previa participação popular restrita à votação dos “eleitores de província”. São excluidos de votar nas Assembléas Parochiaes.

ou Empregos. Art. e Membros dos Conselhos de Provincia todos. 95. Os que não tiverem de renda liquida annual cem mil réis por bens de raiz. industria. Todos os que podem ser Eleitores. e quaesquer. e os administradores das fazendas ruraes. 93. os Criados da Casa Imperial. ou emprego. que não forem de galão branco. Os que não podem votar nas Assembléas Primarias de Parochia. Exceptuam-se I. V. não podem ser Membros. commercio. Podem ser Eleitores. Art. Os Religiosos. os que podem votar na Assembléa Parochial. abeis para serem nomeados Deputados. Os Libertos.commercio. Art. ou local. e votar na eleição dos Deputados. nem votar na nomeação de alguma Autoridade electiva Nacional. III. Exceptuam-se caius_c 378 . IV. ou devassa. II. industria. Senadores. 94. commercio. Os criminosos pronunciados em queréla. que vivam em Communidade claustral. Os que não tiverem de renda liquida annual duzentos mil réis por bens de raiz. e fabricas.

A Constituição de 1934 estendeu o voto às mulheres e tornou-o obrigatório aos maiores de 18 anos.I. Os que não tiverem quatrocentos mil réis de renda liquida. Quanto às regras eleitorais. que definia o eleitor por sua renda. Os que não professarem a Religião do Estado. A Constituição de 1824 previa a existência do “poder moderador”. 92 e 94. exclusivo do imperador. previa a eleição do presidente e vice-presidente da república através de voto direto. que lhe dava poderes sobre os partidos e permitia ingerências no legislativo e judiciário. III. já republicana. determinou-se que o voto no Brasil continuaria "a descoberto" (não-secreto) – a assinatura da cédula pelo eleitor tornou-se obrigatória – e universal.293 A Constituição de 1891. II. Os Estrangeiros naturalisados. em seu artigo 47. caius_c 379 . pois ainda se mantiveram excluídos do direito ao voto os analfabetos. na fórma dos Arts. Por "universal" entenda-se o fim do voto censitário. os religiosos sujeitos à obediência eclesiástica e os mendigos. os praças-de-pré. as mulheres.

transforma-se em mantenedora de sua posição como ditador. Este Código adotou o voto feminino e o sufrágio universal. João Cabral e Mário Pinto Leiva. confirmando o Código Eleitoral de 1932. 86 Artigo 84. abolindo o voto secreto para tal. Constituição Federal de 1937 87 Artigo 134 – Constituição Federal de 1946 88 Artigo 132 – Constituição Federal de 1946 89 Art 76 .88 A Constituição de 1967. direto e secreto. de 24 de fevereiro de 1932.90 A Constituição de 1969 manteve o sistema eleitoral da de 1967.85 A Constituição de 1937 restabelece a eleição indireta para presidente através de um Colégio Eleitoral86. A Constituição de 1946 prevê universalidade do voto e o restabelece como direta e confirma seu caráter secreto. estabelece eleições indiretas para presidente e vice-presidente. obra conjunta de Assis Brasil. os privados de direitos políticos e os praças de pré. 90 Artigo 13 – Constituição Federal de 1967 85 caius_c 380 .89 Mantém a eleição de governadores e vices pelo sufrágio universal. os que não sabiam exprimir-se na língua nacional. Ela. no entanto.O voto passou a ser secreto. em sessão.076. 87 Excluiu como eleitores os analfabetos. direto e secreto. concentrou os Decreto nº 21.O Presidente será eleito pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral. pública e mediante votação nominal. e altera seu mandato de quatro para seis anos Outorgada pelo então presidente Getulio Vargas. novamente.

caracteriza uma democracia. fosse substituído por uma junta militar. muito apropriadamente que “a unanimidade é burra”. Supõe-se que a decisão a ser tomada. de 01 de setembro de 1969 Artigo 14. 12. face a uma votação. este último teve lugar nos períodos em que o poder esteve concentrado nas mãos de poucos ou de um. retomou o voto direto para as eleições presidenciais. A regra da maioria O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia.poderes no Executivo e permitiu que o presidente. Seu uso. 91 92 Ato Institucional no. Somente aqueles que prestam serviço militar obrigatório e os estrangeiros. na época Costa e Silva. deva ser aquela que a maioria apoiou.91 A Constituição de 1988. tornando o voto obrigatório para os maiores de dezoito anos e facultativo para os maiores de setenta anos. também conhecida como “Constituição cidadã”. Entendese que no processo democrático ela não possa existir por conta das muitas opiniões existentes entre os votantes. analfabetos e para aqueles com idade entre dezesseis e dezoito anos. podemos concluir que o voto direto torna-se arma contra instituições autoritárias ou elitistas. Ampliando o pensamento. Constituição Federal de 1988 caius_c 381 . apesar de existir um vice-presidente. de forma universal e obrigatório.92 Como se pode perceber pelas idas e vindas do voto direto e indireto.

metade mais um dos votantes. portanto. presume-se que o assunto seja de tal relevância que. obrigatoriamente. Maioria qualificada. caius_c 382 . que é a metade mais um do universo eleitoral. existem cinco tipos definidos: 1) 2) 3) 4) Maioria simples não qualificada. Maioria absoluta. Para aquelas em que há exigência de número maior de votos vencedores. deve se entender que a maioria traduz a vontade geral e. então. que é a maior entre as minorias 5) Dentro de um universo ideal democrático. entre dois terços ou três quartos. cujo número varia. geralmente. que se resume na metade dos votos mais um. Qualquer maioria. ou seja. A definição da forma majoritária da eleição tem estreita relação com a importância do objeto votado. deve-se estabelecer o conceito do que seja maioria. para que a implementação da vontade tenha sucesso. ele deva ter o apoio da maior parte dos votantes. Maioria relativa. deve ser obedecida.Como as regras devem ser claras no processo democrático. os ganhadores. Os votos vencidos devem apoiar. De forma geral.

Em alguns países. ou seja. quanto á sua disposição legal. este foi o caius_c 383 . o voto é facultativo. podem ser obrigatórios ou facultativos. Qualidade do voto Discute-se muito sobre a qualidade do voto obrigatório. somente as pessoas que desejam participar do processo político e identificam-se como tal tem direito ao voto. A forma aberta somente é utilizada em casos onde presume-se que possa existir responsabilização pessoal do eleitor face à sua posição. Esta modalidade é utilizada de forma bastante restrita e apenas em alguns casos especiais. considera-se que o voto secreto seja a forma mais adequada para a escolha dos representantes pois evita que existam represálias contra o eleitor. Durante os anos de chumbo. sendo que existem penalizações para quem não o faça. os votos podem ser secretos ou abertos. Na maioria do processo democrático eletivo. Quanto à forma. o que os sujeitaria às propagandas da mídia. Por obrigatório entendese aquele em que toda a população é obrigada a votar nos seus representantes. acreditando-se que grande parcela da população não teria condições de escolher seus mais altos governantes ou representantes por questões como baixa escolaridade ou falhas culturais. por conta dessa influência.Tipos de voto Os votos. ou seja. o candidato que tivesse a melhor campanha ou dispusesse de recursos maiores seria o naturalmente eleito.

o que inclui favorecimentos ou ameaças aos dissidentes. Pressupõe-se que na eleição direta exista menor possibilidade de manipulação. praticamente desapareceu por conta dessa maior divulgação. Neste período. aos eleitores. A indireta. A forma conhecida como “curral eleitoral”. nos anos de chumbo. As experiências brasileiras com democracia indireta. propiciou um maior acompanhamento dos candidatos. A crescente urbanização e o barateamento das telecomunicações. a oposição esteve alijada do poder por conta desta pressão. A obrigatoriedade do voto induz o eleitor a ficar atento sobre seus direitos de ter uma representatividade adequada ao seu caso.argumento mais disseminado contra esta forma de eleição. revelaram que existe maior facilidade para os governantes conseguirem apoio para os seus candidatos através dos órgãos do Estado. Mesmo que pareça que o voto obrigatório pareça caius_c 384 . seja através da propaganda ou de notícias. onde os coronéis do interior mantinham disciplina férrea sobre os eleitores. estaria restrita à eleição de representantes determinados que teriam opinião formada sobre o assunto e de conhecimento dos eleitores. visto que o número maior de eleitores impede que exista forma direta e individual de pressão sobre os mesmos. Ela transforma o cidadão em ente político e o responsabiliza pela governabilidade do país. principalmente televisão e internet. ao contrário.

na realidade é a forma legal mais adequada para induzi-lo a cuidar de si e de sua comunidade através da escolha adequada de seus representantes.inconstitucional à primeira vista. caius_c 385 . No entanto. de forma direta ou indireta. como vimos. é a forma de governo onde os representantes são eleitos pelo povo. A democracia. pois parece estar contra o direito de liberdade de cada cidadão. o apogeu da democracia somente existe quando ela começa a tomar a forma de um Estado Democrático de Direito.

295 ANTONIO PAULO CACHAPUZ DE MEDEIROS define como o conjunto de normas. reunidas numa lei. Em síntese. o estabelecimento de seus órgãos e os limites de sua ação. Significa. a Constituição é o conjunto de normas que organiza os elementos constitutivos do Estado". mas todos acreditam no futuro da nação. escritas ou costumeiras. seria a organização dos seus elementos essenciais: um sistema de normas jurídicas. organizar. concernente à forma do poder.Constituição “Ninguém respeita a Constituição. ao estabelecimento de caius_c 386 . o modo de aquisição e o exercício do poder. a Constituição do Estado. Que país é esse?” (Renato Russo) 294 A palavra constituição é o ato de constituir. a forma de seu governo. dar forma. que regula a forma do Estado. modo de ser. Para JOSE AFONSO DA SILVA. considerada sua lei fundamental. também. estabelecer.

proclamando e garantindo os direitos individuais e sociais. nesta acepção.296 Esta forma de Estado. Grécia Antiga ou entre os hebreus. aos limites de sua atuação. A cláusula 39 determinava que nenhum homem livre poderia ser preso ou privado de sua propriedade senão através de um julgamento legal por seus pares ou pela caius_c 387 . efetivamente surgiu após o Período Medieval. a de número 61. em nosso entendimento. em 1215. assinada pelo em então rei da Inglaterra João Sem Terra. CELSO BASTOS ensina que é um complexo de normas jurídicas fundamentais. é definida a partir do objeto de suas normas. tinha uma cláusula. quando se deu início à unificação de países sob um governo central. A primeira referência que se tem dessa restrição é a Magna Carta. afirmam que os Estados Constitucionais nasceram no Mediterrâneo Oriental. assim como a democracia como a conhecemos. As constituições nasceram com o objetivo de limitar este poder central que tornou-se absoluto. a partir do assunto tratado por suas disposições normativas. que dizia que um comitê de vinte e cinco barões poderia reformar qualquer decisão real. Na sua primeira versão. capaz de traçar as linhas-mestras de um dado ordenamento jurídico. Alguns historiadores. obrigado a isto pelos seus barões. vale dizer. como Loewenstein e Hauriou. Constituição. escritas ou não.seus órgãos.

respectivamente. de 1787 e 1791. visto que seus livros sagrados dariam o suporte para o Estado. Com o passar do tempo ela sofreu algumas alterações mas não perdeu sua intenção inicial. em tese. não se recusará ou se atrasará direito ou justiça.lei da terra. Depois de sua morte. Tanto não é que ela pode ser considerada um fenômeno recente na história humana. Não é condição sine quae nom para sua existência. Um Estado totalitário não necessitaria. Esta carta foi repudiada por João Sem Terra depois que os barões deixaram Londres. também não precisariam. visto que as prerrogativas de um poder absoluto tornam-se a própria lei. seu filho Henrique III confirmou sua validade. de um código maior que o definisse. estabelecendo direitos e deveres para governantes e governados. sob a alegação de que tinha sido assinada sob coerção. As constituições modernas foram lastreadas pelas constituições americana e francesa. os teocráticos. caius_c 388 . Aqueles que são regidos por preceitos religiosos. A quadragésima diz que não se venderá. O Estado e a constituição O Estado pode existir sem uma constituição. em 1216. enquanto que o Estado parece estar acompanhando o homem desde que se tornou gregário. que era a de limitar o poder central.

porém deve se entender que uma Constituição é gerada pela entidade denominada Estado. Nesta forma de governo. Nos regimes totalitários. Não se admitindo controvérsia sobre sua posição de dominância total. a lei maior pode ser substituída pelas diretrizes do partido político. Nos regimes teocráticos as pré-disposições contra o regime podem ser abafadas pela visão de que o governo estabelecido tem sua legitimidade caius_c 389 . Na prática pouca coisa se altera. Quando não formam elos entre os segmentos da sociedade. Estas regras podem firmar uma paz social. no caso um governante supremo. qualquer forma de pensamento que contrarie esta conformação não é aceita. podem causar conflitos que ensejam confrontos. a interpretação dos pressupostos constitucionais é do Estado. O mais comum nestes casos é a pura e simples repressão. A função desta legalidade é propiciar o cumprimento dos padrões da relação entre Estado e cidadão. Se os seus pressupostos distanciam governantes dos governados. acirram os ânimos daqueles que se sentem injustiçados e promovem disputas pelo poder. enquanto que diretrizes são determinadas por um grupo de pessoas ou.Independente da forma pela qual se reveste o Estado. quiçá. Constituições não cumpridas têm o dom de provocar caos e revoluções. uma constituição escrita e cumprida garante sua legalidade. apenas por uma pessoa.

As constituições outorgadas nascem da necessidade de compartilhamento do poder entre um governo totalitário e determinadas camadas da caius_c 390 . pois mudanças podem provocar a queda do próprio regime. o que retiraria a legalidade dos atuais governantes. Já os governos democráticos precisam ser dinâmicos por conta de sua própria condição. em relação ao Estado interessa as que são outorgadas e a originárias. Possíveis revoltas podem ocorrer por força de nova interpretação de seus livros sagrados. Isto se faz necessário para evitar que mudanças ocorram por questões ligadas a puro modismo.assegurada pelas entidades divinas. propiciando poucas possibilidades de avanço social. Podemos considerar isto como ajuste face às novas realidades sociais. As formas de governo totalitária e teocrática tendem a serem estáticas. Tipos de Constituição Existem várias classificações de constituições. devendo-se partir do princípio que a lei deve garantir segurança para os atos praticados. Esta dinâmica exige que sejam dadas novas interpretações às normas contidas em suas constituições. porém. dentro de determinado período de tempo. Estes ajustes devem ser ratificados através repetições constantes em julgados de casos idênticos.

Sendo fruto das inquietações e receios do governante. Sua característica mais marcante é a inovação. existe a possibilidade de que a mesma possa ser modificada pelo próprio. Revela o medo do poder estabelecido de insurgências dessas camadas da população. caius_c 391 . atende dois princípios básicos: o primeiro é a manutenção do poder. A princípio é uma limitação de um poder que pode se tornar abusivo. ela não precisa ser necessariamente democrática. Seus atributos dependem exclusivamente da nova forma instalada de governo ou regime. pela demonstração de boa vontade do governante em relação aos governados. Isto significa que o aparato repressivo do regime não tem poderes suficientes para manter o total controle sobre os governados ou existe um crescendo opositivo ao regime. através da outorga de uma lei maior que estaria acima do mesmo. faz-se premente uma atualização da lei para que ela enquadre as novas premissas e bases. do status quo. o segundo é que. Existindo um abismo ideológico entre o sistema anterior e o atual. Sendo fruto de quebra de paradigmas. As constituições originárias surgem depois de uma ruptura política ou social. É uma forma de restringir o poder.população. sendo uma outorga do governante.

Requisitos mínimos para uma constituição LOEWENSTEIN enumera os requisitos mínimos para uma Constituição autêntica: 297 a) Diferenciação das diversas tarefas estatais e sua atribuição a diferentes órgãos ou detentores do poder. O poder constituinte não subordina-se a nenhuma condição e não sofre qualquer limite. um método racional de reforma constitucional para evitar o recurso à ilegalidade. alterar ou criar as novas regras do Estado. c) Um mecanismo planejado com antecipações de parcelas autônomas do poder. resolva o embaraço sobrepondo-se aos demais. ou seja. d) Um mecanismo planejado para adaptação pacífica da ordem fundamental às mutáveis condições sociais e políticas. significando ao mesmo tempo. caius_c 392 . estando capacitado para manter. para evitar a concentração do poder nas mãos de um só individuo. uma limitação e uma distribuição do exercício do poder. a fim de evitar que qualquer deles. numa hipótese de conflito.Esta forma de constituição não deriva de nenhuma outra. que estabeleça a cooperação dos diversos detentores do poder. à força ou à revolução. b) Um mecanismo planejado.

seriam os costumes estabelecidos e a noção de justiça do povo. KELSEN parte do princípio que uma constituição compõe-se de uma norma fundamental hipotética. Estas formam a primeira Constituição. prevendo sua proteção contra a interferência de um ou de todos os detentores do poder.e) Reconhecimento expresso de certas esferas de autodeterminação individual. caius_c 393 . É referendar ou programar a vontade presente em situações futuras que se deseja alcançar. A base sólida implica em referendar algo imediatamente palpável e material. É expressão da necessidade de segurança jurídica da sociedade. os membros do povo selecionam as normas de comportamento social que consideram fundamentais. Com base nesta norma. tornando-se uma Constituição positiva. chamada de abstrata ou teórica. dos direitos individuais e das liberdades fundamentais. 298 Uma constituição deve expressar dois sentimentos: o primeiro é o estabelecimento de bases sólidas para que o Estado seja administrado e o segundo é traçar seus rumos. Através de uma representação legal. neste caso. que se convertem em uma lei maior. estas normas são expressas como regras jurídicas fundamentais. Os requisitos mínimos. isto é. Dar rumos ao Estado implica em estabelecer a legalidade dos esforços em direção ao que se julga mais adequado para ele e para a sociedade.

300 Para Savigny.” (Cesare Beccaria) 299 O conceito de Estado como pessoa jurídica aparece com SAVIGNY. que o considerava como uma ficção. a justiça política. e esta primitiva identidade dos dois conceitos pode ser expressa com a seguinte fórmula: caius_c 394 .O Estado como pessoa jurídica “A justiça humana. “o conceito primitivo de pessoa. à medida que essa ação se torne vantajosa ou necessária ao estado social. não sendo mais do que uma relação estabelecida entre uma ação e o estado variável da sociedade. ou. pois admitia que apenas os sujeitos do direito eram os indivíduos. também pode variar. deve coincidir com o conceito de homem. únicos dotados de consciência e vontade. de sujeito de direito. se se quiser. Só se pode determinar bem a natureza dessa justiça examinando com atenção as relações complicadas das inconstantes combinações que governam os homens. ou seja.

entende que o Estado tem personalidade jurídica.301 KELSEN. mas é um sujeito artificial.qualquer ser humano. em que os mais fortes impõem sua vontade aos mais fracos”. não é uma essência. Interesse do Estado.304 A teoria do Estado-orgão admite unicamente o Estado como pessoa jurídica. O Estado seria uma pessoa em si. o Estado não é uma pessoa. mas uma capacidade criada mediante a vontade da ordem jurídica. em sentido jurídico. condição negada à nação. O Estado é um fato e não uma pessoa. na qual a nação intervém como elemento estrutural. não tem pensamento nem vontade. tal como o território e a soberania. através de sua concepção normativista do direito e do Estado. O homem caius_c 395 . o Estado é a personificação da pessoa jurídica. JELLINEK concebe a teoria da personalidade jurídica do Estado ao explicitar que sujeito. e que o Estado é a nação juridicamente organizada.302 Para DUGUIT. pois Vontade do Estado. e apenas o ser humano. O Estado é “um grupo humano fixado em um território determinado. Para ele.303 CARRÉ DE MALBERG afirma que a nação se torna uma pessoa jurídica no momento em que organiza-se em Estado. A vontade dos governantes é a vontade do Estado. cuja personalidade jurídica consistiria no produto ou expressão de uma organização real. são meras abstrações. tem capacidade de direito”.

Uma pessoa jurídica é a transposição da pessoa física para uma realização social. Tornando-se pessoa social. caius_c 396 . são três os seus requisitos: a) Organização de pessoas ou de bens. Para ele. vez que todo direito é uma relação entre seres humanos. não só a capacidade de Direito Público.deve ser compreendido como pressuposto da capacidade jurídica do Estado. a personalidade jurídica do Estado contempla. Portanto. que se manifesta no exercício do poder público através de atos de imperium. b) Licitude de seus propósitos ou fins. mais a capacidade de Direito Privado.306 Como conceito civil de pessoa jurídica podemos dizer que é a unidade de pessoas naturais ou de patrimônio. É a fórmula que busca a divisão do indivíduo para identificá-lo como pessoa comum e pessoa social. o indivíduo predispõe-se a fazer com que ela extrapole sua própria existência.305 Para GROPALLI. que visa à consecução de certos fins. reconhecida pela ordem jurídica como sujeito de direitos e obrigações. que se manifesta pelo exercício de direitos de caráter patrimonial através dos atos de gestão. a personalidade jurídica não é um conceito metafísico mas técnico. c) Capacidade jurídica reconhecida por norma. submetendo-se assim á sua vontade onde o objetivo que propõe é maior do que si próprio.

Quanto mais se aproxima das formas tirânicas. não existiriam parâmetros que promovessem uma convivência pacífica entre os cidadãos. Mesmo nas diversas formas.uma pessoa jurídica é um objetivo da pessoa natural. Ele não precisa mais de determinadas pessoas. pode-se crer caius_c 397 . inclusive. Entendendo que o objetivo final seja o bem público na sua forma mais ampliada. o Estado ainda mantém-se como sujeito de direitos e deveres. ele necessita de indivíduos que tenham determinadas funções. não necessitar mais de seu criador. quanto mais se aproxima da forma ideal do Estado Democrático de Direito. O Estado é uma estrutura na qual os homens se encaixam para manter a função para a qual ele foi destinado. O Estado é uma realização social porque é constituído de pessoas imbuídas da vontade de gerenciamento das questões da sociedade. Logicamente. regimes ou sistemas de governo. visto que adquire uma identidade própria. Sem ele. a balança entre direitos e obrigações pende mais para estas últimas. torna-se mais detentor de direitos. visto que essa definição provém de seus integrantes. Cabem dúvidas quanto à licitude de seus propósitos ou fins. Não restam dúvidas que o Estado organiza as formas sociais. que adquire tal força que se mostra maior que a própria e pode.

a capacidade jurídica do Estado é inquestionável. caius_c 398 . podemos dizer que não se trata de uma pessoa jurídica mas apenas uma reunião da malta. Entendendo que o objetivo final seja apenas favorecer determinado grupo em prejuízo de outros. Sendo detentor dos poderes. com a conseqüente exigência de obediência aos seus atos reguladores. Sua capacidade de regulamentação e auto-regulamentação o torna produtor e cumpridor de leis e administrador dos indivíduos sob sua tutela. esse poder pode beirar ao supremo. Nos Estados totalitários. Isto lhe confere o poder máximo. Resta ainda a capacidade de imperium do Estado. visto que os direitos dos cidadãos são poucos ou inexistem. Este poder é freado por ele próprio.que sejam justos. nos Estados democráticos. Nada pode abalar sua autoridade e tudo e todos estão sujeitos aos seus ditames. caracterizando-se ilicitude. por não poder ir além dos direitos dados aos seus cidadãos.

como isso só poderia ser feito se o povo e o soberano fossem a mesma pessoa. No entanto. e que nem sempre implica em benefícios para aquele que não se encontra dentro da estrutura de poder. a proposição de que ele seria o principal fautor deste benefício para o indivíduo. caius_c 399 . a fim de que todos os movimentos da máquina tendessem sempre unicamente à felicidade comum.Finalidade e funções do Estado “Eu quisera nascer num país em que o soberano e o povo só pudessem ter um único e mesmo interesse. Sendo o Estado o elemento organizador da sociedade. sabiamente moderado. a princípio.”(Rousseau)307 Finalidade do Estado Uma vida em sociedade implica em benefício para o indivíduo. configura. tem que se entender que a relação Estado-cidadão não é a mesma sociedade-indivíduo. resulta que eu quisera nascer sob um governo democrático.

O Estado está a serviço dos interesses individuais e não tem qualquer finalidade e que a vida em sociedade é uma mera sucessão de fatos. fins subjetivos e dos fins limitados. pois lhe concede direitos e deveres. Teoria dos fins particulares objetivos O Estado tem objetivo próprio que variam de acordo com suas particularidades. É o Estado quem cria o papel do indivíduo.Diversas teorias tentam explicar a precípua finalidade do Estado. Teoria mecanicista Para os mecanicistas a sociedade significa apenas a mera soma dos indivíduos e não um corpo de indivíduos. As mais comuns são: organicista. O detentor de todo e qualquer poder é o Estado e este prevalece sobre o indivíduo. dotado de funções e finalidades próprias. Teoria organicista O Estado é considerado como um organismo vivo. Ele atende uma de suas várias atividades dependendo do momento histórico. mecanicista. caius_c 400 . fins particulares objetivos. não sendo passíveis de serem dirigidas pelo Estado.

controle. sem preocupações de outra natureza. ESPINOZA afirma que o fim do Estado consiste na manutenção da liberdade espiritual. Como função devemos entender não a necessidade de sua existência mas a forma de manifestá-la aos seus tutelados. Busca-se a menor interferência estatal possível dentro da sociedade. Teoria dos fins limitados A finalidade principal do Estado é a guarda das instituições e a manutenção das relações sociais. caius_c 401 . portanto.Teoria dos fins subjetivos Fins subjetivos é o produto da inter-relação entre Estado e interesses individuais. Por ser uma necessidade social do ser humano. Dentro desta teoria. enquanto KANT diz que é o mesmo é mantenedor da ordem jurídica. O Estado é formado pela união de interesses individuais. regulamentação e auto-regulamentação. 308 Funções do Estado As principais funções do Estado são: governo. não teria razão de existir. Essa existência não teria sentido se não extrapolasse a sua existência para os cidadãos. um Estado que não se manifestasse de alguma maneira estaria indo de forma contrária à ela e.

organizações e lideranças responsáveis pela administração pública e pela direção dos Estados. que é a autoridade governante de uma unidade política." "o poder de regrar uma sociedade política. Traduz-se na criação e aplicação de normas que regem o sistema sobre o qual serão edificados todos os seus atos. Esse poder controla todos os caius_c 402 ." e o aparato pelo qual o corpo governante funciona e exerce 309 autoridade. O conceito de governo abrange as possibilidades de participação no poder. é a forma mais ampla de manifestação do Estado. 311 b) c) Governo. É o conjunto de pessoas que dirigem um país. As mais comuns são as seguintes: a) É "a organização. o Estado tem poder sobre tudo e todos.Governo Existem inúmeras definições para governo. 310 É o conjunto de instituições. Controle Como já dissemos anteriormente. em nosso entendimento.

o Estado assume que. ou seja. mantêlos de forma acessível aos interessados. A necessidade do controle se faz presente visto que sem ele não pode existir base para o Estado afirmar-se como tal. diante do caso concreto. processá-los. na qual as partes. O costume é aceito formalmente. a lei não for satisfatória. Regulamentação Como gerenciador da sociedade. escriturar. a sociedade se regula através dos costumes. que é a forma habitual de interação. registrar e toda a gama possível dessa modalidade. O nosso ordenamento jurídico consagra o acolhimento de tais regras não-escritas quando. procedem de acordo com aquilo que está estabelecido em seu universo de convívio. o Estado precisa regular suas múltiplas formas de interação. de modo a proporcionar um julgamento justo. é válida como se fosse. Em parte. nas lacunas da lei. aquele que vá ao caius_c 403 . como fonte reguladora da sociedade. embora ela não seja dele procedente. sem ter um elemento formal.atos do cidadão e todos os bens existentes em seu território. Controle implica em contabilizar. obter dados de todas as formas e tipos.

é imposta coativamente à obediência geral".encontro do bem-estar social. Com a auto-regulamentação. o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia. A propósito. da paz. a sociedade não existiria ou se esfacelaria. 4º. da harmonia. ditada por um comando que todos julguem que é o mais adequado.312 Sem lei ou alguma forma de regulamentação social. No entanto. emanando de uma autoridade competente reconhecida. os costumes e os princípios gerais de direito”. lei é "a ordem geral obrigatória que. da Lei de Introdução ao Código Civil: "Quando a lei for omissa. diz o art. Segundo CLÓVIS BEVILÁQUA. Auto-regulamentação O nível de auto-regulamentação é a linha que define os Estados totalitários dos representativos. seus deveres para com o cidadão e as formas de acesso ao poder por aqueles que assim o desejem e estejam capacitados para isso. o Estado pretende manter-se como entidade efetivamente representativa caius_c 404 . ficando o indivíduo sujeito aos ditames naturais onde prevalece a força bruta ou a razão da estupidez. Auto-regulamentação é o estabelecimento de limites de poderes dos Estados. a forma mais comum de regulamentação que emana do Estado é a lei.

Uma de suas funções é cuidar de sua própria existência. estrutura. A auto-regulamentação se dá por ações sociais contra o Estado. tornando-se um guardião das melhoras normas de convivência. atuação e todas as formas que julgue que afetem o bem público e impeçam que os objetivos do Estado relacionados com o cidadão sejam atingidos. quando a sociedade se julga oprimida. parâmetros. caius_c 405 . forma de condução. desacatada ou sem a sua proteção. Por conceder poderes ao Estado para que a regulamente. existe um bem do qual ele jamais possa dispor: a vida de seus cidadãos. estabelecendo padrões que levem a promover o bem público.do indivíduo. o Estado não pode cumprir as suas precípuas funções ou extingue-se. dando garantias nas variadas formas para o cidadão. Esta manutenção de soberania implica em ditar normas de conduta em relação a outros Estados e situações advindas destes. ela tem que ter o poder de mudar conceitos. Manutenção da soberania Sem dispor de soberania. Único bem não disponível ao Estado Apesar de tudo pertencer ao Estado e do controle que ele exerce sobre a vida dos cidadãos desde seu nascimento.

Pode-se argumentar que ao tirar a vida de determinados cidadãos existe o resguardo pelo Estado de todo o resto da sociedade, visto que a presença destes no meio pode provocar danos à mesma. Apesar do Estado ser um fato permanente na vida das pessoas, seu regime e sistema de governo oscila na sua historicidade. As pessoas que compõe sua estrutura não são eternas e mudam continuamente. Sendo assim, o que cabe em determinada situação, torna-se repreensiva ou inimaginável em outra. Alguns casos exemplificam bem essa situação como o de Nelson Mandela, preso entre 1962 e 1990 por sua atividades políticas e, depois da queda do apartheid na África do Sul, eleito presidente para o exercício de 1994 a 1999. Lech Walesa foi presidente do sindicato polonês Solidariedade, sendo preso varias vezes quando o mesmo foi posto fora da lei entre 1980 e 1989. Com a mudança de regime, foi eleito presidente da Polônia para o exercício de 1990 até 1995. Se os Estados pudessem ter poder sobre a vida desses cidadãos, a história seria completamente diferente. O Estado não deixou de existir, apenas mudou de forma. É obvio que existem exemplos em que o Estado e a sociedade perderam ao invés de ganhar com a manutenção da vida do indivíduo. Hitler foi preso em 1924 por conta de sua malfadada tentativa de tomada do poder conhecida como putsch da cervejaria.

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Sentenciado a cinco anos de prisão, foi anistiado após cumprir seis meses. Esse risco, no entanto, o Estado, na sua mais ampla definição, precisa correr, visto que a previsão do futuro ainda não é uma ciência exata. Estes casos pressupõem que ele deixou de cumprir suas obrigações principais que são promover a justiça face á sociedade, tentar reintegrar o infrator aos padrões sociais existentes e, acima de tudo, tentar prevenir a infração. Essas obrigações estão mais relacionadas ao infrator comum, aquele que exaspera o dia a dia dos cidadãos, mas devem estender-se a todos, pelos seguintes motivos: a) Se existe insatisfação política que se traduz em manifestações, principalmente de forma violenta, significa que o regime ou a forma de governo do Estado não está condizente com as aspirações ou necessidades daqueles a quem governa. As mudanças se fazem necessário para que não ocorram anomias ou mudanças violentas de governo. Se existe alta taxa de infração, significa que o Estado está deixando de cumprir sua obrigação em manter o bem público e a saúde social da comunidade. Cabe,

b)

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portanto, redefinição de seus objetivos e formas de alcançá-los. Ao tirar a vida de seus cidadãos, o Estado tira a oportunidade de possíveis mudanças e sonega à sociedade a visão de que algo precisa ser mudado. Isso também pode criar instabilidade ao governo, pois mortes podem causar revoltas ou mártires de causas. Por mais horrenda que tenha sido a infração, nenhuma condenação à morte obteve apoio de todos os setores da sociedade.

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Objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil
“É um processo longo e lento: dar a alguém uma consciência social. É difícil ver a nossa própria vida em relação ao mundo todo. Nós aprendemos sobre as duas coisas de maneiras diferentes”. (Skinner)313 O artigo 3o., da Constituição Federal de 1988, estabelece os objetivos da República Federativa do Brasil, que são: 1) Construir uma sociedade livre, justa e solidária; 2) Garantir o desenvolvimento nacional; 3) Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; 4) Promover o bem de todos,sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação

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Sociedade livre, justa e solidária O Estado brasileiro propõe-se a construir uma sociedade livre, justa e solidária. Ele é o mentor dessa transformação social. Sendo assim, supõe-se que ele e sua estrutura governamental estão imbuídos de todos os componentes necessários para isso, o que implica em dizer que qualquer ato atentatório contra esse objetivo, da parte do Estado, implica em inconstitucionalidade e até em imoralidade, pela transcendência. Uma sociedade livre é aquela que escolhe seus próprios caminhos e usa dos mecanismos estatais para produzir líderes que realizem seus desejos. Neste caso, sociedade livre não pode ser sinônimo de democracia, visto que esta última é apenas o instrumento que se considera mais válido para atingir seu ideal de liberdade. Ser livre compreende ter a medida certa de direitos e deveres, na forma suficiente para poder agir dentro de determinados parâmetros, cuja existência se faz necessária para que os circundantes tenham as mesmas oportunidades. Ser livre é ter poder de escolha sobre as opções comuns a todos. Estas prerrogativas individuais são estendidas a todos, na sua melhor forma. Uma sociedade justa é aquela em que todos estão sob a proteção do Estado. Esta justiça está distribuída em todas as suas formas e é exercida de maneira igual para todos.

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Essa justiça tem que equilibrar a heterogeneidade dos indivíduos através de dispositivos que possam nivelar todos ao mesmo nível de oportunidade e atenção. Cabe aqui reforços para os que estão em patamares diferentes daquilo que se convencionou chamar de homem médio, ao mesmo tempo que cabe medidas restritivas para aqueles que lhes são superiores. Estas medidas produzem uma homogeneização social, onde todos que a compõem podem usufruir da melhor maneira das estruturas que formam a sociedade e a dirigem, sem entraves provocados por diferenças individuais. Apesar dessa homogeneização social, não cabe na justiça social a transformação de todos em uma massa uniforme e sem distinção. Justiça social implica em fornecer, também, suporte extra para os que superam o homem médio na sua capacidade física e intelectual. O contra-senso neste primeiro objetivo é a construção de uma sociedade solidária. A solidariedade é muito subjetiva para que o Estado possa atuar sobre o cidadão e induzi-lo a praticar atos que tenham cunhos sociais ou sejam direcionados para outros sem objeto de lucro. Solidariedade não se impõe ou se aprende; solidariedade é um sentimento mais próprio de uns do que de outros.

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A resposta para transformar este ideal em algo concreto parte principalmente das leis que equilibram a heterogeneidade individual. Embora não se possa ensinar alguém a ser solidário ou forçá-lo a ser, pode-se regulamentar ações que provoque um estado no qual todos tenham que reproduzi-las da mesma forma e no mesmo nível. Os melhores exemplos são as leis que protegem os idosos, a criança e o adolescente, os deficientes físicos, etc. Estas leis podem, em algum futuro, produzir o sentimento solidário que se espera de todos, baseado na compreensão natural das diferenças existentes entre os cidadãos. Garantir o desenvolvimento nacional O primeiro objetivo da República é extenso o suficiente para englobar todos os demais. Pode parecer redundante a colocação dos demais em nossa Constituição mas é a forma de tornar o mais claro possível os passos para se construir uma sociedade justa, livre e solidária. O sentido amplo para desenvolvimento nacional é a produção e distribuição equitativa dos recursos existentes para todos os cidadãos ao mesmo tempo em que se evita dependência externa para a produção dos mesmos. Uma sociedade livre somente pode existir quando não depende ou depende pouco de recursos externos.

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Dependência externa produz servidão. Soberania, autonomia, independência e liberdade somente existem quando se pode gerenciar de forma livre e igualitária os recursos, que devem ser próprios ou obtidos de forma que não exista submissão a poderes externos ou paralelos ao Estado. Desenvolvimento implica na obtenção de novas tecnologias e distribuição das existentes para que os cidadãos façam o melhor uso dela. Essa capacidade, hoje em dia, está diretamente ligada à própria governabilidade do Estado. Um Estado sem tecnologia está fadado à submissão ou extinção. A criação de meios de produção e o controle dos mesmos produz desenvolvimento. O Estado deve abster-e de transformar-se em empresa e produzir bens, exceto em casos que se façam necessários. O controle desses meios, no entanto, além de prerrogativa do Estado, é uma necessidade. Esse controle produz impostos para que ele possa manter sua estrutura e fornece proteção aos cidadãos e às empresas. A proteção aos cidadãos estende-se do produto ás relações de emprego. A qualidade de todo o processo que envolve capital e trabalho deve ser monitorada pelo Estado através de regulamentação e fiscalização. Não compete ao Estado imiscuir-se diretamente a não ser em caso de infração ou mais que evidente interesse nacional.

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A proteção às empresas engloba o descrito acima, acrescentando os inerentes à sua condição de pessoa jurídica e objetivo social. Compete ao Estado equilibrar o necessário desenvolvimento com a proteção dos recursos naturais e a qualidade de vida dos cidadãos. O patrimônio do Estado é o cidadão. Tudo o que torna necessário para que o ser humano atinja esta condição torna-se responsabilidade do Estado. A proteção que se faz necessário ao cidadão torna-se mais abrangente ao se dar a mesma condição para tudo aquilo que o cerca. Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais De acordo com ANTÔNIO PEDRO ALBERNAZ e ELAINE GUROVITZ, a percepção da pobreza como conceito relativo é uma abordagem de cunho macroeconômico, assim como o conceito de pobreza absoluta. A pobreza relativa tem relação direta com a desigualdade na distribuição de renda. É explicitada segundo o padrão de vida vigente na sociedade que define como pobres as pessoas situadas na camada inferior da distribuição de renda, quando comparadas àquelas melhor posicionadas. O conceito de pobreza relativa é descrito como aquela situação em que o indivíduo, quando comparado a outros, tem menos de algum atributo desejado, seja renda, sejam condições favoráveis de emprego ou poder. Essa conceituação, por outro lado, torna-se incompleta ao não deixar

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margem para uma noção de destituição absoluta, requisito básico para a conceituação de pobreza. Também acaba gerando ambigüidade no uso indiferente dos termos pobreza e desigualdade que, na verdade, não são sinônimos.314 O legislador ao referir-se à pobreza não pode darlhe um cunho mais preciso. No entanto, devemos entender que trata-se da incapacidade do indivíduo de obter ou ter recursos que confiram-lhe a sobrevivência física e social. A falta de recursos primários como comida, água e habitação já traduzem a situação extrema de pobreza, implicando diretamente em sua sobrevivência física. Em plano superior, cabe falta de recursos secundários como condições sanitárias, energia e outros elementos que tornaram-se necessários por conta da própria evolução da sociedade. Neste plano convivem as necessidades físicas com as sociais. Indo além, em plano terciário, cabe falta de recursos que sejam necessários para dar ao cidadão as oportunidades que a sociedade oferece e dar ao cidadão um padrão adequado de vida. Aqui faltase cultura, educação, disponibilização de recursos tecnológicos e outros mais. A evolução social transfere o patamar da pobreza para níveis mais elevados. O termo “excluído digital”, criado pelo Professor Jorge Nogueira, já aponta para um nível de pobreza que está mais além daquele que conhecemos. A pobreza já se transfere para a falta ou impossibilidade de uso rotineiro das tecnologias necessárias para a sobrevivência em uma sociedade caius_c 415

que está cada vez mais se tornando mecânica, automatizada e digital.315 Marginalização vem de margem, que significa aquilo que não está no fluxo de determinada coisa ou está ao redor do principal ou afastado dele. Significa discriminação também. Marginal, dentro de um contexto social, é aquele que vive afastado ou discriminado. Tem conotação de bandido, pária ou desocupado. Em suma, marginal é o indivíduo ou coisa que não está integrada à sociedade, vivendo em condições ou normas diferentes da maioria. Quando se pretende erradicar a marginalização, não se trata apenas de reduzir criminalidade ou fazer com que o indivíduo passe a viver sob as regras da maioria. Significa acolher e dar condições aos elementos afastados do fluxo social. Esta condição extrapola ao conceito de que o aparato policial é o único recurso para por fim à esta situação. Parte da marginalidade, em seu amplo sentido, deriva da condição de pobreza. É ela que produz, em muitas situações a condição marginal do indivíduo. Sem recursos, o indivíduo torna-se absolutamente incapaz de adequar-se à uma sociedade que está cada dia mais exigente em relação à preparação do cidadão. Esta preparação inclui alto nível de escolaridade e uso de elementos tecnológicos em seu dia a dia. Outra parte provém de determinadas características dos indivíduos que impelem-no, por força própria ou de acima dele, a participar de forma caius_c

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em termos macros. acreditamos que as antigas definições de pobreza caius_c 417 . de climas e geografias diferentes. Vez ou outra. A marginalização. Grupos homossexuais são os exemplos mais claros desta situação. Embora. onde estes últimos. Outras vezes estende-se dentro do conjunto cidade-campo. o Brasil. estão em situação desfavorável. Sendo um país extenso. possui zonas econômicas que variam da extrema riqueza a mais pérfida pobreza. Estas zonas. não é individual. exceto raros casos. geralmente. a marginalidade assume uma forma que somente pode ser combatida através da reeducação ou educação. embora não seja o único. Ela pode transmitir-se de geração em geração ou espalhar-se dentro grupos que contenham as mesmas condições. de grupos que são discriminados pela sociedade. sem acesso às condições consideradas como normais. Quando enraizada nessa premissa. Ela é característica de grupos. exaltam a própria marginalidade e transformam-na em sua própria forma de vida. ainda existam diferenças significativas entre as regiões geografias do país. estão próximas geograficamente de si. como é caso de favelas ao lado de condomínios de luxo.alternativa e nem sempre em seu benefício. ela torna-se fruto de subculturas que. com realidades políticas e históricas desiguais. por vezes.

Erradicar significa eliminar completamente.baseadas na comparação entre sul-sudeste e nortenordeste estão desaparecendo. porém. Erradicar pobreza. já induz que aquela sociedade caminha efetivamente para aquilo que deve ser seu ideal: o ser humano. Minimizar as diferenças. raça. que sua diminuição a um grau efetivamente baixo representa atuação efetiva de um verdadeiro Estado Democrático de Direito. Bolhas de crescimento econômico que propiciam o acesso dos elementos desfavorecidos aos padrões ditados pelo conceito de cidadania foram se formando e estão se espalhando de forma a trazerem para seu bojo aqueles que estão em situação de pobreza ou marginalização. trocar o termo “promover” pelo “garantir”. caius_c 418 . Promover o bem de todos. cor. visto que sempre foram e são componentes de qualquer grupo social. Há de se convir. sexo. Este último objetivo traduz a forma igualitária pela qual todos os cidadãos devam ser tratados. marginalização e desigualdades parece ser um ideal utópico difícil de ser atingido. O bem de todos que se promove deve atingir todos os grupos sociais existentes. sem qualquer discriminação por conta de sua dessemelhança. tendo como parâmetro os altos padrões. dentro de um Estado Democrático de Direito. idade e quaisquer outras formas de discriminação Talvez fosse mais correto.sem preconceitos de origem.

sexo. Todos podem ser iguais perante a lei. Esta diferença deve produzir o necessário equilíbrio entre as partes para que possam concorrer de forma igual às oportunidades sociais. O legislador. na maioria das vezes. no entanto. raça. cor e idade.Esta promoção pode estender-se aos ditames da lei. Precisamos entender que o princípio da isonomia busca a igualdade através do equilíbrio entre as partes. quando se dá tratamento diferenciado para determinados grupos por conta de sua incapacidade de atuação frente aos dominantes. ao proferir o princípio da isonomia como um dos objetivos da República Federativa do Brasil. O princípio isonômico deve estabelecer restrições para aqueles que tenham vantagens excessivas ao mesmo tempo em que melhora as condições daqueles que estão em patamar inferior. porém. O termo “bem de todos” é amplo o bastante para englobar todos os cidadãos. não existe redundância ao acrescentar os elementos que mais comumente são caius_c 419 . existem diferenças econômicas ou sociais que podem permitir que determinado indivíduo ou grupo sempre obtenha vantagens em função dessas diferenças. teve o cuidado de acrescentar os que nos parecem mais comuns como motivos de discriminação que são a origem.” Este princípio é o que convencionou chamar-se de isonomia. É o famoso lema "tratar de forma igual os iguais e de forma desigual os desiguais na medida em que se desigualam.

caius_c 420 . o princípio da isonomia ao enunciá-los. Reafirma-se.discriminados. apenas.

nem qualquer dom particular. Não te fiz nem celeste nem terrestre. te defines a ti próprio. para que teu rosto. nem mortal nem imortal. (Pico de la Mirandola). os desejes. para que tu. caius_c 421 . dês acabamento à forma que te é própria". que não conheces qualquer limite. tal como um bom pintor ou um hábil escultor. Mas tu.Estado Democrático de Direito "Não te dei. livremente. O Estado de Direito é um paradigma alicerçado no princípio da soberania popular. só mercê do teu arbítrio. os conquistes e sejas tu mesmo a possui-los. nem um lugar que te seja próprio. ó Adão. o Estado Democrático de Direito utiliza seus melhores desejos. teu lugar e teus dons. Coloquei-te no centro do mundo.Encerra a natureza outras espécies em leis por mim estabelecidas. A tirania usa o medo dos homens para governar. para que melhor possas contemplar o que o mundo contém. nem rosto. em cujas mãos te coloquei.

Para que isso se estabeleça são necessárias as seguintes medidas: a) A inserção constitucional da cláusula social. d) Desenvolvimento dos programas ideológicos dos partidos políticos com propostas de políticas públicas e. b) Na segunda. A titularidade do Estado do poder soberano. o que não ocorre com a Nação.Para MORTATI. a soberania popular contempla três fases históricas:316 a) Na primeira. o povo era considerado como massa amorfa. b) A ampliação do voto de forma universal e igualitária. somente tem sentido quando emanada do povo. caius_c 422 . pois se a soberania é um direito. no Estado Democrático de Direito. seu titular só pode ser uma pessoa jurídica. Este Estado busca assegurar condições reais de igualdade e liberdade para todos. a titularidade do poder era atribuída à nação considerada como povo concebido numa ordem integrante. c) A estruturação dos direitos de colaboração política na forma de partidos. Este consentimento dado aos que detém o poder é feito através do voto direto ou indireto. fora do Estado. consolidada pela Revolução Francesa. de forma periódica. o titular da soberania tornou-se Estado. c) Na terceira.

Existem controvérsias a respeito da obrigatoriedade do voto imposta pelas leis brasileiras pois outros países reconhecidamente democráticos consideram que a participação política do cidadão deve ser espontânea e de livre escolha. Esta ruptura pode ser de inúmeras formas que variam desde a criada através de atos violentos até aquela acordada pela sociedade. O segredo sempre será necessário porque o anonimato do eleitor previne futuras retaliações por qualquer elemento que se torne hostil por conta de sua escolha. Uma democracia necessariamente implica em escolha dos representantes da sociedade através de voto secreto. A inserção da cláusula social na Constituição garante a legitimidade do regime e da forma de governo. O estabelecimento do Estado Democrático de Direito na Constituição implica em direcionar todas as suas disposições para que se formulem leis que sirvam de lastro para se cumprir os objetivos propostos por este Estado. Este estabelecimento somente pode ocorrer na existência de uma ruptura da ordem social que se manifesta em esquematização das novas condições de governo. Argumenta-se que a obrigatoriedade contrariaria o próprio principio da caius_c 423 .e) A criação de novos mecanismos de formação de opinião pública nas complexas sociedades de massas.

Sem essa concentração. Cada partido deve ser reflexo de formas democráticas de governo que. Alguns países. tão cara a um Estado Democrático de Direito. A quantidade de partidos deve ser adequada de modo que não produza excesso. Busca-se com a criação de partidos políticos uma aglutinação de pessoas com os mesmos ideais. podem.. inclusive. recusarem eleitores por conta de sua manifesta tendência política. visto que torna uma imposição a participação do cidadão no processo político de escolha. como o Estados Unidos. ao mesmo tempo em caius_c 424 . tornaria o princípio da diversidade política. os ideais individualizados tornariam inepta a vida política.democracia. se fossem uniformes a todos. Ao tornar o valor de cada voto igual para todos cria-se a forma mais adequada para definir uma maioria que espelha os anseios de grande parte da sociedade. A universalização do voto busca abranger todos os seguimentos sociais e configurar o processo de escolha como o de maior representatividade possível. Possibilitar que grupos diversos tenham porta-vozes de sua causa dentro da estrutura política pode garantir um equilíbrio nas decisões governamentais e evitam a formação de oligarquias ou a tomada de poder por grupos que almejam apenas seus objetivos. simplesmente inútil.

enquanto que o outro deve encarregar-se de ser seu eterno adversário. implica em divisão do governo entre os partidos. em última análise. O representado tem que ter tino e poderes suficientes para excluir aqueles que não correspondem ás suas expectativas ou às do próprio Estado. O pluripartidarismo. Essa atuação regula as atividades de seus representantes porque fiscaliza suas ações. Essa impossibilidade implica em adoção de métodos de governabilidade que satisfaçam os setores que cada um representa e. é necessário que estes tenham condições de ter um pensamento crítico em relação à sua atuação como eleitor. Uma democracia efetiva somente pode existir se existe a responsabilidade do representante face ao representado e vice-versa. portanto. caius_c 425 . o cidadão que elegeu seus líderes. Torna-se quase impossível que um só partido governe nesta forma de representação política. configura estreiteza de pensamento porque leva a confusão permanente de que apenas o partido que detém o poder deva governar. Em um Estado Democrático de Direito não basta apenas a participação dos cidadãos. Considerar que deva apenas existir duas formas de representação política como oposição e situação. além de constituir maior diversidade social.que não configure falta de representatividade dos diversos setores sociais.

julgamos até que ele é algo sobrenatural e que foge de nossa compreensão. estamos atribuindo responsabilidades à pessoas que acreditamos que tenham mais capacidade de gerenciar partes da sociedade. ele deixa de ser legítimo e. o Estado é algo sólido e composto por pessoas. Em primeira instância. a responsabilidade de quem promove coesão na sociedade é muito maior do que aquele que limita essa capacidade aos grupos dos quais participa. Sendo maior o alcance. Não favorecendo mais a sociedade. O crime seria duplo: a quebra da confiança dos que o elegeram e a extensão do dano social. No entanto. Logo. Alguém caius_c 426 . as conseqüências também serão. o alcance de suas ações é bem maior do que aquela praticada por outros.Responsabilidade do representante A partir do momento em que o Estado se preocupa apenas consigo ele deixa de ser um Estado de Direito. Sem um Estado responsável não existe uma sociedade responsável. a partir do momento em que essa confiança é quebrada por algo provocado por um ente que faz parte do conjunto do Estado. Vemos o Estado como uma entidade sem corpo e vagamente indefinível. deve ser substituído de imediato. No entanto. Quando atribuimos responsabilidades ao Estado. na verdade. Deixando de ser um Estado de Direito. ele não favorece mais a sociedade. deixando de ser legítimo. Tendo mais responsabilidades sociais é justo supor que essas pessoas devam ter um ganho maior. Nada mais correto que as penas sejam também duplicadas nesses casos.

Tornando-se pessoa pública. restringe-se a uma situação particular em determinado momento. os atingidos são poucos e. Um desvio ou malversação de verbas públicas infere um dano social extensível ao que se pretendia caius_c 427 . O crime deixa de ser comum quando o representante o comete. contrários à lei e ao interesse público. Em um crime comum. as infrações tornamse mais graves e as penas devem se ajustar ao tanto de dano que produziu. Seria um crime social e não restrito a alguns grupos ou indivíduos. O representante que envereda-se por caminhos escusos. Quando cometido por um representante. o grau de responsabilização é maior do que o é o do cidadão comum. Por conseguinte. torna-se elemento de descrédito da instituição e do Estado. Com um número maior de atingidos. Assim sendo. o crime alastra-se por toda a sociedade ou parte dela. O dano produzido não se restringe apenas ao material. no geral. A responsabilidade do representante tem que estar expressa em lei. deixa de ser crime comum e enseja uma punição maior. a extensão de seus atos extrapola sua pessoa física e produz efeitos dentro da sociedade. Um roubo ou furto atinge número limitado de pessoas.que participa do Estado e comete um dolo deveria responder por isso com mais severidade do que outro qualquer.

o objeto do roubo ou furto. visto que tem um cunho social. buscando a idoneidade e a eficiência do mesmo. embora seja o mesmo. A mídia é elemento comum de manipulação e caius_c 428 . A forma mais comum e menos eficiente para evitar que o representante produza danos é a sua exclusão do quadro governante através de sua não eleição. Cabe-lhe. O Estado sobrevive e vive por conta da confiança que lhe deposita o comum cidadão. cada qual querendo apenas vantagens ou buscando soluções que afastam gradativamente a sociedade do conjunto de regras que ela mesma estatuiu para que tornasse harmônica a convivência. O dano à credibilidade da Administração Pública e do próprio Estado pode tomar níveis alarmantes quando os crimes são contínuos e impunes. Instalando-se a desconfiança entre governantes e governados. a função de fiscal da atuação do representante. Essa prática torna-se difícil por conta da lealdade de eleitores que não levam em conta a atuação do representante mas apenas o carisma que dele emana. diferencia-se pelo uso do próprio objeto. a regra que impera é a de prevalência de um sobre o outro. Logo.fazer com ela. Responsabilidade do representado A responsabilidade do representado face ao representante não tem como ser titulado em lei pelo próprio anonimato que a escolha por voto confere. no entanto.

o cidadão precisa associar-se a entidades governamentais ou nãogovernamentais. Para aqueles que têm pouco de seu tempo. Para que se faça ouvir. quando não aumenta. um quadro eleitoral que permite a permanência desses elementos no poder. usado para sua sobrevivência e de sua família na sua maior parte. etc. causador de danos ou infrator. O sistema tenta corrigir essas falhas ou faltas através de mecanismos acionados pelos próprios representantes. o que não lhes conferem tanta credibilidade. a Constituição Federal estabeleceu dois meios de controle da moralidade administrativa. visto que estão imbuídos de interesses próprios. essas aberrações dentro do sistema são de difícil acerto. essa possibilidade é pouco divulgada e muito onerosa para o indivíduo. partidários. No entanto. Em razão da possibilidade de o Judiciário controlar a moralidade dos atos administrativos. A grande falha da atual democracia é a quase impossibilidade de ações populares que regulem as atividades de seus representantes. e ante a necessidade de observância do princípio da inércia da jurisdição. quando não precisa criar uma própria. É possível ao comum cidadão entrar com processo contra aquele que julga falto de idoneidade. que prefere abster-se de tal prática. a saber: caius_c 429 .mantém. oligárquicos.

dentro de um Estado Democrático de Direito. dono de poder de decisão. violador de direitos metaindividuais. precisa ser preservada para momentos em que deva tomar medidas benéficas mas que não sejam de agrado popular ou de todos. em seu art. cujo objetivo é a proteção de interesses transindividuais. 5. LXXIII Prevista na Lei n.1) A ação popular93 é utilizada para desconstituir atos lesivos à moralidade administrativa. onde prevalecia perseguição aos opositores do regime. com título de eleitor e comprovante de votação de apresentação obrigatórios. 2) Ação Civil Pública94. inc.347/85 caius_c 430 . a Constituição Federal de 1988 outorgou uma série de medidas protetoras baseando-se na premissa de que o próprio Estado poderia voltar-se contra alguns que fossem contrários contra o grupo dominante. podendo dela surgir as sanções descritas no tópico a seguir.º. mediante prova da cidadania. devendo ser subscrita por um cidadão. a ação civil pública é o instrumento correto para controle da moralidade. para tornar impunes aqueles que 93 94 Prevista na Constituição Federal/88. é usada. Sua própria situação de representante. Derivada de uma situação anterior.7. às vezes. É certo que os representantes devam ter uma proteção extra para que não lhes sejam tolhidos todos os movimentos. Em sendo o ato imoral. Essa proteção.

Reduzido a cidadão comum. na situação política de cada um.usam do sistema em próprio proveito ou dos seus. a pena deve ser ampliada de acordo com o malefício provocado. irredutível. de acordo com a lei. O afastamento do possível infrator do âmbito político não implica em cassação de mandato até a sentença final. todos os seus caius_c 431 . Para evitar tirania e manter controle sobre a situação. No entanto. Sendo tribunal de si própria. a classe representante adotou poderes para julgar aqueles que dela fazem parte. a pena deve ser comum. a representação corre o risco de tornar-se espúria e corrupta. a justiça ordinária é totalmente capaz de dar o tratamento adequado a cada caso. Para que sejam julgados adequadamente. a representação deve ser retirada e todos os poderes concernentes a ela. Para crimes de lesa-sociedade. Nos casos de crime comum de tais representantes. pois existem facilidades para obtenção de acordos baseados. principalmente. Essa proteção atinge o ápice quando denega aos poderes constituídos para tal fim o necessário julgamento dos atos infracionários. desprezando o cidadão que o colocou naquele lugar. A História tem nos ensinado que os maiores merecedores do opróbrio social terminam seus dias montados no poder que os sustenta.

Suas apreensões ou denúncias seriam encaminhadas para um setor competente que tivesse autonomia suficiente para levá-las a bom termo. pois caius_c 432 . acrescentar maior credibilidade ao representante. em direcionamento das atividades governamentais para suas funções principais que são as de administrar e legislar. mantendo o cidadão informado dos passos do processo. Sem precisar dispor muito de seu tempo e energia. ele poderia acioná-los de forma cômoda e eficaz. o cidadão teria maior confiança nos seus representantes. ao mesmo tempo em que confere ao Poder Judiciário a sua função que é a de julgar. Implicaria. Essa forma de tratamento reduziria a possibilidade de cometimento de crimes por conta de representantes. Com a investigação. constituiria uma vitória democrática. Sabendo que suas apreensões e denúncias seriam devidamente investigadas. A existência de mecanismos fáceis para o cidadão poder fazer valer seus direitos frente ao representante.poderes políticos deveriam ser retirados a partir do momento em que a denúncia fosse aceita pelos tribunais. também. ao mesmo tempo em que estes invitariam maiores esforços para manterem-se dignos como tal. também. pode-se. sabedores que teriam seus privilégios retirados.

ao mesmo tempo. e para uma distribuição de renda mais justa. A fiscalização faz parte de seus atributos. mantendo-se entretanto no papel de regulador e provedor ou promotor destes. para que não se rompa a teia da lei que equilibra as relações. Mal entendidos poderiam ser resolvidos e o eleitor poderia ter uma maior confiança naquele em quem depositou seu voto. na medida em que promovem cidadãos. Ele o faz através de seus poderes. O Estado reduz seu papel de executor ou prestador direito de serviços. o Estado continuará a subsidiá-los. caius_c 433 . que são essenciais para o desenvolvimento. Cabe ao Estado todo e qualquer controle que afete as relações econômicas e sociais. Nível de gerenciamento do Estado Entende-se que um Estado Democrático de Direito deve atender as necessidades sociais.esta não termina necessariamente em condenação. ora legislando. dada a oferta muito superior à demanda de mão de obra especializada. Como promotor desses serviços. principalmente dos serviços sociais como educação e saúde. o controle social direto e a participação da sociedade. fazendo ou judicando os conflitos. buscando. deixando para a iniciativa privada as formas de produção e distribuição de produtos e serviços. que o mercado é incapaz de garantir.

A saúde do cidadão é a saúde do Estado. o Estado deve tornar-se concorrente da iniciativa privada. Produzir ambientes que evitem a deterioração da saúde faz parte dessa atuação. Mantê-los também é sua caius_c 434 . A saúde física e política da população é responsabilidade do Estado. Neste caso. Não se rompe. Que o Estado deva cuidar das necessidades sociais não resta dúvida. o controle estatal quando delegado a entidades particulares. porém. quando necessário ou ser oneroso demais para a estrutura estatal. procurando dar à população o máximo possível de recursos e facilidades para que possa manter-se saudável. Ela deve ir desde a prevenção até a recuperação. não torna o Estado nenhum mentor da saúde pública.Este controle pode ser feito através de seus próprios meios ou delegado a entidades. A sociedade deteriora-se nas crises de saúde e transforma o Estado em governante sem governados. A atuação do Estado deve ser ampla e irrestrita neste setor. Itens como saúde e educação não podem ser deixados de forma total para a iniciativa privada. Tornar-se ativo apenas em calamidades que exijam uma estrutura que a iniciativa privada não tem. transforma a população em uma massa inerte. Relegá-la a segundo plano. não lhe dar prioridade ou deixar a cargo exclusivo da iniciativa privada. improdutiva e corroída por enfermidades.

englobando tanto aquele em que o homem vive como aquele do qual depende. Esse cidadão participativo politicamente é um objetivo a ser almejado pelo Estado Democrático de Direito. Outro ponto em que o Estado deve ser concorrente da iniciativa privada. tanto no macro como no microcosmo ambiental. Não implica apenas em capacitação técnica mas a formação completa do ser humano. Saber criticar é bom mas o cidadão também deve ser educado de tal forma que saiba buscar seus direitos e tenha os instrumentos adequados para tal. A educação é básica para a constituição de cidadãos. de forma harmônica com seus semelhantes. quando não superior. A educação pode transformar o homem em um ser realmente social.obrigação. As exceções caius_c 435 . pela educação. Deve ser acrescentado. cuidando para que ele tenha condições e capacidade de viver em uma sociedade cada dia mais complexa. um espírito crítico e saudável buscando dar a cada um a capacidade de visualizar o bem público como seu próprio e lutar por ele quando houver alguma degradação. As interferências no campo econômico devem limitar-se a controle e regulamentação. é na educação. O conceito de ambiente deve ser amplo.

Em último caso. para que possa existir a concorrência.cabem em setores onde a iniciativa privada não quer ou não pode atuar. O ideal seria que não existissem possibilidades de formação destes entres econômicos. cabe ao Estado controlar estes entes e mantê-los sob sua fiscalização. o Estado pode atribuir-se as funções de produzir e distribuir. através dos mecanismos da concorrência. Em penúltimo caso. Os cartéis e monopólios configuram poder paralelo. Um Estado que toma para si o máximo de atribuições possíveis nos setores de produção e distribuição descumpre sua finalidade de ater-se aos elementos essenciais ao mesmo tempo em que enseja o surgimento de um totalitarismo baseado na economia do país. Essa limitação do Estado não implica em deixar que as empresas tornem-se gigantescas a ponto de interferir na atuação dele próprio ou dominando setores econômicos. quando tratar-se de produto ou serviço essencial. Uma economia saudável pressupõe que exista espaço suficiente para que empresas de diversos calibres disputem o mercado de forma saudável. caius_c 436 . Uma das características dos Estados totalitários é colocar sobre sua tutela direta os meios de produção e distribuição. não existindo número suficiente de empresas e nem a possibilidade de instalação de outras. quando não se tornam concorrentes. deixando pouco espaço para a iniciativa privada.

Fundamentos do Estado Democrático de Direito Brasileiro “O ser vivo necessita e deseja antes de mais nada e acima de todas as coisas dar liberdade de ação à sua força. Esta indissolubilidade expressa na Constituição Federal não permite que existam movimentos separatistas ou que leis possam ser criadas com manifesto desejo de que o país seja dividido ou desmembrado. A própria vida é vontade de potência.” (Nietzche)317 O artigo 1o. da Constituição Federal de 1988 estabeleceu os fundamentos do Estado Brasileiro consagrando-o como um Estado Democrático de Direito. Municípios e Distrito Federal. formado pela união indissolúvel dos Estados. caius_c 437 . ao seu potencial.

índios contra lusobrasileiros.índios contra lusobrasileiros. Paraíba e Rio Grande do Norte (15861599) caius_c 438 . Bahia (1555-1673) Guerra dos Potiguares . A Guerrilha no Araguaia. inspirada. é outro exemplo clássico de insurgência do povo contra governos. Algumas figuras históricas como Tiradentes mostram que a rebeldia armada fez parte da história brasileira. Rio de Janeiro (1555-1567) Confederação dos Tamoios .Existe a crença geral de que o Brasil seja um país que teve uma historia relativamente tranqüila e isenta de luta. no qual sempre se acreditou que fosse pacífico. no temperamento do brasileiro. Rio de Janeiro (1556-1567) Guerra dos Aimorés . nos anos 70. A História desmente esse tão propalado passado sem guerras ou do caráter do homem médio brasileiro. talvez.invasão francesa. Abaixo segue uma lista que desmente nosso passado pacifico: Período colonial Século XVI • • • • França Antártica .revolta indígena.

insurreição popular. Maranhão (1612) Levante dos Tupinambás . Nordeste (séculos XVII e XVIII) França Equinocial . Presença neerlandesa no Brasil. Espírito Santo e Bahia (1617-1621) Invasão holandesa. Maranhão (25 de fevereiro 16841685) Confederação dos Cariris .índios contra lusobrasileiros.índios contra lusobrasileiros.índios contra lusobrasileiros (século XVIII) caius_c 439 .invasão francesa. Nordeste (principalmente Pernambuco e Paraíba) (14 de fevereiro de 1630 a 26 de janeiro de 1654) Revolta de Amador Bueno . entradas e bandeiras expedições civis-militares de exploração e captura de indígenas (séculos XVI e XVII) Quilombos e Guerra dos Palmares .conflito entre luso-brasileiros e holandeses. Paraíba e Ceará (1686-1692) Século XVIII • Guerrilha dos Muras . bugreiros.Século XVII • • • • • • • • • Bandeirantes.redutos de escravos africanos fugidos.Pernambuco (1666) Revolução de Beckman revolta de comerciantes. São Paulo (1641) Motim do Nosso Pai . Guerra Luso-Neerlandesa e Insurreição Pernambucana (Guerra da Luz Divina) .

confronto entre comerciantes e canavieiros. Minas Gerais (1789) Conjuração Carioca .conspiração abortada independentista. Minas Gerais (1720) Guerra dos Manaus .Santos (1710) Guerra dos Mascates . Pernambuco (17101711) Revolta de Felipe dos Santos .Portugal e Espanha contra jesuítas e guaranis catequizados.• • • • • • • • • • Guerra dos Emboabas . Bahia (1798) Século XIX • Conspiração dos Suassunas .índios contra lusobrasileiros. Pernambuco (1801) caius_c 440 . Amazonas (1723-1728) Resistência Guaicuru .índios contra lusobrasileiros.confronto entre bandeirantes e mineiros. Mato Grosso (1725-1744) Guerra Guaranítica .revolta de mineradores contra política fiscal. São Paulo e Minas Gerais (início de 1700) Revolta do Sal . Rio de Janeiro (1794-1795) Conjuração Baiana.conspiração abortada independentista. Região Sul (1751-1757) Inconfidência Mineira .conspiração abortada independentista e republicana. Revolução dos Alfaiates revolta independentista e abolicionista.

invasão e anexação do Uruguai ao Brasil (1816) Revolução Pernambucana revolta independentista e republicana. Rio de Janeiro (abril de 1831) Cabanada .Brasil contra Argentina e rebeldes uruguaios (1825-1828) o Revolta dos Mercenários . Nordeste (1823-1824) Guerra da Cisplatina . Bahia.insurreição popular e confronto entre brasileiros e portugueses. Rio de Janeiro (1828) Noite das Garrafadas . Bahia (1821-1823) Guerra da independência do Brasil . Pará e Uruguai (1822-1823) Império Século XIX • • • • Confederação do Equador .• • • • • • Invasão da Guiana Francesa .insurreição popular.mercenários contra Império do Brasil. Pernambuco e Alagoas (1832-1835) caius_c 441 . Piauí. Maranhão.revolta separatista.brasileiros contra militares legalistas portugueses. Pernambuco (1817) Revolução Liberal de 1821 revolta independentista. Bahia e Pará (1821) Independência da Bahia revolta independentista.invasão e ocupação da Guiana Francesa ao Brasil (18091817) Incorporação da Cisplatina .

insurreição religiosa. São Paulo e Minas Gerais (1842) o Revolta dos Lisos . Bahia (1835) Revolução Farroupilha .revoltal liberal. Pernambuco (1848-1850) Guerra contra Oribe e Rosas . Maranhão (18381841) Revoltas Liberais . Pará (18341840) Revolta dos Malês .Pernambuco (1852) Revolta da Fazenda Ibicaba .revolta separatista e republicana.São Paulo (1857) Motim da Carne sem Osso .insurreição popular. Bahia (1858) caius_c 442 .Pernambuco (1844) Motim do Mata-Mata . Mato Grosso (1834) Cabanagem .Pernambuco (1847-1848) Insurreição Praieira revolta socialista.• • • • • • • • • • • • • • • • Federação do Guanais .insurreição popular.revolta entre conservadores (queriam manter o império) e republicanos.Nordeste (18511854) Levante dos Marimbondos .revolta liberal. Rio Grande do Sul (1835-1845) Sabinada .insurreição popular.Brasil e rebeldes uruguaios e argentinos contra Uruguai e Argentina (1850-1852) Revolta do Ronco de Abelha .insurreição popular. Bahia (1832) A Rusga . Alagoas (1844) Motim do Fecha-Fecha .revolta separatista e republicana. Bahia (7 de novembro de 1837-1838) Balaiada .

Rio de Janeiro. Rio de Janeiro (1889) República Século XIX • • • • Revolução Federalista .Brasil e rebeldes uruguaios contra Uruguai (1864-1865) Guerra do Paraguai .insurreição popular. Rio Grande do Sul (1893-1894) Revolta da Armada . Bahia (1896-1897) Século XX • Revolução Acreana . Nordeste (1875-1876) Revolta do Vintém . Rio de Janeiro (1880) Golpe de 15 de novembro .insurreição popularmessiânica.Brasil.insurreição popularmessiânica. Argentina e Uruguai contra Paraguai (1865-1870) Revolta dos Muckers .guerra civil.• • • • • • • Guerra contra Aguirre .insurreição popularseparatista.insurreição popular. Amapá (1895-1900) Guerra de Canudos .revolta militar conservadora. Nordeste (1874-1875) Guerra das Mulheres . (1894) República de Cunani .insurreição popular.insurreição separatista. Rio Grande do Sul (1868-1874) Revolta do Quebra-Quilos . Acre (1900-1903) popular- caius_c 443 .golpe militar.

Paraíba (1930) Revolução de 1932. Pernambuco e Rio Grande do Norte (1935) Intentona Integralista . Rio de Janeiro (1938) Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial .insurreição popular.primeira revolta do movimento tenentista.insurreição militar (1923-1925) Revolução de 1930 .golpe de Estado político-militar (1964) Luta armada .revolta político-militar.insurreição comunista.insurreição integralista. Santa Catarina e Paraná (19121916) Revolta dos 18 do Forte . Golpe militar de 1964 .Itália (1943-1945) Revolução de 1964. Rio de Janeiro (1910) Guerra do Contestado .golpe de Estado civil-militar (1930) Revolta de Princesa .insurreição popularmessiânica. Rio de Janeiro (1922) Coluna Prestes . Rio de Janeiro (1903) Revolta da Chibata .insurreição política local/coronelista.guerrilha urbana e rural (19651972) Podemos apontar duas características básicas na maioria das lutas descritas acima: a revolta popular face caius_c 444 . Rio de Janeiro. Revolução Constitucionalista de 1932 .revolta militar. guerra civil. São Paulo (1932) Intentona Comunista .• • • • • • • • • • • • • Revolta da Vacina .

economizam seu dinheiro. Por conta deste histórico e para reafirmar a territorialidade do país. carro.a algum governo ou governante e a idéia do separatismo que permeou muitas delas. Como eles conseguem comprar esses bens? A minha afirmação é a de que eles trabalham em horas extras. caius_c 445 . depois de estabelecidos. As revoltas populares brasileiras existiram por dois motivos: o distanciamento dos governos da população. fazem mutirões. eletrônicos. criam suas famílias. de onde sempre surgiram as idéias separatistas. fazem bicos. Mas é justamente o contrário. É necessário entende-las para que o Estado possa prover melhor a sua população. Empregados que ganham baixos salários tem casa própria. Mesmo alguns migrantes com fama de indolentes. etc. constroem suas casas. Características do povo brasileiro Consideramos que o povo brasileiro tem algumas características que diferem da mentalidade popular acerca delas. onde a relação sempre foi de dominadordominado e a idéia de que o governo central não dispunha de vontade ou recursos para atender todo o território. Geralmente o povo brasileiro é visto como indolente e preguiçoso. a Constituição Federal de 1988 deixou expressa a impossibilidade de qualquer atitude separatista.

etc. Ele sente-se distanciado ao extremo e procura se resguardar na indiferença. quando motivado. ele trabalha arduamente e com devoção. sua casa ou para ganhar um pouco de dinheiro com seus bicos. Então.Os brasileiros que trabalham no exterior são bem vistos pela população local e. eu diria que essa idéia firmou-se em grande parte na década de 60 e 70 em função de um estilo de vida sempre à beira da praia. O brasileiro aproveita seu fim de semana para arrumar seu carro. Porém. de onde surgir essa noção de que não estamos nem aí para o trabalho? Tentando acertar. que limita-se a concordar ou discordar levemente de algo em reuniões sociais ou abertamente. é de nosso entendimento que o povo brasileiro é basicamente violento. Ao contrário do que costumam dizer. o brasileiro tem poucos dias durante o ano. muitas vezes. criado pela mídia e por artistas e congêneres. os que trabalham para suas igrejas ou religiões. Outro motivo é que o brasileiro sempre foi oprimido e raramente se mexe para fazer algo em prol de um governo ou de sua empresa. que exaltaram ao máximo essa vida tranqüila que. embora não costume exprimir abertamente emoções e sentimentos. com muita cerveja e carnaval. Por não demonstrar o caius_c 446 . conseguem obter um padrão de vida muito mais alto do que conseguiriam ter em seu país de origem. É um povo cortês. na realidade. podemos citar os que fazem mutirões de construções. Como exemplo. os pais que ajudam as escolas a manterem-se através de suas associações.

não dando oportunidade para ser pego ou morto. costuma ser muito difícil atingi-lo em seu âmago quando se trata de motivá-lo. costuma demonstrar seu descontentamento com ações furtivas. ele procura não ser atingido através de ações encobertas e que não sejam imputadas a ele. O germe está dentro dele mas somente se mostra dentro de uma multidão. desprezando seu serviço ou tentando obter vantagens de forma escusa. é um guerrilheiro que esconde. atira e foge. Ela é fruto de uma opressão diária e subcutânea que se expande diante de algum evento externo. Quantos quebraquebras. sendo honestas e queridas em seu bairro. família e um círculo de amizades. Ele não costumar falar abertamente. mas age quando a oportunidade se apresenta. saques e linchamentos ocorrem durante o dia? Muitos dos que participam deles são pessoas que tem casa.que pensa. Como sempre foi oprimido e sabendo que as ações abertas causam repressão direta. No entanto. O brasileiro não é um soldado que batalha em campo aberto. Devemos ficar atentos aos menores detalhes para tentarmos descobrirmos quais as caius_c 447 . O brasileiro não exprime seus verdadeiros sentimentos a não ser em ocasiões especiais e dentro de determinado círculo. Podemos sentir a violência com que ele se expressa apenas olhando os jornais. Esta violência é momentânea e deriva-se mais do instante do que do indivíduo em si.

Quando ele necessita de votos para alcançar esse objetivo. estará garantida sua sobrevivência. assessor. temos que fazer com que formulem suas idéias e pensamentos em clima de certa intimidade e jamais junto com outras pessoas. Todo brasileiro quer fazer parte do governo de alguma forma. secretários. que também acabou nos transformando em seres que não demonstram aquilo que são ou pensam. os governos sempre foram totalmente dissociados do povo com o intuito declarado de mantê-lo afastado e apenas explorado. como parte do governo. com grupos procurando prevalecerem-se em seus interesses específicos. seja como vereador. o brasileiro teve poucos líderes que o levaram a reunir-se em torno de um ideal comum. Historicamente. ou tipos assim.suas opiniões sobre determinado assunto. Imediatamente. pois imagina que. Exceto alguns casos. Pode-se explicar facilmente essa tese pelas raízes históricas do povo brasileiro sempre oprimido pelos seus governos. ou o “grande líder” que o povo procura. após conseguir seu objetivo. A própria América Latina sempre foi vítima de governos opressores. Sempre tivemos governos e partidos oligárquicos. Como não são pessoas diretas. o que acabou gerando um temperamento aparentemente distante em relação a qualquer assunto que não seja de interesse direto. passa a comportar-se como se fizesse parte de uma elite intocável e deixa de lado qualquer ação que possa ajudar aqueles que votaram caius_c 448 . costuma proclamar seus ideais para que todos vejam nele um possível “salvador da pátria”.

Boa parte dos líderes que mudaram nossa história atuaram nos bastidores. Essa liderança não mostrada dentro da empresa ou caius_c 449 . os Golberys atrás de uma lista de presidentes e os PCs Farias. De certa forma. Como exemplo cito os irmãos Andrada. Os vínculos sociais ficaram restritos a pequenos grupos com o qual ele se identifica. embora eles estejam sempre agindo em surdina ou utilizando alguém como escudo.nele. acreditamos que o povo brasileiro tem líderes em profusão. procura ir à frente e tenta conseguir o máximo possível para aquele grupo ao qual pertence. Todo político sofre dessa “síndrome de feitor”. Cito o caso de escravos cuja maior ambição era a de ser o feitor de seus semelhantes. o brasileiro deixou de ver-se como um ser social ou alguém que precisa atuar dentro de um grupo e passou a cuidar de suas próprias necessidades ou daqueles que o cercam. ele costuma tomar as iniciativas. se isso prejudicar seus interesses imediatos. Mesmo que seja aparentemente contraditório. as lojas maçônicas. utilizando fachadas para encobrirem suas ações. alguns deles agindo apenas em função de seus interesses. Essa falta de grandes líderes provocou um ajustamento à situação como indivíduo. em certas entidades ou religiões nas quais o brasileiro acredita. Podemos notar que. Na posição de feitor ele teria privilégios e não seria tratado como os outros escravos. para poder atuar da melhor maneira.

logrou unir o povo permanentemente em torno de um ideal nacional. a campanha a favor da destituição de Collor e outras do gênero. tais como: Tancredo Neves e Ulisses Guimarães na campanha das eleições diretas. Ayrton Senna com a sua marca registrada de erguer a bandeira brasileira a cada vitória. perdendo o sentido do conjunto. O máximo que caius_c 450 . o povo brasileiro adotou uma postura individualista ou bairrista. em troca. Alguns poucos motivos ou líderes conseguiram fazer com que o brasileiro deixasse de ser individualista ou bairrista. dos motivos do coração em detrimento dos da razão. mas não levanta um dedo quando o assunto é defender seus país ou colaborar com qualquer forma de governo. seu grupo. Mas ninguém até hoje. SERGIO BUARQUE DE HOLLANDA definiu a identidade brasileira através da figura do que ele chamou de Homem Cordial. Esta identidade está vinculada à figura do paternalismo ou coronelismo. a seleção brasileira de futebol. Esta figura estende-se aos campos políticos e econômicos. 318 Por não poder contar com a ajuda de qualquer tipo de governo e sempre oprimido por este.dentro de ambientes repressivos aflora quando a pessoa se sente segura ou quando atinge as suas crenças. ou seja. onde se busca proteção sob o domínio de alguém que. Getúlio Vargas. aquele que constrói suas relações sociais por meio da afetividade. exerce seus máximos direitos sobre o protegido. O brasileiro defende com unhas e dentes seu time.

Qualquer vacilo por parte destes. de seus estados e cidades. Essa perda da noção de conjunto é histórica. acabam reunindo um grande séqüito. Alguns bons exemplos históricos de como os brasileiros seguem seus líderes com fervor esteve presente em certos fatos durante a Guerra do Paraguai.conseguiram foi unir o povo em função de algum objetivo de determinada classe do país. mas dificilmente falarem do país em seus discursos. durante um período limitado de tempo. dos sem-terra. influenciava a tropa e eles deixavam sua coragem de lado. Seguidores de místicos e gurus existem por aí aos milhões e são categóricos em defender esses valores que lhes pesam muito mais que interesses a níveis nacionais. aumentam ainda mais essa distância que o povo tem sobre o país como um todo. atletas que se destacam. em que os paraguaios perceberam que havia uma característica nas tropas brasileiras que era a de seguir sempre atrás de seus oficiais enquanto estes demonstrassem coragem. como foi explicada acima. ideologias ou idéias próximas de seus interesses. Nossos políticos sempre falam de seus partidos. Exemplos típicos são os líderes sindicalistas. a tendência do brasileiro é seguir seus líderes locais com fervor e admiração. Líderes que tenham um pouco de carisma. figuras religiosas. Uma das maneiras de quebrar o ânimo dos brasileiros foi o de colocar franco-atiradores caius_c 451 . Por ser carente de grandes líderes e voltado para seus interesses pessoais. Por terem a mesma característica bairrista do povo.

foi proferida a famosa frase “Quem for brasileiro que me siga” por Tamandaré. pois buscou aproximar o governo da população. aonde os defensores lutaram até a morte. caius_c 452 . que evitou a derrota na batalha fluvial de Riachuelo. A dignidade da pessoa humana Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa O pluralismo político. Nessa mesma guerra. O estrago estava tão grande que os oficiais passaram a se vestirem como soldados. Um general americano registrou-a em seu diário. Esse pensamento somente adquiriu a possibilidade de concretizar-se com o estabelecimento do Estado Democrático de Direito de forma constitucional. pela FEB. A cidadania. Podemos considerar a Constituição Federal de 1988 como um marco na integração brasileira. foi feita graças à coragem de oficiais e soldados. Na Segunda guerra. os seguintes fundamentos foram elencados na Constituição Federal de 1988: I) II) III) IV) V) A soberania.que abatiam oficiais brasileiros. num exemplo grandioso e trágico da força que um líder carismático tem sobre seus comandados. Para torná-lo possível. tanto no sentido de povo como territorial. a tomada de Monte Castelo. Mais célebre foi a resistência em Canudos.

sociais e culturais. devendo ser medida pelas instituições e pelos direitos e deveres que a configuram. logo. do qual derivam todos os outros direitos. acompanhados de direitos econômicos.319 Conforme QUINTÃO SOARES. pressupõe um cidadão político. é o direito de ter direitos. Cidadania Para HANNAH ARENDT. a cidadania é monolítica. capaz de influenciar concretamente na transformação da sociedade e apto a fazer suas reivindicações perante os governantes. o primeiro direito. a cidadania deve ser compreendida como participação política do indivíduo no Estado. mediante política deliberativa. constituída por diferentes tipos de direitos e instituições. a cidadania ativa no Estado Democrático de Direito. e produto das histórias sociais diferenciadas protagonizadas por distintos grupos sociais.321 Para MARSHALL.A soberania já foi descrita em capítulo à parte. Tais direitos somente podem ser exigidos através do total acesso à ordem jurídica que apenas a cidadania oferece. nenhum país pode ser considerado como tal.320 Para ele.322 caius_c 453 . a cidadania consiste no conteúdo de pertencer de forma igualitária a uma determinada comunidade política. ao contemplar o gozo de direitos políticos e civis. Sem auto-determinação.

buscando benefícios recíprocos através da legalidade. além da possibilidade de participar na vida coletiva do Estado. Juridicamente. políticos e sociais. É um estatuto jurídico que contém os direitos e deveres do cidadão em relação ao Estado. Metafisicamente. – “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. A dignidade da pessoa humana A Declaração dos Direitos Humanos. e deveres relativos a uma coletividade política.Para LUIZ FLÁVIO BORGES D´URSO.” caius_c 454 . assinada em 1948 pelos países qe compõem a ONU. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade. é a busca pela evolução social através do indivíduo. Esta possibilidade surge do princípio democrático da soberania popular. De forma ampla. cidadania é um status jurídico e político mediante o qual o cidadão adquire direitos civis. 324 Cidadania é o direito/dever do cidadão participar das atividades do Estado. onde se busca o bem comum. é a interação da comunidade com o Estado. diz em seu artigo 1o.323 CELSO RIBEIRO BASTOS ensina que cidadania é a manifestação das prerrogativas políticas de um cidadão dentro de um Estado democrático. é a capacidade de ter e exercer direitos/deveres.

qualquer outra coisa como equivalente.Para KANT. então ela tem dignidade" 325 A dignidade não é um valor subjetivo. a dignidade é o valor de que se reveste tudo aquilo que não tem preço. pode pôr-se. passível de ser avaliado. embora ela seja fática."No reino dos fins. ela faz parte da natureza do próprio ser humano. e é por esse motivo que apenas os seres humanos revestem-se de dignidade . não é passível de ser substituído por um equivalente. mas quando uma coisa está acima de todo o preço. a dignidade é uma qualidade inerente aos seres humanos enquanto entes morais: na medida em que exercem de forma autônoma a sua razão prática. Quando uma coisa tem um preço. e portanto não permite equivalente. em vez dela. Conseqüentemente. Trata-se de algo além de um simples direito do homem ou de um dever do Estado para com o cidadão. Dessa forma. a dignidade é totalmente inseparável da autonomia para o exercício da razão prática. tudo tem um preço ou uma dignidade. Não existe um conceito que determine com precisão o que é dignidade humana. os seres humanos constroem distintas personalidades humanas. ou seja. A dignidade humana é uma composição de sentimentos e situações fáticas que definem o ser humano como passível de uma vivência social e caius_c 455 . cada uma delas absolutamente individual e insubstituível. Está mais para um sentimento do que uma situação.

Entende-se que as empresas devam cumprir seu papel social produzindo e distribuindo aquilo que os cidadãos necessitam. na qual ele sinta-se inserido dentro de um contexto onde seus direitos estão estabelecidos. a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego. se necessário.individual. que lhe assegure. preservados e vividos. dando-lhes a segurança caius_c 456 . cuidando de sua saúde física e mental enquanto eles estiverem sob seu abrigo. da saúde física e mental dos trabalhadores e suas famílias. Cabe a elas. existindo a possibilidade se evoluírem para um estágio mais avançado. Ao Estado compete ampliar esta proteção. sua existência transcende essa expectativa. também. assim como à sua família. Embora tenha o lucro por objetivo. da Declaração Universal dos Direitos Humanos.Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória. também. à livre escolha de emprego. e a que se acrescentarão. Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa O artigo XXIII. Uma de suas funções é redistribuí-lo na sociedade através de salários dignos a serem pagos para os trabalhadores. devendo ter igual remuneração por igual trabalho. diz que toda pessoa tem direito ao trabalho. dar a necessária proteção aos empregados e suas famílias de forma ampla. outros meios de proteção social. cuidando. uma existência compatível com a dignidade humana.

recursos ou disposição para atuarem como livres empreendedores. o poder do Estado foi o de grupos econômicos que assumiram sua forma como garantia para seus próprios negócios. Os recursos para qualquer empreitada advém de particulares. cujo objetivo é formar uma empresa para obtenção de lucro. em 1636. que o trabalho é a forma mais equilibrada de obtenção de recursos para o cidadão e sua família. visto que nem todos dispõem de capital. Por definição.necessária quando os rumos das empresas ou da economia lhes forem desfavoráveis. Outras vezes. Muitas vezes se confundiram ou somaram forças. deixando de lado atividades produtivas ou de distribuição. cumpre que ele proteja aqueles que pretendem ou estão promovendo estas atividades. promovida caius_c 457 . também. de forma conjunta. Historicamente. Como o Estado tende a cuidar apenas dos assuntos que lhes devem ser concernentes. Estado e empresas sempre foram parceiros e detentores de grande parcela do poder econômico. Por conta disso. o trabalho torna-se um valor social a ser preservado. iniciativa privada é aquela em que não existe a participação do Estado. Aos que trabalham para o Estado existe a mesma assertiva. Dentro da História do Brasil podemos citar a Invasão Holandesa no nordeste. Entende-se.

produzindo o que se poderia chamar de democratização da economia. efetivamente. os salários do predicante Francisco Plante. Detentores de capital próprio e:ou com idéias novas que podiam produzir lucros. junto com a Revolução Industrial. Essa confusão entre Estado e empresa ainda existe. Almirante e Capitão-General dos domínios conquistados e por conquistar pela Companhia das Índias Ocidentais no Brasil. o soldo de Coronel do Exército. o qual encontra-se sob domínio de famílias ou grupos. caius_c 458 . As mais notórias são as de países árabes onde a exploração de recursos é exclusividade do Estado. foi convidado para administrar os domínios por ela conquistados. como exemplo desse sincretismo. percebendo uma ajuda de custo de 6. Corriam ainda por conta da Companhia suas despesas de mesa e criadagem.500 florins. e de seu secretário Tolner. Um dos personagens mais marcantes dessa invasão. começou no final do século XIX e início do século XX. O espaço para a iniciativa privada.000 florins e salário mensal de 1. além de uma participação de 2% sobre os lucros. lançaram-se no mercado. Mauricio de Nassau.pela Companhia Holandesa das Índias Ocidentais. visto que as poucas e grandes empresas que existiam não tinham capacidade para assenhorear-se de todos os nichos de mercado que se formavam. de seu médico Guilherme van Milaenen. Nassau prestou juramento em 4 de agosto de 1636 comprometendo-se pelo prazo de cinco anos a ser o Governador.

voltado para o bem comum. o Estado e a população devem obter. deve ser entendido como forma de controle do Estado sobre os meios de produção e distribuição. A simples e pura aplicação do neo-liberalismo também não deve ser entendido como saudável à população. embora perdure em alguns países. onde ruíram os conceitos comunistas de que os meios de produção e distribuição seriam prerrogativas estatais. da forma mais harmoniosa possível. as empresas. Economia saudável é aquela em que todos se beneficiam. A diversidade de pensamentos da sociedade precisa ser representada por grupos dentro do governo. O pluralismo político Pluralismo político é condição sine qua non para a existência de uma democracia. O protecionismo estatal às empresas privadas e que extrapola a cobertura que se deve dar a elas por causa de sua função social. essa política pode nos remeter de volta ao chamado capitalismo selvagem.A luta entre iniciativa privada e o Estado estendeu-se até o fim da Guerra Fria. o seu lucro e que ele seja suficiente para a sobrevivência e existência de todos. Sem um controle estatal efetivo. caius_c 459 . onde o lucro precisa ser obtido de forma máxima e sem levar em consideração a dignidade humana. cada um.

embora sejam designados por outros nomes dependendo do país. No entanto. Essa forma somente tem validade quando existe uma tradição democrática extremamente forte. Em muitos países existem apenas dois partidos que. Este rodízio impede que se cristalize uma situação em que os atos governamentais não sejam fiscalizados por outros partidos ou pela população. o número de partidos não pode ser ad infinitum.Os governos tirânicos admitem somente um partido político que não pode ser chamado por esse nome. podem ser chamados de posição e oposição. quando não é repressor e coibidor de qualquer ato que seja contra a instituição governamental. caius_c 460 . a grosso modo. O pluralismo político é a forma mais eficiente de fazer com que haja um rodízio de governantes nos postos chaves da administração. Na realidade. visto que é comum que o Estado apenas favorece aqueles que lhes são fiéis. trata-se de um órgão controlador da sociedade. O correto é estipular uma quantidade que seja representativa e expresse a busca efetiva do bem comum. Aqueles que ainda estão em uma fase primitiva democrática podem ainda ser considerados como tirânicos. porque uma grande massa de divergências pode produzir desgoverno ou perda dos objetivos sociais.

Esta é uma diferença primordial sobre ambos. de fato. Um Estado Democrático de Direito somente subsiste por força moral de seus cidadãos. o vosso raciocínio é um verdadeiro raciocínio? Não será antes um talento com que a natureza vos dotou para aperfeiçoar todos os vossos vícios ? (Jonathan Swift) 326 O Estado Democrático de Direito pode ser uma entidade frágil pois depende de muitos fatores para sua instalação e manutenção.Etapas da destruição do Estado Democrático de Direito Mas. Um estado totalitário pode ser imposto e controlado por um pequeno grupo que disponha de meios para isso. Podemos dizer que essa forma de Estado deriva diretamente da disposição da população em mantê-lo. Para que as pessoas tenham a firmeza necessária para que exista a vontade de estar sob os caius_c 461 .

mesmo que dele não se aproveite diretamente. Nestas formas de governo estão explícitos os contrapontos de individualidade e coletividade. Um indivíduo que viva debaixo de um regime totalitário tem somente duas opções: sobreviver ou aproveitar-se dele. da mesma maneira. Seus direitos de cidadão prevalecem independentes de sua capacidade econômica. Não se trata de caridade ou de suportar um fardo. enquanto que no Democrático de Direito há que se cuidar de si e dos outros. os que carecem de oportunidades ou talentos não podem ser deixados à margem ou sem opções. Essa medida visa diminuir conflitos ou confrontos entre as diversas classes sociais. Se caius_c 462 . Aqueles que se esforçam mais.auspícios de um Estado Democrático de Direito. é necessário que elas tenham todas as suas vantagens. não só através de capacitação mas dentro de um conceito social de igualdade. no entanto. com certeza. No Estado Democrático de Direito tem que existir a consciência da coletividade e disposição de luta para manter o bem comum. precisam verem-se recompensados por isso. Trata-se de dar mínimos recursos de sobrevivência para aqueles que estão em situação econômica desfavorecida. Nos regimes totalitários exacerba-se a individualidade. Um dos pontos fortes do Estado Democrático de Direito é uma economia que busca distribuir a renda da melhor forma possível entre os cidadãos.

disposto a cuidar somente de si. Usa-se o inconsciente coletivo para firmar uma nova ordem mental que estabelece desvantagens para o sistema atual. na sua forma mais ampla. crença ou filosofia é incutida. A educação contínua. Seu principal objetivo é formar cidadãos capacitados que determinem o presente e o futuro do Estado. primeiro. que pareça valer para todos e que confronte a atual situação do Estado Democrático de Direito. embora paradoxal. essa parcela de população carente deve tornar-se mínima com o passar dos tempos. o primeiro passo é transformar a consciência global em individual. onde prevalece aquela que se mostra mais demagógica. filosofia ou crença. Deve-se transformar o homem em um ser solitário. nos intelectuais que tenham poder sobre a caius_c 463 .entendermos que um Estado Democrático de Direito deve primar-se pela educação dos seus cidadãos. é outro fator de sustentação do Estado Democrático de Direito. A primeira medida dessa transformação. é o lançamento de uma idéia. Estes dois sustentáculos são alvos principais para aqueles que querem transformar essa forma de Estado em outro tipo. Essa nova idéia. Como o Estado Democrático de Direito parte da pressuposição coletiva da necessidade de sua existência. È uma guerra de idéias.

ao mesmo tempo que os tem para levar uma vida confortável. ela termina por chegar de forma amena. transforma-se em xenofobia. caius_c 464 . Quando exacerbado. Depois dessa etapa. essa parcela da população teme as mudanças pois seu equilíbrio econômico é frágil. O nacionalismo é um bom sentimento quando enquadrado dentro do conceito de defesa e proteção daquilo que é de todos. ela.opinião pública. através de diversas formas de divulgação. Essas novas idéias trazem em seu bojo um sentimento que mantém a unidade do povo: o nacionalismo. Não tendo muito a ganhar mas tendo algo para perder. simples e inteligível ao resto da população. Deve-se frisar que o setor mais resistente a estas novas idéias é a classe média. é refratária a qualquer idéia que a tire do conforto. Depois que forma-se um bloco atraente o suficiente para outras pessoas. passa-se ao aliciamento dos detentores de poder econômico que vêem vantagens no estabelecimento daquele pensamento. O mau faz com que todas as atenções se voltem para fora de si e de seu próprio país. Não tendo recursos suficientes para ter uma padrão maior de vida. geralmente. O nacionalismo bom faz com que o cidadão olhe para si e seu país e busque as melhores soluções para ambos.

significa provocar tensões internacionais ou regionais que aticem os sentimentos pátrios. eles foram julgados por crimes como tortura e assassinato. sendo condenados. para desviar a tensão social resultante da incapacidade governante da junta e recuperar seu crédito junto à população. O conteúdo destes projetos pode variar de leis anti-fumo até eutanásia. Este atiçamento provoca um aumento do sentimento nacionalista a ponto de fazer com que os cidadãos vejam apenas o lado mostrado pelo governo e mídia. quando o modelo econômico da Junta Militar que governava o país esgotou-se.327 Traduzindo em um português mais claro. Em 1980. ocorrida em 1982. é conveniente que projetos de leis estranhas sejam lançados através da mídia para provocar celeuma entre a população. Neste período. Exemplo claro dessa situação foi a Guerra das Malvinas. O importante é que o motivo seja suficientemente polêmico para distrair a população das leis efetivamente caius_c 465 . entre Argentina e Inglaterra. empobrecimento da classe média.BENITO MUSSOLINI dizia que para formação do estado que pretendia era necessário “um período de altíssima tensão ideal”. A guerra resultou em derrota para a Argentina e deposição dos governantes. recessão profunda. Com medo de serem depostos. foi lançada a idéia de recuperação das Ilhas Malvinas ou Falklands. as tensões sociais se fizeram presentes: noventa por cento de inflação anual. endividamento externo e outras mais. Mais tarde.

até que se lhe oponha uma outra força que.328 Com a justificativa de ataques externos ou internos. caius_c 466 . Hitler adotou esta tática quando passou a culpar os judeus por todos os problemas da Alemanha advindos de sua derrota na Primeira Guerra Mundial – “assim também o judeu não renuncia espontaneamente a sua aspiração de uma ditadura mundial. E essa pureza o judeu guarda melhor que qualquer povo da terra. em luta gigantesca. nem reprime o seu eterno desejo nesse sentido. Outras vezes busca-se um inimigo interno que pareça comum a todos.necessárias. Assim segue ele o seu caminho nefasto. o governo passa a utilizar-se da lei para restringir os cidadãos. sua própria morte pela idade. principalmente daquele que se tornou alvo do nacionalismo. é provável que seja feita alguma lei que efetivamente altere a estrutura do Estado ou forneça brechas para que se instale alguma condição adversa à democracia. Neste período de celeuma. onde a atenção do espectador é afastada do evento onde o fato se desenrola. Podemos chamar isso de técnica de prestidigitação. Ou ele será repelido por forças exteriores para outro caminho ou o seu desejo de domínio universal só desaparecerá com a extinção da raça. A impotência dos povos. Nesta fase são comuns as nacionalizações e expropriações de bens estrangeiros. baseia-se no problema de sua pureza de sangue. atire o invasor do céu nos braços de Lúcifer”.

Este chamamento busca relacionar os governantes atuais com estes ancestrais. caius_c 467 . No século XX foi muito comum o aparecimento de ditaduras ou movimentos políticos que foram identificados com o nome de seus criadores: salazarismo. permite uma entrada rápida de dinheiro no caixa do governo e cria a imagem de que os governantes são pessoas de caráter forte e aguerrido. Esta aproximação visa estabelecer o que se convencionou chamar de culto à personalidade. associando-os com ícones heróicos. Comum nesta fase é evocar personalidades históricas que defenderam o país em guerras externas ou de unificação. tentando imprimir-lhes o mesmo caráter e dando às idéias que regem as atuais atitudes a mesma tonalidade daquelas que serviram no passado. Tornaram-se o próprio Estado. esta identificação assume a forma de endeusamento do governante maior. peronismo. marcaram a forma de governo ou movimento político sob o nome de quem os conduziu. stalinismo. franquismo. Os personagens heróicos são deixados para a História e o mandante supremo transforma-se em um mito vivo a ser venerado. Estes elementos imprimiram a si a imagem do próprio Estado.Estas expropriações e nacionalizações reforçam o sentimento de nacionalismo. Quando se atinge determinado estágio. maoísmo e outros nomes.

via de regra. Os líderes carismáticos possuem o dom natural da liderança e conseguem reunir seguidores devotados que. Junto com o culto á personalidade vem a louvação dos heróis que tombaram em defesa do estado que se transforma. cheio de virtudes e isento de vícios não traz abnegação. são extremamente carismáticas e catalisam as necessidades das pessoas. Passam a servir de exemplo para que outros tenham o mesmo comportamento de sacrifício em prol do novo estado. Somente a figura de um chefe supremo. por sua vez.Essas pessoas. Estes semi-deuses foram mortos por conta de seus ideais e de sua lealdade ao mandante supremo. no caso de mudança de regime do estado. fazendo-as acreditar que são capazes de supri-las. quando existe crise de confiança da população em relação a este. Fundem-se na pessoa a imagem da doutrina e do Estado. São venerados rotineiramente pelo estado e cultos são promovidos em seu nome. Importa ressaltar que esse poder somente tem efeito. atraem outros. Alguns chegam a fazer parte da literatura ou arte patrocinada pelo estado. O poder destas pessoas explica-se ao sabermos que somos animais sociais que vivem dentro de uma hierarquia bastante complexa. Os dezesseis nazistas mortos no putsch da cervejaria em caius_c 468 . São os elementos chaves que tornam possível a imposição de uma doutrina crível para a maioria das pessoas.

é deixado a seu cargo. Depois de dominar os meios de comunicação. assim caius_c 469 . eles passam a produzir e veicular somente o ponto de vista governamental. MACHIAVEL diz que “as ofensas devem ser feitas todas de uma só vez. A mídia transformou-os em heróis da causa socialnacionalista. Por se tratar de uma entidade afeita à liberdade. de forma subreptícia no começo. a fim de que.1923. tornando-se brutal quando os meios de comunicação passam a dominar a opinião pública. o dano é feito aos poucos. As forças armadas viram símbolo das forças que defendem o país contra invasores externos e da pacificação dos conflitos internos. foram exaustivamente citados como exemplos de abnegação durante a época do nazismo. ao passo que os benefícios devem ser feitos aos poucos. esta tese não pode ser usada quando tenta se transformar um Estado Democrático de Direito em tirania. 329 No entanto. na Alemanha. Os meios de comunicação são os primeiros pontos a serem controlados. ofendam menos. Os militares deixam seus quartéis e tornam-se ostensivos frente à população. Através da repressão ou aliciamento. pouco degustadas. existe a fase da militarização do país. para que sejam melhor apreciados”. geralmente. É um período de censura e perseguição contra aqueles que destoam da forma de governo que se instala. O controle da circulação de pessoas.

conhecido como Papa Doc. elas são a base da violência contra os opositores do regime. com a ascensão de seu filho Baby Doc ao poder. Não existe mais oposição porque a educação foi tomada pelo estado. François Duvalier. Quando se chega nesta fase. Mais que os militares. tirania que se prolongou depois de sua morte. Estas forças distinguem-se dos militares por ter uma atuação subcutânea e quase secreta dentro da população. e vista-se de maneira a evocar sua dominância sobre essa entidade. para lhes dar maior brilho. que estabeleceu os padrões necessários para que as novas gerações não o questionem. não existe retorno ao Estado Democrático de Direito. Nesta fase. em 1971. em 1964. instaurou feroz ditadura baseada no terror policial de sua guarda pessoal. depois de se instalar no poder. é comum que o mandante supremo assuma alguma identidade militar.como de locais considerados estratégicos. mesmo que seja civil. Os mais desejosos de atenção empunham medalhas em seus uniformes. Junto com a militarização vem o estabelecimento de forças policiais de repressão. A ignorância semeada pela mídia e a repressão ditada pelo estado tornam o povo amorfo e a resistência restringe-se a alguns idealistas. As novas gerações que não conheceram a forma anterior de governo desconfiam daqueles que a 95 Traduz-se como “bichos-papões” caius_c 470 . No Haiti. conhecida como tontons macoutes95 e na exploração do vodu.

tornando-se fiscais da pureza ideológica e obediência total ao novo estado. no íntimo.vivenciaram. Essas benesses são distribuídas de acordo com sua posição ou influência dentro dessa oligarquia. sem mais “bom” como idêntico a útil e agradável”.331 caius_c 471 . Mas admite. alguns pontos lhes são comuns: pertencer ao partido único e poder usufruir de benefícios vedados ao resto da população. Com baixa cultura e nenhuma oportunidade. Elas são ensinadas a confrontarem os padrões dos mais velhos com os seus. ela passa a buscar apenas a sua sobrevivência.“No agir mal. Embora exista hierarquia entre os dominantes. os dominados. quando possível. cria-se uma plebe quase homogênea cuja função principal é prover a classe dominante e o estado de produtos e serviços. a plebe só encara as más conseqüências e. dá-se o suficiente para que viva. NIETSCHE diz que . e nenhuma permissão para manifestar-se contra a situação. Estabelecem-se duas classes sociais: dominantes e dominados. Ao resto da população.330 Este padrão de comportamento citado mostra no que se transformam os dominados – apenas uma massa humana de escravos. acha que é estúpido agir mal. Sem condição ou oportunidade para manifestar-se contra o regime.

enquanto os demais têm que enfrentar as vicissitudes daqueles que tem poucos recursos. Em uma tirania existem poucas pessoas excepcionalmente ricas e muitas pessoas extremamente pobres. mediante o pacto de obediência. serve como controle da mesma. e pode exigir seu uso.HOBBES explica bem esta relação entre dominador-dominado – “Senhor do servo é também senhor de tudo quanto este tem. A classe média extingue-se e a intelectualidade desaparece ou transforma-se em aliada do regime. visto que o instinto de sobrevivência fala mais alto do que ideais políticos. de seus bens. Por outro lado. Os que pertencem ao poder são detentores da grande massa de benefícios. o reconhecimento e autorização de tudo o que o senhor vier a fazer. Desabastecimentos são constantes em regimes totalitários. portanto. ou de outra maneira o castigar por sua desobediência. E se acaso o senhor. É mais fácil controlar indivíduos que estão em estado de necessidade constante do que uma população que tem recursos e. Em parte deriva do desinteresse estatal com as condições da população.332 A economia fende-se em duas classes bem distintas. caius_c 472 . Isto é. tantas vezes quantas lhe aprouver. de seu trabalho. ele próprio será o autor dessas ações. Porque ele recebeu a vida de seu senhor. de seus servos e seus filhos. isto é. o matar ou o puser a ferros. e não pode acusá-lo de injúria”. recusando-o. pode dedicar-se ao exercício da cidadania.

então.Apesar do constante desabastecimento. passa a acreditar que esse aparato estatal de repressão é valido. que comam brioches” – ampliou o grau de revolta no qual os franceses se encontravam. A famosa frase atribuída a Maria Antonieta. como água e comida. Ideologias à parte. Uma população privada do mínimo e do essencial. quando não o apóia. É importante distinguir ataques a um Estado Democrático de Direito das quarteladas ou tomadas de caius_c 473 . Esse medo oficializa as medidas que o estado tem que tomar. vivendo aterrorizada com a possibilidade de ter que enfrentar uma situação pior advinda de um inimigo invisível e poderoso. a fome sempre fala mais alto e os famintos buscam a primeira tábua de salvação que se apresenta. Pode ser um inimigo concreto ou fictício. os regimes totalitários não deixam que todos os recursos faltem. A população. pode revoltar-se face ao desespero em que se vê. quando a população disse que não tinha pão para comer – “se eles não têm pão. policial e política. como a repressão militar. A Revolução Russa de 1917 teve o mesmo elemento detonante. O importante é que a população viva com medos constantes advindos de grupos internos ou externos. O início da Revolução Francesa foi provocado pela fome que grassava pela população. Para a tirania sempre existe a necessidade de alguém ou algo a se perseguir e destruir como inimigo do estado.

A mudança de governo não afeta a população de modo geral. Neste caso. principalmente as que estão na zona limítrofe entre os grupos. Não basta a colaboração. As perseguições e matanças. Ambos passam a considerar a população. alijado do poder. O povo. geralmente. a população sofre violências de todos os lados. o mais comum é a tomada do poder através de ataques diretos com efetivos militares ou paramilitares. como simpatizantes ou ativistas do adversário.poder em países onde a população já vive sob o jugo de uma tirania. é necessário que seja esteja totalmente inserido nas regras da nova caius_c 474 . apenas troca de dono. Nestas trocas de governo. trata-se apenas de uma troca de governo e não de uma mudança de regime político. A mudança de um regime político para outro que está embasado em alguma ideologia totalmente contrária a do governo atual costuma encadear uma série de violências contra a população. Acontece com mais freqüência em países cuja população tem baixo poder aquisitivo e nenhum vínculo com o Estado. ocorrem dentro dos grupos que desejam o poder. O governo não consegue deter o grupo que almeja sua derrubada e este não consegue expulsá-lo. O sofrimento do povo acontece quando os grupos não conseguem tomar o poder e o país fica dividido em faixas de dominação. Neste caso não existe neutralidade pois os que acreditam nesta ideologia irão fazer com que os demais demonstrem a mesma fé. Nestes casos.

automaticamente sua mente se fixa nestes pontos. Torna-se comum a instalação de campos de reeducação e a matança dos elementos mais destacados ou mais velhos das comunidades. O governo deve se “esforçar” para fazer com que o mesmo retorne às prateleiras. Uma falta geral produziria uma reação violenta enquanto que as parciais induzem a procura pelo mesmo ou por substituições. Quando isto ocorrer. a violência não é apenas física. Quando o homem chega a este nível. Deve-se montar estruturas burocráticas que acrescentem perdas enormes de tempo para o indivíduo e que produzam expectativas ligadas apenas à sobrevivência. de modo que tenha nenhuma disposição para cuidar de assuntos que não estejam diretamente ligados a ele. disposta a cuidar de si apenas. não deixando-o prosseguir para patamares acima. ela aprofunda-se no inconsciente do indivíduo. para que a preocupação se mantenha. Outra maneira que pode provocar a destruição do Estado Democrático de Direito também parte do pressuposto da transformação do cidadão em uma figura solitária. Crises de abastecimento de determinados produtos são essenciais nesta fase. um novo produto deve começar a faltar. Nestes casos. O primeiro estágio é a manutenção ou provocação de atribulações que envolvem completamente o cidadão em sua faina diária.ordem que se pretende instalar. caius_c 475 .

Alguns planos econômicos podem ser criados para provocar confiança no governo. O pensamento popular deve se tornar único e favorável a qualquer medida que deva ser tomada. A forma mais subreceptícia é a derivada do binômio pão e circo. Pode ocorrer sob o disfarce de um Estado constitucional e democrático. com expectativas financeiras e isento de objetivos políticos. Existe um ponto em comum nas diversas formas de destruição do Estado Democrático de Direito: a transformação do indivíduo em alguém solitário e disposto a cuidar de si apenas. Acreditando-se com o necessário para sua sobrevivência. o governo começa a tomar medidas mais duras contra os “fautores” de tais crises. Substitui-se a liberdade por comodidades e distrações para o povo. A massificação das idéias torna-se essencial.o cidadão deixa-se conduzir pelo governo sem preocuparse em ter qualquer envolvimento. Faz-se com que ele se concentre em seu universo particular e se aliene de caius_c 476 . Se elas tornarem-se mais constantes e mais ameaçadoras. Esta forma somente é possível em países com economia pujante ou em ascensão. alteração de regimes ou imposição de leis não-democráticas. passa a existir predisposição para violação ou criação de leis que extrapolem o nível democrático.Com o clamor popular. A divulgação de soluções e suas justificativas são veiculadas pela continuamente pela mídia. É o tempo ideal para deposição de governos.

caius_c 477 . É a política da transformação do povo em uma manada.qualquer participação de cunho social.

Ele pode ser considerado como resultado de uma inteligência social. juntos. Sozinhos.Como manter o Estado Democrático de Direito “Ninguém vive só. visto que sua instituição e permanência dependem do crédito que a população lhe concede. Suas principais características são: acatamento à hierarquia das leis. Suas bases estão na mente e coração das pessoas. A subordinação do Estado e do cidadão às leis torna ambos capazes de serem mentores um do outro. qualquer grão de poeira nos faz sombra. respeito aos direitos humanos e a submissão dos poderes constituídos à busca do bem comum. podemos ser uma humanidade” (caius_c) O Estado Democrático de Direito é frágil e forte ao mesmo tempo. A lei dada pelo Estado com objetivo de regular a caius_c 478 . onde a soma das partes é exponencial e não aritmética.

Paternalismo é uma condição na qual se dá sem receber. Tudo o que vise resguardar caius_c 479 . sob os auspícios de condições particulares entre os elementos que a compõe. Ele deve buscar as condições que transforme cada indivíduo em efetivo cidadão e dar a cada um as oportunidades necessárias para que possa usar seus atributos individuais em benefício dos seus e da própria sociedade. O compromisso para com o bem comum do Estado Democrático de Direito deve estender-se à comunidade internacional. Exclui-se o paternalismo dessa condição. O respeito aos direitos humanos traduz a necessidade de tratamento aos homens de forma igual. a relação entre cidadão e Estado é racional e está baseada na reciprocidade de direitos e deveres. Contrário a isso. também a mola que impulsiona toda a sociedade. física e política. ele é promotor das condições que elevam o cidadão para o patamar pleno da sua cidadania. Ela é a base. o esteio e.estrutura estatal. as relações entre os cidadãos e entre este e o Estado. buscando sua condução ao vivenciamento pleno de sua capacidade social. intelectual. somente torna-se válida se aplicada e obedecida. Este favorecimento é feito com base emocional. Toda e qualquer atividade do Estado tem que estar direcionada à promoção do bem estar social e dela deriva. O Estado não é um simples mentor da sociedade ou seu controlador.

Não se trata de ingerência em outros Estados mas a promoção.. dentro da lei. I) II) III) IV) V) VI) VII) VIII) IX) X) Independência nacional. Esta capacidade se chama soberania. Ele tem que ter autonomia para tomar as decisões mais acertadas para a população. Solução pacífica dos conflitos Repúdio ao terrorismo e ao racismo Cooperação entre os povos para o progresso da humanidade Concessão de asilo político Podemos condensar estes princípios em quatro: caius_c 480 . enumera os princípios pelos quais o Brasil deve reger-se nas relações internacionais. deve fazer parte de suas atenções. Precisamos entender que somos parte de um contexto e que as partes devem se ampliar para que o todo aumente. Prevalência dos direitos humanos Autodeterminação dos povos Não-intervenção Igualdade entre os Estados Defesa da paz. O artigo 4o.ou ampliar os direitos humanos. de forma global. da qualidade de vida do ser humano. da Constituição Federal de 1988. O relacionamento do Estado Democrático de Direito com outros países não pode tirar sua capacidade de auto-gerenciamento. independente de pressões que possam vir da comunidade internacional.

autodeterminação dos povos. a não-intervenção e a igualdade entre os Estados. os conflitos deixaram de ser exclusivos de uma localidade. excluindo a possibilidade de ingerência de outros Estados. Como já dissemos. Parte caius_c 481 . Eles atingem de forma direta ou indireta os demais países. Uma convivência pacífica implica em solucionar estes conflitos de modo a produzirem os menores danos para os envolvidos e para a comunidade internacional. São eles que determinam a capacidade de cada Estado de autogerenciamento. A meta principal do Estado Democrático de Direito é fazer com que ser humano tenha possibilidade de vivenciar seus mais amplos direitos ao lado de seus deveres.1) Soberania: os princípios da independência nacional. 4) Tecnologia: cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. defesa da paz e solução pacífica para os conflitos. 3) Convivência pacífica: repúdio ao terrorismo. 2) Direitos humanos: prevalência dos direitos humanos. repúdio ao racismo e concessão de asilo político.

dos elementos básicos para que se possa efetivamente vivenciar o pleno Direito. nos anos chamados de chumbo. onde um de seus integrantes era a ministra-chefe da casa civil do governo de Luis Inácio da Silva. ainda mais que este uso faz parte. O seqüestro do embaixador Charles Elbrick é exemplo clássico. A partir deste instante. depois de anistiado. ele torna-se exemplo de libertação nacional ou algo parecido. trata-se de uma forma de combate a um regime que não seja adequado a determinado povo.das necessidades humanas está sendo suprida pelo uso de alta tecnologia. podemos dizer que o Estado Democrático de Direito caminha para os ideais propostos de autotutela do cidadão. Para alguns. Dilma Roussef. apregoados por caius_c 482 . atualmente. No Brasil. Com relação ao terrorismo é válido ressaltar que não existe uma definição legal sobre o mesmo.333 De maneira geral. Argumenta-se que deixa de existir o terrorismo quando os que o praticam assumem o poder. reingressou na vida política do país. É praticamente impossível conceber um Estado que não esteja empenhado em usar e disponibilizar as facilidades tecnológicas para seus cidadãos. Outro exemplo é o plano para seqüestrar o então ministro da fazenda Delfim Neto por um grupo. foram comuns ataques terroristas contra o governo. Um de seus fautores foi Fernando Gabeira que.

pode ser uma oportunidade de estabelecimento de novos horizontes ou da ocupação de espaços vagos deixados pela crise. não existiriam oligarquias em seu controle e os interesses dos seus governantes seriam apenas aqueles voltados efetivamente para o bem comum.Bakunin e Marx. A confiança do cidadão para com o Estado não restringe-se apenas às atividades políticas. Independência econômica faz parte da soberania dos países. Estados que tenham fraca economia ou sejam dependentes de outros não conseguem subsistirem por si próprio. Esta possibilidade somente existe em situações em que a Economia beneficia a todos. Na sua forma mais idealizada. Ele impulsiona o homem a ter tendência natural de obediência às leis ao mesmo tempo em que sua preocupação com o cidadão torna-se irrestrita. os efeitos dessas crises mundiais. O bem comum tem um sentido bastante amplo e engloba a possibilidade de ascensão social e econômica do cidadão. Para aqueles que possuem uma maior visão. Diríamos que uma economia forte consegue atenuar. Podem existir questionamentos sobre a impossibilidade dos países serem independentes economicamente pelo fato da interação mundial da Economia. caius_c 483 . Uma crise em qualquer país que tenha forte poder econômico afeta todos os demais. em seu território.

Esta. A educação é o pilar que estabelece os princípios da soberania e. desde a mais tenra idade. os laços entre os dois países começaram a ser reatados. Exemplo claro dessa afirmação é o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba. o país foi sustentado pela então União Soviética. para alguns classificado como guerra econômica. onde se alia ao conhecimento técnico as mais diversas formas para o exercício da cidadania. sua maior fonte de riqueza. incute no cidadão. sua população. portanto. Neste período. Com o início do governo de Barack Obama e o afastamento de Fidel Castro do poder central. as bases para o Estado Democrático de Direito. Aquele fornece mão de obra adequada para sustentação e desenvolvimento de padrões adequados para a população. obviamente. iniciado em 07 de fevereiro de 1962334. O Estado Democrático de Direito é um estado de confiança entre governo e cidadão. Deve ser vista de maneira ampla. que adquiria toda a produção de açúcar da ilha. Nestes tempos de Guerra Fria. Assim sendo. dissolvida em 26 de dezembro de 1991. todo e qualquer ato ou motivo que der margem ao abalo da caius_c 484 . O desenvolvimento econômico do país foi duramente afetado e. as noções de direitos e deveres e produz um pensamento crítico saudável junto com ações produtivas para o meio social. a dependência econômica de Cuba forçou-a a tornar-se coadjuvante em guerras entre outros países e aliado ideológico a troco de benesses econômicas.O isolamento econômico traz em seu bojo o social e o político.

A liberdade que o Estado Democrático de Direito dá aos cidadãos não implica em não-responsabilização por atos lesivos. inexistem ou são inadequadas. se for o caso. Deve existir atenção para os diversos segmentos sociais representados por seus partidos contanto que o benefício estenda-se a todos. O brocardo que diz que a liberdade de um termina onde começa a de outro é perfeitamente caius_c 485 . solapando o princípio de freios e contrapesos que deve existir neste tipo de Estado. Fatos como corrupção ou nepotismo devem ser combatidos duramente. Pluripartidarismo não implica em formação de oligarquias para valer-se da posição política para favorecimento de grupos. elas devem ser transformadas de forma tal que satisfaça ou restabeleça a confiança. Essa atenção para determinado setor social tem que ter uma compensação para toda a sociedade. Acrescente-se que isso também favorece a corrupção. Isto implica em desconsiderar o princípio constitucional do tratamento igualitário a todos os cidadãos. A primeira denota que a estrutura estatal está sendo desvirtuada de seu objetivo principal que é o bem comum e que está sendo usada em benefício de poucos. O bem comum sempre deve ser o objetivo a ser alcançado.mesma deve ser investigado e normatizado. O segundo indica que as oportunidades que devem ser oferecidas a todos não estão sendo dadas. Se as regras são dúbias. visto que inexistirá qualquer crítica aos atos praticados entre eles. geralmente em prejuízo dos demais.

Os deveres são maiores para aqueles que fazem parte da estrutura governamental ou tomam decisões de cunho social. pútrido. maior deve ser a pena pelas ilicitudes. A pena não é em função do desbarate da coisa mas da impossibilidade de seu aproveitamento pela coletividade. Quanto mais elevada for a função da pessoa por conta de sua atuação social. significa quebrado em pedaços e numa segunda acepção. mesmo que seja a mesma coisa. sendo que a pena deve ser proporcional à extensão do dano cometido e à responsabilidade social da pessoa. representa mais do que aquela cujo uso está restrito a poucos. A gravidade do ato deve ser medida pelo que se atinge e por quem o pratica. numa primeira acepção. apodrecido. Uma coisa que seja de bem comum. caius_c 486 . Corrupção A palavra corrupção deriva do latim corruptus que. Os atos lesivos podem partir de indivíduos ou do próprio Estado. independente se sob a alçada do Estado ou do cidadão. Responsabilidade social da pessoa é o atributo que se dá à forma como o indivíduo pratica seus atos perante a coletividade. As penas para aqueles que atingem o bem público deve ser maior do que aquelas que atingem o bem particular. A função de cada uma é o que torna o delito mais ou menos grave.válido em um regime democrático.

podre.Por conseguinte. De acordo com a Transparency International335. Isso pode ser explicado pela educação formal e informal que propicia uma capacidade laborativa que gera maiores ganhos e que promove uma cultura pessoal e geral que abomina ilegalidades. Nosso Código Penal entende duas formas de corrupção: a ativa e a passiva. organização não governamental. A passiva é a praticada por agentes públicos. para si ou para outrem. existe uma relação entre a renda per capita e o nível de corrupção: quanto maior a renda. cuja definição é . vantagem indevida.solicitar ou receber. A ativa é a praticada por particular oferecer ou prometer vantagem indevida a funcionário 96 Artigo 317.336 A corrupção política é o uso das prerrogativas do poder em benefício próprio ou de outrem. direta ou indiretamente. ainda que fora da função ou antes de assumi-la. o verbo corromper significa tornar pútrido. Um cidadão educado para ser íntegro levará consigo esta qualidade caso torne-se um governante. menor o índice de corrupção. Isso equivale a dizer que uma população que tenha um patamar elevado de vida tem menor propensão a gerar uma classe governante com tendência a ser corrupta. Código Penal caius_c 487 . ou aceitar promessa de tal vantagem96. mas em razão dela.

omitir ou retardar ato de ofício. No entanto. para se manter imune à lei e dentro do poder. o que significa que sua extensão vai além do simples ato. Mais ainda. o que inclui assassinatos. Código Penal caius_c 488 . Em nosso entendimento. acreditamos que se trata apenas dos chamados “crimes de colarinho branco”. podendo estabelecer-se de maneira generalizada dentro do Estado. sua capacidade de contaminação é extremamente alta.público. subornos. servindo apenas como fonte de espólio. para determiná-lo a praticar. ela engloba o conceito de que o Estado é algo amorfo e sem dono. elas não esclarecem as conseqüências da mesma. É necessário mais de uma pessoa para praticá-la. desvios de dinheiro público. cumplicidade ou condescendência. o corrupto pode valer-se de meios agressivos e violentos. Sendo assim. A primeira vista. Ela não atinge uma ou poucas pessoas. e outros. Ela atinge o bem público. 97 Embora simples as definições penais de corrupção. A corrupção política nunca é individual. 97 Artigo 333. o que amplia os danos que ela provoca no sistema. Para que exista corrupção é necessário que exista anuência. a corrupção é a fonte da maioria dos crimes que ocorrem no gerenciamento do Estado.

A corrupção contraria as bases de um Estado Democrático de Direito. No entanto. A corrupção dissocia governo e povo. é o termo utilizado para designar o favorecimento de parentes em detrimento de pessoas mais qualificadas. especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos. Ela é responsável pela sua invalidação como lei extensível a toda população. Esta qualidade. Nepotismo Nepotismo vem do latim nepos. dando ao primeiro todos os sinônimos possíveis para grupos de pessoas que vivem parasitariamente. seus governantes. O único freio do ser humano é ele próprio. o que inclui. que significa neto ou descendente. onde o mais forte prevalece sempre sobre o mais fraco. Para o segundo. em grande parte. Somente uma convicção interior impede uma pessoa de praticar determinados atos. Não existiriam crimes se ela tivesse tal poder. As leis são necessárias para punir e evitar que a corrupção se torne comum e ostensiva. Atualmente. A Carta de Pero Vaz de Caminha é lembrada como o primeiro caso de tentativa de nepotismo caius_c 489 . naturalmente. é obtida através da educação. Ela empresta seu verbo ao Estado e o transforma em propriedade privada.A corrupção afronta toda e qualquer constituição. somente a lei não consegue frear os atos dos seres humanos. a lei maior torna-se a da sobrevivência natural.

documentada no Brasil. por conta de sua condição de chefe de polícia do Estado Novo. a secretária do Órgão de Coordenação e Execução. Caminha pede ao rei um emprego ao seu genro. onde decisões da Casa não foram publicadas. Ele não só deriva desta como a promove também. A palavra "pistolão". nomeações e outros favores. muito empregada no Brasil. ocorreu um escândalo no Senado. Sânzia Maia.338 Em 2009. visto que existe uma relação que está vinculada ao conceito de família ampliada. Ela é filha do ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau. prática iniciada com a Carta de Pero Vaz de Caminha. principalmente as relativas a nomeações de parentes. por conta dos chamados “atos secretos”. O mesmo boletim que nomeou Nathalie promoveu a mulher do então diretor-geral Agaciel Maia. Por exemplo. muitas das cartas endereçadas a Filinto Muller revelam a prática de pedidos de cargos. Sua derivação decorre do fato que para que caius_c 490 . 339 O nepotismo alimenta-se e é alimentado pela corrupção. Ao final da carta. Durante o governo ditatorial de Getúlio Vargas. embora não seja de sangue.337 Podemos considerar o “apadrinhamento” como uma forma de nepotismo. podemos citar a nomeação de Nathalie Rondeau em 26 de agosto de 2005 para o Conselho Editorial do Senado. vem de epístola. presidido por José Sarney. afilhado político de Sarney. devido à carta de apresentação.

A promoção da corrupção pelo nepotismo ocorre pelo estabelecimento de uma oligarquia. A corrupção e o nepotismo são formas veladas de oligarquia. não podem ser admitidas em um Estado Democrático de Direito. Sendo assim. Paternalismo Paternalismo vem do latim pater. que significa território ou jurisdição governada por um patriarca. Esta oligarquia toma conta do poder de forma velada. criam-se leis que o justifiquem. que passa a controlar ou ter acesso a canais que possibilitam o uso indevido dos recursos do Estado. buscando apenas o próprio benefício. Cremos não ser necessário acrescentar que nem tudo que é legal é correto. onde os senhores de engenho. donos de extensas propriedades distantes dos poucos centros urbanos caius_c 491 .ele exista é necessário que alguém burle o sistema de alguma forma. que poderíamos chamar de familiar. Neste caso. o termo seria originário do grego helenístico para denominar um líder de comunidade. tanto ilegalmente como legalmente. SÉRGIO BUARQUE DE HOLLANDA afiança que o paternalismo brasileiro está intimamente ligado à cultura por conta do processo de colonização do país. visto que este tem por fim unicamente o bem comum. O uso do termo no sentido de orientação masculina da organização social aparece pela primeira vez entre os hebreus no século IV para qualificar o líder de uma sociedade judaica.

onde o tutor tem amplos poderes e o tutelado não tem capacidade de discernimento para comandar sua própria vida. a segunda é a suposição de que aqueles que estão sob seu comando são carentes de uma percepção maior que possa produzir neles alguma vontade ou opinião própria. Como exemplo caius_c 492 . estabeleceram um vínculo misto de autoridade e favorecimento com seus empregados. Igual a este. é fonte primária de corrupção. Ele pode conceder benesses sem a respectiva contrapartida de uma relação direito-dever entre Estado e cidadão ou atribuirse poderes que não sejam aqueles que apenas deveriam regular a mesma relação. 340 Dentro do Estado. O Estado pode assumir situações em que julgue que sua tutela deva existir por conta da incapacidade dos cidadãos. baseada em uma relação emocional. Existe uma situação de tutela entre os dois. Implica em uso do poder para determinado grupo. Ele pode estender-se alem dessa relação imediata. podemos definir paternalismo como um sistema de autoridade e favorecimento entre um líder político e determinado grupo. escravos e aqueles de quem dele dependiam. O paternalismo é o irmão caçula do nepotismo. Esta relação emocional pressupõe duas coisas: a primeira é que a autoridade do líder é inquestionável e que os parâmetros estabelecidos para o seu poder são ilimitados.então existentes.

O padrão dos detalhes constrói o padrão do conjunto. O paternalismo fere dois princípios do Estado Democrático de Direito: o primeiro é a isonomia. É comum que líderes paternalistas se autodenominem como “pai do povo”. geralmente as mais carentes. pois favorece parte da população. Nos países democráticos é uma forma de demagogia. Pequenos crimes A qualidade de uma grande obra está estreitamente ligada ao gabarito de seus componentes.deste último. Um dos motivos alegados então. A distribuição de benesses está mais vinculada ao populismo. podemos citar o período histórico compreendido entre 1964 e 1985. era que o “povo ainda não estava preparado para votar para presidente”. “padrinho”. caius_c 493 . onde a escolha dos presidentes do Brasil se deu por voto indireto. onde se busca a simpatia de camadas da população.o segundo é a ingerência na vida do cidadão além do que a lei deve estabelecer. “pai da nação”. onde se procura angariar votos. O paternalismo rompe ou desconsidera barreiras legais. éticas e morais. nos países autoritários tenta-se estabelecer sua legitimidade por conta de favorecimentos. Para se conseguir um grande todo devemos nos concentrar em obter os melhores elementos. etc.

o que era grande entre os homens se tornou pequeno. os que são punidos por lei ou não. nada disso (. não é nos grandes acontecimentos que devemos procurar o signo rememorativo. Se pareceu risível ao leitor é porque acredita que pequenos atos não traduzem uma cultura e que pessoas que não se governam formam um povo administrável. etc.). Como exemplo podemos citar o “furar fila”.. Estes pequenos crimes traduzem o sentimento ou pensamento da população e abrem espaço para que caius_c 494 . não se trata da mesma coisa. também pode existir benefícios próprios ou vantagens. após o que. muito menos perceptíveis.. demonstrativo de prognostico do progresso. Não. “a cola” estudantil. pequenas infrações de trânsito.Citando KANT – “Não esperem que este acontecimento consista em grandes gestos ou crimes importantes cometidos pelos homens... é em acontecimentos muito menos grandiosos. Prestem atenção. Nestes pequenos crimes.” 341 Ao se falar aqui de pequenos crimes não devemos nos ater àqueles que a jurisprudência penal chama de pequeno potencial ofensivo. São infrações às normas ou costumes em que existe aceitação ou não-reprovação social. Embora os englobe.). Podemos definir pequenos crimes. como aqueles em que ocorre desfavorecimento de alguém por conta de ação ou omissão de outrem. ou o que era pequeno se tornou grande (.

Um Estado Democrático de Direito somente pode ser construído lastreado por uma população que entenda seu sentido e veja nele a necessidade de evoluir como ser humano.342 SIGMUND FREUD escreve que o indivíduo é um ser constituído a partir de sua relação com outros indivíduos. A representação coletiva é responsável pela reposição da realidade social. entendendo a necessidade. WUNDT e DURKHEIM ensinam que a cultura. A simultaneidade da mudança. caius_c 495 . estão na consciência do indivíduo ao mesmo tempo em que situam-se fora dele. Partindo deste princípio. etc. crenças. e que neste sentido o indivíduo sempre está vinculado a outra pessoa.delitos de “colarinho branco”. que deveria ocorrer à primeira vista. seria fato raro ou inexistente. Esta interação é o que produz o coletivo. Cada um dos elementos. deduzse que o indivíduo reflete a sociedade ao mesmo tempo em que a promove. costumes.343 Este conceito estende-se ao Estado. Qualquer mudança tem que passar pela sociedade e pelo indivíduo. acumulação de sabedoria e ciência no decorrer do tempo. Não existe a possibilidade de alterações em qualquer um desses elementos sem que a mesma esteja presente nos outros. corrupção e nepotismo ou sejam aceitos como naturais ou inevitáveis.

onde o respeito pelas instituições e pessoas seja predominante. caius_c 496 . O combate ao que denominamos de pequenos crimes não pode ser confundido com tolerância zero ou repressão policial. depois de obtida. É média aritmética de vários elementos que. apenas dá maiores forças às leis através de outros elementos. Trata-se de fazer com que o cidadão seja educado e viva dentro de uma ética extensiva ao social. Aquilo que não é permitido pode ser facilmente impedido de ser executado. A própria relação entre eles produziria um nivelamento entre todos. depois de firmada. A tecnologia pode ajudar na formação de uma sociedade que não aceite estes pequenos crimes. acrescenta-se outros valores para obter uma nova média. Frise-se novamente que não trata-se de condicionamento destinado a produzir um comportamento amorfo. O cidadão ético está ciente de seus direitos e luta por eles. seja pela obstaculização ou pela possibilidade de detecção de infratores. A base de um povo começa pelo autodomínio de seus cidadãos e pela consideração que tem para com os outros em seus pensamentos e atos. quando sente que os mesmos estão ameaçados. a liberdade. Não se restringe.promoveria em si a própria mudança que. O respeito às regras institucionais está diretamente ligado ao acatamento das regras não abrangidas pela lei. seria transmitida aos outros. aqui. São vasos comunicantes onde se acrescenta em um deles uma porção a mais.

por quê. o laicismo foi introduzido com a Constituição de 1891. cabe dizer que a maioria delas está mais voltada a ritos e cultos do que propriamente da moral e ética. ou religioso. em terceiro. que é o mesmo que leigo. Sua moral e ética fazem parte integrante de nossas leis. o Estado deve andar separado destas crenças? Em primeiro lugar. ele não separou da moral e ética. as crenças são estáticas e seus dogmas não são passiveis de serem mudados. quando o Estado separou-se da Igreja. A civilização ocidental cresceu sob seus auspícios e progrediu por conta delas. Ele traduz a necessidade de sobrepor o Direito às crenças. em oposição ao do de bispo. caius_c 497 .Laicismo DE PLÁCIDO E SILVA ensina que laico vem do latim laicus. o Estado separou-se de qualquer entidade religiosa a que tenha que submeterse. por último. equivalendo ao sentido de secular. então. em segundo lugar. O laicismo é essencial para que se possa chegar a um Estado Democrático de Direito. Se estamos tão impregnados desta moral e ética. 344 No Brasil. Temos uma herança judaico-cristã que está embutida em nossas mentes. as entidades religiosas são tantas que não caberia o partilhamento do poder com algumas delas.

Poder espiritual se traduz em poder temporal. As crenças induzem à exclusão de outros grupos ou pessoas com pensamento diverso. produziria discriminações. aborto e outros. principalmente daqueles que buscam soluções através de pesquisas com elementos humanos. pregam a submissão feminina ou buscam conter o avanço da ciência em determinados setores. Muitas delas esbarrariam em conceitos que as crenças consideram imutáveis ou contrárias ao seu doutrinamento.O Estado precisa acompanhar a evolução social e suas necessidades. Muitas crenças consideram como aversivas algumas formas de sexualidade. As instituições religiosas arrecadam tributos. Estas resistências podem dificultar o avanço do Direito e da forma igualitária com que o Estado Democrático deve tratar seus cidadãos. A possibilidade de uma delas poder atuar junto com o Estado. de forma associativa. ao exercerem suas crenças. Assuntos tabus como pena de morte. formam opiniões e geram comportamentos. não são passíveis de serem discutidos por afrontarem dogmas religiosos. Não podemos esquecer que o homem ainda não consegue pensar além do âmbito da tribo a qual pertence e ainda não consegue pensar dentro do contexto da humanidade. eutanásia. esqueçam-se de praticarem o Direito. Isto faz com que os homens. caius_c 498 .

caius_c 499 . o grupo de pressão se define pelo exercício de influência sobre o poder político para obtenção eventual de uma determinada medida de governo que lhe favoreça os interesses. nos quais um interesse se incorporou e se tornou politicamente relevante. H. Para BONAVIDES. Assegurar a liberdade de crença e consciência é atribuição do Estado. Neutralidade J. A fidelização de seus membros é obtida através da divinização de seus preceitos e a busca por novos conversos é uma constante. Por mais que preguem as mesmas assertivas. conceitua grupos de pressão como organizações da esfera intermediária entre o indivíduo e o Estado. costumam se confrontar e tentar diminuir a influência de outros grupos. seja por conta de seus interesses ou por determinada categoria social. os partidos políticos tem em comum com estes grupos o fato de serem categorias interpostas entre o cidadão e o Estado. Segundo ele. com qualquer grupo religioso. KAISER. na forma de compartilhamento de poder. Por conta desta própria atribuição torna-se impossível sua associação. Esta associação já delimitaria a própria liberdade de crença e consciência daqueles que não estão conjugados com o poder.É certo afirmar que as crenças não convivem pacificamente entre si.

aliada a uma proteção individual e social efetiva. proporciona conforto ao cidadão. sendo que um cuida de outro. Este conforto provém da estabilidade econômica que lhe deve ser natural. pode ser um fato em que deve existir um tratamento desigual para contrabalançar alguma hipossuficiência. A questão básica para se manter a neutralidade é o resultado final. Os conceitos do laicismo estendem-se aos demais grupos cuja representatividade não seja legitimamente popular. Neste ultimo caso. é indício de que ela está sendo aplicada. quase sempre. Toda e qualquer proposta de grupos deve ser avaliada tomando-se o todo como medida. Se ele estender-se de forma benéfica para a população em geral. Em alguns casos. Não existem distâncias entre governo e povo. como os de setores de produção.Entende-se que os grupos de pressão são lastreados por interesses próprios que. Não se pode confundir benesses solicitadas para satisfação de grupos empresariais ou empresas gigantescas com as necessárias adaptações da lei para ajustes de mercadoempresa em determinadas situações. há de se buscar nas suas reivindicações a qualidade acima. O conforto obtido em detrimento da vontade de evoluir Um Estado Democrático de Direito. quando bem sucedido. divergem do pensamento que deve orientar ações para que se alcance o bem comum. caius_c 500 .

Este conforto pode induzir ao pensamento de que tudo é estável e que inexiste perigo ou perecimento desta situação. se encontrar ameaçado. mormente os mais insidiosos que buscam dentro de suas próprias bases as armas ou artimanhas para sua destruição. Estes cuidados não implicam em desconsiderar as bases do Estado em situações que se julguem anômalas e nas quais se julgue que é necessário abdicar de direitos para sobrevivência do próprio Estado. Somente cabem medidas restritivas de direito quando este. visto que é uma de suas premissas básicas. Nesta condição ele precisa de elementos vitais para sobreviver e cuidados contra seus possíveis inimigos. deve permanecer. Os governos de um Estado Democrático de Direito devem suceder-se naturalmente. Estar confortável não implica em estar seguro. Acreditando nisto. Contrapõe-se que não se trata da sobrevivência de governos e sim do Estado. Para restringir a idéia de estabilidade que o conforto pode proporcionar. Com certeza. cada cidadão deve estar cônscio da necessidade de sua atuação dentro da caius_c 501 . efetivamente. isto é uma inverdade. como invasões ou guerras. este sim. o cidadão pode imaginar que existe um fluxo natural que conduz a esta situação. O Estado. Podemos considerar o Estado Democrático de Direito como um organismo vivo que depende de cuidados para que se mantenha saudável.

” 345 Este pequeno trecho do livro expressa. ao contrário. Consciência política Escreveu George Orwell. como às vezes acontecia. O propelente de tais atos é que chamamos de consciência política. E mesmo quando ficavam descontentes. por conta de sua interação com o próprio Estado. não pertencentes ao partido político.sociedade. é necessário que grande parte da população a tenha. o descontentamento não os conduzia a parte alguma porque. Nos Estados Democráticos de Direito. Mas. não tendo idéias gerais. “Não era desejável que os proles98 tivessem sentimentos políticos definidos. que a falta de uma consciência política somente pode ter lugar em um Estado totalitário. 98 Pessoas do povo. em seu livro 1984. de maneira veemente. afinal de contas. Tudo que se lhes exigia era uma espécie de patriotismo primitivo ao qual se podia apelar sempre que fosse necessário levá-los a aceitar rações menores ou maior expediente de trabalho. caius_c 502 . o que é consciência política? Para conseguir uma definição adequada é necessário primeiro separar as palavras e dar-lhes sua dimensão isolada. Os males maiores geralmente lhes fugiam à observação. só podiam focalizar a animosidade em ridículas reivindicações específicas.

etc). as reflexões éticas. 347 Para ele. Podemos resumir consciência política como um estado onde. fixá-las nas palavras etc). escola. as ações voltadas à cidadania. o controle social. a administração da coisa pública ou privada.Para VYGOTSKI. o papel das instituições (Estado. a própria consciência ou a tomada de consciência dos nossos atos e estados deve ser interpretada como sistema de transmissores de uns reflexos a outros que funcionam corretamente em cada momento consciente. os direitos trabalhistas. 346 Para LUIZ ETEVALDO DA SILVA. não é possível entender a sociedade humana sem as dimensões da política. todas as ações dos indivíduos são orientadas por ela. igreja. Quanto maior seja o ajuste com que qualquer reflexo interno provoque uma nova série em outros sistemas. comunicá-las aos demais e vivê-las (senti-las. As maneiras como as pessoas se organizam para definir o que produzir materialmente. Este entendimento necessariamente deve nos conduzir a uma ação ou caius_c 503 . as formas de apropriação e divisão da riqueza. da sociedade e do Estado. temos condições de entender as conseqüências dos atos próprios. política pode ser entendida por pensamentos e/ou ações que visam construir ou reconstruir formas de vida social. consciente ou inconsciente. naturalmente. Pois. O pensar a política está ligada a condição antropológica do homem. todos eles são exemplos de política. mais capazes seremos de prestarnos contas de nossas sensações.

Ter consciência política não implica apenas em conhecimento. onde o objetivo a ser alcançado é o bem comum. poderá acrescentar seus valores junto àqueles que permeiam a sociedade. Para se obter uma representação legislativa da população existente no país é necessário criar mecanismos eletivos para que exista uma grande caius_c 504 . ela pode ser reforçada por estes dois elementos. No entanto. ela consome recursos inestimáveis. Da mesma forma. Uma pessoa que esteja consciente de seu momento histórico e conheça as eficácias e deficiências do sistema político que rege sua vida. É capacidade de indignar-se com fatos que não são de direito e agir para que o mesmo não se repita e que seus responsáveis sejam punidos de acordo com a lei. A tecnologia e a possibilidade de participação A máquina estatal é grande. traduz-se em efetivação da vontade pessoal e social.omissão. A distorção ocorre quando não existe clareza nos padrões sociais a serem adotados. ela pode ser distorcida pela cultura ou pelo próprio indivíduo. A capacidade de discernimento é nata. A forma mais adequada para se adquirir uma consciência política é o estudo das pretensões sociais desde a infância. O reforço ocorre quando estes padrões estão inseridos na cultura.

quantidade de representantes. A estes representantes são acrescidos outros elementos para servirem de apoio aos processos que eles desencadeiam. Entende-se isto como necessário para que exista uma representatividade de fato. O próprio processo eletivo é custoso. Por conta disso, pergunta-se se a representatividade deve estar ligada à capacidade financeira, pois é certo que aqueles que não dispõem desta capacidade não poderão se fazerem presentes em cargos que possam decidir a estrutura social e estatal. Para se ganhar uma eleição é necessário um bom suporte financeiro. É certo, também, que nem sempre o representante corresponde aos interesses e ideais do representado. Existe uma grande possibilidade de que ele esteja mais ligado a grupos de pressão do que ao eleitor propriamente dito. Isto retira sua própria representatividade. É quase impossível que toda a população esteja totalmente politizada. O mais provável é que apenas certa porcentagem queira, efetivamente, participar da vida política, com todas as suas atribuições. Sem ter um suporte financeiro adequado e com seus representantes ligados a grupos, deixa-se de obter a representatividade necessária que pode se tornar uma inteligência social. Talvez fosse menos custoso e mais adequado que se iniciasse uma possibilidade de participação do

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povo no processo legislativo sem a necessidade de eleições. Com a tecnologia disponível, qualquer pessoa consegue estabelecer relações com diversas partes do mundo. Não existe a necessidade de sua presença física; basta se ter um computador ligado a uma rede. O corpo legislativo eleito poderia ser diminuído e suas funções remodeladas. Os projetos de lei poderiam partir de um cidadão comum, considerado como capacitado e devidamente cadastrado, analisados por um órgão adequado e votados através de uma rede. Aqueles que fossem aprovados por estas pessoas, seguiriam o processo normal das votações. Os projetos de lei do corpo legislativo eleito também deveriam passar por esta pré-aprovação antes de seguirem seu curso. Isto garantiria a efetiva representatividade, pois se reduziria o alcance dos grupos de pressão e diretrizes de partidos, visto que os votantes estariam menos suscetíveis a estas influências por serem comuns cidadãos. No atual sistema eletivo, assume funções aqueles que dispõem de simpatia junto ao público e tem capacidade midiática. Não caberia nenhuma forma eletiva para este corpo de interessados. Eles seriam a forma mais direta da representatividade democrática, um retorno aos seus primórdios. As exceções à sua participação seriam aquelas em que os projetos de lei fossem de jurisdição exclusiva do governo, como é o caso daqueles que envolvem impostos.

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Pode-se argumentar que não existiria um preparo para que estas pessoas pudessem exercer suas funções. Esta possibilidade existe naqueles que são eleitos, pois a maioria não está capacitada para exercer suas funções, estando dependente de técnicos que compõem seu gabinete. Estas pessoas teriam que ser devidamente capacitadas através um sistema que as deixasse em condições de ter uma correta conduta jurídica, fundamentada na ética e voltada para o bem comum. Outro possível argumento é aquele que diz que a pessoa não estaria disponível em tempo integral para esta função, com é o caso de um corpo legislativo eleito, pois não teria nenhuma ajuda financeira para exercê-la. Entende-se que o próprio interesse na participação seria o elemento motivador que conduziria a pessoa a exercer o cargo por sua própria vontade política. Mesmo que o processo legislativo seja moroso atualmente, não há como argumentar que esta nova forma aumentaria os prazos de aprovação. Com regras bem definidas e um sistema adequado, há de se crer que poderia ocorrer uma maior produtividade dentro do próprio corpo legislativo. Pode ser uma maneira, também, de fugir da tecnocracia, pois esta forma de governo é produzida por burocratas instalados dentro do sistema, formadores de opinião pública ou elementos voltados unicamente para interesses de empresas ou grupos de pressão. Com a

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democratização efetiva do processo legislativo, os lobistas teriam que despender um esforço excepcional para aprovação de leis de seu exclusivo interesse. Com um corpo legislativo mais espalhado e com maior representatividade, existiriam menores possibilidades de captação de votos para seus interesses. Esta representatividade direita poderia se dar nos três níveis: municipal, estadual e federal. Cada pessoa poderia se capacitar apenas para um deles, dentro de determinado espaço de tempo, após o que poderia ocorrer uma renovação, desde que observados determinados critérios, que incluiriam a produtividade e participação do indivíduo. Este aumento da capacidade representativa poderia ser uma maneira de diminuir distorções, aumentar a transparência e dar uma maior efetividade ao processo democrático. Se provado que este sistema fosse mais adequado e democrático, em um futuro distante, o atual quadro legislativo, devidamente reduzido, poderia ser transformado em um órgão regulador desta nova forma de democracia. O Estado internacionalizado O Estado que pretende sobreviver como autônomo e independente não pode viver isolado. Existe a necessidade de interação. No entanto, suas relações com outros Estados devem se pautar pela prioridade que confere ao seu próprio povo.

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O Estado internacionalizado não busca uma nova identidade, prefere assimilar o que existe de bom em outros países, acrescentando-o ao seu dote natural. Seus paradigmas são atualizados de acordo com suas necessidades, com os menores danos sociais possíveis. Todo corpo provoca uma curvatura no espaçotempo. Essa curvatura forma uma energia que atrai outros corpos para si. Imagine um lençol preso pelas quatro pontas com uma bola no centro. Essa bola formará uma depressão. Solte outra bola em uma das pontas do lençol. Ela procurará caminhos para chegar até aquela que está no centro. Nós também provocamos essa curvatura. Nós também atraímos outros corpos e somos atraídos por eles. A diferença entre atrair e ser atraído reside apenas em quem provoca a maior curvatura, ou seja, aquele que tem mais energia trará até si aqueles que tem menos. No nosso caso, talvez devamos dar um nome a essa energia de atração. Talvez devamos chamá-la de BEM COMUM ou simplesmente CIDADANIA. Talvez devamos nos unir para formar uma massa cósmica maior que produza uma grande atração. Talvez a CIDADANIA seja apenas uma questão de física que podemos resolver com uma simples união de energias.

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