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JAMINAWA, DE DONO DA TERRA À PEDINTE_Monografia

JAMINAWA, DE DONO DA TERRA À PEDINTE_Monografia

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - HABILITAÇÃO EM ANTROPOLOGIA

JOAO DE JESUS SILVA MELO

JAMINAWA, DE DONO DA TERRA À PEDINTE SEM RUMO

RIO BRANCO – ACRE MARÇO DE 2007

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS - HABILITAÇÃO EM ANTROPOLOGIA

JAMINAWA, DE DONO DA TERRA A PEDINTE SEM RUMO

A presente monografia realizada pelo aluno João de Jesus Silva Melo, que servirá como forma de avaliação para obtenção do Título de Bacharel em Ciências Sociais, habilitação em Antropologia, orientada pelo Prof. Jacó César Piccoli – Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Acre – UFAC.

RIO BRANCO – ACRE JULHO DE 2006

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© MELO, J.J.S. 2006

Ficha catalográfica preparada pela Biblioteca Central da UFAC

M528j

MELO, João de Jesus Silva. Jaminawa: de donos da terra a pedintes sem rumo. 2006. 95f. Projeto de pesquisa Monografia (graduação em Ciências Sociais com Habilitação em Antropologia – Bacharel) – Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Acre, Rio Branco, Acre. Orientador. Prof. Dr. Jacó César Piccoli 1. Jaminawa, 2. Nomadismo – índios, 3. Urbanização aldeias – Acre, 4. Direitos dos Nativos I. Título CDU 397.7 (811.2)

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"Num mundo deformado onde o vencedor criou o miserável para poder existir e servir de platéia para seu pódio, onde a austeridade criou o mendigo para lhe dar lastro, onde as leis criadas dão apenas uma forma institucionalizada à deformação desse modelo, verdades estabelecidas jamais poderiam ser reais. Assim, culpas causadas apenas para alimentar o desejo de mérito de um Ego faminto de recompensas, nunca poderiam ser verdadeiras.” (Autor desconhecido)

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Esta Monografia sobre Antropologia indígena com o título: “Jamináwa, de donos da terra a pedintes sem rumo” foi submetida à Coordenação do Curso de Ciências Sociais, como parte dos requisitos necessários à obtenção do Grau de Bacharel em Ciências Sociais, outorgado pela Universidade Federal do Acre - UFAC, e se encontra à disposição dos interessados na Biblioteca Central da referida Universidade.

A citação de qualquer trecho desta Monografia é permitida desde que seja de conformidade com as normas técnicas permitidas pela ética científica.

____________________________ João de Jesus Silva Melo

Monografia aprovada em: ____ / ____ / _____.

_____________________________________ Prof. Dr. Jacó César Piccoli Orientador

_____________________________________ Prof. Dr. Elder Andrade de Paula Membro

_____________________________________ Prof.ª Aleta Tereza Dreves Membro

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À minha querida mãe MARIA ODETE SILVA MELO e TEREZINHA NEUMA DE JESUS (in memorian) pela sabedoria, garra, coragem e determinação em saber enfrentar o mundo com todos os seus obstáculos !

OFEREÇO

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Aos meus filhos Alexandre, Alessandra Torres Melo e sobrinho Augusto Moraes. A meu pai e companheiro JOSÉ MELO CORDEIRO e minha companheira de labuta IOLENE SILVA DE MORAES, A todos os meus irmãos e sobrinhos

DEDICO ESTE TRABALHO

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AGRADECIMENTOS

A Deus, por tudo, principalmente, pela oportunidade de estar sempre próximo d'ELE. À Universidade Federal do Acre - UFAC, em especial ao Departamento de Filosofia e Ciências Sociais, pelos conhecimentos adquiridos durante esta jornada, em especial ao prof. Elder Andrade de Paula - pela amizade e Jacó César Piccoli - pela valiosa orientação transmitida. Aos Professores Severo Farias, Fabiana Pontes e Ciro Faro, pelo apoio indispensável durante a jornada. Aos amigos de turma que conviveram comigo durante estes árduos anos de batalha. Aos colegas extensionistas da SEATER, à Comissão Pró-Índio, à Casa do Índio, FUNAI e CIMI-AC pelo apoio e estímulo. A todos que direta ou indiretamente contribuíram para a concretização deste trabalho, os meus agradecimentos e reconhecimento.

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ACRÔNIMOS

Agente Agroflorestal Indígena Administração Executiva Regional da FUNAI em Rio Branco Banco Interamericano de Desenvolvimento Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Centro de Documentação e Informação Histórica do Acre Conselho Estadual Indígena Conselho Indigenista Missionário - Amazônia Ocidental Conselho Nacional dos Seringueiros Comissão Entre Índios Comissão Pró-Índio do Acre Diretoria de Assuntos Fundiários Departamento de Estradas e Rodagem do Acre Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto Ambiental Floresta Nacional Fundação Nacional do Índio Fundação Nacional de Saúde Grupos de Trabalhos História Indígena da Amazônia Ocidental Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto de Meio Ambiente do Acre Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia Instituto de Terras do Acre Ministério do Meio Ambiente Ministério Público Federal no Acre Movimento dos Povos Indígenas do Vale do Juruá Núcleo de Pesquisas em Ciências Humanas e Sociais do Instituto NPCHS/INPA Nacional de Pesquisas da Amazônia OPIAC Organização dos Professores Indígenas do Acre Organização dos Povos Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e OPIN Noroeste de Rondônia OPIRE Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira OPITARJ Organização dos Povos Indígenas de Tarauacá e Jordão PAEs Projetos de Assentamentos Extrativistas PCN Projeto Calha Norte PMACI Plano de Proteção do Meio Ambiente e das Comunidades Indígenas POA O Plano Operativo Anual PRODEX Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Extrativismo PP-G7 Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da PPTAL Amazônia Legal RESEX Reserva Extrativista SAF Sistema agroflorestal SEATER Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal

AAFI AER-RBR BID BNDES CDIH CEI CIMI CNS COMIN CPI-Acre DAF DERACRE EIA-RIMA FLONA FUNAI FUNASA GTs HIAO IBAMA IBGE IMAC INCRA INPA ITERACRE MMA MPF MPIVJ

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Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente Secretaria Executiva de Floresta e Extrativismo Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e SITUAKURE Noroeste de Rondônia TAC Termo de Ajustamento de Conduta TI Terra Indígena TER Tribunal Regional Eleitoral UNI União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas WWF World Wildlife Fund ZEE Zoneamento Ecológico e Econômico

SEBRAE SECTMA SEFE SEMA

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 1
JUSTIFICATIVA ...................................................................................................................................... 7 GERAL .................................................................................................... ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO. ESPECÍFICOS ........................................................................................................................................ 9 METODOLOGIA ...................................................................................................................................... 9

CAPÍTULO I ............................................................................................................. 11 1. ANTECEDENTES DA HISTÓRIA INDIGENA JAMINÁWA ............................... 11
1.1 1.2 1.3 1.4 1.5 1.6 1.7 1.8 A TRAJETÓRIA EM BUSCA DA TERRITORIALIDADE ........................................................... 12 O ÊXODO DOS JAMINÁWA ..................................................................................................... 15 A CIDADE E OS JAMINÁWA, UM CICLO VICIOSO ................................................................. 18 OS JAMINÁWA ......................................................................................................................... 24 O PODER DO MAIS FORTE..................................................................................................... 24 A TERRA–MÃE, SEU VALOR SIMBÓLICO E FONTE DE VIDA .............................................. 26 O “BOM SELVAGEM” E A SOCIO-CULTURALIDADE ............................................................. 27 RECIPROCIDADE ENTRE INDIOS E BRANCOS.................................................................... 30

CAPÍTULO II ............................................................................................................ 32 2. OS JAMINÁWA NO CONTEXTO INDÍGENA ...................................................... 32
2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6 2.7 2.8 2.9 2.10 2.11 SITUAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS ACREANAS.............................................................. 35 TERRAS DECLARADAS .......................................................................................................... 38 TERRAS INDÍGENAS JAMINÁWA ........................................................................................... 38 TERRAS IDENTIFICADAS ....................................................................................................... 42 TERRAS INDÍGENAS A IDENTIFICAR .................................................................................... 44 INDICATIVOS PARA A CRIAÇÃO DE NOVAS TERRAS INDÍGENAS .................................... 45 AS BRS 364 E 317 E AS TERRAS INDÍGENAS DO ACRE ...................................................... 47 IMPACTO TERRITORIAL ......................................................................................................... 50 IMPACTO AMBIENTAL ............................................................................................................ 50 IMPACTO ECONÔMICO .......................................................................................................... 51 IMPACTO SOCIOCULTURAL .................................................................................................. 53

CAPÍTULO III ........................................................................................................... 56 3. DE ONDE VIERAM E PARA ONDE VÃO OS JAMINÁWA? ............................. 56
3.1 3.2 3.3 3.4 A MIGRAÇÃO OU EXPULSÃO INDÍGENA NO ACRE ............................................................. 61 A PORANGA QUE ALUMIA O VARADOURO .......................................................................... 64 A CIDADE NA ALDEIA: NOVO HABITATUS ............................................................................ 66 O JAMINÁWA AINDA É ÍNDIO? CHEGOU A HORA DE REVITALIZAR .................................. 71

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 76 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 80

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INTRODUÇÃO Este trabalho é uma tentativa de reunir alguns subsídios informativos sobre um povo nativo do Acre - os Jamináwa1. Com isso, não pretendo mais do que acrescentar algo à história desse povo que não desistiu nunca de lutar pelos seus direitos. Um objeto pretendido é identificar a influência da urbanização entre os indígenas Jamináwa, o processo de seminomadismo, a perda da territorialização, suas esperanças e necessidades na cidade e mata. Atualmente, há pouca informação e polêmica acerca dos Jamináwa e seu futuro. No Acre, não há nenhuma estimativa confiável relatando sobre a urbanização indígena jamináwa. Podem-se verificar casos isolados e as inconstantes viagens realizadas no sentido ‘cidade-aldeia e retornos’, onde é difícil estimar um fato. A dificuldade de estimar a população jamináwa nas cidades vai depender muito mais dos critérios usados do que da compilação de dados estatísticos. “A pouca sedentarização jamináwa dá-se pelo fato de uma característica dos Jamináwa ser a sazonalidade freqüente nas mudanças de localização das aldeias e das casas” (FERREIRA, 2001:33). Isto é um fato cultural explicado por fatores como a morte de um membro da família ou é decorrente de conflitos faccionais ocorridos entre tribos da mesma etnia, como o caso ocorrido nas terras da Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate a partir dos anos 1990, que provocaram a migração de várias famílias para Rio Branco, Sena Madureira, Assis Brasil e Brasiléia.

- De acordo com Oscar Calavia Sáez, são denominados Jamináwa (Yaminawa, Yaminahua, segundo outras grafias) vários grupos de língua Pano, situados no sistema Juruá-Purus, em território peruano e brasileiro. Os autores abaixo têm realizado trabalho de campo com boa parte dos grupos Yaminawa existentes. Calavia Sáez pesquisou os Yaminawa da aldeia do rio Acre (Brasil) em 1992-1993. Carid Naveira e Pérez Gil estudaram os Yaminawa do rio Mapuya, subafluente do Urubamba (Peru), em 2000-2001, e em várias comunidades do rio Juruá (Peru), em 2001.

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A territorialidade faz menção ao processo de luta pela conquista da terra e reconquista de territórios que exigem como seus, mas que estão ocupados pelo homem dito civilizado. O ponto inicial da pesquisa é uma discussão recente, segundo a qual o colonialismo inventou o conceito de cultura e na realidade as culturas nunca foram sistemas fechados (HALL, 2001; SAHLINS, 1997). Conforme várias teorias da modernidade, a identidade moderna é vista como algo dinâmico que se beneficia dos elementos do passado. O processo de globalização origina novo interesse pelo local e os operadores ativos articulam a sua relação entre o global e o local (Hall, 1992; Hannerz, 1999). Para Canclini (1995), contudo, as culturas híbridas, caso dos jamináwa, não permitem o funcionamento de uma lógica binária entre as estratégias de dominação e de permanência da tradição. Entender a modernização é conhecer a “heterogeneidade multitemporal” (CANCLINI, 1998:19), na qual “o

desenvolvimento moderno não suprime a cultura popular tradicional: as culturas tradicionais desenvolvem-se, transformando-se” (op. cit. 214-215). Do mesmo modo, os grupos indígenas também se têm convertido, gradativamente, de objetos da história para serem os agentes do seu próprio desenvolvimento, fato que pode ser confirmado nos estudos realizados por Turner (1995) e Sahlins (1997). Neste trabalho, utilizamos conceitos como “capital social” e “campo social” desenvolvidos por Pierre Bourdieu, sociólogo francês, que formula a teoria da construção sociológica do mundo por capitais que possibilitam a formação de agentes sociais (habitus) e campos sociais onde toda a atividade e as práticas são realizadas. Segundo Bourdieu (1997), os atores sociais estão inseridos

espacialmente em determinados campos sociais, onde a posse de grandezas de capitais (cultural, social, econômico e simbólico) e o habitus de cada ator social condicionam seu posicionamento espacial. Neste estudo, o capital social assume posicionamento central, pois esse é o capital com que os povos indígenas atualmente operam devido à baixa renda. Como capital social, (BOURDIEU, 1997) se refere às redes sociais2, ao respeito, às amizades e à confiança, fundamentais na vida social. Também afirma que, para o ator social, ao tentar ocupar um espaço, é
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- Segundo Fritjot Capra (1982), “redes sociais são redes de comunicação que envolve a linguagem simbólica, os limites culturais, e as relações de poder”. São medidas de política social que reconhece e incentiva a atuação das redes de solidariedade locais no combate à pobreza e à exclusão social e na promoção do desenvolvimento local. Expressam idéias políticas e econômicas inovadoras, com surgimento de valores, pensamentos e atitudes.

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necessário que conheça as regras do jogo dentro do campo social3 em que esteja disposto a lutar (jogar). Outro aspecto que nos chama a atenção são as diferentes sociedades, uma vez que elas se configuram no palco onde se dão as disputas. Esse campo social pode se fazer presente em cada uma delas em diferentes momentos. A sociedade contemporânea, onde nós estamos inseridos, por sua vez, é uma sociedade universal e complexa, voltada para a fragmentação, o virtual, a ruptura. São inúmeros os fatores que entram em campo e que determinam o modo de ser do social. Os movimentos são dinâmicos, heterogêneos. O melhor governo será aquele que instituir um modo de ser capaz de respeitar as diferentes autonomias em jogo no campo social. Ela é uma sociedade diferente das sociedades antiga e moderna. A emergência do que se passou a chamar de cyberspace, o espaço cibernético, coloca a sociedade atual sob um novo eixo de tempo e espaço. As sociedades antigas eram sociedades eminentemente guerreiras, onde se incluía a sociedade jamináwa. As sociedades modernas foram caracterizadas por um novo modo de produção, apropriação e assimilação dessa sociedade anterior. O Acre é o Estado mais ocidental do Brasil e tem sustentado, ao longo dos anos, uma política de etnocídio em relação aos primeiros habitantes daqui: os povos indígenas que, muitas vezes, serviram aos propósitos dos não-índios. E desde os primórdios da colonização, a política do Estado brasileiro tem sido de integração forçada e não desejada por parte das comunidades “ditas” urbanas e civilizadas, como se afirma na obra Vítimas do Milagre:
O Brasil fornece um dos mais claros exemplos modernos de um país onde os direitos das comunidades indígenas foram sacrificados em nome do interesse nacional. Gigantescos projetos rodoviários, de mineração e de pecuária foram planejados para atravessar territórios dos índios na Amazônia brasileira, e em seu rastro trouxeram doenças, morte e destruição cultural para as tribos indígenas (DAVIS, 1978:12).

Diante desse panorama, pode-se analisar que a sobrevivência do povo Jamináwa no Acre está, não na acomodação e na conciliação de interesses
- Segundo Virtanen (2005): os indígenas produzem e mantêm o seu capital social em campo social diferentes. A identidade indígena é reconstruída nesses campos identificados, o campo social como um espaço tradicional ou não. Os campos sociais que representam a tradição e a etnicidade indígena são: 1) o seu próprio grupo étnico; 2) o movimento etno-político dos povos indígenas do estado; 3) o movimento de estudantes indígenas; e 4) o grupo de pessoas que ganha sua característica de interesse comum em xamanismo. O uso da ayahuasca é antigo em rituais de cura nas aldeias indígenas.
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propostos pelo Estado, onde o mais forte vai fazer sucumbir o mais fraco, mas na exacerbação do conflito de interesses pela fixação da identidade própria. A afirmação dessa vontade passa pelo campo da política, instrumento único e capaz de impor a velocidade desse processo interativo no interesse dessas minorias étnicas, de modo a preservar os espaços ambientais necessários à preservação dessas populações e sem incorrer no erro fatal de aderir ao conceito de desenvolvimento com vista somente ao paradigma do crescimento e ao próprio processo de desenvolvimento proposto pelo colonizador. Neste sentido, vimos que a Constituição Federal de 1988, Art. 231-232, assegura os direitos e garantias aos povos indígenas quanto aos elementos básicos para a sua sobrevivência: o direito à preservação da própria cultura, o direito à educação na própria língua, o direito à posse das suas terras e ao usufruto dessas riquezas, à proteção direta do Ministério Público na defesa desses direitos e interesses. Esse reconhecimento vem sendo, com bastante ênfase, respeitado pelo Acre e por seus governantes, a partir da década de 1990, quando se trata de um trabalho de reconhecimento da cidadania. Entretanto, os indígenas que habitam as terras da Amazônia sempre tiveram um comportamento nômade quando se trata da busca de seu sustento. Não obstante, o Estado, seja nacional ou local, se esqueceu voluntariamente de perguntar aos indígenas a sua opinião (deles) a respeito de sua própria identidade. Qual é o meio adequado que existe para que sejam ouvidos, não pela via do conflito colonizado/colonizador, mas pelo efetivo exercício da cidadania a que tem direito como os demais brasileiros? Quando se fala da atuação do Estado em relação aos direitos indígenas, isso implica em discutir a questão do “índio”
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e da cidadania. Ribeiro (1970) foi o

A denominação índio aplica-se a todo indivíduo que se identifica como tal, isto é, que é reconhecido pelos membros de sua comunidade como um de seus membros e que preserva vínculos históricos com as populações de origem pré-colombiana. Como esses fatores são difíceis de ser medidos e avaliados, decorre daí a dificuldade de identificar tal segmento da sociedade brasileira, tanto pelos órgãos oficiais como pelas próprias lideranças das organizações indígenas. O universo indígena não contempla, ademais, o contingente indígena que vive nos centros urbanos, pois os dados disponíveis não são consistentes. A disponibilização de informações contextualizadas sobre os indígenas brasileiros seria o único meio que tornaria possível corrigir as distorções geradas pela imprensa mal informada, por imagens genéricas e fatos fragmentados.

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primeiro autor que levantou esta questão. Segundo ele, o Código Civil de 1928 foi o marco na discussão sobre os direitos indígenas. Até então:
[...] o índio era identificado às pessoas como totalmente incapazes e sujeitos à tutela dos juizes de órfãos, sempre dispostos a legalizar a retirada de crianças nas aldeias, a título de doação, e a ratificar as transações mais lesivas aos índios (RIBEIRO, 1970: 204).

O que se discute, em verdade, são direitos humanos, sociais, culturais em seus aspectos fundamentais, os quais não mostram eficiência para resolução dos problemas indígenas nem para as maiorias, quiçá para as minorias, pois falta vontade política. Esta manifestação da cidadania, a todo tempo em construção, é exercício fundamental não só para os Jamináwa, mas para todos os brasileiros ameaçados, também por um processo de integração forçada e não desejada. A contribuição dos Jamináwa e outros povos indígenas para a formação da sociedade acreana é notória. Foram os primeiros a ocuparem os espaços territoriais. No entanto, além de massacrados durante a ocupação territorial pelos

“colonizadores brancos”, foram discriminados e expulsos de suas terras até décadas recentes. Estes Jamináwa foram marginalizados e sujeitos às diversas atrocidades, chegando a perder, com isso, parte da sua identidade e, no Acre, até mesmo sua memória cultural. No Acre, ocorreram vários massacres de aldeias, na busca da ocupação das terras por seringalistas, no principio, e, mais tarde, por fazendeiros. Tal fato ficou conhecido como “correrias” 5. Muitos povos foram dizimados ou se deslocaram para o interior da mata ou, ainda pior, dirigiram-se para os centros urbanos, o que
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- Os novos imigrantes fizeram as chamadas "Correrias": eles juntavam uns 50 homens armados com espingardas e assaltavam as aldeias indígenas. Sendo geralmente solteiros, eles matavam só os homens e raptavam as mulheres indígenas para conviver com eles. Estas expedições armadas feitas com o objetivo de matar as lideranças das aldeias, aprisionar homens para o trabalho escravo e obter mulheres que seriam vendidas aos seringueiros. Foi um tempo de terror. São muitos os relatos de correrias quando, depois de queimadas as malocas e mortos os principais guerreiros, os vencedores se divertiam jogando as crianças para cima e aparandoas com a ponta do punhal numa demonstração cruel de habilidade no manejo das armas. Sobre as "correrias" ocorridas, consultar Cunha (1976), Sombra (1913), Tastevin (1920, 1925, 1926, 1928), Silva (1929), Castello Branco (1950), Aquino (1977), Cabral (1984), Aquino & Tenê Kaxinawá (1988), Iglesias & Aquino (1994, 1996), Pereira Neto (1999), Wolff (2001), Franco (2004), Iglesias (2004ª). Para uma análise com pretensões teóricas, estes autores são trabalhados por Piccoli (1993).

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contribuiu para o “inchaço” das periferias e bolsões de miséria, denotando um panorama social carente de justiça e dignidade social. No que diz respeito à redação da monografia está dividida em 3 capítulos, composto de subtítulos para que torne melhor a compreensão do tema. Inicialmente, no Capítulo I, trabalharam-se os antecedentes da história dos Jamináwa em geral, relatando aspectos sobre suas andanças na busca de um território para se fixarem, enfocando seus primeiros contatos com os brancos dos seringais e da cidade. Tratase de uma formatação do trabalho para melhor acompanhamento do seu desenrolar; já desenvolvido e explicitado na parte do projeto. No Capítulo II examinamos, no contexto a “territorialização e territorialidade dos Jamináwa” – marcado, entre outros, pelo predomínio dos elementos coercitivos na relação entre sociedade política e sociedade indígena, no momento em que se desencadeou a luta pela posse da terra e reconquista de seus territórios e revitalização de sua cultura no Estado. É uma abordagem que faz referências à localização das Terras Indígenas do Acre e dos Jamináwa, sua situação atual de legalização, levando em consideração os impactos sofridos nestas terras, principalmente em função da criação de um projeto rodoviária que se completa com a pavimentação de rodovia transnacional. No Capítulo III, talvez o mais complicado, pelo fato de analisarmos alguns grupos Jamináwa que rumaram para os centros urbanos em busca de melhores condições de vida, como educação e saúde, ao mesmo tempo em que enfrentam um confronto de identidade com a população de “não-índios”. Lá chegando, se depararam com uma situação de aceitação diferente do que imaginavam. Por fim, estudamos, ainda, uma pequena idéia de políticas públicas mitigadoras que deveriam ser produzidas para amenizar os conflitos sociais que criaram a idéia de que os Jamináwa são um povo excluído ou aculturado. Ao final, seguem as considerações finais.

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JUSTIFICATIVA O problema da dispersão dos índios da tribo jamináwa já existe há muitos anos. Este fato é, muitas vezes, ocasionado por atrativos como o fascínio pelo trabalho remunerado, como substitutivo de uma atividade agrícola de remuneração incerta; aliados à dependência desejada por produtos industrializados, provocará abandono das práticas tradicionais de subsistência, como a agricultura, caça, pesca e coleta, que também estarão cada vez mais escassas e ameaçadas; busca de estudo e a falsa idéia de melhoria de vida na cidade; e, por fim, o mais preocupante, a perambulação e o ócio nas cidades já podem ser constatados. Para tanto, é necessário que se faça a promoção de algumas ações voltadas para o auxílio a esse povo, de forma a acabar com a dependência de algumas famílias que perambulam pelas ruas, sendo objeto de humilhação e de invisibilidade para as autoridades locais. Um povo que não valoriza seus costumes e suas tradições tende a perder o passado, cai no esquecimento de seus descendentes, alienando-se muito facilmente. Abre, assim, as portas para a adoção de valores diferentes de sua cultura, perdendo com isso, sua história, sua identidade e sua autonomia, ou seja, passa a enveredar por um processo de cultura da transformação, no entanto, pode não tratar-se da ‘perda de’ cultura, e sim, de ‘dinâmica da’ cultura. Afinal, toda cultura tem sua dinamicidade. A dinamicidade da cultura se dá de dois a partir da territorialização e da territorialidade dos Jamináwa. Para entender a territorialização necessário se faz a compreensão da diferença entre “terra” e “território” remete às distintas perspectivas e atores envolvidos no processo de demarcação. “Terra” é o processo políticojurídico conduzido sob a égide do estado; “território” remete à construção e à vivência, culturalmente variável, da relação entre uma sociedade específica e sua

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base territorial. Valem mencionar, nesse contexto, alguns pontos de divergência entre os atores envolvidos na regularização de terras indígenas. A territorialidade, nosso segundo ponto, também ligada ao dinamismo da cultura. A idéia de territorialidade indígena, isto é, de que uma terra indígena não é tão-somente o espaço de sua sobrevivência física imediata, mas um espaço culturalizado por gerações anteriores, destinado à presença permanente de um povo e de gerações subseqüentes. A questão da territorialidade, e da territorialidade indígena, faz sentido primeiro pela importância do território na liberdade de ser, na linha abordada por Souza (2001), segundo o qual a territorialidade tem importância para o processo de desenvolvimento, entendido este enquanto autonomia. A territorialidade indígena que não pode ser desprezada é que, segundo Darcy Ribeiro: “A posse de um território tribal é condição essencial à sobrevivência dos índios. Tanto quanto as outras medidas protetórias, ela opera, porém como barreira à interação e à incorporação” (RIBEIRO, 1970: 218). O desenvolvimento de pesquisa recente neste campo de ação tem sido caracterizado por um complexo processo de resistência, de lutas tanto pela terra quanto pela melhoria das condições de sobrevivência nela, marcadas, em especial, pela capacidade dos segmentos sociais subalternos no campo de modificar os rumos da “modernização”. Dentre outras razões pontuadas e largamente conhecidas – como a luta em defesa dos povos da floresta, constituindo-se, portanto, em um caso relevante a ser investigado. As manifestações étnicas, antropológicas, são necessidades que se procuram identificar neste povo que vive à mercê da própria sorte, nas calçadas, nos botecos e vielas das cidades de nosso Estado. Um diagnóstico que melhor enfatiza essa mendicância é descrito por Ferreira (2001), em Levantamento da situação atual dos índios Jamináwa e pelos jornais de circulação local (vide anexo), além de enfatizar essa mendicância a partir de observação empírica própria e que me levou a pensar neste trabalho. De acordo com o jornal Página 20 (28/04/2005 - Rio Branco – AC), na cidade de Rio Branco eles foram rotulados de pidões e comparados com mendigos, mas por trás da cena costumeira na capital acreana há uma história, tradição e cultura.

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OBJETIVOS Contextualizar os atuais grupos Jamináwa no espaço urbano procurando entender o processo de seminomadismo (perambulação) a partir da visão de grupos sociais e de noticias da imprensa local.

ESPECÍFICOS • ruas; • jamináwa; • referenciar a localização das Terras Indígenas do Acre e dos estudar alguns aspectos sócio-territoriais (organização social, identificar a situação dos grupos Jamináwa que vivem fora das aldeias

de suas comunidades e vêm para Rio Branco e municípios vizinhos mendigar nas

territorialização e territorialidade), e antropológicos (rituais e costumes) da nação

Jamináwa, sua situação atual de legalização e os impactos dos projeto rodoviária;

METODOLOGIA A realização da pesquisa bibliográfica foi pautada nos seguintes

procedimentos metodológicos: a. pesquisa bibliográfica sobre a temática indigenista no Estado do Acre e

sul do Amazonas, com busca de fontes informativas sobre os Jamináwa, observando o ponto de vista cultural e fundiário;

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b.

análise do material existente nos arquivos dos órgãos governamentais

e não governamentais envolvidos na política indigenista, com ênfase nos estudos sobre a nação Jamináwa; c. levantamento de dados em outras fontes como: arquivos de jornais

locais, revistas, trabalhos, CD e etc., que tratem da temática indigenista jamináwa. No plano teórico, adotamos dois procedimentos para lidar com a análise da relação expulsão da terra/assimilação e troca intercultural (se é que realmente houve). O problema da utilização dos conceitos - assimilação intercultural (índio x branco x índio) e expulsão da terra, com a expansão da fronteira do branco - são critérios funcionais e parecem implicar numa série de dificuldades para a sua operacionalização. Ou seja, necessário se faz realizar uma pesquisa bibliográfica prévia para definir onde se encontravam as terras e como eram trabalhadas. Nas discussões sobre a orientação da pesquisa, as quais resultaram na elaboração deste projeto de monografia, optou-se por eleger várias instituições governamentais e organizações da sociedade civil que desempenharam papel destacado no processo de “modernização” inter-relações culturais. Um terceiro procedimento teórico adotado foi relacionado à abordagem conceitual de pedintes de ruas, fato estereotipado pela sociedade urbana. Quanto às fontes de pesquisas utilizadas, podem ser resumidas em três grupamentos essenciais. O primeiro grupamento envolve o exame da produção bibliográfica relacionada com a temática (livros, trabalhos acadêmicos, artigos, periódicos especializados, relatórios de pesquisas etc.). O segundo é composto pela base de dados do IBGE e da documentação disponível no CIMI, CPI, Secretaria Extraordinárias dos Povos Indígenas do Acre no município de Rio Branco. O último é formado por um grupo de fontes complementares que englobam instituições governamentais (Universidades – UFAC e Governo nacional e local -

SEPLANDS/AC); organizações diversas da sociedade civil (ongs), imprensa local e nacional; arquivos pessoais e entrevista com o diretor da Casa o Índio de Rio Branco-Ac e funcionários daquele estabelecimento. Estas conversas foram importantes, sobretudo, na reorientação da pesquisa, à medida que novas fontes e fatos sociais relevantes possam ter escapado ao planejamento elaborado previamente.

11

CAPÍTULO I 1. ANTECEDENTES DA HISTÓRIA INDIGENA JAMINÁWA
[...] A nossa história pode ir embora... quando vocês não valorizem os velhos. O velho é peça importante, ele viveu. Pois é, este velho ainda tem muita coisa pra ensinar a vocês. A juventude só porque sabe ler e escrever diz assim: - este velho não sabe nada. É muito engano. Ele sabe muito mais que nós, principalmente a nossa vida passada pessoal. Por essa razão muitas vezes nós se perde por não valorizar nossas raízes. (JOSÉ CORREIA – liderança Jamináwa de Sena Madureira-Ac, 2004)

A retomada da história jamináwa em um plano regional-local é um dos caminhos mais promissores para o melhor entendimento do passado não só dos índios, mas da formação e desenvolvimento do local como um todo. Acredito que os estudos dos processos de mudança social possam e devam ser revitalizados. Pois a partir disso é que ganharemos visibilidade sobre aspectos da nossa história que têm permanecido obscuros, por não levarmos devidamente em conta a heterogeneidade e pluralidade da sociedade acreana indígena em toda sua complexidade. Esta história cheia porém, dos de Jamináwa é

controvérsias, lendas e

possui

fábulas que ampliam a cerca da riqueza cultural acreana deste povo que faz parte da
Fig. 1: Cultura jamináwa (Fonte: SEPI - Ac, 2006)

história do Estado do Acre.

Segundo Sáez (1995), os Jamináwa ou Yaminawa originaram-se da junção entre as diversas etnias que habitavam o rio Ucayali. Tinham essas outras denominações, como Xixinawa (povo do quati), Yawanawá (povo do queixada) que

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é uma etnia importante no contexto atual do Acre, Bashonawa (povo da mucura), Mastanawa (povo do sacado), Kununawa (povo da orelha de pau), Sharanawa (povo bom). A população total de Jamináwa no Brasil é difícil de avaliar, pois os grupos aqui descritos devem reunir uma cifra aproximada de 1.200 indivíduos ou mais (ACRE, em números, 2006), incluindo os habitantes que vivem fora das aldeias. 1.1 A TRAJETÓRIA EM BUSCA DA TERRITORIALIDADE Sáez (1995) considera que os Jamináwa do rio Acre situam os primórdios de sua história conhecida pelo homem branco em duas grandes aldeias: uma sobre o rio Moa (a) - um afluente menor do rio Iaco - e outra entre os rios Iaco e Tahuamanu (b). Em seguida, partiram para as cabeceiras do rio Chandless (c), onde tiveram seus primeiros contatos pacíficos com os brancos, no caso, caucheiros peruanos ou bolivianos. No Peru, morando no rio Shambuyacu, conviviam com os Sharanawa, Marinawa (povo da cotia) e Mastanawa, que intermediavam, geográfica e comercialmente, com os brancos, como faziam mais ao noroeste os Shipibo. Algum tempo depois, os Jamináwa partiram em agrupamentos diferentes, sendo que, devido aos conflitos internos, algumas tribos vieram a ocupar o seringal Petrópolis (d), a partir de 1968, seguindo para o Rio Purus, no município de Sena Madureira (f), e, mais tarde, para o sul do Amazonas, no município de Boca do Acre (g). Por fim, um outro contingente se deslocou para as cabeceiras do Rio Acre, em Assis Brasil, e constituíram nova morada com apoio de órgãos indigenistas. Com esse apoio, os Jamináwa se instalam rio acima, na TI Mamoadate, que congrega a aldeia Jamináwa Betel – (e) e uma Manchineri (Extrema). A única aldeia Jamináwa na TI Mamoadate é Betel, com uma pequena comunidade chamada Cujubim (p.e., ver mapa migratório – rota migratória e trajetória da sazonalidade dos Jamináwa no – mapa 1). Isto mostra que os Jamináwa viviam a deslocar-se de um lugar para outro, demonstrando um processo de seminomadismo ou sazonalidade. Este

‘seminomadismo’ também é influenciado pela própria sazonalidade das chuvas, ou inverno e verão acreanos. Outro fato comum para a época, é relatado por Sáez (1995), que trata dos seguidos conflitos entre tribos rivais que habitavam as terras do sudoeste amazônico ou contra o invasor branco, os caucheiros e seringueiros, que buscava riquezas, via extração da goma elástica (látex).

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Estado do Acre – Rota Migratória Trajetória da Sazonalidade Jamináwa

g - Kaiapucá: Boca do Acre no Amazonas

f
b

c
d

a e
Legenda: Trajetória dos Jamináwa do Acre a- Aldeia do Rio Moa ( Rio Iaco) b- Aldeias do Rio Tahuamanu e Iaco c- Aldeias do Rio Chandless e Shambuyacu d- Seringal Petrópolis (1968) e- Aldeias da Cabeceira do Rio Acre (1988) f- Aldeias do Alto Purus e Rio Caeté (1992) g- Aldeia Kaiapucá - Boca do Acre – Am.

MAPA 01 - TERRAS INDÍGENAS DO ACRE (Fonte: ZEE/AC, 2003). Adaptado para o trabalho.

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As relações com esses outros grupos Pano levavam regularmente ao conflito entre os grupos diferenciados e à fuga dos Jamináwa mata adentro. Eles, por sua vez, exerciam a mesma função em relação a outros grupos Nawa mais “selváticos”, que acabaram os incorporando. Depois de um longo período, em que alternam as aproximações pacíficas e as correrias, protagonizadas, em muitos casos, por índios Manchineri aliados aos seringalistas, os Jamináwa vão estabelecendo relações diretas com patrões brancos entre o rio Acre e o Iaco. Segundo Sáez (1995), em 1968, um grupo com número superior a cem Jamináwa, que se apresentam debilitados por repetidas epidemias provocadas pelo contato com o homem branco, se instalam no seringal Petrópolis, assumindo certo grau de dependência dos brancos, fato inédito até então, e estes são os primeiros dados que se tem sobre o início da troca de conhecimentos ou aculturamento com o branco, onde, misturados à sociedade local não-índia, estabelecem novas relações de casamento e de compadrio. Com isso, conseguiram preservar, talvez, a mais importante parte de seu patrimônio: a língua nativa. Prossegue Sáez (1995) relatando que, em muitos informes da FUNAI, instituída no Acre a partir de 1975, uma situação clássica entre os Jamináwa que têm maiores contatos com o povo branco: alcoolismo, prostituição, desorganização do grupo e exploração econômica. Contudo, há quem diga que o alcoolismo pode representar um novo processo de aproximação. Em 1989, provavelmente em função de “desagregações internas e forçadas”, se aproximam mais do mundo dos brancos. Um grupo considerável, dirigido pelo chefe José Correia Tunumã, migra para a jusante do rio Acre, onde já morava outro grupo maior de Jamináwa, formando a aldeia Ananaia, que se tomou a principal daquela Terra Indígena. Consolida-se, assim, a Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, interditada em 1988, cuja declaração de posse permanente somente é oficializada em 06 de março de 1992, alcançando uma área total de 78.512 hectares, no município de Assis Brasil, fronteira com o Peru. Em 1998, teve sua homologação publicada no Diário Oficial da União.

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1.2

O ÊXODO DOS JAMINÁWA A resistência ativa às invasões de seu espaço representa, sem dúvida, uma

das respostas mais comuns na história da expansão de fronteiras. Cem anos de guerras, confrontos, extinções, migrações forçadas e reagrupamento étnico envolvendo o povo Jamináwa e múltiplas forças invasoras formadas por peruanos, bolivianos e brasileiros, dão testemunho da resistência ativa deste povo indígena para a manutenção do controle das localidades onde viviam. A história mostra o caminho de luta e de desagregação do povo Jamináwa com outras aldeias, seja da mesma etnia ou etnia diferente. Entretanto, os estudos também indicam que há outras aldeias com as quais os Jamináwa reconhecem vínculos próximos de parentesco:
A primeira, conhecida como "La Escuela", em território boliviano, distanciada aproximadamente duas horas de canoa a partir de Assis Brasil, é uma aldeia organizada em volta de uma missão protestante, com uma população próxima dos duzentos habitantes Jamináwa (da etnia Yawanawá). [...]. Em Brasiléia, no Bairro Samaúma, habita um contingente Jamináwa desgarrado do grupo do Iaco desde 1987, por causa de um conflito interno. Estes, desde a cisão, têm sido conhecidos com o nome de Bashonawa que estão por carentes de terras, vivem em uma situação precária, sem roças, nem fontes fixas de renda, com poucas alternativas se não a de retorno à aldeia ou ajuda governamental. (SÁEZ, 1995 apud FERREIRA, 2005: 13-14).

Entretanto, trabalhos realizados anteriormente por jornais locais6 mostram que, em Sena Madureira-AC, existem Jamináwa nas áreas urbanas que não conseguem se reintegrar às suas comunidades de origem e, por isso, se estabelecem nos bairros periféricos daquele município. A reportagem de Val Sales, do jornal Página 20, traz o seguinte enunciado que, apesar de expressar o senso comum, reflete a realidade quanto à pesquisa científica, uma vez que se trata de fatos socialmente estudados e já comprovados. A manchete do Jornal Página 20, de 17.09.2002, intitulada:

- Vide anexo, no final do trabalho, a entrevista concedida ao Blog do Altino (http://altino.blogspot.com/2006/11/paolino-baldassari.html/) pelo missionário católico – Pe. Paulino Baldassari, quando da realização de suas catequeses pelas cabeceiras dos rios Purus e Iaco e no centro urbano daquele município.

6

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“INSTITUIÇÕES LIGADAS À QUESTÃO INDÍGENA QUEREM QUE JAMINÁWA QUE VIVEM COMO PEDINTES RETORNEM PARA SUAS COMUNIDADES” “A Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas se reuniu ontem à tarde com representantes do Ministério Público Estadual (MPE), Ministério Público Federal (MPF), Funai, FUNASA e demais órgãos ligados à área das ações sociais para discutir a situação dos índios da tribo Jamináwa que vivem dispersados de suas comunidades e pedem esmolas nas ruas do centro da cidade. De acordo da dos com o

representante Extraordinária

Secretaria Povos

Indígenas, Francisco Pianta, o problema de dispersão dos índios dessa tribo já existe há cerca de dez anos. Segundo ele, algumas ações de

planejamentos

passados,
Fig.2: Mendicância Jamináwa (Fonte: Failton Silva, 2003)

voltadas para o auxílio desses povos, acabaram provocando a

dependência de algumas famílias, que já não conseguem se adaptarem aos costumes e tradições das suas comunidades de origem. indígena Pianta em seu relato:
Seis famílias vivem atualmente em Rio Branco e perambulam pelas ruas pedindo esmolas. Outras também estão espalhadas pelos municípios de Brasiléia, Assis Brasil e Sena Madureira. A situação é de conhecimento dos dirigentes das comunidades, que discordam e temem que essa atitude venha a produzir uma má imagem de sua nação perante a sociedade. A idéia é encaminhá-los às suas casas, seja na cidade ou nas aldeias e conscientizá-los da necessidade de se enquadrarem ao sistema em que vivem, como parte integrante de uma sociedade com direitos e deveres, declarou. Fig. 3: Mendicância Jamináwa (Fonte: Failton, 2003)

Prossegue o Secretário

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Pianta finaliza esta entrevista, confirmando que a “maioria dessas famílias foram beneficiadas por programas de ação social e que o investimento em suas comunidades poderia evitar a evasão”. Alguns desses nativos migrantes são provenientes de aldeias localizadas no rio Iaco que sonhavam com uma vida melhor, lutaram pela sua sobrevivência. Conforme Keller (1995) relata em seus estudos etnológicos com muita propriedade, a localização, a distribuição e a forma de organização dos Jamináwa:
[...] os Jamináwa encontram-se no sítio Guajará, que contam com uma comunidade. A montante, a Terra Indígena Mamoadate congrega na aldeia Betel pouco mais de cem da etnia Xixinawa. No rio Purus, existe o grupo de Paumari, em que se conta com mais de noventa indivíduos Kaxinawá e Xixinawa, e famílias nucleares dispersas e misturadas com "peruanos". Entretanto, próximo à fronteira peruana do Purus, alguns deles têm se deslocado para Sepahua, no rio Urubamba, e estão vinculados a uma missão católica dominicana. Em território peruano existem ainda algumas comunidades Jamináwa no rio Purus e outras na área do alto Juruá, nos rios Mapuya e Huacapishtea. [...] Os estudos sobre os Jamináwa brasileiros, em especial no Acre, carecem de maior aprofundamento etnográfico, quiçá etnológico, uma vez que têm vagas notícias a seu respeito. Outros grupos conhecidos como Jamináwa no Brasil, como os da aldeia Igarapé Preto, carecem de relação com os Jamináwa aqui descritos. Os Jamináwa costumam se instalar em estreita relação com outros povos indígenas: no Brasil, especialmente com os Manchineri, de língua da família arwak. Relações maritais são freqüentes entre ambos os grupos, mas não são considerados matrimônios legítimos. Do mesmo modo, a visível mestiçagem com os "brancos" não tem dado lugar a uma categoria de "mestiço": a alteridade dos brancos é assimilada dentro do conjunto de alteridades que já organiza as relações entre os diversos grupos nawa. (SÁEZ, 1995 apud KELLER, 1995: 242-248).

A priori, esta foi a distribuição dos Jamináwa no Acre. Entretanto, devido aos desentendimentos crescentes no interior do grupo, briga entre povos e não respeito às leis locais dos índios, iniciou um novo êxodo Jamináwa, ou melhor, deslocamentos e migrações. Esses migrantes precisam reinventar a cada dia o seu cotidiano; enfrentar o desafio de tentar criar expectativas e condições de um futuro condizente com a situação de cidadãos que tentam ser; e envolvem os membros da família numa incessante luta na tentativa de driblar uma sociedade que se organiza sem eles, desestabilizando identidades sociais e culturais consolidadas, assim descritas:

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Deve-se advertir o leitor da precariedade destes dados, por causa das freqüentes rearticulações dos grupos. [...] Pouco depois do final da minha pesquisa de campo, em 1993, o assassinato de um Jamináwa em Brasiléia, pelas mãos de um Bashonawa residente nessa cidade, acabou provocando uma cisão no grupo do rio Acre. Dois grupos numerosos -- que freqüentavam a cidade de Rio Branco - foram realocados nos anos seguintes em Santa Rosa, - no Alto Purus - e no rio Caeté; um contingente considerável tem-se instalado de modo mais ou menos permanente na capital. [...] Os contatos dos Jamináwa com os missionários têm sido esporádicos ou indiretos, primeiro com os missionários católicos dominicanos do Peru que se aventuravam nos seringais, depois com os missionários evangélicos da Missão Novas Tribos do Brasil, instalados junto aos Manchineri na Terra Indígena Mamoadate, no rio Iaco. [...] Na Aldeia da Escola, na margem boliviana do rio Acre, tem lugar uma catequização mais sistemática. Até agora as missões não parecem ter tido grandes conseqüências quanto à cultura l tradicional (SÁEZ, 1995: 21-23).

1.3

A CIDADE E OS JAMINÁWA, UM CICLO VICIOSO
O homem sucumbirá, morto pelo excesso daquilo a que chama de civilização. (J. H. FABRE)

Nos últimos quinze anos, a presença dos Jamináwa em Rio Branco tem se intensificado. Eles se encontram presentes na Casa do Índio para tratamento de saúde e na busca de um abrigo; ou também na Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas, FUNAI e CPI (Comissão Pro-Índio do Acre), na busca de alguma melhoria para este grupo; seja em áreas de periferia, como é o caso dos Jamináwa de Brasiléia, onde buscam produzir suas alimentações em quintais urbanos (pequenas áreas); em precários e paupérrimos acampamentos de lona plástica na margem do rio Iaco e Purus na cidade de Sena Madureira; e, por fim, sob a ponte do Rio Acre e/ou até perambulando sem rumo e sem destino em Rio Branco pedindo “ajuda” às pessoas que passam. Quem melhor enfatiza o fato dos Jamináwa mendigando pelas ruas de Rio Branco são as entidades que trabalham com esta problemática, como a SEPI, CIMI e COMIN, como mostra na reportagem do Jornal Página 20, de 08 de janeiro de 2006, que traz a seguinte manchete na íntegra, que vem a seguir.

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Ação social em favor dos índios
Governo inicia processo de reintegração comunitária de índios em situação de risco no Acre

O governo do Acre deu início ao processo de reintegração comunitária das famílias jamináwa em situação de risco social no Estado, a começar por Rio Branco. Reunião ocorrida na Secretaria de Estado da Cidadania
Fig. 4: Secretários se reúnem para discutir a questão indígena. (Fonte: Jornal Página 20, 2006)

e

Assistência

Social (SECIAS) envolveu o

superintendente regional da Fundação Nacional do Índio (Funai), Antonio Apurinã, os secretários Francisco Pianta - dos Povos Indígenas e Maria das Graças Alves Pereira - da SECIAS, respectivamente, e Maurício Rebouças, gerente de Ações Articuladas Preventivas e Protetivas para Criança e Adolescente em Situação de Risco Social, e traçou como medida prioritária para retirar mulheres e crianças que hoje mendigam nas ruas, a identificação das famílias e a detecção das causas que as mantém como pedintes, aplicando de modo imediato ação específica para cada caso: há índios que estão nas cidades em busca de tratamento de saúde, outros por questões internas nas aldeias. Há grupos cuja permanência nas cidades ainda não é clara. “A gente não pode se acostumar com pessoas pedindo no meio da rua. No Acre não cabe esse tipo de coisa”, disse a secretária Maria das Graças, apontando como parte do plano o acompanhamento constante das famílias removidas. Uma comissão organizada pela SECIAS percorreu as ruas de Rio Branco para começar o plano de identificação das famílias sob risco social. A Secretaria dos Povos Indígenas (SEPI) já vinha realizando um diagnóstico da situação. Estima-se que existam cerca de quinze famílias com mulheres que vão diariamente para as ruas da capital pedir esmolas com seus filhos, geralmente bebês de colo. A maior parte é da etnia jamináwa. Finaliza a entrevista o Secretário

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da SEPI – Francisco Pianta: “[...] o mais importante é que temos famílias que tomaram a decisão de sair das ruas e hoje estão em suas aldeias levando uma vida muito melhor, uma vida com qualidade, com alimentação segura e vivendo tranquilamente”. Assim, com base na experiência dos que deixaram a mendicância urbana e retornaram para as aldeias, a SECIAS estará coordenando o grupo de trabalho que envolverá vários outros órgãos – como os Ministérios Públicos Federal e Estadual, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) o braço indigenista da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Comissão Entre Índios (COMIN) e a Organização das Mulheres Indígenas do Acre, Sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia (Situakure), além da Funai e Governo do Acre – na formulação do projeto amplo que removerá e manterá os Jamináwa em suas aldeias ou vivendo com dignidade no meio urbano. O superintendente da Funai, Antonio Apurinã (2006), disse que todos as medidas e recursos necessários para pôr em prática a reinclusão comunitária dessa população estarão disponibilizados. “É um assunto que preocupa a todos nós e a busca das soluções será ouvindo eles, as famílias”, disse Apurinã. Foram criados grupos de trabalho para realizarem encontros de modo cooperativo e com ações imediatas, onde deverão ser diagnosticadas as causas que mantêm determinada família nas ruas. Será, no mesmo ato, definida a solução para cada caso. “Prevemos uma reunião de planejamento e ação, com ações imediatas”, disse Maurício. Este é um fato que, aparentemente, incomoda mais as entidades governamentais, órgãos da sociedade civil (ONGs) do que mesmo ao próprio jamináwa. E os resultados para estes atos de mendicância nas cidades geram sempre conseqüências muito graves: desnutrição de crianças, sérios riscos de doenças sexualmente transmissíveis nos jovens e adultos, conflitos que acabam na delegacia ou na cadeia, sem contar com o alto índice de alcoolismo que já vem do tempo do seringal 7 e na cidade se vê agravado pela má alimentação. Esse índice de
7

- O seringal, enquanto lugar de produção, estava dividido em duas subunidades: a “margem” e o “centro”.A margem fazia referência aos lugares localizados próximos às beiras dos rios. Geralmente, ali estava centralizada a parte comercial e administrativa do seringal, dotado das seguintes instalações: barracão, depósitos auxiliares, residência do patrão e do pessoal que trabalhava nestas instalações. O “centro” localizava-se no interior do seringal (formado por extensas áreas de floresta densa), aberto por uma pequena clareira. Nele o seringueiro

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alcoolismo, aliado ao alto grau de desnutrição e a falta de projetos econômicos de auto-sustentação servem de incentivo para a vinda desses índios aos centros urbanos. Um exemplo notório é descrito por Iglesias (2005:34):
[...] o subgrupo Xixinawa, no alto rio Caeté, afluente da margem esquerda do rio Iaco, é decorrente de uma série de conflitos internos entre suas várias facções familiares, ocorridos nas terras Cabeceiras do Rio Acre e Mamoadate, a partir da década de 1990, que provocaram migração de suas várias famílias extensas para a periferia de Rio Branco e outras cidades do vale do Acre. Os Xixinawa constituem um de seus subgrupos políticos, conformado por mais de uma centena de índios Jamináwa, que nessa época mendigavam e perambulavam pelas ruas de Rio Branco.

Outro pequeno trecho da matéria do Jornal Página 20, de Rio Branco, de 27/01/2005, traz a seguinte mensagem: Viciados em etílico, transformaram-se em vítimas de 'traficantes de álcool', a quem pagam de R$ 15,00 a R$ 25,00 por um litro de cachaça. Essa atração letal pela cidade é a face escura da colaboração dos Jamináwa indigenistas. com O as entidades

compromisso

político tem levado com demasiada freqüência as lideranças Jamináwa para a cidade, de um privando centro a de

comunidade

referência e de uma instituição
Fig. 5: Alcoolismo entre índios em Sena Madureira Fonte: Página 20, 2005.

essencial para resolver os conflitos.

A FUNAI, sem possibilidades de atacar a raiz do problema ou, então, não querendo resolver este fato de grande relevância, tem reagido deslocando os sucessivos grupos dissidentes para outras áreas, algumas como Santa Rosa e Caeté, muito distantes. Essa dispersão é muito negativa para a defesa dos direitos territoriais já adquiridos pelo grupo, além de ser um paliativo e não resolução dos problemas que os afligem. Com essa transferência para Santa Rosa e Caeté, eles certamente continuarão no isolamento que a sociedade branca lhes impôs.
(índio ou cariú, que correspondia ao branco) morava com sua família e produzia a borracha. O “tapiri” (casa do seringueiro) e a “barraca de paxiúba” (local onde o seringueiro produzia a borracha) eram as duas instalações principais. A “margem” funcionava como unidade comercial e administrativa, onde ficava a sede chamada de “barracão”.

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Na nossa Constituição, em seu artigo 231, lê-se: "São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças, tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". A nova Carta reconhece a organização social, os costumes, as línguas, as crenças e as tradições dos índios, que antes não estavam previstos constitucionalmente. No tocante às terras tradicionalmente ocupadas pelos índios, o texto constitucional dispõe que estes têm direitos originários sobre elas, ou seja, têm hoje direito à posse permanente das terras que habitam, sendo as mesmas inalienáveis e indisponíveis, competindo à União demarcá-las e protegê-las e fazer respeitar todos os bens. Estas terras são aquelas ocupadas em caráter permanente, utilizadas no desenvolvimento de atividades produtivas, essenciais à preservação dos recursos ambientais necessários ao seu bem-estar e a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições. Ao definir o que são terras tradicionalmente ocupadas, a nova Carta Magna estabelece o parâmetro para demarcação do território indígena. Com relação a este artigo 231, até seu verdadeiro reconhecimento por todos, aí serão outros 500. Oxalá que consigam chegar até lá, pelo menos com respeito e dignidade por serem considerados, por muitos, como os primeiros habitantes desta terra invadida pelo colonizador dito civilizado. Os Jamináwa, consciente de suas necessidades e suas deficiências para resolução de seus problemas, buscam ajuda na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB–Acre, (Organização indígena, fundada, juridicamente, no dia 19 de abril de 1989, por iniciativa de lideranças de organizações indígenas existentes à época). A organização surgiu como resultado do processo de luta política dos povos indígenas pelo reconhecimento e exercício de seus direitos, num cenário de transformações sociais e políticas ocorridas no Brasil, favoráveis aos direitos indígenas. Estão vinculados desde a sua criação, na busca de soluções por meio de troca de experiências com outras nações indígenas8.

8

- De acordo com Iglesias e Aquino a União das Nações Indígenas do Acre e Sul do Amazonas (UNI), foi criada em 1986. Sua legalização formal veio a acontecer apenas cinco anos depois, em 1991, num contexto em que a UNI declarou sua autonomia em relação à coordenação da União das Nações Indígenas, que, desde meados dos anos 1980, articulava o movimento indígena em nível nacional. Entretanto, há controvérsia quanto a sua criação; para diferentes fatos históricos e interpretações sobre o surgimento do movimento indígena no Acre e a criação da UNI, ver Iglesias, 1993; Iglesias & Aquino, 1996a; Forneck, 1997; Pimenta, 2001, 2003.

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Quadro 1: JAMINÁWA DO ACRE POVO JAMINÁWA Outras denominações: Xixinawa (povo do quati) Yawanawá (povo do queixada) Bashonawa (povo da mucura) Mastanawa (povo do sacado) Kununawa (povo da orelha de pau) Sharanawa (povo bom) Marinawa (povo da cotia) Tronco Lingüístico: Pano - Arwak Língua materna: Nativa da Família Pano Família lingüística: Pano Outras línguas faladas atualmente Português e espanhol Outra Grafia: Não possuíam grafia própria definida, foram por um longo período foram considerados ágrafos.

População: No Estado do Acre: 1221 (*) hab. conhecidos Localização: Terra Indígena: Cabeceira do Rio Acre Jamináwa Colocação S.Paulino Jamináwa do Guajará Jamináwa do Igarapé Preto Jamináwa do Rio Caeté Jamináwa Seringal S.Francisco Jamináwa Terras Mamoadate Estado: Acre Municípios: Assis Brasil
Boca do Acre/Sena Madureira

Sena Madureira Rodrigues Alves Sena Madureira Sena Madureira
Sena Madureira/Assis Brasil

Fonte: CIMI Amazônia Ocidental, 2004 – (cimiao@contilnet.com.br) (*) Dados atuais fornecidos e retirados dos boletins de visita e acompanhamento da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA, mas também podem ser encontrados em Acre em números – Anuário Estatístico do Estado do Acre, 2006. Faltam algumas tribos isoladas e aqueles que não foi possível cadastrar, por morarem na zona urbana de alguns municípios do Estado do Acre. Não estão contados os índios Jamináwa que habitam o sul do Amazonas.

24

1.4

OS JAMINÁWA O Acre é rico em diversidade biológica e sócio-cultural, com uma população

indígena muito conhecida e composta por 14 etnias diferentes que possuem hábitos e costumes peculiares. São os Manchineri (Yine), Ashaninka, Madijá, Katukina, Poyanawa, Apolina-Arara, Nawa, Nukini, Kaxinawá, Shanenawa, Yawanawá, Arara, Jamináwa-arara e o povo objeto de nosso estudo: os Jamináwa. Estes habitam seis diferentes Terras Indígenas nos vales do Juruá, do Purus e Acre. Com a chegada dos caucheiros advindos do lado peruano no final do século XIX, os grupos menores que estavam dispersos foram perseguidos e obrigados a formar um só grupo. Isso dificultou a convivência entre eles e resultou em um complexo de divergências internas dentro da etnia. Sua cultura é baseada no cultivo de diversos produtos, além de serem excelentes caçadores e pescadores. 1.5 O PODER DO MAIS FORTE Apesar das autoridades públicas locais (legislativo, executivo ou judiciário) terem conhecimento da existência desta nação9, a história do povo Jamináwa continua marcada pela violência quando a questão é a posse da terra, pois, para eles (índios Jamináwa), a terra é fonte de sobrevivência, onde os Jamináwa buscam a subsistência, o lazer, o descanso, a cultura e folclore, de aproximação com a natureza. Infelizmente, o poder público ainda não se mostrou tão preocupado com a questão da terra para os Jamináwa, estes povos que vivem ainda à mercê da vontade política, visto que ainda existem terras a ser declaradas, demarcadas, a identificar e sem providências tomadas, como é o caso dos Jamináwa do Seringal São Francisco no município de Sena Madureira. Para o “branco”, a terra é um sinônimo de poder econômico e cobiça, pois o que menos importa é a nomenclatura. A terra é tratada como uma mercadoria que pode ser transacionada no mercado. A análise acima é feita com base no estudo da economia, como ciência que somente tem interesse para o homem branco, ou seja,
9

- Nação indígena: s.f. 1. Conjunto das pessoas que habitam o mesmo território, falam a mesma língua, têm os mesmos costumes e obedecem à mesma lei, geralmente da mesma raça; 2. Ser um povo com características próprias.

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tomar este fator de produção - a terra - como mercadoria é estabelecer com ela e a todos os bens ligados à natureza uma relação utilitária, ou seja, é dar existência a um paradigma da economia neoclássica: a terra precisa produzir para ter valor. Por isso que alguns desmatam, plantam pastos, arrendam a terra, etc. Portanto, tem que atribuir um valor à terra. É preciso produzir alimentos aceitos no mercado de consumo, por isso, se depositam, ano após ano, agrotóxicos cada vez mais fortes que desequilibram e agridem o meio ambiente, estabelecendo uma interação que é típica da lógica capitalista. Para os Jamináwa, a terra tem uma utilidade diferente, como caçar, pescar, plantar, contudo, se for preciso desmatar, botar roçado, fazer

pastagem para aluguel de criação de rebanho bovino, explorar madeira a retirada de de

forma para outras utilização assim o

predatória e ilegal vender, formas irracional,
Fig. 6: Agricultura TI Mamoadate (Fonte: SEPI, 2006)

dentre de eles sem

fazem

nenhum

sentimento de culpa. Porém, a imagem que procuram transmitir para o mundo urbano é a de que a terra tem significados e outra lógica de relacionamento, como mostram neste discurso direcionado ao branco:
Para os índios, a terra é o lugar de viver, de ser gente, é o espaço onde se reencontra a força dos ancestrais e onde se realizam os rituais e o contato com Deus, que para eles está manifesto em toda a criação. Apesar de não ser Jamináwa, temos o exemplo de apego pela terra de (grifos nossos) Xicão Xukuru, líder indígena e maior articulador dos povos indígenas do Nordeste, em 1998, foi também vitima na luta pela terra, explica: “A gente tem a terra como nossa mãe”. Então, se ela é nossa mãe, é ela quem nos dá todo fruto de sobrevivência, e deve ser zelada e preservada, a partir das pedras, das águas e das matas. (FUNDAÇÃO ELIAS MANSOUR, 2004: 8).

26

Dependendo da forma de como este povo é indagado, há sempre uma resposta para os seus discursos, sempre em função de seus objetivos, necessidades e expectativas. É a velha forma de, algumas vezes, perder (se enganar), não deixando transparecer de que também está ganhando (enganando), dando a resposta que o colonizador quer ouvir. Colabora com a revelação da hipocrisia do discurso da natureza e do pacto entre o branco e o índio, contrariando a idéia de “colonizador e colonizado” em prol da harmonia recíproca que nunca existiu. Poderia discutir um pouco a questão do uso da identidade indígena de acordo com a conveniência, ou a (auto) manipulação de identidade de acordo com a necessidade ou propósito. Neste sentido, pode-se falar da relação teoria X prática ou kosmos X corpus X práxis. Sempre há uma distância entre discurso e prática, daí a importância de se ouvir e de se observar.

1.6

A TERRA–MÃE, SEU VALOR SIMBÓLICO E FONTE DE VIDA Para os Jamináwa, a terra tem um outro significado, o primeiro significado se

define na forma simbólica (mito). Em segundo lugar, a terra é prescrita na maneira de usá-la coletivamente ou individualizada, ou seja, a terra pertence a todos da aldeia, sem os exageros da privatização de seu uso, portanto, não se impede que algum jamináwa coloque seu roçado familiar. A produção da terra não é somente individualizada, mas pertence aos membros da comunidade, e não há títulos de propriedade, nem cercas para delimitar pedaços, mas sim, outro código, como cursos de água, vegetação diferenciada, relevo, etc. Embora haja espaços destinados à produção de subsistência, ao plantio familiar, a utilização daquele espaço físico não confere à família o direito exclusivo de posse e o domínio sobre ele. Todos estes detalhes formais da antropologia é a preocupação da etnografia. A terra tem a finalidade da produção de subsistência pelo fato que esta é baseada nas necessidades comunitárias e não no lucro. Em algumas comunidades jamináwa, a exemplo da aldeia Betel, no município de Sena Madureira, a terra é ocupada de duas formas: de maneira comunitária, e sua utilização é definida pelos próprios membros da localidade, e de forma grupal, melhor explicando, neste momento, comumente, as decisões são tomadas em conjunto, tais como as áreas destinadas ao plantio dos roçados, as áreas onde se pode caçar e pescar “para vos

27

servirem de sustento a vós e a todos os animais e as aves, e tudo que tem movimento sobre a terra para terem de que se sustentar” (BÍBLIA SAGRADA: Gênesis, cap. I, vs. 29-30). E individualizada, onde alguns colocam seus roçados menores. Analisando a expressividade e importância da terra para os Jamináwa, podese verificar que não tem o mesmo significado como para outros povos, uma vez que este povo Jamináwa não permanece por muito tempo em um mesmo local, demonstrando ter sobre si a sazonalidade temporal e espacial. A terra, para muitos povos indígenas, é, verdadeiramente, o lugar onde eles podem se sentir gente por completo, com mais valor; onde podem viver coletivamente/comunitariamente os aspectos culturais, as crenças e as tradições. Entretanto, quando se fala de Jamináwa, não se verifica este mesmo sentimento. Apesar desta importância que os índios dão pela terra, ainda há aqueles indígenas e não-índios que ocupam ilegalmente as terras habitadas por estes silvícolas de várias maneiras, sejam para exploração madeireira, implantação de roçados, monocultura de produtos agrícolas e até plantio de pastagem para pecuária extensiva, exercendo uma pressão sobre ela. Esta pressão é freqüente ou aparece quando se fala de desenvolvimento ou crescimento econômico, dando origem aos primeiros conflitos pelo uso e/ou posse da terra.

1.7

O “BOM SELVAGEM” E A SOCIO-CULTURALIDADE Os argumentos utilizados pelo homem branco contra os índios são

desinformados e, muitas vezes, preconceituosos e vice-versa, dependendo do contexto. Por exemplo, fazendeiros questionam o tamanho das Terras Indígenas jamináwa relativamente ao número de ocupantes ("muita terra para pouco índio"). Na realidade estes tratam os Jamináwa como indivíduos e não como nações e culturas. O homem branco, além de negligenciar a possibilidade de o “índio” ser o primeiro e legítimo habitante desta terra, ou seja, repare bem que o índio não é dono

28

da terra, mas tem direito a fazer uso de tudo o que essa área contém: fauna, flora, água. Esse tipo de ocupação tem como objetivo a preservação do hábitat e a garantia da sobrevivência físico-cultural dos Jamináwa, reproduzindo, dessa forma, condições para a continuidade econômica e sociocultural da comunidade. Na aldeia, todos têm o direito de utilizar os recursos do meio ambiente. Nesse sentido, a propriedade privada não cabe na concepção jamináwa de terra e território. Embora o produto do trabalho possa ser individual, as obrigações existentes entre os indivíduos asseguram o usufruto dos recursos. Existe uma divisão de tarefa por idade e por sexo: em geral, cabe à mulher o cuidado com a casa, das crianças e das roças; o homem é responsável pela defesa, pela caça (que pode ser individual ou coletiva) e pela coleta de alimentos na floresta. E há uma seqüência de adjetivos, pois o “branco” se vê no direito de sobrepor-se à linha étnica, “transformando-o em indivíduo e coloca-o em categoria social, adotando a contradição de produtor e não-produtor” (AQUINO, 1982: 79). Adotam a maneira não-índia de produzir como parâmetro de utilização da terra, o que reforça a imagem preconceituosa do índio como sujeito preguiçoso. Conforme Aquino (1982), assim é que se estabelece o cruel ciclo do preconceito contra o índio brasileiro: a priori, se diz que ele é "preguiçoso", não sabe "desenvolver", não sabe "produzir". De acordo com essa lógica, os termos "preguiçoso" e "improdutivo" fazem parte da própria definição de "índio" (AQUINO, 1982: 74-77). Passa-se a "produzir", a "trabalhar", então deixa de ser índio, recebendo outra moldura que não foge ao fenômeno do caboclismo (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1964 apud AQUINO, 1982:78), com esta “consciência infeliz” que se vê a si próprio com os olhos dos “cariús”, negando qualquer referência às tradições de seus antepassados e escamoteando a verdade. A realidade é que não se encontra em nenhum contexto de seus discursos a manipulação de sua ascendência indígena para justificar tal ou qual prática – é mais um estereótipo ou falsa imagem que se atribui ao nativo. Entretanto, as populações jamináwa, por sua vez, têm sua auto-estima gravemente ferida pelo preconceito. E, como resposta ao espectro negativo, em conversa com Letícia Yawanawá, Maria Francisca Jamináwa e Juracy Xangai (Jornal Página 20) em 2005, afirmaram que o índio quer, sim, trabalhar, mas à sua maneira. Para tanto, precisam das condições necessárias: terra, educação e saúde

29

com políticas diferenciadas. Os caciques renegam a figura do "bom selvagem", do índio inocente e despido de interesses materiais. Ao contrário, eles querem a alavancagem social para suas comunidades, querem aumentar a renda disponível, não querem ser apenas um exército da salvação para cuidar das matas da Amazônia ou guardiões da floresta, como muitos ecologistas de gabinete os querem. Entretanto, faz-se necessário que tais iniciativas sejam possíveis em um contexto de preservação de suas identidades culturais, configurando-se no mito atual do indígena ecologista que aparenta compatibilizar desenvolvimento e preservação. Mesmo diante de tantas incoerências por parte do não-índio, existe também um lado bom, onde se vê que uma das mais expressivas vitórias na história recente dos índios brasileiros, incluindo os indígenas do Acre, foi a conquista de um capítulo especial na Constituição Brasileira de 1988. O artigo 231, referente aos direitos indígenas, reconhece a posse coletiva das terras, o significado do território para as culturas dos povos. A constituição afirma que as terras indígenas são "inalienáveis e indisponíveis", ou seja, não podem ser vendidas, não estão a serviço do mercado, mas sim para uso exclusivo dos índios. Diante disto, é necessário que os índios pressionem ainda mais as autoridades governamentais para a efetivação de sua demarcação. Muitas vezes, os ocupantes das Terras Indígenas são também vítimas da política fundiária adotada por governos que lotearam e entregaram para empresas colonizadoras as terras dos índios. Hoje, essas terras são reclamadas, com muita propriedade, pelas comunidades indígenas e é um direito legítimo, mas estão ocupadas por famílias que foram enganadas neste processo de grilagem fundiária inconcebível.
Na verdade, tanto os índios quanto as populações tradicionais (pequenos posseiros, seringueiros, ribeirinhos, etc.) são vítimas, sofrem e perdem direitos, perdem a dignidade e muitas vezes perdem a própria vida. Aqueles que incentivam conflitos entre eles e promovem a violência são os que, de fato [...] lucram com isso. Eles fortalecem seu poder e aumentam a sua riqueza à custa do sofrimento dos outros (Fundação Elias Mansour, 2004:9).

30

1.8

RECIPROCIDADE ENTRE INDIOS E BRANCOS Como já foi dito, o Acre foi habitado por diferentes grupos de povos nativos

que fizeram da região dos altos rios acreanos o seu território para viver, produzir e reproduzir. Sabe-se que muitos desses povos ou grupos foram engolidos pela imensa floresta sem deixar vestígios de sua passagem pela terra. Outros grupos de índios se isolaram e ainda não foram contatados diretamente pelo homem branco (ou ainda podem ser remanescentes que retornaram para o “isolamento”). No entanto, sobreviventes das "correrias" promovidas por caucheiros peruanos e seringalistas brasileiros, os Jamináwa mantiveram-se relativamente à margem das atividades produtivas da empresa seringalista instalada nos altos rios acreanos. Durante a maior parte desse período, em que as colocações de centro, localizadas mais às cabeceiras dos rios, estiveram ocupadas por famílias de seringueiros brancos e indígenas, a maior parte desses povos indígenas, sem nenhum direito e vivendo muitas das vezes em um processo de liberdade vigiada que existia apenas como uma forma de fiscalização sobre a produção da borracha. Com a chegada da Funai ao Acre passou a ser interpretada como liberdade assistida ou assistencialismo indígena. Não obstante, outros grupos indígenas enfrentaram inimigos poderosos, mas resistiram o suficiente para ainda saber quem são e como vivem. Porém, estes permanecem em sua essência, mantendo sua cultura e tradição e, ainda hoje, em grande parte, são conhecidos da maioria da sociedade acreana, a exemplo do kaxinawá, ashaninka. Quando é preciso justificar o direito do povo Jamináwa ao seu território tradicional, o discurso diz que essas terras já pertenciam a eles desde tempos imemoriais. Porém, esta idéia reforça o uma linha de pensamento, segundo o qual povos indígenas não possuem história, porque não dominam a escrita e sua memória é baseada na tradição oral, mas estes aspectos correspondem tão somente às meias verdades. Talvez fosse mais sincero admitir que, talvez, sejamos nós, os não-índios, que temos dificuldade de compreender a história jamináwa, ficando com a visão tendenciosa e reducionista.

31

Há uma interessante forma de organizar a história nativa da região por meio da consulta aos mais antigos, sejam índios ou brancos, onde procuram realizar um reavivamento da história oral e cultural (dança, rituais e cantos) dos Jamináwa. Quando olhamos para essa temporalidade estabelecida a partir das referências indígenas, percebemos que ela conta, também, a história da própria formação acreana Jamináwa da e sociedade que os

contribuíram

para sua construção. A reciprocidade não é

apenas uma possibilidade de recuperação, mas

também, um terreno para a
Fig. 7: Reavivamento cultural. (Fonte: SEPI - AC, 2006)

abertura

e

a

mudança

crítica em relação a outros discursos possíveis fora da antropologia, discurso político, discurso epistemológico, discurso proveniente do mundo civil, ou, ainda, advindo de outras posturas ou de outros interlocutores diferentes dos próprios antropólogos.

32

CAPÍTULO II 2. OS JAMINÁWA NO CONTEXTO INDÍGENA
Jacaré mora debaixo d’água, mas não é peixe, Jamináwa é a mesma coisa, vive na sociedade, mas não é branco, é índio. Por mais que tenha costume e conhecimento podem até contribuir com o Estado, a Nação. Contribuir sendo povo e não outro povo. Nunca vão ser Ashaninka, Manchineri. Nem falam a mesma língua! Nós somos diferentes queira ou não queira... Nós temos dentro de nós, orgulho de ser nós. Temos que nos valorizar, porque somos diferentes. (JOSÉ CORREIA – Jamináwa, de Sena Madureira, 2004)

Desde o final do século XIX, o problema com relação à posse de terra por parte de índios e não-índios se tornou constante, isto porque caucheiros peruanos e nordestinos vieram para essa região com o intuito de extrair o leite magistral e encantado, que tanto fascinava e se utilizava nos complexos fabris dos países industrializados e a indústria automobilística. “Com a crise da borracha a partir de 1912, os índios passaram a ser incorporados gradativamente à estrutura do seringal. Os patrões viram nos índios uma possibilidade múltipla, onde estes, além de suprir o contingente de trabalhadores oriundos do nordeste para a extração da Hevea brasiliensis, faziam outras tarefas para a unidade produtora decadente" (MARTINELLO, 1985). Este quadro de sobrevivência por meio do extrativismo permaneceu até a década de 70, quando a atividade extrativista foi substituída pelas pastagens, projeto de uma política desenvolvimentista que culminou em novos problemas fundiários entre os índios e ‘paulistas’. Entretanto, ainda se observa a presença desta figura, não como um simples explorador das riquezas locais advindo do centro-sul do país, mas em forma de grupos organizados representando, neste novo contexto, as corporações internacionais que impõem sua hegemonia por meio do capital, estes

33

agora deixam de paulistas10 para tornarem os neo-paulistas internacionais que recebem o nome de ONG – Organizações não governamentais, financiadas pelo capital internacional. Esses conflitos pela terra perduram até hoje. Como forma de amenizar os problemas fundiários no Acre e como conseqüência da sua própria mobilização politica, tais como Biracy Brasil Yawanawa, Luis Carlos Campo e seus irmãos João Campo e o pajé Pedrinho Campo (Ashaninka), Manoel Gomes da Silva (Kaxinawá e líder da OPIN), José Correia Jamináwa, Santo Raimundo Batista Jamináwa, representante de seu povo e vice-presidente da Organização das Comunidades Indígenas do Acre (OCAEJ) e outros líderes indígenas vêm para as cidades para participar do movimento indígena em defesa de seus direitos e de modo que haja o fortalecimento destes movimentos. A garantia da integridade de seus territórios foi importante alvo de ação estratégica do Governo do Estado do Acre, no processo que busca a consolidação e o fortalecimento dos Jamináwa. Este fato ocorreu quando se iniciou a elaboração das diretrizes básicas do Zoneamento, elaborando subsídios à Implantação de Programas de Desenvolvimento Regional, com enfoque para a População Indígena, que se utilizou de metodologias para compor os estudos que resultaram em indicativos para criação e consolidação de Terras Indígenas e passaram pela: a) sistematização de informações de diversos documentos do acervo bibliográfico da FUNAI, de indigenistas e ONGs, tais como relatórios antropológicos, laudos jurídicos e legislação; b) realização de reuniões e entrevistas com membros do movimento e das associações indígenas, representantes de órgãos governamentais e ONGs, e

- A priori este termo faz representação aos grupos econômicos do sul do país, com uma conjuntura marcada pela compra dos seringais ocupados por populações indígenas, ocasionando graves conflitos pela posse da terra. Tinham os paulistas como objetivos a derrubada da floresta para a abertura de campos, pastagens, currais e sedes de suas fazendas. Em outros termos, o “paulista” tem conotação política e sentido pejorativo e foi usado para designar os fazendeiros, empresários, e especuladores do Centro-Sul do país que vieram para o Acre atraídos pelas facilidades governamentais oferecidas àqueles interessados em investir na região. Muitos entraram no mercado de terra. A crise da borracha havia deixado as terras a preços bem inferiores aos praticados no mercado. A partir desse período, o setor primário passa a ter como eixo econômico a produção da pecuária de corte e extração madeireira, em substituição ao extrativismo do látex. Inicia-se concomitantemente a esse processo, a expulsão dos seringueiros que moravam nesses seringais. O termo “paulista” surgiu, portanto, no auge dos conflitos por terra no campo, da veia do movimento sindical.

10

34

integrantes da Comissão Estadual do Zoneamento - CEZEE e da Câmara Setorial Indígena, do ZEE/AC; c) elaboração do mapa das Terras Indígenas do Estado do Acre, utilizando a base cartográfica das cartas do DSG – Diretoria do Serviço Geográfico, digitalizadas pelo IBAMA, disponíveis na escala 1:250.000. Estas informações sobre as Terras Indígenas foram levantadas junto à Diretoria de Assuntos Fundiários da FUNAI/DF. Esta fase do zoneamento constitui-se num esforço inicial de sistematização de cenários que caracterizam a situação atual das populações e das terras indígenas acreanas. As diretrizes acima apontadas têm também caráter preliminar e deverão ser melhores delineadas, a partir da construção de um diálogo amplo e cotidiano, envolvendo representantes de aldeias, movimento indígena, entidades indigenistas, bem como órgãos dos governos federal, estadual e municipal. Certos problemas e desafios são comuns à quase totalidade das populações e das Terras Indígenas do Estado, tornando necessária a formulação de políticas públicas e ações estratégicas que venham agir de forma global (ZEE, 2000). Estas demarcações ainda vão enfrentar muitos problemas, em especial, para os Jamináwa, pois, apesar de algumas conquistas em nível local para aliviar as condições dificeis que a maioria das populações jamináwa enfrentam, e das tentativas por parte de muitas sociedades jamináwa de se organizarem dentro das suas terras, as tendência atuais de governo local são impor políticas que apontam para um crescente desafio para essas sociedades frente ao agravamento das desigualdades econômicas e sociais nas aldeias indígenas. De acordo com dados da FUNASA - Fundação Nacional de Saúde, de 2005 (ACRE, em Números 2006), órgão nacional responsável pelo acompanhamento da saúde dos indígenas, há, hoje, no Acre, cerca de 146 aldeias distribuídas em 35 Terras Indígenas, de onde seis terras são habitadas por populações jamináwa, mas qualquer grupo indígena pode morar em qualquer TI, desde que haja acordo entre os grupos, reconhecidas pelo governo federal e estadual, situadas em 11 municípios. Essas terras encontram-se em diferentes etapas de regularização administrativa e são habitadas por uma população estimada em 14.453 índios de 14

35

diferentes etnias. Estes números não incluem integrantes das populações indígenas ainda sem contato sistemático com a sociedade não-indígena.

2.1

SITUAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS ACREANAS As terras indígenas no Acre cobrem, no total, uma extensão de 2.167.146

hectares, correspondendo a cerca de 13,2% do território estadual. Encontram-se presentes em 11 dos 22 municípios do Estado. O município que apresenta maior representatividade étnica é Santa Rosa do Purus. Lá, encontram-se as etnias Jamináwa, Apurinã, Kaxinawá, Kulina (ou Madijá) e Manchineri, presente em 38 aldeias distintas e uma população de 2.450 habitantes Estes dados se fazem presente no ACRE, em

números, 2006. Os indígenas Jamináwa estão dispostos Santa em Rosa do seis do Sul,

municípios: Purus,

Cruzeiro

Brasiléia, Sena Madureira, Assis Brasil, e Mal. Thaumaturgo. Sua população é imprecisa, entre
Fig.8 Aldeia Jamináwa, Rio Purus (Fonte: SEPI, 2005)

1200 a 2100 habitantes, que

estão ligados a fatores como inconstância/sazonalidade. O problema da terra é o eixo central da questão indígena. A noção de território para a sociedade jamináwa é muito mais do que simples meio de subsistência. A terra representa o suporte da vida social e está diretamente ligada ao sistema de crenças e de conhecimento. Um dos conceitos de território pode está ligado à história cultural do grupo, ao seu universo mitológico, às relações de família, ao conjunto das interações sociais e ao sistema de alianças políticas e econômicas entre aldeias de um mesmo grupo. O território sustenta a trama da vida cultural de cada grupo. A garantia da terra faz parte de uma condição essencial para assegurar a sobrevivência dos índios como grupos etnicamente diferenciados da sociedade nacional.

36

A despeito dos avanços registrados no país no tocante à demarcação de Terras Indígenas, estas sofreram grandes perdas. Estas perdas são advindas da instituição de grandes latifúndios, da construção de projetos rodoviários e da colonização sem planejamento adequado que foi trabalhada pelo INCRA durante as décadas de 1970 e 1980, as quais dificultaram ou impossibilitaram a continuidade da ocupação das terras ancestrais pelos povos indígenas. No estado do Acre, não foi muito diferente. As terras jamináwa, quanto à sua normatização ou legalização, ainda se encontram sobre um verdadeiro

caleidoscópio coperniano, ou seja, com grande problema organizacional. No geral, as Terras Indígenas do Acre se encontram nas mais diversas formas e em estágios diferentes de análise. Pode-se encontrar Terras Indígenas declaradas, identificadas, homologadas, terras habitadas sem nenhuma providência, terras a identificar e algumas demarcadas. Entretanto, somente nos interessa a localização das terras dos Jamináwa. De acordo com dados do ZEE – Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre (2003), as terras indígenas apresentam uma configuração bem definida e distribuída por todo o Estado, correspondendo a 13% da área territorial natural protegida, conforme mostra a mapa 02.

37

MAPA 02: Terras Indígenas do Acre

01 TI Nukini 04 TI Jamináwa do Igarapé Preto 06 TI Kaxinawá Igarapé do Caucho 10 TI Arara do Igarapé Humaitá 13 TI Kaxinawá do Rio Humaitá 16 TI Kampa do Rio Amônia 19 TI Kaxinawá do Rio Jordão 22 TI Kulina do Rio Envira 25 TI Kampa e Isolados do Rio Envira

02 TI Poyanawa 05 TI Katukina / Kaxinawá 08 TI Rio Gregório 11 TI Kampa Igarapé Primavera 14 TI Kaxinawá nova Olinda 17 TI Kulina do Igarapé do Pau 20 TI Jamináwa / Envira 23 TI Alto Tarauacá 26 TI Xinane

03 TI Campina / Katukina 06 TI Katukina Colônia 27 09 TI Kaxinawá da Praia do Carapaça 12 TI Jamináwa Arara do Rio Bagé 15 TI Alto Rio Purus 18 TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão 21 TI Kaxinawá Seringal Independência 24 TI Kaxinawá Ashaninka do Rio do Breu 27 Ti Mamoadate 28 TI Cabeceira do Rio Acre

Fonte: ZEE/Ac, 2003.

38

2.2

TERRAS DECLARADAS Existem, no Acre, seis terras declaradas como de posse permanente dos

Jamináwa (mapa 2). Elas foram instituídas por portarias do Ministro da Justiça e que tinham suas demarcações físicas previstas no Plano Operativo Anual (POA) de 1999 do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal (PPTAL), no âmbito do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG-7). Entretanto, nenhuma destas terras era habitada por Jamináwa, pertenciam aos grupos dos Kulina, Kampa, Kaxinawá e Poyanawa. Este fato se deu no período de 1991 a 1993, e, posteriormente, após a implantação da Agenda 21, que fez pressão às autoridades nacionais para que medidas mais enérgicas fossem tomadas com relação à melhoria das condições de vida dos povos da floresta que, posteriormente, caminhariam para os centros urbanos mais próximos. Se não fosse o momento político de extrema relevância que rondava no seio da sociedade, é provável que tais medidas continuassem até hoje bem arquivadas em face da lentidão no avanço do processo de regularização que se iniciou em 1983.

2.3

TERRAS INDÍGENAS JAMINÁWA Como se sabe, a terra é um princípio básico de autodeterminação

sociocultural, como melhor traduz LOHN & ZUNINO (1990):
“o princípio básico é de que o ser humano precisa se apropriar e transformar o mundo natural. Não existe a possibilidade de não transformá-lo. O ser humano só consegue transformar-se no decorrer dos tempos através de sua ação sobre a natureza. O ser humano tem o direito e a necessidade de intervir na natureza. É um princípio cultural. Não haveria cultura humana se o ser humano não tivesse feito intervenções na natureza” [s/nº].

Por isso, certamente a política indigenista deve privilegiar a opinião dos Jamináwa que lutam pela demarcação de suas terras no sentido de transformá-las de um modo ou de outro. Ao mesmo tempo, o uso que se faz da terra, conquanto possa assumir as mais variadas formas, também tem um forte componente de preservação da autonomia.

39

O CDIH – Centro de Documentação e Informação Históricas conheceu o caso dos índios Jamináwa (AC) e foi um dos primeiros a registrar o ocorrido da vinda dos indígenas para as periferias urbanas, mostrando uma preocupação com a demarcação de suas terras, com o intuito econômico e sócio-cultural. O contato com os "civilizados" é muito antigo, mas o processo de demarcação das Terras Indígenas acreanas é recente, a partir dos anos 1970. Entende-se por “Terras indígenas” uma categoria jurídica que originalmente foi estabelecida pelo Estado brasileiro para lidar com povos indígenas dentro do marco da tutela. De todos os povos tradicionais, os povos indígenas foram os primeiros a obter o reconhecimento de suas diferenças étnicas e territoriais, mesmo que tal reconhecimento tenha sido efetivado por meio de processos que, em muitos casos, prejudicaram seus direitos. No momento da demarcação, muitos índios Jamináwa já se encontravam morando nas cidades, ou,
“[...], trabalhando para fazendeiros, e realizando as mais diversas atividades braçais, em especial no desmatamento das modernas fazendas de gado como força de trabalho local, (...), se transformando em peões” (AQUINO, 1982: 68-69).

Deixam de ser proprietários para ser assalariados e passam a receber “vales” que somente têm valor de compra no armazém da fazenda, constituindo, novamente, o mesmo processo de aviamento11 ocorrido na época dos seringais. Percebe-se, assim, a penetração do capitalismo no campo, apoiado por um modo de produção pré-capitalista (o aviamento), ao passo que esses índios se distanciam cada vez mais de um fator de produção genuinamente deles – a terra. Retomando a década de 1990, este jamináwa já morando na cidade, que destino deve ser dado à terra, uma vez que ela precisa ser trabalhada. É de se esperar que, com toda a diversidade existente, haja muitas opiniões sobre o que se deve fazer com a terra. Assim, quando políticos locais, aliados à Igreja Católica da
11

- Esquema caracterizado pelo controle dos seringais pelos patrões seringalistas, conhecidos como coronéis de barranco, que mantinham verdadeiros exércitos de seringueiros trabalhando para si. Nos barracões, localizados nas sedes dos seringais, os seringueiros entregam as pélas de borracha e adquiriam produtos manufaturados como ferramentas, sal, açúcar, café, tabaco, cachaça, entre outros. Vide: OLIVEIRA, Pesquisa socioparticipativa na Amazônia, 2005. In: RODRIGUES, F.Q. Os Apurinãs e as agroflorestas: uma experiência em educação indígena. EDUFAC, 2005.

40

região – precisamente a Diocese de Rio Branco, encabeçada pelo bispo D. Moacir Grechi – pensaram na criação de um santuário turístico dentro da Terra Indígena, é claro que houve opiniões favoráveis no meio da comunidade. Mas esta não é a questão. O problema é que o projeto de santuário ou paraíso ecológico é visivelmente contrário ao plano de autodeterminação cultural do povo Jamináwa. Há uma opinião entre os Jamináwa, de que a terra deve ser explorada pelos próprios índios, para sua agricultura, mesmo que isso implique auferir menos renda no primeiro momento. A demarcação das Terras Indígenas é o procedimento legal pelo qual a União determina oficialmente os limites de uma área indígena. É importante dizer que o direito dos índios às suas terras não surge com a demarcação. Esse direito foi reconhecido pela Constituição Federal como "originário", ou seja, como um direito anterior à formação do próprio país. A demarcação das terras é uma responsabilidade do governo federal, que tem se omitido sistematicamente de cumpri-Ia. Em 1973, o Estatuto do Índio (Lei 6.001) estabelecia um prazo de cinco anos para que todas as Terras Indígenas do Brasil fossem demarcadas. A Constituição de 1988 reafirmou este prazo. No entanto, mais de 30 anos se passaram e menos de 45% das Terras Indígenas têm concluído o procedimento de demarcação. De acordo com dados coletados pela Secretaria de Meio Ambiente do Acre – SEMA, até meados da década de 70, quando a Funai iniciou as primeiras delimitações das Terras Indígenas no Acre, os índios sofreram com a invasão do homem branco. Com a entrada das empresas seringalistas no Estado, muitas tribos foram expulsas de seus territórios. Nos últimos 35 anos, porém, o governo federal reconheceu no Estado do Acre 34 terras indígenas. Essas reivindicações dos povos jamináwa e outras nações indígenas pela demarcação de suas terras são justas, pois se fundamentam no direito que possuem como indígenas e como povos diferenciados. Para garantir a sobrevivência digna e livre, muitas comunidades indígenas têm escolhido como bandeira de luta a reconquista de suas terras através das retomadas. As retomadas acontecem sempre em terras que são indígenas, mas estão ocupadas por posseiros, fazendeiros, granjeiros, empresas, entre outros.

41

MAPA 03: LOCALIZAÇÃO DAS TERRAS JAMINÁWA - ESTADO DO ACRE

: Terras Indígenas (TI) Jamináwa no Acre 04- TI Jamináwa do Igarapé Preto 12- TI Jamináwa do Rio Bagé 15- TI do Rio Purus 27- TI Cabeceira do Rio Acre 28- TI Mamoadate ▲- Aldeia do Rio Caeté

Fonte: Terras Indígenas no Estado do Acre. ZEE/AC, 2005. (Adaptado para este trabalho)

42

2.4

TERRAS IDENTIFICADAS No período de 1991-1993, três áreas indígenas, com extensão agregada de

131.330 hectares, tiveram suas portarias assinadas por Ministros da Justiça dos governos Fernando Collor e Itamar Franco, como mostra o quadro a seguir: Extensão (ha) 76.680 26.000 28.650 131.330

Nº. 01 02 03

Terra Indígena

Município

Portaria nº. 548/MJ 066/MJ 281/MJ

Data 16.11.92 02.03.93 30.07.93

Cabeceira do Rio Acre Assis Brasil Jamináwa do Igarapé Preto Jamináwa/Arara do Rio Bagé Rodrigues Alves Marechal Thaumaturgo

Total
Fonte: ZEE, 2000

O ZEE cita que, entre 1995-96, houve uma retomada para identificação de Terras Indígenas. No Acre, várias localidades foram detectadas. Entretanto, em três destas terras identificadas, colocações habitadas por famílias de seringueiros não tiveram suas benfeitorias de boa-fé indenizadas pela FUNAI. Esta indenização estaria programada para o segundo semestre do ano 2000, após o encerramento das respectivas demarcações. Novos processos de identificação se seguiram. Foram identificadas por grupos técnicos instituídos pela presidência da FUNAI, na segunda metade dos anos noventa, as Terras Indígenas dos Jamináwa habitantes do Alto Tarauacá. Estas terras encontram-se em diferentes estágios do procedimento administrativo para a sua regularização: Terra Indígena Alto Tarauacá: destinada a índios isolados, teve seu relatório de identificação e delimitação entregue à FUNAI em janeiro de 2000. Após aprovação pela Presidência da FUNAI, a síntese do relatório antropológico, mapa e memorial descritivo são encaminhados e demais documentos deverão ser publicados no Diário Oficial da União e no Diário Oficial do Estado, em acordo com o

43

disposto no Decreto n.º 1775/96, que dispõe sobre os procedimentos administrativos para demarcação das Terras Indígenas. Há gestões da Procuradoria da República no Acre para que, mesmo antes da demarcação, ocorra a indenização das benfeitorias das 53 famílias de seringueiros que vivem neste território indígena, dados os conflitos e mortes recentes e a mudança de muitas destas famílias para as sedes dos municípios de Jordão e Tarauacá. É de suma importância lembrar que desde 2000, os prazos então estabelecidos não foram cumpridos para a demarcação destas Terras Indígenas, assim como sejam feitas gestões junto a FUNAI para que sejam incluídos, em seu orçamento os recursos para indenização de benfeitorias dos ocupantes das Terras Indígenas, de modo a evitar conflitos fundiários. Em janeiro de 2006, os Jamináwa do Caeté enviaram documento à Presidência da FUNAI e à Coordenação Técnica do PPTAL, assinado por 34 lideranças e representantes, exigindo a pronta identificação das duas terras Jamináwa. Alegaram, no documento, que a demora na sua regularização tem, nos últimos anos, levado muitas famílias a migrar e mendigar em várias sedes municipais do Vale do Acre/Purus. Da mesma forma, deverá o INCRA disponibilizar terras para o assentamento das famílias que ocupam essas áreas. A articulação entre o governo estadual e o governo federal é essencial para a conclusão do processo administrativo de demarcação e regularização fundiária das Terras Indígenas. As primeiras identificações das áreas indígenas no Acre se iniciaram em 1976, como demonstrado por Iglesias (2005) Identificação de áreas indígenas (1976 – 1979)
Nº. 01 02 03 Área Indígena Mamoadate Jamináwa do Igarapé Preto Jamináwa/Arara do Rio Bagé Município Sena Madureira Cruzeiro Sul Cruzeiro Sul do do Rio Iaco Igarapé Preto Bagé GT/PP Nº. 140/P de 17.03.77 160/P de 23.03.77 1978-79 Extensão (ha) 326.000 23.700 60.000 409.700 Perímetro (km) 281 68 150 499

Total

44

Identificação de áreas indígenas (1980 – 1984)
Área Indígena* Mamoadate Jamináwa do Ig. Preto Extensão (ha) 328.160 23.700 351.860 Perímetro (km) 299,7 68,0 367,7

Nº. 04 05 Total

Município Sena Madureira e Assis Brasil Cruzeiro do Sul

Rio Iaco Igarapé Preto

GT/PP Nº. 1980 1619/E de 30.06.84

• Estas duas áreas são as mesmas terras Jamináwa acima que sofreram um novo processo de reidentificação para medição da área e perímetro, objetivando a correção de algumas distorções.

2.5

TERRAS INDÍGENAS A IDENTIFICAR A Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá, onde habitam alguns Jamináwa,

teve seu re-estudo para identificação e delimitação previsto no POA/1999 do PPTAL. Com este objetivo, a FUNAI, desde 2000, instituiu grupo técnico que iniciou os trabalhos de campo em fevereiro daquele ano. A segunda Terra Indígena a se identificar é constituída pelo seringal Boa Vista, no município de Sena Madureira, onde desde 1998 se encontravam algumas das famílias Jamináwa que, em anos anteriores, mendigavam na capital do Estado. A mudança dessas famílias para o rio Caeté resultou de negociações feitas pela FUNAI de Rio Branco com os pretensos proprietários do seringal. Foi solicitado à Diretoria de Assuntos Fundiários – DAF a formação de um grupo técnico que realizou parte da identificação dessa terra. Vale salientar que a solicitação à DAF foi por não se tratar de terras tradicionalmente ocupadas pelas famílias jamináwa ou outra etnia residente no Acre. Por fim, em 2006 ainda duas terras, Jamináwa do Rio Caeté e Jamináwa do Guajará, figuram como a identificar. Com superfície agregada de 21.600 hectares, correspondem a 0,8% da extensão total das Terras Indígenas reconhecidas no Estado. Os estudos e levantamentos necessários ao início de seus processos de identificação e delimitação foram incluídos no Plano Operativo do PPTAL para 2005.

45

2.6

INDICATIVOS PARA A CRIAÇÃO DE NOVAS TERRAS INDÍGENAS Após a promulgação do decreto 1775/96, três das seis terras Jamináwa

então existentes no estado ainda não foram registradas definitivamente e estão sujeitas a contestações e revisões, ou 50% das áreas indígenas já reconhecidas. Nos últimos cinco anos, surgiram demandas para o reconhecimento e criação de novas Terras Indígenas no Estado. Um importante desafio é o de encontrar formas legais de reconhecimento destas terras de pretensão indígena que não encontram respaldo legal por não se enquadrarem no atual procedimento administrativo de regularização de Terras Indígenas, regulamentado pelo Decreto n.° 1775/96. Assim é relatado por Iglesias & Aquino (2005: 41):
[...] a continuidade dos processos de regularização de terras jamináwa [...] que integram ao mosaico contínuo de áreas protegidas, por meio de ações articuladas de diferentes órgãos dos governos federal e estadual, é hoje de fundamental importância para o reconhecimento dos direitos territoriais tanto de povos indígenas como das populações de seringueiros e agricultores. Sem essas ações, poderão continuar a ocorrer, ou se agravar, significativos conflitos territoriais, sociais e interétnicos [...] onde está situada a maioria das terras indígenas [...] no estado.

As áreas protegidas localizam-se na floresta e, dentre elas, estão as Terras Indígenas. E no que se refere, por um lado, à demarcação das terras dos Jamináwa, desde 1983, estes vêem na busca da conquista dos direitos coletivos das comunidades, que começou a ser aceita pelo governo em 1991. Diante de tudo isso, as áreas indígenas somente se consideram regularizadas depois de registradas e liberadas de todo e qualquer intruso.

46

MAPA 04: REGULARIZAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS DO ACRE

Fonte: ZEE/Ac, 1999.

47

A despeito dos avanços registrados no Estado no tocante à demarcação de terras jamináwa, estas sofreram grandes perdas advindas da instituição de grandes latifúndios, da construção de projetos rodoviários e da colonização sem planejamento adequado que foi trabalhada pelo INCRA durante as décadas de 1970 a 1990, as quais dificultaram ou impossibilitaram a continuidade da ocupação das terras onde, anteriormente, tinham sido habitadas por ancestrais do povo Jamináwa. A Funai defendia enfaticamente a demarcação de terras para os índios e seu imediato afastamento das comunidades brancas, como forma de preservar costumes e coisas desse tipo. Das seis terras jamináwa distribuídas no Acre, somente as Terras Indígenas (TI) das Cabeceiras do rio Acre e as TI do Mamoadate, ambas no município de Assis Brasil e Sena Madureira são efetivamente registradas. 2.7 AS BRs 364 E 317 E AS TERRAS INDÍGENAS DO ACRE A desestruturação sociocultural contribuiu e ainda colabora para agravar os problemas de sobrevivência dos Jamináwa, que ainda sofrem com a nova frente de expansão na Amazônia, a agropecuária. A regularização e ampliação das Terras Indígenas devem ser colocadas como condição fundamental das negociações de mitigação dos impactos ambientais e socioculturais aos Jamináwa e outros povos indígenas causados pela pavimentação das rodovias federais BR-364 e 317. De acordo com o pesquisador Jacó César Piccoli, a expansão agropecuária e a exploração madeireira, em especial aquelas realizadas em áreas ilegais, trouxeram grandes impactos para as populações indígenas. Contudo, impacto de ordem superior serão produzidos pela “implantação e pavimentação das BRs 364 e 317, que incidem direta e indiretamente sobre povos e Terras Indígenas do Acre e Sul do Amazonas” (PICCOLI, 2005: 241-242), contribuindo significativamente para agravar a problemática indígena a respeito de suas terras. Prossegue o pesquisador, afirmando que estes impactos fatalmente virão acompanhados de um processo de desestruturação socioeconômica, política e cultural nas suas formas de organização tradicional, sendo possível antever o advento de diversas e variadas patologias sociais:

48

[...] alcoolismo, prostituição, tráfico de drogas, desaldeamento, corrupção, insegurança, desemprego, subemprego, mendicância, perda da aptidão agrícola, desorganização social, desestruturação econômica, desestabilização política, exploração indevida de recursos naturais, invasão territorial, doenças, conflitos violentos e todas as mazelas decorrentes do desenvolvimentismo, com repercussão irreversível para o futuro das novas gerações, inviabilizando sua continuidade étnica e cultural (PICCOLI, 2005: 260).

Figura 9: Pavimentação das BRs causando impactos diversos, 2005.

As Terras Indígenas estão frente a uma outra realidade advinda do processo de planejamento desenvolvimentista do governo federal que, na lei de criação das RESEX, em seu Art. 5º, ficam asseguradas as obras de pavimentação e a manutenção do tráfego na BR 364, devido a sua relevância para a segurança e defesa do território nacional, bem como para o fortalecimento dos sistemas de transporte, energia e comunicações da região, de acordo com o estabelecido no Decreto no 4.411, de 7 de outubro de 2002, e no art. 2o, inciso IV, do Decreto no 4.340, de 22 de agosto de 2002. Mas quem garantirá a segurança e a defesa dos territórios indígenas Jamináwa, cortados pelas BRs, de madeireiros bandidos, narcotraficantes, desflorestamentos para monoculturas, queimadas ilegais e outros adjetivos negativos advindos da pavimentação? Isso sem contar as transformações consideráveis na floresta nativa. O quadro mostra uma configuração do universo indígena da região acreana que vem sendo sistematicamente impactado por iniciativas desenvolvimentistas.

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Descrição das etnias, situação das áreas de Terras Indígenas do Estado do Acre impactadas diretamente pelas BRs-364 e 317
TERRA INDÍGENA MUNICÍPIO UF ÁREA (ha)

N

ETNIA

ALDEIA SÃO LOURENÇO

POPULAÇÃO

SITUAÇÃO

52 70 25 42 66 36 30 61 188 66 72 150 42 39 130 25 35 92 1221 413.759
A DEFINIR

1

CABECEIRA DO RIO ACRE

JAMINÁWA

ASSIS BRASIL -AC

ANANAIA BOCA DO PATO 3 CACHOEIRAS

78.512 REGISTRADA

3 4

GUAJARÁ JAMINÁWA DO ALTO RIO CAETÉ

JAMINÁWA JAMINÁWA

S. MADUREIRA - AC S. MADUREIRA-AC

GUAJARÁ BUENOS AIRES EXTREMA LARANJEIRA EXTREMA LAGO NOVO SANTA CRUZ

600 21.000

A DEFINIR A DEFINIR

5

MAMOADATE

JAMINÁWA

JATOBÁ
ASSIS BRASIL-AC

MANCHINERI S. MADURE IRA ·AC

PERI CUJUBIM BETEL BOCA MAMOADATE ESPERANÇA

313.647 REGISTRADA

6

SERINGAL GUANABARA

MANCHINERI JAMINÁWA

ASSIS BRASIL-AC

SER. GUANABARA

Fonte: Piccoli (2005)

Piccoli prossegue relatando que a pavimentação dessas rodovias no Estado do Acre trouxe à tona novamente: “o debate sobre a relação entre desenvolvimento e seus influxos sobre territórios e populações indígenas, no âmbito regional. De forma similar, os eventos ocorridos na década de 70 em outras regiões do Brasil são paradigmáticos para compreensão do problema” (PICCOLI, 2005: 243). Cita como exemplo, o caso da BR163 (Cuiabá-Santarém), BR174 (ManausBoa Vista), BR 364 (Cáceres-Ji-Paraná), todas com empreendimentos oficiais e privados de infra-estrutura que vieram acompanhadas de ações desastrosas e impactantes nestas regiões, interferindo e criando uma problemática estrutural nos territórios indígenas e onde se ampliou a desintegração social.

50

Com relação ao caso do Acre e sul do Amazonas – precisamente os Jamináwa – as ações impactantes a estes territórios indígenas permitem mostrar que existem quatro tipologias impactantes diferentes, enunciadas por Piccoli (2005): territorial, ambiental, econômica e sociocultural, os quais se entrelaçam como os elos de uma corrente. 2.8 IMPACTO TERRITORIAL Para os Jamináwa, bem como outras etnias, tanto a territorialidade quanto o processo de seminomadismo têm profundas conotações culturais e de manutenção da sobrevivência; a primeira amparada pela legislação e a segunda criticada pelo “branco”. Estes impactos vão além de características de espaço de produção de atividade econômicas para o mercado. Logo, uma simples ocupação do entorno das suas terras tornando-as propensas às invasões territoriais que podem acarretar na prática de grilagens e conflitos. No Acre, temos sob este impacto as terras dos Jamináwa do São Paulino, Mamoadate, Jamináwa do Guajará e os do Rio Caeté, além de outras. Sem contar a polêmica de estas terras também fazerem parte de sobreposições de terras que compõem o mosaico de áreas protegidas do Acre, último objeto de estudo desta unidade. 2.9 IMPACTO AMBIENTAL
A ação humana difere da do animal quanto a sua influência sobre o mundo natural, pelo fato de não ser limitada por compensações ou por equilíbrios. (G. P. MARSH)

Estas intervenções antrópicas (desflorestamento, monocultura agrícola, colonização agrícola indiscriminada, expansão agroextrativista, assoreamento dos rios, igarapés e outros cursos de água e intensificação da pecuária, pavimentação de rodovias, abertura de estradas, ramais e varadouros etc.) nos ecossistemas12 são as principais causas dos impactos ambientais que contribuem para um processo permanente de redução da fauna, da flora, aumento da poluição e desequilíbrios
12

- Se considerarmos que os ecossistemas são conjuntos integrados e que qualquer intervenção antrópica requer cuidados e atenções especiais, a pavimentação das rodovias BR 317 – trecho de Boca do Acre-AM à Assis Brasil-Ac e BR 364 – trecho de Rio Branco à Cruzeiro do Sul-Acre, “já vem causando” e causará “ainda mais”, diversos efeitos e conseqüências do ponto de vista ambiental (...) com comprometimento dos recursos florestais (Piccoli, 2005: 248). Os grifos são nossos.

51

ambientais. Os índios Jamináwa mais afetados por este processo impactante são aqueles que habitam as TI das cabeceiras do Rio Acre (Kaiapucá e São Paulino), em Assis Brasil, e os que moram a jusante da cidade de Sena Madureira, além das tribos isoladas que não possuem suas terras ainda demarcadas. 2.10 IMPACTO ECONÔMICO Dentre os fatores econômicos que causam danos ou ameaçam as populações Jamináwa, podem relatar-se características ligadas à desestruturação organizacional da produção. Esta sai da produção tradicional, isto é, sai da pequena agricultura ou subsistência para outro modo de produção capitalista – a pecuária13. A pequena produção está desorganizada e não competitiva com relação à pecuária e a outras vigentes no mercado que são fomentadas pela tecnologia e capital privado ou oficial, ou seja, que somente serve a interesse de grande produção. Outro impacto econômico é o aliciamento da mão-de-obra indígena, a qual se mostra barata e é aceita pelos empreendimentos rurais da região que têm acompanhado as frentes de expansão do capital. Esta mão-de-obra é dependente da relação de patronagem14 que volta a se repetir nas fazendas como ocorria nos tempos dos seringais, muito embora em um outro momento, substituídas por iniciativas empresarias incentivadas e financiadas pelo próprio setor público como se pode ver abaixo:
A dependência e integração ao seringalismo que no passado subordinou compulsoriamente comunidades inteiras aos patrões seringalistas através das relações de aviamento. Posteriormente, 15 substituídas por iniciativas empresariais geridas pelo próprio poder público , tais relações poderão ser reeditadas criando novas formas de relações de dependência às instituições oficiais e empresariais localizadas em Sena Madureira e Assis Brasil, Feijó e Tarauacá (PICCOLI, 2005: 254).

13

- Ver, Aquino,(1987, 1991) e Iglesias & Aquino (1994).

- relações de patronagem e clientela que reproduzem as práticas seculares de sujeição/dominação, ocorrendo também a interiorização de esquemas de pensamento que conferem à identidade indígena uma conotação negativa, e levam esses índios a encarar outros povos indígenas depreciativamente, como "mais atrasados". Educação e Política Indigenista - Barbosa (1984). - Um exemplo dessa crise econômica foi vivenciada pelos povos Jamináwa e Manchineri. Na década de 70, a própria FUNAI foi responsável pela implantação de uma Lavoura de Café junto à aldeia Extrema, realdeando forçadamente os dois grupos, que viviam fora da área delimitada da TI Mamoadate. Dificuldades de ordem cultural e problemas de gestão findaram por promover o fracasso do empreendimento. Tais fatos ainda estão presentes e não foram devidamente expurgados da memória Manchineri (Yine) e Jamináwa.
15

14

52

No interior de suas terras, a tribo Jamináwa optou pela criação de gado, abrindo novas áreas para introdução de pastagem, que é uma atividade irreversível diante da conservação dos recursos naturais a curto e médio prazo. Para melhor entender, pode-se dizer que antes da década de 1980, os empreendimentos de criação de bovino ou suíno ou de plantação de arroz eram individuais e pouco significativos, assim como as atividades extrativistas. Depois do contato com a civilização, tornou-se comum, entre diversos grupos indígenas, criar animais domésticos como galinhas, patos, porcos e até bovinos, para o consumo da carne e comercialização. Os índios também têm o costume de criar bichos de estimação, como araras, papagaios, macacos e outros, para, mais tarde, barganhar por outros produtos de seu interesse. De acordo com a visão de Aquino & Iglesias (2005), muitas famílias que moravam em colocações de centro, priorizando estratégias econômicas que incluíam a produção de borracha, optaram por migrar para novos locais de moradia situados na beira dos rios. Nessas novas aldeias, intensificaram os cultivos agrícolas de terra firme e a criação de animais domésticos, inclusive pequenos rebanhos bovinos, buscando garantir uma subsistência mais farta e obter novos produtos para venda aos regatões e pequenos comerciantes dos centros urbanos. Esta concentração das aldeias e famílias ao longo dos rios tem, em muitas Terras Indígenas, resultado no uso mais intensivo dos trechos de florestas e capoeiras situados nas margens para a agricultura e a criação de animais, dentre os quais, mais recentemente, rebanhos bovinos. Em certas aldeias, este processo levou ao comprometimento da cobertura florestal e da proteção natural das margens, dificultando a navegabilidade dos rios e privando as caças e peixes de fontes naturais de alimentação. Resultou, ainda, na escassez de espécies florestais para a construção de casas e canoas. Dentre as palheiras, o oricuri é a principal palha usada para a cobertura de casas. A do cacau também é bastante utilizada. A fruta do cocão é usada como alimento, pois dela se tira o leite, o óleo e o bago. Ambas palheiras, todavia, são derrubadas quando aproveitadas como cobertura das casas. Quando esta combinação ganha forma, a estratégia mais comumente utilizada é a mudança da aldeia para um local mais rico em recursos naturais.

53

Todavia, a criação de gado é uma atividade bem desenvolvida por uma quantidade considerável de famílias na TI Mamoadate há mais de uma década. Nos anos 1990, todavia, o crescimento dos rebanhos bovinos têm sido visível em muitas Terras Indígenas. A pavimentação da ligação rodoviária Acre--Peru por Assis BrasilInampari poderá alterar essa situação. 2.11 IMPACTO SOCIOCULTURAL Dentre os Jamináwa, o impacto sociocultural é marcante. De certo modo, tudo começa com o contato com o não-índio, desde os primórdios de sua história, que causou uma desintegração local e migração interna, com assimilação de valores culturais não-indígenas. Ao mesmo tempo, transferiu valores de sua

sociodiversidade à cultura branca. Os impactos socioculturais estão interligados com os demais impactos, visto que resultam das relações entre as comunidades indígenas e a sociedade regional; estes são determinados pelos impactos de ordem econômica, ambiental e territorial. Dentre os impactos socioculturais apontados por Piccoli (2005), os que mais chamam a atenção são: a desestruturação social das comunidades Jamináwa com o questionamento de lideranças tradicionais por novas lideranças oriundas de contatos externos; os conflitos interétnicos motivados por pessoas e idéias de não-índios – estrangeiros ou nacionais no interior das comunidades, assim podemos citar tanto as missões “evangelizadoras” quanto as ONGs ambientalistas. A desestruturação familiar aliada a miscigenação descontrolada e o desaldeamento para cidade na busca de um trabalho remunerado são casos que podem se observar nestes grupos, onde jovens buscam trabalho em casas de famílias com melhor situação financeira. A mobilidade social, a implementação da migração interna causada pelo desenvolvimento regional como já vem ocorrendo com o povo Jamináwa na direção da aldeia para os centros urbanos, uma vez que os projetos rodoviários vão se firmando cada vez na busca de integração local, regional e assim sucessivamente. Quando nada encontram na cidade, ainda há o surgimento de novos tipos de endemias e doenças, debilitação física em decorrência das más condições de sobrevivência no meio urbano. A conseqüência disto é o surgimento de patologias

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sociais, uma vez que recebem um tratamento com estereótipos de inferioridade16, a desmoralização e insegurança podem levar ao declínio social como alcoolismo, prostituição feminina, consumo e tráfico de drogas, furto de pequenos valores e outras práticas marginais. Portanto, é possível afirmar que a maioria dos impactos já afeta e continuará a afetar ainda mais grupos Jamináwa e outras etnias. Cita Piccoli (2005: 260) que essas determinações econômicas, conjuntamente com os impactos socioculturais, têm o processo principal que engendra todas as demais formas de impactos. O conjunto de fatores impactantes, deve ser considerado como totalidade, que tem como causa primordial a expansão do capital na fronteira amazônica sulocidental. O capital, como sempre, parece insistir em desconhecer os direitos dos povos autóctones. Esse capital não conhece fronteiras, nem respeita pátria ou nação. Piccoli conclui com o seguinte resumo, onde se pode afirmar que, em decorrência da pavimentação das rodovias BR 317 e BR 364 e de seus impactos econômicos, ambientais, e socioculturais, os Jamináwa fatalmente enfrentarão um processo de desestruturação socioeconômica, política e cultural nas suas formas de organização tradicional, sendo possível antever o advento de diversas e variadas patologias sociais: alcoolismo, prostituição, tráfico de drogas, perda da corrupção, aptidão,

insegurança,

desemprego,

subemprego,

mendicância,

desorganização e desestruturação socioeconômica, desestabilização política, má exploração de recursos naturais, invasão territorial, doenças, desaldeamento, conflitos violentos e todo labéu decorrente do desenvolvimentismo, com repercussão irreversível para o futuro das novas gerações, inviabilizando sua continuidade étnica e cultural. Serão as BRs tão boas assim quanto afirmam os defensores da pavimentação? Como se pode observar, as estradas federais no Acre, apesar de trazer no seu esplendor a majestade do crescimento econômico amparado pelo capital internacional, dito desenvolvimento, quiçá, sustentável, trazem consigo todas as mazelas sociais delas decorrentes.

- AQUINO (1982: 74-76) relata um inventário das qualificações negativas atribuídas aos índios que perdurou por muito tempo no pensamento do não-índio, em especial daqueles que advinham de outras regiões do Brasil.

16

55

MAPA 05: Mosaico de Áreas protegidas com inclusão de território indígena. (Fonte: ZEE, 2004)

56

CAPÍTULO III

3.

DE ONDE VIERAM E PARA ONDE VÃO OS JAMINÁWA?
[...]. – Você poderia me dizer, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui - perguntou Alice. [...] – Isto depende muito de onde você quer chegar - respondeu o gato”. (Caroll, L. As aventuras de Alice no País das Maravilhas, p. 144)

Para relembrar sua origem, o povo Jamináwa adveio da junção de diversos grupamentos da região do médio rio Ucayali, no Peru, onde habitam vários grupos da família lingüística Pano, falantes da língua Nuku Tsãi. Lá estavam os Xixinawa (gente do quati), Kununawa (gente da orelha-de-pau), Mastanawa (gente do sacado), Bashonawa (gente da mucura), Sharanawa (gente povo bom) e Yawanawá (gente do queixada). Esses grupos, que eram conhecidos como grandes guerreiros, realizavam expedições para guerrearem entre si e com outros grupos da região. O primeiro contato dessas diversas etnias com a sociedade branca deu-se com a chegada dos caucheiros de origem peruano e seringalistas brasileiros que utilizavam os Jamináwa como mão-de-obra na exploração dos recursos da floresta, principalmente borracha, castanha-da-amazônia e peles de animais silvestres, onde a necessidade os obrigou a formarem grupos com a denominação de Jamináwa. Entretanto, não houve uniformidade nos grupos e, em alguns momentos, tornou-se impossível a convivência, devido a essas diferenças grandes, onde a única característica marcante foi a divergência interna. Com a circulação de ferramentas de metal, as redes interétnicas de intercâmbio e a provável disseminação de doenças hoje banais, como gripe, sarampo e coqueluche, e outras mais graves, como tuberculose e varíola, vitimaram, muitas vezes, sociedades indígenas inteiras. Há uma série de outros argumentos para explicar a alta taxa de morbi-mortalidade dos indígenas a essas doenças. Uma das mais prováveis, no entanto, é a da falta de assistência e de alimentação adequadas. Outro fato é que os Jamináwa são, um povo difícil de trabalhar em função das divergências internas, mostrando ser um

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povo dividido, no entanto, divergências internas são comuns a praticamente todos os grupos indígenas e, inclusive, outros grupos étnicos de forma geral. Isso não significa, necessariamente, divisão. Porém, em certos casos, as divergências podem levar às fricções e/ou formação de novas aldeias. Os Jamináwa, nestes seus primeiros contatos, em que eram recrutados para trabalhar em seringais sob domínio da patronagem, trabalhavam ainda de mateiros florestais, servindo aos patrões nas aberturas de estradas de seringa e varadouros de escoamento de produtos e também como extratores de seringa e caucho. Sempre mantiveram a agricultura de subsistência em reduzida escala, pois serviam até de mão-de-obra nos grandes roçados dos patrões seringalistas. Exerciam também a função de remadores e varejadores nos barcos dos senhores dos barracões. Dizem que os Jamináwa, por ser um povo guerreiro, no passado, faziam andanças para lutar com grupos inimigos e até mesmos com seus parentes Jamináwa. De mudança em mudança, anos depois, mudaram das aldeias para os seringais, e alguns deles se estabeleceram no seringal Senegal, de onde saíram para a cabeceira do rio Acre, onde já se encontrava morando um outro grupo de Jamináwa, na época liderado pelo Sr. José Correia, formando a aldeia Ananaia, no município de Assis Brasil, que se tomou a principal daquela Terra Indígena. Mesmo antes do contato, eram constantes as dispersões de famílias que mudavam de aldeias e casas em visitas aos parentes e não tinham pressa de chegar, como afirma seu José Correia: “uma característica dos Jamináwa é o seminomadismo, revelado nas freqüentes mudanças de localização das aldeias e das casas” (FERREIRA, 2001:33). Essa perambulação deixa clara uma

característica marcante desse povo, revelada nas freqüentes mudanças, e as dispersões de famílias, quase sempre motivadas pelas divergências internas. Mesmo vivendo de andanças, os Jamináwa possuem uma economia da qual tiram seu sustento. A economia dos Jamináwa, ainda hoje, é baseada principalmente no cultivo da macaxeira e banana, na caça e na pesca em pequenas proporções, ou seja, para subsistência. A venda para cidade somente se realiza a partir do excedente de cada atividade produtiva, que é uma coisa não muito

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freqüente. A família nuclear possui seu roçado plantado pelos seus integrantes, se tornando economicamente autônoma, mas não exclui relações de reciprocidade entre as demais unidades familiares que compõe o grupo. A carne de caça ou outra proteína animal e o peixe são distribuídos para toda a comunidade, ou seja, nada de cultura permanente que prejudique as decisões a respeito de suas andanças. Quando se deslocam para as cidades, geralmente trazem alguma coisa que possam vender ou trocar (farinha, borracha, castanha, artesanato, cerâmica, cestaria, tecelagem, etc.) ou para receberem sua aposentadoria que ficou, por vários meses, acumulando. Há duas versões lógicas, uma é que compram seus mantimentos necessários, retornando em seguida e a outra é que aqui permanecem até consumir “tudo” que trouxe ou conseguiu aqui, nas mais diversas formas. A cultura material passa por uma revitalização, com o sentido de tentar recuperar algo que perdido, onde a cerâmica, a tecelagem e a cestaria têm sido os artesanatos mais enfatizados. A arte oral e musical Jamináwa é muito rica, com belos cantos xamânicos conhecidos por poucos. Homens e mulheres têm seus cantos, que descrevem os sentimentos do autor e as peripécias de sua vida. Por volta de 1937, os Jamináwa chegaram ao Iaco e mantiveram relações amistosas com os Manchineri, e, conduzidos por estes, adentraram nos seringais para extração do látex. Este relacionamento perdurou por mais de meio século de contato com a empresa seringalista que contribuiu para acirrar uma nova discordância no seio dos grupos, motivada pela queda acentuada da atividade extrativista, falência dos seringais e falta de coordenação efetiva nos grupos. Outro fato é que as cidades avançaram tanto que as aldeias ficaram muito próximas, favorecendo este deslocamento de tempo em tempo. Alguns grupos alegam que, com a falência dos seringais e discordância intragrupal, também houve uma decadência nas lideranças indígenas. Esta liderança antigamente era um grande caçador, provedor incomum, que tinha o dom da oratória, mantinha várias mulheres, além de ter o poder da persuasão na comunidade, mediando conflitos internos e externos e não temendo forças ocultas. Para isso, conhecia as regras de sua tradição. Também não temia tomar o shori (ayahuasca), que para eles é um remédio. Acreditam que tomar shori traz saúde ao corpo, mas podem também aplicar o bagaço do cipó sobre as partes doentes do

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corpo. O shori também tem um lado lúdico, que permite ver ou viajar. Essas sessões são organizadas pelo koshuit (pajé), uma espécie de doutor, que detém o poder sobre a vida, centrando na habilidade de matar. Embora com a desintegração presente dentro dos grupos e entre os grupos Jamináwa, a ultima pessoa de presença marcante dentre os Jamináwa foi o Sr. José Correia, com capacidade para manter o povo unido (alguns grupos) que viviam na TI da Cabeceira do rio Acre. Contudo, a influência política de fora contribui ainda mais para a desestruturação desses grupos. Desde 1990, o povo Jamináwa vem passando por um estado de crise, inclusive de identidade social. Um fator complexo, até mesmo para os próprios Jamináwa, resultando na vinda de famílias inteiras para as periferias das cidades, principalmente da capital. A realidade da cidade logo se apresenta como uma competição diária para garantir a sobrevivência, fazendo com que passem a viver um tempo diferente e difícil, fugindo das características de seu modo de vida tradicional. A situação em Rio Branco começou a incomodar parte da pequena burguesia (classe média), levando as autoridades governamentais a exigirem que a FUNAI de Rio Branco tomasse providências, no sentido de retirar os índios das ruas e da mendicância, além do fato de ser vergonhoso para quem passava e via inúmeras índias Jamináwa pedindo nas ruas acompanhadas de filhos menores. A situação era de conhecimento dos dirigentes das comunidades, que discordam e temiam que essa atitude viesse a produzir uma má imagem de sua nação perante a sociedade. O caso foi parar no Juizado da Infância e da Adolescência da capital do Estado, o qual chegou a publicamente anunciar que, se a Funai não tomasse as providências necessárias à definitiva resolução desse problema, este juizado solicitaria o recolhimento aos abrigos as crianças Jamináwa que andassem perambulando pelas ruas, acompanhadas ou não por suas mães e responsáveis17. Pressionada, a Funai local promoveu, entre maio e agosto de 1997, a transferência de 67 índios para a aldeia Betel, na TI Mamoadate, e de outros 17 para a aldeia São
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A partir de 1999, sob coordenação do MPF, foi formado o "GT Jamináwa", composto por órgãos dos governos federal e estadual, a UNI e organizações indigenistas, com o objetivo de buscar soluções para o problema da "mendicância Jamináwa". Tendo se reunido esporadicamente nos últimos cinco anos, o GT não chegou a propor soluções definitivas e famílias Jamináwa, principalmente durante os meses do verão, continuam a ser vistos mendigando e perambulando pelas feiras livres de Rio Branco, de várias cidades do Vale do Acre e, mais recentemente, de Sena Madureira. Para um histórico mais extenso dos processos que levaram à constituição desse GT, ver Aquino (1999a), MPF-Acre (1999,).

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Lourenço, na TI Cabeceira do Rio Acre. No primeiro trimestre de 2004, o Conselho Tutelar de Sena Madureira convidou a FUNAI a prestar esclarecimento a respeito do assunto de que existiam até suspeitas de que algumas menores já estivessem se prostituindo e se embriagando nos botecos locais, onde a polícia fechou dois bares que vendiam bebidas aos indígenas, e tomar as devidas providências. A perambulação ou seminomadismo é tanto que:
Os Jamináwa já tinham tentado morar com os Apurinã da Terra Indígena (T.I)124 e não tinha dado certo. Tentaram morar com os Jamamadi da Terra Indígena Kapana no sul do Amazonas, e também não deu certo. Visitaram a Terra Indígena Jamináwa do Igarapé Preto, no município de Rodrigues Alves, com o propósito de se fixar nela, outra vez sem sucesso. Onde o povo não é Jamináwa é “Sainawa”. As outras nações não lhes aceitavam em seu habitat (FERREIRA, 2001: 8).

Para complicar ainda mais, os Jamináwa não conseguem ter suas localidades para sobreviver e ainda houve ocorrência de tiros com morte entre os Jamináwa e Manchineri, na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, em 1996, com morte entre os próprios Jamináwa, fortalecendo ainda mais a desavença e dispersão entre o grupo, contribuindo para aumentar a migração para os principais núcleos urbanos do Acre, tais como: Assis Brasil, Brasiléia, Rio Branco e Sena Madureira. Com isso, complica-se ainda mais a situação destes grupos, quando se verifica a mendicância entre mulheres adultas e as crianças que se distanciam do seu modo de vida tradicional nas matas abundantes em variedade de alimentos. Os Jamináwa, enquanto populações excluídas (exclusão social, mas querem se incluir), são habitantes do centro da mata e da periferia miserável das cidades: representam o "selvagem arredio" ou o índio "desaculturado" que pede esmola nas ruas das cidades do Acre. Encarnam as contradições mais dramáticas do imaginário e da história da Amazônia. Podemos encontrar as duas versões dos Jamináwa numa única página da Gazeta de Rio Branco (17/09/97): uma matéria informa da sua presença numa favela da capital acreana e uma outra atribui aos "Jamináwa" uma série de ataques que aterrorizam os habitantes de um remoto seringal. No mesmo ano que esta notícia veiculava nos jornais locais, ocorreu a demarcação das terras dos Jamináwa – a Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, local de conflito entre as tribos Jamináwa e Manchineri com assassinato de um

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indígena, tentando evitar novos conflitos entre indígenas, criaram no rio Iaco a Comunidade Betel, na mesma Terra Indígena Mamoadate, amenizando o clima de rivalidade. Hoje, os Jamináwa contam com 16 aldeias em 6 Terras Indígenas espalhadas por todo o Estado, embora mereçam ainda mais. Entretanto, a problemática da mendicância, em Rio Branco, continua mostrando que o problema não é de ter um local para trabalhar e tirar o sustento e sim uma problemática sociocultural. Atualmente, rumam em direção à sua reestruturação social, política e cultural, processo desencadeado pela necessidade de fazer uma reflexão sobre sua situação. De acordo ainda com o jornal, houve uma assembléia realizada em meados do ano de 2001, em que se reuniram todas as comunidades Jamináwa, resultando na criação da Organização das Comunidades Agro-Extrativistas Jamináwa (OCAEJ), com expressividade e entusiasmo de muitos jovens indígenas, que começaram a ter maior convivência e participação na vida social ainda na fase da adolescência, - muito embora, há que se considerar que a ‘adolescência’ é uma categoria de faixa etária que nem sempre se encaixa em todas as sociedades devido, principalmente, ao sistema escolar. 3.1 A MIGRAÇÃO OU EXPULSÃO INDÍGENA NO ACRE No Acre, os movimentos migratórios dos índios Jamináwa para os centros urbanos começaram a aumentar a partir de 1970, quando os fazendeiros e os madeireiros tomaram a posse da terra. Expulsos de seu habitat, os Jamináwa começam a pressionar, embora de modo pacífico, por suas terras. A partir desse momento, iniciou-se a luta pela demarcação de Terras Indígenas ou o deslocamento mais acentuado para os centros urbanos. Diante deste dilema – a conquista de sua terra ou a vinda para cidade, prevaleceram vários aspectos da transitoriedade cidade/mata/cidade por inúmeros fatores. Os movimentos de mudanças para a cidade indicam muitos fatores que deveriam ser estudados com mais cautela, tais como: as questões das terras, o trabalho no movimento indígena, melhoria de vida e os conflitos e disputas internas. A verdade é que, chegando à cidade, estes migrantes jamináwa sonham ter uma vida melhor e passam a lutar pela sobrevivência na cidade. Há quem diga que vários

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jamináwa foram para cidade por falta de opção de melhoria de vida na aldeia ou para aprender a defender seus direitos na busca de encontrar alguma representação de organizações, como FUNAI, Pastoral do índio, CPI (CPI-AC não é uma organização indígena, mas indigenista) e etc. Outras vezes em que os jamináwa se aproximam do meio urbano, não é somente para fixar residência, porém, na maioria de suas visitas curtas e freqüentes às cidades são por diferentes motivos: compra de mercadorias, vendas de seus produtos, acompanhamento de parente para receber aposentadoria, tratamento no hospital, recebimento de salário, cursos de capacitação (professores, agentes de saúde e de agroflorestais), solicitação de documentos, negociação com autoridades. Afirma João Pacheco de Oliveira (1998) que a falta de terras adequadas para sua sobrevivência é um dos fatores que leva à migração indígena e à busca de trabalho assalariado em fazendas e cidades. E, ainda, segundo as pesquisas de Virtanen (2005), em Rio Branco-AC, com jovens indígenas, explica que os motivos para a mudança dos Jamináwa residentes em Rio Branco são a busca de trabalho assalariado, juntar-se aos familiares já residentes na cidade ou morte dos pais. No entanto, a maioria daqueles que, mesmo nascidos em Terras Indígenas, após a década de 1970, provêm de colônias ou de colocações onde suas famílias trabalhavam para sua sobrevivência. Assim, muitos desses jovens não viveram diretamente em Terra Indígena demarcada junto com o seu povo. As famílias que ficaram fora da terra jamináwa demarcada mudaram-se para as cidades, saindo das colônias ou das colocações, uma vez que o declínio do extrativismo tradicional já estava sacramentado. Outro fato é a existência de um fluxo migratório para os centros urbanos, saindo de suas terras que ficam próximas aos municípios, por um período curto e, posteriormente, chegam a Rio Branco após uma temporada nos municípios com menos habitantes. Após sua chegada aos bairros periféricos e pobres, amplia-se a marginalização dos Jamináwa, uma vez que são atingidos pelo desemprego ou subemprego. Diante de poucas alternativas, praticam a perambulação nas ruas e de casa em casa; crescem os problemas com o alcoolismo que trazem a desarmonia entre seus familiares e parentes, constituindo uma mazela generalizada nas

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populações adultas e/ou mais velhas. Há, ainda, a suspeita de prostituição entre as jovens indígenas, que, juntamente com outras pessoas da cidade, contribuem para a desordem social. Apesar de situações sociais na cidade apresentarem-se bem complexas, algumas características dos jovens indígenas jamináwa são demonstradas na importância pelos estudos escolares que objetivam, em um futuro próximo, conseguir um emprego, superar as dificuldades socioeconômicas, as dificuldades de habitação e o preconceito. Em Rio Branco, alguns órgãos governamentais, como Secretaria Estadual de Saúde, a Casa do Índio’, atualmente, de responsabilidade da FUNASA, Secretaria Estadual de Educação (Escola da floresta) e SEATER – Secretaria de Assistência Técnica e Extensão Agroflorestal (Gerência de Extensão Indígena) têm trabalhado cursos de capacitação às populações tradicionais18, com um

acompanhamento de educação profissionalizante, como, por exemplo, a formação dos agentes de saúde e paraflorestais indígenas. Nestas populações, encontram-se os Jamináwa em programas de capacitação profissional florestal com o objetivo de melhorar a situação dos jovens e adultos estudantes indígenas para que voltem às aldeias. Importante é salientar que a maioria destes indígenas jovens, seja em Sena Madureira, Brasiléia, Assis Brasil ou em Rio Branco, têm pouco conhecimento da realidade na aldeia ou da cultura do seu povo, pois a maioria deles já não fala mais a língua materna ou não têm a vontade de falar sobre suas tradições, talvez porque não seja mais “sua”. Muitas vezes, foram obrigados a esconder suas raízes nativas para evitar constrangimentos e humilhação, embora existam grupos, dentre os Jamináwa, que preservem a sua arte (música, cerâmica tecelagem, etc.), seu costume e ainda transmitem sua tradição. Existem ainda grupos Jamináwa que

- São consideradas Populações Tradicionais aquelas comunidades que, tradicionalmente e culturalmente, têm sua subsistência baseada no extrativismo de bens naturais renováveis (UICN,1995). Contudo, muitos insistem em dizer que populações tradicionais vivem ou podem viver em equilíbrio duradouro com a natureza. O maior problema aqui é que essa opinião não costuma vir acompanhada por evidências que a sustentem, mais parecendo a defesa cega que se faz de uma posição ideológica. Para diferentes opiniões nesse debate, ver, por exemplo, Benjamin, C (1993), Urban, T. (1998), Dourojeanni, M. J. & Pádua, M. T. J. (2001) e Garay, I. E. G. & Dias, B. F. S., orgs. (2001).

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começam a dar importância para a cultura indígena, embora não queiram voltar mais a viver nas aldeias por questão de adaptação ou até rejeição por parte daqueles que lá habitam. Esse interesse em aprender a sua história, o artesanato de seu povo, o mito (xamanismo e “crenças”), fica prejudicado em função desse difícil acesso ao novo entrosamento entre as aldeias. 3.2 A PORANGA QUE ALUMIA O VARADOURO No contexto da família, os Jamináwa estão com o seu próprio grupo étnico19, correspondendo a uma expressiva população indígena no Estado. O grupo étnico é importante para os Jamináwa, visto que serve como ponto de referência, e ainda se possa usar até para se distinguir dos outros brasileiros e/ou até mesmos de outras etnias, mesmo com seu passado sofrido pela humilhação, maus-tratos e, algumas vezes, apesar de sofrer o preconceito. Em geral, para os índios, o grupo étnico é formado pelos parentes da cidade e pelos parentes que moram nas aldeias. Nas cidades do Acre, em especial em Rio Branco, quando os Jamináwa participam do movimento etno-político ou estão com os outros povos indígenas, produzem o capital social20 - no sentido de etnicidade e da cultura própria. Segundo Virtanen (2005), no Acre, o movimento migratório indígena se intensificou nos anos 1970. Junto com ele, veio o movimento etno-político indígena e os movimentos dos seringueiros, nos empates21, no combate a grilagem de terra, contra a expulsão dos índios de suas terras e na luta contra a introdução de nova

- O Artigo 3 do Estatuto do Índio (Lei No. 6.001, de 19 de dezembro de 1973) define o índio como "todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional." - Capital social, segundo Born (1995), é entendido como um conjunto de redes e relações sociais, normas de conduta, confiança e respeito que permitem aos integrantes identificar valores e interesses comuns e diversos, públicos e corporativos, na busca de soluções para problemas coletivos, sendo mais uma força integrante do movimento ambientalista. Nas ciências sociais a sustentabilidade institucional também é tratada sob a categoria do capital social. Sobre o capital social ver além do clássico de Putnam (1996), o estudo bibliográfico de AbuEl-Haj (1999). - De acordo com os estudos de Silva (1999) os empates foram formas de resistência que os seringueiros e produtores rurais desenvolveram para impedir que os fazendeiros fizessem a derrubada da floresta das suas propriedades. Este instrumento do campesinato foi praticado, sobretudo nos anos 70 e 80.
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frente de expansão do capitalismo com sua nova base produtiva – a pecuária22, que é um sistema de produção de caráter patronal, mas que, no momento, não é objeto principal de nosso estudo. Este movimento indígena foi motivado por missionários instalados em suas terras, vários jovens também vieram às cidades para estudar e se tornarem pastores. Todos esses migrantes sonhavam com uma vida melhor, lutaram pela sua sobrevivência e aprenderam a defender seus direitos ao encontrar na cidade representantes de organizações indígenas e indigenistas. Nos últimos anos, as organizações sociais e os próprios grupos indígenas têm se manifestado contrários a este avanço desenfreado de degradação dos ecossistemas. Para tanto, têm promovido os encontros culturais e políticos dos povos indígenas que têm aumentado a integração entre eles. Estes momentos são importantes porque podem compartilhar suas experiências em comum. O movimento indígena repercute em nível nacional e internacional. Assim, identifica-se o jamináwa como capital útil, por exemplo, quando mostra o seu ser indígena, especialmente no meio do seu povo ou em outros grupos indígenas, pois o conhecimento, a consciência de ser índio, dá-lhe um sentimento de pertencer a um grupo social próprio. Isto quer dizer que, em certos espaços sociais, o ser indígena tem vantagens, pois poderia servir como capital social. Nessa perspectiva, falar de grupo social (de uma organização indígena, por exemplo) e de espaço social significa reconhecer que o poder varia correlativamente à posição social, assim como seus interesses. Bourdieu (1989: 138) afirma que [...] falar de espaço social é dizer que não se pode juntar uma pessoa qualquer com outra pessoa qualquer, descurando as diferenças fundamentais, sobretudo culturais e econômicas. Trazendo para a realidade do indígena (Jamináwa), é o grupo social que se interessa em aprender as práticas de xamanismo e os rituais de ayahuasca, praticado pelos jamináwa e por outras aldeias como kaxinawá e manchineri. Este grupo pode ser bem heterogêneo, uma vez que se reúne com outros grupos étnicos.

- Na pecuária pura acreana os rendimentos anuais são: R$ 21.985,00 (365 animais/200ha de pasto), R$ 85.110,00 (2400 animais/900ha de pasto) e R$146.470,00 (1600 animais/1175ha de pasto) (UNICAMP/CIRAD,2001).

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As experiências supranormais e crenças comuns são compartilhadas gerando confiança entre eles, tornando-se, assim, um grupo de referência. Nos rituais de ayahuasca, reúnem-se os familiares, crianças, parentes e é uma oportunidade de ouvir as músicas na língua indígena. Segundos os estudos de Virtanen (2005), com jovens indígenas em Rio Branco-AC durante os anos de 2003 a 2005, enfatizam que alguns encontros culturais ocorrem nos espaços urbanos, estabelecendo novas relações sociais e mantendo a sua tradição. Manifestam seu estado de espírito e sua harmonia com a natureza, quando estes são representados através de danças, pinturas corporais com urucum e jenipapo, e os

vestimentas, enfeites, e,

adornos assim,

encontros culturais tornam-se transmissores culturais.

Esses espaços servem para mostrar a identidade indígena e perpetuação Estas de sua

tradição.

práticas
Figura 10: Adornos jamináwa para festa (Fonte: SEPI, 2006)

ritualistas funcionam como os

momentos essenciais para manter conhecimento, crenças, práticas tradicionais e, por último, a identidade cultural. 3.3 A CIDADE NA ALDEIA: NOVO HABITATUS O índio está procurando ocupar seu espaço dentro da área urbana, assim como a maioria está ocupando o seu espaço dentro da sociedade. O novo habitus jamináwa é devido às mudanças ocorridas com o próprio processo de globalização e no regime político, ao reconhecimento da população indígena e ao processo de reidentificação do espaço urbano-rural que ocorreu na década de 1990 com o povo brasileiro. Isso ocorre também devido aos contatos intertribais da população que descobre que eles fazem parte de uma população distinta e que se encontra em outras partes do Estado, até mesmo fora do território brasileiro, pelo uso da rede de

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computadores nas aldeias e escolas. No Acre, isto aconteceu principalmente devido à luta dos movimentos sociais23 que estabeleceu a identidade moderna jamináwa, como é típico para as culturas híbridas onde existe a resistência das culturas locais. Atualmente, os jovens mais esclarecidos percebem as vantagens de ser “jamináwa” nas relações inter-tribais e intra-comunitárias. Em algumas situações, o ser curador ou o conhecedor da pajelança, o saber cantar músicas indígenas, o contador de história indígena, poderão ser considerados como algo apreciado. Recentemente, também a população brasileira se interessa pela cultura indígena ou pelas práticas de cura. Nesses contextos, o indígena tem também um papel cultural especial que as outras sociedades, ditas urbanas, não possuem. O conhecimento de costumes e de práticas tradicionais pode servir como algo importante, pois a vivência do povo da floresta é transmitida oralmente e assimilada pelas observações, pela adaptação e pelas gerações futuras, uma sabedoria ímpar e sem precedentes. Também pode-se observar a recuperação de seus hábitos tradicionais, incluindo a feitura de cerâmica, a cestaria, a pintura e artesanato, que já são uma realidade. A diferença entre os Jamináwa e as outras etnias “acreanas” é que, apesar do contato com a civilizaçao há pouco mais 100 anos, perdeu muito mais do que conseguiu preservar de partes de sua cultura. O novo jamináwa sai da aldeia em busca de melhor moradia, educação para os filhos e um trabalho melhor. Reconhecem que são poucos aqueles que conseguem um sobressalto na melhoria das condições de vida. Eles alegam que não perderam, por completo, a sua cultura, mas, a cada ano, os contatos vão se intensificando, perdem um pouco mais de suas tradições (rituais, festas, danças, etc.). Eles aguardam os projetos de recuperação da cultura indigena local prometidos pelo governo do Estado, mas, muitas vezes, é em vão. Não estão conseguindo reduzir a extinção de sua cultura tradicional, que vem sendo, aos poucos, substituída por veículos de comunicação de massas, como a televisão, depois o computador e, por fim, a internet, que já se faz presente em outras etnias locais.

- O conceito “movimentos sociais”, adotado se refere a um conjunto de ações construídas e vivenciadas por segmentos sociais em cima de uma realidade comum a todos, criando um espaço social de força política capaz de promover mudanças substanciais. Ver Gohn (1997: 251).

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Na verdade, os Jamináwa saíram em busca de educação, saúde e condições mais dignas para sobreviver na cidade grande, da mesma forma que saem, no dia a dia, o seringueiro, o ribeirnho, o castanheiro e outros rumo ao centro urbano. Diante deste confronto entre a tradição e a modernidade, é a vida de um povo e o declínio de uma nação que procura não o melhor para si, mas, sim, para as gerações futuras, sobreviver e onde deveria viver com dignidade e orgulho. Esta é a pergunta mais comum que todo antropólogo costuma ouvir: “O aldeamento muito próximo às areas urbanas são positivas ou negativas?” De acordo com Baines (2001), parece uma pergunta mal-formulada, pois a questão das chamadas aldeias urbanas e índios citadinos abrange uma multiplicidade de situações diferentes, com histórias diversas de contato interétnico com as populações regionais, desde situações em que índios foram expulsos das suas terras até outras situações em que índios optaram pela vida na cidade em decorrência da falta de oportunidades de educação e atendimento adequado de saúde nas suas aldeias. Além disso, a migração indígena para os centros urbanos ocorre de maneira muito diversificada, desde o traslado de grupos familiares para bairros, onde já há um contingente grande de índios organizados politicamente, até casos de migração de indivíduos para a cidade em busca de empregos, tratamento de saúde, educação ou um novo estilo de vida. A outra pergunta popular é: “Se consegue preservar a comunidade indígena no contexto da cidade ou se a comunidade indígena é engolida no meio urbano?”. Conforme Baines (2001), sua resposta é, em grande parte, enganadora, baseada no preconceito humilhante de que o índio pertence à mata e deve permanecer na sua aldeia na mata. A situação dos povos indígenas no Brasil, onde o Acre não é exceção, é marcada por preconceitos historicamente enraizados e situações de relações sociais de dominação-sujeição altamente assimétricas entre “índios” e “brancos”. Na realidade, afirma a pesquisadora Célia Collet, em palestra para alunos da Universidade Federal do Acre – UFAC, que “ser índio é uma criação do branco”. O correto seria dizer que são povos pré-colombianos. Tentativas populares de argumentar que o índio na cidade “deixa de ser índio” sao muito comuns, mas são frutos de um preconceito altamente pejorativo quanto ao índio, que o congela no tempo e no espaço, colocando-o em oposição à

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vida urbana e relegando-o ao atraso, à pobreza e à ignorância. Preconceito que muitos índios têm internalizado em relação a si mesmos, como revela, por exemplo, o fenômeno do cabodismo na Amazônia (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1964)24. De fato, pouco se sabe sobre os índios citadinos no Acre e falta realizar mais pesquisas etnológicas de longa duração sobre as múltiplas facetas desta questão. Não se dispõe de dados confiáveis sobre o número de índios na cidade. Como exemplo, podemos citar um caso do Brasil onde as estimativas da população indígena nas cidades variam muito. Estatísticas recentes do Instituto Socioambiental estimam que haja cerca de 350 mil índios (Ricardo, 2000: 15) no Brasil e, segundo Santilli (2000: 15-16), “talvez sejam uns 50 mil os índios urbanos, ou mais...”. No Acre, não há nenhuma estimativa confiável para a urbanização indígena, pode-se verificar casos isolados e as inconstantes viagens realizadas no sentido “cidadealdeia e retornos”, onde é difícil estimar um fato. A dificuldade de estimar a população indígena nas cidades está diretamente relacionada aos critérios usados. Será que o 3º artigo do Estatuto do Índio (Lei N° 6.001, de 19 de dezembro . de 1973) define o índio como “todo indivíduo de origem e ascendência précolombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem da sociedade nacional” é suficiente para definir a identidade do povo Jamináwa? Entretanto, é a Constituição de 1988 que reconhece as “sociedades indígenas” como coletividades situadas entre os índios, enquanto indivíduos e cidadãos brasileiros, e o Estado. Contudo, apesar do índio ser uma identidade legal acionada para obter reconhecimento de direitos específicos, a identidade nas cidades é freqüentemente escamoteada como estratégia adotada para escapar dos preconceitos e estigmas. A identidade indígena nos centros urbanos configura-se nitidamente como uma identidade social contextual. A mesma pessoa pode se considerar indígena em alguns contextos e não em outros, ou apelar a outras identidades genéricas geradas historicamente em situações de contato interétnico, como caboclo, índio civilizado, descendente de índio,

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- As dissertações de Mestrado orientadas pelo Professor Roberto Cardoso de Oliveira, sobre índios na cidade, escritas dentro do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UnB, em 1982, sobre Índios do Alto Rio Negro em Manaus (Figolí, Apurinã na cidade de Manacapuru Lazarin), e Santarém/Maué em Manaus (Romero) referem-se a este aspecto negativo das relações desiguais. O livro do Professor Roberto Cardoso de Oliveira, Urbanização e Tribalismo (1968), sobre os Terêna do Mato Grosso do Sul, aponta para a complexidade da situação do índio na cidade, onde hoje há grandes comunidades indígenas em Campo Grande e Dourados.

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remanescente, índio misturado, etc., constituindo-se em mais um jogo de identidades. A própria política indigenista tem contribuído à migração para as cidades. A ideologia do “sim” visava a uma pressuposta integração rápida dos índios à sociedade nacional, o que favorecia o estabelecimento de áreas reduzidas para os índios e liberação das demais terras para ocupação pelos brancos. Só para enfatizar, pode-se tentar fazer um paralelo entre índios do Acre e de outras regiões do Brasil, onde se notam que diferenciações não tão abruptas, como reafirma João Pacheco de Oliveira (1998: 34), que, em muitas regiões do país, “as áreas estabelecidas pelo SPI – Serviço de Proteção ao Índio (criada em 07/09/1910 esta data está incorreta pelo Marechal Rondon, depois foi extinta, dando lugar à FUNAI) são muito menos uma reserva territorial do que uma reserva de mão-deobra, passando a ser uma característica dessas regiões formas temporárias de trabalho assalariado...”. A falta de terras adequadas para sua sobrevivência é um dos fatores que leva à migração indígena e à busca de trabalho assalariado em fazendas e cidades. Outros pesquisadores que estabelecem essa comparação são (NAMEM et. al. 1999 apud OLIVEIRA, 2001:32, afirmando que:
“a grande maioria dos entrevistados disse que os deslocamentos e a migração para cidades se devem à busca de trabalho e estudo (...) uma vez que as condições de vida nas áreas indígenas são precárias e que não existem escolas de 2° grau nas aldeias, (...) Essa busca de trabalho e estudo vem acompanhada por um sentimento de que a vida tende a melhorar a partir da experiência na cidade” . Além destes fatores, afirmam que “alguns dos índios entrevistados alegaram que o conflito em torno dos processos de demarcação das áreas indígenas é um fator que influencia no deslocamento e na migração para cidade”. Além de motivos pessoais, e a vinda para a cidade para participar no movimento indígena. Entretanto, “as mulheres saem da aldeia e vêm à cidade trabalhar, sobretudo como empregadas domésticas, cozinheiras, garçonetes e babás, (...) quase sempre informalmente” e aceitam baixos salários, “além de desconhecerem os direitos trabalhistas” e serem estigmatizadas como índias.

A Constituição de 1988, ao reconhecer o direito dos índios de se representarem juridicamente, resultou na criação de dezenas de organizações indígenas e numa mobilização política indígena sem precedentes, como o caso da Organização das Comunidades Agro-Extrativistas Jamináwa (OCAEJ). Como conseqüência da sua própria mobilização política, um número crescente de líderes indígenas está migrando para as cidades para participar do movimento indígena, e

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muitos jovens indígenas estão migrando para estudarem e se prepararem para enfrentar a sociedade local e nacional. Apesar de algumas conquistas em nível local para aliviar as condições difíceis que a maioria das populações indígenas enfrenta e tentativas por parte de muitas sociedades indígenas de se organizarem dentro das suas terras, as tendências atuais de se impor políticas neoliberais apontam para um crescente desafio para as sociedades indígenas frente ao agravamento das desigualdades econômicas e sociais. 3.4 O JAMINÁWA AINDA É ÍNDIO? CHEGOU A HORA DE REVITALIZAR
Um povo que perde as raízes vai desvitalizando sua história, partindo suas vidas, debilitando suas forças, tornando-se impotente e vulnerável a estados de dependência e subjugação. Simone Weil enfatiza que a fragmentação é a essência da escravidão. Despedaçar as raízes é fragmentar as pessoas, aliená-las de si próprias. O vazio do desenraizamento as torna inseguras, impotentes e, portanto, controláveis e domináveis. As raízes culturais, no território da história, são, a seiva que dá força, vitalidade e cor à vida das pessoas, tornando-as capazes de desafiar o mundo, criando e recriando a própria história, onde o saber, como evidencia Barthes, confunde-se com o sabor, cheio de vitalidade, de espírito criador. (Miguel A. Lima de Araújo, revista: O Caixote, 2000)

Apesar da garantia Constitucional, conforme Resolução 003/94 e Artigos 210, 231 e 232, de uma educação escolar indígena diferenciada, ou seja, o respeito pelas diferentes línguas e culturas: modo de vida, artesanato, calendário específico, festejos etc., isso nem sempre acontece. Justificam-se pela falta de políticas públicas específicas que busquem diminuir os problemas sociais enfrentados pelas populações indígenas, dentre eles os Jamináwa, ou simplesmente pela falta de conhecimento das pessoas que trabalham com a temática. Outro problema enfrentado pelas comunidades indígenas é que sofrem com a exploração madeireira, pecuária, assentamentos desordenados, grilagem, etc. Além destes fatos, este trabalho mostra que as comunidades estão preocupadas com a perda de alguns aspectos culturais de suas etnias. Segue-se verificando que os jovens e as crianças não estão aprendendo como se fazem as cerimônias religiosas, o artesanato. Além disso, em alguns locais, os Jamináwa não

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estão mais falando a própria língua e os mais velhos estão morrendo. “Sem o conhecimento dos mais experientes, não há como passar o saber para os mais jovens”. Estudos apontam para que seja feito um trabalho de revitalização da cultura e da língua por meio da educação diferenciada, ou seja, uma construção exógena na tentativa de resgate (por parte de indígenas, ONGs e Governo) de um passado cultural. No Acre, sob coordenação da Comissão Pro-Índio do Acre (CPI-AC), há tentativas de um trabalho de revitalização lingüística que tem como objetivo evitar que aconteça com outras etnias o que vem se verificando entre os Jamináwa. A causa desse espanto é que existe uma enorme discrepância entre os significados atribuídos à palavra índio. De um lado, os usos mais gerais e cotidianos, cristalizados no senso comum e na materialização mais óbvia e eficaz, representada pelo sentido recapitulado pelo dicionário, onde "índio" constitui um indicativo de um estado cultural, claramente manifestado pelos termos que em diferentes contextos o podem vir a substituir - silvícola, aborígine, selvagem, primitivo, entre outros. Estes termos estão carregados com claro denotativo de morador das matas, de vinculação com a natureza, de ausência dos benefícios da civilização. A imagem típica expressa por pintores, ilustradores, artistas plásticos, desenhos infantis e chargistas, é sempre de um indivíduo nu, que apenas lê no grande livro da natureza, que se desloca livremente pela floresta e que apenas carrega consigo (ou exibe em seu corpo) marcas de uma cultura exótica e rudimentar, que remete à origem da história da humanidade. De outro lado, por um significado mais técnico dado por mais especializados (antropólogos, indigenistas e missionários), vinculado à ideologia indigenista e que se reflete em usos administrativos e definições legais, onde o "índio" indica um segmento da população brasileira que vivencia alguns fatos de adaptação à sociedade local em decorrência de sua vinculação com tradições pré-colombianas. De acordo com Oliveira (1998), os “Poderes” referem-se aos índios e a questão de suas terras como um mecanismo compensatório àqueles que foram os primeiros moradores do território nacional, sendo que a legislação assegura aos índios uma assistência especial por parte da União, entre essas atribuições salientando-se o reconhecimento e a salvaguarda das terras que se fizerem

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necessárias para a plena reprodução econômica e cultural desses grupos étnicos. No projeto de lei relativa ao Estatuto das Sociedades Indígenas, no Congresso Nacional, estas são conceituadas como "as coletividades que se distinguem entre si e no conjunto da sociedade em virtude de seus vínculos históricos com populações de origem pré-colombiana". Mas o que conta efetivamente é que uma dada coletividade se autoidentifique como indígena, sendo índios todos os indivíduos que são por ela reconhecidos enquanto membros desse grupo étnico (OLIVEIRA, 1999: 126). Para essa conceituação, não têm importância alguma saber se tal população apresenta características "primitivas", se mantém os traços físicos ou a carga genética de populações pré-colombianas, ou se preserva os elementos de sua cultura original. Pois o que se busca é a continuidade de uma auto-definição coletiva. Se o senso comum acredita que é inexorável o fim dos Jamináwa, de certa forma o indigenismo oficial25 também absorveu essa crença, refletindo igualmente sobre o processo de perda e descaracterização cultural. Assim, o indigenismo incorporou o esquema analítico elaborado por Darcy Ribeiro, que situa as etnias indígenas dentro de um processo de integração, podendo ser classificadas em função das fases que atravessam, partindo dos índios isolados, passando por aqueles com contatos intermitentes, depois com contatos permanentes até chegar a condição de índios integrados. Diferentemente do indigenismo oficial, a nova forma de pensar o problema dos Jamináwa rompe com o senso comum e procura dar conta de fenômenos históricos atuais, como os processos de revitalização existentes em muitas sociedades indígenas, a emergência de novos grupos étnicos e possibilitando ainda compreender o surgimento de novas identidades (pan-indígenas, pluriétnicas ou regionais). O Jamináwa, tal como os ocidentais, têm história própria e original, que - O indigenismo oficial, remonta do século XIX, onde se empenhava em estimular a diluição dos povos

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indígenas na população circundante. Com esse objetivo são extintos muitos dos antigos aldeamentos e vilas de índios por todo o país e a maior parte das terras indígenas é definitamente expropriada. Esse longo processo se expressa na prática do "desaparecimento" do índio, conceito vago e ambíguo, que surge no discurso dos contemporâneos, para dar conta da desorganização das sociedades indígenas e justificar a expropriação de suas terras. Impôs o uso da língua portuguesa, proibiu as línguas nativas e até mesmo a "língua geral", obrigou a adoção de sobrenomes portugueses pelas famílias indígenas e forçou a sua distribuição em moradias individuais, derrubando as casas coletivas em que ainda viviam. (Ribeiro,1978).

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inclui guerras e migrações, a redefinição de unidades sócio-culturais, por vezes com a fragmentação e outras com a fusão ou incorporação em novas unidades. Uma vez que estão assim situados, eles passam igualmente pela dinâmica das mudanças que decorrem seja da adaptação a um meio ambiente novo ou modificado, seja da influência ou troca cultural realizada com povos vizinhos, ou ainda por um dinamismo interno àquelas culturas. Outro fato advém da contradição existente no binômio: economia e cultura, quando se refere que, desde 1967, a Lei 5.197, mais conhecida como lei de proteção à fauna, e, depois, em 1998, a Lei 9.605, conhecida como lei de crimes ambientais, regulamentada pelo Decreto 3.179 de 1999, proibiram a comercialização de produtos, como colares, cocás, brincos, bolsas etc., de origem de animais silvestres que, quando utilizados para fins comerciais, é considerado crime ambiental, conforme a Lei 9.605. “A multa é de hum mil reais e apreensão do material, além do acréscimo de R$ 200 por exemplar. Com isso, se uma pessoa estiver com 10 exemplares o valor total da multa será de R$ 3 mil”, destaca a lei. Nessa perspectiva, inexiste qualquer razão para acreditar que o povo Jamináwa constitui algo necessariamente vinculado ao passado, que são apenas as testemunhas de uma fase pretérita da humanidade. São sobreviventes de um processo de evolução que condena parte dos Jamináwa, a um inevitável desaparecimento. A constatação de serem uma parte muito pequena da população brasileira não comprova de modo algum a inexorabilidade de seu fim, pois se encontram hoje em dia em crescimento demográfico, parte de sua cultura está sendo revitalizada, como o seu modo de vida diferenciado e o resgate do uso da língua nativa pelas novas gerações. O destino do povo e cultura Jamináwa, tal qual de qualquer grupo étnico ou mesmo nação, não está escrito previamente em algum lugar. A sua tendência à extinção não foi ou será jamais um processo natural, mas apenas o resultado da compulsão das elites coloniais em instituir a homogeneidade, apagando ou abolindo as diferenças. Buscando excluir a ferro e fogo toda e qualquer alternativa, a integração era descrita como se fosse uma fatalidade, ou até mesmo a única salvação possível, para a qual os próprios Jamináwa deveriam canalizar suas forças e esperanças.

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Ao contrário, para a nova postura indigenista do Acre e dos jamináwa, este é um futuro aberto, algo ainda por fazer, que será construído primordialmente por eles próprios, em função das opções que vierem a adotar em contextos históricos concretos, retomando, adaptando e reatualizando elementos culturais, valores e sentimentos que os caracteriza. Em grande medida, depende também de nós, de nossa capacidade de enfrentar os grandes problemas, sem utilizar os índios como válvula de escape para questões sociais não resolvidas. E, sobretudo, da nossa capacidade de lidar com a diferença, considerando as culturas indígenas como parte dessa diversidade étnica e regional que constitui um patrimônio a zelar, expressando a riqueza e complexidade do Acre e do Brasil.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho apresentou algumas concepções atuais sobre os grupos Jamináwa no espaço urbano, buscando entender o processo de seminomadismo (perambulação), a perda de parte de seu território, suas esperanças e necessidades na cidade e aldeia de modo que contribuam para melhor entendimento da socioculturalidade desta etnia. Vinda dos Jamináwa para os centros urbanos acreanos ficou identificado, como sendo para vender produtos florestais; procurar tratamento de saúde uma vez que as condições de atendimento à saúde nas aldeias tornavam-se precárias. Outras vezes, a vinda dos Jamináwa deu-se pela procura de órgãos de proteção ao índio. Pela proximidade das áreas urbanas das aldeias Jamináwa, se observou um processo de sazonalidade, concentrado em localidades da regional do Baixo Acre. Em Rio Branco e municípios vizinhos se identificou a situação dos grupos Jamináwa que vivem dispersos de suas comunidades, vindo a perambular e mendigar nas ruas. Na regional do Alto Acre, o destaque é para Brasiléia, no Bairro Samaúma que tem uma presença marcante dos jamináwa e na regional do Purus, precisamente em Sena Madureira. O estudo, também, mostrou que grupos Jamináwa, mesmo antes do contato com o não-índio, possuíam a prática de mudança de aldeias e de residências em visitas aos parentes e não tinham pressa de chegar, ou seja, uma característica de seminomadismo, revelado pelas freqüentes mudanças e nas dispersões de famílias, quase sempre motivadas pelas divergências internas. Acostumados ao nomadismo com locais de coleta e formação de aldeias provisórias determinados pelo ritmo das estações de chuva ou seca; bem como a um intricado relacionamento territorial com as demais tribos, não havia como adaptar-se à nova realidade, onde o colonizador começava a romper o equilíbrio social e territorial. Desestruturadas as relações, além de terem de enfrentar o colonizador branco, as comunidades indígenas também se deparam com os

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conflitos entre elas pela posse e/ou exploração da parte do território ainda não conquistado e ocupado. Nos aspectos sócio-culturais e antropológicos da nação jamináwa, identificou-se que eles têm uma atuação nos vários campos sociais compostos pelas redes sociais dos grupos nos quais eles participam (confiança, amizade, respeito à vida) e com quais eles têm contatos. Eles são excelentes caçadores, extrativistas, possuem enorme acervo musical, produzem cerâmicas e cestarias, reproduzem suas tradições, fazem seus ritos, crenças, crendices e festas com utilização de bebidas extraídas da mata. Há um rico folclore de aproximação com a natureza e com a população branca. Todavia, mostrou-se que a representação indígena Jamináwa buscou a participação nos vários campos sociais e descobriram uma nova maneira para alcançarem a integração social junto às populações urbanas. A desestruturação sociocultural contribuiu para agravar os problemas de sobrevivência dos Jamináwa, que sofrem com a nova frente de expansão na Amazônia, ou seja, a agropecuária, o asfaltamento das rodovias federais e internacionais, e por fim, com a morosidade nas tomadas decisões políticas, como o caso de regularização (identificação e demarcação) de suas terras. O contato intenso e imposição dos padrões culturais do branco sobre os jamináwa apontam para uma inevitável troca cultural fazendo com que eles abdiquem das aldeias e passem a viver nos centros urbanos em busca desses novos padrões - os do homem branco. Diante de disso, nota a identidade cultural dos jamináwa sofre uma hibridação, ou seja, ao mesmo tempo em que sofre influência branca, impõe parte de sua culturalidade no seio desta outra sociedade. Entretanto, como a identidade cultural do não-índio tem mais elementos acaba por influenciar a identidade jamináwa que sofre de uma crise, denominada crise social urbana, representada pela competição diária para garantir a sobrevivência, fazendo com que passem a viver um tempo diferente e difícil, fugindo as características de seu modo de vida tradicional. A melhoria do nível de vida dos grupos jamináwa migrantes pode ocorrer com o processo educativo lento e gradual que deve ser iniciado nas aldeias, pois

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favorecerá para a redução sazonalidade, perambulação e vivência nos centros urbanos. Esta educação embora não sendo suficiente, seria um elemento a mais a ser trabalhados nas aldeias identificadas com maior fluxo de saída de jamináwa para os centros urbanos. Sua constância no meio social, ou seja, no lócus habitatus pode se dar através conscientização sobre a cidadania. Os jamináwa que habitam o Acre ficaram sempre em segundo plano diante dos programas desenvolvimentistas governamentais. Pouco são os órgãos governamentais que tem uma preocupação primaz com a questão indígena, tanto em nível local quanto nacional. Podemos encontrar algumas secretarias que desenvolveram trabalhos pontuais e imediatistas nas aldeias, como a Secretaria de Saúde (agentes de saúde), SEATER (agente paraflorestais) e a SEPI que diz ser do índio. A FUNAI somente viciou alguns grupos indígenas, dentre eles os jamináwa, com seu assistencialismo desmesurado e a política do “toma lá, dá cá”, marca do clientelismo presente nos dias de hoje. A imprensa reproduz o discurso do branco ao relatar que os Jamináwa quando decidiram reconquistar sua terra, eles estavam em busca de uma retomada de vida, demonstrando o orgulho de ser índio e alimentando a auto-estima da comunidade, todavia, não almejavam a acumulação de bens dentro dos moldes capitalistas. Entretanto, as reivindicações dos índios por terra e bens não são, resultado de aculturação. Na vontade corajosa de reconquistar a terra, os Jamináwa nos ensinaram diferentes caminhos de luta. Passagens que não se constroem somente com braços e mãos, mas com coragem, com rituais e tradição, articulando passado, presente e futuro, na vontade dos jovens Jamináwa em um futuro melhor. A identidade jamináwa se configurava como uma identidade contextual devido à fase em que viviam e onde as novas identidades emergiam. Atualmente, os jamináwa vivem em uma sociedade mais ampla, sem fronteiras bem definidas. A habilidade de remarcar o conhecimento e as regras aplicáveis, em cada posicionamento, foi importante.

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Por outro lado, os intercâmbios foram proveitosos para as partes, pois o conhecimento adquirido na cidade, (escola e o contato com as autoridades) beneficiavam, também, a comunidade na aldeia. Os povos indígenas devem ser bem assistidos pelas autoridades locais e nacionais nas suas terras para que possa diminuir as necessidades de povo freqüentar a cidade desnecessariamente, contribuindo assim, para a redução do número dos índios residentes

permanentemente no urbano ou em seu entorno. Contudo, se deixa claro que Estado não é a solução para esta problemática, pode até, em alguns momentos, buscar participação efetiva em interesses a seu favor. A respeito dos jamináwa pode se afirmar que caso não haja uma preocupação severa das gerações de hoje para com o futuro das novas gerações, de forma a viabilizar sua continuidade étnica e cultural deste povo é notório que o discurso de compatibilizar o binômio desenvolvimento e preservação ficará restrito aos discursos dos engravatados nas academias.

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1. UFAC e UNI promovem o Seminário Identidade, Territorialidade Indígena e Desenvolvimento Sustentável. (Rio Branco-Ac, 17.09.2002) 2. Investimentos marcam nova era na qualidade de vida dos povos indígenas. (Rio Branco-Ac, publicado em 10 de junho de 2004) 3. Territórios Indígenas: são direitos irreversíveis e não podem ser reduzidos a áreas de conservação (17.09.2002). 4. Índios na cidade [s/d] 5. De volta para casa (Rio Branco – AC, 28/04/2005) 6. Projetos de infra-estrutura (rodovias) e impactos sobre territórios indígenas 7. Instituições ligadas à questão indígena querem que jamináwa que vivem como pedintes retornem para suas comunidades (inserido na monografia, 27/01/2005) 8. Governo busca resolver situação dos índios (inserido na monografia) O RIO BRANCO • Link: http://www.oriobranco.com.br/

Medidas concretizadas Link: http://www.ufacnaimprensa.br/

UFAC NA IMPRENSA •

I Encontro de povos indígenas do Acre e sul do Amazonas.

A GAZETA Link: http://www.agazeta.com.br/ • Os Yaminawa, o "selvagem" arredio ou o índio "desaculturado” (17/09/97)

BLOG DO ALTINO - http://altino.blogspot.com/2006/11/paolino-baldassari • É uma tristeza – Entrevista com o Pe. Paulino Baldassari

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ENTREVISTA: • A casa do índio do Acre: dinamismo, esperança e amor com o próximo.

PEQUENOS DEPOIMENTOS SOBRE OS JAMINÁWA DE OUTROS INDÍGENAS Os depoimentos abaixo de representantes indígenas a respeito dos Jamináwa, sobre a questão da terra e sua perambulação pelas cidades do Acre mostra que as andanças (sazonalidade) dos jamináwa existiam desde os primórdios. Não será a fixação residência na periferia das cidades que mudará o ritmo de vida desse povo, uma vez que na cidade se defrontam com mais precariedades e instabilidades que a vida na aldeia, sem relatar que contribui para perda dos costumes e tradição, para a desestruturação familiar aliada a miscigenação descontrolada e o desaldeamento em busca de um trabalho remunerado nos centros urbanos. Quando nada encontram na cidade, ainda há o surgimento de novos tipos de endemias e doenças, debilitação física em decorrência das más condições de sobrevivência no meio urbano, aliadas as patologias sociais. Portanto, é possível afirmar que a maioria dos impactos já afeta e continuará a afetar ainda mais grupos Jamináwa. A afirmação de que os índios Jamináwa estariam esmolando pelas ruas de cidades acreanas porque não teriam terras onde se abrigar, perde o sentido que tem devidamente reconhecidas e demarcadas as terras do Mamoadate, da Cabeceira do rio Acre e Alto Envira. Em fase de reconhecimento e demarcação estão as terras Jamináwa do Caeté, do Guajará e do São Paulino. “Juntas estas áreas somam mais de meio milhão de hectares. Embora as terras ainda não estejam demarcadas elas são respeitadas pelos seringueiros e fazendeiros que vivem nas proximidades, por isso não há justificativa para que as famílias se afastem delas”, informa Pianta, que frisou: “A única comunidade que tem problemas de pessoas interessadas em suas terras é a do São Paulino, em Sena Madureira. Apesar disso, eles não deixam suas terras sendo os mais produtivos e organizados dentre eles”. Existem seis Terras Indígenas por serem demarcadas no Acre, metades delas Jamináwa. No Brasil são 646, esclarece Manoel Gomes da Silva, o Manoel

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Kaxinawá líder da OPIN. “Estranho um parente dizer que está na cidade porque não tem terra. Se tem terra precisa estar lá botando roçado, construindo casa e se estruturando para garantir a demarcação, não pedindo esmola nas ruas da cidade”, advertiu. Reconhece-se que problemas como este dos Jamináwa tem sua raiz no contato quando a Funai os tirou do trabalho escravo nos seringais para reagrupá-los em comunidades onde recebiam alimentos e tudo o mais. “Quando a Funai deixou de fornecer eles não estavam preparados para sobreviver por conta própria. Os povos que não receberam esse tipo de tratamento estão hoje muito melhor que aqueles que foram tutorados pela Funai”. Líder da Organização das Mulheres Indígenas do Acre e Sul do Amazonas, Letícia Yawanawá esclareceu que: “Preocupadas com essa situação de

mendicância das Jamináwa nós realizamos um levantamento e descobrimos mais de 800 famílias indígenas vivendo só na Capital. Juntas elas formam um grupo de mais de duas mil pessoas, a maioria deles são apurinãs, mas apenas os Jamináwa vivem pedindo esmola, os demais trabalham”. Para o problema de índios dispersos e pedintes, este está longe de ser solucionado, já existem registros há décadas e apenas planejamentos paliativos foram feitos, de forma que acabou provocando a dependência de algumas famílias, que já não conseguem se adaptar aos costumes e tradições das suas comunidades de origem. Tanto em Rio Branco, Assis Brasil, Brasiléia quanto em Sena Madureira, os Jamináwa são rotulados de pedintes e assemelhados com mendigos, vivendo nas piores condições de vida possível. Esse desaldeamento que provocam as constantes perambulações e o ócio são constatados nestas cidades, o que comprometem a integração desses grupos e a ocupação efetiva das Terras Indígenas existentes. Como para qualquer migrante no mundo, é possível ter “os pés” nos dois lugares diferentes, mais é difícil se desenvolver quando não se tem o pé em lugar nenhum, assim é a histórias desses grupos jamináwa.

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Dentro do espírito da Lei 9.610/98, que protege o direito autoral, de antemão, concedemos a autorização para reprodução total ou parcial desta dissertação. Multiplique-a em cópias e faça-a chegar a todos que precisam saber mais sobre os problemas da Amazônia e no que possa contribuir.
Copyright © 2008 by João de Jesus Silva Melo – Mestrado em Desenvolvimento Regional – UFAC.

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