Necessidade básica humana e instrumentos básicos de enfermagem

Comunicação no currículo integrado do curso de graduação de enfermagem da Universidade Estadual Londrina

Communication in the integrated curriculum of the nursing graduation course at the State University of Londrina

Maria Cristina F. Fontes; Iwa Keiko Aida Utyama; Ines Gimenes Rodrigues Docentes do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina, Mestrandas na Área Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP

RESUMO A comunicação é a essência da vida e inerente ao ser humano. O enfermeiro na sua praxis estabelece as relações humanas através dos meios de comunicação. Desta forma, enquanto docentes de uma Instituição do ensino superior, valorizando este instrumento básico de enfermagem, vimos a necessidade de consultar os atores envolvidos no Currículo Integrado do Curso de Graduação de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina e avaliar os tipos e a importância da comunicação utilizados nas disciplinas modulares, nos anos de 2000 e 2001. Observou-se que através da Pedagogia da Problematização os alunos têm utilizado a comunicação como um instrumento de humanização no cuidar. Palavras-chave: comunicação, ensino, enfermagem

ABSTRACT

dê ou receba ordens. Mesmo antes de nascer já estamos transmitindo e recebendo mensagens do mundo. Para que se inicie o processo comunicativo. 1996). É um instrumento que permite a uma pessoa. visitantes da instituição. Mas. education. ou seja. O enfermeiro comunica-se com o paciente e este com ele. Key words: communication. sentimentos e idéias aos outros. It was observed that. Relaciona-se com os amigos e família do paciente. nurses establish human relations. we felt the need to consult the people involved in the Integrated Curriculum of the Nursing Graduation Course at the State University of Londrina. Bittes e Matheus (1997) chegam a afirmar que o existir no mundo só é possível quando nos comunicamos. Ela. receba ou envie informações. Through communication. O atendimento da área específica da assistência só pode ser efetuado por meio da comunicação. são uma parte essencial e central natureza humana. being lecturers in a higher education institution who value this basic nursing instruments. com os membros da equipe e outros funcionários e ainda com inúmeras outras pessoas durante o correr do dia. A comunicação é um ato intrínseco ao existir do ser humano. por sua vez. Desse modo o enfermeiro deverá conhecer o processo de comunicação. recebe a mensagem e decifra-a com o objetivo de entendê-la. by means of Problematization Pedagogy. O processo de comunicação é composto de emissor. o emissor envia uma mensagem. with a view to evaluating the types and the importance of the communication that has been used in the subject matters in 2000 and 2001. Podemos argumentar que os problemas sociais mais prementes dizem respeito às relações entre pessoas e que estas. A comunicação é processo pelo qual uma pessoa transmite pensamentos. é também uma necessidade humana básica.Communication is essential to life and inherent in the human being. entender a outra. aceita. tratando-se assim de um processo recíproco. ensine e aprenda. . the students have used communication as a care humanization instrument. O receptor. a comunicação. sem a qual a existência do ser humano seria impossível (SILVA. Hence. receptor e mensagem. que aceite. nursing 1. Introdução Talvez não seja exagero afirmar-se que a comunicação seja a própria essência do relacionamento humano. desde que é através dela que os seres humanos trocam suas mensagens ou não. e assim afetam reciprocamente suas vidas e a de outros.

Comunicação não se refere somente ao conteúdo. A comunicação é fundamental para o exercício da influência. A comunicação é um dos mais importantes fatores usados para estabelecer um relacionamento terapêutico enfermeiro-paciente (POTTER. sendo assim. 1996). influência de mecanismos inconscientes e limitação do emissor/receptor. Frases mal construídas. causando frustração aos interlocutores. Entretanto. . Desta forma pode-se perceber que. mas também aos sentimentos e emoções que as pessoas podem transmitir em um relacionamento. tem como origem a própria linguagem. A estes aspectos Cianciarullo (1996) dá o nome de barreiras da comunicação. porém ter um significado diferente para cada um deles (CIANCIARULLO. a pressuposição do entendimento. A forma de transmitir uma mensagem sobre a qual temos consciência é a verbal ou lingüistica. ou o uso de termos próprios de uma área de conhecimentos. 1997). se houver humanização. Trevizan (1998). a comunicação engloba todas as formas que uma pessoa utiliza para afetar o outro: verbal (falada e escrita) e não verbal (cinésia. Para Trevizan (1998). Segundo a autora estas são: falta de capacidade de concentração. o contexto é um dos componentes da comunicação. as incomunicações também podem ocorrer em certas situações onde a palavra pode até ser do conhecimento do emissor e do receptor. Stefanelli (1993) acredita que a troca de mensagens entre o emissor e o receptor pode ser alterada ou influenciada dependendo do contexto em que eles estejam vivendo. Mendes (1994) afirma que só haverá real interação entre a equipe de enfermagem e o paciente.1996). se não estivermos atentos a todos os aspectos da comunicação. no âmago da liderança está a capacidade de comunicar. e se refere à linguagem falada ou escrita. e não apenas uma comunicação entre emissor e receptor. para a coordenação das atividades grupais e para efetivação do processo de liderança. É bem provável que todos nós já tenhamos passado por esta experiência. A comunicação é um processo interpessoal que envolve trocas verbais e não verbais de informações e idéias. Para desempenhar este papel vários autores como Galvão (1995). O mesmo acontece quando escrevemos algo. toque e territorialidade) e paraverbal.para que ocorra o processo comunicativo o receptor deve emitir uma resposta ao emissor (CIANCIARULLO. Portanto. ausência de significado comum. o processo comunicativo não ocorrerá. uso de palavras que podem dar múltiplos sentidos. podem dificultar o entendimento de um texto. Um dos principais requisitos do enfermeiro é o gerenciamento da assistência de enfermagem. A linguagem é fortemente influenciada pela cultura. ou será ineficiente. PERRY. e grande parte das confusões e incomunicações que ocorrem entre as pessoas. Mendes (1994) e Silva (1996) falam da importância da liderança e da comunicação.

. trabalho em equipe. Compartilhando e refletindo sobre as idéias dos autores citados. Para análise deste tema. foram consultados docentes e alunos sobre os meios e métodos de comunicação utilizados nas disciplinas modulares. O presente estudo tem como objetivo apresentar como é desenvolvido o aspecto de comunicação nas disciplinas modulares vivenciadas pelos alunos e professores do Curso de graduação de enfermagem da UEL. após 2 anos de estudos. Dentre os conceitos chaves deste Currículo. comunicação. alunos e docentes do Curso de graduação de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Entretanto para o alcance desta meta. criatividade. através de um estudo retrospectivo desenvolvido nos anos de 2000 e 2001. 1996). Para implementação das disciplinas modulares foram delineados os conceitos chaves de comunicação em cada módulo contemplando o papel do enfermeiro na gerência do uso dos vários meios de comunicação. Implica em autoconhecimento e conhecimento do outro. habilidades de comunicação no relacionamento interpessoal e identificação dos meios de comunicação como instrumento de gerência. crítico e reflexivo. como um comportamento apreendido na relação do sujeito. 2. a relação das emoções e sentimentos. consigo mesmo e com os outros. E. Desenvolvimento A) Apresentando o Currículo Integrado do Curso de Enfermagem da UEL O Currículo Integrado foi implantado no ano 2000. o enfermeiro pode aprimorar sua capacidade de comunicar (SILVA. capaz de desempenhar o papel de líder da equipe de trabalho norteando a comunicação como um instrumento crucial no processo de liderança. como desempenhos.O ensino e o desenvolvimento da habilidade de comunicação mostra que o enfermeiro possui pouco conhecimento sobre o assunto. enfermeiros assistenciais. sentiram a necessidade de formar um profissional. discernimento e outros. pode-se citar as habilidade afetivas. durante a construção coletiva do Currículo Integrado de Enfermagem em 1999. o Projeto Político Pedagógico do Currículo Integrado tem-se delineado como um dos papéis do aluno a participar ativamente do diálogo entre professores e seus pares com o objetivo de transformarse e transformar a realidade. dos módulos I à VI. respeito mútuo. limitações e possibilidades. não os percebendo nas suas interações com o paciente. equilíbrio emocional. discussões e reflexões coletivas envolvendo docentes e alunos do Curso de Enfermagem da UEL e enfermeiros dos serviços de saúde do município de Londrina. com esforço e estudos. Todavia..

através de sucessivas aproximações. desencadeando um processo de ação-refleçãoação (DAVINI. 38% por sinais . ensino. falada. este novo currículo articula. seis já foram construídos e implementados e são assim denominados: Módulo I: A Universidade e o Curso de Enfermagem. 1979) no exercício de suas atividades a enfermagem estabelece relações humanas com o paciente e equipe multidisciplinar. as atitudes e habilidades nos domínios cognitivos. o papel do professor é o de orientador da aprendizagem. Neste Currículo. a qual permite ao professor identificar as diferenças individuais entre os alunos. através da integração de conteúdos. comunicação e trabalhos em equipe (UTYAMA. e abordagem de temas transversais como ética . A pedagogia adotada é a problematização. MARTINS. audição e tato.Doença. possibilitando o acompanhamento individualizado. Módulo VI: Saúde do Adulto I. Estas relações são efetivadas através da comunicação escrita. serviço e comunidade.Dentro da flexibilização curricular proposta pela nova LDB. O papel do aluno é a busca pela sua aprendizagem. 1984). entre o teórico e o prático. sinais corporais. B) Desenvolvimento da comunicação nos Módulos I à VI Como a enfermagem é gente que cuida de gente (HORTA. exercendo a função de orientador do processo. A Pedagogia da Problematização permite também que o aluno desenvolva conhecimento partindo da observação da realidade. prática e teoria. Módulo II: Processo Saúde . de forma dinâmica o ciclo básico e clínico. Módulo V: Introdução à Saúde do Adulto. Destes. Consequentemente modifica a prática. O conteúdo tem como principal função contemplar os conhecimentos. afetivo e psicomotor (UTYAMA. organizando sistematicamente uma série gradual e encadeada de situações observadas numa realidade. Módulo IV: Avaliação do Estado de Saúde do Indivíduo. 1999). 1999). propiciando uma relação harmônica entre o saber e o fazer. MARTINS. A comunicação não se caracteriza apenas na palavra verbalizada. estudos mostram que apenas 7 % dos pensamentos são transmitidos por palavras. O Currículo é composto por treze módulos. Módulo III: Processo Saúde Doença a partir do núcleo familiar.

com sucessivas aproximações com objeto tem possibilitado uma aprendizagem significativa da comunicação verbal. e nas relações de ajuda e nas relações de trabalho multiprofissional. Partindo do senso comum. Nos módulos de I à VI. estudos de caso. a comunicação desenvolvida através da pedagogia da problematização. caminha para formação de um profissional que valorize o cuidar humanizado. decifrar e perceber o significado que o outro emite. Em cada atividade programada há uma intencionalidade para que o aluno desenvolva as operações mentais de representação. não governamentais e núcleos familiares. Estas atividades são exercitadas pelos alunos por meio de relatórios escritos. teorização e aplicação. não verbal e paraverbal. O Currículo Integrado da UEL. perceber. T. . Valorizando este instrumento básico de enfermagem. para intervir adequadamente na solução de problemas. 3. no Currículo Integrado a comunicação permeia em todos os módulos. 1996. São Paulo: Editora Atheneu. dialogar e prepara para formar um aluno bastante crítico das suas ações. transformando a si mesmo e ser um agente transformador do cuidar. relação e ação. 4. olhar triste) (SILVA.1996). Esta metodologia de ensino tem oportunizado aos alunos a utilização da comunicação como um instrumento de humanização no cuidar vindo a corroborar com as reflexões de Mendes (1994). Portanto o profissional de enfermagem precisa ter a sensibilidade de decodificar. de saber ouvir. resumos de livros e artigos de enfermagem. I. a comunicação verbal e não verbal são trabalhadas de uma forma dinâmica entre docentes e discente. que desencadeou a ação-reflexão-ação. visitas as organizações governamentais. Considerações finais Na avaliação dos docentes e alunos que vivenciaram os módulos. tocar. Instrumentos básicos para cuidar – Um desafio para a qualidade de assistência. apresentações orais. atividades lúdicas. e no cuidar do indivíduo. família e comunidade.paralinguisticos/entonação de voz e 55% pelos sinais do corpo (fisionomia tensa. Referências bibliográficas CIANCIARULLO.

São Paulo: Sarvier. Comunicação tem remédio – A comunicação nas relações interpessoais em saúde. M. São Paulo. 4. 1993. M. M. I. 1979 MENDES. P. J. São Paulo: Editora Gente.EDUSP. Brasília: Ministério da Saúde. Tese (Doutorado). Construção e validação de um programa sobre comunicação não verbal para enfermeiros. M. Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. P. São Paulo: Guanabara Koogan.USP Avenida Bandeirantes.. 1993. MARTINS. Olho Mágico. n. A. K. São Paulo: Robe Editorial. UTYAMA. A. A. Fundamentos de enfermagem – Conceitos. LDB e diretrizes curriculares: aplicação no Currículo integrado do Curso de Enfermagem da UEL. Capacitação pedagógica para instrutor/supervisor . Do processo de aprender ao ensinar.G.C. I. São Paulo: EPU. p. J. 1994. PERRY. SILVA. 2.SP . SILVA. T. Enfoque humanístico à comunicação em enfermagem.5.20. M. processos e Prática. Processo de enfermagem. 3900 14040-902 Ribeirão Preto .ed. P.. 1984. A. 27-58 HORTA. W. 2 ed.1999 © 2012 Escola de Enfermagem de Riberão Preto . v.ed. J. Comunicação com o paciente: teoria e ensino. 1997 . 1996 STEFANELLI.área de saúde. C. out. POTTER.DAVINI.

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